TERRA LIVRE

PARA A CRIAÇÃO DE UM COLECTIVO AÇORIANO DE ECOLOGIA SOCIAL

BOLETIM Nº18 MARÇO DE 2010

-A

Propósito da Recente Tragédia na Madeira

-O

Contributo da tauromaquia para a economia dos Açores

A Propósito da Recente Tragédia na Madeira

Eu tive um sonho
Cecílio Gomes da Silva* Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a

irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria.

recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água

frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.

desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como

começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou.

A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho

fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama.

Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, paubranco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos

córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente. primeiro; infelizmente para o segundo.

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões Nota - Tanto o texto como as fotos são anteriores à tragédia prevista que atingiu a Madeira no passado dia 30 de Fevereiro de 2010. Fotos: Raimundo Quintal, 6 de Fev de 2010 Lisboa, 11 de Dezembro de 1984 *Engenheiro Silvicultor (recebido por mail) este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro. Dei o alarme – pensem nele.

imprevisíveis (só em sonhos).

Paisagem Micaelense

O Contributo da tauromaquia para a economia dos Açores
Tal como outras actividades, na tauromaquia os lucros são privados e as despesas socializadas. vídeos das marradas, junto das comunidades emigrantes, sempre entrava algum dinheiro nos Açores. Não temos quaisquer dados para corroborar ou contradizer o escrito no primeiro parágrafo, mas temos informações para confirmar quase tudo o que foi afirmado a seguir. Dizemos quase tudo porque consideramos que as contas não estão todas sobre a mesa, isto é, se tivemos o cuidado de contabilizar tudo, as saídas de dinheiro da região seriam superiores às entradas. Com efeito, quanto custa a vinda, aos A indústria tauromáquica argumenta que a tourada é importante para a economia dos Açores. Será verdade? Há dias falando com um terceirense (natural e residente) dizia-me ele que tinha conhecimento de que algumas entidades se recusavam a investir na ilha Terceira porque na metade do ano, em virtude da realização das touradas à corda, parte das pessoas não estava disposta a trabalhar a partir de determinada hora. A mesma pessoa mencionou, também, o facto de as touradas não criarem riqueza, isto é, limitavamse a transferir dinheiro dos espectadores para os organizadores, para os ganadeiros e para alguns comerciantes de comes e bebes. Já a terminar o diálogo o meu interlocutor lembrou-se de dizer que, afinal, com a venda dos Açores, de toureiros de renome nacional e internacional? Quanto custa a vinda de touros do exterior, para as touradas de praça, sabendo-se que em 2009, 28% dos touros usados nas ditas “ostentavam ferros e divisas de Ganadarias do Continente”? Alegam os defensores das touradas que as mesmas trazem turistas. Por não acreditarmos, teríamos todo o gosto que apresentassem números. Além disso, esquecem-se os mesmos de dizer que o que efectivamente tem trazido turistas aos Açores é a sua natureza que tão maltratada tem sido nos últimos anos. Associados à natureza estão sim os passeios pedestres e estes são um dos motivos que atraem visitantes (as entidades oficiais têm estes números) e que a Terceira durante alguns anos não teve percursos oficialmente recomendados devido

à presença de gado bravo no trajecto de alguns dos percursos pedestres. Sendo as duas actividades incompatíveis, dizem eles que há espaço para ambas. Concordamos, mas não nos esquecemos de que o território não é infinito, assim, quando aumentar o espaço para uma das actividades, o da outra míngua. Outras contas que não são feitas relacionam-se com os acidentados que consoante a gravidade dos ferimentos têm que ser tratados nos hospitais ou mesmo têm de se deslocar de várias ilhas para os hospitais do Santo Espírito ou do Divino Espírito Santo e aí ficam internados durante algum tempo. Nestes casos, bem como nas baixas médicas que se seguem aos internamentos, não são os adeptos ou promotores das touradas a arcar com as despesas, pelo contrário, somos todos nós contribuintes a pagar com o dinheiro dos nossos impostos. Por último, dizem os defensores da tauromaquia que a mesma é o ganha-pão para algumas famílias. O que é certo é que não divulgam o número de pessoas envolvidas na actividade a tempo inteiro para se perceber da dificuldade ou não na sua reconversão. Mesmo que estivessem envolvidas muitas

satisfazer as suas necessidades alimentares, não achamos que constituirá qualquer problema social a reconversão de quem está ligado à tauromaquia. O que não percebemos é a apatia ou a incompetência dos nossos sucessivos governantes para por termo à crise permanente em que vivem todas as actividades ligadas à agricultura e por que razão não aposta a região na sua soberania alimentar. Em suma, a tauromaquia: - Ao contrário de criar riqueza para a região, gera dinheiro para um número muito reduzido de pessoas; - É fortemente subsidiada pelas várias instâncias governativas, Governo Regional dos Açores, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, com dinheiro que poderia ser investido na saúde, educação, segurança das pessoas, assistência social, etc.; - É subsidiada pela Comunidade Europeia, através dos apoios concedidos à criação de touros bravos em sistemas extensivos.

FONTES: Rodrigues, M. (2009). Os Açores, mais corridas? Inúmeras questões a equacionar e a resolver! A União, 22 de Setembro http://www.bullfightingfreeeurope.org/index_por. html

famílias, ao longo da história dos Açores tem havido ocupações que desapareceram e foram substituídas por outras. Neste caso, sabendo-se da dependência da região do exterior, em termos de

Texto de Mariano Soares

Terra Livre – Caes

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