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O VALOR DA PAIXÃO

Wanted By Her Lost Love

Maya Banks

VIDA & PAIXÃO 2/4
Por que ela não descontou o cheque?
Apesar da imperdoável traição, o construtor Ryan Beardsley entregou um polpudo
cheque para sua noiva e a mandou embora. Mas quando descobre Kelly trabalhando
como garçonete em uma espelunca e grávida, o sangue lhe sobe à cabeça! Ele não
queria saber se a criança era filho seu ou de seu irmão. Ryan exige que Kelly volte com
ele para Nova York. Imediatamente! Pelo bem do bebê. Ou, talvez, porque agora ela está
mais linda do que nunca...
Digitalização: Simone R.
Revisão: Paula Lima

Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Querida leitora,
Adoro quando uma história me prende e há tanta emoção e angústia nela que um nó se
forma em minha garganta e permanece lá enquanto seguro a respiração para descobrir como o
herói e a heroína conseguirão vencer obstáculos aparentemente insuperáveis.
O valor da paixão foi exatamente assim para mim Eu a escrevi com dor no coração porque
sofria por Kelly e Ryan e estava ansiosa para lhes proporcionar o final “felizes para sempre” que
mereciam
Muito da história deles é sobre a superação de erros do passado, sobre aprender a
perdoar. Mas é, principalmente, sobre uma heroína que se mantém firme e orgulhosa de si
mesma e decide que merece mais, depois de ter sido terrivelmente injustiçada e maltratada pelas
pessoas que a cercavam Sua viagem emocional é uma das minhas favoritas e espero que torça
por Kelly tanto quanto eu enquanto virar as páginas de sua história.
Com amor,
Maya Banks

Tradução Celina Romeu
HARLEQUIN
2013
PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II BV/Sàrl.
Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no
todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou
mortas é mera coincidência.
Título original: ENTICED BY HIS FORGOTTEN LOVER
Copyright © 2011 by Maya Banks
Originalmente publicado em 2011 por Harlequin Desire
Título original: WANTED BY HER LOST LOVE
Copyright © 2011 by Maya Banks
Originalmente publicado em 2011 por Harlequin Desire
Projeto gráfico de capa:
Nucleo i designers associados
Arte-final de capa:
Ô de Casa
Impressão:
RR DONNELLEY
www.rrdonnelley.com.br
Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:
FC Comercial Distribuidora S.A.
Editora HR Ltda.
Rua Argentina, 171,4° andar
São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921—380
Contato:
virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks

CAPÍTULO UM

— Quase faz você acreditar na bela instituição do casamento, não? — Ryan
Beardsley observava o amigo, Rafael de Luca, dançar com Bryony, a noiva radiante.
A recepção se realizava no pequeno e feio prédio da prefeitura de Moon Island.
Ryan pensava que não era exatamente o lugar onde imaginaria qualquer dos amigos se
casando, mas talvez fosse adequado que Rafe e Bryony o tivessem escolhido, já que
grande parte do relacionamento deles havia se aprofundado na ilha.
A noiva brilhava, e o ventre dilatado aumentava sua beleza. Estavam na pista
improvisada de dança, Bryony nos braços protetores de Rafe, e tão mergulhados um no
outro que provavelmente nem se davam conta do mundo exterior. Rafe parecia ter
recebido o universo de presente, e talvez tivesse.
— Parecem tão felizes que dá nojo — comentou Devon Carter ao lado dele.
Ryan deu risada e se virou para Dev, que segurava uma taça de vinho.
— É, parecem!
A boca de Dev se moveu numa expressão de aborrecimento, e Ryan tornou a rir. O
próprio Devon não estava longe de se casar e não se mostrava entusiasmado. Ryan não
resistiu à tentação de implicar com o amigo:
— Copeland ainda está apertando os parafusos nos seus dedos?
— E como — resmungou Devon. — Decidiu que tenho que me casar com Ashley e
não fechará o negócio a menos que eu concorde. O problema é que ele insiste num
período de encontros. Quer que Ashley se sinta confortável comigo.
O homem acha que vive no século XIX Quem diabos arranja um casamento como
condição para fazer negócios? Não consigo entender.
— Há mulheres piores, tenho certeza. — Ryan pensava em como escapara por
pouco.
Devon acenou, solidário.
— Ainda nenhuma palavra sobre Kelly?
Ryan franziu a testa.
— Não. Mas a busca apenas começou. Vou encontrá-la.
— Por que está procurando por ela, amigo? Esqueça, vá em frente. Está melhor
sem ela. Acho que está louco para ir atrás de Kelly.
— Não tenho dúvida de que estou melhor sem ela. Não a estou procurando para
trazê-la de volta à minha vida.
— Então por que contratou um investigador para encontrá-la, pelo amor de Deus?
Deixe o passado ficar no passado, supere. Vá em frente.
Ryan ficou em silêncio por um longo momento. Não sabia bem como responder à
pergunta. Como poderia explicar o anseio ardente de saber onde ela estava? O que
andava fazendo? Estaria bem? Não devia se importar, droga! Precisava esquecê-la, mas
não conseguia.
— Quero algumas respostas — disse finalmente. — Ela nunca descontou o cheque
que lhe dei. Só quero saber que nada de mal lhe aconteceu. — A justificativa pareceu
pobre até para ele mesmo.
Devon ergueu uma sobrancelha e deu um gole no vinho caro.
— Depois do que fez, imagino que esteja se sentindo muito idiota. No lugar dela, eu
também não gostaria de me mostrar de novo.
Ryan deu de ombros.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— Talvez. — Mas não conseguia afastar a sensação de que havia mais alguma
coisa.
Por que estava preocupado? Por que se importava? Por que ela não havia
descontado o cheque? Por que não a esquecia? Ela o assombrava. Havia seis meses
Ryan a amaldiçoava, passava noites acordado se perguntando onde ela estaria e se
estava bem. E odiava se sentir assim, embora tivesse conseguido se convencer de que
se preocuparia com qualquer mulher nas mesmas circunstâncias.
Devon deu de ombros.
— Sua cabeça, sua sentença. Oh, veja, lá está Cam. Não tinha certeza se o sr.
Recluso se arrastaria para fora de sua fortaleza para este evento.
Cameron Hollingsworth abria caminho entre a multidão e as pessoas instintivamente
se afastavam para ficar fora do caminho dele. Era alto, o peito largo, e usava o poder e o
refinamento como a maioria dos indivíduos usava roupas. Sua postura pétrea o tornava
inabordável. Podia ser um idiota mesquinho, mas geralmente relaxava perto dos amigos.
O problema era que só considerava Ryan, Devon e Rafe como amigos. Não tinha
paciência com mais ninguém.
— Estou atrasado, sinto muito. — Cameron se aproximou dos dois homens, e então
olhou para a pista de dança e seu olhar parou em Rafe e Bryony. — Como foi a
cerimônia?
— Oh, adorável... — A voz de Devon se tornou lânguida. — Tudo o que uma mulher
espera, acho. Rafe não deu a mínima, desde que o resultado final fosse tornar Bryony
sua.
Cam riu.
— Pobre idiota. Não sei se lhe dou minhas congratulações ou minhas condolências.
Ryan sorriu.
— Bryony é uma boa mulher, Rafe tem sorte.
Devon acenou e até Cameron sorriu, se aquele leve erguer do canto da boca
pudesse ser chamado de sorriso. Então Cam se virou para Devon, os olhos brilhando de
divertimento.
— Dizem que você logo vai fazer a mesma coisa.
Devon resmungou um palavrão.
— Não vamos arruinar a festa de casamento de Rafe falando sobre o meu. Estou
mais interessado em saber se conseguiu comprar o local para a construção do nosso
novo hotel, já que a Moon Island está oficialmente fora de alcance.
As sobrancelhas de Cam se ergueram num choque exagerado.
— Está duvidando de mim? Pois saiba que um terreno de vinte acres da melhor
qualidade em St. Angelo agora é nosso. Por um preço muito bom. E a construção poderá
começar assim que enviarmos a equipe. Se trabalharmos bem, cumpriremos o prazo
estabelecido para a grande inauguração.
Seus olhares se dirigiram automaticamente para Rafe, ainda totalmente envolvido
com a noiva. Sim, o homem lhes causara um grande prejuízo quando impedira a compra
da Moon Island, mas era difícil para Ryan ficar com raiva quando Rafe parecia tão feliz. O
bolso de Ryan vibrou e ele tirou o celular. Estava prestes a ignorar a chamada quando viu
de quem era.
— Com licença, preciso atender à ligação.
Cameron e Devon acenaram enquanto Ryan saía do prédio. Assim que chegou do
lado de fora, a brisa marítima lhe despenteou o cabelo e o travo de sal do mar lhe encheu
as narinas. O clima estava ótimo, quente mas não demais. Um dia perfeito para um
casamento na praia. Virou-se para olhar as ondas distantes enquanto atendia ao telefone.
— Beardsley.
— Acho que a encontrei — informou seu principal investigador sem preâmbulo.
Ryan ficou tenso, a mão apertando o aparelho com força.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— Onde?
— Ainda não tive tempo de fazer uma confirmação visual. Recebi a informação há
apenas alguns minutos. Devo saber mais amanhã.
— Onde? — exigiu Ryan de novo.
— Houston. Trabalha numa lanchonete. Terei fotos e um relatório completo para
você amanhã à tarde.
Houston. A ironia da situação não lhe escapou. Passara todo o tempo perto dela e
nunca imaginara.
— Não — interrompeu Ryan. — Eu vou. Já estou no Texas, posso chegar a Houston
em duas horas.
Houve um longo silêncio.
— Senhor, pode não ser ela. Prefiro ter a confirmação antes que faça uma viagem
inútil.
— Você disse que provavelmente é ela. — A voz de Ryan soava impaciente.— Se
não for, não o considerarei responsável.
— Então não mando o meu homem? Ryan fez uma pausa, os lábios cerrados, a
mão apertando ainda mais o aparelho.
— Se não for Kelly, aviso para que continue a busca. Não há necessidade de
mandar ninguém.
Ryan dirigiu por Westheimer sob a chuva forte. Seu destino era uma pequena
lanchonete na zona oeste de Houston, onde Kelly trabalhava como garçonete. Não devia
se surpreender, era garçonete num café de Nova York quando se conheceram. Mas o
cheque que lhe dera evitaria a necessidade de trabalhar por muito tempo. Imaginava que
voltaria para a faculdade. Mesmo quando ficaram noivos, ela quisera conquistar seu
diploma. Não havia compreendido o motivo, mas apoiara sua decisão, embora a parte
egoísta de Ryan desejasse que ela dependesse totalmente dele. Por que não descontou
o cheque?
Assim que terminara o telefonema com o investigador, dera os parabéns a Rafe e
Bryony e se despedira dos amigos. Não contara a Cam e Dev que havia encontrado Kelly,
apenas que precisava cuidar de um assunto importante. Chegara a Houston tarde da
noite, assim passara uma noite insone num hotel do centro da cidade.
Quando se levantara aquela manhã, chovia forte e não parara um só momento.
Olhou para o GPS e percebei que ainda estava a diversos quarteirões do seu destino.
Para sua frustração, todos os sinais por que passava estavam vermelhos nas ruas de
trânsito pesado. Não sabia por que tinha tanta pressa. De acordo com o investigador,
Kelly já trabalhava ali havia algum tempo. Não iria a lugar nenhum. Um milhão de
perguntas lhe passava pela mente, mas sabia que não teria as respostas enquanto não a
confrontasse.
Alguns minutos depois, estacionou diante da pequena lanchonete. Era decadente e
pobre. Observou-a, atônito, tentando imaginar Kelly trabalhando ali. Balançou a cabeça,
saiu do BMW e correu para a entrada modesta. Olhou em torno antes de se sentar numa
cabine no ponto mais distante da entrada. Uma garçonete que não era Kelly se aproximou
com um cardápio e o jogou sobre a mesa em frente a ele.
— Apenas café — resmungou.
— Como quiser. — Ela se afastou balançando a saia em direção ao balcão para
apanhar o café.
Voltou logo e colocou a caneca sobre a mesa.
— Se houver qualquer outra coisa que queira, basta me chamar.
Ele estava prestes a perguntar sobre Kelly quando viu outra garçonete de costas,
atendendo a outra mesa. Fez um gesto para dispensar a moça e se debruçou sobre o
tampo. Era ela. Sabia que era ela. O cabelo loiro cor de mel estava mais comprido e
preso num rabo de cavalo, mas era ela. Sentiu mais do que viu, e seu corpo enrijeceu em
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resposta mesmo depois de todos aqueles meses.
Então ela se virou e ficou de perfil. Ryan sentiu cada gota de sangue lhe fugir do
rosto. Que diabos! Não havia como negar a curva plena do ventre. Estava grávida. Muito
grávida. Ainda mais grávida do que Bryony.
O olhar dele se ergueu no momento em que ela se virou, e seus olhares se
encontraram. O choque fez os olhos azuis de Kelly se arregalarem enquanto o encarava
através da sala. O reconhecimento foi instantâneo, mas, então, por que o teria esquecido
quando ele não conseguia esquecê-la?
Antes que Ryan pudesse reagir, se levantar, dizer qualquer coisa, a fúria
transformou aqueles olhos azuis em aço gelado. Suas feições delicadas endureceram e,
mesmo de onde estava, Ryan pôde ver o queixo dela cerrar. De que estaria com tanta
raiva? Os dedos dela se fecharam em punhos nas laterais do corpo como se tudo o que
quisesse fosse socá-lo. Então, sem uma palavra, ela se virou e passou pela porta vaivém
para a cozinha e desapareceu.
Os olhos dele se entrecerraram. Certo, aquilo não era bem o que imaginava, embora
não soubesse o que esperava. Um soluçante pedido de perdão? Um apelo desesperado
para aceitá-la de volta? Mas uma maldita coisa era certa. Não esperava encontrá-la tão
grávida e servindo mesas num boteco de baixa categoria, um emprego mais adequado
para uma adolescente que abandonara o ensino médio do que para alguém perto de se
formar com honras na universidade, como Kelly.
Grávida. Inspirou o ar com força para se acalmar. Exatamente o quanto estava
grávida? Devia estar com, pelo menos, sete meses. Talvez mais. O medo lhe apertou a
garganta com tanta força que suas narinas bateram no esforço de puxar ar para os
pulmões. Se estava grávida de sete meses, havia a possibilidade de que o filho fosse
dele. Ou do irmão.
Kelly Christian invadiu a cozinha enquanto tentava desamarrar a faixa do avental.
Praguejou baixinho quando não conseguiu, as mãos tremiam demais. Finalmente, puxou
com tanta força que o tecido rasgou. Jogou-o no gancho onde as garçonetes penduravam
os aventais.
Por que ele estava ali? Não tentara encobrir seus traços. Sim, saíra de Nova York e
naquele momento não soubera onde acabaria. Não se importara. Mas também não
tentara se esconder. O que significava que ele poderia tê-la encontrado quando quisesse.
Por que agora? Depois de seis meses, que motivos teria para procurar por ela?
Recusava-se a acreditar em coincidências. Aquele não era um lugar onde Ryan
Beardsley apenas entraria por acaso. Não era seu ambiente. Ele e sua preciosa família
morreriam antes de sujar o paladar com qualquer coisa menos do que um restaurante
cinco estrelas. Uau, Kelly, tão amarga? Balançou a cabeça, furiosa consigo mesma por
reagir com tanta intensidade à presença daquele homem.
— Ei, Kelly, o que está acontecendo? — perguntou Nina.
Kelly se virou para a outra garçonete em pé na entrada da cozinha, a testa franzida
de preocupação.
— Feche a porta — sibilou Kelly enquanto fazia um gesto com a mão para Nina
entrar.
Nina obedeceu depressa, e a porta de vaivém se fechou.
— Está tudo bem? Você não parece bem, Kelly. É o bebê?
Oh, Deus, o bebê. Ryan teria que ser cego para não ter visto seu ventre dilatado.
Tinha que sair dali.
— Não, não estou nada bem — agarrou-se à explicação. — Diga a Ralph que
preciso ir para casa.
— Ele não vai gostar. Sabe como é sobre faltas no trabalho. A menos que esteja
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perdendo um braço ou vomitando sangue, não vai perdoar.
— Então diga que me demito — resmungou Kelly enquanto se dirigia
apressadamente para a saída dos fundos. Parou à porta e se virou para Nina, o olhar
ansioso. — Faça-me um favor, Nina. É importante, certo? Se alguém na lanchonete
perguntar por mim, qualquer pessoa, você não sabe de nada.
Os olhos de Nina se arregalaram.
— Kelly, está com algum problema?
— Não estou com problema, juro. É. é meu ex. É um canalha completo. Eu o vi na
lanchonete há um minuto.
Os lábios de Nina se apertaram, e os olhos brilharam de indignação.
— Vá em frente, querida, cuido das coisas por aqui.
— Que Deus a abençoe.
Kelly passou pela porta dos fundos da lanchonete e desceu o beco. Seu
apartamento ficava a apenas dois quarteirões, podia ir para lá e pensar no que fazer.
Quase parou no meio do caminho. Por que estava fugindo? Não tinha nada a esconder.
Não fizera nada de errado. O que devia ter feito era marchar pela lanchonete e dar um
soco bem forte no nariz de Ryan. Em vez disso, estava fugindo. Subiu de dois em dois
degraus a escada precária para seu apartamento no segundo andar, trancou a porta e se
encostou pesadamente nela.
Lágrimas lhe encheram os olhos e se sentiu ainda mais enfurecida por ficar tão
transtornada ao ver Ryan Beardsley de novo. Não, não queria ter que olhar para ele.
Nunca mais queria vê-lo. Nunca mais permitiria que outra pessoa tivesse o poder de ferila tanto quanto ele. As mãos foram automaticamente para o ventre e o roçaram com
gentileza sem saber quem queria confortar, seu bebê ou a si mesma.
— Fui uma idiota por amá-lo — sussurrou. — Fui uma idiota por pensar que poderia
me ajustar à vida dele, que a família dele me aceitaria.
Kelly pulou quando a porta vibrou com uma batida forte. O coração chegou à
garganta, e ela levou a mão trêmula ao peito. Olhou para a porta como se pudesse ver
através dela.
— Kelly, abra esta maldita porta. Sei que está aí.
Ryan. Deus. A última pessoa para quem queria abrir a porta. Estendeu a mão e se
apoiou na madeira frágil, sem saber se devia ignorá-lo ou recebê-lo. A força da segunda
batida fez sua mão estremecer, e ela a puxou.
— Vá embora — gritou finalmente. — Não tenho nada para lhe dizer.
De repente, a porta tremeu e se abriu. Ela deu alguns passos rápidos para trás, os
braços envolvendo o ventre de modo protetor. Ele preenchia o umbral, parecendo maior e
mais formidável do que nunca. Nada havia mudado nele, exceto por algumas linhas em
torno da boca e dos olhos. O olhar de Ryan lhe percorreu o corpo e derrubou qualquer
barreira protetora que tivesse pensado em erguer. Sempre conseguira enxergar dentro
dela. Menos quando fora mais importante. Uma nova onda de dor lhe apertou o coração.
Maldito. O que mais poderia querer a não ser feri-la? Já não chegava tê-la destruído?
— Vá embora. — Sentiu-se orgulhosa da voz firme. — Saia ou chamarei a polícia.
Não há nada que queira conversar com você. Não agora. Nem nunca.
— É uma pena... — Ryan entrou, fechou a porta e se aproximou dela. — Porque há
muitas coisas sobre as quais quero conversar com você. Começando por saber de quem
é o bebê que você carrega.

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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks

CAPÍTULO DOIS

Kelly se obrigou a não atacá-lo com a fúria que sentia. Olhou para ele com calma,
com frieza, embora as emoções fervessem sob a superfície como tava prestes a entrar
em erupção.
— Não é da sua conta.
As narinas dele bateram
— É, se estiver grávida do meu bebê. Ela cruzou os braços sobre o peito, o olhar
fixo no dele.
— Agora, por que pensaria assim?
Para um homem tão disposto a acreditar que ela dormia com todo mundo, parecia
ridículo que lhe invadisse o apartamento exigindo saber se o bebê era dele ou não.
— Droga, Kelly, estávamos noivos! Vivemos juntos, éramos íntimos. Tenho o direito
de saber se esta criança é minha.
Ela ergueu uma sobrancelha, o olhar firme nele.
— Não há como saber. Afinal, estive com tantos outros homens, entre eles seu
irmão. — Virou-lhe as costas e andou para a cozinha.
Ryan a seguiu tão de perto que podia sentir a raiva que emanava dele.
— Você é uma ordinária, Kelly. Uma ordinária fria e calculista. Eu lhe dei tudo, e
você jogou fora por um pouco de sexo casual.
Ela se virou de repente, a vontade de bater nele tão forte que precisou fechar os
dedos para se impedir.
— Saia. Saia e nunca mais volte!
Os olhos dele brilharam de fúria e frustração.
— Não vou a lugar nenhum, Kelly, não até que me diga o que quero saber.
— O bebê não é seu. Satisfeito? Agora saia.
— Então é de Jarrod?
— Por que não pergunta a ele?
— Não conversamos sobre você.
— Bem, não quero falar sobre nenhum de vocês. O bebê não é seu. Saia da minha
vida. Fiz o que você mandou, saí da sua.
— Você não me deu escolha.
Ela o olhou com desprezo.
— Escolha? Não me lembro de eu ter tido escolha. Você escolheu por nós dois.
Ele a olhou com incredulidade.
— Você realmente é um assombro, Kelly. Ainda a mártir inocente, estou vendo.
Ela se dirigiu à porta e a abriu. Ele não se moveu.
— Por que está vivendo assim, Kelly? Não consigo entender por que fez o que fez.
Eu teria lhe dado tudo. Inferno, dei-lhe uma quantia enorme de dinheiro quando
terminamos porque não gostaria de pensar em você sem nada! Mas agora a encontro
vivendo na mais extrema pobreza, trabalhando num emprego muito abaixo de sua
capacidade.
Uma onda de ódio a atingiu com força. Naquele momento, percebeu que realmente
o amava e o odiava na mesma medida. Seu peito doía tanto que mal conseguia respirar.
A mente se voltou para o dia em que ficou diante dele, devastada, enquanto Ryan
assinava um cheque e o jogava para ela. A expressão nos olhos dele lhe mostrara que
não a amava, que nunca a havia amado. Não confiava nela. Não acreditava nela. Quando
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mais precisara dele, abandonara-a e a tratara como se fosse uma prostituta. Jamais o
perdoaria por aquilo.
Lentamente, ela se virou e se dirigiu para a gaveta da cozinha onde guardava o
envelope amarrotado com o cheque. Uma lembrança de sonhos despedaçados e da
maior das traições. Estudara-o muitas vezes, mas jurara jamais descontá-lo. Pegou o
envelope, amassou-o, transformando-o numa bola, e o jogou no rosto dele.
— Aí está seu cheque — sibilou. — Peque-o e saia da minha vida, vá para o inferno!
Ele se abaixou lentamente e pegou o envelope amarrotado do chão. Abriu-o e tirou
dele o cheque, amassado e gasto. Franziu a testa quando olhou de novo para ela.
— Não compreendo.
— Você jamais compreendeu — sussurrou. — Como você não vai embora, eu vou.
Antes que pudesse impedi-la, Kelly passou por ele e bateu a porta depois de sair.
Ryan olhou para o cheque em incredulidade atônita, incapaz de pensar com clareza.
Por quê? Ela agia como se ele fosse lixo. O que diabos havia feito a ela, a não ser
garantir que tivesse meios de sobreviver bem? Olhou em torno do apartamento pequeno,
observando as paredes úmidas e mofadas e a mobília barata e quebrada. Duas portas de
armários da cozinha estavam com as dobradiças soltas e não havia nada dentro. Nenhum
alimento.
Com a testa franzida, abriu a geladeira. E praguejou quando viu apenas uma caixa
aberta de leite, um pedaço de queijo e um pote de manteiga de amendoim. Rapidamente
revistou o resto da cozinha, tornando-se cada vez mais furioso quando não encontrou
mais nada. Como estava sobrevivendo? Por que vivia daquele jeito?
Olhou de novo para o cheque e balançou a cabeça. Havia tantos zeros que ela
poderia viver bem por muitos anos sem precisar trabalhar. A tinta estava borrada e havia
marcas de dedos no papel. Mas nunca o descontara. Por quê? Havia tantas perguntas lhe
percorrendo a mente que nem conseguia processar todas. Ela se sentia culpada pelo que
havia feito? Ficara com vergonha de receber dinheiro dele depois de traí-lo?
Uma coisa era certa: ela não partiria. Havia perguntas demais sem respostas, e
Ryan precisava delas. Por que morava ali, naquele lugar decadente, com um emprego no
qual não ganhava o suficiente nem para se alimentar? O que diabos faria quando o bebê
chegasse? Fosse ou não o bebê dele, não podia se afastar agora. Não quando ela havia
significado tanto para ele. Kelly não cuidava de si mesma. Ele sempre tomara conta dela
no passado e faria aquilo de novo. Gostasse ela ou não.
Kelly saiu pelos fundos do edifício. Não voltou para o trabalho, embora devesse. A
perda do pagamento de um dia não era grande coisa, mas a das gorjetas sim, e faria um
grande rombo em suas escassas economias. Precisava de tempo para pensar. E Ryan
apenas iria à lanchonete e forçaria mais um confronto.
A chuva havia parado, mas o céu ainda estava cinzento, mais nuvens se
aproximando, um sinal evidente de que voltaria a chover. Lágrimas lhe enchiam os olhos
e ameaçavam correr, muito parecidas com aquelas nuvens sinistras, mas respirou fundo,
determinada a não permitir que aquele encontro com Ryan a destruísse. O pequeno
playground perto do seu apartamento estava abandonado. Não havia crianças brincando.
Os balanços vazios se moviam com a brisa, e o carrossel estalava enquanto rodava
lentamente.
Sentou-se num dos bancos molhados, a mente um caos pelo bombardeio de raiva,
sofrimento e choque. Por que ele viera? Sua gravidez certamente fora uma enorme
surpresa. E o encontro não se tratava de alguma coincidência bizarra.
Pensara muito sobre o relacionamento deles nos últimos meses, quando estava
fazendo o possível para esquecê-lo. E percebeu diversas coisas. A decisão de morar
juntos tinha sido precipitada demais. Desde que o conhecera, quando lhe servira um café
na cafeteria onde trabalhava, até o noivado apressado, não se dera tempo para analisar
os fatos. Oh, tivera muita certeza sobre si mesma. Apaixonara-se por ele à primeira vista.
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E permitira que a apressasse para um relacionamento sem questionar o compromisso
dele com ela. Seu amor por ela. Os obstáculos então pareceram insignificantes. Ele era
diferente demais de seu mundo, mas ingenuamente acreditara que o amor tudo
conquistava e que não importava se a família dele ou seus amigos a desaprovavam.
Provaria seu próprio valor. E se adaptaria ao estilo de vida dele.
Não, não tinha seu dinheiro, suas conexões, sua criação ou sua herança familiar e
financeira. Mas quem se importava com aquelas coisas no mundo atual? Fora estúpida.
Adiara sua formatura temporariamente porque estava consumida pela noção de ser a
namorada perfeita, a noiva perfeita e, eventualmente, a esposa perfeita de Ryan
Beardsley. Permitira que ele a vestisse com as roupas mais finas. Mudara-se para o
apartamento dele. Sofrera agonias para dizer as coisas certas e ser o complemento ideal
para a vida dele.
E nunca tivera uma chance.
Qualquer um que pensasse que o amor era o remédio para todos os males era um
idiota desinformado. Talvez, se ele a tivesse amado. Mas como poderia tê-la amado
quando se voltara contra ela na primeira dificuldade?
Kelly fechou os olhos para impedir que as lágrimas indesejadas corressem. Fugira
de Nova York e terminara ali em Houston. Construíra uma nova vida para si mesma. Não
era a melhor das vidas, mas era dela.
Soubera que só poderia voltar à faculdade depois que seu bebê nascesse, então
trabalhara e economizara cada centavo para aquele momento. Vivera no apartamento
mais barato que conseguira encontrar e guardara praticamente tudo o que ganhava para
quando a criança chegasse. Então iria se mudar para um lugar melhor, mais seguro, para
criar seu bebê e fazer os dois semestres que faltavam para se formar, conseguir um
emprego melhor e uma vida melhor para si mesma e seu bebê precioso. Sem Ryan
Beardsley, seu dinheiro sujo, sua família horrível e toda aquela desconfiança e traição a
que havia sido submetida.
Agora. Agora o quê? Por que Ryan estava ali? E como a revelação de sua gravidez
afetaria seu futuro? Seus planos? Sua determinação de nunca mais se permitir viver uma
situação em que se arriscava a sofrer tanta dor e devastação? Passou a mão pela testa,
desejando que a dor fosse embora. Estava cansada, exausta, e não sabia como se
defender de nenhum ataque que Ryan pudesse estar preparando. Os dedos endureceram
e a raiva penetrou o nevoeiro que lhe envolvia a mente.
Por que estava se escondendo, afinal, sentada num banco molhado de um parque
vazio? Não fizera nada de errado. Ryan não poderia obrigá-la a fazer nada que não
quisesse; teria que deixar seu apartamento ou o denunciaria à polícia e conseguiria uma
ordem de restrição contra ele. Não lhe devia mais nada.
Inspirou com força para acalmar os nervos abalados. Sim, ele a pegara de guarda
baixa. Não se preparara para vê-lo de novo. Mas aquilo não significava que o deixaria
passar por cima dela como um trator. Mesmo enquanto tomava a decisão, um medo
nervoso lhe apertou o peito e subiu para a garganta num nó. O futuro que havia planejado
agora parecia em perigo com o reaparecimento de Ryan em sua vida. Se ele se
convencesse de que era o filho dele que ela carregava, jamais se afastaria. O problema
era que, mesmo se conseguisse convencê-lo de que não era o pai do bebê, ele apenas
presumiria que era de Jarrod. O que ainda o tornaria membro da família Beardsley e um
sério obstáculo para seu futuro.
— Uma coisa de cada vez, Kelly — avisou a si mesma.
A primeira era expulsar Ryan de seu apartamento para que pudesse pesar suas
opções. Podia não ter o dinheiro dele nem suas conexões, mas isso não significava que
iria se deixar derrotar diante do primeiro sinal de adversidade. Uma gota de chuva pingou
em sua testa, e Kelly suspirou. Já havia recomeçado a chover e, se não voltasse, seria
apanhada na tempestade que estava chegando.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Enquanto andava penosamente na direção do seu edifício, tentou se animar com a
ideia de que ele certamente já havia partido. Que desistira e fora embora, decidindo que
ela não valia o esforço. Rosnou baixinho ao pensamento. Ele já havia feito aquilo. Não era
exagero imaginar que apenas a afastaria de sua vida de novo.
Quando subiu a escada para o apartamento, estava ensopada. Estremeceu
enquanto abria a porta. Não ficou surpreendida quando viu Ryan andando pela sala de
estar. Enrijeceu os ombros quando ele se virou.
— Onde você estava? — exigiu ele.
— Não é da sua conta.
— O diabo que não é! Você não voltou para o trabalho. Está chovendo muito e está
ensopada. Enlouqueceu?!
Ela riu.
— Já fui louca, mas não mais. Vá embora, Ryan. Este apartamento é meu. Você não
tem direitos aqui. Não pode me amedrontar e fazer as coisas do seu jeito. Vou denunciálo e pedir uma ordem de restrição contra você, se precisar.
A testa dele se enrugou, e ele a olhou, surpreendido.
— Acha que eu machucaria você?
— Fisicamente? Não.
Ele praguejou e passou a mãos pelo cabelo, agitado.
— Você precisa comer e não há nada aqui. Como está cuidando de si mesma e do
bebê quando fica em pé o dia todo?
— Ora, ora, até parece que se importa — zombou. — Mas nós dois sabemos que
isso não é verdade. Não se preocupe comigo, Ryan. Cuido muito bem de mim mesma, e
o bebê está ótimo.
Ele se aproximou, os olhos brilhando.
— Oh, eu me importo, Kelly, não pode negar. Não fui eu que joguei fora o que
tínhamos, foi você. Não eu.
Ela ergueu uma das mãos e recuou depressa. Os dedos dela tremiam, e se sentiu
perigosamente tonta.
— Vá embora.
As narinas dele bateram, e os lábios se curvaram como se estivesse prestes a
atacar de novo. Então deu um passo para trás e soltou a respiração.
— Eu vou, mas estarei de volta às 9h.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Você tem hora marcada com um médico.
Estivera ocupado, pensou Kelly, e trabalhara depressa. Mas então, para um homem
como Ryan, tudo o que precisava fazer era pegar o telefone. Muita gente cumpria suas
ordens. Ela balançou a cabeça, enojada.
— Talvez não tenha entendido, Ryan. Não vou a lugar nenhum com você. Não
somos nada um para o outro. Você não é responsável por mim. Tenho meu próprio
médico, não vai me arrastar para outro.
— E qual foi a última vez que se consultou com esse médico? Está com aparência
péssima, Kelly. Não vem se cuidando. Isso não pode ser bom para você ou para o bebê.
— Não finja que se importa. Apenas faça um favor a nós dois e vá embora.
Ele pareceu querer discutir, mas novamente engoliu as palavras. Foi até a porta,
então se virou para ela.
— Às 9h. Se precisar, eu a carregarei.
— Sim, e talvez o inferno congele — resmungou quando ele saiu e bateu a porta.
Kelly acordou cedo, como de hábito, mas um olhar ao relógio lhe disse que estava
15 minutos atrasada. Precisava correr para chegar à lanchonete às 6h. Depois de uma
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
chuveirada rápida, vestiu-se e, quando abriu a porta para sair, segurou a respiração,
quase esperando ver Ryan no corredor. Suspirou. Ele estava mexendo com sua cabeça,
tornando-a uma paranóica. Qualquer esperança de que superara o que sentia por ele
desaparecera no momento em que o vira.
Entrou na lanchonete alguns minutos depois e viu que Nina já atendia aos clientes
do desjejum Kelly colocou o avental, pegou seu bloco de pedidos e foi em direção à sua
seção de mesas. Durante a primeira hora, tentou afastar os pensamentos sobre Ryan e o
medo de que ele aparecesse de novo. Infelizmente, ficou logo evidente que fracassara;
anotou errado três pedidos, derramou café num cliente e estava na cozinha se fazendo
um sermão severo quando Ralph entrou, o rosto fechado.
— O que está fazendo aqui?
— Trabalho aqui, lembra?
— Não mais. Pode cair fora.
Kelly ficou pálida e o pânico a tomou.
— Está me demitindo?
— Você saiu ontem no horário mais movimentado. Sem uma palavra, sem nada.
Não voltou. O que esperava? E agora entra aqui e tenho uma lanchonete cheia de
fregueses irritados porque não consegue se concentrar no trabalho.
Ela respirou fundo e tentou se acalmar.
— Ralph, preciso deste emprego. Ontem. Ontem fiquei doente, certo? Não vai
acontecer de novo.
— Tem toda a razão, não vai. Nunca deveria ter contratado você. Se não precisasse
tanto de uma garçonete naquele momento, jamais teria aceitado uma mulher grávida.
Oh, Deus, não queria implorar, mas que escolha tinha? Não conseguiria outro
emprego naquele estágio avançado da gravidez. Precisava apenas de mais alguns
poucos meses, até que o bebê nascesse. Então já teria dinheiro suficiente para parar de
trabalhar e cuidar da criança. Teria dinheiro para terminar a faculdade.
— Por favor — engasgou ao implorar. — Dê-me outra oportunidade. Nunca faltei ao
trabalho por motivo nenhum. Preciso deste emprego.
Ele tirou um envelope do bolso da camisa e o estendeu para ela.
— Aqui está seu último cheque, com o desconto das horas em que você
desapareceu ontem.
Ela o pegou com a mão trêmula e ele se virou e saiu da cozinha.
Raiva e frustração a dominaram Ryan continuava a arruinar sua vida meses depois
da separação. Arrancou o avental, jogou-o de qualquer jeito em direção ao gancho e saiu
pela porta dos fundos, entrecerrando os olhos contra a luz forte do sol.
Enquanto caminhava de volta ao apartamento, olhou para o envelope. O desespero
a tomou e tornou cada passo um peso insuportável. Seu maldito orgulho. Devia ter
descontado o cheque que Ryan lhe dera. Para o inferno com ele e suas acusações
nojentas. Aquele cheque representava uma forma de ela terminar a faculdade e sustentar
seu bebê.
Tivera todos os motivos para recusar aquele dinheiro. Para rasgar o cheque em mil
pedacinhos e jogá-los no rosto de Ryan. Talvez por isso o guardara por tanto tempo, uma
parte dela queria a satisfação de atirar de volta a ele aquele pedaço insultuoso de papel.
Tinha sido importante para ela mostrar a ele que não era uma prostituta, mas aonde
aquilo a levara? A um emprego sem futuro que lhe sugava a vida diariamente e um
apartamento miserável para onde jamais iria querer levar o filho. Chega de orgulho! Ryan
Beardsley podia ir para o inferno. Descontaria aquele cheque.

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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks

CAPÍTULO TRÊS
Ryan subiu a escada para o apartamento de Kelly, uma expressão de desgosto ao
observar o corrimão quebrado e os degraus soltos. Era de admirar que ela ainda não
tivesse levado um tombo ali. Não esperava encontrá-la em casa, mas parara na
lanchonete, para o caso de ela ter ido trabalhar, apenas para ouvir de um homem malhumorado que ela não estava lá.
Aborreceu-se de novo ao ver que a porta do apartamento não estava trancada.
Abriu-a e encontrou Kelly de joelhos, debruçada e procurando alguma coisa sob o velho
sofá. Fez um som de frustração, então se levantou.
— O que está fazendo?
Ela gritou e se virou rápido.
— Vá embora!
Ele ergueu uma das mãos num gesto tranquilizador.
— Lamento tê-la assustado. Sua porta não estava trancada.
— E achou que podia apenas entrar? Não aprendeu a bater antes? Entenda uma
coisa, Ryan, não quero você aqui. — Foi para a cozinha e começou a abrir e fechar os
armários, evidentemente procurando algo.
Ryan suspirou. Não esperava que fosse mais cordata, mas depois do choque inicial
podia estar um pouco menos zangada. Quando ela se ajoelhou de novo no assoalho, uma
onda de irritação o tomou. Atravessou a sala e se debruçou para ajudá-la a se levantar.
— O que está procurando?
Ela puxou a mão para evitar que a tocasse e tirou o cabelo dos olhos.
— O cheque. Estou procurando o maldito cheque!
— Que cheque?
— O que você me deu.
Ele levou a mão ao bolso e tirou um pedaço de papel.
— Este cheque?
Ela pulou para pegá-lo, mas Ryan o ergueu e o deixou fora de alcance.
— Sim! Mudei de ideia. Vou descontá-lo.
Ele balançou a cabeça, confuso.
— Sente-se, Kelly, antes que caia. E me diga o que está acontecendo. Esperou tanto
tempo, jogou o cheque na minha cara e me mandou levar o dinheiro para o inferno, e
agora me diz que mudou de ideia?
Ela se deixou cair sobre uma das duas cadeiras pequenas junto à mesa da cozinha
e mergulhou o rosto nas mãos. E, para seu desalento, Ryan viu os ombros dela
balançarem e ouviu os soluços baixos que lhe escapavam. Por um momento, ele apenas
ficou lá, sem saber o que fazer. Não suportava vê-la chorar. Uma sensação
desconfortável lhe tomou o peito e ele caiu sobre um dos joelhos para gentilmente lhe tirar
as mãos do rosto. Ela afastou o olhar, embaraçada por ele testemunhar seu desespero.
— O que está errado, Kelly?
— Perdi meu emprego. — Soluçou. — Por sua causa!
— Por minha causa? O que eu fiz?
Ela ergueu a cabeça, os olhos atirando lanças de fogo.
— Sua linha padrão: “O que foi que eu fiz?” Naturalmente não fez nada de errado.
Tenho certeza de que a culpa é toda minha, como tudo o mais que não deu certo no
nosso relacionamento. Apenas me dê o cheque e vá embora. Nunca mais precisará me
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
ver ou se preocupar comigo.
— Espera mesmo que eu me afaste agora? — Guardou o cheque no bolso. —
Temos coisas demais para esclarecer, Kelly. Não vou a lugar nenhum, nem você. A
primeira coisa que vamos fazer é uma consulta com um médico para um exame decente
completo. Você não parece nada bem, e quero saber o que está errado.
Ela se levantou, o olhar no dele.
— Não vou a lugar nenhum com você. Se não irá me devolver o cheque, então saia.
Não temos mais nada a discutir. Nunca mais.
— Falaremos sobre o cheque depois da consulta médica.
Ela o observou com aversão.
— Agora é chantagem, Ryan?
— Se quer chamar assim.. Na verdade, não dou a mínima. Você vai ao médico
comigo. Se ele lhe der um atestado de saúde perfeita, então lhe entrego o cheque e vou
embora.
Ela apertou os olhos com suspeita.
— Apenas assim?
Ele acenou sem se dar ao trabalho de lhe dizer que não havia um médico no mundo
que pudesse lhe dar um atestado de saúde. Ela estava horrível, pálida e magra demais.
Kelly mordeu o lábio inferior por um longo tempo. Finalmente fechou os olhos e
deixou escapar um longo suspiro.
— Está bem, Ryan. Vou ao médico com você. Depois que ele disser que estou
perfeitamente bem, nunca mais quero tornar a vê-lo.
— Se ele disser que você está bem.
Ela se sentou de novo. Estava evidentemente exausta. Ryan conteve um palavrão.
Estaria cega ou apenas em negação total? Kelly precisava de alguém que cuidasse dela.
Que garantisse que comeria três boas refeições por dia. Alguém para obrigá-la a erguer
os pés e descansar. Olhou as horas no relógio de pulso.
— Precisamos sair, sua consulta é dentro de meia hora.
Uma expressão de derrota surgiu no rosto dela, mas então endureceu e se levantou
de novo. Recuperou a bolsa que deixara sobre o sofá e se dirigiu para a porta sem uma
palavra.
Kelly olhou sem ver pela janela do carro enquanto Ryan dirigia em meio ao trânsito
pesado. Ela estava mentalmente exausta pelo confronto com ele. Queria apenas que ele
fosse embora. Não podia nem mesmo olhar para Ryan sem que toda a dor do passado a
tomasse e lhe revirasse as entranhas.
Ele estacionou na garagem de clínica médica no centro da cidade e a levou para
dentro do edifício moderno. Ao chegarem ao quarto andar, ela ficou parada e entorpecida
enquanto Ryan conversava com a recepcionista. Depois de preencher o questionário
sobre seu histórico médico, ela foi levada ao banheiro para a coleta de amostra de urina.
Quando saiu, uma enfermeira a levou para uma das salas de exame, onde encontrou
Ryan esperando por ela. Rosnou para ele, preparada para mandar que saísse, quando
ele ergueu uma das mãos, a expressão tão determinada quanto a dela.
— Vou ouvir diretamente do médico como você está.
Os olhos dele a desafiavam a recusar. Ela engoliu, nervosa, sabendo que ele faria
uma cena se insistisse. Então apenas lhe deu as costas e se sentou na mesa de exame.
Apenas precisava passar por aquilo, esperar que o médico dissesse que estava tudo
bem, então ficaria livre dele.
Um médico jovem entrou, sorriu para ela e lhe pediu que se reclinasse. Depois de
medi-la e ouvir o coração do bebê, foi à sala ao lado e voltou empurrando uma pequena
máquina; então aplicou um gel frio no ventre dela. Kelly ergueu a cabeça.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— O que está fazendo?
— Pensei que gostaria de dar uma olhada no rapazinho ou na mocinha. Farei um
ultrassom para verificar datas e medidas e ter certeza de que tudo está bem. Certo?
Ela acenou, e o médico começou a mover o bastão sobre o ventre arredondado.
Então parou e fez um gesto em direção à pequena tela.
— Lá está a cabeça.
Ryan se aproximou do monitor; ela virou o pescoço para ver em torno dele. Ryan
olhou para trás, então rapidamente passou uma das mãos na nuca de Kelly e lhe ergueu
a cabeça para que ela pudesse ver. Lágrimas lhe encheram os olhos e sua boca se abriu
num sorriso.
— Ela é linda!
— Sim, é. — A voz de Ryan era baixa e rouca.
— Ou ele — acrescentou Kelly depressa.
— Gostariam de saber o sexo do bebê?— perguntou o médico.
— Não. não, acho que não — disse Kelly. — Quero que seja uma surpresa.
O médico levou mais alguns minutos fazendo o exame, então lhe limpou o ventre.
Entregou a ela uma cópia impressa do perfil do bebê e voltou a atenção para as fichas em
mãos. Depois de fazer algumas anotações, virou o olhar para ela.
— Estou preocupado com você.
Ela franziu a testa e tentou se sentar.
Rapidamente Ryan a ajudou, e Kelly voltou um olhar interrogador para o médico.
— Sua pressão sanguínea está alta e há traços de proteína na urina. Está com os
pés e as mãos muito inchados e, pelo seu peso, aposto que não está se alimentando
bem. Tem todos os sinais de pré-eclâmpsia, e isso pode ter graves consequências.
Kelly o observou em silêncio atônito.
Ryan olhou para o médico, a testa franzida.
— O que é pré-eclâmpsia?
— É uma condição relacionada com a pressão sanguínea alta e o aumento de
proteína na urina. Geralmente se manifesta depois da vigésima semana de gravidez.
Pode se agravar e causar convulsões, quando então se torna eclâmpsia. — O médico
voltou o olhar severo para Kelly. — Você pode precisar ser internada e ficar num hospital
até o parto e, a menos que você e seu marido me prometam que fará repouso e cuidará
melhor de si mesma, será exatamente isso que farei. Internarei você num hospital.
— Ele não é meu... — começou Kelly.
— Considere feito — interrompeu Ryan.— Ela nem mesmo erguerá mais um dedo.
Tem a minha palavra.
— Mas...
— Sem mas — afirmou o médico. — Acho que ainda não entendeu bem a gravidade
de sua situação. Se a condição progredir, pode significar sua morte. A eclâmpsia é a
segunda causa de morte de parturientes nos Estados Unidos e a principal causa de
complicações com o feto. Isso é muito sério, e precisa tomar todas as precauções
necessárias para impedir que sua condição se agrave.
Ryan empalideceu e ela também.
— Posso lhe garantir, doutor, que Kelly não fará nada além de descansar e se
alimentar bem de agora em diante. — A expressão e a voz de Ryan eram determinadas.
O médico acenou, aprovando, então lhes apertou as mãos em despedida.
— Gostaria de vê-la de novo dentro de uma semana. E, se o inchaço se agravar ou
ela tiver uma forte dor de cabeça, precisa ir imediatamente para o hospital.
Depois que o médico saiu, Kelly continuou sentada à mesa do exame, atônita com o
diagnóstico. Ryan lhe segurou a mão e a apertou.
— Não quero que se preocupe, Kelly.
Preocupar? Ela quase soltou uma risada histérica. Sua vida era um caos absoluto e
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
não devia se preocupar.
Estava pronta para sair gritando do edifício.
— Vamos — disse ele, a voz calma. — Precisamos sair.
Ela se deixou levar até o carro sem um protesto. Aquilo não podia estar
acontecendo. Ficou em silêncio enquanto Ryan dirigia. Não tinha emprego e agora o
médico dizia que não podia trabalhar. Como iria se manter e cuidar do bebê? Possuía
algumas economias, mas eram destinadas ao nascimento do bebê e ao pagamento da
faculdade. Foi tomada por uma sensação de absoluto desamparo. O som de um celular
tocando a assustou, e viu Ryan atender enquanto dirigia. Prestou mais atenção quando
ouviu o próprio nome.
— Estamos a caminho do apartamento de Kelly para pegar as coisas dela. Compre
passagens de avião de Houston para Nova York e me chame de volta para me dizer o
número do voo e o horário. Então ligue para o consultório do dr. Whitcomb em Hillcrest e
peça a ele para mandar por fax o relatório médico de Kelly para o dr. Bryant em Nova
York. Dê-me cobertura no trabalho e peça a Linda para verificar todos os contratos que
precisam da minha assinatura. Estarei de volta ao escritório dentro de alguns dias.
Terminou a conversa abruptamente e guardou o celular.
— Do que estava falando? — Kelly se sentia perplexa.
Ele lhe lançou um olhar rápido, uma expressão severa lhe endurecendo o rosto.
— Vou levar você para casa.
— Sobre o meu cadáver — rosnou.
— Você vai. — O tom não admitia discussão. — Precisa que alguém tome conta de
você, já que se recusa a fazer isso sozinha. Quer colocar a saúde e a vida do bebê em
perigo? Dê-me outra solução, Kelly. Prove que posso deixá-la aqui sabendo que estará
bem.
Ela o olhou sem expressão.
— Não compreende que não quero nada com você?
— Oh, sim, deixou isso muito claro quando dormiu com meu irmão. Mas o fato é que
provavelmente está carregando meu filho. ou meu sobrinho ou sobrinha, e, qualquer que
seja o caso, não vou desaparecer até saber que vocês dois estão em segurança. Irá para
Nova York comigo mesmo se eu tiver que carregá-la para o avião.
— Não é seu filho.
— Então de quem é?
— Não é da sua conta.
Houve um longo silêncio.
— Você vai comigo. Não estou fazendo isso apenas pelo bebê que pode ser meu ou
não.
— Então, por quê?
Ele a ignorou e ficou com o olhar fixo à frente, os dedos apertados no volante.
Quando chegaram ao edifício dela, Kelly saiu do carro antes que ele pudesse ajudá-la e
subiu correndo a escada. Kelly podia ouvi-lo atrás dela e, quando tentou fechar a porta,
ele a impediu e entrou.
— Precisamos conversar, Kelly.
Ela se virou num movimento abrupto.
— Sim, precisamos. Você disse que falaríamos sobre o cheque. Jogou-o em mim
quando me chamou de prostituta. Agora eu o quero, e não ligo a mínima sobre o que
pensa de mim por aceitá-lo.
— Não quero mais lhe dar o cheque.
— Oh, maravilha!
— Quero que volte para Nova York comigo.
— Está louco. Por que eu iria a qualquer lugar com você?
— Porque precisa de mim.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
A dor lhe comprimiu o peito e a impediu de respirar.
— Precisei de você antes. — Deu-lhe as costas e levou as mãos ao ventre, tentando
não entrar em pânico.
Atrás dela, Ryan ficou em silêncio. E, quando falou, havia um tom estranho e tenso
em sua voz:
— Vou sair para comprar seus remédios e pegar alguma coisa para comermos.
Quando voltar, quero que esteja com a mala pronta.
Os passos dele eram pesados ao se dirigirem para a porta. Quando ele saiu, Kelly
caiu no sofá velho e massageou a testa. Dois dias atrás, tinha um plano.
Um bom plano. Agora não tinha emprego, sua saúde estava péssima e seu ex-noivo
a pressionava a voltar para Nova York com ele.
Não queria, mas percebeu que precisava ligar para a mãe. Havia jurado nunca lhe
pedir nada, mas no momento aquele parecia o menor de dois males. Pegou o telefone e
ligou para o último número que tinha da mãe. Era muito possível que Deidre não morasse
mais na Flórida.
Deidre descartara Kelly no minuto em que a filha se formara no ensino médio e
praticamente a expulsara de casa para que o namorado mais recente se mudasse.
Dissera a Kelly que cumprira seu dever e dedicara 18 de seus melhores anos — anos que
jamais recuperaria — criando uma filha que jamais quisera. Boa sorte, vejo você algum
dia, não me peça mais nada.
Kelly estava prestes a desligar quando ouviu a voz de Deidre.
— Mãe?
Houve uma longa pausa.
— Kelly? É você?
— Sim, mãe. Escute, preciso da sua ajuda. Preciso de um lugar onde ficar. Estou.
grávida.
Houve uma pausa ainda maior.
— Onde está aquele seu namorado rico?
— Não estou mais com ele. Moro em Houston agora. Perdi meu emprego e não
estou bem. O médico está preocupado com o bebê. Preciso apenas de um lugar onde
ficar por pouco tempo, até me recuperar.
A mãe suspirou.
— Não posso ajudá-la, Kelly. Richard e eu estamos muito ocupados e não temos
espaço para você.
A dor lhe comprimiu o coração. Desligou o telefone sem dizer mais nada. O que
havia a dizer?
Kelly passou a mão sobre o ventre.
— Amo você — sussurrou. — Jamais lamentarei um único segundo que passar com
você.
Recostou-se no sofá e olhou para o teto, odiando a sensação de desamparo.
Fechou os olhos em resignação cansada. Estava exausta. No minuto seguinte, sentiu-se
sacudida de leve. Abriu os olhos e viu Ryan em pé diante dela, um prato e um copo de
água nas mãos.
— Trouxe comida tailandesa.
A favorita dela. Kelly ficou surpreendida por ele se lembrar. Esforçou-se para se
sentar e pegar o prato e o copo das mãos dele.
Ele levou uma cadeira da cozinha para a sala e se sentou diante dela enquanto Kelly
comia. O olhar fixo nela a deixava desconfortável, assim focou a atenção no alimento,
sem erguer os olhos.
— Não adianta me ignorar.
Ela parou de comer e olhou para ele.
— O que quer, Ryan? Ainda não entendo o motivo por que está aqui. Ou por que
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
quer que eu volte para Nova York com você. Ou por que se importa, ponto. Você me disse
claramente que me queria fora de sua vida.
— Você está grávida. Precisa de ajuda. Não é o bastante?
— Não, não é!
— Vamos dizer assim: você e eu temos que esclarecer muita coisa, entre elas se
está ou não grávida do meu filho. Precisa da ajuda que posso lhe dar. Precisa que alguém
tome conta de você. Precisa de cuidados médicos especiais. Posso lhe dar tudo isso.
Ela mergulhou uma das mãos no cabelo e se reclinou no sofá. Imediatamente ele
deixou a cadeira e se ajoelhou diante dela.
— Venha comigo, Kelly. Sabe que precisamos esclarecer as coisas entre nós. E
você tem de pensar no bebê.
Ela ergueu a mão, furiosa por ele tentar manipulá-la com a culpa. Mas ele lhe
segurou a mão e pressionou ainda mais:
— Você não pode trabalhar. O médico disse que tem que repousar ou colocará em
risco a saúde do bebê e a sua. Se não pode aceitar minha ajuda por você mesma, pelo
menos aceite pelo bem do bebê. Ou seu orgulho é mais importante do que a criança?
— E o que vamos fazer quando chegarmos a Nova York, Ryan?
— Você vai repousar e iremos conversar sobre nosso futuro.
O estômago de Kelly se apertou. O futuro deles. Seria uma idiota se concordasse.
Seria uma idiota se não concordasse. Estava disposta a engolir o orgulho e descontar
aquele maldito cheque. Não podia aceitar a ajuda dele para seu bebê? Para o bebê
deles?
— Kelly?
— Eu vou. — A voz era baixa e resignada.
O triunfo brilhou nos olhos dele.
— Então vamos fazer as malas e sair daqui.

CAPÍTULO QUATRO

Quando Kelly acordou na manhã seguinte, lutou para entender onde estava. Então
lembrou. Em Nova York. com Ryan.
Em poucas horas, Ryan a havia ajudado a fazer a mala e a levado para o aeroporto.
Desembarcaram no LaGuardia quase à meia-noite e logo estavam num carro que os
esperava. Quando chegaram ao apartamento dele, Kelly estava exausta, então apenas
pegara a mala e se dirigira para o quarto de hóspedes. A dolorosa familiaridade do
apartamento, que costumava ser a casa dela, quase a aniquilou. Até o cheiro era o
mesmo, uma mistura de couro e masculinidade crua. Jamais tentara mudar aquilo.
Lembrava-a demais de Ryan e não quisera removê-lo.
Mais abaixo, no corredor, ficava o quarto onde ela e Ryan haviam feito amor vezes
sem conta. Tinha sido lá que seu bebê fora concebido e lá que sua vida mudara de forma
irrevogável. Mais uma vez se lembrou do quanto fora idiota por voltar.
Mas agora se sentia resignada com seu destino. Depois de um banho de chuveiro,
vestiu-se e foi até a sala de estar, onde Ryan já trabalhava num laptop. Ergueu os olhos
quando a ouviu entrar.
— O desjejum está pronto, vamos comer.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Sem dizer uma palavra, ela o seguiu até a cozinha, onde uma mesa estava posta
para duas pessoas. Ele serviu dois pratos com ovos, presunto e torrada. Quando ela se
sentou, foi obrigada a admitir que se sentia melhor do que em semanas. Certamente
estava mais descansada.
— Como se sente?
— Bem.
Seu apetite estava voltando, e se concentrou na comida deliciosa. Tudo aquilo era
tão estranho. A polidez excessiva. O aconchegante desjejum para dois. Era tão
desconfortável que gostaria de voltar para o quarto e se esconder na cama. Ryan rompeu
o silêncio depois de um longo momento:
— Tomei providências para trabalhar no apartamento por enquanto.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Por quê?
— Acho que é evidente.
— Isso não vai funcionar, Ryan. Não posso ficar aqui com você me vigiando o tempo
todo. Volte para o trabalho. Faça o que quer que costuma fazer e apenas me deixe em
paz.
Ryan se levantou e saiu sem dizer mais nada.
Ela olhou para o prato, furiosa por ele agir como uma vítima. Como se ela fosse
alguma cretina horrível e ingrata. A raiva e a tristeza lhe formaram um nó na garganta.
Como podia superar o que ele havia feito com ela? Talvez ele estivesse determinado a
não perdoar seus supostos pecados, mas Kelly era a inocente em toda aquela confusão
sórdida. Ryan lhe dera as costas e parecia não querer admitir o erro daquele pequeno e
crucial gesto. Brincou com o resto do alimento no prato até a inquietação a obrigar a se
levantar. Voltou à sala de estar e parou diante da grande janela que oferecia uma vista
espetacular de Manhattan.
— Não devia estar em pé. — Ryan estava atrás dela.
Kelly suspirou e se virou, chocada ao vê-lo usando apenas uma toalha nos quadris.
Virou-se de novo para a janela, a imagem lhe queimando a mente. Os músculos
poderosos do peito amplo se moviam, e o abdome parecia esculpido como uma linda obra
de arte. Ela costumava passar horas explorando as curvas e reentrâncias do corpo dele.
— Desculpe se a deixei constrangida.— A voz era baixa. — Acho que não pensei no
assunto, tendo em vista nosso antigo relacionamento.
Ela teve a vontade ridícula de rir. Constrangê-la? Seu único constrangimento era
com a forma como sua mente se voltava para baixo daquela toalha. E, em sua arrogância,
ele presumiria — considerando a “natureza de seu relacionamento” — que poderia andar
nu pelo apartamento. Kelly endureceu os ombros, virou-se de novo e olhou para ele com
frieza.
— Se acha que porque já fomos amantes pode recomeçar de onde parou, está
muito enganado.
Ele piscou, surpreendido, então a raiva o dominou.
— Deus, Kelly! Acha que sou tão canalha a ponto de tentar forçá-la a um
relacionamento sexual quando está grávida e com a saúde frágil?
— Você não quer saber a resposta a essa pergunta.
— O que a faz pensar que eu gostaria de provar os restos do meu irmão?
— Bem, já que seu irmão não se importou, presumi que fosse uma característica de
família.
Os olhos azuis se tornaram tiras finas de gelo e o queixo cerrou, um músculo
pulsando. Então ele se virou e desapareceu no quarto.
Kelly suspirou e mergulhou numa poltrona. Jamais saberia que demônio a levara a
lançar mais combustível nas chamas. A necessidade de se defender há muito
desaparecera. Ele devia ter acreditado nela então. Não se importava com o que
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
acreditava agora. O anseio pela proteção dele, por seu apoio incondicional, sumiu quando
percebeu que nunca tivera seu amor ou sua confiança. Deus, o que fazia ali?
Inquieta e com o coração pesado, voltou para a cozinha e verificou o conteúdo dos
armários e da geladeira. Decidiu que tinha todos os ingredientes para um de seus pratos
favoritos e começou a espalhá-los pela bancada. Pelo menos teria algo a fazer e cuidaria
do almoço. Sempre adorara cozinhar para Ryan quando viviam juntos.
— O que diabos pensa que está fazendo? — Ryan se materializou do nada e lhe
tomou a panela que segurava. Afastou-a com firmeza da bancada e a levou de volta à
sala de estar. — Sente-se — ordenou quando chegaram ao sofá. Ergueu-lhe os pés para
a mesinha de centro e colocou uma almofada sob eles. Então se afastou, a expressão
calma. — Talvez não tenha compreendido as ordens do médico. Você tem que descansar.
Ficar com os pés para cima.— Enunciou cada palavra em staccato, como se estivesse
falando com uma imbecil.
Bem, aquilo não era exatamente mentira. Ela era a maior imbecil do mundo por se
deixar apanhar naquela armadilha. Mas era hora de esclarecer as coisas.
— Ryan, precisamos conversar.
Ele pareceu surpreendido com a mudança em Kelly, mas se sentou diante dela.
— Certo, fale.
— Quero saber por que foi a Houston.— Manteve as emoções sob controle
enquanto esperava a resposta.
Quando ele nada disse, ela continuou:
— E como soube onde me encontrar?
— Contratei um detetive — disse finalmente.
Ela ficou perplexa.
— Por quê? Para me acusar de novo de ser uma prostituta? Para transformar minha
vida num caos? Não entendo, Ryan. Você me odeia. Sei o que pensa sobre mim. Deixou
muito claro quando me expulsou de sua vida. Por que tentaria desenterrar o passado?
— Maldição, Kelly! Você desapareceu sem uma palavra a ninguém. Não descontou
o cheque. Pensei em você sozinha, ferida e amedrontada, ou morta.
— Que pena que não estou.
— Não transforme isso em culpa minha. — O controle estava por um fio. — Você
jogou fora tudo o que tínhamos. Você decidiu que eu não era o bastante para você.
Procurei-a porque, não importa o que fez ou o quanto tentei esquecê-la, não podia
suportar o pensamento de você em algum lugar, apavorada e sozinha. — Interrompeu-se
e desviou o olhar. Quando o voltou de novo para ela, os olhos estavam vazios.
— Respondi às suas perguntas, agora quero que responda às minhas.
Então ouviram o som da porta da frente se abrindo e, para o horror de Kelly, viram o
irmão de Ryan, Jarrod, entrando.
— Ei, Ryan, o porteiro me disse que estava de volta. — A voz morreu quando a viu.
— Uh. oi, Kelly.
Ryan viu a expressão de Kelly se tornar glacial. Droga, ela pensaria que ele havia
planejado aquilo. E, embora, sim, os três certamente precisassem esclarecer as coisas, o
momento não era aquele. Ryan levantou-se e se aproximou do irmão.
Ryan levara meses para superar a raiva e o ciúme e conseguir reatar um
relacionamento normal com o irmão mais novo. Antes, Ryan não se importara nem um
pouco com as chegadas e saídas de Jarrod de seu apartamento. Ele tinha uma chave.
Ryan sempre o encorajara a aparecer quando quisesse e gostava de suas visitas.
Mas isso tinha sido antes de Jarrod dormir com Kelly. Antes de as duas pessoas
mais importantes de sua vida o traírem. Quando finalmente conseguiu perdoar Jarrod e
lhe permitir que voltasse para sua vida, pensou que talvez devesse encontrar Kelly e
conhecer seus motivos.
As coisas não eram mais perfeitas entre ele e o irmão. Talvez nunca mais viessem a
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
ser. Mas estavam melhores do que antes, e Jarrod havia começado a aparecer mais,
mesmo se com mais cautela e desconfiança do que no passado.
Agora Ryan havia trazido Kelly de volta e seriam obrigados a enfrentar o confronto
inevitável. Uma parte dele temia aquele momento, mas outra parte sabia que nunca seria
capaz de seguir em frente a menos que a questão fosse completamente esclarecida. Mas
tudo teria que ser feito no momento em que decidisse, e não antes. Ele e Kelly tinham
muito a resolver entre si antes de lidarem com a questão de Jarrod e da infidelidade dela.
— Esta não é uma boa hora, cara.
A inquietação ficou evidente no rosto de Jarrod e, nervoso, olhou para Kelly por
sobre o ombro de Ryan.
— Estou vendo. Voltarei outra hora.
Ryan se virou e viu Kelly estremecer, então os dedos se fecharem em punhos.
Estava pálida como a morte, os olhos enormes e assombrados.
— O que você quer?
— Nada de importante. Apenas passei para dizer alô e lhe dizer que mamãe quer
que jantemos juntos no sábado. Há muito tempo que não o vejo. Sei que anda ocupado,
mas esperava que pudéssemos nos encontrar como nos velhos tempos.
Ryan suspirou. Ele e Jarrod sempre tinham sido muito ligados. Até Kelly. Odiava
aquilo. Odiava que uma mulher se intrometesse entre ele e o irmão que havia
praticamente criado depois da morte do pai.
— Vou ligar para mamãe mais tarde, certo? E logo nos encontraremos. Apenas não
agora.
— Certo, compreendo. Vejo você depois. — Jarrod andou de costas em direção à
porta, e Ryan o seguiu.
Quando segurou a maçaneta para fechar a porta depois de Jarrod sair, o irmão
sussurrou:
— Vai recebê-la de volta depois de tudo o que aconteceu?
— Ela está esperando um bebê. Não acha que pode ser seu?
Jarrod se encolheu e ficou muito pálido.
— Foi isso o que ela lhe disse?
Ryan tentou entender a reação de Jarrod.
— Não, mas você sabe que é possível.
— Não, não pode ser meu.
— Assim você diz.
Jarrod evitou os olhos do irmão.
— Usei proteção. Escute, sinto muito. Sei que é uma péssima situação. Mas o bebê
não pode ser meu.
Ryan o observou caminhar para o elevador, o mesmo desamparo frustrante lhe
apertando a garganta. Fechou a porta com raiva. Raiva de Kelly, raiva de Jarrod e raiva
de si mesmo, tudo de novo. Então o bebê era dele, a menos, certamente ela não tivera
outros parceiros além dele e de Jarrod. Nem mesmo pensaria naquilo.
Quando voltou, não estava preparado para o ódio absoluto e a total repugnância que
viu na expressão de Kelly. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela o prendeu com um
olhar que o congelou.
— Se algum dia ele voltar aqui, vou embora. Não ficarei na mesma sala que ele.
— Sabe que ele vem sempre que quiser.
Os dentes dela estavam cerrados e as articulações dos dedos brancas.
— Não ficarei aqui.
Por que diabos estava com tanta raiva de Jarrod? Se alguém tinha o direito de ficar
zangado era Jarrod, depois que Kelly o acusara de tentar estuprá-la. Nada naquela
situação fazia sentido. E estava cansado de tentar entender.
— Jarrod disse que usou proteção. — Ryan observou a reação dela.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
A dor lhe retorceu as feições. Não a reação que ele tinha imaginado.
— E, é claro, você acreditou nele. — Ela parecia perigosamente perto de chorar.
— Está dizendo que não usou? Ou está garantindo que o bebê é meu? — Ryan não
soubera até aquele instante o quanto queria que o bebê fosse seu.
A máscara indecifrável lhe cobria de novo o rosto.
— Não estou garantindo nada. — O gelo parecia pingar da voz dela.
A frustração o atingiu; ela havia se fechado de novo e nada a faria se abrir para ele.
Quis esmurrar a parede.
— Vou sair e ficar fora algum tempo. Trarei o almoço quando voltar. — Ryan saiu
antes de dizer coisas das quais se arrependeria.
Enquanto descia para a garagem subterrânea onde estacionava seu BMW, o celular
tocou e lhe interrompeu os pensamentos.
— O quê? — resmungou ao atender.
— Ryan? — A voz da mãe lhe penetrou o humor amargo.
— Desculpe, mãe, não tive a intenção de ser rude. — Abriu a porta do carro e se
sentou atrás do volante.
— Ryan, o que está errado?
— Nada, mãe, apenas ocupado demais. O que é?
— Queria convidar você e Jarrod para jantarem comigo amanhã.
Ryan fechou os olhos. Não havia uma forma fácil de dizer aquilo, e a mãe logo
saberia, visto que Jarrod estivera no apartamento. Melhor contar para que ela se
acostumasse com a situação.
— Mãe, quero que saiba. Kelly está comigo e está grávida.
Ouviu uma inspiração profunda, seguida por um silêncio sinistro.
— Compreendo. Acho que convidar Roberta não será uma boa ideia.
Ryan suspirou ao ouvir o tom ríspido da voz da mãe. Roberta Maxwell era a mulher
que sua mãe estivera jogando para ele desde que Kelly desaparecera. Embora a mãe
jamais dissesse claramente, era evidente que não aprovava Kelly. Mas sempre fora
educada, Ryan exigira. Não permitiria que sua família desrespeitasse a mulher que
escolhera para ser sua esposa.
A mãe se mostrara estranhamente calorosa com Ryan depois do que acontecera
entre Jarrod e Kelly. A última coisa que ele queria no momento, porém, era levar Kelly a
um jantar constrangedor, no qual sua mãe teria aquela expressão reprovadora e Jarrod
diria só Deus sabia o quê. Sempre se perguntara o que aconteceria quando o confronto
inevitável com Jarrod acontecesse. Agora sabia, e nada tinha sido como imaginara.
— Acho que teremos que adiar o jantar. Kelly e eu não queremos sair no momento.
Despediu-se e ligou o carro. Precisava de alguma distância. Dirigiu sem destino por
algum tempo e acabou diante do edifício onde tinha seu escritório sem nem mesmo tomar
uma decisão racional. Subiu, cumprimentou Jansen sem responder a sua expressão de
surpresa, já que dissera aquela manhã que não iria ao escritório por alguns dias. Então
fechou a porta, se jogou na poltrona atrás da escrivaninha e a girou para olhar pela janela.
O dia estava frio e cinzento, muito mais adequado a seu humor do que o clima
quente e agradável do Texas. O celular tocou e quase não atendeu. Era Cam, e ele iria
querer saber o que o levara a partir de Moon Island. Ryan combinara de voltar para Nova
York com Cam e Devon, mas viajara às pressas com a mais idiota das justificativas.
Decidiu não adiar o inevitável e atendeu.
— Você e Dev voltaram bem?
— Aí está você. Estive tentando encontrá-lo pelas últimas 24 horas. Para onde você
foi com tanta pressa, afinal?
— Meu detetive ligou. Encontrou Kelly.
Houve um longo silêncio, então ouviu Cam murmurar para alguém Provavelmente
Dev.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— E? — perguntou Cam finalmente.
— Ela estava em Houston. Fui verificar se era ela mesmo.
— E? — repetiu Cam.
— E era. Eu a trouxe de volta para Nova York comigo.
— Você fez o quê? Por que faria isso?
Como precisava desabafar, contou:
— Ela está grávida, Cam.
— Oh, Jesus... Como tantas mulheres grávidas estão aparecendo? Vou lhe fazer a
mesma pergunta que fiz a Rafael quando Bryony surgiu do nada. Como sabe que é seu?
— Não disse que é meu. Disse apenas que está grávida.
— Ahã, e você apenas traz sua ex-noiva de volta a Nova York consigo porque ela
está esperando o bebê de outro homem?
— Não seja um maldito espertinho. O negócio é que o bebê pode ser meu. Ou do
meu irmão. Está entendendo meu problema agora?
— Cara, só posso dizer que não gostaria de estar no seu lugar. O que ela diz sobre
tudo isso?
— Isso é o pior, está furiosa comigo. Age como se eu tivesse cometido o maior dos
erros com ela. Não entendo. Ela não diz de quem é o bebê.
— Já lhe ocorreu que ela talvez não saiba? — O tom de Cam era seco.
Ryan não respondeu, apenas apertou a ponta do nariz e franziu a testa.
— Desculpe, cara, mas isso precisa ser considerado. Se estava dormindo com você
e com seu irmão e mais com quem só Deus sabe, provavelmente não tem ideia de quem
é o pai.
— Deus, pare com isso! Está me dando dor de cabeça. Kelly não é uma prostituta.
— Nunca disse que era.
— Sugeriu.
— Escute, está se irritando com a pessoa errada. Estou apenas perguntando, como
amigo, se perdeu a cabeça. Mas também pensei que estava louco quando contratou um
investigador para encontrá-la. Bem, você conseguiu, agora tem que lidar com o resultado.
Vou lhe dizer exatamente o que disse a Rafael quando enfrentou um problema
semelhante. Chame seu advogado. Mande fazer um teste de paternidade.
— Não quero que chegue a esse ponto— admitiu Ryan. — Droga, apenas quero
saber o que deu errado!
Ryan se calou e balançou a cabeça. Aquela conversa não tinha sentido. Em seus
melhores momentos, Cam era um bastardo incapaz de perdoar. Assim que soubera o que
Kelly havia feito, ele basicamente a considerara carta fora do baralho. Cam podia ser um
canalha durão, mas era um canalha durão leal.
Cam ficou em silêncio por um momento.
— Escute, cara, lamento. Percebo que está todo enrolado. Acho que devia sair
desse buraco onde se meteu, tomar umas bebidas e arranjar umas mulheres, deixar de
lado o celibato em que mergulhou desde que mandou Kelly embora. Mas sei que não vai
fazer nada disso, assim não vou dizer nada.
Ryan riu e balançou a cabeça.
— Dev quer falar com você por um minuto, então espere.
Um segundo depois, Ryan ouviu a voz de Dev:
— Não vou repetir o que Cam lhe disse, apenas que concordo com tudo. O que
queria lhe dizer é que estarei fora do ar por um tempo.
— Oh? Vai fugir com Ashley?
Dev resmungou um palavrão e Ryan deu risada.
— Não, há um problema com a construção e vou passar alguns dias lá. Será mais
rápido do que fazer conferências pelo telefone.
Ryan se recostou na poltrona.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— Quando pretende viajar?
— Depois de amanhã. Cam viajará para o exterior amanhã, e não posso pedir a
Rafe que interrompa sua lua de mel.
— Ah. Então você e Cam ligaram para saber se eu podia ir.
— Bem, sim, mas depois de saber o que está enfrentando, não posso pedir.
Ryan tomou uma decisão:
— Não, eu vou.
— Ei, espere um minuto. Pensei que Kelly estivesse com você, uma Kelly muito
grávida.
— Sim, está. Vou levá-la comigo. Será perfeito. Isso nos dará um tempo longe. E
sozinhos. Poderemos conversar e esclarecer as coisas.
Ryan ouviu Dev suspirar.
— Você a quer de volta? Depois de tudo o que aconteceu?
Ryan olhou para fora da janela.
— Ainda não sei. Preciso de algumas respostas antes de tomar qualquer decisão.
Mas se estiver grávida do meu bebê, não vou deixá-la partir de novo.
— Certo. Mando-lhe um e-mail com todas as informações. Apenas me mantenha
informado se tiver algum problema. Posso chegar lá num instante.
— Tudo certo. Escute, sei que você e Cam acham que estou louco, mas estou
contente por me apoiarem.
A resposta seca de Dev foi imediata:
— Sim, você enlouqueceu. Mas qualquer coisa que o deixe feliz, cara.
Ryan desligou e chamou Jansen. Deu- lhe uma lista de instruções, começando com
a necessidade de contratar um obstetra para Kelly. Ela precisava da autorização de um
médico para viajar, mas se ele achasse que estava tudo bem, Ryan pretendia que
passassem alguns dias sozinhos. E talvez pudesse começar a juntar as peças daquele
quebra-cabeça. Então começou uma lista de compras, ignorando a careta de Jansen.
Kelly precisava de tudo novo, dos pés à cabeça.

CAPÍTULO CINCO

Kelly se sentou no meio da cama, o olhar perdido no espaço. Não podia ficar lá.
Fora uma idiotice pensar que seria possível viver num ambiente em que ficaria exposta a
Jarrod. Mal conseguia se controlar. Estava furiosa consigo mesma por apenas ter ficado
lá, sentada, enquanto o canalha nojento entrava no apartamento com aquele olhar
inocente de perplexidade, mas se sentira paralisada no momento em que o vira abrir a
porta.
Odiava a sensação de desamparo e nunca, nunca mais se permitiria ser tão passiva
de novo. No futuro, se tornasse a encontrar aquele desgraçado, ela o chutaria bem onde
doía, grávida ou não. E então diria a Ryan exatamente o que podia fazer com seu
precioso irmão. Odiava Jarrod com um intensidade que poucas coisas já haviam
despertado. E odiava Ryan por ter lhe dado as costas quando mais precisara dele.
Não, não podia ficar lá. Nem mais um minuto. Obrigou-se a considerar suas opções.
Desta vez, não fugiria num impulso incontrolável, sem se importar para onde iria. Não,
precisaria de um bom plano de ação. Iria para algum lugar tranquilo e seguro, um bom
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
lugar para criar seu bebê.
— Vai partir, não vai?
Ryan estava à porta. Ela se assustou, culpada, e finalmente ergueu os olhos para os
dele. Zangada por se sentir culpada por até mesmo um segundo, endureceu o olhar
enquanto ele a observava.
— Não há motivo nenhum para eu ficar.
— Venha comigo. — Estendeu a mão para ela.
Alguma coisa na voz dele a fez aceitar o convite, e colocou a mão na dele. Ryan a
ergueu da cama e a levou para a sala de estar. Sentou-se no sofá e a fez se sentar ao
lado dele.
— Tenho sido um imbecil, e lamento. Você não está em condições de sofrer tanto
estresse e pressões, e apenas tornei tudo mais grave.
Kelly abriu a boca para falar, e ele colocou um dedo sobre ela.
— Deixe-me terminar. Passei a manhã no escritório e soube que surgiram
problemas num projeto muito importante, problemas que exigem minha atenção e minha
presença imediatas. Quero que vá comigo.
Ela apenas o olhou. Por quê? Não compreendia. Por que torturar os dois? Por que
bater no cachorro morto que era seu relacionamento? Fora ele que terminara tudo.
Julgara-a, condenara-a e a expulsara como se nunca tivesse significado nada para ele.
Kelly abriu a boca para lhe fazer aquelas perguntas, mas ele a silenciou de novo com o
dedo sobre seus lábios.
— Deixe-me cuidar de você, Kelly. Vamos esquecer por enquanto o passado e
pensar apenas no presente.
— Não pode estar falando sério.
— Estou, nunca falei tão sério. Temos muito a esclarecer. Não podemos fazer isso
se não estivermos dispostos a passar algum tempo juntos e conversar.
Se ele apenas a tivesse ouvido antes. Se apenas estivesse disposto a conversar, a
compreender então. Ryan era a única pessoa com quem deveria poder contar, e ele a
olhara através dela com frieza e a chamara de mentirosa. E agora queria fazer as pazes?
Ele lhe tocou o rosto com a ponta dos dedos e ela percebeu, surpreendida, que
tremiam contra sua pele. Os olhos dele imploravam, e Kelly vacilou, indecisa. Deus,
estaria realmente pensando em aceitar aquela farsa? Mesmo enquanto se fazia a
pergunta, já balançava a cabeça em negativa automática. Ele fez parar o movimento
tomando-lhe o rosto entre as mãos e roçando o polegar de leve sobre seus lábios.
— Sem pressão, sem promessas, sem obrigações. Apenas você e eu e uma
semana tranquila na praia. É um começo. É tudo o que estou pedindo. Só aceitarei o que
você estiver disposta a dar.
— Mas o bebê.
— Jamais faria nada para colocar o bebê em risco. Ou você. Terá que consultar um
médico aqui e obter a permissão dele para viajar. Só assim a levarei.
Os olhos dela desceram para as próprias mãos no colo. Era tentador, oh, tão
tentador. Ele estava pedindo, não exigindo, e por um momento ela se viu transportada de
volta ao tempo que haviam passado juntos, ao maravilhosamente terno e amoroso Ryan
de quem era noiva. Poderia deixá-lo de novo depois de passar uma semana com ele?
Porque não havia futuro com um homem que havia descartado tão friamente o
relacionamento deles com base apenas na palavra de outro homem O silêncio se
estendeu enquanto tentava tomar a decisão. Sim, faria aquilo. Não sabia bem o motivo.
Nada podia resultar daquela semana, mas queria aquele tempo com ele antes de deixá-lo
para seguir com sua vida. Acenou, aceitando, e o alívio brilhou nos olhos de Ryan. Era tão
fácil fingir que se importava. Mas com certeza não a havia amado. Se a amasse, ainda
estariam juntos, esperando o nascimento do primeiro filho.
— Precisamos ir ao médico esta tarde para um check-up. Se ele concordar,
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
pegamos o avião amanhã, assim é importante que descanse bem hoje e esta noite.
Quando estivermos lá, a coisa mais pesada que fará será andar do quarto do hotel para a
praia.
— Quero quartos separados.
— Reservei uma suíte com dois quartos.
Ela não gostou, mas não discutiu.
— Não vai se arrepender, Kell. — Ryan usou o apelido carinhoso que só ele sabia.
E ela teve o impulso estranho de chorar. Como haviam se afastado tanto dos planos
que fizeram juntos apenas alguns meses antes?
— Podemos fazer isso, podemos resolver as coisas.
Ela fechou os olhos. Era tão fácil se deixar seduzir pela suavidade da voz dele ao
dizer aquelas palavras. Mas um futuro seria impossível enquanto não resolvessem o
passado. E nunca mais queria reviver aquele dia horrível, quando seu mundo fora tão
brutalmente destruído.
O médico aprovou a semana de descanso e relaxamento para Kelly, e apenas a
aconselhou a procurar ajuda médica de imediato se a inchação piorasse ou se surgissem
outros sintomas. Ryan prestou total atenção a cada palavra que o médico disse e agiu
como um pai e marido preocupado. E aquilo, em vez de fazê-la se sentir bem, apenas a
deprimiu, porque chamou atenção para o fato de que a situação deles era sem
esperança.
Quando voltaram, havia diversas sacolas de lojas no apartamento, junto à porta.
Kelly as observou, curiosa, porque eram de aparência definitivamente feminina, e havia
até uma sacola de uma loja famosa de lingerie. Olhou para Ryan, uma pergunta nos
olhos.
— Oh, ótimo, Jansen passou por aqui. São para você. Para nossa viagem — Ele
juntou as alças e levou tudo para o sofá, então fez um gesto para ela olhar.
Um pouco perplexa, ela abriu os pacotes e encontrou diversos vestidos de verão
para grávidas, conjuntos de saias e casacos de grife e roupas completas para praia. E
muita lingerie.
— Não devia ter feito isso — murmurou Kelly.
Com que rapidez haviam voltado à antiga rotina. Seu nível de desconforto
aumentou.
— Não fiz nada. Jansen foi às compras para mim.
Apesar de tudo, ela sorriu à imagem do severo assistente de Ryan andando pela
seção de roupas para grávidas da loja de departamento exclusiva — e, ainda mais
engraçado, entrando na loja de lingerie para lhe comprar calcinhas e sutiãs.
— Como está Jansen?
— Muito bem, o mesmo de sempre.
— Obrigada. — Ela engoliu seu tão importante orgulho.
Ryan sorriu.
— Por nada. Por que não se deita um pouco enquanto faço as malas? Depois
jantamos e vamos dormir; partiremos cedo amanhã.
Kelly deixou as roupas no sofá e se levantou. Era estupidez permitir-se suavizar com
relação a ele. Era estupidez até mesmo desejar por um só momento que as coisas
voltassem a ser como antes. Mas nada impedia o anseio profundo de seu coração
partido. A tristeza a tomou, e saiu da sala depressa para que ele não visse suas lágrimas.
Ryan a acordou cedo na manhã seguinte. Aprontaram-se, tomaram o desjejum e
seguiram de carro para aeroporto. Kelly se manteve em silêncio durante o trajeto. Uma
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
parte dela estava excitada ao pensamento de passar uma semana no paraíso com Ryan;
outra parte temia a intimidade forçada. Tinha se concentrado tanto na raiva e na revolta
durante todos aqueles meses que foi um choque perceber que ainda estava
profundamente apaixonada por Ryan. O que a frustrava mais do que tudo. Seria
masoquista? Não só amar um homem que não a amava, mas amá-lo depois da traição
mais dolorosa? Era patética.
Para a surpresa de Kelly, não tomaram um voo comercial. Ryan havia fretado um
jato particular para levá-los à ilha sem escalas. Eram apenas algumas horas de voo, mas
na metade ela começou a se sentir inquieta. Estava nervosa, tensa e sofrendo de um
caso particularmente grave de medo.
— Por que não reclina a poltrona? — Ele se debruçou e a ajudou. — Vire de lado e
eu lhe farei uma massagem nas costas.
Incapaz de recusar, Kelly se virou para a janela. Dedos fortes e ternos começaram
uma lenta exploração de suas costas, apertando de leve e esfregando. Ela suspirou de
contentamento e alívio quando a tensão nos músculos desapareceu. Bocejou, acomodouse melhor e aproveitou as deliciosas sensações que os dedos dele provocavam. Por um
breve momento, se obrigou a esquecer o passado. E a não pensar no futuro. Tudo em
que queria se concentrar era no fato de que estava com Ryan e ele agia com a mesma
ternura amorosa que demonstrara quando estavam juntos. Então dormiu, um sorriso no
rosto.
Quando o avião se preparou para pousar, Ryan a acordou e ergueu o assento. Kelly
estava tão relaxada que apenas ficou lá, calada, enquanto o avião aterrissava, alguns
minutos depois. Ryan passou um braço protetor em torno de seus ombros enquanto
desembarcavam. Havia um carro à espera deles. Ryan a ajudou a se sentar, acomodou a
bagagem e então partiram Hospedaram-se num hotel luxuoso na praia. A sala de estar da
suíte tinha portas de correr que levavam do pátio ao trecho de praia privativo. Kelly se
sentou no sofá diante das portas, Ryan deixou a bagagem, ajoelhou-se diante dela e lhe
tirou os sapatos, para verificar se os pés estavam inchados. Começou a massagear as
solas dos pés, movendo a mão pelo arco até a ponta. Ela gemeu de prazer.
— Bom?
— Oh, é maravilhoso...
Ele continuou a cuidar dos pés de Kelly, observando-a em silêncio. A mão dela se
moveu para o ventre arredondado e ela sorriu enquanto sentia os movimentos do bebê.
— O bebê está se mexendo?
Ela fez que sim.
— Posso sentir?
Kelly pegou-lhe a mão e a levou para o ventre, colocando-a no ponto exato onde a
dela estivera. Ele fez um movimento brusco ao sentir o bebê, surpreendido, a expressão
de espanto maravilhado.
— Isso é incrível. Dói?
Ela riu.
— Não. Nem sempre é confortável, mas não dói.
Ele manteve a mão sobre o ventre de Kelly por alguns instantes; então se levantou,
um brilho de arrependimento nos olhos.
— Gostaria de jantar no pátio ou prefere ir ao restaurante?
— Aqui, por favor. Gosto da vista e é particular.
Ele acenou e pediu o jantar ao serviço de quarto pelo telefone interno. Trinta minutos
depois, um funcionário levou o jantar num carrinho e o serviu numa mesa posta no pátio.
Os dois comeram em silêncio, desfrutando do som das ondas batendo na praia.
Depois Ryan sugeriu que ela fosse para a cama, mas não estava cansada. Quando
disse que preferia andar um pouco na praia, Ryan a acompanhou. Kelly inspirou
profundamente o ar salgado enquanto a brisa do oceano lhe erguia o longo cabelo. Ela
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
tirou as sandálias e se debruçou, desajeitada, para pegá-las. Ryan se apressou a fazer
aquilo por ela e as guardou nos bolsos do paletó. Kelly se aproximou das ondas, os dedos
mergulhando na areia úmida, e deixou que a espuma do oceano os lavasse. Ryan
também tirou os sapatos, enrolou as pernas do jeans e se juntou a ela. Passou um braço
em torno dela enquanto andavam pela praia, e Kelly precisou se esforçar para combater o
impulso de se recostar nele.
— Não devemos andar muito — avisou Ryan. — Não pode ficar tanto tempo em pé,
esta é uma viagem de repouso.
— Isso é muito mais repousante do que ficar em pé 12 horas por dia.
Ele franziu a testa.
— Isso não acontecerá nunca mais.
Ela não respondeu, apenas se virou em direção à suíte. A mão de Ryan lhe soltou a
cintura quando ela se apressou à frente dele. Quando entraram, Kelly voltou a mergulhar
no sofá macio.
— Gostaria de beber alguma coisa?
— Um suco, se tiver.
Ele pegou um suco de laranja na geladeira e o levou para ela.
— Devia ir para a cama; haverá muito tempo para explorar a praia depois que você
tiver uma boa noite de sono.
Embora agora estivesse cansada, o dia tinha sido tão... perfeito que ela odiava
terminá-lo. Passar o tempo com
Ryan tinha sido uma doce amargura, uma volta a tempos felizes, quando as coisas
tinham sido. Suspirou. Precisava interromper aquelas lembranças. Teria uma semana com
Ryan. Uma semana em que o passado não importaria. Se ele podia esquecer, ela
também tentaria. E, quando tudo acabasse, talvez suas lembranças não fossem mais
apenas amargas e dolorosas.
Tentou se levantar do sofá macio demais e riu quando percebeu que estava presa.
Ryan estendeu a mão e a ajudou. Por um longo momento, ficou parada diante dele, o
olhar acariciando as linhas cinzeladas do rosto de Ryan.
Era a primeira vez que se permitia olhar assim tão abertamente para ele.
— Boa noite, Ryan.
Ele parecia querer beijá-la e, por um instante, ela se perguntou como reagiria. Mas
ele apenas disse:
— Boa noite, Kelly. Durma bem.
Ela se virou e foi para o quarto com uma pequena fisgada de pesar.

CAPÍTULO SEIS

Kelly não dormiu; ficou deitada lá, revivendo o passado. O dia em que conhecera
Ryan. Como ele a havia encantado e levado para um relacionamento apaixonado e
consumidor. Desde a primeira vez em que a convidou para um encontro, não tinham
passado um só dia separados. No fim do primeiro mês, ela se mudou para o apartamento
dele; no fim do segundo mês de um namoro alucinante, o anel dele estava no seu dedo.
Nunca entendera por que a havia escolhido. Não que se considerasse inferior, mas
Ryan Beardsley era um belo homem e muito, muito rico. Podia escolher a mulher que
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
quisesse. Por que ela? Não tinha conexões familiares. Não tinha dinheiro nem prestígio.
Era apenas uma estudante universitária ganhando a vida como garçonete. Até Ryan
aparecer.
Tudo mudara para ela e talvez tivesse mergulhado profundamente demais no conto
de fadas e deixado de questionar as coisas importantes. Se ele a amava e confiava nela.
Como reagiria agora se tentasse lhe contar o que havia acontecido no dia em que a
expulsara de sua vida? Não acreditara nela na ocasião. Por que agora seria diferente?
Lágrimas lhe nublaram a visão enquanto as lembranças do dia retornaram.
Kelly olhou sem acreditar para o teste de gravidez, uma mistura de alegria e medo
crescendo no peito. Mas sorriu ao se imaginar dando a notícia a Ryan. Achava que não
ficaria aborrecido. Estavam planejando se casar logo e haviam conversado com
frequência sobre o desejo de ambos de começar uma família.
Mal podia esperar para lhe contar. Lembrou-se de que ele não tinha nenhuma
reunião importante aquele dia e devia ficar no escritório até mais tarde. Podia passar por
lá e surpreendê-lo. Abraçou-se, excitada, quase dançando no quarto enquanto imaginava
sua reação.
Um barulho na sala de estar a fez parar. Então sorriu. Oh, perfeito, Ryan estava em
casa. Algumas vezes a surpreendia ao voltar para o almoço. Naquele dia, seu senso de
oportunidade havia sido impecável. Começou a chamá-lo quando Jarrod apareceu à porta
do quarto. Ficou sem fala por um momento. Embora Jarrod aparecesse com frequência,
vinha apenas quando Ryan estava em casa.
— Jarrod, o que faz aqui? Ryan está no trabalho e não deve chegar até bem mais
tarde.
— Vim conversar com você.
— Certo. O que há? Vamos para a sala de estar.
Ele a ignorou e deu mais um passo para dentro do quarto. A inquietação lhe causou
arrepios na espinha. Alguma coisa estava definitivamente errada.
— Quanto você quer para sair da vida de Ryan?
Os olhos dela se arregalaram de choque.
— Como?
— Não se faça de idiota. E uma garota esperta. Quanto quer para acabar tudo com
Ryan e partir?
— Está me oferecendo dinheiro? Sua mãe o mandou fazer isso? Vocês dois estão
loucos. Amo Ryan. Ele me ama. Vamos nos casar.
Alguma coisa que pareceu pesar brilhou no rosto de Jarrod. Ele se mexeu, nervoso,
então a prendeu com um olhar pesado.
— Esperava que tornasse as coisas mais fáceis. Nós não estamos oferecendo uma
quantia pequena.
Aquele “nós ” confirmou as suspeitas de Kelly de que a ideia daquela manobra tinha
sido da mãe de Ryan. Estava prestes a dizer a Jarrod para onde exatamente ele e a mãe
dele podiam ir quando ele deu mais um passo em sua direção. A expressão nos olhos
dele a fez recuar rapidamente.
— Acho que você deve ir embora agora. — Kelly estendeu a mão para o telefone.
Jarrod mergulhou sobre a cama e lhe arrancou o telefone. Ela ficou tão atônita com
o ataque que, por um momento, não pôde — não conseguiu se defender.
Ele a agarrou e a jogou na cama, as mãos se movendo brutalmente no corpo dela.
Arrancou-lhe a blusa e a calça comprida. Ela ergueu o joelho, tentando lhe atingir a virilha,
mas ele se desviou e a rolou para baixo dele.
Kelly gritou de dor com os ferimentos que ele lhe causava. Estava furiosa e
apavorada. Realmente pretendia estuprá-la na cama de Ryan. Teria enlouquecido? Ryan
o mataria por aquilo. As mãos dele continuaram a se mover sobre ela, machucando-a
cada vez mais. Sabendo que, se não fosse capaz de afastá-lo, ele a forçaria em sua
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
própria casa, ela começou a lutar com força renovada.
Finalmente conseguiu lhe dar uma joelhada entre as pernas, o que o fez se dobrar
de dor, soltá-la e levar as mãos à virilha. Ela rolou na cama, caiu no chão, as mãos
agarrando desesperadamente as roupas. Levantou-se, a mão no pescoço ferido, as
marcas roxas já escurecendo.
— Ele o matará por isso! Meu Deus, é seu irmão! Seu maldito!
Ela começou a andar para a porta, seu único pensamento era chegar a Ryan, mas
as palavras de Jarrod a fizeram parar:
— Ele não acreditará em você.
— Está louco — gritou, e correu para a porta.
Mas Jarrod tinha razão. Ryan não acreditou nela. Jarrod ligou para Ryan do próprio
apartamento do irmão antes que ela conseguisse chegar ao escritório. Deu a Ryan sua
versão do que acontecera, e a genialidade do plano foi que a história que contou a Ryan
era exatamente o que Kelly tinha a dizer. Apenas, Jarrod disse a Ryan que Kelly o havia
seduzido e que, quando ele ameaçou contar que o enganara, Kelly inventou a história de
que Jarrod a havia atacado.
Jarrod desempenhou seu papel bem demais. Foi uma vítima perfeita das mentiras e
manipulações de Kelly. Assim, quando Kelly chegou arrasada ao escritório de Ryan e lhe
contou a história exatamente como Jarrod dissera a Ryan que contaria, Ryan ficou
friamente furioso. Fez aquele maldito cheque e a expulsou de sua vida.
Kelly ficou na cama, insone, entorpecida pelas lembranças dolorosas. E agora, ali
naquela ilha, Ryan queria que ela esquecesse o passado. Que o deixasse para trás. Que
seguisse em frente. Que esquecesse que tinha sido horrivelmente traída pela única
pessoa em quem confiava de modo absoluto.
Quando Ryan bateu à porta, ela tentou se livrar do peso das lembranças e dos
pensamentos. Conseguiu sair da cama e vestiu o roupão para se arrastar até a porta e
abri-la.
Ryan estava lá, de terno, o homem de negócios.
— Deixei o desjejum no bar para você. Preciso ir ao local da construção por algumas
horas. Você ficará bem sozinha?
Ela acenou, aliviada por não ter que enfrentá-lo de imediato. Precisava de tempo
para recuperar a compostura.
Tempo para reconstruir mentalmente suas defesas.
— Sim, é claro. Quando estará de volta?
— São 8h agora. Devo voltar perto do meio-dia. Podemos almoçar no restaurante do
hotel e depois caminhar na praia, se quiser. Vá com calma enquanto eu não estiver aqui.
Ficarei preocupado se você for à praia sozinha.
Ela revirou os olhos.
— Acho que sou capaz de sair do quarto sozinha.
— Sei que é. Apenas me preocupo e prefiro que vá comigo.
Ela acenou.
— Vejo você na hora do almoço.
Ele saiu depois de um breve toque em seu rosto, e Kelly o observou por um instante.
Então fechou a porta e se encostou nela. Começava o dia número um da tentativa de
esquecer o passado e pensar no futuro.
Tomou um longo banho de banheira, vestiu-se, se maquiou e tomou o desjejum.
Comeu tudo o que Ryan deixara pronto. Depois lambeu os dedos. Sentiu-se como uma
porquinha, mas uma porquinha muito satisfeita. Havia muito que não tinha tanto apetite.
Então encontrou uma toalha de praia e se dirigiu para um dos guarda-sóis que vira antes.
Depois de meses trabalhando em pé 12 horas por dia por um salário miserável, um dia na
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
praia lhe parecia tão extravagante como realmente era. E desfrutaria de cada minuto.
Não se preocupou em calçar sandálias. A areia era macia sob seus pés, quente e
agradável. Suspirou de contentamento, sentindo a brisa marinha lhe erguer o cabelo, o
travo do mar nas narinas, o som das ondas, tão lindo e pacífico. Ali estava um lugar onde
talvez pudesse esquecer a dor do passado. Um descanso para a alma. Parecia ridículo e
um pouco piegas, mas gostava do som dessas palavras e as adotou como seu mantra
para a viagem.
Abriu a toalha sobre a areia, mudou um pouco a posição do guarda-sol, se sentou e
ergueu os joelhos para o peito enquanto observava as ondas que rolavam Fechou os
olhos, inspirou com força e desfrutou da brisa que brincava em seu rosto. A noite insone
rapidamente a atingiu enquanto os músculos tensos relaxavam Logo achou difícil manter
os olhos abertos, assim, se deitou, se esticou na toalha e se virou de lado, o rosto em
direção ao oceano. Havia muita sombra, e era tentador se deixar mergulhar no sono.
Simplesmente esperaria ali por Ryan.
Logo depois do meio-dia, Ryan chegou e procurou por Kelly sem encontrá-la.
Suspirou, sabendo que ela não dera a menor atenção à sua preocupação por ela ir
sozinha à praia. Provavelmente estava sendo superprotetor demais, mas descobriu que,
com Kelly, como sempre, tendia a reagir com excesso.
Saiu para o pátio e andou em direção aos guarda-sóis. Ela estava deitada de lado
sob um deles, os olhos fechados, tão linda e vulnerável que o peito dele se apertou e
doeu. Observou sua respiração tranquila; os movimentos do ventre que se mexia sob o
sarongue. Os pés estavam descalços, e ele não viu sinais de inchaço em torno dos
tornozelos. Não estava tão mal como antes, mas ainda o preocupava muito.
Sentou-se na toalha e passou a mão pelos cabelo loiro e suave, então lhe acariciou
o braço, a curva dos quadris e o monte rijo do ventre. Ela suspirou no sono e se moveu
para mais perto da mão dele. O impulso de puxá-la para os braços foi tão forte que ele
afastou a mão para se impedir. Se apenas pudesse apagar os últimos seis meses e ter
tudo como era antes. Mas agora tinha que lidar não só com a traição de Kelly, mas
também com o fato de que carregava seu filho. Admitisse ela ou não, tinha uma forte
intuição de que o bebê era seu.
Estendeu a mão e sacudiu Kelly de leve; não queria que ficasse exposta aos raios
fortes do meio do dia. Ela acordou lentamente e piscou, sonolenta. O suave sorriso de
prazer que lhe lançou o aqueceu até os dedos dos pés.
— Quando você voltou? — A voz estava sonolenta e rouca.
— Há alguns minutos. — Ele sorriu. — Está pronta para almoçar?
Ela acenou e se sentou. Ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar, e ela a
segurou para que a puxasse. Com o braço em torno dos ombros dela, Ryan a levou de
volta à suíte, adorando aqueles poucos momentos de intimidade entre os dois.
Enquanto ela tomava uma chuveirada e se vestia, ele ligou para Devon para lhe dar
informações atualizadas sobre o cronograma da construção. Os dois homens
conversaram por alguns minutos, e Dev não tocou no nome de Kelly. O que agradou a
Ryan. Não importava que seus amigos e sua família o considerassem louco,
simplesmente precisava cuidar de Kelly. Não conseguira parar de pensar nela nem um
só dia desde que o relacionamento deles terminara. Podia ser o maior idiota do mundo,
mas estava determinado a esclarecer tudo entre eles. Mesmo se, no final, o resultado
fosse a separação definitiva.
Quando Kelly saiu do quarto, havia uma leveza na expressão dela que ele não via
desde que a encontrara naquela lanchonete em Houston. Parecia-se muito mais com a
antiga Kelly. A Kelly por quem tinha sido louco. Aquela que sempre trazia um sorriso
pronto, que estava sempre disposta a rir e que lhe oferecia seu amor abertamente. A Kelly
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
reservada e zangada do presente era uma pessoa que não conhecia.
Parecia um pouco nervosa e insegura quando se aproximou do bar, e ele odiou a
barreira que havia entre eles. Antes, ela não teria hesitado em se jogar nos braços dele e
lhe dar um daqueles enormes e fortes abraços. Agora, desejava tanto se aproximar dela
sem que ela se afastasse...
— Pronta?
Ela acenou. Ele colocou a mão nas costas dela e percebeu como era baixo o
decote. Jansen tinha escolhido bem. O vestido a envolvia como um sonho, moldando-lhe
todos os lugares certos. O corpete era seguro por tiras amarradas na nuca, mas a carne
estava nua até abaixo da cintura. A palma que descansava naquelas costas macias
coçava para acariciar e alisar até ela reagir a ele, até ele provar que a atração entre os
dois não havia morrido.
No restaurante, sentaram-se numa alcova privativa que tinha uma enorme janela de
vidro e proporcionava uma vista ininterrupta da praia. Enquanto estudavam o cardápio,
Ryan lançou um olhar a Kelly. Parecendo senti-lo, ela ergueu os olhos e lhe deu um
sorriso tímido. Ele sorriu de volta, cativado pelo brilho nos olhos azuis. Estava linda. E,
desta vez, quando Kelly olhou para ele, Ryan não viu aquela raiva sombria que estava
sempre presente entre eles. O momento foi estraçalhado um segundo depois.
— Ryan! O que está fazendo aqui?
A voz feminina alta e estridente perturbou o silêncio agradável da área, fez Ryan se
encolher e Kelly se assustar. Ele ergueu os olhos e viu Roberta Maxwell se aproximando
da mesa deles, então praguejou e se levantou para cumprimentá-la. Deu-lhe um beijo
rápido no rosto quando ela se aproximou e tentou tirar as mãos das dela quando ela as
pegou.
— Estou aqui a negócios. A pergunta é: o que você faz aqui?
A risada dela tiniu como cristal.
— Oh, este é um dos meus lugares prediletos para umas férias. A comida é divina e
as acomodações não podem ser melhores. — Virou-se para Kelly, que observava Roberta
com cautela. — Quem é esta, Ryan?
Inferno, ela sabia muito bem quem era Kelly e certamente não estava ali por
coincidência. Apostaria qualquer coisa em como Roberta Maxwell jamais estivera antes
em St. Angelo. Era transparente demais e parecia não se importar nem um pouco se ele
percebia a verdade. Aquilo significava que estava ali para causar problemas. A assinatura
da mãe dele era evidente naquela manobra. Ficou tão furioso que gostaria de quebrar o
pescoço magro de Roberta. E então lidaria com a mãe. Não devia ter lhe contado que
sairia da cidade; pior, não devia ter dito para onde iria. Esperava. Bem, realmente não
importava o que esperava.
— Roberta, conheça Kelly Christian, Kelly, esta é uma conhecida minha, Roberta
Maxwell.
Roberta sorriu.
— Oh, querido, certamente sou muito mais do que uma conhecida...
Os olhos de Kelly se entrecerraram, e Ryan decidiu que a polidez era valorizada
demais.
— Estamos num almoço particular, Roberta. Pode nos dar licença, por favor?
Sem se intimidar, Roberta enlaçou o braço no dele e a voz desceu para um
ronronado:
— Precisamos nos encontrar enquanto você está aqui. Talvez um jantar só para nós
dois. Lamentei muito você ter perdido o último jantar com sua mãe. Eu a amo tanto.
Ele se libertou e se afastou alguns passos.
— Temo que meu tempo esteja todo ocupado. Talvez, quando voltarmos para Nova
York, Kelly e eu possamos recebê-la para jantar. — As últimas palavras foram
intencionais, não que esperasse que detivessem Roberta.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Não era culpa dela se era densa como um tijolo. Os olhos de Roberta brilharam de
raiva e seus lábios pintados formaram um biquinho.
— Realmente, querido, quando decidiu aceitar de volta a pequena traidora?
O rosto de Kelly empalideceu e ela jogou o guardanapo sobre a mesa. A mão de
Ryan se ergueu para fazer Roberta se calar.
— Sabe, já aguentei demais. É hora de você dar o fora. Dê lembranças a minha mãe
e aproveite a oportunidade para dizer a ela que fique longe dos meus assuntos. Um
conselho que você também deve seguir.
Ela fez um gesto com os lábios vermelhos e passou as unhas manicuradas pela
lapela do paletó do terno dele.
— Não seja insolente, querido. Sei que precisa ser educado com ela porque não
sabe de quem é o bebê que carrega.
Com um aceno descuidado, afastou-se, deixando Ryan furioso. Mas sua raiva não
era nada diante da ódio que fazia os olhos de Kelly brilharem quando ele se virou e a viu
em pé diante da cadeira, os punhos fechados e pressionados sobre o tampo da mesa.

CAPÍTULO SETE

Ryan segurou as costas da cadeira com uma das mãos e passou a outra pelo
cabelo.
— Sinto muito.
— Perdi o apetite — disse ela, sem emoção, enquanto se afastava da mesa.
— Kelly, não — protestou ele. — Você precisa comer. Não deixe aquela gata de rua
estragar nosso almoço.
Os lábios dela enrijeceram
— Aquela gata de rua parece saber demais sobre nós.
Ela se virou e saiu em direção à entrada do restaurante. Assim que chegou ao
saguão, dobrou para o longo corredor que levava à suíte deles. Irritada, entrou, trancou a
porta da suíte e foi para o seu quarto, onde se sentou na cama. Ouviu a batida e então a
voz zangada de Ryan através da porta fechada. Estava furiosa demais para se importar.
Ele teria que dar a volta e entrar pelas portas do pátio. Tivera o bastante daquela farsa.
Inferno, nem mesmo sabia como chamar a situação. O que quer que fosse, estava fora.
Não basta ter sido humilhada por Ryan e o irmão dele? Agora tenho que aguentar
também os insultos de uma cabeça de vento? Todos eles podem ir para o inferno!
Ergueu a cabeça quando a porta do quarto se abriu abruptamente para mostrar um
Ryan lívido. Bem, não era só ele que estava furioso, e ela não recuaria. Ergueu-se e o
enfrentou.
— O que está errado com você, Kelly? Não é do seu feitio se comportar assim O
que esperava ganhar trancando a porta e me deixando de fora? Ignorar nossos
problemas não fará com que desapareçam.
— Como você saberia qual é o meu feitio? Parece que nunca me conheceu.
Os olhos dele brilharam, e Ryan acenou.
— Isso certamente é verdade.
A insinuação a enfureceu ainda mais.
— Quero ir embora. Quero pegar o primeiro voo que puder. Isso é ridículo, uma
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
perda de tempo. Jamais vai funcionar, Ryan. — A voz e o olhar eram gelados.
Ele praguejou e se aproximou, as mãos nos ombros dela.
— Fizemos um acordo. Uma semana juntos e esquecemos o passado.
Ela o olhou com incredulidade.
— Você não foi testemunha daquela cena no restaurante? Como aquela mulher
sabia tanto sobre mim e nosso relacionamento a menos que você tenha lhe contado?
Como podemos esquecer o passado se sua namoradinha o atira em mim? Não gosto de
ser feita de idiota. E certamente não gosto de ser assunto de mexericos.
— Eu nunca disse nada sobre você a ela.
— É impressionante o quanto ela sabe.
— Por que tem tão pouca confiança em mim, Kelly? Eu não traí você.
Ela se encolheu. Ele sempre voltava àquilo. Não importava do que falassem, onde
estavam, sempre atirava no rosto dela sua convicção de que o havia traído. Recusava-se
a pensar em qualquer outra explicação. Kelly virou-se de costas para ele, tentando
controlar a onda de ódio que a queimava. Tremendo com o esforço para evitar gritar de
raiva, ela fechou as mãos e os olhos com força.
De repente, foi virada para Ryan, e ele lhe tomou a boca num beijo profundo
enquanto lhe emoldurava o rosto. Ela ergueu as mãos para empurrá-lo, mas seus braços
a seguravam com muita força e a puxavam para mais junto do corpo dele. Ela gemeu, um
som gutural na garganta, e o beijo dele suavizou, tornou-ser explorador. Levou-a para a
beirada da cama e a abaixou no colchão sem jamais parar os movimentos dos lábios
sobre os dela.
— Droga, Kelly, apenas não diga nada por um momento. Sem palavras. Parece que
não podemos conversar sem ferir um ao outro. Por favor, vamos nos comunicar sem falar.
Ela ergueu os olhos para os dele enquanto ele a libertava e estudava sua
expressão. Como podia querê-lo tanto depois de toda a desconfiança e de tanta mágoa?
As pontas dos dedos de Ryan lhe acariciaram o rosto; ela fechou os olhos e virou a
cabeça para aninhá-la na mão dele.
E se lhe permitisse fazer amor com ela? Seria assim tão ruim? Ou apenas
confirmaria sua baixa opinião sobre ela? O pensamento foi como um balde de água
gelada e matou o desejo. Ele devia ter sentido seu afastamento mental porque a soltou e
recuou, a expressão confusa.
— Não posso fazer isso. — Ela sentou- se na cama. — Não quando sei o que pensa
sobre mim. — Abraçou-se num gesto de autoproteção.
— Não olhe para mim como se esperasse que eu a atacasse. Não forço mulheres
que não me querem. — E Ryan saiu do quarto.
Sentindo-se mais sozinha do que quando fugira dele, Kelly foi ao banheiro e jogou
água fria no rosto ruborizado. Olhou para seu reflexo e viu a total infelicidade em seus
olhos. Lágrimas se formaram O peito doía. C coração doía. Não podia viver daquele jeito.
Não suplicaria que acreditasse nela. Já fizera aquilo. De joelhos. O que restava? Ele
não acreditava nela. Não voltaria a implorar. Aquele relacionamento tinha apenas um
destino: o inferno. Fechou a torneira, pousou os cotovelos na bancada e mergulhou o
rosto nas mãos, enquanto os soluços lhe rasgavam o peito.
Não tinha sido feliz em longos seis meses, mas agora sua miséria era ainda maior.
Suas circunstâncias em Houston não eram boas, mas não tivera que olhar para o homem
que amava e saber que ele pensava o pior dela.
Com as lágrimas ainda lhe descendo pelo rosto, Kelly voltou cegamente para o
quarto e se enrolou como uma bola na cama. Seus ombros sacudiam com os soluços, e
as lágrimas que evitara por tanto tempo faziam uma trilha molhada nas maçãs do rosto.
De repente, o colchão afundou e Ryan levou uma das mãos ao rosto dela.
— Desculpe, Kell. Não chore. Por favor, não chore. — Ergueu-a nos braços e a
aninhou contra o peito.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Ela escondeu o rosto na curva do pescoço dele, as lágrimas lhe ensopando a
camisa.
— Desculpe. Não queria que as coisas fossem assim. Não quero aborrecer você,
jamais quis. Juro. — A voz de Ryan estava pesada de arrependimento, e ele tremia de
emoção enquanto lhe acariciava o cabelo. — Deve saber que Roberta veio aqui apenas
para criar confusão entre nós.
Ela se imobilizou contra o corpo dele, sabendo que o que estava para dizer
provavelmente o irritaria ainda mais, mas desistira de receber golpes sem reagir:
— Está disposto a admitir que sua mãe me odeia e faria qualquer coisa para me
afastar de você? Se não contou nada a Roberta sobre nós, quem acha que contou?
— Eu sei. Mas não vai funcionar. Assim que voltarmos para casa, eu a farei parar.
Não permitirei que a magoe assim de novo.
Ela tremeu contra ele. Queria tão desesperadamente acreditar nele. Estava
começando a enxergar. Será que um dia Ryan aceitaria sua versão do que acontecera
meses antes?
Ele comprimiu os lábios no topo da cabeça dela e sussurou:
— Fique comigo, Kelly. Temos tanto a esclarecer. Deus sabe que passamos por
muita coisa. Mas para isso preciso que fique aqui comigo. Não a mil quilômetros de
distância em algum lugar esquecido de Deus, onde não posso cuidar de você e do nosso
bebê.
Ele a afastou um pouco e enxugou as lágrimas no rosto dela com a ponta do
polegar. Seu olhar era cheio de emoção. Parecia sofrer tanto quanto ela. Estivera
na ponta da língua negar mais uma vez que o bebê era dele, mas desta vez não
conseguiu.Afinal, ele era o pai.
Também devia ter esperado que ela negasse e, quando continuou em silêncio, os
olhos dele brilharam de esperança.
— Dê uma chance a nós, Kell. Deixe-me cuidar de você e do bebê. Podemos
consertar o que quer que estiver errado entre nós.
— Gostaria de ter seu otimismo — murmurou Kelly.
Como explicar que seria impossível superar os problemas entre eles se ele não
acreditava nela, não confiava nela?
Ryan baixou a boca para a dela e a beijou tão amorosamente que ela sentiu novas
lágrimas se formarem. Afastou-se e deitou a cabeça no peito dele. Era tão bom estar de
volta aos braços dele que, por apenas um momento, Kelly afastou a dor e o
ressentimento.
Ele lhe tocou o cabelo com timidez.
— Kell, precisamos falar sobre o bebê. Mas antes temos que esclarecer esta
questão entre nós.
Ela fechou os olhos, sentindo o medo se instalar na boca do estômago.
— Acreditará em mim se lhe disser que o bebê é seu?
Ele ficou imóvel por um instante, depois soltou a respiração. Envolveu o rosto dela
com as mãos e a segurou contra o peito.
— Acreditarei em você, Kell.
Lentamente, ela se ergueu até os olhos estarem no nível dos dele. Como doía saber
que estava disposto a acreditar nela agora sobre o bebê quando não acreditara na
verdade sobre o irmão dele.
— É seu.
A satisfação brilhou, selvagem, nos olhos dele. Tomou-lhe o rosto de novo e então
se abaixou para lhe tomar a boca num beijo feroz e possessivo. Os lábios dela estavam
inchados quando afastou a boca; o pulso batia com força enquanto se olhavam em
silêncio. Kelly estava com medo de acreditar nele. Tanto que se sentia quase paralisada.
— Você acredita em mim? Preciso saber, Ryan. Não podemos seguir em frente a
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
menos que acredite em mim.
Ele passou a mão no ventre dilatado e abriu os dedos sobre ele até cobri-lo quase
todo.
— Acredito em você.
Ela mordeu o lábio inferior para se impedir de lhe perguntar se acreditava nela sobre
qualquer outra coisa. Sabia que não acreditava, que não tinha acreditado antes. E talvez
agora fosse tarde demais.
— Kelly?
O apelo lhe interrompeu os pensamentos, e Ryan lhe acariciou o rosto com a ponta
do dedo.
— Acredito em você. Está bem? Jarrod disse que usou preservativo, e o momento é
certo para nós. Sei que não dormiu com mais ninguém. Foi apenas aquela única vez com
Jarrod, não foi?
As palavras a congelaram. A dor lhe apertou o coração. Um coração que ela
imaginava não poder mais ser ferido. Estava enganada. Não pensava que houvesse mais
alguma coisa que Ryan dissesse ou fizesse que a magoaria.
Estivera enganada sobre aquilo também.
— Por que isso a faz chorar?
Ryan lhe enxugou as lágrimas, a expressão de total perplexidade. Então se
debruçou e lhe enxugou o rosto com os lábios. Ela lhe segurou os braços, a mente uma
confusão caótica de raiva e dor. Custou-lhe toda a força interna para se manter composta
e falar com ele quando tudo o que queria era fugir.
— Se há alguma esperança de isto funcionar, nunca mais diga o nome dele perto de
mim. Foi você que quis isso. Uma semana. Sem passado. Esqueça o passado. Foi o que
você disse, e estou tentando manter o acordo. Você volta a falar sobre isso de novo e
saio, não, corro. Estamos entendidos?
Ele pareceu chocado com a veemência dela. Abriu a boca como se quisesse
continuar o assunto, mas ela balançou a cabeça e começou a sair do colo dele. Ele a
segurou e a puxou para perto de novo.
— Está bem. Sem passado. Não falarei mais nisso. Prometo. Vai ficar, Kelly? Vai
tentar resolver as coisas comigo?
Ela fechou os olhos de novo, e a disposição para lutar a abandonou. A cabeça caiu
para a frente e a exaustão a tomou. A cabeça doía terrivelmente. Os dedos dele lhe
acariciaram o pescoço com uma pressão gentil. Tinha demonstrado tanto?
— Ainda me importo com você, Kelly. Ela encostou a testa na dele. Seu ataque
afetivo era impiedoso; não jogava limpo.
— Estou com medo — sussurrou Kelly.
— Eu também.
Surpreendida pela admissão, ela se afastou um pouco para lhe estudar o rosto, para
ver a verdade nos olhos dele.
— Não olhe assim para mim, Kell. Você não é a única a sofrer. Eu prometi que não
falaria mais sobre o passado e não vou. Mas você não foi a única a ser ferida em tudo
isso. Eu amava você. Queria me casar com você. Eu. — Passou a mão pelo cabelo. De
repente, pareceu esgotado e cansado pela emoção sombria que flutuava entre os dois. —
Ainda quero que se case comigo — admitiu.

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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks

CAPÍTULO OITO

A confissão foi sombria, dita com angústia, como se não estivesse feliz com a
verdade das palavras. Mas as dissera assim mesmo. Olhou-a, o desconforto aumentando
a cada segundo. Ela o olhou também, incapaz de formular uma simples palavra de
resposta.
Ele não a amava. Não confiava nela. Acreditava o pior a respeito dela. Tudo o que
parecia aceitar era que o bebê era dele. e apenas porque o irmão lhe dissera que usara
preservativo. E, mesmo assim, queria se casar com ela.
E então ela riu. Um som histérico, áspero, desagradável. Os olhos dele se
entrefecharam.
— Esta não era a reação que eu esperava.
— Foi um pedido?
Desta vez ela segurou a risada, porque ele estava com uma expressão muito
sombria e inquieta. A mão de Ryan se fechou em sua nuca.
— Não. sim. talvez. Gostaria que esse fosse o final para nós. Mas temos um longo
caminho a percorrer antes de chegar lá. Apenas me diga se ainda se importa comigo o
bastante para ficar e tentar esclarecer as coisas. Vamos devagar, um dia de cada vez.
Não deixarei que aconteça mais nada como hoje no almoço.
— E como vai fazer isso? Como pode fazer sua família e seus amigos me
aceitarem? Eles não aceitam, Ryan. Você sempre disse que eu imaginava coisas, mas
vamos ser francos. Sua mãe não me suporta. Seus amigos não compreendem o que você
viu em mim. E é evidente que seu irmão me considera infiel. Uma opinião com a qual
você concorda.
Ele se levantou de repente, a mão ainda na nuca de Kelly. Ela escorregou do colo
dele para o colchão e se sentou, enquanto ele ficava em pé ao lado da cama.
— Você disse que não queria falar sobre o passado. Ou o esquecemos ou não, mas
não quero nenhuma dessas insinuações. — Deixou cair a mão que a segurava e plantou
as duas nas laterais do corpo dela. — Apenas responda à pergunta, Kelly. Vai ficar? Quer
pelo menos tentar? Está disposta a esclarecer tudo de maneira a podermos ser felizes
juntos de novo?
Ele perguntava como se fosse uma coisa que ela seria capaz de responder de
imediato. Não era assim tão simples. Não importava o que dissesse, acabaria ferida.
Passou a língua nos lábios. Seu coração gritava que era uma idiota por se envolver de
novo com ele. Sua cabeça lhe dizia que, sem confiança, o relacionamento estava
destinado ao fracasso, e ele já provara que não tinha a menor confiança nela. Estaria
disposta a se colocar numa situação em que a palavra dela valia menos do que a de
qualquer outra pessoa? Mas alguma coisa mais profunda, abaixo da dor, da raiva e da
traição, acordou e se entusiasmou à possibilidade de estar com Ryan de novo.
Disse a si mesma que não havia nada de errado em ficar com ele até o bebê nascer.
Estaria segura e teria um lugar para viver. Comida. Conforto. Tudo o que lhe havia sido
negado nos últimos seis meses. Mas também sabia que não podia ficar com ele sem
envolver seu coração novamente. Assim, a decisão era se queria perdoar, esquecer e
seguir em frente ou terminar tudo e cuidar da própria vida sozinha, não importavam as
dificuldades. Ou talvez apenas aceitar alguns momentos roubados com um homem que
amava e odiava com o mesmo fervor.
Quanto mais tempo permanecia em silêncio, mais a esperança diminuía nos olhos
de Ryan. Parecia resignado à rejeição inevitável, e Kelly não conseguiu deixar de fazer a
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comparação entre aquele momento e o outro, em que ficou tão vulnerável diante dele,
implorando por sua confiança, seu amor, seu apoio. A ideia de vingança não a agradava.
Causava-lhe uma sensação triste e amarga, e não lhe levava nenhuma felicidade, e
certamente nenhuma paz.
— Vou ficar.
A esperança voltou a brilhar nos olhos de Ryan. Ele segurou-lhe os braços, roçou as
mãos por sua pele subindo em direção aos ombros e ao pescoço e a firmou enquanto se
debruçava para lhe dar um beijo terno nos lábios. Havia um mundo de emoções naquele
simples toque da boca. A respiração era áspera e, pela primeira vez, ela percebeu o
quanto ele temia sua rejeição. Não acreditava em carma, mas agora se perguntou se
aquele seria o castigo dele. Sentir o que ela havia sentido tantos meses atrás. O
pensamento não lhe deu satisfação. Não gostaria que ninguém sofresse como havia
sofrido. e ainda sofria.
Ele se afastou um pouco, tirou o cabelo dela do rosto e continuou a lhe acariciar o
contorno do rosto.
— Passe a tarde comigo, Kell. Você precisa se alimentar. Vou pedir alguma coisa
para nós, e podemos comer na praia. Ver o pôr do sol. Mandei que Jansen providenciasse
um maiô para você, e poderá entrar na água, se quiser.
Ela lhe tomou a mão que descansava sobre seu rosto e enlaçou os dedos nela,
segurando-a por um longo momento.
— Gostaria muito disso.
Kelly e Ryan foram até um dos guarda-sóis, e ele abriu uma toalha sobre a areia.
Depois de verificar se ela estava confortável, abriu a cesta de piquenique preparada pelo
restaurante. Acomodou- se ao lado dela e começaram a comer.
Kelly observou o panorama enquanto comia alguns dos salgadinhos. O mar estava
tranquilo e o céu começava a adquirir uma cor mais suave. Nuvens pequenas e macias
passavam pela linha do horizonte enquanto o sol se punha. Ela fechou os olhos e deixou
que a brisa lhe acalmasse os nervos excitados. Tivera emoções demais nos últimos
meses e agora queria apenas existir sem estresse. Pelo menos por algum tempo. Queria
esquecer as noites em que não conseguira dormir, que passara chorando, a dor tão
intensa que se perguntava se algum dia deixaria de atormentá-la.
Ali, queria apenas ser. Ali, podia pelo menos fingir que os últimos seis meses não
haviam acontecido. Esta poderia muito bem ter sido sua lua de mel. Uma fuga romântica
para uma ilha. Ryan certamente representava bem o papel de marido solícito.
— Um tostão pelos seus pensamentos.
Kelly virou a cabeça para Ryan.
— Estava pensando que é fácil fingir aqui.
— Podemos fingir, mas não precisamos.
— Então, conseguiu resolver o problema na construção? — Ela não queria discutir
os méritos do fingimento versus o real.
Deviam esquecer o passado. Pelo menos, durante aquela semana. E não havia
muito mais sobre o que falar.
— Apenas um equívoco entre nosso pessoal e os que foram contratados aqui. Até
amanhã devo esclarecer tudo, tenho uma reunião pela manhã com todos eles. Se der
certo, terminarei, e então teremos alguns dias para fazermos o que quisermos.
— Quando precisa voltar para Nova York? — Kelly sabia que a fantasia terminaria
quando aquilo acontecesse.
— Ainda não sei. Não estou com pressa. Agora prefiro me concentrar no tempo que
temos aqui juntos.
Ela acenou, a aceitação mais fácil agora que tivera mais tempo para se acostumar à
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
ideia.
— Vai dormir comigo esta noite, Kelly?
Ela abriu os olhos e ele praguejou.
— Isso saiu completamente errado. Gostaria que dormisse comigo. Realmente
dormir. Quero abraçá-la de novo, mais nada. Apenas me deixe passar a noite abraçado
com você.
A ideia de se deitar nos braços dele, de se aconchegar a seu corpo forte, de misturar
as pernas às dele. era tão atraente que, de repente, ela precisava daquilo mais do que de
respirar. Então, acenou.
Ele estendeu a mão, tomou a dela e apenas a segurou, os dedos enlaçados com
força. Recostou-se e a puxou contra o peito. Ficaram assim até os funcionários chegarem
para acender as tochas ao longo da praia enquanto o crepúsculo aprofundava e as
estrelas começaram a surgir.
Música suave flutuava pelas portas abertas do saguão. Misturadas ao som das
ondas, as notas produziam um som indescritível. Ela recostou a cabeça na junção do
pescoço de Ryan com seu ombro e olhou, sonhadora, para o céu, agora que o guarda-sol
havia sido fechado. Ele virou o rosto, e seus lábios lhe roçaram a pele num beijo, então
ele também olhou para o céu.
— Faça um pedido — murmurou ela.
— Já tenho o que quero. Agora faça o seu.
Ela inspirou profundamente, fechou os olhos e fez o pedido. A tristeza a tomou,
porque sabia que alguns pedidos nunca eram atendidos. Depois de um momento, Ryan
se mexeu debaixo dela, levantou-se e a puxou. Ela se levantou, acreditando que ele
queria entrar. Em vez disso, ele a levou para junto da arrebentação. O luar se derramava
como prata sobre a água, estrelas surgiam em número cada vez maior, espalhadas como
poeira de fadas no horizonte.
Kelly estava sonhadora demais aquela noite. Pedidos e poeira de fadas... Mas
parecia adequado para um ambiente tão mágico. Talvez acordasse pela manhã e
descobrisse que tudo havia sido um sonho. Se fosse assim, estava determinada a viver
seu sonho completamente.
Sem uma palavra, Ryan a tomou nos braços e começou a se mover ao som da
música distante. Puxou-a para junto do corpo, e ela aninhou a cabeça sob o queixo dele,
recostando-se enquanto se movia ao ritmo do oceano e da suave melodia que tomava o
ar. Cada vez mais unidos, eles se moviam lentamente até quase não se mexer. Ela estava
abrigada em segurança no corpo dele; encaixavam-se perfeitamente. Ele deitou a face no
alto da cabeça dela e se virou devagar, guiando-a. Enfim, pararam completamente de se
mover e ficaram apenas abraçados enquanto a noite caía em torno deles. Ryan passou
os dedos pelo cabelo dela e lhe beijou o topo de cabeça. Ela a virou para trás e
mergulhou os olhos nos dele, onde viu necessidade e desejo, e também esperança.
As pálpebras de Kelly se tornaram pesadas enquanto lentamente, tão lentamente,
ele baixava a cabeça até as bocas ficarem a um suspiro de distância sem se tocarem O
momento se estendeu, os hálitos se misturando, os olhares jamais se afastando. A música
desapareceu e ele a beijou.
Foi o mais delicado e romântico beijo que jamais lhe dera. Um beijo que mostrou a
ela, mais do que palavras poderiam, que aquele homem a adorava, a queria, precisava têla. E quando finalmente ele afastou a boca, apertou-a ainda mais nos braços e ficou
apenas segurando-a enquanto a lua os banhava em sua luz pálida.

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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks

CAPÍTULO NOVE

Kelly vestiu a camisola e observou o próprio corpo. Era uma linda roupa, feita de
renda e cetim, que flutuava sobre sua pele e lhe moldava todos os contornos. Mas se
sentiu exposta demais. Seus seios estavam grandes demais, o ventre, enorme.
Felizmente não conseguia ver os próprios pés.
Olhou para a porta, sabendo que agora devia ir para o quarto de Ryan, mas não
conseguia dar aqueles poucos passos. Não que não confiasse em Ryan. Não, era em si
mesma que não confiava. Já se fizera de idiota demais com aquele homem. Se voltasse
aos braços dele, perderia o resto do juízo que ainda tinha.
Suspirou e se deixou cair na beirada da cama. Sua hesitação era mais um triste
indício do abismo que havia em seu relacionamento. Nunca fora inibida com Ryan. Muitas
vezes ele se sentava com as costas na cabeceira da cama, concentrado no laptop
enquanto trabalhava no que só Deus sabia. Ela subia na cama completamente nua, e o
provocava e tentava até que o trabalho e o laptop fossem esquecidos. Ele costumava
dizer, rindo, que devia saber que não podia levar trabalho para casa. E agora ela nem
conseguia a coragem necessária para entrar no quarto dele.
Então Kelly ouviu uma batida à porta e uma fresta se abriu, por onde a cabeça de
Ryan passou, e ele a viu sentada na beirada da cama.
— Está tudo bem?
Ela acenou.
Ele abriu a porta e entrou. Ficou parado diante dela por um momento, então se
sentou a seu lado. Não disse nada. Apenas pôs a mão no colo dela, a palma para cima, e
esperou. Depois de um momento, ela a tomou. Ele enlaçou os dedos nos dela e apertou
com gentileza. Então se levantou e a puxou.
— Estamos cansados. Vamos apenas nos deitar e nos preocupar com o amanhã
quando chegarmos lá.
Aquilo não parecia o Ryan que ela conhecia. Era um homem que planejava tudo até
o último detalhe. Não só se preocupava com o amanhã mas também com o ano seguinte.
Tinha agendas, listas, planos, calendários. Mas aquele novo Ryan apenas se levantou,
levou-a para o próprio quarto e a fez se sentar na cama. Hesitou, talvez em respeito à sua
óbvia inquietação. Kelly respirou fundo, se deitou e se virou para o outro lado enquanto
ele se deitava.
A cama afundou e ela sentiu o calor dele assim que se aproximou dela sob as
cobertas, e logo o corpo dele se estendia às costas dela. Ele a envolveu com um braço e
a puxou para ainda mais perto. Esfregou o nariz no cabelo dela e deitou a face sobre sua
orelha. Kelly se esforçou para não se deixar vencer pela emoção. Havia tanto tempo e era
tão bom, tão certo. Sentira tanta falta dele. Inacreditável depois de tudo, mas sentira falta
demais dele.
— Sem passado — murmurou Ryan —apenas nós. Apenas agora.
Ela fechou os olhos. Tinha sido idiotice concordar em ignorar o passado. Podiam
não falar a respeito, mas estava lá o tempo todo, assomava sobre eles. Não havia como
esquecê-lo. O que estavam fazendo se chamava negação, e não era particularmente
eficaz.
Ele lhe beijou a nuca e se aconchegou um pouco mais. Afagou-lhe o ventre, um
gesto cheio de afeto e carinho. Mas o momento era, ao mesmo tempo, doce e amargo.
Era assim que devia ter sido o tempo todo entre eles.
— Apenas relaxe e durma, Kell. Quero apenas abraçá-la.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
E, estranhamente, era também o que ela queria.
Quando Kelly abriu os olhos pela manhã, a primeira coisa que percebeu foi como se
sentia confortável. E aquecida. A segunda foi que estava deitada em cima de Ryan. Não
apenas em cima, mas espalhada sobre ele, como se ele fosse dela. O rosto repousava no
ombro dele, a testa pressionada ao pescoço. Era como acordava todas as manhãs
quando viviam juntos. Arrasada ao perceber como se traíra, ela começou a se afastar,
mas Ryan apertou o braço em torno dela.
— Não saia. Isto é maravilhoso.
Ela ergueu a cabeça e o olhou nos olhos, onde não havia sinal de sono. Era
evidente que estava acordado havia algum tempo e contente em ficar lá, com ela
envolvida em torno dele como um cobertor.
— Uma coisa não mudou. — Ele tocou-lhe o rosto com a ponta do dedo. — Você
ainda é linda quando acorda.
Ela absorveu as palavras, o coração apertado com a sinceridade na voz dele. Antes
que pudesse se impedir, ela baixou a boca lentamente e tocou a dele com timidez.
Ryan pareceu surpreendido e satisfeito por ela tomar a iniciativa. Ficou imóvel
enquanto ela lhe explorava a boca. Lambeu-lhe os lábios e, quando ele os abriu, ela
mergulhou a língua de leve sob o lábio inferior antes de movê-la para encontrar a dele.
Mãos fortes lhe seguraram os braços e a mantiveram imóvel enquanto ele começava a
beijá-la de volta. Suavemente a princípio, como se a estivesse namorando, depois com
mais força. A respiração dele acelerou e se tornou áspera. Ele lhe chupou a ponta da
língua e ela mordiscou a dele. E, antes que pudesse perceber, Kelly estava deitada de
costas, e ele sobre ela, o joelho entre suas pernas enquanto lhe devorava a boca.
Quente. Intenso. Rápido e com força, então lento e gentil. Com uma das mãos, ele
abriu os dois pequenos botões que mantinham o corpete fechado. O tecido se separou e
os seios apareceram O cetim se prendeu aos mamilos rijos e eretos e ele puxou até que
um dos seios se libertou completamente. Ryan o afagou, então baixou a cabeça e o
tomou completamente na boca.
Uma onda de adrenalina percorreu as veias de Kelly, tensa e intensa. Ela se mexeu,
inquieta, debaixo dele enquanto a sugava com mais força. Mergulhou os dedos no cabelo
escuro, e então lhe segurou a cabeça para mantê-la no lugar, silenciosamente implorando
por mais.
Ele ergueu a cabeça, o olhar encontrou o dela, e Kelly sentiu um frio na barriga
quando viu a expressão dele.
— Quero fazer amor com você, Kell. Preciso tanto de você. Mas não farei se isso
piorar as coisas. Precisa querer tanto quanto eu.
— Quero mais do que você.
Era a verdade. Sempre o quisera mais do que ele a ela. E vê-lo agora, deitado sobre
ela, a boca na sua, lhe trouxe lembranças — lembranças mais felizes — de quando as
coisas eram perfeitas entre eles. Mas tinham sido? Alguma vez? De verdade? Ela afastou
a sombra escura que a atormentava e lhe acariciou o rosto.
— Também preciso de você, Ryan.
O olhar dele se tornou ardente. A satisfação e o triunfo brilharam enquanto ele
baixava a cabeça para lhe reclamar a boca de novo. Quando finalmente se afastou, Ryan
se deitou de lado e a tomou nos braços, segurando-a como se ela fosse uma preciosa
peça de cristal que ele temia quebrar.
Por um longo momento ele a acariciou com os olhos enquanto a conhecia de novo.
Levou uma das mãos ao ombro dela e desceu a tira da camisola pelo braço. Moveu a
mão para o outro lado e repetiu o gesto. Puxou a camisola até ela parar no ventre
intumescido.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Equilibrando-se num cotovelo, Ryan fez com que ela erguesse os quadris para tirar
a camisola e jogá-la para fora da cama. Agora estava vestida apenas com a calcinha, que
não parecia uma barreira para o olhar e o toque de Ryan. Ele lhe acariciou o ventre.
— Nosso bebê... — A voz era rouca e emocionada.
Baixou a cabeça e pressionou a boca no centro do ventre num beijo terno. O gesto a
emocionou tão profundamente que os olhos se encheram de lágrimas e um nó se formou
na garganta.
— Linda — murmurou. — Lamento ter perdido o crescimento dela, não ter visto sua
barriga aumentar e observar a transformação. Você é tão inacreditavelmente sexy.
— Ela? Também acha que é uma menina?
Ryan sorriu.
— Você sempre se refere ao bebê no feminino. Acho que me acostumei. E
realmente não me importo se é uma menina ou um menino. Apenas quero que vocês dois
estejam bem.
Kelly se sentiu meio tonta, como se tivesse bebido. Ele desceu o dedo para a pélvis
e por suas dobras úmidas e escorregadias. Ela pulou quando ele passou-o pelo clitóris e
então gemeu quando o desceu mais e o mergulhou em seu calor.
— Adoro a maneira como reage a mim. Sempre adorei.
Ela se mexeu, inquieta, enquanto ele continuava a exploração gentil da carne
sensível e trêmula. Ela já estava à margem, tão perto, e ele apenas havia começado a
tocá-la. Sentia-se impaciente, querendo-o naquele momento, mas também ansiando para
que a sensação não terminasse. Depois de meses sem ele, queria saborear cada
momento.
— Abra as pernas para mim — murmurou Ryan.
Incapaz de negar, ela relaxou as coxas e as deixou se abrirem enquanto ele se
movia para baixo. Ergueu-se por um momento, então colocou o joelho no colchão e
escorregou para o meio das coxas dela. Os olhos brilhavam, famintos, cheios de desejo,
enquanto se fixavam nos dela. Então ele se abaixou e inseriu uma das mãos entre as
pernas para abri-las ainda mais. Ela inalou com força e segurou a respiração em
antecipação quando a cabeça dele se abaixou. Ryan lhe beijou as dobras bem no clitóris.
Apenas um toque gentil como uma pluma, que lhe causou um espasmo de anseio.
Com dedos cuidadosos, abriu-lhe a carne, expondo-a para sua boca. Beijou- a de
novo, desta vez diretamente no botão rijo. Mesmo enquanto ela se arqueava, a língua
dele a lambeu toda. Kelly fechou os olhos, os dedos curvados em punhos, agarrando os
lençóis, e então os soltou enquanto o corpo estilhaçava. Era intenso. Era maravilhoso. Era
lindo. Alguma coisa dentro dela se despedaçou, ou assim pareceu. Ondas de prazer a
tomaram.
Ela arquejou suavemente, a respiração difícil. Os quadris se moveram ritmicamente
acima do colchão enquanto ele a trazia de volta do orgasmo. Quando ela recuperou os
sentidos e olhou para baixo, ele a observava, a satisfação brilhando nos olhos azuis.
Havia uma intensidade lá que a fez estremecer, como se ele lhe estivesse enviando uma
mensagem silenciosa. Você é minha.
Ryan amparou-lhe as pernas por baixo e se ergueu. Afastou-se para deixá-la
totalmente exposta a ele e então se colocou diante da abertura dela. Ela arquejou ao
senti-lo quente e rijo contra seu corpo. Então ele mergulhou nela com uma única e intensa
estocada. Foi o suficiente para jogá-la em outro orgasmo. Ainda estava se recuperando
quando ele se afastou e a tomou de novo. O corpo dela o apertou desesperadamente, ela
abraçou-o com força. Ambos
respiravam com dificuldade, emitindo sons ásperos
enquanto ele lhe segurava as nádegas e a erguia para mergulhar ainda mais
profundamente.
— Não consigo me conter — disse ele.
— É bom demais. Faz tempo demais. Sinto muito, querida.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Ela estendeu as mãos para ele, segurou-lhe os ombros e o puxou para si. Mesmo
assim, ele manteve as mãos firmes de cada lado dela, mantendo o peso do corpo distante
do ventre para não esmagá-lo. Penetrou-a de novo e de novo, com mais força desta vez,
e ela sentiu o tremor lhe tomar o corpo enquanto ele se mantinha profundamente dentro
dela. Beijou-a. Faminto. Apaixonado. Com um desespero que ela nunca sentira antes.
Sempre fora bom fazer amor com ele, mas jamais perdera o controle tão depressa.
Ela o beijou com a mesma fome, as mãos lhe acariciando as costas, então subindo
para manter a cabeça dele junto à sua. Os quadris de Ryan estremeceram sobre os dela,
e então apenas ficaram deitados lá, ele mal conseguindo se manter acima dela, sem lhe
tocar o ventre. Querendo aquela proximidade, ela o fez se deitar de lado e rolou com ele
para que os corpos se unissem As pernas estavam misturadas, os braços apertados um
no outro, e ele ainda pulsava dentro dela.
Kelly aninhou a cabeça sob o queixo dele e inspirou seu cheiro, sentiu a batida
errática do coração contra seu rosto. Era fácil esquecer tudo o que havia acontecido entre
os dois. Era fácil esquecer os meses de sofrimento e solidão. Era fácil imaginar que nunca
estiveram separados e que estavam na cama em casa, acordando no apartamento de
Ryan. o apartamento deles. E, por apenas um momento, ela se recusou a permitir que a
euforia desaparecesse sob o peso da realidade.

CAPÍTULO DEZ

Ryan ficou deitado com Kelly nos braços tentando compreender o que havia
acabado de acontecer. Na superfície, fora apenas um interlúdio sexual muito rápido e
quente. Um dos melhores de sua vida. Mas era mais profundo do que isso, maior. Não
fora apenas sexo. Seu coração parecia prestes a explodir. Estava tão impressionado que
não sabia como processar o que sentira. Tinha sido... Tinha sido mais intenso do que o
sexo jamais fora entre eles. Gostavam de sexo quente, alegre, brincalhão. Ele provocava.
Ela provocava. Mas tinha sido quase. desolador, e não conseguia se livrar do peso que
lhe esmagava o peito agora.
Acariciou-lhe as costas e lhe beijou o cabelo num esforço para acalmar o aperto na
garganta. Colocou uma das mãos entre eles para lhe tocar o rosto e o ergueu para olhar
nos olhos dela.
A emoção pura estava lá também. A devastação. Era como uma faca em suas
entranhas. Ela parecia tão vulnerável.
Tão frágil. E apavorada. Estaria com medo dele? Do que havia acontecido? Não
conseguiria suportar se ela se detestasse por ter se entregado à tensão avassaladora que
estava se construindo entre eles desde que a levara para Nova York.
— Em que está pensando? Diga que não se arrepende, Kell. Qualquer coisa, menos
arrependimento.
Ela balançou a cabeça lentamente, e Ryan sentiu alguma coisa se soltar dentro
dele. Alívio. Mas aquele era apenas o primeiro passo. Acariciou-lhe o rosto, adorando a
sensação da pele de cetim. Não importava o quanto dissesse a si mesmo que estava
melhor sem ela, que tinha sido bom se livrar dela, não podia mais mentir para si mesmo.
Queria-a. Queria-a de volta, não importava o que ela houvesse feito no passado.
Fora obrigado a analisar seu relacionamento depois que rompera o noivado e a expulsara
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
de seu apartamento e de sua vida. Talvez fosse parcialmente culpado. Talvez trabalhasse
horas demais. Talvez a tivesse negligenciado. Qualquer que fosse o caso, alguma coisa
tinha dado horrivelmente errado e estava determinado a descobrir a causa para que não
acontecesse de novo.
Incapaz de resistir, beijou-lhe a testa, depois cada pálpebra. Beijou-lhe gentilmente
uma face, a outra e então a boca, antes de mordiscar-lhe o queixo até a orelha.
Surpreendentemente, seu membro enrijeceu e cresceu dentro dela. Ele flexionou os
quadris contra ela e lhe arrancou um gemido enquanto os dedos dela lhe apertavam os
ombros. Escorregou com facilidade para fora e para dentro dela e lhe ergueu uma das
pernas com a sua para ter acesso melhor.
— Gosta assim de lado? Está se sentindo confortável? Ou prefere ficar em cima?
Ela ruborizou e ele sorriu, deliciado com aquele lado tímido. Kelly nunca relutara em
tomar a iniciativa no passado e, de repente, quis que voltasse a ser como tinha sido
antes. Sem esperar pela resposta, tomou-a nos braços e a ergueu para cima de seu
corpo, montando-a nele, as mãos no peito largo para se equilibrar. Era quente e apertada
em torno dele, e Ryan cerrou os dentes e respirou fundo. Já havia perdido o controle da
primeira vez. Agora queria que durasse.
Os joelhos dela apertaram-lhe as laterais do corpo, e ela ergueu os quadris um
pouco antes de se abaixar de novo e, mais uma vez, envolvê-lo em sua doçura quente e
sedosa, um movimento que o fez suar. Ela parecia inibida e um pouco insegura, e esta
nova timidez era atraente demais. Ryan estendeu as mãos para ela na tentativa de lhe
dar segurança, mas suas mãos lhe percorreram o corpo luxurioso, o ventre dilatado, os
seios maravilhosos, e ele se perdeu no anseio de lhe dar apenas o prazer do toque.
Acariciou-lhe os seios, adorando seu novo e mais cheio formato. Os mamilos eram
mais escuros, mais pronunciados, e sua boca se encheu de água com a vontade de
prová-los de novo. Puxou-os gentilmente, apenas o suficiente para fazê-los enrijecer. Ela
inspirou com força e se mexeu sobre ele até ele gemer e cerrar os dentes para se
controlar.
— Adoro seu corpo. Você é linda grávida, Kelly. Não consigo manter minhas mãos e
minha boca longe de você. Está me enlouquecendo.
Ela sorriu então, um sorriso brilhante que o atingiu profundamente, até a alma. Os
olhos dela se iluminaram, e ele sentiu como se o mundo lhe tivesse sido oferecido na
palma da mão dela. Inferno, se isso era tudo o que precisava para fazê-la sorrir, ele lhe
diria todos os dias como era linda.
Ela estendeu as mãos para as dele, enlaçou-lhe os dedos e as usou para se firmar
enquanto erguia os quadris para que ele escorregasse por sua doçura de novo. A
respiração dele escapou num longo suspiro e então ela o tomou de novo.
— Você me enlouquece — resmungou Ryan.
Ela sorriu, feliz com a admissão. Ele saboreou a sensação das pequenas mãos nas
suas tão maiores, que as apertavam enquanto ela repetia o movimento numa cavalgada
lenta, rítmica.
Os olhares se encontraram e se fixaram. Jamais se desviaram, jamais romperam o
contato enquanto ela fazia amor com ele, levando-o cada vez mais perto do alívio final. A
respiração de Kelly se tornou mais rápida e errática. O rosto ficou vermelho, e ela se
apertou em torno dele. Ela estava perto, ele mais perto ainda. Mas Ryan estava
determinado a cuidar dela primeiro. Precisou de cada grama de concentração. O corpo
dele se distendeu. Estava rígido, dolorosamente rígido, então ela pulsou em torno dele e o
molhou. O corpo de Kelly convulsionou, ele a puxou para baixo e tomou o controle dos
movimentos. Beijou-lhe a pele, o cabelo, disse-lhe num sussurro como era linda. Quando
o orgasmo estava prestes a terminar, o dele começou. Durante todo o tempo, seus dedos
se mantiveram unidos.
Ele levou as mãos enlaçadas para o meio dos corpos, encostadas aos corações
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
enquanto se entregava, a mente enevoada, o corpo abalado pelo mais doce, o maior dos
prazeres. Ela caiu sobre ele, o corpo sem forças enquanto ele lhe roçava a nuca com o
nariz. Ela o beijou abaixo da orelha e ele sorriu à doçura do gesto. Sentira falta do afeto
dela. Sentira falta da maneira como Kelly sempre o tocava, o beijava ou lhe sorria. Sentira
falta dela.
E agora tinha que encontrar um meio de garantir que não o deixasse de novo. Não
acreditava que o sexo fosse um remédio para todas as dificuldades de um
relacionamento. Sabia que não seria fácil. Havia muita desconfiança e mágoa entre eles,
mas de alguma forma precisavam recuperar o que já haviam tido. Não se permitiria
pensar em nada mais.
Ela era dele. Carregava seu bebê. Para ele, aquilo tornava tudo simples. O lugar
dela era a seu lado. Precisava dele para cuidar dela. Ryan queria cuidar dela. Se estava
disposto a esquecer o passado, então ela também deveria estar. Não era como se ele a
tivesse traído.
Mas ela demonstrava tanta raiva e mágoa. Alguma coisa dentro dela havia se
quebrado. Seria ele o responsável, teria feito aquilo com ela quando a expulsara de seu
apartamento? Mas o que ela esperava? Acariciou-lhe o cabelo e se obrigou a não pensar
no passado. Prometera a si mesmo, e a ela, que deixaria tudo para trás. E, se estava
disposto a fazer isso, então não via motivo por que ela também não poderia esquecer.
— Que tal desjejum na cama?
— Hum, parece maravilhoso. Acho que não posso me mexer e estou me sentindo
estranhamente preguiçosa.
Ele sorriu, porque não podia imaginar nada melhor do que os dois partilhando uma
refeição íntima na cama. Se fosse possível, não deixariam a cama pelo resto do dia.
— Vou pedir ao serviço de quarto. Fique aqui e se acomode com conforto. Voltarei
logo.
Ryan beijou-lhe a ponta do nariz e cuidadosamente se desembaraçou do abraço
quente do corpo dela. Levantou- se, cobriu-a com o lençol e se afastou um passo. Então
olhou para trás e a viu pegar seu travesseiro imediatamente, o que o fez rir porque era
isso o que fazia no passado. Pegou o telefone, pediu o desjejum e voltou para a cama.
— Não vou devolver seu travesseiro. Ele sorriu e descansou a cabeça na mão, o
cotovelo dobrado.
— Ninguém dirá que impeço o conforto da minha mulher.
Ela o estudou por um longo momento. Ele podia perceber a mente dela trabalhando
em alguma coisa e então apenas esperou.
— Eu sou? — perguntou ela, enfim.
— É o quê?
— Sua — disse apenas. — Preciso saber o que é tudo isso, Ryan. Estamos juntos
de novo? Não sei o que devo fazer e não quero presumir nada.
Ele inspirou com força, porque era importante demais lidar com aquilo da forma
certa. A última coisa que queria era atrapalhar tudo quando sentia que estava tão perto de
tê-la onde a queria.
— Acho que depende de você. Fui muito claro sobre o que quero, sobre para onde
quero levar nosso relacionamento. É hora de você decidir se quer a mesma coisa. Não
estou dizendo que devemos dar um enorme salto no escuro, mas podemos pelo menos
decidir ficar juntos para esclarecermos tudo.
Ela engoliu com força, e ele viu o medo de novo no olhar dela. E aquilo o deixava
apavorado, porque não sabia do que Kelly tinha tanto pavor. Seria ele um monstro? Ela
poderia culpá-lo ou responsabilizá-lo pela reação que tivera ao saber que ela lhe fora
infiel?
— Minha mente me diz que sou uma idiota por até mesmo considerar isso —
sussurrou Kelly, por fim.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— E o que seu coração diz?
Ela suspirou e olhou para ele, desamparada, os olhos azuis brilhando de emoção.
— Meu coração me diz que quer ficar com você. Não importa o quanto não deveria
querer, eu quero. Talvez esta seja uma péssima hora para discutir nosso relacionamento,
nossas mentes estão uma papa depois do sexo.
Ele tocou-lhe os lábios com a ponta de um dedo.
— Acho que é o momento perfeito, porque estamos com a guarda baixa. Somos
apenas nós. Sem barreiras. Sem muralhas. Apenas nós e como nos sentimos.
— Como você se sente, Ryan? Realmente quer isso?
— Sim, eu quero, Kell. Quero tanto que só a ideia de você se afastar me dá nós nas
entranhas.
— Mas eu nunca me afastei por vontade própria.
— Não vamos falar sobre isso, certo? O que quer que tenha acontecido no passado,
o ponto é que não quero que vá embora agora. Não suporto nem pensar nisso.
— Está bem. — A voz era baixa demais.
Ele ergueu-lhe o queixo com a ponta do dedo.
— Está bem?
— Quero ficar. Não sei como vamos fazer funcionar, mas quero tentar.
A alegria o percorreu, tão intensa que por um momento mal conseguiu respirar.
Precisou controlar sua reação porque tudo o que queria era agarrá-la, puxá-la para
seus braços e apertá-la tanto que ela jamais conseguiria fugir de seus braços.
— Faremos mais do que tentar. Vamos consertar tudo, Kell. Vamos fazer funcionar
desta vez.

CAPÍTULO ONZE

— Ela não desiste, não é? — murmurou Kelly enquanto observava Roberta se
aproximar da mesa deles, uma expressão determinada no rosto.
Ryan ergueu os olhos e suspirou, irritado. Depois de uma manhã e quase toda a
tarde na cama, eles haviam decidido jantar no restaurante, e ali estava Roberta,
circulando como um urubu.
E não era que Kelly sentisse ciúme. Roberta não era o tipo de Ryan, embora talvez
seu tipo tivesse mudado depois de ele romper o noivado. O que a incomodava era o
reconhecimento público do seu relacionamento. Aquilo apenas provava a alegação de
Kelly de que a família e os amigos dele a detestavam. Uma coisa que Ryan finalmente
estava começando a aceitar. Mas a aceitação não tornava as coisas mais fáceis.
Embora o amor devesse ser “tudo”, ele não era tão ingênuo a ponto de acreditar que
o ódio dos parentes e amigos não causaria uma tensão forte demais num relacionamento.
Quem podia ser feliz quando a família do amado fazia tudo o que podia para demonstrar
sua desaprovação?
Talvez os dois tivessem sido ingênuos demais da primeira vez. Talvez agora
pudessem ser mais fortes juntos. Mas então, o que aconteceria se e quando Ryan
finalmente conhecesse e aceitasse a verdade sobre Jarrod? E sobre a parte da mãe
dele? Mais uma vez, Kelly seria a responsável pelo afastamento entre ele e sua família.
Seu relacionamento poderia não sobreviver uma segunda vez.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Roberta parou à mesa e se debruçou para beijar Ryan em cada face, mas quando
ele se virou ela o pegou nos lábios e deixou uma mancha de batom Kelly suspirou e se
recostou, resignada a outra cena desconfortável. Ryan parecia, furioso.
— Roberta, que diabos! — Nem mesmo tentou ser educado.
— Oh, só passei para dizer adeus. Meu voo sai pela manhã, e esperava marcar um
dia para nos reunirmos quando você voltar para Nova York. Sua mãe gostaria que
fôssemos todos jantar com ela. — Lançou um olhar oblíquo de desdém e desafio para
Kelly, que, de propósito, bocejou e a olhou com enfado. Roberta franziu a testa, mas se
virou, ansiosa, para Ryan. — Vamos marcar para este fim de semana, talvez? Tenho
certeza de que Kelly não se importaria. Afinal, você e eu somos velhos amigos.
— Eu me importo. — A voz de Ryan era ríspida. — Agora, se isso é tudo,
gostaríamos de terminar nossa refeição.
— Eu lhe telefono — murmurou Roberta. — Conversaremos depois.
Sugerindo que seria quando ela não estivesse por perto, pensou Kelly. A mulher era
assim tão estúpida? Era tentador colocá-la no lugar dela, mas seria esforço demais, e
Kelly estava satisfeita em ficar onde estava e ver Roberta afundar na própria idiotice.
Roberta tocou o rosto de Ryan num gesto que repugnou Kelly, então escorregou
uma longa unha no queixo dele antes de balançar os dedos em despedida e se afastar.
Ryan se virou para Kelly, a boca cerrada.
— Deus, desculpe, Kell. Quero que saiba que não a encorajei.
Kelly sorriu e lhe passou um guardanapo para limpar o batom dos lábios.
— Sim, percebi. Ela...ela é interessante. E densa. Você foi muito claro na rejeição, o
que me faz pensar no que sua mãe lhe prometeu.
Ryan franziu a testa enquanto limpava os lábios. Então estendeu a mão para a dela.
— Não vamos arruinar um dia que até agora foi espetacular.
Kelly revirou os olhos.
— Só está dizendo isso por causa do sexo. Dê sexo a um homem e será o dia mais
maravilhoso da vida dele.
Ryan sorriu.
— Bem, isso é verdade, mas não é apenas sexo com você, Kell. É... mais.
Ela enrubesceu de prazer. Sua sinceridade a fazia acreditar nas coisas mais loucas,
como sua capacidade de solucionar as questões sérias do relacionamento dos dois.
— O que quer fazer depois do jantar?— perguntou Kelly apenas.
— Que tal andarmos de novo na praia? Podemos parar na cabana e dançar.
— Gostei de como dançamos ontem. Apenas você e eu, mais ninguém. Foi uma
noite maravilhosa.
Ele a estudou, os dedos acariciando os dela.
— Sim, foi. — Levou-lhe a mão à boca e beijou cada dedo antes de virá-la e lhe
roçar a palma com o nariz. — Pensei que amanhã pudéssemos sair e passear um pouco,
se estiver disposta. Não quero que caminhe, mas aluguei um conversível e podemos
dirigir para onde você quiser. O cabelo ao vento, esse tipo de coisa.
— Parece divertido. — Havia muito tempo que não se divertia, e sorriu.
— Adoro vê-la sorrir de novo. Fica linda quando sorri. Quero que seja feliz, Kell.
Farei tudo o que precisar para torná-la feliz.
Com aquelas palavras, ela sentiu um pouco da mágoa e da raiva diminuírem. Pela
primeira vez, começou a acreditar que podiam deixar o passado para trás e construir um
futuro. Ele parecia tão sincero. O que quer que tivesse pensado sobre ela um dia, parecia
disposto a esquecer e recomeçar. Por que ele iria tão longe se não gostasse dela?
— Quero que isto funcione — disse ela, ansiosa.
E, pela primeira vez, acreditou realmente que era verdade. Que eles poderiam
encontrar um caminho de volta ao que haviam sido um para o outro. Não era um sonho
impossível, não mais. Precisava ter a disposição para perdoar e se sacrificar, mas queria
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
aquilo acima de qualquer outra coisa.
— Deixe-me ver seus pés. — Ryan se sentou no sofá ao lado dela assim que
voltaram à suíte.
Pegou-lhe os pés e os descansou no colo. Examinou-os com a precisão de um
médico, testando-os para verificar o quanto estavam inchados. Então começou a fazer
uma massagem neles até ela gemer de prazer.
— Estão com aparência melhor, menos inchados. — Fez uma pausa, as mãos ainda
se movendo pelo arco, e olhou para o rosto dela. — Você está com uma aparência
melhor, Kell.
— Obrigada. Eu acho.
Ele ficou sério.
— Você parecia exausta quando a encontrei em Houston.
— Estava — admitiu. — Mas prefiro não falar sobre isso.
— Mais um assunto fora de questão?
— Nada de bom pode resultar disso.
— Fiquei preocupado por mantê-la de pé por tanto tempo esta noite. — Continuou a
massagem — Mas adorei dançar com você na praia. Foi uma boa desculpa para abraçála.
Ela sorriu e se recostou no sofá, permitindo que o prazer do toque dele lhe
percorresse o corpo.
— Eu me sinto bem, de verdade. Não tão cansada. Tenho mais energia agora do
que desde o começo da gravidez. Ficar em pé o tempo todo me exauria.
Ele ficou em silêncio, tenso, a expressão fechada. Massageou-lhe as solas dos pés,
depois os dedos. Parecia estar lutando entre a necessidade de falar e de ficar calado.
Finalmente prendeu o olhar no dela.
— Por que não descontou o cheque, Kelly? Queria que ficasse bem. Não importa o
que você fez, o quanto eu estava zangado ou como as coisas estavam entre nós, queria
que fosse cuidada. Tem ideia de como se senti quando a encontrei trabalhando naquele
lugar miserável e vivendo naquele buraco? Inferno, nem mesmo havia comida no
apartamento!
— Eu comia na lanchonete.
— Acha que isso me faz me sentir melhor? Por que não usou o dinheiro? Podia ter
terminado a faculdade. Podia ter vivido por muito tempo sem precisar trabalhar.
— Tenho orgulho. Foi abalado, mas ainda está inteiro. Acho que, se não fosse capaz
de encontrar um emprego e a escolha fosse morrer de fome ou usar o dinheiro que me
fazia me sentir suja, teria engolido o orgulho e descontado o cheque.
— Você me odiava tanto a ponto de preferir trabalhar naquelas condições
deploráveis a aceitar alguma coisa de mim?
— Não faça perguntas se não está preparado para ouvir as respostas.
— Acho que essa é uma resposta.
— Você também me odiava.
Ele balançou a cabeça.
— Não? Ryan, você disse e fez coisas terríveis. E me jogar aquele cheque com
tanto desprezo não foi o pior. Ainda me lembro de como me senti.
— O que esperava? Pelo amor de Deus, Kelly, eu tinha acabado de descobrir que
você havia dormido com meu irmão. Tinha meu anel no dedo, estávamos planejando nos
casar e você dormiu com meu irmão!
— E, é claro, ele não teve culpa nenhuma. — Havia desdém no tom dela. — Digame, Ryan, quanto tempo levou para você perdoá-lo? Quanto tempo, antes de você e ele
voltarem a jantar em família na casa de sua mãe?
O rosto dele ficou vermelho.
— Muito tempo, está bem? Eu estava furioso com ele e com você. Tive que decidir
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
se permitiria que o que aconteceu arruinasse nosso relacionamento. Ele é família. É meu
irmão.
Ela se esqueceu da promessa de não lembrar o passado.
— E eu era a mulher com quem pretendia se casar, Ryan. Não merecia mais nada
de você além de um cheque de pagamento por serviços prestados e “caia fora da minha
vida”?
— Eu estava zangado. Tinha o direito de estar. Não vou pedir desculpas por isso.
Mas estou aqui agora e quero que tentemos de novo. Nós dois cometemos erros.
Ela precisava se libertar do ressentimento e da raiva que ainda a tomavam sempre
que falavam do passado. Tinha que deixar tudo de lado porque não havia maneira de
vencer. Ela se recostou e balançou o pé, um sinal para ele continuar a massagem —
Então, para onde está pensando em me levar amanhã? Devo usar uma daquelas
echarpes e um dos enormes óculos de sol para parecer chique?
Ele relaxou quando ela mudou de assunto.
— Use aquele vestido de verão bem sexy que Jansen comprou para você.
— Qual? Ele comprou diversos.
— Com certeza você ainda não o viu, senão saberia a qual estou me referindo. É
vermelho. Perfeito para o seu colorido. Sem alças, adere a todos os lugares certos.
Apenas se certifique de proteger a cabeça do sol.
— Parece divertido.
— Vamos nos divertir muito juntos, Kell. Como costumávamos fazer. Éramos felizes.
Tinha que reconhecer que eram. Uma vez. Assim, ela acenou e ele sorriu.
— Já está pronta para a cama?
— Depende do que tem em mente.
Um brilho lhe iluminou os olhos, e as mãos dele subiram pelas pernas dela,
acariciando-as e alisando-as.
— Bem, eu certamente não estou pretendendo dormir. Não por muito tempo.
— Nesse caso, definitivamente me leve para a cama.
Ele se levantou, e então, inesperadamente, baixou os braços sob ela e a ergueu,
aninhando-a contra o peito.
— Ryan, ponha-me no chão, estou pesada demais!
Ele a silenciou com um beijo.
— A) Você ainda é uma coisinha de nada. B) Está sugerindo que não sou um
macho capaz de carregar sua fêmea por aí?
Ela riu.
— Esqueça o que eu disse e me carregue.

CAPÍTULO DOZE

Não havia palavras para explicar o quanto Kelly temia voltar para Nova York. Os
últimos dois dias tinham sido um sonho, a melhor das fantasias, sem um único incidente
desagradável. E agora estavam de volta à realidade. Voltando à fria e sombria Nova York.
Nem sempre se sentira assim sobre a cidade, mas agora ela guardava apenas
lembranças ruins para Kelly. Não tinha o otimismo de Ryan de que seriam capazes de
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
juntar os pedaços de seu relacionamento e fazê-lo funcionar quando havia tantos fatores
contra eles.
Como se sentisse sua relutância, Ryan passou um braço pela cintura dela e a
impeliu para dentro do avião. Alguns momentos depois, estavam sentados e ele se
curvava para fechar o cinto de segurança para ela.
— Vai ficar tudo bem, Kell. Confie em mim.
Ela gostaria de acreditar que seria fácil assim No entanto, apenas sorriu e se
acomodou para o voo.
Mas foi Ryan que pareceu ficar cada vez mais tenso à medida que o voo chegava ao
fim. Tocava-a o tempo todo e, a princípio, ela pensou que tentava tranquilizá-la, mas
depois percebeu que estava tentando tranquilizar a si mesmo. Pensaria ele que ela fugiria
assim que pousassem? Podia ficar tentada, mas dera sua palavra e pretendia cumpri-la.
Mesmo se aquilo a matasse.
Não haviam realmente conversado sobre o que aconteceria quando voltassem para
Nova York. Talvez não quisessem estragar seu tempo juntos na ilha. Novamente, quando
pousaram, havia um carro esperando por eles, e Ryan a apressou a sair do frio e se
abrigar no veículo.
Uma mistura de neve e granizo caía do céu cinzento, e ela estremeceu, embora o
carro estivesse aquecido. Era o choque de trocar o sol e as praias pelo frio intenso de
Nova York sob uma frente fria. A euforia que havia sentido na ilha desapareceu e a
depressão se instalou até que o humor de Kelly combinou com o clima.
Ryan puxou-a para si e a beijou.
— Vou pedir o jantar, vamos comê-lo diante da lareira e então farei amor com você o
resto da noite.
Ela suspirou e se aconchegou a ele. De algum modo, ele soube exatamente o que
dizer para diminuir seu humor sombrio.
— Eu me diverti muito com você na ilha. — Ela queria que ele soubesse pelo menos
daquilo.
— Estou contente. Também me diverti com você. Pareceu como nos velhos tempos,
apenas, melhor.
Ela acenou porque tinha sido melhor. Mais honesto. Ou talvez eles não tivessem
tomado um único momento como garantido, como haviam feito no passado. Tinham
desfrutado de cada minuto juntos, valorizado um ao outro. Haviam rido, amado e feito
amor. No último dia, nem mesmo deixaram a suíte.
Pediram as refeições no quarto e ficaram na cama, deixando-a apenas para um
banho preguiçoso também juntos. Ela gostaria que aquilo pudesse ter durado mais. Mas
precisariam enfrentar a realidade mais cedo ou mais tarde.
— Mandei Jansen marcar uma consulta com o médico amanhã. Quero ter certeza
de que tudo está bem com você e o bebê.
Ela sorriu, adorando a preocupação na voz dele.
— Passar o tempo com você foi a melhor coisa para mim, muito melhor do que
qualquer médico poderia conseguir.
Ele pareceu feliz com a resposta dela, feliz por ela admitir. Abaixou-se e a beijou
quando o carro parou diante do prédio do apartamento de Ryan. Ele desceu, ajudou Kelly
a sair do carro e a apressou para longe do frio. Enquanto subiam pelo elevador, Kelly
percebeu o quanto temia voltar para aquele apartamento. Para aquela cidade.
— O motorista trará a bagagem logo. Por que não se acomoda confortavelmente no
sofá? Vou acender a lareira e preparar bebidas para nós. Está com fome?
— Hum, não, mas gostaria de um jantar tailandês mais tarde. Por enquanto, vou
tomar um suco.
— Comida tailandesa parece bom. Sente-se, tire os sapatos e levante os pés.
Aposto que seus tornozelos estão inchados por ficar sentada com os pés para baixo por
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
tanto tempo.
Kelly riu diante da atitude de galinha choca, mas fez o que ele disse e se acomodou
no luxuoso sofá de couro. Tirou os sapatos e se encolheu à visão dos tornozelos inchados
enquanto erguia as pernas. Sabia que iria ouvir repreensões do médico e de Ryan, mas
não fizera mais nada além de comer bons alimentos, descansar e relaxar nos últimos
dias.
Ryan tinha acabado de colocar as bebidas na mesinha de café e se sentado ao lado
dela quando seu celular tocou. Era de se esperar; afinal, estivera fora do país por dias.
Não era como se fosse alguma coisa nova ele se dedicar tanto ao trabalho. No passado,
porém, ela nunca hesitava em tentar distraí-lo, uma coisa que o aborrecia e o excitava em
partes iguais. Mas agora ela apenas ficou sentada lá enquanto ele tirava seu smartphone
do bolso. Os lábios afinaram antes de atender.
— Alô, mãe.
Kelly suspirou. Não havia demorado nada. Ryan não vivia sob a influência da mãe,
mas a respeitava, como qualquer filho deveria, e, como a maioria dos filhos, era um pouco
cego no que se referia a ela. Ou talvez não quisesse ver a bruxa intrigante e vingativa que
Kelly sabia que era. Kelly acreditava que a mãe dele tinha algumas qualidades. Era
evidente que amava os filhos. Mas jamais seria alguém com quem Kelly poderia conviver.
Nunca.
— Sim, estamos de volta. Escute, mãe, por que mandou Roberta para lá? Não
gostei da sua interferência. Não vou tolerar que Kelly seja desrespeitada. Você tem que
aceitar que ela está comigo. Se não puder, então você e eu vamos ter problemas muito
sérios.
Kelly arregalou os olhos. Ryan estava mesmo furioso.
— Veremos. No momento, Kelly e eu precisamos de um tempo juntos sozinhos.
Avisarei quando estivermos prontos para jantar com você.
Ugh! Kelly precisou se controlar para não fazer uma careta. Mas aquela era a mãe
de Ryan, afinal. Esperava o neto dela, não importava o quanto Kelly quisesse que não
fosse assim.
— Também amo você, mãe. Agora preciso desligar. Acabamos de chegar e estamos
cansados. — Ryan desligou e atirou o celular no sofá.
Kelly olhou para ele, uma pergunta nos olhos.
— Mamãe pediu desculpas pelas ações de Roberta. E pelas dela. Quer jantar
conosco uma noite destas. Eu disse a ela que faria contato quando estivéssemos prontos.
Não havia nada que ela pudesse dizer, então ficou calada. Debruçou-se para pegar
seu suco de laranja e disfarçar a dificuldade do momento, então se recostou e tomou a
bebida devagar. Ele lhe observou os pés e franziu a testa.
— Seus pés estão muito inchados.
Ela suspirou.
— É. Aparentemente, estou retendo muito líquido.
— Estão doendo? Quer que faça uma massagem?
— Não, estou bem. Doem um pouco, mas no momento quero apenas ficar sentada,
descansar o resto da tarde e tomar muita água. O potássio no suco de laranja vai ajudar.
Ele se debruçou e lhe beijou a testa no momento em que a campainha soou.
— Deve ser nossa bagagem Volto logo.
Ela ajustou a posição para aliviar um pouco da tensão nas costas. A verdade era que
estava cansada depois de ficar sentada tantas horas no avião, mas também não queria
ficar em pé com os pés inchados e doloridos. Decidiu se deitar, virou de lado, aninhou
uma almofada entre as pernas e suspirou de alívio por ter os pés e o traseiro livres. Olhou
para as janelas e observou a neve, a chuva e o granizo caírem.
As chamas da lareira a gás davam à sala de estar um brilho quente e dourado e,
quando Kelly fixou os olhos nelas, a letargia a tomou. Estendeu a mão para a manta nas
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
costas do sofá e se cobriu, suspirando quando se sentiu confortável depois de uma
viagem tão longa. Suas pálpebras pesaram e não combateu a vontade de dormir. Ryan a
acordaria para o jantar.
Quando Ryan voltou, encontrou Kelly profundamente adormecida, a mão sob o
rosto. Ficou impressionado com o quanto parecia jovem e inocente. Nem um pouco como
uma mulher que jogaria um irmão contra o outro. Supunha que era injusto pensar assim
quando ambos estavam fazendo um esforço para superar o passado, mas aquelas ideias
sombrias estavam sempre voltando à sua mente.
O que teria feito para levar Kelly a procurar o conforto dos braços do irmão? E por
que tinha sido tão vingativa a ponto de querer arruinar seu relacionamento com seu único
irmão, quando Jarrod lhe dissera que iria confessar a Ryan que haviam feito sexo? Ryan
se sentia mais como pai do que irmão de Jarrod. Havia uma diferença de oito anos entre
eles, e o pai morrera quando Ryan era pouco mais do que um adolescente. Ryan
assumira então o papel paternal com Jarrod, que ainda era um menino. Levara-o a jogos
de beisebol, a eventos esportivos. Ao cinema. Estivera presente quando ele se formara no
ensino médio. Ajudara-o a se mudar quando fora para a universidade e apoiara sua
decisão de voltar para casa e seguir uma carreira de financista.
Nada deveria interferir na amizade entre irmãos. Certamente não uma mulher. Mas
uma havia feito isso: Kelly. Não apenas abalara seu relacionamento com Jarrod, do qual
ainda não havia se recuperado totalmente, como destruíra seu relacionamento com ela
própria.
Um relacionamento que estava determinado a reconstruir. Mas, para seguir em
frente, precisava saber o que dera errado no passado. Não importava o que haviam
prometido, em algum momento o passado precisaria ser enfrentado. Não podia ser
ignorado para sempre. Pegou o telefone e saiu silenciosamente da sala para ligar para
Devon e Cam.

CAPÍTULO TREZE

Ryan levou Kelly ao médico no dia seguinte. Kelly presumira que ela iria ao médico.
Sozinha. E que Ryan voltaria ao trabalho, já que ficara fora do escritório por quase uma
semana. Mas ele fora com ela, ficara na sala de exames e não saiu do seu lado durante
toda a consulta.
O médico fez alguns sons de desagrado a respeito dos pés inchados e observou
que ainda havia proteína na urina. Fez-lhe perguntas sem fim sobre como se sentia e
então lhe deu um sermão severo sobre a necessidade de levar as coisas com calma.
Ryan prestou atenção a cada palavra, e, quando saíram, Kelly estava certa que ele a
trancaria no quarto e não lhe permitiria sair até o bebê nascer.
Estava preparada para lutar, mas ele não disse nada. Quando chegaram de volta ao
apartamento, Ryan não a obrigou a se sentar e a erguer os pés, embora ela tivesse feito
exatamente isso assim que passou pela porta.
— Se não exagerar, acho que não há motivo para você não agir como de costume.
O médico concordou que preciso vigiá-la de perto e perceber quando não estiver se
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
sentindo bem para garantir que seu mal-estar não se torne alguma coisa mais séria. —
Estava preparado para ser razoável. — Pensei em sairmos para jantar esta noite, se
estiver disposta. Está frio, mas não há previsão de neve ou granizo. Sei que gostaria de
uma noite fora de casa.
Comovida por ele ter se lembrado, ela sorriu e acenou, entusiasmada. Adorava a
cidade à noite. Adorava as luzes, os restaurantes aconchegantes e as pequenas
cafeterias.
— Mandei Jansen comprar roupas mais quentes e um casaco para você até se
sentir disposta a sair para fazer compras. Irei com você quando quiser, é só dizer.
Kelly sabia o quanto Ryan detestava fazer compras, e ficou ainda mais emocionada.
— Também devemos pensar em fazer compras para o bebê.
Ela piscou, surpreendida. Mas então olhou para o ventre e percebeu que Ryan
estava certo. Tinha pouco tempo — apenas algumas semanas — até o nascimento do
bebê. Seis semanas? Mas muitas vezes eles chegavam antes. E estava totalmente
despreparada.
Em Houston, vivera de um contracheque para o outro, apenas rezando para ser
capaz de pagar o aluguel e economizar para quando o bebê nascesse. Não houvera
dinheiro para todas as coisas de que um bebê precisava. Agora, sentiu pânico ao
perceber como não se preparara para ele, e olhou apavorada para Ryan.
— Ei, não tive a intenção de estressá-la. Pensei que gostaria de fazer compras para
o bebê.
— Não tenho nada, Ryan. Roupa nenhuma de bebê. Sem berço. Sem fraldas. Oh,
Deus, nem mesmo sei de que preciso! Apenas me sentia feliz quando conseguia
sobreviver a mais um dia em Houston. Nunca pensei no futuro.
Ele a tomou nos braços e a segurou enquanto passava a mão suavemente pelo
cabelo dela.
— Não há pressa, está bem? Mandarei alguns livros e revistas sobre bebês e quero
que descanse enquanto os estuda. Faça uma lista. Vamos procurar as coisas juntos. Será
divertido, ainda temos muito tempo antes que ela chegue.
Kelly o abraçou com força.
— Obrigada. Acho que você impediu uma tempestade de lágrimas. Sinto-me
horrível. Nem mesmo tenho aqueles lindos sapatinhos de tricô. Que tipo de mãe vou ser?
— Uma mãe maravilhosa. Teve que lidar com muitas coisas difíceis. Agora, fique
tranquila, está bem? Por que não toma um bom banho de banheira e se apronta para
sairmos para jantar?
Ela puxou a cabeça dele para beijá-lo. Quase lhe disse que o amava, mas engoliu
as palavras e apenas o beijou. Ele a beijou de volta, demorando-se nos lábios dela,
saboreando-lhe o gosto e a sensação.
Kelly não devia se sentir tão triste por ainda o amar. Mas não conseguia se livrar da
dor no peito enquanto o afastava, se levantava e se dirigia ao banheiro.
— Recebi um telefonema de Rafael hoje— contou Ryan enquanto jantavam.
— Como ele está? Ainda não consigo acreditar que sofreu um acidente de avião,
perdeu a memória e se apaixonou por uma mulher que arrasou por causa de um terreno.
Ryan se encolheu.
— Você faz parecer tão...
— Pavoroso? Sei que é seu amigo, mas Rafael sempre foi um idiota arrogante.
Especialmente com mulheres. Jamais gostou de mim.
— Rafe mudou. Sei que parece estranho, mas depois do acidente ele ficou
completamente diferente. De qualquer maneira, ele e Bryony voltaram da lua de mel e
virão à cidade por alguns dias para vender o apartamento dele.
— Ele vai se mudar?
Aquilo chocou Kelly. Rafael era o próprio animal urbano. Amava a cidade. Amava
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
viajar. Não conseguia imaginá-lo em nenhum outro lugar.
— Vai, ele e Bryony vão morar na Moon Island.
— Uau! Rafael deve realmente estar apaixonado.
— É impressionante o que um homem apaixonado faz pela mulher que ama.
Kelly não lhe encontrou o olhar, e se concentrou no prato. Lagosta. Depois de seis
meses de comida de lanchonete, saboreava cada pedacinho. Comera mais na última
semana do que em todos os meses que vivera em Houston, e certamente ficaria enorme.
— Ele quer nos reunir num jantar.
Os olhos dela se entrecerraram.
— Defina “nós”.
— Eu, você, Dev, Cam e, é claro, Rafael e Bryony. Pensei que também seria bom
convidar mamãe, assim você terá a proteção de outras pessoas. Podemos nos livrar de
todos de uma vez só.
Parecia uma noite encomendada no inferno, não que fosse admitir para Ryan. Não
podia imaginar nada pior do que estar cercada pelos amigos mais íntimos de Ryan, que, é
claro, sabiam que ela havia traído Ryan com Jarrod. E então a querida mãezinha dele. Só
o que faltava na noite era. Jarrod.
Então, perguntou, a voz gelada:
— E Jarrod?
— Ele não será convidado. Não faria isso com você, Kell.
— E quando será?
— No fim da semana que vem. Vamos jantar no Tony’s. Você gosta de lá. É
agradável e casual. Podemos sair quando você quiser.
Ela suspirou. Ele se esforçava para tornar as coisas mais fáceis para ela, e o mínimo
que podia fazer era ceder um pouco. Os amigos eram importantes para ele. A mãe era
importante para ele.
— Está bem — Obrigou-se a sorrir. — É claro que podemos ir. Será bom ver todos
de novo. — Quase engasgou com a mentira, mas o alívio nos olhos de Ryan fez tudo
valer a pena.
— Vamos conseguir desta vez, Kell.
— Sinto-me melhor sabendo que pensa assim.
— Você tem dúvidas?
— Sim, estou apavorada. Não gosto da pessoa que me tornei, mas isso não muda o
fato de que hoje sou muito diferente da Kelly que você conheceu. Estou mais cautelosa
agora, mais dura. Não gosto disso em mim, mas aprendi a ser assim por necessidade.
Ele lhe tomou a mão nas suas e olhou para ela.
— Case-se comigo.
Ela puxou a mão num gesto brusco.
— O quê?!
De onde diabos ele tirara aquilo?
— Case-se comigo. — Ryan tirou uma caixa de joias do bolso, abriu-a com um
movimento do polegar, e ela viu um esplêndido anel de diamantes num berço de veludo.
Ele estendeu-o para ela, e Kelly ergueu o olhar para Ryan como se ele tivesse
enlouquecido.
— Não conseguia decidir se lhe dava seu antigo de volta ou lhe comprava um novo.
Guardei o antigo, ficou comigo o tempo todo em que você esteve ausente. Mas então
decidi que merecemos um novo começo. Assim lhe comprei outro para o novo começo.
A mão de Kelly tremia na dele, não conseguia falar. Ele balançou a cabeça num
gesto triste.
— Sei que não é a mais romântica das propostas. Nem mesmo sob as melhores
circunstâncias. Pretendia esperar até que fosse a hora certa. Até as coisas estarem
esclarecidas entre nós. Mas não consigo esperar mais. E quando meus amigos e minha
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família a virem de novo, quero que saibam que estamos juntos, que você é a mulher com
quem vou me casar e que tem todo o meu apoio.
Lágrimas lhe encheram os olhos, e o peito de Kelly doía de emoção. Ele não tentou
tirar o anel da caixa e colocá-o no dedo dela. Apenas o segurou na palma da mão,
esperando que ela tomasse a decisão.
— Mas, Ryan... — Estava desolada. — Há tanta coisa. O passado.
— Shh. Sei o que quer dizer. Temos muito a esclarecer, a conversar. Mas queria
fazer isso antes para que você saiba que, não interessa o que surja quando revisitarmos o
passado, ainda quero me casar com você. Preciso que saiba disso. Talvez ajude, talvez
torne as coisas mais fáceis saber que nada mudará entre nós agora.
Ela enxugou as lágrimas, determinada a não arruinar o momento.
— Nesse caso, sim, eu me caso com você.
A princípio, ele pareceu atônito, como se não tivesse esperado que ela concordasse.
Então sorriu, e havia tanta alegria no rosto dele que ela ficou sem fôlego. Os olhos dele se
iluminaram. Tirou o anel da caixa. A mão com que segurava a dela tremia enquanto ele
lhe colocava o anel. Então Ryan se debruçou sobre a mesa e a beijou. Quando se
afastou, manteve a mão na dela e, de repente, se levantou e a puxou.
— Vamos embora. Vamos para casa, onde poderemos ficar a sós. Apenas quero
mantê-la longe de todo mundo.
Ela se entregou aos braços dele ao passarem pelos outros clientes sem dar atenção
aos olhares que atraíam. Kelly não sentiu o frio quando chegaram à rua.
Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se aquecida por dentro.

CAPÍTULO CATORZE

Ao acordar, Kelly descobriu que Ryan não estava mais na cama. Um olhar para o
relógio lhe mostrou o motivo. Passava das 9h, e Ryan devia estar havia muito no
escritório.
Quando voltaram de St. Angelo, Kelly se mudara para o quarto de Ryan. Não houve
muita confusão, ele apenas carregou a bagagem dela para o quarto dele. E, quando
chegou a hora de dormir, ele a levou para a cama dele. E ela ficara. Com que facilidade
haviam voltado à antiga rotina. Exatamente como antes. Apesar de tudo, agora era
exatamente como antes.
Mas, mesmo agora, ela se perguntava o que dera errado. Ele não confiava nela.
Não a amava. Seu relacionamento era recente demais para suportar uma coisa tão difícil.
Quando as coisas deram errado, o relacionamento desapareceu. O que não lhe dava
muita esperança para o futuro.
Mas Kelly se recusava a pensar naquilo agora. Certo, era idiotice da parte dela se
permitir ter tanta confiança nele. Mas a esperança era um sentimento poderoso, tornava
as pessoas cegas para a verdade. Continuava a dizer a si mesma que desta vez. Talvez
desta vez as coisas dessem certo. Mesmo se significasse que teria que carregar para
sempre o peso de saber que o homem que amava pensava que o havia traído com outro.
Com o irmão dele.
Quisera confrontá-lo tantas vezes. Mas, agora, mordia o lábio e ficava calada. O que
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
ganharia? Ele podia não acreditar nela de novo. Ou podia. Mas mudaria alguma coisa?
Mudaria seu futuro? Nem mesmo a faria se sentir melhor. Ryan acreditava que mentira
para ele, mas queria esquecer e seguir em frente. Seria uma idiota por querer mais do
que isso? Seria estupidez querer que ele soubesse o quanto se enganara?
Era um dilema que enfrentava todos os dias desde que ela e Ryan voltaram a viver
juntos. Parte dela queria fazê-lo ouvir e exigir que aceitasse que se enganara se esperava
que ela desse aos dois uma nova oportunidade. Outra parte lhe dizia que seu orgulho e
sua raiva eram barreiras para a própria felicidade.
A vida com Ryan não era o que sempre quisera? Importava a maneira como atingira
o objetivo? Estudou o teto
enquanto pensava. Sim, importava. Não podia passar pela vida com ele sabendo
que, no fundo da mente de Ryan, estava a convicção de que ela dormira com outro
homem quando prometera ser fiel a ele.
Tinha que aceitar que o que realmente temia era que, quando confrontasse Ryan,
ele a rejeitaria de novo e, se isso acontecesse, não poderia passar a vida com um homem
que não confiava nela. Era uma covarde, mas a verdade era que o medo a impedia de
falar. Não o orgulho. Sabia que, se desta vez ele não acreditasse nela, jamais poderiam
ficar juntos.
Sem coragem para enfrentar a ansiedade, afastou os pensamentos negativos,
levantou-se e foi para a sala de estar, onde Ryan acendera a lareira para ela. E, como
sempre, havia uma bandeja com o desjejum à sua espera, com pães, queijo e diversas
frutas. Mas o que lhe atraiu o olhar de imediato foi um par de sapatinhos de bebê,
tricotados em macia lã amarela.
Ela pegou a coisinha delicada, um nó na garganta enquanto lia o cartão que a
acompanhava. Porque você disse que ainda não tinha um par. Amor, Ryan. Ela se deixou
cair no sofá, os olhos cheios de lágrimas. Encostou os sapatinhos no rosto, então tocou o
cartão e traçou as letras da assinatura.
— Não devia amá-lo tanto — sussurrou.
Deus, mas não podia se impedir. Ansiava por ele. Era a outra metade dela. Não se
sentia inteira sem ele.
E assim começou um ritual de sedução. A cada manhã, quando Kelly saía da cama,
havia um novo presente de Ryan esperando por ela. Um livro sobre bebês que descrevia
tudo o que ela precisava saber e ter, desde o nascimento até o primeiro aniversário. Dois
conjuntos de roupas para bebê, um para menino, outro para menina. Só para garantir, ele
escrevera no cartão.
Na quinta manhã, ele apenas deixou uma nota avisando que um presente a
esperava no quarto extra. Excitada, Kelly correu para o quarto que uma vez ocupara e
abriu a porta para ver não um presente, mas um quarto cheio de coisas de bebê. Um
carrinho. Um berço já montado. Uma coisinha para balançar. Uma grande variedade de
brinquedos. Uma mesa para troca de fraldas. Não conseguia absorver tudo. Nem mesmo
sabia para o que serviam muitas daquelas coisas. Como ele conseguira levar tudo para lá
sem que ela percebesse?
E então, ao lado da janela, viu uma cadeira de balanço com um cobertor amarelo
sobre um dos braços. Foi até ela e tocou com reverência a madeira, dando-lhe um
pequeno empurrão. A cadeira estalou e então começou a balançar gentilmente para a
frente e para trás. Como os pés já protestavam por estar em pé por tanto tempo, tirou o
cobertor e se sentou, olhando para o quarto cheio de tesouros para o bebê deles.
Estivera mais cansada nos últimos dois dias, mas não deixara Ryan perceber para
não se preocupar. Ele trabalhava tanto todos os dias para torná-los especiais para ela. Se
possível fosse, amava-o ainda mais do que antes.
Aquela noite haveria o jantar com os amigos e a mãe dele, mas nem isso diminuiu
sua alegria e sua felicidade. E talvez aquele tivesse sido o plano dele o tempo todo.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Demonstrar-lhe que a apoiava contra qualquer possível animosidade. Certamente
funcionara, porque não conseguia imaginar nada que pudesse afastá-la da nuvem de
felicidade que a cercava. Ryan gostava dela, queria se casar com ela. O que mais tinha
importância?
Agarrou-se ao pensamento mais tarde, enquanto estudava seu closet e tentava
encontrar o vestido perfeito para usar no jantar. Antes, nem mesmo lhe ocorreria que uma
roupa fosse sexy demais ou reveladora demais. Seu único critério era se ficava bem nela
e se Ryan gostaria. Mas agora temia que, com todos já pensando que era uma ordinária,
apenas aumentaria a convicção deles se usasse algo que não fosse muito conservador. E
aquilo a enfurecia. Não devia se importar com o que aquelas pessoas pensavam dela.
Mas não era tão fácil. Eram importantes para Ryan, e Ryan era importante para ela.
De repente, mãos quentes escorregaram por seu corpo e lhe abraçaram o ventre.
Ela foi puxada para um peito rijo, e lábios sensuais lhe mordiscaram a nuca. Ela suspirou
e relaxou contra o corpo de Ryan, o pulso acelerando.
— Há algum motivo para você estar no seu closet olhando para suas roupas?
Ela se virou nos braços dele, ergueu os braços para lhe enlaçar o pescoço e se
ergueu na ponta dos pés para beijá-lo.
— Você chegou cedo.
— Não podia esperar mais para vê-la. Então, qual é o problema com o closet?
— Apenas tentando encontrar alguma coisa adequada para usar esta noite. Algo
que não me faça parecer a prostituta que eles acham que sou.
A expressão dele se tornou mais gentil, e passou um dedo pelo rosto dela. Tomou-a
nos braços e recuou com ela até a cama, onde se deixou cair, levando-a.
— Você ficará linda com qualquer coisa que usar. Pare de se preocupar tanto.
— Eu sei, é bobagem, mas não posso evitar. Estou nervosa.
— Não quero que se preocupe, Kell. O passado está no passado. Não sei se algum
dia disse as palavras, mas eu a perdôo. E se posso perdoá-la, então eles terão que fazer
a mesma coisa.
Ela ficou completamente imóvel. A dor a atingiu como uma facada. Não que
soubesse como era uma facada, mas não podia ser pior. Ele a perdoava. Por uma coisa
que nunca fizera. Por uma coisa que ele se recusava a acreditar que ela não fizera.
Kelly precisou de todo o autocontrole para não reagir, para não atacar. Ryan não
dissera aquilo para feri-la, mas não podia imaginar o quanto estava sangrando por dentro
bem naquele momento. Ele tentava ser generoso, gentil, fazê-la se sentir bem. Beijou-a
na testa.
— Ambos cometemos erros. Eu também. O importante é que não permitiremos que
isso aconteça de novo.
Com os sentidos embotados, ela acenou. Não confiava em si mesma para falar. O
que poderia dizer? Fechou os olhos e se recostou nele. Ryan a abraçou e passou a mão
carinhosa nas costas ela, para cima e para baixo. Oferecia-lhe conforto. Acreditava que
estava nervosa por causa daquele encontro. Como podia saber que seu “perdão” a fazia
ter vontade de morrer?
Ele a sentou na beirada da cama, levantou-se e foi até o closet. Depois de um
momento, voltou com um lindo vestido azul meia-noite. Estendeu-o para ela e sorriu.
— Este fica fantástico em você.
Ela lutou para recuperar o controle dos pensamentos caóticos.
— É muito justo. Parece que estou grávida de 11 meses nele.
— Adoro seu ventre. Adoro que mostre ao mundo que está grávida do meu bebê.
Você ficará linda. Use-o para mim.
Mulher nenhuma recusaria aquele pedido. Ela acenou, o coração ainda doendo. Ele
estendeu o vestido na cama, então se debruçou para beijá-la de novo.
— Vou deixar que se apronte. O motorista virá nos buscar dentro de uma hora.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Ela se segurou a ele por mais um pouco, então o soltou, e ele se afastou em direção
ao banheiro, já tirando a gravata.
Ela olhou para o vestido. Era uma criação fantástica. E certamente enfatizaria sua
gravidez, o que Ryan parecia querer. Fechou os olhos. Ele a perdoava. Queria chorar. Era
ela que devia oferecer perdão, não ele.

CAPÍTULO QUINZE

Kelly tentou controlar seu pavor crescente quando ela e Ryan entraram no
restaurante. Ryan disse alguma coisa em voz baixa ao maitre e eles foram levados para
uma mesa nos fundos. Ryan abriu um amplo sorriso quando viu Rafael já sentado ao lado
de uma mulher que Kelly presumiu ser a esposa dele, Bryony. A mãe de Ryan também
estava sentada, assim como Devon e Cameron.
Maravilha. Eram os últimos a chegar e fizeram uma “entrada” espetacular. Kelly ficou
parada ao lado de Ryan, que cumprimentou cada um e então disse:
— Vocês todos se lembram de Kelly, é claro. Menos você, Bryony. — Virou-se para
Kelly. — Kelly, esta é Bryony de Luca, esposa de Rafael. Bryony, esta é minha noiva, Kelly
Christian.
Houve um silêncio absoluto depois daquela declaração. As expressões variavam do
mal disfarçado horror da mãe dele à total incredulidade nos rostos dos amigos. Até Bryony
pareceu cética enquanto se levantava para estender a mão para Kelly. Foi então que Kelly
percebeu que Bryony estava tão grávida quanto ela.
— Prazer em conhecê-la — disse Bryony com um sorriso que pareceu forçado.
Droga, o quanto Bryony poderia saber sobre ela?, pensou Kelly. Não frequentava
aquele grupo havia tanto tempo assim. Mas, como os outros, ela também não estendeu o
tapete de boas-vindas. Kelly lhe lançou um sorriso nervoso e se sentou onde Ryan
indicou. Aquela seria uma longa noite.
— Como você está, Kelly? — perguntou Devon, educadamente, sentado ao lado
dela.
Kelly presumiu que apenas a cortesia comum o levara a fazer a pergunta.
— Estou bem — respondeu, a voz baixa. — Nervosa.
Ele pareceu surpreendido pela sinceridade dela.
Ryan conversou com os amigos e a mãe. Kelly ficou sentada em silêncio ao lado
dele e observou o comportamento de todos a sua volta. Ninguém tentou incluí-la na
conversa, e a única vez em que fez um comentário o silêncio constrangido que se seguiu
lhe mostrou tudo o que precisava saber.
Eles a toleravam pelo bem de Ryan, mas Kelly não deixou de notar os olhares
lançados na direção dele quando pensavam que ela não percebia. Olhares que diziam
claramente: “Você enlouqueceu?”
Kelly sentiu-se muito grata quando o jantar foi servido, porque então tinha alguma
coisa a que prestar atenção. Sentia-se totalmente fora de lugar. Aquela era uma das
piores noites de sua vida, e contava os minutos até que ela e Ryan pudessem partir.
A comida parecia seca em sua boca. O estômago queimava e, depois de apenas
algumas garfadas, desistiu de tentar se forçar a comer. Apenas tomava água em
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
pequenos goles e fingia que estava de volta à praia com Ryan, prestes a dançar ao luar.
Aquele era o problema. Estava vivendo num mundo de fantasia, evitando a realidade. E a
realidade era estar ali, sentada a uma mesa de jantar com cinco pessoas que a julgavam
e condenavam. A realidade era viver com um homem — um homem com quem pretendia
se casar — que sentia a necessidade de perdoá-la por pecados que não havia cometido.
Em que momento de sua vida decidira que não merecia nada melhor do que aquilo?
Era uma descoberta assustadora. As máscaras haviam caído. Por que suportava tudo
aquilo? Estava preparada para pôr um fim em tudo quando ergueu os olhos e viu Jarrod
se aproximar da mesa. Ele se debruçou e beijou a mãe, então ergueu uma das mãos para
cumprimentar os outros antes de se virar e olhar para ela e Ryan.
Kelly ficou coberta de um suor gelado. Ryan enrijeceu ao lado dela, e os outros se
calaram. Era como se todos à mesa esperassem pela inevitável explosão de fogos de
artifício. O coração dela batia com força, o estômago dava nós, e queria morrer de
humilhação. Mais do que isso, estava tão furiosa que mal conseguia enxergar.
— Desculpem, estou atrasado — disse Jarrod. — Fiquei preso no trânsito.
Enquanto ele se sentava na cadeira vazia ao lado da mãe, a bile subiu à garganta
de Kelly. Seu coração estava em pedaços. Sangrava por dentro, tão ferida, tão devastada
que queria morrer. Recusou-se a olhar para Ryan. Como ele podia ter feito aquilo com
ela? Não conseguia acreditar, por um momento, que Ryan tivesse convidado o irmão.
teria?
Todos a olhavam. Provavelmente pensavam que merecia toda a humilhação que
recebia naquela noite. Mas Kelly se recusou a devolver os olhares. Não lhes daria a
satisfação de ver como estava devastada. Em vez disso, olhou fixo para Jarrod Beardsley
e a mãe dele. Como deviam odiá-la. A frieza nos olhos de Ramona Beardsley alcançou
Kelly e dizia claramente: “Você nunca vencerá, jamais permitirei.”
O que havia feito além de amar Ryan? Agora, chega Kelly merecia mais, melhor.
Cansara-se da penitência. Cansara-se de ser olhada com desprezo, condenada e
perdoada.
Obrigou-se a sorrir para Ryan, empurrou a cadeira para trás e se levantou devagar,
como se não tivesse uma só preocupação no mundo. Olhou para o outro lado da mesa,
para Jarrod e a mãe dele e deixou que a força total de seu ódio brilhasse. Não se
importava se jamais a aceitassem. Não os aceitava. Podiam os dois ir para o inferno.
Compraria para eles um bilhete de primeira classe só de ida. Então virou- se e olhou para
todos à volta da mesa.
— É o fim para mim. Todos vocês ficaram sentados aí e demonstraram sua
desaprovação. Lançaram olhares de piedade a Ryan. Julgaram-me e condenaram-me,
acharam que não sou boa. — Então se virou para Jarrod, a voz agora um sibilo baixo: —
Seu desgraçado! Fique longe de mim e do meu bebê. Verei você no inferno antes de
permitir que volte a se aproximar de mim.
Ryan começou a se levantar, mas ela o empurrou de volta à cadeira.
— Não, fique, você não quer desapontar sua família e seus amigos.
Antes que ele pudesse reagir, ela se afastou. Passou pela entrada para os banheiros
e continuou a andar. Saiu para a rua gelada, estremecendo porque não pegara o casaco.
Aceitou o frio, agradeceu pelo soco gelado no rosto. A cabeça doera a tarde toda, mas
depois de passar a última hora com os dentes cerrados, o queixo rijo, a cabeça explodiu
numa dor insuportável.
Andou um quarteirão antes de o frio penetrar a camada fina do vestido. Parou e
acenou para um táxi que passava, mas não parou. Precisou fazer outras duas tentativas
antes de conseguir que um a atendesse. Mal conseguiu dar o endereço do apartamento
de Ryan antes de as lágrimas começarem a descer.
O primeiro pensamento de Ryan foi de seguir Kelly, mas estava furioso, e aquilo
tinha que acabar ali e naquele momento. De jeito nenhum permitiria que alguém fizesse
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Kelly se sentir como se sentira aquela noite. Levantou-se de um pulo, bateu os punhos na
mesa e se debruçou em direção ao irmão.
— Que diabos foi isso?! — Incluiu a mãe no olhar enfurecido e não recuou quando a
viu se encolher diante da raiva dele.
Jarrod pareceu assustado, o rosto pálido, a aparência doentia. Mas naquele
momento Ryan não se importava. Já suportara demais. Aquele fora um erro tremendo, e
não deixaria passar daquela vez. Jamais deveria ter deixado passar. Jamais deveria ter
minimizado a clara inimizade entre Kelly e sua família.
A mãe se debruçou à frente, a expressão grave.
— Não fique zangado com ele, Ryan. Eu o convidei. Se insiste em ter um
relacionamento com aquela mulher, em algum momento teremos que nos sentar e abrir o
jogo. Ou pretende não ver sua família nunca mais? Ela já não nos causou sofrimento
demais?
Ryan deixou escapar um palavrão que levou a mãe a se encolher de novo.
— Vocês já não a magoaram demais? Isso termina esta noite. Para mim também é o
fim. Não vou mais sujeitar Kelly à sua insensibilidade e às suas tentativas claras de nos
separar. — Virou-se para os amigos. — Rafael, foi bom ver você e Bryony de novo.
Espero vê-los antes de deixarem a cidade.
Acenou para Devon e Cam, que pareciam querer estar em qualquer outro lugar
menos ali. O que fazia três deles.
— Sinto muito, cara... — murmurou Devon.
Sem olhar nem mais uma vez para a mãe ou o irmão, Ryan deixou a mesa e saiu à
procura de Kelly, esperando que ainda não tivesse passado pela saída. Ele a levaria para
casa, pediria perdão e lhe prometeria que nunca mais a sujeitaria a outra reunião com
seus amigos e sua família.
Não devia ter aceitado aquele jantar, mas tivera a esperança, não sabia com certeza
de que, mas tinha sido um maldito idiota e magoara Kelly no processo. Andou em direção
à sala dos casacos e viu o de Kelly ainda pendurado. Então correu para a entrada e não
achou sinais dela. O medo lhe apertou as entranhas.
— Você viu uma mulher grávida sair? Pequena, loira, usando um vestido azul?—
perguntou ao maitre.
— Sim, senhor, ela passou para fora há apenas alguns segundos.
Ryan praguejou.
— Viu para que lado ela foi?
— Não, senhor, mas pode se informar na rua se alguém arranjou um táxi para ela.
Ryan correu para a noite, rezando para que ela tivesse ido para casa. Mas e se não
tivesse? E se finalmente achasse que já aguentara o bastante e o tivesse mandado para
o inferno junto com todos os outros?
Depois de receber a informação de que Kelly fora vista descendo a rua, Ryan entrou
em pânico e correu. O medo o invadiu à ideia de ela estar sozinha, transtornada, a pé
quando não podia andar. Esbarrou em pessoas e então a viu, entrando num táxi no
quarteirão seguinte. Gritou o nome dela, mas a porta do táxi se fechou e o carro saiu,
deixando-o em pé na calçada, o coração prestes a explodir.
Acenou para um táxi que passou e não parou; mas conseguiu o seguinte. Durante
toda a corrida para casa, rezou para que ela estivesse lá. Quando viu o porteiro,
perguntou:
— Viu se a srta. Christian entrou há alguns minutos?
— Sim, senhor. Ela chegou pouco antes do senhor.
O alívio o deixou tonto. Entrou correndo no apartamento.
— Kelly? Kelly, querida, onde você está?
Sem esperar resposta, foi para o quarto e a viu sentada na cama, o rosto pálido e
tenso de dor. Ela ergueu o olhar, e ele se encolheu diante do vazio nos olhos dela.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Estivera chorando.
— Pensei que podia fazer isso. — A voz era vazia como os olhos. — Pensei que
podia seguir em frente, esquecer e aceitar que os outros pensassem o pior a meu respeito
desde que você e eu estivéssemos bem de novo. Fiz um mal enorme a mim mesma.
— Kelly. — Alguma coisa na expressão dela o fez se calar, e uma dor insuportável
lhe apertou o peito enquanto a observava recuperar o controle.
— Fiquei sentada lá enquanto seus amigos e sua mãe me olhavam com
repugnância, enquanto olhavam para você com uma mistura de pena e incredulidade.
Tudo porque me aceitou de volta. A ordinária que o traiu da pior maneira possível. E disse
a mim mesma que eu não merecia. Que nunca mereci. Mereço coisa melhor.
Ryan se encolheu diante da imensidão da dor que viu nos olhos dela. E então ela
riu. Um som áspero, horrível, que lhe feriu o ouvido.
— E esta noite você me perdoou. Ficou diante de mim e me disse que não
importava mais o que havia acontecido no passado porque você me perdoava e queria
que fôssemos em frente. — Curvou os dedos em bolas apertadas, o ódio brilhando nos
olhos. A expressão se transformou em desprezo, as lágrimas descendo. — Bem, eu não
perdoo você. Nem esqueço que você me traiu da pior maneira como um homem pode
trair a mulher que ama e a quem prometeu proteção.
Ele deu um passo para trás, abalado pela fúria em sua voz.
— Você não me perdoa?!
— Eu lhe disse a verdade aquele dia. Eu lhe supliquei que acreditasse em mim
Fiquei de joelhos e implorei. E o que você fez? Assinou um maldito cheque e me mandou
ir embora.
Ryan deu outro passo para trás, a mão subindo para o cabelo. Alguma coisa estava
errada, terrivelmente errada. Tanto daquele dia era apenas uma mancha confusa em sua
mente... Lembrava-se dela de joelhos, o rosto coberto de lágrimas, como Kelly erguera a
mão e a pusera em sua perna e implorara. Aquilo o deixava doente. Não queria sentir de
novo o que sentira naquele dia, mas de alguma forma isso era pior, porque havia alguma
coisa terrivelmente errada nos olhos e na voz dela.
— Seu irmão me atacou. Ele me forçou. Não pedi suas atenções. Fiquei com os
hematomas que ele me causou com sua brutalidade por duas semanas. Duas semanas.
Estava tão atônita com o que ele havia feito que tudo em que conseguia pensar era ir até
você. Sabia que você consertaria tudo, me protegeria. Cuidaria de mim. Sabia que faria
as coisas voltarem a ficar bem. Tudo em que conseguia pensar era correr para você. E,
oh Deus, corri, e você olhou bem através de mim.
O nó de dor no estômago de Ryan aumentou, e seu peito se apertou tanto que ele
não conseguiu respirar.
— Você não quis me ouvir. Você se recusou a ouvir tudo o que eu tinha a dizer. Já
havia tomado sua decisão.
Ele engoliu em seco e cobriu a distância entre os dois, temendo que ela caísse se
não a fizesse se sentar. Mas ela o afastou e lhe virou as costas, os ombros sacudindo
enquanto os soluços rompiam o silêncio do quarto.
— Estou ouvindo agora, Kelly — obrigou-se a dizer. — Conte-me o que aconteceu.
Acreditarei em você, juro.
Mas sabia. Já sabia. Tanto daquele dia se repetia de novo e de novo em sua mente,
e de repente foi capaz de ver claramente o que se recusara a perceber antes. E aquilo o
estava matando. Seu irmão mentira. Não apenas mentira, mas distorcera a verdade com
tanta esperteza que Ryan fora totalmente enganado.
Então Kelly se virou, os lindos olhos assombrados, a expressão de derrota o
atormentando ainda mais.
— Não interessa mais se acredita ou não em mim. Não acreditou quando importava.
Ele tentou me estuprar, me atacou, me tocou, me feriu. E quando lutei, o empurrei e lhe
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
disse que lhe contaria o que havia feito, e ele me falou que você não acreditaria em uma
única palavra do que eu dissesse. E sabe o que foi engraçado? Eu disse a ele que estava
enganado. Que você me a... amava e o faria pagar por me machucar. — Ela se
interrompeu, uma nova onda de soluços a abalando.
Oh, Deus. Oh, Deus. O que havia feito?! Ryan se lembrou do telefonema do irmão
como se tivesse sido na véspera. Não acreditara nele. No começo. Não até Kelly chegar,
agitada, chorosa, contando-lhe exatamente a mesma história que Jarrod lhe dissera que
ela contaria.
— Ele lhe falou a verdade. — A voz de Kelly agora era cheia de desdém. — Ele lhe
contou exatamente o que aconteceu, apenas disse que era tudo uma mentira que eu
havia inventado porque não queria que você soubesse o que acontecera. Queria garantir
que, quando eu lhe contasse tudo, você não acreditaria numa só palavra. E como fazer
isso melhor do que lhe dizer que eu alegaria ter sido atacada, que eu alegaria que ele
havia tentado me estuprar?
Ryan olhou para ela, o horror da compreensão do que realmente havia acontecido
naquele dia o atingindo com força total.
— E ele teve toda a razão. Corri direto para você e lhe contei que seu precioso
irmão havia acabado de tentar me estuprar, e você me olhou com olhos gelados e me
chamou de mentirosa. Tudo porque ele havia lhe dito que era isso o que eu lhe diria.
— E ele fez isso? Ele a estuprou, Kelly?
— Ele me tocou. Tocou-me de uma forma que só você tinha o direito de me tocar.
Ele me bateu, me machucou. Não é o bastante?! — A voz se ergueu num tom histérico. —
A ironia de tudo foi que você estava com tanto medo de que eu estivesse grávida do bebê
dele... Nunca fizemos sexo, embora Deus saiba que ele tentou.
Ela se interrompeu de novo e mergulhou o rosto nas mãos. Ele queria se aproximar
dela, tomá-la nos braços, mas temia que, assim como a rejeitara antes, ela o rejeitasse
agora.
Kelly tirou as mãos do rosto num gesto brusco, o rosto devastado e arrasado pela
dor, a mesma dor que o estraçalhava agora.
— Eu devia ter podido contar com você. Entre todas as pessoas no mundo, você
devia ter sido aquele que acreditaria em mim. E não consigo superar isso. Você devia ter
me abraçado e me dito que tudo ficaria bem. Estava tão entusiasmada aquele dia... Tinha
acabado de fazer um teste de gravidez e descoberto que esperava seu bebê. Estava tão
excitada e nervosa. Com tanto medo da sua reação. Mas tão feliz por estar grávida do
seu bebê.
Ela parou de novo, os soluços lhe fechando a garganta. Tornou a enterrar o rosto
nas mãos de novo, os ombros sacudindo com violência.
— Kelly, lamento tanto. Pensei. É meu irmão. Nunca imaginei que pudesse fazer
uma coisa dessas. Ele nunca demonstrou animosidade contra você. Parecia aceitá-la tão
bem. Vocês dois pareciam amigos. Jamais sonhei que ele fosse capaz de fazer uma coisa
tão desprezível.
Ela o observou com olhos sem expressão.
— Mas acreditou que eu era.
O silêncio súbito foi uma acusação clara. Ryan olhou para ela, congelado. Não tinha
defesa, porque na ocasião acreditara em Jarrod. Fizera uma escolha, e não escolhera
Kelly. Mesmo quando ela lhe implorara. Havia lhe contado a verdade. Fora procurá-lo em
busca de proteção. Chegara ferida e apavorada. E ele a expulsara depois de fazê-la se
sentir uma prostituta. Tudo porque não conseguira imaginar que seu próprio irmão, sua
carne e seu sangue, fosse capaz de cometer uma atrocidade daquelas. Parecera-lhe que
era tudo o que Jarrod dissera que era, uma acusação ridícula para esconder o pecado da
infidelidade.
Os olhos dele queimavam. A garganta se fechou num nó. Pela primeira vez na vida,
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
enfrentava uma situação com a qual não sabia lidar. Kelly tinha todo o direito de odiá-lo.
De repente, ela levou a mão à cabeça e esfregou a testa. Balançou e então se dobrou
como se estivesse prestes a cair.
— Kelly! — Ryan se aproximou, mas ela se endireitou e estendeu o braço para
mantê-lo a distância.
— Fique longe de mim! — A voz era baixa e desesperada.
— Kelly, por favor. — Era sua vez de implorar. E, Deus, imploraria. Faria qualquer
coisa para mantê-la lá até que a compensasse por tudo. — Amo você, jamais deixei de
amar você.
Ela ergueu de novo os olhos cheios de lágrimas e dor.
— O amor não devia causar tanta dor. Amor é confiança.
Ele deu um passo à frente de novo, desesperado para abraçá-la, para lhe oferecer o
conforto que lhe negara quando ela mais precisara dele. Raiva e mágoa lutaram pela
supremacia. O pesar cresceu nele até achar que explodiria. O ódio lhe queimava as veias
como ácido.
Ela voltou a erguer a mão para a cabeça e começou a andar para passar por ele.
Ryan lhe segurou o cotovelo, qualquer coisa para fazê-la parar, porque sabia no fundo do
coração que estava de partida. Ele não merecia uma segunda oportunidade. Não merecia
que ela ficasse. Não merecia o amor dela. Mas queria, queria mais do que queria viver.
— Por favor, não vá.
Ela se virou para ele, uma tristeza tão profunda no olhar que apenas vê-la doía.
— Não compreende, Ryan? Nunca vai funcionar para nós. Você não confia em mim.
Sua família e seus amigos me odeiam. Que tipo de vida será esse para mim? Mereço
mais do que isso. Levei muito tempo para compreender. Aceitei tudo depois de jurar que
nunca mais aceitaria. Concordei em me casar com você e acreditei que poderíamos ter
um futuro. Mas fui uma idiota. Alguns obstáculos são intransponíveis.
Ela fechou os olhos quando outro espasmo de dor lhe cruzou o rosto. E balançou, a
mão se erguendo para se apoiar na cômoda.
— Kelly, o que está errado?
Ela passou a mão pela testa e abriu os olhos, mas seu olhar não tinha foco.
— Minha cabeça.
Um gemido lhe escapou e ele soube que havia alguma coisa muito errada. Algo
além da angústia emocional que ela estava sofrendo. O rosto dela ficou cinzento, e o
medo dele cresceu. O olhar de Kelly se encheu de pânico e, por uma fração de segundo,
olhou para ele como se pedisse ajuda. Antes que Ryan pudesse reagir, os joelhos dela se
dobraram e ela caiu sem emitir um som.

CAPÍTULO DEZESSEIS

— Kelly!
Ryan se deixou cair ao lado dela. Sua reação imediata foi tomá-la nos braços, mas
ela estava rígida, e seu corpo convulsionava. Uma leve espuma se formou em seus lábios
e o queixo estava duro. Freneticamente, ele pegou o celular e ligou para a emergência.
— Preciso de uma ambulância. Minha noiva... está grávida. Acho que está tendo
uma convulsão. — Sabia que não conseguia fazer sentido.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Seu coração e sua mente gritavam, enquanto tentava se manter calmo. O operador
da emergência fez perguntas, e ele respondeu mecanicamente enquanto se debruçava
sobre Kelly, desesperado para ajudá-la.
Depois de um momento, o corpo dela amoleceu e sua cabeça rolou para o lado.
Ryan colocou os dedos em seu pescoço, rezando para encontrar o pulso. Deitou a
cabeça sobre o peito dela e sentiu sua respiração.
— Não me deixe, Kelly — sussurrou, desesperado. — Por favor, fique comigo. Amo
tanto você...
Ergueu-lhe a mão inerte, aquela em que ela usava o anel dele, e a pressionou
contra o rosto. Beijou-lhe a pele, a respiração áspera, soluçante. Jamais tivera tanto medo
na vida. Os minutos pareciam demorar uma eternidade. O operador continuou a lhe fazer
perguntas e a encorajá-lo. Mas Kelly estava inconsciente e, quanto mais tempo se
passava com ela lá, imóvel, mais o pânico de Ryan e a sensação de desamparo
cresciam.
Depois do que pareceu uma demora interminável, ouviu a equipe da emergência
chamar à porta.
— Aqui! — gritou, rouco.
Os paramédicos entraram rapidamente e o afastaram de Kelly enquanto lhe
prestavam os primeiros socorros. Durante todo o tempo, Ryan ficou entorpecido,
observando enquanto eles a erguiam na maca e se apressavam em direção ao elevador.
Seguiu-os, orações se formando em sua boca, em sua mente. Kelly foi levada para a
ambulância que esperava, e ele subiu atrás dela. A caminho do hospital, tirou o celular,
então parou, a mente paralisada. Para quem ligaria? Não havia ninguém. Não havia
família, não havia amigos. Um ódio frio lhe congelou as veias. As pessoas em quem
confiara a vida inteira — especialmente seu irmão — haviam agido de maneira
imperdoável. Até agora, nunca experimentara um ódio tão puro, tão intenso.
Mergulhou o rosto nas mãos e se obrigou a não perder o controle. Não naquele
momento. Kelly precisava dele. Não estivera lá para ela antes. Já cometera o erro terrível
de abandoná-la quando mais precisara dele. Agora, morreria antes de permitir que ela
pensasse que não era a coisa mais importante do mundo para ele.
Ryan ouviu o médico lhe dizer que a condição de Kelly era realmente muito grave.
Ela estava tomando medicação para baixar a pressão sanguínea e evitar outras
convulsões, mas se não reagisse ao tratamento, uma cesariana de emergência teria que
ser feita.
— E os riscos para o bebê? — A voz de Ryan era quase um grasnido. — É cedo
demais, não é?
— Não teremos escolha. Se não fizermos nada, a criança e a mãe podem morrer. O
único tratamento para eclâmpsia é o nascimento do bebê. Estamos fazendo exames
sobre a maturidade dos pulmões do bebê. Com 34 semanas de gestação, a criança tem
uma chance muito boa de sobreviver sem complicações.
Ryan mergulhou a mão no cabelo e fechou os olhos. Fizera aquilo com ela. Kelly
devia ter sido mimada e cuidada durante toda a gravidez. Devia ter recebido o melhor
tratamento médico, o carinho e o amor que merecia. Em vez disso, fora obrigada a
trabalhar num emprego de grande exigência física e sob um estresse inimaginável. E,
depois que ele a trouxera de volta para casa, a submetera ao desprezo, à hostilidade e a
um sofrimento emocional sem fim. Era de admirar que quisesse ficar longe dele e de sua
família?
— Kelly. Kelly ficará bem? Ela vai se recuperar?
Não percebeu que estava prendendo a respiração até o peito começar a queimar.
Deixou escapar o ar e se obrigou a relaxar as mãos.
— O estado dela é muito grave. A pressão está perigosamente alta. Pode sofrer
outra convulsão ou ter um derrame. Nenhuma das condições é boa para ela ou para o
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
bebê. Estamos fazendo tudo o que podemos para baixar a pressão sanguínea e
monitorando o bebê para sinais de sofrimento fetal. E nos preparamos para tirar o bebê
se a condição dele ou da mãe piorar. É importante que ela se mantenha calma e não
sofra nenhum tipo de tensão. Mesmo se conseguirmos baixar a pressão e adiar o parto
até mais perto da data prevista, ela terá que ficar em repouso absoluto pelo resto da
gravidez.
— Compreendo. Posso vê-la agora?
— Pode entrar, mas ela tem que permanecer calma, não pode ser submetida a
nenhum tipo de pressão. Não diga ou faça nada que possa aborrecê-la.
Ryan acenou e se virou para dar os poucos passos que o separavam do quarto de
Kelly. Parou junto à porta com medo de entrar. E se sua simples presença a aborrecesse?
A mão parou na maçaneta e ele se encostou na porta. Fechou os olhos quando a dor e o
arrependimento — tanto arrependimento — o tomaram.
Finalmente abriu a porta e entrou. Estava escuro, apenas a luz fraca do banheiro
iluminava o quarto. Kelly estava deitada, cercada por equipamentos médicos. Aproximouse cautelosamente sem querer perturbá-la ou aborrecê-la. Olhou para o rosto pálido, os
olhos fechados. A testa estava franzida, não sabia se de preocupação ou dor. Talvez os
dois. O peito se erguia e baixava com a respiração rasa. De repente, tudo o que havia
acontecido aquela noite o atingiu como um soco.
Nunca, jamais esqueceria a desolação no rosto dela enquanto lhe contava o que o
irmão dele fizera a ela, o que ela tentara lhe contar meses antes. E não a ouvira, não
acreditara, estupidamente convencido de que mentia. Puxou uma cadeira para se sentar
o mais perto possível enquanto ela dormia. Devagar, passou os dedos sob a mão onde
não havia uma agulha e a levou aos lábios.
— Sinto tanto, Kelly... Sinto tanto...
— Ryan. Ryan, acorde.
O sussurro despertou Ryan, e ele abriu os olhos e gemeu com a dor no pescoço. A
luz do dia entrava pelas persianas da janela, e ele se encolheu. O olhar recaiu em Kelly,
que ainda dormia, o rosto de lado nos travesseiros. A cama estava ligeiramente erguida, e
em algum momento o soro havia sido reposto, porque agora estava cheio.
Então ele se virou, a mão massageando o pescoço. Devon estava em pé ao lado da
cadeira onde Ryan dormira, os olhos escuros de preocupação.
— O que aconteceu? — A voz era muito baixa.
Com cuidado, Ryan se levantou sem querer correr o risco de acordar Kelly.
Fez um gesto para Dev segui-lo e saiu do quarto. Quando chegaram ao corredor,
Ryan viu Cam se afastar da parede, uma pergunta no olhar.
— O que vocês dois estão fazendo aqui? — Ryan os observou com a testa franzida,
a voz fria.
— As coisas ficaram tensas ontem à noite — disse Devon. — Tentamos ligar para
você, mas você não atendeu, assim fomos ao seu apartamento. O porteiro disse que Kelly
havia sido trazida para o hospital numa ambulância. Viemos saber como está ela.
Ryan fechou os olhos quando o nó na garganta apertou de novo.
— Ei, cara, precisa se sentar — observou Cam. — Já comeu?
Ryan balançou a cabeça.
— Vai nos contar o que houve? — pediu Dev.
Ryan observou os dois amigos e riu, um som duro e áspero.
— Como você conta que cometeu o pior erro de sua vida e não sabe se será capaz
de corrigir?
— Ruim assim, hein? — disse Cam.
— Pior.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— Kelly vai ficar bem? — Dev quis saber. — E o bebê?
— Eu daria tudo para saber. Talvez eles tenham que fazer uma cesariana de
emergência se a pressão sanguínea de Kelly não baixar. Eu fiz isso com ela. Kelly está
muito mal, numa cama de hospital, porque eu não estava lá para ela ou para o meu bebê.
Que tipo de desgraçado isso me torna?
Cam e Devon trocaram olhares.
— Escute, admito que não sei a história toda, mas diria que você não é o único
culpado pelo problema. — A voz de Devon soou cautelosa.
— Meu irmão a atacou. — O ódio renovado engrossou a voz de Ryan. — Ele tentou
estuprá-la e, quando ela lutou e se livrou, ele me ligou com uma história engenhosa.
Disse que haviam dormido juntos e que, quando disse a ela que aquilo tinha sido um erro
e que me contaria, ela ameaçou me dizer que ele tentara estuprá-la para que eu não
rompesse com ela por me trair. Assim, é claro, quando menos de meia hora depois ela
apareceu no meu escritório e me contou exatamente o que meu irmão dissera que me
contaria, não acreditei nela. Porque não conseguia imaginar que meu irmão, o irmão que
praticamente criei, faria uma coisa tão abominável. E quando ela me implorou, quando
ficou de joelhos e suplicou que acreditasse nela, eu fiz um cheque, atirei-o em seu rosto e
lhe disse que desse o fora da minha vida.
Devon e Cam olharam para ele atônitos, incapazes de falar.
— Como poderei consertar uma coisa dessas? — rosnou Ryan. — Digam-me, como
Kelly será capaz de superar isso? Sabem que ontem à noite, pouco antes do jantar, eu
generosamente disse a ela que a perdoava? Que queria que esquecêssemos o passado
e fôssemos em frente e que a perdoava por ter me traído? — Interrompeu-se e deu uma
risada curta e áspera. — Sim, desde o começo eu me comportei como o grande sujeito
que queria começar tudo de novo, disposto a esquecer o passado, quando todo o tempo a
tratei de maneira absolutamente imperdoável. Ela me procurou para ajudá-la, para
protegê-la, porque eu era a única pessoa com quem podia contar, e lhe dei as costas.
Ryan se virou quando a compostura cedeu. Lágrimas lhe queimavam os olhos.
Lágrimas de raiva, de fúria. Queria esmurrar a parede. Queria rugir de ódio. Seus amigos
o ladearam, cada um com uma das mãos sobre seu ombro.
— Não sei o que dizer. — A voz de Devon era suave. — Mas sei que você a ama.
— Sim, amei, amo, sempre amarei. Amava-a e, no entanto, fiz isso com ela. Como
algum dia poderá confiar em mim de novo?
— Alguém precisa dar uma surra naquele maldito. — Cam franziu o cenho.
Ryan ergueu a cabeça devagar, o rosto uma máscara de pedra.
— Ele nunca mais chegará perto dela. Vou matá-lo.
— Maldição! — resmungou Devon. — Escute, sei que está furioso e tem todo o
direito de estar, mas não vá fazer nada idiota. Ele merece ser espancado, mas não faça
nada que o jogue na cadeia. Kelly precisa de você. Não poderá ajudá-la se estiver preso.
— Não posso deixar que ele fique impune — afirmou Ryan, decidido. — Ele a tocou.
Ele foi violento. Ele a feriu.
— Vou com você. — A voz de Cam era decidida.
Ryan balançou a cabeça.
— Você não tem escolha. Ou vou com você ou chamo a polícia. A diferença é que
vou deixá-lo bater nele o quanto quiser, mas não permitirei que o mate. A polícia não
deixará que o toque. Então, o que vai ser?
Ryan rosnou, os lábios numa careta de fúria animal.
Devon suspirou.
— Devia se ver agora, cara. É bom que Kelly esteja dormindo. O que quer que
precise fazer, deve ser feito antes que ela acorde, para você estar lá para ela e lhe dar o
apoio de que precisa. Ela ficará morta de medo se o vir deste jeito.
— Devon pode ficar com Kelly — sugeriu Cam. — Vou com você confrontar Jarrod.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Então poderá voltar para cá, que é o seu lugar, e deixar tudo para trás.
Cam fazia parecer fácil, mas Ryan sabia que não era. Kelly talvez nunca o
perdoasse, e não a culparia. Mas se o perdoasse e pudessem ficar juntos, tomaria todas
as medidas para que sua família jamais voltasse a incomodá-la.
— Você fará isso? — perguntou Ryan a Devon. — Ficará com ela? Se acordar, diga
a ela...
— Cuido de tudo — interrompeu-o Devon. — Apenas vá e faça o que tem que fazer,
então volte para ela. E arranque o couro dele por mim. O miserável merece tudo o que
receber.

CAPÍTULO DEZESSETE

A expressão de Jarrod era de resignação quando abriu a porta depois das batidas
insistentes de Ryan, que não lhe deu tempo de dizer ou fazer nada. Agarrou a camisa do
irmão e o empurrou para trás no pequeno estúdio onde Jarrod vivia.
— O que diab...?
Ryan o silenciou com um soco. Jarrod caiu de costas, e Ryan e Cam ficaram em pé
a pequena distância, esperando que ele se levantasse. Jarrod limpou o sangue da boca
enquanto se erguia.
— Que diabos, Ryan!
— Por que fez aquilo? — A voz de Ryan era mortalmente calma. — Por quê?
Uma expressão inquieta cobriu o rosto de Jarrod. Os lábios amoleceram e os olhos
ficaram enevoados. Pelo menos não fingiria que não sabia do que Ryan estava falando.
Jarrod passou a mão pela boca de novo, e uma nova mancha de sangue a cobriu.
— Sei que não vai adiantar, mas lamento.
Ryan explodiu de novo. Jarrod nem mesmo tentou se defender. Caiu e, desta vez,
não se levantou.
— Lamenta? Você lamenta?! Tentou estuprá-la, mentiu sobre ela. O que está errado
com você? Era a mulher com quem eu ia me casar. Por que faria uma coisa dessas?
— Mamãe... — A voz de Jarrod era cansada.
Ryan deu um passo para trás, atônito.
— Mamãe? Mamãe o mandou fazer isso?
Jarrod se arrastou sentado até recostar na parede da sala e passou uma das mãos
pelos cabelos, a expressão cansada e derrotada.
— É. Ficou furiosa quando descobriu que você tinha pedido Kelly em casamento.
Estava determinada a não permitir que você se casasse com uma ninguém sem um
tostão, uma alpinista social. Palavras dela, não minhas. No começo, pensei que estava
louca. Quero dizer, imaginei que teria uma crise de raiva e depois superaria, mas então
ela me mandou tentar comprar Kelly e, se ela não aceitasse, eu devia armar a história do
estupro. Juro que não a teria estuprado, Ryan. Apenas queria fazer você acreditar que
havíamos dormido juntos.
— Jesus — murmurou Cam — Isso é loucura!
Ryan estava completamente atordoado. Sua própria mãe havia feito aquela coisa
doentia? Não parecia possível. Como alguém podia odiar tanto uma pessoa, de forma tão
gratuita, a ponto de chegar a tal extremo para se livrar dela?
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— Ela me convidou para o jantar de ontem à noite. Mas juro, Ryan, disse que você
queria que eu fosse, que você e Kelly queriam deixar o passado para trás e recomeçar
tudo. Eu não pretendia ir porque não queria aborrecer Kelly ou deixá-lo zangado, mas
mamãe me disse que você especificamente pediu que eu fosse. E tinha a esperança. tive
a esperança de que talvez você e Kelly pudessem perdoar o passado e nós voltássemos
a ser uma família. Como nos velhos tempos.
Ryan deixou as mãos caírem nas laterais do corpo, de repente tão cansado, com o
coração tão amargo que queria apenas sair dali.
— Você não é mais minha família. Kelly e nosso bebê são minha família. Não quero
vê-lo nunca mais. Se algum dia chegar perto de Kelly, juro que vai se arrepender.
— Ryan, não. Por favor... — pediu Jarrod, rouco.
Ryan parou à porta e se virou lentamente para trás.
— Ela lhe implorou como está me implorando, Jarrod? Ela lhe pediu para parar?
O rosto de Jarrod ruborizou num vermelho escuro, então ele desviou os olhos sem
conseguir encontrar o olhar do irmão.
— Vamos embora. — A voz de Cameron era calma. — Vamos sair daqui, cara.
Quando saíram, Ryan fez um gesto para Cam em direção ao carro.
— Vá você. Vou pegar um táxi. Preciso ver minha mãe.
Cam hesitou.
— Tem certeza de que não quer que vá junto?
— Tenho. Isso é uma coisa que preciso fazer sozinho.
Ryan bateu com decisão à porta da casa da mãe e exigiu vê-la imediatamente
quando uma das criadas o atendeu. Um momento depois, enquanto andava de um lado
para o outro na sala de estar, a mãe chegou apressada, a testa franzida de preocupação.
— Ryan? Alguma coisa errada? Não ligou para me avisar que vinha...
Ele olhou para ela, perguntando-se como podia ter sido tão cego a respeito da
mulher que o trouxera ao mundo. Sabia que sempre fora autocentrada, mas jamais a
considerara má. Não a ponto de ferir deliberadamente uma mulher inocente. Mesmo
agora, depois de tudo o que havia acontecido, não encontrava palavras para exprimir a
profundidade do ódio que sentia, que lhe queimava as veias como ácido. Sua família. As
pessoas com quem deveria poder contar. Eram malignas.
A ironia o atingiu com força. Kelly devia ter podido contar com ele. Mas, exatamente
como sua família o traíra, ele traíra Kelly. Talvez fosse mais parecido com a mãe e o irmão
do que gostaria de admitir. O pensamento o deixou doente.
— Ryan? — chamou-lhe de novo.
Ramona parou diante dele e ergueu a mão para lhe tocar o braço, os olhos cheios
de preocupação. Ryan afastou-lhe a mão e deu um passo para trás, engasgando com a
repulsa.
— Não me toque. — A voz era baixa e contida. — Sei o que fez. Sei o que você e
Jarrod fizeram. Nunca vou perdoá-los por isso.
O rosto dela se contraiu em consternação. Atirou a mão para cima e se virou de
costas para ele, os braços cruzados no peito.
— Ela não é a pessoa certa para você, Ryan. Se não estivesse tão louco por ela, tão
cego pela luxúria, você também veria.
— Nem mesmo vai negar. Meu Deus! O que Kelly fez para merecer o mal que lhe
causou? Está numa cama de hospital, correndo um risco muito sério. Carrega meu filho,
seu neto. Estava grávida quando você mandou Jarrod atacá-la. Que tipo de psicopata faz
isso?
— Não me arrependo de proteger meus filhos. — O tom era rígido. — Faria tudo de
novo. Você compreenderá quando seu filho nascer. Saberá por que fiz o que fiz. Quando
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
uma pessoa se torna pai ou mãe, descobre que fará qualquer coisa para proteger o filho.
Usará tudo o que tem para mantê-lo em segurança. Não pode apenas ficar de lado e
permitir que seu filho cometa o pior erro de sua vida. Volte a conversar comigo em alguns
anos. Então pergunte-se se ainda me odeia tanto.
Ele ficou atônito ao perceber até onde ela iria para justificar suas ações. Não eram
apenas moralmente repreensíveis. Eram criminosas!
— Espero que eu jamais seja capaz de agir como você agiu, jamais seja capaz de
ferir uma mulher inocente apenas porque a considero inadequada. E saiba de uma coisa
que não poderá compreender, mãe. Kelly é uma pessoa melhor do você jamais
conseguirá ser. Nós é que não a merecemos, nunca mereceremos. Apenas espero que
ela me aceite e me perdoe, apesar da família patética a que pertenço.
O olhar da mãe brilhou de indignação.
— Você é um homem típico, pensa com a porção inferior de sua anatomia. Está
completamente cego pela luxúria, mas em alguns anos não a verá com os olhos de um
filhotinho apaixonado. Então me agradecerá por tentar protegê-lo. Pode conseguir coisa
muito melhor do que ela, Ryan. Por que não consigo fazê-lo perceber?
Ryan balançou a cabeça, a tristeza e a dor tão pesadas no peito que mal conseguia
respirar.
— Nunca lhe agradecerei por isso. Você não é mais nada para mim. Nunca deixarei
minha esposa ou meus filhos ficarem sujeitos ao seu veneno.
O rosto dela ficou branco com o choque.
— Você não está falando sério!
— Muito sério. Você não é mais minha mãe. Não tenho mãe. Não tenho família, a
não ser Kelly e nosso bebê. Nunca a perdoarei por isso. Fique longe de mim
Fique longe de Kelly. Se algum dia chegar a cem metros de mim ou de minha
família, esquecerei que um dia você me trouxe ao mundo e mandarei prendê-la. O que
você e Jarrod fizeram é crime, e eu os denunciarei. Estamos entendidos?
Ramona olhou para ele sem palavras, parecendo de repente ter cada um de seus 60
anos de idade. Se não tivesse tentado destruir tão cruelmente a mulher que amava, Ryan
teria sentido pena dela. Mas ela não demonstrava sentir remorso, arrependimento.
— Não tenho mais nada para lhe dizer.
Então ele se virou e saiu, os gritos da mãe lhe pedindo para parar ressoando em seu
ouvido. Deixou a casa dela e não se virou nem uma vez. Tomou um táxi e mandou que o
levasse ao hospital. Kelly precisava dele. O bebê precisava dele. Ela provavelmente
jamais o perdoaria, mas ele garantiria que nunca mais lhe faltasse nada. Cuidaria dela e
do bebê. Passaria o resto da vida tentando compensá-la, se ela permitisse.

Kelly acordou com o silêncio. Estava tão aliviada por não sentir mais aquele horrível
zumbido no ouvido que podia ter chorado. A dor de cabeça lancinante também
desaparecera. Não parecia mais que sua cabeça ia explodir. Estava estranhamente sem
dor. Levou algum tempo olhando ao redor até perceber que estava num quarto de
hospital.
Então os acontecimentos que lhe provocaram o colapso lhe voltaram à mente. As
mãos subiram automaticamente para o ventre e se sentiu apenas parcialmente tranquila
ao sentir a bola rija. Seu bebê estaria bem? Ela estaria bem? Piscou com força para
focalizar melhor o quarto. Havia uma luz brilhando através de uma fresta na porta do
banheiro. Um olhar para as persianas lhe mostrou que era noite.
Então seu olhar caiu na cadeira ao lado da cama e percebeu Ryan olhando para ela,
a expressão intensa. Ela se encolheu diante da emoção crua que brilhava naqueles olhos
azuis.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— Ei — disse ele suavemente. — Como está se sentindo?
— Entorpecida. Meio fora de foco. Minha cabeça não dói mais. Meus pés ainda
estão inchados?
Ele pegou o lençol com cuidado e os cobriu.
— Talvez um pouco. Não tão ruim como antes. Você tomou medicamentos, e estão
monitorando o bebê.
— Como está ela? — Kelly sentiu um nó de medo na garganta.
— No momento, ótima. Sua pressão estabilizou, mas eles podem precisar fazer uma
cesariana se subir de novo ou se o bebê mostrar sinais de desconforto.
Kelly fechou os olhos e, de repente, Ryan estava junto dela, segurando-a nos
braços, os lábios pressionados à sua têmpora.
— Não se preocupe, amor — murmurou.— Deve ficar calma. Está recebendo os
melhores cuidados, certifiquei-me disso. Está sob constante observação. E o médico
disse que o prognóstico para uma bebê com 34 semanas de gestação é excelente.
Ela se deixou cair no travesseiro. O alívio a percorria, mas estava tão cansada que
não conseguia ter energia para mais nada a não ser ficar lá deitada e agradecer a Deus
por seu bebê estar bem.
— Vou cuidar de você, Kell. — A voz de Ryan era suave contra sua têmpora. — De
você e do nosso bebê. Nada nunca mais vai feri-la. Eu juro.
As lágrimas lhe queimaram as pálpebras. Ela estava física e emocionalmente
exausta e não tinha forças para argumentar. Algo dentro dela se partira, e não sabia como
consertá-la. Sentia-se tão... desconectada. Ryan se afastou, mas seus olhos brilhavam de
preocupação e amor. Mas seria suficiente? O que era o amor sem confiança? Ele a
queria. Sentia-se culpado. Não era um canalha. Tinha sentimentos e ficaria destruído
agora que sabia a verdade.
Porém, não confiara nela, e Kelly não sabia se poderiam manter um relacionamento
quando havia tanta mágoa e traição entre eles. Talvez tivessem sido estúpidos em até
mesmo tentar.
— O que vai acontecer? — perguntou ela, a voz um sussurro. — Terei que ficar
aqui? Posso voltar para casa?
Kelly mordeu o lábio, porque não sabia para onde iria. Seu relacionamento com
Ryan era um grande ponto de interrogação, mas não tinha outro lugar para ir. E a saúde
de seu bebê vinha em primeiro lugar.
Ele lhe segurou a mão e passou o polegar pelo anel que lhe dera.
— Você ficará aqui até ser tomada uma decisão sobre sua saúde. Mas o médico
disse que, se for para casa, terá que fazer repouso absoluto pelo resto da gravidez.
A expressão dela deveria ter refletido seu horror e seu medo, porque Ryan se
debruçou e lhe beijou a testa.
— Não quero que se preocupe, está bem, querida? Vou cuidar de tudo. Iremos para
algum lugar lindo e quente, e tudo o que precisará fazer é ficar deitada na praia ou numa
espreguiçadeira confortável e ver o pôr do sol. Contratarei um médico particular para
acompanhar cada passo do seu tratamento.
A testa dela franziu, e ela sentiu a dor de cabeça começar de novo.
— Ryan, não podemos apenas viajar para alguma ilha paradisíaca. Não vamos
resolver nossos problemas se os ignorarmos.
Ele lhe acariciou a testa.
— No momento, tudo o que precisa fazer é se concentrar em melhorar e carregar
nosso filho pelo maior tempo que puder. E o que preciso é remover todo o estresse de
sua vida.
Ela abriu a boca para responder, mas ele a beijou de leve, calando-a.
— Sei que temos muito a esclarecer, Kell. Nem sabia o quanto, quando disse isso
antes. Mas, no momento, vamos deixar de lado nossas diferenças e nos concentrar no
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
nosso bebê e na sua saúde. Podemos fazer isso?
A resistência dela desapareceu. Acenou devagar, sem tirar a mão da dele. Apesar de
tudo o que havia acontecido no passado, não duvidava nem por um minuto que ele
gostava profundamente dela e do bebê. E ele tinha razão. Não importava o que precisava
ser esclarecido entre eles, a criança tinha prioridade.

CAPÍTULO DEZOITO

O médico de Kelly parecia severo enquanto falava diante da porta do quarto dela:
— Estou relutante em liberar a srta. Christian do hospital. Ela melhorou de maneira
considerável. Sua pressão agora está normal, o bebê não mostra sinais de sofrimento.
Diria que ela tem uma boa chance de levar a gravidez a termo, até as quarenta semanas.
Mas não me sinto confortável em lhe dar alta ainda.
Ryan passou a mão pela nuca.
— O que posso fazer para tornar isso possível? Ela está infeliz aqui, não é ela
mesma.
O médico concordou.
— É exatamente por isso que me preocupo. Pelo menos aqui ela recebe os
cuidados de que precisa. Não está com boa disposição de espírito, e estou
profundamente preocupado com seu nível de estresse. É imperativo que não seja
colocada em nenhuma situação que lhe cause sofrimento desnecessário.
— Se der sua permissão para ela viajar, pretendo levá-la para algum lugar quente
onde jamais terá de levantar um dedo. Posso fazer com que uma equipe médica nos
acompanhe no voo para a ilha e, uma vez lá, ela terá um médico particular para
acompanhar todos os cuidados que precisa receber. Também deixarei o hospital local a
par de sua condição e suas necessidades.
O médico pensou na sugestão de Ryan.
— Talvez essa seja a melhor solução. Está frio e sombrio aqui. Um clima ensolarado
pode ajudar a lhe erguer o espírito e fazê-la recuperar as forças. Não é bom para ela ou
para o bebê se der à luz quando está à beira de uma depressão.
O coração de Ryan doía ao pensamento de Kelly triste ou deprimida. Faria tudo para
que ela sorrisse de novo.
— Dê sua permissão e tomarei as providências imediatas para deixarmos a cidade.
Quero apenas o que é melhor para ela e farei o que for preciso para vê-la bem de novo.
O médico estudou-o por um momento.
— Acredito no que diz, sr. Beardsley. Façamos o seguinte: dê-me o nome do médico
que vai contratar e o do hospital que cuidará dela e mandarei seus registros médicos.
Quero conversar pessoalmente com seu médico e garantir que ele fique muito consciente
da gravidade e complexidade da situação. Também me certificarei se o hospital está
preparado para cuidar do bebê ao primeiro sinal de sofrimento fetal. E precisam ter
pessoal treinado para essa situação.
— Obrigado. Kelly e eu agradecemos sua atenção.
— Apenas cuide bem dela. Detesto ver uma jovem dama tão triste.
Ryan acenou, o peito apertado. Tomaria conta dela, sem dúvida, mas ainda
precisaria descobrir se poderia fazê-la feliz de novo. Mesmo assim, não desistiria. Deralhe as costas uma vez. Nunca mais ela teria motivos para duvidar dele. Mesmo que
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
demorasse uma eternidade, ele garantiria que ela soubesse que podia contar com ele.
Kelly estava sentada na poltrona junto à janela no seu quarto de hospital e olhava os
flocos de neve caírem em espirais. Embora o quarto estivesse aquecido, sentiu uma onda
de frio e estremeceu.
— Quer um cobertor? — perguntou Ryan.
Ela virou a cabeça, surpreendida. Não havia esperado que ele voltasse.
Mas não devia, ele nunca se ausentava por muito tempo. Fora uma presença
constante nos últimos dias, sempre lá, antecipando cada necessidade sua.
— Desculpe se a assustei.
— Não assustou, apenas não o ouvi entrar.
Ele se aproximou e se recostou no parapeito da janela, o olhar fixo no rosto dela.
— Acabei de conversar com seu médico, e ele está disposto a lhe dar alta.
Ela se mostrou surpreendida.
— Há condições, é claro. Ele está muito preocupado com sua saúde.
— Que condições?
— Já fiz todos os arranjos, já cuidei de tudo. Não precisa se preocupar com coisa
alguma. Apenas se concentre em ficar bem e recuperar as forças.
Ela balançou a cabeça, tentando afastar a névoa permanente que parecia lhe
envolver o cérebro desde seu colapso. Pior, seu cansaço havia aumentado. Alguma coisa
nela, porém, se agitou, como se devesse protestar, mas não conseguiu reunir a energia
mental necessária para fazer isso. Como continuou em silêncio, Ryan voltou a falar:
— Vamos deixar a cidade. Uma ambulância vai levá-la ao aeroporto, de onde
partiremos com uma equipe médica para St. Angelo.
Ela balançou a cabeça de novo em silenciosa negativa. E finalmente encontrou a
voz:
— Ryan, não pode apenas deixar a cidade, talvez por semanas. Nem abandonar
seu trabalho. Sua vida é aqui.
Ele se deixou cair de joelhos diante dela e lhe tomou as mãos.
— Minha vida é com você. Você e nosso bebê são minha prioridade absoluta. Tenho
pessoas mais do que capazes de cuidar de tudo na minha ausência. Tenho sócios que
estão mais do que dispostos a cuidar de qualquer assunto que exija minha atenção.
Estaremos a minutos do local de construção do resort, assim posso facilmente resolver os
problemas que surgirem lá.
Nada havia sido dito entre eles sobre a noite em que ela desmaiara depois do
colapso nervoso. Era um assunto cuidadosamente evitado, como era o do futuro deles, e
do irmão dele. Ela via o tormento e a enorme culpa nos olhos de Ryan, mas ele não
falava sobre aquilo, nem ela. Kelly não conseguiria abordar o tema sem se aborrecer, e o
médico deixara muito claro que não podia se emocionar. Assim, trancara tudo atrás de
uma parede impenetrável de gelo e indiferença. Sempre que sentia uma emoção
começar, ela a desligava.
E faria o mesmo agora. Seu coração lhe dizia para protestar. Estava cansada de ser
magoada. Mas precisava se esforçar demais e já gastara toda a sua força.
— Kelly? No que está pensando, querida?
Ela olhou para ele. A testa de Ryan estava franzida de preocupação e olhava para
ela como se tentasse ler seus pensamentos.
— Estou cansada.
E fraca. E com o coração partido. Sem saber o que queria. Tentando descobrir o que
era melhor para seu bebê. Tantas coisas que não admitiria simplesmente porque exigiria
esforço demais.
Ele lhe tocou o rosto numa carícia gentil.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— Sei que está, querida. Não tenho o direito de lhe pedir, mas pedirei assim mesmo:
confie em mim Deixe-me cuidar de você, me deixe levá-la para a ilha. Você gostou dela.
Como ele tornava fácil para ela lhe ceder o controle. Oferecia-lhe agora tudo o que
sempre quisera. Seu amor.
Seus cuidados. A fantasia. Mas fantasias nunca duravam. Já haviam feito aquilo
uma vez e, quando terminara, voltaram para a realidade fria de suas vidas.
— Quero ficar lá até o bebê nascer. — Kelly não desejava que seu bebê nascesse
ali. Não queria ser cercada por pessoas que a desprezavam e que desprezariam seu
bebê.
— Já está providenciado. Venha comigo, Kell, confie em mim Pelo menos por
enquanto.
Talvez ela pudesse permanecer na ilha depois de o bebê nascer. Certamente Ryan
já percebera que seria impossível para eles terem um relacionamento. Ela poderia
trabalhar lá, encontrar um meio de sobreviver e criar seu filho. Não precisariam de muita
coisa. Um pequeno chalé ou um apartamento. Ryan poderia visitar o bebê quando
quisesse, tinha seu jato e um resort na ilha. Encorajada por ter um plano, ela acenou.
O alívio de Ryan foi palpável. Debruçou-se para beijá-la, mas ela virou o rosto, e a
boca de Ryan lhe roçou a face.
— Preciso sair e finalizar os arranjos— disse ele apenas. — Voltarei logo. Quer que
lhe traga alguma coisa?
Ela balançou a cabeça, e ele se levantou, mas antes de sair lhe acariciou o cabelo.
— Farei qualquer coisa para vê-la sorrir de novo, Kell.
Antes que ela pudesse responder, ele se virou e saiu do quarto.
O voo e o transporte por terra até a villa na praia correram sem problemas. Ryan
providenciara tudo para que ela recebesse todos os cuidados. Foi mimada e assistida e,
quando chegaram à ilha, foram recebidos não só pelo médico contratado para cuidar dela
como por uma enfermeira que moraria na villa com ela e Ryan.
Quando Kelly viu a villa, perdeu o fôlego. Passaram por portões altos e desceram
um caminho sinuoso ladeado por flores luxuriantes. Por um momento o caminho correu
paralelo à praia antes de terminar diante das portas da casa principal, que ficava a poucos
passos da areia. A ideia de poder sair pela porta dos fundos e pisar na areia a
entusiasmou. Ryan insistiu em carregá-la para dentro. Aninhou-a ao peito enquanto
passava pela porta da frente, e ela virou o pescoço para ver o interior da enorme casa.
Mas, em vez de lhe mostrar o ambiente, ele passou com ela pelas portas de vidro
que levavam à varanda fechada nos fundos. Como imaginara, havia apenas três pedras
largas marcando o caminho curto da varanda até a areia. Kelly inspirou com prazer a
brisa do mar que lhe balançava o cabelo.
— É lindo... — Suspirou.
Ryan sorriu.
— Que bom que gostou, porque é sua.
Ela ficou imóvel nos braços dele, atônita, o olhar preso ao dele. Até finalmente
encontrar a voz:
— Não compreendo.
Ele a colocou sentada num dos degraus que levavam à areia, então se sentou ao
seu lado. O entorpecimento que a protegera por tanto tempo estava desaparecendo. Era
como se o calor do sol derretesse o gelo interno e uma nova consciência surgisse. Ela via
as coisas com mais clareza. Viu Ryan. Percebeu os esforços extraordinários que fazia
para torná-la feliz. Para cuidar dela. A esperança renasceu, mas ela a afastou, com medo.
Não ousava presumir nada.
— Mas, Ryan, você mora em Nova York. Sua vida é lá, sua família está lá. Seu
trabalho, seus negócios, seus amigos. Não pode apenas se mudar para cá porque
tivemos alguns dias de felicidade aqui.
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
— Não posso? — desafiou Ryan. Tomou-lhe a mão e enlaçou os dedos nos dela. —
Há muita coisa que ainda não sabe, Kelly. Não quis que soubesse na ocasião. Estava
lidando com estresse demais no hospital. Eu cortei minha mãe e meu irmão da minha
vida. Das nossas vidas.
— Oh, Ryan... — Lágrimas lhe encheram os olhos. Apesar do quanto os
desprezava, não quisera aquilo para ele.
Ryan enxugou uma lágrima com o polegar.
— Não ouse derramar uma lágrima por eles ou por mim. Eles não merecem, e não
me arrependo. Arrependo-me apenas de ter permitido que eles a ferissem e de nunca ter
visto o que faziam com você.
— Mas não teria feito isso se não fosse por mim. São a sua família, Ryan. Pode
estar zangado com eles agora, mas e daqui a um ano? E se algum dia se ressentir de eu
ter sido o motivo do rompimento entre vocês?
— Você não é responsável pelas ações deles. — A voz era decidida. — Não
precisou fazer isso, eles fizeram. Odeio os dois pelo que causaram. São mais do que
desprezíveis. Não merecem sua consideração nem a minha. Não quero que nosso filho
seja exposto a esse tipo de veneno. Foi minha decisão, Kelly. Acha sinceramente que
permitiria que participassem de nossas vidas depois do que fizeram com você?
Ela continuou a chorar. Não tivera aquele objetivo. Por mais que não quisesse
conviver com eles, a última coisa que queria era causar dor a Ryan.
— Não vamos mais falar sobre eles. Não significam mais nada. Quero falar sobre
nós. Algum dia poderá me perdoar, Kell? Poderá me amar de novo? — Ele se levantou e
desceu os dois degraus abaixo dela. Então lentamente se ajoelhou diante dela e lhe
tomou as mãos. — Uma vez você ficou de joelhos e me implorou que acreditasse em
você. Suplicou que não lhe desse as costas. É minha vez de implorar, Kelly. Não mereço
seu perdão e não a culparei se jamais me perdoar. Mas estou suplicando assim mesmo.
Amo você. Quero que tenhamos uma vida juntos. Aqui. Na ilha. Longe de toda a
infelicidade do passado.
— Você quer que vivamos aqui?
Ele acenou, e suas mãos tremeram em torno das dela.
— Comprei esta casa. O hospital está preparado para você. Garanti que nosso bebê
tenha os melhores cuidados existentes. Quero que comecemos de novo, realmente
comecemos de novo desta vez. Estou implorando a você que me dê esta oportunidade.
Dê-me a oportunidade de fazer você me amar de novo.
O coração dela se abriu, e a dor que lhe ocupara a alma por tanto tempo
silenciosamente desapareceu, deixando a esperança, e o amor, brilhando em seu lugar.
Desta vez, não tentou afastar a esperança, deixou-a se libertar.
Estendeu as mãos para ele e lhe tomou o rosto, atônita ao sentir a umidade em suas
faces. Os olhos dele estavam atormentados, desesperados e amedrontados. Mas havia
também esperança ali.
— Amo tanto você... — A voz era um soluço emocionado. — Passei tanto tempo
sentindo ódio, dizendo a mim mesma que o detestava. A raiva me dominou até me sentir
miserável com ela. Foi um peso permanente que me envenenava, e não posso mais viver
assim. Não quero mais viver assim.
Ele fechou os olhos e, quando os reabriu, havia tanto alívio e tanta vulnerabilidade
neles que ela soube que tinha feito a escolha certa.
— Se você pode perdoar todas as coisas odiosas e ferinas que eu lhe disse, então
posso perdoá-lo por não ter confiado em mim
— Oh, Deus, Kell... — A voz ainda era cheia de dor. — Mereci tudo o que você me
disse e mais. O que fiz com você foi imperdoável. Como pode me perdoar quando não
consigo me perdoar?
Ela se debruçou e o beijou, ainda lhe segurando o rosto. Depois passou as mãos
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
pelo cabelo dele e por suas faces de novo, sorrindo com ternura.
— Somos um casal muito estranho, não somos? Cometemos erros. Mas gosto de
pensar que nunca desistimos. E talvez estejamos mais fortes depois de tudo. Magoa-me
saber que você abriu mão de tanta coisa por mim. Sua família. Seus amigos. A cidade
onde nasceu e cresceu. E você desistiu de tudo, comprou uma linda casa que sabia que
eu amaria porque você me ama. Se não perdoá-lo, então estarei me negando esse amor,
e não quero viver sem você, Ryan. Ou sem seu amor. Nunca mais. Os últimos meses
foram os piores de minha vida, e não quero nunca mais passar por esse tipo de agonia.
Ele a puxou para seus braços e a apertou tanto que ela mal podia respirar, mas Kelly
não se importou. Estavam juntos. Finalmente. Sem toda aquela mágoa e dor do passado.
Sem reservas nem barreiras. Quando ela lhe disse que o amava e o perdoava, foi como
se o peso do mundo tivesse sido tirado de seus ombros. Sentiu-se mais leve e mais livre
do que nunca. Sentiu-se. feliz. Alegremente, abençoadamente feliz.
— Amo tanto você, Kell. — A voz estava rouca. — Sempre amei. Nunca deixei de
amá-la. Ia para a cama à noite pensando em você, me preocupando com você, me
perguntando onde você estaria, se era feliz, se estava bem. Encontrei todo o tipo de
justificativas para contratar alguém para encontrá-la, mas a verdade é que não podia viver
sem você.
Ela sorriu e encostou a testa na dele.
— Acha que podemos parar de nos castigar por coisas que não podemos mudar e
fazer um pacto para nos amarmos pelo resto de nossas vidas e sermos felizes a cada dia
que passarmos juntos?
Ele escorregou as mãos pelos braços dela, subiu-as até o pescoço e lhe tomou o
rosto.
— Sim. — Suspirou. — Podemos fazei isso. — Afastou-se um pouco, sorrindo, os
olhos cheios de emoção. — Case-se comigo, Kell. Agora. Não quero esperar nem mais
um dia. Case-se comigo aqui na nossa praia. Só você, eu e nosso bebê.
— Nossa praia — repetiu Kelly suavemente. — Adoro o som dessas palavras. E sim,
eu me casarei com você. Hoje, amanhã, para sempre.
Ficaram sentados no degrau da escada que levava à praia deles por um longo
tempo. Uma praia onde criariam seus filhos. Onde ririam, fariam amor e se lembrariam de
como haviam feito seus votos, prometendo um ao outro ficarem juntos e enfrentarem
juntos todos os problemas que a vida pudesse lhes causar.
Ficaram lá até o sol se pôr no horizonte e as cores suaves do crepúsculo cobrirem o
oceano. E então, quando a lua nasceu e prateou as águas, Ryan carregou Kelly para a
praia e dançaram ao som da melodia suave das ondas quebrando na areia.

FIM

Harlequin
Desejo Dueto
Próximo
BEIJOS TENTADORES
MAYA BANKS

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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
Chega um momento na vida de um homem em que ele sabe que foi totalmente
fisgado. Devon Carter olhou para o reluzente solitário de diamante aninhado em veludo e
reconheceu que aquele era um desses momentos. Fechou a tampa e enfiou a caixa no
bolso do peito de seu terno.
Tinha duas opções. Poderia se casar com Ashley Copeland e atingir seu objetivo de
fundir sua empresa à Copeland Hotels, criando a maior e mais exclusiva rede de resorts
do mundo, ou recusar e perder tudo.
Devon respirou fundo antes de entrar no carro onde seu motorista esperava para
sair para o trânsito.
Aquela seria a noite. Sua cuidadosa conquista, os incontáveis jantares, beijos que
tinham começado breves e casuais e se tornado mais resfolegantes, fora a preparação.
Naquela noite, sua sedução de Ashley Copeland estaria completa, e ele pediria sua mão
em casamento.
Pessoalmente, Devon achava que William Copeland era louco por empurrar sua filha
para ele. Tentara de tudo para demover o homem de seu objetivo de ver a filha casada...
com ele.
Ashley era uma menina meiga, mas Devon não tinha desejo de se casar com
ninguém. Ainda não. Talvez dali a cinco anos.
Porém, desde o momento em que Devon o abordara, William fora calculista. Dissera
a Devon que Ashley não tinha cabeça para os negócios. Seu coração era mole demais,
ela era ingênua, tinha todas as características que a impediam de assumir um papel ativo
no negócio da família. Ele estava convencido de que qualquer homem que demonstrasse
interesse nela só podia estar buscando fazer parte da família Copeland... e da fortuna que
a acompanhava. William queria que cuidassem dela e, por algum motivo, considerava
Devon a melhor opção.
Ashley, contudo, não poderia ficar sabendo. O que significava que Devon precisaria
manter aquela farsa. Franziu o cenho ao se lembrar das coisas que dissera, da paciência
demonstrada para cortejar Ashley. Ele era um homem direto, franco, e aquela história o
deixava incomodado.
Se ela fazia parte do acordo, ele preferia que todas as partes soubessem disso
desde o início, para que não houvesse mal-entendidos ou mágoas.
Ashley pensava que eles seriam um casal perfeito. Era uma mulher sonhadora e de
coração mole que preferia passar o tempo com sua fundação de resgate de animais a
estar nas reuniões da diretoria da Copeland Hotels.
Se descobrisse a verdade, não iria gostar. E Devon não poderia culpá-la. Ele
detestava manipulação.
O motorista parou diante do edifício que servia de lar para todo o clã Copeland.
William e sua esposa ocupavam a cobertura duplex, mas Ashley se mudara para um
apartamento menor, mais abaixo.
A família Copeland era uma anomalia para Devon. Ele era sozinho desde os 18
anos, e a única coisa de que se lembrava vinda de seus pais era o ocasional lembrete de
“não estrague tudo”.
Toda aquela dedicação que William tinha por seus filhos era estranha e deixava
Devon desconfortável. Especialmente por William parecer determinado a tratá-lo como um
filho.
Devon viu Ashley sair correndo pela porta, um largo sorriso no rosto ao vê-lo.
Mas que diabos...?
Ele foi até ela de cenho franzido.
— Ashley, você devia ter ficado lá dentro. Eu ia entrar.
Ela riu, um som vibrante e revigorante em meio ao do trânsito. Seu longo cabelo
loiro estava solto. Ela apertou as mãos dele e sorriu.
— Ora, Devon, o que poderia acontecer? Alex está bem aqui, e ele cuida ainda mais
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Desejo Dueto 34.2 – O valor da paixão – Maya Banks
de mim que o meu pai.
Alex, o porteiro, sorriu para Ashley. Um sorriso que a maioria das pessoas abria
perto dela. Paciente, um tanto quanto pensativo, mas quase todos que a conheciam
ficavam encantados com sua efervescência.
Devon suspirou e puxou as mãos de Ashley para sua cintura.
— Você devia me esperar lá dentro, onde é seguro. Alex não pode protegê-la. Ele
tem outros afazeres.
Ela envolveu o pescoço dele com os braços.
— É para isso que você serve, seu bobo. Não imagino ninguém me machucando
com você por perto. — E fundiu avidamente seus lábios aos dele.
Pelo amor de Deus, a mulher não sabia se controlar. Estava dando um show ali na
porta de seu prédio.
Mesmo assim, o corpo dele reagiu à avidez do beijo. O sabor dela era tão doce, ela
era tão inocente. Ele se sentia um ogro por aquela farsa.
Então, lembrou-se de que a Copeland Hotels finalmente seria dele... ou ao menos
ficaria sob seu comando. Devon seria uma potência mundial. Nada mal para um homem
cuja única ambição deveria ter sido não estragar tudo.
Devon recuou delicadamente.
— Aqui não é lugar para isso, Ashley. É melhor irmos. Carl está esperando.
Os lábios dela se curvaram para baixo momentaneamente, antes de ela olhar para
Carl e, de novo, disparar com um sorriso no rosto.
Devon balançou a cabeça enquanto ela cumprimentava seu motorista. Carl sorriu ao
ajudá-la a entrar no carro. Quando Devon se aproximou, Carl já retornara a sua postura
sisuda.
Ele entrou junto de Ashley, que se aninhou imediatamente ao seu lado.
— Onde vamos jantar hoje? — Ela quis saber.
— Planejei algo especial.
— O quê? — perguntou ela, empolgada.
Ele sorriu.
— Você vai ver.

E leia também em VIDA & PAIXAO 2/2, edição 35 de Desejo Dueto, Doces carícias,
de Maya Banks.

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