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Democratização da (e na) Metrópole:
a distribuição dos bens
e serviços a favor da cidadania.
Ana Lucy Oliveira Freire
Profª Adjunto da PUC-Minas, Belo Horizonte
Palavras-chave
Metrópole, democracia, cidadania

1. Introdução: o espaço urbano que se produz sem cidadão
“Onde não há cidadão, há o consumidor mais-do-que-perfeito. É o caso do Brasil”.
Milton Santos, 1987, p. 41.

O ponto de partida, que é também uma enorme fonte de inspiração para desenvolver esse trabalho, é tornar atual – porque é atual – o livro do Professor
Milton Santos, “O Espaço do Cidadão”, de 19871. Há 15 anos exatos, através
dessa obra-prima esse importante geógrafo discutia temas relevantes acerca
da nossa cidadania imperfeita, do espaço sem cidadãos, do cidadão transformado em mero consumidor, sobre o valor e a importância do lugar (os bairros,
por exemplo) na totalidade da metrópole, a gestão do território na busca pela
cidadania, o papel do Estado, o modelo econômico na raiz do problema da pobreza material e cultural dos indivíduos, a cultura como forma de desalienação, dentre outras idéias trabalhadas por ele. Reafirmamos a extrema validade
dos seus escritos em tempos que a sociedade brasileira constata que as nossas
grandes cidades transformaram-se em verdadeiras “bombas-relógio” prestes a
explodir a qualquer momento, posto que as desigualdades sócioespaciais alcançaram vultos alarmantes, notadamente quando verificamos a não homogeneidade na distribuição dos bens e serviços. Um exemplo disso, encontramos
nas palavras do professor (Milton SANTOS, 1987, p. 43): “é fácil constatar
extensas áreas vazias de hospitais, postos de saúde, escolas secundárias e
primárias, enfim, áreas desprovidas de serviços essenciais à vida social e à
vida individual” .
Precisamos enfatizar, antes de mais nada, que a busca pelo direito de cidadania, pelo direito à cidade, precede uma intensa luta pela melhoria nas
condições da vida cotidiana, a existência digna, o que significa, dentre outros
movimentos relevantes, a luta contra um cotidiano massacrante e alienante a
favor da humanização do homem. Daí podermos pensar, sim, uma cidadania e
uma democracia verdadeiras.
Fruto do processo de modernização econômica, o Brasil urbano de 2002 é
marcado pelo crescimento desmesurado das extensas periferias que fazem das
1

Julia Andrade, escrevendo o texto “O Espaço sem Cidadão e o Cidadão sem Espaço” (In: CARLOS, Ana Fani (Org.) Ensaios de Geografia Contemporânea. Milton Santos Obra Revisitada. São Paulo: Ed. Hucitec, 1996, uma homenagem do professor ainda vivo), já havia chamado a atenção para a importância da abordagem sobre a cidadania presente na obra do
Professor Milton Santos, especialmente o livro O Espaço do Cidadão, de 1987.

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metrópoles cidades gigantes prenhes de toda sorte de “problemas” advindos
da segregação social e espacial, do desemprego, da desagregação familiar, do
abandono por parte dos governantes, etc. A grande cidade é o locus da concentração da moradia das classes de baixo poder aquisitivo que vêem aí nesses espaços oportunidades, difíceis de serem encontrados em outros lugares;
é aí, também, que essas classes enxergam o acesso à propriedade privada,
construindo suas próprias casas, na maioria das vezes.
É corrente, hoje, as discussões reafirmando o que já se pensava há tempos: dotar a cidade, especialmente as amplas áreas periféricas de bens e serviços, além de proporcionar o desenvolvimento humano/cultural àqueles que
vivem nesses territórios urbanos, é algo positivo e necessário se almejamos
menos desigualdade, menos violência, menos exclusão, mais oportunidades,
mais justiça, mais democracia e cidadania para os que não têm o “direito à cidade”.
É pensando esse momento em que o país vive uma realidade urbana
(metropolitana) quase trágica que (re)surge a idéia de retomar e discutir
(questionando) alguns temas que fazem parte desse trabalho: que desigualdade urbana é essa?, o que significa uma cidade democrática de fato?; que cidadania incompleta é essa que temos (ou não temos) alardeada por todos os lados?; como a ampliação – já que é quase utópico pensar na universalização –
na distribuição dos bens e serviços contribui no sentido de humanizarmos mais
a metrópole? Dizemos isso porque muitos, sobretudo o mass média, advogam
que o país avançou muito no que diz respeito à cidadania, quando, por exemplo, mencionam que ganhamos um código em defesa do consumidor, os Procon’s, as leis ambientais, as leis em defesa da criança e do adolescente e outros ganhos importantes, mas que não significam estarmos perto de nos
tornamos cidadãos de fato.
Essas questões estão incorporadas na nossa visão geográfica de cidadania e de democracia ampla, ponto de vista este que perpassa o entendimento
fundamental de que a distribuição desigual dos indivíduos no espaço se dá segundo sua inserção em determinada classe social e seu poder aquisitivo (Milton Santos, 1987). A cidadania ampla passa, inclusive, pela existência de tempo, não o tempo da produção, mas o tempo para a vida mais digna; para que
o indivíduo possa usá-lo no seu cotidiano; tempo para apreender, aprender,
tempo para criar, tempo para o vivido.
Nesse sentido, pretendemos nesse trabalho discutir as relações entre o
espaço (urbano) e a cidadania que se busca, vislumbrando uma metrópole
mais humana, mais democrática no Brasil, através da observação empírica de
alguns casos concretos. Para tanto, no primeiro item do texto privilegiamos
um debate a partir do entendimento e discussões de estudiosos que vêm pensando essas relações e processos, bem como a realidade metropolitana que
vivenciamos sem, no entanto, nos aprofundarmos em teorias.
Em seguida discutiremos a importância de uma maior igualdade, ou pelo
menos apontar a relevância na diminuição das desigualdades no que tange à
distribuição dos bens e serviços públicos (não apenas a infra-estrutura urbana
básica, mas os equipamentos urbanos que possibilitem a apropriação, os diST6, 1

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versos usos do espaço visando uma vida mais digna, mais humana) na metrópole se se pretende uma realidade mais democrática, o que, concretamente,
estamos pensando nas áreas localizadas nos limites da mancha urbana da
metrópole, lá onde a ausência de democracia e de cidadania salta aos olhos.
Nos ateremos a essas necessidades mais prementes que são os bens materiais, as áreas/os espaços equipados possibilitando usos diversos pelos moradores.
No caso da grande Belo Horizonte ilustramos essas reflexões com exemplos do que ocorre na metrópole hoje. Destituídos de bens e serviços e cercados de problemas de toda ordem bairros surgem e crescem com intensa rapidez em diversos municípios que formam a região metropolitana. Em alguns
desses só pelo fato de abrigarem uma população de mais 30.000 habitantes já
transformaram-se em fenômeno que chama a atenção, merecendo sempre reflexões e discussões sobre o assunto. Ribeirão das Neves, Santa Luzia e Contagem estão entre os diversos municípios da RMBH que apresentam essa triste
realidade urbana. A partir dos depoimentos de moradores e observações nos
bairros escolhidos nesses municípios e, portanto, munidos de maiores detalhes, analisaremos na última parte do texto alguns resultados e conclusões,
além de observações feitas junto à população residente nessas localidades.
Concentrando-nos apenas no item bens e serviços a favor do desenvolvimento do lazer, dos esportes e da cultura, nosso objetivo maior nessa pesquisa (em etapa inicial) foi verificar e constatar a quase total ausência de bens
materiais e imateriais (equipamentos como praças, parques, centros culturais,
núcleos e/ou complexos comunitários e esportivos, centros comerciais e outros, e mesmo de políticas e projetos públicos) nessas áreas/bairros voltados
para tal finalidade, o que reforça a idéia de uma cidade pouco democrática e
de um espaço cada vez mais ocupado de indivíduos proprietários que consomem, mas não vivem esse espaço posto que, em sua maioria, compram a
moradia – como bons consumidores que são -, mas (ainda) não são cidadãos
de fato. As condições de apropriação do espaço ou de usos que não sejam
mercantis, não existem. Queremos enfatizar e chamar a atenção para a inexistência dessas condições, as quais poderiam vir a ser um degrau a mais na
conquista da cidadania através do sentimento de pertencimento à cidade, do
acesso ao que a cidade tem de melhor a oferecer aos seus moradores independente do lugar em que os mesmos habitam.
Salientamos ainda que, nossas discussões nesse trabalho vão estar muito
centradas naquilo que vem sendo alvo de nossas inquietações imediatas: as
péssimas condições de moradia de uma gama enorme de trabalhadores de
baixo poder aquisitivo nas extensas periferias da metrópole que se produz.
Contudo, é importante dizer que embora nossa preocupação seja enfocar
como se vive nesses lugares destituídos de condições de uma vida digna, enquanto parte do processo de reprodução da força de trabalho, entendemos que
a problemática urbana deve ser entendida no âmbito da reprodução da sociedade, sobretudo nas suas manifestações sócioespaciais, posto que as formas
mudam, a paisagem urbana está em constante mutação, mas a vida cotidiana
também (CARLOS, 1992).
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2. O Entendimento Sobre a Metrópole Desigual
e a Cidadania Restrita
Entendemos que a cidadania, de fato, passa pela concreta participação e o envolvimento integral do indivíduo no lugar em que ele vive, seja na escala micro
ou macro: o bairro ou a grande cidade. Essa participação e envolvimento por
completo exige mais do que o acesso deste indivíduo aos denominados direitos
básicos (moradia, educação, saúde, segurança, trabalho e outros); o lazer e o
desenvolvimento artístico e cultural, além da participação política e o bemestar sócio-econômico são também essenciais a favor de um cidadão pleno e
de uma cidade mais democrática.
No que diz respeito à cidade, a conquista da cidadania requer ações concretas da própria sociedade, e sobretudo do Estado, no sentido de impedir
transformações que afetem direta ou indiretamente a vida das pessoas, dos
grupos, das comunidades; o planejamento tem que propiciar uma vida civilizada e adequada às amplas necessidades dos indivíduos; a fiscalização e cobranças dirigidas ao poder econômico têm que ser sérios e constantes. Trata-se de
utopia? É possível, mas se não for por esse caminho continuaremos a assistir e
ouvir todos os dias um elenco dos ditos “problemas urbanos” que compõem a
chamada “crise urbana”, ou ainda, o “caos urbano” como se estes fossem próprios da cidade e não da sociedade da qual fazemos parte.
Chama a atenção no atual processo de produção do espaço urbano no
Brasil o modo predominante como a metrópole se constrói reproduzindo as desigualdades: o horizonte da mancha urbana estica e parece não ter fim, uma
vez que surgem a todo momento grandes “bairros”, mas que, de fato, ainda
não se constituem enquanto tal. Na verdade são áreas totalmente recortadas
em lotes onde os indivíduos constróem o mais rápido possível suas casas, garantindo, pelo menos, o direito de habitar em condições melhores se comparado com situações anteriores piores, isto é, quando ainda não tinham tido o
acesso à propriedade privada. Percebe-se, nesse sentido, que o pior de tudo
para essas pessoas é não ter a moradia própria, vivendo de aluguel, em casas
de familiares, em barracos nas favelas ou em áreas extremamente inconcebíveis para se viver.
Nesse processo em que a cidade é cada vez mais o lugar da produção e a
vida se volta para o processo produtivo, as relações do indivíduo com o espaço
se limitam ao habitar, se restringe à casa, dificultando ou impossibilitando a
experiência do espaço, e a relação com o mundo no plano micro. Ou ainda
como diz Ana Fani A. CARLOS (2001, p. 35)
“o espaço apropriável para a vida (...) o bairro, a praça, a rua, o pequeno e restrito comércio que pipoca na metrópole, aproximando seus moradores que podem ser mais do que pontos de troca de mercadorias, pois criam possibilidades
de encontro e guardam uma significação como elementos de sociabilidade (...)
as relações de vizinhança, o ato de ir as compras, o caminhar, o encontro, os jogos, as brincadeiras, o percurso reconhecido de uma prática vivida (...) laços
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profundos de identidade habitante-lugar, lugares que ganham o significado dado
pelo uso marcado pela presença...” 2

A justificativa para não aprofundarmos aqui discussões acerca da problemática urbana é até muito simples: os indivíduos precisam primeiro ter as
condições materiais e mesmo imateriais de vir a sofrer o estranhamento fruto
das rápidas mudanças no uso do espaço, isto porque nem as possibilidades de
usos estão dadas no caso da realidade metropolitana em que vivemos hoje.
Apontamos antes o que é parte da problemática urbana, esta entendida,
portanto, para além da cidade, da forma física, da morfologia. Nesse sentido é
importante que seja mais uma vez salientado: ter direito à cidade não é apenas alcançar a propriedade, a moradia na cidade; o morador, consumidor do
espaço precisa apropriar-se do espaço, inscrever suas territorialidades nesse
espaço para que ele se transforme de indivíduo consumidor em cidadão, e
para isso ele precisa ter tempo, tempo para a vida. Segundo José Aldemir de
OLIVEIRA (1997, P. 270),
“ainda que a ausência de bens e serviços seja abominável, são igualmente abominosos a falta de tempo, de lazer, de informação (...) o resgate da cidadania
contém a dimensão das condições necessárias à reprodução da vida no seu sentido mais amplo”.3

Nesse sentido, suas palavras reforçam uma dialética do tempo e do espaço.
No âmbito deste raciocínio, Odette SEABRA (1997, p. 66) chama a atenção para o fato de que
“(...) a vida pressupõe espaço. Sem território, à escala do indivíduo, não há vida
(...) o espaço é objeto de múltiplas estratégias, nele e por ele se travam confrontos e conflitos, defrontam-se estratégias do Estado, dos moradores da cidade ... usuários e usadores do espaço”4.

É preciso perceber e negar a lógica que, de modo simplista, traduzimos
como sendo aquela que quando possibilita a propriedade não faz o mesmo em
relação a apropriação; é preciso espaço enquanto possibilidade de apropriação, assim como tempo para usufruir desse processo, isto é, para a prática espacial.
Andando e observando as periferias de qualquer metrópole brasileira, é
fácil constatar desigualdades e injustiças e outros fatores que colaboram para se
definir um “espaço sem cidadãos”, nas palavras do professor Milton SANTOS
(1987, p. 43). Ainda segundo ele, “é como se as pessoas nem lá estivessem”
tal é a ausência dos serviços essenciais à vida social e à vida individual nesses
territórios/fragmentos da cidade que se mundializa. Reverter ou amenizar esse
triste quadro passa, em primeiro lugar, por uma atenção maior que deverá ser
2
Ana Fani Alessandri Carlos. Espaço-Tempo na Metrópole. A fragmentação da vida cotidiana.
São Paulo: Ed. Contexto, 2001.
3

José Aldemir de Oliveira. “A Cidade no Horizonte do Provável: políticas e desenvolvimento urbano”.
In: SILVA, José Borzacchiello et alii (orgs.). A Cidade e o Urbano. Fortaleza-CE: Ed. UFC, 1997.

4

Odette Carvalho de L. Seabra. “Conteúdos da Urbanização: dilemas do método”. In: SILVA, José Borzacchiello et alii
(Orgs.). A Cidade e o Urbano. Fortaleza-CE: Ed. UFC, 1997.

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dada à realidade metropolitana hoje, seja por parte das instituições públicas
ou privadas através de planos e políticas; em segundo lugar precisamos reaprender o real significado de cidadania, muitas vezes confundida e limitada à
ampliação do poder de consumo dos indivíduos e a alguns poucos direitos conquistados. Não somente o futuro, mas o agora das nossas grandes cidades
estão comprometidos caso não estivermos atentos aos direitos dos indivíduos
de modo integral e completo independente do lugar em que estes se encontrem no espaço urbano.
“Cabe aos poderes do Estado traçar normas para que os bens deixem ser exclusividade dos mais bem localizados. O território, pela sua organização e instrumentação, deve ser usado como forma de se alcançar um projeto social igualitário”5.

Não é tarefa fácil discutir o tema, mesmo que este esteja limitado à manifestações mais formais, na paisagem urbana e nos fenômenos que saltam
aos olhos. Continuamos a apontar alguns elementos e/ou características que
fazem parte dos debates acerca da metrópole desigual, realidade concreta que
é parte da problemática urbana atual, denominada por muitos de “crise urbana”. Um exemplo:
“A crise urbana é uma conseqüência do fracasso de modelos políticos e econômicos que não levaram em consideração a justiça social, a eficiência econômica e a
democracia como condições indispensáveis da vida urbana”,

diz Eduardo NEIVA (1997, p. 10), reforçando a idéia de crise.
No que tange à grande cidade, o movimento incessante de sua transformação responde aos anseios de uma sociedade da produção e do consumo enquanto parte da tão fadada modernidade, esta tendendo, preferencialmente, à
homogeneidade mundial, o que não significa que as diferenciações sócioespaciais desapareçam, a exemplo do que ocorre nas metrópoles. Áreas de poder e
riqueza assim como áreas de pobreza e miséria surgem a todo momento nas
grandes cidades. Segundo Ana Fani A. CARLOS (1996, P. 67), “Essas áreas
que se diferenciam e se multiplicam simultaneamente na metrópole, hierarquizam-se formando guetos” 6. Ou seja, a cidade fragmenta-se em territórios dos
que se auto-segregam e dos que são segregados sem ter escolha, territórios
estes que ajudam a expandir os limites metropolitanos dispersos em periferias
distantes e vazias de tudo aquilo que possibilitaria um cotidiano urbano mais
humano.
Há tempos que as políticas de desenvolvimento (econômico) urbano reduz a cidade às suas funções econômicas; a metrópole hoje é vista como um
pólo de desenvolvimento da economia em potencial, e não como possibilidade
de um devir melhor para os seus habitantes. Uma expressão dessa realidade é
ressaltada por Eduardo ALVA (1997, P. 1):
5

Milton Santos. O Espaço do Cidadão. São Paulo: Ed. Nobel, 1987, p. 122.

6

Ana Fani Alessandri Carlos. O Lugar no/do Mundo. São Paulo: Ed. Hucitec, 1996, p. 67.

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“atualmente, as cidade maiores tendem a converter-se em metrópoles de sistemas sócio-econômicos organizados espacialmente para articular economias regionais, nacionais e internacionais (...) As cidades maiores, no novo cenário mundial, assumiram funções de direção, promoção, gestão, financiamento de
investimentos e distribuição comercial (...) As funções de produção – principalmente industrial – se deslocaram para a periferia da aglomeração metropolitana...”7

Quando os planos partem diretamente e concretamente do Estado, as
ações para os “problemas” que afligem a população, muitas vezes aprofundam
as desigualdades - fruto das contradições urbanas - ao invés de solucioná-las
ou amenizá-las, e isso ocorre, dentre outros fatores, por não se considerar as
especificidades do lugar; há uma negligência até no reconhecimento de pontos
positivos do lugar enquanto possibilidade de urbanidade, isto é, rumo a construção de uma cidade mais humana/menos hostil, quem sabe até mais democrática!.
É fato que os graves problemas que se abatem sobre as grandes cidades
é fruto do desenvolvimento industrial do Brasil nas últimas quatro décadas,
cujo papel do Estado foi fundamental enquanto motor da economia beneficiando com suas políticas setores, grupos e classes econômicas. No bojo desse
processo as elites foram as que mais se beneficiaram, o que podemos verificar, por exemplo, através da melhor localização das mesmas no espaço urbano (áreas inteiras e bairros privilegiados de bens e serviços, especialmente os
de cultura e lazer na denominada centralidade da cidade), enquanto enorme
parte da sociedade – as classes trabalhadoras -, são empurrados cada vez
mais para áreas rurais a 30, 40, 50 km ou mais de distância do centro, este
dotado de infra-estrutura mais ampla, áreas aquelas que vão se incorporando
à metrópole como solo urbano via especulação com a terra. Percebemos, portanto, que não é possível discutir as desigualdades sociais metropolitanas sem
articular o tema ao processo de acumulação de capital, especialmente aquele
que se origina na especulação. Apoiando esse raciocínio, assinala Cândido M.
CAMPOS F.º, (1992, p. 47), “o atendimento concreto das condições de vida
(...) é dificultado enormemente pela forma como está organizado o espaço nas
cidades, especialmente devido à especulação com a terra”.8
A manifestação formal mais dominante e comum que marca a algum
tempo o processo de produção do espaço urbano brasileiro, e que ilustra muito
bem as desigualdades sócioespaciais na metrópole é o loteamento na periferia9
voltado para as classes de baixo poder aquisitivo, saída para a reprodução das
mesmas (Nabil BONDUKI & Raquel ROLNIK, 1982). Esses empreendimentos
7

Eduardo Neira Alva. Metrópoles (in) Sustentáveis. Porto Alegre-RS: Ed. Relume Dumará, 1997.

8

Cândido Malta Campos Filho. Cidades Brasileiras: seu controle ou o caos. O que os cidadãos devem fazer para
a humanização das cidades no Brasil. São Paulo: Ed. Nobel, 1992 (2ª edição).

9
É importante que se esclareça de uma vez: o termo periferia é aqui entendimento geograficamente ou sócioespacialmente, grosso modo, como sendo territórios ou parcelas/extensas áreas que passam a fazer parte da cidade, os quais estão localizados distantes do centro urbano da metrópole, voltados para a moradia das classes trabalhadoras de baixo poder
aquisitivo que constrõem suas próprias casas do modo que for possível, são aquelas áreas/bairros que crescem rapidamente, especialmente através de loteamentos legais ou ilegais, muito mal atendidos por infra-estrutura e quaisquer bens e
serviços além dos básicos (arruamento mínimo, transporte público da pior qualidade, energia elétrica, às vezes aí existe
uma escola e um posto de saúde para atender uma população de até 30.000 habitantes).

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imobiliários rendem muito capital para os agentes envolvidos no negócio – do
proprietário da terra ao corretor -; é um filão de renda cada vez mais promissor, posto que os gastos destes são pequenos uma vez que as benfeitorias
exigidas não são realizadas; mas também não são fiscalizadas ou cobradas
pelas instituições dos governos municipais. Ou seja, é competência do empreendedor mais do que (apenas) abrir ruas e vender os lotes; é necessário toda
uma infra-estrutura (padrões básicos de urbanização, equipamentos urbanos)
que atendam as carências dos futuros moradores distantes dos serviços básicos da cidade, e que possibilite um espaço passível de ser sentido, pensado,
apropriado e vivido. Para se alcançar isso, as condições materiais de se criar
referenciais urbanos, relações com o lugar, são necessárias, se realmente pensarmos na humanização do homem e do espaço. Do contrário, como pode haver jogos e brincadeiras, o desenvolvimento e a criação cultural pelas artes, as
relações e os laços sociais, a construção de um bairro, de fato, se não há preocupação sequer com a reserva de terrenos destinados à construção de bens,
de dotação de equipamentos, de infra-estrutura, etc.?
A metrópole pouco democrática e que não amplia a possibilidade de cidadania plena cresce com essa marca: a de um modelo de crescimento urbano
desmesurado que, além de não atender os interesses e necessidades dos moradores/trabalhadores dos novos, imensos e precários bairros longe do centro
metropolitano, onde estão concentrados os bens e serviços, cria e recria uma
vida cotidiana pobre para os trabalhadores (a vida destes resume-se aos longos deslocamentos casa-trabalho-casa). Assim, chama a atenção Raquel ROLNIK &
Nabil BONDUKI (1983, P. 153),
“o espaço urbano vai se reproduzindo, indiferenciadamente, pelos bairros, loteamentos, jardins e vilas afora, repetindo o mesmo ritual de precariedade. Os
trabalhadores vêm junto, seguindo seu rastro como única forma de sobreviver
nas condições superexploradoras e depredadoras corolárias da grande cidade...”10.

As metrópoles, nesse sentido, continuam sendo o destino de centenas de
trabalhadores que saem do espaço rural ou de pequenas e médias cidades que
pouco ou nada oferecem em termos de melhoria econômica para os mesmos,
pela falta de emprego/trabalho, seja o formal ou o denominado informal. Não
é fato novo ouvir de um migrante morador da periferia, de uma favela, ou
mesmo que esteja morando na rua, dizer que, por pior que seja a realidade na
grande cidade, é nesta que ele encontra maiores possibilidades de uma melhor
sobrevivência. Segundo Milton SANTOS (1994, p. 22), reforçando essa discussão, “as grandes cidades continuarão a crescer, enquanto novas grandes cidades surgirão”11.

10

Nabil Bonduki & Raquel Rolnik. “Periferia da Grande São Paulo. Reprodução do Espaço como Expediente de Reprodução
da Força de Trabalho”. In: MARICATO, Ermínia (org.). A Produção Capitalista da Casa (e da Cidade) no Brasil Industrial.
São Paulo: Ed. Alfa-Omega, 1982, p. 153.

11

Milton Santos. “Tendências da Urbanização Brasileira no Fim do Século XX”. In: CARLOS, Ana Fani (Org.). Os Caminhos
da Reflexão Sobre a Cidade e o Urbano. São Paulo: Edusp, 1994.

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3. Manifestações da Metrópole não Democrática
e Anti-cidadã: a ausência de bens
e serviços na periferia da Grande Belo Horizonte
O ponto de partida para discutirmos essa parte do texto são as evidências concretas acerca do espalhamento da mancha urbana da metrópole em produção,
isto é, os números estatísticos confirmando o incessante crescimento da grande Belo Horizonte seguindo a tendência e os moldes do processo de reprodução do
espaço urbano de outras grandes cidades brasileiras. Nesse quadro, nos interessa a que preço ocorre esse processo em termos da (quase) total ausência de
bens e serviços para o(s) uso(s) dos moradores nos “confins” da cidade.
Por mais que o processo de urbanização do Brasil venha apresentando
novidades, tal como o crescimento de cidades médias no Sudeste e Sul a partir
da localização de empresas/indústrias dos setores de ponta, provocando a interiorização – a interiorização da urbanização12 - das classes de médio e alto
poder aquisitivo, é correto falar, também, que a metropolização é, sem dúvida, a expressão dominante da urbanização hoje (Milton SANTOS & Maria Laura
SILVEIRA, 2001). E mais ainda: essa tendência não está mais associada –
como esteve nas últimas quatro décadas – à industrialização concentrada na
região metropolitana. Trata-se, hoje, da reprodução do espaço urbano enquanto
parte de ciclos da reprodução mais amplos, mais complexos que os da produção simples, e a cidade junto com a realidade urbana, segundo Henri
LEFEBVRE (1999, p. 171), seriam o lugar excepcional de realização destes ciclos, porque aí as contradições se aprofundam13.
Hoje, transformar terra rural em solo urbano significa altos ganhos de capital sem que seja necessário nenhum investimento, nenhum gasto. No caso
da metrópole em pleno processo de crescimento, dependendo da localização
favorável de tais terras (áreas/extensos terrenos ao longo de grandes vias/
estradas de rápido acesso ao centro da cidade), por exemplo para a moradia
das classes de baixo poder aquisitivo ávidas por ter acesso à propriedade privada, os ganhos são ainda maiores dado a falta de exigências, de controle, de
fiscalização pelo Estado, de planejamento obrigatório, o que deixa as forças e
domínios – proprietários e capitalistas-especuladores - que lucram com a terra, à vontade.
A proliferação dos loteamentos sejam eles legais ou ilegais, constituem
as periferias segregadas14 pelas distâncias e, portanto, tornam esses novos lugares, contraditoriamente, parte da metrópole espacialmente falando, mas,
socialmente, estas periferias não fazem parte da grande cidade na medida em
que os moradores, com a vida cotidiana que lhes é destinada e programada,
12

Sobre os novos rumos ou mudanças que marcam o processo de urbanização do Brasil a partir da década de 80, ver
Milton SANTOS. A Urbanização Brasileira, 1993; Marcelo Lopes de SOUZA. Urbanização e Desenvolvimento no Brasil Atual,
1996; Luiz César de Q. RIBEIRO. Transformação Geofísica e Explosão Urbana. In: SACHS, Ignacy et al. (orgs.). Brasil. Um
Século de Transformações, 2001.

13

Henri Lefebvre. A Cidade do Capital. Tradução de Maria Helena R. Ramos e Marilene Jamur.
Rio de Janeiro: Ed. DP&A, 1999.

14

Fenômeno que é parte do processo de “fragmentação do tecido sociopolítico-espacial”, termo empregado e estudado
por Marcelo Lopes de SOUZA, 1997, 2000.

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não vivem a (e na) cidade; estão fadados ao abandono num espaço que não é
nem cidade nem campo ou, nas palavras de Henri LEFEBVRE (1999, p. 168),
(...) meio cidade, meio campo (...) em lugar de uma absorção e reabsorção do
campo pela cidade, em lugar da superação de sua oposição, tem-se uma deterioração recíproca: a cidade explode em periferias e o vilarejo se decompõe; um
tecido urbano incerto prolifera no conjunto do país. Uma massa pastosa e informe resulta desse processo: favelas, megalópoles...

O que não eram até pouco tempo atrás os atuais municípios de Ribeirão
das Neves, Santa Luzia e Contagem, os quais escolhemos para fazer nossas
observações empíricas, senão pequenos vilarejos cujas populações viviam das
denominadas atividades primárias, como a agricultura?, pequenas cidades rurais dando sustentação às atividades no campo com o seu pequeno comércio e
alguns poucos serviços? E, hoje, essas localidades que já tiveram um passado
histórico importante, a exemplo da colonial Santa Luzia, abrigam, cada vez
mais, enormes bairros, transformando-se em gigantescos “depósitos” de trabalhadores, realidade que é parte da metrópole belohorizontina em produção,
como de tantas outras no Brasil.
Sem dúvida nenhuma, e como já adiantamos, a metropolização é o padrão dominante do processo de urbanização do país, particularmente a partir
dos anos 70 (IPEA, 1999; IBGE, 2000). No âmbito desse processo, a contribuição do crescimento das periferias das metrópoles é o que mais chama a atenção, até porque é nesse ambiente que se multiplicam os denominados “problemas urbanos” atuais, especialmente a violência, as carências de todas as
formas, etc. Dito de outro modo, os extensos novos bairros periféricos dos
municípios que formam as regiões metropolitanas do Brasil são os responsáveis por esse crescimento urbano, pelo menos do ponto de vista da forma. Sobre tais dados, ressalta Ermínia MARICATO (2001, pp. 25-6),
“das 12 regiões metropolitanas, os municípios centrais/núcleos centrais cresceram em média 3,1% entre 1991 e 1996 enquanto que os municípios periféricos
cresceram 14,7% (...) Dessas metrópoles as periferias que mais se expandiram,
no período, foram: Belém (157,9%), Curitiba (28,2%), Belo Horizonte (20,9%),
Salvador (18,1%). Em algumas metrópoles a diminuição do crescimento dos
centros transformou-se em crescimento negativo dos bairros centrais (...) em
contraposição ao gigantesco crescimento dos municípios periféricos”.

A grande Belo Horizonte figura nessas pesquisas como a terceira metrópole que apresentou altos índices de crescimento dos municípios periféricos no
período citado, embora desde a década de 70 esse crescimento já fosse significativo em municípios mais próximos do núcleo central (Belo Horizonte), como
é o caso de Betim e Contagem, ambos abrigando grande parte do parque industrial da RMBH refletindo o surto de crescimento econômico/industrial dos
anos 70 (PLAMBEL, 1980). Nas últimas três décadas houve uma reorganização
do espaço metropolitano no sentido da sua ampliação com a incorporação de

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outros municípios mais distantes ou periféricos15, muitos destes transformados em
meras cidades-dormitórios extremamente adensadas com moradia predominante
das classes trabalhadoras, a exemplo de Ribeirão da Neves, Santa Luzia, Vespasiano, Mateus Leme, Esmeraldas, Ibirité, Igarapé e outros (IBGE, 1991; Heloísa S.
COSTA, 1994), outros servindo de áreas de expansão para (poucas) novas indústrias já que se esgotaram as possibilidades de localização industrial em municípios
cujo parque industrial está mais consolidado, como é o caso de Betim.
Segundo o último estudo populacional do IBGE (2000), a Região Metropolitana de Belo Horizonte é composta de 34 (trinta e quatro) municípios (ver
fig. 1: mapa da RMBH). Até 1983, 14 (quatorze) eram os municípios que formavam a RMBH. Com a nova constituição do Estado, em 1989, a RMBH passa
a contar com 17 (dezessete). A partir da década de 90 foram integrados mais

Fig. 1: Mapa da RMBH-MG
(em destaque: Contagem,
Ribeirão das Neves e Santa Luzia)

15 (quinze). Dos 10 (dez) municípios mais populosos, além do município/ núcleo central – Belo Horizonte -, que conta com uma população em torno de
2.300.000 habitantes, figura nesse elenco os municípios de Contagem que
contava com 280.477 habitantes em 1980, passou a ter 448.822 habitantes
em 1991 e no ano 2000 contava com 538.017 habitantes; Ribeirão das Neves
que tinha em 1980, 67.257 habitantes, em 1991, 143.874 habitantes e em
2000 já chegava a uma população de 246.846 habitantes; Santa Luzia que ti15

Ermínia Maricato e outros estudiosos sobre o crescimento das regiões metropolitanas usa o termo município periférico
que aqui adotamos compreendendo àqueles municípios mais distantes do núcleo central da metrópole que vão se incorporando de tempos em tempos à região metropolitana.

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nha em 1980, 59.892 habitantes, passa para 137.602 habitantes em 1991 e
em 2000 tinha 184.903 habitantes; Ibirité que tinha em 1980, 39.970 habitantes, 91.760 habitantes, em 1991, e em 2000 contava com 133.044 habitantes; e Vespasiano que tinha uma população de 25.049 habitantes em 1980,
sobe para 54.611 habitantes em 1991 e no ano 2000 já era de 76.422 habitantes a sua população total16.
Poderíamos nos alongar mencionando números e nos debruçando sobre
análises dos mesmos, uma vez que tais estatísticas são, de fato, surpreendentes. No entanto, apenas para colaborar no descortinamento da “crise” metropolitana, da qual faz parte o crescimento populacional específico e localizado17, é interessante que se diga que dos municípios citados anteriormente, em
duas décadas (1980-2000), o crescimento populacional triplicou ou quadriplicou, como é o caso de Santa Luzia e Ribeirão das Neves, embora tratem-se de
localidades que abriguem pouco ou nada em termos de indústrias ou outras
atividades econômicas empregadoras de mão-de-obra de baixa qualificação,
sobretudo no caso de Ribeirão das Neves, o que verificamos em observações
in loco (incluindo conversas, depoimentos e entrevistas com moradores).
Nosso foco central é discutir e questionar a total ausência de bens e serviços que estão para além do que se proclama como “básicos”, isto é, os equipamentos e infra-estrutura geral que possibilite o surgimento de espaços coletivos voltados para o lazer e o desenvolvimento de esportes e cultura,
enquanto caminho que, se não ajuda na busca pela cidadania, pelo menos torna mais humana a vida nessas periferias-arremedos de cidade; “uma cidade
que se espraia pelas periferias”, alega Arlete M RODRIGUES (1991, p. 24).
Para tanto, as visitas, conversas com moradores e observações gerais de campo são fundamentais na reafirmação da produção diferenciada da cidade que,
para muitos e no senso comum, são vistos como “contrastes urbanos”.
Nossas observações em campo tiveram por objetivo constatar o que já tínhamos como certo em termos do total descaso do Estado na escala do município, bem como dos agentes imobiliários responsáveis pelos empreendimentos/loteamentos, já que, como dito antes, esses bairros são fruto de extensas
áreas loteadas, um verdadeiro filão de ganhos de capital. Escolhemos o bairro
Neviana, em Ribeirão das Neves; o bairro Petrolândia, em Contagem; e o
bairro/conjunto habitacional Cristina, em Santa Luzia, lugares onde manifestam-se, por todo o lado, a não existência de cidadãos e a falta de democracia
urbana. Como estamos apenas iniciando a pesquisa nessas localidades, não
houve rigidez em determinar critérios para a escolha destes municípios (os
três estão destacados no mapa da figura 1), bem como os bairros, os quais já
eram por nós conhecidos.
16

Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censos de 1980, 1991 e de 2000.

17

É bom esclarecer: específico e localizado porque esse crescimento populacional desmesurado das periferias que abrigam
as classes de baixo poder aquisitivo não ocorre em alguns municípios que compõem a Região Metropolitana, no caso da
grande Belo Horizonte, a exemplo de Nova Lima, extensão do curso “natural” do surgimento de novos bairros de classes
de médio e alto poder aquisitivo, isto é, a expansão da zona sul de Belo Horizonte adentrando o município vizinho. Esse
exemplo mostra a tendência dos grandes condomínios horizontais fechados, alternativa de “fuga” das elites dos
“problemas” que afetam a grande cidade (violência, poluição, desconforto de toda ordem, trânsito caótico, favelas
em meio aos bairros de classe média e alta, etc.).

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O critério de escolha do primeiro – o bairro Neviana - se deu pelas condições físico-ambientais e pelas condições de habitação dos moradores; a grandiosidade em termos de população residente, da diversidade em termos de
moradia, da dinâmica econômica e a extensão física/territorial foram os critérios da escolha dos outros dois bairros – o bairro Petrolândia e o bairro Cristina -.
É muito mais fácil constatar e descrever as semelhanças entre os problemas que existem nos três bairros escolhidos do que as suas diferenças. O que
há de comum na realidade dos mesmos? Destacamos o óbvio: a distância do
centro de Belo Horizonte, cujo acesso se dá por rodovias, grandes avenidas e
vias expressas, facilitando os fluxos de mercadorias, de pessoas, etc.; todos
têm menos de 30 anos de existência; uma população que conta com mais de
5.000 habitantes cada um; abrigam, na maioria, classes trabalhadoras de baixa qualificação/famílias de baixo poder aquisitivo que buscam obter nessas
áreas um lote para construir suas casas via auto-construção; internamente os
bairros não seguem padrões quanto às suas ruas (normalmente precárias para
veículos e pedestres com exceção de algumas poucas que servem de trajeto
para os ônibus, pois, do contrário, eles não entram no bairro) e quanto à
construção das residências, cada um constrói do jeito que a renda permite;
não há preocupação com estilos, modelos, tendências arquitetônicas, etc.; a
degradação físico-ambiental é grande sobretudo em relação ao destino do lixo
sólido e líquido, do impacto das chuvas no solo e da situação dos córregos; sobressai ainda: alta incidência de pessoas analfabetas, evasão escolar de crianças e adolescentes, baixo atendimento escolar e de saúde em toda a comunidade, agravando o quadro de doenças/endemias, etc., para ficarmos apenas
nos nomeados direitos básicos dos indivíduos, os quais deveriam ser atendidos.
O bairro Neviana, no município de Ribeirão das Neves, é um exemplo clássico (e triste) do total abandono e descaso dos poderes públicos – municipais e
estaduais -, posto que as condições de vida no local são muito ruins, e a própria vida cotidiana é extremamente pobre. Contando com mais ou menos 22
anos de existência, uma população, hoje, em torno de 5.000 habitantes, continua a
crescer, uma vez que alguns terrenos e áreas ainda estão sendo loteados18.
Quanto ao que mais no interessa, ou seja, a existência de bens e serviços
voltados para o lazer, esportes e cultura, na sua totalidade, o bairro conta
apenas com uma escola de ensino fundamental e médio (sem nenhum tipo de
equipamento para a prática de esportes), um campo de futebol emprovisado
(no melhor estilo do futebol de várzea), uma quadra de futebol de salão particular, além de alguns “botecos” e bares; não existe nenhuma praça ou área
reservada para tal finalidade; as crianças e os adolescentes brincam nas ruas,
principalmente nas vias com algum asfalto por onde passam os carros e ônibus; os adultos – homens –, quando têm algum “tempo livre”, jogam futebol
ou bebem nos bares. Conversando com a comunidade constatamos que as
mulheres são as que mais sofrem com esse cotidiano implacável nas perife18

Dados obtidos junto à Associação dos Moradores do Bairro Neviana (fundada em 1982), através da fala do Sr. José
Márcio, presidente. A Prefeitura não tem um levantamento populacional preciso, alegando que muitos moradores
constróem, passam a morar e não registram a casa.

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rias: apenas trabalham fora - “na cidade” como dizem - ou dentro de casa,
cuidando dos afazeres domésticos, cuidando dos filhos. A televisão é a distração maior, porque alegam não ter opção no bairro e não têm condições financeiras para deslocar-se para outros lugares em busca de lazer, sobretudo aos
domingos, o único dia da semana que (é possível) a família está toda junta19.
Considerando as condições físico-ambientais do bairro Neviana, para alguns moradores é até luxo pensar, nesse momento, na existência de bens e
serviços voltados para o lazer e o desenvolvimento cultural, mesmo que seja
uma simples praça ou um espaço comunitário, posto que há outras prioridades
mais prementes para serem atendidas pelo governo do município, tais como
transportes, melhoria das ruas, atendimento médico, escolas e creches, recolhimento de lixo e outros problemas vistos como mais sérios pela comunidade.
O bairro Petrolândia, pertencente ao município de Contagem cresceu
muito nos últimos anos com a abertura da Via Expressa que liga Belo Horizonte-Contagem-Betim, pois o bairro está localizado às margens dessa grande
avenida. Conta, atualmente, com uma população entre 20.000 a 25.000 habitantes. Sobre a história do bairro, os moradores mais antigos dizem que o
mesmo teve início em 1970 através de loteamento privado, mas só em 1974
foi instalada energia elétrica, o que permitiu a chegada de um número mais significante de moradores comprando lotes e construindo suas casas. Portanto,
o lugar existe há pelo menos 30 anos20.
Em condições melhores - quanto a existência de equipamentos urbanos
coletivos -, se comparado com o bairro Neviana, em Ribeirão das Neves, o
bairro Petrolândia, em Contagem, apresenta os mesmos problemas na falta de
opções, de possibilidades materiais/físicas em desenvolver o lazer, os esportes
e a cultura, especialmente para as crianças e adolescentes. Existem duas escolas – uma pré-escola e uma de ensino fundamental e médio -, ambas com
precárias instalações para a prática de recreação e esportes para as crianças e
os adolescentes do bairro, o campo de futebol é improvisado também e, mesmo assim, é disputado pelos adultos, existem, ainda, quadras particulares
para a prática de futebol de salão.
Além da estrutura citada anteriormente, queremos chamar a atenção
para a existência de uma pequena praça ao lado da igreja (católica), no centro
do bairro21. É nesse núcleo central que se concentra a grande saída em termos
de lazer da população local, sobretudo nos finais de semana. No entorno da
pequena praça, além do comércio, localizam-se alguns bares, lanchonetes,
restaurantes e uma pizzaria. A partir de sexta-feira à noite barracas que vendem alimentos e bebidas são montadas nas ruas que circulam a praça. O mo19

Informações colhidas através de depoimentos de moradores do bairro e
verificadas em observações de campo.

20

Além dos dados obtidos junto à comunidade, a Administração Regional Sudoeste do Município, que fica no bairro,
também nos passou algumas informações, embora salientando a falta de certeza em relação ao contingente populacional
atual do bairro.

21

A praça, de mais ou menos 120 metros quadrados, chamada de Praça da Petrobrás, existe desde o início do bairro, mas
era apenas uma área vazia. Com a construção da igreja, dotaram o terreno de alguns bancos e um coreto. Em agosto de
1992 a praça foi recuperada e batizada com o nome de Praça Odeci Amaral. No entanto, continua sendo conhecida por
todos como Praça da Petrobrás.

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vimento entra pela madrugada do sábado e do domingo. Conversando com alguns moradores, estes mencionam a existência de um movimento para acabar
com essa “festa” porque as confusões (discussões, brigas e até tiroteios), vêm
crescendo muito nos dias mencionados. Resultado: teve início uma obra para
transformar parte da praça em estacionamento. Alguns comerciantes (caso do
proprietário da pizzaria) são favoráveis e alegam que apenas uma parte da
praça desaparecerá. Na verdade, restará muito pouco da área física da praça,
o que impossibilitará seu uso pelos moradores.
O bairro Petrolândia, por estar localizado em Contagem, e este figurar
entre os seis municípios de Minas Gerais com maior participação na receita
total do estado22, portanto um município rico em arrecadações de tributos,
detentor de um pólo industrial importante, permite que os seus moradores tenham ainda uma opção de lazer bastante valorizada pela comunidade: o shopping center (o Big Shopping localizado na Cidade Industrial). O peso econômico do município, assim como a demanda das classes de médio e alto poder
aquisitivo, motivaram a construção do shopping que atrai, também, os moradores de municípios vizinhos.
A realidade do bairro Cristina, localizado em Santa Luzia, assim como o
Petrolândia, em Contagem, embora apresentando problemas semelhantes,
(ainda) mostra uma realidade menos dura, isto é, com maiores possibilidades
de usos (e apropriação) do espaço para os seus moradores, se comparado com
a situação do bairro Neviana, em Ribeirão das Neves.
Existem singularidades em relação ao bairro Cristina. O diferente nesse
lugar deve-se a existência de um número maior de espaços públicos para usufruto da comunidade pelo fato do bairro ser, na verdade, um enorme conjunto
habitacional construído há vinte anos pela COHAB23, portanto uma companhia
de habitação do Estado. A companhia destinou/reservou terrenos/áreas para
outros usos que não apenas o residencial. Em tais áreas, hoje, verifica-se a
existência de inúmeros campos de futebol improvisados, algumas pequenas
praças mal conservadas e sem equipamentos (tomadas pelo comércio informal
e feiras), terrenos baldios que servem para as crianças brincarem, além daquelas áreas em meio aos muitos prédios (estilo “pombal”) destinados ao trânsito dos carros/estacionamentos e circulação de pedestres. É importante citar
que no bairro é maior o número de escolas, postos de saúde e creches, além
de um vicejante comércio, várias linhas de ônibus e, inclusive, redes de supermercados, o que não ocorre em outros bairros da periferia metropolitana –
caso de Neviana, em Ribeirão das Neves -.
Percorrendo esse bairro notamos que com um pouco de vontade política
do governo municipal, aliado a movimentos de reivindicação dos moradores,
as condições materiais e de infra-estrutura relativas a presença maior de bens

22

Segundo dados que constam no documento Finanças dos Municípios Mineiros, ano 3, 2001.

23

Seguindo o padrão da COHAB em todo o Brasil, aqui não foi diferente quanto ao Conjunto Cristina, em Santa Luzia,
construído no início dos anos 80: as dezenas de prédios – já bastante deteriorados - de 3 e 4 andares comportam
apartamentos com cômodos pequenos e desconfortáveis, abrigando famílias grandes, em geral, acima de 5 pessoas.

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e serviços, resolveria ou pelo menos tornaria mais humana a vida na comunidade que hoje apresenta índices altos de violência.

4. Considerações Finais
As anotações constantes das nossas primeiras pesquisas empíricas são muitas
e constatam as preocupações e inquietações já apontadas no trabalho. Elencar
mais um número do que se convencionou denominar “problemas urbanos” tornar-se-ia cansativo e sem sentido, uma vez que esses mesmos “problemas”
repetem-se em todas as grandes cidades brasileiras. Todavia, queremos, a seguir, destacar alguns pontos os quais entendemos ser relevantes no entendimento acerca da problemática urbana hoje.
Os estudos estatísticos comprovando o crescimento de mortes de jovens
nas periferias das grandes cidades é parte da triste realidade que se nos apresenta diariamente através do mass media. As crianças e os adolescentes têm
poucas oportunidades em meio a esse quadro social, e colabora com isso a ausência de espaços na cidade que ofereçam chances de os livrarem dos envolvimentos/relacionamentos cujo final é sempre trágico. Escolas e creches equipadas, centros de esportes, cultura e lazer, áreas comunitárias de aprendizado
profissional, áreas para brincar, etc., são fundamentais no processo de humanização, de desalienação, de crescimento cultural/intelectual/profissional desses jovens, assim como de toda a população de bairros excluídos – e contraditoriamente incluídos – da (e na) cidade.
Andando pelos bairros que são alvo de nossas observações, percebemos
o quanto os jovens e as mulheres – donas-de-casa – sofrem com essa realidade que se multiplica na periferia da metrópole. Conversamos com crianças e
adolescentes, as quais, naquele momento, encontravam-se brincando na rua.
Elas comprovam que a rua é sempre o lugar que permite a brincadeira, mas
são poucas as ruas próximas às suas casas que têm condições físicas para tal;
são as vias principais do(s) ônibus e carros as melhores para brincar e esse
trânsito de veículos atrapalha muito, além de ser perigoso. Confinadas ao trabalho doméstico ou ao emprego fora e mais o trabalho em casa, a maioria das
mulheres com quem tivemos a oportunidade de conversar, não sabe o que significa lazer e cultura no bairro ou fora dele; o tempo que lhes sobra, é destinado à televisão. Em bairros como o Neviana, nem mesmo centro comunitário
da igreja existe, o que seria um lugar onde as mulheres poderiam encontrar-se
para algum tipo de atividade. Não queremos dizer com isso que os homens são
mais felizes, mas pelo menos para eles há o futebol de várzea, a quadra de
futebol e os botecos para beber com os amigos. Queremos chamar a atenção,
sim, para esse cotidiano que contribui para o aumento da violência no
sentido amplo do termo; da banalização da vida, posto que para muitos
moradores excluídos ou destituídos de uma vida digna, nada faz sentido;
nem a vida!.
É controverso o discurso de que o espaço para a apropriação e os usos
dado a esse espaço são encontrados e definidos espontaneamente pelo morador, pela comunidade. Como já salientamos no início desse trabalho, em uma
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situação em que nem as condições físicas existem para isso, é difícil que essa
apropriação (para o lazer, para a brincadeira, para o desenvolvimento cultural
e profissional) aconteça. O estado ou o empreendedor – no caso o loteador/
criador do bairro - precisam criar essas condições, dotar o espaço de bens e
serviços tendo como objetivo tornar a vida nesses bairros mais digna, o que
seria um passo para uma cidade mais democrática habitada por cidadãos, de fato.

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