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Existe uma Filosofia brasileira?

Tatyane Estrela
Existe uma Filosofia brasileira? Questão perturbadora para alguns, relevante para
outros e abominável para mim. Antes de tentar lidar com essa pergunta, considero que é
necessário recolocar a questão. Tentar definir o que é uma Filosofia brasileira me parece
uma tarefa árdua, por duas razões. A primeira é que teria que construir pelo menos uma
definição de Filosofia, razoável, consistente e consequente. Não poderia apenas definir
Filosofia em geral sem me ater ao detalhe que logo adiante terei de tratar de uma
Filosofia “nacional”. A segunda é que teria que dar uma definição de brasileiro, o que é o
brasileiro? o que é ser brasileiro? o que é constituinte e definidor numa entidade para que
eu possa chamá-la de brasileira? ou seja, trata-se de um problema identitário de alta
complexidade. Mas não sei se consigo num texto breve tratar de tal complexa questão,
assim, vou reformular tal pergunta de modo a poder dar alguma resposta aceitável que se
não respondê-la, pelo menos aponte caminhos para uma futura resposta. Existe Filosofia
no Brasil? Creio que essa formulação me permite tratar do assunto com mais
tranquilidade. Mas sobre qual pano de fundo surgem as duas perguntas aqui expostas?
Trata-se de uma discussão contemporânea sobre a cultura brasileira, suas características
e seus elementos. Nesse sentido pensar sobre uma Filosofia nacional faz algum sentido,
uma vez que a atividade filosófica sempre tem grande impacto na cultura de um povo.
Assim, é possível encontrar alguns rastros que podem orientar a discussão. Mas voltemos
às questões espinhosas: quais as razões que me levam a abominar tal pergunta?
A questão é política
A primeira razão é de motivação política, entendo que esse tipo de discussão está
envolvida com ideologias políticas que buscam reafirmar as soberanias de povos
historicamente colonizados. Em diálogo com a Filosofia na América Latina, a Filosofia no
Brasil, faria parte de uma luta “cultural” inscrita nos debates dos estudos pós-coloniais. Os
povos anteriormente explorados buscariam afirmar suas identidades nacionais por meio
de elementos culturais próprios, negando o processo de colonização cultural, ou seja, a
importação de produtos culturais como arte e filosofia por exemplo.
A questão não é relevante para o meu projeto intelectual

A segunda razão é de motivação intelectual, qual a importância dessa questão para
o meu projeto intelectual pessoal? Nenhuma, caso se afirme que há ou caso se negue,
ainda vou continuar fazendo filosofia onde eu estiver no futuro, seja no Brasil ou na
Alemanha. Se o que eu estiver fazendo não for visto como Filosofia também não importa,
uma vez que a definição de Filosofia é plural e controversa e as mais aceitas ao longo
tempo são aquelas que afirmam que o filosofar é o exercício da reflexão, de forma
profunda, fazendo o uso da razão, para buscar entender as coisas. Além disso, é difícil
delimitar o fazer filosófico ao longo do tempo, uma vez que os estilos variam muito desde
diálogos, confissões e ensaios até artigos acadêmicos e livros; os temas, problemas e
formas de tratá-los também são diferentes nos mais diversos filósofos, não havendo a
primazia de um único método; a percepção sobre o que faziam os que hoje são tratados
como filósofos também é muito diversa; filosofia, ciência, arte e teologia, são termos
criados na contemporaneidade com a especialização dos conhecimentos, antes desse
processo, os limites entre essas áreas não era explícito, se é que havia limite, ao meu ver,
trata-se de arbitrariedade e artificialidade das trevas da contemporaneidade.
Há poucas tradições intelectuais e isso não é um problema
A terceira razão é por questões sociais e históricas. Historicamente temos três
grandes potências tanto em Filosofia quanto em Ciência: Inglaterra, França e Alemanha.
Nestes três países temos pelos menos um grande filósofo moderno ou contemporâneo de
influência internacional e que teve papel decisivo para as ideias. Além disso, seus
trabalhos criaram fortes e sólidas tradições filosóficas além de influenciar as ciências. Na
Inglaterra, o empirismo de Hume foi definidor para um certo modo da intelectualidade e
ciência. Na França, René Descartes, marcou com seu racionalismo todas as gerações
seguintes, que sempre estão a lutar para afirmar ou negar a tradição. Na Alemanha,
buscando uma síntese Kant realiza a crítica da razão e busca tanto no racionalismo
quanto no empirismo dar conta dos problemas de seu tempo, está criado o “criticismo
kantiano”. Não se pode deixar de lado a sua influência no Iluminismo, movimento social,
filosófico e político do século XVIII que marcou o início da contemporaneidade. Tirando
essas três nações onde filosofia, ciência, arte, política, teologia, dialogavam e tinham
influências recíprocas, não me parece razoável afirmar que temos outras nações no
ocidente nas quais ocorreu mesmo fenômeno e com impactos de relevância semelhante.
Isso é um problema? Não me parece, o fato de algumas nações poderosas terem

constituído sistemas educacionais, culturais, científicos e tradições filosóficas sólidas, e
não ter ocorrido em outros lugares o mesmo, demonstra apenas as relações entre poder
econômico e um certo modelo de conhecimento e cultura. Outros povos devem ter
filósofos e cientistas, ou não, e isso só se torna relevante num olhar em busca da
compreensão sobre as disputas tecnológicas, econômicas e políticas. Deste modo, posso
afirmar tranquilamente que a diversidade humana, tão rica, possibilita que povos e nações
tenham trajetórias diferentes e as tentativas contemporâneas de homogeneização da
humanidade, seja pelo multiculturalismo ou pela globalização, me parecem fracassos
certos a serem criticados nos próximos séculos, se os seres humanos não se destruírem
totalmente.
O filósofo não é aculturado
A quarta razão é por uma questão conceitual e cultural. Considero que intelectuais
em geral, mas principalmente filósofos, são seres geralmente desconfortáveis com as
culturas com as quais lida. Explico-me, especialistas que são em análise de discursos e
narrativas, filósofos sempre estão desconfiados e desconfortáveis pelo que o vulgo fala e
ouve. Seja pela mídia, pelos poderes estabelecidos, pelas instituições sociais, os filósofos
buscam se livrar dos grilhões das massas e se diferenciam por manter naturalmente uma
relação desconfortável com a cultura com a qual vivem. Seja como residente nacional ou
estrangeiro, o filósofo será sempre o desconfiado e questionador “chato” que desvela e
desencanta coisas belas, singelas, simples e “inocentes” presentes nas culturas. Só por
isso já é possível sugerir que se de fato filósofo e em atuação, dificilmente um ser
aculturado. Há ainda um elemento central dessa exposição, o fato dos intelectuais lidarem
com a diversidade de culturas, seja por meio de produtos culturais e filosóficos, ou mesmo
por contatos pessoais. Assim, sobre influências do mundo todo, os livres pensadores
jamais conseguirão, mesmo que queiram, se integrar plenamente em uma cultura. Claro,
estão descartados os sofistas e demagogos que usam a Filosofia como ferramenta para o
exercício da atividade político. Entenda-se o filósofo aqui como alguém que só tem um
compromisso na sua vida, e é com a verdade, a busca da sabedoria, o conhecimento, a
clareza das ideias, é um grande questionador e desvelador incômodo.
Em busca de uma definição de Filosofia
Com base nas quatro razões expostas, é possível começar a delinear uma

definição de Filosofia que possa dialogar com a possível nacionalidade. Vou definir
Filosofia como atividade intelectual, reflexiva, questionadora, profunda, ancorada no uso
da racionalidade para pensar e resolver questões que emergem da existência humana.
Caracterizada fundamentalmente pelo discurso falado ou escrito, envolve o debate de
ideias, a argumentação e a sistematização de ideias. Tal definição pode incluir desde
certos acadêmicos de departamentos de Filosofia até pessoas que não estejam ligadas
profissionalmente ao trabalho filosófico nas universidades. O que é central nela é uso da
razão para pensar problemas humanos de forma profunda. Alguém pode se sentir
desconfortável diante de uma definição tão ampla. Creio que se ela perde em rigor, ou
seja, permite que muitas pessoas possam ser consideradas filósofas, ela ganhe na
amplitude necessária para dar conta da diversidade de práticas filosóficas ao longo da
história e nos diversos locais onde a filosofia ocidental chegou. É importante pontuar que
toda pessoa em alguma medida pratica filosofia ao se colocar diante de questões e
problemas filosóficos, como por exemplo, sobre o que é possível conhecer, o sentido da
vida, o que é certo fazer ou não, como podemos afirmar a existência de algo, etc. Mas a
delimitação que faço aqui é da profundidade e sofisticação no trato dos problemas, que é
típica do filósofo.
Filosofia no Brasil?
Diante da definição de Filosofia exposta no tópico anterior, entendo que é possível
afirmar que há Filosofia no Brasil. Sem correr o risco de dizer que há uma filosofia
brasileira, ou seja, um sistema, uma tradição, com teorias, pensadores, problemas que
foram debatidos ao longo do tempo, espaço de debate e discussão filosófica, escolas
filosóficas. Se é possível afirmar algum sistema no qual a Filosofia aparece mesmo que
de modo precário é o sistema educacional. Seja no ensino médio ou no ensino superior,
há pessoas que “explicam” filósofos selecionados e suas teorias e ideias, há histórias da
Filosofia sendo contadas e disseminadas pelas salas de aulas do país, mas longe de ser
espaço da atividade rigorosa de pensar autonomamente questões, posicionar-se, refletir,
buscar responder complexos problemas filosóficos próprios e da tradição filosófica
ocidental. Aqueles que em alguma medida têm algum envolvimento mais sério com a
Filosofia o fazem por sua própria conta e risco, buscam manuais, a literatura
especializada, as fontes primárias, as boas traduções, os artigos filosóficos que tratam de
diversos temas, etc. Não sei se o Brasil já exportou alguma obra filosófica relevante ou no
cenário internacional tem alguma relevância quando o assunto é Filosofia, mas desconfio

que não. Diferente do que podemos dizer em arte, por exemplo, há a exportação de obras
culturais brasileiras, que são únicas e originais, seja um livro de Machado de Assis ou
uma canção de Elis Regina. É possível reconhecer uma arte brasileira, que tem
elementos específicos da cultura brasileira. Mas como afirmar isso da incorpórea e
racional Filosofia? Ainda mais quando observamos que os departamentos de Filosofia das
universidades brasileiras sempre viveram de importar filosofias defuntas do exterior e
jamais se colocaram diante das questões da sociedade brasileira? Não consigo imaginar
Kant escrevendo o que é o Iluminismo no carnaval carioca, nem mesmo entender as
motivações para tantos estudos filosóficos e jurídicos sobre John Rawls, numa cultura que
não considera a lei como algo para ser levado muito a sério. São essas alienações que
constituem o cenário da Filosofia acadêmica e talvez expliquem as razões de existir
Filosofia no Brasil, e não existir uma Filosofia brasileira. Talvez, uma Filosofia brasileira
seja possível quando os ilustres filósofos se situarem e passarem a pensar a Filosofia a
partir das questões que emergem do ser humano no mundo, como fazia o grande e
esquecido Sócrates.