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Gêneros Televisivos

Unidade 2: Gêneros e Práticas Sociais
Na tradição ocidental, a expressão “gênero” sempre esteve ligada à literatura. Hoje, quando se
aborda a questão dos “gêneros”, no geral, está se falando de modelos comunicativos. Estes
modelos servem tanto para orientar o falante/escritor com relação à produção de textos como para
criar uma expectativa no ouvinte/leitor sobre a interpretação destes mesmos textos. Assim, os
gêneros operam prospectivamente como geradores de expectativas de compreensão mútua,
abrindo o caminho da produção e da interpretação textual. Por exemplo:
Do ponto de vista da produção: Num processo seletivo de concurso, alguém só
terá sucesso na escrita de uma carta de apresentação se tiver em mente qual o
objetivo deste tipo de texto e qual o modelo a ser seguido. Se estas condições
não forem conhecidas, a pessoa corre o risco de dar informações irrelevantes à
banca de seleção podendo até mesmo a se prejudicar no concurso.
Do ponto de vista da interpretação: Quando alguém diz “Vou contar uma piada”
o ouvinte cria uma expectativa do tipo de texto que será produzido, cujo
resultado final é o efeito de humor.

O gênero se constitui, portanto, em ponto de ancoragem do acordo comunicativo. Segundo
Bronckart (1999, p. 103), “a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de
socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”.

Marscuschi (2002) afirma que os gêneros são fenômenos históricos, profundamente vinculados à
vida cultural e social. São entidades sócio-discursivas e formas de ação social incontornáveis em
qualquer situação comunicativa. Assim sendo, é impossível se comunicar verbalmente a não ser
por algum gênero.
Marscuschi (2002) lembra ainda que, sendo fruto de trabalho coletivo, os gêneros contribuem para
ordenar e estabilizar as atividades comunicativas do dia-a-dia. No entanto, mesmo apresentando
alto poder preditivo e interpretativo das ações humanas, eles não se caracterizam como formas
estruturais estáticas e acabadas. Neste sentido, sustenta o autor, não podem ser definidos
mediante certas propriedades que lhe devam ser necessárias e suficientes. Por exemplo, uma carta
pessoal ainda é uma carta, mesmo que o remetente tenha se esquecido de datar e assinar o nome
no final. Uma publicidade pode ter o formato de um poema ou de uma lista de produtos em oferta;
o que conta é que divulgue os produtos e estimule a compra por parte dos clientes ou usuários
daquele produto.
Os gêneros não são instrumentos estanques e enrijecedores da ação criativa. Ao contrário, são
altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos. Bakhtin (1979: p. 81) já dizia que “o gênero sempre é
e não é o mesmo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo.” Os gêneros surgem emparelhados a
necessidades e atividades sócio-culturais, bem como na relação com inovações tecnológicas. Sendo
fenômenos sócio-históricos e culturalmente sensíveis, não há como fazer uma lista fechada de

o gênero mantém com as práticas uma relação dialética de conservação e subversão. Neste sentido é que Adayr Tesche (2006) afirma que o sistema de convenções . Ao mesmo tempo em que as práticas retomam os gêneros. há na TV brasileira outros programas que se assemelhem a esses que você se recorda? O que eles têm de semelhante com os programas do passado? O que têm de diferente? Uma busca na internet lhe permite encontrar uma série de site sobre programas de TV antigos. Por exemplo. há uma tendência de certa hibridização dos gêneros na TV. já que o predomínio da função supera a forma na determinação do gênero. Pare e Pense Você se recorda de algum telejornal. Segundo o autor. Em princípio. a demanda de inovação de produtos midiáticos. no decorrer de sua história. Esta violação de cânones subvertendo o modelo global de um gênero pode ser visualizada num diagrama tal como este: Qualquer telespectador não imaginará que as notícias veiculadas em Casseta e Planeta são verdadeiras. possibilidades e restrições que regem o próprio funcionamento do meio. promovem uma mútua reconfiguração. Adayr Tesche (2006) sustenta que o gênero é uma espécie de substrato das práticas midiáticas. Hoje. subgêneros e formatos. Assim. as condições de reconhecimento e. a necessidade de flexibilidade dos gêneros é uma exigência da interação entre gênero e mídia para garantir. apud Marcuschi 2002) usa a expressão “intertextualidade inter-gêneros”para designar o aspecto da hibridização ou mescla de gêneros. assim como surgem. cujas estratégias. por exemplo. de um quadro do programa de humor Casseta e Planeta (Rede Globo) em que se simula a exibição de um telejornal para se fazer graça com as notícias. isto não deve trazer dificuldade interpretativa.todos os gêneros e. por um lado. A questão da intertextualidade inter-gêneros evidencia-se como uma mescla de funções e formas de gêneros diversos num dado gênero. Ursula Fix (1997. novela. seriado ou qualquer outro tipo de programa de TV antigo? Atualmente. podem desaparecer. por outro. configurações e regularidades adéquam-se aos princípios e lógicas. a televisão vem constituindo seus gêneros. É o caso. atrelada às suas condições de produção e ao próprio desenvolvimento dos meios técnicos. série. pois conhece tanto a dinâmica de codificação de um telejornal quanto de um programa de humor.

institucionalizado pela ação da mídia instrumentaliza o público para assimilar os gêneros como produtos situados num horizonte de expectativas bem delineado. 1966) que delimitam as fronteiras de cada programa. Goffman. os gêneros são fundamentais para a compreensão das molduras (cf. Unidade 2: Gêneros e Práticas Sociais . São convenções que criam suas próprias dinâmicas e não codificações rígidas da maneira como as coisas devem ser. Assim. O que as reveste de especial importância é o fato de que elas dizem como as coisas deveriam ser.