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III Workshop Desafios e Perspectivas da Inclusão Digital na Sociedade da Informação

:
Elementos para uma Estratégia Abrangente
Brasília, 14/15 de dezembro de 2009
Anais do Evento

Elias Suaiden
Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de Carlos III de Madrid
Estudo sobre Inclusão Digital – Brasil e Espanha
Resumo: Apresenta alguns resultados da pesquisa de doutorado do
palestrante sobre a Sociedade da Informação no Brasil e na Espanha,
recentemente concluída. A pesquisa levanta dados sobre telecentros nos dois
países e os indicadores mostram melhor desempenho dos telecentros na
Espanha, onde, por exemplo, a média é de um telecentro para cada 6 mil
pessoas, enquanto no Brasil teríamos cerca de um por município. Em
seguimento ao panorama estatístico, destaca os resultados específicos sobre
dois programas de inclusão digital, o “Casa Brasil” e o “Centros del
Conocimiento”, a partir de entrevistas com os coordenadores destes
programas e com uma amostra de usuários. O conceito de inclusão Digital é
semelhante nos dois Programas, mas no modelo espanhol a metodologia de
alfabetização digital é segmentada conforme o perfil do usuário; o software
livre é prioridade em ambos; o programa Casa Brasil apresenta infraestrutura
mais eficiente, contando, por exemplo, com bibliotecas e laboratórios de rádio;
diferentemente dos monitores do Programa brasileiro, todos os da Espanha
tem nível superior, fato que se reflete nos salários, no comprometimento com
as causas do telecentro e na continuidade. No segmento da pesquisa com os
usuários, o que chama atenção em uma região espanhola (Extremadura) é a
inclusão digital de jovens que ocorre nas escolas públicas, enquanto a do
público de mais idade se dá via telecentros. No Brasil o público é jovem por
excelência. Os principais benefícios de ambos os Programas são semelhantes,
destacando-se a melhor capacitação para o mercado de trabalho e a inclusão
social de indivíduos no processo. Há uma série de recomendações, destacando-
se as que se referem aos percentuais do orçamento para infraestrutura,
diagnóstico dos problemas da comunidade, continuidade de programas
financiados pelo governo, parcerias, combinação de laboratório de informática
com outros ambientes, valorização do monitor, avaliação periódica com
indicadores de impacto social e valorização da competência informacional.
(resumo acrescentado)

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Gostaria de agradecer o convite do IBICT e agradecer também a presença da
minha professora, da minha orientadora [Mercedes Caridad Sebastian]. Estou
até nervoso de falar depois de palestras com esta que a gente acabou escutar
do Sérgio Amadeu e do Prof. Pedro Demo.
Eu vou falar sobre a pesquisa de doutorado que eu acabei de concluir na
Espanha, que defendi em novembro. O título é “Sociedade da Informação no
Brasil e na Espanha”. É um estudo comparado baseado na inclusão digital.
O que me motivou a fazer essa pesquisa foi o fato de aprender com os outros,
saber o que os outros países estão fazendo com relação a esse tema,
realmente é essa troca de experiência.

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Eu comecei fazendo um levantamento sobre os pontos de inclusão digital, os
telecentros na Espanha. Isso foi um estudo feito pela minha universidade, a
Universidade Carlos III, de Madri, em relação a essa métrica de quantificar
quantos pontos de inclusão digital existem na Espanha, e foram detectadas
três redes nacionais e 14 redes estaduais, num total de 6.546 telecentros para
uma população de mais ou menos 46 milhões de pessoas. Então a gente chega
a conclusão que tem mais ou menos, 7.600 habitantes por telecentro.

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No Brasil existem alguns observatórios, vou falar aqui sobre o Onid, que é o
Observatório Nacional de Inclusão Digital do Governo Federal. O Onid
contabilizou 5.450 telecentros, num país com 5.590 municípios e a gente tem
aí quase um telecentro por município. O problema é que tem município com
dois ou mais telecentros e 60% dos municípios no Brasil não tem telecentro.

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Existe também o Mapa de Inclusão Digital do IBICT, que contabiliza os pontos
de inclusão digital, pode ser laboratório, pode ser telecentro e eu creio que
contabiliza também lanhouses, só que segundo o Mário, existem 100.000
lanhouses, então não sei se está batendo com os resultados do IBICT. Aqui nos
mostra que a região que mais tem pontos de inclusão digital é o Sudeste do
Brasil e é a região mais desenvolvida, digamos assim.

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Comparando os dois países com relação ao nível de TICs, em residências com
computador a Espanha é bem superior ao Brasil, está chegando a quase 70%
da população, enquanto no Brasil, essa pesquisa é de 2008 e eu usei como
fonte o CGI, 20 e poucos por cento da população tem computador em casa.
Residências com Internet, a Espanha está passando 50% e no Brasil ainda não
chegamos aos 20%, e com relação à telefonia móvel a Espanha tem quase um
telefone por habitante, quase 100%, e no Brasil 50% da população já tem
celular.

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O objetivo do meu trabalho era esse, analisar e descrever o desenvolvimento
dos programas de inclusão digital, e eu selecionei o Brasil devido a importância
da inclusão digital, o programa Casa Brasil e na Espanha, Novos Centros do
Conhecimento na região de Extremadura, com a finalidade de detectar os
aspectos sobre o planejamento e a gestão que são considerados eficientes e
deficientes sobre as suas boas práticas observadas, indicar propostas de
atuação para colaborar com outros programas ou países que estão
desenvolvendo seus programas de inclusão digital.

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A metodologia adotada foi dividida em duas fases. Na primeira fiz uma revisão
da literatura sobre a sociedade da informação e as principais políticas de
informação desenvolvidas aqui no Brasil e na Espanha. A segunda fase foi um
estudo de campo que foi dividido em quatro etapas: seleção dos programas,
técnicas e instrumentos utilizados para a obtenção dos dados, a elaboração
dos instrumentos, e a última fase, a análise e valorização dos resultados.
Explicando melhor a amostra da minha pesquisa, eu trabalhei com esses dois
programas, aqui no Brasil o [Programa] Casa Brasil e na Espanha o Novos
Centros do Conhecimento.

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Fiz uma entrevista com o coordenador responsável de cada programa. Fiz
também três pesquisas com questionários com monitores dos programas,
selecionei três telecentros de cada programa e apliquei também uma pesquisa,
também através de questionário, com 10 usuários de cada telecentro.

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Sobre as entrevistas com os coordenadores responsáveis de cada programa,
resumidamente, eu fiz diversas perguntas, mas algumas vale a pena destacar,
sobre o conceito de inclusão digital. Essa é importante porque existem muitos
programas de inclusão digital no Brasil e na Espanha, e nem sempre todos os
programas tem esse mesmo conceito de inclusão digital. Cada um tem uma
percepção, tem uma visão diferente. No caso do conceito de inclusão digital os
dois programas tem o mesmo conceito de inclusão digital, que não é
simplesmente o fato de oferecer um computador e o uso instrumental do
computador, uma aula de informática; vai muito além disso. O objetivo
principal é trabalhar o desenvolvimento do usuário, da comunidade, fazer com
que ele tenha uma consciência crítica sobre a informação que vem até ele, ao
entorno dele, e através disso trabalhar o desenvolvimento pessoal.
Sobre a metodologia de educação digital aplicada, eu achei bem interessante o
modelo espanhol, que é segmentado de acordo com o perfil do usuário. Ele
divide em três etapas essa metodologia. Primeiro a questão da motivação:
antes do usuário entrar, começar na questão da educação digital, ele recebe
palestra de motivação mostrando para ele a importância de utilizar essas TICs
para o seu desenvolvimento, de acordo com seu perfil, seja terceira idade ou
usuário que está excluído dos processos da sociedade da informação, seja um
estudante; essa é a primeira etapa. A segunda etapa é basicamente a
alfabetização digital, e a terceira etapa, aí vem a questão da segmentação,
cada perfil, cada usuário entra na oficina de acordo com seu perfil. Se ele é
terceira idade ele vai seguir esse caminho, se ele é um jovem estudante ele vai

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por esse caminho, se é um desempregado vai por outro caminho, então é uma
metodologia bastante eficiente, eu considerei.
Com relação ao software livre e software proprietário os dois programas
coincidem com questão da utilização do software livre. Em ambos os casos, a
utilização do software livre é uma questão de prioridade.
Com relação a infraestrutura física dos programas eu destaquei que como o
[programa] Casa Brasil eu não vi nenhum ainda na Espanha, pelo ponto de
vista da minha pesquisa, não tinha nenhum com a infraestrutura tão eficiente.
No caso, o [programa] Casa Brasil, além do laboratório de informática, ele tem
também outros ambientes educacionais, tem a biblioteca, tem o laboratório de
ciências, tem o laboratório de rádio e isso não tem em nenhum outro lugar.

Com relação aos monitores, eu elaborei perguntas sobre o nível educacional, e
descobri que na Espanha esses monitores que trabalham nos telecentros tem
nível superior e são bem remunerados. Eles trabalham com menos monitores,
lá só existem dois monitores por telecentro, mas os dois têm formação
superior, e isso se reflete no salário: como são dois eles são bem
remunerados. Digamos que, com o que eles ganham, a questão do monitor
não é encarada como um bico, como um estágio, e sim como uma profissão
mesmo. Então isso se reflete no tempo de trabalho: por exemplo, na Espanha
a média de tempo de trabalho nos telecentros é de cinco a seis anos. Isto é
importante pela questão do comprometimento com a causa da inclusão social.
Porque como a gente sabe, não é tão rápida e é muito importante esse

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monitor estar trabalhando há tanto tempo no telecentro. Com relação à
capacitação, os dois programas oferecem capacitação para seus monitores.

Com relação à pesquisa com os usuários, eu elaborei perguntas com o perfil
desses usuários. O que me chamou atenção foi que na Espanha, pelo menos
na Extremadura, nesse programa o usuário já era adulto. Na verdade a
inclusão digital na região da Extremadura está sendo feita pelas escolas
públicas, onde o nível de computador por aluno era muito alto. Uma média de
dois computadores por aluno. Então o telecentro não permite a entrada do
jovem com menos de 16 anos, foi o que constatei. A inclusão digital se dá nas
escolas públicas. Os principais motivos para freqüentar os telecentros foram
vários detectados: serviços não oferecidos; na Espanha o serviço que os
usuários desejavam que o telecentro oferecesse era a biblioteca, e no Brasil eu
detectei que eram mais as oficinas voltadas para o adulto. No Brasil, 80% dos
usuários pelo menos eram jovens, eu não detectei o público adulto. Então, se
se oferecessem oficinas mais voltada para o adulto, como sobre governo
eletrônico, ou para o pequeno e micro empresário, seria uma estratégia
interessante para atrair esse público adulto. Os principais benefícios em ambos
os países eram a questão da apropriação da tecnologia, se inserir no mercado
de trabalho, melhorar a educação.

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Cheguei às seguintes conclusões:
o O compromisso com as questões educativas e de inclusão social está
se ampliando em ambos os países, propiciando que pessoas de distintas
idades, regiões e classes sociais tenham acesso à informação e distintas
formas de representar o conhecimento.
o Ambos os programas são espaços importantes no processo educativo
nas regiões onde atuam, e está claro que não só de infraestrutura e TICs,
como também uma formação adequada com metodologia de alfabetização
digital e alfabetização informacional.
o Constando que os usuários dos telecentros, quando eles têm
organizados e planejados, são muito eficientes quanto à alfabetização
digital, possibilitando a inclusão social de indivíduos que se encontram
excluídos desse processo. Em ambos os casos, a pesquisa de satisfação
dos usuários foi de 100%.
A partir dessas conclusões, algumas recomendações também para outros
programas; são recomendações de boas práticas:

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o Com relação ao orçamento eu sigo as palavras do Daniel Pimenta,
que é um pesquisador na área da inclusão digital e diz o seguinte: “um
projeto para o qual se destina mais de 60% do orçamento à infraestrutura
correrá vários riscos de falta de recursos em outros setores, um projeto
pelo qual se destine mais de 80% do orçamento à infraestrutura com toda
certeza acabará se tornando um desastre e um projeto pelo qual 100% do
orçamento é destinado a infraestrutura e TICs, deve ser de alvo de
investigação de corrupção porque o mais provável é que sua finalidade
seja gerar comissões significativas em equipamentos que em poucos anos
se tornarão obsoletos”.

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o Com relação a implantação, realizar um diagnóstico das
características das necessidades informacionais, os problemas das
comunidades. Não se pode engessar essa questão porque nem sempre o
que funciona no norte funciona no sul do país.
o A questão da sustentabilidade, levar em conta a continuidade dos
programas que são financiados pelo governo. Como a gente sabe, há
muitos programas que com a mudança do governo são interrompidos e
acabando com todo processo de inclusão digital e social.
o Sobre a gestão, a recomendação é formar parceria com outras
instituições sociais, sejam privadas ou públicas, ONGs, entidades sem fins
lucrativos. Essa maior flexibilidade administrativa é muito importante para
não parar com esse processo de inclusão digital.

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o Sobre a infraestrutura física, planejar de forma que seja possível a
ampliação e se possível oferecer outros ambientes educativos como a
biblioteca, auditório, laboratório de informática.
o Sobre a infraestrutura tecnológica, utilizar o software livre.
o Com relação aos monitores, poder valorizar esses monitores, ou seja,
com relação à remuneração, porque o processo de inclusão costuma ser
lento e demora alguns anos para mostrar resultados.
o Com relação aos usuários, é importante atender a todos os cidadãos,
independente de idade, sexo, grau de instrução, nível econômico, já que o
principal objetivo do telecentro é ampliar o capital intelectual.

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o Com relação a avaliação, criar ações de avaliação periódicas,
detectando aspectos deficientes e, sobretudo criar indicadores de impacto
social na comunidade onde está instalado o telecentro. Saber depois se ele
está funcionando, se trouxe melhoria para a comunidade. Acho que é a
melhor avaliação que pode ser feita com relação ao telecentro.
o Com relação à alfabetização digital, não oferecer uma alfabetização
só centrada no uso do computador, mas, sobretudo em competência
informacional, uma alfabetização informacional que significa fazer com que
o usuário saiba que quando ele necessita de uma informação tenha a
capacidade de buscar, encontrar essa informação, seja por meios digitais
ou não. A capacidade de avaliar essa informação, ou seja, avaliar é muito
importante porque já entra nas questões educacionais. Não é fácil, como a
gente vê o nível de analfabetismo funcional aqui no Brasil é muito alto e
isso precisa ser revisto, saber comunicar essa informação. Como o Edgar
[Piccino] comentou, uma análise crítica e reflexiva sobre a sua realidade e
os conteúdos da Internet.

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