O CÂNTICO DAS CRIATURAS: Intuições éticas atemporais, de Francisco a Lévinas.

Tiago Falconieri Monteiro. 1

RESUMO.
Este artigo tem por objetivo apresentar os principais fundamentos do pensamento levinasiano
e indicar como tais fundamentos já estão presentes no cristianismo desde sua origem. Para
tanto, analisará os escritos e biografias de Francisco de Assis em contraposição ao
pensamento levinasiano fazendo a relação entre as propostas de Lévinas e Francisco. Tais
contraposições se darão por meio analises comparativas entre excertos de Lévinas, Francisco
e da Bíblia Sagrada. São revisitadas as principais interpretações dos conceitos levinasianos,
em especial, o conceito de responsabilidade e a forma como tal conceito se coaduna, ou antes,
é substituído pelo conceito de caridade cristã e em que ponto a caridade entendida como
responsabilidade supera a proposta de Lévinas, bem como, o quanto tal superação enseja que
este pensador da ética seja cada vez mais estudado.

Palavras-chave: Ética. Responsabilidade. Lévinas. Cristianismo. Franciscanismo.

SUBJECT.

This article aims to present the main foundations of Levinasian thought and indicate how such
foundations are already present in Christianity from its origin . Therefore , examine the
writings and biographies of Francis of Assisi as opposed to Levinasian thought making the
relationship between the proposals for Levinas and Francisco. Such contrasts will be through
comparative analysis between Levinas excerpts , Francisco and the Holy Bible . They are
revisited the main interpretations of levinasians concepts , especially the concept of
responsibility and how this concept is in line , or before, is replaced by the concept of
Christian charity and at what point the charity understood as liability exceeds the proposed
Levinas , as well as how such entails overcoming this ethical thinker is increasingly studied.

Key words: Ethics. Responsibility. Lévinas. Christianity. Franciscanism.

1

Aluno do curso de graduação em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

II. também se preocupou com a questão do bem proceder em relação ao outro. o pensamento ético de Emmanuel Lévinas parece possuir grande carga desta mesma intuição presente no cristianismo primitivo. isto é. a exaltação das virtudes e a condenação dos vícios se dão de forma intuitiva. O cristianismo primitivo. Todos os grandes pensadores da ética (tanto clássica quanto cristã) são unanimes a afirmar dois pontos. na origem de cada ser humano. 74) (LA. Uma intuição interna ou capacidade de sentir uma possível realidade universal. os primeiros cristãos e os Padres da Igreja primitiva não atribuíam especificamente à razão a faculdade de bem proceder.207) (Reductione. A ação que tende a um bem. Primeiro. não existe uma “razão” para tal. analisará os . Agostinho (1995. Desta forma. O certo é certo por ser certo. a noção de uma razão metafísica que subordina e ordena toda a forma de agir. A análise dos textos bíblicos. a ideia de bem. Segundo. Aristóteles afirma no inicio de Ética a Nicômaco que “toda ação humana tende a um bem qualquer” (2009. contudo. INTRODUÇÃO. P. P. por exemplo. a caridade possuía maior apelo moral. Para tanto. assim como os grandes pensadores. especialmente nos textos bíblicos. I. Não existe a estruturação formal e lógica que ocorre em Aristóteles. P. 1094ª1). aparentemente obedece a um fim teleológico já inscrito no “gene”.37) (I. Neste sentido. o objetivo deste artigo é apresentar os principais fundamentos do pensamento levinasiano e indicar como tais fundamentos já estão presentes no cristianismo desde sua origem.1. Boaventura (1983. Não há no cristianismo primitivo uma sistematização do pensamento ético no mesmo modelo do pensamento clássico ou escolástico. bem como dos escritos dos pais da Igreja aponta muito mais para a direção de um relato narrativo de origem intuitiva. I) segue o ensinamento de Agostinho e atribui à criação do homem para o bem e sua livre adesão ao ordenamento da razão o bem agir. Da mesma forma procede Tomás de Aquino em sua Summa Theologica. tal inscrição presente na essência humana nada mais é do que a reta razão e somente pode ser alcançado pela razão. o bem já está inscrito na essência do homem e o homem tende para o bem que é a felicidade última (entelequéia). antes. 74) argumenta que todo o bem proceder do homem vem do fato de este ter sido criado para o bem e somente praticar o mal quando deixa que seu livre arbítrio siga a senda das paixões.

Conforme elucida HUTCHENS (2007. a responsabilidade possui três significados que se interligam. P. Em certo sentido. assim a relação precede o conhecimento. Desta proposição. Em primeiro lugar. Emmnuel Lévinas (1906 – 1995) desenvolve seu pensamento ético partindo da tese de que a ética e não a ontologia é a Filosofia primeira. Finalmente. somente um ser responsável é verdadeiramente livre. como a relação entre os entes deve preceder qualquer conhecimento prévio que eles possam ter entre si. não é possível de nenhuma forma fundamentar a ética sobre os alicerces da metafísica. como não é possível fundamentar a ética no pensamento metafísico. P. Para Lévinas a responsabilidade é aquela intuição que leva à ideia do bem. a segunda significação é a responsabilidade como “reação a partir de nós mesmos à outra pessoa e suas exigências”. o primeiro significado diz que a responsabilidade é uma “reação ao outro de forma indeclinável”. aquele germem que permite aos seres humanos relacionarem-se com outros seres humanos.” Deste modo. Neste sentido. Segundo HUTCHENS (2007. isto é. também não é possível que essa ética tenha seu lugar na razão que se construiu sobre o pensamento ontológico.33). realmente. decorrem imediatamente duas consequências fundamentais para o pensamento levinasiano.32) O eu e o mundo do eu são determinados por fenômenos enigmáticos que continuam desconhecidos para nós e são irredutíveis a critérios racionais no projeto totalizante. UM BREVE PANORAMA SOBRE A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE. toda e qualquer forma de conhecimento somente pode se dar a partir de uma relação. é melhor para nós que essas coisas continuem a manter seus segredos. 2. A segunda consequência é que. ou como diz o próprio Lévinas citado . há aspectos da existência humana que nunca poderão ser conhecidos e. a própria noção de liberdade que é cara ao pensamento ocidental estaria subordinada de alguma forma à responsabilidade.escritos e biografias de Francisco de Assis em contraposição ao pensamento levinasiano fazendo a relação entre as propostas de Lévinas e Francisco. o último significado é a responsabilidade como uma “reação para o outro no sentido de nos substituirmos pela outra pessoa em suas responsabilidades. Para ele.

esta dia-conia é anterior ao dia-logo. 2007. qualquer possibilidade de totalização. quanto no sentido de Kenosis. outra característica importante da relação de responsabilidade que se estabelece entre o eu e o outro que lhe interpela é o desinteresse. em outras palavras. Oliveira (2008. o mesmifica e reífica. P. Esta negação da ontologia. nega o individuo. mas somente o sujeito egoísta e auto-centrado da tradição ontológica. . Do que foi dito acima.” Donde se deduz que para se colocar a serviço deve-se antes se estar apto para servir. Tudo o que o eu faz pelo outro. Para que o eu esteja apto a se colocar a serviço do outro. é possível perceber que a ética de Lévinas possui um movimento duplo e simultâneo. contudo tal primazia somente pode se dar sob a condição da capacidade do eu de responder ao outro. 53) afirma que “perante o outro. já não é mais livre. a atitude humana é dizer Eis-me aqui! Esta disposição de fazer alguma coisa por outrem. como se buscará demonstrar no decorrer deste trabalho. É interessante notar que para Lévinas. pode-se concluir que a ética de Lévinas pressupõe a primazia do outro sobre o eu.51). desta forma. Desta forma. Este seja talvez o maior equívoco de Lévinas.34) “só um ser livre é responsável. sobretudo. quando o eu não está em posição de responder de maneira apropriada ao outro. não chega a ser nada. naquilo que diz respeito às propostas de Heidegger. O filósofo lituano prevê somente duas possibilidades para não-resposta ao apelo da face do outro. mas não podendo ser outro. seus críticos chamam a atenção para o fato de Lévinas não ter compreendido corretamente a proposta da ontologia. torna-se claro que “Lévinas não nega o homem. opõe-se diametralmente à metafísica que é entendida como ontologia. Segundo Oliveira (2007). deve antes. tanto no sentido de Askesis. É um eu inautêntico. toda resposta dada ao outro deve ser desinteressada no sentido de não presumir uma reciprocidade como condição de relação. A noção de responsabilidade é extremamente necessária à compreensão da proposta ética de Lévinas. p.” (OLIVEIRA. se colocar em posição superior a do outro (Askesis) para somente depois poder se colocar a serviço (Kenosis). p.por Hutchens (2007. a não-resposta é já uma resposta. o eu deixa de ser eu mesmo. A primeira possibilidade está no campo da não-resposta autêntica. isto é. Só um ser capaz de começar no presente está envolvido consigo mesmo”. acaba por gerar um dilema dentro da própria proposta ética de Lévinas. A segunda possibilidade esta no campo da inautenticidade. Quando o eu busca fugir à responsabilidade irrefutável que lhe é exigida. bem como o equivoco de entendê-la como uma metafísica. o filósofo lituano é totalmente contrário ao processo de totalização e unificação. Sobre tal constatação. Assim.

A perspectiva da responsabilidade trabalhada por Lévinas está tão presente no cristianismo. a fim de ganhar os judeus. Embora eu seja livre em relação a todos. no relato filosófico a opção é pelo termo responsabilidade. Com os judeus. diferindo entre si somente pela estrutura de narrativa. desde seus primórdios. as instruções dos primeiros cristãos – especialmente a Didaqué – dão conta de que a caridade é o motor moral do cristianismo. (1ª Carta aos Coríntios. a tal preocupação e a ação decorrente desta. que tal texto de Paulo poderia facilmente ter sido escrito pelo filósofo lituano. tal opção possivelmente se dá pelo desgaste e/ou pela corrupção do sentido do primeiro.3. Ao analisar o movimento ascendente/descendente da responsabilidade é difícil não relacionar as características da responsabilidade levinasiana com as características da caridade cristã. comportei-me como se estivesse sujeito à Lei – embora eu não esteja sujeito à Lei –. A preocupação em auxiliar no sustento – tanto material quanto espiritual – das comunidades vizinhas é uma constante na narrativa neotestamentária. Com os fracos tornei-me fraco. a fim de salvar alguns a qualquer custo. contudo. Com aqueles que vivem sem Lei. Tendo como base os textos do novo testamento – especialmente o capítulo 13 da primeira carta de Paulo aos coríntios – tem-se que a caridade deve ser resposta indeclinável ao apelo e a necessidade do outro. CRISTIANISMO E RESPONSABILIDADE. os cristãos dão o nome de caridade. comportei-me como se vivesse sem Lei – embora eu não viva sem a lei de Deus. Versículos 19-22) Com efeito. deve . os dois conceitos possuem em sua essência o principio de identidade. a fim de ganhar os fracos. Enquanto que no relato religioso opta-se pelo termo caridade. comportei-me como judeu. Capítulo 9. Com efeito. tornei-me o servo de todos. Tornei-me tudo para todos. a fim de ganhar aqueles que estão sujeitos à Lei. deve ser resposta a partir de nós mesmos em direção ao outro. bem como em diversas cartas paulinas. a fim de ganhar o maior número possível. todo o cristianismo baseia-se na noção de responsabilidade conforme expressado por Lévinas. pois estou sob a lei de Cristo –. Além dos livros do novo testamento. Os relatos das primeiras comunidades já apontam para a noção de responsabilidade como pode-se notar nos primeiros capítulos do livro dos Atos dos Apóstolos. mais do que análogos. com os que estão sujeitos à Lei. para ganhar aqueles que vivem sem a Lei.

pelo qual todos foram remidos e. tal característica é a caridade. aparentemente. 4. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples e o senhor Papa mo confirmou. muito provavelmente alcançou a estatura de uma das maiores forças do catolicismo (e do cristianismo) dos séculos XIII e XIV devido ao modo como Francisco e seus primeiros companheiros viviam o evangelho e à noção de fraternidade universal. (Testamento de São Francisco. mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho. Como é possível notar. No meio franciscano. mas ao profundo amor/caridade/responsabilidade que Francisco nutria por toda a criação. 4. e finalmente. do mesmo conceito em termos diferentes. 1976.ser a responsabilidade pelo outro mesmo em suas próprias responsabilidades. a mais cara característica de Francisco é frequentemente esquecida. p. O fenômeno franciscano. o pobrezinho de Assis é chamado de o irmão universal. do qual todos participam. . Francisco de Assis (1182 – 1226) após um brusco processo de conversão buscou viver na prática o Evangelho da forma mais literal e radical que conseguiu imaginar. tal caridade abrange os três significados de responsabilidade salientados por Hutchens na obra de Lévinas. em certa medida. A este respeito Chesterton (2003) afirma que Francisco não toma a natureza como um conjunto de deuses no mesmo sentido que o paganismo. um modo sui generis de relacionar-se com o outro. Esta forma radical implica mais do que qualquer outra coisa. E depois que o Senhor me deu irmãos ninguém mais me mostrou o que eu deveria fazer. 113) Muitas vezes considerado como o “Santo da Natureza” quase como se fosse uma divindade. RESPONSABILIDADE FRANCISCANA. donde se conclui que trata-se. Francisco desejou desde sua conversão viver como o menor entre os menores. Tal “título” não se deve a um encontro místico com a natureza em si. Assim como o Cristo ordenou aos discípulos que não buscassem glórias. mas sim enquanto criaturas que são irmanadas exatamente pelo principio universal do qual todos decorrem. deve ser gratuita e desinteressada.

porque ele é o meu senhor. 9. contudo. e quem governa seja como aquele que serve”. E de tal modo quero estar como prisioneiro em suas mão que fora da obediência a ele ou contra sua vontade não possa ir a parte alguma nem empreender nada. Com efeito. O santo recusou. Capítulo 22. a maioria dos feitos de Francisco estava na esfera da imanência. Mas entre vocês não deverá ser assim. O método para o cultivo desta menoridade sempre foi a prática da obediência e o amor à pobreza. E quero firmemente obedecer ao ministro geral desta fraternidade e ao guardião que lhe aprouver dar-me.26) Esta passagem que encanta e inspira a Francisco possui exatamente aqueles significados que Hutchenes atribui à responsabilidade Levinasiana. mas ao ser informado de que os frades estavam ficando pesados para a cidade. o santo de Assis é o que possui menor quantidade de “milagres fantásticos” atribuídos. ou antes. Outro indício de que a sujeição de Francisco não se trata de mera alienação encontra-se precisamente nas primeiras . o pobrezinho ordenou que seus irmãos passassem a trabalhar e somente recorressem à esmola caso não encontrassem serviço. (Evangelho segundo Lucas. não se deve confundir a opção pela menoridade com uma mera fuga às responsabilidades. apenas por meio do movimento de Kenosys Francisco e seus irmãos conseguiam alcançar aqueles que mais necessitavam. Contudo. mas uma adesão firme ao conselho cristão de ser aquele que serve. esta submissão de Francisco não se trata de mera alienação. Francisco diversas vezes contrariou seus superiores. (Testamento de São Francisco. Pelo contrário. A humildade. 1976. disse: “os reis das nações tem poder sobre elas e os que sobre elas exercem autoridade são chamados de benfeitores.Dentro da tradição católica. ao contrário. Um destes casos em que o santo de Assis “desobedece” um superior. Versículos 25. Os feitos do pobre de Assis estavam no âmbito do respeito e da responsabilidade pelo próximo. a menoridade era extremamente valorizada pelo santo e pelos companheiros de primeira hora. 114) Ao contrário do que se possa imaginar. mas sim para manter os princípios que norteavam a si e seus irmãos. diz respeito a sugestão do Bispo de Assis para que Francisco aceitasse terras como fonte de renda para sua ordem nascente. o maior entre vocês que seja como o mais novo. porém. p. nunca por vaidade. Jesus.

Lévinas em entrevista concedida a François Poirié trata do conceito de rosto (visage) que define como “encontrar um rosto é. (Testamento de São Francisco. 1976. ao atravessar o vilarejo. Os habitantes. esse cachorro nos tomava evidentemente por homens. Eu defini o rosto precisamente por estes traços: para além da visão ou confundidos com a visão do rosto” (POIRIÉ. Para o pobre de Assis. Nós éramos criaturas condenadas ou contaminados portadores de germes. toda criatura faz um apelo ao eu. o cãozinho não nos largou mais. 112) As semelhanças entre as propostas do cristianismo franciscano e a ética da alteridade de Lévinas são inúmeras. um cãozinho nos acompanhou ao trabalho. Lévinas embora concorde que possivelmente o cãozinho percebesse os prisioneiros como homens. onde. Um relato que ilustra a amplitude da concepção ética de Francisco está na biografia do santo. 2007. Desta forma. não admite a possibilidade de que o cãozinho possua um “rosto”. ele. como “rosto”. todo contente. Neste ponto. catapulta a concepção ética de Francisco para um nível que a filosofia levinasiana dificilmente alcançará. mesmo os “não-viventes”. na entrada do campo. se recusa a afirmar a verdade do contrário.linhas de seu testamento onde o pobrezinho relata seu processo de conversão. E o senhor mesmo me conduziu entre eles e tive misericórdia para com eles. mas todos os viventes (e no caso de Francisco. a visão de Francisco e Lévinas se coadunam completamente. decerto. isto é. pelos habitantes.74) Desta história. o fogo e o vento). justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. Mas quando voltávamos do trabalho. 2007. Um cãozinho associou-se a nós um dia. Francisco que possuía ojeriza aos leprosos passa a os amar a ponto de escrever as seguintes linhas. Até este ponto. Parecia-me deveras insuportável olhar para os leprosos. latindo alegremente e saltando amigavelmente ao nosso redor. E enquanto me retirava deles. toda criatura possui esse “rosto”. de pronto ouvir um pedido e uma ordem. P. mas a declaração seguinte. E o cachorrinho nos acolhia. a nós prisioneiros que íamos para o canteiro de obras. como por exemplo a água.85). como Juden. O biografo conta que estando Francisco em viagem próximo a Gubbio foi abordado por moradores da cidade que . não é só o outro homem que dá os parâmetros do eu. P. 1. contudo é uma diferença que chama a atenção e diz justamente sobre até onde vai a extensão da responsabilidade. (POIRIÉ. Francisco vai muito além. éramos olhados. o guarda não protestou. Nesse canto da Alemanha. mas seus olhares diziam tudo. um apelo à responsabilidade intransferível e irrefutável do eu. instalou-se no comando e nos deixava partir sozinhos. não nos injuriavam nem nos faziam nenhum mal. p. nos acolhia saltitante.

Pode-se argumentar em favor de Lévinas que Francisco possui em Deus um fator de totalidade que unifica e irmana todas as coisas. Lévinas trata do tema de Deus com extrema cautela. Francisco continua vendo cada individuo como único e insubstituível. Embora a perspectiva de Lévinas seja um avanço no estudo da ética de forma sistematizada e uma proposta incrivelmente desejável de prática. tornou seu defensor até sua morte natural. este ato é indício inegável de que o santo de Assis. o lobo que aterrorizava a cidade. ainda que compreenda a necessidade desta entidade. Contudo. O aspecto importante dessa narrativa sobre o lobo de Gubbio reside no fato de Francisco ter buscado “travar um dialogo” com o lobo. fato que torna mais fácil ao Santo a tarefa de estender a todas as criaturas o reconhecimento de que são sujeitos éticos. CONCLUSÃO. enquanto que a luta do filósofo lituano é exatamente para escapar da totalização que nega as diferenças e torna todos os seres peças iguais e substituíveis. compreendia as criaturas não-humanas como sujeitos éticos e mais claramente. não pode apelar a Deus como ponto de unificação com a mesma liberdade com que faz Francisco. 5. há de se recordar que tal perspectiva já se encontra presente no cristianismo desde seus primórdios. um indicio de que a práxis da caridade cristã supera em qualquer nível de exigência ética. mesmo e principalmente por que este indivíduo é partícipe do Ser de Deus. o recurso que encontra para explicar a experiência de Deus é subordina-la . Como os caçadores concordaram. Ainda mais. ao contrário de Lévinas. partiu para localizar o lobo transgressor e ao encontra-lo. acaba por adotar uma postura excessivamente hesitante. o recurso de Francisco a Deus como fator de totalização não implica necessariamente um processo de mesmificação dos seres. desta forma. mesmo uma proposta tão exigente quanto a de Lévinas. a prática cristã de Francisco de Assis supera em diversos pontos a proposta de Lévinas.buscavam forma de matar um lobo que atacava os rebanhos locais. O biografo do santo afirma que após a intervenção de São Francisco. Enquanto o filosofo lituano hesita em estender o alcance do “rosto” (visage) à todas as criaturas. Francisco o faz sem nenhum problema e de forma irrestrita. Por outro lado. sob o risco de cair em uma aporia. travou com ele um dialogo de modo a convencê-lo a não mais atacar os rebanhos. Francisco então teria pedido a estes caçadores que lhe dessem um tempo para tentar resolver o problema.

é inegável a pertinência das propostas do filosofo Lituano. Esta é uma das maiores inovações e um dos pontos de maior relevância da perspectiva Ética introduzida por Lévinas. exigente e ampla do que poderia sugerir o pensamento levinasiano da responsabilidade.à relação com o outro e neste ponto. Deste modo tem-se que em certo sentido. embora todas as criaturas mantenham sua individualidade e sua própria responsabilidade. por este motivo. Cabe ressaltar que embora a caridade estivesse presente na prática cristã desde seus primórdios. é sempre desejável um aprofundamento maior dos estudos da Ética deste grande e marginalizado filósofo. coloca-se diametralmente oposto à concepção de Francisco. a caridade franciscana é mais profunda. não existia no corpo teórico do cristianismo – bem como no corpo teórico da própria Ética – uma estruturação que possibilitasse uma ética não-reduzida e não-subordinada à razão. . Ainda assim. A consequência imediata deste recurso é que a ética de Lévinas perde muito da liberdade que Francisco experimenta e que possibilita que o santo de Assis enxergue toda a criação como obra de um único ser.

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