Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Ciências Sociais
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Roberta Ferreira Gonçalves

A escola disfarçada em brincadeiras:
intelectuais e ideias na criação da revista O Tico-Tico

Rio de Janeiro
2011

Roberta Ferreira Gonçalves

A escola disfarçada em brincadeiras:
intelectuais e ideias na criação da revista O Tico-Tico

Dissertação apresentada como requisito parcial
para a obtenção do título de Mestre, ao
Programa de Pós-graduação em História, da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Área de concentração: História Política.

Orientadora: Profª Drª Eliane Garcindo de Sá

Rio de Janeiro
2011

CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUS/ BIBLIOTECA CCS/A

G635

Gonçalves, Roberta Ferreira.
A escola disfarçada em brincadeiras: intelectuais e ideias na
criação da revista O Tico-Tico/ Roberta Ferreira Gonçalves. –
2011.
162 f.
Orientadora: Eliane Garcindo de Sá.
Dissertação (mestrado) - Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas..
Bibliografia.
1. O Tico-Tico (Revista) – História - Teses. 2. Periódicos
para crianças – Teses. 3. Histórias em quadrinhos e crianças Teses. 4. Educação de crianças – Teses. I. Sá, Eliane Garcindo
de. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
CDU 981(05)

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação.
_____________________________________
Assinatura

___________________________
Data

da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: História Política. Aprovada em 26 de abril de 2011. Banca Examinadora: _______________________________________________ Profª Drª Eliane Garcindo de Sá (Orientadora) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ _______________________________________________ Profª Drª Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ _______________________________________________ Profª Drª Rebeca Gontijo Teixeira Faculdade de História da UFRRJ Rio de Janeiro 2011 . ao Programa de Pós-graduação em História.Roberta Ferreira Gonçalves A escola disfarçada em brincadeiras: intelectuais e ideias na criação da revista O Tico-Tico Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre.

J. Carlos. os quadrinhos e as caricaturas. Kalixto. o traço.DEDICATÓRIA À Angelo Agostini. entre tantos artistas que fizeram história em O Tico-Tico. responsáveis transformar as ilustrações. Loureiro. em uma grande paixão. .

maior é a lista de pessoas dispostas a ajudar das formas mais diversas. papos longos. carinho e compreensão. Marina. À Josete Araújo Moreira pela supervisão durante a consulta no Memorial Arnaldo Niskier e pelas boas risadas durante a pesquisa. pela paciência.AGRADECIMENTOS Quanto maiores são as dificuldades encontradas no caminho. sem a qual este trabalho não teria sido possível. antídoto ao bom-senso e um pouco de caos à ordem do mestrado. Às professoras Magali Engel e Maria Letícia Corrêa pelas indicações de leituras e discussões do GEPISP – Grupo de Estudos e Pesquisa Intelectuais. Fernando. . Gustavo. pela força e paciência. Pelas frases soltas. Agradeço especialmente à professora Eliane Garcindo de Sá. Aos meus pais e minhas irmãs. Sociedade e Política. À CAPES pelo auxílio financeiro durante o mestrado que permitiu minha dedicação exclusiva a este trabalho. pela orientação sempre presente e pelas contribuições inspiradoras. noites de bebedeira e discussões na mesa de bar. Ao professor Arnaldo Niskier e à Andréa Niskier por terem permitido a consulta ao acervo da revista O Tico-Tico. Agradeço a todos que de alguma maneira contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho. À professora Laura Nery. Aos amigos Verônica. Flavia Almeida. Obrigada por permanecer a meu lado. Flavia Belo e Rogério. Ao Angelo. pelas ideias originais. Às professoras Tânia Maria Bessone da Cruz Ferreira e Rebecca Gontijo pelas sugestões do exame de qualificação e pela grande generosidade intelectual. À Myriam e Gabriela sempre presentes e unidas. pela lealdade e paciência em nem sempre me encontrar disponível. por dividirem comigo as dores e alegrias do mestrado. Samantha.

162 f. procuramos perceber a articulação do campo intelectual carioca da Primeira República em espaços de sociabilidades. O Tico-Tico foi uma das primeiras revistas ilustradas para crianças no Brasil. Palavras-chave: Imprensa ilustrada. na proposição e encaminhamento de projetos em que estava em jogo o enfrentamento da questão nacional. como as redações de jornais. nos concentramos na análise da criação da revistinha infantil e da conjunção de fatores que permitiu o nascimento de uma publicação tida por grandes nomes da intelectualidade nacional como um marco na infância de gerações de brasileiros. O Tico-Tico foi um desses projetos que pretendeu dar corpo a um desejo intelectual de educar as crianças e jovens brasileiros. . Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O Tico-Tico se configura como acontecimento. circulou por mais de cinqüenta anos em um mercado jornalístico considerado instável. 2011. Procuramos. historinhas e lições dirigidas à formação dos futuros cidadãos da República. 2011. infantes como o próprio Brasil. Educação. Rio de Janeiro. desta forma. A partir da imprensa e seu processo de modernização. Roberta Ferreira. recuperar o contexto em que ela foi criada a partir da própria publicação – seus quadrinhos. Criada em 1905 na cidade do Rio de Janeiro.RESUMO GONÇALVES. Dissertação ( Mestrado em História ) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Na dissertação aqui apresentada. com especial foco na revista O Malho. Pela capacidade de condensar muitas das questões e demandas características de seu tempo. Intelectualidade. A escola disfarçada em brincadeiras: intelectuais e ideias na criação da revista O Tico-Tico.

setting sociabilites spaces such as press rooms. Education.ABSTRACT O Tico-Tico was one of the first illustrated magazines in Brazil to be conceived for children. we look for a glimpse on how Rio de Janeiro’s intellectual campus articulated the proposal and conduction of projects in which national problems were debated. O Tico-Tico was one of these projects that intended to embody a blazing intellectual desire to teach kids and young brazilians. Keywords: Illustrated magazines. as many intelectuals have called it. In this thesis. By following these lines. and the factors that allowed the birth of a magazine that defined a landmark in the childhood of generations of brazilians. our focus is on the analysis of the birth of the magazine. as young as Brazil itself. . For the power to condense many of its time’s questions and demands. Intelectuals. Out of press rooms and modernization. It appeared in Rio de Janeiro in 1905. with special attention to O Malho magazine. short stories and lessons to Republic´s future citizens. despite the unstable press industry. it is our intention to trace the context of the magazine´s creation from within its own pages – and its illustrations. O Tico-Tico constellate na event. and went on circulation for the following fifty years.

. 67 Figura 9 – A Derrota do Batalhão.......................... O Malho.......... Rio de Janeiro.................................... 3 de janeiro de 1906................... Rio de Janeiro...................... 28 Figura 2 – Fotografia das oficinas de O Malho..........Desventuras do Chiquinho....................... Nº 155................................................................................ 19 de agosto de 1905...... 52 Figura 7 – Travessura fatal (Conto para crianças)......................... 44 Figura 6 – A Vela Feiticeira (Conto para crianças).......... Rio de Janeiro................... O Tico-Tico............. Nº 153....... Nº 64.... Rio de Janeiro......................... O Tico-Tico............. O Tico-Tico............................................ O Tico-Tico.... Rio de Janeiro... 80 ....................................... Rio de Janeiro.. O Tico-Tico..................... Ano II .... Nº 13.... Nº 8. 26 de dezembro de 1906...................................... 8 de novembro de 1905..Procurando a casa........... Nº 127........................ 53 Figura 8 – Como se tinge uma roupa.................................. Nº 158......LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Capa da revista O Malho........... Nº 7... Nº 21........... 29 Figura 3 . Ano I . 11 de fevereiro de 1905............................ Ano IV.................... Rio de Janeiro............ 4 de fevereiro de 1905.............................. 77 Figura 11 – As nossas escolas..... Nº 126.................................................................. Ano I .......................... Rio de Janeiro.... O Tico-Tico... O Malho.............. Ano IV ............... Anno II .. 28 de fevereiro de 1906..... 41 Figura 4 – Mania de Caricatura........................... Ano IV ......................... O Malho..... 27 de dezembro de 1905................. Ano IV ........ 43 Figura 5 ... No Carnaval....... Ano II .......................... Rio de Janeiro......................... 2 de setembro de 1905.. Nº12. Rio de Janeiro...................... 77 Figura 10 – A Boneca Mecânica.. 22 de novembro de 1905... Ano I .........O Malho....... Ano IV ................................................ O Malho............................................... Rio de Janeiro...... 23 de setembro de 1905....

............................... Rio de Janeiro..... O Tico-Tico.... 9 de maio de 1906............ Rio de Janeiro............. 4 de abril de 1906......Figura 12 – A opinião do velho..... 27 de dezembro de 1905.......... 116 Figura 20 – Anúncio do Café Ideal....... 14 de março de 1906... 7 de fevereiro de 1906..... Rio de Janeiro........ Nº 26.................... O Tico-Tico................. Rio de Janeiro... Nº 18......... Nº 32.... Rio de Janeiro...... O Tico-Tico............ Rio de Janeiro.......... 14 de março de 1906......... O Tico-Tico..... 118 Figura 21 .. 10 de janeiro de 1906...... O Tico-Tico.......... Ano II .................. Ano II .... 93 Figura 15 – História do Brasil em Figuras............................................................... O Tico-Tico..... 95 Figura 16 – Juquinha Pretinho... Ano II ....... 116 Figura 18 – Edição de Natal.......... Nº 18....................... 104 Figura 17 – O Talento de Juquinha.............. Nº 30....... 122 ......................... João VI.......... 119 Figura 22 – Deu tudo em água de barrella.................... Rio de Janeiro....... Mais alguns factos e costumes do tempo de D........................... O Tico-Tico.. O Tico-Tico.... O Tico-Tico..........Ano I ..................... 81 Figura 13 – Quem com ferro fere................ Rio de Janeiro.............................................. Ano II ....... Nº 14............. Ano II .................. O Tico-Tico..................... com ferro é ferido.. 2 de maio de 1906....... 116 Figura 19 – Edição de Ano Novo...Anúncio de cigarros........... Nº 23.... Rio de Janeiro.............. Um guarda-chuva que virou canoa................ 7 de fevereiro de 1906............. Ano II....... O Tico-Tico............................................ Ano II ... Nº 31.... 16 de maio de 1906.................... 88 Figura 14 – Concurso Nº 30................. Ano II .. Nº 12...... Nº 41................................... Ano II ............................................................... 18 de julho de 1906................................................... Ano II ........ Nº 26............................................ Rio de Janeiro...... Rio de Janeiro..

................... Nº 34...... 141 Figura 31 – Uma victoria d’O Tico-Tico......... O Tico-Tico....................... 14 de março de 1906.......................... 11 de julho de 1906.......... Ano II ........ O Tico-Tico.... Nº 44... 22 de novembro de 1905................ Ano II ........................ Nº 33............ 30 de maio de 1906.......................................................Figura 23 – Manda quem pode........... 11 de outubro de 1905................... O Tico-Tico.... 136 Figura 29 – Há males que vêm por bem ou a victória da maldade.... Ano I ....... Nº 20. 30 de maio de 1906....... Rio de Janeiro.................... Ano II .............146 Figura 34 – Coitado <<seu>> Carrazedo! O Tico-Tico....... Ano II ....... 129 Figura 26 – A arte de formar brazileiros. Nº 34.............. Ano I . Ano II ........ Nº 7.............. Ano II .... Ano II ... Ano II ....................................... 131 Figura 27 – História do Brazil em Figuras.................. Rio de Janeiro.... 148 ..... O Tico-Tico.................... 140 Figura 30 – Um sonho de um mau estudante... Rio de Janeiro...... Rio de Janeiro.. O Tico-Tico... Rio de Janeiro................................ Os Palmares – sua destruição (1697).... Nº40.......Tico..... Rio de Janeiro......... O Tico-Tico....... Nº 35........ O Tico-Tico.............................................O Tico-Tico........... Rio de Janeiro.. Rio de Janeiro..... 142 Figura 32 – A Arte de Formar Brazileiros.............O Tico-Tico..... Nº1....... 18 de abril de 1906....... Rio de Janeiro.............. Rio de Janeiro.................... 124 Figura 24 – O Tico-Tico................. Rio de Janeiro....... O Tico.................. Nº 40.. Nº 23.... Nº 28........... A indústria...... 144 Figura 33 – Trabalho e Preguiça. 134 Figura 28 – História do Brasil em Figuras................. 11 de julho de 1906............ Ano II ... 23 de maio de 1906....... 126 Figura 25 – A arte de formar brazileiros... Rio de Janeiro..... A conspiração de Tiradentes..... 21 de fevereiro de 1906.................. 6 de junho de 1906....................................... 5 de agosto de 1906.

Rio de Janeiro...... 11 de julho de 1906...Figuras 35 – Meninos Moleques............................... O Tico-Tico........................................... Nº 40........ 149 . Ano II .............

.............................................................2 Os leitores d’ O Tico-Tico ................................ 101 3................................. 55 2.................................................................. 36 1....... 89 3...... 151 .....................2 Conhecer o país.............1 Educação e cidadania .....................................................2 Um mundo novo nas revistas ilustradas: a imagem como síntese da modernidade .....1........................ 137 4......................................1 O que os meninos não devem fazer ................................................1 Personagens............. 41 1. 26 1.......................................................................................................................1................................................................ um dever cívico ........................................................ 105 4 A REVISTA O TICO-TICO: A EDUCAÇÃO EM PRIMEIRO LUGAR ...3 A sistematização de Manoel Bomfim e a influência dessas ideias n´O Tico-Tico ....................2 Os intelectuais como símbolo da modernidade .........................................2.......................3 Escola e trabalho – sustentáculos da nação ........1 A imprensa dos primeiros anos da República: modernização e progresso técnico . 98 3...................................................................................................... 47 2 OS INTELECTUAIS E A CIDADE: A CRIAÇÃO DA REVISTA O TICO-TICO ...................2 O método intuitivo e as Lições de Coisas ..1 Os primeiros anos de O Tico-Tico: a gênese de um projeto ............... 91 3..........................1 A cidade caricaturada ................ 60 2.................................. 67 2..............1............. 112 4.........................................1 O nascimento de uma literatura infantil genuinamente nacional ...1................111 4.........................................2 Um novo conceito de infância ............................ 13 1 O MALHO E A MODERNIZAÇÃO TÉCNICA DA IMPRENSA NA PRIMEIRA REPÚBLICA .............1 A cidade do Rio como palco .................................................................................................................................................. brincadeiras e publicidade n’ O Tico-Tico ....................1 A construção da escola republicana e a pedagogia da nacionalidade...............................2.........................................................................1.2.....30 1..2 Combativos e bon vivants .................................. 83 3...................................... 79 3........... 146 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................... 71 3 EDUCANDO UM PAÍS EM INFÂNCIA ....... 114 4........................................ 120 4................................................................................3.................................... 64 2................SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...........................................................................................1 Uma modernidade contraditória .. 127 4.....................3 O humor na imprensa da Primeira República ...........................................................................................................................................................

..................................REFERÊNCIAS ................................................................. 155 .....

cheio de histórias engraçadas para meninos e meninas. O Tico-Tico foi um dos periódicos nascidos do processo de segmentação de impressos levado a cabo pela empresa. porquanto em muitas cousas a ensinará divertindo-a. O Tico-Tico leve e saltitante como indica o seu nome. Nº 159. Repleto de desenhos. que naquele ano adquiria máquinas capazes de expandir consideravelmente o alcance de suas publicações. anunciava em um de seus números o nascimento de uma grande novidade na imprensa carioca: a primeira revista ilustrada voltada ao público infantil. Nos dous últimos números d’O Malho já dissemos o que vai ser O Tico-Tico O endiabrado semanário que destinamos à pequenada e que será como ella traquinas. risonho. pela Sociedade O Malho. tornar-se-á desde que apparecerá. com publicações variadas e maquinário moderno. a alegria. não havia nenhuma revista destinada às crianças nos moldes d’ O Tico-Tico – ilustrada. Até então. Gilberto Freyre No ano de 1905. No editorial do primeiro número. a revista O Malho. que até aquele momento viviam o mundo dos adultos 1 O Malho. A revistinha infantil foi apresentada aos leitores como o preenchimento de uma grande lacuna no meio jornalístico. que se configurava na imprensa carioca como uma das maiores empresas jornalísticas. 30 de setembro de 1905. divertida. . a delícia das crianças de todo o Brasil1. O Tico-Tico apparecerá na 2ª quarta-feira de outubro próximo. irriquieto. Rio de Janeiro. muitos coloridos. colorida. defende-se que O Tico-Tico se configurava como uma grande revolução no mercado de produtos para crianças. Em 30 de setembro. Ano IV. publicava: Jornal das crianças Está breve o dia em que as crianças no Brasil começarão a ler o seu jornal. principal publicação humorística e ilustrada dos primeiros anos do século XX. dia 11. interativa e lúdica. È uma instituição brasileira que não deve ser perdida de vista no momento em que outras instituições brasileiras atravessam dias tão difíceis. A revista O Tico-Tico foi lançada em 11 de outubro de 1905.  13 INTRODUÇÃO Quem diz “O Tico-Tico” diz uma instituição brasileira. no número 159. o prazer. sendo-lhe ao mesmo tempo um amigo útil. até então restritas à revista de mesmo nome e seu almanaque anual.

Já havia. os quadrinhos já se tornavam populares. onde as crianças poderiam “folgar e rir em liberdade”. São Paulo: Contexto. existem três comportamentos teóricos em relação aos quadrinhos: um que entende os quadrinhos como um grande rótulo que abriga diferentes gêneros. Nº 138. p. 20-21 . Desde 1903. RAMOS. 2009. Antes de lançar O Tico-Tico. geralmente apoiadas na construção de um personagem – de outros gêneros como a charge. seria capaz de oferecer uma nova realidade. Histórias seriadas não eram propriamente uma novidade para o público brasileiro: Ângelo Agostini já tinha experimentado a narrativa quadrinizada em As aventuras de Nhô Quim e Aventuras de Zé Caipora4. portanto. 3 O Malho. cartum. ao alcance de sua inteligência”2. no momento em que O Tico-Tico foi criado. 5 "HQ" é uma das denominações utilizadas para denominar as histórias em quadrinhos. e considerado grande precursor do gênero. HQ5 mais popular da revistinha. pelo fato de serem comumente publicadas nos jornais. Rio de Janeiro. através de um esforço de compreensão do mundo infantil. Cf. Hans Christien Andersen e Charles Perrault. o menino louro – tão diferente da grande maioria das crianças brasileiras – fazia sucesso com suas trapalhadas. 4 As duas histórias foram publicadas inicialmente na Revista Illustrada e. Ano IV. Ano I. publicava também textos de autores nacionais. Renato de Castro e Cardoso Jr. personagem principal de As aventuras de Chiquinho. que na história original se chamava Tiger. 6 de maio de 1905. proprietário de O Malho. a revista O Malho já publicava tiras e contos destinado às crianças. na revista Dom Quixote. a linguagem dos quadrinhos foi apresentada ao público infantil. Richard Felton Outcault fazia sucesso com seu Yellow Kid (1896) e com o arteiro Buster Brown. depois. Ao lado de Jagunço. No número 2 da revista O Tico-Tico.  14 como se fosse o seu próprio mundo. simples. a caricatura e a tira de humor. pseudônimo de Cecília Bandeira de Mello. Nº 1. por outro lado. mas a continuação da história em quadrinhos de Ângelo Agostini nunca foi publicada na revista.charge. por vezes. os editores anunciam a publicação das Aventuras do Zé Caipora nos números subsequentes. Paulo. que em O Tico-Tico ficou conhecido como Chiquinho. fato até então inédito no Brasil. divertindo-se com uma “litteratura especial. A leitura dos quadrinhos. e outro ainda que vê as charges e tiras cômicas como parte da linguagem jornalística. caricatura e tiras em um rótulo denominado humor gráfico ou caricatura. recebeu ajuda de alguns intelectuais na concepção de O Tico-Tico: Manoel Bomfim. Luiz Bartolomeu de Souza e Silva. No nosso trabalho buscamos diferenciar os quadrinhos – histórias seriadas. Um dos maiores desenhistas. Em sua maioria. como o conto “O ambicioso” de Coelho Neto3. de 18 de outubro de 1905. O Tico-Tico. um público leitor formado nas próprias páginas de O Malho para o futuro empreendimento. eram adaptações de textos clássicos da literatura infantil europeia – Irmãos Grimm. Rio de Janeiro. Nos Estados Unidos. inclusive com a criação de personagens. Também em O Malho. estiveram ao seu lado na criação do periódico que se tornaria uma referência na imprensa 2 O Tico-Tico. ingênua. 11 de outubro de 1905. Para Paulo Ramos. punidas ao final com uma bela surra. outro que vincula gêneros cômicos . histórias infantis eram publicadas em O Malho por Décio de Pontes e Madame Chrysanthéme.

E as classes que formavam seus grupos preferenciais de leitores pareciam ávidas por consumir as recentes novidades vindas da Europa e dos Estados Unidos. Tânia Regina de Luca. 18. J. Mas se por um lado identificavam-se com os valores e modelos da classe em ascensão. a síntese na charge e na caricatura. não deixavam de ser também lugares para o exercício da crítica. A imprensa passava por uma grande transformação. ou de forma contínua criando personagens que marcariam a infância de um grande número de brasileiros. Acreditavam que a nação era a base para a construção do sentimento coletivo em torno da República e defendiam. o mundo civilizado no qual se espelhavam. Além deles. então afastados da hegemonia política. mas também como difusoras do estilo de vida burguês e moderno. São Paulo: Fundação Editora da UNESP. cada vez mais ávido por novidades. . Alimentava-se também do desejo de universalização típico da vivência do moderno: já não bastava noticiar e comentar os acontecimentos da cidade e do país. e o novo e o exótico nas fotografias. A imprensa era também lugar preferencial de atuação para os intelectuais durante a Primeira República. 6 LUCA. Estes homens. p. E elas não funcionavam apenas como fonte de informação. em publicações como a revista O Tico-Tico. aproveitando-se do processo de modernização e consolidação do capitalismo no país e da sociedade de consumo de massa que se instaurava. com a incorporação de novas técnicas que possibilitaram o aumento das tiragens e a publicação de imagens. característica marcante da imprensa brasileira desde o século XIX. Expressavam como nenhum outro veículo de informação as mudanças no ritmo do tempo. exercitando a linguagem veloz da crônica. a necessidade de subtrair seus males encaminhando projetos de regeneração e mesmo reconstrução da identidade brasileira. Carlos. Kalixto – participaram ativamente em O Tico-Tico. como bem mostra Tânia Regina de Luca6. As revistas ilustradas apareciam como um grande atrativo ao público. sentiam-se os verdadeiros responsáveis por questionar e encaminhar os rumos do país. 1999. colaborando eventualmente com histórias em quadrinhos. utilizava as páginas de jornais e revistas para expor suas insatisfações e propor caminhos para a superação dos problemas nacionais. era necessário estar conectado ao mundo através dos telégrafos e das agências de notícias.  15 brasileira. Leônidas. Este grupo comprometido com a questão nacional. A revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação. um grande número de caricaturistas já conhecidos pelo trabalho em O Malho e em outras revistas ilustradas da época – Ângelo Agostini. É neste contexto que a imprensa empresarial começa a surgir.

através da criação de ligas e sociedades. São Paulo: Paz e Terra. 24. 2002. 1999. a revistinha infantil absorveu um grupo de homens de letras de alguma maneira comprometidos com a questão da infância ou da educação. estes espaços são também lugares de tradição. Ideias em movimento: a geração de 1870 na crise do Brasil-Império. p. Angela. O afastamento do Estado. a revista O Malho demonstrava preocupação com a causa da instrução. 2009. Desde a reforma eleitoral de 1881. na falta de locais próprios para a discussão – lugar depois ocupado pelas universidades – funcionavam como espaços para a criação de redes e atuação do campo intelectual. as redes de sociabilidades auxiliam a compreensão da dinâmica entre os grupos intelectuais e a sociedade e com o campo político. Para Ângela de Castro Gomes. Instituições que. GOMES.: Modernismo e Nacionalismo. Guilherme Mendes. 26. A autora também chama atenção para a profunda interferência entre campo intelectual e campo político na atuação intelectual: se por um lado eram atraídos e dependentes do Estado. Neste sentido. p. Ela também chama atenção para o fato de que estas redes iluminam os projetos culturais desenvolvidos por estes intelectuais. estes locais eram ainda menos ortodoxos: cafés. Mesmo antes de O Tico-Tico. não configura o silêncio e nem mesmo a inércia dos intelectuais em relação às questões políticas. Beneficiado por uma rede intelectual previamente articulada em O Malho. E é neste sentido que podemos dizer que O Tico-Tico foi um dos lugares que concentrou o investimento destes intelectuais. Em alguns casos. a alfabetização era condição para o exercício da cidadania política. . não por se relacionarem a um passado ou ao atraso. 8 A noção de redes de sociabilidades intelectuais utilizada por Ângela de Castro Gomes foi essencial para a condução do trabalho. a construção destes círculos alternativos de debates e circulação de ideias está intimamente relacionada ao próprio processo de modernização do país. UERJ: Dissertação de mestrado. Zé povo cidadão: humor e política nas páginas de O Malho. 9 Id. redações de jornais. se tornaram igualmente centros de produção e veiculação de discursos e também espaços simbólicos para manifestação de seus gênios intelectuais. portanto. Ângela. outro tópico importante da orientação de O Malho10. Rio de Janeiro.. que longe de ser homogêneo era plural e contraditório. 10 TENÓRIO. Essa gente do Rio.  16 Herdeiros do caráter reformista da Geração de 18707. O "saber ler e escrever" foi reforçado pela constituição do novo regime 7 ALONSO. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas.. estes intelectuais investiam não apenas no discurso. Para a historiadora. bares. mas na ação. que durante a Primeira República estava intimamente vinculada ao alcance da cidadania política. de outro a falta de reconhecimento social e a dificuldade de ascensão a cargos políticos mais altos faz com que estes homens elegessem a rua como lócus privilegiado de sociabilidade9. mas por sua dimensão simbólica que materializa uma base que alavanca a organização do campo intelectual8.

  17 republicano. Rio de Janeiro. complementando um trabalho realizado na família e na escola. Partilhavam esses intelectuais da ideia de que somente o investimento na educação. Ao mesmo tempo em que apresentavam uma revista atraente às crianças. André. Yves. Bauru. a educação fornecia imagens de um futuro a ser construído. entendidos como parte de uma concepção ampliada de educação que envolvia pedagogia. 32. SP: EDUSC. Capaz de garantir a formação ideológica necessária para criar cidadãos disciplinados e obedientes. buscava pensar a educação para além da transmissão de conteúdos descolados da realidade infantil. Em consonância com as ideias educacionais da época. modernização. motivadas pelos estudos em psicologia da aprendizagem. Por trás desta "miragem" da educação como redentora11 estava uma visão que a colocava como formadora de cidadãos-modelo. sensível aos gostos e interesses infantis. "A miragem da alfabetização do povo: educação e formação da sociedade brasileira". pela dependência. como um caminho possível para realizar o desejo de um grupo de intelectuais que via a educação como saída para os males da nação. Estes cidadãos. Sexo e Educação. . 13. pelo atraso. Neste sentido. p. Yves Déloye defende que a construção de uma identidade nacional pressupõe a afirmação de um sentimento de lealdade cívica12. em oposição ao passado colonial e imperial. identificado com o alcance do nível de modernidade e civilização das nações europeias. que concretizariam o ideal republicano de transformar o país em uma nação grandiosa e próspera no futuro. os editores tornam claro um dos objetivos maiores da nova revistinha infantil: ensinar divertindo. Sociologia histórica do político. ampliando sua qualidade e acesso a todas as camadas sociais. O Tico-Tico realizava um propósito pedagógico. a educação se constituiu a principal saída para a ampliação do quadro de cidadãos da república. impedindo o acesso da imensa maioria da população ao voto. 12 DÉLOYE. Na pequena apresentação destacada na epígrafe. 1999. promoveriam a redenção do país pela redescoberta de sua verdadeira identidade. marcado pelo escravismo. Procurando maneiras mais eficazes de relacionar os mecanismos de compreensão infantil do mundo. seria capaz de possibilitar o progresso da nação. Essa fidelidade à nação é reforçada pela 11 BOTELHO. ao mesmo tempo em que funcionou como forma primordial de propaganda para a filiação de crianças e jovens ao regime republicano. portanto. v. nação e civismo. enfatizaram o conhecimento através de atividades lúdicas e narrativas textuais e visuais que ofereciam ensinamentos morais. imbuídos dos valores modernos e do sentimento nacional. a revista O Tico-Tico figurava. 1998. Saúde. Apresentando-se como um apoio à educação infantil.

e que pelas qualidades de sua fauna e flora tenderia a se tornar uma grande potência. mas as experiências de filiação nacional podem ser diversas. buscando também nos recantos mais escondidos a nacionalidade brasileira. além de impedir o desenvolvimento produtivo. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo.  18 busca de elementos unificadores. por apelar para uma legitimidade emocional. doentes. dos bons sentimentos e virtudes. partilha dos mesmos códigos de identificação. Benedict. A nação é uma comunidade imaginada porque dá sentido de comunhão e pertencimento a um grupo que. terminavam homens infelizes. mas um produto cultural que tem origens históricas específicas que. O conhecimento de sua terra e sua gente garantiria o cabedal necessário para que estes futuros cidadãos superassem a herança nefasta do atraso. Enfatizava-se também a necessidade premente de interiorizar o país. evidenciando as potencialidades e riquezas do país. Benedict Anderson13 entende que a nação não é algo concreto e atemporal. O Brasil figurava como um país que se concretizaria no futuro. Um dos grandes problemas do Brasil estaria no pouco conhecimento de seu território que. A revista O Tico-Tico estava em consonância com essas ideias na medida em que buscava enfatizar em suas páginas a importância da preservação de sentimentos cívicos e morais que ampliassem o sentido de comunhão existente entre os cidadãos brasileiros. 13 ANDERSON. como a língua. os laços de filiação a essa “comunidade imaginada” foram reforçados. da geografia do país. e optavam pelo caminho do estudo e do trabalho. não permitia a formação de uma identidade para o povo brasileiro. os editores defendiam a importância do trabalho. apelavam para o confronto da criança com o seu futuro: aqueles que guardavam bons sentimentos. . dos conselhos do "Vovô" ou dos ensinamentos de "A arte de formar brasileiros". São Paulo: Companhia das Letras. 2008. o território e a cultura. acabam parecendo formações espontâneas e soberanas. elementos essenciais ao sentimento cívico. Também condenavam vícios e atitudes que consideravam inadequados às crianças e neste caso. da história. eram mostrados no futuro como homens de condição financeira estável. A educação se apresentava como forma de realização da nacionalidade: através do conhecimento da língua. sem pensar no futuro. a escola (e a educação de maneira ampliada) foi um dos mecanismos de construção do sentimento nacional. da instrução. felizes e realizados. A compreensão da história e da geografia do país era ressaltada como essencial para a formação da criança e do jovem brasileiro. Através da criação de histórias. mesmo sem se conhecer. aqueles levados pela preguiça e marcados pela desobediência. solitários e pobres. No caso do Brasil.

  19 desde que encaminhado por cidadãos comprometidos com o progresso e o engrandecimento da pátria. a geografia. Tiradentes e a Inconfidência Mineira – como símbolo e origem dos valores republicanos. Literatura infantil brasileira: história e histórias. Assim. seção permanente da revista. Para Lajolo & Zilberman14. . Microfísica do poder. Regina. Michel. zelando por valores entendidos como essenciais ao homem – o estudo. o trabalho e a família. em oposição à história colonial. procuravam definir heróis e marcos históricos – por exemplo. mas como resultado de uma 14 LAJOLO. a revista O Tico-Tico auxiliou no desenvolvimento da literatura infantil e foi. Também a língua era elemento essencial de identificação para o brasileiro. A publicação na revista de historinhas escritas por crianças era identificada como um incentivo à produção de textos e ao exercício da língua. São Paulo: Ática. um acontecimento não é algo que pode ser simplificado por causas e efeitos. As futuras gerações eram descritas. 15 FOUCAULT. filho do tempo. que inserido em uma conjuntura de fatores resultou em um elemento capaz de concentrar muitas das questões características do tempo em que foi criada. pretendia-se apresentar os acontecimentos históricos de maior expressividade no país de forma divertida e lúdica. a língua e a história do país. 1991. ao lado da escola. A noção de acontecimento nos ajuda a compreender o processo de criação da revista O Tico-Tico não como produto de um único elemento decisivo. Para a concretização deste projeto. durante os primeiros anos do século XX. o conhecimento da história do país é ressaltado como essencial ao reconhecimento do povo à sua pátria. O Tico-Tico se configurou na imprensa como um verdadeiro acontecimento. A seleção destes acontecimentos e a maneira como eram retratados evidenciam o interesse de que esta história servisse ao engrandecimento do novo regime. ele é também surpreendido por acasos que podem levar a rumos inesperados – é fruto da articulação entre as coisas e não de determinações15. como as responsáveis por conduzir as mudanças necessárias ao país. marcada pela escravidão e dependência ao português. 1999. e a revista O Tico-Tico se regozijava de auxiliar no seu aprendizado pelos pequenos através das histórias e contos infantis publicados em suas páginas. ZILBERMAN. deveriam ser educadas e instruídas desde tenra infância em temas como o respeito à pátria. Marisa . Para Michel Foucault. um dos principais meios de divulgação dos livros destinados ao público infantil. Rio de Janeiro: Graal. Em “História do Brasil em Figuras”. Nesta seção. portanto.

e já se encontra plenamente estabelecida nos últimos números de 1906. Os fundadores da revistinha certamente se decepcionariam em ver que o país que desenhavam – uma República educada. não para determinar os fatores que lhe deram origem. O Tico-Tico não inovou na linguagem e na arte gráfica. mas se utilizou daquilo que era mais significativo em sua época: a charge. civilizada e moderna – ainda esbarra no descaso com a sua própria história. nos concentramos na análise dos anos de 1905 e 1906 d’ O TicoTico. embates. Dessa forma. como indivíduo investido de desejos e preocupações. tendo como base as ideologias do progresso e civilização. posto em prática por um grupo de intelectuais que se viam portadores de um desejo de modernização. Este trabalho procura buscar a trajetória da criação desta revistinha infantil. Com este intuito. cívica e pedagógica vai progressivamente penetrando no conteúdo da revista. instrumento tão importante no questionamento acerca da nacionalidade e cidadania brasileira. .  20 conjunção de fatores que. inaugurado no mesmo ano em que nascia O Tico-Tico) nos furta do direito à memória. momento em que o projeto se consolida. Não descobriu a infância. a consulta ao acervo da Biblioteca Nacional esteve impedida. mas foi um projeto fundamental para o desenvolvimento da literatura infantil e acompanhou a afirmação da criança dentro da família e da sociedade. mas para tentar compreender como as demandas e respostas daquele tempo configuraram o nascimento de um periódico que diz tanto sobre o seu tempo. representantes do futuro de um país que desejava se constituir como nação. passando depois a usar o eufemismo “más condições para o manuseio”. consensos e disputas políticas e culturais. na medida em que nasce a partir de um quadro de modernização. através da ação de intelectuais na concretização de um projeto ao mesmo tempo empresarial (pois que a imprensa caminhava nessa direção) e ideológico. A instituição alegou o roubo das obras. a caricatura e a história em quadrinhos. baseado em uma crença propriamente política de que a educação seria o melhor caminho de afirmação nacional. possibilitaram a concepção de um produto singular de grande sucesso em sua época. também fruto de jogos. Entendemos a criação da revista O Tico-Tico como fruto de um projeto de matriz cívico-nacionalista. foi possível perceber como a orientação moral. A hipótese que norteou nosso trabalho se baseia justamente nessa relação intelectual – modernização – educação. O fato é sintomático de como a instituição (e seu majestoso prédio. e potencial consumidor na sociedade de massa que se instaurava. Infelizmente. o que incluía a expansão da educação como forma de construir cidadãos modelares.

17 Id. Apesar de bastante popular e longeva. Como Rosa trabalha com os mais de cinquenta anos d' O Tico-Tico. no lugar de uma análise de conteúdo pura e simples. questões importantes na sua abordagem (como a 16 Cinquentenário de O Tico-Tico. Foi possível aprofundar mais as referências de historicidade. O Tico-Tico: meio século de ação política e pedagógica. Sua hipótese é que a revista O Tico-Tico não foi apenas um empreendimento empresarial. mesmo porque o social é o espaço privilegiado para a sua articulação17. 18 ROSA. da sua fundação até os nossos dias. SP: EDUSF. que trabalha a revistinha infantil sob dois encaminhamentos – o recreativo e o pedagógico. ainda mais se tratando das limitações que cabem a uma dissertação de mestrado. Mesmo sendo O Tico-Tico um veículo destinado às crianças. Nesta publicação comemorativa foi possível encontrar detalhes sobre a criação da revistinha infantil e depoimentos de personalidades que na infância foram leitores da revista O Tico-Tico. e descreve os personagens e seções mais importantes da revista. Rio de Janeiro: Sociedade Anonyma O Malho.  21 As dificuldades durante a pesquisa documental trouxeram ainda mais questões para o trabalho. 2002. ressaltando sua contribuição dentro d' O Tico-Tico. Noticiário e homenagens diversas a tradicional publicação. procura relacionar a orientação da revista com o campo educacional da época em questão. em especial os anos de 1904 e 1905. . mas uma manifestação cultural que respondia às necessidades infantis e a uma ação pedagógica informal. publicada em 1956 pela Sociedade Anonyma O Malho16. Zita de Paula. é necessário apresentar uma breve análise da contribuição dos trabalhos mais significativos acerca da revista O Tico-Tico. A autora realiza um inventário dos caricaturistas e editores mais importantes da revista. Dado o caráter parcial de todo trabalho historiográfico. Além disso. além de seus almanaques e edições comemorativas. O mais importante e reconhecido é o da historiadora Zita de Paula Rosa18. sem esquecer sua importância política. Como aponta Yves Déloye. abrindo novas dimensões em seu encaminhamento. para compreender a origem da publicação infantil (bem como identificar os fatores envolvidos em sua criação) foi necessário consultar também a revista O Malho. retrospecto da vida de O Tico-Tico. Bragança Paulista. é essencial perceber a dinâmica intrincada entre o social e o político. existem poucos trabalhos de expressão sobre a revista O Tico-Tico. Neste sentido. 1956. não podemos incorrer em simplificações e analisá-lo apenas na dimensão de seu alcance sócio-cultural. Outra fonte de fundamental importância foi a edição do Cinquentenário de O TicoTico.

In: SANTOS. como formato. o de José Sobral sobre a influência da revista O Tico-Tico sobre as publicações do mesmo gênero em Portugal23. Waldomiro. Op. escritores e personalidades na revista O Tico-Tico. 2005. São Paulo: Ópera Graphica. considerada uma das mais belas capas de revista desenhada por J. 22 VERGUEIRO. "O papel da mulher em O Tico-Tico". São Paulo: USP. Carlos. Waldomiro. Destaca os principais personagens e seções. Outra referência importante para estudos com foco na revistinha de O Malho é a edição especial do Centenário de O Tico-Tico. Um marco nas histórias em quadrinhos no Brasil (1905-1962). José. O Tico-Tico: centenário da prmeira revista em quadrinhos do Brasil. VERGUEIRO. Waldomiro. até os personagens – entre ilustradores e quadrinhos – mais importantes da história d' O Tico-Tico. distribuição. que trata somente da edição especial de São João. organizada por dois pesquisadores do Núcleo de Pesquisa em Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Arte da USP Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio dos Santos20. Outro trabalho de fôlego em relação às fontes é a dissertação de mestrado de Maria Cristina Merlo19. os autores aprofundam o conhecimento sobre a revistinha infantil. Seu trabalho oferece uma importante referência para futuros trabalhos sobre O Tico-Tico. O Tico-Tico. 2003. e o de Fabio Santoro. VERGUEIRO. Op. Apesar do excelente trabalho de pesquisa e de conhecimento profundo das fontes. a autora realiza um trabalho de catalogação de desenhistas. Waldomiro. VERGUEIRO. a longa duração da revista impede uma análise mais profunda. 20 SANTOS. periodicidade. Alguns artigos ganham destaque pela originalidade no tratamento do tema. Cit. passando pela troca de experiências com as revistas estrangeiras. Roberto Elísio . In: SANTOS. no que se refere à dimensão recreativa também falta maior reflexão sobre a relação entre a linguagem lúdica. Em uma série de artigos. como o artigo de Vergueiro sobre a publicidade na revista21 e sobre o papel da mulher22. além especificar características internas da revista. 19 MERLO. In: SANTOS. 23 SOBRAL. Op. Waldomiro. ". "O Tico-Tico de além mar". . VERGUEIRO. Waldomiro. destacando diversas relações e uma variedade de possibilidades de trabalho com o tema: da memória sobre a revista. Roberto Elísio . Maria Cristina. já que muitas foram as mudanças na legislação e na relação social e política com o tema da educação no país. de 192724. ilustração e imagem no mundo infantil. Roberto Elísio . Roberto Elísio . Além disso.  22 análise sobre a relação da publicação com as ideias e manifestações pedagógicas) parecem às vezes superficiais. Sem nenhuma pretensão a uma análise aprofundada sobre a revista. preço. dissertação de mestrado. Cit. 21 VERGUEIRO. Cit. "A publicidade em O Tico-Tico".

incluindo a revista O Tico-Tico. que relacionava o país à criança. mas acrescenta que se trata de um empreendimento diferenciado. principalmente dos intelectuais – entre artistas e homens de ciência – em 24 SANTORO. 2006. civismo. Roberto Elísio. O poder simbólico. Patrícia Santos. ver BOURDIEU. Para a autora. A introjeção deste habitus está diretamente relacionada à obtenção de poder simbólico no interior do campo e também fora dele. A autora ressalta que a produção para a infância. como correção nos estudos. ainda que portador de uma função pedagógica. onde tudo estaria por se construir. Cit. seriedade. que não se dirige diretamente à escola. Hansen inclui a revista O Tico-Tico no contexto da literatura infantil da época. Tese de doutorado. Fabio. 26 Para noção de campo e habitus.  23 É importante citar também a tese de Patrícia Santos Hansen25. São Paulo: USP. esta literatura tinha como objetivo difundir um projeto nacional. via as crianças como adultos em miniatura. Além da contribuição dos trabalhos acima citados. pela abordagem de comportamentospadrão. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. 25 HANSEN. . 2007. A criação da revista O Tico-Tico evidencia um complexo jogo de disputas por legitimação e reconhecimento. relativamente autônomo. Hansen trabalha especialmente com a "Arte de formar brazileiros". A posição de cada membro dentro do campo também depende da formação de um habitus. Pierre. que dá sustentação ao campo através de valores. O Tico-Tico foi antes um empreendimento comercial. Pierre. Op. um país novo: literatura cívico-pedagógica e a construção de um ideal de infância brasileira na Primeira República. Waldomiro. Dois conceitos foram especialmente importantes para o trabalho: a noção de campo e habitus de Pierre Bourdieu26. BOURDIEU. mesmo que seja por ela utilizada. em analogia a uma nação nova. Ele está marcado por constantes lutas de diferenciação e reconhecimento que definem as relações mantidas entre os membros no interior do campo e também na relação deste com outros campos. São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. o campo jornalístico e o campo político no Brasil. 1996. hierarquias e mecanismos de controle que lhe garantem sentido. "A edição especial de São João da revista O Tico-Tico". Para a autora. um corpo teórico ajudou a dar sustentação ao trabalho aqui desenvolvido. VERGUEIRO. que apesar de não ser exclusivamente sobre O Tico-Tico tem a revista como fonte para analisar a produção da literatura cívico-pedagógica na Primeira República. O sociólogo define o campo como espaço social. onde se realizam relações objetivas. n: ". A partir destes conceitos foi possível ver com mais clareza as íntimas relações mantidas entre o campo artístico. etc. In: SANTOS. indivíduos precoces com o dever de construir e salvar a pátria no futuro. Brasil.

característica da concepção de homens de letras da época. onde transparecia uma insatisfação tanto com os desejos do público leitor. Com o campo político. foi importante também uma análise mais detida sobre o papel da caricatura e do humor na imprensa da Primeira República. o foco está direcionado para a questão intelectual. apresentamos o processo de modernização técnica da revista O Malho. No segundo capítulo. Santiago do Chile: Universidade Santiago do Chile. identificados com as noções de modernidade e progresso. Hacia da constituición de una comunidad intlectual. Foi neste sentido. também foi ponto de análise. com a segmentação de suas publicações em 1905. procurando evidenciar a articulação entre os diversos fatores que possibilitaram a criação deste periódico infantil de grande longevidade. Mesmo tendo O Malho como foco. 2007. ressaltando a popularização das revistas ilustradas e sua importância na difusão de valores burgueses. Neste capítulo foi ressaltada a relação do intelectual com a cidade e a utilização de espaços não formais para o encontro. Redes Intelectuales en América Latina. As redes. discussão e formulação de projetos que tinham como objetivo traçar diagnósticos e caminhos de ação para a superação dos problemas nacionais. que a dissertação foi dividida em quatro partes: No primeiro capítulo. . A ideia do intelectual como homem de ação. Neste contexto. criadas a partir de afinidades construídas a partir de encontros. sua metodologia ajuda a iluminar os caminhos possíveis para pensar as relações entre os grupos intelectuais a partir dos espaços que frequentam e dos interesses por eles partilhados. O autor define as redes como formas de organização mais ou menos espontâneas. Em apoio à noção de campo e habitus de Bourdieu. lugares e temáticas comuns.  24 relação ao campo jornalístico. Ainda que nosso trabalho não disponha da grande variedade de fontes necessária para traçar as redes intelectuais. como agentes do campo. e especialmente na sua atuação para a formação de redes de sociabilidades que possibilitaram a criação d' O Tico-Tico. utilizamos a reflexão de Eduardo Devés-Valdés acerca das redes intelectuais27. legítimo interventor nas questões políticas. Eduardo. como com os limites do próprio veículo e o controle exercido pelos editores. 27 DÉVES-VALDÉS. como questão importante para a criação da revista O Tico-Tico. são lugares de disputa por poder e capital sócio-cultural. a disputa era ainda mais acirrada pelo desejo de participação na hegemonia política e pela postura interventora própria da figura do intelectual que emergia naquela época. tal como propõe o autor. procuramos também analisar o processo de modernização da imprensa.

buscamos sistematizar nossa abordagem apontando os caminhos escolhidos e aquilo que consideramos ter avançado nas análises até então existentes sobre a revista O Tico-Tico. procurando perceber algumas características básicas. como tiragem. Ressaltamos na análise algumas temáticas frequentes observadas nos primeiros anos da revista. Ficou marcada na memória de um sem-número de brasileiros que tiveram a felicidade de contar com os conselhos de Vôvô. J. parecia trazer no “bico o melhor do que fomos um dia!”. O Tico-Tico sem dúvida abriu caminho para uma série de publicações destinadas à infância e consolidou um mercado consumidor até então pouco explorado. No último capítulo. público leitor. a difusão de valores morais e as estratégias para o desenvolvimento futuro do país. Lobão. a presença de publicidade. Neste sentido. Por fim. e ainda em edições especiais até a década de 1970. Carlos. incluímos também a difusão da literatura infantil como apoio importante neste processo. mas que hoje tem lugar de destaque. principais seções e personagens. procuramos identificar o porquê da difusão da ideia de regeneração nacional a partir da educação entre diversas camadas da sociedade. Nas considerações finais.  25 No terceiro capítulo. Centradas no aluno. com as lições de Agostini em “Arte de formar brazileiros” e as divertidas historinhas de Leônidas. A partir de uma breve análise das tentativas de organização do sistema educacional pelo poder público desde o Império. identificando os múltiplos espaços e projetos que concorreram para a definição do espaço educativo nacional. tiveram a possibilidade de realizar este encontro mesmo depois de anos após o seu fim. como o conhecimento da história e da geografia do país. que como eu. tais pedagogias indicavam atividades lúdicas como o melhor caminho no processo de ensinoaprendizagem infantil. Para aqueles. . O Tico-Tico também deixou marcas porque. procuramos analisar brevemente a concepção de Manoel Bomfim sobre educação: Bomfim foi o único dentre os intelectuais envolvidos na criação da revista O Tico-Tico a sistematizar muitas das ideias que observaremos na revista. como escreveu Carlos Drummond de Andrade. passamos à análise dos dois primeiros anos da publicação (1905 e 1906). Kalixto. O Tico-Tico se tornou uma revista popular. Outro ponto importante abordado no terceiro capítulo é a influência das ideias pedagógicas consideradas mais modernas na revista O Tico-Tico. que circulou de forma regular até 1956. o objetivo foi caracterizar a educação na Primeira República. A longevidade desta publicação é ainda hoje invejável em um mercado jornalístico marcado por constantes mudanças.

20 de setembro de 1902.  1 26 O MALHO E A MODERNIZAÇÃO TÉCNICA DA IMPRENSA NA PRIMEIRA REPÚBLICA Contos. O próprio nome da revista já sugere esse tom de crítica aliada ao humorismo: pode significar tanto o martelo utilizado para bater ferro. Rio de Janeiro. poesias. 2001. como a crítica mordaz. um mosaico de sinais da modernização da sociedade brasileira. A definição da revista. Como aponta Ana Luísa Martins31. 1990. era estratégia comum entra as publicações da época dizer ao leitor ao que veio. 31 MARTINS. artístico e literário”. Essa modernização estava presente de diversas maneiras nas páginas da revista O Malho. O Malho declarava-se um “semanário humorístico. São Paulo: Fundação Editora da Unesp. Nº 1. Mas em O Malho ela ganha contornos característicos. Ana Luiza. com orgulho: <<Os marmanjos têm os seus jornais? Pois nós também temos o nosso jornal. exclusivamente para nós!>>28 “Iconoclasta de nascença. para. 11 de outubro de 1905. na verdade. Rio de Janeiro. ellas poderão dizer. Revistas em revista: imprensa e práticas culturais em tempo de República. versava sobre um grande número de assuntos. que é feito para nós. Prometia servir a um “alto dever social” concorrendo para o “melhoramento e progresso da raça humana”29. Como outras revistas ilustradas da Primeira República. ao mesmo tempo. instruir e deliciar as crianças. São Paulo (1890-1922). que em muitas revistas estava identificada com a formulação de projetos para o país. era. Tânia Regina de Luca30 afirma que a crítica e a opinião. e. Ano I. contribuirão. A revista do Brasil: um diagnóstico para a (N) ação. . problemas. 30 LUCA. de hoje em deante. pelo forte conteúdo crítico presente em suas páginas e – principalmente – pelo humor marcante. de política a literatura e moda. era uma característica de boa parte da imprensa da Primeira República e pode ser verificada mesmo nas publicações que a princípio sugerem a defesa irrestrita dos fetiches da vida moderna. como em grande parte das publicações destinadas ao grande público da Belle Époque carioca. como o caso da revista Fon-Fon!. sem dúvida. Nº 1. em 20 de setembro de 1902. O Malho começa por atacar e destruir a praxe: não tem programma”. concursos. nas páginas do Tico-Tico. Assim a revista O Malho se anunciava em seu primeiro editorial. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Fapesp: Imprensa Oficial do Estado. mas seu pano de fundo era. apresenta um quadro 28 O Tico-Tico. Esta dubiedade característica de O Malho também pode ser encontrada em outras publicações que levam o rótulo "ilustrada" ou "de variedades". Tânia Regina de. Ano I. aliada à simbologia do seu nome. uma revista de variedades. 29 O Malho.

Rio de Janeiro: Mauad X. Apresenta no mesmo número a futura publicação de Portugal Contemporâneo.000 exemplares33. como aponta Monteiro Lobato. obra vinda de Lisboa e o suplemento Rio Chic. 32 LOBATO. três anos após seu lançamento. O Malho foi criado em 1902 por Luiz Bartolomeu de Souza e Silva. A variedade de periódicos e suplementos que são lançadas em 1905 pela empresa O Malho é significativa de uma transformação importante na imprensa da época. Em seus primeiros anos. portanto. acessível também às camadas mais baixas da população. de grande circulação. 15 de julho de 1905.  27 bastante coerente do que era a revista O Malho: um periódico em que a arte – seja por meio da caricatura e da charge. A multiplicação de revistas e suplementos da empresa O Malho faz com que esta se configure como uma das maiores empresas jornalísticas do Rio de Janeiro até a década de 1930. foi capaz de ampliar o número de publicações disponíveis no mercado editorial. jornalista mineiro formado pela Escola Militar da Praia Vermelha. que declara destinado às pessoas que têm pouco tempo para a leitura de jornais e livros e encontrariam ali informações de “tudo que vae pelo mundo”34. 35 Ibid. Ano IV. promove a publicação de Leitura Para Todos. “A caricatura no Brasil”. seja pela via literária – servia como mecanismo de compreensão e exame do quadro político e sociocultural de um mundo em transformação.000 exemplares – um bom número se comparado ao do Jornal do Brasil. o periódico declara a tiragem de 35. sem falar de Illustração Brasileira. O preço de venda naquele ano era de 300 réis. O número 148 anuncia o grande avanço representado pela aquisição da novíssima máquina: “As novas máquinas d’O Malho podem tirar em três horas a mesma edição que tiram. Ideias do Jeca Tatu. folha diária mais moderna e de maior circulação que na época chegava a rodar 60. São Paulo: Globo. In: ______. p. A modernização das oficinas. Marialva. Rio de Janeiro. Em 1905. assim como transformar o conteúdo e a característica visual dos impressos. No caso de O Malho é a chegada da rotativa Marinoni que opera tal mudança. com o aparecimento de novas máquinas mais rápidas e eficazes. o equivalente ao preço do transporte público. . as machinas das typographias em que até agora elle tem sido impresso”35. 2008. Nº 148. em A caricatura no Brasil32. sendo. editado no fim do ano. Monteiro. 37 33 BARBOSA. Em julho do mesmo ano. 20 34 O Malho. 1900-2000. Era uma revista popular. teve como diretor artístico o caricaturista e cenógrafo recifense Crispim do Amaral. História Cultural da Imprensa: Brasil. trabalhando durante quatro noites e quatro dias. O Malho divulga a diversificação de suas publicações: além da revista O Malho e de seu Almanak.

Como não podia deixar de ser. nitidez e rapidez na publicação. a poderosa máquina e na extrema esquerda.  28 No número 15336. Figura 1 Capa da revista O Malho apresentando as rotativas Marinoni. Nº 153. quem sabe até rendido. O público curioso cai. uns por cima dos outros. Ângelo Agostini observa boquiaberto a extraordinária inovação. Ano IV. com homenagem de seu mais famoso ilustrador: Agostini desenha a si mesmo espantado. O Malho inaugura suas rotativas em grande estilo. À direita. mas também garantir maior qualidade. Ano IV O editorial deste mesmo número informa que com as novas rotativas foi possível não só reformular o material tipográfico e aumentar o número de páginas. 19 de agosto de 1905. O Malho. O Malho exibe a novidade aos leitores: a revista remodelada graças ao investimento técnico. às possibilidades da máquina que ali se apresenta altiva. ansiosos por adquirir a nova revista. Rio de Janeiro. as rotativas Marinoni são finalmente inauguradas e um novo projeto gráfico para a revista é apresentado. Rio de Janeiro. Na capa (figura 1). . nº 153. O que antes levava “quatro noites e quatro 36 O Malho. 19 de agosto de 1905.

as publicações destinadas a públicos específicos – mulheres. demonstrando o potencial para a impressão também de novas publicações pela empresa. Também foi criador de outros personagens importantes. que de Minas Gerais. Com a aquisição das novas máquinas.”38. uma revistinha inteiramente concebida para o público infantil. Figura 2 Fotografia da rotativa Marinoni e do impressor Jolly na oficina da revista O Malho. Ano IV. setores mais intelectualizados da população – ganham espaço e autonomia antes restritos a colunas ou seções no interior da revista O Malho. O Malho. Os editores também informam que a compra das rotativas ofereceria a possibilidade de dobrar a tiragem da revista. Em felicitação. onde criou de um dos personagens mais célebres da revistinha. o Kaximbown. Além do número comemorativo. na década de 1930. Em seu bilhete. charges e caricaturas da rotativa. 23 de setembro de 1905. como O Barão de Rapapé e Pandareco. O Malho poderá malhar no próximo malcriado por meios mecânicos e sem cansaço.. Nº 158.. Rio de Janeiro. . Nº159. A chegada da rotativa e outros aparatos técnicos nas oficinas de O Malho mobilizou uma série de publicações na revista sobre o tema.  29 dias”. O número 159 traz uma caricatura de Max Yantok37. Yantok desenha o personagem símbolo de O Malho comandando a rotativa. teria enviado à redação um desenho em homenagem a aquisição da máquina. A astúcia do dono e editor. 38 “Correspondência de Minas” O Malho. Foi neste contexto que nasceu O Tico-Tico. os editores orgulhosos publicaram fotografias das oficinas. Rio de Janeiro. 30 de setembro de 1905. crianças. Ano IV. Parachoque e Viralata. com a nova tecnologia não levaria mais de três horas. publicado como legenda lê-se: “Graças a esta invenção. que soube perceber que havia um grande público 37 Max Yantok foi caricaturista de O Malho e em 1908 começa a trabalhar também na revista O Tico-Tico.

o fonógrafo. Fazer jornalismo dos 39 BARBOSA. em 10 de junho de 188039. Chamada pela redação de rotativa “Camões”. acompanhando as últimas novidades em impressão e linguagem gráfica.1 A imprensa dos primeiros anos da República: modernização e progresso técnico As rotativas Marinoni foram festejadas pela redação de O Malho e responsáveis por uma grande transformação na empresa. muito mais acelerado. ditando o ritmo. como informa a autora. que faziam do centro da capital um grande canteiro de obras. . quando outros jornais e revistas procuravam igualmente o avanço técnico possibilitado pela introdução das novas máquinas nas redações. com a utilização de uma linguagem mais ágil. Mas as mudanças não estavam apenas na aparência dos jornais e revistas: eram perceptíveis também no conteúdo. e a impressão de fotografias e ilustrações que se tornavam a cada momento mais essenciais para garantir apoio e veracidade ao texto. do dia a dia daqueles que circulavam no espaço urbano. 29.  30 disponível e sedento por novidades. esta expectativa só se cumpriria no início do século XX. Ícone dessa modernidade. Marialva Barbosa cita a grande euforia que representou a aquisição da rotativa Marinoni pela Gazeta de Notícias. A cidade. a publicação de uma quantidade cada vez maior de informações. p. era palco dessas mudanças. a iluminação elétrica cortava o centro: a cidade do Rio de Janeiro. somada às possibilidades técnicas então disponíveis. operou a grande transformação que representou a entrada de O Malho no escol das empresas jornalísticas mais modernas do país. ditava o ritmo frenético da modernidade: as obras de embelezamento. a imprensa teve de assimilar o progresso técnico. em homenagem ao terceiro centenário do poeta português. foram elemento essencial deste movimento em direção ao tão sonhado progresso. capital do regime republicano recém-instaurado. Bondes e trens cruzavam diversas localidades. como reflexo do desejo de mudança. Mas as rotativas não eram as únicas marcas tecnológicas que causavam impacto em jornalistas e editores na virada do século XIX para o século XX. também penetravam na cena urbana e modificavam a percepção de mundo e o imaginário social daqueles que viviam nas grandes cidades. Cit. o cinematógrafo. As novas tecnologias invadiam progressivamente a vida privada. Marialva. a máquina é apresentada ao público com a expectativa de um aumento significativo na tiragem. Os daguerreótipos. o gramofone. 1. Porém. Op.

. Gustavo . e tornaram célebres os nomes de João do Rio e Lima Barreto. 37. 2001. História da imprensa no Brasil. foi preponderante na imprensa até a segunda metade do século XX40. 1987. 38. Isso não quer dizer que muitas características tradicionais na imprensa brasileira tenham desaparecido a partir daí. Ana Luiza . A colaboração de escritores na imprensa era algo contraditório: se por um lado era o lugar preferencial para onde convergia a elite intelectual desde os tempos do Império. In: MARTINS. o espírito crítico e mordaz. pela tentativa de convencimento através da retórica. aspirações e desejos. Tânia Regina de. as “ornamentações retóricas” características deste estilo panfletário caem gradativamente em desuso. P. ser um “meio-termo entre jornalismo e literatura”. marcado nos jornais pela presença de uma intelectualidade que se via portadora de uma missão política e pedagógica. influenciando a forma literária43. 41 Adoto aqui a noção de crônica como um gênero literário característico do texto jornalístico que tem a particularidade de. 18. 43 Ibid. porém. Rio de Janeiro: Elsevier. p. e pela veiculação livre das posições políticas e ideológicas de seus escritores. As imagens técnicas. p. 201. São Paulo: Companhia das Letras. 42 SUSSEKIND. Marco Morel enfatiza que tal estilo. LUCA. utilizando-se dela como instrumento para divulgar posições ideológicas e políticas e atrair aliados em torno da discussão pública destas questões. Flora. Para Flora Sussekind. No texto. por 40 MOREL. BARBOSA. “Os primeiros passos da palavra impressa”. p. não foi abandonado: a atividade jornalística no Brasil sempre teve forte cunho político. Rio de Janeiro: Contexto. a particularidade da crônica é que ela “seca a própria linguagem e passa a trabalhar com uma concisão maior e consciência precisa da urgência e do espaço jornalístico”42. os movimentos sonoros e mecânicos ultrapassavam seu caráter meramente tecnológico. Carlos Alberto. segundo o Dicionário de Comunicação de Barbosa & Rabaça. Marco. A crônica foi o estilo preferencial do texto jornalístico41 das revistas do início do século. os impressos permaneciam como veículos preferenciais para a propagação de valores e ideais. sendo substituídas pela escrita rápida e precisa típica das crônicas e das reportagens das folhas diárias. Dicionário de Comunicação. caracterizado pelo ataque. Cinematógrafo de letras: literatura. RABAÇA. A autora salienta que naquele contexto imprensa e literatura dialogavam entre si. 2008. O estilo panfletário dos redatores. técnica e modernização no Brasil. ao mesmo tempo em que se deixavam penetrar pelas novas linguagens instauradas com a modernidade.  31 últimos anos do século XIX para os primeiros do século XX era uma experiência totalmente nova e diferente daquela experimentada no início dos oitocentos. entre outros. Ainda que estivesse se tornando uma mercadoria. Era através da imprensa que homens e grupos manifestavam suas ideias.

O mesmo acontecia quanto à participação destes literatos nos quadros políticos do Estado. Produzindo arte ou empregando técnicas literárias no texto jornalístico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. A presença destes personagens era essencial também para a aquisição de anunciantes.  32 outro colocava em pauta a discussão sobre a natureza da literatura. 1996. A formação de um habitus. Sussekind expõe a íntima relação entre alguns literatos e anunciantes na criação de propagandas. escrever para jornais. que no caso de Coelho Neto e Olavo Bilac. Pierre. Olavo Bilac. percebemos que a contradição que se acirrava neste momento entre a arte e o trabalho jornalístico é fruto de tensões encerradas no interior do próprio campo. Se por um lado colaborar na grande imprensa. Caso célebre é o de Bastos Tigre que cria o slogan até hoje utilizado pela marca: “Se é Bayer é bom”. Pierre. enfrentavam disputas de público e grande competitividade. já que subordinada aos interesses dos editores. Personalidades como Medeiros de Albuquerque. Ampliando a questão. é fundamental para o equilíbrio destas tensões. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. O poder simbólico. o campo político e o campo econômico. além de garantir boa remuneração era espaço importante de sociabilidades. grandiloquente. Diz a autora que “a esperteza da propaganda estava na exibição de 44 Sobre a noção de campo e habitus ver BOURDIEU. Ao analisar os elementos da linguagem jornalística nas obras dos principais escritores da época. da “arte pela arte”. a articulação destes interesses e o domínio das regras e estratégias simbólicas que regem estes campos. Coelho Neto. ao gosto de um público variado. por outro garantia capital simbólico aos artistas dentro e fora do campo. eram nomes de peso para as folhas impressas que. o importante para os capitalistas donos dos jornais e revistas de grande circulação era ter grandes nomes em suas publicações. . feria a ideia da “arte pura”. com desejos e opiniões diversas. 2006 e sobre as tensões entre campo artístico e campo político e econômico. a utilização do palavreado rico e de superornamentações nos textos literários era resultado desse embate entre o estilo do texto jornalístico – objetivo. coloquial e sucinto – e do texto literário – afetado. o que demonstra a rentabilidade do trabalho já naquela época. Arthur Azevedo. fundamentais para o funcionamento e expansão da imprensa moderna. São Paulo: Companhia das Letras. BOURDIEU. cada vez mais numerosas. Sendo a única possibilidade de profissionalização para os literatos. Sussekind observa. Bastos Tigre chegou a se sustentar com a criação destes anúncios. Pierre Bourdieu44 lembra que a obtenção de prestígio e reconhecimento dentro de um campo depende da relação que se mantêm internamente e na articulação com outros campos – fundamentalmente. lugar onde se assegurava prestígio e influência.

e a produção da notícia pelos jornalistas. ao lado do telefone. inclusive na definição de público..  33 artesanato poético por parte do escritor. só para citar alguns exemplos. Cit. de 1908 a 1960. que poderia estar na mesma cidade ou em qualquer parte do mundo. Isto quer dizer que passaram por modificações técnicas e de conteúdo consideráveis. Ainda que conservasse muito das características artesanais de outrora. O telégrafo. quando – sem conseguir acompanhar um mundo cada vez mais seduzido pelos super-heróis e seus poderes sobre-humanos – encerra a publicação da revista e passa a editar o almanaque de maneira irregular. de 1905 a 1956. e sobreviveram mais de cinquenta anos. Carlos. A própria noção de notícia se transformava. O Jornal do Brasil. encurtando as distâncias entre o acontecimento. . Careta. mas teve que mudar muitas de suas características históricas com a entrada dos quadrinhos norte-americanos no Brasil. P. a ampliação dos número de páginas e a atualização rápida das informações. Op. RABAÇA. Cit. portanto. 26. p. Ter nomes de peso associados ao produto já era. C. A técnica da linotipia possibilitou mais rapidez na composição do texto. 434 e BARBOSA. detinha grande popularidade e público.. em versão impressa de 1891 até 2010. que geralmente duravam poucos números – a imprensa dos primeiros anos da república empenhava-se para garantir uma longa duração. P. publicados nas páginas de O Malho e de outros periódicos da empresa. Lobão e Agostini. As redações cresciam com o maior número de tipógrafos. G. . É justamente nesta época que surgem as publicações que são símbolos desta durabilidade: O Tico-Tico. Era comum também que além de poetas e prosadores. O que é interessante no caso destas revistas e do Jornal do Brasil é que todos foram criados em plena fase de modernização. O linotipo era um aparelho mecânico utilizado para a fundição e composição de caracteres em linhas inteiras. J. agilizava a transmissão de dados para as redações. uma grande estratégia de promoção. Flora. Além de estarem cada vez mais situadas no presente. 63. Op. maquinário mais pesado para impressão (rotativas) e linotipos46. O caso de O Tico-Tico é simbólico: foi a primeira revistinha infantil de consumo do país. a imprensa na virada do século migrava para uma fase industrial. o que parecia enobrecer o próprio anúncio”45. Op. Segundo Marialva Barbosa foi introduzido nos jornais cariocas em 1892 e revolucionou o mercado de impressos. a entrada das agências de notícias no país 45 46 SUSSEKIND. Marialva. caricaturistas trabalhassem na divulgação de produtos. eram assinados por J. Diferente do que se via na imprensa durante o século XIX – uma profusão de publicações com características variadas. Cit. Foi classificada como “antiquada” e “ingênua” entre as décadas de 1930 e 1950. Muitos anúncios publicitários. nos acontecimentos da vida cotidiana. Ver verbete sobre “linotipo” em BARBOSA.

A guerra Russo-Japonesa. e chegou a virar enredo de uma história em quadrinhos na revista O Tico-Tico49. In: A apuração da notícia: métodos de investigação na imprensa. A opinião parece gradativamente se separar desta nova noção de imprensa. Marialva. 24. Luiz Costa. pelo menos no que diz respeito aos fatos de âmbito internacional. 47 PEREIRA JUNIOR. como um lugar de informação neutra e atual48. Cit. Geralmente as revistas de variedades acompanhavam o noticiário internacional pelas folhas diárias e não precisavam do telégrafo. É importante salientar também que a incorporação destas novas tecnologias foi diferente em jornais e revistas. Os fetiches do novo século. 48 49 BARBOSA. A incorporação destas tecnologias foi fundamental para a construção de uma nova identidade para o jornalismo. Rio de Janeiro: Vozes. formas variadas e criativas de propagar essas notícias sem ferir os preceitos internos de suas publicações. “A aventura da pirâmide”. Como vimos mais acima. Mas quando fatos de grande apelo à opinião pública. algo que não figurava como preocupação para os jornalistas de outrora. P. Ano I. como guerras e revoluções.. Sem dúvida. Op. dois aspectos – as agências de notícias e a popularização do telégrafo – foram essenciais para o desenvolvimento do jornalismo industrial. As revistas ilustradas procuravam. então. apesar das rotativas já existirem no Brasil desde o século XIX. o alto custo das máquinas impedia sua ampla incorporação na imprensa em publicações periódicas. ainda que ela não deixe de estar presente: pelo contrário. se tornavam comentados e objeto de amplo interesse. as últimas novidades vindas das maiores capitais do mundo se tornavam assunto de destaque nos diários e semanários. As mudanças estéticas e de conteúdo nos jornais do período em análise estão intimamente vinculadas ao processo de evolução tecnológica e ao deslocamento na percepção do tempo. . 15 de novembro de 1905. aparece escamoteada na escolha das pautas e reportagens que cada vez mais precisam também dar conta de interesses empresariais. 2006. Rio de Janeiro. viravam notícia em toda a imprensa. Para o jornalista Luiz Costa Pereira Junior47. o que estava em pauta era sempre o novo. Com o crescente número de novidades e o potencial de invenções e descobertas no futuro. publicada sem assinatura na edição de O Tico-Tico. nem das agências de notícias.  34 também ajuda a definir o que é notícia. o jornalismo diário era muito mais dinâmico e recebeu uma interferência mais sólida destas inovações. se torna parte do dia a dia de trabalho dos repórteres. foi noticiada em exaustão nas páginas de O Malho. Enquanto o passado é obliterado. A corrida por notícias “quentes”. Nº 6. A referida historinha chamava-se “O Couraçado ‘Cachimbomanoff’ (O peior cego é aquele que não quer ver)”. Petrópolis. por exemplo. o que importa é a marcha evolutiva em função do progresso.

particularmente neste início de século. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-Rio. o autor procura compreender 50 GONTIJO. Koselleck observa que não há evidência lingüística de que a expressão “tempos modernos” fosse utilizada para designar um tempo determinado. SOIHET. Em seu sentido tradicional. nas altas taxas de analfabetismo. KOSELLECK. a perspectiva de revolução como um processo de transformação na estrutura social e política começou a ser cunhado a partir da Revolução Francesa. o moderno estava relacionado à ideia de transformação. Rachel. um obstáculo às renovações que o novo século impunha. 51 Em seu livro. Reinhart. 55-79. propondo diferentes interpretações e projetos para a constituição dessa nacionalidade durante a Primeira República. Este atraso estava no passado colonial. 52 A palavra revolução é aqui utilizada no sentido de mudança. "Identidade nacional e ensino de história: a diversidade como patrimônio cultural". São Paulo: Brasiliense. No trabalho citado. e no caso do regime republicano. que adquire o conceito com o advento da modernidade. o passado era tido como entrave à reconstrução da identidade nacional. deveria ser esquecida – ou lembrada como retrógrada. temáticas e metodologia. 2003. Ilustrativo da posição progressista assumida pelo regime republicano em comparação ao anterior é o grande número de projetos de nação que surgem. . In: ABREU. e que encontram na imprensa seu principal meio de divulgação. na superação do quadro racial que impossibilitava a civilização nos trópicos. da marcha evolutiva do tempo e do progresso da história é assimilada de diferentes formas pela sociedade. passava pela negação da presença do elemento português. Rebeca. A expressão só adquiria sentido em contraste e mesmo em oposição com o tempo anterior. a sustentação de sua legitimidade. em sintonia com a ideia de evolução. Em todos os projetos procuram-se afirmar conquistas e reformas pelo enfrentamento e superação do passado: a palavra de ordem era o progresso da civilização. a formação da nacionalidade brasileira sempre esteve sujeita a reelaborações. Cf. Em Futuro Passado. Lucia Lippi de Oliveira realiza um bom inventário que mostra como os intelectuais aglutinavam-se em diversos grupos. Como salienta Rebeca Gontijo50. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. a autora procura compreender como diversos grupos de intelectuais procuraram tratar do tema da nação. 1990. 2006. Como aponta Reinhart Koselleck. Apoiava-se justamente naquilo que o diferenciava do anterior: a monarquia. de aceleração e do novo. uma revolução no sentido moderno do conceito52. enquanto representante de valores obsoletos. Lucia Lippi. cada qual com propostas diferentes para a superação do atraso51. na modernização crescente. p. sempre se contrapondo ao antigo. OLIVEIRA.  35 Esta perspectiva do novo. Até o novo regime republicano buscou no discurso do novo. a palavra revolução era utilizada para designar o movimento cíclico relacionado à natureza e a ordenação dos astros. nas instituições monárquicas. Ensino de História: conceitos. Sendo assim. A Questão Nacional na Primeira República. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. invenções e disputas. do país que projetava para o futuro. Enquanto o regime recém-instaurado se fundamentava na possibilidade de ampliação dos direitos sociais e políticos. na carência de infraestrutura industrial e urbana. símbolo das mazelas do passado colonial. Martha .

Com a fotografia. essa possibilidade se expande . A ideia de futuro. Com a litografia.não-verbal. p. muito mais rápidos. São Paulo: Brasiliense. sob a influência da religião. Por isso. que se modifica de acordo com as necessidades e exigências do tempo.“a mão foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes”54 e com os olhos. 167. assim como. os avanços técnicos possibilitaram a criação de um mercado de produção em massa de imagens. modifica a ideia de passado e futuro e. porém. p. acompanhada da noção de futuro. as artes gráficas adquiriram um meio de ilustrar a vida cotidiana. 54 BENJAMIN. Walter. e a aceleração do tempo trazia consigo a noção de progresso. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. e no contexto da modernidade ganha uma importância ainda mais destacada. que ficava a cargo dos Estados Modernos. o futuro passou a ser lugar de mudança. O futuro para Koselleck é uma categoria móvel. característica da modernidade. em sua essência. A modernidade. 1. o cinema. consideramos a utilização expressiva de signos e símbolos gráficos (e não unicamente fonemas e sons) também uma forma da linguagem . a obra de arte sempre foi reprodutível. Para o historiador alemão. a reflexão sobre a linguagem é parte essencial do trabalho do historiador. transforma também a noção de tempo histórico. observa o autor. Para Walter Benjamin. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: ______. . era acompanhado da noção de catástrofe até o século XVIII. é marcada pela construção e veiculação de uma profusão de imagens estáticas ou em movimento. mas nem por isso menos comunicativa. 1994. 53 Ibid. para este trabalho. 267. Magia e técnica. Porém. característica da era da reprodutibilidade técnica. Em nenhum outro momento histórico a linguagem foi tão explorada quanto no século XX – e o advento da imprensa empresarial.2 Um mundo novo nas revistas ilustradas: a imagem como síntese da modernidade Koselleck se concentra na linguagem fonética. e suas experiências só podem ser adquiridas e transmitidas a partir da linguagem53. a reprodução de imagens sofreu uma grande aceleração. Na medida em que a religião cristã perdia o monopólio sobre o futuro.  36 como a aceleração do tempo. consequentemente. os acontecimentos históricos só são possíveis a partir de atos de linguagem. o fonógrafo e a fotografia estão intimamente ligados a este processo.

A relação imagem/texto ajuda na compreensão de como se estrutura a comunicação e se constroem as memórias coletivas. ao ser abandonada. Peter. pois evidencia a natureza comunicante da imagem. com novos suportes e técnicas de impressão. Introdução à análise da imagem. ambos são categóricos em afirmar a natureza ritual historicamente atribuída à imagem. tendo sido a primeira forma de comunicação entre os indivíduos. como aquilo que garante unicidade e autenticidade a obra de arte. critica a análise de Benjamin. Peter Burke. A reflexão destes autores nos parece aqui fundamental. No quadro da modernização tecnológica. Benjamin lembra das esculturas que representavam deuses e santos. uma grande quantidade de imagens passa a fazer parte da vida cotidiana dos habitantes do espaço urbano. a aura é o que garante a autenticidade e o sentido de tradição.  37 Com a capacidade de reprodução. Bauru. O modelo estruturalista tende a ver a 55 A noção de aura para Walter Benjamin se refere a condição singular. Ele exemplifica. . ela é descrita. Campinas. questionando se uma imagem individual teria mais valor do que imagens reprodutíveis. única de uma coisa. a aura nada tem a ver com a unicidade de uma obra. de origem e de sentido histórico de algo. 1996. na introdução do livro em que trabalha as imagens como indícios históricos56. Martine. Para ele. Composta por elementos espaciais e temporais. A aura não está apenas na obra de arte. e lembra que a imagem está na base do conhecimento humano do mundo. 57 JOLY. SP: EDUC. SP: Papirus. 2004. Benjamin define resumidamente como “a aparição única de uma coisa distante por mais perto que ela esteja”. Se a relação com o sagrado se modifica. Ibid. é substituída por uma existência serial. também a relação com o cotidiano é afetada: a percepção da vida comum se modifica. o cinema. É comum tentar relacionar palavra e imagem como se a segunda estivesse sempre em referência à primeira. Testemunha ocular: história e imagem. Martine Joly57 também ressalta que os diferentes usos e significações da imagem não são inerentes à sociedade contemporânea. 56 BURKE. A obra de arte perde sua aura55 com a tendência à difusão de imagens e a tentativa de torná-las produto de massa. a obra de arte perde o sentido ritual que sempre tivera. que carregava o seu sentido de tradição. a ilustração e a caricatura – seriam também obras de arte. ainda que reprodutíveis. A aura. muitas vezes escondidas dos olhos dos homens comuns. mas com seu valor simbólico. A existência única da obra de arte. põe em questão a natureza da arte e se estas imagens inauguradas na modernidade – a fotografia. p. E sua veiculação maciça na imprensa modifica decididamente as formas de ler e perceber a imagem. afirmando que uma série de fotos de um astro de cinema pode corroborar para o aumento de seu encanto. 170. Mesmo tendo análises discordantes. ao invés de diminuí-lo. fotografada e ilustrada como nunca.

Monteiro Lobato afirmava que a caricatura era “gênero de primeira necessidade. 81-97. nos ataques à figura do imperador e na defesa da campanha pela abolição da escravidão. 2008. segundo Flora Sussekind. p. Op. 58 MAUAD. 28. A incorporação de imagens em apoio ao texto nas revistas e jornais data do início do XIX com a técnica da xilografia. Mediação. esta técnica se tornou conhecida por volta da década de 1820. seriam dependentes da palavra e estariam sujeitas às suas regras. 61 SUSSEKIND. Dúnya. A euforia por imagens é uma característica marcante da imprensa desde fins do século XIX. 62 LOBATO. Flora. A interpretação e decodificação de imagens só fariam sentido na sua tradução imediata para a linguagem verbal. Entretanto. As revistas ilustradas se notabilizaram. Além da publicação de fotografias que aproximava o público leitor de tipos e civilizações distantes e desconhecidas.  38 linguagem verbal e escrita como condições estruturantes do sujeito. n. . as revistas ilustradas se distinguiam pela importância que garantiam à charge e a caricatura. As caricaturas publicadas pela imprensa geralmente se prestavam à sátira e ao humor. “A evolução técnica e as transformações gráficas nos jornais brasileiros”. Ana Maria Mauad defende que “há que se romper com a lógica de dependência e pensar em ambas as formas comunicativas como textos autônomos que se entrecruzam na construção da textualidade de uma época”58. Monteiro. e a partir de 1850 já era adotada em diversas revistas60. 36.. Belo Horizonte. portanto. e depois impresso em papel definitivo. Jul/Dez de 2009. Poses e flagrantes: ensaios sobre história e fotografias. 59 A técnica foi descoberta em 1796 por Aloys Senefelder. p. 9. Cit. Porém.9. por uma verdadeira subserviência do texto à imagem61. v. Niterói: UFF. Ana Maria. Ângelo Agostini se notabilizou pela utilização de seus desenhos na Revista Illustrada na crítica à ordem imperial. indispensável ao fígado da civilização”62. Op. Devemos tomar como pressuposto que ambas são formas de discurso e acompanham a subjetivação do sujeito na história. Muitas vezes era pelo intermédio da caricatura que se expressava a posição política dos editores. p. p. que percebeu ser possível desenhar com tinta oleosa diretamente sobre as pedras calcárias de Solenhofen ou em papel de transporte para ser impresso na pedra. e mostrava a cidade e seus tipos de forma nunca vista antes (o que certamente aguçava a curiosidade e dava certo sentido pedagógico à imagem fotográfica). a proliferação de impressos ilustrados foi mais sensível com a introdução da litografia59. forma preferencial de crítica política e social. 60 AZEVEDO. As imagens. No Brasil. Cit. os trabalhos mais recentes em semiótica da imagem têm evidenciado que imagens e palavras são processos que obedecem a regras e funções diferentes. 49.

2005. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. Seu trabalho na Revista da Semana e. com certo ar de flâneur por um lado. 366. Para Maria Teresa Chaves de Mello65. Teixeira defende a charge como um instrumento de intervenção política que. “O olho da história: fotojornalismo e a invenção do Brasil contemporâneo”. É por isto também. e espírito crítico por outro. Necessita.. mas também criava modos. O caricaturista era o homem moderno por excelência. Rio de Janeiro: FGV: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. In: FERREIRA. Careta. a fotografia é introduzida no jornalismo diário somente em 1904 no jornal inglês Daily Mirror. O sentido da charge e da caricatura depende justamente da relação produtor-leitor. a fotografia não servia apenas como evidência ou suporte de informação. entre outras. Luiz Guilherme Sodré. as revistas ilustradas eram. depende que a mensagem refletida em uma imagem seja partilhada pelas duas partes. seu estilo de vida. Para uma população com altas taxas de analfabetismo. Fon-Fon. a imprensa ilustrada teve papel fundamental no processo de politização da sociedade brasileira que teria se iniciado por volta de 1880. Nas revistas ilustradas. encontra na imprensa o veículo ideal de expressão63. Eram capazes de atingir um público vasto que não estava restrito apenas à elite letrada: chegava também ao homem comum. Lucia Maria Bastos Pererira. gostos e disseminava a estética burguesa como a melhor forma de representação do mundo.  39 Raul Pederneiras foi outro caricaturista que se notabilizou por usar a pena e o lápis para satirizar e mesmo criticar diretamente a sociedade da Primeira República. NEVES. em O Malho. Por valorizar a mensagem através da imagem. O Malho. quando a fotografia se torna preponderante na imprensa brasileira64. por um conteúdo moralista e certamente pedagógico. suas acomodações. História e Imprensa: representações culturais e práticas de poder. da aceitação e do consentimento daquele que lê. mas as revistas ilustradas já a publicavam há pelo menos vinte anos. a imprensa ilustrada era a maneira ideal tanto de travar contato com o ambiente cotidiano da cidade quanto para compreender a feição política da época. também de mais fácil compreensão. Tânia Maria Bessone da C. 64 Segundo Ana Maria Mauad. além de bastante atraentes. Sentidos do humor. trapaças da razão: a charge. Maria Tereza Chaves de. entre eles analfabetos que 63 TEIXEIRA. 2007. posteriormente. ou seja. que mesmo utilizando-se da crítica. Marco . 65 MELLO. o humor é condição essencial deste tipo de linguagem. Cf. 2006. A República consentida: cultura democrática e científica do final do Império. MOREL. ao trabalhador da cidade. No Brasil. Pederneiras atribuía o esquecimento das tradições populares ao individualismo da ordem burguesa. Descrevia nas charges e caricaturas os vários tipos da cidade. Tal aspecto foi fundamental para o sucesso desse gênero até meados do século XX. O humor cria identificação imediata com o leitor. foram os principais veículos de propagação da fotografia na imprensa. . Bastante crítico em relação ao processo de modernização no país. Ana Maria. Rio de Janeiro: DP&A: FAPERJ. Ela se tornava produto acessível a uma grande massa de indivíduos. facilitando a recepção da mensagem. Revista da Semana. portanto. MAUAD. era marcado por certa nostalgia. P. por este motivo. Illustração Brasileira.

E isto não era exclusividade das revistas de variedades. geralmente com uma surra. Mello contesta a ideia de que a população ainda nutria grande afeição pelo imperador D. ou de maneira estereotipada em tipos como o populacho. atores principais do processo de modernização em curso. Símbolos de uma cultura letrada e burguesa. indicando um enfraquecimento progressivo de sua figura na imprensa. que se pretendia construir no país. Por isso. Ainda que a imprensa ilustrada apresentasse a particularidade de ampliar seu consumo pelas camadas mais populares. deveria propagar seu estilo de vida como o melhor. modelos a serem copiados por todos que desejavam ser “smart” ou estar “up to date”. cinema e moda: também a revistinha infantil aqui analisada apresenta um fato curioso. o menino Chiquinho. as revistas ilustradas veiculavam o estilo de vida e de consumo tipicamente franceses ou americanos. Eram reflexo de como se viam as classes dominantes. ao final da história. padrões altamente valorizados em oposição à nossa estética tropical. e quando aparecia era como uma massa disforme. mais civilizado. bastante diferente de boa parte dos meninos brasileiros leitores de O Tico-Tico. A disseminação de uma estética burguesa de origem europeia ou norte-americana também era uma forma de identificação da classe com a cultura burguesa ocidental. Ali estavam descritos os comportamentos tidos como indispensáveis ao bom cidadão.  40 também estavam descontentes com o regime imperial e suas instituições. Pedro II na ocasião da Proclamação da República. geralmente desobedecendo a pais e avós. As revistas ilustradas eram os principais veículos de disseminação dos modos de ver e viver burgueses. Era o personagem símbolo do direcionamento pedagógico da revista – depois de se meter em várias confusões. não eram elas que estavam representadas nas revistas. portanto retrata um menino de uma típica família burguesa norte-americana – loiro. Criavam e disseminavam a estética de uma classe que concorria para se tornar hegemônica. . essa população expressava seu desagravo em relação ao governo através de manifestações urbanas muitas vezes esquecidas pela historiografia. Chiquinho sempre termina sendo punido. As revistas espelhavam a sociedade branca. civilizada e moderna. era um decalque de um quadrinho norte-americano. ou o zé povinho. branco. em concordância com as mudanças do novo tempo. e que para tal. nestes periódicos o povo raramente aparecia em posição de destaque. A articulação destes valores e ideais burgueses na imprensa era a garantia da manutenção desta classe na dinâmica social. Segundo a autora. O personagem mais importante da revista O TicoTico. geralmente vestido de marinheiro. ainda que passível de crítica e troça.

durante os primeiros anos do século XX. Mas a identificação com o modelo de uma típica família burguesa permaneceu preponderante. Nº 21. No Carnaval. Em O Malho. eram protagonistas da imprensa ilustrada. Por isso mesmo. Os valores típicos da classe média em ascensão também podiam ser encontrados nas propagandas. livros e cigarros eram anunciados na revista com belos quadros e slogans muitas vezes ilustrados. o que estava em questão era o consumo: esta sociedade em processo de modernização passava por uma mudança nos padrões de consumo e havia. 28 de fevereiro de 1906. 1.2. Não eram meras ilustrações que embelezavam as páginas das revistas. as histórias de Chiquinho ganham um caráter mais nacional. sapatos. que se tornam cada vez mais constantes nos impressos. Mais tarde. elixires. Rio de Janeiro.  41 Figura 3 Um dos quadros da série Desventuras do Chiquinho.1 A cidade caricaturada A caricatura se tornou um gênero tão difundido na imprensa que. Vestidos. a importância da caricatura é manifesta. Ano II. é claro. Eles adquiriam uma importância progressiva na imprensa que necessitava cada vez mais do espaço publicitário para se manter. inclusive com a entrada de um personagem negro. foi a principal forma não verbal de comentário e crítica. era constante ver desenhos e fotografias em página inteira de produtos que prometiam milagres ou grandes revoluções na vida daqueles que os adquirissem. O Tico-Tico. uma classe média disposta e ávida por experimentar as novidades apresentadas nestes impressos. tanto que logo no primeiro . Além do próprio produto.

a caricatura era a verdadeira arte a serviço do povo.  42 número publicam um poema de Valério Mendes. Nº 1. Na caricatura O Malho se destacava. deixaram sua marca na publicação. O Malho teve em sua redação um dos maiores grupos de caricaturistas da história do gênero: por ali passaram veteranos. pelo humor afirmando a liberdade. O que ás pennas e as linguas a lei veda. Por isso. Pode o lapis dizel o impunemente No papel branco saracoteando. 66 O Malho. Em O Tico-Tico. como J. 20 de setembro de 1902. tinha razão de ser: a caricatura seria a principal linguagem da revista e principal meio de realizar a troça.. “Dos perseguidos e desamparados. Rio de Janeiro. E até do proprio Deus brincas com as barbas! Ave. feita em diversas ocasiões nos tantos anos de vida da publicação. que transborda a vontade de seu criador. Morosamente solidificara Num momento desfazes com dous traços! Pões verrugas sacrilegas nos santos. como “nobre filha do Traço e da Risada. e jovens que se tornaram grandes. a caricatura é homenageada em um dos quadrinhos. Zarolhos fazes os imperadores. indomável. mesmo sem deixar grandes marcas no grupo de elite da caricatura brasileira. “defendendo e salvando” os homens da tirania dos poderosos. como Angelo Agostini e Raul Pederneiras. Dos que tem fôme e sêde de justiça”. o poeta ainda destaca que enquanto a palavra interdita. chamado Ode á caricatura. o traço é livre. o gosto pela linguagem era revelado. a pilhéria. onde se lê em uma das estrofes: O que as palavras exprimir não podem. a crítica que dizia ser seu principal objetivo. cauteloso. é quase autônoma da mão do artista. Reputações que o Tempo. Para colocar a caricatura como protagonista em suas páginas. nas palavras do autor. Caricatura!66 A homenagem de O Malho à nobre arte da caricatura. Além disso. Seu poder de crítica aparece. também em suas demais publicações. prima da Troça e neta do Assobio”. Ano I.. A publicação do poema logo no primeiro número é também uma provocação: o autor ressalta que a caricatura. desenhistas que. Carlos e Kalixto – fora um incontável número de artistas que publicaram sorrateiros. Nos ministros penduras rabo-levas. como algo incontrolável. sobrinha do Sarcasmo e da Ironia. .

. Nº 8. Rio de Janeiro. 8 de novembro de 1905. O referido quadrinho é publicado na capa. que desenham caricaturas nas roupas penduradas no varal.  43 Figura 4 – Mania de Caricatura O Tico-Tico. é atribuída à leitura das revistas O Malho e O Tico-Tico. A travessura dos meninos. em um dos primeiros números da revista O Tico-Tico. denotando a importância da linguagem também para a publicação infantil de O Malho. Ano I.

Figura 5 Um dos quadros da história em quadrinhos Procurando a casa O Malho. não encontra mais a sua casa. 1. Mesmo que através do humor e da sátira. Nº 155. uma forma privilegiada de comunicar os acontecimentos e informar os leitores. a charge e a caricatura eram facilmente lidas pela população menos instruída. a publicação de caricaturas na imprensa está relacionada a chegada de imigrantes europeus. e ainda que não houvesse indicação de autoria. a caricatura era também uma maneira de tornar inteligíveis situações do dia a dia da cidade e questões políticas importantes. História da caricatura no Brasil. Rio de Janeiro: José . um caricaturista não identificado de O Malho consegue de forma simples ao mesmo tempo comunicar a situação de diversas famílias que perderam suas casas com as obras de embelezamento da cidade e criticar a atitude autoritária do poder público e o caráter contraditório do progresso. ao retornar. 2 de setembro de 1905. era também um mecanismo de comunicar a realidade. Pranchas avulsas já eram vendidas desde 1837. O aparecimento da caricatura no Brasil data de 1844. Era. Teixeira. Rio de Janeiro. na revista Lanterna Mágica. que trouxeram a técnica do desenho e da pintura para o 67 LIMA. atribui-se tais ilustrações ao próprio Araújo Porto Alegre67.  44 Em O Malho. Para Luiz Guilherme S. Por dispensar o texto ou tê-lo apenas como forma de apoio. Em um quadrinho destinado às crianças. a caricatura não era apenas uma maneira de fazer troça e pilhéria. A rua havia sido destruída e uma extensa avenida foi aberta. de Araújo Porto Alegre. Herman. portanto. Ano IV. Vol. O artista cria uma historinha bastante pedagógica: uma família vai passar as férias em Pirapora e.

 

45

Brasil68. De fato, os primeiros grandes caricaturistas da imprensa brasileira eram todos de
origem europeia: Henrique Fleuiss, criador da Semana Illustrada, era alemão; Ângelo
Agostini e sua técnica do sfumato na Revista Illustrada, eram italianos; Julião Machado, da
sofisticada A Bruxa, era angolano, mas logo foi para Portugal; e Rafael Bordallo Pinheiro, de
O Mosquito, Psit! e O Besouro, era português de nascimento. Estes estrangeiros foram os
primeiros grandes nomes do jornalismo ilustrado no Brasil e desenvolveram uma verdadeira
escola de artistas do traço, mais tarde representada por J. Carlos, Raul Pederneiras, K.Lixto,
entre outros.
A caricatura na imprensa do século XIX se caracterizava pela construção fidedigna e
realista dos personagens. Com exceção daqueles que geralmente simbolizavam as revistas, as
figuras satirizadas pelas charges apresentavam detalhes da composição física de personagens
reais – geralmente políticos e personalidades da época. Sobre o caráter de imitação do real
presente nestas imagens, escreve Luiz Guilherme Sodré Teixeira:
Esse traço cartesiano da charge está de acordo com a cultura do período, marcada pela
racionalidade de discursos essencialmente verbais no campo da comunicação. No século
XIX, de fato, a fantasia, o delírio e a transgressão não estavam incluídos entre os modos
possíveis de significação da realidade, nem nas maneiras pelas quais a sociedade
representava a si própria69.

Neste período, a macrocefalia – traço marcante da charge de humor – não aparece de
forma preponderante. Os caricaturistas da época possuíam características mais acadêmicas,
influenciadas pelos trabalhos de Hogarth, Daumier e Gustave Doré. No início do século XX, a
caricatura vai se desprendendo dessa tradição e o exagero e o grotesco vão tomando conta dos
trabalhos desses artistas. Diversos personagens fictícios surgem como símbolos da
modernidade que se instaurava: exemplo conhecido são as melindrosas de J. Carlos.
J. Carlos foi uma personalidade marcante na representação do moderno. Dominava
diversas linguagens e conhecia profundamente todo o parque gráfico da disponível na
imprensa. Além das caricaturas e charges, J. Carlos foi notável na construção de projetos
gráficos inovadores – Para Todos, O Malho e mesmo O Tico-Tico deram um verdadeiro salto
de qualidade e beleza estética enquanto o tiveram como diretor artístico. Também ficou
conhecido pela criação de vinhetas que apoiavam os textos, impondo o diálogo entre imagem
e palavra. Foi inovador no tratamento das fotografias na imprensa, produzindo recortes,

68

69

Ibid, p. 1.

TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. O traço como texto: a história da charge no Rio de Janeiro de 1860 a 1930. Papéis
Avulsos. Nº 38. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2001. p. 13.

 

46

colagens e montagens que desafiavam o excessivo conservadorismo de algumas publicações
destinadas à família. As histórias em quadrinhos que desenhou eram também belas e
provocativas.
Após um período pouco criativo, graças à censura na imprensa dos primeiros governos
republicanos de Floriano e Deodoro, as revistas ilustradas voltam renovadas como espelhos da
Belle Époque. Além do traço muito mais livre dos caricaturistas, as imagens finalmente
ganhavam cores, sombras, texturas com o advento de novas técnicas, como a zincografia e a
zincotipia70.
A presença da charge e da caricatura abriram caminho para uma série de outras
imagens e narrativas visuais, como o noticiário de crimes e as histórias seriadas, que deram
origem aos quadrinhos. Nos noticiários de crime, a imagem mostrava de forma
pormenorizada todo o evento ocorrido, com o apoio de legendas no fim de cada quadro. Este
tipo de publicação era muito popular, tanto pelo conteúdo quanto pela forma narrativa.
Assim como a charge, as histórias em quadrinhos também surgem no interior das
revistas ilustradas, e segundo Teixeira, as duas formas de linguagem possuem raízes comuns,
esquecidas pela literatura sobre o assunto71. O autor sugere que tal esquecimento é produto do
costume em se atribuir a origem do nascimento das HQ’s nos Estados Unidos, quando no
Brasil já se produzia quadrinhos praticamente desde o início da imprensa ilustrada. Durante o
século XX, esta tendência só se fortaleceu com a presença maciça dos quadrinhos americanos
no país.
A charge e as HQ´s tem em comum o uso da imagem com suporte narrativo. Como
mostra o autor, progressivamente a charge vai abandonando o texto; para os quadrinhos, o
texto permanece essencial, pois garante sentido narrativo à história que está sendo contada.
Em muitas histórias em quadrinhos publicadas em O Tico-Tico, por exemplo, vemos que a
legenda era dispensada. Mas na maior parte das vezes, imagem e texto estão equilibrados.
As charges quadrinizadas eram muito comuns, principalmente no traço de Ângelo
Agostini e Rafael Bordalo Pinheiro. Agostini desenvolveu a técnica da narrativa quadrinizada
desde a Revista Illustrada, passando pela Vida Fluminense, até a revista O Malho. Nesta
última começou a desenhar tiras em quadrinhos especialmente direcionadas às crianças,
linguagem que mais tarde foi empregada em profusão na revista O Tico-Tico. J. Carlos

70
Ambas as técnicas utilizam a placa de zinco como matéria-prima. A primeira diz respeito à gravação em chapa de zinco,
que admitia a utilização de alguns artifícios artísticos como o pontilhismo e alto-relevo; a segunda refere-se à fundição de
tipos ou matrizes usando o zinco.
71

TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. Op. Cit. p. 4.

 

47

também começou a desenhar quadrinhos infantis nas páginas de O Malho, e depois passou a
ser uma das grandes personalidades na revistinha infantil da empresa.
A diferença do cartum para a charge e a caricatura é a criação de personagens que
agem em uma narrativa ficcional. A Charge e a caricatura referem-se sempre a um
personagem real, subvertendo-o pela diferença ou pela semelhança. Nos quadrinhos, o real é
imaginário, é uma fantasia. Os personagens são “sujeitos coletivos”, que eles sintetizam ou
representam. O que estes três estilos de linguagem têm em comum é a utilização do humor
como estratégia narrativa.

1.3 O humor na imprensa na imprensa da Primeira República

O humor sempre foi marcante na imprensa brasileira, em especial nas revistas
ilustradas. Desde os tempos do império, a anedota, o chiste e a ilustração satírica eram a
linguagem preferencial da crítica política. Elias Thomé Saliba vê, no jornalismo satírico da
Regência e nos folhetins cômicos do Segundo Reinado, a tradição da representação
humorística tão popular na Primeira República. O humor acompanharia, portanto, o
desenvolvimento da imprensa periódica no Brasil72.
Para Isabel Lustosa, a sátira é uma linguagem característica da tradição oral, e recitar
versos de humor seria um costume bem antigo no Brasil. A autora atenta para a criação de
versinhos anedóticos em crítica aos governantes desde a vinda de D. João VI73. Os versos
entoados pela população comentavam a fama de glutão do regente e os amores de D. Carlota
Joaquina.
Com a imprensa como suporte, o desenho e o texto humorístico ganham lugar de
destaque. Justamente porque o humor é construído coletivamente, ele precisa de um
interlocutor para fazer sentido. A opção pela caricatura e pela charge – que se destaca
justamente pelo excesso, pelo exagero nos detalhes, pela subversão dos caracteres físicos dos
personagens – também é reflexo dessa tendência da utilização do humor como estratégia
comunicativa.

72
SALIBA, Elias Thomé. Raízes do riso: a representação humorística na sociedade brasileira: da Belle Époque aos primeiros
tempos do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p.. 39.
73
LUSTOSA, Isabel. Brasil pelo método confuso: humor e boemia em Mendes Fradique. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1993.

Para Saliba. Segundo o autor. Para estas sociedades. p. compartilhado coletivamente. para compensar a vertigem embriagadora diante de alterações tão radicais. nas sociedades modernas o humor se separou da ideia de verdade. atos. Aquilo que não pode ser expresso livremente . Op. Além disso. Cit. Celebravam-no como algo divino e como mediador e intérprete das práticas cotidianas. Saliba atenta para a condição ambígua e ambivalente da linguagem humorística. comportamentos - 74 Ibid. As sociedades grega e romana partilhavam de uma concepção do humor como algo singular no ser humano. A linguagem humorística tem por característica a síntese de uma mensagem. Luiz Guilherme Sodré. o humor funcionava como uma espécie de mediação: “o bobo da corte” era também um ator político. Por ser uma linguagem mais simples e ágil. Até o século XVII. de uma ideia. Nas cortes. o humor assume lugar de destaque no contexto da Belle Époque. Na Idade Média. não mediada pela regra ou pela razão. 41. que se utilizava do humor para evidenciar queixas e tensões. que pode se materializar através da charge. introduzidas na ordem corriqueira da vida humana”74. o humor “era uma espécie de espelho estilhaçado no qual a Belle Époque poderia mirar-se. 75 TEIXEIRA. Justamente por isso. Em festas pagãs e cristãs. e ressalta que justamente por isso. da caricatura ou do chiste.. vilas e burgos. veículo de propagação das verdades cotidianas e do imaginário social. Teixeira75 chama atenção para o fato de que nem sempre a razão foi vista como condição para o exercício do saber. Era um modo específico de saber. o humor apela para um sentimento primário da existência humana e para uma satisfação quase infantil. o humor se expressa na prática coletiva das aldeias. ele faz parte do conjunto de práticas culturais que dão sentido de unidade à coletividade e expressam os conflitos daquela época. o humor era uma forma de saber. . Ele é justamente a negação da razão como condição exclusiva para a obtenção de significado. p.opiniões. 26. O humor é um tipo de discurso que dispensa a razão e a seriedade do real.  48 A popularização do humor na imprensa ilustrada está diretamente relacionada aos novos padrões de sensibilidade inaugurados com a modernização técnica e com a urbanização. porque ligada ao cotidiano. o humor era entendido como uma forma legítima de entendimento dos conflitos e contradições da sociedade. o humor funciona como um espaço próprio para a representação e para a transgressão. que não poderiam ser descritas de outra maneira. mas também nas cortes através da figura do bufão ou do “bobo da corte”. permite uma compreensão mais fácil do público leitor. pois só a razão é capaz de produzi-la.

por isso. arlequins. Cit. mas também teria esvaziado seu sentido de verdade no imaginário social. Na análise de Saliba. Elias Thomé. 78 TEIXEIRA. com funções delimitadas dentro da narrativa – pierrôs. Por isso. 28. Cit. o humor é também o lugar do indizível. 77 Ibid. As funções dentro do humor se especializam. que não foi capaz de sepultar 76 SALIBA. Apareciam por ocasião do carnaval.  49 encontra no humor um caminho para a liberação. O gesto. O cômico. . portanto.. romântico. Na representação humorística da época era visível o desconforto com os acontecimentos logo após a transição do regime. 79 SALIBA. do não-dito76. a grande transformação do humor ocorre com o surgimento da Commedia del’arte. funcionando também como uma “ruptura de determinismos”77. assim como. Os arlequins e os pierrôs. Op. Segundo o autor: “A consolidação popular e a afirmação cultural da commedia dell´arte corresponde a uma sociedade que se “disciplina” em torno de profissões. Para Teixeira. Elias Thomé. do impensado. caracteriza o humor como um ato de regressão. a caracterização passam a ser artifícios a mais na composição do humor. 67. personagens mais importantes da comédia. Estes personagens apareciam nas charges e caricaturas em alusão a posições políticas ou em própria referência ao país. Op. Luiz Guilherme Sodré. p. Op. nos primeiros anos da República predominou um “humorismo da desilusão republicana”79. que é fruto das transformações econômicas surgidas na Europa a partir do século XVII. Os personagens da commedia dell’arte eram recorrentes na imprensa ilustrada da Primeira República. o corpo. referência direta ao palhaço e à pilhéria. Freud. 49. p. por denunciar os poderosos. tartufos. a sociedade se especializa em torno de lugares sociais determinados e de funções específicas no mundo do trabalho. ofícios e práticas que se definem a partir de técnicas cada vez mais demarcadas e especializadas”78. o autor vai buscar na psicanálise uma das possibilidades de explicação do humor. desafia o poder. etc. p. p. mas também eram comuns como figuras de apoio à sátira política. Este gênero teatral se notabiliza em criar tipos/papéis estereotipados. o segundo aparece em referência ao ingênuo. 23. eram os mais evocados: o primeiro. Cit. colombinas. O discurso da razão na ciência e na cultura teria não apenas “disciplinizado” o humor. cria também uma tensão. sendo imprevisível. geralmente convidando os foliões a participar da festa. Ele explica que para Freud o riso funciona como libertador de emoções reprimidas que na sociedade são proibidas e os indivíduos são obrigados a internalizar.

35-44. Os humoristas. André Luiz Vieira de. a falta de iniciativa. mesmo após a redenção higienista81.a preguiça. A procura por um tipo identificado como nacional foi uma das tentativas desses humoristas de encontrarem uma identidade definitiva para o povo brasileiro. mas com o futuro do país. a publicidade e o teatro eram outros locais de penetração de intelectuais humoristas na esfera pública. 125. o desinteresse pelo trabalho. que igualmente esperavam lugar de destaque no novo regime que se erigia. É nessa medida que se entende o humor como um discurso alternativo da nacionalidade que gera estereótipos. segundo Saliba. Além das charges. viam a si mesmos como o grupo privilegiado para ironizar a nova conjuntura política. Essa nova representação deveria estar em acordo com as expectativas de modernização. Monteiro Lobato conclui que aquilo que definia o Jeca-Tatu . Qualifica o Brasil como um "gigantesco hospital" e o Jeca . de 1919. p. Assim como outros grupos de intelectuais. O debate que. educação e trabalho. o caipira como potencial agente da modernidade. CAMPOS. o sentimento de impotência que acometeu tantos intelectuais nos primeiros anos da República também atingiu os humoristas. O Malho manteve a verve humorística tradicional na imprensa. caricaturas e chistes que tomavam conta de boa parte da publicação. geravam desconforto e traziam à tona a discussão sobre a viabilidade da civilização nos trópicos Para o autor. A representação do índio de Angelo Agostini já não agradava àqueles que buscavam uma identificação não com o passado. está assim". o humor estava presente também nas tiras infantis. Essa impotência era transformada em material satírico nas páginas de jornais e revistas. Enquanto nas historinhas e contos infantis a preocupação com uma mensagem moral era 80 Ibid.. chegando a conclusão que O Jeca-Tatu "não é assim. 1986. Também era patente o questionamento sobre a identidade nacional diante da nova configuração política e da possível. Monteiro Lobato revisita o tema do Jeca Tatu. ao mesmo tempo que deveria ser identificada com o conjunto dessa "comunidade imaginada". descomprometida com a razão. os humoristas tiveram que buscar outros caminhos de inserção social. mas este personagem também estava muito distante do desejado. Ao repensar as teorias que afirmavam o determinismo racial e refletir sobre a inserção das camadas populares nas modernas relações de trabalho. ainda que distante. São Paulo: Martins Fontes. culmina com a criação do Jeca-Tatu por Monteiro Lobato (e sua representação no traço pelo caricaturista Belmonte)80. O Jeca-Tatu evidenciava uma série de características que. . ampliação da cidadania. geralmente identificados à cultura boêmia. p. 81 Em O Problema Vital. a indolência .é reflexo do atraso do país.  50 definitivamente a distância entre as instituições políticas e a estrutura social. que durante o Segundo Reinado gozava de grande liberdade de crítica. Cf. toma conta da imprensa nos primeiros anos do século XX. A República do Picapau Amarelo. Além do trabalho na imprensa. da inexistência de programas de saúde pública. tipifica e cria narrativas.

oferece um bom exemplo de uma situação do cotidiano infantil.pais. nas tiras quadrinizadas o cômico era ressaltado. avós ou professores. o enredo das tiras geralmente girava em torno das traquinagens infantis cotidianas. . criada por Leônidas. Na revista O Tico-Tico a mensagem final. a mensagem moral é subtraída porque o próprio humor funciona como elemento pedagógico. As situações divertidas criadas pelo artista costumam terminar com a punição de um adulto . vai progressivamente penetrando também nos quadrinhos. a “moral da história". mas em O Malho. apresentada com humor. Acorda sobressaltado com a vela grudada no nariz. Gigi põe a culpa na vela. Estes personagens aparecem geralmente para impor a ordem ou punir os comportamentos inadequados dos petizes. Com medo de ser repreendido pela mãe.  51 evidente. Tanto o enredo recheado de humor quanto a punição exemplar ao fim da história funcionam como argumentos pedagógicos A tira apresentada abaixo. mas logo pega no sono. No caso das tiras infantis de O Malho. O menino Gigi estuda com uma vela acesa na mesa.

Rio de Janeiro. indicando a morte da criança. Nº 127.  52 Figura 6 A Vela Feiticeira (Conto para crianças). O Malho. A punição aos atos inconsequentes ou inadequados das crianças é em muitos casos apresentada de maneira explícita (com uma surra) ou até mesmo de modo trágico. É o caso do quadrinho abaixo. . um exemplar do humor trágico muito bem denominado de “Travessura fatal". Ano IV. 4 de fevereiro de 1905.

Rio de Janeiro. 11 de fevereiro de 1905. de Leônidas. .  53 Figura 7 Travessura fatal (Conto para crianças). Ano IV. Nº 126. O Malho.

o menino Zequinha come terra e logo depois engole um caroço de jaca. É através da brincadeira que a criança mantém contato com o mundo que a cerca . Da jaqueira nasciam frutos com pernas e braços. "considerando que as imagens de um livro criam a memória visual das crianças. Quando acompanhadas de imagens. uma forma de aprendizado. O grotesco é ressaltado no último quadro: “Um dia. Uma jaqueira começa a brotar do estômago do menino que sofre terrivelmente com o crescimento da tal árvore. 83 OLIVEIRA. . Luigi. A reflexão de Rui de Oliveira sobre a ilustração do livro infantil pode oferecer um caminho para se pensar a relação existente entre texto. portanto. depois de dansar[sic] um cake walk de horror! E acabou-se a história. As imagens. Pelos Jardins de Boboli: reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens. E o humor. de experiência. Além da tragédia levar a morte da criança. como gente. Ele não resiste e morre. dos comportamentos socialmente aceitos. 32. pois que tinham pernas e braços. por associação. O humorismo. p. a ilustração reforça a mensagem criando uma narrativa paralela. Rui.” O humor é também associado à criança porque associa-se ao brincar. 2008. as narrativas humorísticas trazem consigo uma reflexão moral profunda. fugiram todos. o humor é o sentimento do contrário. Para ele. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. trazem outros códigos. 82 PIRANDELLO. revela facetas escondidas da alma humana82.é uma forma de interação e conhecimento do mundo. São Paulo: Experimento. vê que ali nasceu uma imensa jaqueira. daquilo que deve ou não ser feito. ao visitá-lo no túmulo. O humor desmistifica. ato típico do mundo infantil. desnuda preconceitos. ela é apresentada de forma grotesca no último quadro. de conhecimento. quando o pai do menino. destrói máscaras. seria também uma maneira eficaz de transmitir às crianças conhecimento por meio de exemplos. a leitura harmoniosa e participativa da palavra e da ilustração amplia o significado e o alcance lúdico e simbólico de um livro"83. O brincar é. No caso da criança. além da inter-relação que mantêm com o texto. 1996. imagem e seu sentido pedagógico para a infância.  54 Na historinha também escrita e ilustrada por Leônidas. essa jaqueira deu muitas jacas exquisitas[sic]. com pés e mãos. Isso espantou tanto os outros defuntos que eles não tiveram mão em si. É no confronto com o contrário que se revelam as possibilidades cognitivas. outras experiências e outras referências. o efeito pedagógico do humor é ressaltado. Se como afirma Pirandello.

Na nostalgia de Drummond vemos que. Entre os objetivos por eles perseguidos estava a difusão do gosto pela leitura. 86 Ibid. preparando-os para serem grandes homens no futuro. de sentar-se à mesa e de servir à pátria. . Todas as homenagens. de jogos e passatempos. E da remota infância esse passarinho voa até nós. da sua fundação até nossos dias. ressaltaram a centralidade da publicação no crescimento intelectual e moral de tantas gerações de brasileiros. 1956. 53-55. poetas e romancistas. 85 Referência ao texto escrito por Gilberto Freyre para a mesma edição comemorativa. O Dr. p. chamado “O Tico-Tico”. retrospecto da vida de O TicoTico. E se o objetivo dos editores foi ajudar a aprimorar a educação dos cidadãos daquela recente república. 5153. Se naquela época Chiquinho já não causava o mesmo impacto na vida dos meninos como no passado. um dos ilustres escritores que na infância foram leitores da revista O Tico-Tico. entre o mundo da fantasia e o da educação. O Tico-Tico teria se empenhado em divertir através das páginas ilustradas. O texto integral se chama “O passarinho” e foi publicado na edição comemorativa dos cinquenta anos da revistinha infantil. trazendo no bico o melhor do que fomos um dia84. Afirmavam os editores que durante os cinquenta anos de sua existência. mais divertida. mas sem descuidar da educação escolar e moral de seus leitores. em O Tico-Tico a educação parecia menos rígida. Noticiários e homenagens diversos a tradicional publicação. E como afirma o poeta mais à frente O TicoTico “era também muito da escola disfarçada em brincadeiras”86. a propagação de bons 84 ANDRADE. Se uns alcançaram importância mas fizeram bobagens.  2 55 OS INTELECTUAIS E A CIDADE: A CRIAÇÃO DA REVISTA O TICO-TICO “O Tico-Tico” é pai e avô de muita gente importante. A edição do cinquentenário resgatou antigos leitores para demonstrar a importância da publicação na formação de um grande número de brasileiros. Sabetudo e o vovô ensinaram sempre a maneira correta de viver. Ibid. para além das brincadeiras. “O Tico-Tico” não teve culpa. In: Cinquentenário de O Tico-Tico. P. de histórias engraçadas. os encontros com O Tico-Tico eram também recheados de ensinamentos – era o lugar de convergência entre o lúdico e a instrução. A passagem acima foi escrita pelo poeta Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Sociedade anonyma O Malho. de uma moral exemplar. Carlos Drummond. Ainda que o modelo prevalecente fosse o de uma educação repressora. de “gente importante” como Gilberto Freyre85. ao menos procurou-se marcar sua validade histórica. “Um passarinho”. ele parece ter sido alcançado pelo menos no caso dos leitores que ali prestavam homenagem à estimada revistinha. de jornalistas. políticos.

Viveu durante um tempo no Paraná. São Paulo: Melhoramentos. Luís. em Minas Gerais. 90 Em O Ateneu. além. O Rio de Janeiro do meu tempo. que ficou conhecido graças à publicação de O Ateneu. na cidade de Rio Preto. sobre sua atuação na imprensa. 87 “Duas palavras”. Dr. Brasília: Senado Federal. De fato. em virtude de sua eleição para deputado federal para o mesmo estado. p. transferiu-se para o Rio de Janeiro. Mais tarde. o descreve como uma pessoa “com vocação decidida para homem de negócios e que no jornalismo. com Alcindo Guanabara. Luís Bartolomeu de Souza e Silva. é claro. na revista de 17 de junho de 1905. p. O Malho e o conjunto de publicações da mesma empresa – Leitura Para Todos. o Barão de Macaúbas. O fundador. 5-6. 2003. p. O Tico-Tico orgulhava-se por ter conseguido se manter no inseguro mercado jornalístico por tanto tempo sem nunca se afastar “das normas e princípios estabelecidos pelo seu fundador”87 . pela criação do Colégio Abílio. dentro de pouco tempo. principalmente. que no livro se chama Ateneu. Literatura Infantil Brasileira. Já Leonardo Arroyo chama atenção para uma outra característica. através da formulação de projetos pedagógicos e. 89 ARROYO. como Diretor de Instrução Pública na Bahia. de O Tico-Tico. também visível nas publicações que dirigiu: a “vocação irrecusável de Luís Bartolomeu de Souza e Silva de educador e contribuinte da educação brasileira através de um instrumento – a imprensa”89. 611. Abílio César Borges. além da valorização das virtudes através de exemplos de personalidades de escol. O livro teve grande repercussão na imprensa pelas críticas à sociedade aristocrática e à rígida disciplina dos . 88 EDMUNDO. Nasceu em 1866. Abílio ficou conhecido pelo profundo envolvimento com o tema da educação durante o Império. foi jornalista bastante experiente no mercado: dirigiu o jornal O Tempo. Depois voltou ao Rio de Janeiro. Raul Pompéia faz uma espécie de relato de sua experiência como interno no Colégio Abílio. 153. Começou seus estudos ainda em Minas. e fundou também A Tribuna. assumindo integralmente o trabalho de editor e proprietário da empresa O Malho. enriqueceu”88.  56 sentimentos e valores. Luiz Edmundo. mesmo antes da publicação d’ O Tico-Tico. Leonardo. Um exemplo é a publicação de texto homenageando o Dr. entre outros artigos. Após tantas mudanças no quadro sociocultural e político brasileiro. In: Ibid. Illustração Brasileira. além de homenagens a educadores. mas terminou o ensino secundário em São Paulo. onde ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha. 1968. de Raul Pompéia90. a revista O Malho manifestava seu apoio à causa da instrução de diversas formas: publicando fotografias de formaturas e do corpo de professores de escolas pelo Brasil a fora.

elle tira em summa da criança o homem. Foi em O Malho. Maria Cristina. O lançamento da revista O TicoTico teria unido estas duas temáticas de uma forma até então inédita.. mas tais experiências foram muito pontuais e geralmente de curta duração. além de seus pais. Ano IV. O investimento em educação era apresentado sempre como o caminho para a ampliação da cidadania política. pois recheada de conteúdo lúdico e brincadeiras. recheado de textos que glorificavam o lugar do professor e a importância da educação para o desenvolvimento do país. é a resposta exemplar da revista publicada na Caixa d’O Malho ao poema enviado por um menino de dez anos. dirigido por Luiz colégios destinados a essa classe. Nº 133. que assume o lugar após sua morte) escreve Olavo Bilac sobre o papel do educador: O papel do educador é mais nobre: elle forma o espírito.”92. Ano IV. Op.  57 Em homenagem ao dono e diretor do colégio (e seu filho Joaquim. principalmente no que se refere às crianças. Ainda durante o século XIX. As publicações que se relacionavam com o tema da educação estavam em sintonia com a preocupação característica da época de diminuir os altos índices de analfabetismo. MERLO. desenvolve a bondade. cujo trabalho era destinado a um bem maior. aperfeiçoa o cérebro. 144. apura a intelligencia. J. affeiçoa o coração. P.. por este motivo. como se tira do carvão negro o diamante claro e do petróleo asqueroso a luz radiante91. Este tipo de artigo. Rio de Janeiro. 94 Infelizmente não foi possível consultar a referida publicação. A resposta da redação ao leitor foi a seguinte: “Um menino de dez annos só deve amar seus livros. 2008. por Olavo Bilac. apareceram publicações dirigidas a crianças de instituições escolares e religiosas93. . O mais é 1º de abril. 17 de junho de 1905. Cf. transforma a alma e o corpo. 141-151. SAVIANI. afervora a coragem. O professor era sempre retratado como indivíduo abnegado. ensina a justiça. 91 “Abílio”. pois esta se encontra em mal estado de conservação e. n. essencial para o progresso do país. 1 de abril de 1905. de Almeida falava sobre a paixão por uma “bella morena”. robustece os músculos. Cf. Rio de Janeiro. Demerval. identificado com o engrandecimento da nação. Outro exemplo ilustrativo da preocupação com o tema. SP: Autores Associados. 93 Maria Cristina Merlo em sua dissertação de mestrado realizou um excelente inventário das publicações destinadas ao público infantil antes da publicação de O Tico-Tico. que Souza e Silva experimentou pela primeira vez o contato com o público infantil e com o tema da educação. História das Ideias Pedagógicas no Brasil. A mais importante entre elas foi o Jornal da Infância (1898)94. O Malho. p. equilibra os nervos. O poema de S. portanto. Cit. Campinas. Outros jornais e revistas infantis precederam à revista O TicoTico. tinham sempre lugar de destaque na publicação. retida na Biblioteca Nacional. 92 O Malho.

lançando um concurso – o primeiro de muitos da revista O Tico-Tico. O autor da melhor reposta receberia o prêmio de cem mil réis e teria sua fotografia publicada na revista97. indicação certa de que a revista seria um grande sucesso. garantindo a presença e aceitação do público infantil.  58 Henrique Luis de Almeida. sem falar nos escritores que compareciam eventualmente na revista O Malho – Olavo Bilac. Mesmo tendo uma preocupação evidente com o tema da educação e com o público infantil. Luís Bartolomeu começou a publicar historinhas infantis e tiras cômicas destinadas às crianças ainda em O Malho. como vimos. Op. As crianças brasileiras de até 12 anos de idade deveriam responder à pergunta “– Que é que o menino quer ser?”96. a redação recebeu uma enxurrada de cartas de crianças de todo o país querendo participar do concurso. fez propaganda de sua futura publicação. o que à época poderia significar um risco. Segundo os editores. 157. era bastante improvável. que já faziam sucesso por aqui (ainda que restrita a uma parcela muito específica da população). Leônidas e Kalixto eram presença garantida no semanário infantil. Carlos. Cit. Essa foi uma forma inteligente de fazer publicidade e. colaborariam também em O Tico-Tico: Ângelo Agostini. Outro indício do provável êxito no lançamento da revista era o grande escol de caricaturistas que. que contava com as ilustrações de Calixto Cordeiro (Kalixto). Coelho Neto. 96 O primeiro concurso d’O Tico-Tico foi publicado na revista O Malho. n. – que poderiam dar o ar da graça também nas páginas de O Tico-Tico. etc. já que a segmentação das publicações era bastante recente e sua longevidade. Na edição 95 ARROYO. o proprietário teve uma ajuda de peso no projeto de criação da revista. já atuantes na revista O Malho. ao mesmo tempo. Rio de Janeiro. porém. A carta com a resposta deveria ser enviada à redação de O Malho explicando qual profissão que gostariam de seguir no futuro e por quê. a iniciativa não teve muito êxito e o semanário durou apenas 20 números. 152. . Antes de colocar a revistinha para rodar nas oficinas. Gomes Loureiro. A experiência de Souza e Silva em O Malho parece ter garantido ao jornalista tranquilidade para lançar um periódico como O Tico-Tico. Luís Bartolomeu realizou um teste de público: com a antecedência de quase um mês. também garantia o material necessário para compor o novo empreendimento95. J. Porém. A importação de revistas estrangeiras. o lançamento de O Tico-Tico não foi impulsivo: além de garantir as condições técnicas necessárias a tal empreendimento. 97 A foto do vencedor do Concurso nº 1 da revista O Tico-Tico foi publicada na edição de nº 7 da revista. 16 de setembro de 1905. conferir o interesse pela publicação. Leonardo. p. de 22 de novembro de 1905. Ano IV.

o jornalista e caricaturista Renato de Castro e o poeta e jornalista Cardoso Júnior. capaz de inserir o Brasil no rol dos países civilizados e modernos. Ainda que exista dificuldade em precisar o papel de cada um destes personagens na criação de O Tico-Tico.  59 comemorativa. nas palavras de Nicolau Sevcenko101. enquanto Castro ficou na diretoria quando a revista foi lançada. que realizou trabalho de fôlego sobre as origens da caricatura no Brasil. A educação era um dos tópicos defendidos por aqueles empenhados em compreender e formular caminhos para erigir um projeto de nação. da sua fundação até os nossos dias”. sobre a participação de cada um destes intelectuais na concepção da revista. os editores dão crédito a Souza e Silva que. apelidadas de escolhinhas TicoTico. cai em contradição ao determinar de quem partiu a ideia para a criação da revista. 158. pensando em um nome para o periódico infantil. Nicolau. Na edição comemorativa do cinquentenário. Bomfim teria cuidado da parte redacional dos primeiros números. Ano 2. 99 LIMA. A escolha do nome da revistinha infantil também deixa dúvidas. p. bastante semelhante ao dos periódicos franceses do mesmo gênero. contudo. 52-55. 7-10. "Paixão Infantil". 100 JÚNIOR. Já Gonçalo Júnior100 e Herman Lima defendem que o nome teria sido proposto por Manoel Bomfim em referência às escolas de primeiras letras. Herman. p. a evidência da participação destes intelectuais nos permite pensar que o lançamento da revista não foi apenas o reflexo do desejo de um editor em diversificar suas publicações. a elite intelectual do país investiu na propagação de um ideal de modernidade que envolvia educar e higienizar as futuras gerações de cidadãos brasileiros. São Paulo: Brasiliense. 101 SEVCENKO. jornalista e pensador social Manoel Bomfim. teria visto pousar em sua janela um pássaro Tico-Tico. Tendo a Europa e a nascente potência norteamericana como modelo. Lima garante uma participação mais central de Bomfim no projeto. mas também um projeto comprometido com uma ação propriamente política. Cit. ora indicando Luís Bartolomeu e Cardoso Júnior. outubro de 2005. também ajudaram o editor e proprietário a conceber a revistinha98. In: Op. . Gonçalo. 98 “Retrospecto da vida de ‘O Tico-Tico’. os editores informam que o médico. Há controvérsias. apontando inclusive que sua viagem à França pouco antes do lançamento d’O Tico-Tico teria influenciado o projeto da revista. Cit. N°24. 1999. com a ajuda do poeta e músico Eustórgio Wanderley. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. O investimento na educação nacional era tema de debate entre os círculos intelectuais da época e visto como uma verdadeira missão a ser empreendida por estes “mosqueteiros intelectuais”. Herman Lima. Op. p. Nossa História. ora afirmando que o semanário teria sido idealizado por Manoel Bomfim e Renato de Castro99.

. Bastante atuantes na esfera do Estado. Faziam das instituições – museus. O conhecimento científico seria neste contexto imprescindível para que. evidencia a articulação entre os interesses das elites empresariais com os intelectuais durante a Primeira República. O espetáculo das raças: cientistas. A ciência. Op. o Brasil deveria superar o estigma da escravidão recentemente abolida e do regime monárquico finalmente sucumbido. Os chamados “homens da sciencia” tiveram grande importância na formulação de diagnósticos acerca dos destinos da nação. Lilia Moritz. Porém..1870-1930.  60 A influência de um ideal que via na educação a saída para o atraso nacional em um projeto empresarial de veio capitalista.102. onde estava em pauta o conhecimento científico iluminado pelas teorias darwinistas e evolucionistas103. enfim o Brasil garantisse um lugar de destaque ao lado das modernas nações do mundo. institutos e ligas – locais de encontro. Esses projetos estavam intimamente ligados ao ideal de construção de um país civilizado. SCHWARCZ. a historiadora Angela de Castro Gomes argumenta que a Primeira República se caracteriza por uma variedade de projetos de modernidade em constante articulação e disputa. ao lado da história. São Paulo: Companhia das Letras. . 102 103 GOMES. em acordo com a marcha evolutiva do progresso. 2. instituições e questão racial no Brasil . era o instrumento utilizado pelos intelectuais da época para avaliar e compor diagnósticos para a superação do atraso nacional. Também mostra que o desejo de modernização era compartilhado por amplos setores da sociedade e torna clara a importância das revistas ilustradas na vida cultural e no imaginário social brasileiro.1 Uma modernidade contraditória A participação de intelectuais na revista O Tico-Tico é portanto essencial para compreender as demandas e escolhas envolvidas no projeto. antes de discutir a questão intelectual. com foco nas redes e canais de atuação e sociabilidade que viabilizaram a elaboração do semanário. Como uma nação moderna. nas reformas urbanas e no projeto higienista. esses intelectuais ajudavam a legitimar a ação do poder público. 1993. através do discurso científico. Em seu livro Essa Gente do Rio. discussão e formulação de projetos. é necessário discutir brevemente a própria noção de modernidade partilhada por estes grupos. Cit. Angela de Castro. 1999.

ciência e historiadores na Primeira República”. Em Modernismo no Rio de Janeiro. acostumado à simbologia e aos rituais monárquicos. O estabelecimento de imagens. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil. Ao lado da ciência. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. outro entendimento do moderno estabelecia a estética como forma de compreensão da sociedade. Sob o espectro da república. liberais e jacobinistas – que se enfrentavam pela centralidade de seu projeto no poder. também sob o questionamento científico. onde se redefinem as identidades coletivas106. Partilhada entre alguns homens de letras e artistas. que estava relacionada a um confronto entre diferentes correntes republicanas – positivistas.  61 A história. é característico de momentos de grande mudança social e política. José Murilo de Carvalho. Faperj. Antonio Augusto Passos(org. cujo objetivo no Brasil foi realizar a conexão dos valores republicanos com o imaginário social. São Paulo: Companhia das Letras. p. Era importante narrar a história do Brasil buscando em seu passado uma herança republicana104.. VIDEIRA. José Murilo. símbolos e alegorias para a legitimação do regime republicano. . Mônica Pimenta.). “História. Enquanto esta história era discutida (e “reconstruída”) em instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Angela de Castro. Alda . 11. In: HEIZER. 2010. e como essa vivência do moderno estabelece também uma forma de compreensão e elaboração da identidade nacional. O estabelecimento dessa simbologia passava pela reconstrução de heróis e pela criação de mitos de origem. em trabalho já clássico da historiografia brasileira105. 1990. 104 Angela de Castro Gomes analisa a importância do conhecimento histórico durante a República e a influência do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro na reformulação de princípios historiográficos dentro do quadro de instauração do novo regime. civilização e República nos trópicos. 106 Ibid. 105 CARVALHO. a história pátria deveria reforçar esses símbolos e ainda veicular valores morais que estivessem em consonância com o imaginário sobre o que seria o cidadão republicano. 107 VELLOSO. os cânones da história também deveriam ser reconfigurados. nas escolas. que pudessem dar sustentação histórica ao regime e à ideia de construção de uma nação. Mônica Pimenta Velloso107 chama atenção para a penetração de uma cultura boêmia na cidade-capital. GOMES. ressalta a importância da construção de mitos. 1996. p. Rio de Janeiro: Mauad X. era importante instrumento de compreensão do moderno e passava por uma considerável reformulação após a proclamação do novo regime. uma outra leitura da modernidade contribuía para o questionamento sobre a nação. 11-29. Modernismo no Rio de Janeiro: turunas e quixotes. Ciência. Havia uma verdadeira disputa ideológica na definição desta simbologia.

A ligação destes homens de letras com o mundo da rua. O público teria recebido o movimento como uma grande novidade. 12. p. Para Angela de Castro Gomes (1999). um padrão que opõe modernistas paulistas e cariocas é o humor111. buscando evidenciar características específicas do modernismo carioca. In: CHALOUB. “Literatura em movimento: Coelho Netto e o público das ruas”. Leonardo Affonso de Miranda Pereira também argumenta que. portanto. Sidney. Uma das características marcantes da implantação desta “cultura do modernismo” na cidade do Rio de Janeiro teria sido a utilização do humor como linguagem e forma de interpretação do moderno. com a boêmia e com a população marginal teria impedido a formação de um “movimento modernista”. ainda que não estivesse destacada em suas obras. O caso de Coelho Neto. afirmando naquele momento o nascimento do modernismo e da modernidade nacional. pelo seu caráter fragmentário. trabalhos historiográficos de fôlego têm se empenhado em questionar a ideia de um premodernismo. NEVES. devendo ser analisada de forma processual e em íntima conexão com as ambiências urbanas e regionais que demarcavam as trajetórias individuais e coletivas dos intelectuais do país109. a atuação intelectual destes literatos que. Os próprios modernistas paulistas e críticos literários nos anos 1950 e 1960. História em cousas miúdas: capítulos de história social da crônica no Brasil.. ao afirmar a estética modernista como forma de analisar e compreender o Brasil. como uma quebra paradigmática. SP: UNICAMP. 111 Assim como Velloso. mais do que em São Paulo. a centralidade da Semana de 1922 se deu graças a “estratégia do escândalo”. Op. Cit. Para Velloso. É também o que salienta Ângela de Castro Gomes A modernidade cultural brasileira não poderia ser pensada como restrita a uma súbita e original descoberta. PEREIRA. Gomes assevera que o perfil do intelectual carioca difere do intelectual paulista. Leonardo Affonso de Miranda. Margarida de Souza . era considerada parte de seu ofício no interior do campo intelectual. Entre os já citados. a linguagem visual – expressa 108 Desde a década de 1990. Essa cultura se evidenciava na estética dos artistas. Desconsideram. mas também no compromisso assumido por estes intelectuais pela busca do caráter nacional brasileiro. vale ressaltar também o livro de Flora Sussekind (1987). 1999. personagem privilegiado na análise do historiador. os modernistas de São Paulo desconsideraram a produção artística dos literatos cariocas. caracterizando o palavreado rebuscado e a preocupação com a forma como marcas de uma literatura estéril e vazia110. teriam consolidado tal memória vinculada ao evento. é emblemático por ser na crônica que se evidencia sua atitude crítica em relação à política e a preocupação com uma série de temas relacionados à discussão da nacionalidade – entre eles a educação. 109 Id.  62 Para Velloso. Leonardo Affonso de Miranda. 201. Campinhas. Angela de Castro. .p. o aparecimento dos intelectuais boêmios como figuras símbolo da Belle Époque carioca estava relacionado com o estabelecimento de uma “cultura do modernismo”. 110 PEREIRA. Essa interpretação desloca a centralidade de São Paulo e da Semana de 22 como marcos da implantação do modernismo no Brasil108. No Rio de Janeiro. 2005. GOMES.

Ainda que estivesse progressivamente se vinculando ao mercado de maneira nunca antes vista – é bom lembrar que no início do século XX o boêmio é o homem moderno por excelência – os artistas também viam em seu trabalho uma importância social e política. pilhéria – eram padrões utilizados para questionar a sociedade e a política. p. mas vinham acompanhados do enfraquecimento da dinâmica social mais tradicional. Sidney. . 113 114 Frase retirada da charge de Raul Pederneiras chamada “Dize-me o que cantas.direi de que bairro és” . Margarida de Souza . pela rapidez. mas também com a questão nacional. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Portanto. que deveriam ser denunciados através do humor. CANCLINI. objetos e práticas”114. 435-458. In: CHALOUB. Explorar e investigar minuciosamente o cotidiano do espaço urbano era estratégia tanto de cronistas quanto de caricaturistas como Raul Pederneiras. 2003. longe de serem dicotômicas. pelo movimento. se combinam para gerar novas estruturas. estavam difundidas em diversos projetos culturais durante a primeira república.Op. Se em alguns momentos ela era apreciada pelo frenesi. servia também de ensejo para a indagação sobre os destinos da nação.  63 principalmente na charge e na caricatura – foi a forma de expressão utilizada por grupos de intelectuais em sintonia não apenas com o moderno. NERY. a importância do sucesso financeiro eram princípios identificados como valores tipicamente modernos. os valores identificados à vida boêmia – criatividade. A arte.. Ibid. PEREIRA. Laura. p. NEVES. A critica dos costumes era uma das características mais fortes da caricatura publicada na imprensa brasileira. A perda das tradições populares e da memória social da cidade era vista como perturbadora dentro do quadro de modernização. O materialismo. Enquanto em São Paulo a seriedade era um valor preponderante na linguagem intelectual. que existiam de forma separada. Gávea e outros babéis”113. “Cenas da vida carioca: O Rio no traço de Raul Pederneiras”. no Rio. portanto. Cit. intensidade. As concepções de modernidade apresentadas. Um traço que unia frequentemente os intelectuais boêmios na sua apreciação acerca da modernidade era a visão crítica do progresso. a excessiva racionalidade. mesmo a relação entre tradição e 112 Cf. Apud. era entendida como uma possibilidade de resistência a estes valores. Para Nestor Garcia Canclini. incansável em mostrar os tipos mais populares em confronto com a burguesia mais afetada de “Botafogo. pois inviabilizava a busca pelo verdadeiro caráter nacional112. Leonardo Affonso de Miranda.. Prevalecia uma espécie de hibridismo. que articulava perspectivas diferentes do moderno como forma de dar conta das novas condições de produção e mercado em processo naquele momento. São Paulo: Universidade de São Paulo. XIX. a hibridização é resultante de “processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas. Copacabana. Nestor Garcia.

nos cafés. O semanário infantil. por exemplo.1 A cidade do Rio como palco O Rio de Janeiro deveria ser símbolo de um novo modelo de nacionalidade e do desejo de modernidade e progresso. 2. Cit. concentrava grande parte dos projetos e também das polêmicas pela modernização do país. 38. de bondes cruzando a cidade. perseguidas pelo discurso arbitrário que clamava pela ordem pública. dos cafés e livrarias da Rua do Ouvidor. do médico Manoel Bomfim. dada sua condição tropical. onde tradição e moderno estavam em constante encontro e desencontro. dos teatros e cinematógrafos. seguida das reformas sanitárias. mas ao mesmo tempo em que fazia convergir para si os ideais de civilização e progresso. como diversas revistas e projetos editoriais da Primeira República. p. O moderno-ciência e o modernoestética115 são evidenciados pela participação. como sofreu as consequências de uma intervenção profundamente autoritária. Op.  64 modernidade não pode ser pensada de maneira maniqueísta. Mas apesar da construção de belas avenidas. também era máxima representante do passado e do atraso de origem colonial que deveria ser enfrentado e superado. Expulsas das áreas do centro onde costumavam viver. portanto. da energia elétrica. as camadas populares 115 Esses dois conceitos foram cunhados por VELLOSO. As duas orientações da modernidade aqui apresentadas estavam presentes e influenciaram decididamente a criação d’ O Tico-Tico. Carlos. As reformas urbanas implementadas pelo prefeito Pereira Passos. como cidade-capital. defensor da ciência como princípio fundamental para o entendimento do atraso nacional. . O Rio de Janeiro. livrarias e em outros espaços de sociabilidades por eles utilizados. pois ambas estão igualmente imbricadas no discurso sobre a modernidade – seja para afirmá-la ou para contestá-la. A cidade encarnava. Monica Pimenta. e ao mesmo tempo. o aspecto contraditório próprio da modernidade. conhecido por utilizar a arte como veículo propagador dos valores modernos. Sua centralidade dentro do quadro político e cultural era evidente. pretendiam transformar a cidade em uma capital europeia – dentro do possível. caladas suas manifestações culturais tradicionais. experimentava tal hibridização como resultado das relações mantidas entre intelectuais no interior das redações. na presença de J. a reforma urbana teve caráter bastante excludente: uma parcela considerável da população não só foi privada do bem-estar da vida moderna.1.

a ação dos reformadores do espaço urbano – médicos. José Murilo de Carvalho116 adverte que. . o Rio de Janeiro espelhava a entrada do Brasil no moderno modo de produção capitalista. A 116 CARVALHO. O surto de prosperidade iniciado na segunda metade do século XIX. Essa população veio se juntar àquela que. com o maior afluxo de capitais graças ao aumento da produção cafeeira e ao investimento estrangeiro. a modernização dos portos e a nova iluminação das ruas. Era necessária. vivia em condições deploráveis. praças e jardins. o desenho das ruas apertadas e sem ventilação e a própria geografia e o clima pelo aspecto de atraso da cidade. São Paulo: Companhia das Letras. A circulação caótica e desordenada da população de baixa renda reforçava ainda mais a vida insalubre da capital e impedia sua plena modernização. por outro acentuava gravemente os problemas do abastecimento de água. José Murilo de. portanto. O fim da escravidão também colaborou para a liberação de capitais para investimentos no setor urbano-industrial. Era o símbolo de um país que procurava se renovar. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. reféns dos altos aluguéis que sustentavam a máfia de locatários da cidade. uma reforma radical que ordenasse o caos urbano e garantisse a mobilidade necessária para o alargamento de ruas. ao mesmo tempo em que liberou das áreas rurais um grande número de indivíduos que migravam para a cidade em busca de melhores condições de vida. Com a ampliação da malha ferroviária. 117 Para Claudia Oliveira. construção de avenidas. amontoados nos cortiços do centro da cidade. 1987. à procura de empregos escassos. garantiram uma nova dinâmica à capital federal. A reforma urbana era também meio de garantir a atração de investimentos e uma maior dinâmica para o desenvolvimento de um comércio de bens de consumo117. já moradora da cidade. O discurso higienizador de médicos. engenheiros e arquitetos – seguiam o ordenamento de garantir a mobilidade e o ordenamento da cidade. O ordenamento do espaço urbano deveria ser seguido por um controle reforçado da circulação de pessoas. ainda que mantivesse as velhas estruturas políticas. A insalubridade em que viviam essas populações era então utilizada como motivação para a ação repressiva do poder público. que passava por um processo de investimento em sua infraestrutura urbana. se por um lado o grande afluxo de pessoas em direção à cidade garantia a febril agitação característica de uma capital moderna. engenheiros e arquitetos culpava a arquitetura colonial. das redes de esgoto e do controle de epidemias. Escritores e caricaturistas enfocavam em suas obras o receio e o caráter dúbio das transformações da cidade.  65 estiveram marginalizadas dessa tão sonhada modernidade.

como era chamado pela imprensa. Nesta novíssima capital. em que um homem corre atrás de seu cachorro pela Avenida Central. Brito. por outro lado. apesar do “bota abaixo” ter destruído os casarões e comércio da população de desvalidos. Rio de Janeiro: José Olympio. 1900. a degenerescência da população e as construções do centro da capital eram aspectos de uma cidade imperial. onde tudo estava por se construir.  66 presença da polícia. as ruas escuras e lamacentas davam lugar às largas avenidas. dos terreiros da Praça Onze. 2004. que segundo Brito Broca “subia o morro Santo Antônio com um bando de seresteiros”. de onde extraía material para a Alma encantadora das ruas. que funcionavam como aprazíveis lugares de passagem. As reformas ajudavam a afirmar e garantir a legitimidade do Estado Republicano justamente por aquilo que ele mais desprezava: o caos urbano. e quem sabe ainda se reunir em uma das confeitarias para o five o’clock tea. A disputa entre o arcaico e o novo. continuou afirmando sua presença muitas vezes de modo conflituoso. subindo o Morro Santo Antônio118. A vida literária no Brasil. . Mas se essa é a experiência moderna. entrar em contato com a última moda de Paris. onde as pessoas se encontravam para discutir as novidades estampadas nos jornais e revistas. 321. representava também a disputa entre o antigo regime imperial e o novo governo republicano. A cidade-capital republicana. 118 Referência a João do Rio. O centro virava espaço preferencial para as novas classes médias dispostas a consumir o elegante comércio da Rua do Ouvidor. N’O Tico-Tico e nas tiras infantis de O Malho eram frequentes as histórias ambientadas na avenida recém construída – como na historinha abaixo. A abertura da monumental Avenida Central com suas novas e exuberantes edificações não impediu a desocupação total do centro. no estilo Haussman parisiense. expressa no desmonte da antiga cidade de traços coloniais para a construção de uma nova capital moderna. na tentativa de impor a ordem. a do samba da Tia Ciata. complementa a ação tanto de engenheiros e arquitetos como a dos médicos no controle da salubridade dos grupos sociais. onde há confronto há também troca: era nesses encontros que fração da intelectualidade carioca conhecia uma outra parte da cidade. manifestava o progresso e a modernização de uma pátria nova. deteriorada e corrompida como a própria política de Pedro II e suas instituições. O populacho. BROCA. p.

na perspectiva apresentada por Karl Mannheim121. Robert K. alguns trabalhos mais recentes têm rompido com esta perspectiva pessimista acerca da intelectualidade da Primeira República. De um lado. (1990). Karl. Wright. N. Porém. também opõe a atuação de “homens de sciencias” e “homens de letras”. SCHWARCZ. MILLS.2 Os intelectuais como símbolos da modernidade Parte da historiografia sobre os intelectuais da Primeira República enfatiza o descontentamento e a despolitização desses grupos desencantados com a “república que não era aquela dos seus sonhos”119. 18. . Tânia Regina de. uma produção literária vazia e europeizada.  67 Figura 8 Detalhe de história em quadrinhos de Vasco Lima ambientada na recém construída Avenida Central. Nº13. O Tico-Tico. MERTON. ofereceu uma conjuntura importante para os intelectuais debruçarem-se sobre o país de modo a identificar os elementos que fundam a nação e as identidades que a compõe.. Como se tinge uma roupa. Rio de Janeiro: Zahar. J. In: MANHEIMM. Não foi só no Brasil que a transição do século XIX para o XX ofereceu uma circunstância singular. p. ao enfatizar um profundo envolvimento entre o campo intelectual e o campo político. de outro. 119 Entre trabalhos consagrados que oferecem análises nesta direção estão: CARVALHO. tendo a noção de comprometimento político e social como valor. M. 2. 120 LUCA. M. C. 1967. ocasionando uma mudança no estatuto intelectual: podemos falar até que este foi um período de constelação. L. Sociologia do conhecimento. (1999). marcado por crises. Cit. de uma postura social e política do intelectual. Op. Karl. (1993). SEVCENKO. . Rio de Janeiro. Anno II. Tânia Regina de Luca120 entende que o momento pós-proclamação da República. 121 MANNHEIM. 3 de janeiro de 1906. rupturas e transformações. nacionalistas sem consistência política. e o engajamento de diversos grupos com uma ação política e social no sentido de repensar e propor caminhos para a renovação do regime que tanto criticavam. “O problema de uma sociologia do conhecimento”.

política e técnica. 2010. durante o qual o escritor naturalista Émile Zola publica no jornal L’Aurore. expressando sua indignação quanto a condenação do oficial Alfred Dreyfus. 11. Simbólico da atitude interventora que assume o intelectual no quadro de modernização da sociedade é o caso Dreyfus. No momento em que resolve se colocar à frente do que acredita ser uma questão política grave e urgente. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista. p. Mannheim defende que. uma carta aberta ao presidente da república francesa. de mudança e questionamento do lugar do intelectual na sociedade. em 1898. Émile. . posteriormente. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens da cultura na sociedade contemporânea. Segundo o autor. a constelação é uma combinação de fatores que em dado momento configuram determinada realidade. Eu acuso/ O processo do Capitão Dreyfus. Norberto. A atitude de Zola é exemplar desta nova postura assumida pelo intelectual. porém. escritores anteriores ao emblemático posicionamento de Émile Zola. filósofos. Não mais apenas um observador. a utilização do conceito parece esclarecer um momento específico da história. 123 BARBOSA. 124 Para Norberto Bobbio. p. literatos. ZOLA. O intelectual é o personagem de maior destaque na modernidade. Vale também ressaltar a influência que adquire o discurso impresso no contexto de modernização social. 125 GOMES. Op. aproximando-se das questões sociais e políticas e interferindo diretamente nos acontecimentos de seu tempo. o escritor francês dá novo sentido e importância à palavra intelectual124. Em trecho da carta. afastando-se das perspectivas míticas e religiosas que durante muitos anos dominaram a epistemologia122. o caso Dreyfus foi apenas o momento de difusão da palavra intelectual na França e. a reflexão sobre a realidade passou a se concentrar cada vez mais na esfera histórica e social. questionando e relatando a realidade. Cit.. O escritor rompe com o silêncio da intelectualidade francesa e denuncia em uma série de panfletos a infame condenação do oficial e os erros grosseiros do processo. BOBBIO. no resto do mundo. com a modernização.. São Paulo: Hedra.  68 Para o sociólogo alemão. foi o 122 É preciso frisar que não adotamos neste trabalho a teorização de Mannheim acerca do lugar do intelectual. porque cabe a ele a responsabilidade de realizar a conexão entre memória e história. 2007. tão destacada neste contexto125. O intelectual. Ângela de Castro. o intelectual passa a ser também aquele que através da reflexão elabora caminhos de ação e se coloca à frente dos processos. 13. Rui . cultura e política. lembra Ângela de Castro Gomes. O conceito ajuda a iluminar o momento específico em que o intelectual se configura como um homem de ação. que faz com que a opinião do intelectual se sobressaia frente às demais. 1997. o autor escreve: “O ato que aqui realizo não é nada alem de uma ação revolucionária para apressar a explosão de verdade e justiça”123. não seria incorreto chamar de intelectuais os sábios.

sublinha Tânia de Luca. Op. Guiados pelo espírito científico e racional. João da Cruz. 128 Roberto Schwarz e João da Cruz Costa são os principais expoentes da corrente historiográfica que defende a assimilação irreflexiva das teorias estrangeiras pelos intelectuais brasileiros. o analfabetismo (.. como afirma boa parte da literatura sobre o assunto128. precisavam encontrar outros espaços de atuação que não os lugares onde tradicionalmente a política acontecia. Insatisfeitos com a política imperial e marginalizados na sua participação. Ao invés de se conservarem trancafiados no interior de seus gabinetes e bibliotecas. Op. e sociedades literárias viraram espaços para a discussão e proposição de projetos. Outros heróis. Segundo os autores. estas teorias eram apreendidas de forma “alienígena”.)127”. e para isso. rompendo definitivamente com a herança romântica que ressaltava o papel do colonizador português no caráter nacional. Deram uma das bases organizacionais para as principais campanhas pró-reforma. desejosos de estar à frente dos processos de mudança no país. substancialmente os grupos da Geração de 1870. Cit. os intelectuais desta geração. como a abolição e a república”126. associações. COSTA. graças ao domínio do poder saquarema e à forte hierarquização de suas instituições. p. “lançaram-se à luta denunciando o imobilismo do império. Sergio Buarque. sem respeitar as especificidades que a herança colonial teria deixado na nossa história. Alijados dos quadros políticos do Estado. 2002. mas principalmente nas questões sociais e políticas que abalavam a sociedade brasileira. 21.. 127 LUCA. a escravidão. Angela Alonso resume a importância desses verdadeiros lugares de sociabilidades: “Essas associações vingaram como centros de aglutinação não partidária de discussão das questões nacionais. Longe de ser um movimento de ideias descolado da realidade objetiva. “O pensamento brasileiro sob o império”. Buscavam justamente construir uma nova identidade para a nação em oposição à herança nefasta da colonização. . No Brasil. 282. Ângela. outra pátria – estes intelectuais buscavam outra substância para a formação nacional do Brasil. a ausência de democracia e de partidos. nestes espaços era possível construir redes de amizade e influência e formular ideias para a inserção efetiva do país no caminho em direção ao tão desejado progresso e civilização.  69 profissional responsável pela produção de bens simbólicos essenciais à legitimação dos regimes políticos modernos. Tânia Regina de. este grupo se destacava pela união entre ação e discurso. In: HOLANDA. Cit. livrarias. Cafés.. p. o atraso econômico do país. os membros do grupo desejava fundar a identidade nacional em outras bases. Os intelectuais desta Geração se destacaram ao se colocar no espaço público como legítimos interventores não só em relação à cultura. os maiores expoentes do lugar assumido por este grupo vêm da Geração de 1870. estes intelectuais buscaram na leitura e reflexão do 126 ALONSO.

a Geração reformista de 1870 foi responsável por abrir uma série de canais não-tradicionais de atuação para os intelectuais interessados em questionar e construir projetos destinados a interferir diretamente nos destinos da nação. Lucia Lippi. livrarias. 78-80. O Brasil Monárquico – do Império à República. Cit. mostrando que sua utilização por parte destes intelectuais tinha o sentido de atualização frente ao quadro de modernização europeia. A revista O Tico-Tico foi um desses projetos que. São Paulo: Companhia das Letras. 129 ALONSO. Nicolau Sevcenko defende que estes intelectuais se viam como fundamentais para o equilíbrio teórico e prático da evolução histórica do Brasil131. 131 SEVCENKO. Roberto. 130 OLIVEIRA. Além disso. associações. Para Ângela Alonso129. as teorias importadas da Europa passaram por um critério de seleção. portanto. ligas – o legado deixado foi a necessidade da atuação política dos intelectuais na esfera pública. nos salões de Coelho Neto e na redação de O Malho. essenciais para a condução concreta das transformações do país.Op. Ângela. nascido nos encontros entre os intelectuais boêmios e cientistas no Café Papagaio. Buckle. vol. neste sentido. A ciência e a cultura. A herança intelectual deixada pela Geração de 1870 foi de grande importância para as gerações posteriores. Taine e Littrée como prova da falta de comprometimento e de entendimento da geração com a realidade do país. Cit. História Geral da Civilização Brasileira. ao contrário da perspectiva romântica da nacionalidade. Lucia Lippi de Oliveira130 complementa. apontava para um esforço de universalização como condição para se alcançar o progresso. para estes intelectuais estava em jogo também um desejo de participação no quadro hegemônico da política nacional. Spencer. O projeto destes intelectuais.. 1987. redações e salões que reflexões. 1967. São Paulo: Difel. Não entendemos a apreensão teórica das obras de Darwin. pretendia construir um novo modelo para os futuros cidadãos brasileiros. Que horas são?: ensaios. mas como uma tentativa de refletir sobre os caminhos possíveis para romper com o que acreditavam ser responsável pelo atraso nacional. eram as noções que norteavam a critica deste grupo. Além de ter “formado” muitos jovens intelectuais que atuariam nos lugares antes ocupados pelos seus predecessores – redações de jornais e revistas. Op. 3. ideias e projetos foram erigidos com o objetivo de mudar os rumos do país que então se modernizava.  70 corpus cientifico-filosófico europeu subsídios para a compreensão dos problemas nacionais. Colocandose como difusores do moderno pensamento europeu e. . Op. SCHWARZ. p. Nicolau. Foi no interior das confeitarias. Cit.

2007. os intelectuais ganham lugar de significativa importância. laureados por discípulos de várias partes do país. com a tese de que a população era indiferente ao discurso republicano. Para Maria Teresa Chaves de Mello132 é um momento de politização da vida urbana. Mesmo antes da proclamação da república. na aparência física e até no que bebiam. Ela não corrobora. assediados nos cafés. como palco para a manifestação de seu espírito artístico. A rua. Op. Para a autora. Monóculos. segundo a autora. p. Cit. cartolas. As conversas nas ruas e as discussões em voz alta não versavam apenas sobre a vida privada e amenidades. Esse padrão de vida estava expresso não apenas na criatividade artística. 50. A imprensa ganhava maior espaço no cotidiano da cidade e dava o tom das discussões. bigodes empolados e um golinho de absinto marcavam a 132 MELLO. como as celebridades de ontem – são cumprimentados à rua. mesmo após a proclamação do novo regime. Maria Teresa Chaves de. ou nas suas ideias. mas também sobre assuntos colhidos dos periódicos mais populares da época. dominar a opinião pública parecia fundamental. ressaltando o desgaste da figura do imperador Pedro II nas últimas décadas do Império. seu estilo de vida moderno. onde a rua adquire lugar de destaque para o uso público da razão e da crítica. que tomavam as vias da cidade. sua capacidade criadora. 133 Mello critica a posição historiográfica que defende que o povo teria assistido bestializado à proclamação da República.  71 2. a difusão de uma cultura democrática e científica a partir de 1880 teria facilitado a implantação do regime republicano e mostra que eram constantes as demonstrações de descontentamento da população com o regime anterior.. Estas manifestações. palestras. Estava em jogo a própria legitimidade do governo diante do novo quadro de modernização que se impunha133. Pela importância que ganhava a rua e o discurso impresso nesta cidade-capital em processo de modernização. observa-se uma verdadeira ampliação do espaço público político com a formação de diversos lugares que serviam para o encontro e debate entre os intelectuais da época. comícios. virava palco para a manifestação de alegrias e insatisfações. . no linguajar. agitações diversas.2 Combativos e bon vivants Dos últimos anos do século XIX para o século XX. Ao mesmo tempo em que são assediados. Por isso. o que é reforçado pela proliferação de folhas ilustradas que facilitavam o entendimento das classes pouco instruídas.2. se utilizam destes espaços onde o contato com o público é direto. protestos e ideias134. diversos grupos sociais ocupam o espaço da rua através de meetings. mas estava também no jeito que se vestiam. sem a intermediação do jornal ou do livro. 134 Ibid. demonstravam em grande parte o abismo entre as mudanças econômico-sociais e as instituições imperiais. portanto.

Mesmo mantendo vínculos com o Estado através da participação em cargos políticos ou trabalhando em instituições públicas. que os define socialmente pelo espírito de liberdade e transgressão. além de formador de opinião. Prevalecia uma relação dúbia tanto com o Estado como com o mercado e. Na falta de espaços acadêmicos próprios para as discussões intelectuais. era principal divulgador do estilo de vida moderno. ainda que fossem locais de atuação informal. suas ideias e o espaço público. O prestígio que angariavam com seu público leitor não era suficiente para lhes garantir um lugar social privilegiado. em oposição ao daqueles que vivem a rotina da vida burguesa tradicional. estes locais funcionavam como espaços de encontro e estabelecimento de redes profissionais e de amizades. davam dinâmica à relação entre o intelectual. estes homens se sentiam politicamente marginalizados e. e para a construção de sua identidade. A boemia. estes locais foram eleitos como ambientes privilegiados para formular ideias. Pierre Bourdieu lembra que o estilo de vida boêmio é uma espécie de distinção. os separava pela arte de viver. ao mesmo tempo em que aproximava os artistas do povo pela pobreza. Dessa maneira. nem tampouco condições financeiras para manter o estilo de vida de que se achavam portadores. por isso. Op. por isso. de suas normas e de seus mitos”135. destilar críticas a seus pares e discutir os últimos acontecimentos da política. apresentar diagnósticos e criar soluções para os problemas da nação.. inventado pelos próprios artistas para caracterizar seu estilo de vida. Se aquilo que os aproximava era o interesse pela vida político-social ou tão somente o espírito boêmio crescente naqueles dias.  72 identidade social do grupo que. confeitarias. os cafés e saraus literários eram espaços privilegiados para o exercício intelectual e de sensibilidade artística. 135 BOURDIEU. elegiam a rua como lócus principal de atuação. delimitar o campo intelectual no qual agiam estes homens de letras é de extrema importância para compreender como se formaram as redes que permitiram a aproximação e o agrupamento de determinados personagens em torno de temas e projetos. Nos cafés. livrarias e salões facilmente se encontravam alguns destes homens a bebericar xerez. Ele completa que “os romancistas contribuem grandemente para o reconhecimento público da nova entidade social. 1996. Cit. p. Estes espaços de sociabilidades. 72 . Pierre. especialmente ao inventar e difundir a própria noção de boemia. fazer pilhérias. de seus valores.

139 AGUIAR. por intermédio de seu amigo jornalista Alcindo Guanabara139.1996. . Op. GOMES. em 1888. p. pode nos indicar caminhos para compreender melhor o ambiente em que foi criada a revistinha infantil. Manoel Bomfim veio para o Rio de Janeiro. terminar seus estudos iniciados na Faculdade de Medicina da Bahia. que foi redator-chefe do jornal A Tribuna140. geralmente indicados por um membro do grupo que já conheciam ou com quem se correspondiam. “Os intelectuais cariocas. 2004. Cit. escritores e homens de sciencia vinham de várias partes do país para aqui estabelecerem suas carreiras. colaboradores – frequentavam estas rodas e marcavam sua presença em espaços boêmios ou em salões literários. caricaturistas. p. vida e obra de Manoel Bomfim. Cit. é algo peculiar ao modernismo136. controles e sujeições. 605. mas vale a pena registrar o ambiente e os lugares que estes mesmos intelectuais frequentaram. estabeleciam redes de contato profissional e amizades que muitas vezes determinavam seus espaços de atuação profissional. estabelecer com precisão como se deram estes encontros. 27. Os intelectuais da revista O Malho – cronistas. Luís. Ronaldo Conde. deveres.  73 As confeitarias. Não pretendemos aqui. e muitas vezes mais ligados ao mundo privado que de fato à esfera pública. 2000. Cit. 1999. 42. p. Ângela de Castro. confeitarias e livrarias que eram apresentados à nata da intelectualidade carioca137. pertencer a grupos e estabelecer redes. que funcionavam também como porta de entrada de muitos intelectuais recém chegados à capital. mas que aqui cria redes e relações importantes para a formação e estabelecimento de suas vidas profissionais... Pierre. Traçar as redes informais construídas pelos intelectuais que frequentavam a revista O Malho e eventualmente. Op. eram também lugares que guardavam a marca da tradição. colaboraram também na revista O Tico-Tico. Ao frequentar estes lugares. Op. 140 EDMUNDO. Através dele conheceu Olavo 136 GOMES. Project MUSE. Muitos encontros se deram nestes lugares. 138 BOURDIEU. Pierre Bourdieu ressalta que “existir socialmente é ocupar uma posição determinada na estrutura social e trazer-lhe as marcas”138 e pressupõe manter relações. expressas em obrigações. 137 Adotamos aqui a mesma perspectiva proposta por Ângela de Castro Gomes de entender como intelectual carioca aquele vindo de várias localidades do país. p. salões. Rio de Janeiro: Topbooks. O Rebelde Esquecido. 81. que é cercado de mistérios. p. Tempo. como mostra Ângela de Castro Gomes. Luso Brazilian Review 41:1. 127. Angela de Castro. Esta ambiguidade. Poetas.. o modernismo e o nacionalismo: o caso de Festa”. e era nos cafés. redações de jornais eram espaços ambíguos de atuação intelectual: ainda que símbolos da modernidade que se instaurava e de uma postura mais mundana do intelectual moderno.

Apesar de frequentar cafés com Bomfim. a casa de Neto era ponto de encontro entre os intelectuais. após o expediente do jornal. p. Brito. onde “predominava a literatura. ainda participavam Medeiros de Albuquerque e Bastos Tigre. conhecido ponto de encontro da jovem intelectualidade carioca. rendonda. recitando suas mais recentes poesias com a “voz sonora. 145 BROCA. 388. 1. onde conversavam até altas horas. Rio de Janeiro: José Olympio 143 Ibid. clara e musical”144. de José do Patrocínio Filho. entre outros. Seu proprietário era um boêmio inveterado que amava o luxo. era lá que seu fundador se punha à sacada para discursar contra a atroz escravidão. Guimarães Passos. A redação de Cidade do Rio ficava em uma sala modesta situada na Rua do Ouvidor. Bomfim sobre o ciúme e Medeiros de Albuquerque sobre o casamento145. Cit. outro príncipe. a cordialidade. 1900. Juntamente com Bomfim. Lá atuavam Emílio de Menezes. 383. No salão de Coelho Neto. 195-200. Tiveram grande importância para a sociabilidade intelectual. Op. o dos poetas. Humberto. Pedro Rabelo e Plácido Júnior. seguiam todos para a casa de Coelho Neto. . Bomfim também foi trabalhar como jornalista na mesma folha. Op. Coelho Neto e Olavo Bilac participavam de conferências literárias. Apud BROCA. Coelho Neto (“que teve que casar cedo”)142 criou um dos salões mais bem frequentados da cidade. situado no Largo de São Francisco. Elas aconteciam principalmente no Instituto Nacional de Música. Durante a campanha abolicionista. Bilac não parecia tão dado a bebedeiras – mas estava sempre presente nos eventos literários. p. abrilhantava o recinto com sua voz fluente de orador brilhante. 142 CAMPOS. p. funcionando como mais um espaço para a 141 Ibid. A vida literária. 62. Situada na Rua do Rozo. Luís.  74 Bilac que então trabalhava no periódico Cidade do Rio. que no início do século já detinha grande prestígio. As conferências ofereciam uma forma de remuneração para os intelectuais e eram também ponto de encontro e discussão. Uma vasta lista de colaboradores frequentavam o Café Java. e até mesmo uma certa sem cerimônia”143. Luís Murat. p. Com a ajuda de Alcindo Guanabara. Vol. onde se pagava cerca de dois mil réis para ouvir Bilac falar sobre as tristezas do poeta. Brito.Cit. o conforto e se afogava nos prazeres mundanos141. populares por aqui nos primeiros anos do século XX. Segundo Bomfim. Além do próprio anfitrião. 144 EDMUNDO. Mais tarde. Guimarães Passos. Coelho Neto. Diário secreto.

com Machado de Assis já falecido. seguiram todos para a confeitaria da Rua Gonçalves Dias. O Papagaio era um personagem à parte na história da boemia carioca: situado entre Gonçalves Dias e Ouvidor. Segundo Luís Edmundo. Luís. Lima Barreto também dava o ar de sua graça na Colombo. 375.  75 atuação do intelectual e como forma de divulgação de suas obras literárias. Foi um modismo e como tal foi logo substituído por outro.. 148 Ibid. Mônica Pimenta Velloso escreve acerca deste privilegiado espaço de sociabilidade boêmia: “(. ou de uísque e vinho quando se podia. 392. além de mocinhas que paravam para tomar sorvetes148. montavam duelos de poesia. após um desentendimento do poeta com o proprietário. Conseguiu mais tarde. Os artistas faziam quadrinhas satíricas. gracioso” e “dono de uma prosa incisiva e mordaz”147. mas era mesmo frequentador de uma das rodas boemias mais conhecidas da cidade – a do Café Papagaio. acompanhadas de calorosas discussões políticas e ofensas mútuas entre os intelectuais das mais diversas orientações que movimentavam a digníssima confeitaria até as altas horas da madrugada. p. entre literatos e caricaturistas. a partir daí. quando as “vacas eram magras”. Até este horário era frequentada por “madamas” e “coronéis”. na Rua do Ouvidor. a Colombo apresentava ambiente familiar somente até às cinco e meia da tarde.. 41-42. gargalhadas corriam soltas. Junto de Neto. ocupar a vaga de Salvador de Mendonça. Bilac era a figura central desta roda que se iniciou na Confeitaria Pascoal. Bilac e Bastos Tigres. o Café era ponto de encontro de um grupo grande de artistas. criavam chistes.) as reuniões do Papagaio após o expediente significavam o esplendor. o cinematógrafo. tanto que sua candidatura à Academia Brasileira de Letras teria sido recusada por Machado de Assis graças à sua fama de desregrado e beberrão146. Op. . apelidado de Bocage graças ao palavreado obsceno que aprendera com a freguesia boêmia. À porta. a 146 Ibid. p. leve. Outra figura que comparecia ao salão da Rua do Rozo e frequentava as Conferências era Emílio de Menezes. O poeta era conhecido boêmio inveterado. As cocottes mais influentes dos salões da região chegavam para se juntar aos grupos que se formavam nas mesinhas de mármore e. acompanhados simplesmente de café. fazia parte da conhecida roda da confeitaria Colombo. recebia a clientela que discutia até altas horas da noite. Para o chá das cinco começavam a chegar os poetas e escritores e o ambiente se transformava em local de pura boemia. Luís Edmundo o descreve como um “conversador admirável: vivo. Cit. o papagaio. 147 EDMUNDO. p. em 1914.

aparece em outra roda boêmia junto destes mesmos caricaturistas. 149 VELLOSO. José do Patrocínio. feliz152. Teria sido lá também que J. 360. Campanha da boa vontade. os versos de Prudêncio Machado! O café que rejeitamos por sentir requentado ou frio. Bastos Tigre. futuros caricaturistas de O Malho. Manuel Cardoso Júnior era poeta e editor da folha A Avenida e frequentava o Café Paris. E todos ouvem com atenção e ternura. 45. Só tem amigos. . O Mercúrio (1898) e O Avança (1904)150. Segundo a descrição de Luís Edmundo: Onde o Cardoso chega. Outra figura importante da revista O Malho. É quem dirige a palestra. Tudo é bom para ele: o mundo. Op. Lá era possível imaginar um outro mundo e discutir todas as reformas necessárias para instaurá-lo”149. Carlos e Luís Peixoto. p. os quadros do Augusto Petit. ainda jovens mostrariam seus primeiros bonecos aos grandes Raul e Kalixto151. 150 EDMUNDO. p. Pede outro. os amigos. com a exceção de Raul. a vida. E. 337. É. todos ilustradores e criadores de personagens d’O Tico-Tico. Cit. p. p. assim como as revistas O Tagarela (1902). Mônica Pimenta. Op. ele acha ótimo. Abaixo é possível ver uma amostra do trabalho de dois caricaturistas na revista O Tico-Tico: uma história em quadrinhos de Gil e uma charge de Vasco Lima. assim como o Batista Bordon não acredita na existência das notas de 200 milréis. 334. de A Avenida e O Malho. atuaram também na revista O Tico-Tico. Coelho Neto. Luís. por isso. 151 Ibid. Gil (Carlos Lenoir) e Kalixto (Calixto Cordeiro) – o corpo de caricaturistas que fizeram parte da revista O Malho e que. Renato (provavelmente Renato de Castro). Cardoso Júnior não acredita também na maldade dos homens. Emílio de Menezes e mais os caricaturistas Raul Pederneiras. 152 Ibid. Crispim do Amaral. Junto de Gonçalves Júnior ainda aparecem os caricaturistas Vasco Lima e João Batista Ramos Lobão. Segundo Luís Edmundo. Cit. e Storni. só ele fala.  76 felicidade e a liberdade. Não cultiva pessimismos ou tristezas. Entre os frequentadores assíduos estava os já citados Olavo Bilac. teria sido justamente nas discussões do Papagaio que teria nascido O Malho (1902). e um dos responsáveis pela criação de O Tico-Tico. também d’O Malho.

27 de dezembro de 1905. Não podemos deixar de salientar a importância destes espaços na circulação de ideias. “A Derrota do Batalhão”.. Ano I. em 153 LIMA. Rio de Janeiro. O Tico-Tico. Não é possível precisar o local onde tal conversa ocorreu. se em um café depois do expediente ou na própria redação de O Malho. Cit. Rio de Janeiro. Op. Nº12. Ano I Figura 10 Charge de Vasco Lima para a história A Boneca Mecânica O Tico-Tico. . Herman Lima lembra que em entrevista Vasco Lima teria dito que a ideia para a criação da revista O Tico-Tico teria surgido de uma conversa entre Cardoso Júnior e Luis Bartolomeu de Souza e Silva153. p.  77 Figura 9 Quadro extraído de história em quadrinhos criada por Gil. Herman. o que importa é que é possível observar a centralidade desses lugares na vida cotidiana da intelectualidade carioca e como eram espaços importantes para a construção e manutenção de relações fundamentais na configuração do campo intelectual. A discussão sobre a necessidade do investimento em educação como única maneira de enfrentar os problemas do país e garantir às gerações futuras uma nação civilizada. 158. 22 de novembro de 1905. Nº 7.

mas uma educação moral e cívica de qualidade para aqueles que seriam os futuros cidadãos de um Brasil. era também dever deles comandar esta discussão e criar projetos capazes de auxiliar nesta investida para a diminuição das altas taxas de analfabetismo e para garantir não apenas a instrução. e constitui uma tentativa de delinear uma estratégia de ação no sentido de colaborar para a ampliação da instrução dos pequenos brasileiros. que ainda em sua infância. sonhava em ser o país do futuro. . era partilhada por diversos intelectuais que frequentavam a cena carioca durante a Primeira República. A própria criação da revista O Tico-Tico estava em consonância com estas ideias.  78 concordância com as exigências da vida moderna. Ainda que estes intelectuais enfatizassem a necessidade do Estado estar à frente desta questão. ampliando a instrução pública para todas as camadas sociais.

Estudou tanto e tão bem que até a professora ficava admirada.respondeu o totó . e no fim do anno. fez exames muito bonitos ganhando todos os premios154 No último número d’ O Tico-Tico de 1906. temos que fazer cêra e mel.Não podemos.Vocês querem brincar commigo? . Rio de Janeiro. Lili correu para as abelhas: . .tenho de tapar o meu ninho hoje.. amigos e professores155. Correu para o collegio.. a revistinha infantil resolve prestar uma homenagem aos seus leitores.. 26 de dezembro de 1906.Não posso . e fica ainda mais evidente com este espaço especialmente reservado às escolas: publicar fotos de leitores no espaço escolar demonstra que para os editores. A especial atenção dos editores com o tema da educação. é reforçada no ano de 1906.  79 3 EDUCANDO UM PAÍS “EM INFÂNCIA” Lili era uma menina muito bôazinha que ia ao collegio todos os dias. Nº 64. que como veremos no capítulo posterior.O` cavallo. temos muito o que fazer. Lili foi á cavallariça . Mas uma vez Lili ficou com preguiça e poz-se a chorar para não ir ao collegio. Ano II. .tenho que amassar barro. Como não achava graça em brincar sozinha convidou um cachorro para apostar carreira.Não posso . a escola era o ambiente ideal para exibir as crianças. Lili foi para floresta. Rio de Janeiro.Não posso. 154 “O Bom exemplo dos bichos”.. . mas sosinha não sabia brincar e ficou muito aborrecida. A maioria delas era de escolas municipais da cidade do Rio de Janeiro.respondeu o passarinho .queres brincar commigo? . Ano II.Não podemos. Então Lili convidou um passarinho dizendo . você quer brincar commigo? . vou trabalhar também. Nº 16. 24 de janeiro de 1906. Nos números anteriores. publicando fotografias de suas escolas. os editores pediram que seus leitores enviassem fotografias para serem publicadas na edição especial de natal da revista.E vocês formigas.Não posso . As fotos recebidas e selecionadas foram publicadas em seção chamada “As nossas escolas” e “Instrucção no Brazil”. Lili foi ao curral e perguntou: . Depois pensou: Se todos estão trabalhando. 155 “As nossas escolas”. . O Tico-Tico.O` Malho. O Tico-Tico.tenho que vigiar a casa. querem brincar commigo? . tenho que puxar um carro. Estava com vontade de ficar brincando. você quer brincar commigo? .

os futuros cidadãos brasileiros pudessem ser capazes de conduzir o país ao escol das nações civilizadas e modernas. A revistinha infantil foi bem sucedida em seus objetivos. não só pela longevidade e pelo sucesso de público que alcançou. que bem instruídos e moralmente educados. Nº 64. A revista O Tico-Tico foi um destes projetos informais que procurou desenvolver e ampliar a educação infantil. ajudassem a superar um passado colonial visto como entrave ao desenvolvimento do país. O Tico-Tico não se pretendeu ser uma iniciativa isolada. Uma série de iniciativas formais e informais procurou dar corpo às políticas educacionais. Como pano de fundo trazia o desejo de que bem educados. O Tico-Tico. necessário para que a educação penetrasse de forma intensa no cotidiano e não ficasse restrita apenas a um único ambiente. Acreditava-se que a educação deveria arregimentar diversas forças em sua defesa.  80 Figura 11 Alunos em escola municipal no Largo do Machado. Rio de Janeiro. 26 de dezembro de 1906. mas por ser considerada. e muito menos teve a intenção de substituir a escola em seu dever de educar. movido pelo desejo da própria sociedade de ampliar e desenvolver a educação das crianças e jovens brasileiros. complementando um trabalho já em desenvolvimento na escola. A própria construção da nação dependia de sucessivas gerações de brasileiros. Rio de Janeiro. em um esforço coletivo. Funcionava como um complemento à instrução escolar. por pais e professores. Ano II. então marcadas pela descentralização e dispersão quanto aos objetivos e caminhos propostos para o desenvolvimento da instrução no país. Desde o início do século XIX o tema da educação esteve na pauta de discussão de políticos e intelectuais no país. como .

Rebeldes Literários da República: história e identidade nacional no Almanaque Brasileiro Garnier. e criticam a postura de pais e familiares que não valorizam a instrução. Rio de Janeiro. . ao lado da escola. E a cada ano essa propriedade da revistinha infantil é reforçada156. como mostra o trabalho de Eliane de Freitas Dutra157. 156 Apesar de nossa pesquisa se concentrar nos dois primeiros anos de O Tico-Tico (1905 e 1906). mas todo o conteúdo da revista era pensado em benefício da causa da educação. Belo Horizonte : UFMG. A ideia de divertir brincando estava em consonância com os mais recentes métodos pedagógicos e com uma orientação que. Nº 30. Op.  81 ajudante de peso na alfabetização de muitas crianças e jovens nas diferentes formas que adquiriu a prática da educação no Brasil nos primeiros anos do século XX. ROSA. Ano II. podemos observar tal característica a partir do trabalho de Zita de Paula Rosa. 2 de maio de 1906. o objetivo dos editores era divertir as crianças. Figura 12 O Tico-Tico aparece na charge como uma iniciativa de combate ao analfabetismo. que realizou uma espécie de inventário. os editores reforçam a ideia de que a revista O Tico-Tico era um dos apoios à educação dos futuros cidadãos brasileiros. Não apenas a publicação de fotografias de grupos escolares ou charges que valorizavam a educação e o papel do professor. aparece também nos almanaques. Se por um lado. Zita de Paula. Eliana de Freitas. Na charge abaixo. Cit. populares no Brasil desde o século XIX158. educá-las parecia também fundamental e de maneira nenhuma incompatível. 2005. enumerando as principais características e direcionamentos da publicação durante os seus pouco mais de cinquenta anos de existência. O Tico-Tico. 157 DUTRA.

Nestas publicações. coexistiu com espaços e formas diferenciadas de instrução durante muito tempo159. Ao tratarmos da escola e das práticas educativas é necessário termos em conta que a escola não é uma instituição atemporal. e como processo a ser investido de ação política160. Ressaltava-se a necessidade de aprimorar e ampliar a instrução e a educação da sociedade brasileira. São Paulo: Cortez. educadores e polítcos que durante a Primeira República viam na educação a saída para a superação dos problemas nacionais. de iniciativas religiosas. mas uma construção histórica. Está intimamente relacionada às mudanças na evolução do capitalismo e nas estruturas familiares – principalmente em relação à infância. A escola como lugar próprio destinado à educação é uma construção moderna. 2008. p. segundo o autor. alimentados pelos sonhos do republicanismo histórico. se encontrariam desencantados com os rumos tomados pelo novo regime. que no Brasil só se estabeleceu de maneira efetiva no século XX e. durante o Império. que precisa ser questionada e contextualizada.  82 A educação no Brasil era encaminhada por múltiplos espaços e diferentes projetos que. Jorge. 1974. de fundo social e político. Educação: poder e sociedade no império brasileiro. Educação e sociedade na Primeira República. suplantando a participação de escravos e de grupos mais desvalidos. 160 Em estudo já clássico na história da educação na Primeira República. movidos por redes de sociabilidades também diversas. São Paulo: EPU. a cidadania não abrangia todos os habitantes. 159 GONDRA. além das histórias em quadrinhos dos personagens mais queridas da revista. A nova dinâmica da vida moderna impõe como necessário um maior controle do espaço público e privado. já tradicionais em O Malho. Alessandra. sendo exercida por uma parcela específica da população: a cidadania passava pelos princípios de raça e propriedade. 20. O primeiro almanaque O Tico-Tico foi publicado no ano de 1906. era partilhado por um grupo de intelectuais que. É necessário assinalar que. Jorge Nagle define como entusiasmo pela educação esse sentimento partilhado entre intelectuais. cientistas. esses intelectuais entendiam o processo de escolarização como um instrumento de aceleração histórica que colocaria o país no mesmo patamar evolutivo das nações europeias mais civilizadas. impedidos de compor o corpo de cidadãos brasileiros. Este entusiasmo. grupo social que se via investido do dever de questionar e propor soluções para os problemas e misérias do país. existiram tentativas informais de aprimorar a educação nacional através da criação de grupos escolares locais. A educação se constituía. mesmo assim. uma realidade bastante nova. . Editora da Universidade de São Paulo. passatempos e as populares páginas de armar. Na tentativa de acelerar as reformas que esperavam que viessem mais depressa a partir de 1889. Mesmo após o fim da escravidão e do regime que 158 A revista O Tico-Tico também publicava almanaques no fim do ano. Ao lado das tentativas do governo central de organizar e implementar políticas educacionais mais consistentes. Na perspectiva de Nagle. etc. serviram de grandes forças educativas no país. se coloca na modernidade como tema importante de reflexão por parte dos intelectuais. e a escola assume o lugar de instância disciplinadora. procuravam pressionar o poder central para o maior investimento na educação pública e para o fim do analfabetismo. apareciam também curiosidades. José . SCHUELER. da atividade de filantropos. portanto. aperfeiçoando os laços de identidade entre os cidadãos. NAGLE. A educação. portanto. como um instrumento de incorporação nacional em um processo histórico vivenciado pelas nações mais modernas do globo.

seu objeto de pesquisa. na politécnica ou nas escolas militares. para que pudesse se destinar a todos os indivíduos que compunham o quadro social brasileiro – e ainda hoje sua universalização é questionável. portanto. Cada nível da instrução escolar obedecia a critérios e objetivos diferenciados: as escolas de “primeiras letras”.1 A construção da escola republicana e a pedagogia da nacionalidade161 A discussão acerca da necessidade de ampliação da instrução básica começa a tomar corpo desde o início do século XIX. Tendo de fundo a intenção de “formar o povo”. acessíveis àqueles que objetivavam investir nas faculdades de medicina e direito. O ensino superior era sinônimo de prestígio social. a cidadania permanecia uma questão delicada. por exemplo. 161 Referência à análise de Eliana de Freitas Dutra (2005) que defende que os almanaques. Se o acesso às escolas primárias era dificultado pelas poucas vagas disponíveis. o ensino básico concentrava grande parte dos investimentos. ainda que a ascensão das classes médias urbanas tenha garantido a entrada de indivíduos não pertencentes às elites tradicionais. os almanaques se destacariam pela disseminação de estereótipos e modelos de moralidade e comportamento.  83 lhe dava sustentação. o ingresso na escola secundária era ainda mais restrito. 3. . mas neste primeiro momento grande parte dos empreendimentos educacionais esteve direcionada à formação das elites que comporiam os quadros políticos do Estado. Para a autora. criado em 1837. visavam construir laços de identidade entre a população e o Estado. Só eram. como é o caso do Imperial Colégio Pedro II. O investimento na criação de escolas superiores e secundárias. que necessitou de muito debate e enfrentamentos. construíam uma pedagogia da nacionalidade. sendo essenciais em um momento que se buscava construir a identidade nacional. demonstram que o interesse principal era a preparação das classes mais abastadas para a burocracia pública. em especial o Almanaque Garnier. Além de altamente hierarquizado. mesma orientação observada na revista O TicoTico. ainda mais porque a promoção da instrução básica atingia diretamente a proposta de diminuição das altas taxas de analfabetismo. O ensino superior era o local onde se encontravam maiores restrições de acesso. que pelo caráter elitizado que assumiam não se destinavam a todos os grupos sociais. funcionavam em alguns casos como escolas preparatórias para o ensino superior. uma preocupação recorrente na época.

ela deixou de precisar quem deveria arcar com a responsabilidade e os custos do ensino gratuito. que deviam estar afinados com a pedagogia mais moderna. manifesta em legislações que se 162 SCHWARCZ. destinada a uma minoria socialmente dominante. Nesta escola.  84 essencial àqueles que desejavam compor o quadro político nacional. Ao Governo Central cabia a responsabilidade sobre o ensino primário e secundário na Corte e o ensino superior em todo o país. 1989. espaço comprometido com a formação de uma intelectualidade tipicamente nacional162. p. escolas particulares e instituições religiosas e filantrópicas constituíram uma importante força no desenvolvimento do ensino. com ênfase na racionalização dos saberes: a difusão de normas morais e higiênicas. organizar e fiscalizar o ensino secundário e primário. Somente no Ato Adicional de 1834 a questão parece ter chegado a uma definição. 142. Esta tendência civilizatória e autoritária da educação. necessárias à disciplina do corpo e da mente. São Paulo: Brasiliense. em 1878. Uma lei anterior ao Ato Adicional. A Escola e a Repúbluca. 66 . Lilia Moritz. Marta Maria Chagas de. pelo menos até década de 1930. A transferência das responsabilidades para as províncias e para iniciativas particulares impedia a formação de uma política educacional no país. p. Apesar da Constituição de 1824 ter estabelecido o direito de instrução primária gratuita a todos os cidadãos. Cit. A tendência a desobrigar o Estado da função de disponibilizar meios para garantir a instrução no país fica patente em toda a legislação educacional brasileira. era importante ponto de apoio163. Para Carvalho. buscava incentivar a criação de escolas particulares em todo o Império como forma de enfrentar a carência de instituições de ensino no país. 164 CARVALHO. Op. assinada em outubro de 1823. Era também lugar de difusão do arcabouço científico em discussão na Europa. somada a uma moral higienista. 163 A proibição do acesso de negros escravos ou libertos aos bancos escolares só foi revogada pela Reforma de Ensino Primário e Secundário de Leôncio Carvalho. a discussão sobre a educação escondia um projeto disciplinador que pretendia intervir no cotidiano de forma a higienizar os modos e os corpos164. determinando que as províncias ficassem com o dever de legislar. quanto nos conteúdos curriculares que cada vez mais eram definidos em manuais e cartilhas para o consumo dos professores. Dessa forma. e ao mesmo tempo. O que prevaleceu foi uma grande diversidade de projetos e concepções distintas de educação. estava explícita tanto nos impedimentos em relação a matrícula dos grupos marginalizados. especialmente o primário. os conhecimentos científicos disponíveis deveriam ser incorporados nas estratégias educativas.

a expressão "classes perigosas" apareceu por volta do início do século XIX para designar um grupo social formado à margem da sociedade civil. e da Bahia. responsáveis a longo prazo por mudanças substanciais no quadro da instrução pública165. 1996. passou a ser também alvo de investimento das políticas públicas. em 1878. como capital. à penetração do ideário escolanovista principalmente nas reformas do Cearense. antes denominada "classe perigosa"167. Foi utilizado para designar também o que hoje chamamos de "meninos de rua". Ainda que algumas localidades tenham encontrado nesta descentralização meios para implementar projetos educacionais de vanguarda. e posteriormente. Op. Cidade Febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. . Alessandra. SCHUELER. de Anísio Teixeira. A educação profissional entra em pauta e a escola passa a ser entendida também como lugar importante na recuperação das massas de desvalidos. o Rio de Janeiro. CHALHOUB. Segundo Sidney Chalhoub. liceus e cursos. Com a modernização. concentrou maiores investimentos e. O interesse pelo desenvolvimento da educação profissional mobilizou a atenção de outros grupos empenhados no desenvolvimento de uma mão de obra mais qualificada para o trabalho na indústria nascente. outras regiões ficaram à margem graças à força de poderes locais desinteressados no investimento educacional. na década de 1920. que não o trabalho. já acalorado pelas discussões sobre a Abolição e a República. As classes perigosas eram constituídas por indivíduos que estavam à margem da lei e optavam por garantir seu sustento por vias escusas. nas províncias a maior preocupação se dirigia à permanência dos alunos nas escolas e à formação dos professores. teatros bibliotecas. Durante o Império e nos primeiros anos da República. funcionou como uma espécie de laboratório para o desenvolvimento de políticas educacionais no país166. A população pobre. p. Cit. A educação começa a figurar 165 Refiro-me aqui à já citada Reforma do Ensino Superior de Leôncio de Carvalho. Enquanto nos centros urbanos acreditava-se que o investimento na educação escolar devia estar em conexão com outros espaços de cultura – museus. e fator essencial para o encaminhamento das mudanças que estavam em curso na sociedade brasileira. Já não bastava dar conta da formação das elites dirigentes: era importante incorporar as classes até então excluídas para o desenvolvimento das forças produtivas. com ênfase no fortalecimento de sua instrução.  85 ocupavam somente das realidades locais. sem ter em perspectiva a educação como uma política nacional mais ampla. 20. p. José . A já citada Geração de 1870 via a educação como um dos valores primordiais para o progresso do país. 166 167 GONDRA. 36. de Lourenço Filho. laboratórios – em complemento à educação formal desenvolvida nas escolas. São Paulo: Companhia das Letras. cujo único destino era a degeneração. por isso. Sidney. o tema da instrução ganha ainda mais espaço na sociedade e a necessidade de reformas se torna ponto de convergência no debate intelectual.

Apesar da intenção de reforçar a escola pública como instituição de referência na República. 387. "considerada a língua culta por excelência"168. Muitos desses profissionais eram estrangeiros e. Angela de Castro . canto. a educação cara e refinada tinha o objetivo de preparar as moças para realizarem um bom casamento e serem excelentes mães de família. ainda havia o enxoval que era bastante extenso. impossibilitando o acesso dos estudantes das classes mais baixas. mas obedecia também a um sentido prático. PANDOLFI. principalmente nas classes mais abastadas. Nestes colégios. desenho e trabalhos manuais. inclusive. mas em alguns casos recebiam também subvenção do Estado. Para as mulheres. que os alunos se alfabetizassem na língua francesa. Era comum. p. geralmente internatos.  86 igualmente como mecanismo de regeneração social. sem distinção de raça. a escolha pelos pais do tipo de educação que receberiam seus filhos. esse tipo de educação permanece sendo referência até o início do século XX. possibilitando o surgimento de instituições particulares e filantrópicas que procuravam investir no cuidado das crianças "desvalidas e desamparadas". intelectuais e políticos. Os alunos viviam na escola e só saiam nas férias. Esse conteúdo básico também era seguido de noções de cálculo. A República no Brasil. "A escola republicana: entre luzes e sombras". Dulce Chaves (Coord. In: ALBERTI. Vale a pena ressaltar a criação da Sociedade Amante da Instrução (1829). a escolarização doméstica ainda era uma realidade comum para muitas famílias. uma defesa unicamente ideológica. existiam os liceus e as escolas confessionais. Além desse tipo de escolarização. pois além do pagamento à escola. dando condições de instrução à infância pobre.). ou para educar um pequeno grupo de meninos ou meninas. por isso. A necessidade de aprimorar a educação não era. Para a historiadora Ana Maria Mauad. geografia e história. CPDOC. que disponibilizava o ensino de artes e ofícios de aplicação industrial a todos os interessados. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. feriados ou fins de semana para encontrar seus familiares. GOMES. e a criação do Liceu de Artes e Ofícios (1856). Verena. Os professores eram contratados por uma família para a educação de seus filhos. já definia previamente muito de sua trajetória social futura: 168 GOMES. piano. 2002. portanto. Angela de Castro. Prevalecia a figura dos preceptores – profissionais contratados para o ensino de língua estrangeira. Estas instituições eram financiadas por grupos de industriais. Era também uma alternativa cara. o ensino da língua portuguesa não era prioridade. quando os colégios femininos começaram a florescer. religião e nacionalidade. . que oferecia gratuitamente cursos de formação profissional para alunos pobres.

A mudança na estrutura da escola pública acompanhou as transformações na ideia de educação. À medida que novas ideias pedagógicas. Estes livros geralmente ressaltavam as belezas da terra do Brasil e apelavam para a construção de uma memória dos grandes feitos nacionais e datas cívicas importantes. Sobre essa nova escola que se erguia. Mary Del. aliada a uma instrução civil ou militar. aprendia-se a ler com a Constituição. que precisava incorporar os desejos de modernização. o aprendizado da língua pátria. vão penetrando e modificando a cultura escolar. p. 150 170 GOMES. uma educação voltada para o desenvolvimento de uma postura viril e poderosa. São Paulo: Contexto. Mais que isso. no mobiliário das salas de aula. Aos poucos. . Uma nova cultura escolar se impunha. 394. a ideia da construção de prédios. a escola pública é bastante diferente da que conhecemos hoje. p. História das crianças no Brasil. transferindo o dever da educação dos pequenos brasileiros da família para o Estado. e com eles o ensino na sala de aula também se torna mais complexo. 1999. deveriam constituir lugares estratégicos para a produção de uma nova moral que buscava fundamentalmente despertar o amor à pátria republicana170. Ana Maria. a escola se vai se tornando arquitetonicamente adequada a essas novas demandas. escreve Gomes: Os prédios escolares deveriam assim ser autênticos templos da civilização. da história e da geografia do país se tornam referência indispensável na escola republicana. 169 MAUAD. Aos meninos. onde conhecimentos. Angela de Castro. In: PRIORE. definindo-se os papéis sociais do homem e da mulher desde a meninice. O ideal da educação como mecanismo de engrandecimento do país deveria ser materializado nos mínimos detalhes: nos prédios escolares. especialmente projetados para abrigar classes de estudantes. 2002. Cit. na formação profissional dos professores e em seu método de trabalho. higienização e disciplinarização em discussões cada vez mais calorosas para a opinião pública. A estrutura era precária. além de difundir o conhecimento científico necessário a uma nação moderna. Op. "A vida das crianças de elite durante o Império". No que tange ao conteúdo.  87 O que a educação e a escolha de um certo tipo de instrução arbitravam era a forma de acesso da criança ao mundo adulto. Até os primeiros anos do século XX. garantindo-lhe o desenvolvimento pleno da capacidade intelectual169. A literatura infantil em desenvolvimento na época e os livros de leitura utilizados para serem consumidos na escola buscavam sintetizar estes conhecimentos através da narrativa. que lhe permitisse adquirir conhecimentos amplos e variados. os mapas para o ensino da geografia eram escassos e comumente equivocados. sentimentos e valores seriam ensinados a todo o povo. mais complexas. A grande maioria era improvisada em salas pequenas ou mesmo na casa dos próprios professores. os alunos utilizavam apenas o material básico. vai penetrando no projeto da educação pública.

Na historinha “Quem com ferro fere. Rio de Janeiro. do respeito subserviente aos mestres e o silêncio sepulcral na sala de aula. mesmo que implicasse em agressão física. Todos deveriam estar envolvidos em um esforço conjunto para educar os brasileiros. era vista como uma via essencial para alcançar tais objetivos. De qualquer maneira. Nº 26. um professor dá um tapa na cara do aluno depois que o menino tenta lhe “pregar uma peça”. pelo contrário. da postura correta. Eles indicam a existência de uma diversidade de caminhos e iniciativas e complexas formas de compreender a formação do povo e os caminhos para o progresso da nação. mas também de políticos. O que é importante ressaltar tanto nos empreendimentos formais como nos informais é a multiplicidade de propostas e ideias de como encaminhar a educação e instrução da população. ainda que o processo escolhido em direção à prática fosse por vezes divergente. com ferro é ferido. A educação. as ações do poder público e de particulares. de grupos ou indivíduos. publicada na revista O TicoTico. o professor teria o direito de aplicar corretivo em seus alunos. porque este empenho era dirigido ao . através da exigência de uma higiene impecável. A educação não era considerada tarefa apenas dos professores. Assim como os pais. Os castigos físicos e psicológicos ainda faziam parte do cotidiano escolar. é entendida com resultado do mau comportamento do aluno. 4 de abril de 1906.  88 Essa escola que procurava se renovar a partir de novos métodos de ensino e de uma orientação mais democrática dos conteúdos era ainda bastante rígida disciplinarmente. O Tico-Tico. Ano II. Prevalecia a intensa disciplinarização e o controle sobre o corpo. foram importantes na composição do cenário da educação no Brasil. sem dúvida. A atitude do professor não é questionada. com ferro é ferido”. médicos e intelectuais de diversas áreas. Figura 13 Quem com ferro fere.

Somente a exigência de renda – 200 mil réis segundo a reforma anterior – cai com o novo regime171. unicamente na valorização da instrução como caminho para o acesso ao processo eleitoral. O investimento em instrução passa a ser necessário não apenas para a formação de indivíduos comprometidos com os ideias de progresso e civilização. que concentrava as esperanças de um grande número de letrados e políticos pela ampliação da cidadania. CARVALHO. sua língua e território. e a aplicação desta exigência foi responsável por uma considerável diminuição do acesso ao voto. A educação também foi encaminhada pelo novo regime como instrumento de unificação e homogeneização nacional em torno dos valores republicanos. Dessa forma. A promessa de aumento da participação política com o novo regime se via frustrada pelo impedimento constitucional. A reforma eleitoral de 1881 estabeleceu “saber ler e escrever” como condição para o voto no país. serviria como base fundadora da identidade nacional fundamentada por elementos que garantissem legitimidade ao Estado Republicano.1. . José Murilo. A solução estaria. Bragança Paulista. soldados e membros de ordens religiosas. A constituição de 1891. Estimular a educação do país era assegurar seu futuro como nação moderna.  89 engrandecimento da nação.1 Educação e cidadania O enfrentamento da questão da educação escondia um outro problema diretamente relacionado ao exercício da cidadania política. os mendigos. 42. Essa 171 172 CARVALHO. A educação passa a ser entendida como uma forma de realização da nacionalidade. 1998. sua gente. era necessário que o Brasil vivesse de forma acelerada tal processo para que fosse possível se igualar a estes países em um futuro breve. Molde Nacional e fôrma cívica: higiene. sendo responsável por garantir direcionamento social ao povo172. mas principalmente para a elevação numérica da cidadania no país. As experiências europeias mostravam que seguir o caminho da instrução seria fundamental para alcançar o nível de civilização desejado por estes intelectuais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. revelado a partir de sua história. Cidadania no Brasil: o longo caminho. não modificou esse quadro: os analfabetos permaneceram excluídos do processo eleitoral. portanto. assim como as mulheres. Marta Maria Chagas. moral e trabalho no projeto da Associação Brasileira de Educação (1924-1931). José Murilo de Carvalho chama atenção para o fato de que somente 15% da população era alfabetizada. SP: Edusf. O conhecimento do país. p. 2001. 3.

saúde e trabalho seria o trinômio responsável por livrar o povo da ignorância e do atraso. valores e modelos morais entendidos como indispensáveis aos futuros cidadãos republicanos que. 305-306. concorriam para definir os encaminhamentos mais adequados na condução da processo de ensino infantil. sepultando o estigma da indolência e da doença. motivadas pelos estudos em psicologia experimental e da aprendizagem. História Social da Infância no Brasil. Para Eliana de Freitas Dutra estes elementos estavam relacionados com a construção de uma nação republicana no Brasil e servia de instrumental a uma pedagogia da nacionalidade. além da possibilidade de ampliação da participação política. Marta Maria Chagas de Carvalho defende que. que de alguma forma foram porta vozes desta crença na regeneração através da educação e da saúde. em apoio e reverência à pátria. onde o trabalho era o pilar central. consistia uma solução para os problemas nacionais. por valores nacionais dando sentido de unidade e uniformidade à identidade brasileira. e de outro. além dos conteúdos formais. síntese da sociedade que se pretendia instaurar. assim como a saúde. buscavam sepultar essa visão pessimista do futuro do país. "Quando a história da educação é a história da higienização das pessoas". O investimento na ampliação da educação com vias à diminuição das altas taxas de analfabetismo colocava a criança em lugar central no processo educativo. 1997. Para a autora. O trabalho era o verdadeiro antídoto para os males do país . Os intelectuais. Dessa forma. São Paulo: Cortez.  90 legitimidade seria essencial para a criação de laços de comunhão e sentimento cívico entre o restrito grupo de cidadãos brasileiros. a escola e as demais forças que corroboravam para o desenvolvimento educacional do país – podemos inserir neste contexto projetos como O TicoTico e a literatura infantil que se desenvolvia a época – difundiam. A educação republicana exemplar – modelar e moralizante – era composta de um lado por elementos que enfatizassem o papel da ciência e do progresso na vida humana. . In: FREITAS. Tanto o Estado como outras instituições e projetos educacionais procuraram se operacionalizar através dos métodos pedagógicos mais recentes e discutidos 173 CARVALHO.moralidade e saúde seriam condição e decorrência de hábitos de trabalho cultivados com correção e disciplina. Educação. Marco Cezar (Org. Munida deste referencial. ajudariam a superar a herança deixada pelo domínio português e suas instituições retrógradas. estes três princípios funcionavam como um jogo de espelhos.). p. A educação. Marta Maria Chagas de. a difusão de padrões de higiene e saúde também era parte das expectativas republicanas173. numa tentativa de exorcizar as interpretações deterministas que postulavam o clima e a miscigenação como impedimentos para o desenvolvimento da nação. diversas ideias pedagógicas.

As ideias de Calkins foram as que tiveram maior penetração no Brasil. Ele tem origem nas ideias pedagógicas de Heinrich Pestalozzi e foi posteriormente ampliado por uma série de pensadores.  91 pelas “nações civilizadas”. foi traduzido no Brasil por Rui Barbosa. 1977.1. as ideias devem preceder às palavras. Horace Mann e Norman Allison Calkins. Alem disso. é possível verificar a aplicação de tais preceitos na orientação do periódico infantil. e foi publicada em 1886 pela Imprensa Nacional. as lições de coisas ofereciam importantes parâmetros para a renovação do ensino escolar no Brasil. em 1876. a fim de racionalizar as políticas educacionais. Outro trabalho importante sobre o método foi apresentado por Ferdinand Édouard Buisson na Exposição Universal da Filadélfia. dois métodos em especial – o método intuitivo e as lições de coisas – aparecem como possibilidade para ação educacional. será importante para evidenciar também a influência do método na orientação da revista O Tico-Tico. JOHNSON. Rui Barbosa e a reforma educacional: “as lições de coisas”. Phil Brian.Primary Object Lessons. como Hanry Bernard. No ensino primário. Para Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. as crianças deveriam ser apresentadas a formas simples. pois respondia aos anseios de ampliação da escolarização. A ideia é que o aluno seja apresentado às coisas antes de conhecer seus nomes e definições formais. O aluno deve conhecer os objetos que os cercam através da observação. O método questiona a educação tradicional que 174 175 A tradução de Rui Barbosa foi intitulada Lição de Coisas. Buisson enfatizava o esforço de Calkins na leitura do método direto de Pestalozzi e na sua implementação em escolas americanas175. que tentou transforma-lo em um manual dirigido aos professores do ensino público174. e deveriam aprender a falar antes de ler. O método intuitivo consiste em desviar a centralidade da educação da descrição verbal das coisas para o aprendizado através da observação. antes de formas complexas.2 O método intuitivo e as Lições de Coisas O método de ensino intuitivo chegou no Brasil nos últimos anos do século XIX e foi abarcado por diversos intelectuais interessados na discussão acerca da educação. A discussão do método nos parece importante para oferecer um panorama das novas ideias pedagógicas que influenciam as políticas educacionais formais e informais no Brasil. Seu trabalho de síntese e propostas educacionais pautadas no método intuitivo . Neste contexto. 3. Ainda que a aproximação dos princípios básicos do método não estivesse explicitamente descrito como tal nas páginas da revista. .

Para ele. Depois dessas atividades.visão. prismas. Ainda que pontuando restrições à prática das lições de coisas. adstringentes. Enquanto Rui Barbosa defendia a aplicação do método em todo o ensino público. 6-7. A Tribuna. Assignalar a differença entre transparencia e oppacidade176. fraco e moderado. cubos. Os manuais do método propunham que o ensino das primeiras letras e primeiras noções de cálculo se desse com objetos primários: bolas e esferas. amargos. . ja por meio de objectos em diversos logares. o método poderia inspirar a anarquia e sentimentos despóticos. No Brasil.Mostrar rapidamente ao alumno a caixa contendo grande quantidade de quinquilharias diversas e argui-lo em seguida sobre o que viu. Rio de Janeiro: Typ. a caixa do olfato deveria ter objetos com cheiro forte. olfato. Liçõs de cousas. cilindros e bastões serviriam para o ensino dos números e das operações aritméticas. Methodo Calkins. salgados. embora divergissem quanto à sua aplicação. Trabalhar os sentidos dos alunos era parte importante dentro do método proposto e deveria anteceder ao conhecimento das coisas em si. azedos. recortes e desenhos. Luiz Carlos. para Leôncio de Carvalho as lições de coisas funcionavam como um método de ensino “como que brincando”: por isso. No manual de Lições de Coisas de Duque-Estrada. Fazer exercícios tendentes a verificar distâncias. o professor 176 DUQUE-ESTRADA. paladar. audição e tato – através de atividades realizadas com materiais divididos em caixas que apelam para cada um dos sentidos. indicado ao ensino do primeiro grau. Em cada caixa. a repetição e abstração em detrimento da compreensão. pois de acordo com o método o trabalho manual deveria estar associado ao trabalho mental. na distribuição de manuais aos professores e em sua adoção em todas as disciplinas. para a caixa da visão. Os propagadores do método defendiam que a ineficiência escolar. o autor propunha . Leôncio de Carvalho chama atenção para o caráter lúdico do modelo pedagógico. formas e cores. do corredor. etc. já calculando o numero de passos. a caixa do paladar conteria doces.  92 prioriza a memorização. Também indicavam trabalhos com dobraduras. Rui Barbosa e Leôncio de Carvalho sublinharam a relevância do método para estimular mudanças na educação brasileira. da escrita e do cálculo eram consequências de uma cultura escolar que sufocava a capacidade de observação e o exercício da intuição do aluno. Sentidos. proximos e afastados. o professor deveria colocar elementos que despertassem para o sentido relacionado: por exemplo. de um canto a outro da sala. o domínio insuficiente da leitura. 1902. p. ele propõe a apresentação dos cinco sentidos aos alunos . sua aplicação não poderia suprimir o esforço e o trabalho realizado na escola e na sociedade.

que eram produzidos pelo caricaturista Loureiro. . Estas atividades lembram os concursos e algumas indicações de brincadeiras publicadas na revista O Tico-Tico. 178 “Os concursos d’ O Tico-Tico”. Para o autor. O Tico-Tico. foi no número 29. Em cada número era possível encontrar pelo menos uma proposta de entretenimento que infundisse conhecimentos de geometria e aritmética. Ano 1. a aquisição desse conhecimento básico é essencial para ao conhecimento pela criança do mundo que a cerca. 18 de outubro de 1905. Nº 2. Outro exemplo é o presente no concurso nº 6. em que os leitores deveriam enviar à redação a solução de como fariam para ligar dez pontos no interior de uma caixa178. O molde não foi produzido pela revista. Rio de Janeiro. e se tratava da casa do personagem Chiquinho. Ano 1. Nº 26. 14 de março de 1906. em Lição do Vovô. Curiosamente. de 25 de abril de 1906. Bomfim dá noções de desenho e perspectiva explicando “aos seus netinhos” como desenhar três pessoas no interior de uma estação de trem177. O Tico-Tico. O Tico-Tico. 11 de outubro de 1905. Figura 14 Os Nossos Concursos. Ano II 177 “Lições do vovô”. Concurso Nº 30. a revista ensinava como construir um brinquedo com um níquel e dois alfinetes. Nº 1. No mesmo número. Rio de Janeiro. E. No primeiro número.  93 iniciava o conhecimento das formas e das cores. se tornaram populares os brinquedos de montar que vinham encartados em algumas edições da revista. Rio de Janeiro. a primeira vez que este tipo de atividade apareceu na revista. Dentro desta mesma proposta. mas enviado pelo leitor Waldemar Marques. principalmente nos almanaques no fim do ano.

a referida seção trata da vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808. Mais tarde. Na imagem abaixo. . O assunto rendeu uma série de vários quadrinhos em que caricaturista Leônidas reproduz quadros de Debret. a revista O Tico-Tico publicará edições especiais de datas e comemorações do calendário cívico nacional. O artista ainda brinca com a assinatura no último quadro: “Leônidas segundo documentos de Debret”. Essa sessão era publicada em todos os números da revista e acreditava-se que era uma maneira sedutora e divertida de contar a história do Brasil.  94 A sessão História do Brasil em figuras também tinha a intenção de unir a percepção lúdica através da imagem a conteúdos considerados importantes para a história do Brasil.

  95 Figura 15 História do Brasil em Figuras. Ano II . 18 de julho de 1906. Nº 41. João VI O Tico-Tico. Mais alguns factos e costumes do tempo de D. Rio de Janeiro.

17 a 20 de abril de 2006. p. ao propor a comunhão entre trabalho manual e trabalho intelectual. vasos de plantas. auditório. uma nova civilidade180. torna-se material essencial ao professor para a elaboração de atividades. globos terrestres. p. 179 SCHELBAUER. suas mentes. formando seus corpos. cartazes. que exigia indivíduos cada vez mais dispostos a articular o conhecimento letrado com o conhecimento prático. ressaltado pelo espírito democrático. ressalta-se a importância de adequar a escola às novas demandas do modo de vida urbano-industrial e do novo regime de trabalho. biblioteca e laboratórios e as salas de aula. o alfabeto era apresentado aos alunos junto com as palavras na intenção que o aluno descobrisse aos poucos seus sentidos através do ato de ver e ouvir. Ao invés da memorização e repetição de textos. Angela de Castro Gomes acrescenta que Tal método pareceu bastante adequado aos objetivos de um regime político que se acreditava uma manifestação de progresso e que desejava civilizar o povo. 180 GOMES. Op. O material didático e o mobiliário deveriam ser cuidadosamente escolhidos para garantir um ambiente facilitador da aprendizagem. as lições de coisas expressavam o modelo da nação norte-americana. jardim. o método representava uma espécie de cisão com o ensino enciclopédico. questões caras aos intelectuais republicanos179. MG. pois além das disciplinas formais era necessário introduzir outras como ginástica. pela instrução popular e pelo caráter científico. Uma escola orientada pelo método necessitava de um esforço de reorganização do espaço escolar e reorientação da grade curricular. para que assim se estabelecesse uma nova sociabilidade. 399. como lugar que guarda todas as lições necessárias ao aluno. Ângela de Castro. Na época desejava-se que. O aprendizado da leitura e da escrita também ganharia novos contornos. Uberlândia. O número de cadeiras seria aumentado. 35-81. um conjunto de valores chegasse aos adultos. Cit. Método intuitivo e lições de coisas: uma ideia em circulação no jornal “A Província de São Paulo. através das crianças. até então utilizado como ferramenta primordial. Para Analete Regina Schelbauer. suas almas. reforçando o conhecimento sensorial. murais. pela iniciativa de particulares. Sendo assim. Dessa forma. o espaço da escola e da sala de aula tinha função importante no desenvolvimento dos sentidos das crianças. . trabalhos manuais e desenho. Analete Regina. O livro. A escola deveria ter pátio de recreação. O método colocava em discussão os caminhos mais eficazes para o aprendizado nas escolas primárias e ressaltava a centralidade do aluno na relação com o conhecimento. Anais do VI Congresso Luso-brasileiro de História da Educação: Percursos e desafios da pesquisa e do ensino da história da educação.  96 É interessante perceber que.

Bilac e Bomfim também reforçam o papel do professor no processo educacional em seu livro de leituras. a discussão sobre a 181 BILAC. os autores indicam ao professor como o livro deve ser utilizado. escrito por Manoel Bomfim e Olavo Bilac. é ele quem principalmente deve levar a criança a aprender por si mesma. já que dependia da capacidade de observação do aluno do mundo que o cerca. p. festas e comemorações cívicas no interior da escola eram recomendadas para reforçar a participação não apenas dos alunos. isto é: a pôr em contribuição todas as suas energias e capacidades naturais. mostrará que essas instituições e indústrias faltam ainda em grande parte a algumas terras do interior. p. afirmando que A verdadeira enciclopédia do aluno nas classes elementares é o professor. Op. A comemoração das datas do calendário cívico era cada vez mais importante para dar ênfase à participação das crianças e jovens no ideal de construção da nação. A ideia era intensificar a filiação destes futuros cidadãos com o destino do país. É ele quem ensina. 2000. Op. sendo portanto importante considerar que. Orientam-no a partir de eixos temáticos. mesmo durante o Império. Porém. reforçando a difusão dos deveres cívicos e nacionais. mas também dos pais e da comunidade. passeios a museus e aulas de história natural ao ar livre eram indicados. Da mesma forma. dirigindo a reflexão do aluno em direção a algumas questões. Esta lição. São Paulo: Companhia das Letras. através da intuição. o que se reforça após a Primeira Guerra Mundial. era importante que o aluno desenvolvesse sua própria observação sobre o objeto estudado. instituições. 183 BILAC. Olavo . 49. Olavo . Manoel. Por isso.181 O processo de ensino-aprendizagem não deveria se restringir à sala de aula. mesmo antes da implantação dos ideais da Escola Nova no Brasil. BOMFIM. Através do Brasil: prática da língua portuguesa: narrativa. há de levá-lo facilmente a fazer uma ideia do que era o Brasil selvagem. e apelando sempre para o seu próprio raciocínio e para a sua própria observação. que apesar dos salários ainda muito baixos. BOMFIM. Podemos observar portanto que. para que ela note a diferença entre o estágio selvagem e as indústrias. Manoel. p. mudanças consideráveis na cultura escolar estavam em processamento no país. onde a civilização ainda não penetrou. desenvolvida de forma acessível à mentalidade do aluno. indicado como livro de leitura destinado às primeiras classes do ensino primário. 45. 182 GOMES. Cit. 404. Cit.  97 Em prefácio ao livro Através do Brasil. eram vistos como “verdadeiros construtores da nação”182. . de modo a adquirir conhecimentos mediante um esforço próprio183. Ângela de Castro Gomes salienta que há uma significativa valorização do professor neste contexto. Ângela de Castro. E então o professor apelará para a observação da criança. obras e costumes que distinguem a civilização.

capaz de evidenciar o quanto se está adaptado às exigências do modo de vida moderno e civilizado. era uma excelente estratégia para garantir seu desejo de instrução. ou mesmo informais. Uma criança bem educada e sadia era proveniente de um lar 184 PERROT. O progresso da humanidade.  98 importância da educação para a superação dos problemas nacionais e como via de acesso ao quadro dos países civilizados já estava presente. sem esquecer que divertir e encantar esse novo ser. Michelle et al. . e recebe toda a atenção e preocupação da família. deixando de ser um objeto sem muito interesse e investimento afetivo: ela passa a ser compreendida como “ser social”. História da vida privada. progressivamente. A revista O Tico-Tico se insere neste contexto como uma tentativa de repensar as formas de aprendizagem. as fronteiras entre o espaço público e o espaço privado se subvertem e os interesses privados ganham mais força. Michelle. 4: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Passa a ser também uma espécie de vitrine. não apenas no discurso de políticos e intelectuais. A família aparece como célula base e instância reguladora importante na sociedade. tendo a família como poderoso aliado na divulgação e manutenção dos padrões sociais modernos. A boa família é. valor tão cultuado a partir do século XIX. que ganha cada vez mais espaço na sociedade. In: PERROT. "Os atores". A importância do lúdico e do ensino “em brincadeira” ia encontrando espaço na passagem do século XIX para o XX e. 1991.2 Um novo conceito de infância No contexto da modernidade. e passa a ser objeto de uma série de projetos que procuravam adequar a família aos novos modelos de civilidade. abria caminho não apenas para uma renovação no ensino escolar. para o Estado. Ao mesmo tempo. São Paulo: Companhia das Letras. tendo a educação como lugar para onde se deveria apontar. da sociedade e do Estado. mas já como objeto de ação formal – através do investimento na instrução pública e em iniciativas particulares. era meta a ser perseguida pelo poder central. O filho adquire lugar de destaque na família e na sociedade. A criança não está mais misturada ao mundo dos adultos. símbolo da moral e da civilidade que se pretendia irradiar em toda a sociedade184. 3. mas para a implementação de novos projetos e caminhos para a educação. O TicoTico se aproveita de um mercado de produtos para a criança também em diversificação e expansão.

transferese para o Estado e para o conjunto da sociedade através de ações formais e informais que ajudam na construção e manutenção dos interesses maiores da nação. entravam em ação a ajuda de filantropos.. Cit. 16. Acreditava-se que disciplinando e higienizando a infância também o país caminharia na direção do progresso moral. Tornava-se um “ser social” que não pertencia somente à família. passa a ser fruto dos mais diferentes investimentos por parte da sociedade e do Estado. mas está diretamente relacionada aos ideais de construção de um “país novo” e de um "país do futuro”. 45-46. 1999. antes responsabilidade da família. a ideia de infância estava ligada à de dependência. e só se saía da infância quando fosse possível superar os graus mais baixos de dependência187. Rio de Janeiro: Guanabara. 185 ARIÉS. Essa criança. História Social da Criança e da Família. mas antes de tudo ao crescimento intelectual e à função social do indivíduo186. 188 Contraditoriamente à ideia que se buscava defender em analogia ao país. Ana Maria. 189 HANSEN. historicamente recente se comparado às nações europeias. pois era o futuro da nação. ou como uma massa de modelar a ser moldada de forma a constituir no futuro o cidadão modelo. educar e disciplinar. como vimos anteriormente. Estas definições não diziam respeito à complexidade biológica. espelho de um país moderno. Essa criança investida de sentimentos cívicos e patrióticos era vista como um “homem pequeno”. p. Op. A infância e a adolescência aparecem como idades da vida durante o século XIX185. Sua importância já não é mais restrita ao seio familiar. . Ariés mostra que a palavra infância era designada também para falar dos indivíduos social ou economicamente dependentes. 187 ARIÉS. mas nem sempre é fácil precisar de que infância se fala. o dever de educá-la. p. 42.. 1981. Também o Brasil era visto como um país "em infância"188. Op. Cit. que vem ganhando espaço gradual na sociedade. desejando igualar-se às "antigas" potencias europeias. p. do poder central e da sociedade como instâncias investidas de cuidar e assistir os futuros cidadãos do país. Phillippe. Cit. com a sua higiene e educação moral é resultado dessa relação do Estado com a infância.  99 correto e adequado e era este o ideal de infância (e família) que se buscava construir no Brasil moderno. civilizado e saudável. 186 MAUAD. p. E ainda: quando a família se mostrasse incapaz. médicos e políticos para proteger. A maior preocupação com a instrução da criança. As crianças seriam os futuros salvadores da pátria brasileira189. Por isso mesmo. 140-141. Segundo Ariés. Op. P. Patrícia de Santos. mas que estava em estágio de ascensão.

Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. e da sua segurança que é a segurança de todos. e esta passa a figurar na sociedade de consumo. a sociedade brasileira moderna e republicana definia também a família modelo: ela era branca. Estas representações visavam criar uma identificação com a ideia do Brasil como país do futuro. vivia dentro da moralidade. A escola. livro de leitura indicado às classes primárias. geralmente com poucos filhos. . mas porque agora havia a exigência da escola de uma produção mais condizente com seus objetivos – cultivar a língua pátria. E o cidadão ideal era aquele que colocava a pátria acima de tudo. A terra fluminense. 1898. não apenas por haver um público disponível. e a necessidade de produção de livros infantis nacionais passa a ser frequentemente salientada. porque a felicidade de todas as famílias depende da bondade com que a terra alimenta os seus filhos. dedicava-se ao conhecimento científico e à atividade física. 46. Em A terra Fluminense. alvo de interesse dos adultos. 190 BILAC. professores e intelectuais das mais diversas orientações. p. 5. representante do Império·. Vista como tabula rasa. Patrícia dos Santos. como país em crescimento em vias de se tornar uma nação. Op. pronta para receber conhecimento através de pais. onde se pode encontrar “toda a vida política. a geografia e a gente do país. e parte das classes médias191. urbana. contrastando com a aparência envelhecida do monarca Pedro II. O país aparece com frequência representada metaforicamente pela figura de uma criança. alavanca o aparecimento de uma série de objetos culturais e industrializados totalmente destinados ao publico infantil até então marginalizado. e da sua paz que permite o trabalho calmo e productivo de cada um190. Essa criança. 191 HANSEN. Juntamente com a representação da família ideal. toda a vida moral e toda a vida commercial da Terra Fluminense”. Cit. Olavo . em que tudo estar por se construir. A literatura infantil aparece finalmente como mercadoria. divulgar a história. chama atenção para as analogias em torno da nação que aparecem nos primeiros anos da República. escrevem Olavo Bilac e Coelho Neto que A Pátria é mais do que a família. Também a criança estava por ser construída. p. o brinquedo e o livro passam a fazer parte do cotidiano da criança. Coelho. NETO.  100 Patrícia de Santos Hansen. era objeto de uma ação pedagógica que visava transformá-la em cidadão ideal. que cultivava o trabalho. Indica ainda uma analogia com a ideia de um país novo. em tese que analisa a literatura infantil cívico-pedagógica.

As primeiras tentativas de modificação deste quadro se iniciaram nas duas últimas décadas do século XIX com a tradução de obras estrangeiras para o português brasileiro192. O esforço dos folcloristas em recolher histórias de índias. ZILBERMAN. Escrever para crianças não era apenas uma maneira alternativa de complementar a renda. como Robinson Crusoé (1885). .1 O nascimento de uma literatura infantil genuinamente nacional Nesse ambiente de valorização da educação e da escola ainda era escassa a produção de uma literatura diretamente dirigida às crianças. ocupar-se da literatura infantil reforçava a ideia de uma ação propriamente política na sociedade. 29. Viagens de Gulliver (1888). O desejo de uma intervenção social e política. É claro que não era qualquer meninada: os livros eram caros e a alfabetização em língua estrangeira era privilegio das classes mais altas da sociedade. Histórias da Nossa Terra (1907). mães negras e portuguesas também somava material importante. Pimentel também traduziu diversos contos dos irmãos Grimm e de Perrault e Andersen divulgados nos Contos da Carochinha (1894). 193 Ibid. mas a compreensão da língua ficava prejudicada pelas idiossincrasias de cada língua. já que se relacionava à formação dos pequenos brasileiros. como Contos Infantis (1886) de Júlia Lopes de Almeida e Adelina Lopes Vieira. nas Histórias da Avozinha (1896) e Histórias da Baratinha (1896). de Olavo Bilac e Coelho Neto. Op. Contos Pátrios (1904). Os livros infantis que circulavam no Brasil no século XIX eram em sua maioria estrangeiros. assim como as revistas ilustradas francesas que no final do século já chegavam ao país.2. O conhecido Através do Brasil. mas uma atividade patriótica. Quixote de la Mancha (1901). Com essas primeiras iniciativas. para encanto da meninada sedenta por novidades. Para esta intelectualidade. dos futuros cidadãos da nação. Marisa . 31. que pudesse servir de material para o aprendizado das letras e da leitura. assim como já faziam no magistério e na imprensa. além do magistério e do jornalismo. p. Ver LAJOLO. Os primeiros esforços nesse sentido vieram de Carlos Jansen e Figueiredo Pimentel que traduziram e adaptaram algumas obras de referência da literatura infantil europeia. se seguiu a publicação de uma série de livros destinados diretamente às escolas primárias. 192 Traduções portuguesas de obras infantis circulavam no Brasil desde os primeiros anos do século XIX. de Júlia Lopes Vieira. é de 1910193. Regina. de Manoel Bomfim e Olavo Bilac. Cit. Escrever para escolas se tornou uma nova alternativa para os escritores da época. As aventuras do celebérrimo Barão de Munchausen (1891) e D. p.  101 3.

 

102

característica do campo intelectual da Primeira República, encontrava mais um espaço de
realização.
Para as autoras Marisa Lajolo e Regina Zilberman, o nascimento da literatura infantil
no Brasil está intimamente ligado ao processo de modernização do país dos últimos anos do
século XIX para os primeiros do século XX. Elas ressaltam que não apenas a literatura
infantil, mas a produção literária em um contexto mais amplo, seguiam a orientação de "criar
e divulgar o discurso, os símbolos e as metáforas da nova imagem do País, comprometida
com a sua modernização"194.
As

primeiras

manifestações

literárias destinadas

às crianças

apresentavam

encaminhamento moral e patriótico, e obedeciam a um objetivo funcional e didático. O traço
mais marcante desta literatura era a exaltação das coisas do Brasil, com especial atenção à
natureza. Evocar as belezas naturais do país era uma forma de venerar a pátria e afirmá-la
como bem maior. Ela seria símbolo da grandiosidade e potencialidade da nação.
Para Hansen, a literatura infantil da época tinha o caráter de projeto e, mais do que
representar o mundo e os desejos infantis, demonstrava como os adultos queriam que a
criança entendesse o mundo195. Frutos do engajamento de intelectuais em um esforço no
sentido de educar e instruir a massa de crianças que formariam os futuros cidadãos do país,
estes livros infundiam também um projeto de nação.
Um dos aspectos distintivos da literatura cívico-pedagógica era a ausência do
maravilhoso e do sobrenatural. A literatura infantil deveria ser simples e ingênua, mas deveria
dar à criança sentido de realidade, através de uma narrativa ficcional que trabalhasse a
imaginação, mas fosse verossímil. Esta parecia ser uma questão em destaque na época e fruto
de preocupação por parte de intelectuais e educadores, tanto que os editores de O Malho
pedem aos leitores de seu suplemento Rio Chic que enviem à redação cartas com suas
opiniões sobre a influência dos contos fantásticos na educação infantil196. O objetivo era saber
das mães, público preferencial do suplemento, o que gostariam de ver na revistinha infantil
recentemente lançada.
Ainda que a opinião predominante fosse contrária a este tipo de literatura, os contos
fantásticos aparecem em certas ocasiões na revista. Contos da carochinha e histórias contendo
antropomorfismo eram recorrentes. Porém, de modo geral a revista O Tico-Tico seguia o
194

LAJOLO, Marisa ; ZILBERMAN, Regina. Um Brasil para crianças: para conhecer a literatura infantil brasileira:
histórias, autores e textos. São Paulo: Global, 1986. p. 16.
195

HANSEN, Patrícia Santos. Op. Cit. p. 42.

196

O Malho, Rio de Janeiro, 23 de setembro de 1905.

 

103

mesmo direcionamento da literatura cívico-pedagógica da época, onde predominavam
histórias geralmente ambientadas no cotidiano familiar urbano ou rural, na escola ou na rua.
As histórias, mesmo os quadrinhos, sempre guardavam uma moral explicitada claramente ao
final ou um modelo de comportamento a ser reprovado ou reconhecido. O respeito às
autoridades – em grande parte representadas na figura de pais, familiares e mestres - é o
assunto mais recorrente. A família, como entidade responsável pela formação do caráter da
criança, era mostrada como uma instituição sagrada cujo dever era o respeito incondicional.
Outros valores eram igualmente defendidos pela revista, como a coragem, a
solidariedade, a honestidade, a ordem, o trabalho. Estes princípios estavam intimamente
ligados com a idealização de uma sociedade burguesa e civilizada, defendida pela nova
república instaurada e que, apesar de marcada pela ignorância, seria capaz de superar os
limites de sua condição histórica, marcada por um passado de pela submissão e subserviência
às nações ibéricas.

 

104

Figura 16
Juquinha Pretinho. O Tico-Tico. Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 1906. Nº 18. Ano II.

Em boa parte deles. começa a trabalhar como médico na Secretaria de Polícia. devido às perseguições durante o governo de Floriano Peixoto aos intelectuais antimilitaristas. Op. Dentre os intelectuais que estiveram envolvidos na concepção do projeto. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.  105 3. A aproximação de Bomfim com o tema da educação tomou grande parte da sua vida profissional. fosse na literatura infantil ou nos estudos em psicologia experimental. E toda sua atuação. 197 Os dados biográficos foram extraídos de: AGUIAR. que defendiam novas eleições após a renúncia de Deodoro da Fonseca198. nenhum teve o envolvimento de Bomfim com o tema da educação. Manoel Bomfim chega ao Rio de Janeiro em 1888. Dissertação de mestrado. p. atuou na imprensa carioca frequentando as rodas boêmias mais populares. mesmo quando distante dos quadros de poder do Estado. em São Paulo. Entre 1891 e 1892. Cit. diretor de instrução pública. a investida do pensador social na educação e na defesa da instrução pública. a educação infantil tinha centralidade. estava marcada por uma atitude propriamente política. pelas lacunas encontradas na documentação até então disponível. para terminar seus estudos na Faculdade de Medicina. . . Bomfim retorna ao Rio de Janeiro em 1894 e em 1896. logo é levado a se mudar para a cidade de Mococa. Manoel Bomfim (1868-1932) e o Brasil na História. 165-168. foi professor. Mas segundo Ronaldo Conde Aguiar. acreditamos que a presença de Manoel Bomfim foi determinante para o encaminhamento pedagógico da revista. fosse na atividade escolar propriamente dita. abandona de vez a medicina e se torna editor do jornal A República. Op. curso iniciado na Bahia197. 2001. Ainda que não seja possível precisar o alcance da participação do pensador social na revista. 198 AGUIAR. tornando-se tenentecirurgião da Brigada Policial. nem foi capaz de sistematizar suas ideias em relação ao debate tão acalorado na sociedade da Primeira República acerca dos destinos do país. UFF. Ronaldo Conde. GONTIJO. deputado federal. Cit. Bomfim teve uma trajetória exemplar para a intelectualidade da época: formou-se em medicina. Ronaldo Conde. Começa. Rebeca. No mesmo ano é levado por amigos a frequentar as redações dos jornais da Corte e começa a escrever artigos para a imprensa. então.3 A sistematização de Manoel Bomfim e a influência dessas ideias em O Tico-Tico Parece-nos importante discutir a influência do pensamento de Manoel Bomfim na revista O Tico-Tico. Ele atuou em diversas instituições de ensino e de promoção da instrução e participou em vários projetos diretamente vinculados ao tema.

nem o que nelas se ensina. de 2 de setembro de 1897. Bomfim assumiu a diretoria do Pedagogium. que segundo ele deveria garantir acesso democrático a todos os setores da sociedade. Francisco Furquim Werneck de Almeida. ajudando a difundir a pedagogia. Em 1898. intervêm na organização moral e política da escola primária e contribuem largamente para a instrução popular. Trecho extraído de artigo publicado em A República. as primeiras letras deveriam ser monopólio do Estado. Manoel Bomfim foi convidado a ocupar o cargo de subdiretor do Pedagogium. Em artigo escreve: Todos os governos das nações cujas condições políticas mais se aproximam das nossas. Com o apoio de Medeiros de Albuquerque. Nº1. Ano I.  106 Em maio do mesmo ano.. Em 1890. disciplina em processo de fundação como saber científico. 200 BOMFIM Apud AGUIAR. Cit. cargo que ocupou entre 1896 e 1905. não concorrendo com um ceitil para a instrução do 200 povo. Este periódico visava a ser “um guia e um auxiliar do professor”201. em 1882199. assume a regência também das aulas de português e pedagogia. foi apresentado por Alcindo Guanabara ao então prefeito do Distrito Federal. segundo Aguiar. 5. ignorando por inteiro. incluindo ex-escravos e imigrantes. (. P.) o que não conheço é país onde o governo central se despreocupe tão absolutamente da instrução primária como entre nós. Valendo-se de suas redes sociais. Posteriormente. em parecer sobre o projeto de ensino de Rodolfo Dantas. antes conhecido somente como Instituto de Educação. deputado e diretor da Instrução Pública Municipal. Op. 190. O Pedagogium foi criado em 1890 e. Educação e Ensino. 201 “A Revista Pedagógica”. Através da constante pesquisa e da leitura de obras das mais recentes correntes pedagógicas. não sabendo o que o povo aprende nem se há escolas. . Em julho de 1897. tudo o que a isto se refere . A participação de Bomfim no Pedagogium foi essencial para alavancar a sua trajetória em direção à educação e para a expansão de suas ideias em defesa da instrução pública. instituto dedicado à pesquisa na área da educação. jornalista. Bomfim se tornou um dos principais críticos da educação nacional. as bases para a sua criação foram lançadas por Rui Barbosa. Revista Pedagógica da Instrução Pública Municipal do Districto Federal. funda o mensário Educação e Ensino. começa a dar aulas de moral e cívica na Escola Normal202. Chegou a ser diretor da instituição entre maio e outubro do mesmo ano. 202 A Escola Normal é hoje o Instituto Superior de Educação do Estado do Rio de Janeiro. Julho de 1897. 188. revista oficial da diretoria de instrução Pública. p. e de 1911 a 1919.. p. Para garantir o acesso e dar base moral e cívica ao projeto educacional. Bomfim foi convidado pelo prefeito Cesário Alvim a substituir Medeiros de Albuquerque na Diretoria da Instrução 199 Ibid.

o já citado Através do Brasil. mostram uma aproximação do intelectual com o pensamento anarquista e socialista. Bomfim ajuda a fundar Universidade Popular de Ensino Livre. em 1910. Ela conclui que diversas obras o interpretaram como um intelectual dissonante em sua época e radical. em parceria com Olavo Bilac. É a partir de 1905 que Manoel Bomfim parece ter estreitado laços com a educação infantil: além de participar da criação da revista O Tico-Tico. ele escreve. Ainda que esta aproximação estivesse relacionada a leituras e busca de soluções através delas.  107 Pública. com o objetivo de desvendar como os autores compreendiam seu esquecimento no hall do Pensamento Social Brasileiro. e também à motivação de um investimento maior em educação. Lá estuda psicologia experimental com Alfred Binet e George Dumas. o apresentam como um pensador de esquerda ou um radical203. Cultura e sociedade em Manoel Bomfim. Em 1902. São Paulo: Moderna. a autora faz um levantamento historiográfico das obras que buscaram interpretar Manoel Bomfim. Ficou no cargo até 1907. Sua viagem à França parece ter sido fundamental para o desenvolvimento de suas ideias acerca da pedagogia e psicologia. De volta ao país. . Roberto. História e dependência. O envolvimento de Bomfim neste empreendimento. seu ensaio mais crítico e conhecido. VENTURA. principalmente aquelas escritas e publicadas entre as décadas de 70 e 80. Essa não foi sua única investida na literatura infantil: Bomfim escreveu ainda Primeiras Saudades (1920). muitas interpretações sobre Manoel Bomfim. assim como algumas de suas concepções sobre o social demonstradas no livro citado acima. Flora . Ainda que o pensador social tenha se colocado como crítico da ordem política estabelecida na Primeira República. 1984. Em 1904. Op. em 1903. Como deputado. de inspiração anarquista. Em 1905. não há nenhuma evidência que indique uma posição ideológica tão clara da parte de Bomfim: uma das críticas ao intelectual foi justamente a ambiguidade de seu discurso204. segue para a Europa em uma missão pedagógica nomeada pela Prefeitura. funda no Pedagogium o primeiro laboratório de psicologia experimental do Brasil. Ele seria responsável pela administração dos cursos de Pedagogia e Psicologia. e também sobre a formação da nacionalidade brasileira. Foi ainda em solo estrangeiro que esboçou as primeiras linhas de América Latina. sua principal bandeira foi a educação. o que teria contribuído para seu esquecimento na historiografia e sociologia. No primeiro capítulo da dissertação. Crianças e Homens 203 GONTIJO. No ano seguinte passa a integrar o Conselho Superior de Instrução Pública do Distrito Federal. 204 SUSSEKIND. quando teve que deixa-lo para substituir Manoel Valladão no cargo de deputado federal por Sergipe. onde permanece até 1900. Cit. Bomfim é convidado pelo prefeito Pereira Passos a ocupar a Diretoria de Instrução Pública.

estabelecendo vícios de origem ibérica. retorna ao Brasil e retoma o cargo de diretor do Pedagogium. 137. p. Nestes trabalhos. combinada à ação do meio. 2005. 1923. Bomfim inicia a escrita de sua trilogia. p. . 58. o autor declara: “[. o pensador social traz questões que renovam a interpretação da nacionalidade brasileira. Bomfim chega à tese de que os males das nações latinoamericanas provêm do “parasitismo europeu”. É mister estuda-la no tempo e no espaço”206 Partindo desta análise.. Manoel Bomfim escreveu: Noções de Psicologia.. 205 Sobre estes assuntos. 1916. Tanto em América Latina quanto em Brasil na História e Brasil Nação. Cit. temos de analisar não só o meio em que ela se acha. Rio de Janeiro: Casa Electros. conferências. passa a integrar a Sociedade Brasileira de Homens de Letras. etc. e compreender os motivos pelos quais ela se apresenta nestas ou naquelas condições. para estudar a organização do ensino profissional. 207 Idem. A escrita de manuais de pedagogia e psicologia também não fugia a esta temática. A atual situação de “ignorância social” seria fruto deste parasitismo que foi capaz de produzir nos países latino-americanos o “aniquilamento total da sociedade”207. Pensar e dizer: estudo do símbolo no pensamento e na linguagem. ressalta o papel da história na formação da nação e o destino dos países latino-americanos após séculos sob o jugo europeu. Bomfim buscava na história a compreensão e a possibilidade de resolução para os problemas nacionais. Uma nacionalidade é o produto de uma evolução: o seu estado presente é forçosamente a resultante da ação do seu passado. já que direciona o olhar para a formação históricosocial. As obras de direcionamento infantil e escolar de Manoel Bomfim situam-se neste contexto de inclusão da criança nos projetos de construção da nação. a realização de concursos. Enquanto grande parte dos intelectuais da época pensava o Brasil a partir da sua constituição racial.] para estudar convenientemente um grupo social – uma nacionalidade no seu estado atual. que impediu que as antigas colônias se construíssem de maneira autônoma. ou tendo a civilização europeia como parâmetro. Lições de Pedagogia: teoria e prática da educação. Em A América Latina. estimulando a publicação de trabalhos. Bomfim embarca novamente para a Europa. Já em lugar de destaque como professor e em cargos públicos ligados à educação. Em 1911. como os seus antecedentes. 206 BOMFIM. Estas obras também guardavam espaço para a defesa da educação como redenção nacional205. 1916. males de origem. que funcionava como um espaço de sociabilidade e de ajuda mútua entre os membros. penetrando fundo no debate acerca da nacionalidade.  108 (1922) e Lições e Leituras (1922). Rio de Janeiro: Francisco Alves. Em 1912. Rio de Janeiro: Francisco Alves. Em 1910. Op.

fundada nos valores da modernidade e do progresso. atacava diretamente os intelectuais que defendiam o racismo científico. Os empreendimentos educacionais 208 GONTIJO. muitos estudiosos construíram falácias em nome da ciência. Cit. denunciando a relação tênue entre ciência e exercício de poder. Uma nação que só poderia se construir no futuro exigia a incorporação da infância aos desafios e destinos da nacionalidade. Para ele. situando-o como crítico da historiografia. se daria através do investimento na educação moral e intelectual. Para Manoel Bomfim. representantes do atraso colonial e da escravidão. principalmente. A condução desta mudança era obrigação das camadas médias urbanas. Op. A história deveria ser escrita de maneira a valorizar os traços realmente nacionais e a independência frente aos países colonizadores. outro aspecto era essencial na definição da nacionalidade: o conhecimento da história. em oposição às elites tradicionais de proprietários de terras. Era necessário um rompimento com estas estruturas arcaicas para a construção de uma nova civilização. a polidez nos atos e. os bons modos. .  109 A saída deste processo de degeneração social. Aliado ao investimento na educação estava a valorização do conhecimento científico como caminho para a compreensão e solução dos problemas sociais. Caberia a estes futuros cidadãos erigir uma nação distinta daquela de tradição colonial e ibérica. ele foi crítico de sua suposta isenção. para serem capazes de romper no futuro com os males da nação construídos no passado. Ele defende que os historiadores durante muitos anos ajudaram a perpetuar a ideia de inferioridade das nações americanas frente aos europeus. Rebeca Gontijo defende o intelectual como “um pensador da história”208. A consciência histórica seria fundamental para a superação do passado e para a construção do futuro. Bomfim via no passado uma função pedagógica. oferecendo modelos de conduta a serem seguidos ou rechaçados. 2001. inviabilizando a autonomia nacional. o amor à pátria. vivido durante anos por estes países. Os jovens deveriam estudar e conhecer profundamente a história do Brasil. As crianças e jovens passaram a ser depositários das esperanças e responsáveis pela execução de um projeto nacional constituído no futuro. Neste contexto. Nessa crítica. se tornava importante estimular o gosto pela leitura. O investimento simbólico na criança seria uma das saídas para a construção deste ideal de nacionalidade. Ainda que Bomfim entendesse a ciência como estratégia para alcançar o progresso humano.

certamente a participação de Bomfim no projeto evidencia pelo menos a força de sua relação com o empreendimento. que em sua época partilhavam da seu entendimento da nação. p. Op. N. 210 BOURDIEU. cf. . esse debate estava expresso de diversas maneiras na opinião pública desde o Império. Ele estabelece a estrutura específica de forças que se opõe ou se agregam para garantir legitimidade e autonomia ao campo. 10. Manoel Bomfim se configurou no espaço intelectual brasileiro como um ideólogo211 da nação. Manoel. na Escola Normal e na Diretoria de Instrução Pública podem ser claramente definidas no projeto de uma revistinha infantil. Pierre Bordieu210 entende que para compreender e. BOBBIO. conhecer os limites da produção intelectual.. partilhadas ou silenciadas. e cultivar a bondade”. como um homem que procurou discutir e elaborar princípios que orientassem a construção da nação brasileira e que. assim como Bomfim. Op. 209 BILAC. harmonizar os esforços. No caso de Bomfim. o campo representa um sistema de forças. 1997. Bomfim e Bilac escrevem que com o livro esperam “suscitar a coragem. Em Através do Brasil. agiam no espaço público como ideólogos de um projeto de nação fundado na educação como resposta à questão nacional. Cit. Cit.  110 deveriam estar em conformidade com estas posturas. por exemplo... que Manoel Bomfim definiu o encaminhamento da revista no sentido de defender a instrução e a educação moral e cívica. Olavo . se empenhou na defesa da instrução nacional. Op. 211 Sobre a distinção entre ideólogos e expertos desenvolvida por Norberto Bobbio. Porém. O estudo do campo ilumina a questão. e concluem: “eis a fórmula para a educação humana”209. para o autor. em grande parte dos seus trabalhos. Manoel Bomfim tinha diversos interlocutores. uma rede de intelectuais atuantes na cena jornalística carioca envolvida nestes mesmos embates e questionamentos. BOMFIM. mas principalmente definir o sistema de relações sociais no qual se realiza a criação. Não queremos dizer com isso. entendemos ser interessante evidenciar como as mesmas ideias e relações envolvidas em projetos como o Pedagogium. funcionando como um campo magnético. portanto. Podemos citar pelo menos Olavo Bilac e Coelho Neto como intelectuais que. Isto porque. Tal como vimos. Havia. ao mesmo tempo. P. 2006. é necessário não somente conhecer bem aquele que a produz. Cit. pois é capaz de evidenciar como as ideias de uma época eram defendidas.