Umuarama, domingo, 28 de fevereiro de 2010

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Thiago Casoni

E a Quaresma chega novamente
por Tiago Lobão E estamos nós, outra vez, num dos períodos que eu mais gosto do ano: a Quaresma. Só seria melhor se ao invés do calorão do verão, esses quarenta dias se passassem no inverno, sem toda essa transpiração desnecessária. É durante estes quarenta dias que, enquanto os santos, os anjos e todo mundo lá das altas rodas está ocupado em penitência, meditando e refletindo, os espíritos matreiros saem pra atazanar as simples pessoas e acabam gerando aquelas ótimas histórias de assombrações. É o tempo do Saci-Pererê, do Lobisomem, da Mula-sem-cabeça e do Curupira. É quando as bruxas saem pelas cidades escolhendo seus alvos, os demônios ficam a cochichar nas nossas orelhas e nos colocando em enrascadas, isso quando não aparecem na nossa frente, loucos para negociar alguma coisa em troca da nossa alma. Halloween que nada! Onde já se viu trocar 40 dias de pura festança sobrenatural por uma noitezinha de novembro, com sustos aqui, travessuras acolá. Sou do Movimento Viva a Quaresma (mesmo que na morte!). Pra completar, deixo vocês com a primeira história sobrenatural de algumas que virão: O Ramalhete de Flores do Campo. Seu Orlando tinha uma floricultura que ficava de frente pro cemitério. Seu negocio ia de vento em poupa, afinal, morre gente todos os dias e não tem lugar mais propício para uma floricultura do que ali, em frente ao cemitério. Já perdeu a conta de quantas consciências salvou, pelos mais de 10 anos que estava ali, ao vender uma flor para aquele ente querido e quase esquecido. Diferentemente dos clientes emergenciais, ele tinha alguns costumeiros, como a dona Olga, que aparecia todas as quartasfeiras, próximo do horário de fechar a floricultura, lá pelas seis horas da tarde. Ela era uma senhorinha, nos seus setenta e poucos anos, mas aparentava muita saúde e lucidez. De passos firmes, chegava no balcão e pedia o seu ramalhete de flores do campo, conversava um tiquinho com o Orlando, saia em direção ao cemitério e entrava pelo portão. Pelo pouco que conversaram, Orlando concluiu que Dona Olga era viúva há muito tempo e, decerto levava flores ao finado marido todas as quartas-feiras. A única queixa que Olga fazia era sobre a ausência dos seus filhos e netos, faziam muitos meses que eles não a visitaram e ela estava se sentindo só e abandonada. “Ainda bem que tinha o túmulo de seu marido para visitar” pensava Orlando, algum exercício de afeto para ocupar seu cotidiano. Num dia cinzento desses, morreu um grande amigo do Orlando, manteve a floricultura aberta apesar da dor no coração. Mandou uma bela coroa de flores para fazer-se presente no funeral, mesmo Gravura por Paula Toaneiro - http://paulotanoeiro.blogspot.com/ estando do outro lado da rua. O enterro perto das seis da tarde, naquela terça-feira. Quinze pras seis da tarde Orlando fechou a floricultura e foi ao enterro de seu amigo. Depois do sepultamento veio caminhando aleatoriamente pelo cemitério e ficou espantado com o numero de conhecidos seus que estavam lá, mortos. Também conseguia reconhecer alguns dos arranjos de flores saídos de sua floricultura, definitivamente era um bom negócio. Parou estarrecido em frente a um túmulo. As flores do vazinho já estavam secas, a foto era de uma senhora imponente, mas de olhar feliz. Olga Albuquerque do Nascimento (17/08/1932 - 23/11/2005). Era a Dona Olga, sua cliente contumaz da floricultura. A data da morte já completava mais de um ano. Ainda pálido e com o pensamento a mil, foi até sua floricultura, reabriu as portas, fez um belo ramalhete de flores do campo e o levou até aquele tumulo. A partir desse dia, Orlando repetia o ritual, às quartas-feiras levava um ramalhete de flores do campo para a Dona Olga e jamais percebeu qualquer sinal de outra pessoa visitando sua singular cliente. Mas sentiu-se feliz ao perceber que Dona Olga nunca mais apareceu pra comprar um ramalhete de flores do campo. Por Caroline Guimarães Gil
Ignácio entrou no aposento, batendo os pés com arrebatamento, observou toda a atmosfera com um olhar de repulsa. - Não consigo compreender – colocou as mãos na cintura – porque motivo ainda, até mesmo hoje, não me chama de pai. - Senhor Ignácio! Que bom que apareceu, eu mesmo ia travar conversas contigo. - Ah, ia? – disse com suspeita e desprezo, olhando Benjamim por debaixo dos óculos de meia lua. - Sim. Vamos até a sala, aqui não me parece um local adequado para tal assunto. - Você vive escolhendo locais adequados, horas adequadas, pessoas adequadas... - O que quer dizer com isto? - Não sei. – caminhou até a janela e notou indiretamente o que havia por cima da bancada, como se procurasse alguma coisa, voltando-se a olhar para Benjamim – Preocupa-me isolar-se tanto neste dormitório imundo. – passou os dedos sobre a mesa e sentiu o pó entre os dedos. - Edna... Edna está ocupada, atualmente. - Ah, claro! Edna tornouse tão atarefada recentemente. – sentou-se na cadeira ajeitando as conhecimento. Um homem que fala daquilo o que não conhece é um tolo. Sabe armazenar impecavelmente as informações, mas não faz outra coisa a não armazená-las. Não sabe o que fazer com o que contém. Nada sabe escolher, fazendo com que a mente fique cheia de coisas inúteis e desnecessárias. - Sabe que isso é um assunto delicado para mim. – engoliu em seco - Falar sobre Abigail, oras! Como posso falar de alguém que já está... Morta. É um assunto total delicado, oh Deus! - Há quanto tempo é delicado este assunto, Senhor? Nada me falaste até hoje sobre Abigail! Nem ao menos posso conceber meus pensamentos de como poderia sê-la! Perdão aborreceu-me por demais. Vá, saia de meu quarto. - Está me expulsando? - Perdoe-me. Estou cansado. Por favor, retira-se. – abaixou a cabeça, coçou os olhos, num gesto de exaustão. - É ainda meu filho, Benjamim. – aproximou-se colocando a mão sobre o ombro do rapaz, deu umas sacudidelas - A loucura o está corroendo como a mim, também. Todos são confusos, Benjamim, mas vivemos. (...) Cadê o restante? Confira no próximo domingo, na página do Culturanja! não condizem com seus reais trabalhos. - O que quer dizer com isto?! - Minha mãe, deveria mesmo, realizar tarefas incumbidas pelo senhor... - Cala-te! Não fale assim de sua mãe! – levantou-se enraivecido. - Não. Não estou argumentando sobre minha mãe, senhor Ignácio. Peço perdão, se caso o acha isso. Estou precisamente falando de ti. Fique sossegado. Como posso falar de minha mãe, se nada sei dela? Não é mesmo? Só posso vestirme de palavras daquilo o que tenho

IMPERMEÁVEL
Por Ângela russi

“-Mãe, posso tomar banho de chuva?” Um dia desses, em que chovia muito, lembreime dessa frase tão constante em minha infância. Nos dias chuvosos era lógico para mim, pedir para brincar na chuva. Minha mãe às vezes deixava, às vezes não. Depois da chuva eu tinha de tomar um banho quente de chuveiro e então me aconchegava no sofá para assistir TV. Nessas memórias não me recordei de ficar resfriada nenhuma vez após brincar na chuva. Parecia que eu era impermeável à chuva fria. Parece que as crianças são impermeáveis às doenças quando brincam. Deve ser porque estão felizes. Hoje, não mais criança, pelo menos fisicamente, penso em como seria se eu fosse impermeável à chuva, aos raios, relâmpagos e trovões do cotidiano. Nada relacionado às intempéries do clima, na verdade falo das intempéries dos relacionamentos humanos. É difícil relacionar-se com pessoas inconstantes. Comparo-as aos dias em que não se sabe se chove ou não. Pego o guarda-chuva ou não? Complicado isso. Lidar com a inveja alheia também pode ser comparado com um dia nublado em que sem mais nem menos o céu dispara raios sobre você. De onde veio? Por quê? Difícil isso. Estar rodeado de pessoas competitivas ao extremo é dureza. É como um dia cheio relâmpagos. Tem de estar alerta senão o clarão vem e não dá tempo de se preparar para a trovoada. O susto é grande. Frustrante isso. O bom mesmo era se pudéssemos ser impermeáveis aos comportamentos dos que convivem conosco. Assistiríamos a tudo sem sentir o frio que a enxurrada de chateações provoca. Detesto a inconstância, a inveja e a competitividade. Eles detonam qualquer relacionamento. Por que será que sempre há alguém assim por perto? Desconfio que alguém que age dessa maneira tenha medo do fracasso. Um medo grande que faz com que busque vencer a todo custo e sem pensar em ninguém mais. Pode ser que nele habite uma solidão enorme que o faz triste e quando vê o outro se dando mal sente-se menos solitário e consegue ser um pouco feliz. Quem sabe tem raiva de todo vencedor por sentir-se perdedor? . Não sou de ficar me martirizando pelo comportamento alheio. Quando esse comportamento me atinge de alguma forma mais profunda acabo ficando uns dias magoada. Conviver com quem tem esse comportamento ofensivo desgasta qualquer um. Seus gestos e palavras às vezes são como os raios, tão rápidos que quando se dá conta já caiu e se cair no lugar errado faz um estrago danado. Duram tão pouco, mas, perduram na lembrança por tempo demais Ser impermeável é ser imune a todas as palavras e atitudes contra o sucesso pessoal. Quem consegue faz com que elas batam e voltem sem nenhuma avaria. Como a água no azulejo do banheiro. Como a chuva fria em criança feliz. Quem consegue não precisa se preocupar com as invejas brancas, boas, santas, pretas, ruins, diabólicas. Nem ligar para aquele que um dia sorri e no outro rosna. Muito menos para o que corre na sua frente o tempo todo. Deixe que corra sozinho. Para haver competição precisa haver pelo menos dois. Porém, criaturas de carne e osso, uns mais carne do que ossos, uns mais emoção do que razão e todos desprotegidos das misérias alheias, são atingidas e sofrem. Relacionamentos assim realmente machucam. Ser totalmente impermeável é impossível porque somos humanos, seres emocionais. Mesmo as pessoas mais ‘frias’ têm emoções. Mesmo assim é bom ser humano. Isso significa poder sentir a chuva e, com sabedoria, se proteger dos raios, relâmpagos e trovões. Não sou impermeável, mas se além da chuva há raios, relâmpagos e trovões só saio de casa se necessário e mesmo assim com um bom guarda-chuva. Do contrário, só sendo como uma criança na chuva. A felicidade é um impermeabilizante excelente.

PARTE IV – Corpo Desacostumado

mangas do paletó – Se eu fosse você, não consumiria tempo incumbindo Edna... De tarefas, que quiçá, não sejam relacionadas com os quefazeres da casa. - Você lembrou-me corretamente, senhor Ignácio! Total grato eu fico! Disse muito bem as palavras... Que são suas, inteiramente! Pois sou Benjamim, e não... Ignácio! Se você fosse eu... Mas quem sou eu: sou eu mesmo! Só poderia praticar o que me apetece, e nada mais, nada menos. Além disso, o senhor quem deva conhecer muito bem, a respeito de incumbir as pessoas a realizar tarefas que