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GEOGRAFIA CULTURAL – UNIDADE 1

Prof. Fábio Coltro

UNIDADE I - NOVAS GEOGRAFIAS CULTURAIS

Caros alunos, as ciências geográficas vêm avançando e
ramificando-se em diversas formas. Nosso intuito é proporcionar-lhes uma pequena
visualização das correntes contemporâneas dentro da Geografia cultural. Para
tanto, se faz necessário recuperar alguns aspectos que antecedem essa
contemporaneidade.
Devemos retomar alguns conceitos previamente antes de
partirmos para a questão da contemporaneidade na geografia cultural, tal retorno
abordará os conceitos de geografia cultural e cultura, bem como a sua
transformação ao longo dos anos na academia e, assim, chegando as teorias e
abordagens contemporâneas.
Comecemos então, com o conceito de geografia.
A Geografia é uma ciência que tem, na atualidade, o espaço
geográfico como um dos seus objetos principais. Podemos entender o espaço
geográfico como um espaço produzido pela atividade humana, ou seja, um espaço
humanizado e conhecido pela consciência humana nessa cotidianidade (GABRIEL,
2011).
Desta forma, temos, além da ideia de que a geografia é a
ciência das relações humanas com o meio ambiente, temos também um
componente social e cultural, na construção dos significados do cotidiano, e dos
significados do espaço.
É nesse ponto que iremos abordar as transformações
contemporâneas da geografia cultural.
Como afirma Duncan et al (2014), nas últimas duas décadas a
geografia cultural passou por uma significativa mudança, teórica, metodológica e
epistemológica. Assim, novos aspectos foram incorporados a geografia cultural,
acompanhando mudanças nas outras ciências sociais e humanas.
Um desses aspectos foi a incorporação de novas
interpretações e teorias sociais oriundas, principalmente dos países anglo-saxão.
Temos ainda a abordagens de novos temas dentro da geografia cultural que amplia
seu alcance e, conforme afirma Edgard Morin (2001), tende a responder com maior
complexidade os aspectos de nossa sociedade, cada vez mais complexa e
heterodoxa.
Retomando alguns conceitos básicos, temos ainda a Nabozny
(2014, p. 75) que afirma:
Na discussão da história do pensamento geográfico, alguns
autores têm buscado trazer elementos arqueológicos na
discussão cultural da Geografia, ou seja, evidenciando que, de

VÍDEO https://www. 2001. Bonnemaiso (2000) e Almeida (2008) e. a Geografia Cultural da época girava geralmente em torno de uma cultura material. Silva (2015) afirma que a geografia era vista principalmente de um ângulo econômico e histórico.com/watch?v=hcT_fo2uBnI Caro alunos. continua Silva (2015). p. portanto. Assim. a discussão referente à cultura sempre esteve presente na Geografia em sua ―demarcação humana seguindo certa cronologia. nos textos de Ferraz (2007).20). Posteriormente. se referindo às migrações globais e as consequentes transformações e dominações no espaço. o Ratzel já discutia nesta obra os encontros culturais na sociedade. Posto que. a influência desses estudos nos trabalhos desenvolvidos por Carl Ortwin Sauer. cuja chave da expressão (Geografia Cultural) se faria presente inicialmente em Friedrich Ratzel (1844-1904). se referia apenas às transformações que os moradores (residentes e migrantes) causavam no espaço. como demonstra Ratzel em sua obra “A Geografia Cultural dos Estados Unidos da América do Norte com ênfase especialmente voltada para as suas condições econômicas” (CLAVAL. visivelmente ancorada na leitura de Paul Claval. são retratadas a denominada Escola da Paisagem Alemã. Essa leitura é recorrente e original em Claval (2007a – primeira edição francesa é de 1995). com a evolução da própria ciência geográfica que acompanhou as novas relações sociais no espaço na fase da industrialização e das migrações internacionais. PARA REFLETIR: COMO AS MUDANÇAS SÓCIO-CULTURAIS MODIFICAM O ESPAÇO? QUAL A SUA RELAÇÃO? . Portanto. na chamada Escola de Berkeley (EUA). assim como são destacados os trabalhos dos gêneros devida lablacheanos nos quais haveria uma forte presença dos aspectos culturais. numa sociedade moderna.youtube. p. veja esta video sobre as diferenças entra a geografia cultural no Brasil e na Alemanha e discuta sobre a realidade cultural de sua região Assim. consequentemente as vindas da concepção de cultura.algum modo. Ratzel chamou atenção específica à questão dos imigrantes chineses nos Estados Unidos (CLAVAL. Entretanto. No entanto. 2001. uma vez que a sociedade mudava. Bloomfield (2007) e Zanatta (2008). a forma como os estudiosos entendiam o que era cultura também ia sendo alterado. Tais transformações acompanharam as mudanças ocorridas na sociedade do século XX e. a Geografia Cultural também passou por transformações. Sendo este um primeiro marco para a Geografia Cultural.20).

A revisão do centramento humanista nas ciências. Nigel Trhift (2001) e Hayden Lorymer (2009) entre outros. em grande parte. em especial no tocante a cultura. Latour (1989) questiona as certezas que caracterizaram as ciências até então. nos questiona sobre as certezas modernas. Deleuze e Guattari. É dentro desta perspectiva que vamos nos debruçar a tentar acompanhar o pensamento geográfico e suas implicações na concepção e intepretação da cultura. e na geografia cultural as propostas de Jonathan Murdoch (2008). Autores como Deleuze e Guattari (1989) começam a discutir as correlações entre humanos e a agência. Os movimentos sociais dessas décadas forma fundamentais. juntamente com Haraway. Ao abordar uma “geografia do cotidiano”. Donna Haraway. temos a entrada de algumas novas abordagens sobre as relações sociais e culturais. Ou seja. suscitou ampla discussão sobre o papel das ciências e do aspecto antropocêntrico das teorias científicas. Kelton Gabriel (2011). ao questionar a modernidade. Uma das questões que contribuem para essas modificações é a noção de agente. devemos ainda abordar alguns pontos das mudanças sociais e culturais ocorridas nas décadas de 1960 e 1970. interpretação e significação do mundo e do espaço vivido. com especial atenção para as obras de Michel Foucault. o antropólogo francês Bruno Latour (1989). principalmente nas ciências humanas nas décadas de 1970 a 1990. Gabriel (2011) aponta novos caminhos para a geografia brasileira pautada. legando a um segundo plano todos os outros aspectos relacionados a agencia. do espaço e de suas relações.A partir das mudanças ocorridas. Antes de partirmos para outros aspectos destas novas interpretações da geografia cultural contemporânea. abrindo caminho para uma nova e ampla interpretação da cultura e de suas possibilidades cotidianas. criando novas interpretações e significados do espaço. Nesta abordagem. colocando o humano não mais no centro de toda a transformação e questão social e cultural. traz uma das mais inovadoras pesquisas nesse aspecto para o Brasil. Bruno Latour. Essa questão é posteriormente retomada e aprofunda por Donna Haraway (2001) ao atentar que os aspectos não-humanos. . em uma análise crítica de origem marxista. exclusividade da humanidade. mas como mais um elemento que ser relaciona e interage. até então. tanto do ponto-de-vista político quanto acadêmico. Tal revisão amplia a possibilidade das novas interpretações. A “agência” das transformações sociais forma. Esta visão tem grande impacto nas ciências geográficas. tem (em nossa relação cotidiana) grande influência na construção.

b) O pós-moderno se expressa na sociedade de consumo personalizado (fase do capitalismo tardio). "mudar". Santos. O traço comum a esta corrente é a recusa a aceitar uma única interpretação a respeito da sociedade e seu espaço. Philo e Sadler. MODERNIDADE E PÓS ESTRUTURALISMO A abordagem contemporânea pós-estruturalista. Dear. no primeiro quartel do século XIX.com/watch?v=Lho_2OjFITk Caro aluno. Foucault e Said é considerável para essa corrente. são exemplos de pesquisadores que vêm constantemente reavaliando a disciplina em suas abordagens teóricas. onde muitas vezes cada um deles segue caminhos próprios tornando-se um ramo de debate específico. A influência de Geertz. buscando novas propostas de "remodelar". constitui-se em notável exemplo. mais com signos do que com objetos propriamente ditos. Afirma Roberto Correa Lobato (2009) que a corrente pósestruturalista se caracteriza por uma variedade de caminhos a serem seguidos.youtube. com o intuito de arrebanhá-lo para uma "moral hedonista".Veremos nos próximos itens alguns desses aspectos aqui abordados e suas consequências. devemos pensar o que é a pós-modernidade. Johnston. "abordar". estabelecer parâmetros e compreender conceitos e problemas relacionados com essa temática. Clocke. Sri Lanka. . Salvi (2002). Gregory e Walford. em sua crítica ao estruturalismo e ao positivismo. afirmando que geógrafos como Harvey. de valores calcados no prazer de usar bens e serviços. dentre muitos outros. O estudo de Duncan (1990) sobre a política de interpretação da paisagem na capital do reino de Kandy. Dado a esse fato e diante da alta tecnologia de informação lida-se. Além disso. É dessa diversidade que surge a dificuldade de ordenar. Mas antes de avançarmos com esse debate. onde frequentemente tenta-se provocar a "sedução" do sujeito. Kobayashi e Mackenzie. Thrift. diversões e serviços. hoje. Peet. VÍDEO PÓS- https://www. Salvi (2002) apresenta um esquema que resumido das características da pós-moderno: a) A tecnologia eletrônica de massa e individual invadiu o cotidiano saturando-o com informações. Macmillan. assim como os estudos focalizando as controvérsias a respeito das formas simbólicas espaciais. Suodart. "refazer". nos auxilia. dizendo a questão pós-moderna gira em torno de alguns eixos de discussão. reflita sobre a questão cultural contida neste vídeo. Silva. Ley. segundo Salvi (2000).

a ausência de valores e de sentido para a vida. f) Tecnociência. rir levianamente de tudo. Estado. pasticheiro e sem esperança.c) Nos anos 60-70. valores e instituições ocidentais Deus. e) A partir do final dos anos 80. Ser. a partir do final dos anos 70. Salvi (2002. d) Já metamorfoseado. p 103) ainda atenta para a distinção entre pós-moderno e pós-modernidade: A pós-modernidade pode adquirir alguns significados: a) nada pode ser conhecido com certeza.html em geral. Produção. Os pós-modernistas querem. c) o surgimento de uma nova "agenda" social e política adveio de preocupações ecológicas e dos novos movimentes sociais LINK: Moderninadade vs Pós-modernidade Para discutir melhor a questão da modernidade versus a pós-modernidade aconselhamos visitar o site: http://www. sendo que nenhuma versão de progresso pode ser seriamente defendida. o pósmodernismo passou a assumir estilos de vida e migrou também para a área da filosofia. sobressaindo o estilo satírico. Revolução. . Consciência. o nada. Houve uma entrega ao presente e a necessidade de viver o momento e o prazer do momento. acompanhados da entrega ao consumo e ao individualismo. arte e filosofia em torno de um homem emergente ou decadente são os onde o pós-moderno pôde ser surpreendido. o pós-modernismo alastra-se por quase todas as áreas científicas em especial por aquelas que lidam com comunicação e marketing. Sentido. consumo personalizado. num primeiro momento. o movimento pós-moderno migrou da arquitetura para a pintura e a escultura. Ciência. g) O pós-modernismo é típico das sociedades pósindustriais. depois para o romance. Verdade.com/sk/holgonsi/harvey1. pois os fundamentos da epistemologia revelaram-se sem credibilidade. Nesses dois âmbitos vicejam ideias tidas como sinistras: o "niilismo". Sujeito. h) O pós-modernismo está associado à decadência das grandes ideias. o vazio. Totalidade. Família. Razão.angelfire. b) a história é destituída de teleologia.

Visto dessa forma. David Harvey. Modernismo e vanguarda se relacionam à modernização social e industrial. aproveitem essa oportunidade de assistir um dos maiores geógrafos contemporâneos. o pósmodernismo não representa apenas outra crise no contínuo ciclo de altos e baixos. Michael Dear (1988) teve o mérito de estender o debate pós-moderno no nível da reflexão epistemológica na ciência geográfica. pretendendo demonstrar a produção norteamericana e comentar o engajamento da Geografia Humana no debate pósmoderno. Parte da mudança a que assistimos reside no fato de que muitas dicotomias estão ultrapassadas. o pós-modernismo está longe de tornar o modernismo obsoleto.youtube. Averiguaremos aspectos dessas duas diferentes proposições.Geografia ingressa no debate pós-moderno no final da década de 80. A visão heroica da modernidade e da arte como forças de mudança social estão fora de sintonia com as sensibilidades presentes. Nesse sentido. A contribuição que teve maior abrangência foi a obra David Harvey (1992). . Começamos a explorar as contradições e contingências.com/watch?v=cjoyEiDy0mM Caros alunos.. apropriando-se inclusive de muitas de suas estratégias e técnicas estéticas. feminino e masculino. inserindo-as e fazendo-as trabalhar "em outras constelações". que tem caracterizado a trajetória da modernidade. verdade e mentira. exaustão e renovação. as tensões e resistências internas da modernidade. Entretanto. etc. VIDEO https://www. O pós-modernismo só rejeita o modernismo na sua tendência de codificar-se num dogma estreito. bom e mau. Somente nos anos 70 ficaram nítidos os limites históricos do modernismo. Acreditava-se que a modernização devia ser trilhada. Ele representa um novo tipo de crise dessa cultura. da modernidade e da modernização.

e falam (ou 'discursam') sobre os animais nas suas proximidades vai. prefere o termo “transgredir” ou invés de “resistir”. para Philo (1995) e outros autores desta “nova geografia cultural animal”. Concordando com essa ideia. and the city: notes on inclusion and exclusion”. Philo (1995) busca compreender essa relação socioespacial que inclui ou exclui determinado ser das relações. sentem. apresenta sua teoria de exclusão dos animais como fato relevante para a geografia e para o repensar das relações humano-animais. num sentido político de intencionalidade. argumenta que diferente de comportaram-se exatamente como humanos. Esclarecendo. Peter Singer (2013) argumenta que diferente dos humanos. No artigo intitulado “Animals. . Visto como uma das maiores objeções a essa tese. 1995 p. Philo (1995). com importante consequências para estender às diferentes espécies animais presentes que serão incluídas ou excluídas dos lugares comuns da atividade humana. adotando esse último como carregado de intencionalidade política. ou da agência. “vão” se comportar de forma contrária da expectativa humana sobre seu comportamento. em que expõe sua percepção sobre a questão animal na geografia. Philo (1995) afirma: “Precisamente como diferentes comunidades humanas pensam. Atentando para o risco de ser antropomórfico. os animais.INCLUSÃO E EXCLUSÃO DOS ANIMAIS A PERSPECTIVA DE CHRIS PHILO Um dos artigos mais importantes nessa “nova geografia cultural animal” é a de Chris Philo (1995). Philo (1995). Uma das questões levantadas por Philo (1995) nesse sentido é a questão de intencionalidade. obviamente. a intencionalidade da ação ou agência é. fundamental. territórios e outros espaços de exclusão. geography. ainda assim. moldar suas práticas sócio espaciais com relação a esses seres nas práticas cotidianas. criando fronteiras. ” (PHILO. os animais não têm desejo (da mesma forma que os humanos têm). 656) Portanto. Philo (1995).

a ideia de Cresswell (1992). convenções e expectativas) e. muitos animais (domésticos ou selvagens1) são ocasionalmente transgressores da ordem sócio-espacial que foi criada e policiada sobre eles pelos seres humanos. Voltando a Philo (1995). Nesse sentido Tim Cresswell afirma haver uma significativa diferença entre resistir e transgredir: “Resistência parece implicar intenção – ação proposital direcionada contra alguma entidade com a intenção de mudança ou diminuir seus efeitos … Transgressão. 53-54) Para Philo (1995). e acontecimentos que não são esperados). devendo. envolve um “cruzar a linha” que significa. Transgressão é julgado por aqueles que reagem. ” (CRESSWELL.mas têm preferências e estas são similares a dos humanos. para Philo (1995). mas sim sob os resultados – sobre o 'ser' de determinada ação. mais concretamente. se tornando assunto de “fora-delugar” no processo. eles são. portanto. que. nesses termos. . os animais são frequentemente expurgados dos lugares – ou ficam for a do “papel” que eles supostamente deviam agir em determinados lugares – que são atribuídos para eles pelos seres humanos. metaforicamente cruzar as fronteiras sociais (normas. pois se consideramos que os animais transgridam o espaço socialmente construído. portanto. enquanto resistência assenta-se sobre as intenções do (s) ator (es). 1992 p. leva ao que se chama fenômeno “fora-do-lugar” (substância. PARA SABER MAIS 1Gostaríamos de fazer apenas um esclarecimento. em distinção a resistência. agentes de modificações sócioespaciais. Parece. ações. e. a questão da resistência x transgressão é um dos pontos centrais da sua ideia. serem igualmente consideradas. nesse sentido. não o faz baseando-se na intenção dos atores. Aqui estamos usando como Acesse o blog: sinônimos os termos selvagens e silvestres por não haver no vocabulário anglosaxão um termo que os distingue.

devem ser excluídos do espaço social. que devem ser banidos do convívio diário da “aristocracia” ou dos “cidadãos de bem”. tanto animais quanto humanos. portanto. IXX. Philo (1995). que relaciona a pureza e sujeira (nesse caso a degradação) em dualismos como bem e mal. A partir dessa base teórica. entre outros. A partir desta premissa.Aqui. Philo (1995). Philo (1995). avança para seu estudo das mudanças urbanas ocorridas em Londres e em Chicago no Séc. Philo (1995). principalmente os anos 1970s. retoma-se a ideia das 3 ondas da geografia cultural animal. atribuí aos animais o papel de “outro grupo marginal”. Retomando as discussões de Wolch & Emel (1995). retomando a perspectiva antropológica de Mary Douglas (1991). Assim Philo afirma: . puro e poluído. Na sua construção da 3ª onda da geografia cultural animal. começa a discussão da visão dos animais na geografia acadêmica até então. No caso de Philo (1995) e pesquisa assenta-se sobre a Inglaterra vitoriana e seu padrão de comportamento moral rigoroso e a associação de comportamentos inadequados. por filósofos como Peter Singer (1973) e Tom Regan (1984) e por movimentos em defesa dos animais. atenta para as práticas cotidianas e a observação da mudança do tratamento dado aos animais e o questionamento levantado. Desta forma. Philo (1995). muitas vezes associados (principalmente por uma questão de construção social de uma moralidade vitoriana) com a impureza e a degradação (inclusive social). apresentando primeiramente a mudança ocorrida com o comportamento pela moral vitoriana. sagrado e profano. retoma sua tese de considerar os animais como grupo marginalizado. que se comportam de forma distinta da “desejada” pela humanidade e. Philo (1995).

(PHILO. em si. a maioria das pessoas que moravam na vizinhança de matadouros. uma “ofensa para os sentidos”. a presença de grande número de animais (vacas. Essa associação com a “bestialidade” animal. também. indivíduos imorais. essa influência “brutalizante” sobre os trabalhadores dos abatedouros e moradores das vizinhanças abatia o padrão moral tanto das pessoas quanto dos locais em que esses “fenômenos” se tornaram centrais no cotidiano. 670) Em essência Philo (1995) aponta que esses espaços eram solucionados com a exclusão dos animais da cidade (o que era cada vez mais identificados como espaço de pessoas ao invés de bestas) e mantendo-os isolados no campo. […] concluindo que os rebanhos animais deviam ser mantidos 'à distância' dos espaços normais que 'redefiniam a cidade' para o bem da 'moral pública'”.“A sexualidade indomável dos animais livremente expressada nas 'vias públicas' era considerado degradante. ” (PHILO. 1995). o cheiro e o som dos animais eram considerados ofensivos. (PHILO. 1995) Assim. também incluía o comportamento indesejado de pessoas de classes diferentes. (PHILO. vistos como ligados a esta degradada unidade sócio-espacial. tornando-os. e usos imorais da terra eram assim vistos como companhia quase inevitáveis na cidade. IXX. grupos marginais a serem excluídos ou evitados pelas “pessoas de bem”. ovelhas e porcos) confinados em pequenos espaços era. 675) . a partir de relatos da época. Para Kittle (apud PHILO. O impacto sensorial era. Philo (1995) passa então a relatar as mudanças ocorridas no meio urbano em Londres no séc. 1995 p. mesmo antes do abate. mas também como um ato estimulante para práticas sexuais impróprias por parte de pessoas impressionáveis que viviam e trabalhavam em Smtihfield. crucial para Kittle e as afirmativas anti-animalistas mencionavam os “gritos” e “gemidos” de medo dos animais. 1995) Com isso: “Matadouros. e os mercados em si. 1995 p. e supostamente perturbador não somente para as mentes vulneráveis de mulheres e crianças. de fato.

VIDEO https://www. seria. com animais como cães e gatos tendendo a ser incluídos (como “animais de companhia” ou pet. uma biopolítica.youtube. 677) Pode-se pensar em um continuum entre inclusão e exclusão. (PHILO. . O discurso. […] com uma abordagem de 'coisas viventes' e simbolizado pela efetiva exclusão dos animais da miríade de assuntos abordados nas práticas da subdisciplina de geografia humana. no caso do Brasil. ao modo foucaultiano.com/watch?v=kCMtEpsi2g4 Caros alunos. afirma que: “O propósito deste artigo tem sido considerar a possibilidade de reviver a geografia cultural animal […] que contraria o 'chauvinismo humano' de muitos trabalhos geográficos da relação humano-animal. animais e pessoas de classe baixa. dependendo de sua “origem”/”raça”. prontamente aceitos nos espaços cotidianos vividos da humanidade) e com animais somo leões e ursos tendendo para o outro extremo (como selvagens e perigosos. essa palestra na UFPR de 2001 é muito interessante para discutirmos a questão da exclusão Concluindo. poluentes. usando um aparato legal. questionamos essa hipótese. também no caso brasileiro.Philo (1995) ainda sugere que essa “nova regulamentação” da moral vitoriana. de higienização (organizacional e moral) gradativamente codificou os animais como impuros. sendo mantidos a distância dos espaços vividos cotidianamente).” (PHILO. devem ficar “fora” das relações humanas. Philo. 1995) No entanto. 1995 p. social e cultural para excluir e associar essas degradações com os grupos marginalizados. no caso. afirmando que mesmo esses animais.

(PHILO. a questão da geografia cultural contemporânea é complexa e permeada de conceitos de outras ciências. 1995) Philo concluí: “Meu pensamento final é da possibilidade de abrir-se estudos sobre o entendimento do processo sócio-espacial de exclusão em que os animais são frequentemente sujeitos. gerar questionamento e reflexão nos discentes. devem viver e trabalhar. aproximar esse Acreditando que a cultural possa ser a mola impulsionadora das relações espaciais. observador e reflexivo. podemos. 1995 p. supostamente. não se esqueça de postar as dúvidas. quando são perseguidos nas ruas e confinados nos campos. depende precisamente de alcançarmos a (re)inclusão deles na pesquisa e teoria de geografia humana contemporânea” (PHILO. Pois dessa maneira enriquecemos a nossa formação e nos ajudamos no processo de aprendizagem. Trazendo a academia mais próxima das populações. Utilizem essas ferramentas para aprofundarem nos conhecimentos especializados da cultura e atuar no discente para fortalecer seu caráter crítico. através de inúmeras interpretações e intervenções. 678) CONCLUÍNDO Como vimos. Para discutir: Prezado aluno. No entanto. Bons estudos!!! .sujos e como incômodos ocupantes dos espaços da cidade onde os humanos. cabe aos professores conhecimento complexo das comunidades em que atua. reflexões. a geografia cultural contemporânea (principalmente com suas vertentes pósestruturalistas) permite-nos alcançar um conhecimento das relações espaciais que antes não era possível. respostas e conclusões no fórum de discussão.

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