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A vTeoria Geral do Direito Civil II

Título V

Os negócios jurídicos
Capítulo I

Noções prévias
102. As acções
I. As pessoas agem na prossecução dos seus fins, para a satisfação das suas
necessidades. As acções são dados extrajurídicos. São extrajurídicos porque não
são instituídos pelo Direito. O Direito valora e desvalora as acções. Mas não é o
Direito que está na sua origem. Não é o Direito que conduz as pessoas a casar e
constituir família, por exemplo.
As acções situam-se numa relação tensa entre as pessoas, os seus
projectos e fins que lhes são próprios. Os bens situam-se entre as pessoas e os
seus projectos ou os seus fins, são os meios úteis para a realização dos fins das
pessoas.
Em sentido ético e jurídico, a acção engloba em si a finalidade que se
desencadeou o comportamento e que e o orientou, e a intencionalidade que lhe é
imanente. Um mesmo comportamento humano exterior pode ter sentidos éticos
diferentes e merecer valorações jurídicas muito diversas, consoante a finalidade
que o move e a intencionalidade que lhe está imanente. A relevância jurídica da
intencionalidade e da finalidade na acção é variável. A acção humana só é
compreensível na sua integralidade. Desconsideradas a intencionalidade e
finalidade, o simples comportamento externo só pode ser relevante como facto e
não como acto jurídico. Também as pessoas colectivas agem no Direito e as suas
acções não diferem de natureza em relação às das pessoas humanas.
103. Os factos jurídicos "stricto sensu"
I. O facto jurídico é um acontecimento com relevância jurídica. O facto jurídico, ao
corresponder à previsão da norma, é integrado com a norma, e dá lugar à
consequência jurídica.
a) Perspectiva subsuntiva silogística:
Numa perspectiva tradicional, a relevância do facto jurídico é entendida
subsuntivamente. O Direito configurado como norma geral e abstracta, é posto
em premissa maior. O facto simples e concreto é posto em premissa menor.
Esta perspectiva tem a seu favor a virtude de ser simples e a vantagem de
dar uma ilusão de segurança e de precisão no exercício jurídico. Verificada a
ocorrência do facto, através da prova - questão de facto -, desencadear-se-ia a
consequência jurídica - questão de direito -, de um modo puramente lógico. A
precisão, a segurança e mesmo a simplicidade deste método são ilusórios.
Desde logo porque os factos não existem como tal. O que existe é o
acontecer constante. A partir da facticidade bruta, o critério da selecção do que
interessa, do que é relevante para o Direito, é a previsão da regra jurídica
candidata à aplicação. O facto jurídico é um pedaço de realidade que é dela
recortado e autonomizado sob o critério da sua correspondência à previsão da
norma. O facto jurídico é algo que é construído a partir da norma.
b) Perspectiva analógica e hermenêutica
Numa perspectiva analógica e hermenêutica, o facto e a norma não passam de
matérias primas do processo de concretização, que carecem de uma certa
manipulação prévia para que possam ser integrados no processo de concretização
do Direito. A norma pertence ao dever-ser conceptual-abstractamente formulado;

Diferentemente dos simples factos jurídicos. o serem voluntários e o serem da autoria de pessoas e a elas imputáveis. Para que possam ser juridicamente integrados. 105. de comum com os negócios jurídicos têm a relevância da voluntariedade. As declarações podem classificar-se em:  Declarações de vontade: aquelas em que se exprime uma intenção. O regime jurídico e as consequências jurídicas dos negócios jurídicos são instituídas pelos próprios negócios. III. Os actos jurídicos têm como características. A intencionalidade e a finalidade com que sejam praticados não é relevante para a determinação da consequência jurídica. Os actos jurídicos I. Diferentemente do que sucede com os actos jurídicos simples e com os meros factos jurídicos. O que é relevante para o Direito. os actos jurídicos têm um papel quase passivo na determinação da consequência jurídica. Actos jurídicos podem classificar-se em:  actos declarativos ou declarações: são actos dirigidos a outros que têm um conteúdo comunicativo. em que se exprime um juízo de realidade. é necessário que a norma seja previamente facticizada . Os negócios jurídicos. no caso dos negócios jurídicos não é a Lei que determina unilateral e fixamente as consequências jurídicas. Têm de ter uma função de comunicar um conteúdo e de ter um conteúdo a comunicar a esses destinatários: são actos de comunicação  actos reais ou operações: comportamentos voluntários de pessoas em relação aos quais o Direito atende à voluntariedade da sua prática.os factos à facticidade do acontecer permanente. numa decisão jurídica. enquanto actos de autonomia privada. II. 104. O seu conteúdo comunicativo exprime uma intenção  Declarações de ciência: aquelas em que se comunica a outrem uma asserção sobre a verdade ou falsidade. Os negócios jurídicos Os negócios jurídicos são actos de autonomia privada que põem em vigor uma regulação jurídica vinculante para os seus autores. Tal como os simples factos jurídicos. 106. É a acção das partes e não a Lei. dentro dos limites jurídicos da autonomia privada.através da interpretação . Têm de ter um ou mais destinatários. são dirigidas a outrem e têm um conteúdo comunicativo. Os actos jurídicos são comportamentos voluntários juridicamente relevantes. é o comportamento do agente. nestes casos. mas que não têm conteúdo comunicativo. Os actos jurídicos são objecto de valoração jurídica. Comportamentos de pessoas humanas ou colectivas.através da sua leitura jurídica.e que o facto seja previamente normativizado . só vinculam os seus autores. . aos quais o Direito reconhece relevância como comportamentos voluntários e livres. com o conteúdo que estes lhe quiserem dar. O autor do acto jurídico não tem poder de determinar quais as suas consequências jurídicas. Liberdade de celebração e liberdade de estipulação Associadas ao negócio jurídico estão a liberdade de celebração e a liberdade de estipulação. Os actos jurídicos têm algo de comum com os factos jurídicos e algo de comum com os negócios jurídicos. De comum com os factos jurídicos têm o ser objecto de valoração jurídica.

Os agentes são outras pessoas que. de criar Direito. Um negócio bilateral tem duas partes: a parte compradora e a parte vendedora. Se os compradores foram três e os vendedores foram dois. b. podem ser legitimadas a agir no negócio. não pode também ser pelo Estado suprimida. intervém também no negócio jurídico a liberdade de determinar o seu conteúdo. É uma liberdade originária e radical que as pessoas têm. O negócio inválido não ganha vigência. O modo interprivado de criar Direito. através do negócio e do contrato. 401º. por títulos variados. através da lei. 107. A ilicitude e as suas consequências. 280º. Invalidade e responsabilidade No domínio do Direito Civil e do negócio jurídico. Os limites da autonomia encontram-se na Lei. Os autores ou as partes podem fazer-se substituir por pessoas a quem confiram poderes de representação. A falta de capacidade de gozo tem como consequência. Autonomia e heteronomia A autonomia privada existe sempre nalguma medida. que são os seus autores. Em princípio não alcançam vigor jurídico se forem ilícitos. 294º. 398º. 108. ou como representantes ou como auxiliares dos autores. As partes Os negócios jurídicos pressupõem pessoas que os tenham celebrado e que sejam partes deles. Limites da autonomia privada e área objectiva de licitude Preceitos legais no CC que limitam a liberdade de estipular o conteúdo dos contratos e dos negócios: 405º. continuará a haver apenas duas partes. na Moral e na Natureza. O negócio é uma manifestação do livre arbítrio. Pessoa que directamente age no negócio . 109. a ilicitude acarreta principalmente duas consequências:  invalidade: a invalidade do negócio jurídico traduz-se na sua não vigência no âmbito do Direito.e a pessoa a quem o Direito vai imputar essa acção . Além da liberdade de o celebrar ou não. Capacidade A incapacidade tem como consequência a invalidade do negócio jurídico.  responsabilidade: a ilicitude da acção tem também como consequência o dever de indemnizar os danos dela emergentes. Pressupostos dos negócios jurídicos a. "Parte é o titular dos interesses". A autonomia privada corresponde ao grande espaço de liberdade imposta pela dignidade humana. O autor de acções ilícitas deve indemnizar os danos que com essas acções causa a terceiros. harmonizam-se e integram-se na realização concreta do Direito. Traduz-se na responsabilidade civil por parte do seu autor.o agente .o autor. embora haja cinco autores. Os negócios jurídicos são celebrados por pessoas humanas ou colectivas. A autonomia pode desempenhar um papel maior ou menos em cada negócio ou contrato concreto.A liberdade de celebração postula uma livre decisão por parte do autor de celebrar ou de não celebrar o negócio. Com os autores não devem ser confundidos os agentes. e por si e autonomamente. liberdade que não é tributária do Estado porque não é por ele concedida e que. O autor tem também o poder de determinar em que termos se quer vincular. a nulidade de . 337º a 339º CC 110. por isso mesmo. em princípio. A Natureza limita a autonomia privada do mesmo modo que limita a liberdade das pessoas. e o modo estatal de criar Direito.

Só após o pagamento ou a remissão dos créditos. A falta de legitimidade tem como consequência em princípio a ineficácia. Os negócios jurídicos podem classificar-se em unilaterais e plurilaterais. Todos os negócios ou são unilaterais ou são plurilaterais. A falta de capacidade de exercício tem uma consequência diferente. os contratos são bilaterais. o negócio jurídico pode ainda ser afectado por incapacidade acidental do seu autor. através do negócio. na realidade. a referir é a ilicitude do negócio. o titular volta a ter legitimidade para fazer o que entender dos bens. Pode haver titularidade sem legitimidade. As classificações são modos de ordenar objectos em classes consoante as suas características de modo a facilitar a sua sistematização. A legitimidade resulta sempre de uma relação privilegiada entre a pessoa que age e os concretos bens. no caso da incapacidade por menoridade ou interdição. dos efeitos típicos do acto. locação . Nos plurilaterais há duas ou mais partes. Negócios unilaterais: Artigos 457º a 463º III. O objecto como o bem sobre o qual incide o negócio. Objecto O negócio jurídico não é uma acção vazia. porque têm apenas duas partes (casos típicos da compra e venda . Negócios unilaterais e plurilaterais I. Quando se fala de ilicitude do objecto. As classificações podem ser construídas com três ou mais classes. A legitimidade é um dos pressupostos do negócio jurídico. c.locador e locatário) .uma parte compradora e uma parte vendedora. abrangendo coisas e prestações. agir sobre e em relação a bens. d. Capítulo II Classes de negócios jurídicos 111. interesses ou situações jurídicas sobre os quais ela está habilitada a agir. interesses ou situações jurídicas que lhe permite agir sobre eles. doação . O negócio jurídico celebrado por quem estiver afectado por uma incapacidade de exercício é suprível pelo poder paternal ou pela tutela. Os negócios jurídicos plurilaterais são os contratos. O titular dos bens penhorados mantém a sua titularidade mas não pode dispor deles. Classe e classificação. II. no sentido de que o autor só pode. total ou parcial e absoluta ou relativa. Legitimidade A celebração de negócios jurídicos pressupõem a legitimidade. que se traduz na falta de produção. Esse algo sobre que o negócio rege é o seu objecto. O critério de classificação pode consistir em uma ou em mais do que uma características que tenham a virtualidade de distinguir uns objectos dos outros. A legitimidade é a particular posição da pessoa perante concretos bens. desde que para tanto tenha legitimidade. causada por um vício do seu objecto ou do seu conteúdo. 112. As suas partes regem entre si os seus interesses sobre algo. ou pela curatela.negócio. no caso de inabilitação. o que se está. No negócio unilateral intervém apenas uma parte. Para além de incapacidade de gozo e de exercício. Uma parte pode ser constituída por uma ou mais pessoas. Distinção do tipo Classe é um conjunto de objectos agrupados em torno de uma ou mais características que neles se verifiquem.doadora e donatário. O critério de classificação: nos negócios unilaterais há apenas uma parte. Na maior parte. A parte determina-se pela unidade do interesse prosseguido no negócio e pela unidade da legitimidade no agir negocial.

São negócios jurídicos patrimoniais aqueles pelos quais as partes regem sobre os bens da sua esfera jurídica patrimonial.  negócios jurídicos quaod effectum: aqueles que têm eficácia real. modificação e extinção de situações e relações jurídicas sucessórias. 115. não sendo necessária uma forma especial de expressão. à execução de prestações. Negócios sinalagmáticos . Os negócios mortis causa têm como causa a morte. ou a perfilhação. Transmissão da propriedade em consequência da simples celebração do contrato. São actos que não têm por função típica a produção de eficácia jurídica por morte. Exemplo: mútuo e depósito típicos Como negócios jurídicos familiares são aqueles que têm por conteúdo a constituição. Negócios consensuais e formais Os negócios jurídicos classificam-se em consensuais e formais. Os negócios unilaterais confinam-se a uma única declaração negocial. A sua função típica está ligada à morte. 238º. Em regra. adopção. Negócios "inter vivos" e "mortis causa" Outra classificação dos negócios jurídicos: inter vivos e mortis causa. ou extinção de situações ou relações jurídicas familiares. sobre bens avaliáveis em dinheiro (compra e venda. adopção. perfilhação). 117. Exemplo: compra e venda. 114.IV. Exemplo: testamento. familiares e sucessórios. Exemplo: mandatos. Negócios jurídicos reais são. familiares e sucessórios I. repúdio e a alienação da herança. os negócios jurídicos são celebrados inter vivos. São negócios consensuais aqueles para cuja celebração é suficiente o consenso das partes. Negócios pessoais e patrimoniais Os negócios jurídicos pode ser pessoais e patrimoniais. comodato. São formais os negócios para cuja celebração ou titulação a lei exija uma forma especial. convenção antenupcial. reais. doação). arrendamento. Exemplo: casamento. 220º CC. isto é. Exemplo: testamento. têm carácter pessoal quando o seu conteúdo não é avaliável em dinheiro. reais. por um lado. modificação.  negócios jurídicos quaod constitutionem: aqueles contratos que se não fecham sem que ocorra a entrega da coisa. a comportamentos devidos. e por outro os que se materializam com a entrega da coisa que constitui o seu objecto. Como obrigacionais. 113. ou de alguma delas. Os negócios jurídicos têm carácter patrimonial quando o seu conteúdo seja avaliável em dinheiro. ao contrário dos plurilaterais que implicam uma declaração negocial por cada uma das suas partes. os negócios jurídicos dos quais resulte a vinculação das partes. e cuja eficácia se desenvolve no âmbito da instituição da sucessão por morte. Como negócios jurídicos sucessórios classificam-se os que têm por conteúdo a constituição. Negócios obrigacionais. Os negócios jurídicos podem ser classificados em obrigacionais. São negócios jurídicos pessoais aqueles pelos quais são instituídos ou modificados estados pessoais das partes (casamento. os que têm efeitos de direitos reais. isto é. Desencadeiam a sua eficácia típica por causa da morte da pessoa a que se referem. e ainda que não haja entrega da coisa vendida. 116. como facto jurídico.

está ligada à sua funcionalidade e à sua utilidade. Em termos jurídicos. Os negócios parciários são aqueles que se caracterizam pela participação de uma ou de ambas as partes no resultado de um acto ou de uma actividade económica. É importante distinguir os actos de administração dos actos de disposição. se existirem. associação em participação. de um sistema de contrapartidas. Uma das prestações pode não corresponder valorativamente à outra. A simples administração não pode atingir e deve manter intacta a substância dos bens administrados. Exemplo: parceria. Muitas vezes a administração corrente implica a alienação de bens. no conteúdo do negócio. II. Quer isto dizer que à atribuição patrimonial de uma das partes corresponde uma atribuição patrimonial da outra parte de valor. Artigo 237º.contrato de trabalho. A classificação dos negócios jurídicos em gratuitos e onerosos é defeituosa. ou não. Negócios gratuitos e onerosos I. aleatórios e parciários. Ao decidirem da sua celebração. pelo menos equivalente. no contrato de trabalho é o salário. 120. o outro não entrega):  Genético  Funcional (típico de contratos de duração continuada . Os contratos onerosos são aqueles em que é estipulado um sistema de contrapartidas. A conservação abrange a manutenção normal de acordo com padrões de razoabilidade ou com manuais de manutenção. O critério distintivo entre a administração e a disposição varia . O critério de classificação é a existência. II. A administração inclui os actos tendentes à conservação e à frutificação normal dos bens em questão. Contrato não sinalagmático: doação (só gera obrigações para uma parte). que muitas vezes é uma percentagem. inclui também as reparações que possam ser consideradas de rotina e os actos necessários para evitar que os bens se percam ou se deteriorem. Os negócios aleatórios são negócios de risco. porque dificulta a concepção dos contratos que não sejam puramente gratuitos nem perfeitamente onerosos. Negócios de administração e de disposição I. Formam um todo indissociável. a onerosidade é perfeita. Nos negócios comutativos. Sinalagma é um vínculo entre os efeitos de ambas as partes (se um não é pago. na locação a contrapartida é a renda. Na compra e venda o preço é a contrapartida da coisa vendida. do resultado económico da operação económica subjacente. a atribuição patrimonial de uma ou mais partes traduz-se numa participação. as partes assumem voluntária e conscientemente o risco da eventualidade do desequilíbrio patrimonial. a comandita e a própria sociedade. aleatórios e parciários Os contratos onerosos subclassificam-se em comutativos.Quando os efeitos que produz para as partes têm a sua razão de ser/fundamento dos efeitos produzidos na outra parte. próprios desses bens. Contratos gratuitos são aqueles em que à prestação principal não corresponde uma contrapartida. 119. arrendamento 118. Nos negócios aleatórios existe um risco que dá ao negócio o seu sentido jurídico e que influencia o seu regime e a concretização da sua disciplina. Negócios comutativos. Cada prestação é a contrapartida da outra prestação. O critério de determinação da substância de uma coisa ou de um bem jurídico está na sua apetência para satisfazer uma necessidade ou de um fim das pessoas. Nestes negócios.

Os actos de administração devem manter incólume a aptidão da coisa ou do bem para a satisfação das necessidades ou para a prossecução dos fins a que estão afectas e. De acordo com o sistema da emissão. não pode ser atendida nem constituir o fundamento de pretensões ou excepções. feita no âmbito do negócio. a declaração negocial tornar-se-ia perfeita no momento em que o seu autor a emitisse. a declaração negocial preenche a totalidade do acto jurídico e esgota a sua materialidade. traduz-se numa pluralidade de declarações negociais. Nos negócios causais. Em grande parte dos casos. A declaração negocial e a sua perfeição I. A declaração negocial torna-se perfeita quando se consuma. Negócios causais e abstractos Negócios causais são aqueles em que a causa é relevante para o respectivo regime e. Os negócios abstractos são negócios nos quais a causa é desconsiderada. e como tal. Dois sistemas de determinação da perfeição da declaração negocial: o da emissão e o da recepção. A declaração negocial traduz sempre uma perda de liberdade para o declarante. afectem a substância da coisa ou do bem. Quando alcança a finalidade que lhe foi imprimida. é permitido que. a emissão e a recepção da declaração negocial ocorrem em momentos diferentes. é irrelevante. A declaração negocial. nas controvérsias suscitadas pelo negócio. como declaração de vontade. A declaração negocial é um comportamento voluntário que se traduz numa manifestação da vontade com conteúdo negocial. pode ser invocada como fundamento de pretensões ou excepções de direito material.conforma a coisa ou o bem em causa tenha esta ou aquela utilidade concreta. Capítulo III Formação dos negócios jurídicos 122. tem um conteúdo que é dirigido a outrem: ao declaratário. quando não tenha. o declarante apenas ficaria vinculado no momento em que a declaração chegasse ao seu destinatário. de modo a que efectivamente os alcancem do melhor modo possível. tornar-se perfeita a declaração negocial alcança a sua plena eficácia. O contrato. uma do comprador e outra do vendedor. III. 121. O critério será sempre o da substância do bem a administrar. Os negócios abstractos são aqueles em que a causa é irrelevante. Quando tenha um destinatário específico chama-se declaração negocial recipienda ou receptícia. A declaração negocial pode ter um declaratário específico ou ser dirigida a uma ou mais pessoas indeterminadas. nos negócios abstractos é vedada a invocação de tais argumentos. A administração pode abranger actos de alienação. A abstracção nunca é completa. Uma típica compra e venda é celebrada através de duas declarações negociais. Os actos de disposição são aqueles que. como negócio jurídico plurilateral. promover a potencialidade e a utilidade desse bem para a satisfação dessas necessidades e para a realização desses fins. Segundo o sistema da recepção. quando se liberta do seu autor e ganha substância própria. invoquem como fundamento argumentos ligados ou emergente da causa. às partes. declaração negocial não recipienda ou não receptícia. esteja afectado à prossecução de um ou de outro fim. II. dentro do critério enunciado. A perda de liberdade do declarante e a sua vinculação só teriam lugar no momento da recepção da declaração pelo declaratário. . No negócio jurídico unilateral.

Chegada ao poder do declaratário. por culpa exclusiva do seu destinatário. escrito ou noutro meio directo de manifestação da vontade. Declaração tácita: comportamento do qual se deduza com toda a probabilidade a expressão ou a comunicação de algo. tendo a mesma sido devolvida. declaração tácita e o silêncio I. O facto de a vontade ser emitida por um dos meios objectivamente típicos da declaração expressa. por exemplo. 217º distingue as declarações negociais em expressas e tácitas. As declarações expressas e tácitas têm em principio o mesmo valor.226º. também um sentido tácito. As declarações negociais recipiendas tornam-se perfeitas. em termos tais que dele se deduz com toda a probabilidade. Se a conduta culposa do declaratário não impediu a recepção. A questão da recepção não se coloca em relação à simples recepção ou não recepção da declaração. tal como as expressas. Há que distinguir duas situações diferentes: 1.III. deve entender-se que se tornou eficaz no momento em que deveria ter sido recebida se não tivesse ocorrido a conduta culposa do destinatário. mas também em relação ao tempo em que ocorra. Primeira: por exclusiva culpa do destinatário. A declaração negocial torna-se perfeita no lugar onde foi recebida. à interpretação das declarações negociais tácitas aplicam-se as regras dos artigos 236º e ss CC. ou onde deveria ter sido recebida quando. mas determinou o seu atraso. quando a vontade do declarante se manifesta na forma adequada. 2. V. A declaração negocial é expressa quando é feita por palavras. IV. No que respeita às declarações não recipiendas. a declaração deve ser tida como eficaz. por carta registada. II. no tempo em que chegam ao poder do declaratário ou são dele conhecidas. não impede que ela tenha além do expresso. a sua perfeição ocorre com a emissão. a revelam. a declaração não veio a ser definitivamente recebida. Segunda: também por culpa exclusiva do destinatário. É irrelevante que o declaratário. As declarações tácitas correspondem à compreensão do sentido que está implícito num qualquer comportamento. as declarações negociais tanto pode ser feitas expressa como tacitamente. 123. a declaração é legalmente tida por conhecida. com toda a probabilidade. que tem em seu poder a declaração. é tácita quando se deduz de factos que. a recepção tenha sido impedida ou atrasada. Artigo 224º. e o destinatário se recusou a recebê-la. As declarações tácitas. podem ser recipiendas ou não. III. Só nos casos em que a lei o exija é que a declaração tem de ser expressa. Exemplo: casamento. Da letra da lei resulta que a declaração só se torna eficaz se a sua não recepção foi devida apenas a culpa do declaratário. a declaração veio a ser recebida mas tardiamente. A declaração expressa. VI. a não leia ou dela não tome conhecimento. Quando a lei nada diga em contrário. segundo o Código. . O tempo da emissão da declaração negocial é relevante no que respeita aos pressupostos de capacidade e disponibilidade por parte do declarante . Se a declaração foi enviada.

propõese um contrato. 124. segundo o artigo 218º do CC só tem o valor jurídico que eventualmente lhe for atribuído por lei. por convenção ou pelos usos. No caso dos negócios unilaterais. a proposta é qualquer acto destinado a abrir um processo de contratação. O silêncio não deve ser confundido com a declaração negocial tácita. deve incluir todas as estipulações que sejam necessárias para que o contrato se conclua tal como projectado pelo proponente. e no segundo negócio entre ausentes. O silêncio é a ausência da declaração. projecto que se destina a ser transformado em contrato. fala-se de negócio entre presentes. Acto orientado à conclusão de um contrato. torna-se perfeita com a recepção. como declarações negociais em relação a cada uma das quais se coloca a problemática da perfeição. A proposta tem de constituir um projecto completo de contrato. quer a declaração negocial. uma vez que são concluídos entre uma pluralidade de partes. uma das partes. torna-se perfeita logo que a vontade do declarante se manifesta na forma adequada. A declaração negocial nos negócios entre presentes e entre ausentes Os negócios jurídicos podem ser celebrados entre pessoas que estão na presença umas das outras. por parte de cada uma das partes. Quando o negócio entre ausentes seja celebrado por escrito. Exemplo: telefone. contrapropostas ou aceitações. de uma prestação como cumprimento. Na proposta. Num qualquer contrato pode convencionar-se que o silêncio tenha o valor de aceitação. a sua conclusão implica a emissão e recepção de comunicações. não há lugar a propostas. a proposta e a aceitação. Quando for não recipienda. Da proposta deve constar o projecto completo do contrato querido pelo proponente. O sentido técnico-jurídico é mais restrito e limita-se às ofertas que possam determinar a conclusão do contrato mediante uma aceitação. Estas mensagens são declarações negociais distintas. a não declaração. não são juridicamente propostas contratuais. mediante a sua aceitação pela pessoa a quem for dirigida. e o negócio conclui-se com a declaração negocial única do seu autor. No regime legal do arrendamento por exemplo.VII. ou de recusa. O silêncio. de declarações negociais. . mas sim convites a contratar: na proposta propriamente dita. A proposta contratual e o convite a contratar a) A proposta de contrato A conclusão do contrato entre ausentes que não estejam em contacto simultâneo envolve um processo que implica pelo menos duas declarações de vontade: a proposta e a aceitação. é pura omissão. Todas as demais ofertas. não se torna aparente a distinção entre diferentes declarações negociais de cada uma das partes. consoante são celebrados entre presentes ou entre ausentes. formula uma oferta de contrato. no convite a contratar propõe-se uma negociação com vista à eventual celebração de um contrato. No sentido comum extrajurídico. é possível na sua formação. exemplo: cartas. Quando for recipienda. Deve constar tudo aquilo em que o proponente queira afastar ou modificar no regime dispositivo. Quando o negócio é celebrado entre presentes. O silêncio é a ausência de uma acção. Quando o negócio é celebrado entre ausentes tornam aparentes as declarações negociais de cada uma das partes. artigo 1054º/1 do CC atribui ao silêncio das partes o efeito de renovação do seu prazo. Também pode ser celebrado verbalmente. ou entre pessoas que o não estão. A conclusão do negócio é feita de maneira diferente e envolve problemas diversos. Completa: deve incluir todas as matérias que devam ficar estipuladas no contrato. quer o negócio propriamente dito. No primeiro caso. 125. No que respeita aos contratos. Requisitos da proposta de contrato: 1.

Formalmente suficiente: deve revestir uma forma que satisfaça a exigência formal do contrato proposto. na proposta. mas um simples convite a contratar. Se o proponente não estipular na proposta o meio de comunicação. e torna-se eficaz e vinculativa com a recepção. O âmbito pessoal do convite e o seu conteúdo não podem deixar de ser tidos em conta. em condições normais. Artigo 228º distingue 3 regimes de duração de vinculação do proponente: 1) Se for estipulado um prazo para a aceitação. a aceitação da proposta teria como consequência a conclusão de um contrato nulo por falta de forma. a vinculação mantém-se durante o tempo que. demorem a proposta e a respectiva aceitação a chegar aos respectivos destinatários. c) Eficácia vinculativa da proposta A proposta feia ao público. CC não avança quanto à determinação concreta do que seja esse tempo que. terá tida em consideração a pluralidade dos meios de comunicação. 3. por lei ou convenção. No convite a contratar o seu autor mantém uma liberdade que não tem na proposta de contrato. deverá ser determinada a demora normal destes meios de comunicação. demorem a proposta e a respectiva aceitação a chegar aos respectivos destinatários. a proposta e a sua aceitação demorem a chegar ao seu destino. mas sem se vincular. Se for pedida resposta imediata será então somado o tempo de demora normal das duas comunicações. estipular ou não. 3) Se não for estipulado qualquer prazo. de acordo com a boa fé. o proponente fica vinculado até ao termo desse prazo 2) Se for pedida resposta imediata. Se o fizer. o meio de comunicação que o destinatário deverá usar na resposta. b) O convite a contratar A proposta que não respeite estes três requisitos não é juridicamente uma proposta contratual. a proposta contratual vincula juridicamente o proponente. A partir do momento da sua perfeição. em condições normais. sujeito a uma exigência de forma. O convite pode ser dirigido ao público ou a pessoas concretamente identificadas. O convite a contratar não tem de ser formulado numa forma que satisfaça as exigências formais do contrato tido em vista. e vincula as pessoas envolvidas apenas ao dever de boa fé. A proposta que tem um ou mais destinatários determinados é uma declaração recipienda. Firme: deve exprimir uma vontade séria e inequívoca de contratar nos precisos moldes projectados na proposta. Há que distinguir consoante o proponente. Se o contrato proposto estiver. a pessoas indeterminadas é uma declaração não recipienda que é eficaz e torna-se vinculativa com a emissão logo que se manifesta na forma adequada. em condições normais.2. Não deve ser exagerado o grau de vinculação que do convite a contratar pode resultar para o seu autor: ela fica vinculado a agir com lealdade. a proposta terá de ser formulada numa forma que seja suficiente para satisfazer a forma exigida para o contrato.. mas não é obrigado a contratar. O convite a contratar fixa o quadro contratual cuja negociação se propõe. A aceitação de um convite a contratar tem como consequência apenas o iniciar de uma negociação com vista à celebração de um contrato. . Pode modificar o conteúdo do projecto contratual inicialmente formulado e pode desistir de contratar. a vinculação do proponente manterse-á até cinco dias após o tempo que. O convite a contratar é uma declaração pela qual uma pessoa se manifesta disposta a iniciar um processo de negociação com vista à futura eventual conclusão de um contracto. quando chega ao poder do destinatário ou é dele conhecida. nem a um seu conteúdo já completamente determinado. Se assim não fosse. ou ainda a certas classes de pessoas ou a pessoas determinadas segundo critérios gerais. nem à sua conclusão.

nº 2). O proponente. deverá sujeitar-se à demora normal de um meio de comunicação normal. deve aguardar o tempo necessário para que o destinatário da proposta a possa estudar e lhe possa dar uma resposta.. Artigo 224º. a proposta caduca "se houver fundamento para presumir que outra teria sido a (. não prejudica em princípio a sua eficácia. Uma vez expedida a proposta. Se o destinatário receber a revogação antes ou simultaneamente à recepção da proposta. Quando a proposta tenha um destinatário.Se o proponente nada estipular quanto ao meio de comunicação a utilizar na resposta. a que se refere o artigo 277º do CC. A vinculação do proponente só tem início com a recepção ou o conhecimento da proposta pelo seu destinatário. A aceitação deve obedecer a três requisitos: . ocorre ineficácia se. No que respeita à declaração negocial em geral. sempre poderá emitir nova proposta. d) Morte ou incapacidade do proponente Artigo 231º .230º. A aceitação: declaração de vontade recipienda que tem como conteúdo a concordância com uma proposta contratual e que tem como eficácia a vigência do contrato proposto. Segundo o nº 1 do artigo 231º. nº 3. Porém. a eficácia da revogação da proposta tem limites e depende de se tratar de uma proposta dirigida ao público ou a pessoa determinada e da recepção ou conhecimento que dela tiver já o destinatário. Nº 1 do artigo 226º: a morte ou incapacidade do declarante-proponente.números 1 e 2 do artigo 230º do CC. Diferente é o regime da revogação da proposta dirigida ao público. em princípio. posterior à emissão da declaração negocial que contém a proposta. Trata-se apenas de ilegitimidade superveniente. Na falta de estipulação do proponente. não se justifica que o seu autor fique vinculado antes de esse destinatário a ter recebido. Já a morte ou incapacidade superveniente do destinatário da proposta determina a sua caducidade (artigo 231º. O regime do artigo 231º aplicável especificamente à proposta contratual.prevê e regula o caso em que o proponente ou o destinatário da proposta faleça ou se torne incapaz após a emissão da proposta. 126. Também o regime do nº2 do artigo 226º se pode harmonizar com o do artigo 231º. Se o proponente quiser. a morte ou incapacidade superveniente do proponente não determina. em princípio vinculado aos seus termos. não chega a ser criada no seu espírito a expectativa da contratação e não se justifica a vinculação do proponente .. o declarante perder a disponibilidade do direito a que a declaração se refere. d) Revogação da proposta A proposta pode ser revogada. desde que o seja na mesma forma da proposta ou em forma equivalente .) vontade" do proponente. O nº 1 do artigo 230º admite a estipulação pelo proponente do regima da revogação da proposta. a caducidade da proposta. o proponente fica. relaciona-se com o do artigo 226º que se aplica à declaração negocial em geral. A questão deve ser apreciada em ligação com o dever de boa fé na contratação. Trata-se de matéria disponível onde rege a autonomia privada. de igual teor dirigida aos herdeiros do destinatário. A aceitação I. A eficácia da revogação ocorre logo que seja feita. antes da recepção ou do conhecimento do declaratário. Esta limitação justifica-se: se do teor e do contexto e circunstância da proposta de concluir que o proponente não teria querido a proposta se tivesse previsto que viria a falecer ou a tornar-se incapaz durante o processo negocial. depois de formular e expedir a sua proposta.

O projecto de contrato que contém é formado por tudo aquilo que na proposta tiver sido aceite e ainda por aquilo que na resposta for modificado ou acrescentado. que exprima a vontade firme de contratar nesses moldes e que seja formalmente suficiente para que. A aceitação deve tornar-se perfeita. Segundo o artigo 233º. Pode todavia ter o valor de uma contraproposta. o contrato não se conclui. previu a lei o caso em que a aceitação com modificações tenha características que obedeçam aos requisitos necessários para uma proposta contratual. do mesmo modo que é exigido para a proposta. Se recebida tardiamente. a aceitação terá de revestir uma forma que seja suficiente para o contrato se poder concluir. como declaração. 228º .tempo de vinculação. Passado esse tempo. A aceitação só é tempestiva se se tornar perfeita enquanto se mantiver a sujeição do proponente. a aceitação tiver sido expedida em tempo oportuno. A suficiência formal é imprescindível como requisito. pelo seu lado. aditamentos. limitações ou outras modificações importa. A aceitação com modificações vale como contraproposta com o conteúdo da proposta tal como modificado na resposta que lhe foi dada. Se o não fizer. . A aceitação deve exprimir uma concordância pura e simples. Artigo 229º estatui um regime especial para o caso da recepção tardia da aceitação.1) Conformidade 2) Tempestividade 3) Suficiência formal II. antes de ter cessado a vinculação do proponente. o destinatário pode considerá-la eficaz. Quando assim suceder. mas aquele que recebeu tardiamente a aceitação deverá avisar imediatamente o aceitante de que o contrato se não concluiu. uma aceitação. 2) Suficiência formal: é necessário para a contraproposta. Qualquer resposta que não satisfaça o requisito da conformidade não tem a eficácia de conclusão do contrato. conjuntamente com a proposta inicial. em princípio a rejeição da proposta. a declaração pode ser qualificada como nova proposta. A aceitação é uma declaração recipienda. 3) Tempestividade: O proponente pode estipular. quando chega ao poder do proponente ou é por ele conhecida. o seu destinatário não tiver razões para admitir que foi expedida fora de tempo. 1) Conformidade: adesão total e completa à proposta. que se torna perfeita nos termos do artigo 224º. Na segunda parte do artigo 233º. a aceitação com aditamentos. A aceitação com modificações. mediante a aceitação. qual é o tempo pelo qual se pretende vincular. limitações não opera a conclusão do contrato. IV. para poder valer como contraproposta. 229º prevê o dever de informação no caso em que o contrato se não conclui em consequência da recepção tardia da aceitação. será responsável pelo prejuízo. se opere a conclusão do contrato. cessa a sujeição do proponente e também o poder potestativo do destinatário de aceitar a proposta. dirigida ao proponente. Se não obstante ter chegado tardiamente. ou não. ma proposta. uma vez que. Neste caso. perante. ou como contraproposta. Cada interveniente na contratação deve informar o outro sobre tudo. é necessário que esta declaração contenha um projecto completo de contrato. Nos restantes casos previstos no artigo 229º não existe dever de informar? O dever de informação resulta do dever de boa fé na contratação que está expressamente prevista no artigo 227º. também ela se integra. não poderá deixar de ser formalmente suficiente para o contrato se poder concluir. Se o negócio projectado estiver sujeito a uma exigência especial de forma. É importante que o aceitante seja informado. por lei ou por estipulação. Uma aceitação com reservas.

Contratação em auto-serviço O adquirente serve-se a si próprio. A determinação final de com qual dos interessados virá a ser concluído o contrato é feita por licitação. feita ao público.228º e seguintes O tipo proposta-aceitação caracteriza-se pela separação formal das declarações negociais das partes em uma proposta e uma aceitação. b. caso em que o contrato se conclui. A outra parte. Contratação automática Em que o contrato é celebrado por intermédio de máquinas. d. ou com uma rejeição. e. depois de recebida a proposta. Venda por catálogo Caracteriza-se pela oferta. Contratação electrónica e-business. g. usa o serviço pretendido ou apropria-se do bem a adquirir e paga-o na caixa. Contratação sobre documento Existência de um documento que contém a estipulação contratual e ao qual as partes aderem. Tipos de processos de contratação Existem vários tipos de processos de contratação: 1) proposta-aceitação 2) contratação sobre um documento 3) contratação em leilão 4) contratação automática 5) venda por catálogo 6) contratação em auto-serviço a. A licitação é feita de modos diversos: carta fechada.234º. mas pode também formular uma contraproposta. O contrato vem a ser celebrado com quem fizer o lance que mais agradar à parte que teve a iniciativa do leilão. corresponde geralmente aos contratos mais complexos e com maior importância. ou com uma aceitação. de uma pluralidade de bens. Este comportamento é uma declaração tácita. lances descendentes. c. Este documento pode ser preparado por ambas as partes ou por um terceiro e o seu conteúdo pode resultar de negociações mais ou menos complexas e prolongadas. 127. O consenso e o dissenso . com a possível intermediação de uma ou mais contrapropostas. Este tipo de processo de contratação é o que. Proposta-aceitação . 128. O texto do artigo 234º exige expressamente que tenha havido um comportamento do qual se deduza a aceitação. Contrato em leilão Ou em hasta pública. A parte que tem iniciativa do contrato dirige à outra uma proposta que contém o seu projecto de contrato. Este tipo é o mais adequado e o mais utilizado na celebração de contratos em que à parte que tem a inicitativa contratual se oferece um universo plural de possíveis contrapartes. f.A aceitação pode ser expressa ou tácita . em catálogos. pode aceitá-la. as partes assinalam-no e põem assim em vigor o contrato que nele está titulado. caracteriza-se pela dualização entre a parte que tem a iniciativa do contrato e uma pluralidade de interessados na contratação. lances ascendentes. Chegado ao acordo sobre o texto do documento. e-commerce. O processo de contratação só determina.

À medida que uma negociação vai progredindo. as áreas de consenso vão aumentando até ser alcançado o consenso total. o contrato não se conclui dissenso. no momento em que as partes chegarem a acordo acerca de cada uma das questões que qualquer uma delas tenha suscitado e sobre as quais tenha considerado necessário o consenso. O dissenso é patente sempre que as partes têm dele consciência. O consenso O momento em que o contrato se conclui. O dissenso é oculto quando as partes estão falsamente convencidas de terem alcançado o acordo sobre o contrato sem que todavia assim tenha sucedido. Enquanto subsistir algum dissenso não há consenso nem se dá a conclusão do contrato. A lei não põe qualquer limite à liberdade que as partes em negociação têm para colocar sobre a mesa outras matérias. Enquanto as partes se mantêm em negociação com vista à celebração do contrato estabelece-se entre elas um relacionamento muito particular. existe dissenso. As partes em negociação revelam umas às outras as suas necessidades e conveniências. ou tenha ouvido mal. Artigo 232º . tanto nos preliminares como na formação do . Durante a fase da negociação existe um dissenso. Permite que o contrato se tenha como fechado. Artigo 227º impõe a cada uma das partes em negociação que proceda segundo as regras da boa fé. A partir do momento da conclusão. b. O dissenso é patente ou oculto. só pode ser desencadeado se se puder concluir que o contrato teria sido celebrado pelas partes mesmo sem aquela matéria sobre a qual o dissenso recaiu. A negociação pode frustrar-se definitivamente quando as partes cheguem à conclusão de que não chegarão a acordo e neste caso o dissenso é definitivo e corresponde à desistência das partes em relação à conclusão do contrato. O terceiro resulta do desacerto entre as declarações das partes e do qual elas se não aperceberam. A culpa in contrahendo I. dissenso que vai sendo removido pela negociação por concessões mútuas ou pelo encontrar de alternativas ou novas soluções negociais. O mesmo pode suceder sempre que uma declaração correctamente expedida seja entendida com um sentido diferente. Um segundo tipo de dissenso oculto pode resultar da utilização no contrato de expressões equívocas. cessa a relação de negociação entre as partes e os correspondentes deveres de boa fé pré-negocial. os objectivos que as movem. que sejam entendidas pelas partes com diferentes significados. 129.o contrato não fica concluído enquanto as partes não houverem acordado em todas as cláusulas sobre as quais qualquer delas tenha julgado necessário o acordo. As partes em negociação colocam-se muitas vezes em posições de fragilidade. que provoca a conclusão do contrato. ainda que tenha havido dissenso sobre um ponto acerca do qual devesse ter havido acordo. Entre as partes em negociação estabelecem-se relações de confiança. mas ele é entendido pelas partes como provisório e como destinado a ser removido. Quando assim suceda. O dissenso Se as partes em negociação não chegarem a acordo. as partes ficam vinculadas nos seus termos e nada mais existe para negociar. As partes sabem que não estão ainda de acordo. O contrato conclui-se. segundo o artigo 232º. pode suceder que uma das partes não tenha ouvido. A doutrina alemã distingue o dissenso total do dissenso parcial.a. O sistema alemão de aproveitamento do contrato ainda que por dissenso pontual. O dissenso oculto resulta de três circunstâncias: 1) Deficiente entendimento de expressões ditas na contratação oral 2) Utilização de expressões equívocas no contrato 3) Desconformidade ou não correspondência entre as declarações das partes Nos contratos celebrados oralmente. É relevante para a determinação do tempo e do conteúdo do contrato. Enquanto a negociação se mantém.

contrato. Se a invalidade for imputável a conduta culposa de uma das partes. o dano em que a outra tiver incorrido por ter celebrado um contrato que é total ou parcialmente inválido. Artigo 253º  deveres de lealdade: vinculam as partes em negociação a comportar-se na interacção pré-contratual com honestidade e correcção. V. Se todavia a sua actuação. ao romperem as negociações. VI. Exige demonstração convincente de que a parte que interrompeu a negociação e se desinteressou do contrato o fez de um modo reprovável e com violação da boa fé.e procurar evitar causar danos ao seu parceiro negocial . . sob pena de responder pelos danos que culposamente causar à outra parte. É necessária uma referência aos padrões de comportamento aceitável e exigível vigentes na sociedade II. total ou parcial. deve essa parte indemnizar o interesse contratual negativo. A contratação defeituosa abrange os casos de conclusão meramente aparente do contrato por dissenso oculto. VII. Os deveres de boa fé na negociação têm sido tipificados em:  deveres de protecção: vinculam as partes em negociação a fazer o que razoavelmente estiver ao seu alcance para evitar ou reduzir danos ou custos de outra parte  deveres de esclarecimento: vinculam as partes em negociação a partilhar os dados e informações com relevância para a apreciação correcta das circunstâncias do contrato e das qualidades das pessoas envolvidas. Também não é lícito que uma das partes que se aperceba de que a outra está em erro ou mal informada. Os deveres de boa fé na negociação e na conclusão do contrato são limitados pela razoabilidade. As partes em negociação mantém sempre a liberdade de não celebrar o contrato: a liberdade contratual negativa. Um contrato plenamente válido e eficaz pode ter sido negociado e concluído com violação culposa do dever da boa fé. contrária à boa fé. ainda que o contrato seja plenamente válido e eficaz. A ruptura injustificada de negociações só tem como consequência a responsabilidade civil. do contrato celebrado e de injustiça interna do seu conteúdo. leal e transparente como pessoa de bem. incorrectas ou incompletas que possam conduzir a outra parte a danos ou a um mau contrato. de invalidade. A boa fé traduz-se no dever de actuação honesta. como pessoas de bem . terá a parte que se desinteressou da conclusão do contrato de indemnizar a outra pelo dano.honestae agere . O dissenso oculto pode ser resultado de conduta culposa ou contrária à boa fé. A ruptura injustificada das negociações constitui um acto ilícito quando feita com violação da boa fé. for contrária à boa fé e culposa. III. A relação jurídica pré-contratual tem como conteúdo as vinculações interpessoais decorrentes do dever de boa fé. de uma ou ambas as partes. A violação culposa da boa fé na contratação não impede a conclusão do contrato nem prejudica a sua validade e eficácia. A boa fé exigida às partes na fase das negociações é a boa fé objectiva. As partes em negociação devem comportar-se honestamente. se abstenha de a informar dessa deficiência. Concretização do mandamento de honestae agere.alterum non laedere. a boa fé como regra de conduta. deve haver lugar a responsabilidade civil. Não é lícito prestar informações falsas. Se da conduta culposa e contrária à boa fé de uma das partes resultar dano para a outra.