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40 Anos a APRENDER

Histórias de um Professor de Educação Física de 40 anos…

Tiago Soares Carneiro

“As minhas lições são os reflexos das vivências
passadas. Alunos, colegas, treinadores, jogadores,
amigos, pais, filhas. A vida sem desporto não faz
sentido. Ensinar é um (des)porto de abrigo. Correr,
saltar, ir mais além, subir, empurrar, bater, suar, cair,
sangrar, sofrer. DESPORTO!!! Educação para o
desporto. EDUCAÇÃO FÍSICA.”
Tiago Soares Carneiro

O autor do livro não usa o acordo ortográfico porque acha-o uma treta!

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Este livro é o reflexo de todas as aprendizagens que consegui adquirir ao longo da
minha vida enquanto criança, enquanto adulto, enquanto filho, enquanto pai, enquanto
amigo, enquanto cidadão, enquanto aluno e especialmente enquanto professor.
Todas as partes do livro são verídicas mas em algumas as personagens e os lugares
serão substituídos por imaginários para não ferir a honra e a glória dos mesmos. Comecei
o livro no dia em que acreditei que todos somos capazes de mudar. Obrigado Mafarrica.
Foste tu que me ensinaste isso.
Nele vão surgindo as pessoas que mais me marcaram a vida em algum momento ou no
sempre.
Aos meus pais, que me ensinaram a palavra não e me contagiaram com esta doença
terrível que é a Educação. A minha mãe pelo conteúdo e o meu pai pela forma.
Às minhas filhas que fazem todos os dias, desde que nasceram, com que o amor da
natureza seja cada vez mais algo inexplicável mas impressionante e monstruoso. Sou um
pai muito orgulhoso. Ensinaram-me que há sempre alguém pelo qual daríamos a vida se
necessário sem hesitar. Amo-vos sempre e para sempre.
Aos meus alunos que me ensinam e fazem crescer todos os dias. Tudo o que sou é por
eles. Sem eles nada faria sentido.
Á minha companheira, parceira, maior professora. Por me ter dado o que de melhor
pode haver na vida humana: filhos. Por aturar o meu mau feitio e os meus muitos
defeitos. És a minha rainha guerreira Xana.

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AMIZADE
Surge bem suave
Quando os seres se conhecem
Se persistente ninguém esquece

O verdadeiro amigo ajuda a viver
Suporta com os seus braços o nosso medo
Dá a força e a confiança
E com esmero guarda segredos

Na tristeza do olhar nos acalenta
Nas horas de frio nos aconchega
Acompanha-nos nos bons e maus momentos
Na vida nos alegra

Com ternura sempre nos sustém
Com alguma coisa boa nos faz inquietação
Ajuda-nos nas dificuldades
E está connosco no júbilo e na melancolia

Por isso nunca devemos feri-lo
Se isso acontecer devemos pedir desculpa
Pois uma amizade assim deve-se respeitar
Cuida-se no fundo do coração
“Sara” – capítulo 12

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Capítulo 1 – A infância
Sou o irmão do meio, filho de um gerente industrial e de uma comerciante. Nasci na
Sé do Porto, logo sou tripeiro de gema, e morei em Custóias até aos 9 anos. Ao lado do
nosso pequeno T2+1 alugado havia um parque infantil, o jardim da feira, o coreto e a
casa do meu primo mais velho Mingos. Éramos só quatro na época. Eu, a minha irmã
Ana, o meu Pai e a minha Mãe.
Sempre fui reguila, muito aliás. Lembro-me de a minha mãe contar de eu fazer uma
rasteira a um cego que passava com a sua bengala. Lembro-me de ir à mercearia em
frente a casa, daquelas antigas com o feijão e o grão em cestos, e roubar um chupa.
Lembro-me de correr pelo passeio fora em direcção à casa do Mingos e deitar ao chão, de
propósito, as bicicletas que o pessoal estacionava à porta do café da esquina. Era em casa
deste meu primo que eu mais gostava de brincar. Tinha um quintal muito grande, vários
cães e como ele era mais velho protegia-me e ensinava-me coisas loucas. Por trás de casa
dele havia um acampamento de ciganos e tinham lá uns cavalos rafeirotes. Nós eramos
destemidos e com uma manta e umas rédeas improvisadas com uma corda, montávamos
os animais. Era cair e levantar. Sozinho ou dois a dois. Eu, a minha irmã, o Mingos e a
Cristina que era a irmã dele e nossa prima também.
Aos três anos entrei para o Colégio Luso-Francês. Só não fui aos dois porque não
admitiam dessa idade e tive que andar no Grande
Colégio Universal durante um ano. Na infantil
(chamava-se assim) era só brincadeira pegada. Os
rapazes usavam uma bata azul e as meninas uma
cor-de-rosa. O que melhor recordo dessa altura
dos meus 3 ou 4 anos era a Raquel. Uma menina
surda que era a minha melhor amiga. Depois foi
embora, talvez para algum lugar que lhe
proporcionasse melhores condições para as suas
dificuldades. Penso nela de vez em quando.
Foi também aos quatro anos que tive uma experiência brutal. No recreio de areia havia
um baloiço ao qual chamávamos combóio. Era uma
tábua de madeira pendurada em dois apoios que
balançava e permitia levar 3 ou 4 crianças. Andávamos
às vezes 15 em cima dele. Havia duas brincadeiras que
eram as mais radicais no combóio. Uma era dar tanto
laço que se batia com a madeira em cima nos ferros. A
outra era, enquanto uns andavam, outros atravessavam à
frente. Quanto mais perto melhor. Certo dia venci a
competição! Tenho 3 pontos junto ao olho direito que o
provam. Quase ceguei.
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A minha Professora Primária foi a Dona Albertina que agora é minha amiga no
Facebook. Sempre actual. Era uma querida.
Recordo-me de sempre ter a sensação que as
reguadas que me dava doíam-lhe mais a ela do que
a mim. Foi excelente. Recordá-la-ei para sempre
com muito amor e carinho.
As minhas férias eram passadas em casa com a
Albina que era a nossa empregada doméstica.
“Forte” e rude mas com um amor de mãe por nós.
Na altura das férias juntava-se a mim o Quinel que era o filho mais novo da Albina.
Ainda hoje sinto remorsos das sovas que levou por minha causa. Às vezes fazíamos os
dois as asneiras mas só ele é que apanhava. Outras vezes era eu só que as fazia mas
também aí era ele que apanhava. Quanto ouvíamos a voz dela gritar “Joaquim
Manuel!!!!” pronto, o pobre já ia comer. Era um bom amigo.
Também ia muitas vezes para casa da minha avó paterna que era viúva desde que o
meu pai tinha sete anos. Cuidou de 6 filhos sozinha e com mestria. Mulher de armas.
Espanhola! A minha abuelita era um amor. Rija mas carinhosa. Adorava ir para casa dela
porque era grande, com muitas divisões para fazer brincadeiras, jardim para brincar e
correr e tinha animais. Tinha coelhos, galinhas, porcos, cães… Era ao lado da cadeia de
Custóias. A 1ª casa. A minha avozinha dava-nos banhos de mangueira e chamava-me
cerdo e cochinero quando fazia chichi na cama.
Nas férias de Verão também íamos para Lisboa para casa dos avós maternos. O meu
avô era coronel e veterinário e a minha avó dona de casa. Mãe de sete filhos a minha avó
não era para brincadeiras. Era a generala lá de casa. O avô era para os passeios, as idas à
praia e ao ZOO onde trabalhava. Era espectacular! Como sempre adorei animais, andar
pelo ZOO com a Cloe (uma leoa) de trela era magnífico. Com o meu avô aprendi a jogar
ténis de mesa e ainda aos 90 anos jogámos pela última vez e fê-lo muito bem. Tem agora
97.
Também íamos de vez em quando até Chaves. A minha avó nasceu e viveu lá na Casa
de Samaiões até casar. Era a quinta da família. Adorava. Era uma casa brasonada com
capela e um terreno enormíssimo de
muitos hectares. Lá é que havia espaço e
sítios para brincar. E vacas! Acordava
cedo para ir levar as vacas pro monte.
Tinha um jardim que parecia um
labirinto. Tinha um cão Serra da Estrela
que parecia dez vezes o meu tamanho.
Passava horas com ele.
Há tanta coisa que me recordo da
minha infância. O Renault 4L branco da
minha mãe onde cresciam cogumelos no tapete. Ir de férias para o Sul de Espanha e ver a
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cidade dos cowboys. Os cães que se punham na chapeleira dos carros que com o
andamento abanavam a cabeça. Ir à Serra da Estrela e descer por lá baixo num saco de
plástico. Aprender a andar de bicicleta na Foz do Douro com o meu pai a correr atrás de
mim fazendo de conta que ainda estava a agarrar o assento. Fumar os primeiros cigarros
(roubados à minha mãe) debaixo da cama do quarto. Apanhar um choque eléctrico no
interruptor do meio da minha cama e da minha irmã. Abrir a gaiola dos canários para eles
fugirem por não gostar de ver animais presos.

Capítulo 2 – A rua
Quando fiz nove anos mudámos para um T4 no centro da Maia. Foi nessa altura que
nasceu o meu irmão Ricardo (9 anos mais novo).
A cidade era quase toda rural. Nós morávamos numa urbanização (falida) composta
por alguns prédios e muitas moradias. As lojas debaixo dos prédios estavam quase todas
por acabar e fechadas. Eram nossas! Eram a nossa discoteca das festas para dançar slow
agarradinhos, com luzes e bola de cristais. Eram a nossa clinica de acolhimento de cães
abandonados. Eram os nossos locais de guerrilha armada com fisgas. Eram onde
jogávamos ténis de mesa e sueca. Era onde íamos dar uns beijos.
Nos fins-de-semana e nas férias de Verão comecei aqui a aprender o que é a vida. A
liberdade de viver.
Subíamos pela janela junto à caixa do elevador para o telhado do prédio e
apanhávamos banhos de sol. Espiávamos os vizinhos com binóculos.
Jogávamos futebol na rua onde quase não passavam carros. Motas e bicicletas não
impediam o jogo de continuar. O gordinho ia pra baliza e o melhor jogador tirava-o de lá
se houvesse um penalti. Só não se podia chatear o dono da bola senão acabava o jogo. Às
vezes acabava também quando se partia um vidro e fugíamos todos. Só ficava o dono da
bola.
Tínhamos também um campo na bouça. Balizas feitas com troncos de eucalipto.
Ganhava sempre a equipa que jogava para baixo. Tínhamos equipamentos feitos na
Maipex. De vez em quando jogávamos contra a malta do bairro do Sobreiro. Eles
também tinham campo.
Fazíamos quilómetros e quilómetros por dia de bicicleta. Íamos para a praia nela.
Íamos até Vila do Conde nela. Às vezes furava um pneu e tínhamos que vir dois na
mesma com a outra às costas.
Roubávamos milho e fugíamos dos lavradores. Fazíamos fogueiras e assávamo-lo e
era demais.
Para ir para a piscina do Castelo da Maia íamos à boleia que assim o dinheiro que as
mães davam, gastávamos em gelados. Os camiões paravam na Via Norte e lá entrávamos
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às resmas. Pra Praia de Leça íamos de camioneta mas para cá tinha que ser de boleia pois
o dinheiro já tinha ido nos bolos da Dona Piedade.
Andávamos de skate. Aqueles pequeninos de plástico. O meu era vermelho e tinha
sido do meu tio Manel. Fazíamos corridas. Na Rua de Rochdale que era a mais larga e
inclinada e das poucas em alcatrão. Era em pé, era deitados, era dois no mesmo, era lado
a lado. Sempre com muitas quedas e arranhões. A rua acabava em terra. De patins era
bem pior. Mas nós não tínhamos medo!
Rachei a cabeça aí umas dez vezes mas a minha mãe não soube de nenhuma.
Estávamos sempre finos.
Lembro-me do Ricardo atirar raivoso a raquete de ping pong e abrir a cabeça ao
Mesquita que correu uns 5 quilómetros a gritar e nós todos atrás dele. Lembro-me de ter
tido num Natal uma espingarda de chumbos que fez terror na vizinhança. Eu e o Pedro
(eu morava no 4º e ele no 3º) atirávamos a tudo que mexia. Colocávamos latas à entrada
da mata que havia em frente ao nosso prédio e fazíamos competições das janelas. Eram
uns bons 100m…..vá 50m. Devíamos ter ido às Olimpíadas.

Capítulo 3 – O Voleibol
No Colégio havia um professor de Educação Física chamado Martinho. Ele estava
ligado à modalidade de voleibol e criou uma equipa federada connosco. Lembro-me de
irmos a torneios de Minis. Quem ganhava sempre na altura era a Associação Académica
de S. Mamede.
No Colégio, mesmo depois da equipa acabar, o voleibol era o desporto mais jogado.
Nos intervalos faziam-se rodas e jogava-se ao “meio”.
Aos 14 anos disse ao meu pai que queria jogar federado. Ele perguntou onde já que na
Maia havia voleibol no Castelo, no Gueifães e no Maia. Como é óbvio, sendo morador na
Maia, eu disse que queria jogar na Académica de S. Mamede (que não é lá!!!). O meu pai
foi jogador de andebol e conhecia gente de lá pois também havia essa modalidade no
clube. No 1º dia de treino, abrimos a porta e, era treino de andebol. “Podias
experimentar” dizia o aldrabão. Nem pensar. Só voleibol! E assim foi. Era o gajo
estranho com cabelo à surfista que vinha da Maia quando todos moravam ali.

Mais tarde fomos Campeões Nacionais de Juvenis. Eu fazia saídas. Era o caceteiro.
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O número 3sou eu.
Houve treinadores que marcaram
o clube e a mim. O Vieira Monteiro
pela sua paixão pelo jogo e pelos
seus atletas. O Mané pelo rigor no
trabalho e boa disposição. O Arlindo
pelas palavras difíceis (de dicionário
mesmo) e pelo cumprimento “olááá
amigos”. Companheiros de equipa
foram tantos e bons que não vale a
pena descrever. A maioria perdura a
amizade.
Em idade de Júnior foi complicado pois fui chamado à Selecção Nacional e fiz uma
ruptura de ligamentos no pé direito. Nunca parei. Ia todos os dias às 07:00 horas às Antas
à Clinica do Dr. Domingos Gomes fazer fisioterapia e uma ligadura funcional. À noite,
depois do treino tirava-a para tomar banho e no dia seguinte lá estava. Sábados e
Domingos ia ter com a fisioterapeuta.
Foi também nessa altura que cometi a burrice que mais me arrependo na vida.
Abandonei a Académica.
Por motivos parvos que tem a ver com o ego dos jovens, as hormonas e a vontade de
ser livre fui jogar, ainda com idade de júnior, para os seniores do Custóias. Foram bons
anos de convívio e lazer. Mas o voleibol em mim morreu. Depois fui para o Aldeia Nova
na 2ª Divisão. Um desastre não fosse alguns amigos que lá fiz. Quinta Seca seguiu-se e
nada de novo. Tentei então voltar ao meu clube do coração e onde tudo aprendi. Fui
rejeitado dois ou três anos seguidos. Parei de jogar!
Comecei a ser treinador de equipas de formação. Passei em todos os escalões. Ganhei
muitos jogos e ajudei a criar muitos bons jogadores. Mas não era para mim igual. Apesar
de ter nascido uma nova paixão, a de ensinar Voleibol, faltava o bichinho do jogo.
O bichinho de jogar era maior e voltei. A equipa B do Gueifães recebeu-me de braços
abertos. Malta porreira. Joguei lá dois anos na 3ª Divisão.
Entretanto quem me tinha recusado na
Académica saiu e tentei de novo. Voltei de novo
à minha casa. Voltei à Académica. Foi um ano
diferente. Estive sempre feliz porque tinha
voltado ao meu clube mas já não era o mesmo
jogador. Estava gordo. Voltei a parar.
Passados mais uns dois ou três anos um dos
meus amigos de infância na Académica disse-me
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que estava a jogar na Académica na equipa dos
Veteranos. Quem eram os velhos? Helder Teixeira,
João Jesus, José Eduardo… Os meus ídolos de
infância da Académica. Tinha que ir jogar com
eles……………..e fui. E jogo.

Capítulo 4 – A adolescência
Mudámos para uma moradia na mesma urbanização.
Acho que esta fase passou por mim rápido. Não me lembro de ter borbulhas. Não me
lembro de ter sido muito chato para os meus pais.
Mas…
No Colégio sempre fui dos mais indisciplinados. O meu pai era chamado várias vezes
ao ano. Ora porque esvaziei os pneus do Mini do Professor Fonseca. Ora porque cuspi
papéis pelo tubo da caneta bic. Ora porque saí pela janela da sala do 2º andar…
Era um bardino.
Mas um bardino pequenino. Éramos 13 rapares na turma. Eu era o 12º maior! Só o
Nuninho me batia na pequenez. Mas durante as férias do 8º para o 9º ano alguma fada
mágica passou lá por casa e eu cheguei sendo o 2º maior. E agora ainda sou maior!
Aos 13 comecei a conduzir. Um dia a chegar a casa com o meu pai ele disse “já tinhas
obrigação de saber conduzir para a tua mãe não ter trabalho a pôr o carro na garagem”
ao que eu respondi “eu sei”. Carrinha Peugeot 504 de 5m de comprimento e 8 lugares
parada e troca de lugares! Nunca tinha conduzido! Engoli em seco, arranquei e foi
impecável. A partir desse momento o Volkswagen Golf da minha mãe ficava sempre à
porta para eu dar umas voltas ao quarteirão, e às vezes à cidade toda, e o estacionar na
garagem.
Sempre fomos muitos nas turmas do Colégio. Eu normalmente era o nº 32. Mas como
havia educação e disciplina tudo se aprendia. Tive excelentes Professores. Alguns tinham
as suas alcunhas mas foram marcantes pela qualidade e princípios. Fonseca, Careca,
Coruja, Paula, Irmã Helena, Cândida, Julieta, Queirós… A que mais me marcou foi a
Cláudia. Chamava-nos abóboras. Era de Inglês. Era louca. Sentava-se de pernas à chinês
em sima da secretária. Mexia no nariz por fora e por dentro. Mas era tão boa tão boa. Nas
aulas dela eu era o Jack Burton. Fazia a chamada com nomes ingleses. Aprendi muito
com ela. De tal forma que nunca mais estudei a língua e sempre me senti confiante a usála em qualquer situação.

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No 10º ano saí do Colégio porque não tinha opção de Desporto que era o que eu
queria. Fui para o Externato D. Duarte.
Acabadinho de sair de um colégio de freiras foi como se tivessem soltado um gato
faminto numa sala com ratos. Comecei a fumar, a faltar às aulas, a estudar muito pouco, a
namorar cada vez mais, a sair à noite, a beber, a andar de moto e a achar que os pais dos
outros é que eram fixes.
Nessa altura era um atleta. Além do voleibol tinha as aulas da opção de desporto e
fazia musculação. As meninas não largavam e eu gostava. Era um convencido.
Saía da escola e apanhava o 07 para S. Mamede para ir treinar na minha Académica.
Terminava às 23:30 4x por semana. Apanhava o autocarro das 00:00 horas. O 07 ou o 54.
Quando perdia esse já só havia outro às 01:00 horas. Levava o Discman e sentava-me a
ouvir Metallica/Sepultura/Pantera/Cult… na beira do passeio. Certo dia o autocarro da
01:00 hora nunca mais chegava. Já perto das 02:00 horas fui a um café e perguntei o
porquê do atraso. Greve! Ui… “posso ligar para casa?”…”tou pai, há greve de
autocarros”……………………….”a esta hora? Vem a pé!” E fui!
O Verão passava-o a jogar Voleibol de Praia na praia com as meninas e a treinar no
ginásio e no pavilhão. Comecei nessa altura também a praticar Bodyboard. Era um vício!
Ia aos fins de semana de autocarro cedinho para Leça ou Matosinhos surfar. Chuva, sol,
vento, trovoada, frio… nada nos parava.

Capítulo 5 – Faculdade
Entrei no ISMAI em Desporto. Quer dizer……….. ainda não tinha entrado, nem
sequer feito as provas e já tinha ido à praxe! Foi fantástico. Fiz lá alguns dos meus
amigos para a vida. O gang do jipe UMM. Éramos uns 8 sempre lá dentro. Às vezes só
em duas rodas (mesmo). Só fazíamos asneiras. Os professores não nos conseguiam aturar
mas gostavam de nós. Todos tínhamos carta e carro mas era sempre naquele jipe todo roto
que íamos. Todos juntos. A partir tudo. Aquele jipe, se falasse…
As aulas práticas eram duras. Muitas horas mais os treinos de voleibol. Natação com a
Teresa eram as melhores. Foi a melhor do curso. Ela passava-se connosco mas ao mesmo
tempo gostava da turma E pois nadávamos 3x mais que as outras. Era só atletas. Mas
quase todos loucos! A famosa turma E ganhou fama. De tal forma que fomos todos
chumbados pelo prof. Arsene de Basquetebol e noutras disciplinas muito queimados nas
notas.
Nas noites das Praxes e Queimas era só “água”. Às vezes nem sabia como tinha
chegado a casa ou às vezes nem sabia de quem era a casa.

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O meu pai não podia permitir que eu saísse muito pois como não queria que a minha
irmã mais velha saísse por ser menina eu tinha que ser mais ou menos igual. Só aos 30 e
tal anos é que ele me disse que sabia que eu saía pela janela do quarto. Ele sabia.
No ISMAI joguei Rugby. Adorei. Era um dos desportos que gostaria de ter conhecido
mais cedo. E de ter jogado mais a sério. É fantástico.
Participei em torneios de tudo e mais alguma coisa em representação do nosso curso.
Fui às Garraiadas e peguei Touros! Às vezes eles é que nos pegavam a nós. Mas
normalmente já estávamos anestesiados e nem sentíamos.
Foi no 1º ano da faculdade que conheci a minha Rainha. Ela era (e é) bela, exótica,
atlética… muito “atlética”… Não dava grande confiança a palermas como eu. Tive que
pedalar um bom bocado para conseguir que me achasse piada. Ganhei-a!

Capítulo 6 – 1º Emprego
O meu primeiro emprego foi a dar aulas. Tinha que ser.
Estava no 2º ano da faculdade. Precisava de dinheiro para as festas.
Foi a dar Educação Física numa Escola Primária no Freixieiro. Ganhava 15 contos por
mês (75€). Não tinha condições nenhumas. Não tinha quase material nenhum. Eram
imensos alunos e dava aulas numa sala. Afastavam-se as carteiras e todo o material
escolar e depois era a confusão total. Tinha experiência zero e não eram fáceis os
pequenos. Havia dias em que saia de lá doido. Louco.
Recebia pela Associação de Pais. Foi o meu primeiro emprego. Não estive lá muito
tempo pois arranjei outro melhor e passei esse para o Zé.

Capítulo 7 – Estágio Profissional
Foi um ano terrível. Trabalhava de sol a sol. Tinha 4 ou 5 empregos. Ganhava mais
nesse ano de 1998 do que hoje.
Fiz estágio na Escola EB 2,3 de Pedrouços. Uma escola com muitos alunos
problemáticos onde aprendi pela primeira vez a resolver conflitos e lutas. Tinha duas
turmas. Uma de 7º ano que gostei bastante e outra de 8º ano que detestei.
No estágio só aprendi que duas coisas: pouco sabia do que era dar verdadeiramente
aulas e que dependemos de nós próprios para aprender. O (des)orientador era um
ignorante e incompetente treinador da bola. Só me arrependo de não ter seguido o meu
primeiro impulso e ter repetido o estágio. Fui muito prejudicado na nota final. Isso
estragou-me a vida.
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Casei nesse Verão com a minha Rainha.

Capítulo 8 – Aprender a dar aulas
No ano seguinte ao estágio também trabalhava como um Mouro. Ginásios, Câmaras,
Eventos, tudo o que desse dinheiro lá estava. Foi também a altura que mais formações fiz.
Ia a todos os cursos, seminários, palestras. Eu e o meu gangue.
A meio do ano fui substituir uma professora grávida em Joane, Famalicão. No dia em
que me apresentei na escola fiz a minha 1ª burrada na estrada: marcha-a-trás na autoestrada. Ups. Apanhado! Eles estavam em cima da ponte à minha espera.
Foram uns meses muito bons. Aprendi ali a ser professor. Um grupo fantástico de
colegas. Muito organizados e amantes da disciplina de Educação Física. Era o Amílcar
doido das bicicletas, o grande chefe e amigo Paulo, o Manuel Machado (sim o Treinador
do Nacional), entre outros. Naquela escola não faltava nada para se dar aulas perfeitas de
Educação Física. Tínhamos o material todo que necessitávamos e os alunos já tinham um
ritmo de trabalho e gosto pela disciplina que ajudava muito.
Muitas actividades, convívios e grandes recordações. O ano culminou com um
acampamento com os alunos no Gerês. Assim valia a pena ser Professor!
Aprendi muito nesta escola com os colegas e com os alunos.

Capítulo 9 – Uma nova paixão
Sempre adorei desporto. Todos os desportos. Estive sempre disponível para
experimentar e aprender novos. Quanto mais radicais e com adrenalina melhor.
Foi então em 1998 que conheci o snowboard. Já tinha feito ski várias vezes e gostava.
Mas nesse Inverno fomos um grupo grande
de amigos (os loucos da faculdade e mais
alguns) para San Isidro. Todos faziam
snowboard. Então tive que experimentar
também. No 1º dia foi horrível. Apetecia-me
partir a prancha em mil pedaços. Levantavame e caía. Vezes sem conta. E todos a rirem!
No 2º dia lá consegui dominar o bicho e a
partir daí foi amor para sempre.
Recordo um momento que me fica para sempre. Pelo tipo de amizade que
caracterizava o nosso grupo. Ia eu e a Xana sentados a subir nas cadeiras pela 1ª vez.
(para quem não sabe, no snowboard está sempre um pé preso e o outro solto na altura de
andar nos meios mecânicos) Ao chegarmos ao topo da montanha avistamos os nossos
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amigos. Um grupo à volta de 20. Todos alinhados sentados no chão. A bater palmas. A
gritar “Ei, ei, ei”. Sem percebermos o que se passava… (tinha chovido e o nível da neve
tinha baixado. A saída das cadeiras ficava praí a uns 2m do chão contra tudo o que é
normal)… “Salta, salta…” Riam os doidos. E nós saltámos! Tombo certo. Para quem não
sabia andar com uma prancha agarrada a um pé era fatal. Embrulhados no chão a tentar
levantar… vêm os das cadeiras seguintes e catrapum em cima de nós. Ninguém se
magoou. Só o meu ego é que ficou algo ferido. Mas isso passou ao jantar a rir todos
juntos e a comer e beber bem.
Snowboard é algo que não consigo descrever.
Aquele ambiente que envolve a neve. Aquela paz. A
destruição que fazemos nas pistas. A camaradagem. Os
tombos. Em grupos grandes é fantástico o convívio. Em
família é muito bom.
Relaxante, anti-stress, duro, bonito, radical, excitante.
Tem tudo!
É indescritível a paixão.

Capítulo 10 – O papa quilómetros
Nos anos que se seguiram fiz mais quilómetros do que muita gente faz numa vida.
Sempre fui dormir a casa pois não conseguia sustentar duas. Assim ainda ia trabalhar para
o ginásio para cobrir as despesas que tinha. Era novo.
Resende foi a etapa que se seguiu. Fiquei lá colocado no antigo concurso da 2ª parte e
o Rui nos miniconcursos. Como eramos amigos inseparáveis da faculdade e morávamos
ambos na Maia pedimos para nos fazerem um horário parecido. Foram compreensivos e
andámos sempre à boleia um do outro o ano todo.
A escola era pacata, os alunos típicos aldeões sem maneiras mas respeitadores. Ali ser
Professor ainda tinha peso. Um dos Vice-directores tinha o bigode à Hitler e era o homem
que “malhava” nos indisciplinados. Havia um banco em L à entrada da direcção onde eles
esperavam a vez. “Já vais?” Gozávamos nós quando passávamos por eles. Fui o primeiro
licenciado em Educação Física a ficar lá colocado. Foi desbravar terreno no que concerne
à disciplina a aos métodos anteriormente usados.
O desporto rei era ténis de mesa. Todos sabiam jogar. E bem. Tínhamos umas trinta
mesas na escola. Aprendi muito com os meus alunos. Fomos Campeões Distritais e fomos
ao Campeonato Regional a Bragança.
Foi o ano em que apanhei mais frio em toda a minha vida. No Inverno só tirava as
luvas para almoçar e escrever sumários.
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Foi o ano em que engordei 20 kg. Comia-se bem e barato em Resende.
Foi a primeira vez que me senti intimidado e “galado” por alunas. Tinha 24 anos e era
bonitinho. Algumas alunas do secundário eram terríveis. Provocavam fortemente com
aqueles corpinhos de 20 aninhos. Um homem tem mesmo que ser de ferro.
Foi também nesse ano que deixei de enjoar a andar de carro. Nunca mais na vida!
Andar de carro com o Rui a descer e subir serras em estradinhas e sempre atrasados.
Nunca mais enjoarei! Ao fim de uma ou duas semanas já estávamos habituados à
condução louca um do outro e já levávamos almofada para dormir. Que rica companhia
fazíamos nas viagens. Não sei como não morremos nesse ano. Não estava destinado.
Fizemos tantas asneiras. Acordei várias fazes com o Rui a guinar o carro pra valeta ou a
soltar um palavrão. Ultrapassar carroças pela berma da esquerda com carros a cruzar em
sentido contrário, rodas a roçar as ribanceiras…
Eram só 220 km por dia para ir e vir para a escola.
Depois veio Viseu. Viriato era a escola e odiei. Odiei tudo. Pronto, tudo não. Gostei
dos alunos. Eram simpáticos. Mas tinha um horário horrível. A IP5 era uma estrada
péssima. Adormecia várias vezes na viagem de volta a casa. Fui parar à valeta várias
vezes. Parava outras tantas vezes para dormir a meio. À segunda ficava a dormir em casa
da minha tia Becas que mora em Viseu pois tinha aulas até às 18:30 e às terças entrava às
08:30. Ia sempre ao Palácio do Gelo ao cinema à sessão das 19:30. Era quase sempre só
eu na sala.
Eram só 300 km por dia para ir e vir para a escola.
Santa Comba Dão foi a próxima. Nesse anos a IP5 ruiu e ficou com uns desvios
brutais. Então eu tinha que ir na A1 até à Mealhada e depois fazer a maravilhosa e
sinuosa estrada do Luso. Curvas, curvas, curvas.
Conheci nesse ano o Pedro e o Cavaleiro. O 1º era novinho e pacato. Sempre pronto
para a borga comigo. O 2º foi alguém como eu nunca tinha visto dar aulas. Nas 1ªs aulas
do ano, enquanto os nossos alunos já buliam e suavam, os dele estavam sempre sentados
com o caderninho na mão. Depois quase não falava. Gesticulava para eles e eles já
sabiam o que fazer. Falava baixinho e eles nem pestanejavam.
Foi nesta escola que dei pela primeira vez um “carinho” num aluno. Tinham-me dado
uma turma do 5º e uma do 6º para completar horário. No 5º tinha dois cromos de 15 anos
(!!!) que pintavam a manta. Um dia passei-me e levei um de cada vez ao gabinete e…
Nunca mais piaram.
Eram só 340 km por dia para ir e vir para a escola.
Seguiu-se um ano destacado num sindicato. Foi um ano de trabalho de secretária,
burocrático e a enganar. Desde aí que me desindicalizei pois deixei de acreditar no
funcionamento desse supostos defensores da classe docente.
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Campo de Besteiros foi a nova etapa escolar. Conheci o Paulo e o Machado. O Paulo
era neto de dois padres, tinha um humor incrível e era excelente professor do 2º ciclo. O
Machado foi o Professor mais velho com que trabalhei em Educação Física mas me fez
ver que a paixão pela escola e pelos alunos nos faz excelentes profissionais para sempre.
Era uma alma pura. Deixava o carro aberto e com chave à porta da escola. Um Opel
Corsa. Certo dia pusemos um papel a dizer que era uma multa e tinha que se apresentar
no posto da GNR e ele foi.
Lembro-me de chegar sempre mais cedo meia hora. Dormir 15 minutos no carro e ir
tomar o pequeno-almoço a um tasco em frente à porta da escola onde normalmente
encontrava um Professor de Português alcoólico que habitualmente a essa hora já estava
“entornado”. Quando assim era o porteiro tinha ordens para já nem o deixar entrar. Não
dava aulas.
Nessa escola tive, pela primeira vez, ódio de um aluno. Um selvagem repetente dum
CEF tentou violar uma pequenita do 5º ano. Os pais não permitiram que ele fosse
castigado e brevemente voltou à escola após uma suspensão. Se ela fosse minha aluna
acho que não me tinha conseguido conter e tinha acabado com o sorriso cínico do
anormal.
Eram só 320 km por dia para ir e vir para a escola.
Entretanto entrei nos Quadros de Zona Pedagógica de Viseu. Era efectivo!
Tondela foi a seguir. Fiquei lá eu, a minha Rainha e o Luís. Este moço foi um amigo
que ganhei para a vida! Doido como eu. Com paixões iguais às minhas. Bodyboard e
Snowboard. Era ele que tirava os garrafões de óleo vegetal da mala da minha carrinha
Opel Vectra e os colocava no depósito a sorrir aos olhares incrédulos de muitos. Parecia
uma fritadeira. Mas andava! Fiz cerca de 40.000km nesse ano com a fritadeira a 50%.
Escola impecável. Direcção impecável. Óptimas condições de trabalho. Alguns
excelentes colegas. O Pedro de Campo de Besteiros outra vez. Agora casado. Três turmas
Profissionais. Uma de secretariado com tipas “espertas” que só pensavam em pintar
unhas e batom. Outra de electricidade com miúdos humildes e muito trabalhadores. A
terceira de mecânica. Uma cambada de marginais! Roubavam ferramentas, insultavam
tudo e todos, partiam as aulas todas menos duas: a minha e a da DT que os tratava como
filhos, não lhes admitia nada e lhes batia. Eu dava as aulas com palavrões e ameaças. Um
dia dei um murro num deles. Acabavam muitas aulas à pancada uns com os outros.
Tinha na minha equipa de Desporto Escolar de Atletismo duas irmãs fantásticas. Uma
excelente lançadora do peso apesar de franzina e a outra muito boa saltadora. Ambas
foram Campeãs Distritais.
Foi um ano difícil em termos conjugais. 24 horas juntos. Eu doido na escola. Ela
certinha. Não dava para conciliar casamento e escola. Mas continuou bem.
Eram só 320 km por dia para ir e vir para a escola.
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Na Escola Secundária de S. Pedro do Sul foi o reencontro com dois amigos do
passado. A Marta, antiga namorada de infância e colega de escola e da faculdade. O
Esperança, que abandonou a faculdade no 1º ano por morte da mãe voltando depois e se
revelou ser das melhores pessoas com que se pode conviver em todas as situações.
Excelente professor. Todos os alunos o adoram. Sempre alegre e a fazer partidas aos
outros tornava os dias pequenos. Risota em todos os momentos. Com ele aprendi a enviar
os alunos chatos a irem ao Sr. Jorge (reprografia) buscar as fotocópias do banco sueco. O
homem já estava dentro do esquema e perguntava se em A4 ou A3. Eles voltavam. Nós
dizíamos A3. Eles voltavam. Ele dizia que só tinha as do trampolim. Eles voltavam. Nós
dizíamos que podia ser. Eles voltavam. A3 ou A4?... Andávamos nisto até se cansarem.
Bananas ou batatas no tubo de escape!
Colar cartazes a dizer “vende-se barato e urgente” nos carros de colegas chatas!
Eram só 300 km por dia para ir e vir para a escola.
Aí veio um concurso por 3 anos. E fiquei em…
…S. Pedro do Sul outra vez. Desta vez na Escola EB 2,3. Gente muito boa. A Vice
Ana era uma maravilha de simpática e humana. O Paulo (neto dos 2 padres) esteve
comigo de novo.
No 1º ano que lá estive fui operado ao apêndice em Outubro. Quase morri. Mesmo.
Faltei um mês e meio à escola.
No 2º ano trouxe de volta o Desporto Escolar à escola. Fui o coordenador. Comprei
material que não havia. Criei um gabinete que não tínhamos. Pintei os campos exteriores.
Limpei a caixa de saltos de areia que estava inutilizada até então.
Em dois anos passei a ter imensos miúdos a irem às provas de Atletismos. Vários
Campeões Distritais em vários escalões. Lembro-me do Abel (nome fictício) que era um
matulão negro cheio de força. Na 1ª prova, sem técnica nenhuma, lançou o peso, como se
de um tijolo se tratasse, para bem longe da concorrência. Campeão Distrital e 3º no
Regional. A Sara (nome fictício) era uma menina de uma família muito pobre. Tinha mais
2 irmãos na escola. Todos meus alunos. Sem pais, viviam os netos todos com a avó numa
situação irreal e com uma história de vida que não sou capaz de divulgar. Como era
possível ter cabeça para os estudos? Velocista nata. Uma máquina a correr! Campeã
Distrital também.
Foram 3 anos em que voltei a sentir-me feliz a dar aulas. Não vendia aulas. Dava-as
com gosto e orgulho em ajudar tantos meninos a crescer. Mas foi muito duro! Vivia em
depressão (ver próximo capítulo).
Começou nessa altura a burocrática, ineficaz e injusta avaliação dos professores.
Foi nessa altura que, após os cortes e congelamentos nos ordenados, o gasóleo
começou a subir. Gastava 35€ por dia nas viagens.
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Eram só 300 km por dia para ir e vir para a escola.

Capítulo 11 – Depressão
Estes anos todos a palmilhar as terras lusitanas para dar aulas foram, nos últimos anos,
um suplício.
O corpo gordo com o qual não me identificava.
As longas horas perdidas nas viagens que me tiravam força.
As poucas horas de sono por me deitar tarde depois de chegar do 2º emprego.
As muitas faltas ao trabalho. Normalmente no fim de cada mês. Ou comiam as minhas
filhas ou metia gasóleo.
O mau professor em que me tornara.
Não tinha vontade de trabalhar. Não gostava de trabalhar. Não me esforçava para ser
melhor. Em casa as discussões eram constantes. Dinheiro era normalmente o tema.
Chorei muitas vezes sozinho. Por uma vez passei-me e provoquei tal discussão que num
momento de raiva parti uma cadeira e chorei à frente da Xana.
Cada vez estava mais gordo. Não me cuidava minimamente. Desleixo total. Já tinha
dificuldades a apertar os cordões das sapatilhas. Uma vergonha.
Auto mediquei-me com antidepressivos Prozac e Tryptanol. Nunca ninguém soube.
Misturava estas drogas com comprimidos para emagrecer. Tomava 5 ou 6 cafés por dia.
Loucura total.
Não fazia nada que gostava. Não jogava voleibol. Não ia fazer bodyboard. Não ia pra
neve. Não brincava com as minhas filhas. Não namorava com a minha Rainha.
Estive perto do abismo. Muito perto.

Capítulo 12 – Reaprender a ser professor
Novo concurso de professores. Efectivo em quadro de escola de Resende. Agora vinha
o destacamento e era por 4 anos. Escola Secundária de Lousada foi a nova etapa. Apenas
a 25 minutos de casa (35km). Parecia um sonho. Escola muito organizada. Às vezes com
tiques de superioridade. Lá encontrei anteriores colegas da faculdade e um grupo de
Educação Física trabalhador. Fui obrigado a adaptar-me rapidamente a esta nova
realidade. Os dois primeiros anos não foram fáceis pois ainda não tinha adquirido o ritmo
de trabalho que a depressão me tinha tirado. Tentei criar um grupo de Desporto Escolar
de voleibol. Foi em vão. A minha motivação para motivar as alunas não foi suficiente e
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perdi essa batalha. A avaliação dos professores estava na ordem do dia e andava tudo
louco na escola. Eu não. Não queria saber disso para nada. Não me movia a minha
avaliação feita por outros. Apenas feita por mim e pelos meus alunos.
Mas com o tempo e com o grupo de pessoas/amigos fantásticas que conheci fui
melhorando. Nos últimos 2 anos em Lousada já era a maioria das vezes o Professor que
sempre idealizei ser. Tive então algumas turmas fantásticas e um grupo de alunos que
nunca irei esquecer. Empenhados, bons ouvintes, com gosto pela aprendizagem. Fui
confidente de vários e ajudei-os nos maus momentos. Estava sempre disponível.
No final do último ano estava finalmente motivado a dar aulas, empenhado, com gosto
e paixão pelos meus alunos. Houve muito choro e abraços. Foi bom.
Entretanto, após estes anos todos, por causa de todas as medidas economicistas que
estavam a ser implementadas ao país e à Educação… piorei na nova colocação.
O Ministério da Educação alterou as regras do jogo e de repente voltei a estar mais
longe. 50 Quilómetros. Agrupamento de Escolas de Felgueiras. Eu e a Rainha de novo
juntos na mesma escola.
Na capital das fábricas de sapatos. Uma em cada esquina.
Fui nomeado coordenador do grupo de Educação Física. Eu!
Parecia que me estavam a pregar uma partida. Eu a coordenar e organizar a disciplina
e outros docentes. Éramos todos novos na escola.
Mas tudo começou a surgir com naturalidade. Parecia destino. A escola era nova. Iria
organizar e estruturar tudo de acordo com as minhas ideias, ambições e motivações.
Modernizei e transformei o nosso gabinete. Requisitei e foi comprado mais material. Fiz
melhoramentos às estruturas desportivas.
Criei um grupo de voleibol de Desporto Escolar. Aliás, três grupos de voleibol em três
escalões. Mas eu só fiquei responsável por um. Fiquei também responsável por um grupo
de futsal masculino.
Os alunos eram, na generalidade, educados e empenhados. Tinha duas turmas de 8º
ano e 4 de secundário.
Aí começou a surgir também mais profundamente uma nova faceta do meu papel de
professor. O ouvinte. O confidente. O psicólogo. No início do ano surgiu uma menina do
11º ano que constantemente chorava. Não suportava vê-la assim. A Isabel (nome fictício)
parecia frágil. Não conseguia fazer as aulas práticas. Tentava mas não conseguia. Era
insuportável olhar para aquela cara doce que transmitia desespero e sofrimento. Tentei
ouvi-la. Tentei que falasse. Após várias tentativas sem sucesso, começou a abrir-se. Pouco
a pouco. Começámos então a falar constantemente e passei a ser seu confidente, seu
Tutor na escola e seu amigo. Apenas eu sei realmente tudo o que se passou no seu
passado e o que a faz estar constantemente perturbada e triste. Era acompanhada pela
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psicóloga escolar. Por uma psicóloga fora e uma pedopsiquiatra. Cortava-se. Chorava.
Mas ajudava os outros. Estava sempre disponível para contribuir com o que fosse para
aumentar a felicidade alheia. Não podia parar de tentar ajudá-la. Está agora a trabalhar e a
tirar um curso daquilo que mais gosta: cavalos.
Como era visível por todos a minha aproximação com a Isabel, começaram a aparecer
outros alunos interessados nos meus conselhos e com vontade de desabafarem os seus
problemas. Surgiu então a Sara (nome fictício) que era adoptada e só o soube
recentemente. Tinha tendências suicidas e andava
completamente desmotivada para a vida. Era brilhante a
escrever. Nunca li nada com tanta qualidade escrito por
alguém tão novo. E era música também. Uma artista. E
adorava desporto. Jogava na minha equipa. E bem! A sua
depressão fazia-me lembrar a minha. Também lutava
contra o peso a mais, tinha dores num joelho, não tinha
motivações. Ofereci-lhe uma cadelinha. Tinha uma amiga que tinha ficado com três de
dez órfãos bebés de uma cadela Castro Laboreiro. Foram todos para adopção. Lembreime logo da Sara. Foi uma alegria.
Sempre que tivemos uma batalha ganha sentia-me muito feliz por poder contribuir
para o reaprender de viver destes alunos. Foi e tem sido muito duro. Cada batalha contra
os sentimentos de morte, dor e solidão, é muito difícil. Por vezes senti-me impotente.
Sem forças para ajudar. Mas tinha que as ter. Confiavam em mim para isso. É muito
desgastante. Havia dias em que só dava uma aula mas saía da escola estourado como se
tivesse dado 20 horas. As emoções fatigam muito.
No 2º ano em Felgueiras foi talvez a altura da minha vida em que mais trabalhei. Fiz
muito. Tenho esse mérito. Criei, construí, ensinei, ajudei, varri, fiz de tudo por esta
escola. E só tinha 2 turmas! Uma de um curso Vocacional e um 12º da qual era director de
turma.
Quatro grupos de Voleibol de Desporto Escolar e realizei um dos meus sonhos: Criar
um clube de Voleibol. O 1º clube de Voleibol em Felgueiras.
A 1ª equipa foi de Infantis Feminino. Grande evolução. Muitos treinos. Muitas horas.
Muitos jogos. Muitas viagens. Excelente.
A meio do ano criámos também os Minis com a preciosa ajuda da grande Luísa. Uma
aluna do 12º ano que me ensinou tanto…
Achava que iria ficar em Felgueiras para sempre…

Capítulo 13 – Ser professor
Sempre tive bons professores.
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Foi talvez por isso que fui ganhando esta paixão por ensinar.
Ensinar para mim nunca foi seguir um guião ou cumprir o programa do Ministério.
Ensinar é chegar aos meus alunos, tocar-lhes. É fazer com que queiram aprender. Só
quando isso acontece me sinto realizado na profissão. Não lhes imponho conhecimentos.
Apenas lhes transmito nas minhas ideias tudo o que poderão ser ou fazer para a o fim das
suas vidas. Sei que fujo ao padrão normal. Os meus métodos não são convencionais. Mas
só consigo ensinar assim.
Tento fazer no final de cada período uma auto-avaliação e hétero-avaliação do meu
trabalho com os alunos. Faço-o com eles. Só assim tenho a noção exacta de como tenho
que melhorar.
Normalmente no fim de cada ano só tenho dois tipos de alunos. Há os que me
adoraram e muitos serão meus amigos para sempre. Há os que me odeiam. Normalmente
são muito poucos mas gostaria que não fosse nenhum.
Às vezes perco a noção das horas e dou aulas intervalos a dentro.
Às vezes perco noção do quanto doida está a ser a aula e dou por mim e está a escola
toda a olhar para mim.
Todos são meus amigos na escola. Professores, funcionários, alunos dos outros. Sou
afável e cultivo a educação para com todos. Não admito má educação para ninguém. Dou
tudo o que tenho pelos meus alunos. Daria a vida por eles.
Não sou excelente. Há muitos melhores que eu a ensinar. Em todas as escolas por onde
passei havia muitos excelentes. A Escola Pública está cheia de gente muito empenhada.
Gente que dá tudo por uma profissão. Uma profissão de vocação. Maravilhosos
Professores.

Capítulo 14 – Primárias
Trabalhar em Escolas do 1º ciclo deve ser currículo obrigatório para todos os
Professores de Educação Física.
Durante a minha jovem carreira fi-lo por diversas vezes. A primeira foi no Freixieiro.
Passei por várias na Maia quando a Câmara Municipal era pioneira em oferecer
actividade física às suas crianças. Em Resende também dei aulas numa escolinha.
Sandim foi a que melhores recordações me deixou. Tomava o cházinho com bolachas
e doce no intervalo das 10:00 horas com as Professores Primárias. A Directora era
também Professora do 4º ano e era daquelas à moda antiga. Fazia-me lembrar a minha

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querida Dona Albertina. A pequenada decorava a tabuada com canções e a marchar. Pintei
muros com os miúdos, jogos da macaca no chão e marcações desportivas.
Em Campo de Besteiros tive também integrado num projecto a dar aulas no 1º ciclo.
A última vez que dei aulas aos pequenitos foi quando na Maia os alunos do 3º e 4º ano
não tinha actividade física nas AECs. Dei essas aulas gratuitamente às turmas das minhas
filhas.
Aprende-se muito com os pequeninos.
Não há tempo para preguiça.
Não se deixam aldrabar.
São honestos.
Ensinam-nos muito sobre os afectos e emoções da gratidão dos alunos.
Ensinam-nos a responsabilidade do que é fazer crescer crianças.

Capítulo 15 – Ensinar em casa
Ter filhos é a melhor coisa que é permitida ao ser humano. Sou pai orgulhoso de três
raparigas. Babado.
Cada ano que passa sinto que a Mãe Natureza não deixa nada ao acaso e nos ensina
que tudo na vida tem um propósito. Tudo o que fomos e tudo o que somos é um reflexo
do futuro que mais não é do que o somatório de todas as aprendizagens vividas.
Ter filhos é viver numa aprendizagem constante. É querer ser cada dia melhor para
lhes ensinar, para lhes transmitir, para ser um exemplo a seguir. Apesar de querer e sonhar
que elas sejam muito melhores que eu alguma vez fui em alguma coisa.
Tentar ser em casa o Professor que somos na escola é um trabalho impossível. As
emoções baralham-se e turvam os actos de uma forma insana. É muito mais fácil com os
filhos dos outros.
Com as minhas filhas sinto que a minha função de professor é limitada, difícil e
sempre incompleta. Aprendemos toda a vida. Uns com os outros. Sempre.
Elas são e serão sempre o meu orgulho. Todas têm defeitos mas têm muitas virtudes.
Apesar de tentarmos educar da mesma forma as três, há algo que já nasce connosco
que nos faz diferentes uns dos outros. Chama-se personalidade.

Nocas, a nossa rebelde.

Bibocas, a veterinária sensível.

Carochinha, a peste.

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A mais velha é linda, doida como
o pai e jeitosa como a mãe.

Busca a perfeição em tudo o que
faz.

Matreira, meiga e prática. Não
engole sapos de ninguém.

Capitulo 16 – Ensinar à paulada
Na Mãe Natureza há actos violentos que mais não são do que ensinamentos. Por muito
que os pedagogos (dos gabinetes) digam o contrário, uma palmada na altura certa é
mágica. Claro que há idade e medida para tudo.
HERESIA!!! Criminoso!!!
Pois. É assim que penso e fui educado. Felizmente.
Sou criador de cães Retriever do Labrador e gosto de apreciar o processo educacional
dos cachorros. Quer uns com os outros na ninhada quer pela mãe cadela. É tudo à
paulada! A hierarquia entre cachorros estabelece-se desde cedo à mordidela. A cadela
disciplina-os e corrige-os com rosnadelas e mordidelas e encontrões. É tudo à paulada!
Graças a Deus que apanhei umas sovas do meu Pai. Obrigado.
Graças a Deus tive alguns Professores que me deram uns “carinhos”. Obrigado.
Para as asneiras que fiz e tentei fazer, escapei muitas vezes. Vezes demais.
Tive um Professor, que sempre admirei e adorei, que colava as pastilhas elásticas na
nuca no meio do cabelo. Radical? Exagerado? O que é certo é que em cinco anos em que
foi meu professor só vi duas colegas minhas esquecerem-se de cuspir a dita antes de
entrar para a aula. Luísa e Cristina. Logo, resultava.
Hoje em dia não se pode tocar nos meninos. Há escolas até onde não se pode falar alto
ou repreende-los.
Mas comigo não é assim? Tem dias.
Já houve alturas em que foi necessário um “carinho” especial nas escolas por onde
passei. Nomeadamente com alguns mal-educados.
A minha primeira vez foi em Santa Comba Dão pois sabia que tinha as costas quentes
por um director disciplinador e defensor dos bons costumes. Contam-se pelos dedos de
uma mão as vezes que precisei de recorrer a tal.
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A vez que mais me marcou foi em S. Pedro do Sul. Certo dia saio do bloco onde era a
sala dos professores e como era habitual os meus alunos rodearam-me para perguntar o
que iriamos dar na aula, qual o desporto, como seria. Até que um aluno meu, de outra
turma, se juntou à confusão e chegou perto de mim e me deu um cachaço. Virei-me e foi
na hora. À frente de todos. Uma chapada bem dada com a mão toda. Pesadinha. Nem
piou. Evaporou-se. Só passados uns minutos é que me apercebi o que tinha feito. Mas
para meu espanto parecia que ninguém tinha visto. Parecia que tinha sido uma situação
natural. E foi. Ali o Professor ainda era respeitado e tinha autoridade. Aquele aluno
selvagem que se baldava, portava mal, faltoso, foi, a partir dali meu amigo. Voltou
empenhado, cumpridor e respeitador.
Como Pai também já apliquei castigos corporais para educar. Acho inevitável. Sempre
foi muito raro. E uma palmadita. Tenho as mãos grandes.
Gosto dos que dizem não ser pedagógico e humano. A esses respondo da mesma forma
aos que dizem que os cães os passeiam a eles sempre que lhes põem a trela para ir à rua:
as minhas cadelas passeiam sem trela. Livres. Educadas. Para isso levaram aos 6 meses
uns puxões e aprenderam. Os vossos vão-vos andar a puxar a vida toda e a esganarem-se
na coleira porque nunca aprenderam.

Capítulo 17 – A Educação Física actual
Como é sabido os professores têm um programa a cumprir todos os anos. Um plano
traçado pelo Ministério da Educação. A disciplina de Educação Física não foge à regra.
No meu entender, a nossa disciplina torna-se, com o passar dos anos, repetitiva e
aborrecida. Do 7º ano ao 12º ano os conteúdos repetem-se e apesar da complexidade
teoricamente aumentar, na prática pouco muda. Quais os motivos?
Para mim o principal é que os alunos não são atletas e a carga horária semanal não
permite que o “treino” produza melhorias significativas. Qual é o atleta que treina
50+100 minutos por semana? Ou apenas 100 minutos?
Outro erro crasso no sistema de ensino e nas mentalidades é querer que a componente
prática seja o fundamental. Não concordo. Não concordo que se avalie os alunos pelo que
conseguem fazer. O empenho e a motivação para mim é fundamental.
Se assim fosse a “gordinha” nunca poderia ter um 5 no fim do ano. E por vezes é essa
que mais se esforça e mais evolui.
Para mim o objectivo da Educação Física é fazer com que os alunos conheçam as
potencialidades do seu corpo, que sejam adeptos responsáveis e conhecedores das regras
das modalidades desportivas e que sejam cidadãos activos e com hábitos de vida
saudáveis. A melhoria de cada um deve ser o alvo da avaliação.

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Quando dou natação na escola não posso avaliar os alunos nadadores pelo que nadam.
Dava 20 valores? Avalio-os pelo que se empenham nas aulas e pela ajuda e ensinamentos
que dão aos seus colegas mais fracos. Desde que fui treinador de formação que aprendi
que sabendo como ensinar consegue-se jogar muito melhor. Os alunos atletas capazes de
corrigir e ensinar os outros serão muito melhores atletas eles próprios.
Principalmente no ensino secundário não faz sentido mantermos a rigidez a que o
programa nos obriga. Se o fizermos perdemos os alunos. Prefiro aproveitar as
modalidades alternativas (basebol, luta, rugby, acrobática, dança, ténis de mesa, etc.) para
motivar os alunos para a prática desportiva. Como são modalidades menos abordadas
anteriormente são mais interessantes para os alunos. As modalidades tradicionais
(futebol, basquetebol, ginástica, voleibol, andebol, atletismo) abordo normalmente em
situação prática para o futuro. O que significa isto? Não aplico exercícios técnicos de
forma analítica. Fomento a pesquisa, a autonomia, a dinâmica, a obrigatoriedade de
serem os alunos a ensinarem uns aos outros.
Exemplos:
Voleibol: Divido a turma em grupos de um mínimo de 6 alunos. Cada grupo tem um
treinador, um árbitro, um capitão de equipa, um secretário. Podem mudar ao longo da
aula. Em cada aula há um período de treino e um período de torneio. Não ganha o torneio
a equipa com mais vitórias. Ganha a que tiver mais pontos obtidos nas diversas acções do
jogo que considero importantes. Comunicação de quem dá o 1º toque na bola pode valer
1 ponto. Festejar um ponto ganho pela equipa pode valer 1 ponto. Fair-play pode valer 1
ponto. Tudo o que eu quiser. Os secretários durante os torneios ficam junto a mim a
preencher uma grelha a pontuarem essas diversas acções de jogo. Eu avalio as acções dos
árbitros e treinadores. No final somando tudo isso aos resultados dos jogos dá o vencedor.
A grande diferença deste tipo de abordagem é a motivação que leva ao empenho. Os
alunos das aulas vizinhas até vêm espreitar a ver o que se passa nos meus campos.
Enquanto eles jogam como alunos, os meus parecem jogadores profissionais. Motivados,
a incentivarem-se uns aos outros, a festejar, a cantar, a suar.
Atletismo: Crio um ranking de recordes absolutos dos meus alunos nas provas de
velocidade, lançamento do peso, salto em comprimento e salto em altura. Afixo os
resultados com foto do recordista. E esses recordes passam de ano para ano. Todos os
anos eles vêm quais os meus melhores de sempre e tentam subir no ranking ou bater os
recordes.
Dança: Começo sempre pelo Folclore Tradicional Português. Normalmente o
Corridinho e o Malhão. Há pouco contacto físico e assim não há muitas vergonhas. 1º
estranha-se, depois entranha-se. Querem mais! Gostaram. Então passo para o Tchá-tchátchá, a Valsa, o Rock and Roll… tudo de uma forma muito simples pois também não sou
um especialista. Tenho é pouca vergonha na cara e muita estupidez natural.

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Capitulo 18 – Desporto
Desde que me lembro de alguma coisa sobre a minha vida me lembro de praticar
desporto. Natação no F.C.P. deve ter sido o primeiro. Karaté na Foz ainda muito novinho.
Depois novamente Karaté no Colégio. Voleibol no Colégio. No Colégio participava em
todas as actividades lúdicas e desportivas. Ficava sempre nos primeiros lugares.
Na rua patins, skate ou bicicleta era diário.
Lembro-me de ganhar um primeiro e um segundo lugar num torneio de natação
organizado nas piscinas da Quinta da Gruta, no Castêlo da Maia. Também um terceiro
lugar num concurso de saltos para a água (prancha de 5m) na mesma piscina.
Fiquei em 2º lugar no Corta-Mato do Externato.
Nas idas a Lisboa a casa dos avós ia de manhã até ao Estádio Nacional jogar ténis com
o meu pai e correr nos circuitos de manutenção. Mais tarde joguei muito ténis com
amigos. Agora menos pois o tempo é pouco. Mas gosto muito.
Fiz muita musculação em ginásios.
Treinava muito sozinho em casa. Também treinava muito na praia e na rua com
amigos.
Joguei rugby na faculdade. Tínhamos 2 equipas e ficámos em 1º e 2º em Carcavelos.
Pela faculdade também participei em provas de atletismo, voleibol de praia, futsal e
voleibol.
Futebol com os amigos também joguei muito. Houve alturas que era de forma regular
mas depois… passou a ser de longe a longe.
Entrei e fiquei em 2º lugar num concurso de levantamento de supino com 120kg.

Voleibol, Bodyboard e Snowboard muito muito muito e para sempre!
Nunca fez para mim sentido viver sem praticar desporto. Competir está-me no sangue.
Nem que seja de uma forma mais tranquila tenho que competir. Gosto de experimentar
sempre mais um desporto novo.

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Adoro ver desporto. Vejo tudo! Nos dias dos Jogos Olímpicos quase não saio de casa
pois quero ver tudo! E a Volta a França… E Bilhar… E o Rali Paris Dakar… E Sumo… E
Curling…
TUDO TUDO. Adoro desporto.

Capitulo 19 – As minhas amigas de 4 patas
Sempre adorei animais. Avô veterinário ajuda. Deve ter passado alguns genes. Ser
veterinário era uma das minhas opções mas escolhi ser Professor.
Adoro Cães. Desde pequeno que tive uma paixão especial por estes animais.
A minha primeira cadela foi a Lassie. Uma cadela rafeira acolhida por nós na rua. Foi
para casa da minha avó em Custóias. Ainda me lembro do seu cheiro. Tenho o olfacto
muito apurado (quase canino) e distingo quase tudo e todos pelos cheiros. Recordo-a.
Claro que um dia o meu pai me disse que ela tinha ido para uma casa nova com muitos
cães para brincar. Pois! Agora percebo essas desculpas dos pais. Também já as dei quando
algum animal de estimação faleceu cá em casa.
Tive depois uma cadela Husky Siberiano chamada Tweety.
Doida! Deixava-me louco. Corri tantos quilómetros atrás dela.
Era selvagem. Andei com ela na escola de cães. Era artista.
Quando a Xana engravidou achámos melhor ir para um novo lar
pois tínhamos receio. Foi para casa de um tio meu.
Quando nasceu a segunda filha optámos por voltar a ter um
cão. Cadela claro! Sempre gostei mais. São mais meigas, fieis,
sociáveis, limpas e menos territoriais e excitadas. Fui a Ovar a
casa de um criador. A que fugiu do canil quando o abriram foi a que escolhi. Becky.
Retriever do Labrador Preta. Acertei na raça. Apaixonei-me. Cresceu com as minhas
filhas, brincaram juntas, dormiram juntas, partilharam comida… É a minha velhota! Tem
14 anos.
Doida por comida. Come tudo. Tudo mesmo.
Inteligente como nunca vi. Passeava sozinha nos dias de chuva. Eu ficava à porta do
prédio e ela ia. Só atravessava as ruas quando eu mandava. Ia e vinha tranquila. Adora
água. Adora mergulhar nas ondas do mar. Adora mimos.
Passados uns anos resolvemos aumentar a família. Como já eramos 6 cá em casa e
todos adorávamos a Becky nada melhor que a reproduzir e ficar com uma herdeira dela.
Tivemos então uma criação de Labradores. Foi uma lavoura cá em casa! 9 pequerruchos
dois meses e meio num apartamento foi o fim da macacada. Apetecia-me ficar com todos.
Eram lindos. Todos.
27

Ficamos com a Khim. Khimpossible como nuns desenhos animados que na altura as
minhas filhas gostavam. Grande, branca como o cal, muito
meiga e “tótó”. Apesar de não ser astuta e brilhante como a
mãe, é super meiga e enérgica.
Em Baião (casa do sogro) andou fugida dois ou três
dias, com o cio! Voltou grávida e teve treze (!!!) bebés
lindos. Demos todos a gente boa.
Sempre pronta para brincar. Adora as miúdas. Jogava às
cartas com a carolina. Morreu no dia em que resolvi acabar este livro (28/08/2015). Tinha
11 anos.
Como tínhamos uma cadela preta e uma amarela, faltava o Labrador Castanho. Fui
então buscar a Miley a Coimbra.
Mais pequena do que as outras duas, uma linha mais britânica. Muito dependente.
Hiper-super-meiga. A única das três que nunca fez uma
asneira. Nunca roeu nada ao contrário das outras que me
remodelaram a cozinha.
Raramente uso trela com ela pois ela só tem olhos para
mim. Não vai ter com outras pessoas nem com outros cães.
Não se afasta mais de 5 a 10m. Foi mãe duas vezes. Duas
ninhadas de chocolatinhos. O meu pai tem dois machos
filhos dela.
Recentemente arrendei juntamente com um amigo um terreno para fazermos uma
quintinha com horta, pomar e, claro, animais. A Becky e a Khim vieram de Baião para lá.
Roubaram a Khim…
Andou desaparecida meio ano. Que desespero.
Apareceu magra e infestada de pulgas.
Não voltou para lá. Vive agora em
casa de uma amiga e vizinha nossa que
tinha um Labrador que morreu.
Para a Becky não ficar só fui a um
canil e adoptei uma rafeirota louca. A
Diva. Parece o diabo da Tasmânia.
Rebenta com tudo, e galinhas… bem…
gosta muito…
Adoro as minhas cadelas.
Eu nem sempre, mas elas são realmente as minhas melhores amigas.
28

Perfeitas.

Capitulo 20 – Para os meus alunos
Os meus alunos ensinam-me todos os dias um bocadinho. Mesmo os maus.
Para todos desejo que tenham um futuro brilhante.
Dou-vos aqui alguns últimos conselhos:

Sempre que não gostarem de um professor
questionem.
Sempre que um professor vos parecer chato
motivem-no.
Sempre que não vos apetecer aprender
mudem o método. Vão aprender ao longo de
toda a vida.

Não precisamos de milhares de amigos. Poucos mas bons são suficientes.

Alcançar os nossos sonhos é o que realmente
nos faz feliz. Mas dá trabalho. Nada cai do céu.
Isso é só nos filmes.

29

Viver a felicidade dos outros é tão bom. E criála ainda sabe melhor.
Ajudem!

Evitar o conflito, por mais difícil que às
vezes pareça, pode contribuir para
vencer as batalhas.
Quem nos odeia não nos merece, perda
de tempo.

É um dever votar. Se fosse eu a mandar, era obrigatório. Quando não votamos por
descontentamento alguém vota por nós e tudo pode continuar mau ou até piorar. E mesmo
que o nosso voto se revele mais tarde errado, não foi esse o nosso objectivo e podemos
sempre lutar para mudar de novo.

Isto vale para tudo na vida.
Depois não vale a pena queixarem-se.
Façam por merecer o vosso futuro. Ninguém o
fará por vocês.

30

Os melhores não chegam lá por acaso.
Só com muito trabalho se consegue utilizar
o talento que cada um de nós tem e alcançar
patamares de excelência.
Sem esforço não há recompensa.

É muito fácil ver os erros dos outros mas o que
realmente interessa para o nosso futuro é
cometermos cada vez menos erros nós
próprios.

Não basta dizer.
Tem que se fazer.

Aquele nerd que vocês gozam na escola, um
dia mais tarde vão trabalhar para ele!
Tudo na vida pode mudar de repente. Vivamna bem hoje mas sem hipotecar o futuro.
Esses, geralmente acabam sozinhos. Não é por
calcarmos alguém que somos poderosos.

31

O verdadeiro poder vem da vontade que os outros têm
em nos seguirem.

Tentem ao máximo seguir o que
realmente gostam. É muito mais
fácil.

A vida é muito
mais fácil ajuda

dura e torná-la um bocadinho
muito.

Fazer algumas asneiras ao longo da
vida faz bem. Traz recordações e
aprendizagens.
Mas devemos saber distinguir o certo
do errado.

Vencer o mais forte
obstáculo, isso sim é glória.

Todos diferentes.
Não queiram ser iguais aos outros.
Queiram ser o melhor que cada um de vocês pode
ser.
Há sempre forma de mudar para melhor. Pode ser
difícil. Pode demorar. Mas é possível. Impossible is
nothing!

32

Este foi para mim o melhor
atleta de sempre.
O melhor de sempre.
Para lá chegar errou muito.
Mas continuou a tentar até
chegar ao topo. E um dia
estava lá.
Sempre sem medo de errar.

Capitulo 21 – A Khim morreu
Ela iria fazer 11 anos no dia 26 de Dezembro de 2015 mas infelizmente foi embora no
dia 28 de Agosto de 2015.

Era uma doida!
Super meiga. Pateta. Resmungona com outros cães. Afável para todas as pessoas.
Uma infecção no útero provocou-lhe uma insuficiência renal. Ao fim de uma semana
internada…

Até um dia amiga.
33

Capitulo 22 – Continuarei a dar aulas?
Hoje foi a dia do falecimento da Khim.
Foi também o dia em que saíram os resultados dos concursos dos Professores.
Não sei se repararam mas ao longo de todo o livro escrevi Professor sempre com
maiúscula. Acho que é assim que esta classe deve ser tratada. Ser Professor é muito
difícil. Em Portugal cada vez é mais. É necessário muito amor à profissão. Muita força e
resistência.
Hoje soube que afinal não vou ter Mobilidade Interna (antigo destacamento) e tenho
que ir para a escola onde estou efectivo. Resende. 100km de casa. E a Xana em Cinfães
que são cerca de 90km.
É tão injusto.
Ver colegas (que não têm mínima culpa) com muito menos anos de serviço ficarem
muito mais perto de casa do que eu e a Xana revolta. Não por eles. Por nós. Nós já fomos
mais novos. Já estivemos muito longe. Agora que estávamos ano após ano a
aproximarmo-nos aos pouquinhos de casa………..mudam as regras.

Vou explicar o que se passou, a meu ver, nestes últimos anos na Educação em
Portugal:
(Há dois tipos de Professores efectivos = QE ou QA e QZP)
- Crise;
- Colégios a fechar;
- Amigos de gente importante a precisar de ser colocado na função pública;
- Abrem concursos extraordinários aos quais eu não posso concorrer;
- Efectiva-se os amigos importantes em QZP;
- Mudam-se as regras dos concursos. Antigamente a graduação profissional ordenava
os candidatos no concurso. Agora Os QZP passam à frente nem que tenham 1 ano de
serviço.
34

- Os amigos importantes ficam perto de casa;
- Os QE ou QA como eu voltam a ir para longe;
- Os Professores ficam cada vez mais desmotivados;
- Os Professores metem mais baixas;
- As baixas agora cortam no ordenado = estado poupa;
- São contratados substitutos = menos desemprego e menos subsídios;
- Escola pública cada vez pior;
- Cada vez dão mais subsídios aos colégios privados (dos amigos)

QUE SE LIXE A EDUCAÇÃO

Vale a pena?
Eu nem queria estar ao lado de casa.
Numa escola a 50km tinha um projecto de vida que me satisfazia plenamente.
Era feliz. Era bom Professor.

Obrigado.

A nossa amizade consegue ser tão simples, mas ao mesmo tempo tão complexa. Uma amizade que surge numa
escola e que de repente é transportada para fora daquele lugar, onde é o professor. Mas que fora dele é o amigo.
Posso estar em baixo, que tenta levantar sempre o moral para cima, sempre dando o seu máximo. Sempre
preocupado com aqueles que conseguiram conquistar o coração deste professor, que parece ser o “durão” e que
ninguém o consegue mover, mas é um grande coração, o grande ouvinte, o grande conselheiro, e acima de tudo o
grande PROFESSOR.

35

É sem dúvida alguma uma pessoa que demorei muito a encontrar, uma pessoa que, sim, nos irá ajudar a tornar o
nosso futuro melhor. Todas as palavras, todos os puxões de orelhas, todas as chamadas de atenção nunca serão
esquecidas, pois ajudaram-me a crescer.
Uma amizade que permanecerá para sempre, apesar da distância.
Marta Moreira, 17 anos – Felgueiras

Tiago Carneiro? Professor? Mais do que isso, um amigo. Nunca fui um aluno com grandes capacidades em certas
actividades físicas e isso incomodava-me, pois sentia-me pressionado pelo facto de ser considerado o “menos bom” a
Educação Física. Cada ano que passava, novas pessoas conhecia, mais preocupado ficava, uma vez que previa que
certos comentários viriam ao de cima. Críticas relacionadas com a minha prestação em certas modalidades.
Até que há dois anos atrás, tive um professor que me fez sentir melhor, sem que me preocupasse se me criticavam
ou não. Só sei que com o Professor Tiago aprendi a ser eu mesmo. Sem medo e preocupação acerca do que os outros
pensam quando fracassava em alguma modalidade. Com a ajuda dele sentia-me melhor, mais descontraído e
procurava dar sempre o meu melhor, pois sabia que estaria sempre a apoiar-nos, a mim e aos meus amigos, em
momentos de vitória e de derrota.
Aprendi que o mais importante era o esforço, a força de vontade de fazer bem e cada vez melhor.
Obrigado por tudo, conselheiro, amigo, Professor Tiago
Rui Nunes, 17 anos - Lousada

ÍNDICE

Capítulo

1

A

5

A

7

infância……………………………………………………………
…….
Capítulo

2

36

rua……………………………………………………………………
……
Capítulo

3

O

8

A

10

Voleibol……………………………………………………………
……
Capítulo

4

adolescência………………………………………………………
….
Capítulo

5

11

12

Faculdade…………………………………………………………
………
Capítulo

6

Emprego……………………………………………………………

Capítulo

7

Estágio

12

Profissional…………………………………………………..
Capítulo
8

Aprender
a
dar

13

aulas…………………………………………………
Capítulo
9

Uma

nova

13

paixão………………………………………………………
Capítulo
10

O

papa

14

quilómetros………………………………………………..
Capítulo
11

18

ser

18

Ser

21

professor…………………………………………………………..
Capítulo
14

21

Depressão…………………………………………………………
…….
Capítulo

12

Reaprender

a

professor…………………………………….
Capítulo
13

Primárias……………………………………………………………
……
Capítulo

15

Ensinar

casa………………………………………………………
Capitulo
16

Ensinar
paulada……………………………………………………
Capítulo
17

A
Educação
actual………………………………………….
Capitulo
18

em

22

à

23

Física

24

26
37

Desporto……………………………………………………………
……
Capitulo

19

As

minhas

patas…………………………………..
Capitulo
20

Para

amigas

de

os

alunos……………………………………………….
Capitulo
21

A
morreu……………………………………………………….
Capitulo
22

Continuarei
a

4

27

meus

29

Khim

33

dar

34

aulas?............................................

38

39

40