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Introdução

A filosofia deve ser contemplada na formação dos educadores. Não há
necessidade de argumentar a respeito. É necessário, porém, debater e apontar
temas que devem compor o conjunto de estudos da formação filosófica do
educador e os que é preciso investigar na área. Este texto identifica estudos
produzidos nos últimos 30 anos que caminham em ambas as direções.

CONTEUDOS NAS PESQUISAS E NO ENSINO DA FILOSOFIA DA
EDUCAÇÃO NO BRASIL.

Tendências que nas pesquisas em Filosofia da Educação no Brasil e que
podem ser vistas na produção de três pensadores (Antônio Joaquim Severino,
Dermeval Saviani e Moacir Gadotti) que tiveram e ainda têm grande influência
na área em nosso País. Há especificidades em cada um e aspectos que os
aproximam.
Como se notará em seguida à apresentação de suas idéias, há a presença
delas nos pesquisadores mais recentes e há novidades surgindo.

Três pensadores que marcam o encaminhamento dos estudos em Filosofia da
Educação no Brasil
Antônio Joaquim Severino indica os temas próprios da Filosofia “da” Educação
e os temas da Filosofia “sobre” a Educação, conforme ele diz. Incluímos temas
próprios da Filosofia da Educação o que denomina de “plano de uma meta
reflexão sobre a Filosofia da Educação que busca elucidar o significado da
área como exercício epistêmico” (Severino, 2002, p. 319). Os temas que
propõe como necessários no âmbito da Filosofia da Educação perpassam toda
a sua obra sendo reiterados em textos desde o início da década de 1980 até os
dias de hoje. Dentre eles os seguintes: o ser humano e o significado de sua
existência (âmbito da antropologia filosófica); o conhecimento (âmbito da teoria
do conhecimento); os valores e o processo de valoração, especialmente a
valoração relativa às ações (âmbito da axiologia e mais especificamente da
ética); as relações sociais e, nelas, as relações de poder (âmbito da filosofia
social e política); o fato da alienação ideológica; o fato da historicidade da
realidade e das realizações humanas nela, bem como da historicidade da

na formação do jovem. É por isso que a Filosofa da Educação deve ser entendida antes de qualquer coisa como uma reflexão sobre os valores. No tocante a esta última há sempre a afirmação da opção pela postura histórico social em contraposição às outras duas. idem. com um grande peso na elaboração do pensamento educacional brasileiro nos últimos trinta anos. (SAVIANI. o efeito dessa apropriação dogmatizada da experiência filosófica se fez presente na condição da Filosofia da Educação como um componente meramente curricular em que não se “estimulava a investigação e a reflexão crítica sobre a natureza dos processos educacionais bem como da natureza da Filosofia da Educação e de suas competências e atribuições” (SEVERINO. mais recentemente. publicado em Educação: do senso comum à consciência filosófica (1980. exigente. Não lhe escapa. 2003. principalmente em obras mais recentes o tema do papel da filosofia na formação do educador e. a análise das posturas metafísicas ou essencialistas. das naturalistas e das histórico-sociais. 2004. Por exemplo. rigorosa e de conjunto) sobre os problemas que a realidade educacional apresenta”. (idem. O de Filosofia “como reflexão (radical. “a nossa experiência filosófica não foi aquela de um pensamento crítico. p. (SEVERINO. 277).” Segundo o autor. rigorosa e de conjunto) sobre os problemas que a realidade apresenta”.própria constituição do humano. p. 27). questionador.. a Filosofia da Educação só se legitimará ao apoiar-se exatamente nos fundamentos que representam a condição de radical historicidade e de sociabilidade da educação. […] Sua questão central dessa perspectiva axiológica é aquela dos fins da educação. Na verdade. principalmente os valores éticos e políticos que possam “nortear” a prática educacional. a questão do educar para quê. que deve ser entendida como necessariamente inserida nas coordenadas do tempo histórico e do espaço social. . Caberia então à Filosofia da Educação explicitar os valores. Severino (1999. 320). p. p. Ao mencionar alguns dos “problemas” da realidade educacional aponta direções para a pesquisa.. p. 17-30). referendado. autoritária e ideologizada. ibidem).. sob formato escolasticizado. no texto A filosofia na formação do educador. p 277) explica a ausência de uma tradição de pesquisas na área da Filosofia da Educação citando a forma como se deu a incorporação da cultura filosófica no Brasil: “dogmática. 1999. aponta o que entender por Filosofia da Educação e qual deve ser seu campo de pesquisa e ensino. apresenta dois entendimentos que estão presentes em muitos pensadores da área da Filosofia da Educação. (SEVERINO.” (Ibid. p. uma vez que a educação é eminentemente uma prática lastreada em valores. E o de Filosofia da Educação: “Esta não seria outra coisa senão uma reflexão (radical. Já em 1973. 277). 29). Para ele. mas muito mais aquela de um pensamento legitimador. Dermeval Saviani.

1979.. etc. a filosofia só terá sentido na medida em que nos permitir explicitar a problemática educacional. p.” (idem. 1980. é possível redefinir objetivos para a educação brasileira? Quais os condicionamentos da atividade educacional? Em que medida é possível superá-los e em que medida é preciso contar com eles? (idem. 10-11). fragmentário e superável das ideologias... a relação entre teoria e prática (como a teoria pode dinamizar ou cristalizar a prática educacional?). (SAVIANI. às inovações. tais como: informar-se sobre a situação da educação e desenvolver uma reflexão crítica problematizando aspectos dessa situação. como. Se estamos preocupados com a filosofia da educação. e do educador enquanto filósofo face à educação. 30). valor e limites da educação. p. . Ou ainda outros problemas como o esvaziamento da importância da reflexão e do ato de pensar e se perguntar ainda se “é possível uma filosofia da educação? Qual é o seu sentido? Tem ela alguma coisa a dizer. Em seguida aponta tarefas para a investigação filosófica sobre a educação. em Idéias diretrizes para uma filosofia da educação (1979). procurando descobrir quais os aspectos que ela comporta. Moacir Gadotti. é de saber se a educação tem um fundamento. às concepções e doutrinas pedagógicas. a dar. em nome de quê? Sua tarefa limita-se ao exame crítico? (idem. (GADOTTI. 17). quais as suas exigências referindo-as sempre à situação existencial concreta do homem brasileiro. o da finalidade da educação ou o da existência de antropologias e de ideologias “subjacentes aos sistemas educacionais. a possibilidade. Em assim começando o trabalho da investigação filosófica sobre a educação. legitimidade. indica “tarefas para a filosofia da educação” que são iniciadas com o buscar saber sobre a educação: “Por que e para que o homem precisa educar-sé? Isto quer dizer que a primeira preocupação do filósofo. para a solução dos problemas encontrados? Por que. o conflito entre “filosofia de vida” e “ideologia” na atividade do educador. p. tem raízes. 34). à prática da educação.quando diz que se a educação tem como visada o ser humano. Se ela ocultar a problemática educacional não estará contribuindo para preencher a sua própria função e como tal estará se traindo enquanto filosofia. às reformas. 1979. a necessidade da opção ideológica e suas implicações. a relação entre meios e fins na educação (como usar meios velhos em função de objetivos novos?). p. p. e o conflito entre diferentes ideologias. 10). “ é conveniente começar por uma reflexão sobre a realidade humana. outros problemas surgirão como os que indica: . o caráter parcial.

pois só a partir daí é que se pode pensar filosoficamente a educação. Gadotti menciona temas como: o sentido da educação. são apontados com ênfase por Severino como os estudos nos âmbitos da teoria do conhecimento. segundo Severino e Saviani. p. o do limite. 179-180). 2002. Nos textos analisados. Gadotti propõe iniciar pela questão sobre a destinação da educação e sobre porque o homem se educa. Saviani. necessidade de investigação sobre posturas antropológicas e ideológicas presentes na educação. para sobre eles erigir um saber educacional”. Nega que a filosofia da educação deva ser um dos fundamentos da educação se. à necessidade de entender a “Filosofia da Educação como esforço para o desvendamento do sentido da educação no contexto do sentido da existência. Gadotti diz isso na primeira tarefa que indica à Filosofia da Educação (1979. Essas afirmações podem ser questionadas ou retomadas e até ressignificadas. além da reflexão sobre a realidade humana. o que pressupõe a indicação de uma ontologia não metafísica e nem naturalista mecanicista e sim histórico-social e dialética com ênfase no agir humano entendido como práxis. A par destes enfoques. os demais próprios da investigação filosófica. como tal. p. mas a filosofia não pode ser reduzida a ela. tomando-se o texto de Sívio Gallo: “Notas deleuzianas para uma filosofia da . o tema dos objetivos da educação e o da relação entre teoria e prática. 179).Os três pensadores indicam caminhos para as investigações da Filosofia da Educação. o da relação entre meios e fins. 10). mas refere-se. Severino não utiliza essa expressão. p. bem como o sentido e possibilidade de uma Filosofia da Educação. é o de indagar sobre o ser humano e sobre o sentido da educação. Um primeiro deles. possibilidade e legitimidade da educação. a afirmação de que cabe à reflexão filosófica colocar-se à escuta da educação. ou que é de responsabilidade da Filosofia da Educação estar atenta à realidade da prática educativa. (p. A reflexão é necessária. Enfatizam que o estudo do ser humano somente pode ser feito na concretude de sua realidade histórica e social. ela se torna uma “busca dos conceitos produzidos por filósofos ao longo da história. da axiologia com ênfase na ética e na política e da reflexão sobre a educação propriamente dita como âmbito que precede e se imbrica nos demais. 181). Na visão de Gallo “nada mais pobre e reducionista para a filosofia da educação do que tomá-la como reflexão sobre a educação” (2002. diz. com freqüência. aponta os seguintes temas: o da ideologia. (GALLO. o que se assemelha às idéias de Saviani já mencionadas acima. A afirmação é feita referindo-se a certa tradição da filosofia da educação no Brasil que a entende como “reflexão sobre os problemas educacionais”.

indica que. “Não só. p. com quem concorda. 2002. pois. p. de acordo com Deleuze. 182). Gallo propõe um encontro possível entre filosofia e educação. Para fazê-lo. p. 179). após expor idéias de Deleuze e Guattari sobre a Filosofia como “criação de conceitos”. 2002. nos termos deleuzianos o filósofo da educação deve ser aquele que cria conceitos e que instaura um plano de imanência que corte o campo de saberes educacionais.” (GALLO.educação”.157-184). Nele.. 2002. . publicado em O que é Filosofia da Educação (GHIRALDELLI. procurando ficar “[…] apenas nos limites da Filosofia da Educação […]” (GALLO. Jr.

Ao explicitar. E esses problemas circunscrevem o âmbito da reflexão filosófica e são por ele circunscritos. todos indicam que é a realidade da educação que deve merecer a visada do pensamento filosófico: uma visada de dentro dessa realidade e disponível para tomar as feições que se vão configurando. Há problemas não vistos ou ainda não circunscritos. mas de intencionalizar. Cabe à filosofia da educação tomar e retomar as problemáticas que aí estão. . Não se pode pensar. sem empobrecê-la no limite do que apenas se diz e constata. Considerações finais Os autores citados concordam que não se faz filosofia sem o chão do existir e que. por isso mesmo. sim. Os pontos de partida de cada um deles podem ser diversos paracaracterizar o filosofar e. a reflexão para pensar as questões educacionais. em estando. que seja impossível ou descabido propor ou indicar temáticas que devam merecer a visada da filosofia da educação. ainda que partindo dela muitas vezes. Há sempre novas possibilidades que só a ação acompanhada filosoficamente pode vislumbrar. por conseguinte. diz ele. Claro que somente a reflexão não basta nem se trata de buscar fundamentos para a educação. pois múltiplas são as possibilidades. a seguir. de alguma maneira. Entretanto. a filosofia da educação. utiliza. Só é possível a filosofia da educação “no dentro” das questões ou dos problemas da educação. quanto ao que reconsiderar e quanto a saber contar com o inesperado. a educação – pelo menos naquele plano –. visto que tudo resulta de múltiplas relações que se constroem historicamente. A história do acontecer da humanidade é sempre lição a ser aprendida: há lições quanto ao que considerar. não se faz filosofia da educação à revelia da concretude da educação. o que significa instaurar esse plano de imanência criando conceitos. Gallo indica que o filósofo da educação deve ser alguém que está à escuta da educação e que. É necessário superar a doxografia. contudo.

Referências .