O realizador de fantasias

por Rubens Pileggi Sá
especial para a Folha de Londrina
Você saberia responder o quê há de comum, além da fama, entre Luma de Oliveira, Cláudia
Raia, Adriana Galisteu, Valéria Valenssa, Luiza Brunet, Hebe Camargo, Xuxa e Angélica?
A fantasia. Ou melhor, o autor de suas roupas e fantasias de carnaval. Seu nome é Henrique
Filho, um estilista que saiu de Bela Vista do Paraíso, no final dos anos 70, para se tornar o
mais requisitado criador de fantasias de dez entre dez estrelas, além de abocanhar, por cinco
vezes, a nota máxima pela fantasia da Comissão de Frente da escola tricampeã do Carnaval
Carioca (“em 2003, a nota foi 9,9, mas ganhamos mesmo assim o carnaval”, ele diz).
Morando e trabalhando em dois apartamentos transformados em casa-atelier, de frente para
o mar de Copacabana, no Rio de Janeiro, ele se define como “um caipira que trabalha em
um ambiente sofisticado”. Mas, também, como um guerreiro que precisou guerrear muito.
Prefere não dizer o preço cobrado por uma peça sua, mas deixa escapar que pode chegar até
a cem mil reais, algo impensável para a maioria dos mortais comuns, mas não raro entre sua
clientela, disposta a pagar pelo luxo, criatividade e suntuosidade de suas peças exclusivas
de alta costura, com bordados feitos à mão e adereços colocados um a um.
Nessa entrevista, HF nos fala de seu trabalho com as estrelas desfilando suas fantasias na
passarela; dos figurinos realizados para a Escola de Samba Beija-Flor e; de alguns dos
momentos mais marcantes de sua carreira:
R – Você faz roupas para pessoas comuns, também, ou só para os famosos, no carnaval?
HF – Durante o ano todo trabalhamos com alta-costura. Fazemos casamento, festas, bar
mitzvah, etc. E no carnaval o atelier se fecha só para confeccionar a roupa de carnaval. A
gente faz a Comissão de Frente da Beija-Flor e a roupa das madrinhas de bateria. O resto do
ano com as roupas de festas, normalmente.
R – Você trabalha com quantas pessoas em seu atelier?
HF – Dez durante o ano. Uma média de vinte, à época do carnaval.
R – Quanto tempo leva, em média, para criar as fantasias?
HF – Mais ou menos um mês. Para criar a fantasia da Comissão de Frente da Beija-Flor.
Eles me procuram, geralmente, a partir de outubro.
R – E você parte de onde para criar?
HF – Às vezes de um livro, de um pintor, de um ilustrador, na natureza, quando você vê um
bicho, um passarinho, ou mesmo pesquisando um tema, como uma dama antiga. Então
você vê as revistas de época, os acessórios, etc, enxuga e adapta o material.
R – Você está ligado ao mundo da moda desde quando?
HF – Logo depois que saí de Bela Vista, no final da década de 70, quando trabalhei em
Campinas, desenhando modelo de roupas. Na realidade a sobrevivência ditou o caminho.
Eu desenhava desde criança, mas nunca pensei que ia trabalhar com moda. Em Bela Vista
eu fazia decoração dos bailes de Carnaval, mas nunca achei que iria chegar aonde cheguei.
R – Como foi o começo de seu trabalho com a Luma?

. soldadinho de chumbo. . Se a pessoa está fora de forma você tem que ajudar a valorizar a pessoa – você não vai colocar um biquíni. vai colocar um maiô espartilhado para dar uma cintura. mas não interfere. R – Mas alguém já gastou cem mil reais em uma roupa? HF – Já. R – Quais os momentos que você considera mais marcantes de sua carreira? HF – O desfile da Fórum. mas foi beirando esse valor. (mostrar fotos). R – A partir de quanto custa uma roupa. Hoje em dia. até hoje ela se veste comigo. R – O que deixa a roupa bem na pessoa? A presença marcante.. Trabalhamos o ano todo para vários clientes que. também uniforme militar. A Adriana disse em uma entrevista que gosta de fazer roupa comigo porque ela nunca vai encontrar outra mulher com roupa igual à dela. Até hoje a produção do programa dela vai lá e leva algumas peças. e ela disse: “olha tem um rapaz aí. Não vou dizer quem é. por exemplo. A Comissão de Frente da Beija-Flor. R – E você cobra como? HF – Eu tenho um preço de feitio de roupa normal. que faz roupas para a Xuxa. coisa infantil. o tecido. a sensualidade que ela exala seria a mesma. de 2002. você chegar e dizer que alguém gastou cem mil reais em uma roupa. então? HF – Eu não gosto de falar preço. que foi lá e.HF – Já faz uns 12 anos. às vezes. E ela deu um cartão meu para a Luma. Eu trabalho com ela desde quando ela estava fazendo os (programas) pilotos da Globo. um detalhe.. Uma eu emprestei e depois ela comprou outras. um tamanho maior. A primeira roupa militar que ela usou foi minha. R – Você já trabalhava com a Xuxa? HF – Há uns vinte anos eu trabalho com ela. já. isto é. Se a Luma viesse com uma minissaia e um sutiãzinho. a roupa só ajuda. as pessoas passando dificuldade. aquela coisa militar. R – Você faz roupas para gordas e baixinhas? HF – Com certeza. um equilíbrio – sem ter que usar de certos artifícios. Soma-se ao feitio da roupa. Isso criou um estilo Xuxa à época. depende. a personalidade. mas se a mulher quiser usar um material importado da Áustria. então a roupa encarece. que é meu cliente. vamos dizer. Porque a repercussão do trabalho foi mundial.. Agora. dos passarinhos. Só aquela e pronto. o bordado. baixinha e gorda? HF – Aí já complica. se uma pessoa tem uma luz própria forte. onde está essa química entre roupa e corpo? HF – Tem roupa que favorece. que faz sapatos. que é uma coisa bem diferente. não possuem aquelas medidas consideradas perfeitas. Ela conhecia a dona da Firenze. R – Qual a diferença entre criar para uma mulher como essas estrelas da passarela e uma. Não foi cem mil. minha amiga. não é? R – E cada roupa é exclusiva? HF – Exclusiva. que você vai gostar”. o caimento. de 2001.

R – O que é o Carnaval do Rio. qual é a sua fantasia? HF – (Surpreso com a pergunta) Qual a minha fantasia? Eu nunca tinha parado para pensar nisso. hoje? HF – É o turismo. Dá emprego para milhares de pessoas. foi também um desses momentos. R – E a parte comercial do carnaval? HF – Mas esse é o processo. qual é a minha fantasia? Gegê . beleza. E no carnaval desse ano apareceram muitos macacões. sem dinheiro? O investimento é pesado. porque fica cheia de turista. Fomos nós quem lançamos essa tendência. mas guerreiro eu já sou. Infelizmente. Como é que se coloca uma escola daquela sem patrocínio. HF – Se eu tivesse que sair fantasiado na avenida eu não sei que roupa colocaria. Só se fosse de guerreiro. Mesmo para ver o desfile da arquibancada não fica barato. R – Henrique. Já pensou? Para sair de Bela Vista e chegar aonde eu cheguei. Um comentarista disse que isto se tornou uma tendência.R – Mais algum momento? HF – O macacão de cristal que fizemos para a Adriana. tende a crescer cada vez mais. . Esteticamente mudou muito. Gegê – Romano? HF – Romano? Não. eu acho que eu não tenho fantasia. é preciso guerrear muito. enredo. Rola muito dinheiro. O que não é comercial não sobrevive. que foi exposto na Áustria. Gegê (fiel escudeiro e braço direito do estilista). Cara. A cidade fatura uma baba. em 2003. Em termos de criatividade.Você nuca comentou nada sobre isso.