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Imagem: Cia de Foto

Revista da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP - no 23 - 1o semestre de 2011

Especial

Fotografia

Tradução: Regina Johas 62 76 84 .índice 04 Dez proposições acerca do futuro da fotografia e dos fotógrafos do futuro Mauricio Lissovsky Insônia Fotográfica: promessa e fracasso do aniquilamento do tempo Cláudia Linhares Sanz A fotografia é a arte necessária para o tempo Georgia Quintas O Fotográfico na Literatura 16 32 38 Fernando de Tacca Fotografia contemporânea: entre olhares diretos e pensamentos obtusos Ronaldo Entler RODTCHENKO: inquietante estranheza Rubens Fernandes Junior A Imagem dialética: La Jetée e a fotografia como cinema Uriel Orlow.

Dez  pro-­‐ posições   acerca  do   futuro  da   ˆ‘–‘‰”ƒƤƒ   e  dos  fotógrafos  do  futuro* Mauricio  Lissovsky *  Uma  versão  reduzida  deste  texto  foi  apresentada  na  mesa  “Divagações  sobre  o  Futuro”.  no  II  Fórum  Latino-­‐Americano  de  Foto-­‐ ‰”ƒƤƒ†‡ ‘ƒ—Ž‘ǡ‡͞͠Ȁ͜͝Ȁ͜͜͞͝Ǥ .

Resumo Abstract ƒŽ–‡” ‡Œƒ‹ ‡•…”‡˜‡— —ƒ ˜‡œ “—‡ ‘ –‡’‘ Š‹•–×”‹…‘±Dz‹Ƥ‹–‘‡–‘†ƒ•ƒ•†‹”‡­Ù‡•‡‹…‘’Ž‡–‘ ‡ –‘†‘• ‘• ‘‡–‘•dzǤ • ƒ”“—‹˜‘• Ǧ ‘• ƒ”“—‹˜‘• ˆ‘–‘‰”žƤ…‘•‡ ’ƒ”–‹…—Žƒ” Ǧ • ‘‘ Ž—‰ƒ” ’‘”‡š…‡Ž²…‹ƒ †‡•–ƒ ‹…‘’Ž‡–—†‡Ǥ • ‹–‡”˜ƒŽ‘• ‘ ‹–‡”‹‘” †‘• ƒ”“—‹˜‘•‘•…‘˜‹†ƒƒ…‘Œ—‰ƒ”ƒŠ‹•–×”‹ƒ‘ˆ—–—”‘ †‘ ’”‡–±”‹–‘Ǥ  ‹†‹Ǧ —„‡”ƒǡ †‡’‘‹• †‡ ‡Œƒ‹ǡ …Šƒ‘— Dz‘–ƒ‰‡dz ‘ –‹’‘ †‡ …‘Š‡…‹‡–‘ “—‡ ‡‡”‰‡ †ƒ …‘„‹ƒ­ ‘ ‡–”‡ ‘• ƒ”“—‹˜‘• ‡ •‡—• ‹–‡”˜ƒŽ‘•ǡ ƒ• ‹ƒ‰‡• ‡ •—ƒ• Žƒ…—ƒ•Ǥ  –‹’‘ †‡ …‘Š‡…‹‡–‘“—‡”‡•’‡‹–ƒ‘ƒžŽ‰ƒƒ†‡–‡’‘•“—‡ …‘•–‹–—‹ …ƒ†ƒ ‹ƒ‰‡Ǥ • ˆ‘–‘‰”ƒƤƒ• ’”‘˜ƒ˜‡Ž‡–‡ ’‡”–‡…‡ ƒ‘ –‹’‘ †‡ …‘‹•ƒ• “—‡ ‹‘”‰‹‘ ‰ƒ„‡ …Šƒ‘— Dz•‹‰‹Ƥ…ƒ–‡• ‹•–ž˜‡‹•dzǡ ”‡’”‡•‡–ƒ­Ù‡• †ƒ Š‹•–×”‹ƒ‡‡•–ƒ†‘’—”‘ǡ‘„Œ‡–‘•’‘Ž‹…”ؐ‹…‘•Šƒ„‹–ƒ†‘• ’‘”ˆƒ–ƒ•ƒ•‡˜‡•–À‰‹‘•Ǥ‘„ƒ•‡‡•–‡•’”‡••—’‘•–‘•ǡ ‡•–‡ ‡•ƒ‹‘ǡ ˆ‘”—Žƒ †‡œ ’”‘’‘•‹­Ù‡• ƒ…‡”…ƒ †‘ ˆ—–—”‘ †ƒˆ‘–‘‰”ƒƤƒ‡†‘•ˆ‘–׉”ƒˆ‘•†‘ˆ—–—”‘Ǥ ƒŽ–‡” ‡Œƒ‹ ™”‘–‡ ‘…‡ –Šƒ– Š‹•–‘”‹…ƒŽ –‹‡ ‹• Ǯ‹Ƥ‹–‡ ‹ ƒŽŽ †‹”‡…–‹‘• ƒ† ‹…‘’Ž‡–‡ ƒ– ƒŽŽ –‹‡•ǯǤ Š‡ ƒ”…Š‹˜‡•ǡ ’Š‘–‘ ƤŽ‡•ǡ ‹ ’ƒ”–‹…—Žƒ”ǡ ƒ”‡ –Š‡ ’Žƒ…‡ par  excellence‘ˆ–Š‹•‹…‘’Ž‡–‡‡••ǤŠ‡‰ƒ’•‹•‹†‡ –Š‡ ƤŽ‡• ƒ”‡ ƒŽ™ƒ›• ‹˜‹–‹‰ —• –‘ …‘Œ—‰ƒ–‡ Š‹•–‘”› ‹ –Š‡ Dzˆ—–—”‡ ’ƒ•–dzǤ ‹†‹Ǧ —„‡”ƒǡ ƒˆ–‡” ‡Œƒ‹ǡ …ƒŽŽ‡† Dz‘–ƒ‰‡dz –Š‡ ‹†‘ˆ ‘™Ž‡†‰‡ –Šƒ–‡‡”‰‡• ˆ”‘ –Š‡ …‘„‹ƒ–‹‘ ‘ˆ –Š‡ ƤŽ‡• ƒ† –Š‡‹” ‰ƒ’•ǡ –Š‡ ‹ƒ‰‡• ƒ† –Š‡‹” „Žƒ•Ǥ  ‹† ‘ˆ ‘™Ž‡†‰‡ –Šƒ– ”‡•’‡…–• –Š‡ ƒƒŽ‰ƒ ‘ˆ –‹‡• –Šƒ– …‘•–‹–—–‡• ‡˜‡”› ‹ƒ‰‡Ǥ Š‘–‘‰”ƒ’Š• ’”‘„ƒ„Ž› „‡Ž‘‰ –‘ –Šƒ– ‹† ‘ˆ –Š‹‰•–Šƒ– ‹‘”‰‹‘‰ƒ„‡…ƒŽŽ‡†Ǯ‹•–ƒ„Ž‡•‹‰‹Ƥ‡”•ǯǡ ”‡’”‡•‡–ƒ–‹‘• ‘ˆ ‹•–‘”› ‹ Ǯ’—”‡ •–ƒ–‡ǯǡ ’‘Ž‹…Š”‘‹… ‘„Œ‡…–•‹Šƒ„‹–‡†„›‰Š‘•–•ƒ†–”ƒ…‡•Ǥƒ•‡†‘–Š‡•‡ ƒ••—’–‹‘•ǡ –Š‹• ’ƒ’‡” ˆ‘”—Žƒ–‡• –‡ ’”‘’‘•‹–‹‘• ƒ„‘—––Š‡ˆ—–—”‡‘ˆ’Š‘–‘‰”ƒ’Š›ƒ†–Š‡’Š‘–‘‰”ƒ’Š‡”• ‘ˆ–Š‡ˆ—–—”‡Ǥ Palavras-chave Keywords ‘–‘‰”ƒƤƒǡƒŽ–‡”‡Œƒ‹ǡ ‹•–×”‹ƒǡ —–—”‘ǡ‡’‘ Š‘–‘‰”ƒ’Š›ǡƒŽ–‡”‡Œƒ‹ǡ ‹•–‘”›ǡ —–—”‡ǡ‹‡ .

Trata-se agora do fotógrafo que não sabe ler o futuro em suas próprias imagens. Paris. e sim quem não sabe fotografar”. o “futuro” deixa de ser o tempo vindouro em que viveria o analfabeto. o futuro que ali se infiltrava.1o  semestre  /  2011 1 FOTOGRAFIA É ADIVINHAÇÃO Um dos mais famosos vaticínios sobre o “futuro” da fotografia foi feito por Lázló Moholy-Nagy. Era uma premonição do lugar que a imagem técnica iria ocupar em nossa Civilização. Walter Benjamin fará uma revisão radical deste enunciado. em “minutos únicos” que só reconhecemos agora. Mas era também uma frase de efeito para justificar seu projeto de tornar o ensino de fotografia um requisito básico na formação de artistas gráficos. De Moholy-Nagy a Benjamin. olhando para trás. Era assim na Bauhaus. designers e arquitetos. nos tempos heróicos do modernismo: “o analfabeto do futuro não será quem não sabe escrever. 1984. perguntandose : “Mas um fotógrafo que não sabe ler suas próprias imagens não é pior que um analfabeto?1 O termo que desaparece de uma sentença a outra é exatamente “o futuro”.2 A temporalidade em que vive quem é capaz de ler Antonio Augusto Fontes. Poucos anos depois. cujo currículo havia ajudado a conceber. escreveu o filósofo. . e torna-se o próprio objeto da leitura.

Nosso destino é “aprender a ler”. como as definiu Roland Barthes. ensina Benjamin. entre ‘espero mais’ e ‘não espero mais’. Há este objeto que perdemos (um chaveiro. um bilhete). Arequipa. tinha um “halo”. Um intervalo. o que ainda está por vir. as câmeras fotográficas tornaramse mais claramente o que sempre foram. movidos apenas pela curiosidade. inscreve-se o nosso destino. a partir de meados dos anos 1920. que o traía”. mas cuja imagem nos vem junto com a convicção de que na última vez o que o notamos. Vejamos um exemplo prosaico. como dizem os franceses. premonitório. tivemos a certeza de que ia perder-se. que sondam. É sempre na forma de uma interrupção que somos tomados pela experiência deste tempo. Trata-se antes de um tempo divinatório. são os traços de sua espera.5 2 neste intervalo indeterminado que ocorre entre o olho e o dedo. onde toda fotografia encontra sua origem e onde a subjetivação dos fotógrafos tem seu lugar.6 Desde quando o instantâneo confundiu-se com a própria natureza da fotografia. como diz Bergson. Não se trata aqui do tempo das cartomantes e astrólogos vulgares.”4 Previsões que se voltam para o futuro anterior.3 Não é como uma fotografia que ele ressurge agora. São fotografólogos. como uma carga explosiva nas entrelinhas de nossas vidas. os indícios de sua expectativa. faz dias que ele zombava de nós. as fotografias são orientadas para o futuro. É por via da Os fotógrafos-leitores que Benjamin conclamava são profetas das entrelinhas. Só há fotógrafos Máquinas fotográficas são como aspiradores de movimentos. que só tardiamente percebemos que continham o germe de uma vida inteiramente diversa daquela que nos foi concedida. uma “tristeza em torno dele. sugadores de tempo. Por que os fotógrafos esperam. são como “pausas silenciosas do destino. mas “Máquinas de Esperar”. a despeito de todas as nossas premonições? Interrupções como essas.Revista  FACOM  23 os indícios do futuro ocultos nas imagens é como aquela em que estão mergulhados os adivinhos. na imagem que acaba de realizar. Só há instantâneo fotográfico porque tempo e movimento foram dali extraídos pelo fotógrafo (“enquanto ele espera”). De cada fotografia emana a radiação ultravioleta que glosa o texto de nossas vidas. Irmãos Vargas. A duração dos fotógrafos suga tempo e movimento do mundo. Sim. e essa duração. os vestígios de sua expectativa. Peru c. 1930. Lucila Ceres. quando é tarde demais. que está sempre ao nosso lado. deixa nas coisas as marcas de seus dentes. E o nosso destino não é o que nos tornamos ou o que deixamos de ser. na minha lembrança? Agora. Que nos é sempre contemporâneo. para o futuro do pretérito. A FOTOGRAFIA NASCE DA ESPERA 7 . que o filósofo Henri Bergson chamava duração (ou memória). Tudo que o fotógrafo deixa de si. Em cada uma delas. Máquinas para hesitar entre “é agora” ou “não é agora”. Não apenas “relógios de ver”.

Cuzco. Fotografias são sobreviventes. por sua vez. genial.1o  semestre  /  2011 expectativa que o futuro nelas se infiltra. Uma fenomenologia que não é apenas a da “imagem feita”. a despeito de tudo o que passou. mas outra que busca incorporar tanto as dimensões “fazer fotográfico (que se orienta para o futuro). na sintética e. Procurar pelo futuro nas fotografias é procurar pelos vestígios da espera. “Isto foi”. a espera que lhe interessava. 1923. na tela. nas últimas décadas. chamou “sobrevivências”. aqui presente).9 Uma mistura inextricável de tempos: – na sua indicialidade.7 Os fotógrafos modernos são os companheiros de espera que Kracauer procurava entre os intelectuais de sua época. na dimensão de seu ato. – na sua iconicidade. a fotografia fora. formulação de Roland Barthes. que. como um “estar-aberto hesitante”. Toda fotografia que vejo agora. no porta-retratos. policrônico. por meio da memória do fotógrafo e dos espectadores vêm impregnar a imagem – nisso tudo que Warburg. a fotografia seria.8 A tradição documental moderna. 3 TODA FOTOGRAFIA É UMA SOBREVIVENTE Habituamos-nos a olhar para as fotografias como portadoras pontuais de um passado já ido. – na sua pragmática. cada fotografia guarda em si a difícil pergunta sobre o propósito de sua sobrevida. o mais importante historiador da arte no início do século XX. Mas. a fotografia foi. sua presença ainda é. nos vestígios da espera. São foto-expectantes. O novo tempo das fotografias é multidimensional. e que nascia de um “sentido alerta” ao “seu próprio tempo”. Fotógrafos são foto-náufragos em missão de resgate. nas sombras de todo o existente no mundo que ela acolhe. nas paredes do Museu. . por isso mesmo. Como toda sobrevivente. Toda fotografia é condensação de múltiplas temporalidades e sobrevivente de um naufrágio. Autorretrato. a pergunta sobre o que nela. escapou deste torvelinho de tempos. estamos vendo nascer uma nova fenomenologia da fotografia. Kracauer definiu a espera. Martin Chambi. e ainda poderia ter sido. anacrônico. quando ela se apresenta diante de mim: no álbum. ainda será. como a do objeto que lhe serve de suporte (a sua presença. – mas no momento de sua recepção. ela remete a um inumerável repertório de imagens e a forças de figuração e configuração. consagrou a legendagem padrão: um local e uma data.

As fotografias atravessam os tempos como os fantasmas atravessam paredes. que as fotografias eram capazes de “aninhar” o futuro em “minutos únicos”. em 193112. Serafina. Porque as fotografias são esta condensação de tempos. 1985. como os fantasmas. Ou. É desde um agora-futuro que a fotografia que contém nossa imagem do 9 . São. o agora de um reconhecimento. E são. entre vivo e morto. portanto. conosco. como ousou dizer. Esse momento é sempre um agora. O agora de uma reciprocidade entre passado e futuro que não tem data marcada para acontecer. 1989. Porém. São seres que habitam o limiar entre passado e presente. de modo ainda mais radical. seres instáveis. quando a casca se rompe e ele é finalmente reconhecido. ambos condenados a fazer a incessante mediação entre o que foi. Dessa metáfora. só pode ser adivinhado (por fotógrafos e historiadores.11 Walter Benjamin observou. à espera do momento de seu despertar. nunca estão inteiramente no passado ou no presente. Todo fotógrafo é um caça-fantasmas. exatamente como os fantasmas. simultaneamente sincrônicos e diacrônicos. como disse uma vez o filósofo italiano Giorgio Agamben dos fantasmas e dos brinquedos. nos fornecem o testemunho da nossa irremediável diferença em relação ao que foi.10 São a própria operação histórica em ato. Eduardo Cadava. história em estado puro. e no mesmo momento. por exemplo). enquanto isso não acontece. Graciela Iturbide.Revista  FACOM  23 4 FOTOGRAFIA É ASSOMBRAÇÃO 5 HÁ SEMPRE UMA FOTOGRAFIA QUE NOS ESTÁ DESTINADA Antônio Saggese. Toda fotografia um dia irá nos assombrar. e o que será (o espectro de nossa própria morte. São Paulo. entre outros sucessores dos adivinhos). verdadeiramente perturbadora. México. o que é. Está encoberto por uma casca e seu conteúdo. O agora de uma correspondência. Está lá. mesmerizada pela atualidade do que foi. Estão aqui e agora. Fotografia é História. o futuro está sendo chocado. não há história que não seja história da fotografia. decorre que o futuro habita as imagens do passado como um “ovo” em seu ninho. adormecido.

Hoje. Desde esse agora ela nos visa. Um tempo de duração indeterminada. Mas toda fotografia. é o mesmo para todos e onde todos têm a sua vez. 6 TODA FOTOGRAFIA É O TEMPO QUE NOS RESTA O que se chama dispositivo fotográfico – a câmera. Tempo da prefiguração do que virá e de recapitulação do que já houve. Juan Cardenas e cachorro. Toda fotografia é uma versão microscópica do Juízo Final. Todo ato fotográfico dura o tempo que nos resta. Todo historiador é um monge redentorista. aguarda pelo gesto de reconhecimento quando será então redimida. confia. o sonho de sua completude. Ayacucho. tal como serão vistas no mais comum – mas igualmente único – dos dias. Tudo que foi dito. Peru (data não identificada). uma fotografia é tudo que nos resta. A cunha fincada pelo fotógrafo no escorrer do tempo faz dois mundos que nunca se encontram (este mundo.14 Dessa grande catástrofe cósmica. e o mundo por vir) coincidirem pelo breve intervalo que a sua espera sustenta. Nossa cultura já está inteiramente dominada por dispositivos tecnológicos instantâneos que . Um tempo suspenso do tempo. feito e sonhado tem um encontro marcado conosco. pois tão seguro como estaremos todos mortos um dia. mostra a face das pessoas e das coisas. o fotógrafo. finalmente. Estas são as duas faces de uma cunha afiada que. Enquanto as forças da urgência e da permanência sustentam o seu paradoxo. E o presente. Baldomero Alejos. nos termos propostos por El Lissitzsky para o artista moderno. o fotógrafo procura cravar mais fundo no coração do agora. São Paulo. Aldeia de Pescadores. Tempo que transcorre entre a escorrer de chronos e o advento de kairós. 1968. O apogeu da fotografia coincidiu com a brutal aceleração temporal que marcou a era moderna. até mesmo estas metáforas orgânicas do imediato tornaram-se caducas. As fotografias em todo o seu conjunto. Toda fotografia é a última.1o  semestre  /  2011 passado está à espera. Tempo do anúncio do que já chegou. o tempo é tudo que nos resta.13 Um dia que. entre o olho e o dedo. Condenada ao limbo de uma visibilidade incompleta. na qual mais e mais ações cotidianas passaram a resolver-se num piscar de olhos. porém determinado a acabar. a disposição de fotografar – funciona na tensão entre urgência e permanência. 7 FOTOGRAFAR É CRIAR RESERVAS DE FUTURO Cláudia Andujar. Ali. ou em um estalar de dedos. o passado reencontra sua atualidade perdida. a oportunidade. Todo fotógrafo é o anjo do apocalipse. A tradição ocidental chamou a data deste encontro de Dia do Juízo Universal. nada está perdido para a história. insiste. principalmente a próxima. e cada uma delas individualmente. nos encara.

11 . neste intervalo. é o tipo de liberdade necessária à sustentação de uma ética. pois “cada gesto tem um sentido de informação e é simbólico com relação à vida inteira e ao conjunto das vidas”. por exemplo). o reencontro de um porvir que o passado sonhara – e que somente nossos próprios sonhos de futuro permitem perceber. O que se constitui aí. era aprender a “jogar contra o aparelho”. Só agora. preserva sua capacidade irromper em nossas vidas como Acontecimento e Diferença. uma prática a que os fotógrafos. em vias de extinção. apenas uma imagem e um assunto. Na iminência do corte que nos legará. Deixam escapar que é por meio do futuro guardado nas imagens que os vestígios do passado nos visam e ainda nos dizem alguma coisa. O único exercício de liberdade possível. Cria-se ali uma reserva de futuro – no mesmo sentido em que se diz de uma reserva indígena ou uma reserva florestal. uma história poética. segundo ele. no estreito limite do dispositivo técnico instantâneo.17 Nessa ética para vidas que se tornavam cada vez mais instantâneas. os historiadores acreditam que as descobertas que realizam resultam da sua argúcia. investidores ranqueiam o risco-país. Uma reserva onde o tempo reencontra sua potência de interrupção.15 Junto com o desaparecimento do futuro vieram atestados de óbito que se tornaram célebres (como o do fim da história ou o das utopias. já se dedicavam “inconscientemente”. Todo fotógrafo é o guarda florestal de uma reserva de futuro. resguarda-se certa imunidade do futuro. a espera do fotógrafo era este esforço para reabrir no seio do agora. não há uma interioridade independente de exterioridade. adensado pela expectativa. quem melhor definiu o sentido desta ética: não haveria ilhas no mundo. apenas desenvolve um aspecto de suas propensões genéticas). 1958. De modo geral. na cena moderna. creio. nenhum instante é auto-suficiente. nos estertores do mundo moderno.Revista  FACOM  23 sustentam uma complexa rede de simultaneidades globais. ninguém mais adoece. suas múltiplas possibilidade de sentido. Foi o filósofo da técnica Gilbert Simondon.16 Acredito que o campo em que este jogo travou-se foi este intervalo que a fotografia procurou expandir. podemos compreender qual pode ter sido o papel da fotografia em uma existência que se tornava cada vez mais instantânea: preservar a possibilidade do futuro como diferença pela qual vale à pena esperar. Os diagnósticos da pós-modernidade assinalam no contemporâneo a perda do futuro. onde uma população de instantes. por mais breve que seja. Todo “achado” em uma imagem de arquivo é um olhar correspondido que atravessa as eras.18 Uma história que se ocupa das imagens é sobretudo uma história do futuro. Vilém Flüsser sugeriu que a tarefa de uma “filosofia da fotografia” era “apontar o caminho da liberdade”. A máquina fotográfica representava para ele o protótipo de todos os dispositivos quânticos. Marcel Gautherot. suas virtualidades adormecidas. Construindo Brasília. infinitamente. neste intervalo. a ponta de lança do “totalitarismo dos aparelhos em miniatura”. 8 TODA FOTOGRAFIA ESTÁ GRÁVIDA DE SONHOS Por isso. ao final. que teria se precipitado sobre o presente na forma do risco (pedagogos e médicos indicam comportamentos de risco.

emergem subitamente e desaparecem se deixar vestígio. as lendas natalinas e muitas histórias infantis – eles se animam. “uma galinha é apenas o modo pela qual um ovo produz outro ovo”. A tecnologia e os meios digitais permitiram uma expansão exponencial dos recursos de manipulação. assim também as novas tecnologias digitais tornaram possível observar. De fato. Aquilo que disse Benjamin uma vez do “inconsciente ótico” . 9 TODA FOTOGRAFIA ESTÁ VIVA Bibi Calderaro. Os recursos tecnológicos colocaram ao alcance de qualquer criança e da intuição do artista mais ingênuo a possibilidade de liberar sonhos que as imagens mantinham adormecidos em seu ventre com uma velocidade e numa escala jamais vistas. Assim. neste exato momento. Toda fotografia é o despertar onde as luzes do dia se misturam com fiapos de sonhos que nos escorrem por entre os dedos. agora mais do que nunca. 1996. e distribuição de imagens. nos interroga desde o mais fundo dos estratos sedimentados pela tradição. cultivam desavenças e afinidades. também. em bases cotidianas. até a poeira imperceptível dos milhões de fotografias que estão sendo realizadas por aparelhos celulares. de todas aquelas produzidas outrora. Do mesmo modo como o desenvolvimento dos microscópios abriu nossos olhos para toda uma vida minúscula que habitava a superfície árida das coisas do mundo. após ter compreendido todas as implicações do darwinismo –. Durante a noite – e disso dão testemunho os sonhos.19 A história das imagens é a história da sua vida onírica. Elevaram ao infinito as possibilidades de apropriação. Essa montanha de imagens que se acumula infinitamente sob os nossos pés. sobre as prateleiras ou dentro do armário. processamento. dão-se conta que sempre estiveram vivas. a ponto de podermos dizer delas o que Samuel Butler disse a respeito dos ovos. artistas e pesquisadores já se deram conta que as imagens estão vivas. e que não pára de crescer. Em toda parte. hibridação e transformação das fotografias produzidas hoje e.1o  semestre  /  2011 Os arquivos de imagens são como os brinquedos que uma criança tem em seu quarto. Essa montanha de imagens que se eleva até encobrir o horizonte está em permanente movimento. Argentina. junto com elas. em 1878: “Uma galinha – conclui ele. o que antes era o lento e obscuro trabalho do sonho que constituía a vida íntima das imagens. fotógrafos são um modo pelo qual uma fotografia produz outra fotografia. Somos tomados pela estranha vertigem de que tudo que uma vez se fotografou está agora a nossa disposição.

mas a crise do próprio futuro como reserva de novidade. Assim.”22 Todo fotógrafo é personagem de uma conhecida saga futurista. E adentra como rei. Ou é um surfista que tenta. Quer os palácios. como o poeta Baudelaire descreveu a si mesmo (em O Sol. Mas a crise que abalou a fotografia moderna não foi a consciência de seu fatal desaparecimento. Observar a cena fotográfica contemporânea é admirar os despojos desta luta. quanto mais 13 . hão de sucumbir no fundo insondável de algum buraco negro. Eis que redime até a coisa mais abjeta. No entanto. dos fragmentos de si e do mundo que resultam deste duelo que sonhos há muitos esquecidos podem retornar à luz. Isto é. redimidos de uma condenação às trevas que parecia durar uma eternidade. manter-se acima da linha d’água em meio a um tsunami de fotos feitas. a fotografia moderna foi obrigada a cometer suicídio para que a imagem fotográfica fosse finalmente aceita nos mais valorizados recônditos da arte. mais poderoso e bem mais velho que ele. tal como um poeta. que se tornou o meio de cultura ideal para que colônias de foto-bactérias realizem as suas mais prodigiosas infecções. Exercerei a sós a minha estranha esgrima. sem bulha ou serviçais. 2009 (a partir de Marc Ferrez).”21 O fotógrafo-poeta-esgrimista busca esquivar-se do ataque de imagens que tentam fazer dele mero veículo de sua reprodução. esgrimindo seu sabre de luz diante de um adversário muito maior. Rio de Janeiro. quer os tristes hospitais. quase sempre em vão. Ou é um esgrimista.Revista  FACOM  23 – que fotografia tornava grandes e “formuláveis” nossos “sonhos diurnos”20 – agora convém ao écran luminoso. É dos retalhos. Quando o impiedoso sol arroja seus punhais Sobre a cidade e o campo. 10 O FUTURO DA FOTOGRAFIA SOMOS NÓS O fotógrafo contemporâneo é cada vez menos um “caçador de imagens”. Não foi a crise motivada pelo que o futuro lhe reservara. poema 87 de As Flores do Mal): “Ao longo dos subúrbios. os tetos e os trigais. para além destas mudanças que poderíamos chamar de “institucionais”. assim como o sol: “Quando às cidades ele vai. que os marcos culturais. Baudelaire poderia dizer dos fotógrafos-esgrimistas contemporâneos que. Todas as imagens vão desaparecer um dia. temos nitidamente a impressão de que a experiência e a cultura fotográfica “consumaram-se”. Buscando em cada canto os acasos da rima. Topando imagens desde há muito já sonhadas. em particular a crítica norteamericana dos anos 1990. onde nos pardieiros Persianas acobertam beijos sorrateiros. para os confins do Universo. políticos e midiáticos no interior dos quais a fotografia construiu sua identidade estão em vias de rápido esgotamento. Para muitos autores. Tropeçando em palavras como nas calçadas. Mesmo as radiotransmitidas para bem longe. Mas. Rosângela Rennó.

Na experiência moderna. Como restringir o impulso das imagens? Como produzir o atrito que perturba o seu deslizamento? Como impor ao clichê a demora que revela a fragilidade da sua construção. e encontram na reprodutibilidade infinita de que dispõem a ilusão de sua perpetuação. fazer a arqueologia de uma fotografia é sempre defrontar-se com os vestígios das forças do mundo. inscrever no corpo diáfano da nova imagem. mas igualmente da vontade de sobrevivência das imagens. Alimentam-se como vampiras do nosso élan vital. o fotógrafo já foi essa resistência. . A espera era este campo de forças da figuração onde se gestava a diferença entre instantes que teimavam em passar cada vez mais homogêneos. sem o qual submergiriam no tsunami do imaginário. a reprodução é parte indissociável da sua natureza. é dar-se conta da cooperação e do conflito entre elas. querem nos fazer crer que agora. na resistência dessa demora. a fotografia moderna deu vez ao gesto e ao tempo. Mas. apenas de nós.1o  semestre  /  2011 difusa e vaga parece ser a presença da fotografia hoje. não se deixem enganar. no lugar dessa espera. como Flusser havia previsto. as dores da própria virtualização. As imagens digitais tornam-se mais e mais diáfanas e voláteis a cada momento. é aquele que aprendeu a dispor barricadas de opacidade no percurso das imagens. Forças que não são apenas oriundas do mundo ou do gesto do fotógrafo. A fotografia atual aspira tornar o fotógrafo um seu igual. que depende o futuro da fotografia. agora. de inúmeras e variadas maneiras. efeito subjetivo colateral do intervalo em que suas imagens se produzem. pois também tem sua origem na espera. é o meio turvo. O fotógrafo contemporâneo. É de nós. o fotógrafo contemporâneo vê-se face a face com o imaginário. visam reforçar sua reprodutibilidade. ou evidencia as forças poderosas que agiram na sua composição? O fotógrafo clássico imaginava-se um cristal translúcido e viveu às turras com questão indecidível da objetividade de suas imagens. o fotógrafo polarizava as forças de sua individuação. neste momento. antes o instrumento que o fim. eles próprios. Toda fotografia é um cristal das tensões que a constituem. e do decifrador de imagens que todo fotógrafo contemporâneo se tornou. As imagensclichês querem “passar”. mas o da reprodução instantânea dos clichês. no entanto. uma fantasia que encontrou na replicação infinita a justificativa auto-referente de sua existência. Uma reprodução do qual eles são. Os antigos já o sabiam: imagem é o que sucede a tudo o que morre. Ali. fotógrafos exangues tendem a tornarem-se. um ser tão digital quanto ela. Este fotógrafo somos todos nós. sempre que nos surpreendemos e hesitamos diante do devirimagem que nos atinge. essa demora que se interpunha entre o olho e o dedo. Na fotográfica clássica. O fotógrafo contemporâneo. do gesto e do imaginário que a configuraram. mais visíveis se tornam as forças a constituíram em sua história. Do ponto de vista do historiador visual. é a lente refratária que retarda e desvia a passagem das imagens. O retardamento que se impõe não é mais o do devir dos instantes. elas ainda precisam de nós para ganhar impulso. já o percebemos na obra de um sem número de autores. esse campo de jogo em que a criação fotográfica exercitava sua liberdade. É este que procura. As imagens atuais. É a pedra no caminho que empata o progresso dos clichês em sua marcha vitoriosa rumo aos confins do universo. É por que visam sua sobrevivência. Devidamente sugados por suas fotografias. a crença em uma vitória possível sobre o desaparecimento. o predomínio foi do mundo e do ponto de vista. estão tomadas por um delírio de onipotência. imagens: espectros digitais de si mesmos. que investia na potência da espera como lugar de retardamento do devir instantâneo do tempo. o fotógrafo do futuro. que as imagens atuais aspiram ao clichê. Os fotógrafos contemporâneos têm outros desafios pela frente. mais do que nunca.

p. p. São Paulo: Brasiliense. Poesia e prosa. Arte e Cotidiano na Globalização. 1995. 149-160 8 BARTHES.99-115. México. 31-97. 9 DIDI-HUBERMAN. 82-4. 13 AGAMBEN. W.  é  doutor   em  Comunicação. Lisboa: Edições 70. In: Obras Escolhidas I. 1-2. “Lectura de la mano: La muerte en las manos de Fazal Sheikh”. 1985. G. IN: MENEZES. 21 BAUDELAIRE. 5 CADAVA. Filosofia da Caixa-Preta. São Paulo: Brasiliense. São Paulo: Brasiliense. 1989. 15 Cf. VAZ. p. 73-96. E. W. 11 CADAVA. “Rua de Mão Única”. A Máquina de Esperar. M. 10 AGAMBEN. Rio de Janeiro.  Professor  de  roteiro  e  teoria   visual  na  Escola  de  Comunicação  da  UFRJ. 197-213. p. Ante El Tiempo. Nova Aguilar. 22 Idem. V. São Paulo: Hedra. “Viagem ao país das imagens”. 17 SIMONDON. W. C. p. 64. S. 2008. W. primavera-otoño de 2007. 16 FLUSSER. Rio de Janeiro: Mauad X. p. W. 20 BENJAMIN. 27-30. 2 Idem. El tiempo que resta. G. 1997. A Máquina de Esperar. Princeton Univesity Press. 1). 2007. p. Words of Light. 6 LISSOVSKY. In: Acta Poética (vol. 15 . “Imagens do Pensamento”. 1987. P. São Paulo: Brasiliense. Mauricio  Lissovsky Historiador  e  roteirista  de  cinema  e  TV. 121-143. L’Individuation psychique et collective. Profanações. A Câmara Clara. Londres: Verso.Mídia. 3 BENJAMIN.) Signos Plurais . 212 [tradução revista]. In: Obras Escolhidas I. 2006. 2002. 1989. E. pp. 170. G. 1997. págs. Imagem Contemporânea (v. 1985. 4 BENJAMIN. 2008. G. O Ornamento da Massa. Buenos Aires: Adriana Hidalgo. 7 KRACAUER. (org. Madrid: Trotta. P. Paris: Aubier. p. pp. 107. Infancy and History. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.  onde   coordena  o  Programa  de  Pós-­‐Graduação  em   Comunicação  e  Cultura. pp. Princeton. 12 BENJAMIN. G. 2007. 245. 19 LISSOVSKY. 94. São Paulo: Brasiliense. São Paulo. In: FURTADO. 2009. 14 AGAMBEN. 18 LISSOVSKY. “Globalização e Experiência de Tempo”. 1987.Revista  FACOM  23 NOTAS: 1 BENJAMIN. 2009. M. São Paulo: Cosac Naify. Rio de Janeiro: Mauad X. 28. Beatriz (org). núms. “Pequena História da Fotografia”. In: Obras Escolhidas II. 1985. P. M. In: Obras Escolhidas II. 78-79. 13-47). “Pequena História da Fotografia”. p. pp. In: Obras Escolhidas I. p. “Pequena História da Fotografia”. R. São Paulo: Boitempo. 2008.