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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

EXCELENTÍSSIMA SENHORA JUÍZA DE DIREITO DA COMARCA DE
MODELO

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA
CATARINA, pelos Promotores de Justiça ao final assinados, com
fundamento nos arts. 127 e 129, III, da Constituição da República,
bem como nos arts. 42, parágrafo único; 82, I; e 91 do Código de
Defesa do Consumidor e no art. 5º da Lei nº 7.347/85, propõe AÇÃO
CIVIL

PÚBLICA,

em

defesa

dos

direitos

e

interesses

dos

consumidores, em face de:
COOPERATIVA

DE

ELETRIFICAÇÃO

E

DESENVOLVIMENTO RURAL VALE ARAÇÁ - CERAÇÁ, pessoa
jurídica

de

direito

83.086.603/0001-85,

privado,
domiciliada

inscrita
na

no

rua

CNPJ
Miguel

sob
Couto,

o


245,

Saudades/SC.
1. Objetivo da ação
Esta ação civil pública tem por objetivo obter provimento
jurisdicional que condene a requerida à devolução em dobro das
multas cobradas abusivamente de seus consumidores desde a data
da publicação da Lei nº 9.298/96, que limitou a multa moratória em
2% sobre o valor da obrigação.

1

apesar de ultrapassarem os limites territoriais de uma comarca ou de um Estado Federado. Vale transcrever o entendimento de Álvaro Luiz Valery Mirra: “Nas hipóteses de degradações ambientais que. no entanto. Para efeitos de analogia. 2.gov. porque afeta apenas quatro comarcas da região Oeste do Estado de Santa Catarina. a regra a ser aplicada é a do art.347/85. 2º da Lei nº 7.sc.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA Tem também por objetivo vê-la condenada ao pagamento de danos extrapatrimoniais coletivos. o dano não chega a ser regional. 2 . Competência Dispõe o art.br. 93 do Código de Defesa do Consumidor ser competente para ações coletivas o juízo de direito do local do dano. Nessa situação. 219 do Código de Processo Civil). mas também não há dano regional. em que não há dano meramente local. conforme informação contida na página www. considerandose como competentes os juízes de cada um dos foros cujos 1 Santa Catarina é dividida em 36 secretarias regionais de desenvolvimento. no caso de dano local (inciso I). em valor que faça frente à gravidade da lesão e ao desrespeito à ordem jurídica perpetrado pela requerida. não tenham abrangência estadual ou nacional. totalizando dez cidades. No caso dos autos. na comarca afetada em que ocorrer a primeira citação válida (art. quando o dano tiver caráter regional ou nacional (inciso II). ensina a doutrina que a competência é fixada por prevenção. ou o da capital do Estado ou o Distrito Federal. o dano não engloba sequer o conceito de “regional” utilizado na divisão administrativa do Governo Estadual1.

Ação Civil Pública. 73. não sendo o dano de âmbito propriamente regional. Como prestadora do serviço de energia elétrica que é. mas estendendo-se por duas comarcas. mediante contrato com seus consumidores. p. em concreto e em definitivo. com a fixação. Sul Brasil e São Miguel da Boa Vista. São Carlos. tem-se entendido que a competência concorrente é de qualquer uma delas”. atua normalmente na geração. Modelo. Ada Pelegrini Grinover tem posicionamento semelhante: “No entanto. por provocação do Promotor de Justiça Miguel Luís Gnigler. percebeu-se que vinha a Ceraçá cobrando indevidamente multa moratória no percentual de 10% do valor do débito.347/85 – 15 anos – Coordenação: Édis Milaré. – Lei nº 7. Assim. da competência de um deles para conhecer e julgar a demanda pela prevenção”2. 3. em afronta à legislação vigente. Maravilha. construção. operação de linhas e distribuição de energia elétrica. Síntese fática A Cooperativa de Eletrificação e Desenvolvimento Rural Vale do Araçá – Ceraçá – tem por objetivo o fornecimento de energia elétrica nas áreas rurais dos municípios de Saudades. 2001. Cunha Porã. 3 . Nova Erechim. 2 Ação civil pública em defesa do meio ambiente: a questão da competência jurisdicional. Pinhalzinho. Serra Alta.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA territórios se encontram sujeitos ao dano. no entanto. que passava férias com familiares em Cunha Porã. Em 6 de fevereiro de 2007. não havendo até o momento ação proposta em qualquer das outras comarcas atingidas. manutenção. São Paulo : Revista dos Tribunais. não há óbice ao conhecimento da causa na Comarca de Modelo.

298/96.003. Propôs-se. a assinatura de Compromisso de Ajustamento de Conduta (minuta anexa). considerando hipoteticamente a constância de inadimplemento e do número de consumidores. do Código de Defesa do Consumidor à devolução em dobro de todos os valores cobrados abusivamente durante todo o período contratual. a Cooperativa informou que em março de 2007 reduziu a multa para 2%. pelo número de meses de cada ano (doze). parágrafo único. 3 Para a estimativa tomou-se o valor inicialmente estimado para três meses (R$ 5. então.267. conforme disposição expressa do art.000. 4 . 42. que deu nova redação ao §1º do art. 52 do Código de Defesa do Consumidor para limitar a multa moratória ao percentual de 2% sobre o valor do débito. não bastaria apenas se adequar para futuras ocorrências.267. “tendo em vista adequação ao artigo 52. De posse dos dados.86) e dividiu-se pelo número de meses para se ter o valor mensal de R$ 1. o que. Este último valor foi multiplicado pelo número de anos em que está em vigor o limite de juros de 2% (dez anos). constituindo a Ceraçá na obrigação de devolver em dobro os valores cobrados indevidamente.755. permite estimar o valor cobrado a mais em aproximadamente R$ 210. instaurou-se na Promotoria de Justiça desta Comarca de Modelo procedimento investigativo que confirmou que a Cooperativa Ceraçá jamais respeitou o limite fixado pela Lei nº 9.86. do Código de Defesa do Consumidor”. Os consumidores do serviço distribuído pela requerida têm direito. estimou-se o valor cobrado a mais nos meses de janeiro a março de 2007 em R$ 5.95. §1º.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA Instada a se manifestar sobre a ilegalidade pelo Centro de Apoio Operacional do Consumidor. Evidentemente. Em avaliação preliminar.

De fato. 4. motivo pelo qual não resta outra opção à obtenção do direito dos consumidores da microregião em que opera a Cooperativa se não a propositura desta ação civil pública. VI). dito de outro modo.078/90 adotou o direito brasileiro o princípio da vulnerabilidade do consumidor (art. Vulnerabilidade do consumidor Com a edição da Lei nº 8. 4º. técnico e até mesmo político do fornecedor. verdadeira “espinha dorsal”4 do sistema protetivo e princípio sobre o qual se assenta toda a linha filosófica do movimento que culminou com a edição do Código de Defesa do Consumidor. João Batista de. a parte que se apresenta frágil e impotente diante do poder econômico.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA em prazo razoável a ser negociado entre o Ministério Público e a empresa. 2003. É. I). Manual de direito do consumidor. 6º.1. 5 . não há outra forma de encarar atualmente as relações entre consumidor e fornecedor sem se atentar para o fato de que o consumidor é a parte mais fraca das relações de consumo. p. 4 ALMEIDA. A Cooperativa. 15. coletivos e difusos” (art. individuais. Direito 4. negou-se a firmar o Compromisso de Ajustamento de Conduta. São Paulo : Saraiva. no entanto. Pautado por este princípio é que o Código de Defesa do Consumidor definiu como direitos básicos do consumidor o direito “à efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais.

por conta de portaria do extinto DNAEE (Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica. 52 do Código de Defesa do Consumidor. tem função dissuasora evidente. até julho de 1996 a multa aplicada era de 20% sobre o valor do débito. Na ocasião. os documentos obtidos pelo Ministério Público comprovam que de fato houve cobrança excessiva de multa moratória. acrescido de correção monetária e juros legais. sempre atento à singular vulnerabilidade do consumidor. 6 . a Cooperativa reduziu a multa moratória para 10%. por valor igual ao dobro do que pagou em excesso. em que além do mero dano patrimonial houvesse cobrança indevida. o art. 42 do Código: “O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito. além da disposição genérica. Como demonstra cópia da ata da reunião do Conselho de Administração da Cooperativa Ceraçá.2.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA E. A própria requerida reconhece este fato. tanto é que. Na verdade. para casos especiais. previu a Lei nº 8. além de equilibrar as forças do jogo econômico. salvo hipótese de engano justificável”. A regra consta literalmente no parágrafo único do art.078/90 a obrigação de devolução em dobro do valor cobrado em excesso. como é corrente no mundo todo. instada a prestar informações a respeito. Ou o fornecedor acerca-se de todas as garantias ao cobrar uma dívida de consumidor ou. de imediato limitou a multa ao disposto no §1º do art. 3. acrescido de correção e juros legais. 42 do Código de Defesa do Consumidor. Cobrança indevida No caso dos autos. será apenado pela devolução do dobro do que recebeu. sucedido pela Aneel).

ciente das implicações decorrentes deste fato. que promoveu a alteração do §1º do art.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA No entanto. de 22 de dezembro de 1987. assim. foram cobrados em quantias indevidas desde então. de 4 de dezembro de 1996. como é o caso do senhor Egon Schwertz. 73 da Portaria nº 222. Os cálculos constantes dos autos. ainda assim a cobrança era considerada excessiva pelos próprios atos normativos aplicáveis ao setor de distribuição de energia elétrica. 7 . passaram. já por conta da estabilização econômica promovida pelo Plano Real. a R$ 40. em 2 de agosto de 1996. Como determinou a Portaria nº 438. para se tomar exemplo aleatório. entrou em vigor no Brasil a Lei nº 9.74. departamento federal ao qual estava subordinada a Cooperativa. arriscar. pelo comportamento da Cooperativa.298/96. Todos os seus consumidores. e manteve a multa no patamar fixado até os dias de hoje. deveria a Cooperativa Ceraçá adequar-se à legislação regente e reduzir a multa ao índice fixado na legislação. A partir desta data. do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica. como é infelizmente comum no Brasil. realizados pela própria empresa em atendimento a requisição do Ministério Público. demonstram a gravidade da situação. 52 do Código de Defesa do Consumidor para fixar como limite à multa moratória o percentual de 2%. Multas que deveriam ser de no máximo R$ 8.15. Preferiu. Centenas de outros consumidores encontram-se na mesma situação. portanto. “a multa por atraso de pagamento da fatura de energia elétrica de que trata o art. Mesmo que não considerasse a Cooperativa aplicável à época o limite de multa imposto pelo Código de Defesa do Consumidor.

298/96 4 de dezembro de 1996 Portaria nº 438/DNAEE 6 de março de 2007 Ofício não numerado – Ceraçá Conteúdo Fixa máximo da multa ao consumidor de energia elétrica em 10% Reduz multa aplicada aos consumidores de energia elétrica para 10% Altera Código de Defesa do Consumidor e fixa máximo da multa em 2% Fixa máximo da multa ao consumidor de energia elétrica em 2% Informa ter reduzido a 2% o valor da multa ao consumidor de energia elétrica 3. E isso já em 1996! 8 .MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA estará limitada ao percentual máximo de 2% para todos os consumidores de energia elétrica” (cópia anexa). como também a Portaria nº 438/96/DNAEE. E – vale recordar – embora tenha a Ceraçá demonstrado grande atenção às portarias do DNAEE.3. Não só o Código de Defesa do Consumidor. o mesmo não fez com relação à Portaria nº 438/96. que determinou a redução da multa para 2%. já que reduzira de 20% para 10% a multa por força da Portaria nº 210/96. Veja-se. O quadro abaixo demonstra a sucessão dos eventos: Data 13 de junho de 1996 Ato Portaria nº 210/DNAEE 11 de julho de 1996 Ata nº 273/CERAÇÁ 2 de agosto de 1996 Lei nº 9. portanto. Engano injustificável A sucessão de atos normativos aplicáveis à Ceraçá por si só já demonstra o quão injustificável foi sua conduta. que não só o Código de Defesa do Consumidor previa o limite de 2%. mas também atos normativos do DNAEE obrigavam-na a limitar a multa moratória em 2%.

5 EFING. como é evidente. 216.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA Não se tem “engano”. o direito de reaver tal valor. A regra do CDC quanto ao valor cobrado indevidamente é precisa. com setor jurídico e contábil hábeis o suficiente para terem identificado a irregularidade a tempo. o entendimento de Antônio Carlos Efing. Amolda-se analogicamente ao caso dos autos. em dobro. É que. indevidamente cobrado (pessoa física ou jurídica). São Paulo: Revista dos Tribunais. 2000. Luiz Antônio Rizzatto Nunes entende que há ainda outras limitações à justificativa a ser apresentada pelo fornecedor. p. Contratos e Procedimentos Bancários à luz do Código de Defesa do Consumidor. para quem “em se tratando de instituição financeira. A justificativa só será válida: a) se não houve por parte do consumidor cobrança extrajudicial do valor a repetir. 9 . b) se. tudo voltado única e exclusivamente para o fim de auferir maior rendimento com a atividade. o credor deposita incontinenti o valor cobrado. calculado até a data do efetivo pagamento”5. atualizado e acrescido de juros legais. em detrimento do consumidor. não se pode admitir que incorra em ‘engano justificável’ quando cobra valor maior que o devido pelo consumidor. não comportando outra interpretação senão conferir ao consumidor. mas ato dolosamente contrário à legislação pertinente praticado deliberadamente pela Cooperativa. Antônio Carlos. a Cooperativa Ceraçá – e isso demonstram seus atos constitutivos e a relação de veículos de sua propriedade – é empresa suficientemente organizada. portanto. portanto. detentora de estrutura contábil e pessoal especializada em cálculos. não tendo havido cobrança amigável e ao ser citado no processo. ainda que no quantum singelo6.

MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA No caso dos autos. No entanto. por evidência. p. sem admitir qualquer excludente. precedentes jurisprudenciais que reforçam a validade da fundamentação até aqui exposta. 6º. VIII). “a prova da justificativa para o engano é. 7 Idem. Luiz Antônio Rizzatto. ônus do credor [fornecedor]”7. 6 NUNES. como lembra Rizzatto Nunes. De qualquer forma. a Ceraçá preferiu se negar a aceitar o evidente e. 75). 511. também. Os casos demonstram que os tribunais brasileiros. buscou através do instrumento pertinente – a tomada de compromisso de ajustamento de condutas – a repetição dos valores. manter-se inerte no pagamento do devido. O Ministério Público. não há como negar que também o ônus da prova da justificativa. tem a si deferido como direito básico “a facilitação da defesa de seus direitos. como comprovam os autos. inclusive com inversão do ônus da prova. por fim. se houver – o que não se acredita – é inteiramente do próprio fornecedor. dada sua vulnerabilidade. 511. demonstrando claramente sua intenção em não cumprir a lei (fl. Veja-se que a Ceraçá sequer compareceu à audiência em que o Ministério Público lhe apresentaria a minuta do compromisso de ajustamento de conduta. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: direito material. a seu favor” (art. contando com a natural morosidade do processo judicial. Vale transcrever. Outra solução mesmo não poderia haver. 10 . houve sim tentativa de cobrança extrajudicial. 2000. vêm obrigando as empresas à devolução em dobro. p. São Paulo : Saraiva. no caso de cobranças irregulares por concessionárias de serviços públicos de telefonia. Se o consumidor.

Relator: Ricardo Torres Hermann. Lembre-se que a Ceraçá acompanhava de perto as deliberações do DNAEE. EX VI DO ARTIGO 42. PARÁGRAFO ÚNICO DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. DANO MORAL CONFIGURADO. Relator: Maria José Schmitt Santanna. PAGAMENTO DE TRÊS COBRANÇAS REALIZADAS. ex vi do parágrafo único do artigo 42 do Código de Defesa do Consumidor. COBRANÇA DE SERVIÇOS NÃO SOLICITADOS DE CONEXÃO DE INTERNET BANDA LARGA E DE ‘CHAMADA EM ESPERA’. CDC. deliberada e consciente aplicou multa exorbitante a seus consumidores. CONSUMIDOR. POIS EM CONSONÂNCIA COM O PATAMAR OBSERVADO PELA TURMA RECURSAL EM CASOS ANÁLOGOS. SERVIÇO NÃO DISPONIBILIZADO. Turmas Recursais. portanto. Sentença confirmada por seus próprios fundamentos. que nunca foi disponibilizado. a restituição dos valores indevidamente cobrados e pagos em dobro. CONSUMIDOR. A alegação da autora no sentido de que pagou três faturas atinentes ao fornecimento do serviço de ADSL. RESTITUIÇÃO EM DOBRO. 42. RECURSO IMPROVIDO8. Recurso improvido9. Terceira Turma Recursal Cível. já que aqui se tem concessionária de serviço público que de forma livre. 8 Recurso Cível Nº 71001153287. Julgado em 15/05/2007. tornou-se incontroversa na medida em que a ré não ofereceu contestação. Julgado em 12/04/2007. PERTURBAÇÃO MORAL QUE DECORRE DIRETAMENTE DA CONDUTA IRREGULAR E ARBITRÁRIA DA EMPRESA DE TELEFONIA. 11 .MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA No caso dos autos. INTERNET BANDA LARGA. 9 Recurso Cível Nº 71001115443. Turmas Recursais. com a mesma razão há de se dar idêntico tratamento. AUSÊNCIA DE CONTESTAÇÃO IMPLICA A INCONSTROVÉRSIA DOS FATOS ALEGADOS PELO AUTOR. EX VI DO ART. RESTITUIÇÃO EM DOBRO DO MONTANTE INDEVIDAMENTE PAGO. Primeira Turma Recursal Cível. que já em 1996 determinou a redução do valor da multa. É devida. QUANTUM INDENIZATÓRIO MANTIDO. PARÁGRAFO ÚNICO. INSISTÊNCIA NA COBRANÇA.

ÔNUS DA PROVA. AÇÃO ORDINÁRIA COM PEDIDO DE TUTELA ANTECIPADA. APELAÇÃO CÍVEL.Indenização por danos morais. INSCRIÇÃO EM ÓRGÃOS DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO. . COBRANÇA. USUÁRIO DE SERVIÇO DE TELEFONIA FIXA. . é de ser deferida a tutela para a imediata exclusão do nome do autor em bancos restritivos de crédito. ILEGALIDADE NA COBRANÇA EXCESSIVA DE DÉBITOS DA CONTA TELEFÔNICA RECONHECIDA. impõe-se a devolução. Apelo do demandante parcialmente provido e apelo da demandada desprovido10. Justificado a devolução em dobro dos valores descontados indevidamente.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA APELAÇÃO CIVEL. RESTITUIÇÃO. MAJORAÇÃO DE VERBA HONORÁRIA.Majoração de honorários. atuando penas como `canal de desconto’ das parcelas na folha de pagamento. Décima Segunda Câmara Cível. ILEGITIMIDADE PASSIVA. não é suficiente para gerar a obrigação de indenizar. A simples alegação da ocorrência do dano. do art. Julgado em 15/03/2007. . por parte da demandada. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. tem este Colegiado o entendimento de que não é ela parte legítima para responder a demanda. Em regra. 42. ônus que não se desincumbiu satisfatoriamente. por aplicação do parágrafo único. da quantia correspondente à fatura de março e readequação daquela relativa ao mês de maio de 2005.Ilegitimidade passiva. 12 . . em dobro. o ônus da prova incumbe à prestadora de serviço. não restou comprovado o prejuízo sofrido. Em se tratando de relação de consumo. neste fanal. INEXISTÊNCIA DE DÉBITO CUMULADA COM INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. não tendo a requerida demonstrado a legalidade dos débitos relativos aos meses de março e maio de 2005. a demonstração de que realmente atuou apenas como intermediária. No caso. E. NEGOCIOS JURIDICOS BANCARIOS. Relator: Dálvio Leite Dias Teixeira. Tribunal de Justiça do RS. do Código de Defesa do Consumidor.Restituição em dobro. Cuidando-se de exigência reconhecidamente ilegal da Companhia Telefônica. Manutenção dos honorários advocatícios conforme determinado na sentença. tratandose de cooperativa que tenha intermediado a negociação. necessário se faz. Contudo. sob pena de 10 Apelação Cível Nº 70016040503.

Ademais. não agiu ilicitamente a companhia telefônica. descabe a pretensão da demandada em fazer incidir juros moratórios sobre parcela dita como incontroversa. pois os débitos estavam em aberto e pendentes de pagamento. 4. simples transtornos decorrentes da relação mantida entre as partes. Décima Oitava Câmara Cível. Relator: Mario Rocha Lopes Filho. Tribunal de Justiça do RS. do Código de Defesa do Consumidor. Tratando-se de cobrança indevida. JUROS DE MORA E HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. Indenização por danos extrapatrimoniais Não basta. 13 . Apelação da demandada desprovida e parcialmente provido recurso do autor. a mera devolução em dobro dos valores cobrados. DANO MORAL. VI.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA arcar com o dever de indenizar pelos prejuízos causados. 6º. diante da resistência da companhia em atender pedido do usuário. obrigação que na verdade é pena imposta pelo ordenamento civil ao fornecedor que extrapola os limites da cobrança. como é óbvio. Unânime 11. sob este aspecto. vale lembrar que o art. garante o direito básico do consumidor de obter 11 Apelação Cível Nº 70014224935. CANCELAMENTO DOS SERVIÇOS DE TELEFONIA FIXA. Na situação configurada nos autos. Os honorários advocatícios estão fixados em consonância com a sucumbência recíproca. em tese. não ensejam indenização por dano moral. Possibilidade de determinação judicial de cancelamento dos serviços prestados.70 a ser adimplida pelo usuário. mas decaimento mínimo do autor. mormente quando a própria demandada não efetua correção dos valores estornados. A tutela antecipada para obstaculizar a inserção do nome do autor em bancos restritivos de crédito não foi deferida. Julgado em 16/03/2006. mormente quando havia dívida de R$ 85. razão pela qual. é preciso reparar integralmente os danos causados aos consumidores e. Multa diária fixada para o caso de descumprimento da determinação.

que tinha a expectativa de estar sendo cobrado apenas dentro dos limites legais. E. conforme prevê o art. São Paulo : Saraiva. gera o dever de indenizar. 4º. pagaram as multas que lhes foram cobradas. realizando os interesses das partes” (NUNES. cooperando sempre para atingir o fim colimado no contrato. conforme se viu nos autos. III.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA “efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais. sem obstrução. pois é coletivo o sentimento de ofensa e desrespeito que o cidadão e sua família acaba experimentando com a prática abusiva. porque flagrantemente lesionada a confiança12 do consumidor. p. Ao dissertar sobre o dano moral coletivo. sem causar lesão a ninguém. “quando se fala em boa-fé objetiva. assentando-se o dano extrapatrimonial difuso justamente na agressão a bens e valores jurídicos que são inerentes a toda a coletividade. in fine. ainda que à custa de esforços pessoais. é princípio da Política Nacional de Relações de Consumo. Luiz Antônio Rizzatto. ou boa-fé objetiva. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. na atuação de cada uma das partes contratantes a fim de garantir respeito à outra. dez anos durante os quais os honestos trabalhadores rurais da região. a cobrança ocorreu durante mais de dez anos. por isso mesmo. do CDC. 2000. pensa-se no comportamento fiel. desta feita a título difuso. o professor André de Carvalho Ramos assinalou com muita propriedade: “Devemos considerar que tratamento aos chamados interesses difusos e coletivos origina-se justamente da importância destes 12 A confiança. individuais. 14 . sem reclamações que tenham chegado ao conhecimento do Ministério Público. É um princípio que visa garantir a ação sem abuso. Para Luiz Antônio Rizzatto Nunes. não há como negar que conduta como a da ré abala o patrimônio moral da coletividade. de forma indivisível. coletivos e difusos”. O dano causado é extrapatrimonial. A conduta da requerida. 108). leal. Isso porque.

auferindo lucros exorbitantes a partir de práticas nitidamente contrárias à legalidade.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA interesses e da necessidade de uma efetiva tutela jurídica. tal importância somente reforça a necessidade de aceitação do dano moral coletivo. 82. Editora Revista dos Tribunais. Não se pode conceber tenham lugar condutas como a da ré. Ora. 15 . o procedimento denunciado gerou sentimento de descrença e desprestígio da sociedade com relação aos poderes constituídos. deve levar em conta o desvalor da conduta. É dentro desse mesmo contexto que não se pode esconder a grande extensão do dano causado. de que a resposta a ser dada pelo Judiciário fará valer a pena o risco. O consumidor potencial sente-se lesionado e vê aumentar seu sentimento de desconfiança na proteção legal do consumidor. como se confirmou nestes autos. Imagine-se o dano moral gerado pela propaganda enganosa ou abusiva. E sempre na esperaça. ludibria o consumidor. já que a dor psíquica que alicerçou a teoria do dano moral individual acaba cedendo lugar. p. a um sentimento de desapreço e de perda de valores essenciais que afetam negativamente toda uma coletividade. pois além de agredir interesses garantidos por lei ao consumidor. onde se espera e se luta pelo aperfeiçoamento dos mecanismos que venham garantir ao cidadão o pleno exercício dos atributos da cidadania. O valor da indenização a ser pleiteada. a extensão do dano e o poder aquisitivo da requerida. no caso de dano moral coletivo. também por esses motivos. bem como seu sentimento de cidadania”13. Numa sociedade democrática. 13 Revista de Direito do Consumidor nº 25.

infringindo normas de ordem pública que regem a saúde. e presente o nexo de causalidade entre o dano e a conduta da requerida. .047.POSSIBILIDADE . já que as causas são diferentes: na devolução em dobro aplica-se pena e ocorre parcialmente o ressarcimento do dano material causado. na indenização por danos 14 TRT 8ª R.2002. nasce o dever de repará-lo.RO 5309/2002 . cabendo indenização pelos danos causados. 17.Rel. pois tal atitude da ré abala o sentimento de dignidade. como é natural em sede de direitos difusos. tendo reflexos na coletividade e causando grandes prejuízos à sociedade14. Juiz Luis José de Jesus Ribeiro . higiene e meio ambiente do trabalho e do trabalhador. foram enganados pela publicidade da requerida. o Fundo para Reconstituição dos Bens Lesados foi criado pelo Decreto nº 1. consistente na lesão da confiança depositada pelos consumidores no anúncio publicitário. A jurisprudência tem abonado a tese de que a indenização por danos morais independe da devolução em dobro do valor cobrado abusivamente. é devida a indenização por dano moral coletivo.1ª T. Assim. 16 . falta de apreço e consideração. entende ser devida indenização aos consumidores que. 13 da Lei nº 7.347/85).12. segurança.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA A jurisprudência tem reconhecido a possibilidade de condenação do responsável por danos extrapatrimoniais coletivos: DANO MORAL COLETIVO . embora não identificáveis. presente o dano extrapatrimonial. . de 10 de dezembro de 1987. portanto. O Ministério Público.j. Em Santa Catarina. Tal indenização. deverá reverter ao fundo de reconstituição de bens lesados (art.Uma vez configurado que a ré violou direito transindividual de ordem coletiva.

qual seja. que conduta futura semelhante seja novamente praticada. 17 . CONTRATAÇÃO DO SERVIÇO DE INTERNET DE ALTA VELOCIDADE . assim. PRELIMINAR DE NULIDADE DA SENTENÇA AFASTADA. ainda. TELEFONIA FIXA. RELAÇÃO DE CONSUMO. 2. do Código de Defesa do Consumidor. forte do artigo 14 DO CDC. AÇÃO DE REPETIÇÃO DE INDÉBITO C/C REPARAÇÃO POR DANOS MORAIS. compensatório. sob pena de enriquecimento ilícito. Nas situações ali observadas. Verba indenizatória que merece. devendo ser proporcional à lesão sofrida sem representar enriquecimento indevido da parte. parágrafo único. e dissuasória. Julgado em 26/04/2007. empresas de telefonia cobraram indevidamente por serviços não fornecidos a consumidores.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA morais. evitando. cobrado por serviço não usufruído. Tendo em vista a violação da fornecedora do serviço ao dever de informação e a configuração da falha na sua execução. Relator: Ricardo Torres Hermann. ser minorada. os direitos extrapatrimoniais. todavia. Danos morais que se aplicam visando ao caráter dúplice do instituto. DANOS MORAIS E MATERIAIS. Admite-se na hipótese. o que é vedado no ordenamento jurídico. Demonstrado o efetivo descumprimento da 15 Recurso Cível Nº 71001122886. COBRANÇAS RELATIVAS A SERVIÇOS NÃO CONTRATADOS DE INTERNET BANDA LARGA. 3. Os precedentes abaixo colacionados amoldam-se por analogia ao caso dos autos. 1. protege-se outra esfera de direitos. O pagamento por serviço não prestado merece ser integralmente ressarcido. nos termos do artigo 42.ADSL. a restituição do montante em dobro. situação evidentemente extremamente próxima à dos autos. FALHA NO SERVIÇO. Decisão liminar que fixou multa diária para o caso de descumprimento da obrigação de não fazer imposta. Turmas Recursais. Primeira Turma Recursal Cível. 1. impõe-se o dever de indenizar. Recurso parcialmente provido15. que devem igualmente ser tutelados. pela desconsideração à pessoa do consumidor.

18 Rua do Comércio. 16 Recurso Cível Nº 71001223098. ser reduzido. rua São Luiz. é aplicável a multa. 5. Fornecedora que não se desincumbiu do ônus de comprovar a contratação ou a efetiva utilização dos serviços. de Pinhalzinho17 e à Rádio Modelo AM18 que divulguem a propositura desta ação. centro. Relator: Eduardo Kraemer. 18 . Quantum que deve. b) a publicação de edital nos termos do art.000. Dano moral caracterizado ante o infortúnio imposto mensalmente ao consumidor por longo período de tempo. evitando desproporção com a obrigação principal e enriquecimento injustificado da parte autora. Turmas Recursais. através de advogado intervenham no processo como litisconsortes. Pinhalzinho. Pedidos Pelo exposto. 1787. Ausência de irresignação da parte ré. determinando-se à Rádio Nova FM. CEP 89870-000. 3. somado ao descaso da ré frente às reclamações administrativas do cliente e ao descumprimento da determinação judicial de suspensão das cobranças. Modelo. Patamar indenizatório fixado em R$ 2.0016. 94 do Código de Defesa do Consumidor. 17 Rádio 103.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA ordem judicial por parte da empresa. Restituição em dobro dos valores indevidamente cobrados já determinada pelo juízo de origem. o MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA requer: a) o recebimento e processamento da presente ação civil pública. querendo. c) a citação da requerida para. 2. querendo. para possibilitar que os interessados. todavia. Julgado em 07/03/2007.1 de Pinhalzinho Ltda. apresentar a defesa que entender pertinente. Segunda Turma Recursal Cível.

Modelo. Nova Erechim. como parte da doutrina tem apregoado. 2004. Serra Alta. Dá-se à causa o valor de R$ 500. por ocasião do ingresso na fase probatória19. 4º do Decreto Estadual nº 2. se houver. 164.MODELO GUILHERME LUIS LUTZ MORELI PROMOTOR DE JUSTIÇA – PINHALZINHO 19 Hugo Nigro Mazzilli entende que o momento adequado para a declaração da inversão do ônus da prova é o momento da produção da prova. nos termos do art. Modelo. fixando-se como data inicial o dia 2 de agosto de 1996. Cunha Porã. g) a condenação da requerida em custas. Maravilha. f) a condenação da requerida ao pagamento quantia não inferior a R$ 100.666/04. valor este a ser revertido ao Fundo de Recuperação de Bens Lesados. 17ª ed. despesas processuais e honorários advocatícios (estes conforme art. do Código de Defesa do Consumidor. e não o da sentença.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA d) a inversão do ônus da prova. acrescida de juros legais e correção monetária desde a citação.00 (cem mil reais) a título de danos extrapatrimoniais difusos. o dobro dos valores cobrados ilegalmente a título de multa. 19 . VIII.000. 6º. e) a condenação da requerida a devolver a cada consumidor dos municípios de Saudades.00 (quinhentos mil reais). São Carlos. Sul Brasil e São Miguel da Boa Vista. pois é ilógico que somente quando finda a instrução processual tenham as partes conhecimento da forma como devem conduzir a produção. 20 de junho de 2007 EDUARDO SENS DOS SANTOS PROMOTOR DE JUSTIÇA . p. em favor do Fundo de Recuperação de Bens Lesados do Estado de Santa Catarina). São Paulo : Saraiva. A defesa dos interesses difusos em juízo.000. MAZZILLI. Pinhalzinho. Hugo de Nigro.