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RUMORES DE NOIVADO –

Melanie Milburne
Juliet Montague deveria estar vivendo
os melhores momentos de sua vida. A
festa de despedida de solteira de sua
amiga
estava
acontecendo
no
extravagante Hotel Chatsfield, em
Londres. Mas estar cercada por
mulheres perfeitas e estilosas, cada
uma ostentando seu anel de noivado,
era um pouco frustrante, e Juliet não
viu outra saída a não ser inventar um
noivo de mentirinha. Até ele aparecer
de surpresa na festa! Agora Juliet
precisa persuadir Marcus Bainbridge, o

sedutor amigo de seu irmão, a entrar na
brincadeira. Porém, ao embarcarem
nesse jogo perigoso, correm o risco de
misturar a realidade com a fantasia…

Melanie Milburne

RUMORES DE
NOIVADO
Tradução
Leandro Santos

2015

Capítulo 1

UM

CUPCAKE

com cobertura de

caramelo tem quantas calorias?,
digitou Juliet em seu smartphone no
caminho para o Hotel Chatsfield
para o chá da tarde de uma
despedida de solteira. Oh, não! Ela
mordeu o lábio ao digitar a mesma
pergunta para uma bomba de
chocolate

e,

em seguida,

um

macaron. Duplo oh, não! E sem

contar os coquetéis de champanhe
que

Kendra

Ashford

mandaria

serem servidos como se fossem...
bem, como se fossem champanhe.
Juliet

digitou

novamente.

Grunhiu novamente. As flores de
salmão defumado e os enroladinhos
de

linguiça

não

eram

muito

melhores. Com um final de semana
daquilo, precisaria comer folhas de
alface e tomar shakes de gérmen de
trigo

durante

Provavelmente, dois.

um

mês.

Mas valeria a pena, pois, por
48 horas, finalmente faria parte do
grupo. Não ficaria mais à margem,
onde as menos populares e menos
descoladas eram relegadas. Ela
faria parte do Clã de Kendra: o
grupo de herdeiras mimadas que
faziam festas em todos os lugares
certos com todas as pessoas certas.
Ela teria seu lugar. Mesmo não
sendo

uma

herdeira

e

não

conseguindo se recordar da última
vez em que fora a uma festa... a

menos que se contasse o primeiro
aniversário do filhinho de seu
vizinho, Haseem, três semanas
atrás, cujo bolo, em formato de
ursinho de pelúcia, ela mesma
havia confeitado, pois a mãe dele
estivera gripada demais para fazêlo.
Juliet

entrou

no

elegante

saguão do hotel. Lustres de cristal
no teto lançavam brilhantes prismas
de luz sobre o piso de mármore
polido. O ar era preenchido pelo

aroma de peônias, rosas e lírios
frescos de um imenso buquê,
artisticamente arrumado no centro
da área.
A recente indicação de um
novo

diretor

Chatsfield

executivo

causara

no

grandes

mudanças na marca do hotel, o que
já transparecia em sua imagem.
Todos queriam ser vistos no novo
badalado ponto da cidade. Agora, o
chá da tarde no Chatsfield de

Londres era um evento concorrido,
e

as

marcadas

festas

precisavam

com

meses

ser
de

antecedência. Os coquetéis no bar
onde os ricos e famosos se reuniam
antes de jantar no restaurante
elevavam as bebidas e a comida a
um novo nível de luxo.
Os característicos tons de azul
e dourado do Chatsfield tinham
sido totalmente reformulados, com
novas instalações de veludo e seda.
E, quando se adicionavam os

funcionários,

uniformizados

e

atenciosos, determinados a realizar
um serviço profissional, embora
personalizado, o hotel ganhava a
atmosfera de um palácio da realeza.
O

novo

diretor,

Christos

Giatrakos, estava implementando
iniciativas de marketing, programas
e códigos de responsabilidade que,
de acordo com os boatos, estavam
causando frisson entre os irmãos
Chatsfield. Christos era conhecido
por ser implacável, um homem que

não tolerava preguiçosos e gente
que desperdiçava seu tempo. Os
paparazzi

estavam de

plantão

permanente do lado de fora do
hotel,

na

expectativa

de

um

confronto com Lucca Chatsfield, um
dos gêmeos, que era famoso por ser
um ocioso playboy que vivia
apenas para festas.
O saguão estava fervilhando
de atividade, as pessoas chegando e
saindo. Juliet avançou na fila e
pegou sua chave, recebendo de uma

sorridente recepcionista a garantia
de que sua bagagem seria enviada
diretamente ao quarto dela.
Sejam bem-vindas, Kendra
Ashford e as convidadas de sua
despedida

de

solteira

estava

escrito com letras de estanho
dourado em um antigo quadro de
avisos. Aquilo fez Juliet se sentir
como

Cinderela

entrando

de

penetra no baile. Ela não sabia
exatamente por que Kendra lhe
enviara

um convite.

Bem,

na

realidade, sabia, sim. O irmão mais
velho de Juliet, Benedict, acabara
de fazer o papel principal em uma
comédia romântica de Hollywood,
um filme que já estava causando
rebuliço entre os críticos, que o
cotavam como candidato a um
importante prêmio do cinema.
Subitamente,

estava

sendo

convidada para todas as festas.
A
Penhallon,

madrinha,

Harriet

aproximou-se

alegremente de Juliet, envolta por

uma nuvem de perfume exótico.
Não parecia que o bonito vestido
floral de grife de Harriet estava
beliscando suas axilas, nem a
apertando

na

cintura,

e

seus

altíssimos saltos definitivamente
não a estavam machucando. Harriet
parecia ter acabado de sair de uma
sessão de fotos, com sua impecável
maquiagem

e

seu

cabelo

perfeitamente arrumado.
Juliet se sentiu como um

basset chegando a uma exposição
de poodles de pedigree.
– Você foi a última a chegar. –
O olhar de Harriet percorreu o
vestido em estilo retrô de Juliet. –
Uau, você está bonita!
Juliet sabia que aquilo queria
dizer, na realidade, “Você parece
uma porca gorda”, mas sorriu
mesmo assim e encolheu ainda mais
a barriga.
– Desculpe-me pelo atraso.
Precisei trocar de trem porque a

linha parou.
– Não, só começamos o chá às
três e meia. – Harriet olhou para
seu relógio. – Você ainda tem 32
minutos para se lavar e trocar de
roupa. – Ela abriu um sorriso que
ficaria perfeito no site de um
ortodontista. – Se tiver sorte, talvez
até consiga ver Lucca Chatsfield.
Ele chegou faz alguns minutos.
Acabei de ler isso numa rede
social. Vai passar o final de semana
aqui.

– Não veio para a festa de
Kendra, imagino.
Harriet riu.
– Não, mas eu não recusaria
um show de strip-tease dele para
nós. Você recusaria?
Juliet detestou o fato de ter
corado imediatamente. Aquilo a
fazia

parecer

tão

desajeitada

quanto

Noticiários

e

ingênua
se

redes

e

sentia.
sociais

fervilhavam constantemente com as
peripécias de Lucca Chatsfield.

Não que participasse dos círculos
nos quais ele andava. Ela não tinha
nenhum círculo... a não ser o da
solidão.

Seu

emprego

de

especialista em livros raros numa
biblioteca era a carreira de seus
sonhos, mas gerava uma vida social
bem calma.
– Tenho certeza de que ele é
muito

atraente,

mas

prefiro

inteligência a aparência – disse ela,
pensando imediatamente no mesmo
amigo de Ben desde a infância,

Marcus Bainbridge. Por outro lado,
pensava

muito

nele.

Demais.

Demais mesmo. Era um tipo de
obsessão que ela desenvolvera
desde o Natal, quando ele se
juntara a Ben e à mãe deles, em
Bath, em vez de dividir seu tempo
entre seus pais, que haviam passado
por um amargurado divórcio, e os
novos companheiros e famílias
deles.
Apático

e

reservado,

características que a maioria das

pessoas confundia com arrogância,
Marcus era um contraponto perfeito
à personalidade extrovertida e
ousada de Ben. Ele fora como um
segundo irmão mais velho para
Juliet desde os 10 anos dela,
quando ele consertara um pneu
furado da bicicleta dela, pois Ben,
aos 16 anos, estivera ocupado
demais conversando com sua mais
recente conquista.
Mas, no Natal anterior, algo

mudara.
Fora a primeira vez que eles
tinham ficado juntos sozinhos desde
“O Incidente”. A festa de 18 anos
del a. Ela corou. Bebida demais.
Ela corou duplamente. O fato de
ter encurralado Marcus no estúdio.
Juliet fez uma expressão de dor. A
educada, embora firme rejeição dos
avanços dela. O sermão que ele lhe
passara falando dos perigos de
beber demais. Sua expressão de
dor se intensificou. Ela corou

ainda mais.
Desde então, ele a evitara.
Até o Natal passado...
Seis meses depois, ainda se
recordava como se tudo tivesse
acontecido no dia anterior. Eles
estavam lavando a louça depois do
almoço enquanto a mãe dela dava
um telefonema para um parente
idoso e Ben falava com seu agente
em Los Angeles.

Marcus

lhe

entregara uma taça de vinho, e os
dedos de Juliet haviam roçado nos

dele. Os olhares deles haviam
colidido. Fundidos um ao outro.
Paralisados. Tórridos.
Uma

sensação

como

um

ardente pulso elétrico passara dos
dedos dele para os dela, subindo
por todo o braço de Juliet e, em
seguida, percorrendo seu corpo
para acender uma chama bem no
centro. Ela viu a dilatação das
pupilas dele, a forma como isso
fizera

os

olhos

de

Marcus

escurecerem para um tom de azul-

marinho. O fato de os dedos dele
não

terem

recuado,

mas

permanecido ali. Ardendo junto aos
dela.
O olhar dele se fixara na boca
de Juliet. Permanecera ali. Ela
sentira

seus

lábios

sendo

escaldados com o calor daquele
olhar. Ouvira o som do sapato dele
se arrastando no piso de azulejo
quando ela acabara com a distância
de meio passo que separava os
corpos deles...

No
alegre,

entanto,
para

Ben chegara,
anunciar

que

conseguira o papel na comédia
romântica.

Eles

abriram

um

champanhe. Haviam brindado e
comemorado. Não houvera mais
momentos

particulares.

mantivera

distância.

Marcus

Como

de

costume.
– Então... – Harriet ajustou
uma imaginária mecha de cabelo
atrás de sua orelha. Juliet sabia que
o gesto era apenas para que ela

pudesse

exibir

ridiculamente

seu

reluzente,

gigantesco

e

novíssimo... da semana anterior...
anel de noivado de diamante. –
Você está saindo com alguém?
Juliet ia dizer que não. Claro
que iria fazer isso. Por que não
diria que não? Ela não namorara
ninguém desde que Simon Foster a
fizera de boba cinco anos antes,
enrolando-a durante meses, saindo
com ela aos finais de semana,

enquanto se divertia com uma
magérrima loira o resto do tempo.
Claro que ela diria que não. Sua
boca chegou até a formar a palavra,
mas, em vez disso, ela falou:
– N-sim.
As
impecavelmente

sobrancelhas
delineadas

de

Harriet se ergueram debaixo de
uma franja perfeitamente cortada e
ajustada com um secador.
– Quem é? – Porém, antes que
Juliet pudesse pensar em um nome,

Harriet já fizera isso por ela. – É
Marcus, não é? Aquele arquiteto
naval metido, amigo do seu irmão?
– Ele não é metido. – Ela
soara defensiva demais?
– Ai. Meu. Deus. – Os olhos
azuis de Harriet estavam redondos
como as antenas parabólicas da
Estação Especial Internacional. –
Mentira!

Está

falando

sério?

Marcus Bainbridge e você?
Juliet endireitou as costas ao
ouvir a incredulidade de Harriet.

Ela sabia que não era bonita... ao
menos não sem uma iluminação
fraca ou um retoque rápido num
programa de edição de imagens.
Sabia que não tinha a silhueta mais
bonita de todas e detestava suas
sardas, pois elas a faziam parecer
uma menina de 8 anos. Mas seria
tão inacreditável assim que um
homem

como

Marcus

se

interessasse por ela? Ele quase a
beijara no Natal. Ela não imaginara
aquilo. Imaginara?

Ela já estava farta de ser a
excluída.
Farta de já ter quase 29 anos e
nenhum relacionamento. A única do
Clã de Kendra que continuava
solteira. Digna de pena. Como na
escola, quando fora a única menina
de sua turma que não tinha pai. A
nerd intelectual, que estudava, em
vez de namorar. A solitária menina
que ficava à margem do grupo e
tinha um repentino surto de grandes
amigos quando alguma prova se

aproximava, quando todos queriam
que ela os ajudasse a tirar uma nota
alta.
Que mal havia em fingir que
pertencia a alguém? Seria apenas
por um final de semana. Ela
poderia voltar a Bath na segundafeira de manhã, e ninguém ficaria
sabendo da verdade. Marcus nem
saberia daquilo; no momento, ele
estava

morando

em

Dubai,

projetando um iate de luxo para um
sheik.

– Sim – respondeu e avançou
mais um passo, pois não estava
gostando nem um pouco do fato de
que Harriet continuava boquiaberta.
– É sério.
– Muito sério? Ele já pediu
sua mão em casamento? – Harriet
olhou de relance para a mão de
Juliet, seus olhos se semicerrando.
– Você não está com nenhum anel
de noivado.
Juliet cerrou os punhos. Havia

uma joalheria a meio quarteirão do
hotel. Ela parara para olhar e
sonhar com os anéis na vitrine
quando passara por ela.
– Hã... bem... Não, ainda não.
Mas vou escolher um. Em breve.
Hoje à tarde. Antes do chá. – O que
está fazendo? Ficou louca?
– É melhor se apressar, então
– falou Harriet. – Quero todas
reunidas

para

chegar.

Quero

perfeito para ela.

quando
que

Kendra

seja

tudo

– Não se preocupe. – Juliet
plantou um sorriso no rosto. – Vai
ser.

Capítulo 2

MARCUS

ESTAVA

sentindo

a

diferença de fuso horário e fome,
uma dor de cabeça de tensão
latejando como uma furadeira atrás
de seus olhos quando o táxi parou
diante do Chatsfield de Londres.
Ele ainda tinha trabalho a fazer em
sua proposta para o iate de luxo de
Gene Chatsfield antes de apresentála na segunda, pela manhã. Ele fora

um dos três arquitetos navais
convocados para participar
concorrência

pelo

da

contrato

multimilionário. Seria um grande
avanço em sua carreira se ele
conseguisse vencer, especialmente
logo após seu sucesso com o
contrato em Dubai. Ele achava que
se hospedar no hotel podia lhe dar
uma

vantagem

sobre

seus

concorrentes. Isso demonstraria seu
comprometimento e sua dedicação
à marca Chatsfield. Ele ficara

sabendo que o recém-nomeado
diretor

executivo,

Christos

Giatrakos, dava muito valor a esse
tipo de coisa.
Marcus pagou ao motorista e
se virou para entrar no hotel no
exato instante em que uma pequena
silhueta

desceu

com tudo

os

degraus, vindo da outra direção.
Sua

cabeça,

coberta

por

um

reluzente cabelo castanho, estava
baixa enquanto ela olhava para o
relógio, uma leve ruga franzindo

sua testa, os dentes destruindo o
lábio inferior.
– Juliet?
Foi como se uma muralha
invisível tivesse sido posta diante
dela. Ela parou imediatamente.
Paralisada.
lentamente

Então,
para

ele.

virou-se
Por

um

instante, seu rosto ficou branco
como as bolinhas de seu lindo
vestido em estilo retrô, mas as
bochechas

dela

ficaram

tão

vermelhas quanto o tecido do

vestido.
– M-Marcus? – A voz dela
saiu como um guinchado.
– Você está hospedada aqui? –
perguntou ele.
A ponta da língua dela passou
por cima dos lábios num veloz
movimento.
– Hã... sim. – A garganta dela
se contraiu. – E v-você?
Ele

abriu

autodepreciativo.

um

sorriso

– Acabei de chegar de Dubai.
Não dá para perceber?
Os

olhos

castanhos

dela

percorreram as roupas amarrotadas
dele, o maxilar com a barba por
fazer, antes de se fundirem ao olhar
dele. Ela parecia ter dificuldades
para falar. A clara pele de seu
pescoço não parava de se mexer,
como se tivesse algo alojado em
sua garganta.
– Você está bem?
– Ó-ótima. – Ela abriu um

sorriso que não chegou até seus
olhos. – Quanto tempo você vai... –
ela engoliu novamente em seco –
...ficar aqui?
– Só este final de semana –
disse ele. – Tenho um compromisso
com

Gene

Chatsfield,

o

proprietário, e o diretor executivo
do hotel na segunda-feira bem cedo.
Estou participando da concorrência
por um projeto de design. E você?
Ela parecia inquieta, os dedos
de sua mão direita mexendo sem

parar na alça da bolsa. A luz da
tarde atingiu algo brilhante na mão
dela antes de Juliet escondê-la.
Algo apertou o peito dele
como uma garra.
Juliet estava noiva?
Por que Ben não avisara
aquilo a ele? Ele não sabia que ela
estava namorando alguém. No Natal
passado, ele pensara... O que ele
pensara? Ele não pensara em nada.
Agira por impulso. Algo que ele

nunca fazia. Ele pusera a culpa
daquilo nas taças de vinho que ele
tomara no almoço, na gemada e no
conhaque. A bebida devia ter lhe
subido à cabeça. O peito dele
sofreu outro sufocante espasmo.
Pensar nela namorando... fazendo
sexo com outro homem o deixou se
sentindo vazio por dentro, como se
algo afiado tivesse raspado seu
interior.
– Despedida de solteira –
disse ela.

– A sua?
Ela

o

olhou apaticamente

durante um momento.
– Não... De Kendra Ashford.
Marcus nunca entendera o que
Juliet via naquele grupinho de
mulheres

que

chamavam a

si

mesmas de Clã da Kendra. Um
bando de aristocratas mimadas que
não faziam nada além de se enfeitar
e badalar, geralmente, com os
paparazzi documentando tudo. Não
que ele pudesse falar muito, dada a

ridícula riqueza de seu pai, mas ao
menos

ele

não

esbanjava. E

trabalhava para se sustentar. Ele
não conseguia entender como Juliet
podia ter algo em comum com elas,
mas ela frequentara o internato com
aquelas garotas e era muito leal,
não deixando que falassem mal de
ninguém.
Ele apontou para o anel no
dedo dela, tentando ignorar o
doloroso latejar dentro de seu
peito.

– Quem é o sortudo?
Dois
espalharam

pontos

de

ainda

cor

mais

se
nas

bochechas dela, fazendo suas lindas
sardas se destacarem como canela
em cima de um bolinho.
– Hã... – Ela remexeu os pés
novamente, alterando o peso de um
para o outro, o que fez Marcus se
recordar dela aos 10 anos, quando
ficara envergonhada por pedir a ele
para que trocasse o pneu de sua
bicicleta.

Naquela época, a diferença de
seis anos nas idades dele parecera
quase uma geração. Mesmo aos 18
anos, ela era jovem demais... o que
fora memoravelmente demonstrado
pela desajeitada tentativa dela de
beijá-lo no estúdio na noite de sua
festa

de

aniversário.

Depois

daquilo, Marcus se certificara de
nunca mais ficar a sós com ela,
especialmente se houvesse bebidas
por perto. Juliet não aguentava
beber muito. Não que ele pudesse

falar alguma coisa, levando-se em
consideração o que acontecera no
Natal.
Agora, era... era uma surpresa
se dar conta de como ela crescera.
Crescera o suficiente para estar
noiva.
O

peito

dele

se

apertou

novamente.
Para se casar.
Ele não percebera como ela
crescera até o Natal do ano

anterior. No passado, Juliet sempre
fora a irmã caçula de seu melhor
amigo. Ele não a vira como nada
além disso. Não se permitira nada
além, especialmente depois do
incidente no estúdio. Envolver-se
com a irmã caçula de seu melhor
amigo seria violar um estrito
código de amizade. Se as coisas
não

dessem

certo,

seria

um

problema para todos. Ele tinha
respeito demais por Ben e pela mãe
dele, Grace... sem falar na própria

Juliet... para correr riscos nesse
aspecto.
Mas, no Natal passado...
Marcus

repeliu

aquele

pensamento. Era melhor não rumar
por aquele caminho. Agora, Juliet
era de outro homem. Ele tentou
ignorar a sensação de vazio dentro
de seu estômago. Esperava que o
homem fosse digno dela. Ela era
uma menina decente. Uma alma
meiga e caridosa que poderia ser
facilmente

pisoteada,

de

quem

alguém

poderia

se

aproveitar

facilmente, pois não era esperta e
nem sofisticada. Mas era justamente
disso que ele gostava nela. Ela era
inteligente e bondosa, não fútil,
leviana e egocêntrica como algumas
das mulheres com as quais o irmão
mais velho dela saía em Los
Angeles.

Então,

é

alguém

que

conheço? – perguntou ele.
A ponta da língua dela surgiu
novamente,

umedecendo

seus

macios

lábios

de

cupido. As

bochechas dela já estavam tão
vermelhas que ele poderia fazer
torradas em cima delas.
– Não esperava que você
fosse aparecer assim – disse ela. –
Ben não me disse que você ia
voltar...
– Sim, bem... É raro eu falar
com seu irmão agora que ele é tão
rico e famoso – falou ele. – A
última vez que tive notícias dele foi
há cerca de um mês. Ele me enviou

uma foto dele numa cerimônia de
tapete vermelho em algum lugar,
cercado por candidatas a estrelas
de Hollywood.
Ela

mordeu

novamente

o

próprio lábio.
– Sem dúvida, ele tem muitos
amigos agora...
Tudo dentro de Marcus se
contraiu, como se alguém tivesse
apertado seu intestino. Juliet estaria
envolvida com algum homem que
só a queria por sua conexão com o

irmão famoso? Algum canalha que
só queria status, que só queria
avançar sua própria carreira no
show business? Ela era tão inocente
e sem malícia que talvez não
conseguisse

enxergar

além

do

charme superficial. Por que Ben
não lhe avisara?
– Ora, ora, ora, se não é o
Romeu em pessoa.
Marcus ergueu o olhar para
ver Harriet Penhallon, uma das

integrantes do Clã de Kendra,
aproximando-se

deles

com um

arrogante sorriso no rosto.
– Parabéns, Marcus – disse
Harriet, olhando-o de cima a baixo
como

um leiloeiro

faria

num

mercado de gado. – Quem diria?
Quem diria o quê? Marcus
abriu a boca para dizer aquilo em
voz alta, mas ouviu Juliet conter um
som atrás dele. Ele a olhou de
cenho franzido.
– O que houve?

Ele nunca vira aqueles olhos
castanhos

tão

grandes.

Tão

arregalados. As pupilas pareciam
escuros lagos com ondas de pânico.
Ele chegou até a ouvi-la engolindo
em seco.
– Eu contei a Harriet... hã...
que eu... que nós... hã...
– Contou a Harriet o quê?
– Que vocês estão noivos –
falou Harriet.
Marcus

piscou

os

olhos.

Noivos? Juliet estava fingindo ser

noiva... dele? O que ela estava
pensando? O que estava havendo?
Por que ela faria algo assim?
Ficara loucamente preocupado com
a possibilidade de ter sido seduzida
por

algum

patife

e

acabara

descobrindo que era tudo uma
farsa. Ele não tinha tempo para
aquelas

bobagens,

droga!

Que

desperdício de angústia. Ele estava
ali a negócios. Não para participar
de

ridículos

adolescentes.

Sua

joguinhos
reputação

profissional

estava

sendo

analisada. Não sua vida pessoal.
Não que ele tivesse uma no
momento...
Ele a olhou novamente. A
expressão de Juliet era um misto de
pesar e esperança. Esperança de
que ele não expusesse a realidade?
De

que

não

a

envergonhasse

negando que aquilo era verdade?
Ela estaria fazendo aquilo para
conseguir ter algum crédito social
com suas “amigas”? Certamente,

ela soubera que descobriria de
alguma forma. Ninguém conseguia
dizer ou fazer algo atualmente sem
que alguém colocasse numa rede
social ou enviasse mensagens de
texto para outras pessoas dizendo.
Já não existiam mais fofocas locais.
O planeta inteiro descobria tudo em
questão de segundos.
Porém, se a contradissesse,
isso a faria parecer uma idiota na
frente das amigas dela. Talvez até
chamasse mais atenção para ele do

queria no momento. Não era tão
absurdo assim achar que eles
podiam ser um casal. Ele fazia
parte da família dela havia anos.
Além do mais, ele não estava
gostando nem um pouco do olhar
semicerrado de Harriet Penhallon.
– Sim... é isso mesmo, estamos
noivos. – Ele envolveu Juliet com o
braço e a trouxe para perto de si.
Ela estava macia, quente, feminina,
cheirando a flores de verão...

ervilha-de-cheiro com um toque de
flor de laranjeira. Exótico, porém,
antiquado
familiar.

e

emocionantemente
Íamos

manter

em

segredo por mais um tempo, não é
mesmo, querida?
Juliet

o

olhou

com

um

vacilante sorriso.
– Eu sinto muito...
Mas vai sentir muito mais,
pensou ele. O que ela estava
inventando? Noivos? Deus do céu!
O que Ben pensaria daquilo?

– Não tem problema, querida.
– Mentalmente, ele cerrou os
dentes. – Cedo ou tarde, a notícia ia
vazar.
Harriet cobriu a boca com a
mão de forma teatral.
– Oops. Eu não sabia que
vocês ainda não tinham anunciado
oficialmente. Acabei de postar
numa rede social. – Ela baixou a
mão e abriu um largo sorriso. – A
esta altura, umas quinhentas mil
pessoas já devem ter lido.

Capítulo 3

JULIET

NÃO

conseguia olhar para

Marcus. Ela queria morrer. Queria
que o chão se abrisse, engolisse-a
por inteiro e a cuspisse do outro
lado do mundo. Queria ser outra
pessoa. Alguém que tivesse um
no i v o de verdade, não um de
mentira. Não queria ser a última
mulher com a qual Marcus pensaria
em se envolver, muito menos ser

noivo.
Via que ele estava irritado.
Era

educado

demais

para

demonstrar isso, mas ela o conhecia
bem o suficiente para saber que
estava

totalmente

furioso.

Conseguia ouvir a mandíbula dele
funcionando, os dentes rangendo
como uma serra. O braço dele
ainda a envolvia, uma cálida faixa
de força que estava tensa como um
cabo de aço. Mesmo através da
camada do vestido de algodão, ela

conseguia

sentir

cada

músculo

definido, cada tendão, toda a força
latente, o poder físico dele. A mão
dele estava no quadril direito dela,
o escaldante toque de seus dedos
ardendo no corpo dela, marcando-a
a fogo.
Ela nunca ficara tão perto
dele. Perto o suficiente para sentir
aquela constituição esguia, alta e
atlética. Perto o suficiente para
sentir o cheiro de limão de sua
loção pós-barba com o elegante

toque de lima. Com 1,90m de
altura, assomava acima dela, mas,
de alguma forma, ela se encaixava
perfeitamente nele. O corpo de
Juliet estremeceu com o contato.
Ela conseguiu sentir o elétrico
calor que a percorria, como se a
sensual

energia

dele

estivesse

alimentando a dela.
– Preciso ir – disse Harriet ao
acenar com as pontas dos dedos
para eles. – Não se atrase, Juliet.
Não podemos começar o chá sem

você.
Juliet se afastou de Marcus
assim que Harriet desapareceu
dentro do hotel.
– Eu posso explicar...
– Senhor Bainbridge? – Uma
pessoa segurando uma câmera com
lente telescópica se aproximou do
outro lado de Marcus. Outras
pessoas com câmeras e tripés
vinham logo atrás, aproximando-se
deles como um enxame de insetos

pretos e cinza. – Qual é a sensação
de estar noivo da irmã caçula do
novo destruidor de corações de
Hollywood, Benedict Montague? –
perguntou o primeiro jornalista.
– Podemos tirar a primeira
foto

oficial?

perguntou um

segundo, um fotógrafo.
– É verdade que você conhece
Ben desde que ele tinha 8 anos de
idade? – perguntou um terceiro. –
Que você o conhece desde antes de
ele ser famoso?

Marcus pegou a mão de Juliet,
seus dedos se fechando sobre os
dela com tanta firmeza que ela
sentiu seu falso anel de noivado se
cravar em sua carne.

Não

temos

nenhum

comentário a fazer. Com licença. É
um momento particular, e queremos
ser

deixados

em

paz

para

aproveitarmos.
Juliet
imaginar


o

que

até

conseguia

Marcus

diria

quando ficassem a sós. Por isso, ela

não tinha nada contra ficar o
máximo de tempo possível ali com
o s paparazzi. Ela sorriu para os
fotógrafos reunidos.
– Uma foto? Claro! Onde
vocês querem que fiquemos? Aqui?
– Ela se posicionou, arrastando
Marcus consigo. – Sorria, querido.
Não é divertido? Sempre quis ser
famosa. Espere só até eu contar a
Ben que estamos mais famosos que
ele.
Os flashes foram disparados

algumas vezes, mas, assim que um
jornalista empurrou um dispositivo
de gravação na direção deles, o
sorriso

forçado

de

Marcus

desapareceu.
– Já chega, pessoal. Hora de
irmos.
Praticamente

empurrando

Juliet para dentro do hotel, Marcus
falou pelo canto de sua tensa boca,
como se estivesse cuspindo algo
amargo.
– Você ficou louca? O que

está havendo?
Juliet se manteve sorrindo
quando um fotógrafo entrou no hotel
junto deles para capturar uma
imagem de Lucca Chatsfield, que
estava indo para o bar com uma
comitiva de lindas mulheres a
cercá-lo, como tietes em torno de
um astro do rock.
– Olhe, querido – disse ela. –
Você não o acha deslumbrante?
Não é de se admirar que tenha
aquela fila de mulheres atrás dele.

Fiquei sabendo que também é muito
charmoso. Talvez você possa me
apresentar a ele, já que conhece o
pai dele.
Marcus a olhou com irritação.
– Espere só até ficarmos
sozinhos, jovenzinha.
Juliet nem precisou fingir
estremecer com a expectativa. O
calafrio foi real. Ela não se dera
conta de como ficara lindo de
morrer quando se irritava. Marcus

era sempre tão frio e controlado.
Tão educado, formal e apático.
Porém, por baixo daquele frio
comportamento, havia um homem
com fortes sentimentos e emoções.
Com uma paixão de sangue quente.
Um

funcionário

do

hotel

chegou até eles com um bajulador
sorriso.
– Senhorita Montague, devia
ter nos dito quem era quando fez o
check-in – disse ele. – Não
sabíamos que era a irmã de um

astro de Hollywood. Já alteramos o
quarto de vocês para uma de nossas
suítes

de

especialmente

luxo,
para

projetadas
noivos.

O

champanhe é por conta da casa,
claro.
Juliet quase conseguiu ouvir
os olhos de Marcus se revirando.
– Ah, vocês não deviam ter
feito isso. – Ela tentou disfarçar a
sensação de pânico. Aquilo estava
fugindo demais de seu controle. Ele
a esganaria por aquilo.

– Obrigado. – Marcus segurou
a mão dela com ainda mais força. –
Agradecemos muito.
Quando eles receberam as
chaves do quarto, Marcus levou
Juliet

pelo

cotovelo

até

os

elevadores.
– Não diga nem uma palavra.
– Posso ex...
Ele tocou um dos dedos nos
lábios dela.
– Nem. Uma. Palavra.
Juliet sentiu o gosto do suor e

do sal na ponta do dedo dele ao
passar a língua sobre os lábios
enquanto o elevador subia até o
andar deles. Ela sabia que tinha
todo o direito de estar um pouco
irritado, mas, sem dúvida, ele
entenderia. Não fora nem culpa
dela. Harriet partira do princípio
de que...
Então, ela se perguntou se
estaria irritado por já ter alguém em
sua vida.
Em sua cama.

O estômago dela desabou.
Ele teria combinado de se
encontrar com alguém ali, no hotel?
Ela estragara o encontro dele
com uma amante?

Entrara de

penetra na vida amorosa dele?
Juliet não gostava de pensar
nele com outras mulheres. Ela sabia
que as tinha. Marcus não era um
completo playboy como

Lucca

Chatsfield, nem mesmo como o
irmão

dela,

mas

tinha

relacionamentos de vez em quando.

Nada sério, pelo que ela sabia. Ela
suspeitava de que não gostava
muito de compromissos, já que o
fim do relacionamento dos pais
dele fora tão amargo, estendera-se
durante tanto tempo e fora tão
horrível

e

vergonhosamente

público. Era por isso que ele
detestava tanto a imprensa. Quando
criança, fora arrastado para a briga
pública entre seus pais na luta pela
guarda dele.

Marcus seria muito cauteloso
ao escolher uma esposa, caso
fizesse isso um dia. De uma coisa
Juliet tinha certeza: jamais seria
alguém como ela...
Ele abriu a porta da suíte,
onde a bagagem dela já fora
deixada. Havia um balde de gelo
com uma garrafa de champanhe com
uma fita de cetim azul e dourado em
torno do gargalo e duas taças de
champanhe feitas de prata com o C
do Chatsfield gravado nelas. Um

arranjo de flores com dois corações
de veludo vermelho estava sobre a
cabeceira, e havia duas rosas
vermelhas sobre os branquíssimos
travesseiros de pena da cama king
size. O novo diretor executivo
certamente

estava

eficiente

no

sendo muito

comando

dos

funcionários do Chatsfield, pensou
Juliet.
A porta se fechou com um
clique, e ela se virou para Marcus.
– Por favor, não fique irritado.

Não foi minha intenção...
– Você faz alguma ideia do
que fez? Criou um maldito circo da
imprensa lá fora. Estão todos
falando de nós nas redes sociais
como se fôssemos celebridades de
um reality show. – Ele passou a
mão pelo cabelo e resmungou um
palavrão ao começar a andar de um
lado para o outro. – Se eu perder
esse projeto por causa disso, juro
por Deus que...

– Como podia saber que você
ia aparecer?
Ele se virou e a olhou tão
irritadamente que seus olhos azuisescuros pareceram quase pretos.
– Quer dizer que, agora, a
culpa é minha, é isso? O que você
estava pensando? Você acabou de
fazer

todos

acreditarem

que

estamos noivos e não me disse
nada? Como você ia impedir que
isso vazasse? Chegou a pensar
nisso?

Ela mordeu o lábio inferior
novamente.
– Eu não cheguei a dizer que
estávamos noivos. Harriet presumiu
que...
– Você está usando um maldito
anel de noivado, pelo amor de
Deus!

Até eu achei que você

estivesse noiva. E mal sabia que
era de mim.
Juliet fez uma expressão de
dor ao ver o feroz olhar dele.
– Disse a ela que estava

namorando.
As

sobrancelhas

dele

se

uniram.
– E está?
As faces dela coraram.
– Não...
– Então, por que essa farsa?
Ela mexeu na presilha de seu
relógio para ocupar as mãos. Do
contrário, teria ficado tentada a
contorcê-las de desespero. Por que
estava tão enojado por ter seu nome

ligado ao dela? Ela era tão
desprezível assim? Juliet sabia que
ela

não

era

deslumbrante,

nenhuma
nem

nada,

mulher
mas

também não saía por aí quebrando
espelhos... ao menos não que ela
soubesse.
– Eu disse a Harriet que
estava namorando, e ela imaginou
que fosse você.
O cenho dele se franziu ainda
mais.
– Por que ela imaginaria isso?

Juliet foi até a cabeceira da
cama inspecionar o arranjo floral
para não permitir que ele visse
como

aquele

comentário

a

afrontara.
– Acho que por sermos amigos
há anos.
– Tem uma imensa diferença
entre sermos amigos e sermos
noivos.
Ela deu as costas às flores
para olhá-lo novamente.
– Ela me pressionou, querendo

detalhes quando eu disse que era
sério...
– Você disse a ela que nosso
relacionamento era sério?
Juliet empinou o queixo.
– Desculpe se essa ideia lhe
dá nojo.
Irritado, ele a olhou.
– Eu não... Olhe, não é
pessoal. Só não estou procurando
um relacionamento no momento. É a
última

coisa

pensando.

em

que

estou

– Não estou pedindo para que
você tenha um relacionamento. –
Juliet tentou conter a crescente
sensação de decepção que apertava
seu

peito.

Eu

queria

sobreviver a esse final de semana
sem que todo o mundo sentisse pena
de mim ou zombasse de mim pelas
minhas costas porque não tenho
alguém. Eu não fazia ideia de que
Harriet

tiraria

conclusões

tão

rápido e, definitivamente, não fazia
ideia de que ela postaria isso nas

redes

sociais

para

todos

os

seguidores de Kendra.
Ele soltou outro palavrão.
– Espere só até os seguidores
do seu irmão ficarem sabendo
disso. O mundo inteiro vai nos dar
parabéns.
Juliet franziu o cenho ao pegar
seu celular.
– Talvez seja melhor ligar
para a minha mãe...
– Espere. – A mão dele
segurou o braço dela. A sensação

dos dedos de Marcus envolvendo
seu punho foi como um surto de
eletricidade percorrendo o corpo
dela.

Juliet

sentiu

aquilo

diretamente em seu centro, o lugar
que o toque dele despertara no
Natal. Os dedos dele eram quentes,
largos e fortes. Lentamente, ela
ergueu seu olhar para o dele, seu
estômago desabando como um livro
que tombava de uma prateleira alta
quando os olhos dele se fundiram

aos dela. – Precisamos pensar
melhor

nisso – disse ele. –

Precisamos de um plano.
– Um plano?
Os dedos dele afrouxaram um
pouco a pressão, mas ele não a
soltou. Seus olhos estavam escuros
e indecifráveis, fixos nos dela.
– Parece que estamos presos a
essa situação até o final de semana
terminar.
Preso a mim, você quer dizer,
pensou Juliet com outro lampejo de

ressentimento. Ele precisava deixar
aquilo

tão

óbvio?

Ela

se

desvencilhou da pegada dele e
pegou sua bolsa.
– Preciso ir ao chá. Podemos
falar disso mais tarde.

Você sabe que vamos

precisar dividir este quarto, não
sabe?
A

mão

de

Juliet

ficou

paralisada na maçaneta. Ela vira o
tamanho da cama. Era um acre de
colchão com uma alta muralha de

travesseiros. Grande o suficiente
para ter seu próprio CEP. Grande o
suficiente para que um avião
pousasse nela. Grande o suficiente
para que um time de futebol inteiro
dormisse ali sem ninguém se tocar.
Certamente,

ela

conseguiria

aguentar duas noites sem entrar em
contato com ele, não?
Ela abriu a porta e abriu sua
versão de um sorriso tranquilo.
– Sempre durmo do lado
esquerdo da cama. Espero que não

seja problema para você. Ciao.

Capítulo 4

AQUILO

ERA um

imenso problema

para Marcus. No momento, ele não
conseguia pensar em nenhum que
fosse maior. Andou de um lado
para o outro como um leão
confinado
transporte

numa
de

caixa

gatos.

para

Precisava

passar por aquele final de semana
sem comprometer suas chances na
concorrência. Ele trabalhara duro

demais para conseguir uma vaga
entre os finalistas. Gene Chatsfield
era um cliente difícil, e seu novo
diretor

executivo,

Christos

Giatrakos, era ainda mais. Marcus
precisaria impressionar ambos para
conquistar o projeto; andar pelo
hotel com a imprensa em seu
encalço não o ajudaria. Christos
não era do tipo de homem que
tolerava escândalos. Marcus ficara
sabendo que estava determinado a
esmagar qualquer um, inclusive

qualquer um dos irmãos Chatsfield,
que

ousasse

manchar

ou

envergonhar a marca do hotel.
Mas isso não era o pior de
tudo.
Dividir um quarto... dividir
uma cama... com Juliet Montague
era algo com que Marcus vinha
fantasiando desde o Natal.
Mas era uma fantasia, não a
realidade.
Ela era proibida para ele.
Ben

ficaria

furioso

se

soubesse que ele estava tendo um
caso com sua irmã caçula. Eles
eram melhores amigos desde a
escola. A mãe de Ben, Grace, era
como uma segunda mãe para ele. O
tipo de figura materna sólida e
confiável da qual precisara na
época

em

que

seu

mundo

desmoronara com a tragédia do
amargurado divórcio dos pais dele.
Grace lhe dera um abrigo a salvo
de toda a loucura, ouvira quando
ele precisara falar ou falara quando

precisara ouvir.
O pai de Ben e Juliet, Graham
Montague, morrera de leucemia
quando Juliet ainda era pequena.
Assim

como

Grace,

estudara

Literatura Inglesa na universidade,
e o amor mútuo que eles tinham por
Shakespeare os unira, além de ter
dado origem aos nomes de Juliet e
Ben. Grace criara Ben e Juliet
sozinha desde a morte de Graham, e
apenas recentemente começara a

sair com um professor aposentado
de História Inglesa, de Suffolk.
Ben, Juliet e Grace eram a
família de Marcus. Ele não faria
nada que pudesse pôr em risco ou
acabar com o vínculo que tinha com
eles.
O telefone de Marcus tocou, e
ele o tirou de seu bolso para ver o
rosto de Ben surgindo na tela.
– Ben, eu...
– Ei, cara, vi uma postagem
esquisita dizendo que você e Jules

estavam se pegando – falou Ben. –
Ela não está atendendo o telefone.
O que há?
– É um mal-entendido. Estão
exagerando.
– Você não está fazendo sexo
com a minha irmãzinha, está?
Marcus pensou na sedosa
sensação da pele de Juliet quando
envolvera o punho dela com seus
dedos. Pensou no Natal anterior,
quando os dedos dela haviam
roçado

nos

dele

quando

lhe

entregara aquela taça. Penso em
todas as noites entre os dois
momentos, noites

passadas

em

claro na cama, pensando como
seria beijar aquela macia boca
rosada e puxar o pequeno e
curvilíneo corpo dela para seus
braços e...
– Cara?
Marcus

despertou

de

seu

devaneio.
– Não, claro que não. Eu já
disse,

foi

um

mal-entendido.

Kendra Ashford vai fazer uma
despedida de solteira aqui com
todas as amigas, e Juliet estava se
sentindo um pouco excluída. Por
isso, inventou um noivado.
Ben riu.
– Aí, você apareceu. Bizarro.
– Vejo que seu senso de humor
doentio continua intacto.
– Pobre Jules. Deve ter ficado
desesperada quando você apareceu,
como um gênio saindo de uma
lâmpada. Espero que você não

tenha sido duro demais com ela.
Marcus sentiu o azedo gosto
do remorso em sua boca. Ele fora
brutal com ela. Acusara-a de armar
para cima dele e, agora, com um
pouco de reflexão, já conseguia
entender como Harriet podia tê-la
deixado se sentindo pressionada.
Juliet era boazinha demais com as
amigas. Preocupada demais em se
encaixar, em agradar a todos. Ela
não

sabia

como

se

defender.

Confiava e era bondosa demais. E,

como sempre esperava o melhor de
todos, só se dava conta de que
estava sendo manipulada quando já
era tarde demais.
– Vou compensá-la por tudo.
Houve um rápido silêncio.
– Sabe, até que é legal você
estar cuidando dela por mim – falou
Ben. – Mamãe e eu estávamos
preocupados, achando que toda
essa história de eu ser uma
celebridade fosse tornar difícil

para ela saber quem é verdadeiro e
quem não é. Ela é bem tímida com
homens. Acho que não namorou
ninguém desde aquele canalha, há
uns anos. Talvez você possa ajudála a recuperar a confiança.
Marcus franziu o cenho.
– Você não está me dizendo
para dormir com a sua irmã, está?
Ben riu novamente.
– Você não quer perder uma
perna, quer?

– ENTÃO, CONTE como Marcus fez o
pedido de casamento – falou
Kendra Ashford, estendendo sua
taça

de

champanhe

para

ser

completada novamente quando o
garçom passou.
Juliet estava se sentindo meio
tonta com os dois drinques que já
consumira; um e meio além do que
estava acostumada. Mas as outras
garotas estavam quatro ou cinco à
frente

dela,

começando

a

e

isso

surtir

estava

efeito. A

conversa se tornara cada vez mais
ousada

quando

os

acessórios

sexuais tinham sido expostos. Juliet
nunca

vira

canudos

feitos

no

formato da genitália masculina
antes.

Onde

elas

encontravam

aquelas coisas?
– Hã...

Foi

super-romântico?

perguntou Harriet, entrando na
conversa.
– Sim... muito.
– O que ele fez? – perguntou

Kendra. – Foi tão bom quanto o
pedido de Hugh ou de Tristan?
Juliet tomou outro gole de seu
coquetel para ganhar tempo para
pensar

numa

situação

para

o

pedido. Os noivos de Harriet e
Kendra tinham feito um enorme
esforço para fazer o pedido. Ela
não queria fazer Marcus parecer
pão-duro ou pouco romântico em
comparação.
M a s como ele faria aquele

pedido?
Não que fosse fazer isso algum
dia... Mas, hipoteticamente, se ele
fizesse, como seria?
– Primeiro, ligou para a minha
mãe e pediu permissão – disse. –
Depois, ele me levou para um
jantar

à

luz

de

velas

num

restaurante exclusivo...
– Qual? – perguntou Harriet.
Juliet tomou outro grande gole
de sua bebida. Era por isso que
nunca mentia. Uma mentira sempre

acabava virando vinte.
– Ah, nós não chegamos a
comer no restaurante – respondeu
ela. – Marcus encomendou um
piquenique

pré-preparado.

Nós

pegamos a comida e ele me levou
para um iate particular que estava
ancorado no rio. Um que tinha
projetado para um cliente. Havia
velas dentro daquelas coisas tipo
lanternas penduradas no mastro e
nas velas e pequenas luzes no
convés. Havia um quarteto de

cordas tocando, garçons vestidos
de

branco

e

tudo

mais.

Exagerado! Pare!
Todas as mulheres estavam
olhando

para

ela

de

olhos

arregalados.
– Marcus fez tudo isso? –
perguntou Kendra.
– Deus, e eu pensava que
Tristan tinha superado todo o
mundo escrevendo o pedido no céu
– falou Harriet com uma expressão
entristecida ao pegar outro cupcake.

– Marcus é muito romântico
quando você passa a conhecê-lo
melhor – disse Juliet.
– Mostre as fotos. – Kendra se
curvou à frente, na expectativa.
Juliet engoliu em seco.
– Fotos?
– Sim. Sem dúvida, você deve
ter tirado um monte – disse Harriet,
lambendo a cobertura de um dos
dedos. – Eu teria tirado mais do
pedido de Tristan se não tivesse
começado a chover.

– Eu as passei do celular para
o computador – falou Juliet. –
Desculpe.
Kendra cruzou suas pernas
impossivelmente magras e pegou
sua taça novamente.
– Peça a Marcus para enviar
algumas das dele para o seu
telefone.

Ele

deve

ter

tirado

algumas, não?
Juliet engoliu em seco.
– Certo... Boa ideia... Vou
fazer isso...

Capítulo 5

MARCUS

TOMARA

banho e se

barbeara e estava sentado diante de
seu laptop quando Juliet retornou à
suíte.

Ela

abriu

a

porta

hesitantemente, seu olhar desviado
para o lado, como se estivesse
preocupada com a possibilidade de
estar sentado ali totalmente nu. As
bochechas

dela

estavam

avermelhadas, assim com a ponta

de seu nariz. Quantos drinques as
amigas dela tinham lhe dado? Ele
não confiava em Kendra, nem em
sua sorrateira comparsa, Harriet.
Tinha a sensação de que só haviam
incluído Juliet em seu grupo porque
a silhueta mais generosa e a beleza
mais

discreta

dela

as

faziam

parecer magras como modelos e
mais deslumbrantes.
– Desculpe. – Ela entrou no
quarto nas pontas dos pés, como se
estivesse pisando num tapete feito

de ovos. – Espero não estar
incomodando.
Tudo nela o incomodava. O
que ele sentira quando a envolvera
com o braço. O cheiro tão familiar,
embora exótico. A maneira como as
sardas dela a faziam parecer tão
jovem e inocente. Os tons de mogno
no reluzente cabelo castanho dela,
que apareciam com os raios do sol
ou sob uma iluminação mais forte.
O fato de a silhueta dela não ser
magra como um graveto, mas

curvilínea e feminina. Aqueles
seios, claros e fartos, o decote
profundo e tentador do vestido.
Tudo dentro dele se distendeu e, em
seguida, contraiu-se firmemente de
desejo. Ela era tão sexy, mas não
fazia a menor ideia disso, o que,
por algum motivo, deixava-a ainda
mais atraente.
– Como foi o chá?
– Foi... divertido...
– Não teve nenhum stripper?
As bochechas dela coraram

ainda mais.
– Acho que talvez tenha um
planejado para amanhã à noite.
Marcus empurrou a cadeira e
se levantou.
– Recebi um telefonema de
Ben.
Ela pôs a bolsa sobre a mesa
de centro antes de prender uma
mecha de cabelo atrás de uma das
orelhas.
– Eu recebi um telefonema de

mamãe quando subi no elevador,
agora há pouco.
– O que você disse a ela?
O olhar de Juliet ainda estava
determinado a evitar o dele.
– A verdade.
– Sempre uma boa ideia.
Lentamente, os olhos dela
subiram para os dele, luminosos e
castanhos, grandes como os de um
veado assustado.
– Marcus?
– O quê?

Ela contraiu os lábios por um
instante, as mãos se contorcendo
diante do abdômen.
– Se você fosse pedir a mão
de uma mulher em casamento...
como você faria isso?
Marcus

soltou

uma

desconfortável risada.
– Que tipo de pergunta é essa?
– É que... – Os dentes dela se
cravaram no lábio inferior. – Eu
meio que contei às meninas como
você

pediu

minha

mão

em

casamento e...
– Você contou a elas como eu
pedi sua mão em casamento?!
Ela o olhou com irritação.
– Eu precisava dizer alguma
coisa a elas. Estou usando seu anel.
Ele voltou para a mesa e
fechou a tampa de seu laptop com
força.
– O anel não é meu. Não é
nem um diamante de verdade.
– Dá para saber isso?!
Ele observou a expressão

chocada dela. Seus olhos estavam
arregalados, e sua exuberante boca
rosada estava aberta em um O.
Aquilo realmente a deixava tão
preocupada? Perder a pose diante
daquelas fúteis mulheres era algo
tão sério assim para ela?
– Projetei um iate para um
vendedor de diamantes há alguns
anos – disse ele. – Sei identificar
algo falso a um quilômetro de
distância.
Ela olhou para sua própria

mão, inclinando-a de um lado para
o outro, como se quisesse ver se a
pedra refletia a luz.
– Acha que as garotas vão
conseguir ver? Elas não disseram
nada no chá...
Marcus deu de ombros.
– Quem sabe?
A testa dela estava enrugada
de preocupação.
– Não tenho dinheiro para
comprar um de verdade. Precisei
fazer algo rápido. Não queria que

achassem que você era pão-duro a
ponto de não me dar um anel.
Ele franziu o cenho para ela.
– Por que você se importa com
o que pensam de mim?
Os

olhos

de

Juliet

se

desviaram dos dele.
– Eu disse a elas que você me
pediu em casamento num iate que
você projetou para um cliente.
Disse que foi muito romântico, com
velas e luzes, um piquenique

gourmet e um quarteto de cordas
tocando no convés.
Ele fez um som de desdém.
– Pelo amor de Deus, Juliet,
e u jamais faria um pedido de
casamento

assim.

Você

está

passando a impressão de que sou
um idiota meloso.
– Precisei inventar algo de
improviso – disse ela. – Se
tivéssemos conversado sobre isso
antes, podíamos ter organizado
nossa história um pouco melhor.

Agora, elas querem ver as fotos.
– Fotos?
Ela

fez

novamente

uma

daquelas expressões sofridas para
ele.
– Você não tem nenhuma foto
de um dos seus iates no seu
telefone?
– Várias – respondeu Marcus.
– Mas, infelizmente, nenhuma com
luzes, velas e um quarteto de
cordas.
Ela puxou novamente o lábio

inferior com os dentes.
– Se você puder me dar uma
foto do mais luxuoso que você já
fez, posso dizer a ela que você
estava tão nervoso que se esqueceu
de tirar outras fotos depois de
decorá-lo com luzes e tudo mais.
Pode funcionar.
Marcus pegou seu celular,
questionando sua própria sanidade
enquanto selecionava uma foto de
um iate que projetara para um
banqueiro mercante no ano anterior.

– Esta serve? – perguntou ele.
Juliet olhou para a foto,
ficando tão perto dele que Marcus
conseguiu sentir o perfume de
flores do cabelo dela.
– Perfeita! – Ela o olhou,
animada. – E é no Tâmisa.
Ele enviou a foto para ela
antes

de

colocar

seu

celular

novamente ao lado da carteira,
perto do laptop.
– Detesto esses pedidos de
casamento exagerados que todo o

mundo anda fazendo ultimamente –
disse ele. – É um desperdício de
dinheiro tão grande. Não só isso,
mas também pressiona a mulher
para que diga sim. Se meio milhão
de libras for gasto para compor o
cenário,

como

uma

mulher

conseguiria dizer não?
Subitamente, o olhar de Juliet
se tornou direto. Confiante. Feroz.
– Eu diria “não” se não o
amasse. Não importaria quanto
dinheiro tivesse gastado.

– Tem certeza disso, doce
Juliet?
O queixo dela se empinou um
pouco.
– Eu não juraria me casar com
ninguém que não amasse.
Marcus analisou a expressão
dela durante um longo momento.
Ela ficava tão bonita quando batia o
pé. Mas como reconheceria o amor
verdadeiro se era tão inexperiente?
Ela era como um bebê na floresta

em comparação com suas amigas
metidas e espertas. Ele sabia que
Juliet só mantinha aquela conexão
com elas por não querer magoá-las.
Como

se

protegeria

de

ser

explorada por algum conquistador
charmoso que a encantasse com
velas, luzes e um quarteto de
cordas?
Ela não teria a menor chance.

achando

Ben
que

está
você

preocupado,
vai

ser

conquistada por um homem que só

queira você pela ligação que tem
com ele.
O olhar castanho dela se
aguçou.
– Ah, quer dizer que vocês
acham que não consigo atrair um
homem por méritos próprios?
– Eu não disse isso.
Irritada, foi até o outro lado do
recinto, cruzando os braços.

porque

não

sou

magérrima não significa que não vá
conseguir encontrar um homem. Se

quisesse, podia sair agora mesmo e
arrumar um.
– Usando o meu anel, você não
vai fazer isso.
Virou-se para ele com os
olhos semicerrados.
– O anel não é seu, lembra?
Marcus pegou sua carteira e
seu celular na escrivaninha.
– Não, mas logo será.
JULIET

OLHOU para

a bandeja de

anéis de grife que o joalheiro

colocou diante dela numa sala
particular pouco tempo depois.
Cintilantes

diamantes,

imensos

solitários ou em estilo princesa ou
mosaico. Outras peças com rubis,
ou safiras azuis-escuras, ou claras
pérolas. Estavam todas expostas
diante

dela

numa

gloriosa

e

esbanjadora disposição. Não havia
etiquetas
significava

de

preço,
que

eram

o

que
todas

chocantemente caras.
– Vou deixá-los discutir a

escolha a sós – disse o joalheiro. –
É só apertar aquele botão ali na
parede quando tiverem chegado a
uma decisão.
Juliet

olhou

para

Marcus

depois que o joalheiro fechou a
porta ao sair.
– Isso é ridículo. Não posso
usar um anel que custa mais do que
uma casa! E se eu perder?
– Vou colocar no seguro.
Ela olhou para um lindo anel
em estilo mosaico que estava se

sobressaindo em relação a todos os
outros.

Era

o

anel

mais

deslumbrante que Juliet já vira. De
longe, parecia ser apenas mais um
diamante de boa qualidade, mas era
muito

complexo

e

intrincado

quando se olhava mais de perto.

Acho

que

você

pode

devolver quando terminarmos de
usá-lo...
Pegou o anel que ela estava
observando e o deslizou para o
dedo de Juliet.

– Fica bonito. Combina com a
sua mão.
Juliet fixou seus olhos no
indecifrável olhar dele. A mão de
Marcus ainda segurava a dela, seus
dedos quentes, fortes e protetores.
Possessivos. Algo rodopiou dentro
do estômago dela quando ele a fez
se levantar lentamente até que
estivesse a menos de meio passo
dele. As pernas de Juliet pareciam
estranhamente

bambas,

sua

respiração estava entrecortada, seu

coração palpitou quando ela sentiu
a magnética atração da alta e forte
presença

dele

que

a

puxava

inevitavelmente para perto.
Ela sentia o perfume limpo e
revigorado da colônia dele. Via os
pontos

escuros

da

barba

que

começava a crescer, embora tivesse
se

barbeado

recentemente.

Conseguia sentir o calor do corpo
dele, a íntima proximidade dele a
tentá-la além de seu poder de
resistência. As musculosas coxas

de Marcus estavam a apenas um ou
dois centímetros das dela. Os seios
de Juliet estavam ainda mais perto
do peito dele, intensificando aquele
erótico

momento.

Se

ela

se

curvasse alguns milímetros à frente,
seus mamilos roçariam no fino
algodão da camisa dele.
A excitação cresceu de dentro
do corpo de Juliet, despertando
todos

os

seus

sentidos

adormecidos, deixando-os alertas.

Seu centro lampejou com uma
pulsação de súbito e insistente
desejo.

Aquela

pulsação

a

percorreu, fazendo Juliet sentir
todas as partes de seu corpo, todos
os

pontos

erógenas

sensíveis
que

e

zonas

desejavam

secretamente os toques e carícias
dele.
Ele sabia como ela o queria?
Seria capaz de enxergar isso no
rosto dela? Em seus olhos? Em seu
corpo? Conseguia sentir isso na

atmosfera eletricamente carregada?
Os olhos azuis-escuros dele
estavam com as pálpebras pesadas
quando se focaram na boca de
Juliet durante uma minúscula pausa.
Mesmo que tivesse tentado, não
conseguiria ter desviado o olhar.
Estava hipnotizada pela maneira
como estava postado ali, como se
estivesse estendendo a expectativa
até onde fosse capaz. Ela inspirou
tremulamente mais uma vez quando
a boca dele desceu bem devagar na

direção da dela...
Repentinamente, o nervosismo
a venceu. Ela não escovara os
dentes. E se estivesse com cheiro
de champanhe e cupcake com
cobertura de caramelo? Ela queria
que o primeiro beijo deles fosse
maravilhoso,

verdadeiramente

memorável. Sonhara com aquilo
desde

o

Natal.

Como

podia

acontecer agora, quando ela sequer
nem estava preparada?
– N-não devemos apertar o

botão agora? – perguntou ela.
– Depois – respondeu ele. E,
subindo as mãos para tocar as
bochechas de Juliet, cobriu sua
boca com a dele.

Capítulo 6

MARCUS FECHOUos olhos ao tocar
a maciez da boca de Juliet. Seu
sabor era de açúcar, especiarias e
champanhe, um inebriante coquetel
diferente de tudo o que provara
antes.

Pressionou

delicada

a

exuberante fartura dos lábios dela,
inspirando o hipnótico perfume,
deleitando-se com a doce maciez
daquela boca que reagia à dele. Os

lábios dela estavam ligeiramente
entreabertos, e ele se aproveitou
totalmente disso. Penetrou a boca
de Juliet com um leve deslizar de
sua língua. A princípio, lentamente,
permitindo que o provasse, que o
sentisse. A língua dela estava
hesitante, tímida, contendo-se até
que ele aprofundou o beijo. Então,
ela encontrou seu ritmo e se juntou
ao duelo de bom grado.
Os

braços

de

Juliet

envolveram o pescoço dele quando

ela ficou nas pontas dos pés,
pressionando seus deslumbrantes
seios no peito dele. Marcus podia
jurar

que

estava

sentindo

mamilos

dela

tocando

músculos

peitorais.

Como

os
seus
ele

queria senti-los em suas mãos,
tocá-los, e acariciá-los, e proválos, para ver se eram tão suaves e
deliciosos quanto pareciam por
baixo das roupas.
A pélvis dela se moveu junto à
dele de uma maneira instintiva; não

havia nada de ousado ou oferecido
naquilo. Ela se fundiu perfeitamente
a ele, todas as suas curvas se
ajustando a todos os planos dele. O
corpo

de

Marcus

reagiu

à

proximidade dela com um doloroso
latejar de desejo primitivo. Os
suaves murmúrios de aprovação
dela

enquanto

ele

continuava

brincando com sua língua tornaram
o desejo de Marcus ainda mais
ardente. Incontrolável. Pulsou pelo
corpo dele como uma feroz maré,

martelando

em

suas

veias,

inchando-o, distendendo-o até que
estivesse

ansioso

como

um

adolescente no primeiro encontro.
Ele deslizou uma das mãos em
torno da nuca de Juliet, a nuvem do
ondulado cabelo dela batendo no
dorso da mão dele como ramos de
jasmim no verão. A doçura dela era
inebriante. Ele não conseguia se
satisfazer dela. Queria devorá-la
ali mesmo, imediatamente... mas

eles estavam numa sala com uma
câmera de um circuito interno de
televisão

documentando

cada

movimento que eles faziam para o
gerente

e

os

funcionários

no

showroom lá fora.
Marcus recuou, mais do que
um

pouco

chocado

com

a

dificuldade que sentiu para fazer
isso. Não gostava de pensar que
tinha tão pouco controle sobre seus
impulsos. Especialmente tendo o
resto do final de semana para

resistir. Como dividiria aquela
cama com ela na privacidade da
suíte se não conseguia manter suas
mãos longe dela quando tinham uma
plateia?
– Então, você escolheu o de
mosaico mesmo? – perguntou ele
com leveza.
As bochechas dela estavam
levemente rosadas; a boca, inchada
dos beijos; e o minúsculo círculo
de seu queixo, rosado no ponto em
que a barba por fazer dele roçara.

Aquilo fez algo se revirar dentro do
estômago dele.
– Tem certeza de que não é
caro demais? – perguntou ela.
Ele levou a mão ao botão na
parede.
– Não podemos deixar suas
amigas achando que sou pão-duro,
podemos?
ELES

SAÍRAM

da joalheria logo

depois e voltaram andando para o
hotel. Marcus continuou segurando

a mão de Juliet, mesmo não
havendo nenhum paparazzo do lado
de fora do hotel; evidentemente,
Lucca Chatsfield e seu harém de
mulheres os haviam levado até uma
saída dos fundos.
Por algum motivo, parecia
natural andar de mãos dadas com
Marcus. A impressionante altura
dele fazia Juliet se sentir feminina e
minúscula em comparação. De vez
em quando, o ombro dele roçava no
dela enquanto eles desviavam das

pessoas que andavam pela calçada.
Aquilo lançava

uma

onda

de

choque de desejo pelo corpo dela,
fazendo Juliet se perguntar como
seria a sensação de ser envolta
pelos braços dele, sem nada entre
os dois a não ser suas peles.
Ela não conseguia parar de
pensar

no

beijo

deles,

não

conseguia parar de revivê-lo. A
sensação dos lábios dele, a maneira
como sua língua brincara com a
dela de forma tão tentadora. As

mãos dele haviam segurado seu
rosto de um jeito tão delicado, mas,
mesmo assim, o poder explosivo da
boca

de

Marcus

causara

um

terremoto nos sentidos dela. Os
sentimentos de Juliet haviam se
inflado até que não conseguisse
pensar em mais nada que não fosse
a sensação de fazer amor com ele,
de ser possuída por ele... de
preferência,

sem

ninguém

assistindo.
– Aquilo que aconteceu na

loja... – disse Marcus quando eles
entraram de volta na suíte.
Juliet sabia o que viria. Era o
discurso “O problema não é você,
sou eu” que ouvira de todos os
homens

com

quem

saíra

no

passado. Não que tivessem sido
muitos. Ela não tivera muita sorte
com namoros. Achava difícil se
sentir confortável com homens que
não conhecia bem. Sabia que isso
era antiquado e um pouco fora de
compasso com a atualidade, mas

não conseguia evitar. Ela era assim.
Era uma incorrigível romântica
como seus pais.
– Foi só um beijo, Marcus –
disse casualmente. – Nada de mais.
Ele a estava olhando de cenho
franzido.
– Você sabe que nunca faria
nada que pusesse em risco minha
amizade com seu irmão, não sabe?
– Completou.
Pena, pensou Juliet. O que o
irmão dela tinha a ver com aquilo?

Se eles se sentiam atraídos um pelo
outro, por que não podiam deixar
Ben de fora disso? Mas Marcus era
um homem honrado. Ele não fazia
coisas inconsequentes e impulsivas.
Vivia

sua

vida

de

maneira

cuidadosa e pensada, pois suas
experiências

quando

criança

haviam sido muito caóticas. Ele
gostava de ordem e rotina, pois era
capaz de controlar melhor sua vida
assim.

Ela não fizera o mesmo?
Vivendo uma vida tranquila em
Bath,

passando

seus

dias

na

convivência com livros e traças.
Vivendo no passado por ter medo
demais do futuro. Era por isso que
fazer parte do Clã de Kendra
sempre fora tão importante, para
provar que era capaz de ser uma
mulher moderna. Entretanto, seria
mesmo capaz? Por que a sensação
não era tão boa quanto esperara que
fosse?

Juliet atravessou o recinto
para pôr sua bolsa sobre a mesa de
centro.
– Quais são seus planos para
esta noite?
– Trabalhar.
Ela se virou para olhá-lo. Ele
estava com uma expressão de dor
enquanto massageava a própria
nuca, como se seus músculos
estivessem doloridos. A culpa a
atingiu. Fora ela quem lhe causara
tanto incômodo. Estava cansado da

viagem e estressado pelo trabalho,
e ela criara uma situação louca para
ele. Como ele detestaria cada
minuto fingindo ser algo que não
era! Marcus detestava falsidade.
Detestava

farsas.

Detestava

futilidade. Tinha uma importante
reunião na segunda-feira, e ela o
pegara de surpresa. Pusera tudo em
risco para ele. Se perdesse o
projeto de Chatsfield, seria tudo
culpa dela.

– Desculpe.
Ele baixou a mão e a olhou
fixamente.
– Pelo quê?
– Por ter estragado seu final
de semana – respondeu ela. – Você
tem todo o direito de estar chateado
comigo.

Trabalhou

tanto

para

chegar até aqui, nessa reunião, e
nunca imaginou que ganharia um
papel

improvisado

numa

farsa

inventada por mim. Você podia até
ter planos para um final de semana

romântico com alguém especial, e
estraguei tudo. Estraguei muito. E é
provável que seja permanente, já
que agora isso está nas redes
sociais.
– Eu não ia me encontrar com
ninguém.
– Não só isso, mas também fiz
você comprar um anel terrivelmente
caro que talvez você nem consiga
devolver para pegar seu dinheiro
de volta, agora que foi usado. –
Juliet levou as mãos à cabeça,

frustrada. – Argh! Por que sempre
me meto nessas situações? Parece
que não consigo fazer nada direito.
Como posso ser tão burra? Por que
fui fingir que tinha um namorado?
Quero dizer, quem vai acreditar
nisso? Sério! Sou gorda e burra
demais. Quem iria me querer?
– Muitos homens querem você.
– Diga um.
O silêncio se estendeu durante
alguns instantes.

– Eu quero você.
Juliet engoliu em seco. Ele
estava falando sério? Claro que não
estava. Como poderia? Aquilo era
o sonho dela. Não era a realidade.
– Você só está dizendo isso
para me agradar. Está se sentindo
mal por mim. Sei que está. Está
com pena. Deve conversar com Ben
sobre

mim. “Pobre Jules, não

arruma um namorado desde que
Simon Foster a traiu com aquela
loira magrela... há quantos anos

mesmo? Quatro? Cinco” Pode
admitir, é isso que vocês dizem,
não é?
Ele se aproximou dela e a
segurou pelos ombros, seus dedos
quentes e fortes ao entrarem em
contato com a carne dela. Seus
olhos azuis-safira se fixaram nos
dela de forma hipnotizante; seu
corpo estava tão perto e tentador
que Juliet sentiu o próprio corpo
dela

reagindo

com

pequenos

calafrios e tremores a cada segundo

sensualmente carregado que se
passava.
– Quero você já faz muito
tempo. Não fiz nada a respeito
porque...

com

o

polegar,

acariciou o lábio inferior dela – ...
não queria estragar nossa amizade.
O lábio de Juliet formigou
quando o dedo de Marcus passou
sobre ele novamente.
– Por que isso precisa estragar
nossa amizade?

Ele olhou para a boca de Juliet
durante um longo momento.
– Não estou planejando me
estabelecer

em

breve.

Talvez

nunca.
Ela tentou conter a pontada de
decepção que a atingiu.
– Só porque seus pais foram
infelizes não significa que você vá
ser.
Abriu um melancólico sorriso
para ela e tirou as mãos dos ombros
de Juliet. Ela percebeu que já

estava

decidido.

Uma

barreira

havia sido erguida. A decisão fora
tomada. Ele não voltaria atrás.
– Você quer o marido, a casa,
o cachorro diante da lareira. Não
sou o homem que pode dar isso a
você. Sinto muito.
Perplexa, Juliet o viu caminhar
até o laptop. Ele estava focado no
trabalho agora. Não nela. Ela fora
rejeitada

anos

antes

por

uma

magérrima loira. Agora, estava
sendo rejeitada por um computador.

Como sempre.
MARCUS

FINGIU estar

absorto na

apresentação que preparara em seu
laptop

quando

Juliet

saiu do

banheiro arrumada para ir à festa na
boate. Ela estava com um vestido
preto com um decote que exibia
seus seios de forma um tanto
espetacular. Estava com saltos
altíssimos, e seu reluzente cabelo
castanho estava preso no alto da
cabeça num penteado perfeitamente

composto que, de alguma forma,
parecia casual e elegante ao mesmo
tempo. A maquiagem em seus olhos
destacava a profundidade e o
formato de seus olhos castanhos, e
o rímel fazia seus cílios parecerem
leques pretos em miniatura. Seus
lábios estavam fartos e cintilantes
com um brilho labial, e ela
cheirava a flores de verão, com um
toque de almíscar que fez os
sentidos dele entrarem em parafuso.
Ele ainda não entendia como

conseguira evitar prová-la quanto a
desejava. Ficara prestes a perder o
controle. Marcus ainda sentia o
latejar do desejo em seu corpo.
Não importava se estava bemvestida ou malvestida, com ou sem
maquiagem, de cabelo solto ou
preso. Ele a queria.
Como conseguiria acabar com
aquela

tortura?

Ele

precisaria

aguentar durante duas noites com
ela na cama a seu lado. Já era ruim
o suficiente ouvi-la tomando banho.

Sua mente ainda estava cheia de
imagens do exuberante corpo dela,
todo

molhado,

ensaboado

e

escorregadio. Seus dedos haviam
formigado de vontade de abrir a
porta e se juntar a ela, de deslizar
as mãos por aquelas deliciosas
curvas, de se enterrar bem fundo
nela.
– Não me espere acordado –
disse ela.
Marcus clicou para abrir o
slide seguinte.

– A que horas você volta? –
Deus do céu, você até parece ser
responsável por ela.
– Não sei. – Ela mexeu em seu
brinco em formato de gota. –
Vamos ver o que acontece. Talvez
eu arrume alguém. Quem sabe?
Marcus girou na cadeira para
olhá-la de frente. O cenho estava
tão

intensamente

conseguia

sentir

franzido,
as

que

próprias

sobrancelhas se tocando.
– Em tese, você está noiva.

Isso significa que não pode flertar
com outros homens. Não pode
aceitar bebidas de outros homens.
E, definitivamente, não pode ir ao
quarto de nenhum deles. Certo?
Olhou

para

ele

com

petulância.
– Quem vai me impedir?
Quem a impediria? Juliet tinha
todo o direito de sair e se divertir.
Era jovem e solteira. Era linda e
meiga.

Qualquer

homem

se

interessaria por ela imediatamente.

E ele não estava oferecendo nada a
ela... estava?
Marcus contraiu o maxilar.
– Olhe, sei que você está um
pouco irritada comigo por não ter
levado as coisas mais à frente,
mas...
– Está tudo bem, Marcus. É
sério. – Ela pegou sua bolsa,
colocou o brilho labial lá dentro e a
fechou. Abriu o radiante sorriso
para ele. – Como estou?

Deslumbrante.

Sexy.

Irresistível.
– Você consegue andar com
esses saltos?

Na verdade, não, mas

também mal consigo respirar com
este vestido. – Ela passou as mãos
pelos quadris, uma leve ruga
surgindo em sua testa. – Será que
devia ter comprado um tamanho
maior?
Marcus precisou se esforçar
para manter seu olhar acima do

pescoço dela.
– Você está ótima.
– Não é de grife, nem nada –
continuou, como se ele não tivesse
falado. – Foi por isso que cortei as
etiquetas. Além do mais, não quero
que

Harriet fique espiando o

tamanho dele e postando isso nas
redes sociais.
– Por que permite que ela
afete você assim?
Os

dentes

de

Juliet

cravaram em seu lábio inferior.

se

Não sei

do que

está

falando...
– Sabe, sim. Permite que ela
intimide

você.

Desde

a

adolescência, você permite que ela
menospreze você. Por que não a
enfrenta? Por que não a enfrenta?
Os

olhos

de

Juliet

se

desviaram dos dele.
– Preciso ir. Não quero me
atrasar.
– Elas não são suas amigas,

Juliet – disse Marcus quando ela
abriu a porta para sair.
Ela lançou um gélido olhar
para ele.
– Quer dizer que você e Ben
acham que não sou capaz de
conseguir um homem e que não sou
capaz de atrair amigas de verdade.
Muito obrigada. Adoro a confiança
que vocês têm em mim.
Marcus fez uma expressão de
dor quando a porta se fechou.
– Belo trabalho, Bainbridge.

Capítulo 7

JULIET ESTAVA determinada

a não

ser a primeira a ir embora da boate.
Ela dançou com as garotas até seus
pés

doerem

e

seus

ouvidos

zumbirem com a barulhenta música.
Ela estava se divertindo. Claro que
estava. Estava numa festa com suas
amigas. Marcus podia pensar o que
quisesse.
Kendra se aproximou com um

coquetel numa das mãos e uma
serpentina na outra.

Você

viu

Harriet?

perguntou ela.
Juliet observou a pista de
dança. O local era uma massa
pulsante

de

corpos

femininos

parcamente cobertos, com alguns
impressionantes corpos masculinos,
fazendo

todos

movimentos

que

os

tipos

de

considerava

anatomicamente impossíveis.
– Recentemente, não. Talvez

ela tenha ido ao banheiro. Quer que
a procure para você?
– Não, não tem problema. –
Kendra se sentou no sofá de dois
lugares ao lado dela e tirou seus
sapatos com finíssimos saltos. –
Deus, meus pés estão me matando.
– Digo o mesmo.
Kendra mexeu seus dedos dos
pés, com unhas perfeitamente feitas.
– Posso perguntar uma coisa?
Juliet a olhou de relance, mas
Kendra continuava olhando para

seus próprios pés.
– Claro.
O couro guinchou quando
Kendra se virou para olhá-la.
– Como você soube que
Marcus era o homem da sua vida?
Juliet não teve dificuldade
para pensar numa resposta. Ela
simplesmente estava lá. Em sua
cabeça. Em seu coração. Como ela
não percebera até então?
– Eu simplesmente soube.
Acho que talvez sempre soubera

di s s o subconscientemente. Mas a
primeira vez em que ele me beijou,
confirmou tudo.
O sorriso de Kendra teve um
toque de melancolia.
– Você tem sorte... De ter tanta
certeza, quero dizer.
Juliet

a

olhou de

cenho

franzido.
– E você não tem? Com
relação a Hugh?
Kendra

suspirou e

voltou

novamente seu olhar para os pés.
– Não sei... Pareceu tão certo
quando ele fez o pedido. Mas,
agora, faltando só uma semana para
o casamento, não tenho mais tanta
certeza.
– Talvez seja só nervosismo
por causa do casamento.
– Talvez.
Um silêncio se estendeu... não
que houvesse silêncio de fato, com
a alta música martelando ao fundo.
Juliet se perguntou o que

causara a incerteza de Kendra.
Normalmente, era tão confiante e
extrovertida. Juliet sempre invejara
a confiança e a compostura de
Kendra, que fora a líder na escola.
Era a líder em qualquer lugar que
fosse. Era rica, linda e popular.
Tinha um noivo que a amava. Um
noivo de verdade. Hugh Pritchard
era lindo e bem-sucedido e já
namorava Kendra fazia três anos e
meio. Não era um noivo-fantasma
que desapareceria na segunda-feira

de manhã.
– Quem me dera não ter
pedido a Harriet para ser minha
madrinha – falou Kendra.
Juliet se perguntou se não
seria a bebida falando. Kendra
vinha tomando coquetéis sem o
menor comedimento, e Juliet não a
vira comer nada durante toda a
noite.
– Por que diz isso?
Ela ergueu um de seus magros
ombros, bronzeado artificialmente.

– Não sei... Pensei que ela
faria um bom trabalho.
– Ela está fazendo um bom
trabalho.
– Eu sei, mas também não sou
íntima dela. Quero dizer, íntima de
verdade.
– Achei que ela fosse sua
melhor amiga.
Kendra

girou o

anel

de

noivado no dedo algumas vezes.
– Ela é tão... exagerada, sabe?
Depois de um tempo, fica um pouco

maçante. – Ela parou de girar a joia
e olhou para Juliet, abrindo um
irônico

sorriso.

Talvez

eu

finalmente tenha amadurecido.
Juliet também sorriu.
– Talvez todas nós tenhamos.
MARCUS

ESTAVA

sentado no bar,

levando um longo tempo para beber
um conhaque, quando viu Juliet sair
da boate. Convencera a si mesmo
de que só desceria para ver se não
sairia de lá com um homem que não

fosse adequado. Mas a verdade era
que estava ali porque queria estar
com ela. Como poderia não querêla? Como conseguira resistir a ela
durante tanto tempo? Onde estava
sua

racionalidade,

agora?

Seus

sua

impulsos

lógica
haviam

assumido o comando e estavam
pisando fundo no acelerador. Ele
não queria que ela ficasse com
nenhum desconhecido. Se quisesse
ficar com alguém, podia ficar com
ele.

A bolsa dela estava pendurada
num dos dedos. Seu cabelo estava
mais solto do que preso, o brilho
labial já saíra, e parecia estar
mancando, mas Marcus nunca a vira
tão bonita.
Ele deixou sua bebida no bar
para interceptá-la.
– Oi.
Ela piscou os olhos e, em
seguida, sorriu, mas o sorriso não
chegou até seus olhos.
– Só estou falando com você

porque, em tese, estamos noivos.
– Acho que existe alguma
lógica nessa afirmação, só não
estou conseguindo encontrar.
Ela semicerrou os olhos para
ele.
– Você veio me espionar?
– Preciso fazer isso?
Ela soltou um suspiro que fez
seus ombros desabarem.
– Não, claro que não. Eu ia
subir para ir para a cama... – As
bochechas dela ficaram vermelhas.

– Quero dizer, para o quarto.
– Quer beber alguma coisa
primeiro?
A testa dela se enrugou.
– Beber... alguma coisa?
Ele manteve sua expressão
velada.

Não

alcoólico.

precisa

Podemos

ser

nada

tomar

um

chocolate quente se você preferir.
Ela fez cara feia para ele.
– Não tenho mais 12 anos.
Com

a

ponta

do

dedo,

acariciou a face rosada dela.
– Não fique irritada comigo.
Ele sentiu Juliet estremecer
com seu toque, os olhos castanhos
dela se abrandando, os lábios
relaxando.
– Uma bebida, está bem?
– E uma dança?
Os olhos dela se arregalaram.
– Você quer... dançar?
Marcus pegou a mão dela.
– Seus pés aguentam?
– Eu tiro os sapatos.

– Só os sapatos?
Ela inclinou a cabeça para ele,
um minúsculo brilho surgindo em
seus olhos.

Está

flertando

comigo,

Marcus?
Ele a puxou para si e baixou
sua boca para a de Juliet.
– Ainda nem comecei.
MAIS

TARDE,

Juliet

sequer

conseguiu se recordar de como eles
haviam chegado à suíte. Parecia

que, num instante, eles estavam se
beijando no meio do bar e, no
seguinte, já estavam na privacidade
do quarto de hotel. Tudo que
conseguia lembrar era a emoção de
sentir a boca de Marcus fundida à
dela. Ela estava entorpecida com o
desejo

que

sentia

por

ele.

Conseguiu sentir o calor enrijecido
de Marcus quando ele esmagou sua
boca sob a dele ao levá-la para
dentro da suíte. Era como se ela
tivesse passado a vida inteira

esperando por aquele momento. O
momento em que a puxaria para os
braços

e

a

tomaria

para

si,

admitindo seu desejo por dela.
– Quero você nua – disse junto
à boca de Juliet, sua mão quente e
firme no quadril dela.

Achei

que

você

não

quisesse...
– Eu quero. – Ele beijou a
lateral do pescoço dela. – Quero
demais.
– Vou precisar de ajuda com

este zíper. – Ela se virou e afastou
o cabelo, estremecendo quando as
mãos dele deslizaram o zíper para
baixo até a base de suas costas.
Marcus a manteve ali, diante
dele,

sua

boca

marcando

um

ardente caminho na sensível pele
do pescoço dela.
– Você tem ideia de há quanto
tempo quero fazer isso? – Ele
soltou o sutiã dela, deslizando as
mãos para envolver os seios. A
sensação das mãos dele a tocando

tão

intimamente

fez

Juliet

estremecer de prazer. Os polegares
dele encontraram os mamilos dela,
passando sobre eles em hipnóticos
movimentos que fizeram os dedos
dos pés dela se cravarem no macio
carpete. Ela conseguia sentir a
ereção dele em suas nádegas, um
latejante lembrete do poder erótico
que eles estavam prestes a libertar.
Ele a virou para si e a olhou
com olhos sedentos, banqueteandose com ela, observando os seios

nus e a curva do abdômen de Juliet.
Ela nunca se sentira tão desejada.
Tão linda. Marcus a fazia se sentir
como uma deusa da maneira como a
tocava com seu olhar, esquentando
a pele dela até o ponto de ebulição.
– Você é tão linda. – Ele
circundou os mamilos, um de cada
vez, causando calafrios de deleite
em Juliet.
Ela se pôs a abrir os botões da
camisa dele, mas seus dedos
estavam praticamente inúteis. No

final das contas, ele a tirou por
cima da cabeça e a jogou ao chão.
Juliet abriu o cinto e a presilha da
calça dele, e Marcus a tirou,
enquanto ela tirava o vestido.
Ele olhou nos olhos dela por
um instante.
– Tem certeza disso?
Ela pôs a mão debaixo da
cueca

dele,

descobrindo-o,

acariciando-o. Desejando-o.
– Nunca tive tanta certeza de

uma coisa.
Marcus esmagou a boca de
Juliet na sua enquanto as mãos
retornavam

aos

quadris

dela,

segurando-a junto a si, sua língua se
envolvendo com a dela numa
luxuriante

dança

de

desejo

reprimido durante muito tempo. O
corpo

dela

estava

totalmente

preparado para ele. Ela conseguia
sentir o orvalho de sua excitação
entre as coxas, conseguia sentir a
aceleração de seu coração enquanto

a boca dele continuava a criar um
caos sensual dentro dela.
As mãos dele foram dos
quadris

para

o

traseiro

dela,

puxando-a para o seu rígido calor,
tentando-a com a força e o poder de
seu desejo.
– Deus, isso é loucura, mas
não consigo parar.
– Eu não quero que você pare.
– Ela mordiscou o lábio inferior
dele, puxando-o com seus dentes
numa fraca mordida. – Quero que

você faça amor comigo a noite
inteira.
Ele

estremeceu

quando

a

pegou novamente nas mãos.
– Eu devia estar trabalhando.
Juliet passou a língua pelo
lábio superior de Marcus.
– Você vai ter muito tempo
amanhã. A reunião vai ser só na
segunda.
Ele tocou e mordiscou o lábio
inferior
perfumada

dela,
pelo

sua

respiração

conhaque

se

misturando à dela.

Não

confio

em

Gene

Chatsfield e nem naquele novo
diretor executivo, que é implacável.
Um deles ou os dois poderiam
facilmente adiantar a reunião.
Juliet recuou para olhá-lo.
– Por que eles fariam isso?
Marcus criou uma escaldante
trilha de beijos indo do lóbulo da
orelha dela até o canto de sua boca.
– Como um teste. – Ele deu um
ardente beijo nos lábios de Juliet. –

Para ver qual de nós três está mais
bem-preparado.
Ela estremeceu quando os
lábios dele retornaram à sua orelha.
– Mas isso não depende de
quem tem o melhor projeto?
– Devia, mas nem sempre é
assim. A concorrência pode ser
desleal. Nem sempre o melhor
vence.
Juliet acariciou o rosto dele ao
olhar em seus olhos.
– Quero que você vença.

Os olhos dele ficaram escuros
como nanquim e determinados.
– Esse é o plano.
Ela fechou os olhos quando a
boca de Marcus desceu novamente,
levando-a

num

turbilhão

de

sensações. Ela sentiu o crescente
desejo percorrendo seu corpo,
atingindo-a em ondas a cada carícia
e movimento da língua dele.
Marcus baixou a calcinha de
Juliet, que a tirou por completo,

inspirando fundo e prendendo o
fôlego enquanto o olhar dele a
percorria lentamente.
– Tão linda... – A voz dele
estava profunda e rouca, seu toque
foi como fogo ao contornar a
abertura do corpo dela.
Ela se curvou na direção do
toque

dele,

buscando

instintivamente a liberação que
desejava. Juliet arfou quando a
penetrou com um dos dedos, o
escorregadio deslizar fazendo seu

corpo pulsar com prazerosas ondas
de choque.
– Quero você – sussurrou
junto à boca dele. – Por inteiro.
Marcus a levou até a imensa
cama, puxando as cobertas com um
rápido movimento da mão que fez
uma onda de excitação atravessar o
corpo de Juliet. Ele tirou a cueca
antes de se juntar a ela. Suas pernas
eram peludas, ásperas junto às dela,
seu corpo, rígido em contraste com
a maciez de Juliet. Porém, em vez

de sentir vergonha de seu corpo,
sentiu orgulho. Marcus não lhe dava
outra opção. Ela via que estava
deleitado com cada curva pela
maneira como beijava e acariciava
cada uma delas. Os seios, a barriga,
as coxas; tudo era venerado pelos
lábios e pela língua dele.
Juliet se agarrou no lençol
quando ele baixou a boca para a
junção

das

coxas

dela.

Provavelmente,

percebeu

hesitação

pois

dela,

a

colocou

delicadamente

a

mão em sua

barriga.
– Relaxe. Não vou fazer nada
com pressa.
Ela fechou os olhos e permitiu
que as sensações a dominassem
enquanto a acariciava. Cada toque
da língua a levava para mais perto
do ápice. Ela conseguia sentir a
sensação crescendo como uma
nuvem de tempestade prestes a
explodir. Inchando até finalmente se
liberar com uma poderosa explosão

que se alastrou do centro dela para
cada poro de seu corpo.
Marcus subiu pelo corpo dela,
beijando sua pele, demorando-se
nos seios dela até deixar os
mamilos vermelhos e brilhantes
com a quente saliva dele.
– Você tem os seios mais
incríveis do mundo.
Juliet o acariciou com os
dedos.
– Você tem o corpo mais
incrível.

Os olhos dele fulguraram.
– Acho que agora seria uma
boa hora para um preservativo.
– Você tem?
– Na minha carteira. – Ele a
deixou na cama enquanto ia em
busca da carteira. Juliet absorveu a
imagem dele, tão esbelto, forte e
poderosamente másculo.
– Quantos você tem?
– Três.
Ela

arqueou

uma

das

sobrancelhas.
– Só três?
O olhar dele a derreteu por
completo.

É

um

começo.

Posso

comprar mais amanhã. – Ele rasgou
a borda da embalagem com os
dentes. Juliet observou enquanto ele
colocava o preservativo sobre sua
ereção, seu corpo latejando de
expectativa quando retornou para
junto dela na cama. Marcus se
posicionou entre as coxas dela, uma

de suas pernas dobrada, para que
ela não precisasse aguentar todo o
seu peso. Beijou-a de forma longa e
profunda, aumentando novamente o
desejo dela. O corpo de Juliet
estava ávido por mais, tudo dentro
dela se contorcia, revirando-se,
contraindo-se de desejo até fazê-la
gemer sob a pressão da boca dele.
Ele a abriu delicadamente
para

recebê-lo,

penetrando-a

lentamente para que pudesse se
ajustar gradualmente a ele. O corpo

de Juliet o envolveu, apertando-o
com força quando ele começou a se
movimentar. Ela o ouviu inspirar
fundo, como se o corpo dela o
tivesse surpreendido. Como se o
tivesse deleitado.
– A sensação é tão boa –
grunhiu junto aos lábios dela.
Juliet

estremeceu

por

completo quando ele acelerou o
ritmo. Era como se o corpo dele
tivesse

estabelecido o próprio

ritmo em resposta ao dela. Suas

investidas

se

profundas,

mais

rápidas,

a

tornaram

mais

fortes,

mais

respiração

ficando

caótica e arfante como a dela.
Sensações atingiram a carne dela
como

uma

fonte

de

bolhas

percorrendo seu sangue. A tensão
cresceu em sua pélvis, o inchado
ponto de sua excitação implorando
em silêncio pelo atrito de que
precisava. Juliet ergueu os quadris
no exato instante em que ele pôs a
mão entre os agitados corpos deles.

Foi tudo que ela precisou para
voar. Atingiu o orgasmo com uma
força que estremeceu seu corpo
com

gigantescos

espasmos

de

deleite, como se estivesse sendo
atingida por ondas na arrebentação.
A liberação dele veio logo
após a dela. Juliet sentiu cada
tremor erótico, ouviu o grunhido
gutural dele quando Marcus se
esvaziou. Ela o abraçou junto a si,
relutante em interromper a conexão
antes

de

toda

a

sensação

desaparecer. A cabeça dele estava
enterrada ao lado do pescoço dela,
sua cálida respiração acariciando a
pele dela, o peito subindo e
descendo sobre o dela.
Ele

finalmente

recuou,

apoiando-se nos cotovelos para
olhá-la.
– Sem arrependimentos?
Juliet tocou as pontas de seus
dedos na esculpida perfeição da
boca dele.

– Absolutamente nenhum. E
você?
Ele mordiscou os dedos, seus
olhos fixos nos de Juliet.
– Então, você quer o lado
esquerdo da cama, certo?
Ela sorriu ao descer com um
dedo pelo nariz dele.
– Vou precisar me engalfinhar
com você por ele?
Marcus

abriu

um

sorriso

maliciosamente sensual que fez
Juliet se derreter.

– O que você acha?

Capítulo 8

JULIET
uma

hora,

estava acordada fazia
observando

Marcus

dormir a seu lado, quando ele se
sentou

subitamente,

jogou

as

cobertas para longe e saltou da
cama.
– Que horas são? Que dia é
hoje?
– São sete e meia da manhã do
sábado.

Ele esfregou o rosto.

Tive

um

sonho.

Um

pesadelo.
Ela se sentou e segurou o
lençol em torno dos joelhos.
– Com o quê?
Ele passou a mão por seu
cabelo preto bagunçado pelo sono.
– Sonhei que tinha perdido a
reunião. Que tinha errado o dia.
Apareci no dia errado. – Ele
balançou a cabeça e soltou uma
risada aliviada. – Foi só um sonho.

Juliet apoiou o queixo em
cima dos joelhos.
– Por que esse projeto é tão
importante para você? Não é o
maior que você já fez. Certamente,
o do sheik foi maior.
Marcus se sentou na beira da
cama ao lado dela.
– Não é pelo tamanho do
projeto. – Ele desceu com um dedo
pelo braço de Juliet, indo do ombro
até o punho, fazendo a pele dela se
eriçar em resposta. – Você conhece

aquele ditado bíblico sobre um
profeta não ser bem-recebido em
sua própria terra?
Juliet olhou nos olhos azuisescuros dele; viu determinação, o
ímpeto, a ferrenha ambição. Ele era
tão centrado, tão focado. Voltado
para sua meta. Ela sempre admirara
isso em Marcus. Ele trabalhava
duro e não permitia que nada o
distraísse de sua missão.
– Você quer mais isso do que
qualquer outra coisa, não é?

Marcus pegou a mão dela e a
virou na dele, acariciando a palma
com seu largo polegar, uma lenta
carícia que despertou um ardente
desejo no ventre de Juliet.
– Os Chatsfield são uma das
famílias mais ricas da Inglaterra.
Projetar um iate para eles abriria
muitas portas para mim aqui e no
exterior.
Juliet tocou o rosto dele, com
a barba por fazer.

– Por que você se esforça
tanto?
Ele segurou a mão dela junto a
seu rosto, cobrindo-a com sua
própria mão.
– Você já sabe a resposta.
– Porque não quer ser rotulado
de aristocrata boa-vida como seu
pai.
Ele abriu um irônico sorriso
para ela.
– Pronto. Uma explicação
diretamente de um dos tabloides.

Ela observou a expressão dele
por um instante.
– Para onde você vai depois
daqui? De volta a Dubai?
Ele se levantou e passou
novamente a mão pelo cabelo.
– Não vamos falar disso
agora, está bem?
Juliet

contraiu

os

lábios.

Burra. Por que foi estragar tudo?
– Desculpe.
Ele suspirou fortemente.
– Eu sabia que isso seria um

erro. O sexo turva demais os
limites. Quem me dera nunca ter...
– Não diga isso. – Ela olhou
fixamente

para

seus

próprios

joelhos. – Sem arrependimentos,
está bem? É só neste final de
semana. Eu sei disso. Aceito sem
nenhum problema. – Não aceito,
não!
Ele voltou até a cama, sentouse ao lado de Juliet e virou o rosto
dela para si com a ponta do dedo

debaixo do queixo dela.
– Tem certeza?
Juliet ignorou o forte espasmo
de dor dentro de seu peito. Os
olhos dele eram tão escuros que a
faziam pensar no espaço sideral;
infinito e inalcançável.
– A culpa por estarmos nessa
situação é minha, e aceito toda a
responsabilidade por isso. Mas não
se preocupe, vai acabar logo.
Foi a vez de Marcus observar
a

expressão

dela

por

alguns

instantes.
– Por que é tão importante
para você manter a farsa? Por que
não pode simplesmente contar a
verdade a elas?
Juliet revirou os olhos ao
afastar a mão dele para sair da
cama.
– Ah, sim, por que não pensei
nisso? – Ela pegou um roupão num
gancho ao lado do guarda-roupa e
pôs os braços nas mangas. – Eu
posso dizer a elas que não saio com

ninguém há cinco anos porque um
idiota enganador se aproveitou de
mim e perdi a confiança. Falou que
eu era gorda e feia, e um dos
amigos dele postou isso na Internet.
Posso dizer a elas que estou
aterrorizada porque faço 29 anos no
mês que vem e estou preocupada,
achando que nunca vou encontrar
alguém que me ame o suficiente
para se casar e ter uma família
comigo. Posso contar todos os meus
medos a elas, para elas me olharem

com pena ou, ainda pior, para que
arrumem um horrível encontro às
cegas para mim. Não vou fazer
isso, Marcus. E você não pode me
obrigar.
O silêncio foi ensurdecedor.
Vergonhoso. Excruciante.
Ele avançou um passo na
direção dela, mas Juliet levantou a
mão.
– Não. Por favor. Não piore
tudo.
– Juliet. Eu...

– Sei o que você vai dizer. –
Ela olhou diretamente nos olhos
dele. – Vai dizer “o problema não é
você; sou eu”, certo?
O olhar dele pareceu sofrido.
– Isso é tudo que posso dar a
você no momento. Desculpe.
Juliet

lançou

um

olhar

descrente para ele antes de rumar
para o banheiro.
– Isso é só outra versão da
mesma coisa, não é?

MARCUS

NÃO

estava

na

suíte

quando Juliet saiu do banheiro. Ela
ficou aliviada e decepcionada.
Aliviada por não precisar vê-lo
com pena dela, agora que expusera
todos

os

seus

segredos.

Decepcionada por ele não estar ali
para lhe dizer que a amava e que a
queria para o resto da vida. Sabia
que era bobagem sonhar. Bobagem
ter

esperanças.

Bobagem

se

apaixonar por alguém que estava
tão fora de seu alcance.

M a s sempre o amara. Não
conseguia se recordar de uma
época em que isso não tivesse
acontecido. Quando criança, ela o
amara como irmão. Depois, à
medida que ficara mais velha, como
amigo. Agora o amava como
amante. Um parceiro para a vida,
mas ele não a queria para sua vida.
Apenas por um mero final de
semana.
As garotas estavam esperando
por ela no spa do Chatsfield para

seu dia de mimos. Juliet plantou um
sorriso no rosto e se juntou a elas
para

os

luxuosos

tratamentos,

ouvindo as conversas e as fofocas
apenas

com

atenção

parcial,

enquanto sua mente vagava em
outro lugar.
Mas aquilo resumiu justamente
o que acontecia.
Ela

estava

sempre

na

periferia. Olhando para o centro,
em vez de estar nele. Ficava

sempre à margem. E ninguém lhe
dava atenção assim.
Como sempre acontecera em
sua vida.
Harriet se aproximou com uma
taça

de

champanhe

com

um

morango cravado na borda.
– Houve uma mudança de
planos para hoje à noite.
– Hã?
– Sei que é uma quebra do
protocolo do final de semana só das
mulheres, mas, como

Hugh e

Tristan estão na cidade para uma
conferência sobre investimentos, e
você também está com Marcus
aqui, pensamos em fazer um jantar
de casais hoje à noite. Só nós seis.
– Jantar? – Alarmada, Juliet a
olhou. – O que houve com o
stripper?
– Kendra não estava gostando
muito da ideia. Disse que não
queria

que

você

se

sentisse

desconfortável. – Harriet se sentou
no braço da poltrona de couro de

pedicura de frente para a de Juliet.
– Vai ser uma boa oportunidade
para Marcus conhecer os rapazes.
Ele vai estar livre?
Juliet engoliu em seco.
– Preciso ver...
O sorriso de Harriet foi astuto
como uma raposa espreitando uma
galinha distraída.
– Certamente, não vai estar
ocupado demais para a própria
noiva, vai?

MARCUS

ESTAVA

academia

do

voltando

hotel

onde

da
se

exercitara um pouco para dissipar
parte de, mas não todos, os seus
inquietos sentimentos. Ele correra
12km na esteira. Levantara alguns
pesos. Fizera trezentos abdominais
e, mesmo assim, não conseguira
tirar da mente a expressão de
mágoa de Juliet. Nunca fora sua
intenção

magoá-la.

Ele

estava

irritado consigo mesmo por ter
permitido que as coisas fugissem

tanto de seu controle. Tivera aquela
mesma conversa consigo mesmo no
Natal. Soubera que as coisas
poderiam
sempre

ficar

confusas.

acontecia

Isso
com

relacionamentos, e era por isso que
os evitava. Juliet sempre fizera
parte de sua vida. Ele não queria
que isso mudasse. Não suportaria
ver isso mudar. Mas não era a
resposta para o problema dela.
Não
ninguém.

era

a

resposta

de

Uma figura alta e imponente
veio em direção a ele pelo
corredor. Christos Giatrakos estava
vestido elegantemente, de terno,
uma camisa impecável e uma
gravata

perfeitamente

fazendo

Marcus

distinta

se

desvantagem,

amarrada,
sentir

em

usando

roupas de academia suadas. Mas
talvez essa fosse mesmo a intenção
dele.
Christos estendeu a mão.

– Marcus Bainbridge, não é?
– Sim. Como vai?
– Vi seu nome nas reservas.
Bem-vindo ao Chatsfield.
Poucas coisas deviam escapar
do olhar aguçado do grego, pensou
Marcus.
– Obrigado.
Christos

olhou

para

seu

celular para acessar o calendário.
– Sua reunião conosco foi
marcada para segunda-feira.
– Correto.

Christos guardou o telefone no
bolso e olhou diretamente nos olhos
dele.
– O que acha de antecipá-la?
JULIET

ESTAVA

na suíte quando

Marcus saiu do banheiro depois do
banho. Estava de pé diante da cama
em que ele estendera seu terno, sua
camisa e sua gravata, deixando-os
prontos

para

a

reunião.

As

bochechas dela estavam rosadas,
seus dentes estavam fortemente

brancos em contraste com o lábio
inferior enquanto o mordia.
– Vai sair?
– Eu tinha razão com relação a
Giatrakos. – Ele pegou a camisa. –
Ele antecipou a reunião para hoje à
noite. Um jantar particular na sala
da diretoria com ele e Gene
Chatsfield.
– Ah... que bom que você está
tão bem-preparado.
Marcus a observou enquanto
abotoava a camisa. Os olhos dela

não estavam fixos nele, mas ele não
soube ao certo se era por estar
seminu ou por ela ainda estar
chateada com ele. A testa de Juliet
estava enrugada, como se estivesse
preocupada com alguma coisa.
Estaria se arrependendo de ter feito
amor com ele? Ele estragara tudo
entre eles? Algo se moveu dentro
do

peito

dele,

como

uma

engrenagem se movimentando, mas
apenas parcialmente. O sentimento
bloqueado

tirou

o

fôlego

de

Marcus. Ele precisava conversar
com ela, mas não daquele jeito.
Não com a cabeça na reunião.
– Quais são seus planos para
hoje à noite? – perguntou ele.
Os olhos dela não paravam de
se esquivar dos dele.
– Só um jantar com as
meninas.
– Quer me encontrar depois?
Juliet esticou a boca num tenso
sorriso.
– Não tem problema, Marcus.

Você não precisa cuidar de mim.
– Podemos conversar quando
eu voltar da reunião?
Ela

desviou novamente

o

olhar.
– Acho que já dissemos tudo o
que precisava ser dito.
Marcus não tinha tanta certeza
de que dissera tudo o que precisava
dizer. As palavras que queria dizer
ainda estavam embaralhadas dentro
de sua cabeça. Estavam todas
desordenadas, como um quebra-

cabeça que não conseguia montar.
Aquele latejar em seu peito não
cessava. Era uma sensação de
aperto. Por outro lado, não vinha se
sentindo assim desde o Natal? Ele
achara que tinha toda a sua vida
planejada. Que não tinha espaço
para

sentimentos

complexos

e

que

confusos.

eram
Ele

precisava de tempo para processar
tudo aquilo.
– Isso não vai estragar nossa
amizade, vai?

Ela sorriu novamente, mas foi
um sorriso hesitante.
– Claro que não.
Marcus se aproximou dela,
segurando-a pelos ombros.
– Você é uma ótima pessoa,
Juliet. Merece ter tudo. Não deixe
que ninguém diga o contrário a
você.
Ela se afastou da pegada dele.
– Preciso me arrumar para o
jantar. Vejo você depois.

MARCUS ESTAVA a caminho da sala
da diretoria quando esbarrou com
Harriet Penhallon. Ela olhou de
relance para o laptop dele.
– Não vai jantar conosco? –
perguntou.
Algo na maneira como o
estava olhando fez Marcus se sentir
desconfortável.

Incomodado.

A

suspeita começou a marchar com
pés gelados em seu couro cabeludo.
– Jantar?
– Juliet não falou com você?

Vamos fazer um jantar de casais no
restaurante lá embaixo. – Ela abriu
um reluzente sorriso para ele. –
Apenas casais de noivos estão
convidados.
Uma inundação de sensações
se

espalhou pelo

destravando

a

peito

dele,

engrenagem

emperrada como um fluxo de óleo
aquecido sobre a ferrugem. Juliet
não lhe pedira para ir com ela, pois
sabia como aquela reunião era
importante para ele. Ela sequer

mencionara o jantar, pois podia se
sentir pressionado. Ela pusera suas
necessidades de lado em favor das
dele.
Quem mais em sua vida já
tinha feito algo assim?
Ela decidira ir ao jantar
sozinha, encarando a certeza do
suicídio social, em vez de pôr em
risco os compromissos de trabalho
dele. Por que duvidara do que
sentia por ela? Não venerava isso

nela? Era sempre generosa, sempre
cuidava dos outros, colocando suas
próprias necessidades em segundo
plano. Foi como uma luz se
acendendo dentro da cabeça dele,
iluminando exatamente a emoção
que

passara

anos

evitando

assiduamente. Ignorando. Negando.
O amor.
Seu trabalho não era a coisa
mais importante em sua vida.
A coisa mais importante em
sua

vida... a

pessoa

mais

importante em sua vida... era
Juliet.
– ONDE

ESTÁ Marcus?

– perguntou

Kendra quando Juliet entrou no
restaurante.
– Hã... preciso dizer uma
coisa a vocês.
Kendra olhou além do ombro
dela.
– Ah, ele está ali. Oi, Marcus.
Quero que conheça meu noivo,
Hugh.

Juliet piscou os olhos algumas
vezes para clarear sua visão, para o
caso de estar imaginando que fosse
Marcus

parado

encantador,
apresentações

ali,

alto

enquanto
eram

e
as

feitas.

O

coração dela estava saltando dentro
do

peito

como

uma

coisa

enlouquecida. Ele estava ali? E a
reunião dele? Fora reagendada?
Adiada? Uma lâmina de decepção
dilacerou as esperanças dela. Era
claro que fora adiada. Por que mais

ele estaria ali?
Ele se aproximou e passou o
braço em torno dos ombros dela.
– Desculpe-me pelo atraso,
querida. – Marcus deu um leve
beijo na boca de Juliet. – Ficou
preocupada,

achando

que

não

vinha?
Juliet olhou nos reluzentes
olhos

azuis-escuros

dele.

Ele

estava fazendo aquilo por causa das
garotas e estava se saindo muito
bem como ator. Contudo, algo no

sorriso dele fez o coração dela
saltar.
Ele estava mesmo fingindo...
não estava?
– E a sua reunião?
– Eu cancelei.
O choque a deixou sem voz
por um instante.
– Você cancelou?
– Isso.
– Não foi Christos e nem Gene
Chatsfield?

– Não.
Juliet ficou de queixo caído.
– Mas... mas por quê?
Os olhos azuis dele dançaram
um pouco mais.
– De repente, percebi que
existiam

coisas

muito

mais

importantes que precisava fazer.
Ela engoliu para vencer o
embargo de emoção que ameaçava
sufocá-la.
– Você cancelou... por mim?
Marcus pegou as mãos dela e

as apertou com firmeza.
– Por que é tão difícil
acreditar? Você merece ser a
prioridade.
Juliet não conseguia acreditar
que ele estava ali, segurando-a
como se não quisesse soltá-la nunca
mais.
– Não precisa fazer isso,
Marcus. Eu ia contar a verdade às
meninas.
Ele a trouxe para mais perto,
suas mãos segurando as dela junto a

seu

coração,

que

estava

em

disparada.
– A verdade é que amo você.
Acho que amei desde que a
conheci. Como uma irmã mais nova
nos primeiros anos. Depois, como
amiga. Mas, no Natal passado, algo
mudou. Fugi disso porque era
muito... Não sei... Acho que porque
estava

preocupado

com

a

possibilidade de isso mudar tudo.
M a s já tinha mudado tudo, não

tinha? Não havia mais volta.
Juliet sentiu a esperança se
inflar e se alastrar por seu peito até
que mal conseguisse respirar. Ele a
amava?
– Eu sinto a mesma coisa. Não
consigo me lembrar de um momento
em que não tenha amado você.
Acho que foi por isso que passei
tanto tempo sem namorar. Não
conseguia

aguentar

ficar

com

ninguém que não fosse você.
O sorriso dele fez o coração

de Juliet palpitar novamente.
– Quer se casar comigo?
Juliet fechou os olhos por uma
fração de segundo.
– Certo. É agora que vou abrir
os olhos e descobrir que foi tudo
um

sonho.

Ela

os

abriu

novamente, mas ele continuava ali.
– Eu estou sonhando?
Marcus gargalhou.

Acho

que

preciso

de

algumas luzes, velas e um quarteto
de cordas para convencer você. E

acho melhor eu ligar para sua mãe.
E também para o seu irmão, de
quem, francamente, estou morrendo
de medo, já que gosto bastante das
minhas pernas, mas, mesmo assim...
Um homem precisa fazer o que acha
certo. – Os olhos dele brilharam
novamente. – O que você vai fazer
depois do jantar? Quer fazer um
passeio de barco pelo Tâmisa?
Juliet sorriu quando os braços
de Marcus a envolveram.
– Não perderia por nada neste

mundo.

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM
HARLEQUIN BOOKS S.A.
Todos os direitos reservados. Proibidos a
reprodução, o armazenamento ou a transmissão,
no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou
mortas é mera coincidência.
Título original: ENGAGED AT THE
CHATSFIELD
Copyright © 2014 by Harlequin Books S.A.
Originalmente publicado 2014 por MB Modern
Romance Internet Titles Arte-final de capa: Ô
de Casa
Produção do arquivo ePub: Ranna Studio ISBN:
9788539818716
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São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380

Contato:
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Capa
Texto de capa
Rosto
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Créditos

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