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Para_continuar_MIOLO.

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com um cabelo nada curto e despenteado.CAPÍTULO 1 Cinco minutos antes de chegar ao meu destino. Tenho sorte de pegar o metrô da cidade de São Paulo nesse horário. camiseta de malha. ela é tímida. confesso. como se correspondido. mas não importa. quando as composições já receberam e expulsaram um mundaréu de gente. a segunda parte é mentira. Certo. ainda que minha família esteja longe de ter qualquer ascendência do lado direito do Meridiano de Greenwich. sinto que aqui está a razão pela qual eu finalmente declararia guerra à minha vida tediosa e limitada. por isso. não há nada que impeça a minha visão de ser clara: é uma jovem de aparência oriental. de frente para mim. E. calça jeans rasgada. com cabelos negros e longos. Nunca tive dificuldade para diferenciar os povos asiáticos. Aliás. continuo hipnotizado pela garota que está sentada do lado oposto do vagão. Nesse instante. parece fácil identificá-los. Para mim. bastante irresistível.indd 5 02/07/2015 13:41:18 . Embora eu tenha acabado de completar vinte anos de idade. ando como um adolescente. magra e que veste roupas comuns. sou tão tímido quanto ela. Estou certo de que é descendente de japoneses. E eu. embora os olhos sejam menos puxados do que o normal. tênis descolado e tenho uma tatuagem tribal no braço. a garota me encara por um ínfimo de segundo e abaixa a cabeça quase tão rápido quanto o giro completo das rodas do vagão em que estamos. Sem dúvida. mas o meu cérebro reage de forma inesperada e o gesto da garota me dá uma dose de oxigênio extra 5 Para_continuar_MIOLO.

mas ela continua com a cabeça baixa. como posso notar agora. Depois de um tempo.indd 6 02/07/2015 13:41:18 . por baixo das mechas de cabelo. Não me sento para não ser invasivo. o que está ouvindo? 6 Para_continuar_MIOLO. seguro no ferro de apoio para não passar a vergonha de cair estatelado. porém não surte efeito. possui uma letra a mais. pela incidência da luz do teto do vagão sobre nós dois. muito leve.. Quando me acomodo. seus cabelos extremamente lisos e que escorrem pelos ombros magros. não consigo me ajeitar no banco e tenho certeza de que ela está notando o embate dentro do meu corpo. mas tudo que penso em dizer parece forçado demais. afinal. Então. Então escuto um ruído baixinho. pois ela continua a me ignorar. quase imperceptíveis. tão explícito que qualquer um notaria. O metrô desacelera num tranco. observo-a de esguelha. e noto que ela está usando fones de ouvidos.Felipe Colbert para que eu levante do banco e caminhe até próximo de onde ela está sentada. Gostaria de identificar a música (talvez esse fosse um bom motivo para iniciarmos uma conversa). viro o rosto para o lado e penso que vou me deparar de novo com os olhos orientais. A garota tem a pele tão clara quanto a minha. Os olhos-de-personagem-mangá voltam a me observar. toco de leve no braço dela. Estou nervoso. — Desculpa. nem precisaria disso. ignorando o aviso que diz para evitar. jogo minha mochila velha no ombro direito e encosto a mão na porta.. desobstruo a porta para que as pessoas atravessem e me parece uma boa desculpa para finalmente me sentar ao lado dela. apenas a observo pelo reflexo no vidro. antes que o trem pare. se eu fosse mesmo irresistível. Antes de me dar conta do que estou fazendo. Num reflexo. Não é o tipo de atenção que desejo chamar. Deixo escapulir a melhor palavra criada pelo ser humano em todos os tempos: — Olá. Aliás. mas é impossível. Imagino milhares de motivos para tentar um contato. A porta se fecha e o trem volta a se mover. Me parece melhor do que um “oi”. Aliás.

Depois. Vem a surpresa. E quando eu as recebo de volta. Ela não sorri. apressada. sem que eu saiba sequer seu nome ou tenha escutado sua voz. que deveria ter comprado uma mochila nova há muito tempo. diferente do ritmo acelerado que assistimos em karaokês ou boates japonesas nos filmes. que retira o fone tão suavemente quanto o colocou e retorna para debaixo das mechas negras e compridas. minha ex-namorada. já é tarde. porque minha pergunta é justamente sobre o contrário. dentro de um enorme coração. e eles são muitos. com meu nome abreviado em letras garrafais.Para Continuar Eu gesticulo como se ela fosse surda. fez uma marcação à caneta no tecido emborrachado. Parece que não terei muito tempo. sou despertado pela mesma mão de antes. e a garota ao meu lado se mexe. “LÉO”. mas que tem um som melodioso. bastante calmo e tranquilo. mas durante alguns segundos permaneço anestesiado pela música. O sistema de som anuncia a estação Liberdade. Ouço uma música oriental. Abaixa a cabeça outra vez. Ela pega um dos fones de ouvidos e encaixa com delicadeza na minha orelha esquerda. Não sei definir direito o que acontece em seguida. 7 Para_continuar_MIOLO. O trem para. pense. mas Malu. inserido em um nirvana que faz com que eu me esqueça de todos os problemas que envolvem minha vida. com palavras indecifráveis. As portas se fecham e eu vejo a garota de origem japonesa ir embora. Não compreendo nada. mas minhas pernas continuam presas em algum lugar no tempo em que passamos lado a lado. Não me recordo o dia exato. Pense. Seus dedos tocam minha pele. E eu me toco. mas vejo seus olhos escapulirem para a mochila desbotada que está agora em meu colo. e eu arrepio como um gato encurralado num beco.indd 7 02/07/2015 13:41:18 . Patético. tornando tudo que está acima delas incapaz de agir. pense. pela enésima vez. Talvez eu devesse ir atrás da garota. enquanto minha mente dá uma cambalhota. Ela se levanta e atravessa a porta.

Mas eu sei que. bem. Essa manifestação dentro do meu peito começou na adolescência.indd 8 02/07/2015 13:41:18 . sou um mutante de histórias em quadrinhos. sentado à minha esquerda. além de um enorme gozador. no fundo. luta marcial. Por questão da doença. Dr. correr atrás de um cachorro ou até mesmo tomar um susto muito grande. Sei precisamente o que eu tenho. mas quando seu médico cardiologista fala depois de avaliar e recolocar os resultados dos seus exames dentro do envelope. mantém o tamanho de um touro e demonstra a serenidade de sempre.. e você quer desistir. mas sem chegar a embargá-la. A palavra idiopática significa que a causa é desconhecida. Não é uma informação garantida. ignora meu comentário. É o meu desânimo. até sentir o primeiro sintoma da doença. Se for a um parque de diversões. 8 Para_continuar_MIOLO. Aos cinquenta anos de idade. tenho que agir como um garotinho sem altura para entrar na maioria dos brinquedos. Esse é o tipo de frase aceitável se dita por muitos tipos de profissionais. dançar por muito tempo.Felipe Colbert — Ainda não obtivemos o resultado esperado.. eu me achava completamente normal. levantar peso. O mais engraçado é que. foi um prazer conhecê-los! Meu pai. A minha doença possui o nome desconjuntado de cardiomiopatia dilatada idiopática. Evandro? — pergunta com a voz oca. e isso não é tão incomum quanto eu imaginava. o que poderia obstruir uma artéria e causar um derrame cerebral — e isso me faz pensar que essa foi a única sorte que tive. mas imagino que vivo sob risco de morte a qualquer momento. — Qual é o próximo passo. Chega uma hora que pensar nisso tudo cansa. uma insuficiência no músculo cardíaco para bombear o sangue de forma natural. Aí. não é o desespero que preenche o ar do consultório. ele é frágil que nem manteiga. No meu caso. nunca sofri um coágulo sanguíneo. Agora. não posso fazer qualquer tipo de esporte. Nelson (tenho certeza que meus pais têm os nomes ideais para as profissões deles). cuja vida se transformou por um acaso do destino — mas sem ganhar nenhum poder específico. você expõe: — Ok. mas continua a transparecer ironia.

eu estava na mesma cadeira. só que naquele dia. meu pai segurou firme minha mão. que me incomoda bastante sempre que venho aqui. Se eu estiver vivo até lá. — Que pensamento agradável — digo. tem um porta-retrato de sua família feliz e perfeita na estante atrás de sua cadeira. mas sem convencer muito. mas segui o protocolo à risca. com tapinhas no meu joelho direito. enfiado no mesmo consultório. se matando de trabalhar em dois turnos para comprar os remédios que me mantêm vivo e minha mãe largando o emprego de professora de ensino 9 Para_continuar_MIOLO. Eu não experimentava essa força enorme desde que eu tinha uns seis anos e ele me impediu de atravessar a rua sozinho e distraído na frente de um ônibus. — E quantos momentos eu terei daqui para frente? — pergunto sem desviar os olhos do médico. No dia em que descobrimos o diagnóstico. sentada do lado oposto ao meu pai. Nunca entendi por que o paciente sempre fica no meio. Ainda é muito cedo para você ser considerado um paciente refratário ao tratamento clínico. Em ambas as ocasiões. da aliança dourada que ele usa. a maior que já vi no dedo de alguém. — Leonardo César. Naquela ocasião. Pensando bem. prefiro encarar o problema a longo prazo.indd 9 02/07/2015 13:41:18 . Evandro. contabilista (eu avisei!). uma ideia assombrou minha mente como um mau presságio: meu pai. é como se minha morte estivesse decretada e tivessem tempo apenas para me tirarem do consultório e me proporcionarem a última refeição. Evandro terminou de dar a notícia. assim que Dr. sua doença está controlada — diz Dr. esse não é o momento — sugere minha mãe. Já eu. Evandro. Até o momento. guardem o champanhe e as bexigas que trouxemos para a próxima consulta. é claro. Foi por um triz. Suzy. — Filho. lembro que minha mãe chegou a ficar com o rosto desbotado. Para eles. nós já conversamos sobre isso.Para Continuar — Tudo bem — interrompo —. quase de cera. ou melhor. como agora. pelo mesmo motivo. acho que foi muito pior com a notícia do Dr. com meu pai e minha mãe sentados um de cada lado. Além disso.

mas meu pai conseguiu suportar o impacto no orçamento fazendo algumas horas extras. ou seja. mas tanto eles quanto eu tentamos levar nossas vidas. melhorei e tive alta. O perigo continua sendo iminente. — Nada de bebidas alcoólicas ou drogas. é claro. Tenho cartelas de remédios que necessito tomar todos os dias. De verdade. Evandro. carimba. Vamos deixar os betabloqueadores de lado. todos os meus esforços para continuar sem qualquer conexão com a sociedade continuam em vigor. continuarão em ritmo normal. Mesmo assim. e esta se transmuta em mais uma receita. e sim contra a falha assimétrica do ventrículo esquerdo dentro do meu peito. recebi medicação intravenosa em cada oportunidade.Felipe Colbert fundamental (eu avisei!) para adotar a função de cuidadora do filho em tempo integral. Ao contrário do Dr. sem que eu tenha a mínima ideia do que ele está falando. é óbvio que eu (ainda) não morri e nada disso aconteceu. E nem 10 Para_continuar_MIOLO. — Vamos agendar nosso encontro para daqui a um mês. eu sorrio com simpatia. — Tentaremos outra medicação. Em poucos minutos sairemos do consultório e o assunto voltará a ser “ignorado”. obrigado. e eu finjo que nunca percebo. dosadas de controles e até com alguns sorrisos nos rostos.indd 10 02/07/2015 13:41:18 . Dessa vez associarei apenas um diurético com o vasodilatador. Bem. — Exatamente. eu não tenho nada contra o Dr. Evandro. que me olha agora com uma assistência quase transparente.. porque exceto pela fotografia com os filhos lindos e perfeitos dele. Ele pega uma caneta dourada como a sua aliança e escreve garranchos numa folha. nada exagerado. — Não se preocupe. dentro do possível. Leonardo César. Mesmo mal-humorado. criando sinergismo no uso combinado das duas drogas — informa meu médico. isso não muda. Meus estudos. Depois estica na minha direção. Já sofri algumas internações. E você já sabe. posso ter um piripaque sem aviso. Já a minha mãe me inspeciona ao ligar em intervalos regulares para meu celular. mas minha mãe é mais rápida e captura o papel..

E. como imaginam meus progenitores. devo ser o cara mais bunda-mole de toda a faculdade. Com essas e outras. Meu coração faz um péssimo trabalho. mas por ter um coração de gesso que pode se espatifar de uma hora para outra. coisa que meus pais evitam a todo custo. 11 Para_continuar_MIOLO. Essa é a grande ironia da minha vida... também por isso. e sou eu que pago o pato.Para Continuar a minha vontade de ter e dirigir meu próprio carro desde que consegui minha carta de habilitação. eu não me meto com ninguém.indd 11 02/07/2015 13:41:18 . até mesmo com o susto de uma batida no trânsito. não só por andar com um atestado que me impede de jogar uma simples partida de futebol ou por recusar inúmeros convites para beber no barzinho.

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Ele é um radar ambulante que me localiza assim que coloco o pé em qualquer lugar onde estejamos. mais ainda porque tenho co13 Para_continuar_MIOLO. Eu me empertigo e nos cumprimentamos. Não me incomodo. mas depois das últimas notícias. é só uma banda bacana. para quem tem um melhor amigo como Penken. — Você vai continuar usando essa porra de camiseta? — indaga. cara? Por que te incomoda tanto? — É ridículo. Considero quase um poder. pretendo ficar isolado. Se não estava antes. Eu suspiro. como outros tantos que ele possui. Ainda estou bebendo água no bebedouro quando ele chega e cutuca a minha canela com o pé direito. acho que tenho essa camiseta desde antes de o vocalista se assumir publicamente. agora está. evito conversar com as pessoas.indd 13 02/07/2015 13:41:19 . Não sou um cara antipático. R. — De novo. — Já cansei de dizer.CAPÍTULO 2 No dia seguinte. uma coisa anormal. É capaz de me encontrar dentro de um estádio de futebol lotado sem ao menos me telefonar ou mandar uma mensagem por celular.. parece uma missão impossível. assim que desço do metrô da estação Vila Mariana e chego à faculdade. É uma vergonha. Só que. Não tem problema nenhum o Michael Stipe ser homossexual. tá até furada.E. Aliás.M.. — Ele mete o dedo em algum local na parte de trás da gola e puxa. — Logo se vê. Minha coleção de camisetas data de sete ou oito anos atrás.

É claro que eu tive que fazer uma variação. — E então. na boa. Porém. — Putz. Outra boiolice! — Queria que eu viesse pra faculdade de quê? Baita calor. Nunca compreendi o significado real da palavra. sou seu melhor amigo e me parece mais pessoal. Penken é o apelido de Gustavo. Mas eu falo gay. Acho que até perguntei certa vez. O difícil mesmo é descobrir qual de nós é mais impopular. Já te disse mil vezes. — Pelo menos você aposentou a “Bazinga!”. mas nem mesmo ele sabe a origem. o que tá rolando? — Não é nada.Felipe Colbert ragem de defendê-las. Penka! Tô meio sem saco para isso. Essa é a nossa diferença. Você anda meio repetitivo nas perguntas. Fazemos programas sossegados. e eu.. porque hoje estou mesmo desanimado. — Sobre o quê? — Eles vão ou não te financiar o carro? — Nem em sonho. Nenhum 14 Para_continuar_MIOLO. Eu o chamo de Penka. só que o chamam assim desde criança. não importa onde estejamos. afinal. falou com seus pais? — pergunta ele. porque assim como eu. — Já entendi. Você tá na seca. não sou homofóbico. Design Gráfico. E só pra constar. você diz homossexual. urgente. mais precisamente no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Para completar. — Cara. Cursamos o ensino médio na mesma classe e entramos juntos na faculdade. só que em carreiras distintas. eu já me acostumei. já o conheci dessa forma. — Nem eu.. Penken tem uma mania terrível de meter o dedo no nariz e sair com uma surpresa de dentro dele.. Ele cursa Arquitetura e Urbanismo. né? Precisa de uma namorada nova. Não consigo pensar numa resposta engraçadinha. olha quem fala.. — Ah. né não? Até que enfim ele percebe que estou meio estranho. você sabe. a família de Penka não anda com grana sobrando.indd 14 02/07/2015 13:41:19 .

. especialmente na faculdade. Sempre dou uma disfarçada e minto. Evito entrar em choque por causa disso. O sinal toca e me livra da conversa. Não ando com as caixas (apenas as cartelas) e digo que são vitaminas para suprir uma pequena deficiência imunológica. imagine o efeito que causaria nos outros. já que a maioria dos problemas lá em casa tem ligação direta com minha doença. Encaixo minha mochila velha no ombro direito e digo: — Valeu. Isso talvez justifique a cor da minha pele. Ele. enquanto me incluem em um protecionismo absurdo devido à minha condição física. porque tenho que ir para a classe. seja 15 Para_continuar_MIOLO. É óbvio que eu não sei se minha ex-namorada já deu com a língua nos dentes. Tirando minha família. Eu. Ninguém quer que alguém morra de repente ao seu lado! E se tem uma coisa que não vai curar nenhuma doença no universo. Estatisticamente. porque meus pais insistem que eu aguarde a conclusão dos meus estudos. ciúmes é o principal causador da maioria das separações. porque é meio vagabundo.indd 15 02/07/2015 13:41:19 . e nós dois fazemos parte dessa contagem. Se nossa relação não foi muito saudável durante os dois anos de namoro. quase anêmica. já me perguntaram algumas vezes sobre os remédios que eu tomo. E a falta de um carro. apenas meu melhor amigo e Malu sabem das minhas complicações de saúde. A gente se vê! Deixo Penken para trás e caminho até a sala de aula. eu e o resto da humanidade já sabemos. Quanto aos outros.. não me parece sensato contar. Para as outras pessoas. também. Sento-me sozinho em um canto da sala de aula e ligo meu tablet para fazer as anotações do professor. imagine depois que terminamos.Para Continuar de nós dois trabalha. Ele não se deu conta de perguntar sobre meus exames. e eu simplesmente ignorei de lembrá-lo dos meus problemas. Mas hoje em dia a falta de grana parece ser uma inconveniência para a maioria das mulheres que conhecemos. Sou bom em desenhar. Se fico apavorado com a ideia de uma morte súbita. mas prefiro que seja assim. O fundo de tela do meu equipamento é um desenho em preto e branco do rosto de um Tigre-de-Bengala que fiz há algum tempo. é o sentimento de piedade.

Felipe Colbert com caneta e papel ou num tablet. É inevitável pensar na atração súbita que senti e como gostaria de ter segurado sua mão quando ela esbarrou em mim ao colocar o fone do iPod no meu ouvido. Eu preciso de uma namorada nova. Eu sei. da forma como estão convictos na minha cabeça. Ela olha diretamente para mim.. Queria pelo menos saber seu nome. E. Quando me dou conta. e melhor ainda em copiar coisas. Na segunda aula. deixo o sonho estancado por um tempo. por fim. Vejo que a desenhei sorrindo com os lábios finos e úmidos. mais digno de interesse. por outro lado. já esqueci a aula e estou desenhando o rosto dela no tablet. imaginei que seria a minha próxima tatuagem. Eu gostaria de ter conversado com ela. Depois. Meu Deus. minhas reflexões já mudaram para algo. a ponto de me dar o direito de formular fantasias que eu me envergonharia de narrar em voz alta para qualquer um. nem é tão imperativo assim. é uma piada. quase posso sentir minha força se esvair. são impressos na tela com tanta naturalidade que Leonardo — o outro. convenhamos.indd 16 02/07/2015 13:41:19 . mas qual é o problema em sonhar? Deve ter sido o silêncio da sua voz somado à beleza oriental que me encantaram como eu jamais poderia prever. Ou então poderia pegar emprestado o poder de Penken e utilizaria seu radar natural para encontrá-la. Transcrever a matéria da lousa é algo que perfaço no modo automático. Seus traços orientais. mas. beijá-la. com isso. com tantas despesas médicas.. mas. o da Vinci — sentiria ciúmes da minha obra. Tenho a impressão de que vai falar comigo e. Enquanto assisto à primeira aula. Lembro da garota que vi outro dia no metrô e sinto um desejo irresistível de voltar no tempo. Penken está certo. 16 Para_continuar_MIOLO. Na terceira. dá até um ar de mistério. Suspendo minha arte e olho para a tela reflexiva. em específico. só consigo pensar nos meus problemas. porque uma garota normal jamais deixaria um desconhecido fazer isso dentro do metrô. também. Queria ter um aplicativo que analisasse o que produzi e conseguisse localizar a pessoa. Essa imagem. urgente. mas pelo que sei ainda não existe. acariciado seu rosto.

Estranhamente.indd 17 02/07/2015 13:41:19 . Ao tempo em que umas se apagam. que não aprendera na escola ou em qualquer outro lugar. outras surgem. distribuídas em um número tão grande que fica impossível contar. tudo pode mudar. não havia nenhuma fumaça. não se esqueceria enquanto vivesse. ela recebeu a explicação naquele mesmo dia e. novas metáforas. desde que conheceu o significado das lanternas. pisou pela primeira vez no porão. Cada uma delas contando uma história. como se uma entidade magnífica (talvez um deus) houvesse passado pelo porão escuro e rabiscado seu próprio céu estrelado dentro dele. Ayako se lembra como se fosse hoje. Ela olha para o teto e percebe. Ela identificou novos símbolos. E o ar que respira não é o que se esperaria de um porão abandonado e úmido. as lanternas orientais. desses. 17 Para_continuar_MIOLO. sempre que atinge os três metros abaixo do piso principal da casa e entra no porão. Não importa quanto tempo se passou. a qualquer momento.CAPÍTULO 3 Quase todos os dias. era como se tivesse se formado em algo mais do que as simples objetividades da vida. No dia em que perdeu seus pais em um acidente. Só que a lanterna que ela tanto espera. a impressão que ela tem é a mesma: uma visão deslumbrante. A manta celeste a hipnotizou de imediato. E ninguém que ela conheça pode dizer quando vai aparecer. E. brilhantes e iluminadas. teima em não estar lá. Mas Ayako sabe que. Entretanto. Elas se dispõem aleatoriamente. Ayako Miyake desce os degraus rangentes de madeira para se certificar de que está tudo em ordem. Cada uma delas com um significado. como também não há agora.

só que isso não pode ser feito. foi ele quem revelou tudo para ela. como se pudesse captar um pouco de sua energia. deve saber o que existe ali embaixo. mas a magia não se limita a atos extraordinários. no qual foi ensinada por ele. Sem problema. O objeto brilha de forma contínua em meio a tantos semelhantes. Ela queria ao menos uma vez deslizar seus dedos pelo papel de seda e arames. — Sim. Ayako nota que a porta destranca. vai reconhecê-la. Ela não pode vê-lo. o dialeto comum japonês. ojiisan. — Ayako-chan — surge a voz lá de cima. — Não demore. assim como todas as outras. ojiisan? — ela se comunica em hyōjungo.” As palavras que ela escutou ainda ressoam em seus ouvidos. além dos dois. A Ayako resta apenas protegê-las. Se você for observadora. Ayako-chan — aconselha ele. Ela está no nosso dia a dia. caso aconteça.indd 18 02/07/2015 13:41:19 . ou melhor. E ela nem quer pensar nas consequências.Felipe Colbert “Você está vendo algo mágico. Normalmente ele não age assim com esse assunto. sem conseguir se conter. Antes disso. Apesar de tomada pela penumbra. Não. Com sua sabedoria. pois ninguém tem o direito de apagá-las ou transfigurá-las. senhor. — Minha resposta é a mesma de sempre. — Alguma lanterna em especial? Ela suspira. O destino delas já está definido. 18 Para_continuar_MIOLO. precisa permanecer intacta. A porta é trancada outra vez. Ayako suspende o braço e sente uma enorme vontade de tocar uma lanterna que está próxima à sua cabeça. do alto da escada. — Está tudo em ordem? — Parece que sim. Alivia-se. pois os dois são os únicos que possuem as chaves e ela sairá daqui em breve. e ela compreende o porquê. — Sim. Essa lanterna. — Não demore. E ninguém. mas sabe que seu avô não está sorrindo. Apenas estende a mão próximo a ela. mas se retrai. De súbito. sabe muito bem de quem se trata: é o seu avô. Ela se vira e enxerga a pequena silhueta no topo da escada.