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UM ESTUDO SOBRE A DEMANDA DO SANTO GRAAL: GENERO, CICLOS

,
CARACTERISTICAS E PERSONAGENS.
Larissa do Socorro Martins Leal
Universidade Federal do Pará

RESUMO: Neste estudo, se faz necessário pontuar algumas questões sobre o
gênero novela de cavalaria, em seguida, traçaremos algumas características
da novela A demanda do Santo Graal, os ciclos, as influências e a inclinação a
formular exemplos de cavaleiro (Galaaz), isto é, de representações
comportamentais idealizadas. Tendo como objetivo do trabalho, mostrar as
faces dessa obra literária. Lembrando que deixaremos em ressalto alguns
personagens como Galaaz e a Mulher da Capela.

PALAVRA-CHAVE: A Demanda do santo Graal; novela de cavalaria; ciclos;
personagens.

Introdução

A palavra “novela” teve suas modificações ao longo do tempo, por isso
vejamos o que Massaud Moisés (2006, p. 103-104) tem a nos esclarecer sobre
o significado da palavra e suas mudanças diante de várias línguas:
A palavra “novela” remota ao italiano “novella”, por sua vez originário
da Provença (“novas”, “novelas”), onde significava “relato,
comunicação, noticia, novidade”. A raiz etimológica estaria no latim
“novella”, de “novellus, a, um”, adjetivo diminutivo derivado de “novus,
a, um”. Do sentido primordial de “jovem”, “novo”, “recente”, o
vocabulário substantivou-se, adquirindo vária significação, desde
“chiste”, “gracejo” até “enredo”, “narrativa enovelada”. Com tal
significado passou a outras línguas. Em vernáculo, o termo circula na
acepção de “engano”, “embuste”, “mentira”, mas designa de modo
geral uma história fictícia, longa, jorrando emoções fáceis. (...) No
terreno dos estudos literários, é empregado por vezes de modo
defeituoso: rotularia, ao ver de alguns críticos, as narrativas com mais
de cem e menos de duzentas páginas. (...) Assumiu posteriormente o
sentido pejorativo de “narrativa fabulosa, fantástica, inverrosimil”.

p. à excessiva modernização da grafia. 62-63). “de caráter tipicamente medieval. Ambas tem características muito semelhantes. esta edição “foi no entanto alvo de muitas críticas devido ao grande número de passagens censuradas. A mulher é posta em foco quando são mostrados estes dois elementos. segundo Massaud Moisés: “parece constituir-se numa fieira de contos encadeados” (1985. 1995a. p. Massaud Moisés em sua obra A literatura portuguesa vem nos dizer que a novela de cavalaria teve origem na Inglaterra e/ou na França (2008. p.A novela de cavalaria teve origem na França. além da bravura e ousadias dos cavaleiros da “Távola redonda”. com o desenrolar da trama. p. nasceram da prosificação e metamorfose das Canções de gesta (poesias de temas guerreiros)” (MOISÉS. à pontuação imprevisível e às ‘correções’ baseadas na versão castelhana” (NUNES. 34). 134). p. 2006. no entanto a cavalheiresca possui um foco que é a coragem e trata das aventuras dos guerreiros. 1 . porém sendo auxiliada pela Inglaterra no século XIII1. p. notamos a presença de elementos como o erotismo e o sentimentalismo (MOISES. Na DSG. deixando de ser cantada para ser lida e também sendo dilatadas e desdobradas a um grau que ultrapassava as memórias individuais. A primeira edição da novela A demanda do Santo Graal foi realizada por Augusto Magne. vemos que há outros estilos. vemos. 13) e foi a partir desta que vieram outras edições. de cunho extremamente parnasiano. E quando voltamos a nos remeter à novela. 107). 2006. 106107). quando perderam o caráter versificado. 2008. onde se tem a presença do bucolismo e da Arcádia (MOISÉS. As canções de gestas se transformaram em novela de cavalaria. como a novela pitoresca. A novela de cavalaria se diferencia da novela como gênero geral. porém na obra Criação literária o autor deixa claro que a novela teve sua origem na França e foi auxiliada pela Inglaterra (2006. que lhes foi acrescentado algo mais. Utilizaremos o conceito de novela. p. 34).

É ainda visível nalguns fólios. Outra edição em língua portuguesa muito conhecida é a de Heitor Megale. Cleomades. contemporâneas do ms. É composto por 202 fólios de 297 mm x 222 mm. A Demanda pertencia ao ciclo “bretão” ou “arturiano”. em escrita bastarda características da Península Ibérica. 7). a antiga foliação em algarismos romanos” (NUNES. A Demanda do Santo Graal2 teve dois ciclos e estes tiveram subdivisões.A edição que iremos utilizar neste trabalho é o texto de Irene Freire Nunes. 2 . Roman d’Enéas. voltado para a figura do Rei Arthur (NUNES. no canto inferior direito. 2594 da Biblioteca Nacional de Viena) é um pergaminho do século XV. 9).. editada em galego-português e publicada em 1995. p. Mort Artu” (NUNES. A foliação a tinta. editada pela primeira vez em 1988 e na segunda vez em 1989. Os ciclos foram a Vulgata e a Post-vulgata. sendo os três últimos em branco. e o ciclo conhecido por “bizantino”. 1160. de 25 a 47 linhas cada. Porém. 1995a. Estoire de Merlin. p. Partenopeu. de Arthur e do Graal. p. Antecede-o o ciclo denominado “clássico”. p. Sobre ambos há comentários de Irene Freie Nunes. Ipomedonetc). Questedel Saint Graal. O texto é disposto em duas colunas. 1165). 1165. também viu a Vulgata ser remodelada e convergir em diferentes ramos do ciclo num romance único. Roman de Troye. “A Demanda do Santo Graal (ms. O Lancelot-Graal compreende cinco partes na sua versão mais divulgada. cujos heróis vieram do mundo clássico mediterrâneo (Roman de Thèbes.1150. no qual se consideram as obras de Chrétien de Troyes o mais significativo repositório de temas como o de Persival. Tem quatro folhas de guarda inicio (duas em pergaminho. tendo cinco volumes. a Vulgata: Estoire del Saint Graal. 8). cujas obras tiveram influência das Cruzadas religiosas (Eracle. A editora da Demanda vem nos falar que a Vulgata desenvolveu-se em etapas. e duas em papel) e duas no fim do volume (em papel). 1995a. cópia de um manuscrito de época anterior que não é ainda o manuscrito original da tradução. data do século XX. a foliação a lápis. vejamos: “o LancelotGraal em que o tema do Graal surge articulado com a história dos amores de Lancelot e Guinevere. data do século XIX. 56). Lancelot Du Lac. de Tristão. no canto superior direito do rosto. Podemos observar que as novelas de cavalaria foram divididas em ciclos. Para Marcia Mongelli (1992. 1995a. no canto inferior esquerdo do verso. Irene Nunes.

Segundo Irene Nunes (1995a. modificando o comportamento de alguns personagens e algumas alterações em episódios. tem uma revelação parcial. o guardador do Graal. e Boorz. Todos os demais ficam sem esta revelação. porque se arrependeu e renunciou a Genevra. 9). um filho que será merecedor de toda a graça da revelação do Graal: Galaaz. é representada na Península Ibérica pelo Livro de Josep ab Arimatia”. indigno da revelação do Graal.Heitor Megale define a Vulgata como “o ciclo do pseudo Gautier Map também chamado Le Lancelot-Graal” (MEGALE. Le livre de Lancelot dei lac. L 'estoire Del saint Graal relata as origens evangélicas do santo Vaso e a chegada de José e de seus companheiros à Inglaterra. torna-se. que compreenderia a Estoire del Saint Graal. p. por fim. corresponde a um novo ciclo dividido em três etapas. atingindo a popularidade. A Post-vulgata. e a Queste del Saint Graal. Lancelote. Artur enfrenta. por terem se apegado demais aos valores puramente terrenos. porque virgens. La queste dei saint Graal é um romance profundamente religioso. L 'estoire de Merlin. Depois de fazer Gilfrete jogar sua Excalibur num lago. só tardiamente incluído no ciclo. por estes erros. Le Lancelot narra os amores adúlteros da rainha Genevra com Lancelote mostrando que. preenche uma lacuna entre o Merlin e o Lancelot. Provocado por um encantamento. o Merlin. apenas Galaaz e Percival. para Irene Freire Nunes. Compõe-se dos seguintes livros: L 'estoire dei saint Graal/. este ciclo de enormes proporções principia a estória com a chegada de José de Arimatéia. Segundo Heitor Megale (1989. Já o livro Merlin envolve uma versão em prosa do Merlin de Robert de Boron. São revelados os amores adúlteros da rainha com Lancelote e lutas intestinas precipitam os acontecimentos finais. em três partes. ele faz na filha do rei do Graal. de versões curtas e longas. na verdade seu filho incestuoso. conseguem a graça de ver o santo Vaso. que morre de uma lançada sua. imaginando estar com Genevra. e a conclui com a morte do rei Artur. La queste Del saint Graal e La morte roi Artus. L 'estoire de Merlin atinge os primeiros anos do reinado de Artur e termina com o desaparecimento do mago por magia da mulher a quem amava e a quem confiara seus segredos. São textos diversos. De todos os cavaleiros que saem em busca do Graal. seu sobrinho Morderete. Le livre d'Artus. 9). Artur é levado numa barca para Avalon. não sem antes feri-lo mortalmente. porque casto. “a Estoire del Saint Graal da post-vulgata. La morte roi Artu séo mundo arturiano depois que o Graal foi arrebatado aos céus. porém nesse livro de continuação acrescenta-se uma série de . o bom cavaleiro que dará cabo às aventuras do reino de Logres. à Inglaterra. 1989: 9) e que teve um número elevado de manuscritos. de cujas águas sai um punho que a pega epuxa para o fundo. p. que em seguida teve a Continuation do livro de Merlin da Vulgata. por mais perfeito que seja como cavaleiro. Traído pelos seus.

Este ciclo de três livros. Assim. p. Ao considerarmos tais elementos devemos pensar em amor cortês. apoiada por Eugene Vinaver. p. em 1887. Gaston Paris declarou que este Merlin era a segunda partede uma trilogia cuja última parte entrevia na Demanda portuguesa. em parceria com Ulrich. de 1470.aventuras conhecidas por Suite du Merlin. do século XIV. Continuation e Suite du Merlin. 6061. 112. foram levadas mais longe por Fanni Bogdanow que. e F.A respeito da teoria de Fanni Bogdanow. não terá tido em seu país de origem a mesma aceitação do Lancelot-Graal. que corresponde à Queste e à Mort Artu." Acima citamos Moisés (2008. 10). conferiu traduções e cópias de traduções de diferentes épocas e definiu o corpus da Post-Vulgata para o qual propôs a denominação de Romance do Graal. fr. que o ciclo do pseudo Boron compunhase de uma Estoire de Joseph d'Arimathie. 9) diz-nos sobre a Post-vulgata: A Post-Vulgata da matéria da Bretanha é o ciclo do pseudo Robert de Boron. ao tomar conhecimento da edição parcial de Reinhardstoettner. . O Huth Merlin e manuscritos como F. o ciclo da post-vulgata é dividido em: Livro de Josep ab Arimatia e Baladro Del Sabio Merlin com sus profecias. na Península Ibérica. Para Irene Freire Nunes (1995a. de um Merlin com sua Suite e de uma Queste deI saint Graal terminada com uma breve Mort d'Arthur.). 643 da Torre do Tombo) e a Demanda portuguesa de Viena. Vejamos o que Heitor Megale (1989. Ivo Castro emitiu a seguinte nota: "A designação de Romance do Graal. mas no que tinham de essencial. 343. p. fr. a partir de então. uma compilação da qual não se conservou a versão original completa. Considerou-se. O primeiro texto deste ciclo a ser impresso foi o manuscrito Huth Merlin. acrescentando e tirando episódios. a Queste del Saint Graal da Post-vulgata baseou-se nas duas últimas obras da Vulgata –Queste del Saint Graal e Mort Artu– e que de acordo com o novo romance foram remodelados. pesquisou inúmeros manuscritos com diferentes versões. não preenchem o ciclo todo. Este último é uma junção dos livros Merlin de Robert de Boron. p. remodelação essa que hoje só é possível reconstituir a partir de fragmentos e de traduções como o José de Arimatéia (ms. aplica-se a uma remodelação feita em 1230-1240 do chamado ciclo da Vulgata. 107) quando afirmou que a novela de cavalaria apresentava o erotismo e o sentimentalismo. partes finais do Romance. Para Georges Duby (1989. Ao editá-lo em 1886. As hipóteses de Gaston Paris. proposta por Fanni Bogdanow e relutantemente aceite por alguns arturianistas. a julgar pelos escassos manuscritos de fragmentos franceses subsistentes. não em sua totalidade.

p. erguida resolutamente. na Demanda. É o correspondente exato do torneio. por exemplo. devemos mencionar as cantigas de amor. 83). além do que os rapazes da época viam no amor cortês um jogo para ser vivido entre homens jovens e mulheres que além de casadas. é entendermos que a alegoria buscava ilustrar uma doutrina. Assim. p. uma alegoria da “alma”. (. na maior parte dos casos era confirmado através dos romances que atestavam episódios adulterinos. de certo que havia o simbolismo do amor posto nas regras de cortesania. 249) para ser representado na alegoria da Demanda. ou melhor. “as novelas de cavalaria relacionadas ao ciclo do Graal. em “Tanto vai o cântaro à água que . por natureza. tinham uma vida estável financeiramente. a partir das palavras de Duby podemos chegar à conclusão de que o amor cortês. 34) nos traz o conceito de alegoria: a alegoria é uma proposição de duplo sentido. está destinado a cair. Assim. Educativo. encontramos em Lancelot e Genebra e em Tristão e Isolda exemplos de relacionamentos adulterinos. em meio a toda essa literatura do amor cortês. isto é.o amor delicado é um jogo. havia um “pensamento em causa” (LAUSBERG.. segundo Alfredo Hansen (1986. Tal o caso dos provérbios. p. No entanto. “o texto é pretexto para ilustrar uma doutrina”.. Interessa-nos. (. nas quais os cavaleiros viam nas damas a inacessibilidade. 1993.) O amor cortês é uma justa... A Demanda é. cuja grande voga é contemporânea da manifestação do erotismo cortês. Então. um dos quais. o cultivo do amor existia. na sua alegria de viver. Assim como no torneio.. põe em aventura se corpo (eu não falo da alma: objeto cujo lugar tento reconhecer foi forjado então para afirmar a independência de uma cultura. Ou seja. a da gente da terra. arrogante. mas cujo sentido próprio (ou literal) apagou-se por completo. construções alegóricas foram criadas. Tzvetan Todorov na obra Introdução a literatura fantástica (1981. Sobre isso. Mas. mas não a sua concretização. de fato. [expressam] peregrinações alegóricas da alma”. contra a cultura dos sacerdotes). o homem bem nascido arrisca sua vida nesse jogo.. A esse respeito.) a justa amorosa opõe dois parceiros desiguais.

.ao final se rompe”. Galvão sugere que todos saiam em demanda. pensa. em um cântaro. O mirabilis “é o nosso maravilhoso com as suas origens pré-cristã”. “(. posto que só por um breve momento. 22) o maravilhoso é claramente sobrenatural.. por forças ou por seres sobrenaturais”. ou quase ninguém. p. para ouvir estas palavras. etc. Vejamos que para Le Goff (1983. E por fim o mirabilis é “o sobrenatural propriamente cristão (. o maravilhoso na Demanda é muito presente.. p. em que o primeiro. a água. destinada a Tristão.) uma . Galaaz chega sem se fazer anunciar e ocupa a seeda perigosa. Assim entendida.. o sobrenatural satânico”.) Uma das características do maravilhoso é o ser produzido. o magicus e miraculosus.) os cavaleiros são alvoroçados e extasiados com a aparição do Graal. e em particular pela distinção que ele estabelece entre o estranho e o maravilhoso. O magicus “é.o estanho. este presente nos séculos XII e XIII e foi dividido em três vertentes: o mirabilis. p.pode ser identificado pela reflexão. 36). portanto o sobrenatural maléfico. em troca. que estava reservada para o cavaleiro “escolhido”: das 150 cadeiras. apenas faltava preencher uma.. 76) fala-nos que simbolismo e alegorismo até o século XVIII eram considerados praticamente sinônimos. vejamos dois trechos da Demanda onde o maravilhoso se manifesta: Nisto. à procura do Santo Graal (MOISES. 2008. a ação de romper. p. certamente. Jacques Le Goff (1983. a alegoria foi frequentemente estigmatizada pelos autores modernos como contrária a literalidade. ao passo que o maravilhoso conserva sempre um resíduo sobrenatural que nunca conseguirá explicar-se senão recorrendo ao sobrenatural. capta-se imediatamente o sentido alegórico: é perigoso correr muito riscos desnecessários.. Assim como o alegorismo. (. a cadeira perigosa. Galaaz vai ao rio e arranca a espada do perdão. Umberto Eco na obra Arte e beleza na estética medieval (1987. ninguém. o cálice sagrado. 21) faz alusão a uma obra de Tzvetan Todorov que fala da literatura fantástica. cuja luminosidade sobrenatural os transfigura e alimenta.

dentro do feudalismo. 1940. De início. 1940. além de ser mais uma característica. direitos senhoriais e. A cristianização da cavalaria. em 1095. 19). a cavalaria que. 20).parte do maravilhoso e até tendia a fazê-lo desvanecer”. Vemos no trecho acima que somente poderia ser cavaleiro aquele que tivesse a herança sanguínea de cavaleiros. por impostos especiais e privilégios legais. Para Heitor Megale (1940. consolidou a posição social dos cavaleiros pela consagração. particularmente. O serviço militar. . oriundos de variadas condições. Eles passaram a ser vistos pela sociedade feudal de maneira peculiar e atraente. os cavaleiros não passavam de uma classe de soldados profissionais. se entregavam a saques. já desacostumados das constantes lutas contra invasores. encarregando-os da proteção dos fracos e dos oprimidos. É nesse ambiente maravilhoso que a cavalaria do rei Artur enfrenta suas aventuras. tornou-se hereditária. Com isso a Igreja logo. que formavam a base do novo sistema. conseguiu ocupar cavaleiros andantes que. p. encorajou a formação da nova nobreza de cavalaria. p. providenciou o registro dos dez mandamentos para os cavaleiros baseados no decálogo de Moisés. serviços e obrigação mútuos. 19). p. era uma organização à margem do sistema foi incorporada ao feudalismo como instituição militar e se nobilitará dentro do regime feudal. p. a tendência feudal. 19-20). “são conhecidos reis que se investem como cavaleiros” (MEGALE. 1940. Estava criada a cavalaria feudal. A presença da cavalaria nas novelas do Graal é de suma importância. começou a ser compensado pela doação de propriedades rústicas. Enfim. pois a cavalaria passou a ser formada até mesmo por pessoas da realeza. a principio mero usufruto concedido por períodos limitados. isenções. Esses benefícios passaram a adquirir o caráter feudal configurando a vassalagem dos investidos e estabelecendo vínculos de lealdade. no Antigo Testamento (MEGALE. A Igreja preocupada em reconstituir os costumes e a ética dos cavaleiros. assassínios e devassidões (MEGALE. com todos os meios a seu dispor. reconhecendo-a como o exército de Cristo e guindando-a assim a uma espécie de dignidade espiritual. empreendida desde o concilio de Clermont. em suas origens.

No gênero novelístico cavalheiresco. divulgam-se também. em vez de aventuras marcadas por um realismo profano. 2008. “por influxo clerical”. na França. correspondem os signos mitológicos da cornucópia da abundância. vemos que “ao graal-vaso. até esse momento de cunho pagão. a construção alegórica. “determinado à substituição de Percival por Galaaz” (MOISÉS. porém. antes mesmo das canções de gesta. Na obra Percival (1992. pois o vaso teve inspiração no caldeirão dos celtas. no qual José de Arimatéia colheu o sangue de Jesus. Heitor Megale. um conjunto de . a novela passará também a ter uma simbologia marcante: A lenda. p. começa a ser vista em formato de prosa. a presença do amor cortês. Massaud Moisés (2008. e seguiremos vendo características como o celtismo que é outro elemento preponderante na Demanda. as chamadas lendas celtas. tem-se a presença da ascese. e exercida como processo de experimentação das energias físicas e morais de cada cavaleiro no rumo da Eucaristia. por via oral. mostra que a oralidade está nas origens. porém a partir de 1220. cristianiza-se. do maravilhoso. a Espada. 16) de Chrétien de Troyes. Parte do que delas sobreviveu está em Mabinogion. Com isso.O teor cristão está presente na configuração do gênero novelesco que trata das aventuras dos cavaleiros do Graal. fim último ambicionado por todos que saíram do reino de rei Arthur em busca do Santo Graal. cantada e tendo Percival como herói principal. além de ter como objetivo maior. Por isso. a procura pelo Santo Vaso. do caldeirão dos celtas. A lenda da Demanda foi inicialmente vista em canções de gesta. 29). da taça dos gnósticos”. passando seus principais símbolos (o Vaso. Notemos que o Graal tem origem céltica. encontramos algumas características citadas anteriormente tais como. apresenta uma luta profunda pela pureza do cavaleiro e uma ganância sobrenatural em busca da sonhada salvação. traduzida no desprezo do corpo e no culto da vida espiritual. etc. cálice que recolheu o sangue de cristo. e tendo Gautier Map. p. estando em boa convivência com as canções de gesta. além de cristã. da cavalaria e do cristianismo. na obra A Demanda do Santo Graal: das origens ao códice português (2001. 35). o Escudo.) a assumir conotação mística. p. 35) explicita-nos no seguinte trecho que. p. de maneira versificada.

Galaaz chega sem se fazer anunciar e ocupa a seeda perigosa (DSG. 36). reino do Rei Artur. entrega-se ao torneio. onde vemos que A Demanda do Santo Graal é uma novela de cavalaria medieval que começa em torno da "Távola Redonda". 26). A seguir. Nisto. Esses contos revelam o primitivo mundo celta. posto que dure só um breve momento (MOISES. p. Em meio ao repasto. Após o estudo das características presentes na novela cavalheiresca do Graal. depreendida do fato de Mab significar criança. Chega uma donzela à Corte e procura por Lancelote do Lago. Galvão sugere que todos saiam à demanda (à procura) do Santo Graal (MOISES. 2008. em Camelot. 36). após ouvirem missa. É véspera de Pentecostes. È hoje crescente o interesse de especialistas em ver neles uma das possíveis fontes da matéria da Bretanha. Daí para frente. do século XI ao primeiro quartel do século XIII. Os textos chegaram até nós mutilados e com intrincados problemas de autenticidade. No dia seguinte. quais os tardios. 30) (assento perigoso) que estava reservada para o cavaleiro "escolhido". 1995. apenas faltava preencher uma. 1995. destinada a Tristão. Das 150 cadeiras. cuja luminosidade sobrenatural os transfigura e alimenta. quando chegaram à pena escribas.narrativas de origem galesa que conserva tradições da mitologia celta. partem todos. por diversos narradores. Saem ambos e vão a uma igreja. isto é às justas. em irlandês. mutiladas mesmo. se emaranha. estórias para crianças. a fim de acompanhar as desencontradas aventuras dos . Lancelote e os outros tentam arrancá-la inutilmente. cada qual por seu lado. lendas infantis. os cavaleiros são alvoroçados e extasiados com a aérea aparição do Graal (Santo Vaso). Cogita-se que algumas personagens de textos arturianos figuram em Mabinogion é que são contos para a infância. a narração se entrelaça. p. p. onde Lancelote arma Galaaz cavaleiro e regressa com Boorz a Camelot. Essas narrativas orais galesas foram sendo remodeladas e muitas vezes alteradas. 2008. superando uns aos outros neste ou naquele ponto. local em que se reúnem os cavaleiros do rei Arthur. È difícil saber quais seriam os contos primitivos. seguiremos com o resumo. Galaaz vai ao rio e arranca a espada do padrom (DSG. Um escudeiro anuncia o encontro de uma maravilhosa espada fincada numa pedra de mármore boiando n'água. tarefa a que se dedicam especialistas. Surge Tristão para ocupar o último assento vazio. p.

o “puro dos puros” porque nunca pecou contra castidade”. espirituais e físicas. 72) a nos confirmar sobre a castidade e mostrar que ele é o cavaleiro escolhido ao falar que “Galaaz como o “cavaleiro eleito”. O momento de clímax para perceber que Galaaz era o escolhido. Tudo termina com a morte de Lancelote (MOISES. Após estes acontecimentos e outros episódios da Demanda. pai de Galaaz. qualificado por seu estoicismo inquebrantável e o seu anseio de perfeição”. da consagração de uma vida inteira dedicada ao culto das virtudes morais. símbolo da Eucaristia e. é também um modelo de santidade. Ernst Curtius faz a seguinte descrição: “o ‘herói’ é um ideal humano. esposa do Rei Artur. é o cavaleiro “escolhido” Galaaz. notamos que o modelo de herói identifica alguns benefícios que este deveria possuir. até que. apud SILVA 2008. Após vermos os personagens presentes na Demanda . sendo elevado pelas virtudes morais. Além de modelo de homem justo e virgem.em resumo – percebemos que há um ideal de herói. tem o privilégio exclusivo de receber a presença do Santo Vaso. por merecimento ou exaustão. ficam reduzidos a um pequeno número. A partir de então. 2008.cavaleiros do Rei Artur. como o santo e o gênio” (CURTIUS. p. 53). vejamos Marcia Mongelli (1992. E Galaaz. A conceituação anterior de cavaleiro andante descrita por Moisés e Curtius é válida e se encaixa perfeitamente na personagem d’A Demanda do Santo Graal que é exemplo para os demais. espirituais e físicas. p. 36). ao cabo. com a narrativa do adulterino caso amoroso de Lancelote. p. A novela ainda continua por algumas páginas. Assim como Curtius. . na plenitude do ofício religioso. portanto. Massaud Moises (2008. fica claro que ele é um modelo de santidade e de justiça. Para também confirmar o que já foi dito anteriormente a respeito de Galaaz. 2008. no qual Galaaz luta pelos seus objetivos e pelos ensinamentos cristãos. em Sarraz. foi na véspera de Pentecostes quando ele sentou-se na seeda perigosa e em seguida retirou a espada fincada na padrom (MOISÉS. 37) descreveu em sua obra um modelo de cavaleiro: a “novela mística [a Demanda] contém uma peculiar noção de herói antifeudal. p. 36). p. e da Rainha Genebra.

93). irmã de Rei Arthur. o contraponto de Galaaz é Galvão. como vimos. que utiliza de todos os artifícios –em especial a magia– para prejudicar Arthur. Sabemos que a Demanda é uma alegoria. 3 . pois. em muitos episódios da Demanda ela aparece auxiliando o herói na sua jornada. Da mesma forma. 130). vimos ser importante tratarmos sobre a personagem medieval. A personagem exemplar Em nosso estudo. 1995. 2008. “ela é digna do céu.Assim como Galaaz – considerado o cavaleiro escolhido – temos na Demanda um exemplo feminino. houve mulheres que não deram bom exemplo na Demanda. Na Demanda. além destas temos Isolda que tem um romance adúltero com o cavaleiro Tristão e Morgana. por isso ela tem um comportamento ideal para mulher e também para o período. como ela era configurada. Galvão foi explicitamente chamado de “cavaleiro do diáboo” no decorrer da obra Por quem peregrinam os cavaleiros de Arthurde Márcia Mongelli (1995. quanto feminino. E é pela boca e pelas ações das mulheres que os homens na Demanda conhecerão os seus destinos” (SILVA. assim como ele. que até pode ser chamada de “Galaaz feminino”. Galvão foi o modelo de cavaleiro a não ser seguido e. podemos observar que assim como temos exemplos positivo tanto masculino. p. Em um trecho d’ADemanda do Santo Graal vemos que “a filha do rei Brutus é exemplo de personagem feminina em oposição à demanda quando tenta seduzir Galaaz (DSG. 54-55). há também a presença de personagens que não possuem um caráter heroico e/ou exemplar na novela. p. o que nos conduz a pensar que as Sobre a irmã de Persival. a irmã de Persival3. como o herói. por sua sabedoria e valor. Genevra ao envolver-se amorosamente com Lancelot”. No entanto. Durante a novela de cavalaria – Demanda – percebemos que muitas de suas atitudes foram contrárias ao padrão exemplar. isto é. cometendo muitos atos maléficos. rica em elementos cristãos. p.

Por exemplo. 1995a. 56). se portar bem e apresentar outras características que combinem com sua posição. 2005. além de ser “uma personagem em que pulsa a nobreza e a delicadeza feminina” (SILVA. se é uma mulher pobre. tende a ser uma personagem modelar. se a mulher é nobre. não sabendo se comportar na sociedade. 2008. conforme enfoca o tratado retórico de Cícero em De inventione (DOMÍNGUEZ. 2008. vemos que. marcados notadamente de forma que sejam reconhecidos como características naturais. 201). moderatum y summissum). tem caráter indutivo. ou seja. 2008. p. social. 208) incumbe-se da construção dos discursos sobre as personagens: una verosimilitud eminentemente moral-estamental (a través de la noción horaciana de decorum y de la tradición exegética del corpus virgiliano en torno de los styli grandilo quum. as suas descrições físicas e os seus discursos obedecem às regras sociais do período. 451)– “corresponde ao princípio de representação moral-estamental”. 2008. 201-202). carrega o peso da doutrina cristã (SILVA. a personagem medieval apresenta um maior número de caracteres que atestam a sua funcionalidade na criação. Porém. falar exageradamente e em tom demasiado. p. Partindo do ponto sobre a teoria da construção da personagem medieval.personagens deveriam mostrar-se como padrão modelar. p. como a alegoria. p. p. p. deve ser bonita. seus atributos devem ser identificados. Assim. 2005. 11). . a mulher da capela – também conhecida como rainha Genevra (DSG. conforme atesta César Domínguez em seu estudo sobre a personagem medieval (apud SILVA. esta deve ser feia. protagonista de um dos três mistérios da Demanda. mãe e santa. O princípio moral-estamental deve ser notado claramente na natureza da personagem. Assim. Ela. p. Cesar Domínguez (apud SILVA.o interliterarios tipificados por Aristóteles con sus cualidades tercera y cuarta del êthos. 56). isto é. falar delicadamente. ético e anímico (DOMÍNGUEZ. como exemplum. Além dos requisitos citados acima. pois é exemplo de mulher. a sua condição generativa ou composição dos atributos físico. a personagem principal deste trabalho – A mulher da capela. aunque no están por completo ausentes los aspectos intra. Ela é também utilitária.

Ela é uma heroína da virtude e da ascese”(SILVA. em vida. p.. e embora seja esposa de rei. Etymologiae II. en cambio cuando se simulan las palabras de una mujer. Xiv.). O herói distingue-se por uma excessiva vontade espiritual e por sua concentração em face da vida instintiva. de un parásito. respectivamente. nossa personagem de estudo foi mãe exemplar e submissa. observar os ciclos – vulgata e post vulgata – em que a matéria da Bretanha foi . É o que constitui sua grandeza de caráter.. fala e age com prudência. vemos que foi de fundamental importância para este estudo fazer um aprofundamento no corpus da obra literária em estudo – A Demanda do Santo Graal – pois é necessário ter conhecimento acerca da diferença entre a novela cavalheiresca e a novela como gênero geral. conhecer sobre edições anteriores e estudar comentários de medievalistas como Heitor Megale. de un soldado y un general. cuando imaginamos un pirata. Considerações finais Após o esboço da personagem. 1)]. em valores vitais “puros” e não técnicos. 2008.Seguindo a ideia sobre a construção da personagem medieval. consideremos. é leal à religião e aos seus dogmas. e cuja virtude fundamental é. nas Etimologias: [Así. temeraria. herói é o tipo humano ideal. será diferente la manera de expresarse de un joven y un viejo. 2008. “é humilde (. su expresión será audaz. ainda. Segundo Curtius (apud SILVA 1996. su discurso debe estar en consonancia con su sexo.56). 378 y 379. com o centro de seu ser fixado na nobreza e suas realizações. Após essa breve explicação diante dos conceitos ligados à personagem. p. portanto. Massaud Moisés e outros. apresentada por Cesar Domínguez (apud SILVA. consideremos que. Irene Freire Nunes. fiera. 50). de como e onde surgiu essa novela de cavalaria. naturalmente. a nobreza do corpo e da alma. A sua grande nobreza é a espiritual e manifesta-se nas boas ações. depois da morte passou a fazer milagres podendo assim ser chamada de santa. un aldeano y un filósofo (1982: I. A virtude específica do herói é seu autocontrole. Márcia Mongelli. a caracterização do processo de construção da personagem. segundo Isidoro de Sevilha. p. 223).

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