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A história da proibição da maconha no Brasil e o controle da cultura negra

Houve uma época no Brasil, no início do século XX, em que remédios a base de maconha
eram vendidos livremente em farmácias para tratar de problemas de saúde como asma, tosse
e até insônia. Isso acontecia porque nos anos 1920 o Brasil importava os cigarros Índios da
França, que eram comercializados sem restrição alguma, já que na época não havia proibição
das substâncias psicotrópicas. O código Penal Republicano, de 1890, não se referia a
substâncias como maconha, cocaína ou ópio, só legislava contra a venda de substâncias
venenosas.
O cigarro tinha propagandas em jornais que anunciavam um medicamento que tranquilizava
aqueles que sentissem falta de ar, bronquite, asma, ou até mesmo que tivessem medo de subir
um prédio de cinco andares. Esses anúncios utilizavam uma base medicinal para promover o
remédio, afirmando que eram bem conhecidas as propriedades anti-asmáticas do Cannabis
Indica.
A situação começou a mudar em 1924 quando Pernambuco Filho, delegado brasileiro na II
Conferência Internacional do Ópio, começou a lutar contra a maconha, relatando que “a droga
era pior que o ópio” para as delegações de 45 países. Pernambuco conseguiu a proibição da
substância no Brasil em 1932, o que tornou o país um dos primeiros a condenar a erva.
Mas a história da proibição da maconha no Brasil tem nuances que podem passar
despercebidas em um olhar superficial pela história. De acordo com Luísa Saad, mestre em
História Social pela UFBA, "A maconha foi proibida em 1932, época em que várias práticas de
origem africana começaram a ser perseguidas, como a capoeira, o samba de roda, e entre
essas práticas o uso da maconha." A proibição da substância passou a ser uma forma de
controle social dos negros, já que todos os hábitos da cultura negra eram vistas pela elite como
um obstáculo para uma nação moderna.
A maconha era associada diretamente aos negros já que seu uso mais frequente era por parte
destes. "Muito provavelmente a maconha foi trazida por negros, logo nas primeiras
embarcações. Os africanos feitos escravos trouxeram vários tipos de sementes e plantas que
eram de seu uso na África, a maconha teria sido uma dessas plantas", explica Luísa. O mais
curioso é que a primeira plantação oficial da erva no Brasil foi feita pela coroa portuguesa em
1783, período em que Portugal passava por dificuldades financeiras e tentava reerguer a
metrópole. A feitoria instaurada no sul do Brasil tinha mais de mil escravos, um grande
investimento para a época, e a ideia era extrair canhamo para produzir fibra usada em tecidos
e papéis.

Já o fumo do negro. que havia escrito o livro “Vícios sociais elegantes”. uma nação que se pretendia branca. formando uma espécie de clube.Mesmo com essa possibilidade comercial. “Com o fim da escravidão tinha que se criar uma nova forma de controle social desses negros. não eram estudos científicos. Os fumantes reunem-se.jpg imagem 2: http://maryjuana. gritam. fumo de angola. tornam-se agressivos e perigosos. na casa do mais velho ou do que. por qualquer circunstância.br/wp-content/uploads/2012/06/cigarrosindios3. de preferência. dando ao rosto uma expressão estranha. exerce influência sôbre eles. não tinha relação entre o que observavam e concluíam”. onde. estavam "olhos vermelhos. imagem 1: http://maryjuana. celebram as suas sessões.com.” .com. Porque eles não eram bem-vindos em uma nação eugenista." Em 2004 a Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas) e o Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) reconheceram e relataram que os dados usados pelo Dr. a nova república proibiu a substância. que considerava o uso do ópio. Uns ficam em completa prostração. “Era contraditório o que ele observava e o que ele concluía.jpg imagem 3: Retirada da dissertação da Luísa ““Fumando maconha em “assembléia” ou “confraria”. outros cantam. A ideia era extinguir os negros e seus hábitos deste país”. A pesquisadora ainda mostra a relação que havia entre vícios considerados elegantes e os conceituados como deselegantes no livro do Dr Pernambuco. da cocaína e da morfina vícios sociais elegantes porque eram usados em salões pela alta sociedade.br/wp-content/uploads/2012/06/cigarrosindios2. geralmente aos sábados. nome utilizado para maconha. argumenta Luísa. músculos da face contraídos. especialmente pelo empenho do Dr Pernambuco. Para Luísa a preocupação em controlar socialmente os negros foi a maior explicação para a proibição da substância. correm. explica Luísa. onde argumentava que entre os efeitos da diamba. Pernambuco e pela delegação que representou o país na Conferência Internacional do Ópio foram forjados e que os efeitos da maconha haviam sido amplamente exagerados. era uma manipulação dos dados. planta africana (nomes sempre associados a algum adjetivo que ligasse aos negros) era considerado um vício deselegante.

Oficinas Gráficas do IBGE. 1958 ” .Ministério da Saúde. 2. Serviço Nacional de Educação Sanitária. Ed. Maconha: coletânea de trabalhos brasileiros. Rio de Janeiro.