You are on page 1of 10

Colonização na Amazônia: uma alternativa para seu desenvolvimento sustentável?

Bastiaan Philip Reydon1


Maria José Dantas Muniz2

Resumo: Este ensaio procura mostrar que, apesar do Estado brasileiro não ter estabelecido
claramente a forma da colonização da Amazônia brasileira, o conjunto de políticas
implementadas acabaram por potencializar a forma de ocupação básica existente, isto é
através da especulação com terras rurais. A partir desta constatação o presente ensaio indicará
algumas linhas de intervenção que garantiriam o desenvolvimento sustentável da região
utilizando a colonização.

Palavras-chave: Colonização, Especulação com terras e Projetos dirigidos

Introdução

Os processos de ocupação ocorridos na Amazônia brasileira, historicamente,


estiveram vinculados a fenômenos geopolíticos e econômicos decorrentes basicamente da
busca de matérias-primas3 para o mercado externo. Num segundo momento, a ocupação passa
a ser definida pela necessidade de expansão territorial de fronteiras para atender contigentes
de populações rurais excedentes, do nordeste, sul e sudeste do Brasil, com causas descritas
por vários autores, que vão desde os fenômenos das secas, mecanização da produção agrícola,
necessidade de busca de espaço de especulação e/ou sobrevivência.
Nos anos setenta e oitenta houve um processo com participação mais intensiva do
Estado na ocupação da Amazônia. Nesta o Estado participou com projetos de colonização
oficial e privada, com as políticas agrárias, com créditos subsidiados e incentivos fiscais. Na
realidade estas políticas apenas catalisaram os ganhos de obtenção de terras baratas com
valorização garantida. Mais recentemente, ainda no final da década de oitenta, reduziram-se
os incentivos, o crédito deixou de ser subsidiado, a colonização organizada diminuiu
significativamente. Muitos entenderam que o processo de ocupação e consequentemente a
destruição da floresta iriam se arrefecer. As evidencias disponíveis mostram o contrário: a
ocupação continua e a destruição da floresta também. Porque?
O presente estudo procura mostrar que o motor da ocupação da Amazônia é a busca de
terras baratas e outros benefícios que a propriedade da terra permite com o objetivo básico de
obter ganhos especulativos desta aquisição. Para isto apresenta num primeiro item uma
discussão sobre colonização e ocupação da fronteira onde se mostra que a ocupação da
Amazônia tinha, até os anos 60, características de uma colonização espontânea e após isto
tornou-se espontânea e dirigida. No segundo item procura mostrar a partir das especificidades
do ativo terra sua utilização como reserva de valor, valorizando-a também para o caso da
Amazônia. No quarto item a partir dos resultados e da experiência de ocupação da Amazônia
propõem as principais caminhos de colonização, viáveis economicamente, e que preservem a
floresta Amazônica.

1
Prof Dr. do Núcleo de Economia Agrícola do Instituto de Economia da UNICAMP. Endereço eletrônico:
basrey@eco.unicamp.br.
2
Pesquisadora do BIOMA e mestranda do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Espaço e Meio
Ambiente do Instituto de Economia da UNICAMP.
3
A extração do latéx para atender a exportação da borracha para os países desenvolvidos no início século
XVIII, é o exemplo típico de como se processou as primeiras ocupações na Região, por populações procedentes
de outras regiões.

1
As características da colonização

Silva (1973:197/98) descreve três formas básicas de colonização: a espontânea – que


se caracteriza pelo estabelecimento de grupos sociais em uma determinada região, com seus
próprios recursos e por “livre” iniciativa; a dirigida – que envolve um mínimo de orientação
e estímulo quanto a escolha e/ou organização da área a ser colonizada; a planejada - que
consiste na elaboração do planejamento global, desde a escolha da área geográfica, da
seleção dos grupos que irão ocupa-la, até o aproveitamento dos recursos e da atividade
econômica a ser realizada. No caso brasileiro pelo fato da Lei de Terras (de 1850) ter
estabelecido a possibilidade de se obter terras através da posse, faz com que qualquer tentativa
de colonização planejada seja bastante dificultada.
Hébette & Acevedo (1979) explicitaram que as diferentes formas de colonização são
na realidade decorrentes dos fundamentos das forças políticas que se encontram em ação no
momento de sua implementação. Para eles a colonização espontânea e dirigida não são,
necessariamente, processos distintos. Sendo assim, as medidas políticas, quaisquer que sejam
suas formas (impositiva, incentivadora, permissiva ou omissiva), são seletivas, podendo ser
originadas tanto no local que se processou a migração quanto no local da imigração. Num
país como o Brasil onde parcela substantiva da população vive abaixo da linha de pobreza, a
possibilidade de ocupar uma região ainda relativamente desocupada permite que mesmo as
colonizações espontâneas tenham algo de dirigidas.
Na Amazônia em particular, segundo Schmink(1981), o fenômeno de colonização
espontâneo associado ao dirigido ganha dimensões significativas a partir de meados dos
sessenta, após a implantação dos processos de industrialização e urbanização brasileira. Ao
contrário das ocupações de espaços precedentes no país, a colonização da Amazônia contou com
um apoio intenso do Estado através do estabelecimento de:

a) infra-estrutura - transporte, comunicações (TRANSAMAZONICA);


b) programas especiais de colonização (PIN, PROTERRA);
c) incentivo à ocupação produtiva, (POLAMAZONIA);
d) crédito agrícola subsidiado e
e) subsídios fiscais.

O sentido global das políticas era o de ocupação da região para sua integração à vida
econômica do país, sem qualquer preocupação com suas características naturais e ou culturais.
Os programas especiais de colonização visavam colonizar, com projetos públicos e privados a
Amazônia. O PIN, visava ocupar as margens da rodovia Transamazônica, recém construída,
com aproximadamente 5.000 famílias. O PROTERRA que visava assentar famílias oriundas
do Nordeste, acabou por atingir a marca de assentar menos de 1.000 famílias. Para Guedes
Pinto (1997) entre 1970 e 1994 a Colonização Oficial efetuada na Amazônia ocorreu em 49
assentamentos atendendo aproximadamente 85.000 famílias. Segundo vários estudos a
maioria destes projetos além de pouco eficientes (tiveram elevados índices de abandono) e
apresentaram custos de implantação elevados.
O crédito agrícola 4 teve um papel vital tanto enquanto um financiamento que contava
com a terra enquanto garantia (o que a valorizava), quanto o subsídio implícito que, ao não ser
fiscalizado, gerava ganhos em outros mercados ou era aplicado na compra de mais terras. Os
incentivos fiscais permitiam a redução do pagamento de imposto de renda para os proprietários

4
Os impactos desta política são discutidos, entre outros, por Rezende(1982) e Reydon (1984).

2
de terras que implementassem projetos agropecuários na região da SUDAM (Superintendência
do Desenvolvimento da Amazônia). Os incentivos fiscais tornaram-se nova forma de se obter
ganhos com as terras, além da própria especulação. A rápida e intensificada ocupação
desordenada na região, se deu em função desses fatores. É importante observar que desde início
dos anos 80 há estudiosos alertando para estes fatos.
Portanto se a colonização não é planejada, mas dirigida e a ocupação se dá de forma
desordenada e ineficiente. Mas então o que move este processo efetivamente?

Colonização e especulação com terras na Amazônia

A adequada compreensão do processo de ocupação dos espaços econômicos vazios


brasileiros deve ser buscada na própria história do país. Desde sua ocupação, a aquisição e/ou
obtenção e posterior revenda de terras tem sido uma atividade importante para viabilizando
ganhos especulativos significativos 5 . A principal característica da terra que contribui para isto,
é a possibilidade de sua utilização como reserva de valor, permitindo a manutenção de riqueza
no longo prazo. A terra por ser simultaneamente, ativo líquido e de produção permite isto,
porque seu preço, como os de qualquer ativo, refletem os ganhos e perdas esperados para os
seguintes atributos capitalizados:
a) as rendas produtivas provenientes das atividades propriamente agropecuárias, bem como
aquelas decorrentes do acesso a transferencias fiscais (subsídios, incentivos fiscais, etc.)
que a propriedade da terra permite;
b) os custos de manutenção da terra como ativo, que incluem os custos de transação, de
provisão para financiamento se este for utilizado para a aquisição da terra, de impostos e
taxas da propriedade e do risco de conflitos trabalhistas e fundiários;
c) o prêmio de liquidez, ou seja, a facilidade de venda do ativo no futuro; d) o ganho
patrimonial, que independe das demais variáveis (Reydon 1992).

Portanto o preço da terra é determinado, basicamente, pelos ganhos produtivos e a


liquidez esperados. Como no Brasil a propriedade da terra sempre foi garantida e as demais
aplicações, principalmente no mercado financeiro, tem relativamente poucas garantias, a terra
transformou-se num ativo com singulares atrativos: além de possibilitar os ganhos produtivos,
tem revenda quase garantida o que eleva sua liquidez. Isto acarreta uma elevada demanda por
este tipo de ativo (terras agrícolas e urbanas), fazendo com que o patamar dos preços da terra
no Brasil seja superior a de outros países com mercados de terras similares.
A utilização especulativa da terra, urbana ou rural, é uma característica da realidade
brasileira e, conforme mostram Lessa e Dain (1992), exerce um papel importante na
acumulação dos capitais e na determinação da sua estrutura política.
Para o caso da Amazônia, Ianni(1979:77), evidenciou que até final dos anos 70, o processo
mais intenso da migração, acompanhado da especulação com terras, ocorrera nos estados do
Mato Grosso6 e do Pará. Em seguida houve um deslocamento, primeiramente para os estados do
Maranhão7 e o Amazonas e posteriormente para Rondônia e o Acre, mas mantendo a
importância da busca de terras que se valorizavam.

5
Reydon(1992), baseado em estudiosos da história econômica brasileira mostra que os processos de ocupação
com produção agrícola sempre foram acompanhados por processo especulativos com terras. Isto desde a
ocupação do Oeste paulista, Norte do Paraná, o Centro-Oeste e a Amazônia.
6
Em Reydon (1992), observa-se que os grandes proprietários de Araçatuba (SP) adquiriram terras no estado do
Mato Grosso por razões basicamente ligadas à localização. Neste estado era possível ter uma pecuária articulada com
a produção em Araçatuba.
7
Arcangeli (1987:126) mostra que a maioria dos projetos agropecuários financiados pelo Sistema FINOR, com
incentivos da SUDAM, foram aprovados a partir de 1972. Ele afirma que "tais empreendimentos ainda se

3
Mahar(1989:37) mostrou que em Rondônia "os preços reais da terra se elevaram de
forma assustadora, basicamente em resposta à contínua migração e às melhorias nas estradas e
outras obras de infra-estrutura financiadas através do Polonoroeste". Mesmo nos projetos de
colonização, mostra-se que " é possível para os especuladores obter o equivalente a US$ 9,000
se eles desmatarem 14 hectares da floresta e plantarem pastagem e culturas de subsistência por
dois anos, e depois venderem os direitos de posse adquiridos por esta prática". Portanto os
ganhos oriundos da terra na Amazônia tem no crescimento populacional e nos investimento do
Estado um base importante, mas são viabilizados memso na ausência destes.
Hecht (1985:669), em estudos que procuram avaliar as relações de custo-benefício da
pecuária na região Amazônica, mostra que sua ocupação, através da pecuária extensiva, apenas
se apresentava rentável em função das elevadas taxas de inflação e dos incentivos disponíveis. O
estudo realizado por Hecht et alii (1988) sobre a viabilidade econômica da pecuária de corte na
Amazônia, conclui que "os resultados econômicos da simulação das fazendas de pecuária na
Amazônia são lucrativos para as corporações por causa dos incentivos fiscais, empréstimos a
juros baixos, benefícios fiscais, 'hedges' inflacionários e especulação com a terra".
O fim dos incentivos, subsídios e programas especiais no final dos anos 80 arrefeceu
mas não barrou a ocupação da Amazônia, principalmente através da pecuária. Historicamente,
a expectativa de ganhos com a pecuária extensiva não decorreu da produtividade do
investimento em gado bovino (resultado da taxa liquida de reprodução do rebanho e dos
preços da carne) mas, principalmente, da valorização do patrimônio fundiário. Fearnside
(1995:139) afirma que mesmo na década de 90, sem os incentivos fiscais, o crédito agrícola
subsidiado e a redução dos investimentos estatais em estradas e outros, a busca de terras
baratas na região continua tendo como motor básico a especulação com terras: "Não se pode
esperar que as pessoas invistam em usos sustentáveis do solo enquanto as atividades não
sustentáveis geram retornos mais elevados. A atividade agroflorestal na Amazônia compete
hoje com a especulação com terras, atividade altamente rentável. As áreas são desmatadas e
o pasto é plantado mais rapidamente possível para garantir a titulação da terra e/ou para
prevenir as ocupações (...) A pastagem é o mecanismo mais barato de ocupar terras
desmatadas, resulta em generoso lucro quando a terra é revendida - mesmo que a produção
de carne é zero. A construção de estradas eleva significativamente o preço das terras
próximas, portanto adicionando para o motivo de desmatar para assegurar ganhos
especulativos" 8 .
Portanto parece claro que o principal motor dos processos de colonização espontâneo
quanto o dirigido na Amazônia é a busca deste tipo de ganhos especulativos com a terra.
Portanto a ação do Estado ao viabilizar pelas diferentes formas esta ocupação está, quer seja
este o objetivo quer não, garantindo as condições para que este processo ocorra.

Participação dos agentes na colonização e dos benefícios dos processos especulativos

Quem efetivamente se beneficia destes processo de colonização cujos resultado mais


importante é a valorização do patrimônio? Inicialmente entendia-se que eram os grandes
proprietários os que buscavam a ocupar a região e especular com terras. Buscando evidencias
nesta direção, Reydon e Herbers (1989) relacionam física e temporalmente os movimentos do
preço da terra e a entrada de grandes projetos agropecuários subsidiados na Amazônia. Neste
estudo evidenciaram que as regiões que apresentaram as maiores elevações dos preços são

caracterizam por uma intenção especulativa, voltada para a possibilidade de captação de recursos a custo zero e para
o aproveitamento do processo de valorização de terras que marca o campo nordestino em suas transformações
recentes".
8
Tradução livre de Bastiaan P. Reydon.

4
aquelas onde houve a entrada de grandes grupos econômicos, ocorreram elevados índices de
destruição da floresta e os maiores conflitos pelas terras.
Por outro lado, Hall (1987:532) procurou mostrar que há a participação expressiva de
pequenos e médios agricultores no processo especulativo com terras – a qual se dá pela aquisição
de lotes, por migrantes originário do restante do país, principalmente em decorrência da
modernização da agricultura e da crise econômica 9 , instaladas na época. A especulação ocorre
com a revenda de parte das áreas ocupadas pelos grandes empreendimentos, em pequenos lotes,
semelhante àquela ocorrida no estado de São Paulo e no norte do Paraná entre os anos 20 e a 2ª
Grande Guerra.
Os resultados dos estudos realizados por Almeida, ao longo de décadas de pesquisas
na região deixam este processo bastante claro. As comparações entre a colonização oficial e a
particular na Amazônia nos anos 80, (Almeida & Santos 1990), mostram que em alguns
projetos de colonização do Pará (Pacal, Anapu e Pacajá), se verificou taxas de acumulação de
riqueza patrimonial elevadas, mesmo quando comparadas com outras oportunidades
oferecidas no mercado financeiro. A observação da tabela 1 abaixo mostra claramente que a
acumulação não foi resultante da produção agrícola, mas da apreciação especulativa das
terras, ao analisar o quadro de composição dos ativos dos colonos.

Tabela 1. Valorização patrimonial: projetos públicos de Colonização no Pará - 1981/89


Pacal Anapu Pacajá Total
Valorização
US$ % US$ % US$ % US$ %
Por Investimento 2.276 11,9 -1.050 -9,6 -1.491 -26,7 799 5,2
Por especulação 16.892 88,1 12.018 109,6 7.077 126,7 14.486 94,8
Total 19.168 100,0 10.968 100,0 5.586 100,0 15.285 100,0
Fonte : Pesquisa de campo Almeida & Santos (1981-1989).

As razões verificadas para esse quadro, segundo os autores, são que as terras cedidas a
baixo preço pelo Estado a colonos, terem sido adquiridas, em alguns casos parcialmente,
como reserva de valor por frentes especulativas, alimentadas por excedentes de capital
industrial procedentes do sul do país. Estes teriam sido atraídos para a Amazônia por
incentivos fiscais e creditícios, assim como pela rápida valorização do solo devido a
vinculação rodoviária da região ao restante do país.
Atualmente estes projetos (Pacal, Anapu e Pacajá), encontram-se cercados por
investimentos agropecuários de grande porte e que dos colonos originalmente assentados
permanecem apenas 46% nos lotes. A inexistência de políticas fundiárias adequadas para a
região tem feito com que sem terras de todo o Brasil continuam chegando à região num
processo de colonização espontânea agravando os problemas ambientais, econômicos e
sociais da população.
A Colonização Privada na Amazônia, pesquisada em dois projetos privados no Mato
Grosso. O primeiro projeto - Nova Mutum 10 - manteve suas características e objetivos de
preservação da área para colonos, não tendo havido reconcentração fundiária. Segundo a
empresa colonizadora, apenas 10% se desfizeram de suas propriedades, mantendo-se elevado
percentual de seus ocupantes originais.

9
Processo aqui identificado como migração “espontânea”.
10
Situada na BR-163 Cuiabá-Santarém,- desenvolveu-se com base no cultivo da soja utilizando tecnologias
consideradas lesivas ao trópico úmido e extenso desmatamento.

5
O Segundo projeto - São José do Rio Claro 11 - a cargo da colonizadora IMCOL S.A.,
não teve a mesma sorte. No segundo momento da pesquisa, os dados revelaram que o
território tinha sido ocupado predominantemente por grandes fazendas, com presença
marcante do capital multinacional do setor borracheiro. Houve abandono de aproximadamente
60% dos lotes, com forte reaglutinação fundiária, onde médios e grandes proprietários
incorporaram as áreas dos colonos “mal sucedidos”.
Com base na variação total dos ativos, chegou-se aos seguintes resultados: No da
Nova Mutum o acúmulo foi de – US$ 118 mil em 1981 para US$ 357 mil em 1989, enquanto
que os colono de São José do Rio Claro, desacumularam de – US$ 59 mil em 1981 para US$
16 mil em 1989.
De tais experiências apreende-se que, sob essas formas, os processos de colonização
favoreceram a especulação com terras. Muito embora seja necessário a distinção entre os que
a fizeram visando ampliação patrimonial e os que foram pressionados a fazer pela necessidade
de sobrevivência, levados pelas diversos fatores, inclusive pela circunstância de mercado.
Mas se em alguns projetos inclusive os colonos conseguiram, a partir de sua organização e
produção, valorizar o seu patrimônio, como o fizeram, pode-se imaginar os fazendeiros ao
redor destes projetos de colonização como o valorizaram. Neste sentido é que tem de ser
entendido o processo de especulação com terras: os proprietários obtém as terras quase sem
custo, os investimentos estatais em infra-estrutura garantem sua utilização produtiva, obtém-
se créditos subsidiados e incentivos fiscais e ao final o ativo ainda é revendido com ganhos.
Se ocorrer alguma produção esta também gerará rendas. Mesmo sem qualquer dos incentivos
os ganhos possíveis são grandes.
Mais recentemente Almeida empreendeu outro conjunto de pesquisas para verificar o
destino final das terras revendidas tanto pelos colonos dos projetos de colonização quanto
com os demais proprietários da região. Além disso buscava compreender os vínculos entre a
degradação ambiental (desmatamento) e a especulação com terras.. O conjunto de seu
argumento pode ser sintetizado na seguinte frase de Almeida e Campari (1995:83): "Portanto,
pequenos fazendeiros na fronteira Amazônica tendem a desmatar: os fazendeiros mais bem
sucedidos desmatam mais aonde se encontram; fazendeiros menos bem sucedidos desmatam à
medida que vão avançando. Enquanto isso, a terra, originariamente desmatada para a
utilização produtiva, vai se adicionando ao patrimônio de uma classe média não agrícola
local" 12 . A lógica de aquisição de terras na região consiste em deter a propriedade da terra
com o maior lucro possível e com os menores custos.

Considerações finais

Na proporção em que os projetos agropecuários passaram a projetar-se à sombra da


colonização, seguida por uma política fundiária perversa, agravaram-se os problemas de ordens
econômicas, sociais e ambientais da região.
O efeito devastador da opção desse tipo de política de colonização tem gerado os
seguintes problemas econômicos: projetos inviáveis e de baixa produtividade, desperdício dos
recursos financeiros e naturais e degradação ambiental. E socialmente esta colonização tem
acarretado êxodo rural, excedentes de mão-de-obra nas cidade e no campo e conflitos de terra,
sem mencionar o agravamento dos problemas urbanos nas cidades da região.

11
Situado na BR-364 Cuiabá-Rondônia), assentado na produção de seringueira, contavam ainda com
distribuição de mudas de café. Estes praticavam ainda a pecuária extensiva, atividade tradicional desenvolvida
na região.
12
Tradução livre de Bastiaan P. Reydon.

6
Os números oficiais do IBAMA, de 1998, mostram que na década 78/88 que ocorreu o
maior nível de desmatamento em toda a Amazônia legal, passando de 152.200km2 para 377.500
km2 . As imagens das derrubadas e queimadas naquela região produziram forte impacto na
opinião pública nacional e internacional. A ocupação desordenada e a falta de controle das ações
desenvolvidas pelas atividades dos grandes agentes econômicos são consensuais.
A elevação da produtividade agrícola do pequeno e médio produtor da Amazônia
requer a interferência do Estado. Assegurar as condições básicas de fixação do homem no
campo é resgatar uma dívida do passado em relação a clientela dos colonos carentes, hoje
certamente multiplicados. A realização de assentamentos planejados para atender a função
social da terra, ainda está a requerer providências. Até o momento, tem predominado o caráter
conservador do modelo agrícola brasileiro e permanecido a ausência de uma reforma agrária,
em todo o país.
Quase vinte anos após a realização de diversas experiências de colonização, salvo as
exceções, o resultado quanto ao desempenho é bastante desanimador. Os exemplos citados
nesse ensaio são ilustrativos dessa realidade. As variadas vocações econômicas (agrícolas e
florestais) da Amazônia devem ser consideradas para ampliar a noção de projetos de
colonização planejada.

Perspectivas Para a Amazônia

Em recente seminário na UNICAMP13 pode-se extrair proposições mais gerais na qual


a colonização cumpre um importante papel para garantir o desenvolvimento sustentável da
Amazônia. Para fins de intervenção a Amazônia deve ser dividida em duas áreas: a de
proteção e a de ocupação sustentável. Na primeira, que é constituída pelas florestas ainda não
destruídas e pelas áreas de proteção, devem ser estabelecidas políticas que garantam o uso da
floresta pelos "povos da floresta" através da extração sustentável e da produção de produtos
articulados com a sua preservação. Nas áreas já alteradas, onde inclusive vive a maior parte
das populações urbanas, há que se implementar políticas para se atingir o desenvolvimento
sustentável através da agrosilvicultura. Em ambas as áreas a colonização planejada, se bem
organizada e articulada poderá exercer um papel extremamente importante. Certamente isto
não seria possível nas condições atuais. Serão necessárias as seguintes intervenções da
sociedade e do Estado brasileiro para a viabilização destas propostas:

1. Política fundiária que reduza o uso especulativo da terra no conjunto do país - a


viabilização deste tipo de política 14 passa por transformações bastante significativas de
legislação e de organização do Estado. As principais medidas que fazem parte deste conjunto
de propostas são: a realização de Reforma Agrária com custos de desapropriação não
inflacionados pelo judiciário, intervenções via mercado de terras para sua democratização,
efetiva cobrança de ITR (imposto territorial rural), o fim da opção de obtenção de terras pelo
sistema de posse e a transformação do sistema de cartórios para o registro de imóveis, pelas
fraudes que tem permitido. Este conjunto de propostas visam basicamente diminuir a
demanda por terras para fins especulativos e consequentemente diminuir a demanda por terras
na Amazônia, evitando que ocorram absurdos como a existência de uma propriedade como a
de Cecílio do Rego Almeida 15 , que tem uma área igual a Holanda e Bélgica juntas no Pará,

13
Vide documento base de Romeiro, A e Reydon, B.(1998), que apontam a combinação de especulação com
terras associada à pecuária como a principal forma de se destruir a floresta tropical.
14
Vide Reydon,B. e Plata, L (1997) no qual são apresentadas esta políticas mais detalhadamente.
15
A manchete da Revista VEJA, n. 32, Jan/99, deixou o mundo inteiro perplexo, ao noticiar a
escandalosa aquisição de terras do Sr. CECÍLIO DO REGO ALMEIDA, “que tem uma área

7
que na realidade não lhe pertence. Sabe-se que este conjunto de propostas pelos diferentes
níveis de intervenção necessários não é simples. Há questões que requerem mudanças na
Constituição, outros apenas em Leis e outros ainda apenas de normas. Mas há que se iniciar
imediatamente antes que seja tarde demais.

2. O fortalecimento e reestruturação das políticas e das instituições públicas que


atuam na região – há necessidade de uma maior articulação entre as políticas dos órgãos
públicos assim como uma maior participação da sociedade organizada nas decisões de
governo gerando transparência na gestão de políticas públicas.
Um exemplo de uma melhor articulação interna ao Estado para diminuir o uso
especulativo da terra assim como diminuir o desmatamento e tornar a colonização uma
política adequada e não predatória, ocorre na definição de terra improdutiva para fins de
desapropriação e/ou pagamento de imposto territorial rural (ITR). Apesar das tentativas de se
desassociar a ocupação produtiva com o desmatamento, concretamente, os proprietários de
terras continuam desmatando para comprovar legalmente a utilização produtiva das terras.
Outro conjunto de mecanismos que não viabilizam o desenvolvimento sustentável da
região são os decorrentes da "privatização" das políticas públicas através do "loteamento" do
Estado. Tanto os governos estaduais quanto os órgãos como IBAMA e INCRA tem suas
políticas regionais freqüentemente definidas exclusivamente em função dos “loteamentos”
e/ou pelos critérios de apadrinhamento político. Isso têm contribuído para a "privatização" de
políticas públicas, quando entra em jogo os interesses fisiológicos de grupos econômicos,
utilizando-se dessas instituições. Os sistemas de licenciamento e fiscalização ambiental,
perante os danos ambientais praticados por grandes pecuaristas e madeireiras, ilustra esta
situação.

3. Integração das políticas dos governos Federal, Estaduais e Municipais da


região segundo a divisão entre áreas alteradas e de florestas – são as seguintes as
transformações necessárias para que as condições básicas estejam garantidas nas seguintes
políticas:
3.1. A reorientação de crédito - há que se destinar diferentes linhas de crédito segundo
produtos e produtores para as diferentes áreas. Nas áreas alteradas o reflorestamento e outras
atividades de agricultura, silvicultura e pecuária sustentáveis podem ser bem sucedidas
gerando emprego, renda para as populações que para lá se dirigiram. Nas áreas de floresta há
necessidade de políticas para viabilizar formas de extrativismo e de produção de bens e
serviços da floresta.

3.2. Assistência técnica diferenciada – por tipo de produtor e segundo área de floresta e
degradada. Para os projetos de colonização há que se ter uma assistência técnica diferenciada.
Além disso o conjunto da assistência técnica da região deveria levar mais em conta o
equilíbrio ecológico e a manutenção da fitobiodiversidade, ao invés de buscar exclusivamente
o máximo de produção e/ou de produtividade, evitando assim maiores pressões sobre o
ecossistema em geral e a floresta Amazônica em particular.

3.3. Política específica de Reconversão das áreas degradadas – Para diminuir pressão em
áreas de cobertura florestais as atividades agro-florestais ou agropecuário de pequeno e médio
porte, necessita-se de critérios pré-estabelecidos para sua implantação. Estas vão desde a
seleção do solo adequado para o desenvolvimento agrícola, a seleção dos grupos que irão

igual à da Holanda e da Bélgica na selva amazônica. Como empreiteiro virou o maior


latifundiário do país, ocupando terra alheia no Pará”, segundo a manchete de capa da revista..

8
ocupa-la, até o aproveitamento dos recursos e da atividade econômica a ser realizada. Tais
medidas exigirão um reordenamento fundiário específico da região Amazônica, na medida
que a maior parte das áreas degradadas estão ocupadas por propriedades improdutivas ou com
produção ambientalmente inadequada para a região.

4. Outros – medidas não menos relevantes, merecem profunda atenção, tais como:
reavaliação significativas na atual estratégia de integração terrestre da região a partir de
grandes eixos de penetração, sobretudo rodoviários; medidas que incorporem o valor
econômico das florestas no custo de produção dos que a desmatam; elevação do custo de
oportunidade do trabalho, através de políticas agrárias no restante do país, que acabe com a
pressão migratória para a região; delimitação das áreas para utilização pela pecuária etc.

Bibliografia
ALMEIDA, Anna L. Ozorio & Santos, Charley F. Velloso (1990). “A Colonização Particular
na Amazônia nos Anos 80” – Texto para discussão n° 208 – IPEA.
ALMEIDA, Anna L. Ozorio & Santos, Charley F. Velloso (1990). “A Colonização Oficial na
Amazônia nos Anos 80” – Texto para discussão n° 207 – IPEA.
ALMEIDA, A.L.O. E CAMPARI, J.S. (1995) Sustainable Settlement in Brazilian Amazon.
Education and Social Policy Department. The World Bank. July 1994. Washington.
Mimeo.
FEARNSIDE (1995) Agroforestry in Brazil's Amazonian Development Policy: the role and
limits of a potential use for degraded lands. In: Brazilian Perspectives on Sustainable
Development of the Amazon Region. Clusener-Godt and Sachs (ed.) Vol. 15. Man and
The Biosphere Series. UNESCO.
HALL, A. (1987). Agrarian crisis in Brazilian Amazonia: the Grande Carajás
Programme. Journal of Development Studies, v. 23, n. 4, jul.
________. (1990). Land tenure and land reform in Brazil. In: PROSTERMAN, R.L. et
al., ed. Agrarian reform and grassroots development. Boulder, Co.: Lynne Rienner
Publ.
HÉBETTE, Jean & ACEVEDO, Rosa (1979). Colonização para Quem? Universidade Federal
do Pará – NEA, série Pesquisa ANO I, n° 1.
HECHT, S. B. (1985). Environment, development and politics: capital accumulation and
livestock sector in Eastern Amazonia. World Development, Great Britain, v. 13,
n. 6, p. 663-84.
HECHT, S.B. (1989). The Sacred Cow in the Green Hell: Livestock and Forest Conversion in
the Brazilian Amazon. In: The Ecologist.vol.19 n.6 November/December. Cornwall, UK.
IANNI, (1979:77). Ditadura e Agricultura. Ed. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro.
MAHAR, D. J. (1989). Government policies and deforestation in Brazil´s Amazon
Region. Washington, DC: World Bank.
MONBEIG, P. (1984). Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. São Paulo: Hucitec/Edit.
Polis.
REYDON, B. P. (1984). A política de crédito rural e subordinação da agricultura ao
capital, no Brasil, de 1970 a 1975. São Paulo: USP. ESALQ. (Dissertação de
Mestrado).
________. (1992). Mercados de terras agrícolas e determinantes de seus preços no
Brasil: um estudo de casos. Campinas,SP: UNICAMP.IE. (Tese de Doutorado).

9
REYDON, B.P. E HERBERS,S R. (1989). Política Ambiental para a Agropecuária na Amazônia
e Degradação do Meio Ambiente, in Reforma Agrária. Boletim da ABRA, vol. 19 n. 1
pp. 42 a 52. Campinas.
REYDON, B. P & PLATA, L. A (1997). La Intervención en el Mercado Brasileño de Tierras:
Situación y Perspectivas. Documento apresentado no Seminário sobre “Mercado de
Tierras Efectivos en América Latina: Hacia uma Nueva Estratégia”, apoiado pelo BID
e Instituto Internacional de Investigação em Políticas Alimentares.
ROMEIRO, A e REYDON, B. Desenvolvimento da Agricultura Familiar e Reabilitação da
Terras Alteradas na Amazônia. UNICAMP. 1998. Campinas.
SCHMINK, Marianne (1981). A Case Study of the closing Frontier in Brazil. Centro para
Estudos Latino Americano, Universidade da Flórida.
SILVA, Darcy da. Colonização e Zonas Pioneiras, in: Anais da Associação dos Geográfos,
Vol. XVIII, São Paulo, 1973, p. 197/98.

10