JOHN STOTT

Traduzido por
MEIRE PORTES SANTOS

ultimato
V IÇ O SA IM G

O DISCÍPULO RADICAL
Categoria: Vida cristõ / Espiritualidade / Liderança

Copyright © J . R. W. Stott 2010
Publicado originalmente por Inter-Varsity Press,
N ottingham , Reino Unido
Prim eira edição: M arço de 2011
Coordenação editorial: Bernadete Ribeiro
Tradução: Meire Portes Santos
Revisão: Paula Mazzini Mendes
Diagram ação: Editora U ltim ato
Capa: A na C láudia Nunes

Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação e
Classificação d a Biblioteca Central da U F V
Stott, John W. R., 1921-

S888d

20H

O discípulo radical / Joh n W. R. S t o t t ; traduzido por Meire Portes
Santos. — Viçosa, M G : U ltim ato, 2011.
120p.; 21cm .
Título original: The Radical Disciple
IS B N 978-85-7779-044-9
1. V ida cristã. I. Título.
C D D 22. ed. 248.4

P u b l ic a d o
E d it o r a U

no

B r a s il

l t im a t o

com

a u t o r iz a ç ã o

e c o m t o d o s o s d ir e it o s r e s e r v a d o s

Lt d a .

Caixa postal 43
36570-000 Viçosa, MG
Telefone: 31 3611-8500 — Fax: 31 3891-1557
w w w .ultimato .com.br

&

FSC
m m fSC.org
MISTO

Proveniente de
fontes responsáveis

FSC® C100558

A m arca F S C é a garantia de que a m adeira utilizada na
fabricação d o papel deste livro provém de florestas que
foram gerenciadas de m aneira am bientalm cnte correta,
socialm ente ju sta c econ om icam ente viável, além de
outras fontes de origem controlada.

SUMÁRIO

Prefácio: Discípulos ou cristãos?

9

1. Inconformismo

13

2. Semelhança com Cristo

23

3. Maturidade

33

4. Cuidado com a criação

43

5. Simplicidade

53

6. Equilíbrio

71

7. Dependência

85

8. Morte

95

Conclusão

113

Posfácio: Adeus!

115

Notas

117

Todos os direitos autorais deste livro foram cedidos de forma
irrevocável à Langham Literature (antiga Evangelical Literature Trust).
A Langham Literature é um programa da Langham Partnership
International (LPI), fundada por John Stott. Chris Wright é o diretor
internacional.
A Langham Literature distribui livros evangélicos para pastores,
estudantes de teologia e bibliotecas de seminários em quase todo o
m undo, e patrocina a escrita e a publicação de literatura cristã em
muitas línguas regionais.
Para maiores informações sobre a Langham Literature e outros
programas da LPI, visite www.langhampartnership.org.
Nos Estados Unidos, o membro nacional da Langham Partnership
International é o John Stott Ministries.
Visite o site do JSM : www.johnstott.org.

AGRADECIMENTOS

C o m o a p r o d u ç ã o d este livro teve in íc io , c o n tin u id a d e
e té r m in o so b o te to h o s p it a le ir o d a U n iv e r s id a d e de
S a in t B arn abas, o prim eiro agradecim en to é para o corp o
de fu n cion ários, para o diretor, H ow ard Such, e su a esposa,
Lynne Su ch , para os residentes e pacientes, e para a equipe
de en ferm agem , c u id ad o s, ad m in istração , alim en tação e
lim peza, po is ju n to s criaram u m a rica co m u n id ad e cristã de
culto e com u n h ão — u m contexto ad eq u ad o à reflexão e à
escrita. Q u a n d o po r vezes preocupei-m e com tais atividades,
devo ter parecido u m a criatura an tissocial; m as eles compreen deram e m e perdoaram .
O u tra com u n id ad e à q u al sou devedor é a Igreja St. Jo h n ,
Felbridge; ao m inistro Step h en Bow en, su a esposa, M andy,
e aos ad m in istrad o res d a igreja, A n n e B u tler e M alcolm
Francis. Q u a n d o m e sen tia forte o suficiente, eles providen­
ciavam u m a m aneira de me tran sportar para lá e m e trazer de
volta, aos d o m in gos. Eles sab iam que um livro estava sen do
p reparad o e m e incentivaram du ran te o processo.
A precio a h abilidad e editorial de D avid Ston e, assistido
p o r E lean o r Trotter, apesar de outras pessoas terem contri­
b u íd o com o texto, com o Jo h n W yatt e Sh eila M oore, que

8

[ 0 DISCÍPULO RADICAL

en riqueceram o capítulo 7 com suas experiências pessoais.
Peter H arris e C h ris W right m e auxiliaram com o capítulo 4,
e G race L am m e deu inform ações vitais sobre o m inistério
de seu falecido m arido (capítulo 5).
Receber a visita quinzenal de m in h as sobrin h as C arolin e
e Sarah e a freqüente visita de m eu am igo Phillip H erbert
tem sid o u m en corajam en to regular. O u tros trabalharam
nos bastidores, com o Jo h n Sm ith , p o r exem plo, que tem
pacien tem en te feito pesqu isas n a internet para m im .
Por último, mas não m enos importante, Francês W hitehead
tem con seguido fazer visitas sem an ais e lidar com a enorm e
qu an tid ad e de e-mails, que ela adm in istra com u m a habili'
dade extraordinária, ju n tam en te com este m anuscrito.
Jo h n S t o t t

Páscoa de 2 0 0 9

PREFÁCIO
DISCÍPULOS OU CRISTÃOS?

U e ixe -m e explicar e justificar o título deste livro, O Discípulo
Radical.
E m prim eiro lugar, por qu e “d iscíp u lo ” ?
Para m uitos, descobrir que, n o N ovo T estam en to, os se­
guidores de Jesu s C risto são ch am ad os de “cristãos” apenas
três vezes, é u m a gran de surpresa.
A ocorrên cia m ais significativa é o com en tário de L ucas
explican do que foi em A n tio q u ia d a Síria que os discípu los
de Je su s fo ram ch am ad o s de “ cristão s” p ela p rim eira vez
.(A t 11.26). A n tio q u ia era con h ecida com o u m a com u n idade
internacional. C o n seq u en tem en te, a igreja tam b ém era um a
com u n id ad e in tern acion al e seus m em bros eram ad eq u ad a­
m ente cham ad os de “cristãos” para in dicar que as diferenças
étnicas eram su perad as p o r su a lealdade com u m a C risto.
A s outras duas ocorrências d a palavra “cristão” evidenciam
que seu u so estava fican do m ais com um . A ssim , q u an d o Pau­
lo, que estava sen do ju lgad o diante d o rei A gripa, o d esafiou
diretam ente, A gripa clam ou: “ Por p o u co me persu ad es a me
fazer cristão” (At 26.28).
D epois, o ap óstolo Pedro, cuja prim eira carta foi escrita
em um contexto de perseguição crescente, achou necessário

0 DISCÍPULO RADICAL

fazer distinção entre aqueles que sofriam “com o crim inosos” e
aqueles que sofriam “com o cristãos” (lP e 4.15-16), isto é, por
pertencerem a C risto. A m b as as palavras (cristão e discípulo)
im plicam relacio n am en to com Je su s. Porém , “ d isc íp u lo ”
talvez seja m ais forte, pois inevitavelm ente im plica relacionam en to entre aluno e professor. D uran te os três an os de
m inistério público, os doze foram discípu los antes de serem
apóstolos e, com o discípulos, estavam sob a instrução de seu
M estre e Senhor.
Talvez, de algum a form a, deveríam os ter co n tin u ad o a
usar a palavra “discípu lo” n os séculos seguintes, para que os
cristãos fossem discípulos de Jesus de m aneira consciente e le­
vassem a sério a responsabilidacie de estar “sob discip lin a” .
M eu interesse com este livro é que nós, que afirm am os
ser discípu los do Sen h or Jesus, n ão o provoquem os a dizer:
“Por que m e cham ais Senh or, Senhor, e não fazeis o que vos
m an d o?” (Lc 6.46). O discipu lado genu íno é um discipu lado
sincero — e é daí que surge a próxim a palavra.
E m segundo lugar, por que “radical”? Sen do esse o adjetivo
u sado para descrever n osso discipulado, é im portante indicar
o sen tido n o q u al o utilizo.
A palavra “radical” é derivada do latim radix, raiz. O rigi­
nalm ente, parece ter sid o utilizada com o rótulo político para
pessoas com o W illiam C obett, político do século 19, e seus
p o n to s de vista extrem os, liberais e reform istas. A ssim , vem
daí o uso geral para se referir àqueles cujas op in iões vão às
raízes e que são extrem os em seu com prom isso.
A gora estam os prontos para unir o substantivo e o adjetivo
e fazer a terceira pergunta: por que “discípulo radical”? A res­
posta é óbvia. Existem diferentes níveis de com prom etim ento
n a com u n idade cristã. O próprio Jesus ilustra isso ao explicar

PREFÁCIO

o que acon teceu com as sem entes qu e descreve n a Parábola
d o Sem ead o r.1A diferença entre as sem entes está n o tipo de
solo que as recebeu. A respeito d a sem ente sem ead a em solo
rochoso, Jesu s diz: “N ã o tin h a raiz” .
G eralm ente evitam os o discipulado radical sen do seletivos:
escolh em os as áreas nas quais o com pro m isso n os convém
e ficam os distantes d aqu elas nas q u ais n osso envolvim ento
n os custará m uito. Porém, p o r Jesu s ser Sen h or, n ão tem os
o direito de escolher as áreas nas quais n os su b m etem os à
su a au toridade.
Jesus é digno de receber
Honra e poder divino
E bênçãos mais que não podemos dar
Sejam, Senhor, para sempre tuas.2
A ssim , m eu propósito neste livro é considerar oito caracte­
rísticas d o discip u lad o cristão que, apesar de serem frequen ­
tem ente negligenciadas, m erecem ser levadas a sério.

Capítulo 1

INCONFORMISMO

A p rim eira

característica q u e q u ero c o n sid e rar so b re o

discípu lo radical é o “ in co n fo rm ism o ” . Deixe-m e explicar.
A igreja tem u m a du p la resp o n sab ilid ad e em relação ao
m u n d o ao seu redor. Por u m lado, devem os viver, servir
e testem u n h ar n o m u n d o. Por outro, devem os evitar nos
con tam in ar p o r ele. A ssim , n ão devem os preservar n o ssa
san tidade fu gin d o d o m u n d o, n em sacrificá-la n os confor­
m an d o a ele.
T anto o escapism o q u an to o con form ism o são proibid os
para nós. E sse é u m d o s tem as prin cipais d a Bíblia, ou seja,
D eu s está con vocando um povo para si e o d esafian d o a ser
diferente de todos. “Sejam san to s” , diz ele repetidam ente ao
seu povo, “po rq u e eu sou sa n to ” (Lv 11.45; lP e 1.15-16).

N ão devemos preservar nossa santidade
fugindo do mundo, nem sacrificá-la nos
conformando a ele

0 DISCÍPULO RADICAL

E sse tem a fu n d am en tal se repete nas q u atro principais
seções d a Bíblia: a lei, os profetas, o en sin o de Jesu s e o
en sin o d o s apóstolos. D arei u m exem plo de cada. Primeiro,
a lei. D eu s diz ao seu povo p o r m eio de M oisés:
N ão fareis segundo as obras da terra do Egito, em que
habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã,
para a qual eu vos levo, nem andareis nos seus estatutos. Fa­
reis segundo os meus juízos e os meus estatutos guardareis,
para andardes neles. Eu sou o Senhor, vosso Deus.
Levíticos 18.3-4
Sem elhantem ente, a crítica de D eu s ao seu povo por m eio
do profeta Ezequiel é que “n ão an dastes nos m eus estatutos,
nem executastes os m eus juízos; antes, fizestes segundo os
juízos das nações qu e estão em redor de v ó s” (Ez 11.12).
O m esm o acontece n o N ovo T estam en to. N o Serm ão
do M on te, Jesu s fala d o s h ipócritas e pagãos e acrescenta:
“N ã o vos assem elheis, pois, a eles” (M t 6.8). Finalm ente, o
ap ó stolo Paulo escreve aos rom an os: “N ão vos conform eis
com este século, m as transform ai-vos pela renovação da vossa
m en te” (R m 12.2).
A q u i está o ch am ad o de D eu s para um d iscipu lado radi­
cal, para um in con form ism o radical à cultura circundante.
O convite para desenvolver u m a con tracultura cristã, para
u m engajar-se sem com prometer-se.
A ssim , quais as tendências con tem porân eas que am ea­
çam n os tragar, às quais devem os resistir? C on sid erarem os
quatro. A prim eira delas é o desafio d o pluralismo. O plura­
lism o afirm a que tod o “ ism o ” tem seu valor e m erece n osso
respeito. Portanto, ele rejeita as alegações cristãs de perfeição
e sin gularidade, e en tende a tentativa de converter q u alqu er

INCONFORMISMO

pessoa (que dirá todas) ao que ju lga ser sim plesm en te “ n ossa
o p in iã o ” , o u seja, u m a atitude de arrogância total.
C o m o então deveríam os resp o n d er ao espírito de plu­
ralism o? C o m m u ita h u m ild ad e e sem q u alqu er in dício de
su perio ridade pessoal. Porém, devem os con tin u ar a afirm ar
a im parid ade e perfeição de Je su s C risto. Pois ele é sin gular
em sua en carn ação (o único D eu s hom em ); sin gular em sua
expiação (som en te ele m orreu pelos p ecad os d o m u n d o); e
sin gular em su a ressurreição (som en te ele venceu a m orte).
E sen do que em n en h u m a ou tra pessoa, a n ão ser em Jesu s
de N azaré, D eu s se torn o u h u m an o (em seu nascim ento),
carregou os n o sso s p e c ad o s (em su a m orte), e triu n fo u
sobre a m orte (em su a ressurreição), ele é sin gu larm en te
com petente para salvar os pecadores. N in gu ém m ais tem
suas qualificações. A ssim , p o d em o s falar sobre A lexan dre,
o grande, C h arles, o grande, N ap o leão , o gran de, m as não
Jesu s, o grande. Ele n ão é o gran de — ele é o Ú n ic o . N ão
existe n in guém com o ele. Ele n ão tem rival n em sucessor.
A segu n da tendência secular m u ito d ifu n d id a e a qual
os d iscípu los cristãos devem resistir é o materialismo. O materialism o n ão é sim plesm en te u m a aceitação d a realidade
d o m u n d o m aterial. Se assim fosse, tod o s os cristãos seriam
m aterialistas, po is acreditam os que D eu s criou o m u n d o
m aterial e dispon ibilizou suas b ên ção s a nós. D eu s declarou
a ordem m aterial tam b ém po r m eio da en carn ação e ressur­
reição d o seu Filho, n a água d o b atism o e n o p ão e vinh o da
S a n ta C o m u n h ão . N ã o é de se adm irar que W illiam Tem ple
tenh a descrito o cristianism o com o a religião m ais m aterial
de todas. Porém , ela n ão é m aterialista.
Pois m aterialism o é u m a preocu pação com coisas m ate­
riais, que p o d em abafar a n o ssa vida espiritual. N o entanto,

0 DISCÍPULO RADICAL

Jesu s n os diz para n ão arm azenar tesouros n a terra e nos
adverte con tra a avareza. O m esm o faz o apóstolo Paulo, nos
im pelin do a desenvolver u m estilo de vida de sim plicidade,
gen erosidad e e con tentam en to, extraindo tal p ad rão de sua
próp ria experiência de ter ap ren d id o a estar contente em
q u aisq u er circunstâncias (Fp 4.11).
Paulo acrescenta que “gran de fonte de lucro é a piedade
com o con ten tam en to” ( lT m 6.6) e con tinua, explican do
qu e “n ad a tem os trazido para o m u n d o, n em coisa algum a
po dem o s levar dele” . Talvez, de form a consciente, ele estivesse
repetindo o que diz Jó : “N u saí d o ventre de m in h a m ãe e
n u voltarei” (Jó 1.21). E m ou tras palavras, a vida n a terra
é u m a breve peregrinação entre dois m om en tos de nudez.
A ssim , seriam o s sáb io s se v iajásse m o s com p o u c a carga.
N a d a levarem os con osco . (D irei m ais sobre m aterialism o
n o capítulo 5.)
A terceira ten d ên cia co n te m p o rân ea qu e n os am eaça
e à q u al não devem os n os render é o espírito pérfid o do
relativismo ético.
Todos os padrões morais que nos cercam estão se desfazendo.
Isso é verdade especialm ente n o O ciden te. A s p essoas se
con fu n d em diante da existência de qu aisqu er absolutos. O
relativism o perm eou a cultura e tem se infiltrado na igreja.
E m n en h u m a esfera esse relativism o é m ais óbvio do que
n a d a ética sexual e n a revolução sexual vivenciada desde os
an os 60. Pelo m en os on de a ética judaico-cristã era levada
a sério, o casam en to era universalm ente aceito com o um a
u n ião m on ogâm ica, heterossexual, am o ro sa e vitalícia, e
com o o ú n ico contexto d ad o p o r D eu s para a in tim idade
sexual. A tualm en te, porém , m esm o em algum as igrejas, a
relação sexual fora d o casam en to é largam ente praticada,

INCONFORMISMO

d isp en san d o o com pro m isso essencial com u m casam en to
a u tê n tic o . A lé m d is so , r e la c io n a m e n to s e n tre p e s so a s
d o m esm o sexo são vistos com o alternativas legítim as ao
casam en to heterossexual.
Para com bater tais tendências, Jesu s C risto cham a seus
discípulos à obediên cia e a se con form arem aos seus padrões.
A lgu n s dizem que Jesu s n ão falou a respeito disso. M as ele
o fez. C ito u G ên esis 1.27 (“h o m em e m u lh er os crio u ”) e
G ên esis 2.2 4 (“deixa o h o m em pai e m ãe e se une à su a m u ­
lher, tornando-se os dois u m a só carn e”), d an d o a defin ição
bíblica de casam ento. E dep ois de citar esses versículos, Jesu s
deu-lhes seu pró p rio en d o sso pessoal, dizendo: “o que D eus
aju n to u n ão o separe o h o m em ” (M t 19.4-6).
E sse po n to de vista foi avaliado criticam ente pelo distinto
filósofo m oral e social, o am erican o A b rah am E d el (1 9 0 8 2007), cujo prin cip al livro chama-se Ethical Judgment.1
“A m o ralid ad e é b asicam en te a rb itrária” , escreve ele,
com p lem en tan d o em versos livres:
Tudo
Tudo
Tudo
Tudo

depende
depende
depende
depende

de
de
do
de

onde você está,
quem você é,
que você sente,
como você se sente.

Tudo depende de como você foi educado,
Tudo depende do que é admirado,
O que é correto hoje será errado amanhã,
Alegria na França, lamento na Inglaterra.
Tudo depende do seu ponto de vista,
Austrália ou Tombuctu,
Em Roma faça como os romanos.
Se os gostos acabam coincidindo
Então você tem moralidade.

8

0 DISCÍPULO RADICAL

Mas onde existem tendências conflitantes,
Tudo depende, tudo depende...
O s d iscíp u lo s cristãos rad icais devem d isco rd ar disso.
C e rtam e n te n ão devem os ser totalm en te inflexíveis em nos­
sas decisões éticas, m as devem os procurar, com sensibilidade,
aplicar prin cípios bíblicos em cada situação. O sen h orio de
Jesu s C risto é fu n d am en tal para o com p o rtam en to cristão.
“Je su s é S e n h o r” con tin u a sen do a base da n ossa vida.
A ssim , a pergun ta fu n d am en tal para a igreja é: Q u em é
Senhor? Será que a igreja exerce o senhorio sobre Jesus Cristo,
tornando-se livre para alterar e m an ipu lar ao aceitar o que
gosta e rejeitar o que n ão gosta? O u Jesu s C risto é o n osso
M estre e Senh or, de m an eira que crem os nele e obedecem os
ao seu ensinam ento?
Ele nos diz tam bém : “Por que m e cham ais Senhor, Senhor,
e n ão fazeis o que vos m an d o ?” (Lc 6.46). C o n fessar Jesus
com o Senh or, m as n ão obedecer a ele, é com o con struir a
vida sobre a areia. N ovam ente: “A q u ele que tem os m eus
m an d am en to s e os guarda, esse é o que me a m a” , disse ele
no C en ácu lo (Jo 14.21).
A q u i estão duas culturas e dois sistem as de valores; dois
p ad rõ es e dois estilos de vida. Por um lado, há o estilo do
m u n d o ao n osso redor; p o r outro, a von tad e revelada, b o a e
agradável de D eus. D iscípulos radicais têm pouca dificuldade
de fazer suas escolhas.
C h egam o s agora à q u arta tendência, que é o desafio do
narcisísmo.

N arciso, n a m itologia grega, foi u m jovem que viu seu
reflexo em u m lago, apaixonou-se p o r su a próp ria im agem ,
caiu den tro d ’água e se afogou. A ssim , “n arcisism o” é um
am o r excessivo, u m a adm iração d esm edid a p o r si m esm o.

INCONFORMISMO

N o s an os 70, o n arcisism o se expressou p o r m eio do
M ovimento Potencial H um ano, que enfatizava a necessidade
d a au torrealização. N o s an o s 8 0 e 90, o M o v im en to da
N ova E ra im itou o M ovim ento Potencial H u m an o . Shirley
M acL ain e p o d e ser co n sid e rad a sím b o lo d o m ovim en to,
pois era cega de paixão p o r si m esm a. D e acordo com ela, a
b o a n otícia é essa:
Sei que existo; portanto, eu sou.
Sei que a força divina existe; portanto, ela é.
Já que sou parte dessa força, sou o que sou.
Parece u m a p aró d ia delib erada d a revelação qu e D eu s faz
de si m esm o a M oisés: “E u so u o que so u ” (Ex 3.14).
A ssim , o M ovim ento d a N ova Era nos convida a olhar para
dentro de n ós m esm os e nos explorar, po is a so lu ção para os
n ossos problem as está em n osso interior. N ão precisam os que
u m salvador surja em algum lugar e venha até n ós; p o d em o s
ser o n osso próp rio salvador.
Infelizmente, um a parte desse ensinam ento tem perm eado
a igreja e há cristãos recom en dan do que devem os n ão som en ­
te am ar a D eu s e ao próxim o, m as tam b ém a n ós m esm os.
N o en tan to, isso é um erro po r três razões. E m prim eiro
lugar, Jesu s falou d o “prim eiro e gran de m an d am en to ” e do
“seg u n d o ” , m as n ão m en cion ou u m terceiro. E m segundo
lugar, am o r próp rio é u m d o s sin ais dos ú ltim os tem pos
(2 T m 3.2). E m terceiro lugar, o significado d o am or ágape
é o sacrifício próp rio em benefício de outros. Sacrificar-se
a serviço de si m esm o é, n itid am en te, u m con trassen so.
E n tão, q u al deve ser a atitude para conosco? U m m isto de
au toafirm ação e au ton egação — afirm ar tu do em n ós que

1

20

O DISCÍPULO RADICAL

vem d a n o ssa criação e reden ção, e negar tu do que pode ser
ligado à queda.
É aliviador se livrar de u m a preocu pação do en tia consigo
m esm o e voltar-se para os saudáveis m an dam en to s de D eus
(in corp orad os e reforçados p o r Jesus): am ar a D eu s de tod o
o coração e ao n osso próxim o com o a nós m esm os. Pois a
in tenção de D eu s para a su a igreja é qu e ela seja um a com u ­
n idade de am or, de ado ração e de serviço.
T od o s sabem que o am o r é a m aior virtude do m undo, e
os cristãos sabem o m otivo: é po rqu e D eus é am or.
O cortesão espan h ol d o século 13, R aim u n d o Lúlio (m is­
sio n ário entre os m u çu lm an os n o N o rte da Á frica), escreveu
que “aquele que n ão am a, n ão vive”. Pois viver é amar, e sem
am or a p erso n alid ad e h u m an a se desintegra. É p o r isso que
todos procu ram autênticos relacion am en tos de amor.
A té agora, co n sid e ram o s q u atro ten d ên cias seculares
que am eaçam su b jugar a com u n id ad e cristã. Em face dessas
tendências, so m os cham ad os a u m in con form ism o radical,
n ão a u m con fo rm ism o m edíocre. D ian te d o desafio do
pluralismo, devem os ser u m a com u n id ad e de verdade, decla­
ran d o a sin gu laridade de Jesu s C risto. D iante do desafio do
materialismo, devem os ser u m a com u n id ad e de sim plicidade,
con sid eran d o que so m os peregrinos aqui. D iante do desafio
do relatívismo, devem os ser um a com u n id ad e de obediência.
D ian te do desafio d o narcisismo, devem os ser u m a com u n i­
dade de am or.
N ã o devem os ser co m o can iço s ag itad o s pelo ven to,
dobran do-nos diante das rajadas d a op in ião pública; m as tão
inabaláveis q u an to ped ras em u m a correnteza. N ã o devem os
ser com o peixes qu e flu tu am n a corrente do rio (com o diz
M alcolm M uggeridge, “som ente peixes m ortos n ad am com

INCONFORMISMO

a corrente”); devem os n ad ar con tra ela, con tra a ten d ên cia
cultural. N ã o devem os ser com o cam aleões, que m u d am de
cor de acordo com o am biente; devem os n os o p o r de form a
visível ao am bien te em qu e estam os.

N ão devemos ser como caniços agitados pelo
vento, dobrando-nos diante das rajadas da
opinião pública, mas tão inabaláveis quanto
pedras em uma correnteza

E n tão, a que os cristãos devem se assem elhar, se n ão devem os ser com o caniços, peixes m ortos ou cam aleões? Será
qu e a Palavra de D eu s é totalm ente negativa, n os dizendo
sim plesm en te para n ão serm os m o ld ad o s à form a daqueles
qu e estão n o m u n d o ao n osso redor? N ão . E la é positiva. D e­
vem os ser com o C risto, “con form es à im agem de seu F ilh o ”
(R m 8.29). E isso n os leva ao segu n do capítulo.

Capítulo 2

SEMELHANÇA COM CRISTO

l i m abril de 2007, com em orei m eu 86" aniversário e u sei a
o p o rtu n id ad e para an un ciar m in h a ap o sen tad o ria d o mínistério público ativo. A pesar de recusar todos os com prom issos
subsequen tes, já tinh a em m in ha agenda um convite para
falar na C on ferên cia de Kesw ick,1em ju lh o daquele an o. Este
capítulo é b asead o n o texto d aqu ele últim o serm ão.
Lem bro-m e claram ente da pergunta que m ais incom odava
m eus am igos e eu q u an d o éram os jovens: qual é o prop ósito
de D eus para o seu povo? O que vem dep ois de n os conver­
term os?
É claro qu e con hecíam os a fam o sa declaração d o Breve
C a te c ism o de W estm in ster, de q u e o “fim p rin cip al do
h o m em é glorificar a D eus e gozá-lo para sem p re” . E nos
en tretín ham os com u m a declaração ain d a m ais breve: “A m e
a D eus, am e o seu p róx im o” .
Porém, n en h u m a delas parecia ser totalm ente satisfatória.
A ssim , gostaria de com partilhar o que tem feito m in ha m ente
d escan sar ao m e aproxim ar d o fim cie m in h a peregrinação
pela terra. É o seguinte: D eu s quer que o seu povo se torne
com o C risto, pois sem elhança com C risto é a vontade de
D eus para o povo de D eus.

0 DISCÍPULO RADICAL

Inicialm ente, apresentarei u m fu n d am en to bíblico para
o convite à sem elh ança com C risto ; depois, darei alguns
exem plos d o N ovo T estam en to ; e finalm ente, partilh arei
algum as con clusões práticas.

Base bíblica
A base bíblica n ão é um sim ples texto, pois ela é m ais substanciai d o que p o d em o s resum ir em u m texto. C o n siste de três
versículos que será b o m m an term os relacion ad os: R o m an o s
8.2 9 , 2 C o rín tio s 3.18 e 1 Jo ã o 3.2.
O prim eiro texto é R om an os 8.29: D eus “predestinou [seu
povo] para serem conform es ã im agem de seu Filh o” . Q u an d o
A d ão caiu, perdeu m u ito (apesar de não tudo) d a im agem
divina na qual ele havia sido criado. Porém, D eus a restaurou
em C risto. C o n fo rm id ad e à im agem de D eu s significa ser
com o Jesus, e a sem elh ança com C risto é o prop ósito eterno
para o qual D eu s n os predestin ou.
O segu n do texto é 2 C o rín tio s 3.18: “E tod o s n ós, com
o rosto desven dado, con tem plan do [ou refletindo], com o
p o r espelho, a glória d o Senh or, so m os tran sform ados [ou
m udados], de glória em glória, na su a próp ria im agem , com o
pelo Senh or, o E sp írito ” .
A perspectiva m u d o u — d o p assad o para o presente; da
predestinação eterna de D eu s para a transform ação que ele
realiza em nós n o presente p o r m eio d o seu Espírito San to;
do prop ósito eterno de D eu s de nos fazer com o C risto, para
a ob ra histórica de n os tran sform ar à im agem de C risto m e­
diante o seu Espírito.
O

terceiro texto é 1 Jo ã o 3.2: “A m ad o s, agora, som os

filhos de D eu s, e ain d a n ão se m an ifestou o que haverem os

SEMELHANÇA COM CRISTO

de ser. S a b e m o s que, q u a n d o ele se m an ifestar, serem o s
sem elhantes a ele, po rq u e haverem os de vê-lo com o ele é” .
E se D eu s está trabalh an do com essa finalidade, n ão é su r­
presa que ele n os cham e para coo perar com ele. “Siga-m e” ,
diz ele, “ im ite-m e” .
M uitos já ouviram falar do livro Imitação de Cristo, escrito
no início do século 15 por T h om as à Kempis. Tantas edições e
traduções foram publicadas que, depois da Bíblia, ele é prova­
velmente o best-seller m undial. N a verdade ele não fala sobre
imitar a C risto, pois seu conteúdo é bem mais diverso. Porém, o
título se originou das primeiras palavras do livro, e sua enorm e
popularidade é um a indicação da im portância do assunto.
A ssim , retorn an do a 1 Jo ã o 3.2; nós sab em os e n ão sabe­
m os; n ão sabem os com detalhes o que serem os, m as sabem os
que serem os com o C risto. E, n a verdade, não há necessidade
de sab erm os m ais n ada. E stam os contentes com a gloriosa
verdade de que estarem os com C risto e serem os com o ele.
A qu i, en tão, estão três perspectivas (passado, presente
e futuro) e todas ap o n tam para a m esm a direção: o eterno
p rop ósito de D eu s (nós fom os predestinados); o prop ósito
histórico de D eu s (estam os sen d o m u d ad o s, tran sform ados
pelo E spírito San to); e o prop ósito escatológico de D eu s (sere­
m os com o ele). T u d o isso con tribu i para a m esm a fin alidade
de sem elh ança com C risto, po is esse é o prop ósito de D eus
p ara o seu povo.

Se afirmamos ser cristãos, devemos ser como Cristo

o

d i s c I p u l o r a d ic a l

T en d o estabelecido a b ase bíblica, ou seja, a sem elhança
com C risto é o p ro p ó sito de D eu s para o povo de D eu s,
qu ero prossegu ir ilu stran d o essa verd ade com vários exem ­
plos d o N ovo T estam en to . A n tes, u m a d eclaração geral de
1 Jo ã o 2.6: “A quele qu e diz que perm anece nele, esse deve
tam b ém an d ar assim com o ele a n d o u ”. Se afirm am os ser
cristãos, devem os ser com o C risto.

Exemplos do Novo Testamento
Devemos ser como Cristo em sua encarnação
A lguns po dem recuar horrorizados ante a tal ideia. “Será
que a en carn ação foi um evento totalm ente único e impossível de ser im itado?”
A re sp o sta é sim e n ão . S im , p o rq u e o F ilh o de D eu s
assu m iu n o ssa h u m a n id a d e p ara si m esm o em Je su s de
N azaré, u m a vez p o r to d a s e sem n e ce ssid a d e de rep eti­
ção. N ã o , p o rq u e to d o s n ó s so m o s c h a m a d o s a seg u ir
o ex em p lo de su a h u m ild a d e . A ssim , P au lo escreve em
F ilip en se s 2.5-8:
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em
Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não
julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo
se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,
a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte
e morte de cruz.
Devemos ser como Cristo em seu serviço
Passarem os agora d a en carn ação para a vida de serviço.
A ssim , vam os para o C en ácu lo, on de Jesu s p assou a ú ltim a
noite com os discípulos. D uran te a ceia, ele tirou a vestim enta

SEMELHANÇA COM CRISTO

de cim a, cin giu -se co m u m a to a lh a , c o lo c o u á g u a n u m a
b a c ia e lav o u os p és d o s d is c íp u lo s. Q u a n d o te r m in o u ,
ele r e to m o u seu lu g ar à m e sa e d isse : “ O ra , se eu , send o o S e n h o r e o M estre, vo s lavei o s pés, ta m b é m vó s
d ev eis lavar o s pés u n s d o s o u tr o s. P o rq u e eu vo s d ei o
e x em p lo , p a r a q u e, c o m o eu vo s fiz, fa çais v ó s t a m b é m ”
(Jo 13.14-15).
A lgu n s cristãos acatam a ord em de Jesu s literalm ente e
m u itas vezes fazem a cerim ôn ia d o lava-pés po r ocasião da
C eia d o Senhor. E talvez eles estejam certos. Porém, a m aioria
aplica a ord em culturalm ente. Isto é, assim com o Jesu s fez
o que, em su a cultura, era o trabalh o de um escravo, nós,
em n ossa cultura, n ão devem os con siderar n en h u m a tarefa
sim ples ou h u m ilh an te dem ais.
Devemos ser como Cristo em seu amor
C o m o escreve Paulo: “E an d ai em am or, com o tam b ém
C risto nos am o u e se entregou a si m esm o p o r nós, com o
oferta e sacrifício a D eus, em arom a suave” (E f 5.2). “A n d ar
em am o r” é u m a ordem para que tod o o n osso co m p o rta­
m en to seja caracterizado pelo am or. Já “entregar-se” p o r
nós, é u m a referência clara á cruz. A ssim , Paulo está nos
in centivando a ser com o C risto em su a m orte; a am ar com
o am o r d o C alvário.
Percebe o que está acontecendo? Paulo n os está im pelindo
a ser com o o C risto d a encarn ação, o C risto do lava-pés e o
C risto d a cruz.
Tais eventos in dicam claram ente o que significa, n a práti­
ca, ser sem elhante a C risto. Por exem plo, no m esm o capítulo,
Paulo estim ula os m aridos a am arem as esposas com o C risto
am ou a igreja e se deu po r ela (E f 5.25).

0 DISCÍPULO RADICAL

Devemos ser como Cristo em sua longanimidade
A q u i con sideram o s o en sin o de Pedro e n ão de Paulo.
T o d o s os capítu los d a prim eira carta de Pedro falam do
sofrim en to de C risto, po is o contexto da carta é o com eço
d a perseguição.
N o capítulo 2, em especial, Pedro incentiva os escravos
cristãos (se p u n id o s in justam ente) a su p o rtar o sofrim en to
sem pagar o m al com o m al (lP e 2.18). S o m o s ch am ad os a
agir assim porqu e C risto tam b ém sofreu, deixando-nos o
exem plo para que sigam os seus passos (lP e 2.21).
Tal ch am ad o à sem elh ança com C risto n o sofrim en to
in justo p o d e se tornar cada vez m ais significante em m uitas
culturas nas quais a perseguição tem crescido.
Devemos ser como Cristo em sua missão
T en d o observado o en sin o de Paulo e de Pedro, observare­
m os o en sin o de Jesu s registrado p o r Jo ão (Jo 17.18; 20.21).
E m oração, Jesus diz ao Pai: “A ssim com o tu m e enviaste ao
m u n d o, tam b ém eu os enviei ao m u n d o ” ; e, ao com issionálos, ele diz: “A ssim com o o Pai m e enviou, eu tam b ém vos
en vio” . E ssas palavras têm u m significado profu n do .
N ã o se tra ta ap e n as d a v ersão d a G ra n d e C o m issã o
registrad a n o E v an g elh o de Jo ã o ; é tam b ém u m a in stru ­
ção p ara q u e a m issão d o s d isc íp u lo s se a ssem elh asse à
de C risto . E m qu e sen tid o ? A s palavras-chave são “enviei
ao m u n d o ” . Isto é, c o m o C risto teve de en trar em n o sso
m u n d o , n ó s ta m b é m p re c isa m o s en trar n o m u n d o de
o u tras p e sso as.
Isso foi explicado com eloqü ên cia pelo arcebispo M ichael
Ram say, qu e disse: “N ó s declaram os e recom en dam os a fé à
m edida que saím os e pen etram os nas dúvidas dos duvidosos,

SEMELHANÇA COM CRISTO

nas pergun tas dos q u estion ado res e n a so lid ão d aq u eles que
perderam o ru m o ”.2
E ssa en trad a n o m u n d o de ou tras pessoas é exatam en te
o que qu erem os dizer p o r m issão en carn acion al — e toda
m issão autêntica é encarn acion al.
A q u i estão, talvez, as cin co p rin cip ais m an eiras pelas
quais devem os nos assem elh ar a C risto: em su a en carn ação,
em seu serviço, em seu am or, em su a lo n gan im id ad e e em
su a m issão.

Três conseqüências práticas
C o n clu irem o s agora com três con seq ü ên cias práticas das
bases e exem plos de sem elh ança com C risto que acabam os
de considerar.
Semelhança com Cristo e o mistério do sofrimento
O sofrim en to é um assun to vasto e os cristãos tentam
entendê-lo de m uitas form as. Porém , a que se destaca é a que
diz que o sofrim en to é parte d o processo de D eu s para n os
fazer com o C risto. Se ja u m d esap on tam en to ou u m a frustra­
ção, precisam os tentar vê-lo à luz de R o m an o s 8.28 e 29.
D e acordo com R o m an o s 8.2 8 , D eu s está sem pre traba­
lh an d o para o bem de seu povo, e de acordo com R o m an o s
8.29, esse b om prop ósito é nos fazer com o C risto.
Semelhança com Cristo e o desafio do evangelismo
Por que n ossos esforços evangelísticos são frequentem ente
desastrosos? H á várias razões, e n ão p o sso sim plificar, m as
u m a das prin cipais é que n ão parecem os com o C risto que
proclam am os.

0 DISCÍPULO RADICAL

“Se vocês, cristãos, vivessem como Jesus Cristo,
a índia estaria aos seus pés am anhã”

Jo h n P oulton escreveu sobre d isso em seu breve, m as
perceptivo livro A Today Sort of Evangelism:
A pregação mais eficaz provém daqueles que vivem confor­
me aquilo que dizem. Eles próprios são a mensagem. Os
cristãos têm de ser semelhantes àquilo que falam. A comu­
nicação acontece fundamentalmente a partir da pessoa, não
de palavras ou ideias. E no mais íntimo das pessoas que a
autenticidade se faz entender; o que agora se transmite com
eficácia é, basicamente, a autenticidade pessoal.3
Sem elhantem ente, um professor hindu, identificando um
do s alun os com o cristão, disse: “Se vocês, cristãos, vivessem
com o Je su s C risto, a ín d ia estaria aos seus pés am an h ã” .
O u tro exem plo é o do reverendo Iskan dar Jadeed, um
ex-m uçulm ano árabe, que disse: “Se todos os cristãos fossem
cristãos, hoje não haveria mais islam ism o”. N ão conheço pesso­
alm ente os autores desses dizeres, m as creio serem genuínos.
Semelhança com Cristo e a habitação do Espírito
Já falei b astan te sobre sem elhança com C risto, m as com o
ela é possível para nós? C laram en te n ão é pela n ossa próp ria
força, já que D eu s n os deu o seu Espírito San to para nos
capacitar a cum prir seu prop ósito.

SEMELHANÇA COM CRISTO

W illia m T em p le c o stu m a v a ilu stra r isso a p a r tir de
Shakespeare:
Não adianta me dar uma peça como Hamlet ou Rei Lear e me
dizer para escrever algo assim. Shakespeare podia fazer isso,
eu não posso. E não adianta me mostrar uma vida como a
de Jesus e me dizer para viver como ele. Jesus era capaz, eu
não. Porém, se o gênio de Shakespeare pudesse vir morar
em mim, então eu poderia escrever peças como as dele. E
se o Espírito de Jesus pudesse vir morar em mim, então eu
viveria uma vida como a dele.
O

p ro p ó sito de D eu s é n os fazer com o C risto . E a for­

m a com o ele faz isso é n os en ch en do com o seu E spírito
San to.

Capítulo 3

MATURIDADE

N a décad a de 90, q u an d o viajava em n om e d a L an gh am
Partnership In tern ation al, sem pre perguntava aos que m e
ouviam com o eles defin iriam o cenário cristão n o m u n d o
atual. E recebia u m a variedade de respostas. Q u a n d o con ­
vidado a d ar m in h a op in ião, eu a resu m ia em apen as três
palavras: “crescim ento sem p ro fu n d id ad e ” .
N in gu ém duvida do crescim ento fen om en al d a igreja em
várias partes d o m u n d o. A s estatísticas são surpreen den tes.
N ão é exagero descrever esse crescim ento com o “ex p lo são ” .
Por exem plo, a igreja n a C h in a cresceu pelo m en os cem vezes
desde a m etade do século 20. H oje, m ais cristãos ad o ram a
D eus todos os dom in gos n a C h in a d o que em todas as igrejas
da E u ro p a O cid en tal ju n tas.
A o m esm o tem po, n ão devem os ceder ao triun falism o,
po is n a m aioria do s casos trata-se de crescim ento sem pro­
fu n didade.
A su perficialid ade n o discip u lad o existe em tod o lugar, e
os líderes eclesiásticos lam en tam essa situação. U m líder do
sul d a Á sia disse-m e recentem ente que, apesar de a igreja em
seu país estar crescendo num ericam en te, “ existe u m en orm e

0 DISCÍPULO RADICAL

prob lem a de falta de con sagração e in tegridade” . D e m od o
sem elhante, um líder africano disse-me que, apesar de estar
consciente do rápid o crescim ento d a igreja africana, “ele é,
em gran de parte, n um érico [...]. A igreja está sem u m a base
bíblica e teológica forte que provenha dela m esm a” .
M ais im pressionante é a declaração feita em abril de 2006,
em L os A ngeles, p o r C a o Sh en gjie, na época presidente do
C o n selh o C ristão C h in ês:
A lguns dizem que a igreja está indo bem quando há
crescimento numérico [...] e queremos ver pessoas sendo
acrescidas à igreja todos os dias. Porém, não estamos bus­
cando apenas números, mas que o aumento nos números
corresponda à confirmação de fé da igreja.
Essas três citações de líderes de países em desenvolvim ento
são suficientes para m ostrar que “crescim ento sem profu n ­
d id ad e” , ou crescim ento estatístico sem o desenvolvim ento
de u m discipu lado, não é u m a con clusão im posta pelo resto
do m u n d o — é a visão d o s p róp rio s líderes.
A lém d isso, a situ ação é séria p o rq u e d esagrad a a D eu s.
O u sa m o s dizer isso p o rq u e os ap ó sto lo s cujas cartas en ­
co n tram o s n o N ov o T estam en to cen su raram seus leitores
pela im atu rid ad e deles e os im peliram a se torn arem ad u l­
tos. C o n sid ere, p o r exem plo, a crítica de Paulo à igreja de
C o rin to :
Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais,
e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. Leite
vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda
não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque
ainda sois carnais. Porquanto, havendo entre vós ciúmes e
contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo
0 homem?
1 Coríntios 3.1-3

MATURIDADE

P o rém , h á o u tr a p a s sa g e m e sc rita p o r P au lo so b re
m atu ridade, e são esses versículos que quero destacar neste
capítulo:
Anunciamos [CristoJ, advertindo a todo homem e ensi­
nando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que
apresentemos todo homem perfeito (teleios) em Cristo; para
isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais
possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente
em mim.
Colossenses 1.28-29
O adjetivo grego teleios ocorre dezenove vezes n o N ovo
T estam en to e pode ser traduzido p o r “perfeito” o u p o r “m a­
d u ro ” , dep en d en d o do contexto. R aram en te significa “per­
feito” n um sen tido absoluto. E m vez disso, o teleios (pessoa)
contrasta com a criança ou bebê (por exemplo, I C o 13.10-11).
A ssim , é m elhor en ten derm os teleios com o “m ad u ro ” .
Para en tender o significado de u m texto, n orm alm en te é
b om fazer com ele um a espécie de interrogatório e im portunálo com pergun tas investigativas. É o que prop on h o fazer com
C o lo ssen ses 1.28-29.
A prim eira e m ais básica pergun ta é sobre a essência da
m atu ridade. O que é m atu ridade cristã? O fato é que ela é
algo difícil de ser ob tido. A m aioria de n ós sofre de imaturidades prolon gad as. M esm o n o adulto, a p eq u en a criança
ain d a se escon de em algum lugar.
A lém disso, existem diferentes tipos de m aturidade. Existe
a física (ter u m corpo saudável e bem desenvolvido), a intelec­
tual (ter u m a m ente disciplinada e um a cosm ovisão coerente),
a m oral (aqueles que “têm as suas faculdades exercitadas para
discernir n ão som ente o bem , m as tam bém o m al”, H b 5.14),
a em o cion al (ter u m a p erso n alid ad e equilibrada, capaz de

36

0 DISCÍPULO RADICAL

estabelecer relacion am en tos e assum ir responsabilidades).
Porém , acim a de tu do, existe a m aturidade espiritual. E isso
é o que o apóstolo cham a de m atu ridade “em C risto ” , isto
é, ter um relacionam ento m adu ro com C risto.
A fo rm a m ais c o m u m u sa d a p o r Paulo p ara d e fin ir
cristãos é dizer qu e eles são h o m en s e m ulh eres “ em Crist o ”— n ão d en tro de C risto , com o rou pas em um arm ário
o u ferram en tas em u m a caixa, m as com o os ram o s que
estão na videira e co m o os m em b ros que estão no corpo ,
o u seja, u n id o s em C risto . A ssim , estar “em C r isto ” é estar
relacio n ad o a ele de fo rm a p essoal, vital e orgân ica. N esse
sen tid o , ser m ad u ro é ter u m relacio n am en to m ad u ro com
C risto , n o q u al o ad o ram o s, co n fiam o s nele, o am am o s e
lhe ob ed ecem os.
A p róx im a pergu n ta a fazer é com o os cristãos se torn am
m ad u ro s. O texto n o s fo rn ece u m a re sp o sta clara. C o n ­
sid ere a b ase d o v e rsícu lo 28: “N ó s a n u n c ia m o s [C risto]
[...] a fim de q u e a p re se n te m o s to d o h o m em p erfeito em
C r is to ” .

Ser maduro é ter um relacionamento maduro
com Cristo, no qual o adoramos, confiamos
nele, o amamos e lhe obedecemos

E lógico que, se m atu ridade cristã é m atu ridade em n osso
relacionam ento com C risto, no qual o adoram os, con fiam os
nele e lhe obedecem os, então, qu an to m ais clara for a n ossa

MATURIDADE

visão de C risto, m ais convencidos n os torn am os de que ele
é digno de n o ssa dedicação.
N a in tro d u ção do livro O Conhecimento de Deus,1 J. I.
Packer escreve que so m os “cristãos pigm eus p o rq u e tem os
um D eus p ig m eu ” . Podem os dizer, igualm ente, que so m os
cristãos pigm eus porqu e tem os u m Cristo pigm eu. A verdade
é que existem m uitos “C risto s” sen do oferecidos nas religiões
com erciais d o m u n d o, e m u itos deles são falsos C risto s,
C risto s distorcidos, caricaturas cio Jesu s autêntico.
A tualm ente, por exemplo, en contram os o Jesu s capitalista
com petin do com o Jesus socialista. H á tam bém o Jesu s asceta
se o p o n d o ao Jesu s glutão. S e m falar n os fam osos m usicais
— Godspell, com o Je su s p alh aço , e Jesus Cristo Superstar.
Existiram m u itos outros. Porém , tod o s eram distorcid os e
n en h u m deles m erece n ossa ado ração e culto. C a d a u m é o
que Paulo cham a de “outro Je su s” , diferente do Jesu s qu e os
ap ó stolos proclam aram .
A ssim , se q u e re m o s desen v olver u m a m a tu rid a d e ver­
d ad e ira m e n te cristã, p re c isam o s, acim a de tu d o , de u m a
v isão ren o v a d a e v e rd ad eira de Je su s C risto — p rin c ip a l­
m en te de su a su p re m ac ia a b so lu ta , cia q u al Paulo fala em
C o lo sse n se s 1.15-20. E u m a d as p assag e n s cristo ló g ic as
m ais su b lim e s de to d o o N o v o T e stam e n to . E is u m a sim ­
ples p aráfrase:
Jesus é a imagem visível do Deus invisível (v. 15); assim,
quem o vir, terá visto o Pai. Ele é também “o primogênito
sobre toda a criação” . N ão que ele próprio tenha sido
criado, mas ele tem os direitos de um primogênito, e por
isso é o “Senhor e cabeça” da criação (v. 16). Por meio dele
o universo foi criado. Todas as coisas foram criadas por
meio dele como agente e para ele como cabeça. A unidade
e a coerência das coisas são encontradas nele. Além disso,

0 DISCÍPULO RADICAL

(v. 18) ele é a cabeça do corpo, a igreja. Ele é o princípio
e o primogênito de entre os mortos, de tal maneira que
em todas as coisas ele possa ter a preeminência. Pois Deus
se agradou (v. 19-20) ao fazer habitar toda a sua plenitude
em Cristo e também ao reconciliar todas as coisas consigo
mediante Cristo, alcançando a paz por meio do sangue de
sua cruz.
F o i d e ssa fo rm a q u e P au lo p ro c la m o u C r isto co m o
S e n h o r — c o m o S e n h o r d a criação (aq u ele p o r m eio de
q u em to d as as coisas fo ram feitas) e com o S e n h o r d a igreja
(aq u ele p o r m eio de q u em to d a s as co isas fo ram rec o n ­
c iliad as). Por cau sa de q u em ele é (a im agem e p le n itu d e
de D eu s) e p o r c au sa d o q u e ele fez (aq u ele q u e crio u e
re c o n c ilio u ), Je su s C r isto tem u m a d u p la su p re m a c ia .
E le é o c ab eça d o u n iv erso e d a igreja. E le é o S e n h o r de
am b as as criaçõ es.
E ssa é a descrição exata qu e o apóstolo faz de Jesu s C risto.
O n d e deveríam os estar sen ão com os rostos em terra diante
dele? A fastem os de n ós o Jesu s insignificante, fraco, pigm eu.
A fastem os de n ós o Jesu s palh aço e pop star. A fastem os tam ­
bém o M essias político e revolucionário. Eles são caricaturas.
Se é assim que o enxergam os, n ão su rpreen de a persistência
de n ossa im aturidade.
O n de, então, en contrarem os o Jesu s autêntico? Ele deve
ser encontrado n a B íblia — o livro que pode ser descrito com o
o retrato que o Pai fez d o Filho, colorido pelo E spírito San to.
A B íblia é repleta de C risto. C o m o ele próp rio diz, as Escri­
turas “testificam de m im ” (Jo 5.39). Jerô n im o , o antigo Pai
d a Igreja, escreve que “ ignorância d a Escritura é ignorância
de C risto ” . D a m esm a form a, p o d em o s dizer que con hecer
a E scritura é conhecer a C risto.

MATURIDADE

N ada é mais importante para um discipulado
cristão maduro do que uma visão renovada,
clara e verdadeira do Jesus autêntico

S e a venda fosse retirada d o s n o sso s olhos, se pu d éssem os
ver Jesu s n a p len itu de de q u em ele é e do que ele tem feito,
certam ente veríam os o quanto ele é digno d a n ossa dedicação
apaixon ad a. A fé, o am or e a ob ed iên cia b rotariam de n ós e
cresceríam os em m atu ridade. N a d a é m ais im portan te para
u m discip u lad o cristão m adu ro d o qu e u m a visão renovada,
clara e verdadeira do Jesu s autêntico.
A g o ra q u e já d e fin im o s o q u e é m atu rid ad e cristã e
vim os com o os d iscípu los se torn am m aduros, chegam os à
terceira pergun ta: para q u em esse ch am ad o à m atu ridade é
direcionado? E notável que nesse texto Paulo repete a palavra
“to d o ” : “o q u al n ós an un ciam os, advertindo a todo h om em e
en sin an d o a todo h o m em em to d a a sabedoria, a fim de que
apresentem os todo h o m em perfeito em C risto ” (C l 1.28). O
contexto dessa tripla repetição provavelm ente é a ch am ad a
“heresia colossen se” . O s estudiosos ain da debatem su a form a
exata, m as é quase certo que foi um gnosticism o em brion ário
que chegou ao auge n a m etade d o século 2.
Esses prim eiros gn ósticos parecem ter en sin ado que havia
duas classes ou categorias de cristãos. Por um lado, havia os
hoi polloí, o reb an h o com um , qu e era u n id o pela pistis, a fé.

40

O DISCÍPULO RADICAL

Por outro, havia os hoi teleioi, a elite, que havia sid o iniciada
pela gnosis, o conhecim ento especial. Paulo ficou horrorizado
com esse elitism o cristão e se op ôs firm em ente a ele. A o proclam ar a C risto, ele tom o u a palavra dos gnósticos, teleios, e
aplicou-a a todos. Ele alertou e en sin ou a todos, rogou para
que pu desse apresentar tod o s m adu ros (teleios) em C risto.
A m atu ridade em C risto está enfaticam ente disponível não
som ente a um seleto grupo de pessoas; m as a todos. N inguém
precisa fracassar em obtê-la.
E in te re ssan te p e rg u n ta r se n a in te rp retaç ão (ao estu ­
d arm o s u m texto b íb lic o ) n o s id e n tific a m o s com o au tor
ou com os leito res. A lg u m a s vezes (com o em n o sso caso)
é razo ável fazer a m b o s. E a p r o p ria d o n o s c o lo c a rm o s
n o lu g ar d o s cristão s c o lo sse n se s q u a n d o receb iam essa
m en sagem de P au lo e d eix a r q u e ele fale tam b ém a n ós.
A ssim , o u v irem o s o a p ó sto lo com aten ção , receb erem os
su a ad m o estação sobre crescer em m atu rid ad e, tom arem os
a d ecisão de levar a le itu ra b íb lic a ain d a m ais a sério e,
ao le rm o s a E scritu ra, o lh are m o s p ara C r isto de m o d o
a am á-lo, c o n fia r n ele e obedecer-lhe. Pois o p rin cíp io
do d isc ip u la d o é claro: q u a n to m ais p o b re fo r o n o sso
co n ce ito de C risto , m ais p o b re será n o sso d isc ip u la d o .
E q u a n to m ais rica for a n o ssa v isão de C risto , m ais rico
será n o sso d isc ip u la d o .
Porém , é legítim o tam b ém n os colocarm os ao lado do
apóstolo Paulo en q u an to fala aos cristãos colossenses, es­
pecialm ente se estiverm os em p o sição de liderança cristã. E
verdade que, diferente de n ós, ele foi u m apóstolo. A ssim ,
não tem os sua au toridade. N o entanto, tem os resp o n sab i­
lidades pastorais com paráveis às dele, quer sejam os líderes
ord en ad os ou leigos.

MATURIDADE

A ssim , p rec isam o s o b se rv ar o alvo p a sto ra l de P au lo.
P opularm ente, ele é visto com o u m evangelista, u m missio n ário p ion eiro e p lan tad o r de igrejas cujo objetivo era
converter pessoas, estabelecer u m a igreja e seguir em frente.
N o en tanto, essa é apenas u m a de suas descrições. Ele se des­
creve tam b ém com o u m pastor e m estre. Seu gran de desejo,
escreve ele, é tran spor o evangelism o, chegar ao discip u lad o
e apresentar todos m adu ros em C risto. E com o esse é o alvo
n o q u al ele gasta suas energias, n ós devem os fazer o m esm o.
“Para isso é que eu tam bém m e afadigo, esforçando-m e o mais
possível, segu n do a sua eficácia que opera eficientem ente em
m im ” (C l 1.29). E m grego, tan to o verbo “afadigar” q u an to o
verbo “esforçar-se” expressam m etáforas que im plicam em pe­
nh o físico. O prim eiro é u sad o para o trabalh ad or rural e o
segu n do para o com petidor n os jogos gregos. A m b o s evocam
a im agem de m úsculos en rijecidos e su or escorrendo.
E claro qu e Paulo po d eria lutar co n tan d o som en te com
a força de C risto. M esm o assim , ele ain d a precisou labu tar e
se em pen h ar em oração e estu do. N ã o p o d e haver alvo m ais
alto n o m in istério. Q u e lem a m aravilhoso para q u alq u er
u m ch am ad o para a liderança — desejar apresentar todos
aqueles p o r quem , de algum a form a, so m os responsáveis,
com o m adu ros em C risto.
V im o s então u m a resp o n sab ilid ad e dupla: a m atu ridade
em C risto é o alvo tan to para n ós qu an to para o n osso m i­
nistério.
Q u e D eu s p o ssa nos dar u m a visão com pleta e clara de
Jesu s C risto, prim eiro para que p o ssam o s crescer em m atu ­
ridade, e segu n do para que, pela n o ssa proclam ação fiel de
C risto em su a plenitude, outras p essoas tam bém p o ssam se
apresentar m aduras.

Capítulo 4

CUIDADO COM A CRIAÇÃO

Ao

iden tificar os aspectos q u e con sid ero n egligen ciados

em u m d iscip u lad o radical, n ão devem os su p o r que eles se
lim itam às esferas pessoais e individuais. D evem os considerar
tam bém a perspectiva m ais am pla, que é a dos n ossos deveres
p ara com D eu s e n osso próxim o. Este capítulo trata de um
deles: o cu id ad o com o m eio am biente.
A B íblia n os diz que, n a criação, D eu s estabeleceu três
tipos fu n d am en tais de relacion am en to: prim eiro com ele
m esm o, pois ele fez o h o m em à su a p ró p ria im agem ; segun­
d o entre si, p o is a raça h u m an a é plu ral desde o prin cípio;
e terceiro para com a b o a terra e as criaturas sobre as quais
ele os estabeleceu.
N o en tan to , os três relacio n am e n to s foram d isto rcid o s
p ela q u ed a. A d ã o e E va fo ram b a n id o s d a p resen ça do
S e n h o r D eu s n o jard im , eles cu lp aram u m ao ou tro pelo
q u e acon teceu e a b o a terra foi am ald iç o ad a devido à d e­
so b ed iên cia.
E plausível, portan to, que o plan o de D eus de restauração
inclua n ão apen as a n ossa reconciliação com D eu s e com o

j

0 DISCÍPULO RADICAL

p r ó x im o , m as ta m b é m , d e alg u m a m a n e ira , a lib e rta ç ã o
d a c riaçã o q u e gem e. P o d e m o s a firm a r q u e u m d ia haverá novo céu e n o v a terra (2Pe 3 .1 3 ; A p 21.1), p o is essa
é u m a p a rte e sse n c ia l d a e sp e ra n ç a d e fu tu ro p e rfe ito
q u e n o s ag u a rd a n o fin a l cios te m p o s. P orém , e n q u a n to
isso , to d a a c riaçã o está g e m e n d o , p a s sa n d o p e la s d o res
d e p a r to d a n o v a c ria ç ã o (R m 8.18-23). O q u e a in d a
d isc u tim o s é o q u a n to d o d e stin o fin a l d a terra p o d e ser
v iv en ciad o agora. N o e n ta n to , p o d e m o s dizer com certeza
q u e, a ssim c o m o a n o ssa c o m p re e n sã o d o d e stin o fin a l
d e n o sso c o rp o re ssu rre to in flu e n c ia o q u e p e n sa m o s
so b re o c o rp o q u e te m o s n o p re se n te e a fo rm a c o m o o
tra ta m o s, n o ssa c o m p re e n sã o d o novo céu e n ova terra
deve in flu e n c ia r e a u m e n ta r a c o n sid e ra ç ã o q u e tem o s
p e la te rra ag o ra.
Q u a l, e n tão , deveria ser a n o ssa atitu d e p ara co m a
ela? A B íb lia a p o n ta o c am in h o ao fazer d u as afirm açõ es
fu n d am e n tais: “A o S e n h o r p erten ce a te rra” (SI 24.1), e “ a
terra, deu-a ele ao s filh o s d o s h o m e n s” (SI 115.16).
E m m aio de 1999, tive o priv ilégio de p a rtic ip a r de
u m a c o n ferên cia de u m d ia em N a iro b i so b re “ cristão s
e o m eio a m b ie n te ” . C o m p a rtilh a n d o o p ú lp ito co m ig o
estavam C alv in D e W itt, d o A u Sa b le In stitu te, em Mich igan, e Peter H arris, de A R o ch a In te rn ac io n al. E n tre
os p a rtic ip a n te s estav am líd eres do govern o q u e n ia n o ,
r e p r e se n ta n te s de ig re jas, o rg a n iz a ç õ e s m iss io n á r ia s e
O N G s . O e n c o n tro fo i a m p la m e n te d iv u lg a d o . F ic o u
ev iden te q u e o c u id a d o com a criação n ão é u m in teresse
eg o ísta d o O c id e n te d esen v o lv id o , n em u m a sin g e la p a i­
x ão c aracterística d o s o rn itó lo g o s ou b o tân ico s, m as u m a
p re o c u p a ç ã o cristã crescen te.

CUIDADO COM A CRIAÇÃO

As afirmações de que “ao Senhor pertence a terra”
e “a terra deu-a ele aos filhos dos homens” se
complementam, não se contradizem

Logo após a pu blicação d a D eclaração Evangélica sobre o
C u id a d o com a C riação (1999), surgiu, n o an o seguinte, um
im portan te com en tário organizado po r R. J. Berry e intitulado The Care of Creation (o cu id ad o com a criação).1
A s afirm ações de que “ao S e n h o r pertence a terra” e “a
terra deu-a ele aos filhos dos h o m en s” se com plem en tam ,
n ão se contradizem . Pois a terra perten ce a D eu s p o r causa
da criação e a n ós po r causa d a delegação. N ão significa que,
ao delegá-la a nós, ele ab dicou de seus direitos sobre ela.
D eus nos deu a respo n sabilidade de preservar e desenvolver
a terra em seu favor.
C o m o en tão devem os n os relacionar com a terra? Se lem ­
b rarm o s qu e ela foi criada p o r D eu s e delegada a n ós, evita­
rem os dois extrem os op osto s e desenvolverem os u m terceiro
po sicion am en to e u m a m elh or relação com a natureza.
Prim eiro, devem os evitar a deificação da natureza. E sse é o
erro d o s pan teístas, que u n ificam o C riad o r e a criação, dos
an im istas, qu e povoam o m u n d o n atu ral com espíritos, e do
m ovim en to G aia da N ov a Era, qu e atribui os processos de
ad ap tação , ord em e p erp etu ação da natureza a ela p róp ria.
Porém , to d a s essas c o n fu sõ es são in su lto s ao C riad o r. A

0 DISCÍPULO RADICAL

com preen são cristã de que a natureza é criação e não criado­
ra foi um prelúdio in dispensável a toda iniciativa científica
e hoje é essencial para o desenvolvim ento dos recursos da
terra. N ó s respeitamos a natureza porqu e D eu s a fez; não a
reverenciamos com o se ela fosse D eus.
Segundo, devem os evitar o extremo oposto, que é a explora­
ção exaustiva da natureza. N ão significa tratá-la com veneração,
com o se ela fosse D eus, nem tratá-la com arrogância, com o se
nós fossem os D eus. A culpa pela irresponsabilidade am biental
tem sido injustam ente posta em G ênesis 1. E verdade que D eus
com ission ou a raça h u m an a para “dom in ar” sobre a terra e
“sujeitá-la” (G n 1.26-28), e que esses dois verbos hebraicos são
enfáticos. Porém, seria um absurdo im aginar que aquele que
criou a terra entregou-a a nós para que fosse destruída. N ão, o
dom ín io que D eus nos deu deve ser visto com o um a mordomia
responsável, não com o u m dom ín io destrutivo.
O terceiro relacionam ento correto entre os seres h u m an os
e a natureza é o de cooperação com Deus. N ó s m esm os fazem os
parte da criação e som os tão dependentes do C riad o r quanto
todas as criaturas. Porém, ao m esm o tem po, ele se hum ilh ou
deliberadam en te para fazer a parceria divino-hum ana ne­
cessária. Ele criou a terra, m as disse-nos para sujeitá-la. Ele
plan tou o jardim , m as colocou A d ão nele “para o cultivar e
o gu ard ar” (G n 2.15). Isso é norm alm en te ch am ad o m an d a­
to cultural. Pois o que D eus n os deu foi a natureza, e o que
fazem os com ela é cultura. N ão devem os apenas conservar
o am biente, m as tam b ém desenvolver seus recursos para o
bem com um .
E u m ch am ad o n obre para cooperar com D eu s n o cum ­
p rim en to de seus p ro p ó sito s, p ara tran sfo rm ar a ord em
criada de form a que agrade e beneficie a todos. A ssim , n osso

CUIDADO COM A CRIAÇÃO

trabalho é ser u m a expressão de adoração, já qu e o cu id ad o
com a criação refletirá o am o r pelo C riador.
Porém , é possível exagerar ao en fatizar o trab alh o hum ano de c o n serv aç ão e tra n sfo rm a ç ã o d o am b ien te . E m su a
excelen te e x p o siç ão so b re os três p rim eiro s c a p ítu lo s de
G ê n e sis (In The Beginning),2 H e n ri B lo ch er arg u m en ta q u e
o clím ax de G ê n e sis 1 n ão é a criação d o s seres h u m a n o s
co m o tra b alh ad o re s, m as a in stitu iç ã o d o sá b a d o p a ra os
seres h u m a n o s c o m o a d o ra d o re s. O ob jetiv o fin a l n ão é
n o sso tra b a lh o (su jeitar a terra), m as d eix a r o tra b a lh o de
la d o n o sá b a d o . Pois o sá b a d o co lo ca a im p o rtâ n c ia d o
trab alh o n a p erspectiv a correta. Ele n os protege de im ergir
c o m p le tam e n te n o tra b alh o , c o m o se ele fo sse o ob jetiv o
fin al d a n o ssa ex istên cia. N ã o é. N ó s, seres h u m a n o s, en ­
c o n tra m o s n o ssa h u m a n id a d e n ã o so m en te em relaç ão à
terra, q u e dev em o s tran sfo rm ar, m as tam b ém em relação
a D eu s, a q u em d ev em o s ad o rar; n ã o ap e n as em relação
à criação , m as tam b ém , e esp ecialm en te, em relação ao
C ria d o r. D e u s cieseja qu e n o sso tra b a lh o seja u m a ex p res­
são de a d o ra ç ã o , e q u e o c u id a d o com a criação r e flita
o am o r p e lo C ria d o r. S o m e n te assim serem o s capazes de
fazer q u a lq u e r coisa, em p alav ra o u em o b ra, p ara a g ló ria
de D eu s ( I C o 10.31).
E sses e ou tros tem as b íblicos são ab o rd a d o s tan to n a
Declaração q u an to em seu com en tário. Eles m erecem n osso
estudo c u id a d o so .3

A crise ecológica
E p o r causa d a con tradição com esse en sin o b íblico irrepre­
ensível que atualm ente precisam os n os o p o r à crise ecológica

0 DISCÍPULO RADICAL

atual. E la tem sid o explorada de várias form as, m as toda
análise provavelm ente con terá os quatro aspectos a seguir.
Prim eiro, o crescimento populacional acelerado do mundo. D e
acordo com a subdivisão po p u lacio n al da O N U , os cálculos
com eçaram em 1804, q u an d o a popu lação m u n d ial chegou
a 1 b ilh ão.4 N o com eço d o século 21, ela já havia chegado a
6,8 b ilh ões, e estima-se que, em m eados do m esm o século,
terá alcan çado a incrível m arca de 9,5 bilhões.
C o m o é difícil n os lem brar de estatísticas, u m sim ples
m n em ôn ico pode ajudar:
P assado

1804

1 bilhão

Presente

2000

6,8 bilhões

F utu ro

2050

9,5 bilhões

C o m o será possível alim entar tantas pessoas, especialm en­
te q u an d o cerca de u m q u in to delas não p o ssu i con dições
básicas de sobrevivência?
S e g u n d o , a depleção dos recursos da terra. F o i E. F. Schum ach er q u em , em seu c o n h e c id o livro O Negócio é Ser
Pequeno, 5 ch am o u a aten ção d o m u n d o p ara a d iferen ça
en tre p a trim ô n io e ren d a. Por exem plo, c o m b u stív eis fó s­
seis são p a trim ô n io — u m a vez c o n su m id o s, n ã o p o d e m
ser rep o sto s. O s apav oran tes p ro cesso s de d e sflo re sta m e n ­
to e d e se rtific a ç ã o são ex em p lo s d o m e sm o p rin c íp io .
E ta m b é m a d e g ra d a ç ã o o u p o lu iç ã o d o p lâ n c to n d o s
o c e a n o s, d a su p erfíc ie verde d a terra, d as esp écies vivas
e d o s h a b itats d o s q u ais elas d e p e n d e m p a ra terem ar e
águ a p u ro s.
Terceiro, o descarte do lixo. U m a população em crescim ento
traz con sigo u m prob lem a em crescim ento q u an d o se trata

CUIDADO COM A CRIAÇÃO

de descartar de form a segura os su b p ro d u to s d a fabricação,
do em pacotam en to e d o con su m o.
N o R ein o U n id o , a cada três m eses, u m a pessoa com u m
produz o equivalente ao seu pró p rio peso em lixo. E m 1994,
u m relató rio in titu la d o Sustainable Development: the U K
strategy (desenvolvim ento sustentável: a estratégia d o R ein o
U n id o ) recom endava u m a “h ierarqu ia de gerenciam en to do
lixo” dividida em quatro etapas, n u m esforço para conter esse
problem a que se torn a cada vez m aior.
Q u arto , a mudança climática. D e todas as am eaças globais
que o n osso plan eta enfrenta, essa é a m ais séria.
A radiação ultravioleta n a atm osfera n os protege, e se o
ozônio for deteriorado, so m o s expostos ao câncer de pele e
a distú rbios em n osso sistem a im u n ológico. A ssim , q u an d o
em 1983 um en orm e bu raco n a cam ad a de ozôn io apareceu
sobre a região A ntártica e os países vizinhos, houve um grande
alarm e pú blico.
Poucos an os m ais tarde, um b u raco sem elhante apareceu
sobre o hem isfério N orte. N a ép o ca reconheceu-se que a de­
terioração do ozônio era cau sad a pelos clo ro flu o rcarb on os
(C F C s), os com postos q u ím icos utilizados em aparelhos de
ar-condicionado, refrigeradores e propulsores. O Protocolo
de M on treal convocou as n ações a reduzirem pela m etade a
em issão de C F C s até 1997.
A m u d an ça clim ática n ão é u m prob lem a iso lad o . O
calor d a superfície d a terra (essencial para a sobrevivência
do planeta) é m an tido p o r u m a com b in ação da radiação do
sol e d a radiação infraverm elha qu e ele em ite n o espaço. É o
ch am ad o “efeito estu fa” . A p o lu ição d a atm osfera p o r “gases
da estu fa” (especialm ente dió xid o de carbono) reduz as em is­
sões infraverm elhas e au m en ta a tem peratura d a superfície

50

O DISCÍPULO RADICAL

d a terra. E sse é o fan tasm a do aqu ecim en to global, que pode
ter con seqü ên cias desastrosas n a con figuração geográfica do
m u n d o e nos pad rõ es do clim a.6
R efletin d o sobre esses q u atro riscos am bien tais, é im pos­
sível n ão perceber que tod o o n osso planeta está am eaçado.
N ão é exagero falarm os em “crise” . M as o qu e deveríam os
fazer? Para com eçar, po dem o s ser gratos, pois, finalm ente, em
1992, a C on ferên cia cias N ações U n id as sobre M eio A m b ien ­
te e D esenvolvim ento (Eco 92) aconteceu n o R io de Jan eiro
e resultou em u m com pro m isso para um “desenvolvim ento
global susten tável” . O u tras conferências têm afirm ado que
as q u estões am b ien tais m erecem a atenção con stante das
prin cip ais nações do m u n d o.
E lado a lado com essas conferências oficiais, várias O N G s
têm surgido. M encionarei apenas as duas organizações cristãs
explicitam ente m ais proem inen tes, a T earfu n d e A Rocha,
q u e recen tem en te celeb raram an iv ersário s sig n ificativ o s
(40 e 25 an os, respectivam ente).
A Tearfund, fu n dada por G eorge H offm an , é com prom eti­
da com o desenvolvim ento n o sen tido m ais am plo e trabalha
em cooperação com “sócios” n os países em desenvolvim ento.
A m aravilh osa h istória d a T earfu n d é relatad a p o r M ike
H ollow em seu livro A Future and a Hope,7
A R o ch a é diferente e m u ito m enor. Foi fu n d ad a em
1983 p o r Peter H arris, qu e d o cu m en tou seu crescim ento
em d o is livros: A Rocha: uma comunidade evangélica lutando
pela conservação do meio ambiente (relatan do os dez prim eiros
anos) e Kingfisher’s fire (atualizando a história).8Seu con tín uo
desenvolvim ento é notável, e atualm en te ela trabalh a em
dezoito países, estabelecendo centros de estu do de cam po
em tod o s os continentes.

CUIDADO COM A CRIAÇÃO

É m uito b om dar su porte a O N G s am bien tais cristãs, m as
quais são as n ossas resp o n sab ilid ad es individuais? O que o
discípulo radical p o d e fazer para cuidar d a criação? D eixarei
que C h ris W right respon d a. Ele so n h a com u m a m u ltidão
de cristãos que se im po rtam com a criação e levam a su a
respo n sabilidade am bien tal a sério:
Eles escolhem formas sustentáveis de energia quando é
viável. Desligam aparelhos em desuso. Sempre que possível,
compram alimentos, mercadorias e serviços de empresas
que tenham diretrizes ambientais eticamente saudáveis.
Eles se aliam a grupos de conservaçao. Evitam o consumo
demasiado e o desperdício desnecessário e reciclam o má­
ximo possível.9

O que o discípulo radical pode fazer para
cuidar da criação1

C h ris deseja tam b ém ver u m n úm ero crescente de cris­
tãos in clu in d o o cuiciado d a criação em seu en ten dim en to
bíblico de m issão:
No passado, os cristãos eram instintivamente interessados
nas grandes e urgentes questões de cada geração [...]. Isso
inclui os males causados por doenças, ignorância, escravi­
dão e muitas outras formas de brutalidade e exploração.
Os cristãos têm defendido a causa das viúvas, dos órfãos,
dos refugiados, dos prisioneiros, dos doentes mentais,
dos famintos — e, mais recentemente, têm aum entado o
número daqueles comprometidos em “fazer da pobreza
passado”.

0 DISCÍPULO RADICAL

D esejo ecoar a eloqü en te con clusão de C h ris W right:
É totalmente inexplicável ouvir alguns cristãos afirmarem
que amam e adoram a Deus, que são discípulos de Jesus,
mas, mesmo assim, não se preocupam com a terra, que
carrega seu selo de propriedade. Eles não se importam
com o abuso que a terra sofre e, realmente, considerando
seus estilos de vida esbanjadores e por demais consumistas,
conspiram contra isso. Deus deseja [...] que nosso cuidado
com a criação reflita nosso amor pelo Criador.10
“Eis que os céus e os céus dos céus são d o Senhor, teu
D eus, a terra e tu do o qu e nela h á ” (D t 10.14).

Capítulo 5

SIMPLICIDADE

A

quinta característica de um discípulo radical é a sim plicidade

— especialm en te em questões qu e envolvem bens e dinheiro.
M encionam os algo sobre m aterialism o no capítulo 1.
E m m arço de 1980, n a In glaterra, houve a C o n su lta
In tern acion al Sob re Estilo de V id a Sim ples. Seu im pacto
foi peq u en o e o assun to n ão recebeu a devida aten ção na
época ou desde então. A ssim , qu ero apresentar alguém que
p articipou d a con su lta e cuja vida foi in flu en ciad a p o r ela.

Uma vida simples
D an Lam n asceu e cresceu em u m lar cristão em H o n g K ong.
Seu pai m orreu q u an d o ele era m en in o e su a m ãe criou a
fam ília sozinha. E la era u m a m u lh er b o a e p ied o sa. A o s
d o m in gos, apesar de serem pobres, ela dava algum din heiro
a cada u m d o s filhos para eles darem de oferta. N o en tanto,
D a n pegava su a parte, saia sorrateiram en te da igreja, alugava
u m a bicicleta e andava pela cidad e inteira. Q u a n d o o culto
term inava, ele aparecia e voltava para casa com a fam ília. D e
acordo com u m de seus ex-colegas de classe, ele era “u m a
criança m u ito difícil” .

54

0 DISCÍPULO RADICAL

N a adolescência, ele ficou tão doen te que quase m orreu.
Foi então que en tendeu que D eu s queria o seu “bem , não
o seu m al” , e subm eteu a vida ao Sen h or Jesu s C risto. Ele
n u n ca olh ou para trás. Foi u m a m u dan ça radical em sua
vida, para a su rpresa e o alívio d a fam ília.
Q u a n d o chegou a h ora de trabalhar, ele foi em pregado
pela C o rp o raçã o Bechtel, u m a m u ltin acion al d ed icad a à
en gen haria pesada. E m m om en tos diferentes, eles se envol­
veram n a con strução de aeroportos e po rto s, n o su porte às
vítim as de furacões, na con strução do “C h u n n e l” (o Eurotúnel que liga a Inglaterra à França) e n o BA RT, o sistem a
de trânsito que cobre a baía de S ã o Francisco. D an n ão se
envolveu pessoalm ente com todos esses projetos, m as chegou
a ser responsável po r centenas de em pregados.
E m 1976, a co m p an h ia o tran sferiu com a fam ília para
a A ráb ia S a u d ita e, em 1978, para L on d res. Foi q u an d o
m e en con trei com ele e su a esp o sa, G race, pela prim eira
vez, p o is se filiaram à Igreja A li So u ls, L an gh am Place, da
q u al eu era reitor. E éram o s m em b ros d o m esm o gru p o de
c o m u n h ão .
D a n tinh a m u ita preocu pação com os pobres e necessi­
tados e era generoso com a fam ília e com a igreja, apesar de
seu estilo de vida m od erado . Porém, ele estava com eçan do
a sentir a pressão dos negócios. Foi nessa época que aconte­
ceu a C o n su lta So b re E stilo de V id a Sim ples. E os desafios
surgiram . A pesar de sem pre entregar o dízim o do salário,
D an en tendeu que deveria sim plificar ain d a m ais seu estilo
de vida. E m visita à ín d ia, ele viu a verdadeira pobreza e
observou que u m a porcen tagem m uito elevada d o s fu n dos
d a m issão era gasta com despesas gerais. Ele resolveu não
acu m ular riqueza, m as ofertá-la.

SIMPLICIDADE

E m 1981, p ed iu dem issão d a Bechtel. N ã o que se sentisse
incapaz de servir a D eus em u m a corpo ração m u ltin acion al,
pois Jesu s C risto era o S en h o r de to d a a vida. A q u estão é
que ele se sentia especificam en te ch am ad o para os países
do sudeste da Á sia, à qual ele pró p rio pertencia: T ailân dia,
L aos e C am b o ja, ju n tam en te com M ian m ar e M on gólia. Ele
com preen deu e aplicou os prin cípios nativos n a m issão. Ele
cria firm em ente no en sin o e n o trein am en to de asiáticos
para gan h ar asiáticos e prepará-los para m issões. Ele ficou
m otivado ao saber que a m aioria d a população do m u n d o vive
n a Á sia. A lém d o m ais, é m u ito m ais econ ôm ico e eficiente
para os n acion ais asiáticos gan h arem asiáticos, já qu e eles
n ão têm problem as com a cultura, o idiom a, a alim en tação
e as restrições de viagens.
D an com eçou a prim eira E scola Bíblica d a M on gólia; e
a E scola Bíblica em P h nom Penh (C am b o ja) foi registrada
em seu n om e, apesar de atualm en te se cham ar P h n om Penh
B ible Sch ool. A s expectativas em torn o desse crescim ento
significativo eram altas. Porém, elas n ão du rariam m uito.
D an foi subitam ente tirado d a liderança. E m 22 de m arço
de 1994, envolveu-se em u m acidente aéreo fatal. Ele estava
vo an d o em u m A irbus russo (A eroflot, voo 593 de M oscou
p ara H o n g K ong) qu e b ateu em u m a m o n tan h a. O s 75
passageiros e a tripulação m orreram . O acidente aconteceu
porqu e o filho de u m dos pilotos estava n a cabine b rin can do
com os controles.
G race, viúva de D an , e os d o is filh os p eq u en o s (Wei
W ei e Ju stin ) ficaram devastados. Porém, a obra d o S en h o r
con tin u ou .
Providencialm ente, a irm ã m ais velha de D an , W in nie,
e o m arido, Jo sep h , estavam em con dições de assum ir. Eles

0 DISCÍPULO RADICAL

h aviam v ia ja d o p a ra os cam p o s d a m issão n a q u a l D a n
trabalhava e conheciam pessoalm ente os líderes asiáticos com
os quais ele cooperava. E D an havia estabelecido duas bases —
u m a privada, que ele com eçou com fu n dos próp rios, e um a
en tidade pública de caridade ch am ada C o u n try Network.
Por m eio dessas fu n dações, o trabalho sin gular do q u al ele
havia sid o p ion eiro pôde continuar.
E o legado de D an co n tin u ará na Á sia p o r m eio dos
cristãos que ele in flu en ciou , e tu do p o r causa do estilo de
vida sim ples a d o tad o p o r ele. “O sem in ário sobre estilo
de vida sim ples” , disse-me G race em u m a carta, “m u d o u a
todos n ó s” .
A ssim , deixe-me apresentar a C o n su lta So b re Estilo de
V id a Sim ples e o com pro m isso evangélico com u m estilo de
vida sim ples que tan to in flu en ciou D an.

Compromisso evangélico com um estilo de
vida simples
Introdução
“V id a ” e “ estilo d e v id a ” são expressões qu e ob viam en te
se p erten cem , n ão p o d e n d o , p o rtan to , separar-se u m a da
o u tra. T o d o s os cristãos dizem ter recebido de Je su s C risto
u m a n ova vida. M as q u al o estilo de vida certo? Se a vida
é nova, o estilo de v id a precisa ser novo tam b ém . M as que
características ele precisa ter? C o m o distingui-lo em p articu ­
lar d o estilo de vida d o s qu e n ão professam o cristian ism o?
E de qu e m an eira ele deve refletir os d esafio s d o m u n d o
c o n te m p o rân eo : su a alien ação tan to em relação a D eu s
com o em relação aos recu rso s d a Terra, qu e ele criou para
gozo de todos?

SIMPLICIDADE

Todos os cristãos dizem ter recebido de
Jesus Cristo uma nova vida. M as qual o
estilo de vida certo?

F oram q u estões com o essas que levaram os participan tes
do C o n gresso de L au san n e sobre Evangelização M u n d ial
(1974) a in clu ir n o parágrafo 9 d o seu Pacto o segu in te
texto:
Todos nós estamos chocados com a pobreza de milhões de
pessoas e abalados pelas injustiças que a provocam. Nós,
que vivemos em sociedades afluentes, aceitamos como
obrigação desenvolver um estilo de vida simples a fim de
contribuirmos mais generosamente tanto para a assistência
social como para a evangelização.
E ssas palavras têm sido m uito debatidas, e tornou-se claro
que suas im plicações carecem de exam e cuidadoso.
D e m an eira que o G ru p o de T rab alh o sobre T eologia e
E du cação d a C o m issão de L au san n e para a Evangelização
M unciial e o G ru p o de E stu d os sobre Ética e S o cied ad e da
C o m issão T eológica da A lian ça Evangélica M u n d ial con cor­
daram em patrocin ar um program a de estudos de dois anos,
c u lm in an d o n u m en co n tro in tern acion al. G ru p o s locais
reuniram -se em quinze países. C on gressos regionais foram
realizados n a ín d ia, na Irlanda e nos E stado s U n id o s. Então,
de 17 a 21 de m arço de 1980, n o C en tro de C on ferên cias

58

O DISCÍPULO RADICAL

de H igh Leigh (cerca de 25 quilôm etros ao norte de Londres, Inglaterra), realizou-se a C o n su lta In tern acion al Sobre
Estilo de V id a Sim ples, ten do a ela com parecido 85 líderes
evangélicos de 27 países.
N o sso p rop ósito era estu dar o viver sim ples em relação
à evangelização, à assistência e à justiça, con sid eran d o que
todos esses itens con stam n a declaração de L au san n e sobre
estilo de vida sim ples. N ossa perspectiva, p o r um lado, era o
en sin o da Bíblia; p o r outro, o m u n d o sofredor, ou seja, os
bilh ões de pessoas, hom en s, m ulheres e crianças que, em bo­
ra criados ã im agem de D eu s e p o r ele am ad os, ou n ão são
evangelizados, ou são op rim idos, o u am bas as coisas juntas,
sen d o pois destitu ídos d o evangelho da salvação, bem com o
das n ecessidades básicas d a vida hum an a.
D uran te os q u atro dias de duração da C o n su lta, vivemos,
louvam os e oram os ju n to s; estu dam os as Escrituras juntos;
ou vim os a leitura de vários trabalhos (a serem reu n id os em
livro) e algu n s testem u n h o s com o ven tes; esforçam o-n os
p o r inter-relacionar as q u estões teológicas e econ ôm icas,
debatendo-as tan to nas sessões plenárias com o em pequ e­
n os grupos; rim os, choram os, arrependem o-nos e tom am os
resoluções. E m b ora n o início sen tíssem os certa tensão entre
representantes do Prim eiro e Terceiro M u n d o s, no final o
Espírito San to, que cria a u n id ade, encam inhou-nos a um a
nova solid ariedade de respeito e am or m útuos.
A cim a de tudo, em penham o-nos em nos expor com hones­
tidade aos desafios tanto da Palavra de D eus com o do m undo
necessitado, a fim de discernir a vontade de D eus e procurar sua
graça para cumpri-la. A o longo desse processo nossas mentes se
desdobraram , nossa consciência tornou-se mais aguda, agitaramse nossos corações e nossa vontade saiu fortalecida.

SIMPLICIDADE

R econ h ecem os que ou tros já vêm d iscu tin do esse assu n ­
to há vários an os e, con stran gidos, n os colocam os ao lado
deles. Por isso n ão desejam os sobrevalorizar n o ssa C o n su lta
e n osso com prom isso. N em tem os razão para n os van glo­
riar. Todavia, aquela foi para n ós u m a sem an a histórica e
tran sform adora. D e m an eira que, ao colocarm os este livreto
em circulação, n o in tuito de com ele auxiliarm os o estu do
de in divíduos, grupos e igrejas, fazêmo-lo com oração e na
m ais firm e esperan ça de que n u m ero sos cristãos se sin tam
m ovidos, assim com o n ós tam b ém o fom os, a u m a decisão
que leva ao com pro m isso e à ação.
J o h n S tott

Presidente do Grupo de Trabalho sobre Teologia e Educação da
Comissão de Lausanne para a Evangelização M undial
R o NALD ). SlDER

Presidente do Grupo de Estudos sobre Ética e Sociedade da
Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial
O u tu b ro de 1980
Prefácio
D u ran te os qu atro dias em qu e estivem os reu n id os, 85
cristãos de 27 países, refletim os sobre a decisão expressa no
Pacto de L au san n e de “desenvolver u m estilo de vida sim ­
ples” . P rocuram os ouvir a voz de D eu s através das páginas
da Bíblia, d o s gritos dos pobres fam intos, e através u n s dos
outros. E crem os qu e D eu s falou con osco.
A grad ecem os a D eu s p o r su a salvação através de Jesus
C risto, p o r su a revelação n a Escritura, que é a luz de n osso
cam in ho, e pelo p o d er d o E spírito S an to que n os faz teste­
m u n h as e servos no m undo.

60

O DISCÍPULO RADICAL

E stam os perturbados com a injustiça que existe no m undo,
preocupados por suas vítim as, e arrependidos por n ossa cum ­
plicidade nisso tudo. T am bém fom os m ovidos a tom ar novas
decisões, cujo conteúdo expressam os neste C om prom isso.
1. Criação
A d o ra m o s a D eu s com o o C riad o r de todas as coisas e
celebram os a b o n d ad e de su a criação. E m sua generosidade,
ele n os tem dad o tu do para desfrutarm os, e recebem os tudo
de suas m ãos com h u m ildade e ação de graças ( lT m 4.4). A
criação de D eu s é caracterizada pela diversidade e rica ab u n ­
dância. Ele quer qu e seus recursos sejam b em adm in istrados
e repartidos para o benefício de todos.
Portanto, den u n ciam o s a destruição am bien tal, o desper­
dício e a acum ulação. D ep lo ram os a m iséria dos pobres que
sofrem em conseqüência desses m ales. T am bém discordam os
d a vida in sípida do asceta. Pois tu do isso nega a b o n d ad e do
C riad o r e reflete a tragédia da queda. R econ h ecem os n osso
envolvim ento nestes m ales e n os arrepen dem os.
2. Mordomia
Q u an d o D eus fez o hom em , m acho e fêm ea, à sua própria
im agem , lhe deu o dom ín io sobre a Terra (G n 1.26-28). Ele os
fez m ordom os de seus recursos, e eles se tornaram responsáveis
perante ele com o C riador, diante da Terra que lhes cabia de­
senvolver, e diante de seus sem elhantes, com quem haveriam
de partilhar suas riquezas. Essas verdades são tão fundam entais
que a verdadeira autorrealização hum ana depende de um a
relação justa com D eus, com o próxim o e com a terra e todos
os seus recursos. A hum anidade das pessoas é reduzida quando
elas n ão participam desses recursos na justa m edida.

SIMPLICIDADE

Se form os m ord o m os infiéis, d eixan d o de con servar os
recursos finitos da Terra, de desenvolvê-los ou de distribuí-los
com justiça, tanto desobedecem os a D eu s com o alienam os as
pessoas de seu prop ósito para com elas. Portanto, resolvem os
h o n rar a D eu s com o d o n o de todas as coisas; lem brar que
so m os m ordo m os e não proprietários de q u alq u er terra ou
p rop riedade que p o ssu ím os, e qu erem os usá-las a serviço de
outros; e resolvem os trabalh ar para que haja justiça para os
pobres, que são explorados e im p o ssib ilitad os de se defen­
derem .
E speram os a restauração de todas as coisas n a volta de
C risto (At 3.21). N essa ocasião n o ssa h u m an id ad e será ple­
nam ente restau rada, de m o d o qu e precisam os prom over a
d ign idade h u m an a hoje.
3. Pobreza e riqueza
A firm am o s que a pobreza in voluntária é u m a ofen sa con ­
tra a b on d ad e de D eus. N a Bíblia, a pobreza aparece associada
à im potência, pois os pobres n ão têm m eios de se proteger. O
apelo de D eu s às au toridad es é n o sen tido de que u sem sua
força para defen der os pobres, n ão para explorá-los. A igreja
precisa ficar ao lado de D eus e do s pobres contra a injustiça,
sofrer com eles e apelar às au toridad es para que cum p ram o
papel que lhes foi determ in ado p o r D eus.
M uito n os esforçam os para abrir n ossas m entes e n ossos
corações às palavras in cô m od as de Jesu s acerca d a riqueza.
D isse ele: “T ende cuidado e guardai-vos de to d a e qu alqu er
avareza; po rq u e a vida cie um h o m em n ão consiste n a ab u n ­
d ân cia dos ben s qu e ele p o ssu i” (Lc 12.15). O u v im o s sua
advertência acerca dos perigos d a riqueza. Pois a riqueza traz
tribulação, vaidade e falsa segurança, a opressão dos pobres

62

| 0 DISCÍPULO RADICAL

e a in diferen ça p ara com o so frim en to d o s n ecessitad o s.
D e m a n e ir a q u e é fá c il u m r ic o e n tr a r n o r e in o d o
c éu (M t 19.23), e de lá será excluído o avarento. O reino é
u m a dádiva oferecida a todos, m as o que ele é, de m aneira
especial, são b oas novas para os pobres, dad o que são eles
que recebem m ais benefícios em conseqüência das m udanças
im plan tadas pelo reino.
C rem os que Jesu s cham a algum as pessoas (talvez até m es­
m o nós) para segui-lo n um estilo de vida que inclui a pobreza
total e voluntária. Ele cham a todos os seus seguidores a buscar
u m a liberdade interior em face da sedução das riquezas (pois é
impossível servir a D eus e ao dinheiro) e a cultivar um a genero­
sidade sacrificial (“sejam ricos de boas obras, generosos em dar
e prontos a repartir”, 1 T im óteo 6.18). D e fato, a m otivação e
m od elo d a generosidade cristã é n ad a m en os que o exem plo
d o pró p rio Jesu s C risto, que, em bora rico, se torn o u pobre
para que, através de su a pobreza, pu déssem os n os tornar
ricos (2 C o 8.9). Foi esse u m gran de sacrifício intencional.
N o sso prop ósito é buscar su a graça para segui-lo. Resolvem os
con hecer pessoalm en te pessoas pobres e op rim idas, e ouvir
o que elas po d em n os dizer sobre injustiças específicas, para
dep ois procurar aliviar seu sofrim en to e incluí-las regular­
m ente em n ossas orações.
4. A nova comunidade
R egozijam o-nos po r ser a igreja a nova com u n id ad e da
nova era, cujos m em bros gozam de vida nova e de novo estilo
de vida. A igreja cristã prim itiva, con stituída em Jerusalém
no dia de Pentecostes, caracterizava-se po r u m tipo de vida
com u n itária até en tão descon h ecida. A queles crentes cheios
d o E spírito am avam uns aos outros a po n to de venderem e

SIMPLICIDADE

repartirem seus bens. E m b o ra o fizessem volu n tariam ente,
e algum as prop riedades privadas fossem retidas (At 5.4), isso
foi feito em subserviência às n ecessidades da com u n id ad e.
“N en h u m deles dizia ser seu o qu e p o ssu ía” (At 4.32). Isto é,
eram livres da afirm ação egoísta d o s direitos de propriedade.
E com o resultado de suas relações econôm icas transform adas,
“n ão havia um n ecessitado seq u er entre eles” (At 4.34).
Esse princípio de divisão generosa e d espojada, expressado
no ato de nos colocarm os a nós e aos n ossos ben s disponíveis
aos n ecessitados, é u m a indispensável característica de toda
igreja cheia d o Espírito. D e m an eira que nós, que tem os tudo
que precisam os em ab u n dân cia, seja qual for n osso país de
origem , resolvem os fazer mais para aliviar as necessidades cios
crentes m en os privilegiados. D o con trário, serem os com o
aqueles ricos cristãos em C o rin to qu e com iam e b eb iam
dem ais en q uan to seus pobres irm ãos e irm ãs passavam fom e,
e en tão m erecerem os a firm e reprovação com qu e Paulo os
adm o estou , p o r desprezarem a igreja de D eus e profan arem
o C o r p o de C risto ( I C o 11.20-24). A o invés d isso , reso l­
v em o s im itá-los n u m estágio p o sterio r, q u a n d o P au lo os
in stig o u a p a r tilh a r su a a b u n d â n c ia de r e c u rso s c o m os
c ristã o s e m p o b re c id o s d a Ju d e ia , “ p ara q u e h a ja ig u a l­
d a d e ” (2 C o 8.10-15). Foi um a bela dem onstração de am or e
com paixão, e de soliciariedade gentílico-judaica em Cristo.
N o m esm o espírito, devem os procurar m eios de tocar a
vida com u n itária d a igreja com o m ín im o de gastos em itens
com o viagens, alim entação e acom odação. C o n clam am o s as
igrejas e as agências paraeclesiásticas para que, em seus pla­
n ejam en tos, se conscientizem da necessiciade de se m anter
a integridade tan to no estilo de vida da com u n id ad e q u an to
n o testem unh o.

0 DISCÍPULO RADICAL

C risto pede que sejam os sal e luz do m undo, a fim de impedirm os su a decadência social e ilum in arm os suas trevas. M as
n o ssa luz precisa brilhar e n o sso sal precisa reter seu sabor.
S ó q u an d o a nova co m u n id ad e se m ostra m ais claram ente
distinta do m u n d o em seus valores, pad rões e estilo de vida,
é que ela apresenta ao m u n d o u m a alternativa radicalm ente
atraente, e assim exerce su a m aior in flu ên cia p o r C risto.
C om prom etem o-n os a orar e trabalhar pela renovação de
n ossas igrejas.
5. Estilo de vida pessoal
je su s n osso Sen h or n os convoca a abraçar a san tidade, a
h u m ildade, a sim plicidade e o con tentam en to. Ele tam bém
nos prom ete seu descanso. C o n fessam o s, entretanto, que às
vezes perm itim os que desejos im puros perturbem n ossa paz
interior. D e m an eira que, sem a renovação con stan te da paz
de C risto em n ossos corações, n o ssa ênfase n o viver sim ples
será desequilibrada.
N o ssa obed iên cia cristã exige u m estilo de vida sim ples,
m esm o sem levar em con sideração as n ecessidades dos outros. E ntretan to, o fato de 8 0 0 m ilhões de pessoas estarem
na pobreza m ais ab so lu ta e 10 m il m orrerem de fom e todo
dia, torna inviável q u alq u er outro estilo de vida.
E n q u an to só alguns de n ós fom os cham ados a viver entre
os pobres, e outros a abrir seus lares aos n ecessitados, todos
estão determ in ados a desenvolver u m estilo de vida sim ples.
T en cion am os reexam inar n o ssa renda e n o sso s gastos, e fim
de gastar m enos, para que p o ssam o s doar m ais. N ã o baixa­
m os n orm as nem regulam entos, quer seja para nós m esm os,
quer seja para outros. C o n tu d o , resolvem os renun ciar ao
desperdício, e oporm o-nos à extravagância em n ossa vida

SIMPLICIDADE

pessoal, em m atéria de ro u p as e de m orad ia, de viagens e de
tem plos. T am bém aceitam os a d istin ção entre n ecessidades
e luxo, “h o b b ies” criativos e sím b o lo s de statu s vazios, m o ­
déstia e vaidade, celebrações ocasion ais e o n osso dia-a-dia, e
entre o serviço de D eus e a escravidão à m od a. O n d e traçar
o divisor de águas — eis o que requer m ais reflexão e m ais
decisão de n ossa parte, ju n tam en te com n o sso s fam iliares.
A qu eles dentre n ós que perten cem ao O cid en te n ecessitam
d a aju d a de n o sso s irm ãos d o Terceiro M u n d o a fim de
avaliarem seus gastos. N ó s que vivem os no Terceiro M u n d o
recon h ecem o s qu e tam b ém estam o s expostos à ten tação
d a avareza. D e m an eira que precisam os da com preen são,
estím u lo e orações u n s d o s ou tros.
6. Desenvolvimento internacional
E coam o s as palavras d o Pacto de L au san n e: “E stam os
chocados com a pobreza de m ilhões, e perturbados com as in­
justiças que a p rod uzem ” . U m q u arto da p o pu lação m u n d ial
goza de prosp erid ad e sem paralelo, en q uan to ou tro q u arto
padece d a m ais opressiva pobreza. E ssa bru tal d isp arid ad e é
u m a injustiça; recusam o-nos a n os con form arm os com ela.
O apelo p o r um a N ova O rd em E con ôm ica In tern acion al
expressa a ju stificad a frustração d o Terceiro M un do.
C h egam os a um entendim ento m ais claro da ligação entre
recursos, renda e consum o: as pessoas com frequência m orrem
de fom e porque não podem com prar com ida, porque não têm
rendim ento, não têm op ortun idade para produzir, e porque
não têm acesso ao poder. Portanto, aplaudim os a crescente
ênfase das agências cristãs n o desenvolvim ento, de preferência
à ajuda sim plesm ente. Pois a transferência de pessoal e tecnolo­
gia apropriada pode capacitar as pessoas a fazerem b om uso de

0 DISCÍPULO RADICAL

seus próprios recursos, enquanto ao m esm o tem po respeita sua
dignidade. Resolvem os contribuir mais generosam ente para os
projetos de desenvolvim ento hum ano. O n de vidas hum anas
estão em jogo, nunca deveria haver carência de fundos.
M as a ação governam ental é essencial. A queles dentre nós
que vivem nos países m ais ricos sentem-se constrangidos pelo
fato de que a m aioria cie seus governos fracassou no propósito
de atingir seus alvos n o tocante à assistência oficial ao desen ­
volvim ento, ã m an uten ção de víveres estocados para casos de
em ergência ou à liberalização de su a política com ercial.
C h egam o s à con clusão de que em m uitos casos as m ul­
tin acion ais reduzem a iniciativa local n os países on de op e­
ram , e ten dem a opor-se a q u alq u er m u dan ça fu n d am en tal
n o governo. E stam o s con ven cid o s de que elas deveriam
subm eter-se m ais ao controle e serem m ais responsáveis pelo
que fazem.
7. Justiça e política
T am bém estam os convencidos de que a presente situação
de injustiça social é tão repulsiva a D eus, que u m a m u dan ça
bem am pla é necessária. N ã o que creiam os em utopias ter­
restres. M as tam pou co so m os pessim istas. A m u d an ça pode
vir, em bora n ão sim plesm en te através do com prom isso com
um estilo de vida sim ples ou através de projetos de desenvol­
vim ento hu m an o.
Pobreza e riqueza excessiva, m ilitarism o e in dú stria arm am en tista, e a distribu ição in ju sta de capital, de terra e de
recursos con stituem problem as que têm a ver diretam ente
com p o d er e im potência. Sem u m a m u dan ça de p o d er atra­
vés de m u dan ças estruturais, esses problem as n ão poderão
ser resolvidos.

SIMPLICIDADE

A igreja, ju n ta m e n te com o resto d a so cie d ad e , está
inevitavelm ente envolvida n a política, qu e é “a arte de viver
em c o m u n id ad e” . O s servos de C risto precisam expressar o
sen h orio dele em seus com pro m isso s políticos, econ ôm ico s
e sociais, e em seu am or por seu próxim o, particip an d o do
processo político. C o m o , então, p o d em o s con trib u ir para a
m udança?
E m prim eiro lugar, orarem os pela paz e pela justiça, com o
D eu s orden a. E m segu n do lugar, procu rarem os edu car o
povo cristão nas questões m orais e políticas envolvidas, es­
clarecendo assim su a visão e levan tan do suas expectativas.
E m terceiro lugar, agirem os. A lgu n s cristãos são ch am ad os
a exercer tarefas im po rtan tes ju n to ao governo, n o setor
econ ôm ico ou em assun tos de desenvolvim ento. T od o s os
cristãos devem participar ativam ente do esforço pela criação
de u m a so ciedade ju sta e responsável. E m algum as situações,
a ob ed iên cia a D eus exige resistência a um sistem a injusto.
E m q u arto lugar, precisam os estar preparad os para sofrer.
C o m o seguidores de Jesus, o Servo Sofredor, sab em o s que
o serviço sem pre envolve sofrim en to.
O com pro m isso pessoal em term os de m u dan ça de estilo
de vida não será eficaz se n ão houver ação política, visan do
à m u d an ça dos sistem as in justos. M as a ação política sem
com pro m isso pessoal é in ad eq u ad a e incom pleta.
8. Evangelização
E stam os profu n dam en te preo cu p ad os com os m u itos m i­
lhões de p essoas n ão evangelizadas espalh adas pelo m u n d o.
N ad a do qu e foi dito sobre estilo de vida ou ju stiça d im in u i
a urgência d o desenvolvim ento de estratégias evangelístícas
ap ro p riad as aos diferentes m eios culturais. N ã o devem os

0 DISCÍPULO RADICAL

d eixar de p ro clam ar C risto co m o S a lv a d o r e S e n h o r de
tod o o m u n d o . A igreja ain d a n ão está levan do a sério su a
m issão de agir com o testem u n h a dele “até os co n fin s d a
terra” (A t 1.8).

Quando os cristãos se importam uns com os
outros, e com os pobres, Jesus Cristo se torna
mais visivelmente atraente

D e m an eira que o apelo po r u m estilo de vida responsável
n ão deve estar divorciado d o apelo por um testem u nh o res­
ponsável. Pois a credibilidade de n ossa m en sagem d im in u i
seriam ente sem pre que a contradizem os com n ossas vidas. E
im possível proclam ar, com integridade, a salvação de C risto,
se ele, evidentem ente, n ão n os salvou d a cobiça, ou procla­
m ar seu sen h orio se n ão so m os b o n s m ord o m os de n ossas
posses; ou proclam ar seu am o r se fecharm os n ossos corações
para os n ecessitados. Q u a n d o os cristãos se im po rtam uns
com os outros, e com os pobres, Jesu s C risto se torn a m ais
visivelm ente atraente.
C on trastan d o com isso, o estilo d e v id a afluente de alguns
evangelistas ocidentais, q u an d o em visita ao Terceiro M undo,
é com preensivelm ente ofensivo a m uita gente.
A creditam os que o viver sim ples da parte do s cristãos em
geral liberaria consideráveis recursos finan ceiros e pessoais
tan to para a evangelização com o para atividades desenvolvim entistas. D e m an eira que, através do com pro m isso com

SIMPLICIDADE

um estilo de vida sim ples, reassu m im os novam ente, de todo
o coração, a evangelização m u n d ial.
9. 0 retorno do Senhor
O s p rofetas d o V elho T estam en to d en u n c iaram a id o ­
latria e as in ju stiças d o povo de D eu s, e advertiram p ara a
v in d a d o juízo. D en ú n cias e advertên cias sem elh an tes são
en co n trad as n o N ov o T estam en to . O S e n h o r Je su s virá
em breve julgar, salvar e reinar. S e u juízo cairá so b re os
c o b iço so s (qu e são idó latras) e so b re to d o s os o p ressores.
Pois, n esse dia, o R ei sen tará em seu tro n o e sep ara rá os
salvos d o s p erd id o s. A q u eles q u e serv iram a ele, serv in d o
aos m ais p eq u en in o s de seu s irm ãos carentes, serão salvos,
p o is a realid ad e d a fé que salva é visível n o am o r serviçal.
M as os q u e se m an tê m p ersiste n tem en te in d iferen tes à
situ ação d o s n ecessitad o s, e assim a C risto neles, esses es­
tarão irreversivelm ente p erd id o s (M t 25.31-46). T o d o s n ós
precisam o s ou vir de novo essa so len e advertên cia de Je su s,
e resolver de novo servir a ele n a p esso a d o n ecessitad o .
P ortan to, co n clam am o s n o sso s irm ãos em C risto , em to d a
parte, a fazer o m esm o.
Nossa resolução
T en d o , p o is, sid o lib e rta d o s p elo sacrifício de n o sso
Se n h o r Jesu s C risto, em ob ed iên cia a seu cham ado, e em
sincera com paixão pelos pobres, preocu pad os com a evan­
gelização, com o desenvolvim ento e com a ju stiça, e em
solen e an tecipação d o D ia d o Juízo, n ós, hu m ildem en te,
n os com prom etem os a desenvolver um estilo de vida justo
e sim ples, a ap o iar uns aos ou tros nele e a estim ular outras
pessoas a se unirem a nós nesse com prom isso.

O DISCÍPULO RADICAL

Sab em o s que precisarem os de tem po para levar a cabo
suas im plicações, e que a tarefa n ão será fácil. Q u e o D eus
Todo-Poderoso n os con ceda su a graça para perm anecerm os
fiéis! A m ém .
*

O

*

*

Compromisso evangélico com um estilo de vida simples é um

d o cu m en to longo. A ssim , deixe-me destacar suas ênfases:
1. A nova comunidade: A legram o-nos porqu e a igreja é des­
tin ad a a ser a nova com u n id ad e de D eus, a qual dem onstra
novos valores, novos pad rõ es e um novo estilo de vida.
2. Estilo de vida pessoal: n ão estabelecem os regras ou regu­
lam entos. Porém , com o cerca de 10 m il pessoas m orrem de
fom e todos os dias, nos determ in am os a sim plificar n osso
estilo de vida.
3. Desenvolvimento internacional: estam os chocados com a
pobreza de m ilhões e decid im os con tribuir m ais generosa­
m ente com projetos de desenvolvim ento h u m an o. Porém, a
ação governam ental é essencial.
4. Justiça e política: acreditam os que a situ ação atual de
injustiça social é detestável para D eus e que m udanças podem
e devem acontecer.
5. Evangelismo: estam os profu ndam ente p reocu pados com
os m ilhões de pessoas não evangelizadas. O desafio de um
estilo de vida sim ples n ão deve estar separado do desafio de
u m testem unh o responsável.
6. O retorno do Senhor: acreditam os que, q u an d o Jesu s
retornar, aqueles que o serviram p o r m eio do serviço aos
peq u en in o s serão salvos, pois a realidade d a fé salvadora é
d em o n strad a n o am or servil.

Capítulo 6

EQUILÍBRIO

antigo D u q u e de W in dsor, que po r um curto perío do
de tem po foi o Rei E d u ard o 8, m orreu em Paris em m aio
de 1972. N aq u ela noite, um interessante d o cu m en tário foi
apresentado n a televisão britânica. Incluía partes extraídas de
film es que m ostravam E d u ard o 8 sen d o q u estion ad o a res­
peito de su a educação, seu breve rein ado e sua abdicação.
L em b ran do-se de seu p assad o , ele disse: “M eu p ai [o
rei G eorge 5] foi um rígido disciplin ador. Q u a n d o eu fazia
algo errado, ele às vezes m e advertia dizendo: ‘M eu qu erido
m en ino, você deve sem pre se lem brar de quem é” ’. Se ele
apenas se lem brasse cie qu e era um príncipe real destin ad o
ao trono, n ão se com po rtaria de form a in adequ ada.
A pergun ta é: quem so m o s nós? E não há n o N ovo Tes­
tam en to u m texto que apresente u m registro m ais variado
e e q u ilib r a d o d o q u e sig n ific a ser u m d isc íp u lo d o q u e
1 Pedro 2.1-17:
Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hi­
pocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai
ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno
leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento

0 DISCÍPULO RADICAL

para salvaçao, se é que já tendes a experiência de que o
Senhor é bondoso.
Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pe­
los homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também
vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa
espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes
sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de
Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura:
Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa;
e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado.
Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade;
mas, para os descrentes, A pedra que os construtores rejei­
taram, essa veio a ser a principal pedra, angular e: Pedra de
tropeço e rocha de ofensa.
São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes,
para o que também foram postos. Vós, porém, sois raça
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade
exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtucies daquele
que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós,
sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de
Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora,
alcançastes misericórdia.
Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois,
avos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra
a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio
dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros
como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras,
glorifiquem a Deus no dia da visitação.
Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor,
quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como
enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como
para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a von­
tade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a

EQUILÍBRIO

ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando,
todavia, a liberdade por pretexto cia malícia, mas vivendo
como servos de Deus. Tratai todos com honra, amai os
irmãos, temei a Deus, honrai o rei.
E m u m a série de m etáforas variadas, o apó stolo ilustra
q u em so m o s n ós. C a d a u m a delas carrega co n sig o u m a
obrigação correspondente. Ju n ta s elas p o d em ser cham adas
cristianismo, de acordo com Pedro.

Bebês
Pedro com para seus leitores a bebês recém -nascidos porq u e
eles nasceram de novo (lP e 1.23). M as o que é o novo n asci­
m ento? D izer que é o que acon tece q u an d o so m o s batizados
com o m em bros da igreja é u m erro. D e fato, o b atism o é o
sacram en to d o novo nascim ento. Isto é, ele é u m a dram a­
tização externa e visível do novo n ascim ento. Porém , não
devem os con fu n d ir o sím b olo com a realidade, ou a placa
com o que é represen tado.
O novo n ascim ento é u m a m u d an ça profu n da, interior e
radical, realizada pelo Espírito San to em n ossa p erson alidade
h u m an a, qu e nos concede u m novo coração e u m a nova vida
e n os faz u m a nova criatura. A lém do m ais, com o Je su s afir­
m ou em su a conversa com N ico d em o s, ele é indispensável.
“Im porta-vos nascer de n ovo” Qo 3.7), disse ele.
O prob lem a é que n ão em ergim os do novo n ascim ento
com o en ten d im en to e o caráter de u m cristão m adu ro,
n em com asas angelicais totalm ente desenvolvidas (!), m as,
em vez d isso , “ co m o c rian ças recém -n ascid as” — fracas,
im aturas, vulneráveis e, acim a de tu do, precisan do crescer.
E p o r isso que o N ovo T estam en to fala d a necessidade de

0 DISCÍPULO RADICAL

crescer em conhecim ento, san tidade, fé, am or e esperança.
A ssim , Pedro escreve que seus leitores devem “crescer” em
su a salvação (v. 2). Isso quer dizer que eles devem se desfazer
de “to d a m aldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda
sorte de m aledicên cias” (v. 1), pois (deduz ele) essas coisas
são infantis. E ntão devem os deixá-las e crescer na sem elhança
com C risto.
Porém , com o devem os crescer? T en d o em m ente a figura
de um bebê recém -nascido, ob serv am os no versículo 2 a
referência de Pedro ao “gen u ín o leite esp iritu al” : “ D esejai
arcientem ente, com o crian ças recém -nascidas, o gen u ín o
leite espiritual, para que, po r ele, vos seja d ad o crescim ento
p a ta salvação” .
E m ou tras palavras, assim com o, para u m a criança, o
segredo d o crescim ento saudável é a regularidade de um a
dieta correta, a alim entação diária e disciplin ada é a principal
con dição para o crescim ento espiritual.
E n tão que leite devem os con su m ir para crescer em m a­
tu rid ade cristã? D e acordo com a Bíblia A lm eida Revista e
A tualizada, é o “gen u ín o leite espiritu al” . O adjetivo grego é
logikos. E ssa palavra p o d e ter o significado literal de “m etafísi­
c o ” , op osto ao leite da vaca, ou “racion al” , que quer dizer ali­
m en to para a m ente e para o corpo, ou “ a palavra de D e u s” ,
com o em 1 Pedro 1.23. A Palavra de D eus certam ente é tão
indispensável para o n osso crescim ento espiritual q u an to o
leite m aterno para o crescim ento do bebê. “D eseje-o arden­
tem en te” , incentiva Pedro, “se é que já tendes a experiência
de que o Sen h or é b o n d o so ” (lP e 2.3). O teólogo Edw ard
G o rd o n Selwyn, em seu com en tário,1 sugere qu e Pedro tem
em m ente “o ardor de u m a criança am am en tad a” . Pedro
parece dizer: “Vocês já provaram , agora saciem -se” .

EQUILÍBRIO

N a vida cristã a disciplina diária é um a profunda necessidade.
W illiam Tem ple, arcebispo de C an terb u ry durante a Segu n d a
G u e rra M un dial, disse para u m a m u ltidão de jovens:
A lealdade dos jovens cristãos deve ser primeira e princi­
palmente ao próprio Cristo. Nada pode tomar o lugar do
tempo diário de comunhão íntima com o Senhor [...]. De
alguma forma, encontre tempo para isso e assegure-se de
que é uma experiência verdadeira.

Pedras
A segu n da m etáfora que Pedro apresen ta é a de pedras vivas
(lP e 2.4-8). Ele sai do m u n d o da b iologia (n ascim en to e
crescim ento) e vai para o m u n d o d a arquitetura (pedras e
construções). Estivem os n a en ferm aria de u m a m atern id ad e
ob servan do um recém -nascido ter sede de leite; agora, vam os
observar u m prédio em con strução. Ele é feito de ped ras e
n ão tem os dificu ldad e de recon hecer que é u m a igreja. N ã o
o tipo de prédio ao qual d am o s o n om e de igreja hoje, m as
a Igreja do D eu s vivente, o povo de D eu s. C o m o as ped ras
na c o n stru ção são p esso as, Pedro as cham a “p ed ra s qu e
vivem ” .
É im portan te nos alegrarm os ao perceber qu e D eu s está
co n stru in d o a su a igreja ao red o r d o m u n d o. Pode ser qu e
algu m as religiões (antigas e m od ern as) vivenciem u m re­
nascim en to, p o d e ser que o secularism o invada a igreja d o
O cid en te, e p o d e ser que gru po s e governos hostis persigam
a igreja e ela seja forçada a se esconder. N o en tan to, a igreja
con tin u a crescendo.
N a verdade, nacia p o d e destru ir a igreja de D eu s. Jesu s
prom eteu qu e as “ portas do inferno n ão prevalecerão con tra

0 DISCÍPULO RADICAL

ela” (M t 16.18). Isto é, a igreja tem um destin o eterno. Ela
é indestrutível. O prédio cresce ped ra por pedra, até qu e
u m d ia a cum eeira é colocada n o lugar e a con strução está
com pleta.
C o m o , en tão, n os u n im o s à igreja? In gressam os à ex­
pressão visível, externa d a igreja pelo batism o. M as com o
n os torn am os parte d o povo de D eus? O bserve 1 Pedro 2.4:
“Chegando-vos para ele” , para a Pedra Viva, isto é, Jesus C ris­
to, rejeitado pelos hom ens, m as precioso para D eus, e sen d o
edificados com o casa espiritual. N o s versículos 6-8, Pedro
reúne u m a série de textos do A ntigo T estam ento (de Jerem ias
e dos Salm os) sobre pedras e rochas. Significativam ente, ele as
aplica a C risto, n ão a si próp rio. Pois Pedro n ão é a rocha na
q u al edificam os n ossa vida: C risto é a Pedra Viva, rejeitado
po r Israel, m as escolhido po r D eu s e precioso para ele.
A im plicação disso é que certam ente so m os m em bros
uns do s outros. Se os bebês precisam de leite para crescer,
as pedras precisam de argam assa para se ligarem m u tu am en ­
te. Im agine um prédio. C a d a ped ra é cim en tad a às ou tras
e assim se torna parte da con strução. N en h u m a delas fica
su sp en sa n o ar. T odas perten cem ao prédio e n ão p o d em
ser retiradas dele.
R efletin do sobre isso, apliq u em os o en sin o de Pedro a
n ós m esm os. O que Jesu s C risto significa para nós? Ele é
u m a ped ra de tropeço na q u al esfolam os a canela e caím os?
O u é a p ed ra fu n dam en tal sobre a qual estam os co n stru in d o
a vida?
A lguns an os atrás tive a o p o rtu n id ad e de m e en con trar
e con versar com H o b a rt M ow rer,2 p ro fesso r em érito de
psiqu iatria da U n iversidade de Illinois e n a época alguém
m u ito con hecido. Ele n ão era cristão e me disse ter tido u m a

EQUILÍBRIO

briga com a igreja. Segu n d o M owrer, a igreja havia falh ado
com ele em su a juventude e con tin u ava falh an do com seus
pacientes. E acrescentou: “A igreja n un ca apren deu o segredo
d a c o m u n id ad e” . E ssa é u m a das críticas m ais con den atórias
à igreja que já ouvi. Pois a igreja é com u n id ad e, ped ras vivas
no prédio de D eus.
Precisam os resgatar a visão com u n itária da igreja, das pe­
dras que vivem n o prédio de D eus. A lém d o m ais, é preciso
u m a argam assa d a m elhor qu alid ade.

Sacerdotes
A té aqui, Pedro n os com parou a recém -nascidos cujo dever é
crescer e a pedras vivas cujo dever é am ar e apoiar-se m u tu a­
m ente. A go ra ele chega à terceira m etáfora e n os com para a
sacerdotes santos cujo dever é ado rar a D eus.
Para m u ito s cristãos, tal m etáfo ra cau sa su rp resa e até
m e sm o c h o q u e . A p e sa r d isso , n ã o p o d e m o s ignorá-la.
Pedro escreve qu e D eu s n os fez tan to “sacerd ó cio sa n to ”
(v. 5) co m o “sacerd ó cio real” (v. 9). O q u e o ap ó sto lo qu er
dizer?
N a época d o A n tigo T estam en to, os sacerdotes israelitas
p o ssu íam d o is privilégios. Prim eiro, eles desfru tav am do
acesso a D eu s. O T em plo de H erod es era rod ead o pelo átrio
dos sacerdotes, de on de o povo era rigorosam ente excluído.
A p en as os sacerdotes tinh am perm issão para en trar n o tem ­
plo, e som en te o su m o sacerdote p o d ia entra n o san to dos
santos ou santuário interno —e apenas n o dia da propiciação.
Para salientar, a lei prescrevia a pen a de m orte para tod o s os
in trusos. Isso significava que o acesso a D eus era restrito ao
sacerdócio e n egado ao povo.

78

0 DISCÍPULO RADICAL

O segu n do privilégio era o oferecim ento de sacrifícios
a D eus. O povo trazia os sacrifícios e im pu n h a as m ãos so­
bre a cabeça das vítim as, tan to para se identificar com elas
qu an to para transferir, sim bolicam en te, a culpa. Porém, só
os sacerdotes tinham perm issão para m atar os an im ais para
o sacrifício, cum prir o ritual e aspergir o sangue.
N a época cio A n tigo T estam en to, o acesso e o sacrifício
eram os dois privilégios reservados estritam ente ao sacerdó­
cio.
Porém , atualm ente, e por m eio de Jesu s C risto, essa dis­
tinção entre sacerdote e povo foi abolida. O s privilégios que
antes eram lim itados aos sacerdotes, agora são com partilh a­
dos po r todos, pois tod o s são sacerciotes. T oda a igreja é um
sacerdócio. Por in term édio de C risto, todos nós gozam os do
acesso a D eus (tem os o u sad ia para entrar n a san ta presença
de D eus, H ebreus 10.19-22). Por m eio de C risto, todos nós
oferecem os a D eu s os sacrifícios espirituais da n ossa ad o ­
ração. E sse é o “sacerdócio universal dos cristãos” que os
reform adores recuperaram n a Reform a.
C laro que alguns cristãos ain d a são ch am ad os para ser
pastores, e n a Igreja A nglican a alguns pastores são cham ados
“sacerdotes” . M as n ão porq u e nos esquecem os d a herança
reform ada e defen dem os um papel sacerdotal n egado aos
leigos. É apenas porq u e a palavra priest (sacerdote) é um a
con tração de presbyter (presbítero, ancião) e n ão tem con o­
tação sacerdotal. E ssa é a razão pela qual os an glicanos do
século 17 m antiveram a palavra sacerdote n o Livro C o m u m
de O ração. N o en tanto, isso pode ser con fu so e adm iro a
sabecioria dos líderes d a igreja do S u l da ín d ia e d a Igreja do
Paquistão p o r n om earem as três ordens m inisteriais com o
“bispos, presbíteros e d iá co n o s” .

EQUILÍBRIO

Por qu e, e n ta o , os d isc íp u lo s c ristão s são c h a m a d o s
“sacerdócio san to ”? Pedro n os diz n o versículo 5:
Sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo,
a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus
por intermédio de Jesus Cristo.
A ssim , so m os sacerdotes san tos ch am ad os para cultuar a
D eus. M as isso é tudo? Será que a igreja deve ser u m a espécie
de gueto espiritual? D evem os ficar ab so rtos em n o ssa vida
interior? Será que n o sso s ún icos deveres são o crescim ento
espiritual (com o bebês), a co m u n h ão (com o pedras em um
précJio) e o culto (oferecendo a D eu s os sacrifícios espirituais
d o n osso louvor)? E o m u n d o perd id o e solitário? N ã o nos
im p o rtam o s com ele?

Povo de Deus
Tais pergun tas n os levam aos versículos 9 e 10, n os quais
Pedro desenvolve u m a q u arta m etáfora: “V ós, porém , sois
raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade
exclusiva de D e u s” .
A q u i o apóstolo com para a igreja a u m a n ação ou povo;
de fato, a propriedade exclusiva de Deus. O fascinan te nessas
expressões é a origem delas. Pedro n ão as inventou, m as
encontrou-as em E xodo 19.5-6, q u an d o D eus diz ao povo de
Israel, que tin h a acabado de ser redim ido do Egito, que se
eles m antivessem seu pacto, ob ed ecen d o aos m an dam en tos,
seriam sua propriedade mais rica (sègullâ), sua nação escolhida
de entre todas as nações da terra, u m a nação santa.
E m sua carta, e com u m a o u sad ia con cedida pelo Espírito
San to , Pedro pega as palavras de E xodo, que haviam sido
aplicadas a Israel, e as aplica à com u n id ad e cristã. “Vocês,

0 DISCÍPULO RADICAL

seguidores de Je su s” , diz ele a n ós hoje, “são o que Israel
era — u m a n ação san ta, apesar de agora serem u m a nação
in tern acion al” .
M as p o r que D eu s escolheu Israel? E p o r que ele n os esco­
lheu? N ã o foi por favoritism o, m as com o objetivo de serm os
suas testemunhas; n ão para desfru tarm os de um m o n o p ó lio
d o evangelho, m as para que p o ssam o s declarar “os louvores
(ou excelências, ou poderosos feitos) daquele que nos cham ou
das trevas para a su a m aravilhosa luz” .
Pois de u m a vez p o r todas, con tin u a Pedro, fazendo refe­
rência ao livro de O seias:
Não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não
tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes
misericórdia. Vocês estavam em trevas, mas agora estão em
sua maravilhosa luz.
A gora, portan to, n ão p o d em o s guardar essas b ên ção s só
p ara n ós.

Estrangeiros
A té aq u i Pedro n os com para a:
- B ebês recém -nascidos, com o dever de crescer
- Pedras vivas, com o dever da com u n h ão
- Sacerdotes san tos, com o dever de cultuar
- Povo d o próp rio D eu s, com o dever de testem unh ar
Pedro tem m ais duas m etáforas, e com o versículo 11 ele
apresenta a quinta: “A m ad o s, exorto-vos, com o peregrinos e
forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que
fazem guerra con tra a alm a” . A s palavras gregas são interes­
santes. “ F orasteiro” é aquele que n ão tem direitos n o lugar
on d e vive; “peregrin o” é aquele qu e não tem lar.

EQUILÍBRIO

Por qu e Pedro descreve seus leitores assim ? E m parte,
porqu e é o que eles eram , literalm ente. Eles perten ciam ao
que era con h ecid o po r “d iá sp o ra ” (lP e 1.1) e estavam espalh ados p o r tod o o Im pério R o m an o , em especial pelas cinco
províncias de Ponto, G alácia, C ap ad ócia, Á sia e Bitín ia (atual
T urquia). M as tam b ém po rq u e essas palavras sim bolizavam a
con dição espiritual deles. A go ra qu e eles haviam n ascido de
novo no reino de D eus, haviam se torn ado, de certa form a,
“peregrinos e forasteiros n a terra” . P ortanto, eles agora eram
cidad ãos de do is países. E p o r su a cid ad an ia origin al ser o
céu, eles eram cham ad os à san tidade.
E sse conceito de um a “c id ad an ia” san ta e celestial é u m a
verdade perigosa, pois pode ser facilm ente distorcida. D e fato,
ela tem sid o frequen tem ente m al utilizada e tem se torn ado
um a desculpa para não desem penharm os n ossas responsabili­
dades terrenas. K arl M arx não está totalm ente equivocado ao
afirm ar que a religião é “o óp io d o p o vo” — entorpecendo-o
para co n d escen d er às in justiças d o status quo, ao m esm o
tem po em qu e prom ete ju stiça n o m u n d o p o r vir.
Porém , Pedro é cu id ad o so em evitar essa distorção. Ele
parte d a referência à n ossa con dição de peregrinos e vai di­
reto para os n o sso s deveres de cid ad an ia n a terra. E m breve
d iscu tirem os m ais a esse respeito.

Servos
N a sexta ilustração, Pedro descreve os discípu los com o servos
conscientes de Deus (lP e 2.12-17). Ele incentiva os leitores a
viver de tal form a entre os pagãos que eles po ssam ver suas
boas obras, a subm eter-se às au toridad es seculares, a fazer o
b em e assim calar a voz ignorante dos tolos, a viver com o

0 DISCÍPULO RADICAL

povo livre, sem fazer m au u so d a liberdade, m as vivendo
com o servos de D eu s, e a m ostrar respeito para com todos:
os irm ãos n a fé, D eu s e as autoridades.
N o en tanto, apesar de todas essas tarefas terrenas com o
cidad ãos conscientes,
subm eter-se às autoridades,
silenciar as críticas,
fazer o bem ,
respeitar a todos,
- A in d a perten cem os ao céu!
- S o m o s estrangeiros e exilados na terra.
- S o m o s peregrinos voltan do para o lar, para D eus.
Esse fato (nossa cidad an ia celestial) desafia p rofu n dam en ­
te n ossas atitudes para com o dinheiro e os bens (pois vem os
a vicia com o u m a peregrin ação entre d o is m o m en to s de
nudez), para com as tragédias e o sofrim en to (pois os vem os
sob a perspectiva d a eternidade), e especialm ente para com
a tentação e o pecado.
O versículo 11 m ostra um contraste entre “paixões carnais”
e “alm a” . N ossa alm a está a cam inho de um encontro com
D eus. A ssim , devem os nos abster de tudo que possa se tornar
um obstáculo ao seu progresso, e devemos viver vidas santas
em preparação para a san ta presença de D eus no céu.

Equilíbrio
A lguns cievem se pergun tar por que intitulei este capítulo
“ E q u ilíb rio” . A razão deve ficar clara agora. Segu im os Pedro
nas seis ilustrações que se com pletam para descrever o que é
um discípulo. A q u i estão elas novam ente:

EQUILÍBRIO

- C o m o crian ças recém -n ascid as, so m o s c h a m a d o s a
crescer;
- C o m o pedras vivas, so m os ch am ad os à com u n h ão ;
- C o m o sacerdotes santos, so m o s ch am ad os à adoração;
- C o m o povo de p rop riedade de D eu s, so m os ch am ad os
ao testem unho;
- C o m o estran geiros e p eregrin os, so m o s ch am ad o s à
san tidade;
- C o m o servos de D eus, so m os ch am ad os à cidad an ia.
E ssa é u m a descrição m aravilh osam en te ab ran gen te e
equilibrada. Essas seis responsabilidades parecem se organizar
em três pares, cada um ap resen tan d o um equilíbrio.

Somos chamados tanto para o discipulado
individual quanto para a comunhão
corporativa [...]. Adoração e trabalho [...],
peregrinação e cidadania

E m prim eiro lugar, so m os ch am ad os tanto para o dis­
cipu lad o in dividu al q u an to para a com u n h ão corporativa.
Bebês, apesar de nascerem n u m a fam ília, têm su a identidade
própria. A té os gêm eos n ascem sep arados! Porém, a fu n ção
fu n d am en tal das pedras u sadas em con strução é ser parte de
algum a coisa. Elas cederam su a in dividu alidade ao prédio.
S u a im portân cia não está nelas m esm as, m as no con jun to.
Então, precisam os enfatizar tanto as nossas responsabilidades
in dividuais q u an to as corporativas.

0 DISCÍPULO RADICAL

E m segu n do lugar, so m os ch am ad os tan to para adorar
qu an to para trabalhar. C o m o sacerdócio, n ós ad o ram os a
D eu s. C o m o povo de p ro p ried ad e de D eu s, testem u n h a'
m os ao m u n d o. A igreja é u m a com u n id ad e de adoração e
testem unh o.
E m terceiro lugar, so m os ch am ad os tan to para a peregri­
n ação q u an to para a cidadania.
E m cada par, som os cham ados ao equilíbrio e não à ênfase
de u m em detrim ento d o outro. A ssim , som os tan to discípu ­
los in dividuais q u an to m em bros d a igreja, tan to adoradores
q u an to testem unhas, tan to peregrinos q u an to cidadãos.
A razão de q u ase todas as n ossas falhas é a facilidade
que tem os de esquecer n ossa iden tidade com o discípulos.
N o sso Pai C elestial está con stantem en te nos dizendo o que
o Rei G eorge 5 sem pre dizia ao Príncipe de G ales: “M eu
filho querido, você deve sem pre se lem brar de quem você é,
pois se você se lem brar de su a identidade, se com p o rtará de
acordo com ela” .

Capítulo 7

DEPENDÊNCIA

O s cham ados “teólogos seculares” da década de 60 defendiam
au dacio sam en te que a h u m an id ad e havia atin gido a maioridade e que, nessas circunstâncias, p o d eríam os dispen sar
D eu s. Todavia, essa chocante declaração du rou po u co , pois
a verdade é qu e som os pecadores; so m os dep en d en tes de
D eus, de su a m isericórdia e de su a con tín u a graça. T entar
viver sem ele é justam en te o que significa pecado. A lém disso,
tam b ém precisam os uns dos outros.
C o m p artilh arei u m a de m in h as recentes experiên cias
qu e d e m o n stram m in h a frag ilid ad e e d ep en d ên c ia. E ra
u m a m an h ã de dom in go, 20 de agosto de 2006, e eu deveria pregar n a Igreja A li S o u ls em L an gh am Place, Lon dres.
Estava sep aran d o a ro u p a su ja q u an d o tropecei n o pé de
u m a cadeira giratória e caí entre m in h a cam a e a estante de
livros. C o m o não p o d ia me mover, m uito m en os levantar-me
sozinho, percebi n aquele m om en to que havia q u eb rad o ou
d eslocad o o quadril. E ntretan to, con segui apertar o b otão
de em ergência e alguns am igos vieram im ediatam ente em
m eu socorro.

j 0 DISCÍPULO RADICAL

H u gh Palmer, reitor d a Igreja A li Souls, en con trou m eus
esboços e de algum m od o con seguiu pregar m eu serm ão.
So m en te m ais tarde n otei com o ele é apropriado, po is havia
preparad o u m a exposição d o Pai-N osso,1 form ada p o r seis
petições: três expressando n o ssa paixão pela glória de D eus
(seu n om e, reino e vontade), seguidas p o r três que expressam
n ossa dependência de sua graça (pelo pão de cada dia, percião
dos n ossos pecados e livram ento d o mal). H á m uito tem po
com ecei a n otar que a segu n da m etade d a oração do Sen h or
é u m resum o do n osso d iscipu lado — n ossa con sciên cia da
glória de D eu s e n ossa dep en d ên cia de su a m isericórdia.
D ep en d ên cia é u m a atitude fu n d am en tal que tem os de ter
sem pre qu e orarm os o Pai-Nosso.
A o m esm o tem po em que o serm ão sobre dep en d ên cia
estava sen do pregado, ele estava, n o m ínim o, sen d o parcial­
m ente ilustrado. E m p o u co tem po, fui im obilizado e trans­
ferido d o chão para a m aca, da m aca para a am bulân cia, da
am b u lân cia para a cam a d o hospital, da cam a d o h o spital
para a sala de operação. A cordei e m e vi gratam ente auxiliado
po r u m a prótese de qu adril e, n o tem po apropriado, estava
recuperado.
A ssim , n o d e c o rr e r d o c a p ítu lo , p o r favo r, n ã o se
esq u eç a d a m in h a ex p eriên cia m atu tin a, “ e sp a rr a m a d o ”
n o ch ão , c o m p letam en te d e p e n d e n te de o u tro s. Pois este
é o lu g ar o n d e , de vez em q u a n d o , o d isc íp u lo rad ic al
p recisa estar. D eu s p o d e u sar a d e p e n d ê n c ia g e ra d a p o r
essas ex p eriên cias p a ra c au sar em n ós u m p r o fu n d o a m a ­
d u rec im en to .
H á ou tro aspecto da d ep en d ên cia que vivenciei, m as que
era novo pra m im . Fui ten tad o a evitar falar dele, m as m eus
am igos de con fian ça in sistiram para que eu n ão me calasse.

DEPENDÊNCIA

É a instabilidade em ocion al que algum as vezes a enferm idade
física traz à ton a e que se m an ifesta pelo choro.
N ão sou u m a pessoa que chora com n atu ralidade e, em
geral, consideram -m e forte. Fui ed u cad o n a Rugby Sch ool,
um a d aqu elas fam osas escolas “p ú b licas” em que se apren de
a filosofia d a casca grossa, isto é, n ão se deve d em o n strar
q u alq u er em oção.
Porém , li os evangelhos e descob ri neles o registro de que
Jesus, n osso Senh or, chorou em pú b lico du as vezes: u m a po r
causa d a falta de arrepen dim en to d a cidade de Jeru salém
(Lc 19.41) e o u tra p o r cau sa d o sep u lta m en to de Lázaro
(Jo 11.35).
D este m od o, se Jesu s chorou, seus d iscípu los presum ivel­
m ente po d eriam fazê-lo.
M as p o r que eu deveria derram ar lágrim as? N ã o estava
diante d a falta de arrepen dim en to n em d a m orte. E staria eu
afun dad o n a autocom iseração, sob a perspectiva de um a lenta
recuperação? E staria lam en tan d o m in h a q u ed a e fratura?
E staria vislu m b ran do ali o fim d o m eu m inistério? N ão , na
verdade eu n ão tive tem po de colocar m eus pen sam en tos
em ordem .
Tive u m a experiência sem elhante de lam ento com m eu
am igo Jo h n Wyatt, que é professor de ética e perinatologia no
hospital-escola da U n iversidad e de Lon dres, e qu e se torn ou
fam o so po r defen der a in violabilidade d a vida h u m an a em
debates pú b licos sobre ab orto e eutanásia. Q u a n d o ele m e
visitou n o hospital, com partilh am os n ossas experiências de
fragilidade e dep en d ên cia e am b os chegam os às lágrim as. Eis
a form a com o ele descreveu essa situação:
Nos primeiros dias depois da cirurgia, John Stott foi aco­
metido por episódios de desorientação e por distintas e

0 DISCÍPULO RADICAL

alarmantes alucinações visuais. Além disso, havia a inevitável
hum ilhação de receber os cuidados da enfermagem, e
a preocupação com o futuro. Enquanto estávamos no
hospital, conversando e compartilhando, lembrei-me da
minha própria experiência de doença e caos, alguns anos
antes. Lembro-me que estávamos em lágrimas, dominados
por um poderoso sentimento comum de vulnerabilidade
e debilidade humana. Foi uma experiência dolorosa, mas
libertadora.
A seguir a segunda e sem elhante experiência, dessa vez
com a con tribu ição de Sh eila M oore, m in h a fisioterapeuta
e am iga:
Foi logo após o retorno para casa, depois de sua conva­
lescença. John havia acabado de voltar para descansar em
uma cadeira, quando, de repente, estremeceu e suspirou
profundamente. Fui ver se ele se sentia mal e percebi que
as lágrimas fluíam livremente. Ele estava vivenciando uma
arrebatadora liberação de toda a carga emocional e dos
desafios dos eventos recentes, que ele havia pacientemente
suportado sendo “um paciente”. Não há palavras a serem
ditas durante uma experiência tão profunda — somente
uma empatia e uma confortante mão firme em seu ombro.
Pouco a pouco, enquanto a emoção cedia, assegurei a ele
que não se tratava de uma experiência incomum em tais
circunstâncias, e que as lágrimas são um alívio e uma forma
de cura muito valiosa.
Essa experiência com pletam ente “in usitada” aconteceu
repentinam ente; foi um a surpresa que causou certo cho­
que e dor em ocional. Racionalizar tais experiências tal­
vez seja difícil, especialm ente para homens, que tendem
a vê-las como um a hum ilhação. Porém, se encaradas
com honestidade, podem ser um alívio m aravilhoso.

DEPENDÊNCIA

É m uito valioso encarar aqueles m om entos com o um a
preparação dada por Deus para as m udanças que se
encontrariam à frente, e com o um presente especial
da parte dele.
Deixe-me contar outra ilustração. Q u em m e levou a C risto
d u ra n te os ú ltim o s an o s n a R u gb y S c h o o l foi o reveren d o
E. J. H . N ash , con h ecido po r tod o s os seus am igos com o
“B a sh ” . Ele era u m h o m em de notável com prom etim en to
cristão e tin h a u m a clara visão de com o gan h ar para C ris­
to os garotos das m elhores escolas públicas. Por m eio de
acam pam en tos o u festas dom iciliares, ele era notavelm ente
bem -sucedido. A pesar do sucesso nesse m inistério, ele n ão
m ostrava sin ais de arrogância. Pelo con trário, tod o s qu e o
encontravam , com en tavam sobre su a h u m ildade e m u itos
de nós, que éram os seus am igos, estávam os curiosos para
descobrir seu segredo. E m b o ra m u ito reservado pra falar a
respeito, ele o revelou a m im .
U m d ia , B a sh e eu e stá v a m o s v ia ja n d o ju n t o s d e
tre m q u a n d o ele m e c o n to u so b r e su a ju v e n tu d e . A o s
v in te e p o u c o s a n o s, ele fo i a c o m e tid o p o r u m a sé r ia
d o e n ç a . N o au g e d a e n fe r m id a d e , p e n s o u q u e e stav a
em se u le ito d e m o rte . F ic o u tã o fra c o q u e m al p o d ia
se m exer. E le se q u e r p o d ia alim en tar-se co m as p r ó p ria s
m ã o s e tin h a d e ser a lim e n t a d o c o m u m a c o lh e r. F o i
u m a e x p e r iê n c ia de to ta l d e p e n d ê n c ia e h u m ilh a ç ã o .
D e fa to , se g u n d o ele, a h u m ilh a ç ã o era o c a m in h o p a r a
a h u m ild a d e . D e p o is d e a d e n tr a r as p r o fu n d e z a s d a
im p o tê n c ia a b s o lu ta , se r ia im p o ssív e l ch e g ar ao c u m e
d a a u to c o n fia n ç a .
A lg u n s an o s d ep ois, essa verd ade foi c o n firm ad a p o r
M ich ael Ram sey, arcebispo de C anterbury.

0 DISCÍPULO RADICAL

A humilhação era o caminho para a
humildade. Depois de adentrar as profundezas
da impotência absoluta, seria impossível chegar
ao cume da autoconfiança
-

D iscu rsan d o para um gru p o de pessoas na véspera da
ord en ação delas, ele escolheu a h u m ildade com o tem a para
a ocasião e seu discurso incluía os seguintes conselhos:
1. Agradeça a Deus, com frequência e sem pre [...]. A gradeça
a D eus, com aten ção e adm iração p o r seus privilégios sem
fim [...]. G ratid ão é u m solo no qual o orgulho n ão cresce
facilm ente.
2. Interesse-se p o r confessar seus pecados. Certifique-se de
julgar a si m esm o n a presença de D eus: isso é o seu autoexam e. C oloque-se sob o ju lgam en to divino: isso é a sua
con fissão [...].
3. E steja pron to para aceitar humilhações. E las po d em
doer terrivelm ente, m as te aju d am a ser h um ilde. Pode ser
que sejam h um ilhações insignificantes. Aceite-as. Pode ser
que sejam hum ilhações m aiores [...]. T u d o isso p o d e ser um a
o p o rtu n id ad e para estar u m po u co m ais próxim o d o n osso
crucificado e h u m ilde Senh or.
4. N ã o se preocu pe com status [...]. Só existe um status
com o qual n osso S e n h o r n os ord en a a estar preocu pados:
o status de proxim idade dele m esm o.

DEPENDÊNCIA

5.

U se seu senso de humor. R ir das coisas, rir d o s absu rdos

da vida, rir de si m esm o e de seus próp rio s absurdos. N ó s
som os, tod o s nós, criaturas in fin itam en te peq u en as e b u r­
lescas den tro do universo de D eu s. Você tem de ser sério,
m as n un ca ser cerim on ioso, porq u e se você for cerim on ioso
sobre q u alq u er coisa, existe o risco de tornar-se cerim on ioso
com você m esm o .2
A recusa em ser dep en d en te d o s ou tros não é um sin al
de m atu ridade, m as de im atu ridade. U m b om exem plo é o
film e Conduzindo Miss Daisy, basead o na peça teatral de A lfred
U hry, vencedor do prêm io Pulitzer.
A pesar de ser propenso a enfatizar a tensão racial, o enredo
central é o relacionam ento psicológico e progressivo entre os
dois person agen s principais, M iss Daisy, a inflexível viúva de
72 an os, e H oke, seu m otorista afroam ericano.
O film e com eça q u an d o a sen horita D aisy bate o carro por
colocar o pé n o acelerador e n ão n o freio. Seu filho, B oolie,
diz a ela que n en h u m a com p an h ia de seguros a aceitará e
p o r isso ela deve con tratar u m chofer. Ela se recusa, m as ele
insiste até en contrar H oke, que tin h a sid o m oto rista de um
juiz local até a m orte deste.
N o início ela não se relaciona com H oke. C e rta ocasião,
ela deixa escapar: “Eu não preciso de você, eu não quero você,
eu n ão gosto de você!” . Porém , gradativam ente, con form e
M iss Daisy e H oke passam tem po juntos, nasce u m a crescente
apreciação m ú tu a até que, anos m ais tarde, ela diz a ele: “Você
é m eu m elh or am igo. D e verd ade” , e pega su a m ão.
O film e term in a em u m dia de A ção de G raças n a casa
de repo u so o n d e M iss D aisy p assou a viver. B o olie e H oke a
visitam , m as ela insiste em m on op olizar H oke. Ele observa
que ela não com eu su a torta de abób ora, e en q u an to ela

0 DISCÍPULO RADICAL

tenta pegar o garfo, ele gentilm ente pega o prato e o garfo
dela. “D eixa eu aju d á ocê” , ele diz. H oke corta a torta em
p eq u en o s ped aços e d á a ela. M iss D aisy se delicia. O sabor
é b om . Ele d á a ela ou tro pedaço. E outro.
O film e m ostra a transform ação n o relacionam ento deles
desde o início, q u an d o ela se recusou a ser dep en d en te dele
p ara q u alq u er coisa, até o fim , q u an d o ela é dependente de
ou tros para quase tu do.
O envelhecim ento é o processo qu e m u d o u o relacionam en to entre M iss D aisy e H oke. N o final d o film e, H oke
tin h a 85 an os de idade e M iss Daisy, 97.
A in d a hoje n ossos relacion am en tos estão sujeitos a m u ­
dança. O falecido Paul T ou rn ier (1 8 9 8 -1 9 8 6 ), con hecido
m édico e psicoterapeu ta suíço, tornou-se fam oso com seu
livro The M eaning of Persons,3 e aplicou suas ideias em ou tro
livro, Learníng to Grow Old:
Somos chamados a nos tornar mais pessoais, a nos tornar
pessoas, a encarar a velhice com todos os nossos recursos
pessoais.
Temos dado prioridade às coisas e não às pessoas; temos
construído uma civilização mais baseada em coisas do que
em pessoas. Os idosos são menosprezados porque são pura
e simplesmente pessoas, cujo único valor está em ser pessoa
e não mais no que produz.
Quando somos velhos [...], temos o tempo e as habilidades
necessárias para um verdadeiro ministério de relaciona­
mentos pessoais.4
Porém , n ão devem os im aginar que a dependência é a ú n i­
ca atitude apropriada a ser ad o tad a p o r u m discípulo radical.
Existem m om en tos em que so m os cham ad os ao oposto, isto
é, a serm os in dependentes. D e fato, M yra Chave-Jones, que

DEPENDÊNCIA

n a d é c a d a d e 6 0 fo i em g ra n d e p a r te re sp o n sá v e l p e la
fu n dação da C are an d C o u n sel, u m serviço de acon selh a­
m ento cristão em L on dres, escreveu qu e o con flito entre de­
pen dên cia e in depen dên cia “é u m a das curvas m ais abruptas
de aprendizagem n o cam in h o d a v id a ” .
O p ró p rio Je su s e n sin o u q u e a d ep en d ên c ia cresce à
m ed id a que crescem os. D ep ois de su a ressurreição, ele disse
a Pedro:
Quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por
onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos,
e outro te cingirá e te levará para onde não queres.
João 21.18
João nos diz que as palavras de Jesus se referiam especificamente
a Pedro e su a m orte; porém , elas agregam u m im portan te
prin cípio relacion ad o ao envelhecim ento.
E m b o ra a in d ep en d ên cia seja ap ro p riad a em algum as
circunstâncias, insisto n a dep en d ên cia com o a po stu ra m ais
característica de u m discípu lo radical. C ito n ovam ente Jo h n
W yatt e su a eloqüente declaração sobre a p rio rid ade d a de­
pen dên cia: “O plan o de D eu s para n ossa vida é qu e sejam os
dep en d en tes” .
V iem os a este m u n d o totalm ente depen den tes d o am or,
do cu id ad o e d a proteção de outros. Passam os p o r u m a fase
n a vida em que outras p essoas d ep en d em de nós. E a m aior
parte de n ós irá deixará este m u n d o d ep en d en d o totalm ente
d o am or e do cuidado de outros. E isso n ão é n en h u m m al
ou realidade destrutiva. E parte d o plan o, da natureza física
que n os foi d ad a p o r D eus.
A s vezes ou ço pessoas ido sas — in cluindo cristãos, que
deveriam ter m ais en ten dim en to —, dizerem : “N ã o quero

94

0 DISCÍPULO RADICAL

ser um peso pra ninguém . E stou feliz em con tinu ar vivendo
en q u an to p u d er cuidar de m im , m as se eu vier a me tornar
um peso, prefiro m orrer” . Isso está errado. T odos nós estam os
destin ad os a ser u m peso para outros. Você está destinado
a ser u m peso para m im e eu estou destin ad o a ser um peso
para você. E a vida fam iliar, in clu in d o a vida da fam ilia da
igreja local, deveria ser de “respon sabilidade m ú tu a” . “Levai
as cargas u n s d o s outros e, assim , cum prireis a lei de C risto ”
(G1 6.2).
O próp rio C risto provou da d ign idade d a dependência.
Ele nasceu com o u m bebê, totalm ente dependente do cuidado da m ãe. Precisou ser alim en tad o, trocado e apo iad o para
n ão cair. M esm o assim , ele nun ca perdeu a dignidade divina.
E n o final, n a cruz, ele m ais u m a vez tornou-se totalm ente
depen den te, com os m em bros p erfu rado s e esticados e in­
capaz de se mover. A ssim , n a p essoa de C risto, apren dem os
qu e a dep en d ên cia n ão é, n ão po de, destituir u m a pessoa de
su a dign idade, de seu valor suprem o. E se a dep en d ên cia foi
adeq u ad a para o D eus do U niverso, certam ente é apropriada
para nós.

Capítulo 8

MORTE

A

oitava e ú ltim a característica d o d iscíp u lo rad ical é a

m orte. Deixe-me explicar. O cristianism o oferece vida —vida
eterna, vida em abu n dân cia. Porém , ele deixa claro que a
estrada para a vida é a m orte. E enfatiza essa afirm ação em,
pelo m en os, seis áreas, com o m ostrarei neste capítulo. V id a
p o r m eio da m orte é u m dos m ais p ro fu n d o s paradoxos da
fé e d a vida cristãs.
A vida e a m orte sem pre fascinaram as pessoas. N ã o há
dúvida de que estam os vivos e de que m orrerem os. S ão dois
fatos inegociáveis com os quais tem os de concordar. N o en­
tanto, eles são tam bém m isteriosos e difíceis de definir.
D arei um exem plo a partir de u m a área do m eu interesse,
a orn itologia.

Vida por meio da morte é um dos mais
profundos paradoxos da fé e da vida cristãs

0 DISCÍPULO RADICAL

R oger T ory Peterson, que m orreu em 1997, foi o decan o
dip lom ático d o s orn itólogos am erican os do século 20 e um
artista cujo tem a era pássaros. Peterson costum ava con tar
sobre seu ingresso n a área. N u m a cam in hada pelo cam po, aos
onze anos, ele vislum brou u m a espécie de pica-pau. Parecia
ser apenas u m a b ola de pen as m arron s, agarrada ao tronco
de u m carvalho.
Com cuidado, eu o toquei nas costas. Instantaneamente,
a coisa inerte virou a cabeça, olhou para mim com olhos
espantados, explodiu em um lampejo de asas douradas e
voou para a floresta. Foi como uma ressurreição — o que
parecia estar morto, estava muito vivo. Desde então, as aves
têm sido, para mim, as expressões mais nítidas de vida [...].
Aves são uma declaração de vida.1
E m outro lugar, Peterson descreve isso com o “o m om ento
crucial da m in h a v id a” . “Eu fiqu ei d esarm ad o ” , con tin u ou
ele, “pelo contraste entre algo que repentinam ente estava tão
cheio de vida e algo que eu havia con sid erad o m o rto ” .2
C o n tu d o , m eu interesse neste capítulo não é a vida e
a m orte n a natureza, m as a vida e a m orte em C risto. A
perspectiva do discípu lo radical é ver a m orte não com o o
térm ino d a vida, m as com o a en trad a para ela.
P ois o q u e a E sc r itu r a faz é c o lo c a r d ia n te de n ó s
as d e se já v e is g ló r ia s d a v id a e d e p o is e n fa tiz a r q u e a
c o n d iç ã o in d isp e n sá v e l p a ra ex p erim en tá-las é a m o rte.
R e su m in d o , a B íb lia p ro m e te v id a por meio d a m o rte, e
de n e n h u m a o u tra m an eira. A ssim , o a p ó sto lo Paulo d e s­
creve o povo c ristão c o m o “re ssu rre to s d en tre os m o r to s”
(R m 6 .1 3 ). E ssa p e rsp e c tiv a é tão d ife re n te d as s u p o si­
çõ es d a m en te secu lar, tão a tu a l e tão re v o lu c io n á ria em
su a s im p lic a ç õ e s, q u e p re c isa m o s vê-la a p lic a d a em seis

MORTE

situ a ç õ e s d ife re n te s n a s q u a is ela o p e ra , d e a c o rd o co m
o N o v o T e sta m e n to .

Salvação
A ntes de tu do, vem os m orte e vida em relação à n o ssa salvação, po is frequen tem ente a salvação é represen tada em
term os de vida. Paulo escreve qu e o d o m de D eu s é a vida
eterna (R m 6 .2 3 ) e Jo ã o explica qu e aquele que tem o Filho,
tem vida ( l j o 5.12). Fica claro tam b ém que a característica
distintiva desta vida n ão é a eternidade, m as su a q u alid ad e
com o vida d o novo m u n d o. A vida eterna é u m a vida vivida
em com u n h ão com D eu s (Jo 17.3).
Porém , a m orte é a ú n ica form a de entrar n essa vida e a
razão para isso é clara: a barreira p ara a com u n h ão com D eu s
é o pecad o, e “o salário d o p ecad o é a m orte” (R m 6.23). E m
toda a Bíblia, o pecado e a m orte são igualm ente considerados
u m a ofen sa qu e m erece u m a p u n ição.
Porém , se tivéssem os de m orrer p o r n o sso s pecad os, seria
o fim . N ã o p o d eria haver vida dessa form a.
A ssim , D eu s veio a n ós em Jesu s C risto. Ele to m o u n osso
lugar, se ap o sso u do n o sso p ecad o e m orreu a n ossa m orte.
N ó s havíam os pecad o. N ó s m erecíam os m orrer. Porém , ele
m orreu em n osso lugar. A sim ples declaração “C risto m or­
reu pelos p ec ad o s” é suficiente. Ele n ão p o ssu ía pecad os
p ró p rio s pelos q u ais precisasse m orrer; ele m orreu pelos
nossos pecados.
Porém , su a m orte n ão p o d e n os trazer n en h u m b em a
m en os que reivindiquem os seus benefícios. E pela fé, inte­
riorm ente, e pelo batism o, exteriorm ente, que nos tornam os
u n id o s a C risto em su a m orte e ressurreição. N ó s m orrem os

0 DISCÍPULO RADICAL

e ressu scitam os com ele. Portanto, agora “considerai-vos [ou
avaliai-vos] m ortos para o p ecad o ” (R m 6.11) — n ão fin gin d o
que estam os im unes ao pecado q u an d o sabem os que não
estam os, m as en ten den do e lem bran do que, sen d o um com
C risto, os benefícios de su a m orte se tornaram n ossos. E sta­
m os “vivos para D e u s” , vivos po r interm édio de su a m orte.

Discipulado
A ssim com o na salvação, o m esm o princípio de vida por m eio
da m orte op era n o discipu lado. O próp rio Jesus utilizou esse
enfático sim bolism o:
Então, convocando a multidão e juntamente os seus discí­
pulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo
se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois,
salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa
de mim e do evangelho salvá-la-á.
Marcos 8.34-35
Se tivéssem os vivido sob a ocu pação rom an a n a Palestina,
e se tivéssem os visto u m h o m em carregando um a cruz, ou
pelo m en os o patibulum, n ão precisaríam os pergun tar o que
ele estava fazendo. Im ediatam ente o teríam os recon h ecido
com o um crim inoso con den ado a cam inho da execução, pois
os rom an os obrigavam os sen ten ciad os a carregar a cruz até
o local da crucificação.
E ssa, en tão, foi a im agem d ram ática que Je su s u so u para
rep resen tar a au to n egação . Pois, se estam o s seg u in d o a Je ­
sus, existe apen as u m lugar para o q u al p o d em o s estar in do:
o lugar d a m orte. C o m o D ietrich B o n h o e ffe r escreve em O
Custo do Discipulado,5 “ Q u a n d o C risto ch am a u m h o m em ,
ele o con vid a a vir e m o rrer” . A lém d isso, de aco rd o com

MORTE

Lucas, devem os to m ar n o ssa cruz to d o s os dias (Lc 9 .2 3 )
e, se n ão o fizerm os, n ão p o d erem o s ser seus d iscíp u lo s
(Lc 14.27).
Tal en sin am en to en tra em ch oque com o M ovim en to
d o Potencial H u m an o e com o M ovim ento da N ova Era,
que o tem im itado. C arl R ogers en sin a que as p essoas n ão
são caracterizadas pela patologia (com o en sin a Freud), m as
pelo potencial, e A b rah am M aslow enfatiza a n ecessidade d a
autorrealização. A s palavras “salvar” e “perder” n ossa “v id a” ,
utilizadas por Jesus, po dem ser aplicadas ao m artírio, m as não
são, n ecessariam ente, restritas a ele. Pois a n o ssa “v id a” é a
n o ssa psychô, n osso eu; e em algum as versões dessa passagem
a form a reflexiva é usada, especialm en te “a si m esm o ”.
A ssim , p o d em o s parafrasear o versículo 35 d a seguinte
form a: “Q u em estiver determ in ado a se apegar a si próp rio
e a viver po r si próp rio, perderá a si próp rio. Porém , quem
estiver d isp o sto a m orrer, a perder-se, a se entregar à obra
de C risto e ao evangelho, se en con trará (no m om en to do
com pleto ab an don o) e descobrirá su a verdadeira iden tidade” .
A ssim , Jesu s prom ete a verdadeira au todescoberta pelo preço
d a auton egação, a verdadeira vida pelo preço d a m orte.
O apóstolo Paulo foi cu id ad o so ao trabalhar esse en sin o
de Jesu s. E m G álatas, ele declara que havia sid o crucificado
com C risto (2.20), e que todos qu e perten cem a C risto cru­
cificaram suas naturezas caídas com todas as suas paixões e
desejos (5.24). Isso é “m ortificação” , o u seja, sen tenciar à
m orte ou repu diar a n ossa natureza caída e autoperm issiva.
A declaração m ais clara de Paulo a esse respeito está em R o­
m an os 8.13: “ Porque, se viverdes segu n do a carne, cam inhais
p ara a m orte; m as, se, pelo E spírito, m ortificardes os feitos
d o corpo, certam ente, vivereis” .

99

100

O DISCÍPULO RADICAL

Eis u m versículo que defin e o evidente contraste entre
vida e m orte. Ele afirm a qu e existe u m tipo de vida que, n a
verdade, conduz à m orte, e que existe tipo de m orte que, na
verdade, leva à vida. A ssim , se q u erem os viver u m a vida de
verdadeira realização, devem os sen tenciar (rejeitar radicalm ente) tod o o m al à m orte. C o m o escreve M artyn LloydJo n es: “E stou cada vez m ais convencido de que a m aioria d as
p essoas vive u m a vida cristã p roblem ática p o ra u e m im am a
si m esm as esp iritu alm en te” .4
Por outro lado, se rejeitarm os o m al, viverem os. A única
m an eira de vivenciarm os a p len itu de d a vida é m orrendo,
o u m elhor, sen ten cian do à m orte, crucificando, ou seja, ren u n cian d o com pletam ente a n ossa natureza autoperm issiva
e tod o s os seus desejos.
O pu ritan o Jo h n O w en enfatiza essa verdade em seu livro
A Mortificação do Pecado (1656): “O ód io ao pecado com o
pecad o, n ão som ente com o algo irritante ou desconfortável
[...], está presente n a b ase de to d a m ortificação esp iritu al”
(capítulo 8). D essa form a, é essencial lutar con tra o d om í­
n io d o p ecad o e n ão con cordar com ele. D evem os evitar o
“gran de m al de pregar u m a paz ilusória para nós m esm o s”
(capítulo 13). A lém d o m ais, u m a m ortificação tão radical
só é possível p o r m eio d o Espírito San to. “ E m ais fácil um
h o m em conseguir ver sem olhos, ou falar sem língua, do
que verdadeiram ente m ortificar um p ecad o sem o E sp írito ”
(capítulo 7).

Missão
A terceira área n a qual o prin cípio d a vida m ediante a m orte
opera é a de m issões. A p esar de o sofrim en to ser u m aspecto

MORTE

indispensável n a m issão, ele é frequen tem ente su b estim ad o .
Portanto, precisam os com preen der su a b ase b íblica antes de
con siderar alguns exem plos notáveis.
O bserve o adm irável perfil d o servo d o Sen h o r n os ca­
pítu los 4 2 a 53 de Isaías. Seu ch am ad o é para trazer a luz
d a salvação às nações; porém , em prim eiro lugar, ele deve
su p o rtar o escárnio e a perseguição. A n tes de p o d er “causar
adm iração às n açõ es” , ele será desprezado e rejeitado p o r
ou tros e oferecerá a su a vida à m orte.
D ou glas W ebster, n o livro Yes to M ission, ab ord a o tem a
de form a convincente:
Mais cedo ou mais tarde, a missão leva à paixão. Nos padrões
bíblicos [...] o servo deve sofrer [...] e isso faz a missão ser
efetiva [...]. Toda forma de missão leva a alguma forma de
cruz. O próprio formato de missão é cruciforme. Só pode­
mos entender missão nos termos da cruz.5
Jesu s tin h a convicção de que era aquele que cum priria as
profecias do Servo So fred o r e falou d a n ecessidade d o sofri­
m en to em m issões. Q u a n d o alguns gregos foram até Filipe
q u eren d o ver Jesus, o M estre respon d eu :
E chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem. Em
verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na
terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito
fruto. Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia
a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna.
João 12.23-25.
A qu i, novam ente, apesar de n ão ser n o contexto de m is­
são, m as no de discipu lado, Jesu s u sa a linguagem de vida e
m orte, e enfatiza qu e a m orte é o cam in h o para a vida. S o ­
m ente por m eio de sua m orte o evangelho seria expan dido ao
m u n d o gentílico. A m orte é o cam in h o para a frutificação. A

102

O DISCÍPULO RADICAL

m en os que m orra, a sem ente perm an ece sozinha. Porém, se
m orrer, ela se m ultiplica. Foi assim com o M essias e com sua
com u n idade: aquele que “m e serve, siga-me” (Jo 12.26).
N o ssa base bíblica para o sofrim en to m ission ário seria
in com pleta sem o ap ó stolo Paulo. C o n sid ere essa extraor­
din ária declaração: “D e m od o que, em nós, opera a m orte,
m as, em vós, a v id a” (2 C o 4.12).
A q u i o apóstolo ousa declarar que, p o r m eio de sua m orte,
outros viverão. Ele está louco? É isso que ele quer dizer? Sim !
E óbvio que seus próprios sofrim entos e sua m orte não trarão
salvação, com o o sofrim en to e a m orte de Jesu s C risto. Em
vez disso, as pessoas recebem vida po r m eio do evangelho, e
os que pregam o evangelho fielm ente sofrem p o r ele. Paulo
sabia do qu e estava falan do. A b o a nova que ele proclam ava
é que a salvação estava dispon ível para ju deu s e gentios da
m esm a form a — som ente pela fé. Isso gerou a o p osição faná­
tica dos ju deu s — p o r isso n ão é exagero dizer que os gentios
deviam su a salvação à d isposição que Paulo tin h a de pregá-la
fielm ente e de sofrer po r ela. Ele estava pron to para m orrer
para que eles pu dessem viver.
A história da igreja cristã tem sid o com po sta p o r m issio­
n ários o u sad o s que arriscaram a vida p o r am or ao evangelho
e que, com o resultado, viram a igreja crescer. M encionarei
dois exem plos — um relacion ad o a u m a pessoa e ou tro a um
país inteiro.
O prim eiro é A d o n iram Ju d so n , de M ian m ar (antiga Bir­
m ânia). A o ped ir sua esp osa A n n em casam ento, ele disse a
ela: “M e dê su a m ão para ir com igo para as selvas da A sia e
m orrer com igo pela causa de C risto ” . Eles chegaram a Rangun em 1813 e im ergiram n a língua e cultura birm anesas.
So m en te dep ois de seis an os A d o n iram sentiu-se capaz de

MORTE

pregar o prim eiro serm ão, e som en te dep ois de sete registra­
ram o prim eiro convertido. Ele precisou de vinte an os para
traduzir a Bíblia toda para o birm an ês. T am bém escreveu
folh etos, u m catecism o, u m a gram ática e um d ic io n á rio
inglês-birm anês, que ain d a está em uso.
Seus sofrim en tos foram in tensos. Ele ficou viúvo du as
vezes e perdeu seis filhos du ran te a vida. Ele e a fam ília eram
constantem ente assolados p o r enferm idades. D uran te a guer­
ra anglo-birm anesa, su speitaram qu e A d o n iram fosse esp ião
e ele ficou quase dois an os preso, su p o rtan d o as am arras, o
calor e as con dições precárias. E m 37 an os de serviço m is­
sion ário, ele voltou ao seu lar, n os E stad o s U n id o s, apenas
u m a vez.
A pesar disso, com o resultado de sua m orte e sepultam ento
em solo birm anês, ele frutificou m uito. N o prim eiro dom ingo
após su a chegacia a M ianm ar, em 1813, ele e A n n fizeram
a C e ia d o S e n h o r ju n to s porq u e n ão havia outros cristãos
para convidar à m esa.
E ntretan to, q u an d o ele m orreu, 37 an os m ais tarde, em
1850, deixou m ais de 7 m il birm aneses e karens batizados em
63 igrejas. A gora, calcula-se que existam m ais de 3 m ilhões
de cristãos em M ianm ar.
O segu n do exem plo relaciona-se ao vasto país d a C h in a.
Q u a n d o os com u n istas assu m iram o p o d er e tod o s os m is­
sion ários estrangeiros tiveram de sair, acredita-se que havia
aproxim ad am en te 1 m ilh ão de cristãos protestan tes. H oje,
estima-se qu e existam cerca de 70 m ilh ões.6 C o m o isso é
possível? Tony Lam b ert escreve:
A razão para o crescimento da igreja na China e para o
surgim ento de um avivamento espiritual genuíno em
muitas áreas tem ligação total com a teologia cia cruz [...].

103

104

O DISCÍPULO RADICAL

A mensagem integral da igreja chinesa é de que Deus usa
o sofrimento e a pregação do Cristo crucificado para gerar
avivamento e edificar a igreja. Será que nós, do Ocidente,
ainda estamos dispostos a ouvir? [...] A igreja chinesa [...] tem
andado no caminho da cruz. A vida e morte dos mártires
dos anos 50 e 60 produziram ricos frutos.7
A “ m orte” que so m os cham ados a m orrer com o con dição
para a frutificação talvez seja m en os dram ática d o que o
m artírio. N o en tanto, é u m a m orte real, especialm ente para
os m ission ários transculturais. Para eles, p o d e ser a m orte
do con forto e d a com o d id ad e, d a separação d o lar e dos
parentes; o u a m orte da am b ição pessoal ao renunciarem à
tentação de ascen derem profission alm en te e se contentarem
em perm anecer n u m m inistério servil e hum ilde; ou a m orte
d o im perialism o cultural, q u an d o se recusam a exaltar sua
cultura h erd ada (apesar de isso fazer parte de su a identidade)
e se identificam com a cultura que adotaram . D essa e de
outras form as, so m os ch am ad os a “m orrer” para que haja
u m a vida de frutificação.

Perseguição
A q u arta área na q u al a m orte é con siderad a o cam in ho para
a vida é a perseguição física.
O

ap ó sto lo Paulo n ovam en te é u m exem plo de d esta­

que. Poucos cristãos já so freram com o ele — foram açoites,
aped rejam en to s, ap risio n am en to s, lin ch am en tos e n au frá­
gios. N a verdade, o tratam en to qu e recebeu foi tão b ru tal
qu e algu m as vezes ele descreveu essas situ ações com o um
tip o de “m o rte ” e o livram en to com o u m tip o de “ressur­
reiç ão ” . “D ia ap ó s dia, m o rro ” , escreve ele em seu extenso

MORTE

cap ítu lo sobre ressu rreição ( I C o 15.31), q u eren d o dizer
que con tin u am en te estava exposto a perigos de m orte. Eis a
declaração com pleta:
Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da
tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima
das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria
vida. Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de
morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus
que ressuscita os mortos; o qual nos livrou e livrará de tão
grande morte; em quem temos esperado que ainda conti­
nuará a livrar-nos.
2 Coríntios 1.8-10
N em tod o s os cristãos qu e são assed iad o s pela m orte
são repetidam ente resgatados com o Paulo foi. N ã o existem
prom essas de im u n idade n em de libertação. E m vez disso,
m esm o em m eio a situações de m orte, p o d em o s experim en ­
tar vida.
Levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que tam­
bém a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós,
que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa
de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em
nossa carne mortal.
2 Coríntios 4.10-11
Segu n d o essa extraordin ária afirm ação, p o d em o s expe­
rim en tar a m orte e a vida de Jesu s sim u ltan eam en te. O b ­
serve que o substantivo “c o rp o ” e o advérbio “sem p re” são
repetidos n os versículos 10 e 11. Sem pre com partilh am os,
em n osso corpo, a vida e a m orte de Jesus. M esm o q u an d o
estam os sen do afligidos fisicam ente, e sen do conscientizados
de n ossa m o rtalid ad e , p o d e m o s co n tar com o vigor esp i­
ritual de Je su s. M esm o antes de a ressu rreição acontecer,

105

106

O DISCÍPULO RADICAL

p o d e m o s experim en tar a vida ressurreta de Jesus. A ssim ,
“com o se estivéssemos m orrendo, e, contudo, eis que vivemos”
(2 C o 6.9).
Seja q u al for o espinh o na carne de Paulo (alguns acham
que era enferm idade, outros, perseguição), certam ente era
algum tipo de problem a físico. E apesar de ter clam ad o por
libertação, Paulo recebeu, em vez disso, o poder de C risto
em su a fraqueza. R ealm ente, a verdade central das cartas de
Paulo à igreja em C o rin to é o p o d er po r m eio d a fraqueza, a
glória p o r m eio do sofrim en to e a vida po r m eio d a m orte.
N o final, Paulo n ão foi liberto, m as executado. Ele selou
seu testem u nh o com o próp rio sangue. E no últim o livro da
B íblia, o povo de D eu s é advertido a respeito de perseguição
e d o m artírio. Jesu s diz à igreja em E sm irna: “N ã o tem as as
coisas que tens de sofrer [...]. Sê fiel até à m orte, e dar-te-ei a
coroa d a v id a” (Ap 2.10).
Paul M arsh all, d o In stitu te o f C h ristia n S tu d ie s, em
T oron to, escreve em Their Blood Cries Out sobre a “tragédia
m u n d ial de cristãos m od ern o s que estão m orren do po r sua
fé” . Ele calcula que no m u n d o 200 m ilhões de cristãos vivem
sob repressão governam ental e com tem or diário d a polícia
secreta. E m m ais de sessen ta países, cristãos são assediados,
ab u sados, presos, torturad os e executados sim plesm ente por
causa de sua fé. Porém, “apesar da perseguição, o cristianism o
está crescendo rapid am en te n o m u n d o ” .8

Martírio
E possível observar que, em m in h a m an eira de tratar o tem a
“vida por m eio d a m orte” , estou sep aran d o m artírio de p e r­
seguição. N ã o porq u e deixei de n otar que os dois assun tos

MORTE

se sobrepõem , m as porque, de acord o com a Escritura, u m a
h on ra especial será con cedida aos m ártires no novo m u n d o
(ver A po calip se 20.4).
A ssim , quero apresentar Jo sifT o n , um segu idor de Jesu s
C risto que tem m ostrad o com su a vida e seu en sin o qu e o
sofrim en to — e até a m orte — é u m ingrediente in dispensável
do discip u lad o cristão. Jo s ifT o n é u m líder cristão rom en o,
nascido em 1934, que se torn o u pastor da Igreja B atista em
O radea, hoje um conhecido C en tro Batista. D epois de quatro
an os de p asto rad o fiel, as au toridad es ficaram d esco n fiad as
e ele foi preso e interrogado. Foi d ad a a ele, en tão, a o p o rtu ­
n id ad e de cieixar o país e se estabelecer n os E stad o s U n id o s,
on de se d ed icou aos estudos e recebeu o título de d o u to r
pela Evangelical Faculty o f Belgium . S u a pesqu isa, que m ais
tarde se torn o u um livro, foi sobre “sofrim en to, m artírio e
recom pen sas n o céu ” .
D u ran te o regim e opressivo de N ic o lae C eau çescu , Jo s if
T on , em u m de seu s serm õ es p ú b lic o s, c o n to u c o m o as
a u to rid a d e s h aviam am e a ç a d o m atá-lo. E le r e sp o n d e u :
“S e n h o r, su a m aio r arm a é m atar. M in h a m a io r arm a é
m o rre r” .
“ F iel até a m o r te ” fo i D ie tric h B o n h o e ffe r. E le foi
a p r isio n a d o n o cam p o de c o n ce n traçã o F lo sse n b u rg . N o
d o m in g o de 8 de ab ril de 1945, ele d irig iu u m p e q u e n o
c u lto de a d o r a ç ã o . E le h av ia a c a b a d o d e fin a liz a r su a
ú ltim a o ra ç ão q u a n d o a p o rta se ab riu e d o is h o m e n s à
p aisan a disseram : “ P risio n eiro B o n h oeffer, apronte-se para
vir c o n o sc o ” . A s p alavras “vir c o n o sc o ” h aviam ch egad o
a to d o s os p risio n e iro s com u m ú n ic o sig n ific a d o — o
c ad afalso . “ E sse é o fim ” , d isse ele, “ p ara m im , o co m eço
d a v id a ” .g

108

0 DISCÍPULO RADICAL

Mortalidade
A té a q u i c o n sid e ra m o s c in c o áreas n as q u a is a m o rte é
a v e re d a p a r a a v id a. N a salv aç ão (C r isto m o rre u p a ra
q u e te n h a m o s v id a), n o d is c ip u la d o (se se n te n c ia rm o s à
m o rte as m ás aç õ e s d o c o rp o , v iv erem o s), em m issõ e s (a
sem e n te deve m o rrer p a ra se m u ltip lica r), n a p e rse g u iç ão
(m o rre n d o p a ra viver) e n o m a r tír io . A g o ra c o n sid e r a ­
re m o s a m o r ta lid a d e e a m o rte d o n o sso c o r p o físico .
T en d o ch eg ad o , p ela graça de D e u s, ao s 88 an o s n a ép o ca
em q u e este livro fo i e sc rito , os le ito re s c o m p re e n d e rã o
q u e te n h o r e fle tid o b a sta n te so b re isso. O fim está à
v ista . T e n h o sid o e n c o r a ja d o p e lo p a r a d o x o d a v id a
m e d ia n te a m o rte.

A morte inspira terror em muitas pessoas [...].
Porém, para os cristãos, a morte não é horrível

A m orte in spira terror em m u itas pessoas. O in ten so
con flito interno de W oody A llen com a m orte é bem con he­
cido. Ele a vê com o u m a an iqu ilação do ser e a con sidera
“ ab solu tam en te esp an tad o ra em seu terror” . “N ã o que eu
tenh a m edo de m orrer” , graceja ele, “apenas n ão quero estar
lá q u an d o acon tecer” .10
O u t r o e x e m p lo é d a d o p e lo a m e r ic a n o R o n a l d
D w o rk in , o filó so fo de d ireito qu e tem o c u p a d o cad eiras
nas u n iv ersid a d es de L o n d re s, O x fo rd e N o v a York. Ele
escreveu:

MORTE

O mais horrível na morte é o esquecimento — a terrível e
absoluta morte da luz [...]. A morte domina porque não é
apenas o começo do nada, mas o fim de tudo.11
Porém , para os cristãos, a m orte n ão é horrível. É verdade
que o processo d a m orte pode ser con fu so e hum ilhan te,
e a d ecad ên cia proced en te n ão é agradável. N a verdade,
a p róp ria B íb lia reconhece isso ao cham ar a m orte de “o
últim o in im ig o a ser d e s tr u íd o ” ( I C o 1 5 .2 6 ). A o m e sm o
te m p o , a f ir m a m o s q u e “ C r is t o J e s u s [...] d e s t r u iu a
m o r t e ” (2T m 1.10). Ele a con q u isto u p essoalm en te p o r sua
ressurreição, de tal form a que ela n ão tem m ais au toridad e
sobre n ós. C on seq u en tem en te, p o d em o s gritar, em desafio:
“ O n d e está, ó m orte, a tua vitória? O n d e está, ó m orte, o
teu aguilhão?” ( I C o 15.55).
A derrota da m orte é u m a coisa; o d o m da vida é outra.
C o n tu d o , p o r cau sa d a d ificu ld ad e em se d efin ir a vida
eterna, os escritores d o N ovo T estam en to tendem a utilizar o
recurso d a figura de linguagem . O ap ó sto lo Jo ão , po r exem ­
plo, descreve o povo de D eus ten d o seus n om es inscritos no
livro d a vida (Ap 3.5; 21.27), gozan do de acesso con tín u o à
árvore d a vida (A p 2.7; 22.2), e b eb en d o livrem ente da água
da vida (A p 7.17; 21.6; 22.1, 17).
“M as alguém dirá: C o m o ressuscitam os m ortos? E em que
corpo vêm ?” ( I C o 15.35). A m esm a pergun ta (um a pergun ta
tola, de acordo com Paulo) é frequen tem ente feita hoje. N ó s
a resp o n d em os prestan do aten ção no relacionam ento entre
u m a sem ente e su a flor. H á u m a ligação b ásica entre as duas
(por exem plo, as sem entes da m ostard a produzem apenas
u m a plan ta de m ostarda). M as a d esco n tin u idad e é m uito
m ais im pressionante. A sem ente é sim ples e feia, m as sua flor
é colorida e bela. A ssim será com n osso corpo ressurreto. Ele

109

110

O DISCÍPULO RADICAL

preservará certa sem elhança com n osso corpo atual, m as terá
poderes novos e n un ca so n h ad o s ( I C o 15.35-44).
A lé m d o m ais, de c e rta fo rm a, o qu e é v e rd ad e iro a
re sp e ito d o c o rp o re ssu rre to se a p lic a ao novo céu e à
n ova terra. Je su s c h a m o u isso de “ r e g e n e ra ç ã o ” (palin genesia, M t 19.28). Pois se o corpo deve ser ressuscitado, o
m u n d o deve ser regeneracio. E com o deve haver um a m istura
de ligação e d esco n tin u idad e entre os dois corpos, tam bém
haverá entre os dois m u n d os. T oda a criação será liberta da
escravidão d a decadência (R m 8.18-25). E ssas expectativas
são parte d a vida eterna que a m orte nos trará. E isso é p ro­
clam ado em m uitos cem itérios e lápides: Mors janua vitae —a
m orte é o portão para a vida.
A o refletir sobre a m orte e b uscar m e preparar para ela,
tenh o retorn ado con stan tem en te ao que pode-se ch am ar
filosofia de Paulo sobre vida e m orte:
Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro.
Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu traba­
lho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro
lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar
com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.
Filipenses 1.21-23
N u m a só palavra, vida, para Paulo, significava C risto. Era
im possível im aginar a vida sem ele. A ssim , era realm ente
lógico que ele quisesse m orrer, porqu e a m orte traria lucro,
ou seja, m ais de C risto. N o en tanto, ele sabia que perm a­
neceria u m po u co m ais, pois havia m ais trabalho p ara ele
fazer n a terra.
G eralm en te é perigoso levantar argum en tos a p artir de
u m a analogia. Porém , Paulo parece n os dar perm issão para
fazer isso. O prin cípio é claro. Se para n ós a vida sign ifica

MORTE

C risto, en tão a m orte trará gan h o. D e fato, a vida fu tu ra será
m uito m elhor d o que a vida n a terra.
A ssim :
- Se ado rar com o povo de D eu s n a terra já é profundam ente satisfatório (o que é verdade), en tão a ado ração com
todos no céu será ain da m ais em ocion ante.
- Se n osso coração já q u eim a sem pre que as E scrituras
são reveladas a n ós, a revelação de to d a a verdade será ain da
m ais com ovente.
- Se a glória de um pór-do-sol já nos impressiona, com o será
quando estivermos diante da beleza do novo céu e nova terra?
- Se a com u n h ão transcultural já n os toca, ficarem os ju ­
b ilosos quancio finalm ente n os ju n tarm o s às m u ltidões de
todas as nações, tribos e línguas.
- Se algum as vezes já experim en tam os o que é “n os alegrar
com um gozo indizível, e cheio de glória” , p o d em o s ter a
certeza de que isso acontecerá com m ais frequência, no lugar
on d e n ão haverá tristeza nem lágrim as.
Esses são apenas exem plos d a experiência h u m an a. E m
cada caso é ad e q u ad o u sar um com parativo, ou seja, “m uito
m elh or” . N a verdade, q u an d o refletim os sobre a vida futura,
o com parativo é realm ente in ad eq u ad o ; o m ais apro priad o é
usarm os o superlativo. E po r isso que, sem pre que refletim os
sobre o futuro que n os aguarda, p o d em o s dizer: “O m elhor
ain da está p o r vir” .
R ecapitu lan do, neste capítulo observam os seis áreas em
que en co n tram os prin cípios paradoxais d a vida p o r m eio da
m orte: salvação, discipu lado , m issão, perseguição, m artírio
e m o rtalidade. E m cad a caso devem os con siderar essas duas
características: a m orte e a vida.

112

0 DISCÍPULO RADICAL

Por u m lado, n ão devem os su bestim ar a glória d a vida
que n os é oferecida n o evangelho — a vida eterna q u e é
n ossa pela fé em C risto, a vida ab u n dan te que é n o ssa se
sen tenciarm os à m orte os desejos d a n ossa natureza caída,
o vigor interior com o qual con tam os em m eio à fraqueza
física e à m ortalidade, os frutos prom etid os aos que são fiéis
em su a m issão, o con forto que nos é oferecido em m eio à
perseguição ou am eaça de m artírio e — prin cipalm en te — a
ressurreição final n a nova criação. D e todas essas m an eiras,
D eu s tem prom etid o que aqueles que m orrem , viverão.
Por outro lado, não devem os atenuar o custo d a m orte que
leva à vida — a m orte d o pecad o p o r m eio d a iden tificação
com C risto, a m orte de si m esm o ao seguirm os a C risto , a
m orte d a am b ição na m issão transcultural, a m orte da segurança ao enfrentar perseguição ou m artírio e a m orte para este
m u n d o ao n os prepararm os para o n o sso destin o final.
A m orte é con trária às leis da natureza e é desagradável.
D e certa form a, ela n os apresenta u m a fin alidad e terrível.
M orte é o fim . M esm o assim , em todas as situações, a m orte
é o cam in h o para a vida. A ssim , se qu erem os viver, devem os
m orrer. E estarem os d ispostos a m orrer som ente q u an d o
virm os as glórias d a vida à q u al a m orte leva. E ssa é a pers­
pectiva cristã radical e paradoxal. Pessoas verdadeiram ente
cristãs são descritas com exatidão com o “ aqueles que estão
vivos de entre os m o rto s” .

CONCLUSÃO

L > o n sid e ram o s oito características d aq u eles qu e desejam
seguir a Jesu s, e qu e ju n tas descrevem o discípu lo radical.
F ui seletivo e m in h a escolha foi, de certa form a, arbitrá­
ria. A p esar disso, existem aspectos d o discip u lad o que eu
gostaria de ver em tod o discípu lo de Jesu s, e prin cipalm en te
em m im m esm o.
V ocê, sem dúvida, desejará com pilar su a p ró p ria lista.
E spero qu e ela seja claram ente bíblica, e ain d a assim reflita
a su a próp ria cultura e experiência. E que você obten h a êxito
ao fazê-la.
N ã o h á m elh o r fo rm a de con clu ir d o que ou v in d o e
gu ard an d o as palavras de Jesu s n o C en ácu lo:
Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque
eu o sou.
João 13.13
O

fu n d am en tal em todo discip u lad o é a decisão de não

som en te tratar Jesu s com títulos h on rosos, m as seguir seu
en sin o e obedecer aos seus m an dam en to s.

PÓS-ESCRITO: ADEUS!

A o baixar m in ha caneta pela últim a vez (literalm ente,

pois

con fesso n ã o u sar com putador), ao s 8 8 anos, aventuro-m e
a enviar essa m en sagem de d e sp ed id a aos m eus leitores.
S o u grato pelo en co rajam en to , p o is m u itos de vocês me
escreveram .
E claro que, ao olhar para frente, n enh um de n ós sabe
qual será o futuro das im pressões e publicações. Porém, estou
confiante de que o futuro dos livros está assegurado e de que,
apesar de serem com plem entados, eles nun ca serão totalm ente
substituídos. Pois há algo singular a respeito deles. N ossos livros
favoritos se tornam preciosos para nós e até desenvolvem os
com eles um relacionam ento quase intenso e afetuoso. N ão é
estranho o fato de m anusearm os, riscarm os e até cheirarm os
os livros com o sím bolo de n ossa estim a e afeição? N ão me
refiro apenas ao sentim ento de um autor pelo que escreveu,
m as tam bém a todos os leitores e suas bibliotecas. D eterm inei
que não citaria u m livro a m enos que o tenha m an useado an­
teriorm ente. A ssim , deixe-me encorajá-lo a continuar lendo e
a incentivar seus parentes e am igos a fazer o m esm o. Pois esse
é um m eio de graça m uito negligenciado.

6

0 DISCÍPULO RADICAL

Existem m ilhões de irm ãs e irm ãos em C risto ao redor do
m u n d o que am ariam ter livros para ler a fim de ajudá-los a
crescer em seu discipu lado. A in d a assim , eles quase n ão os
têm ; en q u an to n ós, n o O ciden te, tem os m ais do que p o d e­
m os ler. E ssa é a razão pela q u al cedi os direitos autorais de
tod o s os livros de m in h a au toria ao trabalho da L an gh am
Literature: para perm itir que m ais cristãos e seus pastores
n as partes m ais po bres d o m u n d o ob ten h am b o n s livros
cristãos tan to em inglês qu an to em suas próprias línguas, e
assim se fortaleçam em su a fé e pregação. Q uem sabe eu o
encoraje a con siderar esse e outros m in istérios da L an gh am
Partnership, os quais são preciosos para m im , e d ign os de
seu interesse e suporte.
O s leitores talvez q u eiram saber que in diqu ei em m eu
testam en to u m gru p o de agentes literários lid erad o s p o r
F rank Entw istle, que está aten ciosam en te disp osto a lidar
com q u aisq u er questões que p o ssam surgir em relação aos
m eus livros. U m exem plar de cada livro, juntam en te com um
exem plar de con tribuições a ou tros livros e todos os m eus ar­
tigos, serão m an tidos sob os cuidados d a Biblioteca L am beth
Palace, com o generoso con sen tim en to de R ichard Palmer,
b ibliotecário e arquivista, que cordialm ente se ofereceu para
deixá-los dispon íveis a pesqu isadores. O endereço do m eu
escritório con tin u ará a ser 12 W eym outh Street, L on dres
W 1 W 5BY e será su perv isio n ad o p o r Francês W hiteh ead,
a inim itável e incansável.
M ais u m a vez, adeus!

NOTAS

Prefácio
1. Mateus 13.3-23; Marcos 4.3-20; Lucas 8.4-1 5.
2. “Come, let us join our cheerful songs”, Isaac Watts (16741748).

Capítulo 1
I. Transaction Pubfishers, T955, p. 16.

Capítulo 2
1. O relato mais recente e rico sobre a Conferência de
Keswick é este: RANDALL, lan M., PRICE, Charles.
Transform ing Keswick; The Keswick Convention, past,
present and future. Paternoster Press, 2000.
2. RAMSAY, Michael. Images old and new. SPCK, 1963. p. 14.
3. Lutterworth Press, 1972.

Capítulo 3
1. Mundo Cristão, 2005.

118

0 DISCÍPULO RADICAL

Capítulo 4
1. IVP, 2000.
2. IVP, 1984.
3. Adaptado do meu prefácio em The care of creation. Dois
livros úteis e recentes sobre o assunto são: BERRY, R. J .,
ed. When enough is enough; a christian framework for
environmental sustainability (Apollos, 2007) e BOOKLESS,
Dave. Planetwise', dare to care for God’s world (IVP, 2008).
4. No Reino Unido “ 1 bilhão” é usado para representar 1 milhão
de milhões. Atualmente é quase uma cifra universal para mil
milhões.
5. Zahar Editores, 1983.
6. Para mais detalhes, veja o capítulo 5 (Cuidando da criação)
de STOTT, John. Mentalidade C ristã; o posicionamento do
cristão numa sociedade não-cristã. Vinde, 1994.
7. Monarch Books, 2008.
8. HARRIS, Peter. A Rocha; uma comunidade evangélica
lutando pela conservação do ambiente. ABU, 2001.
Kingfisher’s fire. Monarch, 2008.
9. Essa e as próximas citações foram retiradas de WRIGHT,
Chris. The mission o f Cod. IVP, 2008.
10. Citado pot John Stott no prefácio de The Care of
Creation.

Capítulo 6
1. The first epistle of St Peter. Macmillan, 1961. 2. ed.
2. Orval Hobart Mowrer, 1907-1 982.

Capítulo 7
1. Mateus 6.9-1 3; Lucas 11.2-4.
2. The christian priest today. SPCK, 1972. Edição revisada,
1985. Capítulo 11: “Divine humility”, p. 79-91.
3. HarperCoIlins, 1957 (edição de bolso).
4. Traduzido do francês por Edwin Hudson (SCM Press Ltd,
1972). p. 11, 40, 43.

NOTAS

|

119

Capítulo 8
1. MACE, Alice E., ed. The birds around us. Ortho Books,
1986. Do capítulo introdutório escrito por Roger Tory
Peterson, intitulado “The joy of birds”. p. 19-20.
2. ZINSSER, William. A field guide to Roger Tory Peterson.
Audubon, v. 94, n. 6, p. 93.
3. Publicado pela primeira vez em inglês em 1948 (SCM,
1966).
4. LLOYD-JONES, D. M. Romans 6\ the new man. Banner of
Truth, 1992. Comentário sobre o versículo 19, p. 264.
5. WEBSTER, Douglas. Yes to Mission. SCM, 1966. p. 101-1 02.
6. O Operation World estima que existam 69,2 milhões de
membros de igrejas cristãs na China, mas acrescenta
que não há estatísticas mais exatas disponíveis. Veja
JOHNSTONE, Patrick, MANDRYK, Jason. Operation world.
Paternoster, 2001. p. 160.
7. LAMBERT, Tony. The resurrection o fthe chinese church.
Hodder, 1991. p. 174, 267.
8. MARSHALL, Paul, GILBERT, Leia. Their blood cries out. W.
Publishing Group, Thomas Nelson, 1997. p. 8.
9. BONHOEFFER, Dietrich. Do prefácio de Resistência e
submissão; cartas e anotações escritas na prisão. Sinodal,
2003.
1 0. De um artigo em Esquire, 1977. E em MCCANN, Craham.
Woody Allen, new yorker. Polity Press, 1990. p. 43 e 83.
11.
DWORKIN, Ronald. Life’s dominion. HarperCoIlins, 1993.
p. 199.