Controle e exigências de segurança na génese das máquinas de ver.

Óscar de Lis

Resumo: Descreve-se o modo em que a mania persecutória e a omnipresença da sensação de perigo, motivada pela repartição do poder entanto que poder económico, se conjugam com os limites biológicos do humano para dar origem, finalmente, a um modelo de vigilância que tende a totalizar-se, e onde, ademais, o humano deve ligar-se à maquinaria visiónica a fim de conseguir superar a sua própria fronteira perceptiva ganhando, assim, a ilusão da segurança total. Abstract: This paper describes how persecutory mania and the omnipresence of danger sensation, run by the repartition of power just like economic power, are conjugated with the biological limits of human to origin, finally, a model of vigilance that wants totalize itself, and where human must support links with visionic machines to go over its own perceptive frontiers to win, on this way, the illusion of a total security.

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Informam-nos de que as empresas têm uma alma, o que é, efectivamente, a noticia mais terrorífica do mundo. - Gilles Deleuze Post-scriptum sobre as sociedades de Controle Já não preocupa se o que nos chega é o realmente importante ou não, o peremptório é que o fluxo de informação não se detenha (na sua detenção estaria a pior das suspeitas) - Juan M. Prada Imágenes, poder y sentido

Controle é a palavra empregada por sociólogos e politólogos para referir a pressão que o Poder efectua com o objectivo de inserir um ser individual no fluxo de informações para servir de ferramenta aos programadores sociais encarregados de reduzir (e eventualmente eliminar) o caos gerado pelo movimento de milheiros de milhões de seres humanos. O conceito de controle não é exclusivo dos séculos XX e XXI. Bem ao contrário, uma visão superficial da história pode já pô-lo de relevo nas sociedades que Foucault chamou disciplinares, mas é desde 1950 que se alcança o maior nível nas políticas destinadas a localizar, conduzir e delimitar os espaços de acção e reflexão do ser humano como indivíduo. Diversos historiadores têm associado o nascimento das sociedades disciplinares com o êxodo rural que se viveu entre os séculos XVIII e XX, pelo qual a industrialização se fez acompanhar de uma urbanização espectacular cuja primeira consequência foi a constituição de caldos de cultivo perfeitos para a expansão de doenças e convulsões sociais. É certo que foi também então quando se desenharam os primeiros planos de reordenamento urbanístico, que visavam uma maior salubridade e, á vez, um mais doado controle sobre a capacidade explosiva dos guetos marginais. Isto foi exactamente o que o barão Haussman explicitou no desenho reformatório dos boulevards de Paris. Do que se tratava, ademais, era de determinar os modos de conduta e comunização, de modo que se aproveitaram os novos espaços suburbanos para transformá-los em territórios regidos pela disciplina que emanava do proprietário, do capital. É de tal modo como os regimes de disciplina sobrevieram aos regimes de soberania, que estavam mais preocupados por recolher do que por organizar. Com

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efeito, as novas condições sociais, esses caldos de cultivo, exigiam ao Poder a especificação duns recursos de contenção pelo que dali pudesse surdir. Mas, á vez, as exigências do próprio capitalismo não permitiam já aplicar sobre essa população práticas próprias da soberania, que Foucault caracterizou como administradora da morte, porque eram necessárias para a produção do próprio capital. Desenvolveu-se a ideia que era mais barato vigiar do que penalizar ou eliminar, de modo que se adestraram corpos de profissionais baixo a teoria benthamiana do Panóptico. Estes corpos de “segurança” não actuavam mais como justiceiros de um senhor feudal, mas como garantia de que a estancia desse remanente de população urbana se ajustasse aos modos de vida do capitalismo. E para isso contaram com a participação de pedagogos e filantropos; os primeiros ensinando o modo de ser, e os segundos construindo toda uma série de espaços de serviços que asinha desenvolveram códigos de conduta específicos e inquestionáveis. São os que Foucault nomeou lugares de encerro pela sua caracterização espaço-temporal e por exigirem a contemplação rigorosa dos seus códigos de comportamento. Escolas, hospitais, quartéis, e fábricas derivavam do modelo de penal, eventualmente completados com a família. Como seja, não se trata já de desenvolver um poder administrador de vida ou morte, mas um poder programador da vida capacitado para indicar os modos de ser individual, que são, nomeadamente, os modos de comportar-se social. Deleuze, partindo dos mundos cerrados foucaultianos, e da sua crise manifesta, determinou as formas em que tal crise tenta ser superada por um novo sistema, profundamente tecnológico, que se dirige a um novo estádio: as sociedades de controle. A novidade, que ainda está vindo, que não está totalmente assentada, apresenta já puros antagonismos com a disciplina, porque esta implicava um modo rígido de conduta, uns espaços rígidos, uns fins estáticos. Acaso hoje não se exibe a dor social pela perda dos valores? Acaso não se culpa á desvalorização dos imperativos antigos da inexpressiva cara que mostra o futurível? As sociedades disciplinares não deixavam lugar ao caos, à entropia. As sociedades de Controle, porém, caracterizam-se pela sua metastabilidade, por deixarem de estar fabricadas com terrenos e tempos delimitados, com actos programados e interiorizados pela própria população. Como Deleuze assinala: “os cerrados são moldes, módulos distintos, mas os controles são modulações, como um molde autodeformante que cambiaria continuadamente, de um momento a outro, ou como uma peneira cuja malha mudaria de um ponto a outro”. Sem embargo, não por

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isto se abre o passo ao entrópico; o feito de a malha ser cambiante não anula a sua capacidade de coutar, de limitar o transvaze físico ou de informação. E, em qualquer caso, o que importa não é já a barreira (como espaço de enclausuramento próprio das sociedades disciplinares), mas a tecnologia visiónica (Virilio, 1998) que permite situar aqueles indivíduos que tentam trespassá-la e que decide se é lícito ou não; a tecnologia, em definitivo, que modula universalmente o meio. Estabelece-se, portanto, um jogo dobre: que a metastabilidade se aplica unicamente no âmbito do social, a massa numerada de habitantes, e na intensidade, mais ou menos baixa, de vigilância e penalidade, mas não no Controle. Porém, o Controle carece de sentido por si mesmo, isolado. O conjunto de informações que se armazenam nas grandes bancas de dados, fazendo com que o homem seja apresentado como logaritmo identificável por tecnologia computacional, tem um fim último, mais ou menos oculto. Nas sociedades de soberania, a massa súbdita era informe, indefinida. Com isto quer dizer-se que os proprietários da própria massa desconheciam o volume do seu património animal em números exactos, o que criava evidentes desajustes. Nem ainda a gleba, com o seu reconto de efectivos, tinha um objectivo censitário. Para identificar aos membros de uma população foi necessário que se desenvolvessem necessidades disciplinares, caracterizadas por exigirem um maior degrau de controle sobre o que era propriedade, neste caso já, dos respectivos capitalistas. A tecnologia da época desenvolveu rudimentares armazéns de dados e cartas de identidade que deviam ser portadas em todo momento sob pena. Era obrigatório que o individuo pudesse acreditar a sua identidade em qualquer momento. O objectivo era reduzir, na medida do possível, a virulência dos movimentos antiopressivos protagonizados pela própria massa. Agora, sem embargo, o que se busca não é reduzi-los, toda vez que já estão operando, mas impossibilitar a sua explosão e, eventualmente, eliminá-los incluso do terreno das possibilidades. O que se procura aqui é implementar um modo de predição capacitado para antecipar tais respostas com o objectivo de impossibilitá-las, bem por acção da força, bem mediante políticas destinadas a produzir umas condições vitais que minimizem a possibilidade da própria revolta. Para isso, porém, é vital contar com dados com os que construir o simulacro que dará a predição. O individuo deixa de ter um número de identidade para adquirir um código digital. A substituição não é ingénua. O sujeito passa de ter identidade a identificar-se com o registro das suas acções; cada uma delas emite um sinal numérico

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que é arquivado e organizado num informe intransferível no que, mais ou menos rápido, mas progressivamente, se vão enchendo os ocos com novos dados. Mas cabe ainda outra pergunta, acerca das diferenças que a nossa sociedade informacional apresenta com respeito á precedente (Costa, 2004) As sociedades disciplinares e as de controle estruturam de modo diferente a sua informação. Nas primeiras, de tipo dual, existia um modelo hierárquico, com uma cabeça pensante (res cogitans) e um corpo de trabalho (res extensa). Logicamente, apenas a cabeça tinha acesso à informação e, para o corpo extenso transmitia-se a estritamente necessária. O cambio de produzir produtos a produzir serviços, e, em menor medida, os movimentos pelos direitos humanos, sem embargo, fizeram com que a situação mudasse. É certo que nas empresas que vieram substituir as fábricas (Deleuze, 1990) segue existindo a cabeça directora, mas o tipo de trabalho a desempregar faz com que o abismo no nível de informação entre a cabeça e o corpo mingúe. Indivíduos hiperespecializados e organizados vieram substituir a massa de trabalhadores informe e analfabeta, e, ademais, possuem as bases para seguirem apreendendo, interiorizando dados e realidades, coisa que não podiam fazer as massas animais. O novo poder, informatizado, não responde já a uma fórmula hierarquizada, que sempre levava a considerar a personalização do mesmo, mas agora dilui-se em esquemas reticulares, em malhas, e ademais move-se. É, pelo tanto, impessoal, de modo que sempre, nalgum lugar, o director é dirigido por outro director, o controlador é controlado por outro controlador, e assim sucessivamente. O peremptório é, simplesmente, que os controladores estejam deslocados, o que evitaria, ademais, os perigos da sabotagem. No mundo global sabe-se hoje, vox populi, que os dirigentes políticos estão controlados por outros interesses, mas desconhecem-se totalmente esses interesses, desconhece-se o rosto de quem move os fios, singelamente porque não o tem, não existe. O poder paira entre a população, onde todos, cada um, são proprietários de um fragmento do mesmo. O Controle surge, assim, para vigiar como seja que aquilo que o outro faz não interfira nos interesses dos demais proprietários, e para isso não é possível interceptar um número dado de mensagens, mas a maquinaria exige que se rasteje a totalidade dos campos de comunicação na procura da totalidade das informações, de quem as possui, do que se faz com elas e das consequências que produzem (Costa, 2004). Todo para abstrair as pautas condutivas que irão predizer os próximos movimentos.

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Portanto, Controle não consiste tanto numa sociedade da informação quanto numa sociedade de acesso à informação (Prada, 2004), o que tem muito a ver com a ideação de Guattari de um futuro orwelliano onde cada individuo vai provido de um código que delimita os seus movimentos em função das permissões. Não é que na nossa sociedade haja uma ocultação da informação, mas que esta é perfeitamente visível. Sem embargo, igual que nas sociedades disciplinares, o Poder sobrevive de manter o verdadeiro controle sobre ela. Na nossa altura, reservá-la ou acocorá-la seria um exercício inútil, contraproducente. Toda população tem uma tolerância limitada quando se sabe que, deliberadamente, os seus dirigentes (que não são, a fim de contas, os verdadeiros detentores do poder) ocultam informação. Não suportariam uma proibição flagrante de acesso a ela. Então, a estratégia muda; o Poder, com o máximo de efectividade, responde a essa necessidade de espreitar e opta pelo exibicionismo delirante da mediocridade (Baudrillard, 2002), põe-o todo a dar na vista, à vez que os dados fundamentais ficam extraviados entre mil detalhes que desviam a atenção. E tudo, no fundo, adquire idêntica relevância: o supérfluo reforça-se e medra, ganha espaço, o importante desvirtua-se e passa a fazer parte do continuo medíocre do superficial, evitando assim qualquer hermenêutica capaz de assentar algo, de fixar algo. A democratização dos estudos não trouxe, provavelmente, maior conhecimento, mas apenas maior ruído, até o ponto no que a emissão se faz ilegível, inútil. Deste modo, logra-se um objectivo dobre. De uma parte, o fundamental queda irreconhecível, neutralizado e convertido em puro simulacro. De outra, a figura individualizada do Grande Irmão orwelliano demonstra-se inútil ao obrigar ao conjunto da massa a se vigiar a si mesma. Sobre isto cabe mais. Os soldados armados nas conexões de transporte (nomeadamente aeroportos) respondem a uma demanda do tecido social, da rede de pequenos poderes que ordenam ao uníssono maior vigilância. Na sociedade de controle, o poder, diluído, desestruturado e desiconizado, sobrevive na fusão íntima com a propriedade privada. O que os antigos chamaram Poder (em concentrados opacos) identifica-se agora univocamente com os direitos económicos, isto é, com uma capacidade de consumo não mais opaca, mas diluída e transluzida. Porque agora o Poder não é compreendido só como modo de dominação, mas, especialmente, como capacidade de actuação (económica). Deste modo, o histórico acesso da classe

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meia a um cada vez maior nível adquisitivo determinou uma aceleração no processo pelo qual o Poder se desagrega em poderes menores. Finalmente, ao igual que os direitos de consumo, e por associação semântica, o Poder fica dividido em pequenas porções, a modo de acções no mercado de valores; e, lá, o medo aos predadores, tal vez, faz com que os bancos de pequenos poderosos exijam aos governos a criação de sistemas de controle1. Tem-se acusado ao medo histérico e á procura paranóica da segurança de determinarem actuações desaforadas de controle, e com razão. Conclui-se que, a meio prazo, toda ilegalização e rearmamento, toda intromissão no íntimo, cria a pressão suficiente para novas ilegalizações, novos rearmamentos. A meio prazo, tudo gira em espaços claustrofóbicos, todo evolui em círculos viciosos, de modo tal que já não é o capitalista em perigo de sabotagem quem exige a dominação das massas; são elas próprias as que demandam, cada vez mais desesperadamente, com maior violência gestual, que se fiscalize cada acto, cada palavra, cada pensamento. Porém, o Controle não é infinito nem imparável. Necessita, para sobreviver, dois elementos, intimamente ligados, que o delimitam (Burroughs, 1985): tempo e aquiescência limitada. Pelo referido em primeiro lugar, qualquer uma nova ordem do social necessita tempo para assentar-se. Todos os modelos supraindividuais exigem uma temporização do próprio processo de assentamento, de modo que quando os prazos são inexistentes ou demasiado curtos, a nova fórmula demonstra-se inútil, perece. Esse tempo determinará, paulatinamente, um maior degrau de aquiescência, principalmente por efeito do diário. Quer-se dizer que certo degrau de controle é tolerável se, com tempo, se torna habitual, comum. Demonstra-o o facto de hoje os telespectadores do mundo terem deixado de reagir frente às imagens que constituíram, noutra época, insana pornografia da pobreza ou da guerra. Mas é necessário que essa aquiescência não seja total, ofereça uma mínima resistência (tal vez do modo em que os escravos a mostraram no século passado). Do contrário, não existe Controle, mas apenas Utilização. Controle necessita de uma oposição, por débil que seja, á própria dominação que persegue, para subsistir. E aqui insere-se o referido ás políticas de baixa intensidade penal contra a oposição. Do que se trata é de manter operativa essa obstrução ideológica se o que se quer é um sistema estável ainda dentro da sua própria metastabilidade. Porque é necessário entender o feito da metastabilidade de Controle, que é movimento, efectivamente, mas não direccionado, não dirigido (e muito menos

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contra a própria destruição), mas indeterminado entanto não existe individuo nenhum que poda controlar Controle se este o fiscaliza tudo. Pensar que qualquer governo, por poderoso que for, poderia delimitar a expansão do que vem é ingénuo. Bem o demonstraram Nixon e o Watergate. Por outra parte, há que insistir nas motivações últimas da penalização de baixa intensidade. É certo que o seu fim último é permitir a subsistência de uma maquinaria opositora, mas isto não significa uma menor efectividade do sistema. Bem ao contrário, uma maior saúde. Para além do feito de que, onde não há vontades, não há controle, tem-se observado também que os sistemas altamente aperfeiçoados de dominação são proporcionalmente vulneráveis de se produzir o mínimo erro. Por isso Controle se caracteriza também por temer o erro. Se o sistema chegasse a desenvolver uma força opressiva tal que não fosse necessário nenhum tipo de corpo ou força de segurança (posto que todo estiver previamente assegurado), e, por outra parte, se produzisse o mais mínimo dos erros na matriz de dominação que desse lugar a uma atitude opositora, o sistema ver-se-ia indefeso. Assim pois, o nível de aperfeiçoamento do sistema é também a sua maior debilidade inerente. Manter essa oposição significa, pois, que sempre quedará alguma vontade por dominar e, do mesmo modo, que os corpos de segurança não se atrofiarão e estarão prontos para responder perante qualquer ameaça. Isto, sem embargo, só se refere à penalização; não obsta para que o nível de fiscalização e vigilância seja cada vez maior, mais profundo. O equilíbrio necessário (Burroughs, 1985) está em saber quando determinada informação pode arquivar-se sem a consequente actuação repressiva, é dizer, quando fazer concessões. Uma concessão significa, exclusivamente, uma remissão de Controle, mas em nenhum caso é gratuita. O sistema, então, apenas pode confiar na subtileza dos grandes concentradores de poder para com os pequenos poderosos. Nela residem as suas possibilidades de sobrevivência. Daí que as técnicas do controle, tanto as coercivas como as psicológicas, sejam constantemente refinadas com o fim de as fazer passar mais inadvertidas, tornando-as, no mesmo exercício, mais efectivas. Fica mediamente claro que a sociedade de controle, por si mesma, não serve mais que como eventual desânimo para as práticas de uma resistência que seria chamada sabotagem. As câmaras de vídeo-vigilância, bem como a identificação biométrica ou a

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monitorização de condenados a cumprir as suas penas em liberdade condicional, não exercem, porém, nenhum efeito letárgico entre quem não tem nada a perder. Em qualquer caso, a sua utilização iria reproduzir finalmente uma estigmatização (Lima, 2007) de quem já fosse sometido ao sumaríssimo juízo de uma sociedade educada nos confins didácticos do próprio Controle. Mas, de se querer retrair mesmo àqueles párias (e quer-se, não cabe dúvida) é necessária uma praxe que vaia além da simples bancarização estatística; é necessária a assunção de novas técnicas de dominação subtil, talvez apriorística. Mas, no entanto, este artigo centrar-se-á naquela capacidade relativamente dissuasória da tecnologia de vigilância, das máquinas de ver, baixo a tese foucaultiana de que vigilar e punir são momentos de uma mesma acção em continuidade. Contudo, talvez seja preciso fazer uma aclaração terminológica, a respeito da própria vigilância. Vigilar não é apenas registrar qualquer transformação ou movimento de um objecto, nem inclusive registrar a própria identidade desse objecto. Essa tarefa é levada a termo com tecnologias de compilação de dados mais ou menos rudimentares. Vigilar, porém, consiste em estabelecer um conjunto de informações traídas desde a confrontação de transformações, movimentos e identidades, diga-se assim. De modo simplificado, vigilar não é saber que se produziu um movimento, mas saber o que (ou quem) se moveu, o que produziu esse movimento (como princípio de causação) e quais, à vez, as motivações particulares desse movimento. Uma câmara de vídeo apenas pode captar o movimento, mas não identifica actor, causas nem consequências. Faz, assim, com que seja necessária mais um avance no âmbito tecnológico, mais um salto para passar-se do acto de registrar ao acto de ver, que implica já algum exercício mental do tipo relacional, do mesmo modo que não são os olhos quem vem, mas a mente a organizar e estruturar relacionalmente os objectos (imagens) registradas pelo olho. É necessário, assim, jungir à câmara um computador que identifique de modo sincrético as informações desligadas, de modo a recriar, finalmente, na própria lógica computacional, um sujeito activo que poda responder dos tais deslocamentos e das modificações de si registradas por separado e com anterioridade por diversos dispositivos de compilação de dados. O computador apresenta, destarte, um rol cognitivo enquanto é capaz de efectuar conclusões a partir da aplicação das suas próprias metodologias de lógica, provavelmente através de configurações também próprias de imaginária alfanumérica (Virilio, 1998).

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A tendência de Controle, como resposta às necessidades de perseguição do outro, detentor de uma porção de poder que pode colidir com a de um ego multiplicado, é a de vigilar, pois. Ver, ou mais exactamente prever, desenvolve-se como sendo pré-acção à efectuação daqueles programas ou medidas que se achem logicamente convenientes. Quer-se dizer que a mesma pré-acção que constitui a visão vai ligada à acção, especificamente dita, para ou contra o outro. E neste sentido, observam-se os modos que levaram ao mais alto a industria da previsão, intimamente jungida à nova teoria social da segurança que deve ser, explicitamente, o Controle de todos por todos. Nesta exigência, tanto como na consideração de que a capacidade perceptiva (pré-activa) que nos é própria é também limitada, descansa operativamente boa parte da claudicação do humano como modelo para si. De facto, a actualidade não habita numa inércia de um humanismo, de um optimismo do humano que se crê capaz de possuir a totalidade do mundo (espaço-tempo). Dificilmente cabe já aquela undécima tese marxista sobre Feuerbach, e dolorosamente, a deriva começa a adquirir o costume de nomear-se pós-humana (Hayles, 1999), onde o principal é a sensação latente de que as capacidades do homo ficaram insuficientes à hora de controlar o mundo (para depois possuí-lo). Destarte, o pós-humano caracteriza-se como quimera formulada mediante a junção da máquina e o humano, que lentamente ultrapassa o terreno da ligação construída desde a simples utilização mecânica (com o fim lograr uns fins concretos) para ir abranger já ligações de facto, físicas e cada vez mais próximas aos híbridos que mostrara a ciência ficção apocalíptica (apocalipse do humano, claramente). Daí que, hoje, o indivíduo se associe com a sua imagem de ser limitado, impossibilitado para a pré-visão do tudo, que é peça fundamental da sua segurança, não tanto pela sua limitada profundidade de campo, mas pela “débil profundidade do tempo da nossa perspectiva psicológica” (Virilio, 1998:3) e ainda pela débil largura do campo binocular (< 90º) , cuja própria essência focal (entanto serve para focar algo) deixa fora n informações do contracampo. Aí faz-se peremptório o concurso da máquina de ver, como sendo considerada a solução àquelas carências biológicas próprias. Assim, não apenas com a utilização, mas com a dependência de facto, é que se configura finalmente o conceito do pós-humano. E ao fim, pouco importam, excepto para a moral, as formas alfanuméricas da imaginária das máquinas de ver. O que é fulcral, finalmente, é que a pré-acção de vigilar se transforme,

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finalmente, trás os passos intermédios da fiscalização, na resposta lógica ao impulso criado pelas imagens visiónicas, isto é, que a própria máquina, sobre a base de uma programação lógica e, à vez, ortoética, aja algum tipo de acção punitiva contra aqueles membros da comunidade, aqueles outros, que representem, pela sua conduta, um perigo qualquer contra a propriedade do ego, que é, no prisma liberal dos mundos de vida, especificamente a liberdade do ser. Acha-se, assim, que o abuso contra a intimidade se joga desde Controle como facto indispensável para assegurar o nível de segurança, e, baixo esta teoria, abrem-se perspectivas de um amanhã, nem tão futuro, onde a histeria persecutória considere tais sobreexposições do íntimo como sendo males menores, condições lógicas do próprio facto de viver, como, com efeito, consideravam aqueles seres alienados da História que Orwell pensara para 1984.

Oscar de Lis Compostela - Galiza, Maio de 2007

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BIBLIOGRAFÍA

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notas

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É salientável o milhão e meio de câmaras de vídeo-vigilância que o governo do Reino Unido instalou em locais públicos como resposta aos ataques do 11-S nos EUA. Cfr. http://www.epic.org/privacy/surveillance/
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