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As Ondas é considerado o mais rildical romance de Virginia Woolf um desses raros escritores que nasceu no «instante em que uma estrela se
pôs a pensar».
Marguerite Yourcenar, sua tradutora francesa, descreveu-o assim:
«Ás Ondas é um livro com seis personagens, ou melhor, seis intrumentos musicais, pois consiste unicamente em monólogos interiores, cujas
curvas se sucedem e entrecruzam com uma segurança que lembra a Arte da
Fuga de Bach. Nesta narrativa musical, os breves pensamentos de infância,
as rápidas reflexões sobre os momentos de juventude e de confiante camaradagem desempenham o mesmo papel dos allegri nas sinfonias de
Mozart, abrindo espaço para os lentos andantes dos imensos solilóquios
sobre a experiência, a solidão e a maturidade.
Tanto como uma meditação sobre a vida, As Ondas são um ensaio
sobre a solidão. Trata-se de seis crianças, três raparigas, Rhoda, Jinny e
Susan; e de três rapazes, Louis, Neville e Bernard, que vemos crescer,
diferenciarem-se e envelhecer. Uma sétima criança, que nunca toma a
palavra e que só conhecemos através dos outros, é o centro do livro, ou
melhor, o seu coração.»

ISBN 978-989-641 -526-6

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9 789896 415266

As Ondas .

º 391841/15 . No.Relógio D'Água Editores Rua Sylvio Rebelo.pt ISBN 978-989-641-526-6 Composição e paginação: Relógio D' Água Editores Impressão: Guide Artes Gráficas. Encomende os seus livros em: www.relogiodagua. Depósito Legal n.pt www.cvasconcelos.pt Título: As Ondas Título original: The Waves (1931) Autora: Virginia Woolf Tradução: Francisco Vale Revisão de texto: Helder Guégués Capa: Carlos César Vasconcelos (www. n.º 15 1000-282 Lisboa te!.relogiodagua .: 218 474 450 fax: 218 470 775 relogiodagua@relogiodagua. 2: The Little White Girl (1864). de James McNeill Whistler ©Relógio D'Água Editores. abril de 2015 Esta tradução segue o novo Acordo Ortográfico.com) sobre Symphony in White. Lda.

Virginia Woolf As Ondas Tradução de Francisco Vale Ficções .

como as chamas envoltas em fumo de uma fogueira . uma barra de sombra desceu no horizonte. Pouco a pouco. Pouco a pouco. A superfície do mar tornou-se transparente e as grandes linhas escuras quase desapareceram no ondular das águas e na sua cintilação . e o grande tecido cinzento ficou marcado por grossas linhas que se agitavam sob a superfície. . O mar apenas se distinguia do céu pelo leve preguear das águas. Um disco de fogo ardeu no rebordo do horizonte e o mar à sua volta tornou-se um esplendor de ouro . dei­ xando transparecer o seu vidro . ou o braço de uma mulher reclinada no horizonte erguesse ao alto uma lâmpada . perseguindo-se num ritmo infindável. Depois a mulher er­ gueu a lâmpada ainda mais alto. também o céu se tornou translúcido. Lá ao fundo. o ar inflamado pareceu cindir-se em fibras vermelhas e amarelas. as ondas erguiam-se. tomavam for­ ma e desfaziam-se arrastando pela areia um ténue véu de espuma branca .O Sol ainda não nascera . Ao aproximarem-se da praia. A ondulação detinha-se. O braço que sustinha a lâmpada continuou a subir devagar até que uma grande labareda surgiu . suspirando como alguém que dorme e cujo sopro vai e vem sem que a sua consciência o saiba . separando o céu do mar. a barra escura do horizonte clareou como as impurezas de um vinho antigo que se depositassem na garrafa. amarelo e verde alongaram­ -se sob o céu como longas folhas de um leque . partia de novo. como se nele se houvesse desprendido um sedimento branco. Lentamente. todas as fibras se fundiram numa única massa incan­ descente e o cinzento do céu transformou-se num milhão de átomos de um suave azul. à medida que o céu clareava. elevando-se da superfície verde num frémito ardente. Faixas de branco. semelhante a um tecido finamente enruga­ do .

mais baixo. deixando uma dedada de sombra azul sob a folhagem próxima da janela de um quarto . e as folhas agora transparentes iluminaram-se uma a uma . A persiana estremeceu ao de leve. . mas dentro de casa tudo permaneceu vago e sem substância . Houve uma pausa . Lá fora. Um pássaro cantou alto . O Sol deu contornos às paredes da casa e poisou como a ponta de um leque numa persiana branca. os pássaros cantavam as suas melodias vazias . Depois outro pássaro retomou.8 Virginia Woolf A luz feriu as árvores no jardim. o mesmo canto .

onde há go­ tas de água suspensas . . Chap . . disse Louis . .Uma lagarta enrolada parece um anel verde em que as patas são entalhes .As folhas encostam-se à janela como orelhas pontiagudas . ..Vejo uma borla vermelha entrelaçada com fios de ouro . dis­ se Susan . .Olhem a teia de aranha no canto da varanda.Os olhos dos pássaros brilham no fundo das grutas abertas na folhagem. . sobe e em seguida volta a descer. a bater no chão . . Chip . disse Rhoda. . . . Suspenso como uma pequena gota de água dos imensos flancos de uma colina. murmurou Louis . disse Jinny. disse Rhoda. . disse Jinny. A pata de um grande animal acorrentado . disse Bernard . . Chap .Vejo um anel . Há nela gotas de água suspensas .O caracol arrasta a casca cinzenta ao longo do carreiro . . disse Neville . . alongando-se ao encontro de um risco violeta. .Ilhotas de luz navegam entre o s ramos e flutuam sobre a relva disse Rhoda. . . · . .Ouço qualquer coisa a bater. .Vejo um globo . Chip .Ouço um ruído . disse Susan . Tre­ mula e balança num laço de luz . disse Susan. disse Bernard . brancas pérolas de luz . A bater no chão . . .Os caules estão cobertos de uma penugem áspera.Vejo uma faixa de amarelo pálido . pisando as ervas à sua passagem. disse Neville . suspenso por cima de mim . . .O braço dobrado de uma sombra cai sobre a vereda.

um. disse Neville . .Bolhas formam-se no fundo da panela. . em cima da tábua de cozinha. disse Jinny. . disse Louis . angulosa ou redonda. cada um com o seu canto . numa cadeia de prata.Agora Mrs .As paredes estão revestidas de ouro e a sombra das folhas põe dedadas azuis perto das janelas . Sinto cada uma delas .Tenho as costas da mão a arder. dispersos como um punhado de sementes lançado ao vento .A janela da sala de jantar ficou azul-escura. disse Rhoda. molhada pelo orvalho . . Canta como um jorro de água vermelha e dura contra a brancura da manhã. e o ar ondula por cima da chaminé .Quando o fumo se ergue .10 Virginia Woolf .Biddy arranca as escamas dos peixes com uma faca dentada. . disse Susan .O animal continua a bater com a pata. Depois alguém abriu a porta da despensa. .Há uma andorinha poisada no fio da eletricidade .Sob os meus pés sinto as pedras frias . disse Bernard . a fera continua a desferir enormes patadas na praia. . Os pássaros voaram . .Primeiro .Ouçam a primeira badalada do sino da igreja. o sono eleva-se do telhado como uma ténue neblina. disse Neville . o elefante acorrentado. os pássaros cantaram em coro . Há persianas brancas em todas as janelas da casa. disse Louis . disse Rhoda. Constable começou a puxar para cima as suas gros­ sas meias pretas .Olhem. as outras : um. . disse Bernard . . Depois .A água fria da torneira começou a cair sobre o peixe no algui­ dar da cozinha. . . disse Jinny. disse Louis . dois . . . . Depois sobem cada vez mais depressa. dois. disse Susan . Biddy lançou o balde de água nos ladrilhos d a cozinha. Mas há um que ficou a cantar sozinho na janela do quarto . disse Jinny.Os pássaros voam à nossa volta. disse Louis.Os reflexos do sol que se desprendem dos vidros dançam na relva. .O galo está a cantar. Mas a palma da mão está húmida. disse Susan .

Sou uma criança vestindo calções de flanela e com o cinto apertado por uma serpente de bronze. . Tenho na mão o caule de uma planta. junto ao muro. porém. e ao lado riscos de prata. no meio das flores. meu Deus . negras . O meu corpo é uma fibra vegetal. em cada lugar. só há pequenas aberturas para espreitar.Ardo e tremo . a agitação .Olhem a toalha toda branca a esvoaçar sobre a mesa. Neville. Acariciam a superfície do mundo . As minhas raízes mergulham na profundidade do mundo. As flores nadam como peixes luminosos em sombrias águas verdes . os meus olhos são verdes folhas cegas . permanecer invisível ! Sou verde como um teixo à sombra da sebe . As minhas raízes estão no centro da terra. O meu corpo é um caule . O meu cabelo é feito de folhas . fazei com que se vão embora ! Oh . disse Jinny. as suas borboletas brancas ! Deixai-me . há um círculo branco de louça.Agora já se foram todos embora. os meus olhos são os olhos sem pálpebras de uma estátua de pedras num deserto do Nilo. Está aqui. Põem-se a gritar: «Louis ! Louis ! Louis ! » Mas não podem ver-me . Cada flor é uma mancha clara na profundidade verde. o frémito. Aperto o caule . Foram para dentro de casa. fazei com que poisem no chão as borboletas dentro de um lenço ! Deixai-os contar as suas borboletas-tartarugas . meu Deus . quando saio do sol para me abrigar à sombra. Entre as folhas . Lá em cima. Os caules erguem-se das cavidades . Uma gota sai da minha boca. através da argila seca e da terra húmida. Bernard. Ouço à minha volta os passos . Têm as redes cheias de asas palpitantes .As Ondas 11 . não são ainda horas de ir para as aulas . em direção ao rio. Aqui perto de mim.Uma abelha zumbe perto do meu ouvido . É muito cedo. já passou . transportando cântaros vermelhos . vejo o passo oscilante dos camelos e homens com turbantes . Oh . Estou completamen­ te só. tomar o pequeno-almoço e eu fiquei parado. Eu sou esse caule . . as suas almirantes vermelhos . Jinny e Susan (mas Rhoda não) afloram os canteiros com as suas redes . vagarosa e den- . e sinto nas minhas costas o peso da terra. As pétalas são arlequins . disse Rhoda. disse Neville . Todos os tremores se repercutem em mim. atravessando veios de prata e chumbo . disse Louis . Estou do outro lado da sebe . Em cima da toalha. Lá em baixo . Vejo mulheres que passam. Apanham borboletas nas corolas recurvas das flores . .

antes das aulas . imóvel . Alguma coisa cor-de-rosa passa diante da abertura existente entre as folhas. disse Bernard . Não vou ficar à mesa . Ela acaba de encontrar-me .Por uma fresta da sebe . Vou pegar na minha angústia e deixá­ -la entre as raízes das faias . Rhoda. sentada. vi Jinny beijá-lo . Não me vou sentar junto da Jinny nem junto de Louis . com o coração a saltar por baixo da roupa cor-de-rosa.» Afastei as folhas e olhei. Porque se agitavam as folhas? Porque se agitavam o meu coração . Sinto alguma coisa tocar-me na nuca. pareciam os de um gato antes de saltar. E a tremer fico deitada sobre ti . Neville e Bernard. disse Susan . hei de morrer ali . com os olhos fixos. Pensei: «É um pássaro no ninho . Vi Jinny e Louis beijarem-se . Tudo se estilhaça. O meu cabelo ficará ema­ ranhado e dormirei debaixo dos arbustos . e cresce sem cessar. mesmo quando nada as agita. bebendo água das poças . Sou outra vez uma criança vestida de flane­ la cinzenta. segurá-la nos dedos . . para estar junto dela e a consolar quando cheia de raiva pensar: «Estou sozinha. que estavam a conversar na casa das ferramentas. Ela beijou-me . como um ramo . cada vez mais depressa. Vi-a beijá-lo . Danço . mais depressa. Sou lançada sobre ti co­ mo uma rede luminosa. a fazer contas .Susan passou por nós. Passei a cor­ rer por Susan . Não hão de ser capazes de encontrar-me . Sinto agora o perfume dos gerânios . tão lindos. .Andava a correr depois do pequeno-almoço . Quero ir sozinha ao bosque das faias . como as folhas que continuam a mexer-se . Agora vou embrulhar a minha ansiedade no lenço . Neville . mas não era um pássaro no ninho . as minhas pernas? E precipitei-me para aqui e vi-te verde como um arbusto . Levan­ tei a cabeça do meu vaso de flores e espreitei pela abertura da sebe . Vi que as folhas se mexiam numa abertura da sebe .12 Virgínia Woolf sa. Senti-me assustada. Vibro . Vou dar-lhe um nó e fazer dele uma bola. Alguém desliza o olhar pela fresta. Vou alimentar-me de nozes . mas os seus olhos. procurar ovos entre as sarças . o cheiro do húmus. As folhas continuavam a mexer-se . Não estava a chorar. Vou atrás dela. Quero observá-la bem . disse Jinny. O raio de luz atinge-me .» . Vou segui-la cui­ dadosamente . pensei e beijei-te . . «Estás morto?» . Louis. Passou por nós diante da porta da casa das ferramentas com o lenço amarrotado como uma bola. Pus-me a gritar enquanto corria.

fugindo da claridade . larga a correr com os punhos fechados à sua frente . disse Susan . balouçando o corpo com indiferen­ ça. Depois chega à encosta. a atravessar o campo . Espreitei por entre as folhas e vi . pensa que ninguém a vê. Chega e abre os braços ao entrar na sombra. onde a luz entra e sai num movimento perpétuo . Quando te ouvi chorar. esses estilhaçam-se em cintilações sem fim. disse Bernard. sentada. gorda e baixa. Os nossos corpos estão agora lado a lado . disse Susan . . A própria luz é indecisa. coberta por uma poeira de diamantes . agitado e lúgubre . Os teus estão cheios a transbor- . com a cólera e o ódio fechados lá dentro . Mas isso passa depressa. Bernard. quando Mrs . O meu entusiasmo transformou-se em pedra quando vi Jinny beijar Louis . Mas está cega depois de tanta luz e cambaleia até às raízes sob as árvores .Eu vi-a beijá-lo . e soluça. Tenho o cabelo todo despenteado e cheio de aparas de madeira. Os olhos de Jinny. . Quando passaste pela porta da casa das ferramentas ouvi-te exclamar: «Sou tão infeliz !» e pus de lado a minha faca. na água castanha onde apodrecem folhas mortas . e vi-te quando deitaste ao chão o teu lenço amarrotado. Tem o lenço caído entre as raízes das faias . Aqui tudo é inquieto . encolhida no lugar onde se deixou cair. Tu ouves-me respirar. Corre em direção ao bosque de faias . Tenho os olhos endurecidos . vim atrás de ti. Susan espalhou a ansiedade à volta. vi uma mosca presa na teia e pensei: «De­ vo libertar a mosca? Ou deixar que a devorem?» É por coisas destas que ando sempre atrasado . As raízes desenham esqueletos na terra e há folhas mortas amontoadas aqui e ali . Os olhos de Rhoda são como as pálidas flores que as mariposas procuram à noite . Eu sou gorda. Vou alimentar-me de ervas e morrer numa va­ la. Vi-a dançar. Crava as unhas no lenço amarfanhado . como se nadasse .As Ondas 13 Lá vai ela. Os meus olhos fitam o chão de perto e vejo insetos na erva. agora) é forçado a vacilar como a claridade que vai e vem por entre as folhas das faias . Há uma só coisa que desejo. Neville e eu estávamos a fazer barcos de madeira. tentando iludir-nos . Ele corre para aqui e para ali e enquanto olhas o besouro o teu desejo de possuir uma única coisa (que é o Lou­ is . E o obscuro movimento produzido pelas palavras no mais fundo de ti acabará por desatar o nó feito no teu lenço .Eu vi-te passar. .Amo e odeio . Vês também o besouro que leva uma folha às costas . Constable me disse que precisava de o pentear. Trago o cabelo despenteado porque .

Vejo que é preto. Tocamos a terra. Mas tu vagueias sem destino. com palavras e palavras encadeadas em frases. Agora despertamos as gralhas adormecidas que nunca viram uma forma humana. . e nada os perturba. disse Susan . A nossa corrida é um mergulho . A senhora está sentada entre duas grandes janelas . Ali está uma casa branca no meio das árvores . Vamos mergulhar através do ar verde de folhas .Mas quando nos sentamos juntos . Olha por cima do muro . Somos um território imaterial . Lá está a grande casa com os telhados planos e inclinados . Os fetos têm um odor intenso. Vejo in­ setos entre as ervas . Vamos mergulhar como nadadores que mal tocam o fundo do mar com os dedos dos pés . disse Bernard . longe de nós . as folhas das faias juntam-se por cima das nos­ sas cabeças . Embora a minha mãe ainda faça meias de malha branca para mim e ponha bainhas nos aventais . Põe o pé neste tijolo . sobre nós já não se des­ dobram tristes e longas vagas cor de violeta. O tratador dos cavalos anda pelo pátio com a s suas botas de borra­ cha. É Elvedon . . Escreve .Agora vamos explorar o que nos rodeia. pisamos o chão . Isto é Elvedon . Os jardi­ neiros varrem a relva com gigantescas vassouras . Lá está ela. de um lado para o outro . disse Ber­ nard. as palavras que dizemos fundem-nos· um no outro . Aqui esta­ mos debruados pela névoa. rodeado pelo muro . amo e odeio . com um braço a apontar: «Elvedon» . Ouve ! É o salto de um enorme sapo na vegetação rasteira. estou amarrada por simples palavras . vejo que é verde.Vejo o besouro . ergues-te mais alto . As vagas fecham-se sobre nós . muito próximos. embora eu seja ainda uma criança. Somos os primei- . . cortando rosas . Estamos agora no bosque circular. Há um muro circular em tomo deste bosque. Aquilo é a densa sebe do jardim das senhoras . ninguém chega até aqui . e à sua sombra nascem cogu­ melos vermelhos . muito lá em baixo . calcamos as bolotas de carvalho em decomposição . que o tempo tornou vermelhas e escorregadias . Nunca ninguém lá esteve . Ao meio-dia. esvais-te. passeiam por lá com as suas tesouras . Lá está o relógio do estábulo com os ponteiros dourados a brilhar. Vi os marcos nas encruzilhadas . e este ruído é a queda de uma pinha primitiva que vai apodrecer no meio dos fetos . Susan . Aquilo ali é Elvedon ! Eis-nos caídos dos altos ramos das árvores . Mas eu avanço pelo meu caminho .14 Virginia Woolf dar.

através da folhagem. Vão pen­ sar que somos raposas . Aqui está o jardim. Ainda tenho algum tempo para estar sozinha en­ quanto Miss Hudson coloca os nossos cadernos na mesa da sala de estudo . Se morrêssemos aqui . Estamos salvos ! Já podemos pôr-nos de pé outra vez . Não quero pétalas vermelhas de malvas-rosa ou de gerânios . . Foge . Aqui está a sebe . disse Rhoda. Agora um pombo-bravo deixa o seu refúgio no cimo das faias . Foges de mim. ferindo o ar com as asas desajeitadas . Só quero pétalas brancas que flutuem quando agito a bacia. no carreiro . se os jardineiros nos virem. nesta floresta imensa. ninguém nos enterrava. Agora atrasas-te . . Assinala um atalho secreto .As Ondas 15 ros a vir até aqui . Vou atirar este raminho como se fosse uma jangada para o marinheiro que está a afogar-se . espetavam-nos na porta da estrebaria como pe­ les de arminho . Parti um ramo quando vínhamos para cá. Temos de nos esconder nas árvores . Vem atrás de mim e não olhes para trás . Tenho uma frota que nave­ ga de uma costa à outra. Estou a ver os jardineiros a varrerem. Estás a subir cada vez mais alto como um balão . para fora do meu alcance . disparam contra nós . Tenho um pequeno espaço de liberdade à minha frente . Temos de fugir para o bosque das faias . Não ouço nada. disse Susan . Aqui está Rhoda. . Embala uma bacia de cobre cheia de pétalas .Estou a ver a senhora a escrever. construindo frases .São brancos todos os meus navios . disse Susan . Colhi todas as pétalas caídas e fi-las flutuar. Neville foi-se embora e Susan também. Não te mexas. Apenas o murmúrio das ondas no ar. Olha ! Não te mexas ! Segura-te bem aos ramos dos fetos na borda do muro . Jinny está no quintal talvez colhendo fram­ boesas com Louis.Estás outra vez a afastar-te de mim com as tuas frases .Foge ! disse Bernard. . Foge ! O jardineiro das barbas negras já nos viu ! Vamos levar um tiro ! Vamos ser caçados como gaios e pre­ gados nos muros ! Estamos em país inimigo . Espargi algumas com gotas de chuva. Puxas a minha saia e olhas para trás . Já podemos estender os braços à vontade debaixo desta abóbada. Somos o s exploradores de um território desconhe­ cido . Vou plantar aqui uma ervilha-de-cheiro como se fosse um fa- . Vou lançar uma pedra na água e ver as bolhas que sobem do fundo do mar. Se nos apanhassem. Baixa-te o mais que puderes .

espreitam Miss Hudson . Odeio coisas instáveis . Sei mais do que alguma vez eles poderão saber. olhem os mastros iluminados . se Susan chorar. Alguns hão de afundar-se . um cordão partido de um sino sempre a vibrar. Lá estão eles a chupar as canetas . com o seu infindável . disse Louis . São todos ingleses . As ondas erguem-se. estou pálido . alcançando as ilhas onde há papagaios que falam e lianas . porém. onde grunhe o urso-polar e as estalactites pendem em cadeias verdes . Ternos de entrar todos juntos . . Bernard e Neville são filhos de gentlemen . Navega nas grutas geladas .16 Virginia Woolf rol .Onde estará Bernard. Eu . O s cadernos foram colocados uns ao lado dos outros sobre a mesa forrada de pano verde . outras molhada. todos exceto o meu . Deixa-me para aqui sozinho. Sei a lição de cor. nada haveria no mundo que não soubesse . Deixemos os brinquedos . É como a alga suspensa da janela. Jinny vive com a avó em Londres. limpo e as minhas calças estão seguras por um cinto com urna ser­ pente de cobre por fivela. naufragaram. Ele é inglês . Agora enrolam os cadernos e . outros esmagar-se contra as falésias . antes de Bernard o recitar. Odeio andar por aí a confundir as coisas . Susan os olhos vermelhos . O pai de Susan é clérigo . Rhoda não tem pai . disse Neville . por um canto do olho . A sineta já começou a tocar e vamos chegar atrasados . querendo . Vou esperar e depois imito Bernard . Sei os géneros e os modos. A grande lâmina é um imperador. levando-me a faca. Ele é como um fio elétrico pendente. .Não conjugarei esse verbo . coisas nevoentas . . O meu pai é banqueiro em Brisbane e tenho sotaque austra­ liano . Todos os navios se dispersaram. E agora agito a bacia de cobre para que os meus navios caval­ guem as ondas . urnas vezes seca. que cavalga as vagas e desliza diante do vento . As minhas raízes entrelaçam-se à volta do globo corno as das plantas num vaso de flores . a lâmina partida. a sua crista curva-se. Mas não quero expor-me e viver sob o olhar daquele grande relógio de face amarela. um negro . Bernard tem uma lasca de madeira no cabelo . que serve para esculpir as quilhas . Ambos estão corados . Bernard largou o seu barco e foi atrás dela. Levou a minha faca. É esse o meu navio . Um deles navega sozinho . segue Susan. ele pega na minha faca e conta-lhe histórias . . Estáva­ mos na casa das ferramentas a fazer barquinhos de madeira e Susan passou diante da porta. a mais afiada. Mas não quero expor-me a di­ zer a lição . contando os botões roxos do seu corpete .

Fiquei sozinha à procura de uma solução . Os ponteiros são caravanas avançando no deserto . O outro cambaleia entre as rochas escaldÇtntes do deserto . Miss Hudson sai também. agora aproximo as duas extremidades da curvatura. Agora o terror começa. As ris­ cas pretas no mostrador são oásis verdes . . Pois isto é apenas um começo . Balançam as caudas no ar.Cada tempo do verbo tem um significado particular. Louis está a escrever. Separam-se e reúnem-se de novo . e por ali. Batem com a porta. Não tenho resposta. Pega num pedaço de giz e desenha números . O sentido desapareceu . por aqui. e depois uma cruz e uma linha no quadro negro . sacodem as caudas para a direita e a esquerda. fecho-a. que docemente cicia o latim. . A porta da cozinha bate . Morrerá no deserto . Contém em si o mundo inteiro . Gostava de ter um vestido assim. O ponteiro maior adiantou­ -se à procura da água. Qual a resposta? Os outros olham. O mundo está ali inteiro e eu estou fora dele . há distinções e diferenças no mundo em cuja margem caminho . . são palavras ardentes . Susan está a escrever. Até Bernard começou agora a escrever. disse Rhoda. todas juntas . Riem-se do meu asseio . do meu sotaque australiano . . Deslocam-se em flo­ cos . Come­ ço a desenhar um algarismo e o mundo está contido na sua curvatura mas eu estou fora dela. Olham e compreendem. completo-a.Quando as pronuncio . Tudo o que vejo são algarismos sem sentido .As Ondas 17 tiquetaque . os outros entregam as suas respostas . ajudem-me não me deixem ficar para sem­ pre fora do tempo ! » . disse Susan . Há cães selvagens latindo na distância. O relógio continua a fazer ti­ quetaque . seis. Jinny e Susan . Olhem ! A curvatura deste algarismo começa a encher-se de tempo . Os ou­ tros já tiveram licença para sair. Um a um. um fulvo vestido para usar à noite . Mas agora vou procurar imitar Bernard . disse Bernard. Estas palavras são amarelas . Jinny está a escrever. Agora é a minha vez . um vestido amarelo vivo . Existe ordem neste mundo. Neville está a escrever. Bernard e Neville . disse Nev­ ille . Mas eu não posso escrever.Agora Miss Hudson fechou o livro . disse Jinny. confundem-se numa única correia de couro que me fustiga. sete .Estas palavras são brancas como seixos apanhados na praia. . Os números nada querem dizer. chorando: «Ah . oito .

18

Virgínia Woolf

- Lá está Rhoda, sentada, de olhos fixos no quadro preto , disse
Louis , lá está ela na sala de aula, enquanto nós vagueamos , apanhan­
do um pedaço de tomilho aqui , arrancando uma folha de artetemísia
ali , enquanto Bernard nos conta histórias . As omoplatas de Rhoda
juntam-se nas costas como as asas de uma pequena borboleta. E en­
quanto fixa os algarismos traçados a giz , o seu pensamento aloja-se
nesses contornos brancos e caminha solitária através deles em dire­
ção ao vazio . Para Rhoda, eles nada significam. Não tem solução
para lhes dar. Ela é diferente dos outros . Não tem corpo. Mas eu ,
com o meu sotaque australiano , com o meu pai banqueiro em Bris­
bane , não tenho medo dela como tenho dos outros .
- Vamos rastejar sob a abóbada de folhas da groselheira, disse
Bernard, e contar histórias . Instalemo-nos no mundo subterrâneo .
Ocupemos o nosso território secreto iluminado por groselhas suspen­
sas como se fossem candeeiros , vermelhas e brilhantes de um lado ,
negras do outro . Aqui, Jinny, se nos encolhermos um ao lado do outro,
conseguiremos sentar-nos sob a abóbada das folhas da groselheira e
observar os cachos oscilando como tunbulos de incenso . É este o nos­
so universo. Os outros passam pela estrada das carruagens . As saias de
Miss Hudson e de Miss Curry passam, arrastando-se como apagadores
de velas . Eis as meias brancas de Susan. Aqueles são os sapatos , sem­
pre limpos , de Louis deixando marcas no saibro . Sente-se o sopro
morno das folhas em decomposição , a vegetação que apodrece. Aqui
é um pântano , uma floresta virgem onde a malária impera. Há um
elefante , que os vermes tomam branco; uma flecha atravessou-lhe um
dos olhos . Surgem agora as pupilas brilhantes das aves de rapina águias e abutres . Tomam-nos por folhas caídas . Debicam um réptil,
uma cobra-capelo , e depois abandonam-na com a sua castanha ferida
e purulenta para ser devorada pelos leões . É este o nosso mundo , ilu­
minado pela lua crescente e estrelas cintilantes . Grandes pétalas semi­
transparentes fecham as aberturas da folhagem como se fossem vitrais
roxos . Tudo é estranho. As coisas são imensas e insignificantes . Os
caules das flor�s têm a espessura dos carvalhos; as folhas elevam-se à
altura das cúpulas de vastas catedrais . Somos gigantes deitados , capa­
zes de abalar a floresta.
- O que dizes é verdadeiro aqui , disse Jinny. É verdadeiro neste
momento . Mas em breve teremos de partir. Em breve soará o apito

As Ondas

19

de Miss Curry. E será preciso ir. E teremos de nos separar. Vocês vão
para o colégio , terão professores com crucifixos ao peito e gravatas
brancas . Eu terei uma professora sentada sob o retrato da rainha Ale­
xandra numa escola da Costa Leste . É para lá que vou com Susan e
Rhoda. O que dizes só é verdadeiro aqui , só é verdadeiro agora.
Estamos deitados sob os maciços de groselhas que o sopro da brisa
marcheta de sombras . A minha mão é como pele de serpente . Os
meus joelhos são flutuantes ilhas cor-de-rosa. O teu rosto uma ma­
cieira coberta por uma fina rede .
- O calor já não impera sobre a selva, disse Bernard . Negras fo­
lhas esvoaçam sobre nós . Miss Curry apitou no terraço . Temos de
rastejar pára fora do abrigo das folhas da groselheira e fie� em pé ,
muito direitos . Há pequenos ramos no teu cabelo , Jinny. E uma la­
garta verde no teu pescoço . Temos de ir em fila, dois a dois . Miss
Curry sai connosco para um curto passeio , enquanto Miss Hudson
continua sentada à secretária a fazer as suas contas .
- É aborrecido andar pela estrada sem janelas para observar, sem
os turvos olhos do vidro azul dando para a calçada, disse Jinny.
- Temos de ir aos pares , disse Susan. Temos de andar em ordem,
sem arrastar os pés , nem atrasar o passo , com Louis à frente , a fazer
de guia, porque Louis está sempre vigilante , e nada tem de sonhador.
- Como julgam que sou demasiado frágil , disse Neville , para os
acompanhar, que depressa me canso e depois adoeço , vou aproveitar
esta hora de solidão , este silêncio , para percorrer todos os recantos
da casa e, se for possível , reencontrar, parado no patamar a meio das
escadas , o que senti quando a noite passada ouvi do outro lado da
porta de batentes a cozinheira mexer no fogão enquanto falava dum
homem morto . Foi encontrado com a garganta cortada. As folhas da
macieira imobilizavam-se contra o céu; a Lua resplandecia; e eu não
era capaz de abandonar o patamar. Descobriram o homem numa
valeta. O sangue gorgolejava e o seu rosto estava tão branco como
um pedaço de bacalhau morto . Chamarei sempre a essa contração , a
essa rigidez , a «morte sob a macieira» . Havia nuvens de um cinzen­
to pálido , flutuando; e a árvore impiedosa; a árvore implacável com
casca de prata cinzelada. Em vão a minha vida palpitava. Não era
capaz de seguir em frente . Havia um obstáculo . Sou incapaz de ul­
trapassar este absurdo obstáculo , disse eu . E os outros passaram

20

Virginia Woolf

adiante . Mas estamos todos condenados pela macieira, a árvore im­
placável , que nunca poderemos ultrapassar.
Agora essa contração e essa rigidez cessaram e vou continuar a
minha deambulação pelos recantos da casa na tarde que se faz cre­
púsculo . O Sol faz aparecer manchas oleosas no linóleo , enquanto
uma fresta luminosa se ajoelha na parede , fazendo parecer quebradas
as pernas da cadeira.
- Vi Florrie no quintal , disse Susan . Quando voltámos do passeio.
A roupa lavada flutuava à sua volta, os pijamas , as ceroulas , as cami­
sas de noite , insufladas pelo vento . E Ernest beijava-a. Trazia o avental
de feltro verde , porque estivera a limpar as pratas; a sua boca parecia
uma bolsa pregueada e abraçou Florrie entre os pijamas que adejavam
ao vento . Ele parecia um touro cego , enquanto ela desfalecia e peque­
nas veias vermelhas se recortavam na palidez das suas faces . Agora,
enquanto os dois carregam pratos com pão e manteiga e chávenas
cheias de leite , porque é a hora do chá, vejo uma fenda na terra e um
vapor quente que sobe aos silvos; a chaleira ruge como Ernest rugia
ainda há pouco , e eu flutuo ao vento como os pijamas , enquanto os
meus dentes se cravam no macio pão com manteiga e bebo o leite
doce . Não temo o calor nem o inverno glacial . Rhoda sonha, chupando
uma crosta de pão molhada no leite. Louis olha a parede em frente
com os olhos verdes e pasmados . Bernard faz bolinhas de pão e diz
que são «pessoas» ; Neville acabou de comer com gestos claros e pre­
cisos . Dobrou o guardanapo e enfiou-o na argola de prata. Os dedos de
Jinny rodopiam em cima da toalha, como se dançassem ao sol , fazen­
do piruetas . Não tenho medo do calor nem do inverno glacial .
- E agora todos nos levantamos , disse Louis . Estamos de pé .
Miss Curry abre o livro preto pousado no harmónio . É difícil não
chorar quando cantamos os hinos , quando suplicamos a Deus que
nos guarde durante o sono , e nos chamamos crianças a nós próprios .
Quando nos sentimos tristes e a inquietação nos faz tremer, é bom
cantarmos juntos , levemente inclinados , eu em direção a Susan , Su­
san em direção de Bernard, as mãos agarrando-se temerosas de mui­
tas coisas , eu do meu sotaque , Rhoda dos algarismos , mas todos
decididos a vencer.
- Subimos as escadas , saltando como póneis, disse Bernard, pa­
teando com força, atropelando-nos uns aos outros à espera da nossa

As Ondas

21

vez n o quarto de banho. Esbofeteamo-nos , lutamos , saltamos e caímos
nas nossas duras camas brancas . Chegou a minha vez . Aí vou eu .
Mrs . Constable , com uma toalha à volta da cintura , pega na es­
ponja cor de limão e mergulha-a na água; a esponja toma-se cor de
chocolate; pinga. E ela levanta-a sobre mim , que tremo , levanta-a
muito alto , e espreme-a. A água desliza pelas fendas secas do meu
corpo . O corpo frio aquece . O meu corpo inundado brilha. A água
desce e percorre-me como uma enguia. Agora estou envolto em
toalhas quentes e a sua aspereza faz o meu sangue ronronar quando
esfrego as costas . Intensas e magníficas sensações formam-se no
meu cérebro como num telhado . As imagens do dia chovem sobre
mim - as florestas ; Elvedon ; Susan e o pombo-bravo . Escoando­
-se pelos muros do meu pensamento , reunindo-se em torrentes , o
dia escorre copioso e resplandecente . Agora, ato frouxamente o
meu pijama, e deito-me sobre o lençol fino , flutuando na luz difusa,
como se houvesse uma película de água espalhada nos meus olhos
por uma onda . Ouço ao longe , coado pela distância, o coro noturno
que começa: o rodar dos carros , cães , homens gritando , o toque do
sino das igrejas .
- Tal como dobro a minha saia e a blusa, disse Rhoda, dispo o meu
vão desejo de ser Susan, de ser Jinny. Estendo os dedos dos pés até
tocarem a barra de ferro na extremidade da cama. Tocando a barra de
ferro , sinto-me segura. Agora não posso deixar-me ir ao fundo; não
posso deixar-me cair através deste fino lençol . Estendo o meu corpo
neste frágil colchão e fico suspensa no ar. Plano acima da terra. Já não
estou de pé, já não corro o risco de ser atacada e ferida. Agora tudo se
toma suave e flexível .
Os armários e as paredes embranquecem e inclinam os seus qua­
dros amarelados sobre os quais reluz um vidro pálido . Agora o meu
pensamento pode transbordar para fora de mim. Posso sonhar com
as minhas armadas vogando em altas ondas . Estou a salvo dos em­
bates . Navego solitária entre recifes brancos . Mas , oh , estou a afun­
dar-me , a cair ! Mas reconheço o canto do armário; e o espelho do
quarto das crianças . Mas eles estendem-se , alongam-se . . . Mergulho
na plumagem obscura do sono; as suas asas densas pesam-me nos
olhos . Viajando na escuridão , vejo os longos canteiros de flores , e
Mrs . Constable surge a correr de trás das ervas , a dizer que a minha

voltam-me e fazem-me cair.22 Virginia Woolf tia me vem buscar de carruagem. arrastam-me nos seus ombros imensos . Mas as ondas precipitam-se sobre mim. estou estendida no meio das longas luzes . cheias de pessoas que me perse­ guem. onde a minha tia está sentada. até à copa das árvores . com os olhos duros como pequenas esferas vítreas . perseguem. Oh o despertar do sonho ! Ali está a cómoda. alço-me com sapatos de salto em mola. escapo. à porta do vestíbulo . agitando as penas amarelas . fujo. . Mas caio agora em plena carruagem. Elevo-me nos ares. Quero sair destas águas . em alamedas intermináveis . no meio das grandes ondas .

Agudas sombras jazem sobre a relva. transforma o jardim num mosaico de cintilações dispersas. abrem um rápi­ do leque sobre a praia. como se o esforço do desabrochar as tivesse transtornado . numa vibração surda. ainda há pouco enevoadas e ma­ cias. desenfreados como um par de patinadores enlaçados . As rochas. Depois. subitamente. o sol lançava agora raios mais largos . ficavam em silêncio e partiam. um fruto sem sementes. as ondas desfaziam-se nos rochedos. A luz aflorava qualquer coisa verde no canto da janela. Sobre a casa. Os pássaros. dançando na ponta das folhas e das flores. cantavam juntos uma ou duas melodias. Ondas azuis. que não chegam a fundir-se numa só mancha luminosa .O Sol ergueu-se mais . o orvalho. Dir-se-ia que o prato de porcelana se diluía e a faca de aço se tornava líquida. ondas verdes. qualquer coisa que se trans­ formava numa esmeralda. com o peito salpicado de amarelo e rosa.finas poças de luz . abria-se aqui e ali um botão. E durante todo esse tempo. numa gruta de puro verde. Atrás de si. Depois. . soltando flores cheias de pequenas veias verdes ainda palpitantes. as suas frágeis corolas faziam um vago carri­ lhão . como troncos de árvores tombando na areia. Ao baterem nas paredes brancas. tornava mais agudos os contornos das cadeiras e das mesas e iluminava a renda branca das toalhas entretecidas de fios doirados. A medida que a luz aumentava. Tudo se fundia e perdia docemente a sua forma . as ondas largam uma pálida orla negra . rodeando as pontas dos cardas marinhos e deixando aqui e ali. endureceram e mostram as suas fendas vermelhas .

di!lse Louis. com os seus casacos compridos e pequenas malas de mão. o olhar dos relógios . E. esses rostos indiferentes . Vou segui-lo . que estou a ir para o colégio pela primeira vez: «Aque­ le rapaz vai para o colégio pela primeira vez» . à vontade. Estou sozinho: vou para o colégio . O fiacre está à porta. Devo aparentar indife­ rença. é preciso continuar a acenar. Agora abrem-se diante de mim as horríveis portas da estação. por impulso próprio . junto da bilheteira. O peso da minha mala arqueia ainda mais as pernas de George . Balança a mala enquanto caminha. Calmo . seguimos em frente. no entanto . É ter­ rível este sentimento de imediata fatalidade . soprando vapor.. Cada um de nós parece ter qualquer coisa a fazer num dado momen­ to . Chegou o dia. aqui está Nev­ ille . uma bandeira agita-se . Agora é a cerimónia dos adeuses à minha mãe . diz a criada enquanto lava os degraus das escadas . O chefe da estação apita. como uma torrente arras­ ta gravetos e bocados de palha à volta do pilar de uma ponte. Não devo chorar. A horrível cerimónia dos conselhos e das despedidas no hall j á aca­ bou . a máquina sem pesco­ ço. Aqui está Louis . . porque ele não tem medo. toda costas e quadris. O relógio com cara de Lua está a olhar para mim. disse Bernard . Tranquilos . qualquer coisa que só pode acontecer uma vez. pela primeira vez na vida. Eis a poderosa máquina verde-garrafa cheia de força. So­ mos arrastados da bilheteira até à plataforma. Sem esforço.Cá está o Bernard. esses rostos que me fitam.A hora chegou . Nunca mais . É preciso continuar a acenar até dobrar a esquina. parecem diferentes do habitual . como uma avalancha iniciada com um ligeiro impulso. Toda a gente sabe que vou para o colégio . cheia de soluços sufocados e o ritual do aperto de mão a meu pai . Tenho de inventar frases e mais frases para interpor qualquer coisa de duro entre mim e o olhar das criadas . Ber- . Sem isso choraria.

Com paixão nunca vaga ou obscura. onde eu hei de explorar a exatidão da língua latina. O meu primo é mestre dos cães de caça. uma biblioteca. imóvel . . demasiado lustroso . uma igreja branca. mas ele parece-me ridículo . O velho Crane . é realmente um momento solene . .As Ondas 25 nard abre uma espécie de toalha e começa a jogar com ossinhos. Saúdo o fundador. ali um mastro entre campanários. disse Bernard. E do lado esquerdo do colete retesado como um tambor. Um canal . Gosto de palavras tremendas e sonoras . cantarei os amores de Catulo .Depois desta confusão toda. Há já luzes acesas nas salas de aula. Ali talvez sejam os laboratórios . Londres cresce e desaparece . o ilustre fundador. caminhar com firmeza por entre frases solidamente construídas e pronunciar os hexâmetros sonoros e explí­ citos de Virgílio e Lucrécio . disse Neville . Agora grandes espaços abertos com caminhos de asfalto onde é estranho ver as pessoas passarem. uma ravina cheia de árvores vista de uma janela do comboio . o meu pai é banqueiro em Brisbane e tenho sotaque australiano . o Reitor. com um pé no ar. um in­ -quarto de amplas margens . e a cova do queixo parece uma ravina cheia de árvores que algum viajante incendiou . Também hei de deitar-me nos campos . Que Deus me proteja. Um nobre ar romano paira sobre o pátio . Este é realmente um mo­ mento . . de todo o barulho e de todos os encontrões estamos a chegar.O velho Crane ergue-se para nos falar. Eis o fundador do colégio. Mas eu não posso vangloriar­ -me. eri­ çada de chaminés e torres. no jardim. Atenção ! Vem aí o reitor. há um crucifixo pendurado . Entro como um senhor no seu domínio . «Ü meu tio é o melhor atirador de Inglaterra. onde os caules das ervas nos arranham ao de leve . Hei de deitar-me em companhia dos meus amigos sob os olmos gigantes . Nev­ ille está a ler. O rapazinho vestido de azul desvia-o para o lado . Crane balouça-se ligeiramente ao proferir as suas pala­ vras tremendas e sonoras . Há uma colina raiada de casas vermelhas.» Começam a vangloriar-se . É demasiado educado . lendo-os num enorme livro . tem um nariz como uma montanha ao pôr do sol . Londres fragmenta-se. Aqui . como uma está­ tua numa praça pública. Aqui . Um homem atravessa uma ponte sempre seguido pelo cão. O rapazinho vestido de vermelho começa a disparar contra um faisão .

Do anel de Miss Lambert desprende-se um clarão violeta. Se não mordo os lábios . . abrindo caminho através das portas giratórias e todos os professores fazem o mesmo . tudo é mentira.26 Virginia Woolf Mas as suas são demasiado cordiais para serem verdadeiras . vestidas de sarja castanha.Esta é a minha primeira noite no colégio . Es­ ta grande comunidade . vou chorar. roubou-me a identidade . e então hei de encon­ trar (é uma promessa) um pequeno vale numa floresta e aí poderei depositar a minha provisão de estranhos tesouros . neste momento . disse Rhoda. sob mapas que representam o mundo inteiro . Desfizemos as malas no dormitório e agora estamos sentados em rebanho . É esta a nos­ sa primeira noite no colégio . hostis . oscilam pesadamente e atravessam as portas giratórias . um calmo rosto monumental e vou conceder-lhe o dom da sabedoria. tem um vestido brilhante . Odeio o cheiro da madeira de pinho e do linóleo . se não amarfanho o lenço . Sai da sala os­ cilando pesadamente de um lado para o outro . Não tenho rosto . ele acredita nas suas palavras . atravessando a mancha negra da página branca do Livro de Orações . atravessado de veiozinhos . Vou procurar um rosto . . É uma apaixonada luz cor de vinho . toda vestida de sarja castanha. Prometo a mim própria. disse Jinny. A porta da cozinha bate e o tiro atravessa a folha­ gem quando Percy dispara contra as gralhas . que está sentada sob o retrato da rainha Ale­ xandra. os meus olhos estão magoados de lágrimas . usá-lo por baixo do vestido como um talismã. Odeio os ditos joviais e o aspeto polido de toda esta gente . Somos todas insensíveis . Aqui serão escritos a tinta os nossos deveres . E . Aqui tudo é falso . e olham Miss Lambert. con­ tudo . já não preciso de chorar. longe de casa. disse Susan. Mas aqui não sou ninguém. Há também uma tapeçaria azul bordada por alguma antiga aluna.Aquela mulher de cabelos negros com as maçãs do rosto salien­ tes . lendo um livro aberto à sua frente . Há escrivaninhas com tinteiros a transbordar. juntas . Assim. longe das nossas irmãs . separada do meu pai . . Tenho os olhos inchados . O clarão vai e vem. Odeio os arbustos agitados pelo vento e os azulejos da casa de banho . Antes de partir confiei o meu esquilo e os meus pombos ao criado mais novo . Rhoda e Jinny sentam-se longe . .

quando as lâmpadas s e acendes­ sem. porque era por piedade que se lembravam de mim. recupero a minha continuidade . cada vez mais até se emaranharem em qualquer coisa dura. A sua corpulência e a sua autoridade enchem-me de júbilo . Gosto de desfilar em ordem. em procissão para a capela. Sentamo-nos nos nossos lugares . Ele dissipa as nuvens de poeira do meu espírito trémulo . Gosto deste momento em que o doutor Crane sobe ao púlpito oscilando levemente mas graças apenas ao seu próprio ímpeto e lê um texto da Bíblia aberta no dorso de uma águia de bronze . como pedras da calçada. disse Neville . Tudo se dissipa agora por causa da sua autoridade e de crucifixo que traz ao peito e começo a sentir terra firme sob os pés . enquanto a cruz dourada oscila . Enquanto o doutor Crane lê. Depois . Então . num raio da imensa roda que gira até me depositar aqui e agora. flutuando à volta do meu corpo e ondulando quando eu entrasse na sala com passos de bailarina. dando-me depois uma reluzente bandeira inglesa que estava em cima do pinheiro.As Ondas 27 como uma concha. ténue como um véu . marchamos dois a dois. Aqui não há crueldade alguma. vestiria o meu vestido vermelho . colunas e placas funerárias em bronze . E nós rezamos . . ordeiramente . disse Louis . um vestido para usar à noite . do meu espírito ignominiosamente agitado . Estava nas trevas. Entramos nas filas de bancos . . Sem o ardor da imaginação. É bom para o verão . as palavras dele desabam gélidas sobre a minha cabeça. estava escondido.As orações deste bruto ameaçam a minha liberdade. e eu começava a chorar de raiva. o vestido tomaria a forma de uma flor.Agora. as raízes mergulhando cada vez mais. quando ela se senta sob o retrato da rainha Alexandra comprimindo um dedo branco contra a página. Transformo-me num personagem da procissão. na altura da entrega dos presentes . mas no inverno preferia um fino vestido brocado de fios vermelhos . Aqui despojamo­ -nos das nossas diferenças . Mas Miss Lambert usa um vestido opaco . se esqueciam de mim e a mulher gorda dizia: «Este menino ainda não recebeu nenhum presente» . Gosto da penumbra que nos envolve quando entramos neste edifício sagrado.tal como quando dançávamos à volta da árvore de Natal e. mas quando a roda gira (quando ele lê) . quando me deixasse cair numa cadeira dourada a meio da sala. descendo em cascata pelos tu­ fados brancos . brilhando à luz d a lareira. nem beijos inesperados . ergo-me na clara penumbra onde a custo vislumbro rapazes ajoelhados .

. Anoto este facto . nada ouve . com crianças rolando-se no pó . vejam: leva a mão à nuca. Jones . por uma estrada branca sombreada de figueiras . mas moles e insignifi­ cantes . Está ali sentado . cadavéricas . Deve­ ria ter na mão uma vara de vidoeiro e bater nas crianças que se por­ tassem mal . estive em Roma com o meu pai. A voz dele é áspera como um queixo por barbear. entre os mais pequenos . Na Páscoa. entre outros . irei ver a letra B e lá encontrarei as palavras «Borboletas brancas reduzidas a pó» . E os odres em pele de cabra. Dalton. estão a acabar os grunhidos do doutor Crane . Se no meu ro­ mance tiver de descrever um raio de sol num parapeito da janela. estão pendurados à porta da taberna. mergulhado no seu universo pagão . Aí escreverei as minhas notas . estas figuras nausea­ das e trémulas avançando . feridas . Reduziu a pó o bailado das borboletas brancas na porta. Na letra B . Só sinto escárnio e riso por esta religião tristonha. para futu­ ras referências . E hei de ver Percival . respira profundamente através do seu nariz grego . Crianças nuas . no meu caderno . A árvore «projeta na janela a sombra dos seus . Está absorto nas palavras latinas inscritas no bronze das placas funerárias .Finalmente . Agora regressa ao seu lugar cambaleando como um marinheiro bêba­ do . Os seus trejeitos parecem-me dignos de compaixão . Agora vou inclinar-me para o lado como se estivesse a coçar a coxa. Podia vir a ser um pároco admirável .28 Virginia Woolf no seu colete. fixam com indiferença pagã a coluna em frente . A imagem vacilante da mãe de Cristo passeava pelas ruas. have­ rá por exemplo «Borboletas brancas reduzidas a pó» . Está longe de nós todos. passou também a fla­ gelada imagem de Cristo. Nada vê. Há de ser-me útil. Todos os dogmas são corrompidos por quem os expõe. muito direito . Mas sem o mesmo efeito . Não os desprezo. Os olhos azuis . terei sempre comigo um espesso caderno de notas com numerosas páginas metodicamente dispostas por ordem alfabética. inchados de vinho. O sermão terminou . disse Bernard. Edgar e Bateman levam também a mão à nuca. Um gesto assim pode deixar-nos irremediavelmente apaixonados para o resto da vida. estranhamente inexpressivos . Quando for grande . Mas . no interior de uma caixa de vidro. Os outros professores vão tentar imitá-lo. tudo o que hão de conseguir é parecer ridícuios nas suas calças cor de cinza.

Deixemo-lo descrever aquilo que todos vimos. Deixá-lo enredar-se nas suas histórias . tudo me distrai . Tem a magnificência de um comandante medieval . as nuvens no céu . Olhem. saímos desta igreja fria para a extensão amarela dos campos de jogos . . no meio da relva alta. Louis pode . disse Neville . a história da vendedora de caracóis . prontos a servir-lhe de carne de canhão .As Ondas 29 dedos verdes» . o lago do meu espírito ondula pacificamente e em breve desfalece. adoro a sua magnificência. vamos sentar-nos entre a erva alta. rasga-me o peito como uma espada de dois gumes.E agora. O jogo parece travar-se aí e ténues gritos soam entre as macias nuvens brancas: «Corre?» ou «0 que foi?» A brisa desprende flocos brancos das nuvens . O meu coração agita-se . Caminha desajeitadamente pelo campo . Bernard diz que há sempre uma história. Esta também pode servir. calmo como um mar de azeite . batendo a bola por entre as ervas que estremecem . não hesitaria. havia de me curvar sobre as caneleiras e correr pelo campo fora à frente da minha equipa. por­ que ele vai tentar certamente alguma empresa desesperada e morrerá em combate . Um rasto de luz parece desprender-se da relva que pisou . com caneleiras . até que isso adquira a sequência lógica do que já é conhecido . Louis é uma história. Deixemo-lo enredar-se nas histórias que conta enquanto repousamos tranquilamente deitados . Eu sou uma história. deixemos Bernard começar. enquan­ to os outros jogam críquete . Percival é pesado . sem pestanejar. Se pudesse estar no lugar deles . por outro . a história do homem que só tinha um olho . Os cabelos entrançados como açúcar em ponto de carame­ lo ou a coberta em marfim do livro de orações de Célia. O mundo parece feito de flutuantes linhas curvas . Ao deixar de ser agitado pelos remos . até ao sítio onde se elevam os grandes olmos . Se este céu . Eu sucumbo logo que me falta o estímulo das palavras . Mas ai de mim. E como temos meio-dia de feriado (é o aniversário do duque) . enquanto eu fico deitado de costas fi­ tando os vultos rígidos dos jogadores . por um lado . Olhem. servos fiéis.E agora. disse Louis . Esta frase também me será útil. . como todos vão agora atrás de Percival . Através das árvores olho para o céu . olhar a natureza durante horas .as árvores sobre a terra. Há a história do rapazinho das botas . como trotamos atrás dele . desprezo a sua pronúncia negligente (aí sou superior a ele) e tenho ciúmes .

Após a discórdia. Esta­ mos a separar-nos. unidos pela terrível força de uma compulsão interior. deixem-me tentar captar este momento . escapei ! é o que sentimos ao ouvi-lo . conta-se também este . E de repente . as suas comparações disparatadas . é o momento terrível em que Bernard falha. um abutre» . desprendido mas sedutor. o meu pensamento estilhaçado sente-se reconstruído por uma perceção inesperada. um ca­ melo. . . . Imediatamente Bernard percebe que nos abor­ recemos . É preciso que este momento permaneça. neste círculo feito na relva. ficamos li­ vres. Deixam as ervas fazer-lhes cócegas no nariz . para os campos de ténis . uns vão para o chá. Mas eis que rola entre as ervas altas . As suas imagens fervilham: «como um camelo . Larpent e Baker) sentem a mesma ligeireza. . Apanham as frases enquanto elas fervilham no ar. Baker. . se esta fresta entre as ramagens permanecesse. antes de nos levantarmos . outros. Mas Bernard continua a falar. uma certa extrava­ gância. as nu- .30 Virginia Woolf azul pudesse continuar para sempre. O camelo é um abutre. Aqui . nasço inteiro . Até os rapazinhos gordos (Dalton . Entre os tormentos e devastações da vida. Pa­ rece mastigar um caule nos dentes . Eu. A frase de Bernard perde-se na sua própria debilidade . pasmado . Sente-se aborrecido: também eu me sinto aborrecido . todos sentimos Percival instalar-se pesadamente entre nós . fora da discór­ dia. Adivinho um esforço nas suas palavras . Sim. Sim. após o ódio (desprezo os que têm uma imaginação superficial) . Tomo as árvores e as nuvens como testemunhas da minha perfeita integração .o de os nossos amigos não serem capazes de completar as suas histórias . com as suas palavras . O seu estranho riso pare­ ce aprovar a nossa alegria. senti­ mo-nos leves . porque Bernard é um fio suspenso . e deixa de haver continui­ dade . É preciso que este momento permaneça. o ascendente de Percival magoa­ -me . Louis . uma maneira de dizer: «Olhem» . Mas Percival diz: «Não ! » Ele é sempre o primeiro a detetar a insinceridade e é extremamente brutal . prestes a chorar. se este momento pudesse durar sempre . estamos sentados . num supremo esforço da vontade . Preferem-no ao críquete . sem ódio . eu vou mostrar o meu ensaio a Mr. disse Louis . As árvores acenam . antes de irmos tomar o chá. Ficamos a flutuar como uma bolha de ar. que deverei andar pela terra nos próximos setenta anos . o abutre .Agora. e ele engasga-se e torce entre os dedos um pedaço de cordel e fica em silêncio .

Crianças . Do mesmo modo . E contudo . dia odiado .Jinny e e u e Rhoda. as nucas tocadas no meio dos jardins . em sombrios dias de inverno. as mesmas lições . E esta noite . digo. o vento que passa e abre na ramaria espaços de céu azul . conto cada degrau como uma coisa definitivamente passada. dia passado no co­ légio . Lá em casa. Conto os degraus enquanto subo.hoje são já 25 . seguido pelos alunos mais pequenos . Faço-o para me vingar enquanto Betty e Clara rezam ajoelhadas . as nossas vidas eram gongos batidos . com as mesmas pancadas de gongo . que vem atrás de nós . embora seja qualquer coisa que Percival pode destruir quando se afasta com o seu ar pesado . em frescos dias de prima­ vera? Agora estamos em pleno verão . Eu não rezo . porque é Percival quem inspira a poesia. clamor e orgulho. Agora estás morto . Não ficaremos para sempre a emitir apenas sons como os de um gongo que ressoa quando as sensações o atingem. disse Susan. trabalharmos . O meu pai está encostado à cerca a fumar. que humilde­ mente trotam atrás dele . o tempo há de vir em que todos estes monólogos serão partilhados . Neste momento . espaços que as próprias árvores reco­ brem de novo agitando as folhas que retomam os antigos lugares. Subimos para nos mudarmos . e o círculo que formamos aqui sentados . quantos anos . De carruagem pelo asfalto das estra­ das . . Uma pétala cai de uma jarra cheia de rosas . quan­ do o ar do verão atravessa os corredores vazios . uma ordem superior. Talvez um quadro antigo oscile na parede . Esta gente conseguiu dar a todos os dias de junho . subi a correr estas escadas . fun­ di-la num anel de aço . Ouvimos missionários vindos da China. esmagando a erva sob os seus passos . lágrimas de desespero.o mesmo ar limpo e arranjado . .As Ondas 31 vens passam. descarregando o meu ódio contra as suas imagens . tentarei fixar esta descoberta em palavras . Percebo-a por um instante . o feno ondula nos campos . Vingo-me do dia. mudarmos de roupa. uns junto dos outros com os joelhos entre os braços . todas as noites arranco do calendário o dia que acabou e amarroto-o numa pequena bola. depois outra. as mesmas ordens para nos lavarmos . para vestirmos roupas brancas de ténis . Uma porta. bate dentro de casa. é de Percival que preciso. tudo isto sugere uma outra ordem das coisas . a erva e as árvores . fomos ouvir concertos e visitar galerias de arte . cuja razão de ser é eterna. comermos .Durante quantos meses .

E os meus lábios ficam grandes de mais e os olhos muito próximos . Miss Perry ama Jinny. ao lembrar-me da casa. Vejo o meu corpo e a cabeça juntos. Quando me rio . danço. sou incapaz de seguir uma palavra através das suas significações variáveis . exceto meu pai . Jinny dança sempre no vestíbulo . onde está pendurado o espelho comprido . atrasando-se . que os poetas hão de amar. nem me vou deitar como faz Rhoda. Vejo todas estas coisas . ao mesmo tempo que passo pelo espelho do patamar. Não con­ sigo acompanhar nenhum pensamento que remonte do presente ao passado . não amo ninguém. pois até nesta roupa de sarja o meu corpo e a minha cabeça são uma só coisa. ao vê-los pousar em minuciosos bordados brancos . não por mim. É assim que subo as escadas . ultrapassando-as a ambas até ao próximo pata­ mar. nestas paredes impessoais debruadas a amarelo . E. Movo-me como se movia a folha na sebe quando eu era pequena e me assustava. agora. de lágrimas nos olhos . atravessando os ladri­ lhos feios e gastos. veem-se as gengi­ vas . todo o meu corpo estreito ondula. co­ mo uma chama dançando sobre um bule . Irrompo como uma dessas chamas que correm entre as fendas da terra. Só mostra a cabeça das pessoas. colhe uma flor proibida e enfia-a na orelha. com Jinny à minha frente a Rhoda. não paro de me movimentar e dançar. eu poderia tê-la amado . . decapita-nos . estou sempre a vê-las . como um caule ao vento .por Jinny. com o seu olhar cruel e olhos verdes cor de relva. quando movo a cabeça. Sim. uma risca violeta corre pela mancha escurecida dos livros . contudo .32 Virginia Woolf As carroças da quinta deixam tufos de feno pelas sebes . todavia. como diz Ber­ nard . como Susan .Odeio o pequeno espelho do patamar. faz rodar o arco no pátio. Não fico parada. movimento-me. se basta a si próprio. Danço nestas paredes raiadas . encolhida entre os fetos que mancham de verde a minha roupa cor-de- . disse Jinny. Aí vejo-me inteira. até as minhas pernas ma­ gras ondulam. Incendeio-me até sob os olhares frios das mulheres . Jinny dança. e os olhos escuros de Miss Perry ardem de admi­ ração . Oscilo entre o duro rosto de Susan e o rosto sempre vago de Rhoda. tal como as pétalas brancas que ela costumava lançar na água da bacia de cobre . Quando estou a ler. O meu rosto é eclipsado pelo de Susan . perdida. até o rosto de Rhoda. os pombos e o esquilo que deixei em casa dentro da gaiola ao cuidado do criado mais novo . lunar e vazio .

Se me dissessem. a cidade ficaria dourada e as pedras da calçada começariam a refulgir. Têm segredos que ciciam pelos cantos . enquanto sonho com plantas que florescem no fundo do mar e com rochedos onde há peixes nadando lentamente . Dou grandes saltos para despertar a sua atenção . Não tenho rosto. Imagino todas essas pessoas desprovidas de nome . Ambas me desprezam porque as imito . na cama. A violência da emoção faz-me vacilar. E sabem sem­ pre o que devem dizer quando alguém fala com elas . estão aqui . porque é mais resoluta e tem menos desejos de brilhar que Jinny. observando-me por detrás dos arbustos . Dizem «sim» . Os objetos que levantam têm peso . acontece-me muitas vezes mergulhar no vazio . Por isso . ou eu descobrisse pela etiqueta das malas . que me revelam o meu verdadeiro rosto . Mas prefiro os modos de Susan. Agora. À noite . O mundo delas é real . mas . e quan­ do estiver a jogar a fita vai ondular sem nunca deixar o seu lugar sobre a minha nuca. Sufoco . Quando estou sozinha. apressemo-nos . ela olha-as sem rir. me modifico e desvendo num instante . Têm amigas junto de quem se sentam . a criada ri-se .As Ondas 33 -rosa. brancas e limpas . Eu não sonho . Olhem com que extraordinária exatidão Jinny calça as meias para ir jogar ténis . Aquele rosto é o meu rosto . a dar um laço . Prendo o cabelo com uma fita branca. odeio os espelhos. imaculadas . Aqui estão os meus sapatos novos . As outras pessoas têm rosto. Susan e Jinny têm rosto. Nem um só dos meus cabelos ficará em desordem.É o meu rosto que vejo no espelho . en­ quanto eu hesito . Riem-se de ver­ dade e zangam-se de verdade . Se for eu . enquanto eu tenho de olhar à volta e fazer o que vejo que os outros fazem. Vou agachar-me atrás dela e escondê-lo pois não estou aqui . por exemplo . Quero ser a primeira a tirar estas roupas grosseiras . Preciso de poisar furtivamente os pés no . Se encontram uma criada. Morri muitas vezes trespassada por flechas apenas para lhes arrancar algumas lágrimas . Susan ensina-me . . procuro exci­ tar-lhes a admiração . enquanto Jinny guarda para si a sabedoria que possui . que tinham estado a passar fé­ rias em Scarborough . Mas eu só me ligo a nomes e rostos e entesouro­ -os como amuletos que evitam a desgraça. Aqui estão as minhas meias . Admiro-a. dizem «não». Escolho na sala um rosto desconhecido e quase não consigo tomar o chá quando aquela cujo nome não sei se senta à minha frente . às vezes . por trás do ombro de Susan. disse Rhoda.

e ao cortar a carne nascem labaredas . Em noites de inverno . ouve-se o seu bramido . o refeitório sempre a cheirar a carne . Em minha casa. as coisas à minha volta perdem a sua dureza. As margaridas transformam-se quando Miss Lambert passa. . Detesto ver as outras pessoas jogarem. conversando com o pastor. Quando chegar ao tanque. . Onde quer que ela vá. Vou atribuir às coisas que me cercam significados odiosos e enterrá-las o mais fundo possível . até o meu . À parte isso . o seu anel cor de vinho. Gostava de enterrar os tijolos vermelhos . sentado na sua carroça. as outras riem e imitam-lhe a corcunda. O ano passado . gostava de enterrar tudo . Tenho de bater com a mão numa porta dura para regressar ao meu corpo . Vamos deitar-nos aqui . Mas não estaremos a vê-las . e a capela. Quando nos deixam. A própria Jinny salta mais alto quando Miss Lambert passa. disse Susan . Quando para. e o s retratos oleosos dos homens velhos . Temos de esperar pela nossa vez de jogar. Posso acompanhá-las até ao tanque e transformá­ -las em majestosas estátuas . E gosto da vista que se tem do sótão para as colinas distantes . no Natal . tudo à sua volta se toma solene e pálido. fingindo que estamos a ver jogar Jinny e Clara.34 Virgínia Woolf rebordo do mundo para não cair no nada. a sala de aula. sobre a erva alta. Deixa cair dos ombros a capa de longas franjas e só o seu anel de ametista conti­ nua a brilhar. diz Rhoda. como uma estátua numa gruta.Quando Miss Lambert passa. como a cerejeira com a casca cheia de resina translúcida. Esta pedrinha reluzente é Madama Cario e vou enterrá-la por causa dos seus modos aduladores e insinuantes e da moeda de seis pence que me deu para me obrigar a ter os dedos estendidos quando toco escalas . tudo se transfigura e ilumina. Há aqui algumas árvores de que gosto . há de ver uma rã sobre uma folha e a rã também se vai transformar. benfeitores ou fundadores de escolas . Apesar disso. Betty e Mavis .Atrasámo-nos . Seria capaz de en­ terrar a escola inteira: o ginásio . Como conseguirão voltar a ser o que eram quando ela se vai embora? Miss Lambert atravessa a cancela e conduz o pastor ao seu jardim privativo . as coisas transmutam-se sob o seu olhar. as pessoas tomam-se misteriosas . como estou a enterrar as horríveis pedras espalhadas nesta praia cheia de paredões e turistas . um homem afogou-se quando estava sozi­ nho . Vou enterrar a sua moeda de seis pence . No decurso dos meses . as vagas têm lé­ guas de comprimento .

as minhas vértebras tomam-se macias como a cera junto à chama de uma vela. que tudo dança: a rede de ténis . como uma flor. Andam sempre em filas de quatro. fa­ zem soluçar os rapazes mais novos nos corredores sombrios . a relva. quando vos vejo jogar. .os nomes repetem-se. Vejo com toda a nitidez os caules da erva. disse Louis . deitada sozinha na terra dura. e dança. têm . fazem uma saudação simultânea. se pudesse acompanhá-los . . nem de definitivo neste universo . são eles os escuteiros. disse Jinny. os membros da Sociedade de História Natural. batendo no peito . tudo é rapidez e triunfo . E retiramo-nos para um canto . em bandos com emblemas nos bonés . tão magnífica a sua obediência! Se pudesse ir com eles . No meu corpo tudo parece mais límpido com a corrida e a vitória. Sufoco de correr tanto. viraram todos a cabeça ao mesmo tempo . as vagas que batiam no meu peito acalmam e o meu coração lança âncora. O jogo acabou . . O irmão de Larpent foi da equipa de futebol de Oxford. Os vossos rostos esvoa­ çam como borboletas e as árvores parecem saltar. Partiram na grande carruagem cantando em coro. excitado. Agora é a vossa vez. junto do maciço dos loureiros. no entanto. Larpent e Smith . Con­ tudo. As árvores voltam a enraizar-se no solo . começo a ter vontade de ser escolhida. sozinhos . Te­ nho as plantas dos pés tão sensíveis como se nelas houvessem ramifi­ cações de fios elétricos . . com o vestido flutuando aos pés . são sempre os mesmos . Agora. se sente atraído por mim. atiram para os cantos lenços sujos de sangue coagulado. Estou a sonhar . os jogadores de críquete. Tenho de me deitar no chão e retomar fôlego. Parker e Dalton. E o meu sangue deve estar vermelho vivo. Tudo ondula. Não há nada de fixo . E. Quando passam pela estátua do seu general . Contudo. de tanto vencer.Ganhei o jogo. . atrás dos meus olhos.O grupo de meninos convencidos foi jogar críquete. sacrificaria tudo o que conheço . o sangue lateja de tal modo na minha cabeça. como um barco cujas velas caem devagar no convés imaculado .As Ondas 35 corpo deixa passar a luz. Na esquina. e não é capaz de se afastar e fica a meu lado quando me sento na cadeira dou­ rada. Agora vamos tomar chá. convidada. os dois a conversar. . eles deixam atrás de si borboletas cujas trémulas asas vão mur­ chando. o pai de Smith pertence há um século à Câmara dos Lordes. É tão majes­ tosa a sua ordem. Archie e Hugh. exibem-se . Agora a maré está a descer. sentados numa sacada. chamada por alguém que vem e me encontra. a sonhar .

aceita a trémula e. Nem sequer acenou quando a carruagem dobrou a esquina junto ao maciço de loureiros . Aceita. Olho-os com inveja. não sou capaz de sentir o voo da bola no meu corpo e de pensar apenas nela. E. de mim que tanto desdém tenho pela sua estupidez . até de Shakespeare? Mas sou incapaz de ficar um dia inteiro ao sol de olhos postos na bola. abjeta oferenda que lhe faço de mim próprio . entre ele e a lua. Só pensa nos jogos . Se as minhas pernas tivessem a força das deles . Serei para o resto da vida alguém agarrada à fímbria das palavras . enquanto a carruagem os leva pela estrada.» A vitória da sua equipa será o seu único pensamento. Despreza-me por ser fraco de mais para jogar (embora se mostre sempre atencioso para com a minha fragilidade) . quan­ do se deita nu e se envolve no calor da sua cama. no entanto. A sua incorrigível me­ lancolia impede-o de ir.Percival foi-se agora embora. não seria capaz de viver com Percival e suportar a sua estupidez. Agora.36 Virginia Woolf enormes orelhas vermelhas despontando sob os bonés . Não o sentido das palavras . Despreza-me porque a mim não me interessa que eles ganhem ou per­ cam. a minha dedicação. Para enquanto está a lavar as mãos . Vai casar-se e haverá cenas de ternura no seu pequeno-almoço . contudo . ele percebe melhor que Louis . Atrasa-se demasiado para poder ir com eles . fitando a baliza. Mas como poderia eu acompanhá-los na carruagem e jogar críque­ te ? Só Bernard poderia fazê-lo . e diz: . Agora. observo deliciado a simultaneidade dos seus movimentos . E vai rezar: «Meu Deus . Nem um fio. a não ser na medida em que isso lhe interesse a ele . e começará a roncar. entre ele e a chuva. que torrente de palavras não jorraria da minha garganta! . Dryden. Mas quando leio alto Shakespeare ou Catulo. Vai tirar o casaco e postar-se de pernas abertas e mãos pron­ tas . nem uma folha de papel se interpõem entre ele e o sol . com que voz de trovão não entoaria as canções da meia­ -noite.mas o que são afinal as pala­ vras? Acaso não sei como imitar os versos de Pope. se tivesse galopado o dia inteiro . Neville e eu gostaríamos de ser como eles . o seu rosto tem manchas de amarelo e vermelho. Contudo. sem dúvida. deitado entre as ervas altas . fazei com que vençamos a prova. se tivesse ven­ cido nas partidas de críquete e nas provas de remo . mas Bernard chega sempre atrasado . como haveriam de correr! Se os tivesse acompanhado . Ele vai tomar-se grosseiro . É mesmo incapaz de ler. disse Neville. Es­ preitando-os atrás da cortina. porém. ainda é jovem.

Mas que dife­ rença existe entre nós? Espera. . foram-se embora. Archie atinge cem pontos com facilida­ de . Deste modo . está agora a refletir (é nesse momento que se encontra a sós consigo próprio: é o momento em que devemos tentar compreendê-lo) . Com as mãos poisadas nos braços da cadeira. vamos segui­ -lo através da porta giratória. e só se lembraria de correr quando a bola já tivesse sido arremessada há muito . como o faz Louis . com um gesto característico (é difícil evitar as frases feitas. no seu quarto. porque Bernard arranjaria uma história para lhes contar. mas tão belos . Neville deixa-me dizer. Agora. até aos seus aposentos . depois das orações . Crane cambaleia ligeiramente ao atravessar a porta giratória. Devo salvar a mosca? Ou dei­ xar que aranha a devore?» Flutua sempre em inumeráveis perplexi­ dades . Esses miúdos horríveis . Imaginemo-lo a despir-se. Desaperta as ligas das meias (não devemos recear a trivialidade destes pormenores ínti­ mos) . tira as moedas de prata e cobre das algibeiras das calças e coloca-as sobre a cómoda.Já partiram. Se tivesse ido com eles . em todo o caso. Neville . a olhar o céu . Tenho neces­ sidade de abrir a portinhola do meu alçapão e deixar sair as frases que servem para ligar os acontecimentos. Mas eu sou insensível às vossas subtis distinções . elas são aqui perfeitamente aplicáveis) . por cima das cavalariças . o sentimento de incoerência é substituído por uma ligação sinuosa que une flexi­ velmente as coisas entre si .As Ondas 37 «Está uma mosca presa naquela teia. que Louis e tu . os invejam tanto . Mrs . Os meus dedos deslizam sobre as teclas sem sequer repa­ rar se são brancas ou pretas . de facto . e eu cheguei demasiado tarde para os acompanhar. . E. Bolhas sobem numa corrente de prata do fundo de uma caçarola. como quando nos arrancam um dente . Imagens juntam-se a imagens . voltando todos a cabeça ao mesmo tempo . Vai ou não atraves­ sar a passadeira cor-de-rosa que leva ao quarto conjugal? O abat-jour da cabeceira projeta uma luz cor-de-rosa entre os dois aposentos . Mas os outros desculpavam-no . Não sou capaz de ficar debruçado sobre um livro . parece convencido da sua imensa su­ perioridade . deitava-se na relva. o Dr. Neville . é impossível negarmos que a sua saída nos dá uma sensação de alívio e de que alguma coisa em nós foi removida. Quando . Eu . se tiver sorte . Depois . Vou contar-te uma história do reitor. chego a fazer quinze . às vezes . disse Bernard. com a sua feroz persistência.

comparando-se com certa duquesa de França. remexo em quatro ou cinco moedas no bolso das calças . e entretenho-me a aparar as sebes de teixo do meu jardim. Por isso não posso falar­ -lhe de Percival . É assim que ele fica sentado. . deixando-se arrastar no curso torrencial das frases majestosas . Preciso de alguém cujo pensamento caia como o machado sobre o toro de ma­ deira e considere sublime o cúmulo do absurdo e adorável o laço do cordão de um sapato . Que forças me trouxeram até aqui? Que forças inexoráveis . Não consigo continuar esta história. sinto a minha própria solidão. com os cabelos espalhados no travesseiro . A noite é de tempestade. pergunta. vi Fenwick com o bastão no ar. os ramos dos castanheiros agitam-se e entre eles brilham estrelas . Ele vê todos os seres como imagens de contornos imprecisos . E. Mas até ao cami­ nhar sou assaltado por súbitas premonições do futuro.38 Virginia Woolf Crane está deitada. Não há ninguém aqui entre os arcos de pedra cinzenta e o arrulhar triste dos pombos . O reitor fita as chamas de gás . Também ela passaria a ser uma «história» . O vapor do chá espalhava-se pela relva. Não posso expor à sua compreensão a minha paixão violenta e absurda. Podia ter sido almirante. A quem poderei expor a urgência da minha pai­ xão? Louis é demasiado frio. ou juiz . de súbito . entre a alegria dos jogos e essas tradições e competições meticulosa­ mente organizadas para evitar que nos sintamos sós . enquan­ to os seus ombros se erguem mais do que é habitual (lembremo-nos que ele está agora em mangas de camisa) . À medida que lê . Havia grupos de flores azuis. diz o reitor. Ontem. «Dentro de dois anos reformo-me» . senti crescer em mim o sentimen­ to obscuro e místico de adoração e perfeição que vence todo o caos . balouçando os braços. notando melancoli­ camente que a pressão da sua cadeira fez um pequeno rasgão no tape­ te cor de vinho . demasiado universal . disse Neville . Mas quando se tomam absurdas e ele tenta recuperar fôlego retorcendo um cordel entre os dedos . Começo a torcer um cordel. . «Era só isto?» . «Que forças do destino me trouxeram até aqui?» . Vou para oeste . lendo um livro de memórias sobre a corte francesa. em vez de mestre-escola. num gesto de abandono e desespero e suspira.De início as histórias de Bernard divertem-me . passa a mão pela fronte . pergunta-se. ao pas­ sar pela porta aberta que leva à parte reservada do jardim. ao mesmo tempo que espreita a janela por cima de um dos ombros . São difíceis as histórias que seguem a pessoa até ao seu quarto .

as duquesas arrancam as esmeraldas dos seus brincos . esten­ dendo ao rei em pessoa uma caixinha de rapé . Começo a desejar a intimidade de um quarto iluminado por uma lareira e o corpo de uma única pessoa. . Vou entrar. Ninguém adivinhou a necessidade que eu sentia de oferecer a um deus todo o meu ser. dos lábios finos . e por isso . . Sou o último descen­ dente de uma das maiores casas de França. Apenas possui a imensidão sublime da água e das folhas . onde os reflexos das árvores se enlaçam nas águas como amantes? A Natureza é contudo demasiado vegetal . demasiado insípida. imagino-me amigo de Richelieu ou do duque de Saint-Simon . trocar tudo pelos campos e os bosques? Deverei caminhar sob as faias ou vaguear ao longo da margem do rio . Em sinal de admiração. na minha cama. Arranquei-os e amarfanhei-os .e habito outro espaço . Mas . Hei de ser capaz de o fazer à força de sofrimento. O bastão do jogador desceu.mas estes fogos de artifício explodem com mais brilho na escuridão . a visão desfez-se . com a mão na áspera almofada de carvalho da porta de Mr. É um privilégio meu . Foi um dia cheio de ignomínias e vitórias .queira Deus que não seja longa .realizarei a gigantesca amálgama dessas contradi­ ções tão cruelmente evidentes em mim. a necessidade de perecer e de me extinguir.As Ondas 39 Ninguém viu a minha silhueta concentrada e grave. Agora não passo de um rapaz com sotaque colonial comprimindo os dedos contra a áspera porta de carvalho de Mr.do meu grande nariz . da grande página amarela em que leio Catulo . Bato à porta.Arranquei do calendário os dias de maio e de junho . para defrontar áspe­ ras portas de carvalho . disse Louis . Tomo-me companheiro de Virgílio e de Platão . Porém. postada no limiar da porta aberta. Durante toda a minha vida . Wickham. saio deste corpo inviável .Começo a desejar que a noite chegue. quando vem a noite . Aqui parado. Sou o melhor aluno do colégio . sou também aque­ le que em breve será forçado a abandonar esses territórios lunares . que dissimulo por temor ao riso alheio . Os meus ditos espirituosos «propagam-se pela corte como relâmpa­ gos» . esses passeios à meia-noite . à noite . destas bibliotecas . Wickham. disse Susan e vinte e dois dias de julho . Deverei escolher uma árvore? Afastar-me destas salas de aula. varridos pelo vento . do meu sotaque .

a disciplina. Porque alguma coisa cresceu dentro de mim. o ter de estar aqui e ali a horas certas . Rom­ per em lágrimas . descerei do comboio e fi­ carei parada no cais às seis e vinte e cinco . Vou tremer. não quero ser admirada. Saio pela porta da cozinha. verei as folhas das couves cobertas de orvalho e. aguardo ansiosamente que o dia nasça. Depois o pastor.Odeio a escuridão . as minhas estranhas ervas . Irei pelo paul . Subirei ao meu quarto e passarei em re­ vista as minhas coisas cuidadosamente fechadas no armário: as minhas conchas . pouco a pouco . Voltarei a casa por trémulas áleas sob as folhas do castanheiro . Irei ao canil escovar o meu spaniel. ouvindo trovejar atrás de mim os grandes cavalos montados por fantasmas que de súbito se detêm . qualquer coisa de duro . fazendo estalar todas as obrigações que me tolhem e diminuem . Já só faltam oito dias . dos dormitórios e escadarias . a casa com ja­ nelas que as cortinas cegam. Deitada na cama. A minha liberdade vai então desabrochar.40 Virginia Woolf já só existem como um peso no meu coração . que recomeçam a brilhar. Terei nas palmas das mãos as marcas das agulhas dos pinheiros . o sono e a noite . Não quero que as pessoas ergam os olhos de admiração quando entro . levanto-me de madruga­ da. São dias mutilados . Vou atirar-me para um banco junto ao rio e ficar a ver os peixes deslizando entre os juncos . Verei a andorinha roçando a erva. incapazes de voar. Dentro de oito dias . Quando acordo cedo .os horários . através do inverno e do verão . como borboletas noturnas com as asas arrancadas . os meus ovos de pássaro . no jardim. En­ contrarei uma velha empurrando um carrinho com gravetos de lenha. Darei de comer aos meus pombos e ao meu esquilo . Quero dar e receber e quero a solidão onde possa desdobrar em paz tudo o que possuo . Regressarei pela horta. À medida que as coisas começam a brilhar no . a ordem.e os pássaros acordam-me sempre cedo . Mas não conversaremos .. fico na cama a olhar para as maçanetas de cobre da cómoda. O dia explodirá de brilho quando eu abrir a porta e vir o meu pai com o seu velho chapéu e as polainas . depois o lavatório e o toalheiro . . Então po­ derei desdobrar e examinar com atenção tudo o que aqui nasceu em mim. disse Jinny. Depois . afastarei do meu coração essa coisa dura que nele cresceu . na manhã seguinte . Ao contrário de Jinny. Desse modo . gostava que a semana fosse apenas um único dia invisível . Mas aqui as sinetas não param de tocar e há ruídos de pés arrastando-se sem descanso .

Agora. Tremo e vibro como as folhas da sebe . alguma coisa que me é própria. Não abri ainda o cofre dos meus tesouros . enquanto ela reza. flutuando na cama. deixarei cair em cascata. tomar-se cor-de-rosa. água a correr. Agora vou para a casa de banho. pelos meus ombros . acima do mundo . Aqui não posso deixá-la crescer. Agora chegou a altura de sairmos do colégio e usarmos vestidos compridos . Sinto as suas curvas .aqui uma pancada surda. ouço o clamor da multidão hostil .Ainda faltam muitas horas para poder apagar a luz. Não quero ser imobilizada. Gosto de ouvir o gongo ressoar pela casa e a movimentação que recomeça . sessenta anos para viver. o meu coração bate mais depressa. en­ quanto me estiver a lavar com a cabeça inclinada para o lavatório . Por isso . quando os meus pés tocam o chão . Quando vou à varanda. Usarei colares e um vestido de noite branco . . Ninguém pode impe dir-me de brincar e saltar nas costas de Miss Matthews . ali passos rápidos . sem man­ gas . Sinto o corpo endurecer. Alguém a fere por dentro . ou a vela de um navio que passa entre as folhas do loureiro . castanho . Gostará mais de mim que de Susan ou de Rhoda. atiram tudo ao chão . Descobrirá em mim uma qualidade particular. amarelo . Mas não me deixarei prender por uma só pessoa. e um homem para me es­ colher entre todas . manietada. Sou muitas vezes repreendida. mesmo quando Miss Matthews resmunga por causa da minha negligência.As Ondas 41 quarto . disse Rhoda. e deitar-me . enxugo as mãos com força. censurada por ser preguiçosa e rir. Haverá festas em salões iluminados. grito . Os diamantes da coroa do Império cintilam na minha fronte . vejo mover-se alguma coisa . dizendo-me o que nunca disse a mais ninguém. Talvez seja um dia maculado . apesar disso . tiro os sapatos e lavo-me. Tenho cinquenta. a sua deli­ cadeza. ou o burro que arrasta a cortadora de relva no parque . As minhas mãos erram ao longo das pernas e de todo o corpo . É outro dia. Estou apenas no começo . nunca me sinto abandonada. um dia imperfeito . sentada na borda da cama e balouçando os pés quando se inicia um novo dia. Ainda faltam muitas horas para que eu possa fazer cair o crepúsculo e para que a árvore cresça em frementes bandeiras verdes à minha volta. interrompem-me. Há portas que batem. o véu de imperatriz da Rússia. E as pessoas fazem-me perguntas . de tal modo que a Miss Não Sei o Seu .talvez a mancha do sol num quadro .

Uma árvore em papel pintado. perco a consciência. quero devolver ao mundo toda esta beleza. Agora que o sonho se dissolveu fiquei a tremer no corredor. Basta o olhar dela quando passa no corredor e desaparece ao longe. nem me contenta. que vene­ ro acima de todos os homens . Enla­ çar as minhas flores numa única grinalda e avançar com ela na mão estendida. avançou oscilando um pouco entre as mesas com volumes encadernados e distribuiu Horácio . com as dedicatórias . disse Louis . rompendo os diques . É de desafio a minha ati­ tude . As coisas parecem empalidecer. Vou sentar-me na margem trémula do rio a olhar os grandes nenúfares brilhantes que espalham sobre o carvalho que domina a sebe a sua luz húmida como um raio lunar. o rio expande-se numa imensa maré fértil. o rio profundo esbarra em qualquer coisa. Vou agarrá-las bem nas minhas mãos e pousá-las no tampo da secretária. é o último dia do último período . «Povo . Vencerei . estou liberta. Recebemos tudo o que os nos­ sos mestres tinham para nos dar. entrançá-las numa grinalda e oferecê-las . Mas isto é apenas um frágil sonho.Oh. ler e olhar em volta. Bernard e para mim. puxa. através da argila tépida e porosa do meu corpo? Vou fazer uma grinal­ da com as minhas flores e oferecê-la . Agora. A iniciação cumpriu-se. Miss Lambert é capaz de a deitar por terra com um simples sopro . o último dia para Neville . as obras completas de Keats e de Matthew Arnold. Agora. o meu corpo funde-se. conhecemos o mundo . mas a quem? No paredão vagueiam marinheiros e pares de amantes. O imenso reitor. esta dor. Não tenho medo . Ah. insinuando-se à força nas fendas . sou a vossa imperatriz» . .Oh. esta angústia. no centro há um nó que não cede . quero enriquecer alguém. Os mestres ficam. Tennyson .Agora. mas a quem? . Vou à biblioteca procurar um livro qualquer. Não é sólido . Desfaleço. nós partimos . rosas bravas e ramos de hera. Este poema fala de uma sebe . o meu sonho imperial . a quem? Surge um obstáculo no fluxo do meu ser. Quero dar. oferecendo-a . inundan­ do livremente a terra. A quem darei tudo o que flui através de mim.Oh. empurra. Vou descer por ela e colher flores de abóbora e de espinheiro cor de luar. Vou colher flores . os autocar­ ros arfam ao passar no cais a caminho da cidade . para tudo isto se desfazer em poeira.42 Virgínia Woolf Nome não desconfie de que o meu punho fechado ameaça a multidão em fúria. incandescente . ler de novo e depois olhar outra vez.

Para ele . deambulando ao acaso. A vida vai separar-nos . a mulher do ge­ neral . embora não o sejam para nós . Falando com uma voz que a profunda emoção tomava áspera. Alguns nunca mais se voltarão a encontrar. todas as garantias e limitações ! Sinto-me pleno de gratidão perante vós . Uns farão isto. Muitos de nós não voltarão a encontrar- . de homens . Nestas paredes estão inscritos nomes de cabos de guerra. e o animal acorrentado batendo com as patas na areia. Mas estabelecemos certos laços entre nós . . Os meus olhos são selvagens . mas eu ouço sempre o surdo bater das ondas.As Ondas 43 apropriadas . disse Bernard. disse-nos que íamos partir. O reitor falou com absoluta convicção. Aconselhou-nos a que nos portássemos «como homens» (nos seus lábios . os meus lábios apertam-se com força. as citações da Bíblia e as citações do Times parecem igual­ mente grandiosas) . O animal que não para de bater com as patas na praia. Vejo pássaros selvagens . Sentimo-nos dominados por estranhos sentimentos . Acabaram-se os anos da infância. estava a cheirar numa manifestação do agrado que a oferta lhe causara. Abençoadas sejam todas as tradições . de sentir qualquer coisa apropriada à ocasião . É então que uma abelha surge e começa a zum­ bir à volta das flores do raminho que lady Hampton . Respeito a mão que distribuiu os livros . Zumbindo vagamente . Gostaríamos de dizer qualquer coisa. Mas apesar disso. As contradições ainda não foram resolvidas . o proble­ ma permanece .de Esta­ do e de alguns poetas infelizes (o meu ficará entre estes) . continuamos irreverentes e constrangi­ dos . Estas lajes de pedra são usadas há seiscentos anos . homens de traje negro . É a última de todas as cerimó­ nias . E instintos mais selvagens que o mais selvagem dos pássaros vibram no meu coração . A abelha distrai-nos. os lábios também. arrebatado e comovido. Acima de tudo herdámos tradições . a flor dança. Bernard e eu nunca mais nos encon­ traremos aqui . O chefe da estação segura a bandeira e está prestes a apitar. as suas palavras são verdadeiras . E se a abelha a picasse no nariz? Estamos profundamente emocionados e. o comboio exala vapor e vai partir dentro de momentos .É a cerimónia final . apesar disso. e perante vós mortos que nos conduziram e guardaram. As flores inclinam a cabeça contra a janela. a abelha aca­ ba por instalar-se num cravo . O pássaro voa. Ansiosos por que tudo acabe e com medo da partida. outros . Neville . o seu voo ocasional parece troçar da intensidade das nossas emoções . aquilo . O espírito está prepara­ do .

Vou . por uma impers­ crutável lei do meu ser. nem a soberania nem o poder me hão de bastar. seguro . a pressão diminui. Não voltaremos a desfrutar certos prazeres . As pombas hão de voar eternamente em volta da sua cabeça. Odiei apenas um rapaz. sentindo uma dor intolerável . Percival . Por isso parto hesitante mas altivo . Seguro (quero crer) de descobrir por fim o objeto do meu desejo. O reitor disse agora o seu gracejo. Embora não suporte os ges­ tos pomposos do reitor e as suas emoções fingidas . a voz quase se quebrou . Vai sair da minha vida. Pegamos nos livros de capas reluzentes com dedicatórias escolásticas . disse Neville . Se poisar no nariz dele. enquanto o órgão geme na capela. procurando as palavras murmuradas na solidão . Mas . Larpent. Deixará as minhas cartas sem resposta. Baker e Smith . Lá está Percival com o seu chapéu de feltro . sinto a aproxima­ ção de acontecimentos até agora vagamente entrevistos. Os que me desprezam reconhecerão a minha soberania. Saboreio retrospetivamente os meus pequenos-almoços com torradas e compota. Mas é por isso que o amo . porém. Levantamo-nos. Aqui estão as malas . eu entrarei noutras vidas .Vamos partir. à mesa do reitor.44 Virginia Woolf -se . Só o reitor não reparou na abelha. atravessando a janela aberta per­ dendo-se na obscuridade . caídas entre armas e cães . para a intimida­ de . quando eu já não precisar de levar furtivamente para o quarto cotos de vela para ler à noite livros indecentes . mas não completamente . escritas numa letra pequena e severa. A abelha zumbe agora à volta da cabeça do majestoso rei­ tor. John. Amanhã vamo-nos embora. dispersamo-nos. . por inacreditável que pareça. Talvez isto seja apenas uma fuga. Serei livre de entrar no jardim onde Fenwick ergue o seu bastão . esquecer­ -me . quase completamente alheado do que foi para mim. Pela última vez olho a estátua do piedoso fundador do colégio com pombas à volta da cabeça. onde me sentia terrivelmente desajeitado. de que hei de vencer nessa aventura após tanto sofrimento . um simples prelúdio . Agora despedem-se de Louis .gostei muito deles . Continuarei a deslizar para trás das cortinas . Archie . Vou mandar-lhe poemas e talvez ele responda com um postal ilustrado . A abelha volta a ser um inseto insignificante e voa. Para sempre . vai sacudi-la com um gesto majestoso . Só conheci um rapaz louco . aqui estão as carruagens . E. sujando-a de branco. Nev­ ille e de mim. Vai esque­ cer-me . quando formos livres de ir para a cama ou de ficar sentados .

Não mandarei os meus filhos para colégios nem passarei uma só noite em Londres em toda a minha vida. bosques e campos . carrego ainda nos olhos o aspeto envernizado e bri­ lhante dos soalhos do colégio . afunda-se . estas já não são as sebes do colégio. Agora paramos numa estação e depois noutra. Mas saímos de Londres e de novo surgem os campos e as casas . Mas tenho ainda nas narinas o cheiro a desinfetante dos corredores e do giz das salas de aula. colunas e degraus brancos . Desembrulho um pacote preso com um cordel branco. nesta estação imensa. e as mulheres a estender roupa lavada. O ar inunda-me . tudo ecoa num som cavo . Aqui . quando descobrir o meu lugar no canto do compartimento reservado . As mulheres beijam-se e ajudam-se a carregar cestos . Jinny leva o cão a passear por estes sí­ tios . Do comboio só vejo as portas da frente e cortinas rendadas . esconderei os olhos atrás de um livro para ocultar uma lágrima. Não me permitirei sequer cheirá-lo antes de respirar o frio ar verde dos campos . Agora vou debruçar-me da janela. e depois de mais campos e crianças balouçando nos portões. Mas estes campos já não são os do colégio. . e aquelas são vacas verdadeiras que em nada se parecem com as do colégio .As Ondas 45 buscar o meu bilhete. disse Susan . Aqui as pessoas atravessam as ruas em silêncio . Só veem as montras . de camiões.É o primeiro dia das férias grandes . salpicadas de arbustos e tojo. e. As ruas estão ligadas umas às outras por fios de telégrafo. É o primeiro dia das férias grandes . tudo isso para enterrar profundamente o colégio que odeio . com festões e adornos brilhantes . Londres oculta-se. Mas é ainda um dia por desdobrar. Não o examinarei antes de descer à noite na estação do comboio . e o com­ boio descarrega vasilhas de leite . A claridade é a de uma luz amarela filtrada por um toldo . As cabeças inclinam-se e levantam-se quase ao mesmo tem­ po . e as árvores e ainda os campos . para esprei­ tar um rosto . Respiro o odor dos campos de trigo e de nabais . Cascas de ovo tombam para a ravina aberta entre os meus joelhos . e jardins dos subúrbios com mulheres a estender roupa lavada. desaparece . Jinny vive aqui . os homens destes campos fazem coisas verdadeiras. Esconderei os olhos para observar. Preciso de campos e sebes . enchem as carroças de feno autêntico. estradas e túneis . O cheiro a desinfetante e a terebentina vai desaparecendo . As casas são todas de vidro . desmorona-se . e das escarpas íngremes por onde passa o caminho de ferro.

Abro e fecho o meu corpo à vontade . na sua cara.o ar frio . Vejo as suas cores . para o ardor e o encanto . o meu corpo entrou no salão de cadeiras doiradas . Um senhor fecha a janela. a falar com um agricultor. fazendo tremer a terra. o meu corpo fecha-se .Estou bem aconchegada no meu canto a caminho do Norte . Vejo o senhor baixar o jornal e sorrir para o meu reflexo . por este mar azul . De novo . e sem cessar o rompemos . numa das quais me vou sentar. Lá está ele . Instintivamente o meu corpo vibra sob o seu olhar. Há uma grande sociedade de corpos . como eu .46 Virginia Woolf as narinas e a garganta . com o campo cheio . Os postes telegráficos vão e vêm. rapa­ zes em mangas de camisa podando as roseiras . Junho foi completamente branco. Um deles acena quando passamos . ao mesmo tempo . E agora. . o horizonte fecha-se à nossa frente . ao erguer os olhos deparo com uma mulher carrancuda. Sem cessar. de costas . o último período escolar vai tomando forma atrás de mim . Lá está o meu pai . Mas . enquanto o comboio passa por estas rochas vermelhas . Passamos como um raio pelos sinais . Vejam como dançam todas as janelas . Começo a tremer e a chorar. entrarei numa sala iluminada. nas escadas . Agora a janela escura toma-se de novo verde . E lá está o meu pai . com as polainas . sobem e descem. Um homem a cavalo galopa pelos campos . disse Rhoda. neste comboio atroador e . insolente ..atenção ! . O cavalo cabriola quando passamos . disse Jinny. ao sairmos do túnel . trovejamos pela escu­ ridão dentro . e o meu acaba de aí ser recebido. Saímos do túnel . ao longo do túnel . que suspeita do meu êxtase . Há pér­ gulas e caramanchões nos jardins das mansões e. O senhor lê outra vez Ô jornal . admirada por todos . cheia de cadeiras . e os homens sentados nas sebes dos campos de trigo com lenços azuis ao pescoço despertam também. A vida apenas come­ ça. Mas os nossos corpos trocaram já sinais de aprovação . . com o vestido ondulando aos pés . Vejo imagens que se refletem no vidro cintilante . O tesouro da minha vida permanece intacto . tão leve que alisa as sebes e prolonga as colinas . Recosto-me . todas as cortinas brancas das mansões. o ar salgado que traz o cheiro das plantações de nabos . Agora o comboio ruge e oscila ao atravessar um túnel . Como se fosse um guarda-chuva.É este o primeiro dia das férias grandes . abandono-me ao meu êxtase . O cava­ leiro volta-se na sela para nos olhar. imaginando que .

É verdade que inventamos expedientes para tapar as bre­ chas e esconder as fissuras . Nos campos ficam mulheres espantadas porque as deixamos para trás com as suas enxadas . o meu sentido de identidade esvaiu-se . não consegui passar por cima da poça. Cá está o revisor a pedir os bilhetes . no pátio . a vida emerge pesada­ mente a sua crista negra acima da superfície do mar. gritei . E. cautelosamente . repentinas como os saltos de tigre . e eu . a meio . Mas nenhum conforto nos falta. respira ofegante. . O silêncio vai voltar a fechar-se sobre nós . e caí. com o cotovelo apoiado no peitoril da janela . O vento e as tempestades foram as cores de julho . Certa noite .» Foi já em pleno verão depois da festa do jardim . arrojada através de túneis . do monstro a que estamos presos . um gato dentro de um cesto. Veio depois o vento e a violência dos trovões . estendi o pé sobre a água escura. Seguimos em frente . a subir. incontáveis vestidos de verão e roupas de ténis com grandes riscas brancas .é isto o que há. Se olhar para trás . levando comigo um envelope . e eu disse-lhe: «Devora-me . Agora o comboio avança pesadamente . é o momento presente . Esta é a vida que recebi como destino . posso ver o silêncio fechar-se à nossa passagem e sombras de nuvens perseguindo-se sobre os pântanos vazios. da festa em que me senti humilhada. E tudo isto faz parte do monstro que se ergue das águas . Finalmente . Em sacudidelas inter­ mitentes . Não somos nada. quando me mandaram entregar uma mensagem. transportando todos esses objetos .As Ondas 47 de margaridas . uma estrela cavalgava entre as nuvens . Isto. porque vamos a subir. Senti-me arrastada pelo ar como uma pena. Apoiei-me com a mão a um muro de tijolo . Há dois homens. aqui e agora. Estamos presos a esse monstro. O silêncio fecha-se à nossa passagem. digo . como corpos de condenados a cavalos selvagens . Depois . Senti-me perto da morte. e anéis para segurar os nossos copos. Aqui só vivem alguns carneiros selva­ gens e póneis de espessa crina. temos mesas para poisar os jornais. arrastando de novo o meu próprio corpo sobre a extensão cinzenta e mortal da poça de lama. Voltei para trás com uma dor infinita. para além desta cabeça calva. três mulheres. cinzenta e mortal . Atingimos o cume. É assim que me liberto do período do verão . Ê o primeiro dia das férias grandes . houve a horrível poça. partimos com o rumor das searas de trigo doura­ do. amarrados a ele. chegamos ao ponto mais elevado do paul . Passei por ela.

ou para qualquer universidade americana. adorme­ cesse . deita uma olhadela a um romance francês . que . me afundasse no passado. Larpent e Baker vão para Oxford ou Cambridge . Tenho a impressão . colinas e depois bosques . Os olhos que neste instante observariam através de mim fechar-se-iam se. Berlim. Paris .Agora estamos a caminho . livre de amarras . Lathom.48 Virgínia Woolf . Roper. disse Louis . enquanto eu fica­ rei a lutar atrás de um guichê . Mas o meu corpo atravessa-o errante como a sombra de uma ave . no tempo em que as mulheres carregavam cântaros vermelhos até ao Nilo . exceto Neville. Archie. Este é o primeiro dia. por distração ou cobardia. Eu . Se não forçasse o meu cérebro a tudo delimitar por detrás da minha fronte . pois Neville deslizará sempre por salas com sofás e lareiras . neste instante . forço-me a fixar este instante . Archie . Atravessamos a Inglaterra de comboio . Smith . numa transformação contínua. tudo seria transitório como uma sombra no campo. ou se me tomasse conci­ liador. Invejá-los-ei por passarem a vida a caminhar ao longo das estradas antigas . Por instantes estou sus­ penso no vazio . de vez em quando. Mas se fecho os olhos . para Edimburgo. Percival. à sombra dos . em breve desvanecida. nas trevas. Roma. esses jovens convencidos . obrigo-me a assinalar esta polegada na longa história que começou no Egito. de já ter vivido milhares de anos . roubarei à história huma­ na a visão de um momento . John. não estamos em parte nenhuma. cheia de rapazes que vão de férias para casa. todos falam. Walter. este trigo movente que nunca ultrapassa os campos mas os preenche por completo numa ondulação fremente . como Bernard a contar as suas histórias. ou convencido como Percival . sempre os mesmos nomes . se não consigo relacionar o passado e o presente .têm . sentado à sua mesa de escritório . desaparecendo ao encontrar a flo­ resta. sou alguém que caminha vagamente. Isso há de tomar-me amargo e maledicente a seu respeito . se não tomo consciência de estar sentado numa carruagem de terceira classe. Ber­ nard e Neville. outro raio desta roda que sobe . estes campos de papoulas . E não avisto terra firme para onde me dirija. no vago desígnio de ganhar algum dinheiro . de uma nova vida. Todos se vanglo­ riam. Larpent. com muitos livros e um amigo. na era dos faraós . ainda que apenas no verso de um poema que não escreverei. em breve obscurecida. A Inglaterra desliza pela janela. rios e salguei­ ros. depois cidades . É por isso que uma sombra pungente e uma significação atroz descem sobre estas sedas doiradas .

Talvez um pequeno construtor empregando al- . abarcando todas as variedades conhecidas de homens e mulheres . entrando em contacto com ele . desagrada-me instintivamente sentir a sua presença. As pala­ vras começam logo a fazer anéis de fumo e as frases a fluir em espirais dos meus lábios . A minha sede é constante e insaciável . Mergulho . e andarei ao acaso pelas ruas da cidade . O meu livro terá por certo muitos volumes . vou compondo uma imagem dele . Vejo agora. Entra agora no comparti­ mento um homem idoso. enquanto as minhas relações serão com a gente suburba­ na. com contínuos . inassimilada entre nós . banho-me nas águas claras da infância. Encho o espírito com tudo o que está contido numa sala ou numa carruagem de comboio . Não somos singulares . fomos feitos para estar unidos) . um viajante efémero .Louis e Neville. estão sentados em silêncio . por impercetíveis sinais. Mas a besta acorrentada conti­ nua a bater com a pata na praia. Enquanto trocamos raros comentários amáveis . Estes duros pensamentos . fria. um homem a pescar. Ab­ sortos . uma torre de igreja. Ambos sentem a presença de outras pessoas como um muro . sobre casas de campo . esta amargura não devem ter lugar em mim. Não acredito na se­ paração . Dese­ jo imediatamente aproximar-me dele. Surgem fendas na sua solidão . Parece que se chegou um fósforo a uma matéria in­ candescente. um viajante . que não posso ainda interpretar (serei capaz de o fazer mais tarde) que a sua desconfiança está prestes a diluir-se .As Ondas 49 velhos teixos . Um anel de fumo (falo de colheitas) desprende-se dos meus lábios e envolve-o. . Mas agora saí do meu corpo e atravesso campos sem abrigo (há um rio. Sou o fantasma da Louis . É um marido indulgente mas infiel . qualquer coisa começa a arder. Fez uma obser­ vação sobre uma casa de campo . colocando-o no mundo das realidades . cujo espírito é governado pelos sonhos e os rumores de um jardim onde as pétalas das flores flutuam em profundezas insondáveis e pássaros cantam a aurora. Quero também aumentar a minha valiosa coleção de observações sobre a verdadeira natureza da vida humana. disse Bernard. fazendo estremecer o seu ténue véu . esta inveja. aparentemente próspero . tal como se enche uma caneta num tinteiro . a rua da aldeia com a sua estalagem de janelas góticas) e tudo é vago e imerso em sonho . A voz humana tem uma virtude que desarma (sozinhos somos in­ completos . Mas eu sinto-me à vontade na companhia de outras pessoas .

Walter J. Fala tão facilmente com um criador de cavalos ou a um canalizador como connosco . pensava ele . em viagem de negó­ cios e um quarto de casal num hotel de segunda custou-lhe o ordenado de um mês . semelhante a um par de dentes arrancados com a raiz. uma exatidão que admiro mas nunca hei de ter. avança com grandes passos de garça altiva e apanha as palavras como se usasse uma pinça de açúcar. Tenho de tomar o comboio para Edimburgo . É o género de incidentes que constantemente me interrompem no perpétuo esforço para encontrar a frase perfeita. Mas não interessa. ou não o encontro . uma pequena moeda. Contudo. adap­ tada ao instante que passa. O cana­ lizador aceitou-o com devoção . acenando com a mão . disse Neville . Esteve na América. Se tivesse um filho assim. Aqui está o rapaz bem­ -disposto que pica bilhetes . Ou o encontro . Apesar disso. Requerem não sei que arrefecimento final que sou incapaz de lhes dar. pois me perco sempre em mornas palavras solúveis . Uma bolinha era um . Só assim consigo agarrar o mundo. . Examino a carteira. A verdade é que não tenho aptidão para refletir. com a mulher.exprimem algo de que ainda não ava­ liamos a profundidade . Neville sente repulsa pela grosseria de Trumble . riso­ nhos . Há em Neville e em Louis uma precisão. Aproximamo-nos de um entroncamento ferroviário onde terei de mudar. havia de arranjar maneira de o mandar para Oxford . com o tempo. Ainda assim penso que as melhores frases são talvez construídas na solidão . embora desesperados . o meu método tem certas vantagens sobre o deles .Bernard saiu sem encontrar o bilhete . Em todas as coisas procuro o que é concreto. presa à corrente do relógio . Veri­ fico todos os bolsos . Escapou-se construindo uma frase . chegue a presidente da câmara. já é conselheiro e talvez. tinha um de certeza. É verdade que os seus olhos .50 Virginia Woolf guns operários . Trumble é o género de nome que lhe cai bem.selvagens . É importante na sociedade local . Mas que pode Bernard sentir pelo canalizador? Não desejaria ele apenas con­ tinuar a história que não para de contar a si próprio? Começou-a ainda criança quando fazia bolinhas de pão . Eu tinha um. Usa uma grande joia de coral. Apercebo-me agora de que preciso agir. uma frase bem feita parece-me ter uma existência independente . Tem um dente da frente obturado a ouro . Louis . Não me é possível tocar com a mão esse facto que se aloja nos meus pensamen­ tos como um botão . com uma olhadela.

pois de certo modo ele merece a nossa compaixão . Triunfam sempre . Revela nas suas histórias uma extraor­ dinária compreensão . uma dessas universitárias . Merece também ser amado .As Ondas 51 homem. Não tenho o poder de me insinuar entre as pessoas . Ergo o livro quase até esconder os olhos . Quero denunciar este mundo tolo . vão obrigar-me a procurar re­ fúgio numa universidade onde acabarei por ser deão . em companhia de uma mulher culta. Porque ele não precisa de nós . Lá está ele agitando os braços na plataforma. É esse o meu triunfo . Não admiro este homem. O meu riso obrigá-los-á a contorcerem-se nas poltronas . outra bolinha uma mulher. Há de escorraçá-la diante de mim aos gritos . De novo pretendo voltar a ler. Irá ao bar e falará com a empregada sobre a natureza do destino humano . meio amargas . ao enfrentar o mundo com frases inacabadas e perder o bilhete . Somos todos frases da história de Bernard . Tenho em mim a força que os há de destruir por completo . Mas pou­ co importa. Não tenho sotaque . Pelo menos quero ser honesto . Vou sofrer. Não: eles são imortais . esse o meu destino. Não sou tímido. nem ele me admira a mim. O comboio partiu sem ele . Hão de impedir-me sempre de ler Catulo numa car­ ruagem de terceira classe . . da mediocridade de um mundo que produz criadores de cavalos com correntes de relógio ornamenta­ das com pedaços de coral . Perdeu a ligação. contudo . Prosseguimos no nosso caminho cheio de sensações in­ decisas . Será. Somos todos bolinhas . meio doces . Perdeu o bilhete . coisas que ele põe no seu livro de apontamentos na letra A ou B . Mas não posso ler na presença de criadores de cavalos e cana­ lizadores . saímos do seu cam­ po de visão. exceto quando se trata dos nossos sentimentos mais profundos . estas fotografias coloridas de paredões e diques . Não procuro os compromis­ sos . Poderia gritar diante desta presunção. Em outubro . Estas poltronas de crina. Aos de­ zoito anos possuo já um tal poder de desdém que até os criadores de cavalos me odeiam. ir com outros professores visitar a Grécia e pronunciar conferências sobre as ruínas do Pártenon. Partimos e ele já nos esqueceu. frívolo e enfatuado . Não me inquieto com o que as pessoas possam pensar do «meu pai que é banqueiro em Brisbane» . Prefiro criar cavalos e viver numa dessas casas do campo de tijolos vermelhos a deslizar como um verme nos crânios de Sófo­ cles e Eurípides . como acontece a Louis . Nunca depende da nossa clemência.

submergir. Vislumbra a linha de colinas fron­ teiriças e os muros das fortificações romanas .52 Virginia Woolf Aproximamo-nos do centro do mundo . Amantes deitados na relva ressequida beijam-se despudoradamen­ te . Lê um romance poli­ cial . . Os meus ouvidos estão cheios do imenso rumor. O quê? Que extraordinária aventura me pode aguardar entre os camiões dos correios. os carregadores e o formigueiro de gente que procura um táxi? Sinto-me insignificante e perdido . O seu comboio atravessa os pântanos vermelhos . o meu desdém. Deixo-me arrastar. quase de­ saparecem. Vou deixar os outros saírem antes de mim. mas exulto . Somos arras­ tados para o cais com as nossas malas . Não quero antecipar o que me espera. Vou ficar tranquilamente sentado por um instante antes de emergir no caos . Também o meu coração hesita de medo e exulta­ ção . Paramos com uma sacudidela suave . Estou prestes a encontrar . Soa e ressoa sob esta coberta de vidro como as ondas do mar. O comboio abranda a marcha à medida que nos aproximamos de Londres . mas compreende tudo . O meu sentido de mim próprio . do centro . . projetar para o céu . Redemoinhos separam-nos uns dos outros . no tumulto . Lá estão os gasómetros de formas familiares e os jardins públicos atravessados por alamedas asfaltadas . . Desço para o cais agarrando firmemente tudo o que possuo: uma mala. Neste instante Percival já quase chegou à Escócia.

em sons nítidos e estridentes. volteando no espaço . atra­ vessados talvez por cardumes de peixes errantes . escapando-se. Voaram to­ dos ao mesmo tempo quando o gato preto se movimentou ao longo dos arbustos e a cozinheira os assustou lançando mais cinzas para o monte . Havia medo no seu canto e suspeita de dor e também a alegria que tem de ser arrancada a cada instante . No jardim. ora juntos como se estivessem conscientes da presença dos seus companheiros. A jovem que ao sacudir a cabeça fizera dançar o topázio. ciscos de palha e pequenos ramos. as ondas confundiram­ -se. como se uma frágil chalupa tivesse naufragado e rompido o casco e o seu marinheiro houvesse nadado para a praia e escalado a falésia deixando a sua leve carga ser arrastada pela corrente . baixaram delicadamente. Em seguida. can­ tavam agora em coro. como se se dirigissem ao pálido azul do céu . a água-marinha. bicando-se. as ondas deixam na praia uma linha escura de gravetas e pedaços de cortiça. O seu brilho fremente escureceu. Ao recuarem de­ pois de se desfazerem na areia. perseguindo-se. os pássaros que na madrugada cantaram ao acaso. os seus verdes abismos aprofundaram-se e escureceram. cansados de se perseguirem. ora solitários. cansados de voar.O Sol ergueu-se . Raios verdes e amarelos tombaram sobre a praia dourando os flancos de barco carcomido e arrancando reflexos azul de aço aos cardos marinhos de folhas couraçadas . afastou os cabelos da fronte e de olhos muito abertos traçou um caminho a direito sobre as ondas . de um silvado. Depois cantaram todos ao desafio no ar límpido da manhã. A luz q ll:ase tres­ passa as frágeis ondas que correm em leque pela praia . todas as joias cor de água com cintilações de fogo. espasmodicamente na penumbra de uma árvore. voando muito por sobre os olmos. pousaram silen- . desceram graciosamente.

observam ironi­ camente essa húmida podridão .54 Virginia Woolf ciosos nas árvores. aqui e ali. De vez em quando mergulham sel­ vaticamente a ponta do bico na mistura pegajosa . bicou-o uma e outra vez e deixou-o a apodrecer. Os pássaros de olhos de ouro. Talvez fosse uma casca de caracol erguida na relva como uma catedral cinzenta. o fantasma fazia parte da . Cadeiras e armários surgiram em segundo plano. Ou então fitavam as pequenas folhas brilhan­ tes da macieira. um deles desceu como uma flecha. nos muros. há odores de morte e gotas no flanco intumescido das coisas inchadas . As lesmas deixam atrás de si secreções amarelas e às vezes. em baixo. O Sol atingiu finalmente a altura da janela. saltando entre as folhas. atentos. oscila lentamente de um lado para o outro .flor real recebeu a companhia de uma .flor . aflorou a cortina bor­ dada a vermelho e revelou círculos e linhas . Ou então viam uma gota de chuva cair sobre a sebe e aíficar suspensa. enquanto os espaços abertos entre os caules formavam uma série de túneis aver­ melhados e sombrios .flor fantasma . entre as raízes onde as flores sucumbem. Ou talvez" vissem o esplendor das flores formando um clarão vermelho sobre os canteiros. No peitoril da janela a . in­ tensamente conscientes de qualquer coisa. E. num voo certeiro e bicou o corpo mole e monstruoso de um verme indefeso. A pele dos frutos apodrecidos estala. com uma cabeça em cada extremidade. deixando escapar uma substância dema­ siado espessa para escorrer. dançando de modo contido. Depois. com os olhos brilhantes à espreita. cintilando hirtas por entre as flores salpicadas de cor-de-rosa . Lá. Ou então contemplavam o Sol de frente e os seus olhos tornavam-se grãos de ouro . Tornaram-se mais brancas as águas do espe­ lho na parede . nas sombrias áleas desse universo onde as folhas apodrecem e as flores caem . De olhos voltados para um e outro lado. despertas. um edifício incendiado marcado por círculos es­ curos na sombra verde da relva . um corpo informe. desciam mais para baixo entre os ramos. as cabeças voltando-se para aqui e para acolá. com a imagem de uma casa inteira contida dentro dela e olmos tão altos como torres . A claridade da luz nascente instalou-se no fundo do prato e o seu brilho concentrou-se no gume de uma faca . mas apesar de separados uns dos outros parecem inextrinca­ velmente entrelaçados . de um objeto particular. no entanto.

or mais pálida do espelho . como guerreiros com turbantes.As Ondas 55 verdadeira pois quando um botão abria. como homens de turbante brandindo azagaias enve­ nenadas sobre as cabeças e precipitando-se ao encontro de reba­ nhos de ovelhas brancas . um outro botão semelhante . desabrochava também na f/. . O vento soprou . As ondas ressoaram na praia.

Sou anormalmente cons­ ciente das circunstâncias . em pleno rio (imagino instantaneamente um cardume de peixes com .. pois a simplicidade parece uma virtude) são as que se conseguem manter em equilíbrio . sublime e indiferente . Sobretu­ do neste momento . A cada instante pesco qualquer coisa de novo no fundo desse enorme saco de surpresas . sem dúvida falam de mim. Mas em privado toma-se reservado . sou aquilo . que sou esquivo .em que deixei uma sala onde havia pessoas a conversar. as lajes de pedra ressoaram sob os seus passos solitários e contemplo a Lua que se ergue . Cheio de piedade . Isto? Não . convidei­ -o apressadamente para jantar comigo . cobrir o melhor possível as entradas e saídas de vários indivíduos que alterna­ damente desempenham o papel de Bernard . Não compreendem que preciso de efetuar diversas transições . na universidade . a igual distância das duas margens . Sei que vai atribuir esse con­ vite a uma admiração que não sinto . Ora as pessoas que dão a impressão de serem simples (isso é favorável . a complexidade das coisas é mais sufo­ cante . disse Bernard . Em público Bernard é esfuziante . Mas Bernard «reunia a uma sensibilidade de mulher (cito o meu futuro biógrafo) a sobriedade lógica de um ho­ mem» .Aqui . é verdade que esse aspeto do meu caráter existe. O movimento e a tensão da vida tomam-se ex­ tremos e a excitação de viver faz-se cada dia mais urgente .toma-se evidente para mim que não sou simples mas com­ plexo e múltiplo . Sim. Que sou eu? Pergunto-me . dizendo que fujo deles . Não consigo ler num comboio sem me in­ terrogar: o meu vizinho será um construtor? E ela será infeliz? Hoje percebi logo que o pobre Simes sofria amargamente por saber que a sua cara cheia de espinhas lhe retirava todas as possibilidades de causar boa impressão em Billy Jackson . É isso que eles não compreendem e agora. acima da antiga capela .

É preciso que ela pense que esta pequena obra-prima foi es­ crita sem qualquer pausa ou rasura. Peters está enamorado de uma jovem que trabalha na biblioteca itinerante . tudo é propício . uma figura audaciosa e temível .no momento em que entro no meu quarto e acendo a luz e vejo uma folha de papel branco sobre a mesa e o meu roupão negli­ gentemente caído nas costas da cadeira. Atirei para longe o cha­ péu e a bengala e estou a escrever a primeira coisa que me ocorre . Lycett. tu que és o meu eu . Peters . Larpent.As Ondas 57 os focinhos voltados para o mesmo lado e a corrente empurrando para o outro) . Vou escrever numa pequena letra rápida e apres­ sada. semelhante a um sapo no seu buraco . Lycett. Em mim há sempre qualquer coisa que fica a flutuar. Vocês estão todos envolvidos . livre de tudo . comprometidos . Simpatizo de um modo efusivo: mas . acredita na caça às lebres . cujo espírito é demasiado complicado para se consagrar inteiramente apenas a uma atividade . pega na caneta e escreve num impul­ so uma carta de amor à jovem por quem está apaixonado . tu compreen­ des que só superficialmente sou representado pelas minhas palavras desta noite . Canon . experimento também um sentimento de acordo . Hawkins passou a tarde a estudar na biblioteca. exagerando a perna do Y e cortando o T.é uma prova da minha sensibilidade a toda esta atmos­ fera . que despe rapidamente a sua capa. Também eu sou demasiado complexo para isso . estão a ver. sem sequer me preocupar em colocar a folha de papel numa posição correta. Muit� s poucos dos que neste momento discutem o meu caráter têm esta dupla capa­ cidade de raciocinar e de sentir. Acabo de entrar. to­ dos eles são peixes nadando na corrente . Mas tu compreendes . Sim . Hawkins . à irreflexão . com todas as ener­ gias implicadas . com um só . Neville . que vens sempre que te chamo (é uma experiência atroz chamar e ninguém aparecer. No mais fundo de mim. Sinto-me disposto a isso . no momento em que me mostro mais discordante . acolho os acontecimentos com perfeita frieza. qualquer coisa que provoca o vazio da meia-noite e explica a expressão dos velhos nos clubes . Posso escrever a carta tantas vezes iniciada. Agora . atraídos . pois eles re­ nunciaram para sempre a chamar um eu que não vem) . sinto que sou um homem enérgico embora reflexivo . todos exceto Neville . Vejam como as letras são infor­ mes e há mesmo uma mancha de tinta ! Tudo deve ser sacrificado à rapidez . assim.

exprime uma subtil sugestão de intimidade e respeito . Não. Moffat e os seus ditos (tomei nota deles) e algumas reflexões aparentemente casuais mas profundas (às vezes uma crítica profunda é escrita de um modo casual) acerca de um livro que acabei de ler. Bernard está a pensar no seu futuro biógrafo . frases fluindo como a lava . sem dúvida. ardente . nada há de mais importante que o ritmo) . é insípido . de pertencer a uma farm1ia de militares . Vou ler uma página dele . Agora vou começar sem interrupções ao exato ritmo do meu impulso. E se me ponho a reescrever tudo ela dirá: «Bernard está a assumir poses de literato. Não. na carta de Bernard. Chego ao crepúsculo. Tudo tem um ar de pobreza distinta. e depois um ponto de interrogação . algum livro fora do vulgar. Mas tudo se desmorona em insipidez . Como data escreverei apenas terça.alguém que passa de um assunto para o outro com extre­ ma facilidade . . Vou su­ por que me pediram para passar alguns dias em Restover. a três milhas da estação de Langley. Devo também parecer-lhe . Mas devo dar-lhe a impressão que embora ele pois não se trata de mim . A inspiração esgota-se .» O que é verdade .» Procuro um efeito rápido . quando escovar os cabelos ou apagar a vela: «Onde foi que li isto? Ah.isso é muito im­ portante . Devo aludir a conversas que tivemos no passado a recordar uma situação de que guardei memória. Um cavalheiro de porte militar caminha de um lado para o outro no terra­ ço . Agora estou a apanhar o jeito e o ritmo procurado pulsa no meu cérebro (quando se escreve . King's Laughton. arruinada mas distinta. Escreverei esta carta amanhã logo depois do pequeno-almoço . Não consegui o impulso suficiente para ultrapassar as diferentes transições. lacunar e demasiado formal . Em quem estou a pensar? Em Byron natural­ mente . . de um cavalo favorito) . Passarei do serviço fúnebre do homem que recente­ mente morreu afogado (tenho uma frase já pronta sobre o assunto) para uma descrição de Mrs . Quero que ela diga. Agora vou preencher o espírito com imagens inventadas . Talvez um frag­ mento de Byron me ajude a encontrar o tom. O meu verdadeiro eu afasta-se do meu eu fictício . O casco de um cavalo de caça repousa sobre a escrivaninha (trata-se . Tapetes desbotados cobrem o vestíbulo . No pátio da casa.58 Virginia Woolf traço . Sob alguns aspetos pareço-me com Byron. dia 1 7 .escreva de um modo improvisado e pre­ cipitado . há dois ou três cães esquivos e de pernas compridas . «Sabe montar a cava- .

quem é que faz a sua aparição? Um homem fiel . debruçado sobre o fogo extinto . mas em jeito de consolação: «A senhora Moffat . Além disso sei jogar bilhar. o ser humano perfeitamente simples . diz a si mesmo . vou formu­ lar a pergunta decisiva: de todos esses eus qual é o meu? Dependo muito do ambiente . É ele quem agora segura no atiçador e remexe as cinzas fazendo­ -as cair como chuva através da grelha de ferro . «Meu Deus» . Gosto de avistar campanários na extensão dos campos cinzentos . Efetuei com facilidade as minhas transições . Não me acha muito inteligente nem mal-educado . Depois acres­ centa lugubremente . desiludido . Causei bastante boa impressão ao coronel . À tarde dei um passeio . senhor. Constantemente me ocorreram coisas e mais coisas . Um homem sem idade nem posição social . observando as cinzas caindo . «A minha filha espera-nos no salão» . O verdadeiro ro­ mancista. Quando fico só . vestida de musselina. mastiga uma sanduíche com gestos viris. Não experimentaria como eu a sensação devastadora das cinzas frias nu­ ma lareira apagada. Dei forma a muitas coisas vagamente observadas acerca de amigos comuns . o exato tom com que . Gosto de olhar por entre os ombros das pes­ soas . Ela está de pé junto de uma mesinha baixa. face a este árido promontório de carvão negro .As Ondas 59 lo?» «Sim. A manhã foi magnífica. Não consigo inven­ tar mais nada. Mas . O coração bate-me com força. recapitulando . mas não amargurado . adoro andar a cavalo» . Sentia-me inventivo e subtil . está pendurado sobre a lareira. Depois do jantar fui brilhante . De­ pois entra a criada simpática que há trinta anos serve na farru1ia. tenho de concluir que apesar de tudo foi um bom dia. ao ficarmos sós . diz «Bernard» ? E depois? A verdade é que preciso de ser estimulado pela presença de outras pessoas . Não faria uma síntese como eu faço . A pequena gota que todas as noites se forma no telhado da alma humana é hoje redonda e multicolor. O retrato da mãe . Quando digo para mim próprio «Bernard» . Posso esboçar este ambiente com extraordinária facilidade . Tudo se toma impenetrável . «que sujidade» . acaba de voltar da caça. Os pratos têm desenhos de pássaros orientais de longas caudas . sardónico . tenho ten­ dência a ver só o lado frágil das minhas histórias . poderia continuar a imaginar indefinidamente . Mas agora sentado diante deste fogo cinzento . Apenas eu . Mas como mo­ vimentar os personagens? Serei capaz de ouvir a sua voz .

não é ele . mas não dobra por nenhum morto . Barcos desli­ zam ao longe . gol­ peando as cinzas . É belo tudo o que eles fazem . mas eles convertem tudo em beleza. sinto tudo . com a sua pata. Certamente sou um grande poeta.disse Neville . num fundo verde e vermelho . Vejo o rio . Vejo árvores manchadas e queimadas à luz do sol de outono . Palavras que estavam adormecidas despertam. Os seus quartos estão repletos de gravuras e remos. é apenas um dos seus satélites imitando o seu monolítico repouso de gigante . Uma folha cai de alegria.Num mundo que contém o momento presente . de aparência porosa e desprovidos de peso . Também eles passaram sob a ponte . Um barco passa sob a ponte . . de mo­ do a não ser transformado . para a cama. amarelos e cor de ameixa. Outro aproxjma-se . Os meus olhos enchem-se de lágrimas . cheio de jovens indolentes . golpeando para um e outro lado . sim. Não . Comem fruta que retiram de sacos de papel e lançam ao rio as cascas de banana que mergulham como enguias . Deixemos este banco . sob os seus frá­ geis ramos . «Ah .» E agora. através dos «ra­ mos das árvores que caem como a água das fontes» . sujando inúmeras coisas . que desde tempos imemoriais se erguem neste velho recanto de terra. Barcos e jovens que passam e árvores ao longe e «ramos das árvores que caem como a água das fontes» . agitam as cristas . recostado nas almofadas . de que vale a pena distinguir? . monolítico no seu repouso de gigante . Vejam como o salgueiro estende para o céu os seus ramos finos ! Um barco passa entre os ra­ mos do salgueiro . vigorosos e inconscien­ tes . Nada deveria ser nomeado . A brisa sopra. aban­ donados ao puro prazer de existirem .» Imagino que repetirei muitas vezes esta frase seguindo pela estrada da vida.60 Virginia Woolf virá limpar tudo isto . Percival é o único que não repara nestes imitado­ res e quando os surpreende dá-lhes uma bofetada bem-humorada. . O sol aquece . erguem-se e caem sem parar. a senhora Moffat virá limpar tudo . Mas mesmo ao sentir estas sensações deixo crescer o meu arrebatamento . Estão a ouvir um gramofone . Sou um poeta. Outro ainda. Estou ins­ pirado . a cortina estre­ mece e através das folhagens avisto os edifícios solenes e apesar disso eternamente alegres . Vejo tudo . Ao longe um sino dobra. Agora um ritmo familiar começa a palpitar dentro de mim. Aquele é Percival . esta beleza. amo a vida. Ah . Há sinos que dobram pela vida. que espuma. Habitam num meio ornamen­ tado de bibelôs e porcelanas baratas .

O meu encanto e o fluir espontâneo e imprevisto das minhas pala- . cada ramo distingue-se de todos os outros e. numa das mãos tenho a Elegia de Gray e com a outra apanho a torrada de baixo . E como se tomam úteis quando nos fazem voltar à realidade . disse Bernard. «Quem sou?» . a que ab­ sorveu a manteiga derretida e ficou colada ao prato . Descrevo tudo isso tão bem que tu . parte de outro ser. lacri­ mosa. de galopar com elas por entre as mulheres em fuga e os sacos derruba­ dos . À s vezes nem sequer me reconheço e não sou capaz de nomear. . medir e juntar os fragmentos de que sou feito . co­ mo elas galopam e agitam as suas longas caudas . compelido pela tua clareza. vou dizer-te o que sinto .As Ondas 61 tomando-se artificial e falso . Existe um defeito em mim. misturados . uma hesitação fatal que ao ser igno­ rada tudo transforma em espuma e falsidade . Eu era Byron e a árvore era a árvore de Byron. as suas crinas . Agora que a contemplamos jun­ tos tem um ar bem penteado . é Bernard .quem? Bernard? Sim. deixo de ser eu para me tornar Ne­ ville misturado a alguém . com o grande lenço estampado sempre manchado com gordura de bolos . Que curiosa mudança sentimos quando se nos junta um amigo mesmo à distância. cheia de lamentos . . Sinto a tua força e a tua desaprovação. e é a Bernard que perguntarei . pendente . Inspirado pelo inquieto de­ sejo de recuperar a tua estima. começo a contar-te como arranquei Percival ao leito e descrevo os seus chinelos . adulterados . Mas não sei o que me impede de me abandonar aos seus dorsos . Alguma coisa sai agora de mim e vai ao encontro de um vulto que se aproxima assegurando-me que o conheço mesmo antes de ver quem é . achando-me delicio­ so. Mas como acreditar que não sou um grande poeta? Não foi poesia o que escrevi a noite passa­ da? Escrevo com excessiva rapidez? Com demasiada facilidade? Não sei . a vela der­ retida e os seus rudes lamentos quando lhe tirei os cobertores de cima e ele se enrolou como um casulo . é doloroso esse regresso . E.Que estranho é ver o salgueiro quando se está acompanhado . no entanto . Contigo tomo-me um ser humano impulsivo e pouco asseado. apesar de estares absorvido por uma secreta tristeza (pois um vulto embuçado preside ao nosso encontro) cedes e ris . Isto ofende-te e eu sou sensível ao teu descontentamento . À medi­ da que essa pessoa se aproxima. palavras e mais palavras . Sim. Sentimo­ -nos mitigados . a sua mesa. Palavras .

Regressemos juntos pelo cami­ nho coberto de olmos que atravessa a ponte .» Dei­ xa-me então criar-te (acabas de fazer o mesmo por mim) . Estou cheio do delicioso sentimen­ to da minha juventude . Não te deixas envolver nem sequer por neblinas cor-de-rosa ou de ouro . e verifico que observei infinitamente mais do que aquilo que consigo dizer. vão surgindo dentro de mim imagens e mais imagens . Não me estás a ouvir. Quando estou junto de ti . as tuas qualidades fazem com que me sinta sempre um tanto inseguro e levam-me a ver os remendos e os rasgões do meu equipamento intelectual) . Recusas a ilusão . E sinto que é desta abundân­ cia que preciso . Porque não serei então capaz de terminar a carta que estou a escrever? O meu quarto está sempre cheio de cartas inacaba­ das . Pergunta-me de que sofro . protegidos pelas paredes e com as cortinas de sarja vermelha corridas . Sim. poderemos afastar as vozes que nos distraem. Terei razão? Interpretei corretamente o pequeno gesto da tua mão esquerda? Se assim tiver sido. os aromas e o . percebo sempre que sou um dos ho­ mens de mais talento que conheço . e sonhas ser amante . Desajeitado mas cheio de fervor. Mas já chega. entrega-me os teus poemas . E sonhas ser poeta. fazendo ressoar nas cavidades azuis o ruído prodigioso do meu voo . Vamos até ao meu quar­ to onde . Pareces dizer: «Não te afastes de mim com a tua fluência e plenitude .62 Virginia Woolf vras também a mim me deliciam. essas pá­ ginas escritas na noite passada com um tal fervor e inspiração que agora te sentes um pouco envergonhado. É através de sinais como estes que diagnosticamos as doenças dos nossos amigos . seja a tua ou a minha. A tua mão desliza ao longo do joelho e num gesto familiar e impossível de descrever parece exprimir um movi­ mento de protesto . de poder. vejo-me a zumbir entre as flores . Londres e a liberdade . de tudo o que há de vir. Estás deita­ do na margem quente do rio . Para. porque tu desconfias da inspiração . Fico espantado quando desvendo as coisas através das palavras . neste belo dia de outono que se desva­ nece mas ainda se mantém luminoso . Fazes-me acreditar na possibilidade de sabo­ rear intensamente a juventude. Olhas os barcos que deslizam uns após outros através dos ramos bem penteados do salgueiro . À medida que falo . Mas a esplêndida claridade da tua inteligência e a tua inquebrantável honestidade intelectual levam­ -te a parar a meio do caminho (devo-te estas palavras eloquentes de que me acabo de servir. penetrando nos seus cálices vermelhos .

E se . em momentos de pura exaltação . entretanto . num gesto que nada tem de byronia­ no. a . também eu faço estalar os dedos no rosto do destino» .As Ondas 63 sabor das tílias . nunca Byron preparou assim o chá. como tu .Diante de edifícios como estes . Agora estás a secá-la desajeitadamente com o lenço . tiveres morrido . Depois metes de novo o lenço no bolso . e as outras vidas . no nosso quarto . para sempre incapaz de . Mas eis-nos de novo no nosso território. será desta cena que me lembrarei . E sublinhaste as passagens que exaltam sentimentos semelhantes aos teus . que é teu . as furtivas visões de alguma forma vaga que se desvanece . herdeiros de uma nobre tradição . os seus mexericos irritam-me . disse Neville .«tam­ bém eu tiro assim a minha capa. desaparecendo numa alame­ da. As alamedas dos campos estão recobertas por uma espessa camada de folhas mortas e os carneiros pastam nos campos húmidos . as atrevidas caixeiras de andar des­ denhoso . estamos bem abrigados . Mais uma vez uma leve contração me permitiu adivinhar o que sentes e fui-me embora. perturbam a minha serenidade e obrigam-me a lembrar.talvez Jinny. me fixar num único objeto . As luzes começam a projetar os seus raios amarelos pela praça. talvez Susan ou Rhoda. enchendo de tal modo o bule que quando se coloca a tampa o chá transborda. as velhas de passo incerto que se arrastam carregadas de embrulhos . E. . não posso supor­ tar a presença das empregadas das lojas . Tão essencialmente teu . Encontro traços a lápis em todas as frases que parecem exprimir uma natureza irónica mas apaixonada e uma impetuosidade semelhante à da mariposa que não se cansa de bater contra o vidro duro. o odor das tílias e os vultos evanescentes na confusão das ruas . no entanto . Conversamos na intimidade . depois de uma breve pas­ sagem entre ciclistas . Ao sublinhar esta página. enquanto o movimento das chamas faz brilhar a maçaneta da porta. Mas aqui . parti zumbindo como um enxame de abelhas para sempre errante . pensaste . Os seus risinhos . Mas hei de voltar. Tens estado a ler Byron . que se se pensar em ti daqui a vinte anos . a degradada condição humana. Há uma poça castanha sobre a mesa que alastra entre livros e papéis . quando formos ambos célebres . A neblina que sobe do rio enche estes luga­ res e prende-se suavemente às rugosidades das pedras antigas . gotosos e insuportáveis . Aqui somos senhores da tranquilidade e da ordem.

Depois . Sou o mais estudioso dos estudantes . Estou de pé . Não .64 Virginia Woolf sua invocação far-me-á chorar. Segura-o ! . O desejo que carrego atrás dos meus lábios . inquieto. Estarei condenado a fazer eternamente o gesto de puxar a cortina de sarja vermelha e a ver sempre o meu livro como um bloco de már­ more pálido sob a luz? Seria um programa de vida admirável . Então abandono-te . com a tua capa. Sinto-me demasiado nervoso para poder terminar a minha frase . ao longo das colinas arenosas . Falo depressa. à vulgaridade da vida (porque a amo apesar de tudo) . Pronto .eu próprio : Não personifico Catulo . seguir as curvas das frases onde quer que elas nos queiram levar. Ser ridículo em Piccadilly. Com um gesto preciso. no momento em que te lanço o manuscrito do meu poema . E enquanto gesticulas . Sou apenas uma pessoa . consa­ grar-me inteiramente à perfeição . andando de um lado para o outro para esconder a minha agitação . nas férias da Páscoa. Mas não me estás a ouvir. . esforço-me por te revelar um segredo que ainda não confiei a ninguém . Constróis frases sobre Byron . Peço-te (no momento em que estou de costas voltadas para ti) que tomes a minha vida nas tuas mãos e me digas se estou para sempre condenado a ser repelido por aqueles a quem amo . Preferia ser amado . às pretensões . Tenho a certeza que vais sujar o teu exemplar de Don Juan . às mulheres . desdenhando as miragens e as seduções . de costas voltadas para ti . vais visitar Paris e regressarás usando uma gravata preta transformado em discípulo de um odioso francês de que nunca ninguém ouviu falar. Fico exasperado com os teus lenços cheios de gor­ dura. agora as mi­ nhas mãos estão absolutamente calmas . Estarei condenado a causar repugnância? Serei um poeta? Es­ tende os braços . . sempre carregado com um dicionário e um caderno em que anoto os modos mais curio­ sos de empregar o particípio passado . a perseguir a perfeição nas areias do de­ serto . Mas não se pode passar a vida a raspar com um canivete as velhas inscrições gravadas na pedra. aquele que aponto às empregadas das lojas . frio como o chumbo . pesado como uma bala. Talvez em breve o sejas de Me­ redith. Há algum tempo eras discípulo de Tolstoi. preferia ser famoso . que adoro . agora és discípulo de Byron . afasto os livros de uma prateleira e coloco aí o Don Juan . Ficar para sempre pobre e desleixado . a tua bengala. tudo isso sai disparado contra ti . no deserto .

no entanto. Por ridículas que possam parecer as suas reflexões enriquecem-me e obscurecem o ar toldando a simplicidade pura deste momento de emoção . com a sua energia superior. e ver sair dos sombrios recantos em que se ha­ viam refugiado os desprezíveis locatários .Saiu do quarto disparado como uma seta. Como uma grande onda de pesadas águas . os meus hóspedes . és tu próprio . Na estrada . voltou-se para me olhar. disse Bernard . Pois sou mais complicado do que Neville imagina. digo para mim mesmo: «Aquilo que estou a ver não lhe daria prazer. Não somos simples . Ei-los de regresso . Os espí­ ritos maliciosos e atentos que me observam até durante as crises mais patéticas regressam a casa em multidão . Volto a ser eu próprio e rejubilo trazendo à cena tudo aquilo que Neville ignora de mim. Olhando através das janelas e afastando as cortinas . o amor é simples . mas também Byron. os meus familiares . ou fo­ ram cobertos por um véu ! Como é bom fechar as persianas . Foi humilhante . como os nossos amigos gostariam que fôssemos para irmos ao encontro da necessidade que têm de nós . E. saber que os seus olhos perscrutadores se afastaram. A mi­ nha vista abrange aquilo que Neville jamais alcançará.» É tão estranho ser-se reduzido por alguém a uma única pessoa ! Como é estranho ver o fio que nós tecemos estender o seu ténue filamento através dos espaços brumosos do mundo exterior. como são penetrantes e contínuos os teus dardos . Guardarei esta confidência até ao dia da minha morte . Ah. não deixar entrar mais ninguém. que . Neville obrigou a fugir. E entregou-me o poema. tema amizade . a sua devas­ tadora presença caiu sobre mim descobrindo os mais pequenos sei­ xos na praia da minha alma. aquilo e outra coisa.As Ondas 65 . Todas as neblinas se desvaneceram no telhado da minha alma. amizade . sou isto . Já está reparada a brecha aberta nas minhas defesas pelo admirável golpe de espada de Neville . Todas as aparências humanas me foram arrancadas . esses personagens familia­ res . Sentia-me completa­ mente esmagado . Olhou-me. Ah. E dei­ xou-me o seu poema. Entre nós este fio . mas a mim enche-me de alegria» (servimo­ -nos dos nossos amigos para nos avaliarmos a nós próprios) . Graças a eles sou Bernard. Ele partiu e eu fico aqui parado segurando o seu poema. Mas como é agradável e tranquilizador não mais sentir o peso dessa presen­ ça alheia. também eu secarei flores entre as páginas de sonetos de Shakespeare . «Não és Byron .

Eu vejo isto e Neville não vê . a figura sinistra do amor presidiu ao nosso encontro) . «Se a vida. Por isso ele alcan- . Tony. O coro é como as águas de uma corrente es­ calando as rochas . curvam-se agarrados aos remos como sacos de farinha. na lareira que se espalha numa chuva de fagulhas e pedaços de papel que esvoaçam. As divisões individuais desapare­ cem. Volto a ouvir o alegre coro dos rapazes . debruçar-me à janela. O tempestuoso vento de outono dispersa o clamor em rajadas alternadas de som e de silêncio. Agora estão a partir louça. esta permanência» . Sinto isto e Neville não sente . O barco que flutuava sob a abóbada de salgueiros passa agora debaixo da ponte . furtivo como um conspirador.um belo volume encadernado com papel mosqueado . pensa ele . Percival . a juventude e o amor. Os seus olhos enchem-se de desejo e lágrimas (porque ele ama. carregada com uma mala. agem como um só homem. evitando cuidadosamente qualquer contacto . galopam. Tem receio que se lancem sobre ela e a empurrem para a valeta. Gingam. Celebram alguma corrida de cães . contudo . Para. Por isso corre a cortina e fecha a porta à chave . A velha detém-se diante da janela iluminada. trotando ao longo das janelas iluminadas . escutar. Eu prefiro vaguear. como se quisesse aquecer as mãos . Não nos voltaremos a ver. pudesse manter esta ordem.pois acima de tudo ele deseja a ordem e detesta o meu desmazelo byroniano . Agora estão de novo a partir louça como está convencionado . Vejo-o afundar-se na poltrona baixa e contem­ plar o fogo que por um momento assume a aparência da solidez ar­ quitetural . Tudo se modifica. regressa apressada­ mente ao seu quarto . Mas Neville . E Neville estende a mão para o caderno . uma tradicional manifestação de alegria. que o reumatismo tomou nodosas . Uma velha mulher de andar inseguro regressa a casa. Tudo passa. É um contraste . atrás dos cães e das bolas de futebol . Archie ou outro qualquer partirão para a Índia.e febrilmente escreve longos versos com o estilo do poeta que de momento mais admira.66 Virginia Woolf gritam canções de caça. tomando de assalto as velhas árvores e precipitan­ do-se no fundo dos abismos com um abandono magnífico . Agarra o atiçador e de um só golpe destrói a momentânea solidez do edifício de carvão incandescente . Os rapa­ zinhos de barretes na cabeça que se voltavam todos ao mesmo tempo quando a carruagem dobrava a esquina dão palmadas nas costas e gabam-se das suas proezas .

sobre Neville . Que olhar malévolo e inquisidor Louis não lançaria sobre este fim de tarde de outono . o seu olhar feroz . de salsichas e guisado. e sentado num escritório lê algum obscuro documento comercial . cobertas de areia. Um odor substancial de carne de boi e carneiro . enquanto sentado no seu escritório acrescenta um algarismo insignifi cante ao grande total que calcula sem cessar. Repito . sinto os olhos de Louis que vigiam até a queda do meu cigarro .As Ondas 67 çará a perfeição e eu falharei . sobre esta louça quebrada e sobre estas canções de caça gritadas em coro . Mas não consigo (a procissão desordenada continua a passar dian­ te da montra) .Há sempre gente a passar. Muitas ve­ zes na minha procura de contrastes pareceu-me sentir o seu olhar pousado em nós . as faces pálidas . mas sou obrigado a olhar os meus vizinhos do lado para ter a certeza de que faço o que eles fazem . De resto o meu caso também não é claro . «Sou um inglês comum. o melhor aluno do colégio . . Avisto também os campanários cinzentos de uma igreja da cidade. Que vão para o diabo que os carregue. Não consigo ler. Mas nem isso será suficiente . E Louis diz: «Tudo isto tem um significado . de que falava a todo o instante por ter vergonha dele . Ao longe avisto casas e lojas . Rostos flácidos . Byron e toda a vida que aqui levamos? Os seus lábios finos estão ligeira­ mente apertados . Passam diante da montra. pegando numa pena fina e mergulhando-a em tinta vermelha. Automóveis . Passam sem interrupção diante da montra do restaurante . disse Louis . faliu e Louis . Tudo está um tanto toldado pelo vapor que sai de um bule de chá. Mas qual?» . Agora penso em Louis . O nos­ so total será conhecido . completará a soma. um empregado de escritório comum» . furgões e automóveis. o seu olhar risonho . Não estou sempre a entregar-me a emoções duvidosas? Sim. não deixarei atrás de mim mais do que frases imperfeitas . quando me debruço à janela e deixo cair o meu cigarro de modo que rodopie ligeiramente até ao chão. furgões e autocarros e de novo autocarros . Apoio o meu livro contra um frasco de molho Worcester e procuro parecer-me com os outros clientes . trabalha agora num escritório . Bang ! Atiraram uma cadeira contra a parede . O pai «banqueiro em Brisbane» . E um dia. Em primeiro plano estão as prateleiras de vidro com pratos de doces e sanduíches de presunto . pende como uma rede húmida a meio do restaurante . nem encomendar com convicção o prato de carne .

Mas eu não estou incluído nele . aniquilado .» Mergulham e emergem como aves aquáticas de asas brilhantes . Se falo . Onde es­ tará a rutura nesta continuidade? Onde está a brecha por onde se possa avistar o desastre? O círculo fechou-se. Todo o excesso para lá desta norma de conduta é futilida­ de . as criadas entram e saem e giram sobre si próprias apresentando os pratos de verduras . As pessoas continuam a passar. Tenho consciência da perpétua agitação dos chapéus que se inclinam e er­ guem . discutem com gestos apropriados a venda de um piano . . esperando que fale de novo para decidirem se sou do Canadá ou da Austrália. no momento exato ao cliente certo . que desejo sentir as protetoras on­ das da vida comum.«Levem-nos de volta ao redil . de modo que o homem aceitaria uma nota de dez libras . não vale a pena ser vivida. a mediocridade . ágeis como macacos a pegar nas coisas . «Eu aceitaria uma nota de dez . Baloiçando as travessas . Tenho diante de mim a média. E é a mim que se dirige um espírito errante e desesperado (uma mulher desdentada hesita diante do balcão) . os chapéus inclinam-se e erguem-se e a porta abre e fecha num movi­ mento perpétuo . a nós que passamos dispersos . inclinando-nos e er­ guendo-nos diante das montras com pratos de sanduíches de presun­ to . Os homens comuns inserindo o ritmo da sua vida neste ritmo (aceitaria uma nota de dez libras porque ele atravanca a entra­ da) . Sinto-me envolvido numa corrente desordenada. Não consigo sequer concentrar-me no jantar. O armário do piano é bonito mas atravan­ ca a entrada. eles arrebitam as orelhas . doce de damasco e pudins . É como o som de uma valsa que rodopia.68 Virginia Woolf de peles enrugadas . Se a vida é isto . contrai e expande de novo . submissos a este mo­ mento particular. o doce de damasco e o pudim . desesperado . aceitando os legumes . olho de soslaio os horizontes distantes . rodopia sem cessar. a harmonia é perleita. A sua desordem agita e altera constantemente o curso da minha consciência. que acima de tudo desejo ser abraçado com amor e me sinto estrangeiro e excluído ! Eu . Vejo como se expande . O piano estorva a entrada. a mola que a todos nos move .» Sim. vou reconduzi-los à origem. continuam a passar diante do campanário da igreja e dos pratos com sanduíches de presunto . É este o ritmo central . Eu . procurando imitar o seu sotaque . Mas também sinto o ritmo do restaurante . sempre agitados pela multiplicidade das sensa­ ções . Entretanto .

poesia. sinto o passo precipitado de inumeráveis hordas errando de um para o outro lado em procura da civilização. Nem à poeira e ao vapor que em gotas desiguais escorre pelas vidraças. E não poder traduzi-las de modo que o seu poder de persuasão vos subjugue e faça compreender a ausência de sentido da vida. algumas linhas ad­ miráveis .As Ondas 69 Vou continuar a leitura do meu livro . que está apoiado no frasco de molho Worcester. a minha doentia palidez e o meu aspeto desagradável e um pouco repugnante quando . até ao nó central formado por raízes de carvalho. É isso que explica os meus lábios contraídos . homens com casacos sentados em tamboretes ao balcão. pela terra húmida que exala um odor pantanoso. às travagens e arranques dos autocarros. tal como os bandos de aves mi­ gratórias procuram o verão . Eu . com amargura e ódio. Recordo-me de tudo isso. colunas que se desmoronam e os escombros verme­ lhos e negros de um incêndio noturno . Não me submeterei a este inútil desfile de chapéus de coco e de feltro e de adornos emplumados que as mulheres trazem na cabeça (Susan. e por detrás deles vejo a eternidade . Vejo o bule brilhar. Oponho ao que se passa este bastão de metal forjado . a vulgaridade deste ritmo e vos liberte da degra­ dação que . vou bater na porta de carvalho . o companheiro de Platão e de Virgílio . a quem respeito . Cego e surdo . esvoaçantes . Sim. Vi mulheres carregando cântaros verme­ lhos junto do Nilo. às palavras que se arrastam vazias de significado . Todos o ignoraram. usaria um simples chapéu de palha neste dia de verão) . às hesitações diante do balcão. hei de reconduzir-vos à origem. com os ouvidos tapados com terra. palavras contidas . A minha vida é despertar e adormecer. emplumadas . As minhas raízes descem por entre veios de chumbo e prata. Vejo este restaurante projetado no passado como num fundo de milhares de asas . outras estou desperto . Esqueceram as palavras deste poeta morto . É como uma marca feita por um ferro em brasa na minha carne por um carrasco de rosto velado. ou caídas . se não for compreendida. as prateleiras de vidro repletas de sanduíches de um amarelo pálido. precocemente vos tomará senis ! A minha tarefa neste mundo será a de traduzir o poema de modo a que ele se tome inteligível . me volto para Ber- . ainda assim escuto os fragores da guerra e o canto do rouxinol. Acordei num jardim com um toque na nuca e o beijo ardente de Jinny. como se recordam gritos confusos . Umas vezes durmo. Contém volteios bem forjados .

tudo isso me pertence . Quando a criada com uma coroa de tranças na cabeça passa diante de vocês . Odeio o linóleo. Borda à luz tran­ quila de uma lâmpada. entrega­ -lhes . descer à cozinha. A carroça vai-se tomando cada vez . mantida à margem. e começam a dis­ tinguir-se jarras . sacudin­ do as migalhas do colete . Só eu estou nu . O silêncio e o tocar dos sinos. Todos estão protegidos . sob o pálido céu onde lentamente as nuvens deslizam . Mas tudo se há de tor­ nar mais macio e quente . digo . a vaca que avança pesadamente sem deixar de mastigar. Já terminou o coro matinal dos pássaros . odeio pinheiros e montanhas . o mais novo de todos eles . Mandaram-me para o colégio. sem hesitações . herdaram poltronas e ao crepúsculo correm as cortinas para que a luz incida sobre os seus livros . A esta hora tão matinal tenho a sensação de me confundir com os campos . São meus os bandos de pássaros e esta jovem lebre que salta no momento em que ia pisá-la. de ser o celeiro e as árvores. como se fosse vossa irmã. enviaram-me para a Suíça a con­ cluir os estudos . taças . numa casa rodeada de campos de trigo e a sua recordação tranquiliza-me . passar discretamente pelas portas dos quartos. para que ela só o encontre quando eu tiver partido e o seu riso de troça ao pegar nele não me atinja antes de ter afastado os batentes da porta. O dia está frio e rígido como uma mortalha de linho . sair para o jardim. . coloco uma gorjeta excessiva. Respeito Susan . Vou vestir as meias . É ainda muito cedo e a neblina paira sobre os pântanos . Isto é uma folha. as esteiras e a poltrona já esburacada. Sou sempre o mais novo . Vocês são irmãos dela. As des­ botadas riscas de sempre atravessam o papel das paredes . a intrépida an­ dorinha descendo do céu. Mas quando me levanto . «Isto é um caracol . Dei­ xem-me ao menos deitar-me nesta planície . Minha a garça que estende preguiçosamente as asas. um xelim sob o rebordo do prato . passar pela estufa e vaguear pelos campos . Não posso ser separada de tudo isto . Sou o mais fraco . o mais inocente e confiante .70 Virginia Woolf nard e Neville . Sou uma criança olhando os fios de água que a chuva faz correr a seus pés . meu o vermelho pálido do céu e o verde em que se desvanece . o grito do homem que chama os cavalos dispersos pelos campos. disse Susan.» Encantam-me os caracóis e as folhas .Agora o vento ergue as persianas . que passeiam sob os teixos . porque ela fica sentada a bordar. o doce de damasco e o pudim. e agora só um deles canta junto da janela.

A pesada terra estende-se a meus pés . O dia começa a movimentar-se . Nem das piruetas de Jinny em que o cor­ po e os membros formam uma só peça. novembro . Vou regressar através dos campos . fazendo desvios para evitar as poças e saltando agilmente os maciços de arbustos . Na minha saia . Terei filhos . A rigidez da madrugada diminui . As aves reuniram-se na estrada . Às vezes penso que sou as estações . a neblina e a ma­ drugada. Nem dos estranhos olhares de compreensão de Rhoda quando fita o vazio por cima dos nossos ombros . Não posso deambular de um lado para o outro. Não se trata de suspi­ ros nem de risos de alegria. Alguma coisa nasceu dentro de mim enquanto estive na Suíça. a alma. o meu amor chegará. Estou a pensar em bolos e pão com manteiga e em pratos brancos numa sala cheia de sol . Não posso flutuar suavemente misturando-me com as outras pessoas . amamentando os filhos como eu hei de amamentar os meus . sinto o peso que cresceu no meu coração. o mês de maio. o mês de janeiro. É cruel o que tenho para ofe­ recer. ao lado da carroça. Seguir pelo caminho tra­ çado na erva com passos firmes e iguais . Dirá apenas uma palavra a que responderei com uma só palavra. Ofertar-lhe-ei o que cresceu dentro de mim. A cor regressa à superfície das coisas e ondula em vagas douradas pelos campos de trigo . Estará parado sob o cedro. Alguma coisa de duro. O fumo de lenha queimada sobe no ar. O s carneiros juntam-se uns contra os outros no meio do campo . Prefiro o olhar fixo dos pastores que encontro na estrada. Mas quem sou eu . caseiros com forquilhas . criadas de avental. nem flutuar suavemente.não precisam ainda de voar. Mas agora tenho fome . nem misturar-me com as outras pessoas . mas a luz que ilumina esta cancela e este pedaço de campo. Serei silenciosa como a minha mãe e de aven­ tal azul andarei pela casa fechando à chave os armários .As Ondas 71 maior à medida que avança pela estrada. Pois em breve. Mas debruçada nesta cancela até o ferro se imprimir na carne dos meus braços . ou o olhar das ciganas sentadas na berma da estrada. encostada a esta cancela a observar o setter que fareja em círculos? Às vezes acontece-me pensar (eu que ainda não tenho vinte anos) que não sou uma mulher. Terei uma cozinha para onde vão trazer os cordeiros doentes para serem aquecidos em cestos e haverá presuntos pendura­ dos e cebolas brilhando. no ardente meio-dia em que as abelhas zumbem à volta das malvas . Vou chamar o meu setter. Nem de engenhosas frases circulares .

As flores estão carregadas de pólen . Regresso . formando uma suave cúpula sob o pano limpo . o meu arroz. atenta aos passos arrastados do meu pai . depondo ouro nas águas e no pescoço dos cisnes . entre as rosas que abriram sobre a mesa as suas pétalas vermelhas . As nuvens agora cálidas e repletas de sol deslizam entre as colinas . Olho as folhas trémulas no jardim escuro e penso: «Estão a dançar em Londres . Ouço os ruídos que vêm da estrada misturados ao vento da noite. Com o seu passo lento . A carne está no forno . Sento-me . . Penso em Jinny. Os cisnes sobem ordenadamente o rio . e deponho a flor junto do cogumelo manchado de terra. Já não há pássaros pou­ sados na estrada. enquanto as flores de pétalas fechadas se mantêm muito direitas sobre a mesa. Jinny beija Louis .72 Virgínia Woolf de tecido áspero depositam-se gotículas de humidade e os meus sa­ patos estão ensopados e escuros . verdes e castanhas . como um gato ou uma raposa. lenta­ mente puxadas pelos cavalos da quinta. . bato . E quando vem a noite as lâmpadas acesas lançam reflexos dourados na hera que recobre os mu­ ros . A rigidez do dia desfez-se e surgi­ ram sombras cinzentas . O pão leveda. mergu­ lhando as mãos na tépida espessura de massa. fazendo ranger as suas folhas de onde tombam gotas de água. colho a orquídea vermelha que cresce ao lado. O fogo crepita. Ouço na estrada o chiar das carruagens que regressam. As minhas uvas passas . Depois regresso a casa para ferver água para o chá do meu pai . Passo entre as cou­ ves . Quebro-lhes o caule. que caminha ao longo do corredor. Mas a noite chega e acendem-se as luzes . Deixo a água fria correr em leque sobre os meus dedos. Em Rhoda.» . Ficamos calados . À tarde dou um passeio até ao rio . Em todo o lado há sinais de fertilidade . Sento-me junto da mesa com a minha costura. as moscas voam em círculo . Amasso . segurando entre os dedos um pedaço de erva. esfregada e limpa. com o pelo cinzento da geada e as patas endurecidas pela lama espessa. Os insetos erram de planta em planta. Encho várias chávenas . Procuro sob as ervas as copas brancas dos cogu­ melos . as fatias de pão e a manteiga. Depois vou ao armário e pego nos sacos húmidos onde estão as excelentes uvas passas. entre os frascos da compota. os sacos prateados e azuis estão de novo fechados no armário . estendo . as vacas caminham nos campos mastigando sempre . seguro no pesado saco de farinha e pouso-o na mesa da cozinha.

Olho . Os lábios o vermelho que eu queria. Des­ lizo com facilidade por soalhos lustrosos . No meu pescoço repousam as frias contas de um colar. Os criados . Já não há luz em nenhuma destas casas . apres­ sam-se a entrar. Entro . apaguem as luzes e subam as escadas para se irem deitar. Mas a noite ainda mal começou . o começo . Os meus pés sentem-se oprimidos nos sapatos . não falam. Há cadeiras douradas nas salas vazias que nos esperam. Estou pronta para me juntar aos homens e mulheres que sobem a escada. Avalio este mundo . Não há ninguém a passar nesta rua. Ouve-se depois o leve som das capas caindo no vestíbulo . As chaminés recortam-se contra o céu e há dois ou três candeeiros que iluminam as ruas tristes como lâmpadas acesas de que ninguém precisa. É este o meu lugar. Sinto o meu corpo resplandecer na escuridão . E flores mais calmas e belas que as dos jardins. E um livro encadernado pousado sobre uma pequena mesa.Como é estranho . um intervalo sombrio. Despem a roupa e vestem camisas de dormir. que neste momento as pessoas re­ gressem a casa. mas não abrandamos o passo. Paro . postados em fila. que crescem espalhando man­ chas de verde e branco ao longo das paredes . O meu mundo . Os violinistas levantam os arcos . Olhamo-nos um instante . O meu cabelo tem a curva exata. tal como eles estão expostos ao meu .As Ondas 73 . Piso com naturalidade os espessos tapetes . As únicas pessoas que se veem nas ruas são pobres caminhando apressadamente . recebem o meu nome . o meu recente e desconhecido nome e anun­ ciam-no diante de mim . Foi isto que sonhei. O dia acabou. Esta é a minha vocação . Nesta atmosfera de perfu­ me e esplendor abro-me como um feto desdobrando as suas grandes folhas . Suavemente as minhas pernas de seda ro­ çam uma na outra. espreito à volta. Es­ tou arranjada. Há polícias postados nas esquinas . Olho os grupos de pessoas desco- . o que previ . nem mostramos sinais de reconhecimento . aos meus pares . exposta aos seus olhares . Chegam pessoas . Tudo está preparado e em ordem. Esta é apenas a pausa de um instante. Tudo está pre­ parado e antecipadamente decidido . É o prelúdio. estou preparada. Sento-me muito direita de modo que o meu cabelo não toque as costas da cadeira. Os nossos corpos comunicam. passo pó de arroz pelas faces . disse Jinny. Agora o carro detém-se suavemente . Os meus joelhos são de seda. Um pedaço da rua fica ilumi­ nado . A porta abre-se e fecha-se . Passo por eles .

As suas mãos ajeitam maquinalmente as gravatas . Sinto o corpo fremente . Ondulo . Sinto mil possibilidades nascerem dentro de mim. Abando­ namo-nos ao fluxo da música. deixo-me arrastar. Vestem de negro e branco e sob os vincos da roupa percebem-se os músculos . com um pequeno movimento . Não conse­ guimos sair para fora dos seus muros hesitantes . São muito jovens . Desejam causar boa impressão . Os nossos corpos têm sobre nós mais poder do que imaginava. abruptos . Depois tudo se imobiliza. Ei-lo .» Um dos jovens . «Vem. Sou sucessivamente travessa. distinguem-se os corpos muito eretos dos homens . lânguida e melancólica. os coletes . voltam-se também. abandona a sua imobilidade . Vem.«Não . inconstante e caprichosa. Tenho raí­ zes mas flutuo .74 Virginia Woolf nhecidas . O seu corpo rígido e o meu corpo que ondu­ la estão apertados um contra o outro no interior dessa grande figura. Aqui e ali a sua cor­ rente é desviada pelos rochedos. É o seu ritmo que nos mantém unidos . sempre envolvidos pela grande figura da dança. Estou mais es­ tonteada do que supunha. Os vultos negros e brancos dos homens desconhecidos contemplam o meu rosto inclinado para eles . mas solidamen­ te enraizada. É o momento mais intenso da minha vida. de modo que ele possa aproximar-se sem receio que a corrente me arraste . lento e hesitante . Depois desdobrando-se em pregas suaves e sinuosas faz-nos voltear dentro de si cada vez mais depressa. perfeitamente circulares . ao fundo do túnel . Nada no mundo me importa além deste . apoiado numa consola. desprendo-me como uma lapa se desprende da rocha. os lenços . Entramos e saímos . deixemo-nos rodopiar até às cadeiras douradas . vem. De súbito a música interrompe-se . Apro­ xima-se . Numa ondulação dourada digo àquele homem: «Vem. O sangue continua a cor­ rer apressado no meu corpo imóvel. Quando me volto para olhar um quadro . É melancólico e romântico . A sala gira à minha volta. estremece . E de súbito. alegre . deslizando ora para um ora para outro lado . Entre as mulheres resplandecentes de verde . Sinto de novo mover-se o meu reflexo no vidro . Aceito-o . sinuosos . Flutuo como uma plan­ ta no rio . E imediatamente me tomo travessa.» O seu rosto é pálido e os cabelos negros . digo . Caminha em direção a mim. ele vibra. Já está a meu lado . para contrastar com o seu romantismo e a sua melancolia.» Numa ondulação sombria digo a outro: . rosa ou cinza­ -pérola.

As p alavras únicas e solitárias formam pares . As palavras aglomeram-se . digo a este homem. muito alto . Sou um deles . viver as minhas aventuras . homens e mulheres . Empurram-se e sobem aos ombros umas das outras . digo . Caem os véus que nos separam. Está ali um ancião . . Estes são os meus pares . Bebo . revolvem-se e formam muitas ou­ tras . Atrás de mim. Aquele é uma grande da­ ma . e ele aproxima-se de mim . Pouco importa o que digo . Da próxima vez que ela se abrir toda a minha vida poderá mudar. Aromas e flores . Estamos juntos . um vulto severo fecha os gran­ des olhos e embala-se lentamente adormecido . Abaixo-me. Lua? Não somos adoráveis sentados aqui juntos . Perdemos consciência dos nossos corpos unidos sob a mesa. A porta abre-se . A porta está sempre a abrir-se . Aí está. inclinando-me para ele como uma flor dourada.As Ondas 75 homem cujo nome desconheço . Como um pássaro que voa. Alguém en­ trou . o êxtase . A porta abre-se . o calor e o brilho do sol foram destilados neste ar­ dente líquido dourado . O nó da minha garganta desfaz-se . Sou admi­ tida na quente intimidade de outro ser. Agora já passou . empur­ ram-se . como se tivesse visto alguém que conheço . eu com o meu vestido de cetim e ele de branco e negro? Agora os meus pares podem olhar-me . Pessoas acotove­ lam-nos ao passar. Não somos belos . «Vem» .devo parecer-lhe uma criança. Eis as raparigas da minha idade . uma frase atravessa o espaço vazio entre nós . «Vem» . Vou entrea­ brir a cortina e olhar a Lua.à beira dela passaria despercebida. Quem é? É apenas uma criada que traz os copos . Colho uma flor azul e erguendo-me nas pontas dos pés prendo-a no seu casaco . Pousa nos seus lábios . não consigo evitar um estremecimento . É o alívio . adversários com quem me posso medir. Seguro neste fino cálice e bebo . Também me agradam os homens louros e de olhos azuis . Devolvo com segurança o seu olhar. É aqui que vou correr riscos . Somos invadidos pela indiferença e o desânimo . Este é o meu mundo .Vou deslizar por detrás deles . Ao beber. Encho de novo o meu cálice . atropelam-se umas às outras . O sabor do vinho é forte e adstringente . Ele está melancolicamente postado na beira do caminho . em qualquer cume dos Alpes . disse Rhoda. Mas não conheço ninguém . Esse foi o mo­ mento do êxtase . Sopros de esquecimento acalmam a . Sou naturalmente deste mundo . Não importa que palavras são .

Fico ex­ posta . sinto-me dilacerada. perseguindo-me . tal como uma gaivota cavalgando as ondas . Não posso mover-me sem carregar o peso de séculos. Mas eu minto . Mas que resposta dar? Retrocedo com violência. A andorinha roça com as asas a super­ fície de lagos sombrios . Onde vai Jinny buscar a segurança que tem ao dançar. escon­ dam-me . responder. Do outro lado do mundo há colunas de mármore refletidas em lagos . sentindo escaldar o corpo desajeitado e exposto à indiferença e ao desdém dos homens . Dissimulo . Reino sobre os meus navios. Mas aqui sou obrigada a escutar. Terror e mais terror.76 Virginia Woolf minha agitação . agitam-se contra mim. Eu que seria capaz de expor o peito às tempestades e de me deixar alegremente cobrir pelo granizo . espreguiçar-se e recomeçar a andar. mães de vestidos caindo sobre os joelhos brancos . dirige habilmente os seus olhares de um lado para outro . Devo estender-lhe a mão. As línguas golpeiam-me como chicotes . que nenhuma luz ofusca e nenhuma seda tolhe . O terror entra. embalo as minhas bacias cheias de água. Vêm na minha direção . Sinto-me atingida pelo ridículo . Um enorme peso me oprime . O tigre salta. vejo através da janela um gato tranqui­ lo . Mas aqui a porta abre-se e entra gente . Que amuleto me poderá proteger de se­ melhante mal? Que rosto poderei invocar que seja uma fonte de frescura neste calor abafado? Penso em nomes que li nas etiquetas das malas . evitar os seus golpes com mentiras . Móveis e incessantes . Preciso de simular. Visitarei às escondidas os tesouros escondidos na minha solidão . Sou trespassada por um milhão de flechas . clarei­ ras por onde descem colinas escarpadas . dizendo isto e aquilo sem precisar de mentir. Odeio os pormenores da vida individual . ou Susan a certeza com que tranquilamente sentada à luz da lâmpada enfia na . Um gato livre de parar. porque sou a mais nova e a mais desprotegida de todas . Jinny. eu que imagino colunas de mármore e lagos onde as ando­ rinhas molham as asas do outro lado do mundo . Quando estou só . Olhando sobre o ombro deste homem. grito . A porta abre-se . Sorriem levemente para esconder a crueldade e a indiferença e apoderam-se de mim. estou imobilizada. Protejam-me . torcendo distraidamente as bodas das cortinas de brocado . Mas aqui . A andorinha roça a superfície do lago e a Lua solitária percorre mares azuis . não me sinto inteira. A noite adensou-se um pouco mais sobre as chaminés . O tigre salta.

com medo de que a porta se abra e o tigre salte . Mas eu ainda não estou suficientemente serena para poder formar uma frase . imóveis como estátuas contra o céu . Porém . eu duvido . Os amantes estão abrigados sob o plátano . vejo a sombra do espinheiro selvagem que se agita no deserto . aqui . Eis um mundo onde nada muda. Estou destinada a andar à deriva. queimada pelo seu sopro ardente . pois . Agora vou caminhar como se tivesse um objetivo e atravessarei o quarto até à varanda coberta por um toldo . Ainda não tenho vinte e um anos . Vejo o céu onde a Lua espalha o seu fulgor súbito . tremo . entre os homens e mulheres de faces contraídas e línguas mentirosas . são capazes de bater com o punho na mesa. para encontrar rostos envoltos em beleza onde não há vestígios de traços conhecidos . Sou tam­ bém uma rapariga. como um pedaço de cortiça num mar revolto . Basta sair deste salão onde se agitam as línguas que me golpeiam como facas . sentinela ' imóvel . Um homem passa. O que digo é sempre contestado . . Sou interrompida cada vez que a porta se abre . continuo parada na ponta dos pés à beira do fogo . dizem «não» . um mundo onde nada se modifica. Nasci para ser estilhaçada. Nasci para que se riam de mim . Vejo também as grades da praça e duas pessoas sem rosto . Existe . Sou a espuma que deposita a sua brancura nas mais longínquas rochas . que me fazem bal­ buciar e me obrigam a mentir. A uma esquina há um polícia. de pé nesta sala.As Ondas 77 agulha a linha branca? Dizem «sim» . De cada vez que a porta se abre sou projetada para longe como uma alga.

aqui raiadas de azul suave. com veemência. desabrigados. A luz do sol cobriu os bosques e os campos de trigo . através das joias lique­ feitas. altivamente eri­ çados de ramos. com a energia muscular de uma máquina que se contrai e dilata alternadamente . cada um por si . Um deles cantava solitariamente debaixo da janela do quarto . e sem se preocuparem com a áspera dissonância produzida com o canto de outro pássaro . enquanto as on­ das de azul de aço. os pássaros cantavam sob o sol cálido. Estas caíam agora num som surdo e regular. onde as copas das árvores se adensam sobre canteiros de flores. e expôs o rosto olhando diretamente sobre as ondas. de tal modo que o seu coração parecia ir re­ bentar. Os rios tornaram-se azuis ou multi­ colores e os relvados que desciam até à beira da água ficaram tão verdes como penas suavemente eriçadas de aves . semelhante ao bater dos cascos de cavalos correndo sobre a relva . As ondas avançavam e depois recuavam. E os bosques. poças de água e estufas. ao ar e ao sol. varriam a praia . eram como a crina densa de um cavalo . Arqueadas e sere­ nas. No jardim. Os seus olhos redondos brilhavam tanto que pareciam saltar. Cantavam expostos. com pai­ xão. Cantavam como se o seu canto lhes . belos na sua nova plumagem nacarada ou com manchas bri­ lhantes. Os seus salpicos erguiam-se como lanças arremessadas sobre a cabeça dos cavaleiros. As suas patas agarravam os ramos ou as grades das cancelas . Cantavam com estridência. ali com manchas douradas ou o adorno de uma pena brilhante . Outro no ramo mais alto de um arbusto .O Sol já não repousava sobre o manto de águas verdes. Deixou de lançar sobre o mundo os seus raios vacilantes. as colinas pareciam contidas por tiras de couro como o corpo humano o é pelos feixes de músculos . marchetadas de diamantes. Um ter­ ceiro no rebordo de um muro .

Mas depois surgia uma pedra e as águas separavam-se . a humidade da terra encharcada. emitindo notas breves e agudas. expulsava diante de si exérci­ tos de sombras. co­ mo a aveludada casca de um fruto maduro. Cantavam como se as ares­ tas do seu ser se tivessem tornado subitamente mais afiadas e preci­ sassem de cortar a suavidade da luz azul-esverdeada. as cascas húmidas e outros restos lançados no lixo da cozinha de onde se desprendia um vapor lento . o perfume dos pastéis e da fruta. como as águas de um arroio montanhoso que se chocam e misturam. Os objetos iluminados pa­ recem adquirir uma vida intensa . Depois as formas assumiram volume e contorno . que se aglomeravam umas contra as outras e forra­ vam a distância com os seus tecidos de mil pregas . pareciam gravados em traços mais finos . os fumos e vapores gordurosos da cozinha e o quente aroma da carne de carneiro e de vaca. repletas de humidade . As mesas e as cadeiras emergiam à super­ fície como se tivessem estado mergulhadas debaixo de água e ficado recobertos de uma ténue película avermelhada. manchadas. Um prato tornava-se um lago bran­ co . metodicamente. laranja e violeta. as fibras do ta­ pete. Os pássaros de bicos pontiagudos lançavam-se rápidos e impiedosos sobre todas essas coisas pastosas.As Ondas 79 fosse arrancado pela pressão da manhã. . furiosamente. pousando nos ramos mais altos das árvores e descendo o olhar so­ bre as folhas e os campanários das igrejas e a planície branca de flores ou as ervas ondulantes e o mar que soava como o tambor convocando o regimento de soldados com plumas e turbantes . ali o vulto de um guarda-louça . As veias que atravessavam a transparência da porcelana. As vezes o canto dos pássaros fundia-se em velozes escalas. Lançavam-se em súbitos voos dos lilases ou do alto das sebes . Descobriam um cara­ col e batiam-lhe com a concha contra uma pedra. agarrando-o a ela como uma lapa. Duros raios de sol entravam no quarto . Fendiam o ar e planavam lá no alto. E à medida que a luz adquiria intensidade. roçando as largas folhas . a textura da madeira. Uma faca um punhal de gelo . Nada possuía sombra. O verde intenso de uma jarra parecia sugar o olhar. E de repente os copos dir-se-iam apoiados em raios de luz. descen­ do cada vez mais depressa ao longo dos declives. Ali estava o relevo de uma cadeira. até ela se partir e alguma coisa viscosa escorregar.

porque se agita. pega na mala. Nem Roma possui esta majestade . Mas trovejando o comboio prossegue . cúpulas de vidro . Guardada pelos gasó­ metros e as chaminés das fábricas . O comboio matinal do Norte lança-se sobre a cidade como um projétil . Não quero que o comboio se detenha com uma sacudidela brusca. estão suavemente envoltos em silêncio . todos os clamores . com a estranha e persuasiva sensação de que por causa da minha grande felicidade (estou noivo) faço parte desta velocidade . sole­ nes e semelhantes e só temos um desejo: chegar à estação . Uma espécie de esplêndida unanimidade envolve-nos a todos . a rivalidade .. Em breve explodiremos nos flancos da cidade como uma bomba no ventre de um pesado e majes­ toso animal materno . Estou de pé . Vamos para Londres e já se percebe alguma inquie­ tação no seu sono maternal . cintilante e repleta de cúpulas . catedrais . Os rostos vazios e expectantes de pessoas que aguardam olham-nos quando atravessamos as estações com a rapidez de um relâmpago . instituições e teatros . Londres espera-nos . Sinto-me disposto a tudo tolerar e admitir. aos viajantes . Segura o formigueiro contra o peito . Somos projetados para lá das nossas proporções normais . Meu caro senhor. deste projétil lançado contra a cidade . Todos os gritos . e tenta enfiar nela o barrete que usou toda a noite? Nada do que fazemos pessoalmente pode ser útil . Não quero que seja quebrado o laço que nos uniu durante esta noite em que estive­ mos sentados um diante do outro . Os homens seguram com mais força os jornais e sentem passar a morte . Abrimos as cortinas ao passar. Não quero que o ódio .Como é maravilhoso e estranho . Surgem fábricas . como a asa cinzenta de um gigantesco ganso (está uma bela manhã sem sol) . Os contornos do casario emergem da neblina. A cidade murmura e trauteia. disse Bernard . junto à porta do comboio . ver Londres sob o nevoeiro . dorme enquanto nos aproxima­ mos .

Sou incapaz de recordar o passado . ou comprar um chapéu . sem dese­ jo. Mas eu não pretendo ser o primeiro a sair. Realizamos o nosso desejo. num cruzamento . a opinião que tenho de mim pró­ prio . Quanto a mim. novamente a indiferença me invade . Só em momentos críticos . tendo como único desejo chegar à estação de Euston . a miserável obrigação de irem a um encontro . desejo abrir as mãos e deixar escapar os meus objetos e ficar parado na rua sem participar em nada. Não peço mais nada. sentados um junto do outro . tenho final­ mente liberdade para mergulhar profundamente na imensa. Vão passar por aqui ou por ali? Então a individualidade afirma-se na escolha e saem . Eu que desde segunda-feira. a cor dos meus olhos . Depois . olhando os autocarros com esta insaciável curiosidade sobre o destino humano que seria a única necessidade do meu espíri­ to se ele ainda tivesse necessidades . não tenho objetivo nem ambições . Decididamente todos se agarram à vida. Uma qualquer necessidade as empurre .As Ondas 81 e todas as variedades do desejo retomem o s seus poderes. Mas . separa todos estes seres huma­ nos ainda há pouco perfeitamente unidos . eu que não podia ver uma escova de dentes num copo sem gritar: «a minha escova de dentes» . O comboio para na plataforma do cais . a forma do meu nariz . o meu instinto de conservação reage fazendo-me parar dian­ te de um autocarro . a assumir o fardo da existência individual . As pessoas poderiam atravessar-me . omnipre­ sente vida comum (quero chamar a atenção para o facto de muitas coisas dependerem do estado das calças . . sem inveja. A pressa. Satisfeito como uma criança ao deixar o seio da mãe . este dia entre tantos outros dias . É curioso ver como as pessoas hesitam à porta do elevador. Deixo-me arrastar pela corrente . A superfí­ cie do meu espírito desliza como um pálido ribeiro refletindo os objetos que passam. Mas a verdade é que já as não tem. O rumor do tráfego . a passagem de rostos iguais transportam-me para um sonho alucinado em que todos os traços faciais são suprimidos . Cheguei . senti intensamente em todos os nervos a sensação da minha identida­ de . Foi muito agradável a comunhão que sentimos no comboio . um homem inteligente fica completamente anulado por umas calças coçadas) . atenção ! Isso acabou . o dia em que ela me aceitou . na beira de um passeio . a confusão e a vontade de passar primei­ ro no guichê e apanhar o ascensor dominam os nossos atos . Fui aceite . E que é este instante .

porque eu não tenho ambi­ ções . É isso que explica a minha confiança. sinto o corpo atravessado por estranhas oscilações e vibra­ ções de simpatia que . Apesar disso é verdade que o meu sonho . Graças a nós os jardins crescem e ouve-se o rugido das florestas . quando enfrento a cor­ rente humana nesta rua congestionada. os moços de recados e estas furtivas raparigas que olham as montras ignorando o seu trágico destino . e aproveitando os instantes em que não há risco para atravessar a rua. sob a calçada. as árvores na floresta. o meu desejo é mergulhar. desta gente cercada pela sua própria condena­ ção . possa lançar um punhado de sementes para lá desta geração . Mas eu tenho consciência plena de como é efémera a nossa vida. Meus filhos hão de lavrar novos campos . nem das minhas . co­ nhecer as mais remotas profundezas . o meu sentimento de uma estabilidade essencial . dos mamutes . abrindo caminho entre a multidão de corpos . etc . Não somos gotas de chuva que o vento depressa seca. arrastando-se pelas ruas numa rivalidade sem fim. cobiça e desejo de que sou tão irresponsável como das que experimento durante o sono (desejava ter aquela mala. Não . de escutar os sons ancestrais dos ramos que se quebram. A roda do tempo recuou um pouco .me convidam a abraçar estes rebanhos humanos: os que cami­ nham em passos rápidos e os que olham à volta. que de outro modo seria monstruosamente absurda. Renascemos sempre sob novas formas . estilhaçada por sensa­ ções espontâneas e irrelevantes . há conchas . abandonar-me ao desejo irrealizável de abarcar o universo inteiro com os braços da compreensão . Isto não é vaidade . As minhas filhas voltarão aqui em outros Verãos . Enquanto caminho . Estamos apenas ligeiramente cobertos por tecidos abotoados com cuidado e. desejo impossível para os homens de ação . Talvez tenha filhos . o rugido de animais selvagens . O nosso pequeno avanço foi suprimido . uma ou duas polegadas apenas .82 Virginia Woolf a que me sinto preso? O rumor do tráfego poderia ser qualquer outro rumor.por eu estar desligado do meu ser íntimo . Na realidade os nossos corpos estão nus .) . Quero exercer por uma vez o meu direito de examinar as coisas e não de agir. de curiosidade . ossos e silêncio . Não me recordo dos meus dons particulares. É verdade que a vida adquiriu agora para mim misteriosos prolon­ gamentos . a tentativa de mergulhar nas águas e me deixar arrastar é interrompida.

Essa é a minha fraqueza. Os seres autênticos . a multipli­ cação . Uma história grotesca . Tive . Voltam os seus quadros contra a parede mal acabam de os pintar. vestida de púrpura. o resumo que as completa. Necessito do olhar dos outros para desenhar todos estes ornamentos e enfeites . . duradouras . É impossível desembaraçarmo-nos do odor persistente da nossa identidade . Nestes momentos eu não sou eu . É ela que perturba a marcha das minhas conclusões . içada de uma carruagem pelo marido . Para ser eu (sei isso) preciso da ilumina­ ção dos outros e é por isso que nunca estou completamente seguro de mim. E ouvi . Uma pequena roldana está fixada na parede desta loja. sessenta anos . nesse instante de embrutecedora satisfação . . para lá deste pulsar de vida. Estranha terra. ouvi o suspiro da maré que se movimenta para lá deste círculo de luz resplandecente . nesta rua lateral há uma rapariga à espera de alguém. As suas palavras saem condensadas . pelo menos . Por quem espera ela? Uma história ro­ mântica. Moldo a minha frase e precipito-me com ela para um quarto mobilado . Preciso de auditório . e impede a sua formação. Nas palavras de Louis há uma espessa camada de gelo . Nasci com o dom de formar palavras e sopro as minhas bolas de sabão através do mundo . nesse mo­ mento de apaziguamento . Depois desta sonolência em que mergulhei . Mas ei-lo que regressa. nem dos sinais de nascença. concentradas . São ob­ servações espontâneas como estas que me permitem diferenciar-me. não. Acabo de atravessar regiões sombrias da não identidade . o sentido de todas as coisas . imagino que nasci destinado a encontrar. o fio que as liga. dessa vida. Mas os solilóquios em ruelas laterais depressa se tomam insípidos . Por­ quê? Imagino uma enorme mulher redonda. Suportam mal a iluminação vinda de fora. me desintegro . como Louis e Rhoda. Por isso me separo . da boca ou do nariz . onde dezenas de velas a farão brilhar. só existem por com­ pleto na solidão. nem da forma dos olhos .As Ondas 83 características pessoais . e ao escutar a voz interior que me diz para anotar tudo o que encontro nas minhas deambulações . que escorre suor e tem. furioso e insensato . Não faço parte da rua. eu contemplo a rua. desejo brilhar em inú­ meras facetas à luz do olhar dos meus amigos. Sou incapaz de me sentar nos fundos de um restaurante sórdido e pedir dia após dia a mesma bebida até ficar com­ pletamente impregnado desse fluxo . numa noite de inverno . Por exemplo . Desliza através de uma fenda qualquer da nossa estrutura. construir-me.

Neville . mas já sinto a presença desses arautos que são para nós as imagens dos amigos au­ sentes . exato . Ah. Mas apesar disso chamam-me à vida.84 Virginia Woolf um momento de imensa paz . cada mesa. Com as suas próprias mãos prepara a salada para um cliente privilegiado . Jantamos juntos . esculpido em pedra como uma estátua. Graças a Deus encontramo-nos esta noite . irreais. de hipóteses . O imprevisto desta explosão está na alegria de comunicar. que parte para a Índia. Sinto-me incomodado com a minha própria fecundidade . pronto a cobrir todas as coisas com um véu de palavras . O foguete é lançado nos ares . Jinny dançando como uma chama. ardente . Os seus grãos dourados caem e fertilizam o solo da minha imaginação. febril . Seria capaz de descrever com a maior profusão de detalhes cada cadeira. a sentir-me sufocado pelas suas cortinas doentias . cortado à tesoura. Serve-me o varredor de ruas . é provocar uma explosão. em Louis . mesmo que apenas para pedir vinho ao empregado . não sou exigente . Dispersam estes vapores . Susan como olhos que parecem pedaços de cristal. sobre a terra seca. Susan. As imagens formam-se por geração espontânea. Agora retro­ cedo sob o impulso de pungentes sensações . Falar. e Rhoda. grotescas estas imagens dos amigos ausentes. Quem é esse senhor e de onde lhe vem o privilégio? E que diz ele àquela dama de brincos pendentes? É uma amiga ou uma cliente? Desde que me sentei nesta mesa sinto uma deliciosa confusão de incertezas . pela inveja (tenho fome) e pelo irresistível desejo de ser eu . Eles arrancam-me às trevas . o carteiro. Quem será capaz de exprimir o significado das coisas? Quem pode prever o voo que uma palavra descreve depois de . Graças a Deus não terei de estar só . Começo a impacientar-me com a soli­ dão . A hora do nosso encontro ainda está longe . casa comensal . Neville . São ima­ gens fantásticas . Diremos adeus a Percival. a ninfa da fonte sempre à beira das lágrimas . o empregado deste restaurante francês . Penso naqueles a quem poderia explicar certas coisas . Talvez a felicidade seja isto. Quem sou eu misturado com este desconhecido empregado? Neste mundo não existe estabilidade . O meu espírito zumbe por aqui e ali . Vejo Louis . Desvanecem-se ao primeiro toque . de possibilidades . se pudesse afastá-las com um gesto e agir! Qualquer pessoa me serve . Mas preferia mesmo assim o amável proprietário cujo acolhimento parece a cada cliente uma honra que lhe está parti­ cularmente reservada. Jinny e Rhoda. Na sua presença tenho mil facetas . pela curiosidade.

Sentei-me à mesa dez minutos antes para saborear cada momento de espera em que a porta se abre e eu posso dizer: «Será Percival? Não . Este é o lugar para onde Percival se dirige . . este vaso de metal com as suas três flores vermelhas . tirânico .» Há uma es­ pécie de amargo prazer em dizer: «Não . O que está para vir? Ignoro-o completamente . Aqui está. esse apai­ xonado sentido da vida que faz perder às coisas os seus valores usuais. as mesas carregadas de frutos e carnes frias . As coisas vibram como se ainda não tivessem alcançado completamente o seu ser. A porta abre-se . Aqui . constatamos que não nos conhecemos e desviamos os olhares . Esta noite janto com os meus amigos . com a sua porta de batentes . E o esforço de conhecer é sempre inútil . A hostilidade e indiferença dos outros comensais é opressiva. passar diante das montras .» A porta já se abriu e fechou umas vinte vezes. não é Percival .As Ondas 85 dita? E um balão que plana sobre as árvores . Olha-se no espelho ao entrar. Neles sinto toda a indife­ rença e crueldade do mundo . olhamo-nos. A todo o momento ele parece espalhar nesta sala essa luz ardente . estas cadeiras . . hesitante . Tudo é experiência e aventura. Esta a me­ sa em que se sentará. têm já o aspeto irreal dos locais onde se es­ pera que alguma coisa aconteça. desconfiado . E a sala. Estou noivo . Sou Bernard. Sou eu . ajeita o cabelo .Faltam exatamente cinco minutos para as oito . A normalidade é abolida. não é Percival . E a sua estranha mistura de segurança e timidez . Não poderia suportá-los se Percival não viesse a caminho . E amargo . Mas é ao mesmo tempo formidável porque os seus olhos riem. É Louis que entra. Está descontente com o seu aspeto . Mas alguém o deve estar a ver neste momento . Deve estar num táxi . São como chicotes estes olhares . Diz «Sou um duque . mas não é ele . Esta mesa. por inacreditável que pareça. difícil (estou a compará-lo com Percival) . estará o seu corpo . disse Neville . estão prestes a sofrer uma transformação extraor­ dinária. o último descendente de uma estirpe antiga» . Constantemente forma­ mos novas combinações de elementos desconhecidos . Iria embora. Cheguei antes da hora combinada. Já me viu . Mas no momento em que pouso o copo sobre a mesa a memória volta. A alva toalha resplan­ dece . De cada vez a espera tomou-se mais ansiosa. de tal modo que o gume de uma faca se toma uma cintilação de luz e não um objeto feito para cortar.

Sentimo-nos transformados .86 Virginia Woolf . Mas agora viu-nos e move-se e todos os raios ondulam. endireita nervosamente os garfos . como se tivesse finalmente obtido o que desejava. Deve ter feito inúmeros desvios . Tudo se imobilizou . as portas . o seu rosto assume uma expressão de inquietante segurança. Rhoda olha-a com surpresa. Mas ele nunca mais vem . Quando nos vê. fluem e vibram sobre nós .Aí está Jinny. E eu . ou de uma dessas colunas que ornamentam a sala. Não se vestiu de modo especial porque despreza as frivolidades londrinas . sinto . para adiar o mais possível a emoção do en­ contro . embora para me proteger dela povoe a memória com a recordação de ervas molhadas . . Despertamo-la. Teme-nos e despreza-nos . Somos os seus carrascos . Mesmo no meio destas mesas e cadeiras tem os gestos furtivos mas seguros de um animal selvagem. há sempre um rosto . disse Louis . Agora avança. Neville . para ter mais um instante a liberdade de embalar a bacia das suas pétalas . Ela situa as coisas . de campos encharca­ dos . deslumbrada pelo res­ plendor de uma lâmpada. como se avistasse um incêndio no horizonte longínquo . que espera com uma ansiedade dolorosa. disse Neville . a Neville e a mim. atribui-lhes uma ordem. Jinny parece o centro do mundo . . Os comensais da mesa que fica junto da porta olham. olhando em volta. Até o empregado se detém. assim defendendo a minha alma. Parece encontrar instintivamente o caminho entre as pequenas mesas. trazendo-nos uma maré de novas sensações . as janelas e os tetos ordenam-se à sua volta como os raios em tomo de uma estrela que se desenha num vidro estilhaçado . Louis ajeita a gravata. Detém-se um instante junto da porta. escondendo-se atrás de um empregado . disse Susan. do som da chuva caindo no telhado e das rajadas de vento contra as paredes da casa no inverno . que resplandece e lhe permite repovoar os sonhos . Parada à porta. mas vem para junto de nós porque . apesar da nossa crueldade . a porta continua a abrir-se . Agora chega Rhoda vinda de nenhum lado . sem tocar em nenhuma delas . avançando até ao canto onde nós estamos . Ela ainda não nos viu . ser prega­ do à porta do celeiro de uma vez para sempre . Esgueirou-se para dentro da sala sem darmos por isso . Ser amado por Su­ san é como ser trespassado pelo agudo bico de um pássaro. As mesas .A porta abre-se . sem prestar atenção aos empregados .Lá está Susan. um nome .

com um tal amor pela humanidade (matiza­ da. entra sem mesmo se dar ao trabalho de abrir completamente o batente da porta. um mundo onde estes corpos se recortem. até eu tenho a sensação de flutuar liberta de todas as amarras . Nada pode fixar-se nem ganhar forma. que celebramos uma festa e somos felizes por estar juntos . Todos os obstáculos desapareceram . disse Rhoda. Mas talvez esteja assim por causa de Neville e da sua angústia.Ele não vem.Finalmente . sem perceber que entra num local cheio de estranhos . . ao avistar-nos. gente que nos roça com a sua familiaridade. Os cabelos estão em desordem mas não repara nisso . e nos dá a sensação desagradá­ vel de que há um mundo que prossegue sem nós . . Depois olha por um segundo e diz: «Ele não veio . não conhece ninguém (estou a compará-lo com Perciv al) . disse Neville . Continuam a entrar des­ conhecidos . é certo. o seu riso soltar línguas de fogo à minha volta. floresce a árvore da minha alegria. A porta abre-se e ele não vem. Não olha o es­ pelho . O meu coração dilata-se . Nem sequer eu . que nada altero quando entro num local (Su­ san e Jinny transformam os rostos e os corpos) . se não fosse a ausência de Percival que tudo transforma em vaga neblina. Conhece vagamente toda a gente. Sem ele somos apenas silhuetas . Aproxima-se com uma tal cordialidade . Quando tira o sobretudo mostra um pedaço da camisa azul sob as axilas . uma continuidade . incapaz de achar um espaço branco . todas . Hesita quando se aproxima de nós . De cada vez que a porta se abre ele olha fixamente a mesa. pela irónica constatação de como é fútil esse amor pela humanidade em geral) que . disse Neville .A porta não para de bater. iluminando sem piedade o meu desastrado vestido e as minhas unhas quadradas que imediatamente escondo sob a mesa. fantasmas vazios que se movem numa neblina sem fundo. Não podemos desa­ parecer. «Quem será?» pergunta-se ao reparar numa mulher envolta numa capa de noite . incapaz de ancorar. Mas sem Percival nada parece sólido . não podemos esquecer os nossos próprios rostos . É Bernard quem chega. Não se atreve a erguer os olhos .» Mas aqui está ele . O halo penetrante da sua tristeza dispersa o meu ser. . Mas agora. dirige-nos um aceno benevolente . que não tenho rosto . ao contrário de nós .As Ondas 87 o seu desdém envolver-me. a sua indiferença. pessoas que não voltaremos a ver. E depois . sentiria o mesmo que os outros já sentem. Não per­ cebe que é diferente de nós e que esta mesa é o seu destino .

Abandonemos o isolamento e a espera. que latíamos como chacais prestes a despedaçarem-se . Percival impôs a ordem à sua volta.Aí está Percival . e outras experiências individuais tão caras ao imaturo pássaro com um tufo de penas ama­ relas junto ao bico . disse Susan . Os miúdos seguiam-no no campo de jogos . Estamos acocorados neste poleiro . disse Rhoda. dos nossos momentos de terror e êxtase . a partir para a Índia. Não se vestiu para a ocasião . confessemos de u m modo direto e brutal o que vai dentro de nós . respeita as convenções sociais . . Como todos os heróis .A velha Mrs . . aproximamo-nos agora uns dos outros . das revelações nas escadas . . Nós .88 Virginia Woolf as opressões foram mitigadas . E quando se senta junto de Susan . todos esses por­ menores se reúnem para formar um todo . Terminou o reinado do caos . Alisa os cabelos . que golpeamos com o egoísmo selvagem e sem escrúpulos da juventude a nossa própria casca de caracol até ela se quebrar ( es­ tou noivo) . mas sem qualquer êxito . disse Bernard . . Ninguém pode negá-lo . de quem está apaixonado .e nós aqui sentados juntos gostamos uns dos outros e acreditamos na duração do nosso amor. disse Louis . . Agora que está prestes a deixar-nos . Nós que fomos sepa­ rados pela nossa juventude (o mais velho de nós ainda não tem vinte e cinco anos) . insultos e golpes na nossa confiança . assumimos agora a expressão calma e confiante dos soldados na presença do seu comandante . Sentíamo-nos imediata­ mente envoltos nesse mutável e sensual vestuário de carne . As facas voltaram a cortar. que cantamos cada um a sua canção como pássaros ávidos . É um herói . Assoavam o nariz como ele assoava. e a incessante passagem de pessoas oferece continua­ mente novas distrações e a almofada de vidro da porta se abre a todo o momento para nos lançar no rosto milhares de tentações . o momento fica completo . Fa­ lemos dos dias passados .O empregado de limpeza fazia amor com a criada na horta.Agora. mas não o faz por vaidade (não se olha ao espelho) mas para agradar ao deus da compostura. Constable erguia sobre as nossas cabeças a espon­ ja que escorria água quente .Agora vamos sair das trevas da solidão . ou que solitariamente debruçados à janela de um quarto entoamos os nossos hinos de amor e de glória. no meio da roupa que secava. reunidos neste restaurante onde cada um pensa em si . disse Neville . disse Bernard . pois Percival é Percival .Aí está Percival . cheios de segredos e dissimulações . . .

Das nossas cabeças pendiam véus . disse Rhoda. as pétalas das flores nadavam em profundidades verdes . disse Susan .Mudámos . estamos irreconhecíveis. rostos cor da pedra. chaman­ do as criadas de quarto. disse Bernard .O homem degolado jazia muito pálido no meio do regato . .As Ondas 89 .As campainhas tocavam sempre a horas . geografia e aritmética como círios virgi­ nais ou turvos pirilampos . disse Louis .Num recanto ensolarado do jardim. Exposto à ação de diferentes luzes. E havia mapas . levando o número regulamentar de meias e cuecas onde as nossas mães tinham passado noites a bordar iniciais . que chegavam rindo e aos encontrões .Em Elverdon . disse Louis . Mas do sótão avistava-se uma paisagem azul . disse Bernard.As rajadas de vento eram como o rugido de uma pantera. disse Louis . . . Uma segunda separa­ ção do corpo da nossa mãe . disse Jinny. mulhe­ res monumentais . os jardineiros varriam o jardim com grandes vassouras e a senhora estava sentada a uma mesa a escrever. e. . . atravessamos ruas onde até as criadas nos olhavam e os nossos nomes escritos a branco sobre as malas proclamavam ao mundo inteiro que íamos para o colégio . .Então .Ao lembrar os encontros passados . disse Rhoda.A folha agitava-se na sebe sem que nada soprasse . E ao subir as escadas eu não conseguia levantar o pé. . o que em nós havia (éramos todos diferentes) . presidindo aos estudos com os seus anéis de ametista que se moviam sobre as páginas de francês . a carruagem deteve-se diante da porta. Miss Cutting e Miss Bard. . . não conseguia ultrapassar a macieira implacável com as suas rígidas fo­ lhas de prata. puxamos o fio dos novelos cuidadosamente enrolados . dis­ se Neville . puxando para os olhos as abas dos nossos chapéus de feltro para esconder as lágrimas indignas de homens .E Miss Lambert. carteiras recobertas de pano verde e filas de sapatos numa estante . enigmáticas . de golas brancas . um distante campo sem a corrupção daquela vida regulamentada e irreal . Tínhamos gri­ naldas de flores onde as folhas verdes murmuravam docemente . disse Jinny. . As cadeiras eram arrastadas e colocadas nos seus lugares sobre o linó­ leo .

. . porque Percival vai partir para a Í ndia? . Eu era isto. disse Bernard . amanhecera na cidade de Londres . Reu­ nimo-nos neste instante e neste local . Viemos do Norte e do Sul . Uma tão pequena etiqueta não pode cobrir a extensão dos nossos sentimentos . fizemos reverências . da quinta de Susan e da casa comercial de Louis . disse Jinny. dezoito . Rhoda e eu . Mas agora é uma flor heptagonal . como uma massa inerte .Então . uma flor de mil pétalas . Será correto chamar-lhe amor? Devemos chamar-lhe amor a Percival . e Bernard avançando distraidamente contra o fundo de ver­ dura e dos antigos edifícios .A s canoas deslizavam sob o verde pálido dos salgueiros .Mas aqui .Depois das chamas caprichosas e da infinita monotonia da ju­ ventude . . disse Neville . a palavra é demasiado pequena. dia dez . . servimo-nos de sanduíches de uma bandeja. dos comerciantes de cereais e dos acionistas das companhias de navegação que sexta-feira. Aqui . disse Louis . Num acesso de emoção (os ventos não podiam ser mais fortes nem os relâmpagos mais súbitos) peguei no meu poema. demasiado particular. Há um cravo vermelho nesta jarra.Não . disse Neville . ou terça-feira. Neville aquilo. com um sorriso . Sentei-me no meu gabinete a arrancar as folhas do calendário e anunciar ao mundo dos corretores marítimos. disse Rhoda. neste momento . com um círculo de pedras preciosas em volta do pescoço . para realizar qualquer coisa que nada tem de perdurável (mas o que é afinal perdurável?) . uma flor com rígidas folhas de prata. perdi-vos de vista. E a esta flor total cada um dos nossos olhares acrescenta um atributo. apertámos mãos e. acastanhada. estamos juntos . vermelha. Rhoda era diferente e Bernard também. .O tigre saltou e a andorinha molhou a ponta das asas em som­ brios lagos situados na outra vertente do mundo . .90 Virginia Woolf emergiu sob a forma de manchas brutais com espaços brancos entre elas . expostas a todos os olhares nos nossos reluzentes vestidos. a luz cai finalmente sobre objetos reais . que é apenas visível para nós durante este momento em que as nossas vidas se confun­ dem . porém. como se tivessem espargido um ácido sobre uma lâmina de me­ tal . e saí batendo com a porta. sombreada de roxo. Fomos atraídos por qualquer profunda emoção comum. Enquanto aqui estivemos à espera era uma simples flor.Eu . atirei-lho . deixou-se cair a meu lado .

no entanto. ao mesmo tempo que admiro Susan e Percival . será consumida no temor de que se riam de mim. É exatamente isso . após milénios de não ser. Mas não o consegui . por isso podemos falar. Já vivi mil vidas . os campanários das igrejas e os chapéus de coco que desfilam pelas ruas quando estou a almoçar e apoio um dos meus poetas preferidos (talvez Lucrécio) no galheteiro e no cardápio sujo com molho de carne . disse Jinny. Fui príncipe árabe. E era duque na corte de Luís XIV. mesmo que seja do outro lado do salão cheio de embaixadores e cadeiras douradas . pois é por causa deles que me torno ridículo. .Mas a mim nunca me odiará. O Louis que estão a ver é feito das cinzas de alguém outrora sublime . Na época de Elizabeth fui um grande poeta. tudo se imobilizou como num quadro . ajeitei o cabelo para me tomar parecido convosco. Sempre que me veja. .As Ondas 91 estão facas e garfos. Sou também o tigre enjaulado e vocês os guardas armados com ferros incandescentes . esta minha breve aparição sobre a terra. há de atravessá-lo em busca da minha simpatia. odeio os outros . O mundo revelou-se e nós também. na época em que escutava os cantos que se elevavam na margem do Nilo e as pata­ das da besta acorrentada. Estava preparada para tudo . Quando me sentei . procuremos uma definição . Mas . esforçando-me por forjar o anel de aço da clara poesia que reúna as gaivotas e as mulheres de dentes apodrecidos. Os empregados pararam e os garfos dos comensais ficaram suspensos no ar. Em cada dia cavo e desenterro alguma coisa. Sou mais forte e mais feroz do que vocês e . apesar disso . Ao entrar. Mas . disse Louis . vocês ajeita­ ram as gravatas e depois esconderam as mãos sob a mesa. a mudar com o vento conforme sopram as tempestades de fuli­ gem. a nobreza dos meus gestos é disso testemunha. descubro restos de mim na areia pisada pelas mulheres há milhares de anos . Sou o macaquinho que brinca com uma noz e vocês são as mulheres desmazeladas . Hoje não almocei para que Susan me achasse pálido e Jinny estendesse so­ bre mim a singular fragrância da sua simpatia. com reluzentes sacos de pastéis apodreci­ dos . porque não sou uno e completo como vocês .É muito profundo o que nos diferencia. à força de me pentear e procurar esconder o meu sotaque . e talvez impossível de definir. Mas eu . Sou vaidoso e destemido e tenho um imenso desejo de que as mulheres suspirem de ternura por mim. Quando há pouco entrei .

Um momento não nos prepara para o momento seguinte . exigindo admiração e é esse o maior obstáculo à liberdade dos encontros . pois ao meu corpo falta a beleza e a segurança que ela traz . Estou pronta. Mas a mim ninguém me viu aproximar. Cheguei cedo. embora o meu desejo se mantenha. Sou comparável ao cão de caça que fareja uma pista. disse Neville . apesar de num certo sentido ser iludido pela vida (pois que a pessoa que amo muda cons­ tantemente . ao contrário de Louis . A porta abre-se e o tigre salta. . É isso que me permite ser imperioso quando estou calado . têm significado para mim. De cada vez que a porta se abre . vim depressa. Transformo-me . não sou capaz de fundir o momento presente com o que . Levanto-me. e pela manhã não saiba junto de quem me sentarei à noite) nunca estou parado . Terei riquezas . Nos momentos de crise . Não me viram entrar. Nesta busca envelhecerei . Fiz mil desvios entre as cadeiras para evitar o horror de um encontro brusco . nem a busca de perfeição nas areias do deserto . Caço desde o amanhecer ao pôr do Sol . diretamente para aqui . ficaria livre do medo de que nada dure . Dou a ilusão de que tudo está contido neste instante . Nada posso ima­ ginar fora do círculo que o meu corpo alcança. Vejo tudo . O meu corpo não acompanha a agi­ lidade do meu espírito . A minha vida tem uma rapidez que à vossa falta. As pedras fazem ricochete na armadura do meu corpo . Mas . Tenho medo de vocês . inspiro piedade em vez de amor. nem o dinheiro . As minhas forças abandonam-me antes de al­ cançar o meu objetivo e caio transformado numa massa repleta de suor. não temo o ridículo . O meu corpo precede­ -me como uma lanterna numa álea sombria. Fica à porta obrigando-nos a tomar consciência da sua existência. Sobrevi­ vo aos piores desastres .com a maior clareza. Deslumbro-vos . disse Rhoda. talvez repugnante . Mas nunca possuirei o que desejo. Quando fica de pé junto à porta. serei famoso . Tenho medo do choque das sensações pois não posso acolhê-las como vocês fazem.com uma exceção apenas . resgatando das trevas um objeto após outro e fazendo-os entrar no meu círculo de luz . que a minha vida se passava em procuras e mudanças . grito: «Mais» ! Mas a minha imaginação é corporal . nem a glória. a sua presença imo­ biliza-nos. Nada. E.92 Virginia Woolf nada tenho a esconder. para me sentar ao lado da pessoa que amo.Se pudesse acreditar. O meu sentido da realidade é demasiado intenso para me permitir esses malabarismos e fingimentos . É por isso que sofro cruelmente .

um corpo que me incite a procurá-lo . As únicas palavras que com­ preendo são os gritos simples de amor. Mas . lançar-se-iam sobre mim para me despedaçar. parei e olhei à minha volta. ao contrário de mim. raiva e dor. ou de encostar-me a uma cancela a observar o meu setter farejar em círculo e perguntar: onde está a lebre? Gosto da companhia de pessoas que torcem pedaços de erva com os dedos . Não sei . passam como o suave verde do bosque diante do cão que corre atrás da sua presa. Sou como a espuma que desliza sobre a praia ou o luar que cai a� acaso sobre uma lata. ou a pró­ pria beleza . Com ela ficarei quase satisfei­ ta. Esta conver­ sa é como despir uma velha cujo vestido parecia fazer parte dela. Espero que falem e depois falo do mesmo modo . Mas assim as horas e os dias passam como os ramos das árvores . finjo ter um objetivo qualquer quando subo lentamente as escadas atrás de Jinny e Susan . não para ver um qualquer de vo­ cês . . cospem no fogo e arrastam os chinelos por longos corredores .As Ondas 93 vem a seguir. um osso ou um barco meio carcomido . Gosto de caminhar solitária pelos campos húmidos . Mas para mim não existe nenhuma presa. como um animal que mantém os olhos perto do chão . de modo que formem essa massa indivisível a que vocês chamam vida. Porque. E se sucumbisse ao choque do instante . mas que agora. Para mim todos os momentos são violentos e isolados . como acima de tudo desejo manter as aparências . ódio . indivisíveis e despreocupados . Tiro as meias como elas tiram as suas . . como meu pai faz . Irei deitar-me fatigada. Não tenho nenhum objetivo . ou talvez uma ideia. os picos do cardo marinho . Atravessei Londres e cheguei até aqui . disse Susan. Um torvelinho arrasta-me para o fundo das cavernas . dos móveis e do perfume causam-me repugnância. flu­ tuo como um pedaço de papel ao longo de infindáveis corredores e tenho de apoiar a mão na parede para poder voltar para trás . à medida que falamos . Só aceitarei a felicidade natural . mas para acender o meu fogo no incêndio unânime dos que vi­ vem inteiros .Quando esta noite entrei na sala. . a este lugar determinado . O cheiro dos tapetes . se vai tomando cor-de-rosa. E não tenho rosto . dissolvendo-os por um processo simples . de co­ xas enrugadas e peitos descaídos (só quando se calam voltam a ser belos) . uma pessoa ao lado de quem se sentar. vocês têm um objetivo . Não consigo enfiar uns nos outros os minutos e as horas . Serei como o campo em que as colheitas se .

o vendedor de cavalos . mergulho nas trevas e não sou nada. elevando-se e depois caindo sobre o vermelho das lagos- . Serei aviltada. Serei capaz das mentiras mais vis para os ajudar. Mas como não foi assim. Quando não vejo as palavras enrolando-se à minha volta como anéis de fumo. O nascer dos seus dentes . terei a cor púrpura da tempestade . . que tão clara é quando estamos sós . encontro por todo o lado sequências infindáveis de palavras e sou incapaz de suportar o peso da solidão . ou seja lá quem for. dizem alguma coisa que me incendeia a imaginação .vejam como brande o garfo.94 Virgínia Woolf sucedem. eu permanecerei sombria. no inverno o frio gre­ tará o meu corpo . disse Bernard. possuirei mais que Jinny e Rhoda. Odiarei todos os que lhes descubram defeitos . Rhoda gosta de estar só . Mas eu só começo a existir quando o canaliza­ dor.Se ao menos tivesse nascido sem saber que uma frase se segue a outra frase . No verão o calor dançará sobre mim. talvez tivesse conseguido ser alguém. Quando estou só . endurecida pela paixão sublime e bestial da maternidade . Louis é capaz de perceber as coisas com uma espanto­ sa intensidade e escrever frases que talvez nos sobrevivam. Também eu sou dilacerada pelo ciúme. Ele desaparece e eu fico no mesmo sítio.» Quando está só. Deixarei que me separem de qualquer um de vocês . Receia-nos . Quando morrer. porque a sua presença me lembra que as minhas mãos são vermelhas e tenho as unhas roídas . soçobro na letargia e digo melancolicamente a mim mesmo. Os meus filhos vão arrastar-me para a frente . Nenhum dia passará sem um ligeiro avanço . Mas . segurando a ponta do fio que aparece e desaparece entre as folhas das copas das árvores. Serei levada mais alto no dorso das estações do que qualquer um de vocês . Amo tão ferozmente . Odeio Jinny. sem que a minha vontade intervenha. a sua arma contra nós . enquanto vocês foram variados e vibraram mil vezes com as ideias e os sorrisos dos outros . enquanto faço cair as cinzas por en­ tre a grade de ferro da lareira: «A senhora Moffat virá limpar isto . E como é então formoso o fumo das minhas frases. que me sinto morrer quando o objeto do meu amor revela com uma frase que me pode escapar. porque ameaçamos a sua consciência do ser. a ida para a escola e a chegada a casa serão como as ondas do mar em que me deixarei arrastar. Não compreendo as frases. por outro lado . o seu choro. Mas o calor e o frio hão de seguir-se um ao outro naturalmente. Sem o menor escrúpulo ajudarei os �eus filhos a triunfar.

E . de lançar na corrente algumas perguntas difíceis . Não sou grosseiro nem pedante . Mas terei contribuído mais do que qualquer um de vocês para o momento que passa. . em parte. como acontece convosco. elegantemen­ te vestidos para irem assistir a concertos. Mas serei esquecido por­ que há em mim qualquer coisa que vem de fora e não de dentro. que perdeu o bilhete e talvez mesmo o porta-moedas .quando morrer deixarei ape­ nas atrás de mim um armário com velhas roupas . quando subitamente o abandonava. porque tal como vocês . me despertavam para a vida. Susan olha o fio per­ dido entre as folhas da faia e grita: «Foi-se embora. de construir uma frase perfeita. nem em conversa. não sou capaz de me crispar como um punho . Sou incapaz das renúncias e heroísmos de Louis e Rhoda. É também por isso que quando me despeço e o vosso comboio parte . um irregular veio de prata que o enfraquece . escutem . Constantemente me faço e refaço . Partia com os meninos convencidos. que sou feito de ferro . em grandes carrua­ gens . Era isso que irritava Neville no colégio. tal como o fazem os que não dependem de nenhum estímulo exterior. Não guardo coisa nenhuma . com barretes e emblemas . Alguns deles estão aqui esta noite. disse Rhoda. Amava-os . Mas fiz muitos sacrifícios . Nunca serei capaz. Todos se divertem com os pequenos jogos que em poucos instantes extraio do nada. escapou-se . quando a minha voz se calar. Bernard.e sou quase indi­ ferente às pequenas vaidades que tanto atormentam Louis . Há nele não sei que fissura fatal. Esta noite não desejo estar sentado ao lado de uma pessoa mas de cinquenta. e terei entra­ do em mais salas .» Por­ que nada me pode reter. não se lembrarão mais de mim. Mas nem por isso deixo . Eu. a não ser como o eco de uma voz que um dia entrelaçou frutos com palavras . Mas sou o único que não precisa de se mostrar desenvolto para se sentir à vontade .Olhem. Vejam como a luz se toma mais intensa e o brilho e a perfeição se espalham por todas as coisas . indivíduo despreocupado e insensível . Pessoas di­ ferentes suscitam em mim diferentes palavras . o meu caráter resulta de estímulos exteriores e não me pertence. vos parece que não é o comboio que se afasta mas eu. com a destreza da minha palavra.As Ondas 95 tas e o amarelo da fruta e envolvendo tudo numa única beleza ! Mas como são corruptas as frases . em mais salas diferentes . jantando juntos. Abandono­ -me às pressões do mundo . prata e veios de lama vulgar. sempre feitas de evasivas e velhas men­ tiras ! Porque .

disse Louis . como se fossem tendas de alguma feira oriental . Mas não fazem nada. os garfos e as facas e os outros comensais . Estamos aqui sentados .Estamos rodeados pelo rumor de Londres . camiões e autocarros passam e voltam a passar. . . com um pedaço de tecido em volta da cintura. . disse Bernard . gritos de bêbados e de folgazões . O tempo parece infinito e a ambição inútil . as mãos . disse Jinny. A multidão rodeia-o . contemplando-o como se ele fosse . laranja. Mas lá fora . . Vejo douradas construções com ameias . ao percorrerem a sala mobilada com pequenas mesas . Por cima de tudo paira a sensação da inutilidade de qualquer ação humana.Percival vai partir. O problema oriental foi resolvido . No ar flutuam odores acres e estranhos . que cedem como véus e depois se fecham . Cada som particular . Mem­ branas e fibras nervosas até há pouco flácidas retesaram-se. Aqui estamos rodeados de paredes . Vejo uma parelha de bois puxando uma carroça ao longo de uma estrada escaldante . rodeiam a carroça e discutem com excitação . Um velho estendido numa vala continua a mascar béte­ le e a contemplar o umbigo . as chaminés aplanam-se e o navio dirige-se para o mar alto . Perci­ val monta uma égua malhada e usa capacete . frágeis e decadentes . E todas as coisas . a Índia existe . se confundem.Vejo a Índia. cerca­ dos e iluminados por mil cores . Usando os princípios ocidentais e a violenta linguagem que lhe é habitual . os sinos . Vejo as tortuosas ruelas de lama pisada que conduzem a pagodes arruina­ dos . De súbito ouve-se o grito de uma sirene . disse Neville .Sim. Todos os ruídos se fundem no ruído único de uma roda que gira. . consegue de­ sembaraçar o carro em menos de cinco minutos . Afasta-se . de tons sombrios e estranhamente ambíguos . Vejo uma longa praia plana. As praias afastam-se num movimento insensível . Automó­ veis. distenderam­ -se e flutuam à nossa volta como filamentos. uma das rodas fica atolada no trilho e imediatamente numerosos in­ dígenas . de um azul de aço . o domínio dos nossos sentidos ampliou-se. são eles que tornam o ar tangível e nos permitem captar longínquos sons antes inaudíveis .modelam-se num único som circular. A carroça desengonçada balança de um lado para o outro . De súbito .96 Virginia Woolf como os nossos olhos .o trânsito .o que realmente é . vermelhas . Mas subitamente surge Percival .um Deus . parecem atravessar cortinas coloridas . Vejam como cada coisa se funde noutra formando um todo indiferenciado . as corti­ nas .

disse Susan . na saliência de uma rocha. disse Neville . Vemos estradas lamacen­ tas .É amor.Estas águas rumorejantes . O medo faz-nos sempre calar qual­ quer coisa. confiante .É Percival silenciosamente sentado entre nós . inconsequentes e frágeis que soltamos . porque quando entrei aqui . pálidas sombras do horizonte longínquo. como se tudo isso pertencesse ao nosso esplêndido e altivo território . Estamos aqui . que com os peixes nadávamos de um lado para o outro.É amor. multidões de homens e abutres que devoram uma carcaça inchada. de pé . ou sentando-se só.Desconhecido . eu «sou aquilo» . a fiz pensar: «as minhas mãos estão vermelhas» . é ódio . mas ao olharmos para baixo sentimos vertigens . dois . É o furioso arroio de águas som­ brias que nos causa vertigens quando nos debruçamos sobre ele . um. dois . O desejo de nos distinguirmos uns dos outros levou-nos a acentuar defeitos e particularidades . como o que Susan sente por u m dia ter beijado Louis no jardim. pois ele é como a pedra caída num tanque repleto de peixes . disse Louis . disse Rhoda. mais está­ veis que os gritos selvagens . apesar de tudo . numa espécie de transe de alegria e êxtase. sobre as quais cons­ truímos as nossas loucas plataformas . . A sua presença conforta-nos . Esforçamo-nos por acentuar as diferenças . a contemplar enormes montanhas . O ouro corre nas nossas veias . tal como outrora se sentava entre as ervas . Como peixes que acabam de tomar consciência de uma grande pedra. sob o céu em que o vento dis­ persava e reunia as nuvens . espessas selvas . . arranjada como estou . Províncias distantes saem das trevas . Um. que nos faz compreender como são falsas estas tentativas de dizer «eu sou isto» . Mas há uma cadeia que rodopia à nossa volta. . precipitámo­ -nos para ele e rodeámo-lo logo que chegou . Mas o nosso ódio quase se não distingue do nosso amor. volteamos satisfeitos à sua volta. erguendo a sua tenda à sombra de árvores desoladas . e os locais mais remotos da terra. é ódio. como partes separadas de um mes­ mo corpo e de uma mesma alma. por exemplo. com ou sem segredo. A vaidade leva-nos a modificar outras . Nós . serenamente bate o coração. surgem diante dos nossos olhos . isso não im­ porta. como a Índia. são .As Ondas 97 . disse Jinny. O mundo antes encarquilhado volta a arredon­ dar-se . pois Percival . que estamos a fazer desde que nos juntamos aqui . avança por um caminho solitário. . que rodopia num círculo azul de aço . cavalgando uma égua malhada.

nem Louis . Quando repousa sobre o joelho . Está fora do nosso alcance . não acena. alcanço o meu objetivo e digo: «Não andes mais . Rhoda fita um lugar que está para além da Índia. A linguagem mente . nem Susan . nem Percival . para lá dos nossos ombros e das vossas cabeças . com Percival e Susan .» Mas estas peregrinações . . É aí que vou preencher o vazio que existe em mim. mesmo neste instante . Não é. contemplo uma paisagem. nem Neville . Estes deliciosos pedaços de pato assado . Tomo-me pesado de tanta comida. E por um segundo . Olhando sobre as nossas cabe­ ças . Quando se ergue . . E ao comer perco pouco a pouco a noção dos pormenores . talvez um ser vivo . sucedem-se numa delicada sucessão de calor. um vale apertado entre colinas semelhantes a asas dobradas de pássaros . é qualquer coisa de móvel . com cheiro a almíscar e recoberta com as verdes folhas da videira e o roxo das uvas . Vejo sempre o bosque de . só começam na vossa presença. como . Lá. Mas . . . peso . doçura e amargor e servem de lastro ao meu corpo . prolongar as minhas noites e povoá-las de sonhos . nenhum de vocês . que tem o rosto vagamente refletido no espelho em frente. parece uma coluna.Sim . qualquer coisa de açucarado e evanescente. e o vinho frio assenta como uma luva nos delicados nervos que estremecem no céu da minha boca . Rhoda. que um dia perturbei quando balouçava pétalas na bacia castanha. nesta mesa. desliza na caverna abobadada. Mas eu aventuro-me até lá. quando raciocinamos e pronunciamos menti­ ras do género «eu sou isto . Não sente vertigens ao olhar para baixo . Tudo se tomou sólido . estes instantes de separação . Instintivamente o meu paladar reclama e prevê as sensações de doçura e leveza. Para ela o amor não é um redemoinho . não nos vê . Tudo o resto é dor e mentira. gravidade e domí­ nio de mim. Agora já posso olhar firmemen­ te a corrente do moinho que espuma lá em baixo . eu sou aquilo» . porém. entre a erva rasteira. agora é uma fonte caindo .98 Virginia Woolf quando tentamos falar. O fim é aqui . disse Rhoda. elevam-se arbustos de folhas sombrias e contra a sua massa escura vejo um vulto branco . Mas que nome lhe havemos de dar? Deixem falar Rhoda. nem Jinny. acompanhados de legumes . com estas luzes . o alvo braço forma um triângulo . perguntando-lhe pelo canivete que Bernard roubara. Sinto-me pleno de calma. apesar disso . mesmo aqui . Atrás dele ouve-se o fragor do mar. mas não é uma pedra. Não nos faz sinal .

olhamos as chamas vermelhas que se extinguem. disse Jenny. Ah. . As sombras caem. Semelhantes a conspiradores debruçados sobre uma fria uma. ali no local aberto entre as colinas escarpadas . sempre a morte . Espalham violetas à sua volta. disse Rhoda. E a sua voz ecoando . saem da sombra. semelhantes às danças e aos tambores dos selvagens nus que agitam azagaias . . Chega cada vez mais tarde . Dançam em círculo brandindo as armas . disse Louis . As nossas mãos tocam-se e um ardor súbito incendeia os nossos corpos .A morte está entrelaçada de violetas . à luz das tochas . lá em baixo . esta angústia.As Ondas 99 folhas sombrias sobre as suas cabeças . . Tudo vi­ bra. A grande procissão passa.Em ondulações douradas digo-lhe. A morte . entre os vossos ombros . São selvagens e impiedosos . as peles de leopar­ do e os membros sangrentos arrancados de corpos vivos. . disse Louis. Cobrem a bem­ -amada com grinaldas e folhas de loureiro . disse Rhoda. somos invadidos por sensações de derrota e decadência. tomaram-se seres noturnos .Mas e os seus chinelos? disse Neville . É infiel e o seu amor nada signi­ fica. Um fumo azul sai das suas trompas e. . Es­ queceu-nos . .As chamas da festa elevam-se no céu . . quando atravesso uma sala em festa e me ponho a olhar a rua lá em baixo . no vestíbulo? E a visão do seu rosto quando pensa que está só? Esperamos e ele não vem .A sua dança é como a dos selvagens em volta da fogueira. Ouve-se um som de danças e de tambores . . a mesa. Louis . com o meu vestido flutuando como um véu em redor da cadeira dourada. A s folhas desdobram-se e os cervos bramem nas florestas . A procissão passa. Atravessa a sala e aproxima-se do local onde estou sentada. arde luminosamente . brilha.Soam trompas e cometas . E ele vem . a sua pele surge manchada de vermelho e amarelo . A cadeira. ou através de uma janela.Olha Rhoda . Está com outra pessoa. Os seus olhos são como as asas das mariposas que batem tão depressa que parecem imóveis . E quando passa. «vem» . a taça. dis­ se Louis. As chamas iluminam os rostos pintados . este intolerável desespero ! Mas de repente a porta abre-se . agitando ramos verdes e flores . apaixo­ nados . É ele .

Os nossos contrastes são tão nítidos como sombras de rochedos ao sol . disse Louis . da obscuridade e do deslumbramento da adolescência. Na minha. a porta abre-se sem cessar) . Nas nossas frontes repousa a beleza. duros . Apenas saídos das dúvidas . . Mas eu bati on­ tem com a cabeça num poste . sem sombras nem ilusões . À nossa frente estão pousados pequenos pães fres­ cos . aqui sentados em volta desta mesa. O fruto arredonda-se entre as fo­ lhas .Que faremos do tempo infinito que temos à nossa frente? disse Neville . Lá fora os táxis deslizam sem cessar. A sala tem a cor do ouro e eu murmuro: «Vem. Agora tudo se fixou nos seus lugares . firme . disse Susan . A nossa carne é firme e fresca. Bernard ficou noivo .» . os montículos de açúcar junto dos nossos pratos . disse Jinny. Temos muito tem­ po à nossa frente . prontos a en­ frentar todos os acontecimentos (a porta abre-se . Tudo é real . . na de Susan . uma cadeia foi-nos imposta. e o cheiro da carne pende como uma rede húmida em volta dos empregados de escritório que comem pequenos pratos ao balcão .Para vocês talvez seja verdade .1 00 Virgínia Woolf Que orgulhosos nos sentimos . prontas a contraírem-se . .Ele tem orelhas vermelhas . Nunca mais poderemos des­ lizar livremente . disse Bernard . nós que ainda não temos vinte e cinco anos ! Lá fora as árvores florescem e as mulheres passeiam . Ainda não tinha reparado neles . E a casca pintalgada das peras ou as mol­ duras de camurça dos espelhos . de um amarelo vítreo . A toalha é branca e as nossas mãos repousam semicerradas . Qual­ quer coisa de irrevogável aconteceu . . olhamos a direito . olhando as montras . Mal começamos ainda a usar as reservas de futuro . Um círculo foi traçado sobre as águas . comprando talvez uma caneta por causa da sua bela cor verde e per­ guntando quanto custa o anel de pedra azul? Ou ficaremos sentados em nossa casa a contemplar os carvões incandescentes? Estendere­ mos a mão para segurar um livro e ler uma página aqui e outra ali? Daremos grandes gargalhadas sem qualquer motivo? Passearemos por prados floridos colhendo margaridas? Ou perguntaremos a que horas parte o comboio para as Hébridas e reservaremos um compar­ timento? Tudo está ainda por vir.Como são estranhos . Passearemos ao longo de Bond Street. Fiquei noivo . dias de inverno e dias de verão .

Deslizamos mais rapidamente que nunca. o momento passa. indago num discreto murmúrio . .São imunes aos olhares curiosos e às mãos que os procuram . antes que a cadeia s e rompa e a desordem regresse . que atitudes de orgulho e energia. É humilde e sente-se tão desejoso de demonstrar reconhecimento ao seu anfitrião . Depressa passa o momento de ávida identi­ ficação . Falam sem a preocupação de terminar as frases . É a voz da ação que fala. A pedra cai no fundo . as suas ! Quanta vida resplandece nos olhos de Jinny ! Como é cruel e concentrado o olhar de Susan procurando in­ setos entre as raízes ! Ambas têm cabelos cintilantes e os seus olhos brilham como os dos animais que abrem caminho entre as folhas em busca da presa. O ciúme e a dor. mais forte e sub­ terrâneo que o amor. há mulheres a jantar sozinhas? Quem são elas? E o que as terá trazido aqui esta noite? A julgar pelo modo nervoso como leva. . Falam uma lingua­ gem infantil como a dos amantes . disse Bernard. Susan amarrota o lenço . Agora abrem-se nos meus olhos mil curiosidades . disse Rhoda. contemplemos esta imobilidade . As paixões que repousa­ vam nas profundezas onde crescem as algas sombrias vêm à super­ fície e sacodem-nos com as suas ondas . a mão à nuca. Uma atmosfera de indiferença envolve-me . O círculo foi destruído e estamos outra vez dispersos . esta ordem. Há chamas dançando nos olhos de Jinny. des­ preocupada e excitante voz da ação . a exaltação individual desvanece-se . um velho amigo do pai que o convidou para jantar. de quem está preso .Mas depressa.S ó por um momento . que está noivo . demasiado depressa.As Ondas 101 . Os nervos das suas coxas tremem . desde que deixem intacta esta margem do território desconhecido . disse Louis . o jovem sentado naquele canto deve ser da província. a rápida. o desejo e a inveja e qualquer coisa de mais profundo ainda. Concedo a qualquer um de vocês o desejo de assassinarem Bernard. Mas bruscamente o círculo rompe-se e de novo a corrente flui . Com que à-vontade se voltam e olham. dos cães correndo atrás da presa. de vez em quando . Por que razão . esta floresta de um mundo ignorado . Estão possuídos por qualquer coisa de brutal e imperioso . que mal consegue usufruir aquilo que . Os seus corações pulsam agitando o peito . Ouve Rhoda (porque somos conspiradores com as mãos sobre a uma fria) . O desejo da felicidade é saciado .

Agora. o amor. suplica­ mos todos com as mãos juntas sobre um pensamento comum. sentimentos tão profundamente enraizados em nós que talvez nunca consigamos um momento seme­ lhante com nenhum outro homem. disse Louis . sacudiu as migalhas de pão do colete e com um gesto característico . . fecha-se num anel . e da velha dama solitária que pediu champanhe . disse Rhoda. porque somos diferentes . cujo laconismo contrasta estranhamente com a loquacidade dos outros. vamos pagar a conta e separarmo-nos mais uma vez . Mas de que servem as minhas histórias? São brinquedos moldados pelas minhas mãos . estas cascas de pera. disse Jinny. «Ü elegante jovem de fato cinzento . o mesmo acontece com os mares e as selvas .Vamos reter este momento . os . tantas vezes bruscamente inter­ rompido . bolas de sabão que eu sopro . Re­ paro também que aquela dama.» Não se movam. o que se queira chamar-lhe . Qual é a minha história? E a de Rhoda? E a de Neville? É evi­ dente que há os factos . como está o meu nariz ! » . a nossa juventude . que acorreu imediatamente e regressou pouco depois com a conta discretamente dobrada na bandeja. um anel passando através de outro anel .As florestas e os países do outro lado do mundo . O ciclo do qosso sangue . pensa ela tirando a caixa de pó de arroz da mala e apagando de passagem os mais fervorosos sentimentos . Sim. o ódio . aqui formada entre estas luzes . Alguma coisa foi criada. fazem parte dele . chamou o empregado . ao mesmo tempo imperioso e benevolente . não deixem a porta de batentes desfazer a realidade por nós criada. Quem são estes desconhecidos?. «Não se movam. compor outros tantos quadros . a nossa beleza. Por exemplo .1 02 Virginia Woolf amanhã de manhã lhe parecerá ter sido uma noite encantadora.» Eis os factos . as realidades: tudo o resto são trevas e conjeturas . quando nos levantamos um tanto nervosos . estas migalhas de pão e gente passando . . não partam ! Mantenham tudo isto para sempre ! . o universo feito pela presença de Percival . aparentemente mergulhada numa absorvente conversa (trata-se talvez do amor ou da infelicidade da sua melhor amiga) já empoou três vezes o nariz . «Meu Deus . Começo mesmo a duvidar que as histórias possam conter a realida­ de . Poderia pôr nos seus lábios uma dúzia de histórias . pergunto-me . Há tam­ bém o insolúvel enigma da presença solitária daquele homem de óculos .

Que podemos fazer para o reter? Como preencher a distância que nos separa? Como alimentar o fogo de modo a que ele arda eternamente? Como fazer saber ao tempo que há de vir que nós . disse Susan . tanto em abril como em novembro . Chegou o táxi . . . olha a paisagem que em breve perderás . disse Neville . disse Rhoda. aqui parados na rua à luz dos lampiões . e também a paz das coisas familiares . mostramos ser capazes de enriquecer o tesouro destes momentos . Cavalos vão para os campos e regressam. uma cadeira. Mas Percival partiu . a falar. São os teatros. E a pétala que cai de uma rosa e o bruxulear da luz quando estamos sentados em silêncio ou quando .Nuvens cansadas viajam no céu sombrio como barbatanas de baleias .Agora começa a angústia. salas de concer­ to e as lâmpadas nos interiores das casas que fazem esta iluminação . um livro com um estilete pousado entre as suas páginas . . ao recordar talvez qualquer coisa sem importância. pronunciamos subi­ tamente uma palavra. mas num mundo que a nossa força pode subjugar e em que podemos abrir uma estrada eterna e luminosa. o horror prendeu-me nas suas garras . A comer.As Ondas 1 03 uivos dos chacais e o luar que ilumina o inacessível rochedo sobre que planam as águias .A felicidade faz parte dele . Percival vai partir. E neste momento . Olha à tua volta Percival . as gralhas voam e depois voltam a pousar cobrindo os olmos com a rede das suas asas . Construímos qualquer coisa que se vai juntar às inumeráveis criações do passado. enquanto te chamam um táxi . . Uma mesa. resplandecente como o celeste mercúrio . A rua está polida pela passagem de incontáveis rodas .Há nele dias da semana. É a altura de deixarmos cair uma última gota. em que pomos os chapéus e abrimos a porta. O dossel ardente da nossa terrível energia pende sobre nós como um pano em chamas .Tudo o que há de vir está contido nele . sacudindo as migalhas do colete . disse Bernard. segunda. no esplêndido momento criado à volta de Percival . . Somos criadores . Não somos um rebanho forçado a seguir um pastor. não entramos no caos . Não somos escravos para sempre condena­ dos a receber nas costas curvadas as chicotadas da mesquinhez . terça e quarta-feira. pergunto . Que irá acontecer? Que nos espera lá fora?. . disse Neville . amávamos Percival .

as frágeis casas brancas e rosa da aldeia do Sul e mulheres de cabelos brancos e seios pendentes. ajoelhadas no leito do rio a bater nas pedras a roupa torcida . o osso esbranquiçado. iluminava os peixes escondi­ dos nas fendas das rochas e mostrava a roda do carro enferrujada. encerrados nos flancos palpitantes e viscosos do navio que os transportava dia após dia sobre a monotonia das águas . Agora o Sol impiedo­ so queimava sem que se pudesse refutá-lo . Os seus raios incidiam na areia dura e os rochedos tornavam-se fornalhas de rubro calor. O sol incidia nas povoadas colinas do Sul e resplandecia nos leitos pedregosos dos rios. Os navios a vapor avançavam surdamente pelo mar. Ou então brilhava.O Sol atingira o ponto mais alto do seu percurso . abraçados pelo calmo olhar do sol que através dos toldos amarelos incidia sobre os passageiros que dormitavam ou passeavam pela coberta e com a mão em pala procuravam terra. semeado de desolados mon­ tículos de pedra e salpicado pelo verde-escuro de árvores raquíticas . Agora já não era apenas entrevisto. adivinhado na alusão dos seus reflexos. Iluminava as superfícies douradas da mesquita. às dunas de areia os seus inumeráveis reflexos. com a fronte adornada de joias formadas de gotas de água. O sol devassava todas as poças de água. A tudo o sol concedia a sua exata ração de cor. onde a água corria escassa sob as altas pontes de arcos. às ervas o seu verde resplandecente . lançasse luzes opali­ nas brilhando no ar indeciso como os flancos de golfinho ao sair da água ou o clarão de uma espada que golpeia . como se uma jovem deitada num colchão de águas verdes. mal chegando para as lavadeiras ajoelhadas nas . sobre a árida extensão do deserto sulcado pelo vento. a bota sem cordões enterrada na areia e ne­ gra como um pedaço de ferro .

Com trinados e gorjeios. onde havia círculos de impenetrável obscuridade . A luz. quando o sol para aí desliza­ va através de uma pétala vermelha. As groselhei­ ras inclinavam-se ao longo dos muros. como se um guarda andasse de um lado para outro nas suas profundas cavernas segurando uma lanterna verde . fundia todas as folhas isoladas numa massa verde . o complicado desenho de um tapete e os imponentes armários e estantes. que con- . as colinas que pareciam alisadas pelas costas de uma faca brilhavam com um fogo interior. Mulas escanzeladas avança­ vam cuidadosamente entre as pedras cinzentas e inseguras carre­ gando alforges nos lombos estreitos . ou das grandes pétalas amarelas ou esbarrava em algum caule verde de densa penugem. púrpura e ouro. uma gaivota branca pousada numa estaca. a lenta passa­ gem das sombras sobre as florestas densas. Atravessando os átomos de ar azul-cinzento.ao meio-dia o jardim era uma profusão de flores e mesmo o obscuro espaço entre as plantas ficava verde. O sol incidia a prumo sobre a casa e as paredes brancas reluziam entre as janelas sombrias. A sombra das árvores formava uma espécie de escuro charco à volta das raízes . onde as flores do laburno e amaranto espargiam ouro e lilás . como se um incêndio as tivesse quei­ mado . as ameixas amadureciam entre a folhagem e cada risco de erva parecia fazer parte de um único tecido verde . o trigo que amadurece e os ondulantes campos de feno . formando cascatas de um vermelho brilhante. Ao meio-dia o calor do sol tornava cinzentas as colinas. a asa curva das taças. Alguns pousavam as suas cores de ouro e púrpura no jardim. Depois começava uma zona de sombra. As sombras verdes das árvores encaixavam­ -se nos vidros. Du­ ros traços de luz pousavam nos peitoris e revelavam no interior dos aposentos pratos com anéis de azul. em terras ricas de nuvens e de chu­ va. Incidiu no muro do pomar e o grão do tijolo ficou pontilhado de prata e púrpura e tão macio que aparecia prestes a dissolver-se numa poeira ardente . a massa de um grande vaso. o sol descia sobre os campos de Inglaterra iluminando os pântanos e os charcos. que descia em jorras.As Ondas 1 05 rochas quentes molharem as roupas . Mas mais para o norte. Os pássaros cantavam apaixonadamente e depois calavam-se . transportavam ciscos de palha e gravetas para as sombrias ramificações dos ramos mais altos .

1 06 Virginia Woolf tinha talvez outras formas prestes a serem resgatadas da sombra. . Erguiam-se uma após outra e tombavam. arrastando os res­ pingas na violência do seu recuo . com um ruído semelhan­ te ao das patadas de um gigantesco animal. retiravam-se e voltavam a cair. As ondas tombavam. As ondas desfaziam-se e as águas deslizavam rapidamente pela areia . As ondas eram de um azul profun­ do. e para lá dela as mais densas regiões de obscuridade . à exceção da luz semeada de diamantes que se formava no seu dorso semelhante ao dos grandes cavalos que galopam .

Um facto . como se a árvore de folhas rígidas não lhes barrasse o caminho . quartos em que estivemos sen­ tados um junto do outro . Ouve um safanão . Homens com botas de montar e capacete transporta­ ram-no para um pavilhão . Somos infinitamente abjetos quando passa­ mos de olhos fechados . a recordação dos dias de verão e dos quartos em que estivemos sentados juntos . Muitas vezes a solidão e o silêncio o envolveram. Respirava com dificuldade . Depois voltava. O seu cavalo tropeçou e ele caiu por terra. Aí está a árvore impiedosa barrando-me o caminho . um rufar de tambores nos seus ouvidos . como s e u m abismo não se tivesse cavado na rua. As árvores que deslizavam rápidas e as vedações brancas desapareceram num turbi­ lhão de chuva. O seu cavalo trope­ çou e lançou-o por terra. Tudo acabou . ele aí vem ! » Passam mulheres sob a minha janela. O passado . dispersa-se na distância como um papel queimado onde brilham ainda os olhos . Mas porque me hei de submeter? Por que continuar a subir os degraus da escada? Imóvel . E eu dizia: «olhem. permaneço neste degrau .. Chegaram pessoas a correr. Um abismo separa-me dos dias de outrora. Caiu do cavalo . As velas do mundo giraram bruscamente e atingiram-me na cabeça. Abandonou­ -me muitas vezes . tudo isso faz agora parte do mundo irreal do passado . Entre esses homens desconhecidos mor­ reu . Merecemos ser esmagados como o montículo de terra de uma toupeira. Depois um choque. Morreu no próprio local em que caiu . e o mundo estilhaçou-se . com o telegrama na mão . poder dizer que Percival não morreu ! Mas de que me serve agitar a cabeça de um lado para o outro? É a verdade . Oh . disse Neville . Todas as luzes do mundo se apagaram. Dias de verão no campo . celeiros .Ele morreu . amarrotar este telegrama entre os dedos e acender de novo as luzes do mundo .

disse Bernard . Esta farsa não merece cerimónias solenes . e tão grande a sua complexidade que agora. Agora vejo um esgar de riso . teria presi­ dido aos tribunais . estou a soluçar. «Tenho um encontro com o coronel para jogar a malha. Isto quer dizer que a máquina funciona: percebo o seu ritmo. Alguns pardais estão pousados no chão . O talhante entrega uma encomenda de carne na casa de um vizinho . Não subirei a escada. Mas não serão capazes de me des­ truir. neste momento único . As mulheres passam com os sacos das compras . um subterfúgio . mas como que vindas de qualquer coisa em . cavalgado sozinho à frente das tropas . no entanto . de sair e examinar com tempo a perturbação que a morte provocou no meu universo . Vem dor. falar e estabelecer novos contac­ tos? A partir de hoje serei solitário . Neste momento . enquanto lá em baixo a cozinheira limpa o fogão . Alguém escarnece nas nossas costas . Percival morreu . Para quê encontrar outras pessoas e reatar velhas ligações? Para quê comer. denunciado alguma monstruosa tirania e regressado para junto de nós . ao descer as escadas . O meu filho nasceu . E eu olho as pes­ soas que passam. se alguém tivesse dito «espera» e tivesse apertado um pouco mais a correia. As pessoas continuam a passar. ele teria feito justiça por cinquenta anos . estamos juntos . Por pouco aquele menino ia caindo ao saltar do autocarro . Não subirei os degraus . Ninguém me conhecerá. com ele a abrir caminho entre a multidão e a agitar o braço num aceno de despedida. Enterra as tuas garras no meu corpo . não consigo destrinçar a alegria da dor. É este o universo que Percival nunca mais verá. Todas se agarram com força aos varões do autocar­ ro firmemente decididas a viver. .» A nossa amizade terminou nestas pala­ vras .É tão incompreensível a combinação das coisas .108 Virginia Woolf vermelhos das chamas . Está enterrado . Mas onde está a dor e onde está a ale­ gria? É inutilmente que faço esta pergunta. a sua pulsação . Aperto­ -te contra mim. Apenas sei que necessito de silêncio e solidão . Dois velhos avançam aos tropeções pela rua. nada mais que isso . Deter-me-ei um instante diante da árvore impediosa. apodera-te de mim . Soluço . a sós com o homem que foi degolado . Percival caiu . E. Uma maldi­ ção pesa sobre nós . Guardo três cartas dele . Examinemo-lo . Avanço por um paredão embatido de ambos os lados pela corrente brutal das emoções . Morreu . Rasga-me em pedaços .

Morreu aquele que vos teria dado tudo isso . no momento em que o meu filho nasceu . Mas o importante é que. pois Percival já não os pode ver (está deitado . a minha curiosidade vem ao de cima. deixem-me dizer-lhes . E. que teriam sido obrigados a respeitá-lo . enquanto os coolies acocorados no chão agitam leques cujo nome esqueci . em que as pombas desceram sobre o meu telhado . É estranho caminhar entre a multidão quando se tem os olhos queimados de lágrimas . ele tinha já um curioso ar de desprendimento . Teriam caminhado em filas atrás dele . Oh.» E. E um de vós perdeu a felicidade e os filhos .» Agora já não tenho razões para me apro­ ximar do centro . «Ele ocupava o centro .» Recordo-me de que . os apelos . E fizeste-o inutilmente . fomos nós que triunfámos . eu pude murmurar como se fizesse uma constatação: «Tiveste sorte em deixar isto . E. en­ quanto os meus olhos alternadamente se secam e enchem de lágrimas . dirigindo-me ao ser abstrato e cego que me olha do fundo da avenida. . Perderam um chefe que teriam se­ guido . já surgem os sinais. Ao fim de algum tempo . homens de chapéus de feltro e mulheres carregando sacos de comida. «É isto que és capaz de fazer?» Se é assim. Mas não me vou lançar ao chão e chorar o resto da vida (tenho de registar no meu caderno o desprezo que sinto pelos que condenam os outros a uma morte inútil) . Agora devo fazer o possível por colocar Percival em situações triviais e ridículas . Os meus sentimentos em relação a Percival podem resumir-se do seguinte mo­ do . coberta de ligaduras) . Agora tenho a possibilidade de descobrir o que é importante . mas preciso de ter cuidado e não mentir. digo dirigindo-me ao rosto vazio e brutal (pois Percival tinha vinte e cinco anos e poderia ter vivido oitenta) . com a cabeça ligada. sim. rapaz . «Fizeste o pior mal de que és capaz» . aí está um nome ridículo . recortado contra o céu . Esse lugar ficou vazio . contudo . na atmosfera asfixiante de um hospital da Índia. para que ele não se sinta absurdo montado no seu grande cavalo . Não se pode viver fora da engrenagem durante mais de meia hora.As Ondas 1 09 que não participo . homens e mulheres que descem apressada­ mente as escadas do metro . Jaz numa cama de campanha. Reparo que os corpos readquiriram o seu aspeto habitual: mas . . páli­ do . que perderam algo de importante. as tentativas de me fazer retroceder. posso assegurar-lhes . digo: «Mas o que aconteceu é melhor do que se poderia esperar. Preciso de ser capaz de dizer: «Percival . no entanto .» E acrescento .

como um dos jornais diz que uma famosa atriz se divorciou . mes­ mo agora já há o meu filho . a minha atenção vacila. depois enterram-no . Deste modo posso alar- . Não sou . Vou subir os degraus desta galeria de arte e submeter-me à influência de espíritos que . A perspetiva mudou . Piedosamente . As pombas já não vêm pousar no meu telhado . Alguma coisa de ti ficou. pergunto-me ins­ tantaneamente de quem se tratará . Já não grito «que sorte» . Mas continuas a existir em algum lado . uma grande sala com ho­ mens escuros puxando cordas . . caio numa espécie de torpor. estes quadros não fazem qualquer alusão e nada indicam . estão libertos de engrenagem. Continuarás a ser o meu juiz. Tudo regressou à ordem. mergulho no caos . Já não acho inútil apressar-me e apanhar o comboio. Não consentirei em ser arrastado pelo ritmo das coisas . A exaltação passou . como eu . porém. . Sou outra vez sensível aos pormenores . As séries reconstruíram­ -se: as coisas implicam-se umas às outras . Se um dia descobrir em mim alguma coisa nova. Por detrás deste placard com jornais está o hospital.onde constantemente surgem a cabeça coberta de ligaduras e homens pu­ xando cordas . sem parar nem olhar à minha volta. se a impressão de solidez que causavas desapareceu para sempre dos meus olhos e que aspeto terão daqui por diante as nossas relações . Já me resta pouco tempo para responder à interroga­ ção. com convic­ ção . Continua­ rei a caminhar sem alterar o ritmo do meu pensamento . Não consigo tolerar nenhuma interrupção no curso das minhas recordações. submetê-la-ei em segre­ do à tua consideração . Mas . novos factos surgirão. Já não olho sem compreender para os nomes escritos nas portas das lojas . Atravessaste o campo tomando cada vez mais ténue o fio que nos unia. Estou no ponto culminante da minha ex­ periência. Espe­ ro que estas imagens acalmem a inquietação do meu espírito . Mas continuo a revoltar-me contra essa ordem habitual . Aqui veem-se frias estátuas da Virgem entre colunas .1 10 Virginia Woolf o que está por detrás deles é diferente . Aqui há jardins e Vénus entre as flores . Perguntarei: qual é o teu veredicto? Continuarás a ser o árbitro . Mas o declínio virá. Aqui há quadros .de modo a poder descobrir por detrás de tudo isso qualquer coisa de invisível . Aqui existem santos e virgens azuis . capaz de tirar um único tostão do meu bolso para comprar o jornal . Mas por quanto tempo? Com o passar do tempo as coisas começarão a ser difíceis de explicar. Pergunto-me se não te voltarei a ver.

Há em mim um lugar essencial que ficou vazio . Agora as pressões são intermiten­ tes e surdas . ele voltou» . sobre o que Percival representava para mim: era o meu contrário . Recordo­ -me da sua beleza. Contemplo a Virgem azul do rosto banhado em lágrimas . incapaz de cerrar os punhos e construin­ do frases de acordo com as circunstâncias . Uma criança brinca . Daí o seu silêncio e o seu aspeto sublime . Duvido que Ticiano tenha sentido esta dor. «Olhem .e as portas abrem-se e fecham-se . Estas linhas e estas cores quase me convencem de que também eu posso ser capaz de heroísmo. mas apenas elegias. Não estão acorrentados à rocha. . Nunca nada foi dito que convenha à nossa dor. tão facil­ mente seduzido pela mudança. o que fazia dele um verdadeiro mestre da arte de viver. Os pintores vivem em metódica absorção . continuarão a abrir-se e a fechar-se e através delas vejo coisas que me fazem chorar. o hábil construtor de frases . finalmente. As experiên­ cias da vida são incomunicáveis e é essa a causa de toda a solidão e de toda a desolação humana. eu . como os poetas . . Não são. Todos os exageros eram estranhos à sua inata lealdade e possuía um profundo sentido do seu lugar no universo. Sou a campainha que se comprime e não toca. Já não temos rituais . Deve ter experimentado a sensação de se erguer segurando uma cornucópia nos braços poderosos e de se reclinar de cansaço .é uma noite de verão . na sua perpétua solicitação do olhar. bodes expiatórios . Distingo poucas coisas e apenas de um modo vago. Estou sentado na sala italiana da National Gallery. o desfile de colunas e as folhas negras e . Espalhou à sua volta uma calma que quase se confundia com indiferença e que era muito nítida em relação à sua própria carreira. Mas aquele vermelho deve ter queimado as vísceras de Ticiano . juntando uma pincelada de cor a outra pincelada. Mas era capaz de uma grande compaixão pelos outros . recolhen­ do fragmentos . Este mo­ mento de contemplação é a cerimónia fúnebre que ofereço a Percival . digo . Mas o silêncio pesa-me. A visão da minha própria fragilidade esclarece-me. ou apenas emite sons cavos e dissonantes . Esmaga-me o sentimento da minha própria fraqueza. Ele já não está aqui para se opor a ela.As Ondas 111 gar a consciência que tenho dele e vê-lo de forma diferente . só temos sensações violentas sem qualquer relação entre si . Sinto-me excitado pelo esplendor deste vestido verme­ lho com um forro verde . de tal modo que parecia ter atrás de si a experiência de um longo passado .

crimes como os de não ter ido com ele a Hampton Court nesse dia. no entanto . e não consigo atravessá-la. Neville está a sofrer. meia hora) em que permaneci fora da engrenagem esgotaram-me . mas Jinny) . Sinto-me entorpecido e com as pernas adormecidas . Alguma coisa jaz no mais profundo do meu ser. Vou descer as escadas da galeria de arte . Mas agora podia quebrar-se nas minhas mãos . Amava Percival . Estou saturado de sensações . Todas as formas palpáveis de vida me abandonaram. Mas eu não consigo suportar nada que seja excessivo . a meio da noite . de cabeça descoberta. Mas agora. Este esforço e o longo tem­ po (vinte minutos . Por um momento . Poderia perguntar-lhe: «Ele contou-te que um dia me convidou a ir a Hampton Court e eu recusei?» São estes os pensamentos que me despertarão . Necessito de alguém com quem possa rir e bocejar. E. Ouço o ruído da grande mó rodando muito perto de mim . terei de me penitenciar em to­ das as praças do mundo . com quem possa recordar o modo particular que Percival tinha de coçar a cabeça.1 12 Virgínia Woolf pontiagudas das oliveiras recortadas contra um céu cor de laranja. depois desta revelação . preciso sentir a vida à minha volta. . Bocejo. Por cada ideia que chega a definir-se. Como ultrapassar este torpor que revela a secura do meu coração? Há outros sofrimentos . disse Rhoda. Sensações desordenadas atingem-me com as suas flechas . chamar o primeiro táxi que aparecer e dirigir-me a casa de Jinny. serei eternamente arrastada pelo vento . Talvez ao fim de uma longa vida. mergulhado em desespero . num momento de revelação . as linhas e as cores sobrevivem-nos e por isso . eu consiga segurá-la sem qualquer esforço . . qualquer coisa foi acrescentada à minha interpreta­ ção do mundo . O vento que ela levanta sopra contra o meu rosto . São estes os crimes de que . Mas é melhor deixá-la perma­ necer no mais profundo de mim até que possa germinar. No seu quarto poderia confessar-me . livros e bibelôs . Se não conseguir estender as mãos e tocar em qualquer coisa de consistente. . mil se estilha­ çam. alguém com quem ele se sentia à vontade (não Susan que ele amava. Porém. multidões de pessoas que sofrem. pensei que a alcançava. de repousar a cabeça exausta nas vozes fami­ liares dos vendedores e fechar os olhos . Estilhaçam-se e desmoronam-se sobre mim .Ali está a poça de lama.

Por um instante tenho a. Mas em que poderei tocar. Gosto da interminável passagem dos rostos diante de mim deformados e indiferentes . A dor imobiliza-se . quero ser lançada como uma pedra contra a rocha. Quero anúncios publicitários e violência. Gosto das chaminés das fábricas . Aqui está a loja das meias . Estou só num mundo hostil. Vou descer Oxford Street imaginando um mundo iluminado pela luz dos relâmpagos . rostos de pessoas que tudo sujam e des­ troem e são até capazes de manchar o nosso amor se lhe tocarem com os dedos impuros . os seus velhos sapatos e os momentos que passavam junto dele . A imagem reves­ tida de beleza está em ruínas . Na terra dura vou colher violetas de que farei um ramo para oferecer a Perci­ val (é alguma coisa de mim que lhe ofereço) . Irei a Oxford Street comprar meias para uma festa. O seu murmúrio ouve-se nos corredores . tal como predisse na noite em que disseram que amavam a sua voz . dos guindastes e camiões . vendo carvalhos fendidos. Percival ofereceu-me este presente . para atravessar este precipício e regressar ao meu corpo? Agora a sombra caiu e a luz violeta inclinou-se . atravessa estas rendas e os cestos repletos de fitas coloridas .As Ondas 113 através destes corredores . revelou-me este horror. obrigou-me a sofrer esta humilhação . A imagem que se erguia no bosque rodeado de colinas escarpadas desmoronou-se . encantada . ros­ tos grosseiros. estes milhares de rostos servidos como pratos de sopa por criados desmazelados . ilusão que a corrente interrompida da beleza recomeça a fluir. abrasados no sítio em que o ramo florido tombou . Estou cansada da beleza e da intimidade . ávidos e indiferentes . E agora vejamos o que Percival me deu a mim. Vogo em águas revoltas e quando me afundar não estará lá ninguém para me salvar. Olhemos a rua agora que Percival morreu . rostos que olham as mercado­ rias expostas nas montras . É dis­ so que gosto . Com a sua morte . Farei as coisas habituais à luz dos relâmpagos . Há calmos vazios no coração deste mundo agitado . Indi ferentes e sem objetivo . grutas de silêncio em que podemos refugiar-nos sob as asas da bele­ za nascida das verdades que procuro . os auto­ móveis rugem perseguindo-nos até à morte como se fossem cães ferozes . em que pedra. em que tijolo . As casas foram construídas em alicerces tão frágeis que um sopro de ar parece capaz de as derrubar. O rosto humano é atroz .

Terei de esperar na fila dos visitantes. está certamente afundado numa poltrona com os olhos vermelhos . . ficarei de pé sobre a relva vazia a dizer: «As gra­ lhas voam. Tem medo do ridículo . Mergulho profundamente entre as ervas daninhas e vejo a inveja. São estes os nossos compa­ nheiros . Vou pagar a conta e sair com o meu embrulho . segurando um prato nas mãos e olhando o telegra­ ma. surpreender-se-á a murmurar: «Que rapaz encantador está neste momento a passar diante da janela !» É este o meu tributo a Percival.1 14 Virginia Woolf pelo silencioso gesto da empregada que abre uma gaveta. Depois ela fala e a sua voz desperta-me . armários secretos e vestidos que pertenceram a rainhas? Ou a Hampton Court ver os muros vermelhos e os pátios interiores e os teixos formando pirâmides negras simetricamente erguidas sobre a relva. Penso em Louis . entregue à leitura da secção desportiva de um vespertino. sombrias violetas . Esta é Oxford Street. enquanto ela fala. o ódio e o despeito . entre as flores? Serei aí capaz de recuperar a beleza e de impor ordem à minha alma alvoraçada? Mas que será possível construir em solidão? Sozinha. Se nos submetêssemos. o ciúme . está ali um jardinei­ ro com um carrinho . alguém passa com um saco na mão . Aonde irei? A um museu onde se guardam anéis em caixas de vi­ dros . a pressa e a indiferença. enquanto olha fi­ xamente sobre o galheteiro o céu que se avista para lá das casas . Tira o caderno do bolso e escreve na letra M algumas frases «para serem usadas na morte dos amigos» . Jinny volteia através da sala e depois apoia-se no braço da poltrona em que Bernard está senta­ do e pergunta-lhe: «Pensas que Percival me amava?» «Que me amava mais do que a Susan?» Susan . noiva de um agricultor da região. avançando como caranguejos sobre a areia. de respi­ rar o cheiro de suor misturado com o do perfume. que é ainda mais horrível . São estes os nos­ sos companheiros. e sentir-me-ei suspensa ao lado dos outros visitantes como se fôssemos peças de carne penduradas num talho . ficará um instante parada. Neville. Penso nos amigos com quem me sento e almoço. Aqui o ódio. revestem a áspera aparência da realidade . Conseguirá fazer entrar a morte de Percival na sua conceção da vida. poderia reconduzir-nos à ordem. depois fechará a porta do forno com o tacão do sapato . Olha as pessoas que passam e diz para si que seria capaz de nos guiar se consentíssemos em segui-lo . olhando pela janela através das lágrimas . Quan­ to a Bernard. violetas murchas . é um snobe . os ciúmes .

São pessoas de elevada condição. «Ah ! » . . É então que a enorme mulher contida no resvaladiço vestido de cetim verde vem em nosso auxílio. Mas o que é que se esconde sob a aparência das coisas? Agora que o raio atingiu a árvore . contam. gritou uma mulher ao seu amado . E que é um grito? Então . O coração está quente . «Ah ! » . gritou . como se tivesse visto uma maçã e a sua voz fosse a flecha voando no interior da nota musical. Há um quadrado. Por isso estão apertados uns contra os outros como vermes nas costas de um animal . Repousam. como pesados corpos incapazes de se arrastarem até ao mar e que esperam uma onda que as ajude a flutuar. aqui e ali . Aspira o ar. trocam breves impressões com os amigos antes de se instalarem como focas num rochedo . há um retângulo . Mas são demasiado pesados· e há de­ masiadas rochas secas entre eles e o mar. Os cavalheiros . As comparações sucedem-se . apenas um grito . depois de pagar. empanturrados de comida. E depois voltou a gritar: «Ah ! » A mulher deu-nos u m grito . que acabaram de almoçar nesta tarde escaldante. Os músicos pegam no quadrado e colocam-no sobre o retângulo . ah ! » . O som vibra envolto na casca. mordiscando um pequeno ramo entre os lábios . alguns homens com aspeto de escaravelhos entram em cena com os seus violinos: espe­ ram . dilata o peito e lança-se para o frente no momento exato. corretamente vestidas . sapatos elegantes . vê-se um bigode militar. Só uma pequena parte fica de fora. as faces escanhoadas e. debruçando-se numa janela de Veneza. assume uma expressão apaixonada. desembarca na praia para onde descem as escarpadas colinas . E agora há ondulações e risos como na dança das oliveiras que agitam as incontáveis línguas cinzentas . fazem sinal com a cabeça e baixam os arcos . embrutecidos pelo calor. pequenas bolsas . entre pessoas sonolentas .As Ondas 1 15 Aqui está uma sala em que. quero ver o que está para lá das aparências . As mulheres têm brancos cabelos ondulados sob os chapéus . Colocam-no com o maior cuidado . o ramo florido tombou e Percival com a sua morte me deixou este legado. se entra para ouvir música. Nem uma só partícula de pó está autorizada a pousar nas suas roupas . Comeram carne e pudim em tal quantidade que poderiam dispensar refeições durante uma semana. construindo uma habitação perfei­ ta. até que um viajante vindo do mar. Sim. «Ah !» Um machado fendeu o tronco da árvore até ao coração . Agora a estrutura é visível . Segurando e abrindo os programas .

Já não parecem elegantes nem afáveis . mas agora estão a enxugar os rostos . o meu ramo de um pence . lanço as minhas violetas . Estas são as flores que crescem entre as ásperas ervas do campo pisadas pelas vacas . O vento agita-lhe as saias e os cabelos . a espiral em cima. segurando pe­ daços de carne crua com os dedos gordos . Construímos quadros e colocamo­ -los sobre retângulos . Vou andar de um lado para o outro ao longo do cais onde um velho lê o seu jornal num abrigo envidraçado . Tomamos o mundo habitável . Há um rio . cavilhas e parafusos e pessoas que se acotovelam nos passeios . Um quadrado sobre um retângulo . quase deformadas . Aqui há ruas sórdidas com mercados de rua onde se regateiam os preços das barras de ferro . a nossa consolação. . Desvanecem-se neste entardecer de verão . Vou sair. mas não fico ofendida nem indignada com os encontrões . Agora posso aban­ donar-me à minha dor. Fazem-se ao mar. a minha oferenda a Percival . Irei a Greenwich . Na onda que se desfaz no areal . Vou caminhar ao longo do para­ peito e olhar os navios a subir com a maré que está a encher. Deixam­ -nos . «Não procures mais» . batidas pelo vento . infecun­ das . um cão ladra à sua volta. Não somos assim tão inconstantes nem tão sórdidos . Uma mulher passeia pelo convés de um navio . Os músicos voltam . É este o nosso triunfo . «Isto é o fim. A transbordante doçura desta descoberta desce pelas paredes da minha consciência e liberta a minha compreensão . Fomos arrastados para o mar através das rochas . Passarei pela margem do rio . entregar-me completamente ao desejo de ser consumida. Agora da janela do elétrico avisto mastros de navios entre as chaminés e os telhados . Galoparemos juntos pelas colinas desertas onde a ando­ rinha molha as asas em obscuros lagos e as eretas colunas se mantêm intactas . na onda que espalha a sua branca espuma até aos mais longínquos confins da Terra. digo . Ao longo de Regent Street as sacudidelas do veículo lançam-me contra outros passagei­ ros . o meu ramo de violetas que me custou um pence . Vou viajar corajosamente em elétricos e autocarros .» O quadrado foi colocado sobre o retân­ gulo. arrancadas pelas raízes do pavi­ mento de Oxford Street. Vou fazer uma peregrinação . São essas as flores que trago . Há navios que partem para a Índia. Esta tarde será uma tarde à parte .1 16 Virginia Woolf O que antes era apenas esboço está agora realizado . A estrutura do edifício é visível .

Faziam uma pausa no seu cantar como se estivessem saturados do som.O Sol já não ocupava o meio do céu . A imóvel libelinha levantou voo do junco e lançou para lon­ ge a sua agulha azul. dei­ xando contudo. Os pássaros estavam quietos. de tal modo que lá em baixo as ondas eram trespassadas por dardos com plumas de fogo que atravessavam ao acaso as fremen­ tes águas azuis . aqui e ali. Nos campos. as vacas de cabeça baixa avançavam pesadamente um passo de cada vez. duas. A luz. três gotas isoladas caíram uma após outra. Jun­ to da casa a torneira deixou de gotejar. informes montes de trevas . a chama alcançava ou­ tras nuvens. . As janelas refletiam ao acaso manchas de sol. como se uma fina camada de vidro se tivesse formado à sua volta. Depois. Agora a sua luz suavizada caía obliquamente . depois o vidro ondulou e os juncos balouçaram. Agora a água do rio mantinha os juncos muito direitos. transformando-a numa ilha ardente em que ninguém_ poderia desembarcar. como se o balde já estivesse cheio . feito pelo trémulo e irregular bater das suas finíssimas asas dançando no horizonte. As copas das árvores estavam encarquilhadas pelo sol. a brisa fazia um rumor seco na rigidez das folhas. A imagem deformada de uma janela branca refletia-se no flanco verde do vaso . Num dos lados da janela avistava-se uma cortina vermelha e no interior da casa adagas de luz caíam sobre as cadeiras e as mesas fazendo es­ talar o verniz e as lacas . Aqui e ali capturava o rebordo de uma nuvem e incen­ diava-a. escorraçando as sombras diante de si. derramava-se profusamente nos menores recantos. e. a sombra curva de um ramo e depois um tranquilo espaço de pura claridade . ao passar. contentando-se em mover rapidamente a cabeça de um lado para o outro . numa rápida sucessão. um vago e longínquo murmúrio surgiu. e a plenitude do meio-dia os saciasse . Depois uma.

salpicando as paredes de uma caverna que até aí se man­ tivera seca . Rodeavam as rochas e os fragmentos de espuma saltavam. deixavam atrás de si poças de água onde às vezes um peixe se debatia. . Ao retirarem-se.118 Virginia Woolf As ondas erguiam-se. curvavam-se e desfaziam-se fazendo saltar areia e pedras . abandonado .

Preciso de cair com a força de um machado sobre o tronco de carvalho . Gravo o meu nome nesses pa­ péis brancos . Berlim ou Nova Iorque permitiram-me fundir numa só vida as minhas múltiplas vidas . Com a minha perseverança e decisão ajudei a traçar sobre o mapa as linhas que reúnem entre si os diversos continentes . O Sol brilha num céu sem nuvens . as mu­ lheres que caminham com pastas de documentos pela Strand como outrora iam com cântaros ao Nilo . eu . Eu . umas vinte vezes . Estou quase apaixonado pela máquina de escrever e o telefone . gosto do brilho roxo do mogno sombrio. as minhas ordens telefónicas breves mas corteses . E todas as folhas amalgamadas da minha vida estão agora resumidas no meu nome e clara e sobriamen­ te escritas nesta página.númeras experiências . a marcha de homens de pele escura. Agora. Sou como um verme que abriu cami­ nho roendo a madeira de uma antiquíssima trave de carvalho . para Paris . As minhas cartas e telegramas . ou de homens de pele amarela emigrando para Este . O murmúrio das folhas é semelhante ao das águas correndo nas goteiras . ao sol ou à chuva.Já assinei o meu nome . a procissão eterna.. firme e inequívoco . o discípulo de Sócrates. nesta bela manhã. Já vivi mil anos . Gosto de chegar às dez em ponto ao meu escri­ tório. porque se me desvio para um ou outro lado cairei como neve que depressa se derrete . Mas o meio-dia não me traz nem chuva nem sol . a profundidades manchadas de dálias ou zí­ nias . Oeste . de pé . Claro . Tam­ bém eu sou claro e sem equívocos . E . É a hora em que Miss Johnson me traz cartas para assinar numa bandeja metálica. aqui está o meu nome . sinto-me compacto e inteiro . disse Louis . Norte e Sul. acumulei i. gosto da mesa com os . Sou agora um adulto na sua plenitude . no entanto . E eu tanto sou um duque como Platão . outra vez eu .

e da agenda onde tenho marcados os encontros: Mr. para forjar à nossa volta um claro anel de aço. nem a sombra de trémulas folhas . Espero vir a ter uma poltrona e um tapete turco . Mas agora não tenho um minuto a perder. os grandes ministros da Inglaterra. que o seu salário deveria ser ganho ao serviço de um augusto chefe e que ao anoitecer deveríamos ser esperados por uma mão e pela prega de um vestido . os meninos convencidos e o meu pai que foi banqueiro em Brisbane . O meu ombro empurra a roda e abro cami­ nho nas trevas que se estendem diante de mim. Prentice às quatro. o que se quebrou contra estas praias pedregosas . Burchard para lhe apre­ sentar o relatório sobre a nossa situação na China. Gosto de ser chamado ao gabinete de Mr. Assim resgato velhas culpas e apago certas manchas: a mulher que me deu a bandeira que estava em cima da ár­ vore de Natal . Quando tiver reduzido estas fraturas do mundo e compreendido essas monstruosidades de modo que não exijam desculpas nem justificações (que são coisas que desperdiçam energia) . Aqui não há repouso . e Sir Robert Peel. o baque . O peso do mundo recai sobre os nossos ombros. Burke . o mundo vê através dos nossos olhos e se os fechamos. se a ordem continuar a emergir do caos .1 20 Virgínia Woolf seus cantos afilados . devolverei à rua e ao restaurante o que perderam nestes anos difíceis . até um papel pardo acidentalmen­ te caído no chão . Prentice às quatro horas . e também das gavetas que se abrem suavemente . Mr. a marca das pancadas e outras tor­ turas sofridas na infância. na frescura da noite . Se prosseguir nesta via. Gosto do telefone que oferece os seus lábios à minha voz e do calen­ dário na parede. Eyres às quatro e meia. mexendo o café . infligimos ao mundo a injúria de um instante de distração e de erro . olhamos para o lado . Pitt. acabarei por chegar ao lugar onde estiveram Chatham. Reunirei al­ gumas palavras . espalhando comércio no caos das mais remotas partes do mundo . Gosto de ouvir o suave deslizar do elevador. ou nos voltamos para colher o que Platão disse ou recordar Napoleão e as suas conquistas . Disse que cada dia vivido por essa gente deveria ter um objetivo. a minha pronúncia. ouvi os empregados de escritório fazendo apostas nas mesinhas e observei mulheres hesitando ao balcão . Eyres às quatro e meia em ponto . Li o meu poeta numa taberna e. Disse a mim mesmo que nada pode deixar de ter importância. A vida é assim. nem um tranquilo recanto onde me possa abrigar do sol ou sentar-me junto do ser amado . Mr. Mr.

Enquanto espero . luxuosos navios repletos de WC e de salas de ginástica. morreu na Grécia. assu­ mimos aspetos variados e construímos diferentes estruturas . Susan tem filhos . Neville ascende rapi­ damente a posições elevadas . reunindo as nossas forças enviamos navios às mais remotas regiões da Terra. se não existir aqui e agora em vez de me fundir em pedaços como a neve na encosta das mon­ tanhas longínquas . Se persistir. O peso do mundo recai sobre os nossos ombros . melões e árvo­ res floridas que farão a inveja de outros comerciantes . dali vejo as telhas parti­ das das casas dos pobres. com o maxilar azulado e os olhos lacrimejantes . inclinado para a frente de modo a vencer a ventania. possuirei uma poltrona e um tapete no conselho de administração e uma propriedade no Sur­ rey com estufas de plantas e algumas coníferas raras . Mas se não fixo essas impressões num quadro e não faço um único ser dos múltiplos seres que em mim coexistem. tenho o desejo secreto que uma pequena datilógrafa se aninhe nos meus joelhos . E vida é assim. abotoado até ao pescoço. A vida passa e as nuvens que passam sobre as nossas casas mudam constantemente de forma. Somos amantes . cairei como a neve que em breve se derrete . quando chegam as seis horas e saio levando a mão ao chapéu para saudar o porteiro (continuei demasiado delicado porque desejo ser aceite pelos outros) e avanço com dificuldade . depois novamente aquilo . Faço isto . no entanto. mantenho ainda o meu quarto no sótão . Percival morreu (morreu no Egito . Quando nos reunimos e separamos . até às ruas estreitas onde abundam as tabernas . deste modo. sombras de navios que passam entre as casas e mulheres que se insul- . Ali abro o livro familiar e contemplo a chuva que resvala pelas telhas que brilham como um impermeável de polícia. E. se não fizer tudo isso .As Ondas 121 surdo com que s e detém no meu andar e caminhar viril de pés respon­ sáveis no meu corredor. À s vezes Rhoda vem ver-me . E. os gatos magros. e alguma mulher dando uma olhadela no espelho rachado e pintando o rosto para continuar o seu trabalho nas esquinas das ruas . todas as mortes são a mesma morte) . Penso que o meu prato favorito é fígado com bacon e tenho tendência a orientar os meus passos até ao rio. se não perguntar a Mrs . Johnson se gostou de ir ao cinema quando passo pela seu escritório e me esquecer de tomar a minha chávena de chá e os meus biscoitos favoritos .

e depois o inverno . maio ou qualquer estação do ano . o carvalho tem de ser abatido. canto afas­ tando do berço . Louis. Já não sou janeiro . dispa­ ram contra as gralhas e os coelhos ou de algum modo trazem consigo o sobressalto e a destruição . filhinho . canto . recobrando a sensatez. canto baixinho . o meu olhar inexpressivo . eu que nunca tive ouvido para a música e que só conheço as melodias campestres do cão que ladra. do sino que toca. onde as gotas deslizam formando riscos . eu debruço-me. Perdi a minha indiferença. alimento o meu filho . Aqui estão a caneta e o papel. recordo-me: Mr. avisto a pereira no jardim. O machado tem de cair sobre o tronco. Vagueio pela casa o dia inteiro . ou das rodas que rangem ao passar no saibro . admirando a pena do gaio que se toma azul ao cair. os meus olhos em forma de pera que procuravam as raízes . Dorme . mas pelos vidros embaciados ou cobertos de geada.1 22 Virginia Woolf tam. mas uma fina rede tecida em redor deste berço . As estações pas­ sam. tanto no verão como no inverno. Dorme . sempre Louis . canto . que morreu com um cancro. Sentada junto do fogo . vigio a chaleira que ferve . Prentice às quatro. envolvendo num casulo feito com o meu próprio sangue o delicado corpo do meu filho . Assino o meu nome nas cartas que me trazem na bandeja metálica. Através dos vidros embaciados .Vem o verão . Sentada ao lume . Louis . que via na berma da estrada uma mulher agachada junto de uma carreta . seja maio ou novembro . Já não distingo o verão do in­ verno pela erva dos campos ou a flor do espinheiro. canto a minha canção de embalar como uma velha concha murmurando na praia. Dorme . dorme . que depois cai como uma maçã que se desprende do seu ramo . O peso do mundo recai sobre os meus ombros . A pera arredonda-se e cai da árvore . de avental e chinelos . . Quando a cotovia lança nos ares o seu canto . disse Susan . dorme . Mrs . qualquer assaltante que en­ trasse e despertasse o pequeno ser adormecido . Eyres às quatro e meia. sentindo crescer den­ tro de mim uma violência selvagem e sombria que me permitiria abater de um só golpe qualquer intruso . Mas . onde um doce corpo está envolto num cobertor cor­ -de-rosa. A folha morta descansa na beirada. que encontrava no meu caminho o vagabundo e o pastor. Eu que costumava pas­ sear pelo bosque de faias . Dorme . as pessoas que fazem ruídos com as bilhas de leite . Mas o vapor embaciou os vidros. tal como mi­ nha mãe .

quando estamos sentados a ler ou enfio a linha no buraco da agulha. no entanto . Já não observo o meu súter a fa­ rejar em círculo. embora às vezes sinta desejo de gri­ tar. ando agora de quarto em quarto com um espanador na mão . Aumentará as minhas riquezas . meu filhinho . O homem do talho vem trazer a carne. Assim vou avançando . enquanto a água ferve na chaleira e um jato de vapor cada vez mais espesso sai do seu bico .» E. quando estou deitada. sei que outros filhos virão . digo. E mais cantei­ ros de alfaces e batatas . «Basta. Dorme . e à noite . penso . Ou então vou até à janela e contemplo a pereira e o ninho que as gralhas fizeram no ramo mais alto de uma árvore . Vejo uma rua iluminada entre as corriolas . E cebolas brilhando . exigindo que a vida recolha as suas garras . digo. arrastada pela vida. desejando que o sono desça como um colchão de penas sobre os seus frágeis membros. Ele regressará carregado de troféus que virá depor a meus pés . dorme. até as estrelas se moverem e reaparecerem ao lado das folhas imóveis . retenha os seus raios e passe ao largo e fazendo com o meu próprio corpo uma cavidade. É assim que a vida enche as minhas veias e se espalha por todo o corpo . desejo não sentir mais sobre mim o peso da casa adorme­ cida. Sinto-me uma folha levada pelo vento . entre a madrugada e a noite . Com eles sairei do meu corpo e irei ver a Índia. um tépido abrigo onde o meu filho possa dormir. já não ergo os olhos para as árvores que escondem as estrelas . uma mariposa em- . outros cestos na cozinha e mais presuntos curados ao fumo . O vento desliza entre os olmos . Dorme . Uma chama brilha entre as folhas da hera. outras elevando-se nas alturas . umas vezes roçando a erva húmida. Mas agora já não me levanto ao ama­ nhecer para ver as gotas roxas que tremulam nas folhas das couves ou as rubras gotas pousadas nas rosas . Ouço o trânsito no rumor que o vento faz na relva e fragmentos de vozes e risos e Jinny gritando quando a porta se abre: «Vem ! vem ! » Mas nada interrompe o silêncio da nossa casa à volta da qual os campos suspiram. Estou farta de felicidade natural e às vezes desejo que esta plenitude me abandone . «Os seus olhos hão de ver quando os meus já es­ tiverem fechados» . meu filhinho . O leite tem de ser posto à sombra para não azedar. Estou farta de tanta felicidade natural .As Ondas 1 23 tombada. Dorme . mais berços . enquanto ando de um lado para o outro . Um reflexo da lâmpada arde num vidro escuro da janela.

estagnou num mar de porcelana chinesa. meu filhinho . O homenzinho de queixo azulado tem a mão direita paralisada. a quem acabo de conhecer. mas podem comprovar facilmente que se erguer o braço alguém se aproxima imediatamente) . como brinquedos que suspendemos na árvore de Natal com uma simples pressão dos dedos . Se quebrarmos uma. vive rodeado de faianças chinesas . Inclina-se mesmo para aquela velha só porque os seus brincos são de diamante e percorre os seus domínios numa carruagem puxada por póneis. Amava uma jovem romana que o traiu . temos de as agarrar sem perda de tempo . Adorne­ mos com factos a nossa árvore de Natal . E enquanto passo a linha pela agulha. há muito estabelecida no Norfolk. Se tu . E este homem é juiz. porque ele também foi jovem um dia e sentado no chão húmido bebeu rum com os soldados . Quem é ele? Quem é ela? Sinto-me infini­ tamente curiosa e não sei o que vai acontecer. murmuro: «Dorme . decidindo quem deve ser ajuda­ do . prender habilmente factos e mais factos . . e já tenho mais de trinta.Agora que nos reunimos. e o homem que tem um olho de vidro varou com uma seta o coração da criada quando tinha apenas dez anos de idade . como uma cabra-montês saltando de penhasco em penhasco. perigosamente. Depois atravessou o deserto levando mensagens . conversemos e contemos histórias uns aos outros . sob as flores . como se inclinaria até sobre uma azálea. permaneço pouco tempo no mesmo sítio. perto do quadro . participou em revo­ luções e agora reúne documentos para escrever a história da fanu1ia da sua mãe. essas velharias encontradas em antigas mansões ou desenterradas nas areias do deserto . O homem inclina-se . Sentemo-nos neste sofá. me dissesses: «a carruagem parte de Piccadilly às qua­ tro horas» . Mas tudo isso é estranho . uma viga range .1 24 Virginia Woolf bate na lâmpada. É isso que explica esses vasos . que árvore será derrubada e quem vai ser despedido no dia seguin­ te (devo dizer que vivi durante estes anos . iria imediata­ mente contigo . Aquele homem que está ali .» . disse Jinny. Mas porquê? Ninguém sabe . Neste mundo precisamos de ser rápidos . uma vaca muge . e aquele é milionário. Mas a beleza deve quebrar-se todos os dias para permanecer bela e a vida deste homem é estática. não perderia sequer tempo a fazer a mala. ao lado do armário . a ninguém me ligo em particular. As pessoas partem tão de­ pressa. lá se vão mil libras .

Entre nós . dizes . A porta abre-se sem ces­ sar. De um modo ou outro concedemos importância a este dia. Outro gerará um filho . angústia. foi a pura chama que incendiou a vida de um dos nossos grandes esta­ distas . Lar­ go todas estas histórias de diamantes . rochas resplandecendo ao sol . muita indiferença e algum desespero . de todas as variedades da ambição . outros embarcarão para a Índia. num comboio. Um de nós morrerá esta noite . fundisse gradualmen­ te os seus tons amarelos . ela vê fantasmas . vamos visitar ao colégio quando têm sarampo e preparamos para herdarem as nossas casas . que educamos . Uns vão aos tribunais. A carruagem pode sair de Piccadilly a todo o momento . Mas os que como eu têm uma vida carnal veem com a imaginação do corpo o perfil das coisas . Fazemos a vida. azuis e cinzentos numa substância única. encontrou um estranho que o converteu lendo-lhe a Bíblia entre Edimburgo e Carlisle . Desde que morreu esse homem de Estado. Há também aqueles que nunca mais volta­ rão a esta sala. mãos paralisadas . Alguns partirão para França. A sala enche-se de sabedoria.As Ondas 1 25 Murmura-se discretamente que aquela mulher. abrigando os olhos com a palma da mão . De nós brotam todas as espécies de construções . condenar à mor­ te e administrar as instituições públicas . a esta sexta-feira. Um milhão de mãos estão ocupadas a coser ou a levantar caixotes de tijolos . É pelo menos o que dizem. podíamos construir catedrais . a aventura e a polí­ tica. em poucos segundos . A atividade é infinita. poemas . filhos e fábricas . adivinha o futuro e adotou um jovem com pele cor de café a quem chama Messias . Assim. quadros . Vejo rochas . Esta sala é como uma praia repleta de conchas gastas e rejeitadas pelas ondas . Preciso de me erguer e partir. Sou incapaz de estar sentada por muito tempo . dirigir a vida política. Entre nós contam-se muitas crianças de ambos os sexos . A vida vai-se embora. A vida vem . deciframos habilmente os hierógli­ fos inscritos no rosto dos outros . outros tratar dos seus negócios na City. com brincos de pérola. Mas não posso levar estes factos para o interior de uma caverna onde . E amanhã tudo recomeça. vasos de . Alguns participam em manobras militares . É muito grande a nossa re­ serva de experiências comuns . amanhã con­ cedemos importância ao sábado . Aquele homem de bigodes caídos como um oficial de cavalaria levou uma vida depravada (tudo isso vem contado numa biografia) até que um dia. Outros ainda a um infantário .

Persegue­ -me através da floresta. Tudo é noturno. . tudo é êxtase e os papagaios gritam nos ramos das árvores .De que serve . a noite que oculta os amantes caminhando ao encontro da aventura.1 26 Virginia Woolf porcelana e o resto. O mundo não nos pode dar mais que isto. outras a erva. como se todos os animais da floresta estivessem a caçar. Alguém se aproxima. atravessadas de luzes . Canto como um rouxinol cuja garganta fina estrangula a melodia. E envelhecemos . Vem atrás de mim. Quero ser empurrada. olhar o relógio sobre a lareira? Sim. as rápidas flechas da sensação . Umas vezes sinto o saibro sob os meus sapatos . recomeça a fazer sinais. Faço-o porque o meu corpo. Flores aveludadas e folhas com a frescura da água envolvem-me . o sombrio e áspero «não» . é tudo o que posso desejar. como um macaco solta as nozes das suas mãos nuas . em pleno coração de Londres . Olha o fogo subindo e descen- . Sinto o odor das rosas e das violetas . A noi­ te de Londres é inquietada por cintilações de luz . Mas estar sentado junto de ti . o tempo passa. saltando e correndo entre moitas de espinhos . Todos os meus sentidos estão despertos . Já estamos ao ar livre . Não sei se a vida é isto ou outra coisa. com manchas cor de morango . flutuado . Agora a fresca maré noturna envolve-me nas suas águas . emitido um sinal? O homem destacou-se da parede em que se apoiava. o dourado «vem» . Ouço o ruído dos ramos que­ brados e o embate das armações dos veados . abrigam-me . vem. Sinto o tecido áspero da cortina que afasto com a mão . Um desses espinhos cravou-se profundamente em mim. As silhuetas sombrias das casas elevam-se diante de mim. o mundo saqueado até às mais remotas regiões e onde todas as montanhas foram despojadas de flores . vem. disse Neville . Um desses espinhos trespassou-me . neste quarto iluminado pelo fogo. Vem. Posso finalmente entoar o meu canto de amor. Vou misturar-me com a multidão heterogénea. Terei er­ guido o meu braço? Olhei-o? Terá a minha echarpe amarela. Vejo na noite o vermelho e o azul das cores ocultas . rodeiam-me com o seu aroma. agitada pela multidão como um navio no alto-mar. o meu cúmplice sempre pronto a enviar apelos . Diante de nós abre-se a noite atravessada por mariposas errantes. A minha echarpe doura­ da palpita como as asas de uma libelinha. como uma consciência perturbada. a fria balaus­ trada de ferro e a sua pintura estaladiça sob as minhas mãos . sozinho contigo .

as chávenas e os pires mudaram de aspeto. Era a rutura. Sentei-me no meu quarto . De qualquer modo . Quando chegaste esta manhã. tudo se trans­ forma. Revivi a minha vida passada. passeámos pelo parque até à margem do rio e depois seguimos ao longo do Strand até St. Ela hesitava. Mas estes encontros e separações vão acabar por destruir-nos . À s cinco da tarde soube que me eras infiel . Mas a felicidade poderá durar? Perguntei a mim próprio em Trafalgar Square . falando sempre e às vezes parando para olhar em volta. De todos os nossos encontros foi esse o mais perfeito . A descida para a estação do metro foi como uma descida aos infernos . Paul . Tinha acabado de tomar o pequeno-almoço . fui assaltado pelas dúvidas . Mas depois . o fim das suas relações . Jurei que a mi­ nha felicidade haveria de durar para sempre . Peguei no telefone e o ressoar da sua estúpida campainha no teu quarto vazio dilacerou-me o coração . Aqui podemos estar calados ou falar sem erguer a voz . temo e sem compromissos . Agora este quarto parece-me o centro do mundo . afastados por todos estes rostos e o som vazio do vento que soprava nos grandes rochedos desertos . Pousei o jornal na mesa e comentei para mim próprio que as nossas medíocres vidas sem beleza só se revestem de esplendor e ad­ quirem significado quando as vemos com os olhos do amor. Tínha­ mos um dia inteiro à nossa frente e como era um belo dia. Mas quando chegas . onde e ntrámos numa loja para eu comprar um guarda-chuva. . Reparaste nisto e naquilo? . diante da estátua do leão de ar eterno . ouvi vozes e um soluço na escada ontem à noite . Levantei-me . olhando fixamente em frente . Segurei-te na mão . cena por cena. . Foi então que a porta se abriu e tu entraste . que isto é uma cortina e que aquilo talvez seja uma poltrona. Penso que isto são livros dispostos ao longo das paredes . . Deste modo tecíamos à nossa volta filamentos infinitamente finos . Revi a silhueta de um grande olmo e a morte de Percival .As Ondas 1 27 do pelo dourado fio da cortina. de tal modo que parece o fogo e não o teu rosto . as linhas curvam-se e intersetam-se . mas aqui dentro envolvem-nos . Faz brilhar a ponta dos teus sapatos e rodeia o teu rosto com um halo de luz. Creio que começou a suspeitar. Lá fora. perguntamos . qualquer coisa arrancada à luz eterna. A fruta que ele alcança murcha rapida­ mente . Estamos no centro . Ele disse aquilo dando a entender. Estávamos separados . Em seguida partiste . como de costume .

ai de mim. Depois de tantas zangas e reconciliações . talvez repelente . com a cabeça coberta por um capacete . Odeio as cerimó­ nias do culto . Odeio os homens que trazem crucifixos do lado esquerdo do colete .são coisas como essas que gostamos de mostrar um ao outro . Precisamos de nos opor ao desperdício e à fealdade do mundo . ou de regressar à noite a um bungalow. a energia com que abres as janelas e a habilidade das tuas mãos . Odeio também a pompa. atenções . Devemos deslizar. Sim. Tenho necessidade de alguém que se sente junto de mim depois de um longo dia repleto de angústias . Ou então com que se possa estar em silêncio . colocar estiletes no meio dos romances e atar cuidadosamente maços de cartas com uma fita de seda verde e varrer com uma escova as cinzas da lareira. Precisamos de ler es­ critores de virtude e severidade romanas . cambalhotas na ponte de um navio . como tu . mas também gente obscura. afastar os seus ramos e colher os frutos . repleto de suor. E eu acho-te belo a ti .1 28 Virginia Woolf construindo um sistema. Uma flor numa sebe . Tenho necessidade deste fogo . as lamentações e a dolorosa imagem de Cristo oscilan­ do ao lado de outra imagem dolorosa e oscilante . Ou com ele seguir as obs­ curas veredas da mente e penetrar no passado . com as mãos nas ancas e um cesto ao colo . a tua naturalidade . o meu espí­ rito está enfermo . Caio como um corredor ao pé da meta. É triste reconhecê-lo . sem a menor importância. Porque . mas eu seria incapaz de cavalgar na Índia. desta larei­ ra. Nenhum esforço deve ser pou­ pado para afastar de nós o horror da fealdade . visitar livros. nem fazer como os rapazes seminus que brincam molhan­ do-se com as mangueiras . É um grande alívio ter alguém a quem podemos chamar a atenção para qualquer coisa. maravilham-me os movimentos descui­ dados do teu corpo . em trajes de cerimónia com estrelas e condecorações . porque nos meus hábitos sou polido como um gato . Dele fazem parte Platão e Shakespeare . a indiferença e a ênfase sempre deslocada das pessoas que falam à luz dos candelabros . de poder ficar a sós contigo para introduzir ordem nesta confusão. um pôr do sol invernal na ex­ tensão dos campos . depressa se cansa. às multidões que circulam em torrentes que se espezinham. Não sou capaz de dar. esperas e dúvidas . procuremos a perfeição nas . com precisão e suavidade . o modo como uma mulher está sentada no auto­ carro . E tu pegas nesses frutos e acha-los belos . preciso de intimidade .

se algum dia te vir num espelho a olhar outro homem. Ájax . Mas tu não és nem Ájax nem Percival . Sim. dos rancores e das incontáveis invejas .As Ondas 1 29 areias do deserto . não pro­ curo desinteressadamente a perfeição nas areias do deserto . Ao contrário de Louis. Entretanto . . tal como a erva ondulante . arriscavam destemi­ damente as vidas e nenhum deles possuía uma grande cultura. da juventude que me foge . mas gosto de deixar escapar a virtude e a severidade dos nobres romanos sob a luz cinzenta dos teus olhos . Mas se um dia não vieres depois do pequeno-almoço . vamos abolir com um simples gesto o tiquetaque do relógio do tempo . Todos gostavam de longas cavalgadas . Alcibíades . Há sem­ pre uma mancha de cor para macular uma página. se o telefone tocar inutil­ mente no teu quarto vazio . É isso que me consola da falta de muitas coisas (sou feio e frágil) da depravação do mundo . Heitor e Percival também se confundem contigo . Chega-te para mais perto de mim. E percebo que o poema é feito do som da tua voz . da morte de Per­ cival . os risos e os gritos dos rapazes brincando nus no convés do navio . Eles não franziam o nariz nem esfregavam a testa com esse gesto que só a ti pertence . as brisas do verão . molhando-se uns aos outros com a água das mangueiras . então . da amargura.procurarei e encontrarei outro ser que sejas tu . Tu és tu . As sombras das nuvens passam sobre ela. depois de angústias indizíveis pois não tem limites a loucura do coração humano .

abrindo e fe­ chando as asas . O trémulo cardo marinho passava de azul a prateado e sombras impelidas pelo vento deslizavam sobre o mar como pedaços de tecido cinzento . algumas pétalas tinham caído . Às vezes uma forte rajada de vento fazia balouçar simultaneamente as inumeráveis folhas. As ilhas de nuvens haviam-se feito mais densas e deslizavam diante do sol. como se uma barbatana fen­ desse o verde cristal de um lago . o vento apoderara-se dela. afastavam-se da luz ao serem agitadas pelo vento e algumas cabeças demasiado pesadas para voltarem a erguer-se ficavam ligeiramente inclinadas . Alguns deslizavam veloz­ mente nos corredores de vento. um cavalo. Repousavam sobre a terra como conchas . As ondas já não atingiam as poças mais distantes. A areia tinha uma cor de pérola. Os campos brilhavam ao sol como se tivessem sido envernizados . cadafolha recuperava a sua identidade . azulava as sombras. No jardim. O sol da tarde aquecia os campos. elevando-a e deixando-a cair e tinha-a largado junto de um silvado . Os pássaros volteavam em pleno céu . um bando de gralhas. Os rochedos tornavam-se subitamente sombrios . A folha morta já não jazia na beirada. nem alcançavam a linha negra que estendia o seu traçado irregular sobre a praia . averme­ lhava o trigo . num repentino frémito e esplendor. suave e brilhante . depois. tudo . Um deles voou solitariamente em direção aos campos e pousou numa estaca branca. Uma carroça. quando o vento passava. giravam e separavam-se como se fossem mil fragmentos de um mesmo corpo . Tombavam do cimo das grandes árvores como uma rede .O Sol declinara no horizante . Em todas as flores passava a mesma onda de luz. Os claros discos das flores brilhavam ao sol.

.As Ondas 131 o que se movia sob a luz do sol parecia banhado em ouro . Dava um tom acas­ tanhado a um armário. As nuvens arredondadas rolavam no céu sem perderem sequer um átomo da sua forma . Por um instante tudo vacilou. Ao passarem numa aldeia. como se uma grande mariposa flutuando no quarto tivesse ensombrecido com as suas asas trementes a imensa solidez das cadeiras e das mesas . tudo mergulhou numa atmosfera de ambígua incérteza. colhiam-na por inteiro na sua rede de sombras e ao afastarem-se deixavam-na de novo livre . Longe. as vacas provocavam ondulações de ouro averme­ lhado e os seus chifres pareciam revestidos de luz . avermelhava uma cadeira e fazia a janela ondular no flanco do jarro verde . A o mo­ verem as patas. via­ -se arder um vidro ou destacar-se a silhueta solitária de um cam­ panário ou de uma árvore . Feixes de trigo louro jaziam nas sebes. muito longe no horizonte. entre milhões de grãos de poeira de um azul-cinza. As cortinas vermelhas e as persianas brancas agitavam-se emba­ tendo no rebordo da janela e a luz que entrava em convulsões irre­ gulares tinha um tom acastanhado e um certo ar de abandono ao passar pelas cortinas atormentadas pelo vento . perdidos pelos carros baixos e primitivos que chegavam dos campos .

As pessoas re­ pararam no meu ar ausente e na inconsequência das minhas frases . esgota-se . murmurei . disse Bernard . o meu pensamento escapou constantemente dirigindo-se a um lugar vazio em busca de qual­ quer coisa perdida. Pois . Estes são os verdadeiros ciclos . a gota caiu . deixo-me ficar na cama dias inteiros . como se escoa o líquido para fora do vaso. Adelgaça-se até formar um único ponto . como se toda a luminosidade da atmosfera refluísse subitamente como uma vaga. disse . enquanto trabalhava. consolando-me com as palavras . o tempo. de qualquer coisa que acabara . essa extensão plana como um campo ao meio-dia. Durante o dia. Janto fora e fico com a boca . A gota caiu . Esta gota que está a cair nada tem a ver com a minha juventude perdida. aparece sem­ pre uma frase incongruente que insiste em vir em meu socorro (é o castigo por se viver numa velha civilização e possuir um caderno onde anoto frases) . É o tempo que a faz cair. Vejo tudo aquilo que os hábitos recobrem. Preguiçosamente . A gota forma-se no te­ lhado da nossa alma e depois cai . barbeiem» . E enquanto abotoava o sobretudo para regressar a casa disse mais tragicamente: «Perdi a minha juventude . os verdadeiros acontecimen­ tos da minha vida. O tempo escoa-se . deixando ficar um depósito . A queda desta gota é o tempo adelgaçando-se até formar um ponto . quando me barbeava. «B arbeiem . Estava de pé com a navalha de barbear na mão e de repente tomei consciência da natureza habitual desse meu gesto (a gota formando-se) e felicitei ironicamente as minhas mãos por se submeterem a esta rotina . esse prado ensolarado em que dança uma luz. O tempo. vejo o fundo das coisas tal co­ mo ele é.E o tempo . Na se­ mana passada.. «Morto e enter­ rado» . Continuem a barbear. come­ ça a inclinar-se .» É estranho verificar que em cada crise que atravesso .

Moffat. comprei um bilhete para Roma.As Ondas 1 33 aberta como um bacalhau . «Ü vento está frio . Só sou sensível ao lado exterior das coi­ sas . Não tenho o menor desejo de seguir uma trajetória contrária à da Terra. adquirem uma pre­ cisão mecânica. Vejo os padres com as suas faixas cor de violeta e as amas de roupas pitorescas . Se pudesse prolongar esta sensação por mais seis polegadas . Algumas coisas estão fora do meu alcance . Mrs . pressinto que poderia alcançar algum estranho território . e os meus atos . mas o céu também. Desta vez . Mas pareço-me com um elefante cuja trom­ ba fosse demasiado curta. antes de adormecer. penso dolorosamente que nunca verei os indígenas do Taiti pescar com uma lança à luz da tocha. ao passar por uma agência de viagens . Nunca conseguirei compreender os árduos problemas da fi­ losofia. Não quero ser como o homem que passa cinquenta anos sentado no mesmo sítio olhando o umbigo . Roma é o limite das minhas viagens . Mrs . com gestos de autómato . O meu ser só cintila quando as suas diversas facetas estão expostas a numerosos olhares . nestes jardins . contem­ plando a cidade eterna. Moffat. Nunca desejei prolongar estes estados de desprendimento . Prefiro ser atrelado a uma carroça de legumes que chocalha nas pedras irregulares da calçada. outros por simples incapacidade para atravessar a rua. O meu quarto aborrece­ -me . «Ü sol está quente» . Estou sentado neste banco como um convalescente . ia jurar que sinto o seu movimento de rotação e a sua dureza. fico cheio de buracos como um papel queimado . não me sinto envolvido por este cenário . E. O homenzinho que fazia a barba em Londres há cinco dias já tem a aparência de velhas roupas abandonadas . A própria Londres se afundou . Superei alguns desejos . À s vezes . de noite . Londres é um amontoado de fábricas arruinadas e de gasómetros . nem um leão saltar na . «Ah. em geral muito imprecisos. Não sou tão dotado como outrora parecia. Agora estou sentado neste banco de pedra. aqui sentado . venha limpar isto . Não me dou ao trabalho de terminar as frases . desprezo-os . no entanto . Se eles me faltam.alguns por morte como Per­ cival . digo . entrei e. Perdi amigos .» Sinto-me arrastado como um inseto pelo movimento da terra e . Não gosto deles. A verdade é que não sou uma dessas pessoas que encontram satis­ fação na posse de um único ser ou no infinito . Muitas coisas se desprenderam de mim. como um homem muito simples que só conhece palavras de uma sílaba.

Aquele homem não consegue fazer andar a sua mula. na obs­ cura capela do colégio.) Mas consideremos as coisas mais de perto. Confrontados com estes dilemas . Mas eu desconfio dos mestres . a minha casa . o meu cão» . Do alto deste terraço contemplo o formigueiro humano . Se um homem se ergue e diz: «Aqui está a verdade ! » . Inventei milhares de histórias. . os devotos consultam estes cavalheiros de faixas roxas e aparência sensual que passam em rebanho diante de mim. ou um homem nu a comer carne crua. Uma nova etapa foi franqueada. os aquedutos . Uma etapa vem a seguir a outra. o senhor esqueceu-se do gato . . . . as calçadas romanas de lajes quebradas e as pedras tumulares da Campagna e mais além o mar e depois mais terra e outra vez o mar. (Nota: uma lavadeira italiana iguala em elegância a filha de um duque inglês . Durante anos repeti com complacência: «OS meus filhos . Creio . Nunca aprenderei russo nem lerei os Vedas . Mas ainda não a encon­ trei . Poderia destacar um . Meia dúzia de ociosos cheios de boa vontade oferecem-lhe os seus serviços . A gota cai . Vejamos a extensão do céu onde rolam pequenas nuvens brancas e redondas . Imediatamente imagino uma história para arredondar as arestas do crucifixo . . Outros passam sem olhar. Agora nada quero possuir. o clamor.1 34 Virginia Woolf selva. E começo a interrogar-me se realmente as histórias existem. A vida tem tantos inte­ resses como cabelos existem numa madeixa . E por que razão haveriam as etapas de terminar? Aonde conduzem? A que conclusão levam? A verdade é que esses momentos da nossa vida surgem envol­ tos em vestes solenes . Imagine­ mos as léguas de terra plana. a his­ tória em que todas essas frases estão contidas . E digo: «Ouça. . a minha mulher. ficava furioso com o crucifixo do reitor. Nem voltarei a bater com a cabeça num candeei­ ro (mas algumas estrelas projetadas pela violência desse choque bri­ lham ainda na noite) . Ao meter a chave na fechadura. porém. Mas a mim um gato basta para me distrair. deixava-me levar por essa familiar liturgia e en­ volvia-me nela como num cobertor quente . ter-me aproximado um pouco mais da verdade . enchi inumeráveis cadernos com frases que utilizarei quando encontrar a verdadeira história. ou a abelha que zumbe em volta do ramo de flores que Lady Hapton mantém apertado contra o nariz . imediatamente vejo um gato de pelo cor de areia roubando um peixe. Agora esse doce véu caiu .» Era por causa disso que Neville. a ativi­ dade .

no meio de tudo .As Ondas 1 35 pormenor desta paisagem . Esta simples impressão visual não está ligada a nenhum raciocínio . por exemplo . Uma barbatana surge . as frases habituais começam a brotar e sinto desejos de abrir a escotilha no alto da minha cabeça para que essas bolhas sejam libertadas e de dirigir-me àquele homem cujas costas me são familiares . disse ele . O grande vaso vermelho é agora uma mancha avermelhada nu­ ma onda de verde e amarelo . uma das minhas vi­ das . E. O próprio Taiti parece possível . Não tenho dúvidas de que nos reconheceremos . Mas reparem como . recomeça a fugir diante de mim como as sebes quando o comboio se põe em marcha. um pormenor? Aqui estou a arrancar uma das minhas peles . à medida que caminho . O mundo começa.» «Tudo está terminado . como quando alguém avista a barbatana de golfinho no horizonte . enquanto avanço . os pontos e os traços se fundem em linhas contínuas . Estes momentos de fuga não devem ser desprezados . «Ela encontrou-o sob a arcada sombria. e tudo o que os meus amigos dizem é: «Ü Bernard está a passar dez dias em Roma. Debruçado neste para­ peito avisto uma grande extensão de água. afastando-se da gaiola onde estava o papagaio de porcelana. incluído e participante .o carro arrastado pela mula .» Aqui estou a passear por este terraço .e descrevê-lo com a maior facilidade . sozinho e desorientado .» Mas porque impor o meu arbitrário desígnio? Porque salientar isto . Mas de que vale descrever um homem que tem problemas com a mula? E também podia inventar histórias sobre a rapariga que sobe as escadas .» Ou apenas : « É tudo . Também eu me movo e começo a interessar-me pela geral sequência das coisas e parece-me inevitável que depois de uma árvore surja um poste de telégrafo e depois uma abertura na sebe . São dema­ siado raros . é melhor esperar um momento . rodeado . como as coisas vão per­ dendo o aspeto nu e desgarrado que tinham quando subi estas esca­ das . Estivemos juntos no colégio . Muitas vezes as impressões visuais transmitem breves manifestações que no futuro seremos capazes de desvendar e de for- . ou as ondas do mar quando o navio avança. surge por si . almoçaremos juntos e conversaremos . Mas é melhor esperar. moldar aquilo e construir figurinhas seme­ lhantes aos brinquedos que certos homens vendem nas ruas ? Por­ que escolher.

Estou enraizada aqui . mais altos que eu . erguendo o olhar do balcão repleto de pregos . mas para mim é solene .1 36 Virginia Woolf mular em palavras . disse Susan . Vou erguer o copo e olhar através do vinho . com a intenção de as utilizar numa comovente descoberta final . digo «minha filha>> . Construí tanques em que os peixes dourados se ocultam sob as grandes folhas dos nenúfares. Agora vou-me embora e almoçarei em qualquer sítio. aquele homem chama-se Larpent. Os gonzos da porta estão enferrujados: rangem quando o meu filho os empurra.» Uma tal observação não tem qualquer sentido . plantada como uma das minhas árvores . As violentas paixões da minha infância. projetando sombras na relva. as raivas na sala de aula que chei­ rava a pinho . Atravessei anos de paz e fecundidade . como o ruído fatal dos mundos que se desmoronam e das águas precipitando-se para a sua destruição . com xailes e um cravo no cabelo . total­ mente inclassificável e aterrorizadora. Por isso anoto na página do B : «Barbatana numa extensão de água. comecemos este novo capítulo e observemos a for­ mação de uma nova gota. a solidão em estranhos países . no meio deste jardim. outrora deitados no seu berço como frutos . Das sementes que lancei à terra vi crescer árvores .foram compensados por esta sensação de segurança. Tratei dos canteiros de morangos e alfaces e cobri com pequenos sacos brancos as peras e as ameixas . atingi o ponto culminante dos meus desejos . escrevi estas palavras a pensar numa noite de inverno . para as proteger das abelhas . Bernard (invoco-te . que passo a vida a cobrir de notas a margem da minha memó­ ria. tinta e arame para cer- . Vi os meus filhos e as minhas filhas . com um alheamento maior do que me é habitual e se uma mulher bela entrar no restaurante e avançar entre as mesas vou dizer para mim mesmo: «Olha como ela chega atravessando a extensão das águas . cinzenta. as lágrimas no jardim quando Jinny beijou Louis . conversavam junto das fontes . e até o dono da loja das ferragens .Nesta tarde quente . . experiência desconhecida.» Eu . estranha. Por isso . onde caminho com meu filho . posse e vida familiar.onde as mulas se aproximavam fazendo ressoar os cascos pontiagudos e as mulheres italianas . romper os invólucros e caminhar a meu lado . companheiro habitual dos meus em­ preendimentos) . Sim. Digo «meu filho» . Possuo tudo o que vejo.

pergunto-me por que fenda poderia a sombra entrar na minha vida. em volta de uma grande mesa. juntando-lhes um cartão em que exprimo a minha dor pelo desaparecimento do pastor. sempre seus . frequentei quartos cuja atmosfe­ ra seria irrespirável para quem não tivesse nascido onde eu nasci e desde muito nova não tivesse sido habituada aos currais . do voo das andorinhas ra­ sando a erva e recordo as frases que Bernard construía quando éramos crianças e as folhas inumeráveis e leves se agitavam sobre as nossas cabeças fragmentando o azul do céu e espalhando sombras e luzes errantes nas raízes das faias onde eu me sentava soluçando . Estou cansada do meu corpo . E todos os anos nos colocamos junto do postigo da janela da sala para medirmos a nossa altura. . como um vidro que se estilhaçasse . acontece lembrar-me do passado . ou a simpatia pela viúva do cocheiro. coroas de flores brancas entrançadas com plantas de folhas prateadas . caveiras e livros que receberam como pré­ mios . a imobilidade da manhã quebrava-se e. de pé entre as minhas flores . das crianças que enchem a casa de remos . Também preparei . respeita o nosso velho carro parado à sua porta. de ser a mãe que reúne sob o olhar ciumento . às vezes sinto-me farta de tanta felicidade natural . para os enterros . pesamos amoras e cogumelos e contamos as nossas tigelas de geleia. com uma tesoura na mão . com as redes para caçar borboletas . Quando chega a primavera. almofadas e cortiços . enquanto verifico se a carne foi arrumada e manejo os sacos prateados de chá e uvas passas . chuvosa e com inesperadas flores amarelas . Lembro-me de como nascia o Sol . da minha energia e das minhas artimanhas . E agora.As Ondas 1 37 cas . dos frutos que amadurecem. Pelo Natal pomos azevinho por cima do relógio . armas . fresca. Vi janelas cobertas de vapor quente e conheço o cheiro das bancas da cozinha. da minha maternal falta de escrúpulos quando se trata de proteger os meus filho s . às galinhas entrando e saindo e a ver uma mãe com dois quartos e os filhos a crescer. E eu saltava e corria atrás das palavras que escapavam. que choque poderia abalar esta obra construída com o meu pacien­ te labor. e sentei-me à cabeceira de mulheres moribundas que me seguravam na mão confessando os últimos terrores. cansada do meu trabalho . Depois . no entanto . aos �ontões de estrume. deslizando de ramo em ramo como o fio de um balão . os seus filhos . E. A pomba levantava voo .

. Agora meço e guardo . com medo que disparassem sobre nós e nos pregassem nas portas como arminhos .Aqui estou . antes de prosseguirem o seu caminho . sento-me na minha poltrona e esten­ do a mão para a costura. À noite . Mas ali está o meu corpo refletido num espe­ lho ! Como está solitário. Corto as folhas mortas das malvas-rosa. Inúmeros automóveis passam e inúme­ ros passos deslizam por cima da minha cabeça. Mas quem virá. nesta estação de metro em que conflui tudo o que é desejável: Piccadilly South Side. Já não participo na procissão . costurando o tecido . Fustigarei os meus próprios flancos . a gemer. procu­ ra o abrigo de uma sombra. mas com os olhos claros . eu pensava. Mas não cederei ao medo . ouço gritos e vejo outras vidas flutuarem como peda­ ços de palha à volta de pilar de uma ponte . aqui de pé . ouço o meu marido roncar. passeio alegremente com os meus filhos . Por um instante . «A vida está à minha volta como o vidro em tomo dos juncos aprisionados . encolhido . À s vezes penso em Percival . de cabelos prematuramente grisalhos . sob a terra. Es­ tou no coração da vida. que me amou . Salvámo-nos . Mas . Milhões de seres humanos morreram. eu . velho ! Já não sou jovem. pisei bolotas apodrecidas e vi a senhora sentada a escrever e os jardineiros com enormes vassouras .1 38 Virginia Woolf pousando os sacos de farinha. enquanto eu empurro a agulha para dentro e para fora. Caiu do cavalo na Índia. Milhões de seres humanos descem todos os dias estas escadas numa fila interminável . Percival morreu . disse Jinny. porque me vi ao . mantenho-me imóvel. Piccadilly North Side. Regent Street e Haymarket. Inquietantes gritos despertam-me no mais fundo da noite . Um pouco gor­ da. trémulo e palpitante . se fizer sinal? Sou um pequeno animal com os flancos agitados pelo medo. olhos em forma de pera. Eu ainda estou viva. Não sou um animalzinho que. Grandes rodas empurram-nos inexoravelmente para baixo . em geral . As grandes avenidas da civilização cruzam-se aqui . que fui a Elverdon. ofegantes . no coração de Londres . Só fraquejei um instante. ergo a cabeça quando as luzes de um carro iluminam as vidraças e sinto que as ondas da vida se erguem e quebram à minha volta como no tronco de uma árvore.» Com a tesoura corto malvas-rosa. atravesso os meus campos . Às vezes penso em Rhoda.

efetuando deliberadamente diante do espelho os leves preparativos de que preciso . É uma procissão triunfal .são os arenosos caminhos da vitória abertos através da selva. pintam e abrem túneis fazendo saltar as rochas . sei que não vou ter medo . os lábios vermelhos e as sobrancelhas finamente traçadas . preparados e seguindo em frente . Como posso fugir em procura de um abrigo se esta gente é tão ma- . Não tardará o momento em que levantarei o braço em vão e a minha echar­ pe cairá sem ter flutuado . avanço para a vitória. por um instante . como sempre faço quando me submeto ao exame do meu olhar. Piccadilly North . É verdade. Os ascensores sobem e descem. Devo confessar que . e o ruído das grandes máquinas empurrando-nos implacavelmente para a frente. Penso nos trabalhos dos homens . de mil cores . Aprovo esta ordem . que param e se põem em marcha. Estas largas avenidas . semelhante à descida compacta e terrível dos mortos para as profundezas da terra.As Ondas 1 39 espelho sem ter tempo de me preparar. em perfeita ordem . Pertenço a este mundo . pontualmente . Não permitem que a terra se mantenha húmida e cheia de vermes . Olharei rostos e verei que eles procuram outros rostos . os com­ boios param e voltam a partir com a regularidade das ondas do mar.Piccadilly Sou­ th . o meu lenço de gaze . Estão tingidas de vermelho . Não ouvirei inesperados suspiros na noite. São melhores que os selvagens com um tecido em volta da cintura e as mulheres desgrenhadas de grandes peitos oscilantes a que as crianças se agarram. o exército vitorioso. o silencioso voo dos corpos d�scendo pela escada-rolante . nem adivinharei na obscuridade alguém que se aproxima. Pen­ so nos homens e nas mulheres equipados . com os meus sapatos de verniz. Mesmo aqui . aplanam. já não sou jovem. debaixo da terra. Regent Street e Haymarket . Há gazes e sedas nas montras iluminadas e roupa interior adornada com milhões de pontos de fino bordado . com bandeiras e águias de bronze e cabeças com coroas de louro ganhas em bata­ lhas . me atemorizou e me fez sentir desejos de fugir em busca de um abrigo. sigo sob a sua bandeira. violeta. Mas agora. de verde . no modo como organizam. Penso nos poderosos e belos automóveis que podem ir a passo ou voar como flechas . existem roupas perpetuamente ilu­ minadas . A minha imagem já não se refletirá nos vidros das janelas ao atravessar túneis sombrios . Também eu . Penso nos magníficos autocarros vermelhos e amarelos .

não somos responsáveis . Que o silencioso exército dos mortos desça às profundezas da terra. em bancos de madeira de vestíbulos atravessados de correntes de ar e com portas sempre a bater. Vou subir à superfície e ficar muito direita e imóvel . Não somos chamados a torturar o próximo com ferros incandescentes e . ao lado dos outros . Louis ou Neville . para o caso de chegar Bernard. em Piccadilly Circus . Mas talvez quem chegue não seja Bernard. Perseguíamo-nos de mangueiras na mão . Estarei com ela se desejar. a inveja. Eu marcho em frente . Já fiz a minha colheita. entre quatro paredes . Vou colocar ao alcance da mão cigarros . Vou mudar a dispo­ sição das cadeiras . Chamarei um táxi com um gesto rápido e a vivacidade do motorista vai mostrar-me que entendeu o meu sinal . O antigo ácido perdeu a sua força. Ainda sinto na rua o frémito dos homens . seguirei adiante . luxuosas e estranhas flores . Perdi também o esplendor. com uma capa de cores vivas . sou capaz de jurar que prefiro esta gente . de grandes caules inclinados . Encherei as jarras com abundantes . unânime . Já não sou jovem. copos e um livro novo . Não somos juízes . É sem qual­ quer emoção que passo diante da casa de Jinny e sorrio para o jovem um tanto nervoso que . semelhante à silenciosa inclinação dos campos de trigo quando uma brisa ligeira os percorre em ondulações douradas . Neville ou Louis . alguém com quem me cruzei nas escadas e a quem murmurei voltando ligei­ ramente a cabeça: «Vem. disse Neville . Irei para casa de táxi . seminus . Olho o mundo sem paixão . pintar de vermelho os lábios e traçar para as sobrance­ lhas um ângulo mais agudo do que é normal . mas um desconhecido . Afinal de contas . .» Esta tarde virá alguém que não conheço . caso contrário . à porta.1 40 Virgínia Woolf ravilhosamente aventureira.Agora já não preciso de me refugiar no quarto . ainda por ler. com mão despreocu­ pada. a amargura e a intriga abandonaram­ -me . diante do fogo . curiosa também. Agora. ajeita o nó da gravata. audaciosa. Porque ainda sou capaz de excitar o zelo . e tem até a força suficiente para parar e gravar na parede . na coberta dos navios . inúmera e indiscrimi­ nada. Quando éramos jovens . Deixemos que este elegante jovem toque a campainha e se encontre com Jinny. sentávamo-nos em qualquer sítio . uma frase cheia de humor? É por isso que vou passar pó de arroz na cara. jorrando do metro ao fim de um dia de trabalho .

No espetáculo procuram o enredo . Não lhes basta esperar o momento em que alguém pronuncie a palavra que deveria estar escrita. É preferível olhar uma rosa ou ler Shakespeare tal como eu o estou a ler. A rapariguinha dança vestida com as roupas da mãe . como Louis . Alguém soluça na escada. entra e volta a sair. Aqui está o bobo. Dizem-nos que lá se pode encontrar a verdade em toda a sua pleni- . As discussões . gritando. Porque procurar uma explicação . As pessoas entram e saem. Toda a poesia está aqui . que cada palavra se transformou numa alavanca capaz de erguer o mundo . . Vejo também as figuras dos conde­ nados . de súbito . ali o vilão e mais além vejo o carro em que vem Cleópatra e mais parece um barco magnífico. o crime e o suicídio . Os homens e as mulheres serviram-se tantas vezes da linguagem para exprimir coisas . Depois deixo a rua. Não somos obrigados a subir a púlpitos e fazer sermões nas pálidas tardes de domingo . num grupo re­ cortado contra o céu . embora não esteja escrita. Não lhes basta ver uma imagem tomar forma através da argila da palavra. aos homens sem nariz encostados ao posto da polícia. desafiando a tempestade e acreditar que o Sol brilha para lá das nuvens sombrias: mas o Sol reflete-se também nos tanques rodeados de salgueiros (estamos em novembro e os po­ bres seguram caixas de fósforos nos dedos repletos de frieiras) .As Ondas 141 tomiquetes. nem reparar. Se as coisas dependessem apenas deste espetáculo. aqui em Shaftesbury. fugir para alguma floresta distante e afastar as folhas do loureiro em busca de estátuas? Dizem-nos que é preciso voar com força. devo dizer­ -lhes que sei que uma simples sala pode conter a morte . a expli­ cação lógica. como Rhoda. Vi os nós formarem-se e ouvi os fios romperem-se e o silencioso bordar da cambraia no colo de uma mulher. entro numa sala e encontro pessoas que falam ou que nem sequer se dão ao trabalho de falar. Não lhes basta esta cena normal e corrente . num inferno de chamas . os risos . Todas as personagens interpretam os seus papéis sem se enga­ narem uma única vez. percorreria eternamente a avenida Shaftesbury. os velhos agravos flutuam no ar tomando-o mais denso . Seguro num livro e leio meia página ao acaso. E mesmo antes de moverem os lábios sei o que vão dizer e espero o momento sublime em que pronunciarão a palavra que deve ser escrita. Mas se é a violência que procuram. É então que um espírito austero e atormentado . Ainda não con­ sertaram o bule. Rhoda ou talvez Louis. ou .

as palavras fazem parte de um poema que poderia ter sido escrito . debru­ ça-se da janela do sótão e olha o local onde Rhoda desapareceu sobre os telhados arruinados . nem o ponto e vírgula. Alguns versos são excessivamente longos. Devemos ser céticos . À s vezes é preciso chorar. Louis . outras afastar implacavelmente a fuligem e todo o género de excrescências . entre máquinas de escrever e telefones e trabalhar no meio disso tudo para nos ins­ truir. Não sinto necessidade de falar. Posso . rasgada e colada com ajuda de folhas secas e fragmentos de verbena e gerânio . de pes­ coço estendido e olhar alucinado . noutras a de um forno . Para ler este poeta é preci­ so possuir miríades de olhos . regenerar e reformar o mundo que há de vir. Estou maravilho­ samente atento . Para ler este poeta é necessário pôr de lado ódios e ciúmes e. Nada devemos rejeitar por hor­ ror ou medo .1 42 Virginia Woolf tude e que a virtude que aqui se arrasta por sórdidas ruelas pode ser lá vista em toda a perfeição . sobretudo . É preciso ter paciência e infinitas cautelas e deixar que se difundam os sons mais leves . quando apenas um rasto de algas flutua à superfície e subitamente as ondas se abrem para deixar emergir o monstro . Rhoda foge para longe de nós . de . não o interromper. Mas depois tem de sentar-se . Umas vezes tem a aparência de uma cúpula. e com isso fazer um poema. Às vezes a página está suja de lama. A simples contemplação do fogo seria suficiente para me fazer eternamente feliz . Aproximo-me da estante dos livros . as patas da aranha delicadamente pousadas numa folha. O poeta que escreveu esta página (a que leio enquanto as outras pessoas falam) não é perfeito . E é assim (enquanto eles continuam a conversar) que deixo a rede baixar cada vez mais . nesta sala onde entrei sem bater. para em seguida a puxar cautelosamente e trazer à superfície o que estes homens e estas mulheres disseram. Mas agora. É verdade que este poeta não é fácil de ler. outros completamente absurdos . Agora uma acha de lenha assume a forma de um cadafalso . mas também saber prescindir de todas as cautelas e aceitar o que surge quando a porta se abre . Não sabe usar a vírgula. ou a água que gorgoleja na mais insignificante das torneiras . ler meia página de qualquer coisa. como os faróis que à noite giram na agitada extensão dos mares . se o desejar. Mas escuto . Já partiram e agora estou só . Ouvi as suas conversas . agora tão opulento .

Quando entro no escritório . Penduro o casaco e_ pouso a bengala . uma árvore tomba. São estes os ruídos de uma noite em Londres . com os seus distraídos olhos cor de caracol . dois automóveis . da vulgaridade da pequena atriz minha amante . todos os jovens empregados reparam em mim. É o som de passos que sobem. Um poema basta. Mas ainda regresso às vezes ao meu quarto do sótão . das minhas polainas e também. Abro um pequeno livro . O globo terres­ tre foi unido pelas nossas linhas de navegação . contemplando as chaminés e os vidros quebrados das janelas pobres . Nem Rhoda. . vento oeste . .Regresso do escritório . Oh vento oeste. Ouço depois o único som de que estou à espera. . Lá fora os ramos fustigam o ar e . Sou um homem extre­ mamente considerado . O fruto bordado na cortina amadurece no bico do papagaio . Senta-te a meu lado . és o inimigo mortal da minha mesa de mogno . que nunca conseguiu pronunciar corretamente o inglês . Agora posso jantar onde quiser e .As Ondas 1 43 um poço . dizer que em breve poderei comprar uma casa no Surrey. O crepitar do fogo é como o ruído dos insetos na floresta. como uma salva de tiros .» E depois . uma estufa de plantas e algumas espécies raras de melões . . de súbito . Sentei-me à direita de um diretor.gosto de imaginar que Richelieu usava uma igual . quando virás . quando chegas à luz das estrelas ou à hora mais prosaica do meio-dia. . sem vaidade . . .» . Oh vento oeste . Fico de pé junto da janela. disse Louis . Chega-te para mais perto de mim. Pendu­ ro o chapéu e retomo solitariamente a tentativa que faço desde que bati com o punho na porta de carvalho do meu professor. te poderá destruir. As paredes estavam decoradas de mapas que têm assinalados numerosos e bem-sucedidos empreen­ dimentos. Assim me despojo das insígnias da minha autoridade . se aproximam e hesitam diante da minha porta: «Entra. grito: «Vem . numa mesa envernizada. Oh vento oeste . Senta-te na beira da poltrona. . arrastado por uma alucinação antiga. Com os nossos barcos enlaçamos o mundo . Leio um poema. ai de mim. ou de um alegre vale . Agora é uma serpente escarlate en­ rolada em escamas de prata. com a sua intensa abstração .

Tentei arrancar a pedra alojada na carne viva. em procurar reunir os fios frágeis . fui capaz de bater com o punho na porta de carvalho . Desço por tortuosos caminhos no interior da terra. Com o meu sotaque australiano . espessos . os resistentes fios da longa história humana. quando virás fazer a chuva miúda cair sobre a cidade ? Como definir o meu destino . os gatos furtivos e as claraboias . como um carcereiro caminhando de cela em cela. Teria sido mais feliz se tivesse nascido sem destino . Tenho-me entregue a um trabalho colossal . a luz que brilha na superfície de um diamante . dos nossos dias tumultuosos e variados . Mas a única coisa que esta amante me deixa é a sua roupa interior espalhada pelo quarto. com uma lamparina na mão . apesar de ter es­ colhido para amante uma pequena atriz que me deixa sentir à vonta­ de com o seu sotaque suburbano . a quem admirava tanto . sonhei com o Nilo. com as suas chaminés . Não sou um ser isolado e efémero . O meu destino consistiu em recordar. ou como Percival . Oh vento de oeste. sem esquecer as minhas severas convicções e as contradições e incoerên­ cias que é preciso resolver. um erro para corrigir.1 44 Virginia Woolf Oh vento oeste. as telhas soltas . do sentimento de ser envolvido em longos verões que amadurecem o trigo e em invernos que gelam os ribeiros . como Susan . Há sempre qualquer coisa de novo para compreender. recusei-me a despertar. Quase não conheci a felicidade das coisas simples . . e a mulher da limpeza e os miúdos que me batem constantemente à porta riem-se da minha aparência afetada e desdenhosa. foram sempre maiores que o dos outros . . quando virás . dirigido uma equipa violenta. frequentei restaurantes e procurei conquistar a simpatia dos empregados de escritório . Sou como uma ventosa. no entanto . quando virás fazer a chuva miúda cair sobre a cidade ? Viver tem sido terrível para mim. uma dissonância para resolver. indisciplinada e corrupta. quebrados . A minha vida não é a centelha de um momento . Oh vento de oeste. a pirâmide que durante anos pesou sobre os meus ombros? O meu destino é feito das recordações do Nilo e de mulheres transportando ânforas na cabeça. e. Criança. o meu fardo . uma grande boca insaciável . A minha tarefa. Os telhados estão quebrados e cheios de fuligem. Carrego uma pirâmide sobre os ombros .

. Oh vento de oeste. rodeado do respeito de todos e atravessando a cidade com uma bengala de punho dourado . Rhoda afastou-se como o vento escaldante do deserto . . que era capaz de escrever um poema de uma só página e que morria logo a seguir. Rhoda deixou-me . Cor­ romperam-me e mancharam-me . enquanto escalo esta montanha no cimo da qual verei a África. Rhoda que se afastava quando o rebanho se reunia e galopava os dorsos lustrosos pelos campos . olhando-se ! Agora. Caminho entre vidros estilhaçados e pedaços de telhas e só vejo em volta rostos vis e esfomeados . Rhoda. Suponhamos que conseguia extrair um sentido de tudo isto . quando virás fazer a chuva miúda cair sobre a cidade ? Oh meu Deus! Se eu estivesse de novo deitado segurando nos braços a minha amada! Regresso ao meu livro .Oh . com quem partilhava o silêncio no meio das palavras dos outros . Ninguém tinha a coragem de ser qualquer coisa de definido .As Ondas 1 45 dos sótãos. Percival morreu . vida como te receei . Mas continuarei a viver para me converter num ser ressequido. Oh vento de oeste. quando os velhos chegam com bengalas e trespassam pedaços de papel como nós trespassávamos os sentimentos de Rhoda. ainda guardo na memória os vossos rostos e a recordação de pacotes embrulhados em papel pardo . como me pareceram horríveis em Oxford Street e ignóbeis quando se sentavam no metro uns dian­ te dos outros . disse Rhoda. Mas talvez nunca morra e não alcance sequer essa continuidade e permanência que a morte dá. quando virás fazer a chuva miúda cair sobre a cidade Percival era uma árvore de ramos floridos e foi colocado sob a terra com . E todos os dias a vida nos exigia a corrupção mais completa da alma.os ramos murmurando ainda ao vento estival . sem uma só pluma azul no chapéu . Penso nela também quando as folhas mortas rangem no chão. Faço uma nova tentativa. E como cheiravam mal quando fa­ ziam filas na rua para comprar bilhetes ! Todos estavam vestidos com indefinidos tons de cinza e castanho . Quando o sol faz estalar os telhados da cidade . e como odiei os seres humanos ! Como sofri com os vossos acenos e as vossas palavras que interrompiam os meus pensamentos . penso em Rhoda. Posso garantir-vos que morreria sem me lamentar.

Lancei o meu ramo de flores na onda que se desfazia na praia. através das pétalas das rosas e as folhas de videira. leva-me ao mais longínquo de todos os limites. eu também usava. Desejei ver o armário vacilar. Aproxima­ va-me delas furtivamente para ler as etiquetas e imaginar nomes e rostos . E apesar disso cedi . afastei os ramos da música e olhei a casa que tínhamos construído. Olhei Oxford Street. Mas . com as cintilações do meu espírito . fui a Greenwich. sentir a cama amaciar-se sob o meu peso e flutuar. disse . Implorei ao dia que se transformasse em noite .» A onda refluiu . Mas só o nome das coisas me atraía. «Con­ some-me . onde a vegetação não existe e apenas se avistam colunas de mármore . Recusei-me a sair para a rua e quebrei uma garrafa no chão para manifestar a minha fúria. a uma cadei­ ra e sentaram-se diante de mim. lutando com os ombros dos outros passageiros do autocarro no dia em que soube que Percival morreu. Se Susan e Jinny usavam as meias de um determinado modo . E. «A casa que tem todas as coisas» . numa sala de concertos. mil reverências . Arrancaram os espaços brancos que estavam entre as horas . Olhei a vida através das pétalas das rosas e das folhas de videira. Harrogate ou talvez Edimburgo resplandeciam por uma rapa­ riga. o quadrado estava colocado so­ bre o retângulo . ter pisado as suas ruas . apesar disso . A vida era tão terrível que entrepunha entre mim e ela mil biombos .1 46 Virginia Woolf mil mentiras . Fazia o que os outros faziam. Havia malas nos corredores quando as aulas terminavam. Só raramente penso em Percival . Tentei dis­ simular o aço da lâmina com peles e lãs . Deixei Louis. Tenho medo dos abraços . cujo nome esqueci . O ramo murchou . sonhando galopar eternamente nos limites do mundo. colocando a mão diante da boca para esconder os risos de troça e os bocejos . Caminhei ao longo do cais . ver as árvores e os rostos alte­ rados pela distância e uma mancha verde nas terras pantanosas onde duas pessoas desesperadas se dissessem adeus . fizeram delas migalhas e lançaram-nos com as mãos sujas para o caixote do lixo . Piccadilly e todas as ruas de Londres . . Desejei dilatar a noite para a encher de sonhos . Semeei palavras co­ mo o camponês semeia o grão no campo lavrado . Tremendo de ardor. Foi então que. disputas e o mais completo servilis­ mo ! Prenderam-me a um ponto do espaço . no entanto . esses espaços eram a minha vida. a uma hora. pedi . fiz o possível por não mostrar a minha surpresa.

Uma onda há de arrastar-me . agonizan­ te . outra vai erguer-me no seu agitado dorso .As Ondas 1 47 Agora escalo esta montanha em terras de Espanha. bem no cimo de tudo . os bons-dias e os espinheiros da cor do luar. apenas flores . Pouso um pé no chão . A bondosa mulher com rosto de cavalo branco que está junto da cama faz um gesto de des­ pedida e volta-se disposta a partir. no entanto . Lá em baixo brilham as luzes dos barcos de pesca. revolvi entre os dedos um velho osso abando­ nado e pensei: . . À s vezes co­ lho um cravo vermelho ou um punhado de feno perdido . Com elas farei um ramo e uma grinalda. talvez só encontre um punhado de pó . Sob a pressão do meu corpo desaparecem as saliências do colchão . mas quando lá chegar verei a África. E . envolto em neblina. Vou imaginar que o dorso desta mula é o meu leito e que nele me deito . Podemos cair e pousar sobre as ondas . Não vejo nada. Atravesso os lençóis queimados . mas a quem a oferecer? Agora aventuramo-nos sobre os precipícios . Naveguei nas águas da beleza à hora do crepúsculo . quando as colinas se fecham como asas dobradas de pássaros . . O meu caminho foi sempre a subir em direção a alguma árvore solitária erguida junto de um tanque . Avan­ çamos aos tropeções . esta árvore tem ramos espinhosos e o telhado de uma cabana desenha uma linha nítida contra o céu . repletos de orifícios amarelos . Estas coisas re­ dondas pintadas de vermelho e amarelo são rostos . Em nada toco . As pétalas brancas ficarão obscureci­ das pelas águas do mar. Depois tudo desabará como uma gigantesca catarata em que me dissolvo .quando o vento soprar sobre estas colinas . O mar ressoará como um tambor nos meus ouvidos . Quem me acompanhará? Flores . Agora a cama cede sob o meu corpo . diante de mim. Os rochedos desapareceram . . dou um passo cauteloso e com a palma da mão bato na dura porta de uma pousada espanhola. O cimo da colina ergue-se . Só um ténue farrapo me separa das profundezas sem fim . A mula tropeça avançando sempre . Deitei-me sozinha sobre a erva. Inumeráveis ondas cinzentas desdobram-se aos nossos pés . Flutuarão um instante antes de se afundarem.

O fumo dos comboios e das chaminés subia no ar e desfazia-se. Agora. O trigo jáfora ceifado . Uma brisa ergueu-se. quando a árvore se moveu. só restava aqui e ali o restolho cintilante. perdendo a forma de cúpula . O falcão pousado no ramo mais alto bateu as pálpebras. Nenhum rosto hirsuto fitava a sua imagem. fugindo. traçando círculos e gritando cada vez mais longe. um frémito percorreu as folhas que perde­ ram a sua compacta cor castanha. Lentamente. Cintilações luminosas erravam no espaço como sinais de ilhas que se afundavam ou dardos lançados através das folhas de um loureiro por rapazes sorridentes e desavergonhados . na solidão . um muro de pedras cinzentas que nenhuma luz poderia atravessar. tornando-se cinzentas ou bran­ cas. Um pássaro pousado num ramo cinzento bebeu um sorvo de água fria. O charco no meio das terras pantanosas repousava sem vida. Mas as ondas revestiam-se de claridade quando se aproximavam da praia e desfa­ ziam-se com um ruído prolongado e surdo. mas apenas o ela- . elevou-se nos ares e ficou a planar ao longe . O dia estilhaçara-se como uma pedra dura e a luz derramava-se pelas suas fendas . nem ruídos de rodas. nenhum casco chapinhava nele. A tarambola silvestre gemeu nas ter­ ras pantanosas. Como rápidas flechas emplumadas de trevas. uma enorme coruja pousada no olmo balouçou-se e elevou-se numa sucessão de curvas até ao cimo do cedro . Não havia sons de colheitas.O Sol baixava no horizonte . os raios vermelhos e dourados trespassavam as ondas . nenhum focinho quente agitava as suas águas. convertendo-se em parte do dossel que parecia pairar sobre o mar e os campos . das suas ondulações. como o de um muro de­ sabando. Sombras lentas alargavam-se ou estreitavam-se ao passar sobre as colinas .

as árvores erguiam-se como obeliscos . difuso e sem calor. mais maciços. como se estivesse repleta de mexilhões . Subsistia ape­ nas a sombra líquida de uma nuvem. os copos e os garfos davam a ilusão de ser mais lon­ gos. Duplicados pelas próprias sombras os objetos pareciam mais pesa­ dos. . esses obstáculos tão frágeis como as conchas dos caracóis . A água em volta do velho barco era negra. adquirindo um aspeto majestoso . O horizonte estava tão distante que já se não podiam ver os telha­ dos brilhantes e as janelas cintilantes . As rochas perdiam a sua dureza . brilhando como um ramo polido pelo mar. A árvore que na primavera se recobrira de reflexos vermelhos e no verão deixava as folhas ondularem ao vento sul estava agora negra e nua como o ferro . Um osso jazia no solo. Entretanto. A espuma tornara-se lívida e. Nas colinas distan­ tes. aqui e ali. O sol do entardecer. deixava bran­ cas cintilações de pérola na praia envolta em bruma . como se a cor tivesse escorrido obliquamente para um dos la­ dos . as sombras alongavam-se sobre a praia e a escuridão aumentava . de um negro cor de ferro. O velho sapato. o ruído da chuva. As facas. era agora uma sombria mancha de azul. o espelho parecia olhar a cena como se a qui­ sesse fixar para a eternidade . dava suavidade às cadei­ ras e às mesas e marcava-as com losangos castanhos e amarelos . gasto pela chuva e esbranquiçado pelo sol. A terrível densidade da terra envolta em sombras tinha absorvido esses frágeis grilhões. um isolado raio de sol ou a brusca aparição da tempestade .As Ondas 1 49 mor do vento enchendo as velas e varrendo as ervas . Debruado no seu círculo dourado.

uma uma no inverno. Rhoda. Ainda não me viram. Hampton Court. Já se encontraram. Eles já ali estão . Agora Rhoda avista­ -me mas . Essa perspetiva desagrada-me . uma outra configuração das coisas . E sinto-me invadido por uma grande agita­ ção . Aproximo-me . De súbito Neville volta-se na minha direção . tal é o seu medo da emoção provocada pelos encontros. logo que me reúna a eles . Nada pode evitar (preciso tomar nota disso) a emoção dos encontros . Aceno-lhe e penso: «também eu sequei flores entre as páginas dos sonetos de Shakespeare» . Dentro de um instante . a confusa abundância de recordações. vai surgir uma nova ordem. Louis . . disse Bernard. barcos .. Tudo isso flutua à superfície das águas onde o passado está agora profundamente imerso . velhas senhoras segurando as saias . O meu frágil barco balança inseguro nas ondas encapeladas .Susan. É este o local do nosso encontro. Aqui estão as chaminés em tijolo vermelho e os edifí­ cios quadrados de Hampton Court. Há dez ou quinze anos teria dito Hampton Court em tom interrogativo . Sou arrastado para a frente pela atração de íman que o grupo exerce sobre mim. O modo como digo «Hampton Court» mostra que já sou um homem de meia-idade . Jinny e Neville . que não me reconhece . entardeceres de verão . ressoam so­ noras e graves e as recordações surgem. Ainda estou a cinquenta jardas de distância e já começo a sentir que a estrutura do meu ser se modifica. O que agora cresce a esmo .parados à porta da pousada que é o nosso local de encontro . Como será? Terá lagos e labirintos? Ou então em tom de expectativa: «Que me irá acon­ tecer? Quem irei encontrar?» Agora digo «Hampton Court. em breve será comparado e fi­ xado . o passado . narcisos silvestres em março . Hampton Court» e as palavras ressoam como um gongo no espaço que com tanto trabalho abri com a ajuda de telefonemas e postais .Hampton Court.

em tomo desta mesa estreita. Mas que resta então . o som das palmas não os alcançou . aqui sentados uns ao lado dos outros . semelhante ao que um homem faz num campo vazio . de cujas janelas se avista um parque . que sentimos? Tristeza. se não posso tirar as minhas credenciais e lê-las em voz alta para vos provar que fui aceite? A única coisa que permanece é o que Susan revela com o ácido dos seus olhos verdes . Fui aprovado . como convém a velhos amigos que tiveram imenso trabalho para se reunirem. à medida que entramos na pousada arrastando os pés e retiramos os chapéus e os casacos .As Ondas 151 E é também incómodo juntar arestas desiguais e sensíveis . Susan . alguém cuja identidade sentimos desejo de . batendo as palmas para afastar as gralhas . Mas até esse frágil som desapareceu sob o olhar de Susan . Sentamo-nos em volta da mesa. há sempre alguém que se recusa a ser submergido. sem quaisquer rodeios . Alijemos essa carga ! Perguntamos uns aos outros o que fizemos com as nossas vidas . disse Neville . o demonstrativo clamor de que fui aprovado . talvez o de uma cotovia embriagada. Percival nunca mais estará connosco . . é que o encontro se vai tomando agradável .Agora. E todos carregamos os nossos fardos . Antes de partirmos os pãezinhos e nos servirmos de peixe e salada. ainda não sufi­ cientemente sombrias para servir de abrigo aos corpos abraçados? Não. Mas os teus olhos . Atingimos o meio da vida e o seu peso depositou-se sobre os nossos ombros . tateio nos bolsos em busca das credenciais que trago sempre comigo para provar a minha superioridade . uma extensão verde onde per­ siste a luminosidade fantástica do pôr do sol e as árvores parecem separadas por faixas douradas . Bernard? Susan? Rhoda? E Louis? As listas foram afixadas na porta. emitem agora apenas um fraco murmú­ rio . e ouço apenas o vento correndo as terras lavra­ das e um canto de ave . Tenho nos meus bolsos papéis que o demonstram. os seus cristalinos olhos em forma de pera. A porta não se abrirá. Quando nos reunimos e são ainda visíveis os nossos desencontros . E estes papéis que trago nos bolsos . Estamos agora na enorme sala de jantar de paredes nuas . repletos de campos de trigo . perturbam-me . só pou­ co a pouco . O em­ pregado já terá ouvido falar de mim? Conhecer-me-ão esses eternos e furtivos amantes que olham as árvores dos jardins . o que é que sentimos? O que sentimos antes da primeira emoção do nosso encontro se desvanecer? Sinceramente .

o homem que bate nas polainas com o chicote com que aponta uma vaca estéril . Que nos importa que a solidez seja destruída? Não sentimos o dese­ jo de posse . todos diferentes entre si . é esse o caso de Susan. O hábito cega-te .quero vencer a tua hostilidade . Mas não quero ferir-te . quando nos reuni­ mos com Percival num restaurante de Londres . Outrora.gru­ nhe . A neve . O gelo faz rebentar os canos . Neste momento . Já não é pos­ sível mudar. leio neles as particularidades de cada amor.152 Virginia Woolf esmagar. quando me volto para trás . silenciosa e cinzenta. Se é inverno . Ouve-me Susan . A essa hora a tua relação com os outros é muda. Ou então contemplamos a silhueta esquelética de uma igreja através de uma fila de jovens árvores . que vacilou quando surgiste . o teu marido . a banheira esmaltada. a neve cai em flocos sobre o telhado e ficamos encerrados numa caverna vermelha.em- . Desconheço a rotina. Colocamos uma banheira esmaltada a meio do quarto . Lemos o Times. (Elejo ao acaso as coisas mais banais . Se é verão . Falo para impressionar Susan . É uma experiência nova. Cada dia encerra os seus perigos . Tu nada dizes ou vês . até a fruta bordada nas cortinas parece amadurecer para que os papagaios a possam debicar: podemos arrancá-la com uma sim­ ples pressão dos dedos . as mãos ásperas e outros atributos do teu esplendor maternal . os teus olhos ver­ des fixados em mim .) Cada visão é um arabesco traçado de impro­ viso para ilustrar as surpresas e maravilhas da intimidade . passeamos na margem de um lago contem­ plando os gansos que se bamboleiam nas patas espalmadas ao apro­ ximarem-se da água. Corremos atabalhoadamente em busca de mais reci­ pientes . estamos por dentro repletos de vértebras . Quando alguém que amo chega a minha casa à hora do pequeno­ -almoço . tudo se perturbava e agitava. os gansos são sinais suspen­ sos no espaço e quando os recordo. Só pretendo restau­ rar a confiança em mim. Estamos comprometidos . o teu vestido desbotado . Repara ! O cano rebentou outra vez mesmo por cima da es­ tante dos livros. rosa e opalino . Suaves à superfície . Entretanto tu . O fino e desnatado leite da manhã toma-se azul . podíamos ter sido qualquer coisa.estiveste presa como uma lapa à mesma rocha. como as serpentes enroscadas . Gritamos e rimos às gargalhadas diante do desastre . A essa hora. Agora escolhemos . para mim. As minhas são variadas e ardentes . os tubos rebentados . ou discutimos sobre uma coisa qualquer.

Diante dos meus olhos abre-se � m livro . Mas num certo momento conhecemos o êxtase . não vês mais que uma polegada de carne . Quando estás afundado na poltrona. o fluxo lento ou rápido do seu sangue . Vistas através da tua carne pálida e flácida. em companhia de uma só pessoa. disse Susan . apenas um pouco gasta ao meio (neste momento lutamos como os animais nos campos . os nervos e as fibras . um cavalo no campo . e a brutalidade com que em seguida os rompe . mas não tem nome . corretamen­ te . E é quase impossível distinguir essa rede daquilo que ela envolve . e tudo isso é tão subtil que possui aroma. É capaz de levantar monstros e alvas medusas . É isso que vejo e compreendo . Estou perturbado e ferido pela marca dos rostos . embora não te conceda im­ portância para poder ser eu própria.Havia um bosque de faias . Co­ nheço os caminhos tortuosos ern que o amor contraria o amor. Neville . sou apenas «Neville» . no entanto . quando olháva­ mos a porta à espera que se abrisse para dar entrada a Percival . os abismos . como cervos entrechocando as armações) . aqui e ali . A lâmina está limpa. quero que olhes a minha mão pousada na mesa. E . Elvedon e o rosto dou­ rado do relógio cintilando entre as árvores . Sei como o amor se transforma em chamas e que o ciúme lança. Tenho sido dilacerado . Eu escolhi . Colhi a vida não pelo exterior mas pelo interior. As pombas deslizavam através das folhas . variáveis e errantes . percorriam-me o corpo e fugiam. Sei como o amor tece os seus fios. Vejo o fundo . textura e substância. cor. . mas nada de inteiro ou comple­ to . nas minhas fibras nuas . como um instrumento nas mãos de um bom operário . Não vês uma casa num jardim. Ou quando corríamos para um banco de madeira. numa sala do colégio . uma rede de fios que secretamente envolvem o mundo . até as ma­ çãs e os montes de fruta possuem o aspeto turvo das coisas encerra­ das numa redoma de vidro . brancas e desprotegidas . dos espíritos e das coisas . uma cidade . um par de pinças segurou-nos pelo pescoço . Repara na cor saudável que tenho nas juntas da palma da mão . tudo o que é amorfo e errante . que veem os estreitos limites da minha vida e a linha que ela não pode ultrapassar. mas de uma pessoa que vai mudando . O meu corpo foi utilizado todos os dias . Tenho sido tecido . o coração . Mas para mim próprio sou incomensurável . As luzes . afiada. os seus raios verdes . Para vocês .As Ondas 153 hora às vezes pareça que foram outros que escolheram por nós .

as suas torres e ameias . Temos de saltar como peixes . como as crianças que procuram presentes num embrulho . po­ rém. Mas eu observo a vida em blocos .Outrora era diferente . a saudação de velhos amigos . ou como uma ilha adelgaçada onde nunca ninguém desembarcou . Estou prisioneiro do lugar que ocupa neste puu}e . As coisas permanecem quadradas . Penso de modo mais desinteressado do que quando era jovem e precisava de escavar furiosamente . porque estás curvado como uma velha que força a vista a fazer bordado . para me descobrir a . Vivo num lugar construído desde tempos imemoriais segundo um modelo hereditário . disse Rhoda. tal como os cervos . asas de mariposa de um cinzento prateado . fábricas e gasómetros .o corpo deste ho­ mem entrado nos anos a quem chamam Bernard . Quantos telefonemas e postais não foram neces­ sários para abrir este espaço em que nos encontramos em Hampton Court ! Com que rapidez se escoa a vida entre janeiro e dezembro ! Todos somos arrastados pela corrente das coisas que se tomaram.Já desapareceu o fundo dourado atrás das árvores . . Podíamos interromper fa­ cilmente a corrente . a vossa brandura faz atrito nas minhas rugosidades e o jato verde dos meus olhos límpidos quebra o trémulo voo das palavras . Mas gosto de acreditar que só o meu corpo . longa como a lâmina de uma faca vista em sonhos . . proeminentes e firmes na minha memória. já entrechocamos as armações . É um prelúdio indispensável . Sei agora que não embarcarei para as ilhas dos mares do Sul .1 54 Virginia Woolf que se alonga na distância. para apanhar o comboio que sai de Waterloo. Os troncos das árvores tomam-se mais largos e obscenos quando os amantes os procuram. Mas por mais alto que saltemos aca­ bamos sempre por cair na corrente. Poucas vezes penso em mim ou em vocês e é essa inconsciência que me permite escapar aos atritos da vida e afastar as ervas más que crescem à entrada dos canais submersos . disse Bernard .tem o destino irremediavelmente traçado . Não sou suave nem sinuo­ sa. Roma é o limite das minhas viagens . de um modo substancial e sólido. Os automóveis começam a acender os faróis na aveni­ da e os amantes já podem deslizar para a escuridão . estou sentada no meio de vocês . tão familiares que já não projetam quaisquer sombras . Já não fazemos comparações . Tenho filhos . Agora vê-se uma extensão verde . Agora. muito acima da superfície das águas .

As frases envolvem-me como palha húmida. . Não sou uma autoridade em matéria de leis . resplandeço» . Sou um peregrino . não sou tão desprovido de rigor como vocês pensam. cada um de vocês pensa: «estou iluminado . como as roupas num armário . . Vou de casa em casa como os monges da Idade Média que distraíam viúvas e donzelas com rosários e baladas . medicina ou fi­ nanças . E. aceito o melhor quarto e durmo sob um dossel . enquanto as frases borbulhavam nos meus lábios e estávamos sentados . para me dedicar a traçar linhas de demarcação a tinta vermelha. ou para tirar do meu bolso como as credenciais de Neville . um ven­ dedor ambulante pagando a hospedagem com uma canção . Mas agora já sei o que está dentro dos embrulhos e não lhe concedo muita importância. De qualquer coisa faço brincadeiras . nua e reluzente . essa é boa» . Mãos que acenam. outras durmo num palheiro . Suspira. Uma rapariga está sentada à entrada de uma cabana. É por isso que as minhas frases se man­ têm suspensas . brilho . A sua mulher passando os dedos pelas ondas da cabeleira ainda abundante . Uma frase imperfeita. um convi­ dado pouco exigente que facilmente se contenta. Sou demasiado cons­ ciente da brevidade da vida e da sua complexidade . Muitas vezes . A solidão destrói-me . na terra lavrada. alguém que lança um cigarro na valeta. Mas é fácil desviarem o golpe . A rapariga espera.As Ondas 1 55 mim próprio . densa. Sou muito tolerante . Mas agora elanguesço na solidão. etc . sob os olmos junto do campo de jogos . no entanto . Escondo na manga um pequeno punhal de desprezo e severidade . As pulgas não me incomodam e também não me queixo das sedas . do mesmo modo que um cam­ ponês semeia punhados de grão . Quem espera ela? Terá sido seduzida? O reitor vê um buraco no tapete. Nada tenho de moralista. Uma frase . E quando falo. sinto-me recoberto de uma estranha fosforescência. Também eles se evadiam com as minhas frases . Mas que são afinal as frases? Deixaram-me muito poucas coisas para colocar na mesa ao lado das mãos de Susan . aguardando que alguém . outras tantas histórias . Invento histó­ rias . reflete. Mas qual é a verdadeira? Não sei . pessoas que hesitam nas esquinas das ruas . No colégio os rapazi­ nhos costumavam dizer «essa é boa. ao julgarem-me pela fa­ cilidade com que falo . Lanço os meus pensamentos pelo ar. repara nisto ! » «E isso o que é? Será um bom presente? É só isto?» E assim por diante . que se dispersam em leque contra o fundo vermelho do ocaso . «Olha.

O vosso riso . rompe-se . . as folhas trémulas e os jovens em flanela branca que chegam do rio com almofadas debaixo dos braços . as minhas faces encovadas e o meu cenho invariavelmente carregado . Mas Louis . . este momento do crepúsculo . Jinny rompeu-o há muitos anos quando me beijou no jardim. Caminho entre telhas quebradas e estilhaços de vidro . das migrações e das conquistas. o canto do rouxi­ nol que se eleva no meio do tropel das multidões em marcha. vivo desligado da vida. Qual é a solução? Onde está a ponte? Como será possível unir estas deslumbrantes aparições que dançam diante dos meus olhos? É nisso que reflito . Serei afastado . As luzes múltiplas dão às coisas mais banais o estranho aspe­ to das peles de leopardo . Mas peço-lhes que observem também a minha bengala e o meu colete . Mas imediatamente o significado se desva­ necia numa sensação de angústia. o severo Louis de olhos loucos . Agora uso um colete bran­ co e consulto a minha agenda antes de marcar um encontro . Os meninos convencidos riam-se de mim no colégio . enquanto vocês observam mali­ ciosamente os meus lábios cerrados .1 56 Virginia Woolf as vista. e nesse instante alguém me puxava para o lado . está para mim ensombrecido pela existência das masmorras . nas minhas meditações. Ocupado nessa espera. das torturas e das infâmias que ho­ mens infligem a outros homens . acreditem . É este o modo astuto e distante com que espero desviar a vossa atenção da minha alma tema. Os meus sentidos são tão imperfei­ tos que não conseguem iludir sob nenhum esplendor as graves acu­ sações que a minha razão acumula contra nós . trémula e infinitamente jovem e des- . «Encontrei o significado das coisas» . Os nossos navios adquiriram uma invejável reputação devido ao luxo das suas cabines . A minha filosofia acumula-se e espalha-se em todas as direções como o mercúrio. Têm piscinas e ginásios . mesmo agora que estamos aqui sentados . chegou no seu sótão e no seu escritório a conclusões definitivas sobre a verdadeira natureza do conhecimento.O fio que me esforço por tecer. disse Louis . Este momento de reconciliação em que nos encontramos reunidos . Herdei uma escrivaninha de mogno maciço numa sala de paredes decoradas com mapas . com o seu vi­ nho . e no meu ca­ derno de notas . «Ouçam» digo . . a vossa indiferença e também a vossa beleza rompem-no . por causa do meu sotaque australiano e rompiam o fio . dizia para mim mesmo . como se afasta uma abelha do girassol.

A minha beleza é feita de substância. o meu pai percorreu cer­ tamente o mar. Condeno-vos . Esta echarpe. Não estou só . As vossas pequenas emoções . Este homem examina o casco de um cavalo . nas ruas . Convosco atravessa­ ria as fogueiras da morte . este copo. contudo . As suas visões não são finamente tecidas nem têm a alva pureza das de Louis . esta flor. a infinita variedade das roupas femininas (costumo observá-las todas) . não mitigo a minha beleza com toda a espécie de precauções mesquinhas com receio que ela me queime . de carne . o que caminha à frente cheio de confian­ te expectativa. o que mais in­ genuamente se surpreende . mas que para a cheirar um tronco de uma árvore ou fare- . A minha imaginação é corporal .As Ondas 1 57 protegida. A beleza triste dos seus telhados causa-me repulsa. Gosto da chuva quando se converte em neve . parecem-me semelhantes às fitas de seda com que se provoca a carga do touro . com gatos que roçam as costas magras pelas chaminés decrépitas . Não gosto dos seus gatos magros nem das suas chaminés decrépitas . nos vestíbulos. entrando e saindo . Regozijo-me com o luxo das minhas roupas de ouro e púrpura.Vejo o que está diante de mim. este frasco com mostarda. estas manchas cor de vinho. chapéus de coco e camisas de ténis elegantemente abertas no pescoço . Mas o meu coração anseia pela vossa presença. por toda a parte . vidros quebrados e o dolente tocar dos sinos no campanário de uma pobre igreja. O que me agrada são os homens e as mulheres em uniforme . Acompanho-os por todo o lado . nas salas . porque continuo a ser o mais jovem . A minha mãe deve ter seguido o som dos tambores . E . Sim. mas prefiro a paisagem sobre os telhados . de peruca e túnica. Devoro-a por inteiro . disse Susan . Gosto daquilo que se pode tocar e saborear. possuo a impassibilidade do mármore . quer se trate de um nariz com fuligem ou de um botão desapertado . os vossos infantis entusiasmos quando uma chaleira ferve ou a brisa suave agita a echarpe de Jinny como uma teia de aranha. Mas também é verdade que sou m�is feliz na solidão . . Aquele mostra­ -nos a sua coleção de desenhos . E como sou destemida e mais corajosa que qualquer um de vocês . Não compreendo como podem dizer que foi uma sorte termos nascido . Sou acompanhada por um regimento de homens e mulheres semelhantes a mim. Sou como o cachorro que corre pela estrada atrás do regimento . o que acolhe todos os contratempos e ridículos . Sofro com todas as humilhações .

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Virginia Woolf

jar uma mancha castanha e de repente atravessa a rua para ir ao en­
contro de algum rafeiro , ou levanta a pata ao mesmo tempo que fa­
reja o perturbador aroma que sai de um talho . As minhas ocupações
conduziram-me a estranhos lugares . Homens , numerosos homens
destacaram-se da multidão para virem ao meu encontro . Basta-me
fazer um sinal com a mão . Rápidos como flechas , dirigiram-se ao
local onde marcamos encontro , uma cadeira num terraço , ou uma
loja na esquina. Os tormentos e as divisões da vossa vida foram por
mim resolvidos , noite após noite , às vezes apenas com um toque dos
dedos sob a toalha ao jantar e o meu corpo tomou-se tão fluido que
o simples aflorar de um dedo chega para lhe dar a forma de uma
gota que cresce , treme , brilha e cai em êxtase .
Passei diante do espelho as horas que vocês consagraram a escre­
ver, ou fazer contas na secretária. Em frente do espelho , no santuário
do meu quarto , avaliei o nariz e o queixo , assim como a boca que se
abre demasiado mostrando as gengivas . Olhei-me . Julguei-me . Esco­
lhi o amarelo e o branco , o brilho ou a sombra, a curva ou a linha
direita que melhor me ficam . Para uns sou leve , para outros rígida,
angulosa como a estalactite prateada, ou voluptuosa como a dourada
chama de uma vela. Com violência, corri até atingir os limites da
corrente que me prende . O peitilho da camisa dos homens com quem
estive no recanto de uma sala umas vezes foi branca outras púrpura.
As chamas e o fumo envolveram-nos . Falávamos baixo , mal elevan­
do a voz , sentados diante do fogo , enquanto murmurávamos os se­
gredos do coração como se o vertêssemos em conchas para que
ninguém nos ouvisse na casa adormecida. Mas uma vez ouvi o cozi­
nheiro agitar-se e noutra ocasião pensámos que o bater do relógio
eram passos . Depois de uma violenta conflagração deixamo-nos re­
duzir completamente a cinzas . As minhas paixões não deixam rastos ,
ossos não calcinados pelo fogo , ou mechas de cabelos para colocar
em medalhões . Envelheci . Tomei-me descamada, e ao meio-dia con­
templo o meu rosto sentada diante do espelho , à plena luz do sol , e
vejo com precisão o meu nariz, a minha boca, que se abre demasiado
e mostra as gengivas . Mas não tenho medo .
- Junto da estação havia candeeiros , disse Rhoda, e árvores que
ainda não se despojaram das suas folhas . Teria podido ocultar-me entre
as folhas . Mas não o fiz. Caminhei diretamente ao vosso encontro em

As Ondas

1 59

vez de fazer rodeios como outrora para evitar a emoção do encontro.
Mas isso é apenas o resultado da disciplina que impus ao meu corpo .
Interiormente não me modifiquei . Tenho medo . Odeio , amo, invejo­
-vos e desprezo-vos e nunca me senti feliz quando nos reunimos . Ao
vir da estação e enquanto recusava a sombra protetora dos candeeiros
e das árvores , dei-me conta, ao olhar os vossos casacos e guarda­
-chuvas , de que vocês estão profundamente impregnados da substân­
cia constituída pela reunião de vários momentos . Dei-me conta que
estão comprometidos , prisioneiros de uma atitude , que têm filhos ,
autoridade, glória, amor e relações sociais. Eu nada possuo . Sou um
ser sem rosto .
Nesta sala de jantar, veem-se armações de veados suspensas nas
paredes , copos sobre a mesa, os saleiros e as manchas amarelas da
toalha. «Rapaz ! » , chamou Bernard . «Pão ! » , disse Susan . E o empre­
gado veio e trouxe pão . Mas a mim, o rebordo de um dos copos
parece-me uma montanha, só distingo um fragmento da armação dos
veados e a cintilação no flanco da jarra parece-me uma luz maravi­
lhosa e inquietante brilhando nas trevas . As vossas vozes parecem­
-me o rumor de · árvores na floresta. E o mesmo se passa com os
rostos , com seus relevos e cavidades . Como é belo estar-se parado e
imóvel e distante à meia-noite , encostado ao gradeamento de um
jardim ! Por detrás de nós surge uma lua crescente feita de espuma e
nos confins do mundo os pescadores lançam as redes ao mar. O ven­
to agita as folhas mais altas das árvores primitivas (e , no entanto ,
estamos sentados aqui no Hampton Court) . Os gritos dos papagaios
rasgam o intenso silêncio das florestas . ( É daqui que o comboio par­
te .) A andorinha molha as asas em lagos noturnos . (Estamos a con­
versar.) É este o mundo que procuro compreender enquanto estou
aqui sentada a vosso lado . Mas tenho de aceitar a penitência de estar
em Hampton Court exatamente às sete e meia.
Mas já que estes pãezinhos e estas garrafas de vinho me são ne­
cessárias e os vossos rostos são belos , com os seus relevos e cavida­
des , tal como a toalha com as manchas amarelas , em vez de me di­
latar em círculos cada vez mais amplos de compreensão , capazes de
abarcar o universo inteiro (é com isso que sonho à noite quando a
minha cama flutua, e se precipita nos abismos que ficam além do
mundo) , sou obrigada a executar os grotescos gestos da vida indivi-

1 60

Virginia Woolf

dual . Sinto vontade de partir quando me atiram à cara com os vossos
filhos , os vossos poemas , as frieiras , tudo o que fazem e vos faz so­
frer. Mas não tenho ilusões . Depois de todas estas invocações e
procuras , cairei sozinha através de um fino lençol em abismos de
chamas . E vocês não me ajudarão . Mais cruéis que os antigos verdu­
gos , vão deixar-me cair e depois despedaçar-me . E, no entanto , há
momentos em que as paredes do espírito se tomam quase transparen­
tes , em que tudo é absorvido e eu quase acredito que poderíamos ser
capazes de soprar uma bola tão grande que nela poderia haver o
nascer e o pôr do Sol , que o azul do meio-dia e o negro da meia-noite
nela encontrariam lugar e nos perderíamos nela, para sempre liberta­
dos deste espaço e deste tempo .
- Gota a gota, disse Bernard, cai o silêncio. Forma-se sobre o te­
lhado da alma e cai em charcos . Só, só para sempre , ouço o silêncio
cair e alargar-se em círculos concêntricos até aos confins do mundo .
Saciado e completo , satisfeito com a minha solidez de homem madu­
ro , eu , a quem a solidão esmaga, deixo que o silêncio caia gota a gota.
Mas agora, as gotas de silêncio deslizam-me pelo rosto e o meu
nariz funde-se tal como o . boneco de neve que a chuva dissolve no
jardim. À medida que o silêncio cai eu dissolvo-me, os meus traços
apagam-se e torna-se impossível distinguir-me de qualquer outro ho­
mem. Pouco importa. E, de resto , o que é que importa? Jantamos bem.
O peixe, os escalopes , o vinho embotaram os afiados dentes do egoís­
mo . A ansiedade repousa. Louis , o mais vaidoso de todos , já não se
preocupa com o que os outros possam pensar dele . Os tormentos de
Neville cessaram. «Aceito o êxito dos outros» , diz para si mesmo. Su­
san ouve a tranquila respiração dos filhos. Durmam, durmam, murmu­
ra ela. Os barcos de Rhoda chegaram à costa. Pouco lhe importa agora
que tenham naufragado ou lançado âncora. Somos capazes de conside­
rar com imparcialidade qualquer sugestão que o mundo tenha para nos
oferecer. Acabo de pensar que a terra é apenas uma pedra acidental­
mente separada do sol e que os abismos do espaço são sem vida.
- Neste silêncio , disse Susan , parece que nunca mais uma folha
poderá cair ou um pássaro voar.
- Como se um milagre tivesse acontecido , disse Jinny, e as nos­
sas vidas se tivessem imobilizado aqui e agora.
- E, disse Rhoda, não tivéssemos mais de viver.

As Ondas

161

- Mas , disse Louis , ouçam o formidável ruído do mundo moven­
do-se nos abismos do espaço infinito . Este fragmento iluminado da
história desaparece com os nossos reis e as nossas rainhas; passa­
mos , e connosco passa a nossa civilização , o Nilo e a própria vida.
As nossas gotas separadas dissolvem-se e nós extinguimo-nos , per­
didos nos abismos do tempo e das trevas .
- O silêncio cai , o silêncio cai gota a gota, disse Bernard . Mas
agora ouçam o tiquetaque do relógio e os ruídos dos automóveis que
passam . O mundo chama-nos de novo . Por momentos, ouvi o rugido
do vento das trevas como se tivéssemos passado além da vida. De­
pois ouvi o som familiar do relógio e dos automóveis . Voltamos a
pisar terra firme; estamos na praia; os seis sentados numa mesa. Foi
a recordação do meu nariz que me chamou à vida. Levantei-me sol­
tando um grito , quando me lembrei da forma do meu nariz e bati
furiosamente na mesa com esta colher.
- É preciso lutar contra este caos ilimitado , disse Neville , contra
este informe absurdo . Aquele soldado que faz amor com uma criada
atrás da árvore é mais admirável que as estrelas . E, no entanto , quan­
do uma trémula estrela surge no céu claro , penso que só o universo
é belo e que nós não passamos de vermes que com a sua luxúria são
capazes de sujar até as próprias árvores .
- Apesar disso Louis , disse Rhoda, o silêncio dura apenas um
instante . Já começam a dobrar os guardanapos ao lado dos pratos .
«Quem foi que entrou?» , pergunta Jinny, e Neville suspira ao lem­
brar-se que Percival nunca mais voltará . Jinny pegou no seu espe­
lho de bolso . Examinando o rosto como um artista passa um pouco
de pó de arroz pelo nariz e depois de um momento de reflexão , dá
aos lábios um exato tom de vermelho . Susan , que contempla com
desprezo e terror estes preparativos , abotoa e desabotoa o casaco.
Para que se estará a arranjar? Certamente para qualquer coisa de
diferente .
- Pensam que é tempo de partir, disse Louis . E dizem para si mes­
mos . «Ainda me sinto com vigor. O meu rosto vai destacar-se outra
vez no negro espaço infinito .» Já não terminam as frases . «Chegou a
hora de partir>> , repetem a todo o momento . «Vão fechar os portões do
jardim.» E nós vamos com eles , Rhoda, arrastados na corrente, mas
mesmo assim ficamos um pouco para trás .

eu leve­ mente recostado em Jinny. . disse Rhoda.» Enquanto caminho procu­ ro reapossar-me da minha noção de tempo. Ao mesmo tempo que continuo a caminhar. por ridículo que isso possa parecer. O rei Guilherme usa peruca quando monta a cavalo e as damas da corte roçam o chão com a cauda bordada dos seus vestidos . tudo foi consequência da batalha de Blenheim.» Mas tudo isso faz parte do passado . Mas como é estranho recortar contra o turbilhão do espaço infinito este pequeno personagem coroado com uma espécie de bule dourado ! Recuperamos depressa a fé nos personagens . . disse: «Também eu sei o que Shakespeare sabia.Enquanto caminhamos . mas as trevas que me afluem aos olhos impedem-me de a encontrar. mas não naquilo que eles colocam na cabeça . com as cabeças coroadas . não . . que podemos fazer para nos opormos ao fluxo das coisas com apenas esta incerta luz a que chama­ mos sentimento e reflexão? Haverá qualquer coisa de permanente em que possamos apoiar-nos? Também as nossas vidas se escoam ao longo das avenidas sem luz . disse Louis . Basta um cão saltando à nossa frente . E declaro . o tempo reconquista-nos de um modo insensato e ridículo . . que o presente recomeça para mim e que volto a ser súbdito do rei Jorge .1 62 Virginia Woolf Como conspiradores que têm qualquer coisa para segredar. Assaltado por uma ines­ perada fé na imortalidade . O passado de Inglaterra . É um artifício mental colocar reis em tronos . Depois as pessoas colocam uma espécie de bule dourado na cabeça e gritam: «Sou um rei. disse Bernard. Uma vez Neville atirou-me com um poema à cabeça. E nós que caminhamos os seis . é difícil não chocarmos . A máquina funciona. começo a convencer-me que os destinos da Europa são de enorme importância e que . subtraídas ao tempo e anónimas . que um rei que cavalga­ va por esta avenida caiu porque o seu cavalo tropeçou num formiguei­ ro.Enquanto avançamos por esta avenida.este fragmento ilu­ minado da história. no momento em que atravessamos o portão . Trezentos anos parecem outra vez mais considerá­ veis que o tempo que se leva a enxotar este cão . lado a lado. uns a seguir aos outros . Bernard de braço dado com Neville e Susan segurando-me numa das mãos . A passagem dos anos tomou aquele portão venerável . Este palácio parece tão leve como uma nuvem que passa no céu .Tenho a certeza absoluta. . disse Neville .

As maxilas do tem­ po deixaram de mastigar. É uma substância de múltiplas fa­ cetas recortada contra as trevas . que sempre amou Bernard. .Agora. junto das águas iluminadas de luar.Os portões de ferro fecharam-se . disse Bernard. e Susan. . É doce cantarmos juntos . disse Susan . . Quase não fica nada de fora. Uma vida. . Passou . disse Rhoda.Casamento . junto desta urna de pedra. enquanto Mrs . uma flor composta de seis vidas . disse Louis. não importa de quem seja. Rhoda. com rouge. . como se solicitassem da . tornou-se uma flor hexagonal .As Ondas 1 63 falarmos de nós como crianças que pedem a Deus que as proteja enquanto dormem. disse Jinny. seguro firmemente esta mão .Seguro esta mão . que canção escutaremos? .Experimentamos uma sensação de serenidade quase imaterial . morte . Deslizam sobre a erva. Um quadrado é colocado sobre o retângulo . disse Jinny. furtivamente e contudo seguros de si . a cidade e o campo . . . Paremos um instante . Uma flor de mil pétalas . E Jinny responde imi­ tando os pássaros: «amor? amor?» Sim. disse Bernard. O palácio de Wren forma um retângulo . Contemplemos a nossa obra. de mãos dadas e com medo da escuridão . Triunfámos dos abismos do tempo .Afastaram-se em direção ao lago .» Agora a estrutura é visível . Paremos um instante . tornam quase transparentes . os filhos e tudo o resto . disse Rhoda.É feita de muitas cores e numerosos esforços . viagens . . Que canção escutaremos agora que os casais desapareceram no bos­ que e que Jinny aponta com a mão enluvada e finge interessar-se pelos nenúfares . Neville par­ tiu com Jinny. na margem do lago . amizade . com ódio e amor. lhe diz: «a minha vida arruinada. E Neville pegando na frágil mão de Jinny de unhas cor de cereja. Desfrutamos esta felicidade passageira (são raros os momentos sem angústia) quando as paredes do espírito se .A flor. grita «amor. pós de arroz e lenços de tecido fino . Deixemos que resplandeça contra os teixos . a minha vida desperdiçada» . Ali está. o cravo vermelho que estava numa jarra sobre a mesa do restaurante na noite em que jantámos com Percival . Dizemos: «Esta é a nossa casa. . Susan e Bernard desapareceram. amor» . Pouco importa se é ódio ou amor . Curry toca harmónio . tal co­ mo o quarteto tocado para um público frio e refastelado nas cadeiras de orquestra. Extinguiu-se .

Que can­ ção escutaremos? A da coruja. que vaguearam por aqui nos reinados de outros reis? . um clarão luminoso corre pelos carris dos elétri­ cos e as árvores curvam-se . a do rouxinol ou a da carriça? Ouve-se a sirene de um vapor. As trevas fecharam-se sobre os seus corpos . Nenhum som. suficientemente alto para podermos contemplar o universo . .1 64 Virgínia Woolf nossa benevolência o imemorial privilégio de nunca serem incomoda­ dos . arrastando-a para ao fundo . debruada de púrpura que invade a praia e nos lança aos pés a fertilidade de inumeráveis peixes . na maré azul . abram» . disse Louis . A maré da alma reflui naquela direção. Mas a ti perturba-te o leve rumor das palmas . Mas onde está a morte esta noite? Tudo o que é cruel . Por isso estamos separados .Um peso caiu na balança da noite . murmura Louis . como estilhaços de vidro . Ouço o gemido dos elétricos e vejo as cintilações dos carris. Um luar difu­ so paira sobre Londres . Ouvimos o rufar dos tambores numa cidade em tempo de Ramadão . A noite lança uma rápida olhadela pelos bosques antes de adormecer. Ouço os seus gritos agudos que se assemelham a latidos: «abram. gritando: «abram. Ouço as faias e os vidoeiros afasta­ rem os ramos como se a noiva tivesse deixado cair a camisa de seda e se tivesse aproximado da porta. . disse Rhoda. Uma velha regressa em silêncio.Se pudéssemos subir juntos . se pudéssemos permanecer intactos e sem nenhum apoio . .Um pássaro regressa ao seu ninho . A estupidez estampada no rosto deste homem e o envelhecimento no daquela mulher deveriam ser suficientes para des­ truir o sortilégio e fazer regressar a morte . abram ! » .Tudo parece com vida. insignificante e inútil foi lançado. quando os turcos estão esfo­ meados e o seu humor é incerto . nenhum mo­ vimento deve escapar à nossa atenção . das carícias e dos risos . um pescador tardio desce para a praia com a sua cana. . mas também numerosos mor­ tos . Em nenhum lugar desta noi­ te ouço a morte . homens e mulheres . não podem deixar de abandonar-nos . e eu sou ferida por todos os juízos dos homens e apenas confio na solidão e na violência da morte . inclinam-se com gravidade . disse Rhoda. . Como será possível reunir as confusas e complicadas mensagens que estas pessoas nos enviam e não apenas elas . Cada árvore foi ampliada por uma sombra que não é a sombra de uma árvore próxima.

sem a qual a vida se tomaria insípida e morta. . À medida que se aproximam pela avenida a ilusão regressa e com ela a perpétua on­ dulação das perguntas . Sacrificamos os abraços entre os fetos e o amor na margem do lago . Serão homens ou mulheres? Vestem ainda as roupas ambíguas da ondulante maré em que estiveram submersos . A compaixão regressa. agitada pelo frémito de mil peixes prateados . de Neville e Jinny. Transformam-se em Susan e Bernard. cumprimentos . Meu Deus ajuda­ -nos a interpretar os nossos papéis no momento em que vamos sau­ dar o regresso de Susan e Bernard. partem para o combate e re­ gressam com o corpo ferido e os seus rostos devastados . Saltando e batendo com a cauda. ao passarem pelas árvores . disse Louis . A luz volta a incidir sobre eles . como destroços de um exército . A vida derrama o conteúdo da sua rede na erva. Um sol meridional arranca cintilações à urna. para me enternecer basta que falem. Jinny e Neville. A rede é puxada até à superfície das águas . disse Louis. . readquirem o seu tamanho natural . . no entanto . eles que são os nossos representantes e que todas as noites . São apenas homens e mulheres. são deposi­ tados na praia. Más neste momento uma onda surge no horizonte . que pronunciem palavras de tom familiar e sentido sempre imprevisto. acelerar as nossas pulsações e brilhar os olhos . Toda a loucura da existência individual . quando avançam à claridade da Lua. E.Separados para sempre . Já estão muito perto de nós . Que penso de vocês? Que pensam de mim? Quem são vocês? Quem sou eu? E esta melodia faz de novo estre­ mecer de inquietação o ar à nossa volta. Somos arrastados pelas ondas de um mar violento e cruel .Agora.Alguma coisa cintila e dança. recomeça. Têm rosto . basta-me olhar os movimentos das suas mãos que fazem surgir das trevas milhares de dias passados . Deixam de inspirar admiração e temor à medida que se despojam das vestes da ondulante maré . Como diminuíram ! Que engelha­ mento e que humilhação ! Sou mais uma vez atravessada por um fré­ mito de ódio e de terror ao mesmo tempo que me sinto imobilizada pelos ganchos que nos lançam saudações .As Ondas 1 65 . os nossos amigos . Há vultos que se aproximam . disse Rhoda. aqui ou na Grécia. Estamos parados junto de uma urna como conspiradores que se afastaram para sussurrar algum segredo . apertos de mão e olhares perscrutadores .

. . disse Jinny. devía­ mos ter cedido ao desejo de espremer na solidão o sumo sombrio .E eu .Estamos tão cansados. A brasa de um cigarro é a única luz que brilha entre nós . a eletricidade. É o coelho que vão comer no jantar de domingo . Mas agora estamos cansados . a comida e as roupas para as crianças . Mandei a carta.O fogo que nos consumiu .1 66 Virgínia Woolf . É assim o feliz encadeamento dos acontecimentos na nossa vida. Quanto terão ganho hoje? O suficiente para pagarem a renda. exausto e passivo .Fiquemos aqui um momento antes de partir. Talvez antes de se deitarem desçam até ao minúsculo jardim e olhem o enorme coelho deitado na sua casota de madeira. Encontramo-nos nesse estado mental . que mal conseguimos res­ pirar. do outro lado do rio . forçado e cansativo . A vida é boa. Ouçam.Destruímos qualquer coisa com a nossa presença. É tranquilizante ver como se acendem as luzes dos quartos de dormir nas casas dos pequenos comerciantes . como um jovem pássaro insatisfeito grito ainda por qualquer coisa que me escapou . Va­ mos matar o coelho. disse Bernard. Devo. Devíamos tê-los deixado sós . Como a vida parece su­ portável ao vermos as luzes que se acendem nos quartos dos pequenos comerciantes ! No sábado terão apenas o suficiente para os bilhetes do cinema. E dor­ mem. pensa o vendedor de legumes .» E adormece .E isto continua. Depois apagam as luzes. Ouço um ruído que parece o choque de vagões que estão a ser atrelados numa estação de caminho de ferro. A nossa alegria é matizada pela tristeza. . disse Susan . . nada deixou que possa ser guardado em relicários . os olhos de Susan estão saciados . «E se ganhar quinhentas libras nas apostas de futebol? Além disso vamos matar o coelho . o sumo amargo do fruto repleto de doçura. permitido que se dilacerassem. disse Bernard. Pas­ seemos pela margem do rio numa solidão quase completa. . para milhares de indivíduos o sono é apenas calor e silêncio e o momentâneo abandono à fantasia de um sonho. Acendem-se umas a seguir às outras . em que desejamos voltar ao corpo da nossa mãe de que fomos separados pela vida. Apenas o suficiente . O s nossos vultos mal s e distinguem do rio . A vida é agradável . E. talvez um mundo . O resto é desagradável . disse Neville. «Enviei a minha carta para o jornal de domingo» . As pessoas já regressaram a casa. . A echarpe amarela de Jinny tem a cor das mariposas.

em noites de inverno . Não sou juiz . Pedaços do nosso ser des­ prendem-se de nós . ou com as janelas abertas no verão . as casas e as árvores tomam-se semelhantes . como cantavam outrora no pátio . Aquilo é um poste? E isto . Devo partir. a metade de regresso a Waterloo . Sou como um tronco deslizando suavemente por uma catarata. . devo acordar. Atenção ! Qualquer coisa de muito importante caiu . Sob a luz cinzenta. Estou a perder o domínio do meu corpo . vindo do lado do rio . bebendo . Mas onde? Não consigo lembrar-me . Mas o mais curioso é que ainda seguro na mão metade do meu bilhe­ te . é uma mulher caminhando? Eis a estação . mas que apertamos contra o coração . semelhante ao choque dos vagões que estão a ser atrelados numa estação de caminho de ferro ! Agora ouço um coro ao longe . Só existo nas plantas dos pés e nos fatigados músculos das coxas . Tenho a impressão de caminhar há horas . Vou adormecer.palavra piedosa e solene que pretendemos desprezar. os remoinhos da água e o murmúrio quase imperce­ tível da brisa. quebrando os móveis . São as can­ ções dos meninos convencidos que em grandes carros regressam de um dia passado na ponte de um vapor repleto de gente . devo levantar­ -me . devo deitar-me. devemos apanhar o comboio . Se o comboio me despedaçasse . devemos ir para a es­ tação . devemos . devemos . o meu corpo juntar­ -se-ia de novo do outro lado dos carris . mesmo quando estou a dormir. Mas devemos partir. porque sou uno e indivisível . Como respeitamos este som. Não tenho a obrigação de dar opiniões . Estes cantos . já que sem ela seríamos incompletos . Somos apenas corpos correndo uns ao lado dos outros . mesmo agora. devemos . arrastam-nos suavemente . com peque­ nos barretes às riscas e voltando todos a cabeça ao mesmo tempo quando a carruagem dobrava a esquina. E eu desejava ser como eles .As Ondas 1 67 devo. devo. Cantam.

caía na erva escura onde as maçãs apo­ dreciam . O vaso quebrado. como as ondas do mar varrem . Escuras som­ bras enegreciam ainda mais os túneis abertos entre os caules das plantas . Como se existissem ondas de escuridão. a noite avançava cobrin­ do as casas. as ondas espalhavam na praia os seus grandes leques. enviavam sombras brancas para as profundezas das cavernas e refluíam suspirando sobre os seixos . Às vezes. pendiam grandes cortinados de trémula escuridão . Todas as cores do quarto tinham trans­ bordado os seus limites . O tordo estava agora silencioso e o verme encolhido no seu pequeno buraco .O Sol descera finalmente no horizonte. derramava agora no jardim tons cinzentos e negros . Luzes erran­ tes arrastavam os seus penachos por invisíveis estradas submersas . o murmúrio do vento que atra­ vessara as florestas encontrava-se com o da água arrefecida nas inumeráveis e vítreas profundidades do oceano . As sólidas colinas pareciam ter perdido substância . Na borda da falésia. A luz desaparecera da casa das ferramentas e a pele de víbora pendia de um prego . que antes contivera a luz vermelha. Mas nem uma só luz surgia por entre as asas dobradas das colinas e nenhum som se ouvia além do grito do pássaro procurando uma árvore solitária . arrancada a algum ninho abandonado. as colinas e as árvores. Do soalho ao teto. O espelho estava pálido como a entrada de uma caverna sombreada por trepadeiras . espargindofolhas pelo chão . As pinceladas do artista tinham-se tornado demasiado cheias e oblíquas: os armários e as cadeiras misturavam as massas castanhas numa vasta obscuridade . Ao desfazerem-se. uma palha esbranquiçada. As folhas pousaram com perfeito rigor no local onde vão esperar a sua de­ composição . A árvore sacudiu os ramos. e era agora impossível distinguir o céu do mar.

mesma quando os vales estão repletos de arroias e de folhas amarelas das videiras e as raparigas sentadas nas varandas olham a neve e protegem o rosto com os le­ ques . Depois a escuridão cobriu também as raparigas . . Envolvia também os aman­ tes abraçados à sombra da folhagem densa dos olmos de verão . envolvendo o espinheiro solitário e as cascas vazias dos caracóis . A escuridão cobria as ruas. Depois a escuridão subiu.As Ondas 1 69 os flancos de um navio naufragado . soprando pelos flan­ cos nus das colinas e atingindo os erodidos cumes das montanhas onde a neve se aloja na dura rocha. As ondas de escuridão avançavam pelos caminhos cobertos de erva e pela terra ressequida. ro­ deava os seres isolados e submergia-os .

depois da chuva passar. profundidade e plenitude . Como não nos conhecemos (em­ bora me pareça que nos encontrámos uma vez a bordo de um navio para África) . Procuro um esquema mais adequado aos momentos de humi­ lhação e de triunfo que inevitavelmente surgem na nossa vida. brilhantes e belas . Mas infelizmente não pode ver o que eu vejo (este globo repleto de personagens) . vejo as . E atrás de mim. à sua frente. Neste instante . qualquer coisa dotada de forma. de morte e tantas outras .. Vê como pego no guardanapo e o desdobro . um tanto pesado . Mas como estou cansado das histórias . um homem já entrado nos anos . Vê-me apenas a mim. contamos histórias e para as ador­ nar inventamos frases ridículas . como a que os namorados usam entre si . sentado nesta mesa. Mas para lhe fazer compreender a minha vida. Tenho a ilusão que neste instante qualquer coisa aderiu ao meu corpo . no entanto. de têmporas grisa­ lhas . Se fosse possível . é a minha vida» .e há tantas his­ tórias . Mas nenhuma delas é verdadeira. histórias de colégio . E. vê a porta que se abre e pessoas que entram. Deitado numa vala num dia de tempestade . Vê-me encher um copo de vinho . de casamento . histórias de amor. podemos falar com toda a liberdade . peso . inarticuladas . tal como as crianças . pa­ lavras sem sequência. Havia de a colher como se colhe um cacho de uvas . semelhantes ao ruído de passos na calçada. preciso de lhe contar a minha história . essa coisa parece ser a minha vida.Chegou o momento de fazer um balanço . de lhe explicar o sentido da minha vida. cansado das frases que pousam elegantemente no chão e caminham ! E como desconfio dos esquemas de vida cuida­ dosamente traçados sobre uma folha de papel ! Começo a ansiar por uma linguagem ingénua. disse Bernard. E dizer: «tome-a. para que possa oferecer-lha. gostaria de a colher e de lha oferecer por inteiro . histórias de infância.

Mas agora. Depois Mrs . e a mosca que zumbia no teto do quarto e inúmeros pratos de inocente pão com manteiga. Aquela é a Rhoda. cintilações na profundidade verde.» Foi uma descoberta maravilho­ sa. lancemos uma olhadela a estas cenas da nossa vida. Todas essas coisas acontecem num instante e duram para sempre . disse para mim próprio. quando embatemos numa cadeira. com janelas abertas para um jardim e mais ao longe o mar. com calções de flanela cinzenta e a fivela do cinto em forma de serpente . Depois havia um jardim e o dossel formado pelas folhas da groselheira que pareciam cobrir tudo. de desordenado. Via qualquer coisa brilhar.e eu ali . qualquer coisa de ameaçador. Estava perturbado pelo seu lenço . aquilo é um barco» . Eterna mudança. eterno movimento das grandes nuvens . Constable ergueu a esponja sobre a minha cabeça. Voltemos as páginas . E aquele é Louis . E acon­ tece sempre assim pois durante toda a vida somos trespassados pelas flechas das sensações .» Tinha uma bacia de cobre onde punha a flutuar pétalas brancas . espremeu-a e flechas de sensações correram ao longo das minhas costas . aqui está a Jinny. nuvens em farrapos e feixes de nuvens . quando passo diante da janela ilumi­ nada de uma casa em que nasceu uma criança. um rato morto devorado pelos vermes debaixo de uma folha de ruibarbo. de sinistro. minúsculo e esque­ cido. Este é o Neville . No começo havia um quarto de crianças . flores . «Ü que significa. numa mesa ou numa mulher. O que me encanta é a confusão. acrescentarei um comentário . Em tal situação não vejo rasto de história ou de esquema. Para nossa diversão . que eu não sou Neville . E há os rostos que surgem numa esquina. «Olha. Susan foi quem chorou no dia em que estava na casa das ferramentas com Neville e senti que a minha indiferença se des­ vanecia. a indiferença e a fúria.As Ondas 171 enormes nuvens marcharem no céu . enquanto comemos . Com Neville isso não aconteceu . rasga e perde . tal como as crianças folheiam as páginas de um livro ilustrado e a criada lhes diz apontando qualquer coisa com o dedo: «isto é uma vaca. prova­ velmente o puxador de cobre de um gavetão da cómoda. a distância. que se arrasta. Qual­ quer coisa de sulfuroso. Susan chorava e eu seguia-a. E às vezes . quando passeamos num jardim ou quando bebo este copo de vinho . pouco me falta para rogar aos moradores que não espremam uma esponja sobre o corpo acabado de nascer.

«Esta é certamente a lei do universo . nele aparecendo uma dessas bruscas transparências através da qual vemos o universo inteiro . Levantei-me de um salto e descemos a correr a encosta da colina e vi o moço das cavalariças caminhando ruidosa­ mente no pátio com as suas enormes botas . mas eu tenho a minha própria lei individual. sentando-me junto dela nas raízes duras como esqueletos . sentados a tomar chá. pois a um meu espírito fora trespassado . Foi essa a primeira vez que dei pela presença desses inimigos que mudam. Cada um destes acontecimentos estriou e marcou de modo diferente a nossa branca cera original . uma única frase . Louis sentia repulsa pela natureza da carne . mas nunca desaparecem. derretia-se de forma diversa em cada um de nós . Uma dama estava sentada à mesa a escrever. disse para mim. Ficarão assim durante toda a minha vida.» Foi por isso que propus a Susan explorar as imediações . observávamos tudo isso . «Não posso suportar isto» . Trespassado . Os grunhidos do criado fazendo amor com a empregada entre as groselheiras. as roupas penduradas numa corda e adejando ao vento. como pela primeira vez na vida estava apaixonado . Mas éramos diferentes . o homem que apareceu na vala com a garganta cortada. dizemos . É como se ti­ vesse despertado em Stonehenge rodeado por um círculo de grandes pedras . Depois um pombo-bravo esvoaçou por entre a folhagem. Também nada posso contra a imobilidade da mulher que escre­ ve» . forças contra as quais lutamos. enquanto os pon­ tiagudos dedos do lustre gotejavam poças azuis na cornija da lareira. pensei: «em nada posso alterar o movimento daquelas vassouras . E. viam-se os jardineiros a varrer os relvados com grandes vassouras . imobilizado e morto . É estranho que não se possa fazer parar os jardineiros . o rato morto repleto de vermes. o gotejar azul do lustre. Deixarmo­ -nos arrastar passivamente é contrário à própria natureza do nosso pensamento . Um pouco mais abaixo .1 72 Virginia Woolf encharcado de lágrimas e as suas pequenas costas subindo e descendo como se fossem a alavanca de uma bomba de água. Dia após dia. A cera. agitadas e opalinas . entre a profundidade das folhas . Os jardineiros continuarão a varrer. ou mover uma mulher. e mais moscas zumbindo no teto do quarto das crianças onde tremulavam ilhas de luz. Chorava porque qualquer coisa lhe fora negada. fiz uma frase. a virginal cera que recobre a espinha dorsal. a macieira de folhas rígidas à luz do luar. um poema sobre o pombo-bravo . Depois houve mais pão com manteiga.

tomava notas . preservado de vulgari­ dades e humilhações . E Percival . Sentado ao lado deles na capela. com magnificente equanimidade (as palavras grandiosas ocorrem-me natu­ ralmente) . Uma canção de caça entrando pela janela aberta. como conseguiriam assustar-me no colégio? Como me poderiam criar dificuldades? O reitor entrava na capela. E assim sucessivamente.As Ondas 1 73 humana. um som que ecoa nas montanhas e . Jinny o amor. Naquele dia. mesmo que esse homem seja eu . a nossa crueldade indignava Rhoda. apesar de estar um pouco gordo agora e ter os cabelos grisalhos e o tórax dilatado . esboçava retratos nas margens do meu cader­ no e desse modo me isolava ainda mais dos outros . que levava a mão a uma das coxas . eu soube evitar os sentimentos excessivos e sobre­ vivi a muitos dos meus amigos . nem o admirava como Louis . Havia colunas e re­ cantos sombrios . expressão de uma vida rápida e inapreensível . sem comentários irónicos . Percival tinha o género de beleza que se preserva de todas as carícias . gritando ordens com um megafone . E o que me interessa é esse panorama sobre a vida e não o que uma mulher diz a um homem . mas de uma janela do terceiro andar. Havia o som de uma enferrujada bomba de água e o reitor que travejava acerca da imora­ lidade e da necessidade de nos tomarmos homens . Neville queria ordem. que as tranças cor de linho e as faces rosadas de Lucy eram o expoente máximo da beleza feminina. lia. Tomava notas que me deveriam servir para compor histórias. As­ sim sendo . Sofremos terrivelmente quando nos convertemos em indivíduos . rapazes que lutavam ou trocavam selos por detrás do livro das orações . Como nada tinha de precoce . lápides comemorativas . Mas eu não o odiava como acontecia com Neville . E le­ vava a mão à nuca de uma maneira que lhe era própria. Aqui deveria escutar-se uma música. na capela. Percival olhava fixamente em frente . Todos nós levávamos a mão à nuca. pois as pessoas que têm autoridade assumem sempre atitudes melodramáticas . Já não contemplo a paisagem da vida de um telhado . no entanto . Mas . E. oscilando como se andasse na coberta de um navio de guerra em plena tempes­ tade . Susan não conseguia partilhar coisa alguma. tudo o que era escrito para nossa edificação e pensava. Os seus gestos eram sempre notáveis . uma canção repleta de alegria selva­ gem. o seu gosto acabou por se tornar refinado . mas sem o mesmo efeito .

1 74 Virgínia Woolf morre na distância. com otimismo. Sim. O olhar implacável dos seus colegas fixava-se nas suas mãos inchadas . mas acompanhava-o a lenda de um dia ter derrubado uma porta com os punhos . mas também nos demos imediatamente conta de como o seu es­ pírito era agudo . Era afetado e orgulhoso e o seu modo de andar fazia lembrar o de uma cegonha. era capaz dessa inspirada exatidão que causa espanto . invejava-me desesperadamente a facili­ dade com que tratava os criados . Os seus lábios estavam cerrados e todo o seu ser parecia concentrado nos olhos imóveis onde às vezes brilhava um clarão de alegria. esperávamos naturalmente a sua aprovação raramente concedida. Sofria de frieiras . Tinha uma vida isolada e enigmática. acontecia-lhe às vezes. Como estudante . Não que lhe faltasse consciência dos . todos me pareciam ter perdido qualquer coisa de essencial . flutuando . em momentos de confiança. descrever o modo como as ondas se desfaziam nas praias do seu país . tudo o que não podemos explicar. o reitor afasta-se. sentado . Mas vou mergulhar uma vez mais a colher e trazer à superfície outro desses minúsculos objetos a que . e . A minha descrição da Lua não suscitava. Caiu quando participava numa corrida de cavalos. Teria protegido . claro e severo e. Tudo o que é surpreendente e imprevisto . Louis era demasiado semelhante ao cume de uma montanha despida e pedregosa para que a neblina o pudesse envolver. a de Percival com amor. A sua influência era recebida com irritação. porém. esses rostos insignifi­ cantes e apenas entrevistos que saem do metro e os inumeráveis india­ nos obscuros e a gente que morre de fome e doença e as mulheres que foram enganadas e os cães espancados e as crianças em pranto. naquela noite. Teria feito justi­ ça. me acorre ao espírito quando penso nele . Aos quarenta anos teria conseguido sacudir os poderes estabelecidos . fingindo acompanhar a partida de críquete. olhava fixamente o orador. No entanto . Por outro lado. Louis . ao descer a avenida Shaftesbury. As colunas desmo­ ronam-se . chamamos o «caráter dos nossos amigos» . Nunca me ocorreu uma canção de embalar ca­ paz de o adormecer. sem amigos . deitados sob os olmos . Infeliz. Era incapaz dos sentimentos simples que unem os homens . e uma exaltação súbita apode­ ra-se de mim. exilado . O pequeno aparelho que utilizo nas minhas observações fica desarticulado . o que mostra que tinha uma circulação deficiente . tudo o que converte a simetria em absurdo . o seu assentimento.

sem por isso deixar de desejar que a pessoa amada. De modo nenhum se pode dizer que estamos sempre cons­ cientes . comemos e dormimos com a exatidão de uma máquina. Neville . rápido . A consciência que temos dos nossos amigos é intermitente . era para Neville apenas um instrumento da Inquisição . Os períodos escolares sucediam­ -se uns aos outros . nada vinha agitar com a sua barbatana a plúmbea extensão das águas . Volto a mergulhar Louis nas profundezas do tanque .As Ondas 1 75 seus méritos . contemplava extasiado os jogadores de críquete. Indolen­ temente deitado . E a sensação de um imenso. enquanto o seu espírito . mas apesar disso próximo de nós . As nossas ambiguidades em questões como essa. mas também como indiferenciados grupos de matéria. a quem um dia sentei no cadeirão a balançar distraidamente os suspensórios diante de um aquecedor. Mas . as hesitações entre o amor e o ódio . hábil e voraz como a língua de um camaleão . e as nossas mãos voavam para os bonés . no entanto . como grandes montanhas ameaçadoras . É num impulso único que um grupo de rapazes vai jogar críquete ou futebol ou um exército atraves- . à leitura de Catulo . nada. desaparece . sonolento mas atento . Foi graças a ele que pude aspirar o odor dos clássicos latinos sem real­ mente os conhecer profundamente . esse personagem oscilante e barulhento . o de pensar no crucifixo como um sinal do Diabo . pareciam-lhe irremediáveis traições . sem pres­ tar atenção ao que dizíamos . percorria todos os contornos das frases latinas . monótono e contínuo aborrecimento baixava sobre nós . As longas saias das mulheres dos professores avançavam sibilan­ tes . Tinha-a. a única pessoa amada. quando o examino na palma da mão . O reitor. não era feliz . vagueando com indolência num recanto soalheiro do campo de jogos . onde poderá readquirir vida. viesse sentar-se a seu lado . mas num grau compatível com o seu respeito pela disciplina. Nada. Respiramos . Por isso se entregou com uma paixão que venceu a sua habitual indolência. por exemplo . Não existimos apenas como indivíduos . Foi ele também que me deu esses persistentes hábitos intelectuais que nos transformam em seres irre­ mediavelmente marginais . Flutuava entre nós como o pólen das flores . Nada vinha aliviar o peso do intolerável embrutecimento. Horácio e Lucrécio . deitado de costas a contemplar o céu de verão . Depois vem Neville . Daí o seu êxito final . E. Nós crescíamos e mudávamos como todos os animais.

Se no comboio alguém me oferece um cigarro eu aceito . os vínculos e os passos em falso . mas extremamente fácil e um tanto áspero. Por isso me reunia a ela quando Neville amuava ou Lou­ is voltava as costas e se afastava com inegável dignidade . e as inúmeras gotículas resplandecen­ tes que estremecem como se o jardim fosse um mosaico estilhaçado . abrimos a janela. informe e superficial . Vi Joans . do amor. coisas obscuras e mancha­ das . a confusão de gritos e melodias . irregularmente . o canto dos pássaros ! Reconhe­ cemos o súbito frémito das asas . campos de rosas e de açafrão . ao longe . Dorothys e Miriams (esque­ ci os seus apelidos) descendo as avenidas e detendo-se a meio da ponte para olharem o rio . das palavras trocadas por mineiros seminus. sem outra finalidade na vida além do jantar. conde­ namos todos os renegados (Neville. enquanto um pássaro solitário canta junto da janela. brancos e radiantes como a Lua. Foi assim que as minhas vestes de cera se derreteram ao acaso . Reunidos nos parques ou em salas de concertos . ideais ou qualquer coisa do género e cuja única ambição é desembaraçar-se sem grandes abor­ recimentos . que clamor. Louis e Rhoda) que levam uma vida independente e separada. os obstáculos . ouve-se a sirene de um navio que se faz ao mar) . do dinheiro e de uma existência tolerá­ vel . E de entre elas destacam-se duas ou três imagens nítidas . na noite . sinto-me irresistivelmente atraído pelas vozes cantando em coro . como as de Louis ou Neville . não muito inteligente . evanescente e cintilante . em grandes estrias que escorriam em gotas dispersas . atra­ vés dos ruídos dos automóveis e dos autocarros repletos de gente que vai ao teatro (escuta. gente que não tem grandes esperanças . duas ou três aves que cantavam junto da janela com . Gosto de ouvir as conversas dos homens reunidos nos clubes e nos bares. com rochas e serpentes também. Ouvi esses can­ tos . no rio . Sou feito de tal maneira que . essas canções que ouvimos à nossa volta. quase desprovídas de sentido que atravessam os pátios . as velhas canções quase absurdas . E através dessa transparência avistei a admirável paisagem dos pra­ dos virgens . os carros passam velozmente diante deste res­ taurante e às vezes . ainda não conformado como uma unidade . Gosto de ver as coisas sob o seu aspeto abundante .1 76 Virginia Woolf sa a Europa. o balbuciante tumulto de vozes. Persegui esses fantasmas . gosto da gente completamente isenta de pretensões . se escuto uma das melodias solitárias . Saltamos da cama.

de uma mulher que permaneça sentada a costurar. Susan e Rhoda. Era desse modo que ele me levava para lá da minha condição. os jardineiros varrem com grandes vassouras e há uma senhora sentada a escrever>> . Foi ela quem deixou escorrer para o meu rosto as lágrimas escaldantes que eram ao mesmo tempo admiráveis e terríveis ou então não eram na­ da. da minha angústia. quando lhos estendiam. no momento em que Susan chorava amarfanhando o lenço. enquanto as espigas de trigo ondulavam sob as janelas: «os salgueiros crescem nos campos junto do rio. quebravam a concha dos caracóis contra as pedras e mergulhavam avidamente os bicos na matéria viscosa e peganhenta. de chinelas e roupão esvoaçante . pois os poetas necessitam da segurança. ao longo de corredores cobertos de grandes lajes . eu ouvi o riso estúpido de uma criada no sótão e este pequeno exemplo de estru­ turação dramática mostra que é sempre incompleta a nossa dissolução nas experiências que vivemos . era impos­ sível segurá-la. nem admiráveis nem terríveis .As Ondas 1 77 o extasiado egoísmo da juventude . Susan foi a primeira a tomar-se mulher. Tinham sido educadas em colégios da costa este e da costa sul de Inglaterra. o que mostra­ va que era capaz de morder. Duras . mas mantinha as orelhas voltadas para trás . e gritava «amo e odeio» . Jinny foi a primeira a aproximar-se do portão para comer pedaços de açúcar. Susan nasceu para ser admirada pelos poetas . em direção ao que é simbólico e por isso talvez permanente . O velho cão quase não conse­ guia subir para a sua cadeira. Nas margens de qualquer angústia existe um observador que aponta com o dedo . E do sótão chegava o riso estúpido de uma criada que fazia girar a máquina de costura. Rhoda era a mais selvagem. que ame e odeie apaixonadamen­ te . não seja particularmente rica ou confortável e se harmonize pelas suas qualidades com a simples e elevada beleza. na casa. Nas noites tranquilas ouvia-se o rumor de uma cascata que ficava a uma légua de distância. como murmurou ao meu ouvido naquela manhã estival . O seu pai arrastava-se de quarto em quarto . um ser puramente feminino . que murmura. o estilo que os poe­ tas tanto admiram.se é que se pode falar de . Era ao mesmo tempo assustada e desajeitada. Mesmo no meio da minha angústia. ávidas e implacáveis : Jinny. Retirava-os habilmente das palmas das mãos . Deixaram crescer longas tranças e adquiriram esse ar de potros assustadiços que é a marca da adolescência.

Hughes .demasiado deliberadas . uma rapariga de bicicleta que ao passar parecia erguer uma ponta da cortina que ocultava o caos populoso e indiferenciado da vida que se estendia para lá dos meus amigos e do salgueiro . comer e respi­ rar. Durante um trimestre inteiro fui Napoleão. Não a de Percival . as casas e velhas mulheres apressadas . em dormir. mas uma música dolorosa. Durante muitas semanas o meu papel limi­ tou-se a entrar em quartos e lançar as luvas e o casaco nas costas das cadeiras franzindo levemente as sobrancelhas . murmúrios indistintos . Mas acima de tudo era Byron. Aqui . Depois da sua partida um quarto é diferente do que era antes da sua chegada. era o personagem de Dostoievski cujo nome esqueci.que tentam descrever o passageiro instante do primeiro amor. Enterrei metodicamente fósforos na erva para assinalar esta ou aquela etapa do meu processo de compreensão (na filosofia. Era Hamlet. a música deveria surgir. de­ masiado razoáveis . Trocámos pequenos presentes . no nosso tempo partilhado entre o espírito e a carne . Acabei por lan­ çar o meu terrível arsenal de frases sobre um alvo totalmente inadequa­ do . Percival e Jinny. Sim. Um cristal de púrpura desliza sobre esse dia. . Todos os livros e rebordos de janela estavam cobertos com as folhas das minhas cartas inacabadas à mulher que me convertia em Byron. verdes na primavera e fulvas no outono . nas ciências ou no conhecimento de mim próprio) . a sel­ vagem canção de caça. figuras evanescen­ tes . E dirigia-me constan­ temente à estante para beber um gole do divino elixir. O salgueiro erguia-se junto do rio . visceral e sublime como o canto da cotovia. salpicados de minúsculas orelhas . gutural . Eu estava sentado na erva macia com Neville . Porque eu mudava cons­ tantemente . de novo .uma jovem que depois se casou e morreu. Mas não casei com ela. Chegava a casa dela convertido em espuma. era Shelley. sem dúvida porque não estava preparado ainda para uma tal intensidade. Larpent. mas a franja do meu espírito flutuava livremente e captava as sensações lon­ gínquas que acabamos sempre por atrair e nas quais o nosso espírito penetra: o tocar dos sinos. Só a árvore resistia ao nosso eterno fluir. Baker. Através dos esguios ramos do salgueiro. avistava os navios .178 Virginia Woolf permanência nas nossas vidas tumultuosas . essa melodia deveria substituir estas frases desgastadas e estúpidas . porque é muito difícil acabar uma carta escrita no estilo de outra pessoa.

Daí o comentário que faz. que durante um momento eu vi do mesmo modo que ele . continuam a andar. apesar disso . As suspeitas irrompem e com elas o horror da dúvida. Façamos de conta que é possível elaborar uma história lógica e simples de tal modo que se pode acabar um assunto . A sua chuva de ramos pendentes e a casca áspera e rugosa. para as enrolar como uma teia de aranha em volta de uma sebe de espinhos . E todos os rostos parecem ilumina­ dos . A cena destacava-se com uma tal intensidade e estava de tal modo impregnada do que havia de particular no olhar de Neville . qual­ quer coisa se nos cola às mãos . tomamo-nos estranha­ mente conscientes dos menores gestos. nada veem nem ouvem. se mantém está­ vel . qualquer coisa adere . . Depois o estrondo de uma total indiferença. via com incomparável clareza um barco onde um jovem comia as bananas que retirava de um saco de papel . Neville sentava-se a meu lado na erva. Por exemplo . Mas de que serve elaborar penosamente estas frases que se encadeiam. tinham a aparência do que permanece fora das nossas ilusões mas é incapaz de as conter. um recanto de verdu­ ra. quando ela não vem. seres indiferentes prosseguem o seu caminho. que podemos girar entre os dedos . façamos outra vez de conta que a vida é uma substância sólida. . cam­ pos que resplandecem no seu verde eterno e paisagens inocentes que parecem banhadas pela luz da primeira aurora. Falava de um salgueiro . e as negras flechas de uma trémula sensação quando ela não escreve .por exemplo . em forma de globo .e prosseguir ordenadamente para o tema seguinte . mesmo quando pegamos num jornal . parecendo avaliar as razões das nossas flutua­ ções e mudanças . do que é por um ins­ tante transformado pelas ilusões . em Hampstead . mas . Seguindo o seu olhar através dos ramos . mas um uivo ou um gemido? E anos depois vemos uma mulher de meia­ -idade tirar a capa num restaurante . calmo e com uma consistência que as nossas vidas não têm.As Ondas 1 79 Lá fora. áspera como a pele de um tubarão . Mas regressemos um pouco atrás . em seguida a sensação mítica da plenitude e do êxtase . por exemplo . o amor . cúmplices de uma tema alegria. quando aquilo de que se necessita não é coerente . Em seguida temos a sensação de um supliciado a quem arrancaram as vísceras. o regresso de uma luz infinita e inconsciente. Quando nos movemos nessa atmos­ fera ao mesmo tempo radiante e brumosa. a luz que se extingue.

as bananas e o jovem. através dos ramos do salgueiro . assustados e sonhado­ res? Por mais cruéis e vingativos que fôssemos . Temos uma bondade fundamental sem a qual nos seria impossível falar livremente com alguém que mal co­ nhecemos . e os nossos corpos. Era semelhante a uma ondulante papoila. As suas chamas ergueram-se acima das árvo­ res . Para se ocultar apro­ veitava a passagem dos professores de togas agitadas ao vento . O passado não existia. pois de outro modo a conversa depressa seria interrompi­ da. A sua imaginação sórdida fascinava-me . o êxtase . As folhas encolhiam-se sob o olhar de Rhoda e estremeciam de angústia quando ela passava. Depois veio Jinny. nem o futuro . ela com um vestido verde . acima das rochas e da espuma que se depositava nas margens do rio . Dardejante . eu com o meu fato de sarja. sabia que os seus dedos ossudos . reprovavam a minha indolência. Eu tinha a inteligência suficiente para respeitar a sua integridade. mas não se tratava de uma ilusão ou de um so­ nho . Rhoda aproximava-se com o seu andar vago . angulosa mas não impulsiva. mas apenas o presente envolto num anel de luz. Havia uma ár­ vore . Depois tudo se desvaneceu . e a inevitável exaltação . sedenta e dese­ josa de beber o pó seco . A sua presença fazia dançar os ramos do salgueiro . As suas palavras . ou os jumentos que balançando o corpo avançavam sem ruído pela erva. junto de um lago onde os animais selvagens furtivamente iam beber. severas e cáusticas . o salgueiro erguia-se junto de um deserto cinzento onde nenhum pássaro cantava. era de tarde . Os seus heróis usavam cha- . buscavam o diamante de uma indis­ solúvel verdade . Talvez apenas uma coluna iluminada pelo sol se erguesse no seu deserto . Que terror era esse que tremulava oculto e se transformava em cha­ mas na profundeza dos seus olhos cinzentos. Antes de se sentar na erva Louis estendia cuidadosamente um tecido impermeável (não exagero) e imediatamente nos apercebíamos da sua presença. Os autocarros e os elétricos ressoavam surdamente na rua. Aos olhos de Rhoda. febril . pois Jinny nada fazia que não tivesse realidade . o barco . um rio . chegou preparada para tudo . Era quase formidável . Pequenas chamas ziguezaguearam nas fendas abertas na terra ressequida.1 80 Virgínia Woolf este fragmento do rio . Enterrei a seus pés caixas de fósforos já queimados . envoltos em trapos por causa das frieiras . estávamos ali . isso não bastava para justificar um tal terror.

Entrei em casa. Foi neste estado de espírito que continuei o meu caminho balouçando a bengala e relançando à volta um olhar mais carregado de humildade que de orgulho . Balouçando a bengala entrei numa loja e comprei um retrato de Beethoven com uma moldura de prata. Jinny. Fi-lo . no outono . com a sua acumulação de coisas inúteis e de tesouros colo­ cados sobre as mesas . deslumbrantes como desertos ressequidos . não por amar a mú­ sica. o som da canções de caça. as exclamações . uma gota caiu e senti que acabava de completar uma das experiências da minha vida. Susan e Rhoda. Eu . a pessoa milagrosamente designada para prosseguir a sua obra. o continuador. ter de suportar os silêncios penosos . Shelley ou Dostoievski. recebi os golpes da vida.As Ondas 181 péus de coco e vendiam pianos por dez libras . Na minha vida entrou uma multidão de pessoas . mas porque toda a vida humana. quando olhava os ramos ama­ relos e rubros . Mas eu detive-me e olhei a árvore. um sedimento formou-se. em que cada uma das pedras se vê claramente ! E dizer aquilo que não se deveria ter dito. Tinha-se desvanecido o bater das asas . na casa clara e intransigente habitada pelos meus . Ergui-me e parti . lugar repleto de tradições e objetos. os seus rostos não eram tão claramente recortados como o foram no meu tempo de juventude os de Neville . eu . Eu era o herdei­ ro. As suas pala­ vras caíam do alto de uma torre e mergulhavam na água que se agita­ va. Aconteceu-me mesmo repetir o meu nome duas ou três vezes . sem feições. a mistura de perturbantes sensações imprevistas . E nós erguíamo-nos e partíamos também. que tombavam sobre mim a todo o instante vindas de todo o lado . com os seus homens de génio e os seus aventureiros . E uma vez. ao mesmo tempo envergonhado e desdenhoso . Frequentava as ruas sórdidas das cidades onde mulheres completamente bêbadas jaziam nuas sobre as colchas das camas no dia de Natal. na mais estranha amálgama de ceticismo e de entusias­ mo. eu e não Byron. Como é humilhante nunca saber o que é preciso dizer em seguida. ou com feições que mudavam tão rapi­ damente que pareciam não existir. Para descrever a Lua bastava-lhe uma palavra. Bernard. me surgiu então na forma de longas filas de magníficos seres humanos marchando atrás de mim. eram rostos confusos . Depois levantava-se e partia. Louis . e ter consciência de que se . Fui visitar o velho alfaiate que se recordava ainda do meu tio . Pelas suas paisagens os comboios apitavam e as fábricas expeliam um fumo acre . eu . E.

Temos sempre camisas . Pensamos que para aprender castelhano bas­ ta madrugar. uma convenção que nos parece útil . aqui estamos na intimidade e as nossas palavras são claras e precisas. jardineiros que varre m.que aparece e desaparece. senho­ ras sentadas a escrever . mesmo quando saímos com uma mulher para jantar. canções infantis . caminhando ao longo do Strand. com os nos­ sos coletes brancos e as formas corteses . meias e gravatas preparadas sobre a cama. nada que possa ser con­ siderado um acontecimento . sexta-feira ou sá­ bado . e o dia somos nós que o fazemos . os diminutivos os nomes . salgueiros . este avanço ordenado e militar. gritos de rua. Cedo aprendi a cortar a minha pera quando os outros já tinham terminado a sobremesa e a acabar as minhas frases no meio do mais completo silêncio .1 82 Virgínia Woolf possui uma sinceridade incorruptível que se trocaria de boa vontade por uma chuva de moedas reluzentes . Sobre a alma suave . Cobrimos a nossa agenda com jantares às oito e almoços à uma e meia. Lá fora rugem as forças indiferenciadas. O que se deve fazer em relação à Índia. Mergulhado na corrente. A minha concha formou­ -se antes da maior parte das outras . Enquanto colocamos o garfo na sua exata posição sobre a toalha invocamos milhares de rostos . um vaso que talvez conte­ nha uma flor vermelha. essa corrente profunda está repleta de vida. Irlanda e Marrocos? Cavalheiros idosos ostentando as suas condecorações à luz dos cande­ labros respondem a estas perguntas . surge uma caudalosa corrente de sonhos fragmentários. No mais fundo de nós . E.olmos . frases inaca­ badas e imagens . E conduziu-me a um recanto resguardado do salão . uma mentira. detenho-me entre dois peda­ ços de comida.o que . olho atentamente um vaso. enquanto um pensamento se forma ou me ilu­ mina uma súbita revelação. Ou então . mesmo quando chegamos pontualmente à hora marcada. Os nomes substituem os apelidos.admitiu-me na honra da sua intimidade . Ficamos imediatamente informa­ dos sobre todos os assuntos internacionais . no entanto. não é possí­ vel ali no salão em que Jinny está sentada. . muito calma e à vontade .«venha comigo» . nacarada e brilhante forma-se uma concha que as sensações em vão procuram quebrar. radiosa na sua cadeira dourada ! Então uma dama disse com um gesto solene . Mas é um erro esta precisão. Nada existe que possa ser captado com uma colher. É esta a época em que a perfeição nos atrai . contudo.

As Ondas 1 83 dizia «esta é a frase de que preciso» . . e melodias de acompanhamento complicado . de acabar com tudo e de continuar a viver. Uma sinfonia. Um homem de polainas e chicote nas mãos . Protestei contra a carne. exclamei com ironia. Susan . E depois continuava o meu passeio. Com Louis. flauta. tambor ou qualquer ou­ tro instrumento . Este cristal. é apenas uma enfiada de seis peixes que se deixaram apanhar enquanto milhões de outros peixes se me escapam entre os dedos e enchem a esfera com os seus frémitos de prata. Louis . enquanto um belo e fantasmal pássaro fabuloso. num súbito momento de exas­ peração. Mas esta semana no campo permanece na minha memória como uma rocha sólida no caudal das sensações esquecidas . com um amigo tranquilo . Depois . o amor. contemplando com renovado pra­ zer as gravatas e outras coisas expostas nas montras . De­ pois passeámos pela colina rochosa. com os seus acordes e disso­ nâncias . um peixe ou uma nuvem de contornos luminosos se erguia num instante e para sempre e uma imprecisa ideia me assediava. . Rhoda e mi�ares de outros. fiz as malas e assim regressei ao tumulto e à tortura. entregou-me uma carta escrita em papel azul anunciando-me que a jovem que fizera de mim um Byron ia casar com um membro da pequena nobreza rural . de ser Louis e de ser eu. Inúmeros rostos comprimem a sua beleza con­ tra a bolha de ar . ou formar uma ideia de conjunto. Cada um to­ cava a sua melodia. É impossível introduzir ordem nesta multidão de seres . Com Neville era o «falemos de Hamlet» . Regressei . de escapar. que ao jantar falaria longamente do me­ lhor método para engordar bois . trompete.Neville . longe de ser frio e duro ao tato é feito de uma frágil bolha de ar. violino . Se a comprimir. a que chamamos a esfera da vida. parti para Cumberlant. de ser amarrado. Uma rapariga. saí sozinho de casa e diante das montanhas eternas senti-me aborrecido e de modo algum sublime . a ciência. carneiro e mais carneiro. Foi então que jogá­ mos ao dominó e discutimos por o carneiro ser demasiado duro . Aqui de novo a música deveria intervir. rebenta. olhando as nu­ vens que desfilavam no céu e sentindo toda a extensão do meu fracas­ so e o desejo de ser livre. para passar uma semana numa pousada. des­ tacá-los um a um. Qualquer frase que extraia. vestindo a gabardina. Jinny. assomando a cabe­ ça através da porta entreaberta. inteira e intacta dessa esfera. E. Com Jinny. . enquanto a chuva deslizava pelos vidros da janela e para jantar havia apenas carneiro .

quando a mulher que me convertera em Byron já se casara. Jones . o atiçador do fogo. na superfície da corrente . o habitante do sótão. «Cuidado. que se tomaram tão fami­ liares que já nos não apercebemos da sua sombra. cuidado . amena. diante desta jovem mulher não ficaria surpreendido ao ver uma libelinha pousada no seu pão . e pouso o meu olhar sobre o mais trivial dos objetos . E o frágil e veemente bater do meu coração adquiriu um ritmo majestoso. que colhe uma rosa e que nos faz pensar enquanto nos arranja­ mos para sair. tal como o vi pouco tempo depois . Louis . a pressa e as febris sensações de juventude encontram a sua aplicação e tudo pa­ rece funcionar com a perfeição de um mecanismo de relógio . É uma impressão tão grandiosa que chega a ser absurda e temos necessidade de a ocultar saltando para um autocarro ou comprando um jornal da tarde . Mas nem por isso o fervor deixa de persistir. até no modo como atamos os sapa­ tos ou nos dirigimos aos amigos de infância que seguiram caminhos muito diferentes dos nossos . a nin- . Somos os continuadores . Quem se sentas­ se. Flutua­ mos .1 84 Virginia Woolf E. a sua presença es­ timulou o meu desejo de triunfar na vida e fez-me olhar com alguma curiosidade os rostos até aí repugnantes dos recém-nascidos . a vida é agradável . disse pensando nos meus filhos e nas minhas filhas . Flutuamos . A seguir é quarta-feira. Com que rapidez a corrente da vida nos transporta de janeiro a dezembro ! Somos arrastados pela corrente das coisas . Rhoda. Além disso. É uma dessas jovens que põe um certo vestido quando vai jantar con­ nosco . As válvulas de segurança do es­ pírito abrem-se e fecham-se com intensidade crescente. salto aqui. os herdeiros . mais não fosse para con­ tar esta história. é um assunto de certa importância! Como se dará com crianças?» Observamos que é um tanto desajeitada a segurar o guarda-chuva mas que se compadece com a toupeira apa­ nhada numa armadilha e que. afinal de contas . Mas já que é preciso saltar para a margem. Terça-feira vem depois de segunda. neste local . de manhã. no entanto . O nosso espírito desenvolve-se por anéis. por exemplo . talvez seja capaz de impedir que as torradas do pequeno-almoço se transformem numa coisa completamente prosaica (enquanto me barbeava pensava nos intermináveis pequenos-almoços da vida de casado) . Vi-o à luz daquela que designarei como a terceira Mrs . a identidade fortalece-se e a própria dor é absorvida nesta sensação de contínuo crescimento . Cami­ nhei ao acaso por Oxford Street.

. o que nos não impede de ir murmurando qualquer coisa de insensato: «ão . Existiu alternadamente o homem encantador e frágil. como pessoas civilizadas . . Bernard casou e comprou uma casa. ele precisa de o escrever. Não podemos desprezar estas frases que atravessam as nossas vidas tumultuosas como se fossem estradas romanas . o homem de aspeto desarranjado mas tam­ bém (passemos para a sala ao lado) o dandy pretensioso e demasiado bem vestido . Com isto quero dizer que acabei por fazer parte de um certo géne­ ro de homens e que abri um caminho na vida do mesmo modo que se abre uma vereda nos campos à força de lá passar.As Ondas 1 85 fa da fonte sempre à beira das lágrimas . É por isso que me . As minhas botas gastaram-se um pouco mais do lado esquerdo . Porém. produziam-se imediatamente algumas alterações . prossegue o biógrafo e. vai-te embora ! » «Alcançou certo êxito n a sua profissão . Quando entrava numa sala. Herdou algum dinheiro do seu tio» . Tive um biógrafo . o Bernard chegou . o homem amável mas frio.» É este o estilo do biógrafo .o já que começamos as nossas cartas com um «caro senhor» e as acabamos com «os melhores cumprimentos» . Mas se vivesse e con­ tinuasse a seguir os meus passos com a lisonjeira intensidade com que o fazia. o bom companheiro mas .» Quantas vezes estas palavras foram pronunciadas e com que variedade de tons ! Existiram na minha vida muitas salas e muitos Bernards . morte . Ambos escolheram o contrário do que era então para mim uma evidência (o casamento. resumiria assim o que se passou: «Nessa época. O nascimento dos filhos fez-lhe desejar um aumento dos rendimentos . a meus próprios olhos eu era diferente de tudo isso e nenhum desses Bernards me dizia respeito . ter pena deles e também olhá-los com inveja. sem dúvida. no modo lento e medido dos polícias . mesmo quando lhe apetece divagar e jogar à cabra-cega com as frases . Os seus amigos observaram nele um crescente gosto pela vida doméstica. ão . pois são elas que nos obrigam a andar a passo . a vida fami­ liar) e essa diferença fez-me amá-los . o homem enérgico mas orgulhoso. o seu modo de unir os fragmentos irregulares de uma mesma substân­ cia. se usamos suspensórios nas calças . ão . o espírito brilhante e cíni­ co. terrivelmente maçador. que já morreu há muito . Afinal de contas seria injusto desprezar o estilo biográfic. ladra o cão ! » «Vai-te embora. «Olhem .

Há sempre qualquer . poderoso e complexo . Torradas com manteiga. De respirar o ar fresco e de fazer um rápido passeio ao longo do Strand . A vida é agradável . um mundo mais rico . de repente . Ergui-me e com um passo decidido aproximei­ -me do aparelho . veias . falar às vezes . O Times e o correio no final . Ou então . nervos . no próprio instante em que pousava o telefone . ao pequeno-almoço . .me dá a sensação de existir em plena inconsciên­ cia. . Depois de colocar o chapéu na cabeça. assimilavam a mensagem. se adaptavam a um novo estado de coisas e criavam . Reparei na facilidade com que o meu espírito se preparava para assimilar a mensagem. tudo o que constitui as molas e as engrenagens do nosso ser. fechar.» E estas palavras simples para os que herdaram os tesouros dos séculos carregam-se de sentido para nós . funciona perfeitamente . intestinos . se vive no campo .e não a jovem que se enfeitava com uma rosa quan­ do me esperava . A vida é boa. o inconsciente murmúrio da máquina. E. talvez um pedido (essa fantasia ocorre-me às vezes) para assumir o governo do Império Britânico . que sendo agora inteiramente minha esposa . Abrir. . em que tinha de interpretar o meu papel . saí para um mundo percorrido por uma multidão de homens que também tinham colocado os chapéus na cabeça e . olha um galo que canta empoleirado num portão ou um potro galopando num prado . em plena vida. tal como a rã sentada à sombra de uma folha verde . . abrir. diante da mulher. «Passa-me . Consideremos um homem normal e que goze de boa saúde . beber. o leite» . enquanto nos acotovelávamos e empurrávamos nos elétricos e no metro . A língua. Encostei o disco negro ao meu ouvido . íamos trocando a familiar piscadela de olhos dos rivais e camaradas obrigados a mil artimanhas para alcançar um mesmo objetivo: ganhar a vida. Ou: «Mary vem hoje . Gosta certamente de comer e de dormir. Observei a minha compos­ tura e como os átomos da minha atenção se dispersavam e depois envolviam a interrupção . » E ela completa: « . quando nos sentimos densos e completos . Todo o mecanismo se dilata e contrai como o de um relógio .1 86 Virginia Woolf sinto cada vez mais disposto a instalar-me diante das torradas do pequeno-almoço . mas também os músculos.. O próprio facto de se existir contém uma certa voluptuosidade . que todos os dias as pronunciamos . um papel que me sentia capaz de desempenhar. Café com bacon . soou insistente a campainha do telefone . comer. fechar.

absolutamente desprovido de obstácu­ los . até ao hori­ zonte sem mácula. com uma certa preguiça. À hora do jantar estava de mau humor. Pois o claro espaço aberto diante de nós . tal como um milionário que pudesse lançar cinco xelins pela janela. disse . Crescemos pela acumulação de sucessivas camadas até nos tomarmos robustos . como se esses dois esta­ dos dividissem o meu corpo a meio . Ao mesmo tempo observava o que se passava em casa. é agora metódico e ordenado . sentia volúpia em pertur­ bar com uma ligeira onda a imensa estabilidade da nossa vida con­ jugal . cobre a areia fresca ou retira-se lentamente . O que era ardente e furtivo como um punhado de grãos lançados no ar e dispersos em todas as direções pelos desor­ denados ventos da vida. Depois de segunda-feira vem terça e a seguir quarta. E foi contra isto que embateu com estrépito a morte de Percival . Disse para . .As Ondas 1 87 coisa para fazer. Fiz críticas injustas . não somos obrigados a transformar esta prosa em poesia . Antes de nos deitarmos fizemos as pazes no patamar das escadas em frente da janela aberta para um céu tão claro como o interior de uma safi­ ra. energia e violência existem nestes corpos. para lá da paisagem atormentada das chaminés e dos telhados . pensava ao ver os homens de calções brancos correndo atrás da bola. semeado com um objetivo . «Graças a Deus» . . Ou pelo menos assim parece . Meu Deus ! Como a vida é agradável ! Como é boa a vida ! Como parece suportável a vida dos pequenos comerciantes quando o com­ boio atravessa os subúrbios e avisto as janelas iluminadas dos quar­ tos . Que dureza. E cada dia emite as mesmas ondas de bem-estar. permitia às nossas vidas entenderem-se até ao infinito . Esta linguagem simples é suficiente . sobre a neve de janeiro . tomada ainda mais feliz pelo nascimento próximo de um filho . obedece ao mesmo ritmo . Maldisposto por qualquer razão insig­ nificante (talvez a carne mal cozinhada) . a cozinheira cantava e avistava-se um armário pela porta entreaberta. o vento movia uma cortina. interroguei-me descendo as es­ cadas no dia do nascimento do nosso filho . ou um clown que propositadamente tropeçasse num banco . O que é a felicidade . que se dirigem para a cidade com a sua saca de ferra­ mentas . Admiro estes operários ativos e enérgicos como uma n:mltidão de formigas . o que é a dor? .

«Aqui» . e admirar a beleza que têm em si ! E depois tive a sen­ sação de que me tinha livrado de um peso . estalidos . reflexos bran­ cos atravessando cobertas de algodão . Depois veio um terrível golpe de memória que não pôde ser previsto nem evitado . sem aderir a elas . como terá caído . arcadas e laranjeiras . ignorei os jornais e fui ver quadros numa galeria de arte . pareceu-me uma conquista. A leveza chegou e com ela uma transparência que deva a estranha sensação de se ser invisível e de ver através das coisas .1 88 Virginia Woolf mim próprio . Seriam necessários gritos . porque estragara. essa imunidade . que tinha em sua casa um quarto com . silenciosas como no primeiro dia da criação . e sobre isso qualquer coisa de muito importante e remoto que só na solidão pode ser captado . carne rasgada de onde o sangue jorra. com que aspeto ficou e para onde o levaram. seria necessária também a impressãO da extrema fixidez das coisas que passam. tantos anos passados .» Mas não existem palavras para expri­ mir a dor. Como era estranho ver as coisas por fora. esse momento de perfei­ ta comunhão? Continuei a repetir melancolicamente que não tinha ido a Hampton Court e assim expulso do santuário pelos demónios da vingança. Saí. mergulhou-me numa exaltação tal que ainda me acontece voltar lá agora. O pior dos tormentos é a terrível atividade da imaginação. Não fora com ele a Hampton Court. Os pardais pareciam brinquedos que uma criança puxasse por um fio . para não perturbar este estado de espírito . Virgens e colunas . As ficções . Não há processo de escapar. mas já habituadas à dor. lama. procurei Jinny. ruídos longínquos e subitamente próximos . uma articulação bruscamente retorcida. as falsas crenças e a irrealidade desapareceram. estavam penduradas das paredes e eu olhava-as . Vi a primeira manhã que Percival não veria. Porque interrompera. fendas . Não fora a Hampton Court. ligaduras . os dentes dilaceravam-me . «Qual seria a próxima descoberta?» . «podemos estar juntos sem que nada nos perturbe . Mas uma tal impressão durou pouco tempo . As suas garras rasgavam-me. uma nova perceção do tempo e do espaço. Apesar de ele me assegurar com impaciência que isso não tinha qualquer importân­ cia. Mal entre na sala vai sofrer. falando de mim como se de outra pessoa se tratasse: «Concedamos uma pausa a esse infeliz . homens com um trapo atado à cintura puxando cordas .» E essa liberdade . disse . para reencontrar essa sensação e com ela Percival . per­ guntei a mim mesmo e .

insensata e imbecil determinação de continuar a viver quando a todo o momento uma telha pode cair. a expressão voluptuosa e cúpida das mulheres contemplando as montras . Mas apesar de tudo regressei à minha acolhedora . Observei com desencantada lucidez a desprezível insignificância das ruas . Comparámos Percival a um lírio. as persianas das janelas . estimulou o seu corpo com o chicote . através dos risos e das críti­ cas à sua memória. Foi como se visse a primeira folha cair sobre o túmulo de Percival . Depois . os pórticos . porque não se pode responder por nada quando um bêbado tem o direito de circular pela cidade com um volante nas mãos. como aquele a quem explicam o modo como são pro­ duzidos os efeitos . segurando os cabelos com as mãos para evitar que o vento os despenteasse . Mais vale cometer uma blasfémia contra o morto . respeitou integralmente aquele momento .que a meus olhos pareciam li­ geiras mas que a torturavam . passou pó de arroz pelas faces (amei-a por isso) e disse-me adeus da porta de sua casa. que não se preocupa com o futuro nem com especulações filosóficas . Assim terminou esse momento de sinceridade em que o real se tomou simbólico . Ela lembrava-se de ter cometido faltas do mesmo género .mostrando-me assim como a vida se toma sombria por haver coisas que é impossível partilhar. exsudar esta seiva de lírio pegajosa e doce . o Percival que eu desejaria que vivesse tempo suficiente para perder os cabelos . que cobri-lo com frases . e uma tal mudança foi-me insuportável . Ali confessei chorando que não tinha ido a Hampton Court com Percival . sentados no sofá. ou um automóvel derrapar e esmagar quem vai no passeio . recordámos o que os outros já tinham dito: «O lírio é muito mais belo em maio» . os velhos com cachecóis de lã apanhando ar e a prudência das pessoas ao atravessarem a rua: a universal . Eu era como o homem a quem é permitido assistir à representação entre os bastidores . gesto a que rendi homenagens porque confirmava a nossa determinação em não deixar os lírios crescer sobre os túmulos . Mas nessa altura entrou uma criada com um bilhete e quando Jinny se sentou para lhe responder tive curiosidade em saber a quem escrevia.As Ondas 1 89 bibelôs espalhados pelas mesinhas . Vi como passávamos por aquele momento e definitivamente o deixáva­ mos para trás . gritei . as roupas monótonas . Os lírios das nossas frases cresciam já sobre o seu túmulo. Parti e Jinny. abalar as autoridades e envelhecer comigo .

tarde na noite. O galheteiro sobre o aparador. uma fruteira com bananas . agitando no ar uma cabeleira de alva espuma. outros a poesia. mas o sentimento do incom­ preensível mistério da vida . São ima­ gens que tranquilizam. lanço-me ao assalto da praia. As etiquetas de nada servem já. Expus-lhes a minha dor . levanto-me . Não haveria uma espada. ou . mas que nem sequer isso consigo estabelecer. eu a quem não basta a beleza que existe na Lua e nas árvores e para quem o contacto de uma pessoa com outra é tudo. em busca da perfeição. A criança dormia. como Louis . e nada é capaz de me deter. sinto-me esgotado e as minhas águas mal conseguem rodear o cardo marinho e não alcan­ çam sequer aquele rochedo mais distante . o gerar de filhos . ou como Rhoda fugir para o deserto. Fui para o meu quarto . Sentado na solidão .1 90 Virginia Woolf casa e a criada aconselhou-me a tirar os sapatos antes de subir as escadas .e pedi-lhes que a examinassem comigo .eu fiquei toda a noite sentado à espera. busco qualquer coisa intacta entre frases e fragmentos . o seu secreto sentido da morte. sofro com a minha incapacidade de alterar as coisas . Visitei cada um dos meus amigos . ten­ tando com dedos inseguros abrir os seus pequenos cofres fechados . como Jinny. Todos têm os seus momentos de êxtase . De novo um impulso me percorre. a vida atrás das cortinas . É este o final da história? Uma espécie de suspiro? O último frémi­ to de uma onda? O fio de água que se escoa e morre no ribeiro? Vou tocar nesta mesa e regressar à realidade . E por isso . Mas espere um pouco . Eu refugio-me junto dos meus amigos . Mas se não há histórias . per­ manentemente imperfeito . não a dor. onde em cada dia que passa estamos mais enredados entre livros e quadros? É preferível consumir a vida. ou como Neville eleger um ser ama­ do entre os milhões de seres que existem. frágil e indizivelmente solitário . ou que começo? Talvez a vida não possa ser contada. continuo sentado na solidão. um cesto repleto de pãezinhos. a proteção. uma arma capaz de demolir aquelas mu­ ralhas . vou procurar o meu próprio coração . Alguns procuram os sacerdotes. É estranho ver como as ondas de energia se esvaem na terra ressequida. cheguei ao fim. que final poderá haver. Tudo acabou . ou ser parecido com Susan e maldizer e abençoar alternadamente o sol brilhante ou a erva quei­ mada pela geada. Sentado à mesa.não . Isto quer dizer que fiz a barba e me lavei. qualquer coisa que lhes serve de apoio . ser um honesto animal . evitei acordar .

no entanto. O mun­ do repleto de uma brumosa consciência de si obedecia vagamente a um ritmo . Vi os seus vultos sob as faias de Elvedon . tal como na minha infância. No meu espí­ rito esvoaçava uma sombra. mas apenas por um instante . Os jardineiros varriam. o jardineiro cavava. o sentido da inevitável fatalidade . Depois da segunda-feira vem terça. ouvia-se o habi­ tual murmúrio campestre das gralhas e dos pombos. os jardineiros varrendo e a senhora sentada a escrever. mas porquê?» Sentámo-nos no jardim. pois a minha imagi­ nação depressa se cansa. o conhecimento dos nossos limites e a consciência de que a vida é mais inexorável do que imaginávamos . semelhante às asas da mariposa que à noite volteia entre as cadeiras e as mesas de uma sala. E a luz das estrelas caía sobre as minhas mãos como agora cai . As carroças da quinta passavam transbordantes de feno. Coloquei o chapéu na cabeça e saí para ganhar a vida. Essa ideia paralisou-me. Por exemplo. ao tomar uma chávena de chá hesitei em pedir leite ou açúcar. com o seu balouçar de mulher grávida. As abelhas zumbiam nos cálices vermelhos das flores e incrustavam-se nos dourados escudos dos girassóis . naquele verão. A senhora sentada à mesa escrevia.As Ondas 191 a minha mulher e tomei o pequeno-almoço . a morte . Então erguera-me de um salto propondo a Susan explorar os arredores . Sentado num banco . Mas uma dúvida permanecia. Florestas cobertas de uma espessa folhagem verde estendiam­ -se à minha frente . quando fui a Lincolnshire. paralisando-o . E um odor. nos submetemos à estúpida Na­ tureza. na estação em que esperava o comboio . ou talvez um ruído . após ter viajado milhões de anos . Ao abrir a porta. Mas tudo aquilo me era odioso como uma rede que envol­ vesse o meu corpo com as suas malhas . . atingiu os meus sentidos e despertou recordações antigas . E o horror da situação terminara. pen­ sei na facilidade com que cedemos . O vento arrastava sobre a erva pequenos ramos . uma dúvida permanecia. E. para ver Susan e ela avançou para mim através do jardim com o preguiçoso movimento _de uma vela meio enfunada pelo vento. a saciedade e o destino. Mas ago­ ra acrescentava às intuições da infância o contributo da maturidade. a fruta estava protegida com sacos. fiquei sur­ preendido por encontrar pessoas ocupadas. pensei: «A vida continua. tomei consciência da presença do inimigo: o instinto da luta despertou em mim . E subitamente . Ela que tinha recusado Percival deixava-se cobrir por esta capa.

Regressei ao mundo do esforço e da luta.não já o perturbante êxtase da juventude . Com uma frase súbita prendi-as na rede . Também gosto de ver passar o ruidoso cortejo da existência. Gosto de tudo isto quando. O animal dos campos . o espesso verde das suas folhas clareou . É assim que quando me apoio contra a massa banal da vulgaridade . aqui onde me sentei com as costas apoiadas numa sebe e o chapéu descaído para os olhos . por um momento. consigo desembaraçar-me do inimigo. As árvores dispersas ordenaram-se. num teatro . Ergui-me . E o que é que falta ainda explorar? O bosque já não oculta nenhum segredo debaixo das folhas . alguma coisa salta: um fio dentado de fogo . absorvente em­ penhamento em cada dia. os candeeiros que se ali­ nham nas calçadas e o esplendor dos mercados de rua. até amanhã» . esta seria a mais baixa que havia de assinalar: lama inútil onde a maré não chega. retomei a guerra incessante . Retomei o meu pensamento . E assim regressei a Londres ao anoitecer. a destruição e a reconstrução das coisas . o terrestre e informe animal . Lancei o meu grito de luta. com as suas vitórias e derrotas . convertendo-se numa dança de luz . Se pudesse medir com uma vara graduada as curvas da minha vida. uma chama de ódio e desprezo sai de mim. no passo a passo das suas patas firmes e pontiagudas . Como é agradável esta atmosfera feita de bom senso e odor do tabaco ! Há ve­ lhas com grandes cestos que sobem para as carruagens da terceira classe . no modo rígido que lhes é próprio . Subi para a minha carruagem. quase inanimado . entre os detestados restos do naufrágio . O comboio chegou e deteve-se alongando-se pelo cais . esse velho objeto rejeitado .1 92 Virginia Woolf Mas que situação havia agora para terminar? Tudo é aborrecimen­ to e ruína. O voo de uma ave já não me inspiraria um poema. mas as calmas luzes de Londres: as duras luzes elétricas dos escritórios no último andar dos edifícios . Mas se esfregar­ mos tempo suficiente uma lâmina embotada numa pedra de amolar. por exemplo. o meu ser. E depois as luzes de Londres . do erro e da falta de sen­ tido . cachimbos lentamente aspirados e amigos que ao despedirem­ -se nas estações dizem «boa-noite . e servi-me dele para golpear em todos os sentidos a superfície oleosa das águas mortas onde flutuam ao acaso ramos e pedaços de palha. Só poderia repetir o que já antes dissera. Com uma simples frase arranquei-as ao caos. as raras bandeiras dilaceradas . enquanto os rebanhos de carneiros avançam implacavelmente .

quartos varridos e arranjados. E no intervalo de silêncio em que as ondas desta emoção se propagam. tapetes recorta­ dos contra os passeios. saíamos da abó­ bada formada pelas folhas da groselheira e desembocávamos num universo mais vasto. uma sacudidela do tempo nas coisas . Rastejando. Homens de mão frágeis e mulheres com cascatas de pérolas caindo das orelhas . comida. Então . Tom e Betty. em vez de calçar os sapatos envernizados e usar uma gravata decente.As Ondas 1 93 cor da argila. e uma juventude tão voltada para o prazer que nos levava a pensar que o prazer deve existir. fogo. luta com os bosques e os prados revestidos de verdura e contra os carneiros que ruminando sempre avançam com o seu passo lento . Parecia ser para ela que os prados ondulavam e o mar se encapelava em pequenas ondas. Foi por isso que . foi lá que brincámos e partilhámos os segredos . quando fui . Vi rostos de velhos que os trabalhos da vida tinham sulcado de rugas e sarcasmo. mas passado algum tempo uma diferença surge . A vida é agradável. porém. A seguir é quarta-feira. Era aí que podia encontrar Jinny e Hal. O mundo revelava-nos finalmente o seu verda­ deiro sentido (é essa a nossa perpétua ilusão) . escutar. e os bosques murmuravam à passagem dos pássaros coloridos apenas por causa da juventude e das suas esperanças . Uma dife­ rença que pode ser sugerida uma noite pelo aspeto do quarto ou o arranjo das cadeiras . levanta-se e. Engana-se . no recanto de uma sala. que me conheceu quando fui Byron. Com brusca emoção . a jovem com quem devía­ mos ter continuado a conversar diz para si mesma: «envelheceu» . pensamos: «há figuras sem rosto que estão revestidas de beleza» . com infinita ingenuidade e esforço. a nossa vida harmoniza-se com a majestosa mar­ cha do dia através dos céus . a vida é boa. que entravam e saíam. Não é a velhice mas apenas uma nova gota que cai . e a bele­ za de tal modo cuidada que jorrava com frescura mesmo na velhice. Depois de segunda-feira vem a terça. Durante um instante. fui procurar Neville . vinho e conversas . subitamente . Fui procurar o mais antigo dos meus amigos . E naturalmente havia janelas iluminadas ao longo das ruas cinzentas. Temos a sensação de que é agradável afundarmo­ -nos no sofá do canto e olhar. Sim. dois vul­ tos de costas para a janela surgem recortados contra os largos ramos de uma árvore . nunca nos separando à porta sem combinarmos novo encontro num local sugerido pela oca­ sião e a estação do ano .

pego num livro . Uma mesa perfeitamente arrumada. como uma barbatana que fende a vasta extensão silenciosa para logo em seguida voltar a afun­ dar-se nas profundezas . compa­ rámos as diferentes versões que deles tínhamos e essa troca de pontos de vista permitiu a cada um de nós ver a uma nova luz o seu próprio Shakespeare e a sua própria Peck. Foi Neville que transformou o tempo em que vivíamos . pen­ sei. Fui encontrá-lo sozinho . de um encontro . árvores carregadas de frutos . Mas subitamente ouvimos o bater do relógio. Havia ali liber­ dade e intimidade. que tanto pode ser Shakespeare como uma mulher chama­ da Peck e digo para mim mesmo . Está sentado 11a mesma poltrona e veste as mesmas roupas desde o dia em que o conheci. Nada. deixando atrás de si um leve ondular de satis­ fação e contentamento . De vez em quando destaco um fragmento . o reflexo da lareira destacava na cortina a forma redonda de uma maçã. Quando tenho de esperar. assim é Peck» . tateio a prateleira em busca de um livro .1 94 Virgínia Woolf discípulo de Meridith e também a personagem de Dostoievski cujo nome esqueci. É uma sensação dolorosa. pelas quais passamos tantas vezes juntos que a erva está pisada e morta em redor de muitas delas . um estilete para cortar papel colocado entre as folhas de um livro francês . Depois deslizamos para um desses silêncios que só raras palavras perturbam. dos nossos poemas e das peças preferidas . a ler. com a certeza de um reconhecimento e a surpresa de um conhecimento que me dá uma alegria infinita embora incomunicável . Foi desse modo que Neville e eu compartilhámos as nossas Pecks e os nossos Shakespeares. Conversámos sentados no quarto e depois pas­ seámos pela avenida. sombreada pelas árvores de folhagem espessa e rumorejante . a erva onde ao acaso caminhamos sem cessar ficará para sempre morta. Sim. O vasto e nobre espa- . uma cortina caindo em pregas verticais . remexeu a lareira e começou a viver no tempo que marca a aproximação de outra pessoa. altera a postura ou as roupas que os nossos amigos tinham quando os encontrámos pela primeira vez. enquanto fumo um cigarro deitado na cama: «assim é Shakespeare. Se desperto de noite. A acumulação de conhecimentos ignorados aumen­ ta constantemente no meu cérebro . Readquirimos cons­ ciência de um mundo diferente daquele em que havíamos mergulhado . que estivera a pensar no tempo infinito em que o inte­ lectual se move e onde apenas o clarão de um instante nos separa de Shakespeare. Ele .

As Ondas 1 95 ço do seu pensamento retraiu-se . Meu Deus ! Como se cravaram em mim. obcecada por visões . As pregas da cortina imobilizaram-se. Afastava a cortina para olhar a noite . perguntava a mim mesmo qual seria a relação que unia Louis e Rhoda e o que diriam quando estavam sós . inesperada e fria. cheia de dúvidas . Olhava vaga­ mente sobre os telhados . caminhar com ele . Enquanto subia as escadas . Por isso me levantei e deixei Neville . Agora estava alerta. de Louis e Rhoda. como esperava distinguir um sinal e com que rapidez de serpente lan­ çava um olhar à maçaneta da porta (daí a espantosa acuidade das suas perceções. Observei como se esforçava por separar um passo de todos os outros passos . as garras da antiga dor. rir com ele de Neville . impulsionado pelo desejo de obter certezas e o contacto huma­ no . Esperei . tor­ naram-se esculturas. Ouvi um ruído no vestíbulo . um momento particular. Louis . mergulhada em sonhos . Uma paixão de tal modo concentrada rejeita o resto do mundo . mais pesado. ele sempre foi treinado na atenção à pessoa amada) . de frases e de notas para registar em cadernos . preparando desajeitadamente o chá. Dei-me conta de como a minha própria natureza era v_aga. quando saí do quarto . Depois lembrei-me de Percival . O que ele estava a dizer tremulou no ar como uma chama insegura. ne­ bulosa e repleta de sedimentos . sempre em lágrimas . rindo . Há meses que não pensava nele . A rua estava vazia. Louis estava talvez ocupado a deitar leite num pires para o gato . externo. cujas mãos ossudas se fechavam como as duas extremida- . Agora queria rir com ele . De entre as miríades de seres humanos de todos os tempos ele escolhe­ ra um ser. Mas ele não estava ali . ela a ninfa da fonte . Reparei que es­ cutava os sons que vinham da rua e no modo como ajeitava a almofada. «Ah. se converteu numa cena em que eu não podia participar. tudo se tornou definitivo. É tão estranha a maneira que os mortos têm de se lançarem sobre nós à esquina das ruas e nos sonhos ! Foi essa rajada de vento . o desenho feito no tecido da cortina começou a brilhar. Imaginei Rhoda. com as mãos sobre os ombros . do mesmo modo que um fluido imóvel e cintilante expulsa qualquer matéria es­ tranha. o desejo de alguém que não estava ali ! Quem? A princípio não sabia de quem se tratava. partir! A charneca está escura sob o luar.» Toquei . o pisa-papéis sobre a mesa tornou-se mais duro. que me arrastou naquela noite através de Londres em busca de outros amigos .

como os visitamos pouco. entre­ laçou-a sem medo entre as outras . esperan­ do os grãos que Susan lhes lançava com os seus dedos terrenos e há­ beis . Sim. As noites em que o ranger dos elétricos se mistu­ rava aos seus gritos de prazer e a agitação das folhas resguardava o seu langor. Como estão distantes . os homens de pómulos salientes e os homens solitários envoltos em roupas feitas de crinas . Encontrarão pedaços de fita enrolados . Andava pelas suas terras seguida por homens com polainas e com a bengala apontava um telhado . não é apenas para o meu passado que volto o . raramente visitados e como sabemos pouco deles . Assim. ao mesmo tempo que se levanta para ir ao encontro do homem. Sem ilusões . Chamei . Pensei em Susan .1 96 Virginia Woolf des de um dique sobre o imenso tumulto das águas . em sua casa um jovem con­ vidado . um fantasma que às vezes se avista. As pombas seguiam-na balouçando sobre as patas . Comprara novos campos . a deliciosa lassidão a que se entregava. Na videira. Os nossos amigos . Pepinos e tomates amadureciam nas suas estufas . refrescada por todas as doçuras da natureza satisfeita. A conversa habitual atingira o seu secreto objetivo . Esperei . Certamente a vida é um sonho. sem dúvida. Jinny apagava as luzes do quarto e arranjava as cadeiras . . dura e clara como cristal . como nas primeiras noites de primavera em que a sombra das árvores . Ninguém me respondeu . aquilo a que chamo a «minha vida» . «Mas já não me levanto de madrugada» . Mas a porta continua a abrir-se . Deixa que os seus raios a atra­ vessem. tudo estará em ordem. Louis que sabia o que disseram os egípcios e os índios . a esta mesa. Desci os degraus de pedra. enfrenta o dia com os seios nus . Mas quando encon­ tro um desconhecido e tento expor. mas raramente se vê . Caminhava pesadamente através dos campos acompanhada pelos filhos . queimada pela geada do ano passado . Pensei depois em Jinny recebendo. dizia Susan . aqui. silenciosos . Lembrei-me dos meus amigos . porque ela ainda busca o momento encantado . Quem é? Pergunta. Os ami­ gos . duas folhas recomeçavam a crescer. E quando uma madeixa embranqueceu na sua fronte .é verdade . sob as grandes casas de Londres onde dormiam respeitáveis cidadãos . uma sebe . A chama de vontade que arde em al­ guns olhos depressa se apaga e tudo se extingue então . um muro que precisavam de ser ar­ ranjados . preparada. como os conhecemos pouco . mal dava para ocul­ tar os seus amores . quando forem enterrá-la. E também eu para eles sou inisterioso e desco­ nhecido. .

os espiões senta­ dos à nossa mesa. Se pudesse medir as coisas com um compasso. envolta na nebli­ na das palavras . pelo seu modo de vestir e o facto de trazerem ou não trazerem bengala. A s trevas bramiam. O vento e o ruído das rodas dos au­ tomóveis converteu-se no rugido do tempo . como crianças que quando se parte o bolo veem diminuir a parte de onde sairá a sua fatia. tão limpo e exato . extintos como as centelhas num papel incendiado . pois tinha vergonha do seu êxito e da sua vida passada num quarto e dedicada a uma só pessoa. tudo o que não tínhamos alcançado e. sentimos que à nossa volta cresciam as grandes trevas do que nos é exterior. porque cada um de nós se compro­ metera numa atitude que parecia contrariada pelos que iam chegando ao ponto de encontro .» Por um instante vimos entre nós o cadáver do ser completo que não tínhamos conseguido ser. Bati com uma colher na mesa. por um instante . Pensei em tudo isto naquela noite de princípio de outono em que mais uma vez nos reunimos em Hampton Court. alinho frases . Neville. ao observar Neville . Erguemo-nos e avançámos juntos pela avenida. Vimos tudo o que te­ ríamos podido ser. Quem éramos? Por um instante desaparecemos . invejámos os amigos que tinham obtido êxito onde nós fa­ lháramos . mas como as frases são a minha única medida. Começámos por nos sentir muito pouco à vontade .As Ondas 1 97 olhar. coisa que nós não conseguimos fazer. qual foi a que fiz nessa ocasião . Então Neville começou a vangloriar-se . Naquela mesa de Hampton Court transformámo-nos em seis indivíduos . Vi que Jinny olhava os dedos terrosos de Susan e depois escondia os seus. disseram um para o outro: «Afinal de contas Ber­ nard bem pode pedir ao empregado para nos trazer pãezinhos . daquilo que não somos . E a meio da refeição.nem como distinguir a mi­ nha vida da sua. mas vários. e sentimo-nos precipita­ dos no desconhecido . À luz subtil e irreal do . Em mim. Terminou por um ato da minha vontade. Rhoda ou Louis . esta sensação durou apenas um segundo . Apesar disso bebemos a nossa garrafa de vinho e sob o seu sedutor efeito cessaram as críticas e as comparações . Atravessámos o tempo e a história. dei-me conta do caráter vago da minha vida. Susan. mas que ao mesmo tempo não conseguíamos esquecer. não sei bem quem sou Jinny. Louis e Rhoda. os conspiradores . não sou um único ser. porém. não deixaria de o fazer. Ignoro .

como uma onda que se desfaz. Inter­ rompêramos qualquer coisa. os seis . tivessem decidi­ do partilhar uma última canção . de ser arrastado para cima e para baixo no clamor de uma alegria. Os barcos a vapor esvaziavam-se de turistas . de um desejo quase sem sentido . vi resplandecerem como manchas brancas os vultos de Neville. ali estávamos ardentes e triunfantes . ao calor retido pelos bosques nos dias quentes . entregámo-nos à folha mais próxima. perdemo-nos na escuridão das árvores . o desejo de ser arrastado para cima e para baixo no clamor das vozes de muitas vozes desconhecidas cantando a mesma canção . O momento presente era tudo . de um sentimento . bons ou maus . foi com algum constrangimento que verificámos que os dois conspiradores continuavam imóveis no local em que os deixá­ ramos . recobria a nossa satisfação como as nossas frustrações . Susan e eu separámo­ -nos . Contra um portão . Susan e o meu próprio corpo . a uma criança que passava com o seu aro . Jinny. deixando Rhoda e Louis no terraço . a um pássaro determinado . entre as rama­ gens . agitando os chapéus . junto da uma. As luzes iam-se extin­ guindo quando parámos um instante no terraço que dá para o rio . Tínhamos perdido aquilo que eles haviam conservado . Rhoda. causado ciúme . Mas não naquele instante . O rei Guilherme continuava a parecer-me uma personagem irreal com o ouro da sua coroa. apoiados ao muro . por on­ das . Quando regressámos à superfície . por um instante arranca­ dos à infinita abundância do tempo passado e futuro . às luzes que se entrelaçam como fitas brancas nas águas trémulas . ao longe ouviam-se vozes e cantares como se as pessoas . O som do coro chegava-nos através do rio e senti agitar-se em mim o desejo antigo que toda a vida me acompanhou . não podia evitar que tombassem na água as coisas que um momento antes me tinham excitado a curiosidade . depois desta imersão suave e profunda. Mas estávamos cansados e o obscuro véu do ocaso caía sobre os nossos atos . divertido . Neville . despertado a vigilância e muitos outros sentimentos . Separámo-nos . Não podia concentrar-me . de um triunfo . a nossa vida e a nossa identidade. Não . eleitos entre milhões de seres humanos .1 98 Virginia Woolf crepúsculo. ao cão que saltava de ale­ gria. continha tudo. Louis . a alegria e a sensualidade apoderaram-se de mim. pôr-me de lado. contra o trono de um cedro. E depois . como o eco de risos que se ouvem numa alameda. Mas nós .

Jinny. este fluir em que esta­ va confundido com Susan . O barbei­ ro começou a mover as tesouras sobre o meu cabelo . semelhante ao que fazem os elos de uma cadeia que se agita. que dorme quando dentro de nós a vida se agita e arde ao rubro quando dormimos . disse para mim. até ao local onde as aves marinhas pousavam nas estacas que se erguiam sobre as águas encrespadas que depois se convertiam em ondas . Neville. ramos em flor. Por isso nos separámos . esgueirando-se com uma rapidez inacreditável. Recostei-me na cadeira e envolveram-me o pescoço com um pano. Rhoda e Louis? Uma nova conjunção de elementos? Um presságio do que estava para vir? A frase foi escrita e o livro fechado . dei-lhe continuidade . é assim que jazemos lado a lado sobre a erva húmida. nem de suportar o nos­ so fardo. «Passarei a vida a bater com a colher na mesa?» . perguntei-me . É assim que nos cortam e nos cobrem com sudários . Nunca exponho as minhas lições a uma hora marcada.vimento. Fomos cortados . Era então uma espécie de morte . Passavam com um clamor semelhante ao que um comboio faz ao atra­ vessar um túnel . ao percorrer Fleet Street. já não temos de permanecer de pé quando a tempestade sopra. Não será melhor ceder como os outros? Os autocarros passavam completamente cheios. Rodeado de espelhos . caímos . avançavam uns atrás dos outros e detinham-se com um ruído metá­ lico . lembrei-me desse momento. Renunciamos ao tempo que era nos- . Já não temos de nos expor ao vento e à neve no alto das sebes nuas . ramos mortos . a essa silenciosa. esta fuga. Os passeios estavam repletos de gente . olhavam e voltavam a partir com indiferença. podia ver o meu corpo manietado e as pessoas que paravam. Mais tarde. Sentia-me impo­ tente para deter as frias oscilações do aço . fuga sob os arcos da ponte . à hora de maior mo.As Ondas 1 99 conseguia subtrair-me a essa dispersão incessante . já não precisamos de ficar silenciosos e imóveis nos pálidos meios-dias em que as aves se refugiam nas folhagens e a humidade branqueia as folhas . Multidões de homens carregando pastas . passavam como um rio durante uma enchente. mergulhei numa ruela escura e entrei na barbearia onde costumo cortar o cabelo. porque o meu gosto pelo estudo é intermitente . contornando os grupos de árvores e a ilha. Tomamo-nos parte do universo insensível . Não era capaz de me subtrair àquela dispersão . Escolhi o momento para atravessar.

200

Virginia Woolf

so , e agora jazemos inertes , emurchecidos , em breve esquecidos . E
nesse instante vi no canto do olho do barbeiro um brilho que exprimia
o seu interesse por qualquer coisa que se passava na rua.
O que é que despertara o interesse do barbeiro? Que via ele na
rua? São coisas como estas que me fazem regressar à vida real . (Pois
eu não sou um místico e há sempre qualquer coisa que me puxa pela
manga; a curiosidade , a inveja, a admiração , ou o interesse que tenho
pela vida dos barbeiros e indivíduos semelhantes , fazem-me voltar à
superfície .) Enquanto ele escovava o meu casaco , procurei , não sem
esforço , desvendar a sua alma e depois , balançando a bengala, dirigi­
-me para o Strand e invoquei , para me servir do contraste , a imagem
de Rhoda, sempre tão furtiva, com os olhos cheios de receio , sempre
em busca de uma coluna perdida no deserto , em busca da qual ela
tinha partido e pela qual fora capaz de morrer. «Espera, dizia eu
segurando-lhe o braço em imaginação (pois é assim que tratamos os
amigos) . Espera que os autocarros passem. Não atravesses tão im­
prudentemente . Estes homens são teus irmãos .» Procurando persuadi­
-la, procurava ao mesmo tempo persuadir-me a mim próprio . Sim,
porque esta vida não é apenas uma vida, e às vezes ignoro se sou
Bernard ou Neville , Louis ou Susan , Jinny ou Rhoda, de tal modo
são estranhas as relações que temos uns com os outros .
Balançando a bengala, o cabelo acabado de cortar e uma certa co­
michão na nuca, passei pelas bandejas com brinquedos baratos im­
portados da Alemanha, que os vendedores oferecem na rua St. Paul
- St. Paul, a galinha choca de asas abertas , à volta da qual se agitam
as correntes da multidão e passam os autocarros na hora de ponta.
Imaginei Louis subindo aquelas escadarias , com o seu fato impecá­
vel , bengala na mão , o passo anguloso e um tanto altivo e o seu sota­
que australiano («o meu pai , banqueiro em Brisbane») . Sem dúvida
participaria nas cerimónias religiosas com mais respeito que eu , que
ouço as mesmas lengalengas há milhares de anos . Sempre que entro
nesta igreja fico impressionado pelos brilhantes tons de rosa, os bron­
zes reluzentes e o salmodiar dos cantos onde se destaca a voz de um
menino que se lamenta e esvoaça como uma pomba perdida. Fico
também impressionado com a paz e a postura dos mortos - guerrei­
ros descansando sob os seus antigos pendões . Depois faço troça de
um túmulo , absurda e floridamente adornado , e também das trombe-

As Ondas

20 1

tas e das vitórias e dos escudos de armas e da certeza, tão clamorosa­
mente afirmada, na ressurreição , na vida eterna. Depois a minha vista
inquieta e inquiridora oferece-me a imagem de uma criança atemori­
zada, de um velho reformado que avança arrastando os pés e das ge­
nuflexões das empregadas das lojas , com os seus pobres seios ma­
gros , esgotadas por sabe Deus que combates interiores , que se vêm
refugiar aqui à hora da saída dos empregos . Erro ao acaso , olho e
admiro e às vezes , furtivamente , tento ascender nas asas de uma ora­
ção até à cúpula da igreja e até mais longe , até onde vão todas as
orações . Mas depois , tal como a pomba perdida que se lamenta, sinto
que as forças me faltam, esvoaço , desço e pouso numa curiosa gárgu­
la, o nariz gasto de uma estátua ou qualquer absurda pedra tumular.
Divertido , espantado , volto a observar os turistas que pass am segu­
rando os roteiros , enquanto a voz do menino do coro se alça de novo
em direção à cúpula e o órgão se entrega a momentos triunfais que
fazem lembrar a marcha dos elefantes na floresta. Como poderia Lou­
is combinar tudo isto? Como conseguiria ele delimitar-nos , unir-nos ,
com ajuda d a sua fina pena de tinta vermelha? A voz extinguiu-se na
cúpula, tomou-se um lamento .
Estou de novo na rua balançando a minha bengala, olhando os ex­
positores metálicos nas montras das papelarias e as cestas de frutas
exóticas , trauteando uma canção infantil, Pillicock sentava-se na coli­
na de Pillicock, ou ão, ão, ão , ladra o cão , vai-te embora, morte , vai-te
embora, misturando o absurdo com a poesia e deixando-me arrastar na
corrente . Mas há sempre alguma coisa para fazer em seguida. Terça­
-feira vem depois de segunda; quarta-feira depois de terça. Cada dia
espalha ondulações à sua volta. O ser cresce em círculos como o tron­
co das árvores . E, como uma árvore , vê cair as suas folhas .
Um dia, quando estava apoiado numa cancela que dava para um
campo , o ritmo deteve-se , detiveram-se os versos , as canções infan­
tis , o absurdo e a poesia. O meu espírito tomou-se vazio . Vi através
da espessa folhagem do hábito . Debruçado nessa cancela, lamentei
tanta desordem, tantos objetivos irrealizados , tantas separações (por­
que temos demasiado que fazer para podermos atravessar Londres
para ver um amigo , embarcar para a Índia, ou ver um homem nu
pescar com um arpão na água azul) . A minha vida foi imperfeita,
uma frase inacabada. Para mim, que não tenho qualquer problema

202

Virgínia Woolf

em aceitar um cigarro de um desconhecido que encontro no com­
boio , foi-me impossível conservar a coerência, o sentido das gera­
ções de mulheres carregando cântaros vermelhos até ao Nilo e do
rouxinol que canta entre guerras e migrações de povos . Era um em­
preendimento demasiado vasto , disse para mim mesmo . E como se­
ria possível continuar eternamente a subir os degraus da escada?
Falei comigo como o teria feito para um companheiro com quem
viajasse para o pólo norte .
Falava com aquele eu que estivera comigo em numerosas e terríveis
aventuras , o amigo incondicional que permanece sentado diante do
fogo quando já todos se foram deitar, remexendo as cinzas com um
atiçador. Falava ao homem que foi construído, misteriosamente cons­
truído em sucessivas camadas , num bosque de faias , junto de um sal­
gueiro na margem do rio ou debruçado num parapeito de Hampton
Court, o homem que se tinha recolhido em si nos momentos críticos e
batera com a colher na mesa dizendo: «Não consentirei .»
Este eu não me deu qualquer resposta no momento em que , apoiado
na cancela, olhava os campos que desenrolavam diante de mim as suas
ondas de cor. Não levantou qualquer objeção. Nem sequer uma frase
tentou dizer. E a sua mão não se crispou na forma de um punho. Espe­
rei, escutei . Nada aconteceu , nada. Foi então que gritei assaltado pelo
sentimento de uma completa solidão . «Agora sei que nada existe .
Nenhuma barbatana quebra a solidão deste mar imenso . A vida des­
truiu-me. Quando falo , nenhum eco me responde transformando as
minhas palavras . Esta morte é ainda pior que a morte dos meus ami­
gos , que a morte da minha juventude .»
Murchou a paisagem que me rodeia. Foi como num eclipse , quan­
do o Sol desaparece e a terra, apesar de coberta pela sua mais bela
folhagem de verão , se toma murcha, frágil e irreal . Vi também os
grupos que outrora formávamos , dançarem na poeira de uma estrada
sinuosa, reunindo-se , comendo juntos e encontrando-se ora num ora
noutro quarto . Vi a minha infatigável atividade , como corria de um
para outro lado , como tinha viajado e regressado , me unira a este ou
àquele grupo , umas vezes beijado , outras rejeitado , perseguindo
sempre algum extraordinário projeto , com o nariz colado ao solo ,
como um cão seguindo um rasto . À s vezes , erguendo a cabeça, sol­
tava um grito de espanto ou desespero , e depois seguia de novo o

As Ondas

203

rasto . Que desordem, que confusão . Nascimento e morte , suculência
e doçura, esforço e angústia, e eu sempre correndo de um lado para
o outro . Mas agora tudo terminara. Já não tinha qualquer apetite
para saciar, nem dardos com que atingir os outros , nem dentes afia­
dos , nem mãos para agarrar, nem desejo de sentir as peras e as uvas
e o sol refletindo-se no muro do pomar.
Os bosques tinham-se desvanecido e a .terra estava reduzida a
um deserto de sombras . Nenhum ruído perturbava o silêncio da
paisagem invernal . Nenhum galo cantava, nenhum fumo se eleva­
va nos ares , nenhum comboio passava. Era apenas um homem sem
alma, um corpo pesado apoiado numa cancela. Um homem morto .
Com a imparcialidade do desespero , na mais completa ausência de
ilusões , olhei o pó que dançava. A minha vida, as vidas d os meus
amigos e as presenças fabulosas dos jardineiros com vassouras , de
senhoras sentadas a escrever, o salgueiro na margem do rio - nu­
vens e fantasmas , também eles feitos de pó , de um pó que mudava
de forma, como as nuvens que aumentam e diminuem se revestem
de vermelho e ouro e perdem os seus cumes , versáteis e vão s . Eu ,
segurando o caderno e anotando frases , limitei-me a registar as
mudanças . Fui uma sombra ocupada a registar sombras . Mas como
prosseguir agora , sem um eu , sem peso e sem ilusões , num mundo
sem ilusões e sem peso?
O peso do meu desespero abriu a cancela em que me apoiava e
lançou-me , a mim, homem já entrado nos anos , homem de cabelos
grisalhos , no campo vazio , no campo sem cor. Já se não ouviam ecos
nem viam fantasmas . As lutas tinham terminado . Agora só havia o
interminável caminhar sem sombra, que não deixava qualquer marca
na terra morta. Se ao menos ali houvesse carneiros mastigando , mo­
vendo uma pata após outra, ou uma ave , ou um homem cavando a
terra ou uma sarça para me fazer tropeçar, ou uma vala repleta de
folhas húmidas onde cair - mas não , a melancólica vereda estendia­
-se pela planície , conduzia apenas a novos recantos de inverno e
palidez e por todo o lado se avistava a mesma paisagem indiferente
e monótona.
Como regressa a luz depois de um eclipse do Sol? Milagrosamente .
Com timidez . Em raios ténues . A luz mantém-se suspensa sobre a
terra como uma caixa de cristal . E como um frágil anel que o mais

204

Virgínia Woolf

pequeno choque pode estilhaçar. Uma cintilação surge , depressa subs­
tituída por uma corrente de sombra. Depois um vapor desprende-se da
terra como se ela tivesse começado a respirar. Em seguida, tem-se a
impressão que nesta atmosfera morta alguém caminha segurando uma
lanterna verde . Depois surge um clarão fantasmal. Uma pulsação azul
e verde atravessa o bosque e os campos impregnam-se lentamente de
vermelho , dourado e castanho . Subitamente um rio apodera-se de um
reflexo azul . A terra bebe a cor, tal como uma esponja absorve a água.
Adquire peso , arredonda-se , pende , recupera o equilíbrio e oscila aos
nossos pés .
Foi assim que a paisagem regressou; fo i deste modo que vi o s
campos moverem-se a meus pés e m ondas coloridas . Mas agora ha­
via uma diferença. Eu via sem ser visto . Caminhava sem sombra;
chegava sem ser anunciado . Do meu corpo tombara o velho manto ,
a resposta, a mão vazia que golpeava para devolver os sons . Subtil
como um fantasma, sem deixar quaisquer marcas nos sítios por onde
passava, reduzido a um olhar que contempla, caminhei solitário por
um mundo novo , nunca antes percorrido , tocando ao de leve em
flores novas , semelhante a uma criança que só consegue pronunciar
monossílabos; sem a proteção das frases , eu que construí tantas ; sem
companhia, eu que sempre tive alguém com quem compartilhar o lar
vazio , ou o armário com a sua maçaneta dourada.
Mas como descrever um mundo de que o eu está ausente? As pa­
lavras faltam. O azul , o vermelho , até essas palavras desorientam,
tornam a atmosfera mais densa, em vez de deixarem que a luz a
atravesse . Como dizer qualquer coisa, como descrever qualquer coi­
sa com palavras articuladas? Quando muito pode dizer-se que esta
paisagem se desvanece , se transforma pouco a pouco , se banaliza até
no decurso deste breve passeio . A cegueira regressa quando nos mo­
vemos e uma folha repete outra folha. A beleza regressa quando
olhamos , arrastando consigo as suas frases fantasmais . Respiramos ,
inspirando e expirando um sopro substancial; lá em baixo , no vale , o
comboio atravessa os campos com a sua cabeleira de fumo .
Mas durante um instante fiquei sentado na erva acima do mar e do
rumor dos bosques; vi a casa, a casa e as ondas que se desfaziam na
praia. A velha ama que voltava as páginas de um livro ilustrado de­
tivera o seu gesto , dizendo-me: «Olhe , isto é a verdade .»

As Ondas

205

Era nisso que pensava nessa noite enquanto descia a avenida Sha­
ftesburt. Pensava naquela página do livro ilustrado . E quando o en­
contrei a si no vestiário , disse para mim mesmo: «Pouco importa a
personalidade das pessoas que encontro . A pequena aventura do ser
terminou . Não sei quem ele é, nem me importa sabê-lo . Jantaremos
juntos .» Pendurei o casaco , toquei-lhe no ombro e disse: «Sente-se à
minha mesa.»
Agora a refeição terminou; estamos rodeados de cascas de frutos
e de migalhas de pão . Tentei arrancar este ramo (a minha vida) e
oferecer-lho . Mas ignoro se nele existe substância e verdade . Nem
sequer sei exatamente onde estamos . Qual é esta cidade sobre a qual
se avista um pedaço de céu? Estamos em Paris , em Londr�s , ou nu­
ma cidade do Sul , com as suas casas de um cor-de-rosa desbotado ,
rodeadas de ciprestes , ao pé das altas montanhas onde as águias
voam? Neste instante de nada tenho a certeza.
Começo a esquecer, começo a duvidar da consistência das mesas ,
do aqui e do agora, começo a golpear com os nós dos dedos os ângulos
dos objetos aparentemente sólidos e a perguntar: «Vocês são duros?»
Vi tantas coisas , pronunciei tantas frases . Nesta cedência à rotina de
comer e de beber, à força de passear os meus olhos pela superfície das
coisas , perdi a concha delgada e dura que envolve a alma e que na
juventude nos encerra - é isso que explica a crueldade dos jovens e
as suas bicadas , incessantes e ferozes . Por isso pergunto: «Quem sou
eu?» Falei de Bernard, de Neville , de Jinny, de Susan , de Rhoda e
Louis . Serei acaso todos eles ao mesmo tempo? Serei um ser distinto
e único? Não sei . Sentamo-nos aqui juntos . Mas Percival morreu e
Rhoda morreu . Dispersamo-nos . Não estamos aqui . Mas apesar disso ,
não vejo nada que nos separe . Nenhum obstáculo se ergue entre nós .
Enquanto estava a falar ia pensando: «somos a mesma pessoa» . Essas
diferenças que nos pareciam tão importantes , essa identidade a que
concedíamos tanta importância, foi superada. Sim, desde o instante em
que a senhora Constable ergueu a esponja e a água tépida escorreu
pelo meu corpo, tomei-me recetivo e sensível. Ainda tenho na fronte
o golpe que recebi quando Percival caiu. E na nuca guardo o beijo que
Jinny deu em Louis . Os meus olhos enchem-se com as lágrimas de
Susan . E ao longe, tremulando como um fio de ouro , vejo a coluna que
Rhoda entreviu no deserto e sinto o vento da sua fuga.

. os seus frémitos de prazer percorrem-me a espinha. Mas nem por isso as mãos deixam de ser peludas .206 Virginia Woolf Deste modo . sonhos . simiesco. visceral . Aqui acima. mas essas roupas recobrem sempre os mesmos órgãos . Grunhe e geme sem cessar. esses fan­ tasmas semiarticulados que me rondavam noite e dia. Oh. à minha serena consciência. sim. o selva­ gem . o denso fumo por detrás de cada folha. Vistas de tão alto até as migalhas de pão me pa­ recem belas ! E como são simétricas as espirais formadas pelas cas­ cas de pera. coisas que me cercam e também os hóspedes . mergulhadas numa dessas inúmeras vidas e nela dissolvi­ das. Asseguro-lhe que às vezes me é muito difícil dominá-lo. Neste momento segura na pata um cáli­ ce de fino conhaque antigo . com o pavimento recober­ to de espessos tapetes . sou forçado a recordar-me de coisas distantes e profundas . com ânsia e cobiça. ele ergueu bem alto a sua tocha ! Com ela arrastou-me para as danças selvagens . enquanto estou sentado a esta mesa e me esforço por modelar a história da minha vida e colocá-la diante de si como se fos­ se uma coisa completa. eus que nunca nasceram. e cuja fala é gutural. Iluminou até o fresco jardim. salada e fígado de vitela. mostrando com gestos idiotas . onde sobem murmúrios e há altares envoltos em incenso . Este homem coberto de pelos . os pendões tremulam sobre os túmulos e através das janelas abertas se veem as árvores agitarem-se na negra atmos­ fera da meia-noite . . sombras do que eu poderia ter sido. É verdade que lava as mãos antes do jantar. desempenhou um papel na minha vida. só chegam as ondas de perfume e as músicas maravilhosas . mastiga e arrota. Esta noite banqueteou-se com codorni­ zes . Mas agora tudo terminou . Enquanto bebo . Brandiu a sua tocha nas rue­ las sórdidas onde o rosto das raparigas reluziu numa rubra e embria­ gadora transparência. enquanto a pomba perdida se lamenta. Nesta noite . colocou a sua tocha de chamas rubras . as coisas que deseja. o meu corpo eleva-se como as pedras de uma igreja plena de frescura. E há também a besta antiga. soltavam gritos confusos e me agarravam com os seus dedos espetrais quando me procurava escapar. delicadamente manchadas como os ovos de um pássaro . Abotoa as calças e o colete . o homem hirsuto que mergulha as mãos no festim das entranhas . Também ele continua ali . aninhado dentro de mim. se voltavam no sono . Co­ meça a protestar quando não lhe sirvo as refeições a horas . Deu um esplendor mais verde às coisas verdes .

isento de toda a agitação . agora que a curiosidade já deixou de o tingir com as suas mil cores . A sua espuma reflui empurrada pelo vento . Sei tudo o que eles sa­ bem. o homem que tinha no bolso um caderno onde tomava as suas notas . Mas agora gostaria de abrir a porta. sem sair deste sítio . e as bicas dos pãezinhos que não comemos são vidrados . o Sol alonga os seus raios sobre a casa adormecida. as diferentes maneiras de designar a morte . Gostaria de ver entrar uma mulher. colocados uns ao lado dos outros . o pó que se desprende das asas da borboleta. na letra B . frases sobre a Lua. Gostaria que se sentassem junto de mim. posso errar pelo mundo como um espião . as águas rodeiam o barco e o cardo marinho . pela sua espantosa flexibilidade . de tudo abarcar. E se de repente a mulher se levantasse . Posso visitar os mais remotos confins das terras desertas onde os selvagens se reúnem em tomo da fogueira. imune . carregando aos ombros o mistério das coisas . trémulo de plenitude . na letra M . Esta noite o meu ser: sente-se capaz de compreender tudo . a porta envidraçada que constantemente gira nos gonzos . sem sequer me levantar desta cadeira. esse ruído que me acompanhou toda a vida. Haverá alguma coisa que possam ensinar-me? Não . que me des­ pertava para ver a maçaneta dourada do armário . parecem lúcidos . agora que os desejos já o não incitam a que parta e se afaste .As Ondas 207 marinho ! Até os garfos . por este leque de ossos percorridos por misteriosas veias azuis . ou um jovem em fato de cerimónia e com um pequeno bigode . eficácia e capacidade de se fecharem suavemente ou de esmagarem de súbito qualquer coisa. ag�)fa que já morreu o homem a quem chamava «Bernard» .» O ruído das ondas que se desfazem. A casa toma-se . mas ao mesmo tempo límpido de con­ tido . a jovem divindade faz brilhar com o seu olhar as joias cor de água. Os pássaros cantam em coro e entre os caules das flores abrem-se túneis verdes . a aparência das pessoas . não sinto nenhum desejo de te seguir. O ritmo das ondas que se desfazem na praia toma-se mais sombrio . pela sua infinita sensibilidade . já não fez vibrar o que seguro nas mãos . O meu ser é profundo . esboços de um rosto . Deslizando pela praia. dir-lhe-ia: «Querida. O dia nasce. E assim. lógicos e exatos. o modo como volta­ vam a cabeça ou lançavam fora os cigarros . duros e dourados ! Sinto-me cheio de adoração pelas minhas mãos .

eu que me julgava imune . . com estes guardanapos sujos e estes pequenos cadáveres que temos de construir. A desordem. É este o resultado do golpe que me asses­ taram. Uma vez mais. que tinha dito «agora estou livre de tudo» . a reunir todas as minhas forças e a erguer­ -me para enfrentar o inimigo . que somos capazes de sofrer tanto . a sordidez e a corrupção rodeiam-nos . É preciso ir embora. tenha o poder de me infligir este insulto . A luz inunda o quarto e faz recuar as sombras até um canto onde ficam como pregas imperscrutáveis . É preciso . É preciso levantarmo-nos das cadeiras . Ah . Choquei com a caixa do correio . .208 Virginia Woolf mais nítida. tem o ar de estar preocupado . que (vejo-me ao es­ pelho) apoia um cotovelo na mesa e segura na mão esquerda um cálice de conhaque antigo . é preciso . O que existirá por detrás das trevas? Alguma coisa? Nada? Não sei . Acabamos de comer aves mortas . sou apenas aquilo que se pode ver. Já não tenho chapéu. Depois de um momento de liberdade ficamos reduzidos a isto . na ponte de um navio que viajava para Á frica) que uma simples con­ junção de olhos . um homem já idoso . possamos · infligir aos outros tanto sofrimento . É necessário reco­ meçar sempre . O inimigo nunca nos abandona. faces e narinas . É estranho que o rosto de al­ guém que mal conheço (creio apenas tê-lo encontrado uma vez . mas o seu rosto existe . uma igreja. Eu . . No gume da faca a gordura começa a ganhar consistência. capaz de estar em todo o lugar. é preciso . Cambaleio sem conseguir recuperar o equilíbrio . aqueles que dormem espreguiçam-se e lentamente tudo desperta. Cobri-me de ridículo e é com inteira razão que os transeuntes se riem de mim . Dedos que se apoderam dos nossos dedos . no rebordo de todas as coisas e também aqui . O esforço de esperar. que me julguei tão vasto como um templo . deixei cair a bengala. vejo que a onda me submerge . É preciso ir buscar os casacos . Olhos que fitam os nossos olhos . come . Vejo a expressão dos seus olhos . Meu Deus . É estranho que nós . um universo sem limites . como a vida é odiosa! E que ratoeiras nos prega. dispersa tudo o que possuo e me força de novo a recolher. de corpo pesado e têmporas grisalhas . Palavras detestáveis . É preciso chamar o empregado. contente ou . . É com estas migalhas de pão cheias de gordura. Aqui estamos sentados entre migalhas de pão e guardanapos sujos . Pagar a conta. Levo as mãos à cabeça. Você olha .

no entanto . para ir não sei onde ver alguém que não conheço . ou um táxi . esta nuvem que se altera ao menor sopro . Enquanto esti­ ve sentado a esta mesa fui mudando . Quero estar sozinho . por isso deixei de mudar. depois libertarem-nas e de novo as cobrirem. Quero lan­ çar para longe de mim o véu do ser. migalhas e restos de carne . E. Agora estou só . Qual é a frase sobre a Lua? E a frase sobre o amor? Que nomes exis- . Não sinto já a pressão do seu olhar. Já não está aqui o rosto que me olhava. da necessidade da palavra e da mentira. Quero entoar uma canção de agradecimento . a mulher que espirra e vejo o emprega­ do que se acerca . . foi apanhar um com­ boio . . Vi as nuvens cobrir as estrelas . Não há ninguém sentado nas cadeiras . É tudo o que posso saber de si . como uma borboleta noturna . O meu caderno repleto de frases caiu ao chão . E já ninguém virá sentar-se a estas mesas para jantar. ou de me fazer esvoaçar de vela em vela. para juntar os pedaços de papel . Jaz debaixo da me­ sa para ser varrido pela mulher da limpeza. tem o poder de me fazer voltar para trás . Agora ninguém me vê. de dia e de noite . . vou registar em palavras muito simples as descobertas que fiz sob a pressão do seu olhar. . estendo-lhe a mão desejando-lhe boa noite . A pessoa quase desconhecida foi-se embora. da solicitação do corpo . tenho a sensação de que as coisas se aproximam. Ouço o bater do relógio . esta som­ bra que esteve sentada à minha frente durante uma hora ou duas .As Ondas 209 aborrecido . de me fechar numa câmara-ardente . Vi como o céu se modificava. alguma inveja e a maior boa vontade . Graças a si recupero o sentido da luta. Espere enquanto fazem a conta por detrás do balcão . Ficaram as chávenas de café vazias . que virá amanhã de manhã com o seu passo cansado . Que Deus seja lou­ vado pela solidão que nos concede . da realidade e da comple­ xidade das coisas . Deus seja louvado por esta solidão que me libertou da pressão do olhar. se aceleram e de que me confundo com o universo . bilhetes de autocarro e papéis com anotações amassados em bolas . Deus seja louvado por nos ter dado a solidão . cada dia e cada noite . de me colocar entre todos os outros ros­ tos . Agora que o amaldiçoei através deste golpe que me fez cambalear por entre cascas de frutos . E com alguma compaixão. Ouça: é o som de um apito e ouve-se também o surdo ruído de rodas e o ranger de uma porta. Mas espere. essa máscara através da qual dois olhos me espiam .

par­ dais chilreiam nos plátanos . sou obrigado a sair para apanhar o último autocarro . silencioso e solitário . Preciso de um gemido . para que me deixem ficar para sempre sentado neste lugar. Eu . a mesa. coi­ sas em si . eu . Tira do bolso o seu lenço de pescoço e prepara-se ostensivamente para partir. enfiar os braços nas mangas . tenho de me levantar. um homem já idoso e cujo corpo começa a ser demasiado pesado e que não gosta de fazer esforços . esgotado como estou . este garfo . Vejo de novo a rua familiar. As luzes da grande cidade já não ilumi­ nam o firmamento . cansado como estou . Que é a aurora na . Não . O céu está escuro como o osso de uma baleia po­ lido pelo tempo . eu . Abandonei as frases . Como é preferível o silêncio ! A chávena de café . deitado numa vala. franze as sobrancelhas . O diabo os leve . Nem de nenhum desses amáveis ecos que soam e ressoam de nervo em nervo . procurar o casaco que me pertence . palavras de uma sílaba apenas como a que as crianças usam quando entram num quarto e encontram a sua mãe a costurar e apanhem um fio de lã colorida. esta chávena de café . Deixem-me ficar aqui para sempre . de correr os estores . De nada que tenha os pés solidamente assentes na terra. Mas lá em cima qualquer coisa clareia. Apesar de ter rompido com tudo e da minha fadi­ ga. até eu . vejo a tempestade que me ignora agitar o céu sobre os campos pantanosos . Têm de se ir embora. Não necessito de nada que seja exato . Agora há uma certa agitação. uma lâmpada ou talvez a madrugada que chega. insensata música de frases mentirosas . dentro do nosso peito . Não venham perturbar-me com a insinuação de que é tarde e precisam de fechar. dobrar as toalhas e de passar um pano húmido debaixo das mesas . Como é preferível estar sentado nesta sala vazia. de um grito .210 Virginia Woolf tem para designar a morte? Não sei ! Necessito de uma linguagem ingénua como a dos amantes . como a solitária ave mari­ nha pousada numa estaca. entre estas simples coisas . Por todo o lado se espalha o pressentimen­ to do dia que nasce . uma pluma ou um pedaço de chita. esta faca. que me deixam ser eu . não lhe chamarei aurora. Não necessito de palavras quando . Daria de boa vontade tudo quanto possuo para que me não perturbem . Mas agora o chefe dos empregados reaparece depois de ter termi­ nado a sua refeição. gasto de tanto roçar o nariz pela superfície das coisas . proteger-me contra o frio noturno e sair.

o incessante movimento . neste momento em que golpeias a calçada com os teus cascos . Uma vez mais o mundo desperta. Sim. Outro dia. como o altivo cavalo que o . Invencível e indómito é contra ti que comba­ to . diz-me que inimigo vemos agora avançar contra nós .As Ondas 211 cidade. ó Morte ! As ondas desfazem-se na praia . cavaleiro esporeia e em seguida refreia. É a Morte . O vermelho sobe às pétalas das rosas . As estrelas retrocedem e extinguem-se . como os de um jovem. uma espécie de renovação . Um pássaro canta. mesmo à da pálida roseira que se debruça à janela de um quarto . Os camponeses acendem as luzes das casas . qualquer coisa que vem do mais fundo de mim. é a eterna renovação . arqueia o dorso . A neblina adensa-se sobre os campos . Tu . Cravo as esporas nos flancos do meu cavalo . A Morte é o nosso inimigo . outra sexta-feira. E também dentro de mim a onda se ergue . para um homem j á idoso que de pé na rua olha o céu com um ligeiro sentimento de vertigem? A aurora é um clarear do céu . sobre quem cavalgo . Uma vez mais sinto renascer em mim um desejo. . É mais sombria a separação das ondas . Cresce . outro vinte de mar­ ço. janeiro ou setembro . como os de Percival quando galopava na Índia. É contra a morte que cavalgo de lança em riste e os cabelos flutuando ao vento .

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