Jornal das Boas Notícias

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1 de Setembro de 2015
A santidade não consiste em não
cometer erros ou nunca pecar. A
santidade cresce com a capacidade de
conversão, arrependimento e
disponibilidade de recomeçar e,
sobretudo, com a capacidade de
reconciliação e perdão  

As férias não são um parêntesis
O Jornal das Boas Notícias faz parte do regresso do Povo à sua
actividade normal.
Porém, enquanto estamos de férias a Terra gira em volta do
Sol que nasce e se põe todos os dias, o que serve para dizer
 

Papa Bento XVI  
A vingança de um judeu errante .............. 1  
A ditadura da infância mais que
perfeita .................................................. 2  
Moral da história ...................................... 2  
A importância de se chamar Cecil ............ 3  
Tornou-se mãe aos 12 anos. A partir
daí, tudo mudou ..................................... 3  
O grande combate ...................................... 4  
Debates e consensos ................................. 4  
"Marcou a sua geração sacerdotal a
vários níveis, belíssimos todos" ........... 5  
Holocausto inútil ..................................... 5  
O milagre em Hiroshima ............................ 6  
Perto do rio dos ‘Bons Sinais’ de
Vasco da Gama ........................................ 6  
“O catolicismo está estritamente
ligado à razão. Para mim, é muito
importante tentar aprofundar as
coisas em que acredito” ........................ 7  
Quando uma astrofísica ateia se
converte a Cristo: "Eu percebi que
existe uma ordem no Universo" ............. 8  

A vingança de um judeu errante
P.  Gonçalo  Portocarrero  de  Almada  
Observador  1/8/2015  

 
Um  judeu  britânico,  nascido  austríaco,  ‘vingou-­‐se’  
dos   cristãos   que,   em   1938,   o   salvaram   de   uma  
morte  certa  pelos  nazis,  criando  um  fundo  para  o  
resgate   dos   cristãos   perseguidos   no   Médio   Ori-­‐
ente  
Arthur   George   Weidenfeld   é   um   jovem   britânico  
que,   no   próximo   dia   13   de   Setembro,   cumpre   96  
primaveras.   Nasceu   austríaco   e   tinha   18   anos  
quando,   em   1938,   o   exército   nazi   ocupou   o   seu  
país.  Sendo  judeu,  o  mais  certo  é  que  tivesse  sido  
deportado   para   um   dos   numerosos   campos   de  
concentração   onde,   com   toda   a   probabilidade,  
encontraria   a   morte,   como   tantos   outros   judeus   e  
não   só.   Mas   teve   a   sorte   ou,   melhor   dizendo,   a  
graça  de  ter  quem  o  libertasse  desse  mais  do  que  
provável   destino.   Com   efeito,   foi   socorrido   por  
cristãos,   que   também   providenciaram   a   sua   emi-­‐
gração   para   a   Grã-­‐Bretanha,   onde   conseguiu  
residência  e  trabalho.  
Desde  então,  Weidenfeld,  a  quem  a  rainha  Isabel  
II  fez  par  do  reino  e  barão,  sente-­‐se  em  falta  para  
com  os  que  o  salvaram,  porque  entende  que  lhes  
deve   a   sua   sobrevivência,   seriamente   ameaçada  
depois   da   anexação   da   Áustria   pelo   terceiro  
Reich.  Os  anos  decorridos  desde  então  –  mais  de  
setenta!   –   não   bastaram   para   esquecer   essa  
dívida  de  gratidão  e,  por  isso,  quis  ‘vingar-­‐se’  dos  
seus   benfeitores   de   1938,   criando   um   programa  
que  se  propõe  resgatar  os  cristãos  que  são  perse-­‐
guidos   nos   países   do   Médio   Oriente,   sobretudo  
pelo   auto-­‐intitulado   Estado   Islâmico,   responsável  
pelo   assassinato   de   milhares   de   seguidores   de  
Cristo.   O   Weidenfeld   Safe   Havens   Fund  propõe-­‐se  

que a vida continua movida sempre pelas mesmas motivações e
condicionada pelas mesmas restrições.
Às vezes podemos achar que as coisas não acontecem se não
estivermos a olhar.
Neste Jornal das Boas Notícias procurei seleccionar histórias e
acontecimentos que edificam.
Porém, em Agosto continuaram a acontecer outras notícias
que podem ser lidas no blog O Povo (que não foi de férias)
Um bom regresso
Pedro Aguiar Pinto

resgatar   aproximadamente   dois   mil   cristãos,   na   Síria   e   no   Iraque,   durante   os  
próximos  dois  anos.  
Apesar   da   dimensão   trágica   do   referido   genocídio,   poucas   têm   sido   as   vozes  
que   se   levantaram   para   condenar   esta   implacável   perseguição   religiosa,   que  
todos   os   dias   ceifa   novas   vidas.   O   Papa   Francisco   parece   ser   a   excepção   que  
confirma  a  regra,  pois  tem-­‐se  referido  com  frequência  a  este  novo  holocausto.  
Mas   os   seus   alertas   ainda   não   tiveram   o   condão   de   despertar   a   comunidade  
internacional,   que   parece   mais   interessada   em   resolver   a   crise   financeira   do  
que  defender  os  milhares  de  cristãos  que  estão  em  perigo  iminente  de  vida  na  
conturbada   região   do   próximo   Oriente,   no   Paquistão   –   onde   a   católica   Ásia  
Bibi,  condenada  à  morte  por  blasfémia,  continua  presa  –  na  Nigéria,  no  Sudão,  
etc.  
Ainda   a   9   de   Julho   passado,   o   Papa   confessou   a   dor   que   lhe   vai   na   alma:   “é  
consternados   que   assistimos   à   perseguição   de   cristãos   no   próximo   Oriente   e  
noutras  partes  do  mundo”,  onde  “tantos  dos  nossos  irmãos  e  irmãs  são  perse-­‐
guidos,  torturados  e  mortos  pela  sua  fé  em  Jesus”,  nomeadamente  no  Iraque  
e   na   Síria,   onde   não   só   alguns   cristãos   são   decapitados,   por   razão   da   sua   fé,  
como   os   sobreviventes   são   forçados   a   converterem-­‐se   ao   islamismo.   Não  
obstante   a   insistência   dos   apelos,   as   organizações   políticas   e   humanitárias  
optaram  até  à  data,  ao  que  parece,  por  um  cúmplice  alheamento.  
Graças   a   Deus,   esse   não   foi   o   caso   do   lorde   Weidenfeld,   que   em   boa   hora  
tomou  a  iniciativa  de  lançar  esta  operação  de  resgate  de  cristãos  perseguidos  
na  Terra  Santa  e  em  toda  a  região.  Segundo  informação  veiculada  pela  Lugar-­‐
Tenência  de  Portugal  da  Ordem  do  Santo  Sepulcro,  uma  organização  pontifícia  
mundial  ao  serviço  dos  Lugares  Santos  e  das  respectivas  comunidades  cristãs,  
este  projecto,  apesar  de  só  ter  algumas  semanas  de  vida,  já  expatriou,  para  a  
Polónia,  cento  e  cinquenta  cristãos  sírios.  
Não  obstante  a  natureza  humanitária  da  operação,  surgiram  algumas  críticas  
ao  carácter  confessional  do  apoio  que  este  fundo  presta.  Arthur  George  Wei-­‐
denfeld   explicou,   no   entanto,   que   a   iniciativa   nasceu   da   dívida   contraída   por  
ele  e  por  muitos  outros  jovens  judeus,  integrados  nos  Kindertransports,  para  
com  as  confissões  cristãs  que  os  salvaram,  levando-­‐os  para  Inglaterra.  
Há  quem  diga  que  os  judeus  são  muito  ‘vingativos’  e  materialistas  e,  se  assim  
for,   o   promotor   desta   iniciativa   não   é   excepção.   Contudo,   a   sua   ‘vingança’   é  
muito   especial,   porque   é   expressão   da   sua   gratidão   e   totalmente   desinter-­‐
essada.  Uma  atitude  que  ele  quereria  ver  partilhada  por  todos  os  membros  do  
seu   povo:   “nós,   os   judeus,   devemos   também   ser   gratos   e   fazer   alguma   coisa  
pelos  cristãos  em  vias  de  extinção”.  

No   entanto,   o   barão   Weidenfeld   não   tem   razão  
quando   afirma   que,   como   não   pode   salvar   o  
mundo   todo,   contenta-­‐se   com   ajudar   alguns  
cristãos.   A   verdade   é   que,   ao   contrário   do   que  
afirma,   quem   salva   um   seu   irmão,   seja   ou   não  
cristão,   salva-­‐se   a   si   mesmo   e   salva   o   mundo  
também.  

A ditadura da infância mais que perfeita
Helena  Matos  |  Observador  2/8/2015  

 
É   um   dos   meu   terrores:   discutir   políticas   de   natal-­‐
idade.  Mal  ouço  a  expressão,  sempre  dita  com  um  
ar   solene,   por   pivots   e   políticos,   é   como   se   es-­‐
tivesse  diante  mim  o  Obélix  a  perguntar  ao  Asté-­‐
rix  qual  era  o  papel  das  abelhas  e  das  cegonhas  no  
aparecimento  dos  bebés.  
As  políticas  de  natalidade  são  as  novas  cegonhas:  
oficialmente   trazem   os   bebés.   Mas   tal   como  
jamais   se   viu   um   bebé   no   bico   de   uma   cegonha   (e  
a   minha   geração   bem   que   se   esforçou   por   tal  
avistamento!),   está   por   encontrar   o   primeiro  
bebé  nascido  graças  àquilo  a  que  pomposamente  
se   chama   políticas   de   natalidade.   Ou   então,   se  
alguns   bebés   nasceram   graças   a   essas   políticas,  
nomeadamente   aquelas   que   passam   por   mais  
abonos   e   subsídios,   cabe   perguntar   que   mal   fiz-­‐
eram   essas   crianças   e   os   demais   cidadãos   para  
terem  de  conviver  com  pessoas  que  têm  filhos  se  
lhes  pagarem  para  tal.  
Claro   que   há   circunstâncias   que   ajudam   quem  
tem   filhos,   como   as   licenças   e   os   horários  
flexíveis,  mas  infelizmente  entre  nós  desapareceu  
mais   rapidamente   o   papel   selado   que   a   rigidez  
dos   horários   de   trabalho!   Fundamental   seria  
também   acabarmos   com   a   maldita   cultura   do  
presentismo   que   leva   umas   almas   sem   mulher,  
homem,   gato,   cão,   periquito   ou   livro   que   lhes  
apeteça   rever   em   casa,   a   reproduzir   na   hora   de  
sair  do  trabalho  o  síndroma  “eu  não  hei-­‐de  ser  o  
primeiro   a   parar”   dos   congressos   estalinistas:   ali  
ninguém   parava   de   bater   palmas,   aqui   ninguém  
se   levanta   para   sair   e   empatam,   empatam,   ten-­‐
tando  desse  modo  provar  que  trabalham  muito.  
A  única  forma  socialmente  aceitável  de  quebrar  o  
presentismo   é   anunciar   que   se   tem   o   gato   ou   o  
cão  doentes.  Ou  a  precisar  de  passear.  Aí  todos  se  
mostram   solidários.   Já   se   for   por   causa   de   um  
filho   é   sempre   um   escolho,   uma   questão   a   ter   em  
conta  na  hora  de  atribuir  àquela  pessoa  um  cargo  
de   responsabilidade.   Afinal   não   foi   ela   irre-­‐
sponsável   q.b.   para   ter   avançado   para   tal   encargo  
apesar  de  todos  os  avisos  sobre  o  entrave  para  a  
carreira  que  os  filhos  representam?  
(Se  discutir  as  políticas  de  natalidade  faz  parte  dos  
meus   terrores   o   termo   carreira   aplicado   à  
profissão   é   um   dos   meus   ódios   de   estimação.   O  
que   é   uma   carreira?   Percebo   a   carreira   dos   eléc-­‐
tricos,   das   camionetas   e   dos   autocarros.   Mas   o  
que   será   a   carreira   do   condutor   desses   trans-­‐
portes?   E   de   ser   caixa   de   supermercado?   Ou  
jornalista?  O  que  será  essa  coisa  chamada  carreira  
em   nome   da   qual   é   suposto   que   se   abdique   de  
tudo?  Regra  geral,  chamamos  carreira  a  empregos  
pagos   assim-­‐assim,   desempenhados   por   pessoas  
mais   ou   menos   irrelevantes   que   se   acreditam  
insubstituíveis.   O   resto   são   trabalhos,   empregos  
ou  cargos,  transitórios  como  tudo  na  vida,  e  para  
cujo   desempenho   ter   responsabilidades   famili-­‐
ares,   seja   de   filhos   ou   outras,   é   um   valor   acres-­‐
centado  de  realidade.)  
Mas   voltemos   às   neocegonhas,   ou   seja,   às   polí-­‐
ticas   de   natalidade.   Sei   por   experiência   própria  
como   as   circunstâncias   económicas,   o   presentis-­‐

mo  e  a  rigidez  laboral  condicionam  a  vida  de  quem  tem  filhos.  Sobretudo  de  
quem  não  se  ficou  pelo  casalinho  e  teve  de  ouvir  os  sábios  “Já  pensaste?!…”  
Mas   a   grande   condicionante   deste   século   XXI   na   hora   de   ter   filhos   chama-­‐se  
complicadismo,   conceito   que   traduzido   de   forma   simples   quer   dizer   que   a  
maternidade   deixou   de   ser   algo   natural   na   vida   dos   jovens   adultos   para   se  
tornar  na  mais  temerosa  das  tarefas  a  que  alguém  pode  meter  ombros.  
Face  ao  espalhafato  criado  em  torno  da  maternidade  e  da  paternidade  o  que  
me   admira   não   é   que   as   pessoas   tenham   menos   filhos.   O   que   não   entendo  
mesmo   é   como   ainda   existe   gente   com   coragem   para   meter   ombros   a   tal  
empreendimento.  
Ter   um   filho   tornou-­‐se   uma   tarefa   imensa.   Um   saber-­‐ciência   algures   entre   a  
exactidão  das  matemáticas  e  a  imprevisibilidade  do  mundo  do  oculto  em  que  
cada  sinal  de  febre,  birra,  más  notas  ou  grama  a  mais  é  um  sinal  inequívoco  do  
falhanço  dos  pais  em  geral  e  das  mães  em  particular.  Tudo  o  que  as  crianças  
fazem   e   não   fazem,   tudo   o   que   não   lhes   aconteceu   e   devia   ter   acontecido   (ou  
vice-­‐versa)   é   visto,   analisado   e   ponderado   como   o   resultado   daquilo   que   os  
pais   disseram,   deram   e   fizeram.   A   gravidez   tem   de   ser   perfeita,   o   parto   um  
momento   sublime,   a   amamentação   um   equivalente   da   demanda   do   Santo  
Graal  que  nunca  se  sabe  como  deve  terminar,  a  introdução  dos  alimentos  uma  
viagem  ao  mundo  dos  produtos  sem  isto  e  sem  aquilo.  Caso  isto  não  se  cum-­‐
pra  no  seu  todo  ou  em  parte  lá  vêm  a  perturbação,  a  disfunção  e  outras  coisas  
tenebrosas  já  conhecidas  e  por  conhecer.  
Angustia-­‐me  pensar  o  que  vai  ser  destes  pobres  pais  e  dos  seus  filhos  no  dia  
em  que  estes  últimos  tenham  finalmente  de  sair  da  escola  A  onde  as  crianças  
só  comem  legumes  biológicos;  ou  da  escola  B  onde  aprendem  por  um  método  
natural   (nas   outras,   as   não   naturais   enfiam-­‐lhes   um   capacete   e   ligam-­‐lhes  
eléctrodos   à   cabeça!)   e   do   sítio   C   onde   como   actividade   extra-­‐curricular   se  
ensina  filosofia  a  crianças  que  ainda  não  têm  a  dentição  de  leite  completa.  
Esta   ditadura   da   infância   perfeita   é   das   coisas   mais   assustadoras   que   me   foi  
dado  ver  e  tudo  indica  que  veio  para  ficar  tanto  mais  que  proliferam  os  filhos  
únicos.   (E   só   Deus   sabe   os   trabalhos   e   complicações   que   uma   mulher   em  
dedicação   exclusiva   a   um   ser   humano   é   capaz   de   inventar!)   Para   cúmulo   os  
nados   e   criados   nesse   espaço-­‐tempo   da   infância   perfeita   tendem   não   só   a  
manter-­‐se   como   eternas   crianças   –   já   viram   aqueles   matulões   compêlos   a  
despontar   nas   pernas   e   umas   mães   ansiosas   a   puxarem-­‐lhe   a   mala   de   rodin-­‐
has?   –   como   a   acreditar   com   convicção   que   todos   os   outros   devem   condi-­‐
cionar  as  suas  vidas  e  atitudes  para  que  eles  não  se  traumatizem.  
No   Observador   até   vinha   esta   semana   uma   lista   daquilo   que   os   pais   não  
devem   fazer   para   não   envergonhar   os   filhos.   Supõe   uma   pessoa   que   seriam  
referidos  actos  como  roubar,  burlar  ou  não  cuidar  da  família.  Nada  disso.  No  
limite  creio  que  até  matar  não  constrangeria  muito  os  inquiridos  desde  que  os  
progenitores  não  disparassem  sobre  leões.  (Já  agora,  o  leão  Cecil  era  lindíssi-­‐
mo   e   não   percebo   o   prazer   de   disparar   sobre   leões.   Mas   ao   contrário   dos  
habitantes   humanos   do   Zimbabwe,   o   leão   Cecil   teve   comparativamente   uma  
vida   longa   que,   acrescente-­‐se,   na   Natureza   terminaria   de   uma   forma   não  
menos  cruel.)  
Mas  voltemos  aos  pais  que  envergonham  os  filhos.  Entre  outras  coisas  devem  
os   pais   evitar   dançar   na   presença   dos   filhos   ou   simplesmente   cantar   na   co-­‐
zinha.  É  que  face  a  esses  comportamentos  os  filhos  que  claro  cantam  e  dan-­‐
çam  o  que  lhes  apetece  e  quando  lhes  apetece,  ficam  envergonhados.  E  logo  
traumatizados,   e   logo   com   problemas   afectivos.   Só   não   percebi   se   os   pais  
podem   ousar   essas   manifestações   longe   do   olhar   dos   filhos   ou   se   mesmo  
assim   estes   ficam   consternados   porque   outros   os   podem   avistar   em   tais   ati-­‐
tudes.  
Enfim,  tal  como  no  pretérito  tempo  em  que  as  cegonhas  traziam  os  bebés,  um  
bocadinho  de  realidade  faz  muita  falta.  E  já  agora  uma  boa  dose  de  bom  senso  
ajudaria  à  demografia  muito  mais  que  as  políticas  ditas  de  natalidade.  

Moral da história
Sónia  Morais  Santos,  Cocó  na  fralda,  2015.07.28  

 
Ontem  fui  tratar  das  matrículas  dos  miúdos.    
Estava  a  preencher  a  ficha  da  Madalena  e,  tal  como  fiz  sempre,  quando  che-­‐
gou  ao  item  "Educação  Moral  e  Religiosa",  preenchi  o  quadradinho  do  "Não  se  
inscreve".  Depois,  parei.  Olhei  para  ela  e  lembrei-­‐me  de  todas  as  vezes  que  a  
apanhei  a  rezar.  Da  ida  a  Paris  e  de  ter  pedido  para  acender  uma  velinha  na  
basílica   de   Sacré   Coeur.   Das   suas   insistentes   perguntas   por   Jesus.   Do   pedido  
para   ser   baptizada.   E   então   perguntei-­‐lhe,   como   se   ela   soubesse   responder-­‐
me:  
-­‐  Tu  queres  ter  Educação  Moral  e  Religiosa?  
Ela  olhou-­‐me  com  aqueles  olhos  de  curiosidade  e  desejo  de  aprender.  
-­‐  O  que  é  isso?  
-­‐  É  para  saberes  mais  sobre  Jesus.  
-­‐  Quero!!!  
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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS

1 de Setembro de 2015

E  foi  então  que,  pela  primeira  vez  desde  que  sou  
mãe,  pus  uma  cruzinha  neste  item.  

Tornou-se mãe aos 12 anos. A partir daí, tudo mudou

A importância de se chamar Cecil

 
A   experiência   mostra   que   a   gravidez   adolescente   não   tem   de   ser   uma   tragé-­‐
dia.   Quem   está   no   terreno   para   ajudar   garante   que   não   conhece   quem   se  
tenha  arrependido  de  ter  o  filho  e  há  histórias  de  sucesso,  como  da  Vanessa.      
Tinha  apenas  12  anos.  O  rapaz  com  quem  estava  era  pouco  mais  velho,  tinha  
15.  Duas  crianças  sem  verdadeira  noção  daquilo  em  que  se  estavam  a  meter.    
“Tinha  noção  que  isso  acontecia...  Mas  aos  outros.  A  nós  nunca  nos  acontece  
nada,  não  é?”,  diz  Vanessa  Silva,  actualmente  com  24  anos  e  funcionária  num  
lar,  em  Alenquer.  
 
Só   que   aconteceu   mesmo.   Vanessa   engravidou,   mas,   na   inocência   dos   seus   12  
anos,  levou  meses  a  perceber.  Nem  o  facto  de  não  lhe  aparecer  a  menstrua-­‐
ção  levantou  suspeitas.  “Eu  era  uma  miúda.  Eu  queria  era  não  ter,  não  sabia  
porque   é   que   não   acontecia.   Quem   deu   conta   mesmo   foi   o   meu   irmão   mais  
velho,   que   estranhou,   porque   era   ele   quem   nos   pagava   tudo.   O   meu   pai,   na  
altura,  já  era  ausente.  E  estranhou  que  alguma  coisa  se  passava  para  eu  não  
pedir  dinheiro  para  as  coisas  de  mulher.”  
 
A  consulta  no  hospital  confirmou  as  suspeitas,  para  desgosto  e  frustração  do  
irmão  mais  velho,  que,  desde  a  morte  da  mãe  e  do  abandono  por  parte  do  pai,  
cuidava   da   família   de   seis   irmãos.   “Eu   era   das   mais   novas   e   ele   sentia   que  
falhou.   Era   frustrante,   porque   ele   matava-­‐se   a   trabalhar   para   conseguir   criar  
os   irmãos   e,   no   entanto,   foi   um   bocado   desilusão.   E   havia   a   preocupação   de  
saber  o  que  iria  acontecer  comigo,  porque,  naquele  instante,  ele  percebeu  que  
nunca  mais  ia  voltar  a  ser  a  mesma  coisa,  tudo  ia  mudar.”  
 
Vanessa   foi   encaminhada   para   a   Casa   de   Santa   Isabel,   um   centro   de   acolhi-­‐
mento  do  Apoio  à  Vida,  vocacionado  para  acolher  grávidas  em  situações  difí-­‐
ceis.   Os   outros   irmãos   foram   para   diferentes   instituições   e   as   duas   mais   novas  
acabaram   por   ser   adoptadas.   Apesar   de   na   altura   ter   custado,   Vanessa   não  
duvida  que  foi  para  melhor.  
 
“Foi  tudo  melhor.  Era  egoísta  da  minha  parte  dizer  que  ia  ser  possível.  Não  ia.  
As  duas  irmãs  mais  novas  tinham  problemas  de  saúde  e  o  meu  irmão  tinha  a  
vida  dele.  Era  um  rapaz  novo  também,  tinha  de  constituir  a  família  dele,  mas,  
coitado,  ele  tomava  conta  de  nós  como  se  fôssemos  filhos,  e  não  éramos.”  
 
 
Joana  Tinoco  de  Faria,  psicóloga  no  Apoio  à  Vida    
 
Centenas   de   casos   todos   os   anos   Todos   os   anos   em   Portugal   nascem   centenas  
de  bebés  cujas  mães  têm  menos  de  15  anos.  As  gravidezes  com  11  ou  12  anos  
são  raras,  mas  existem.  As  razões  por  detrás  são  mais  complexas  do  que  po-­‐
dem   parecer   à   primeira   vista,   explica   Joana   Tinoco   de   Faria,   psicóloga   do  
Apoio  à  Vida.  
 
“Muitas   vezes   as   gravidezes   surgem,   psicologicamente,   como   um   grito   incons-­‐
ciente  de  autonomia  e  até  de  uma  construção  de  um  projecto  de  família  des-­‐
fasado,  isto  é,  fantasioso,  mas  um  grito  por  uma  família  própria,  um  porto  de  
abrigo,  em  famílias  em  que  isto  se  calhar  não  existe",  declara.  
 
Para  muitos  que  assistem  de  fora  a  solução  mais  óbvia  poderia  parecer  ser  o  
aborto,   mas   a   vontade   das   meninas   muitas   vezes   é   outra.   Não   é   raro   haver,  
nesses  casos,  uma  pressão  difícil  de  resistir.  “Se  ponderam  abortar  nesta  etapa  
tem   sobretudo   a   ver   ou   com   a   pressão   da   família,   o   que   acontece   com   fre-­‐
quência  e  a  família  tem  aqui  um  peso  fundamental,  sobretudo  nestas  idades,  e  
normalmente  é  a  família  que  não  vê  uma  maternidade  adolescente  como  uma  
possibilidade  na  vida  daquela  rapariga”,  diz  a  psicóloga.  
 
“Parece  uma  resolução,  o  chamado  ‘desengravidar’,  isto  é,  ‘engravidaste,  mas  
vamos   resolver   o   assunto’   e   é   frequentemente   assim   que   é   abordado   este  
assunto.  Acho  que  a  família,  grande  parte  das  vezes  acredita  que  está  a  fazer  o  
melhor,   porque   sente   que   está   a   devolver   à   criança   aquela   infância.   Resta  
saber   se   passar   por   uma   experiência   como   o   aborto,   ainda   que   não   se   tenha   a  
verdadeira   consciência   daquilo   que   se   está   a   fazer,   mais   tarde   não   se   vai   fazer  
sentir  de  outras  formas.”  
 
No  caso  da  Vanessa,  o  aborto  legal  não  era  opção.  A  Lara  nasceu  em  Maio,  já  a  
mãe   tinha   13   anos,   mas   a   estadia   na   Casa   de   Santa   Isabel   prolongou-­‐se   por  
vários   anos.   A   ideia   da   instituição   é   a   de   que   as   raparigas   só   saiam   com   um  
projecto   de   vida   formado,   como   explica   Fernanda   Ludovice,   directora   do  
centro  de  acolhimento:  “Gostamos  que  nos  cheguem  o  mais  cedo  possível  na  

Catarina  Nicolau  Campos,  senzapagare,  2015.08.02  

 
Cecil   era   um   leão   que   vivia   numa   área   protegida  
no   Zimbabué.   Os   seus   passos   eram   seguidos   por  
investigadores  de  Oxford,  era  um  animal  conside-­‐
rado   sociável   e   particularmente   fotogénico   –   as  
suas   fotografias   pela   internet   são   mais   que   mui-­‐
tas.   Era   um   leão   conhecido   na   região,   e   no   mun-­‐
do,   de   uma   grande   beleza,   e   do   qual   gostavam  
todos  quantos  o  conheciam.  
 
Na   passada   semana,   numa   caçada,   Cecil   acabou  
decapitado  e  sem  pele.  O  seu  perpetrador,  Walter  
Palmer,  cidadão  norte-­‐americano,  médico  dentis-­‐
ta,  pelos  vistos,  caminha  para  o  mesmo  destino.  
 
Para   além   das   ameaças   de   morte,   do   Pólo   Norte  
ao   Pólo   Sul,   manifestações   de   revolta,   insultos   e  
pedidos  de  extradição,  a  administração  de  Obama  
decidiu   também   abrir   um   inquérito   ao   que   terá  
ocorrido,  a  fim  de  se  apurarem  as  devidas  respon-­‐
sabilidades,  e  de  que  a  punição  seja  exemplar.  
 
Palmas.  
 
Pela   mesma   altura   foi   divulgado   um   vídeo   que  
mostra   a   directora   da   Planned   Parenthood,   uma  
associação   americana  que  promove  e  colabora  na  
prática   de   abortos   nos   Estados   Unidos   da   Améri-­‐
ca,  a  vender  órgãos  de  bebés  em  troca  de  somas  
avultadas   de   dinheiro   e   outros   gozos   materiais,  
tais  como,  por  exemplo,  um  Lamborghini.    
 
A   seguir   ao   vídeo,   outro,   e   outro....   Tráfico   de  
órgãos   de   bebés.   Bebés   que   são   mortos   e   des-­‐
membrados.  A  troco  de  dinheiro,  muito  dinheiro.  
Sob   a   máscara   de   “saúde   sexual   e   reprodutiva”.  
Seguido  do  choque  inicial,  que  levou  a  que  muitas  
empresas,  como  a  Coca-­‐Cola,  Xerox  ou  a  Ford,  se  
desvinculassem   da   Planned   Parenthood,   a   reac-­‐
ção   do   Partido   do   mesmo   Obama:   outro   inquéri-­‐
to.   Mas   desta   feita   não   para   apurar   responsabili-­‐
dades,   não   para   punir   exemplarmente,   mas   para  
silenciar,   para   compactuar,   para   fingir   que   este  
horror   não   existe.   Um   inquérito   para   averiguar,  
pasme-­‐se,  a  legalidade  das  imagens  obtidas.    
 
E  agora,  o  silêncio.  
 
O   sepulcral   silêncio   dos   media,   das   televisões,   das  
rádios,  das  redes  sociais.  O  silêncio  que  esconde  o  
sangue   dos   inocentes.   Onde   estão   as   manifesta-­‐
ções,  as  petições  à  Casa  Branca,  o  choro,  a  indig-­‐
nação,   a   revolta,   a   vontade   de   fazer   desaparecer  
esta  gente  da  face  da  Terra?  Onde  estão  os  cora-­‐
ções   inflamados   de   justiça   e   de   compaixão?   A  
coragem   de   fazer   frente,   de   proteger   quem   não  
pode   ser   protegido,   de   gritar   por   quem   não   con-­‐
segue   falar,   de   garantir   a   liberdade   e   defender   a  
dignidade  de  quem  tem  a  mesma  Natureza?  Onde  
está  a  identidade,  a  consciência  de  cada  um?  
 
Para   onde   caminhas   tu,   ó   Homem,   para   onde  
caminhamos   nós,   nesta   selva   em   que   um   rugido  
de   um   leão   é   mais   importante   que   um   choro  
silenciado  de  uma  criança?  

RR  online  03-­‐08-­‐2015  10:00  por  Filipe  d’Avillez  e  Joana  Bourgard  

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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS

1 de Setembro de 2015

gravidez,   porque   temos   um   espaço   enorme   para  
preparar   a   gravidez,   vincular   a   mãe   ao   bebé,  
enquanto   está   dentro   da   barriga,   mas,   às   vezes,  
não  acontece  assim.”  
 
“Depois   da   gravidez,   os   primeiros   tempos   do  
bebé,   para   preparar   a   mãe   para   as   coisas   mais  
normais,   como   tomar   banho,   amamentar,   passar  
à   sopa...   Todas   essas   coisas.   Depois   desses   quatro  
ou  cinco  meses  em  que  elas  estão  completamen-­‐
te   centradas   no   bebé,   e   no   seu   papel   de   mãe,   a  
preparação   para   o   regresso   ao   mundo   lá   fora,   à  
vida  de  trabalho,  construção  de  competências  ao  
nível  profissional”,  conclui.  
 
Engravidar  existe,  “desengravidar”  não  
Foi  o  que  se  passou  com  a  Vanessa,  que  hoje  em  
dia  leva  uma  vida  independente  e  segura,  susten-­‐
tando-­‐se  a  si  e  à  Lara  com  o  fruto  do  seu  trabalho.  
A   menina   de   12   anos   já   lá   vai.   “Saí   a   agradecer  
tudo  o  que  fizeram  por  mim.  Porque  se  não  fosse  
a  Casa  de  Santa  Isabel  eu  não  era  quem  sou  hoje.  
Devia   ser   uma   grande   calona   que   não   queria  
trabalhar,  que  não  queria  nada,  mas  sou  comple-­‐
tamente  o  oposto”,  que  é  como  quem  diz,  “se  não  
fosse  a  Lara,  não  era  eu.”  
 
A   verdade,   porém,   é   que   nem   todas   as   meninas  
que   engravidam   têm   a   sorte   da   Vanessa.   Algumas  
escolhem,   ou   são   empurradas,   para   um   caminho  
diferente  e  doloroso.  Porque  na  verdade,  o  verbo  
“desengravidar”  não  existe.  
 
A  psicóloga  Joana,  que  admite  nunca  ter  acompa-­‐
nhado   uma   mulher   que   se   arrependesse   de   ter  
tido   o   seu   filho,   recorda:   “Uma   vez   fui   a   uma  
escola   falar   e   quando   estava   a   sair,   houve   uma  
rapariga   que   se   aproximou   de   mim   e   que   disse  
que   gostava   de   falar   comigo.   Vinha   de   lágrimas  
nos   olhos   e   disse-­‐me:   ‘Só   lhe   quero   pedir   um  
favor:  Que  falem  disto  a  mais  gente.  Porque  se  eu  
soubesse   o   que   sei   hoje,   se   soubesse   que   havia  
ajudas,  não  tinha  feito  o  que  fiz.”  
 
O   Apoio   à   Vida   opera   em   Lisboa   desde   1998.  
Todos   os   anos   recorrem   aos   seus   serviços   cerca  
de  350  mulheres  e  pela  Casa  de  Santa  Isabel,  que  
foi  fundada  em  2003,  já  passaram  pelo  menos  140  
mães.   A   instituição   tem   um   número   grátis   para  
quem  precisa  de  ajuda:  800  20  80  90  
 

O grande combate
JOÃO  CÉSAR  DAS  NEVES  |  DN  2015.08.05  

Este  é  um  tempo  de  intenso  combate  ideológico.  
As   causas   são   muitas,   mas   a   origem   é   única:   a  
enorme   aceleração   do   ritmo   de   mudança   do  
mundo.   Estas   décadas   trouxeram   espantosas  
novidades   tecnológicas,   geopolíticas,   económicas  
e   financeiras.   As   potencialidades   são   espantosas,  
mas   também   os   custos   dessa   transformação.  
Desaparecem  muitas  profissões,  sectores  e  activi-­‐
dades,   criando   fortes   tensões   sociais   e   intensas  
perplexidades   políticas.   O   mundo   melhora   imen-­‐
so,   mas,   como   sempre,   os   danos   colaterais   são  
também  trágicos.  
As   consequências   destas   novidades   sobre   o   qua-­‐
dro   institucional   e   as   atitudes   ideológicas   são  
crescentes.   Temos   de   lutar   por   muito   daquilo   que  
consideramos   básico   e   seguro.   Como   em   antigas  
épocas   de   tumulto,   a   nossa   será   confrontada   com  
clivagens,   confrontos   e   escolhas   difíceis,   que  
testarão   os   nossos   valores   mais   fundamentais.  
Chegam  períodos  em  que  precisaremos  de  ideias  

claras  e  opções  firmes.  
O   elemento   mais   palpável   é   um   descontentamento   generalizado   contra   as  
forças   tradicionais,   que   há   poucos   anos   facilmente   ganhavam   eleições.   As  
mudanças,  que  assolam  todos,  impõem  intenso  descrédito  aos  partidos  domi-­‐
nantes  e  suscitam  o  ressurgimento  de  forças  extremistas,  de  ambos  os  lados  
do   espectro   doutrinal.   Aparentando   novidade,   esses   movimentos   copiam  
antigas  teses  e  fundamentalismos  que  a  estabilidade  enterrara  durante  déca-­‐
das.   Hoje   em   muitos   países   ocidentais,   de   ambos   os   lados   do   Atlântico,   ou-­‐
vem-­‐se  de  novo  os  embates  entre  radicais  de  esquerda  e  de  direita  que  apai-­‐
xonaram  e  feriram  os  nossos  avós.  
Do   Syriza   grego   ao   Tea   Party   norte-­‐-­‐americano,   do   Podemos   ao   Ciudadanos  
espanhóis,   as   novíssimas   vozes   vêm   de   velhos   partidos   jacobinos   ou   liberais,  
ensaiando   as   mesmas   lutas   de   há   80,   150   e   230   anos.   As   condições   concretas,  
drasticamente   diferentes,   têm   em   comum   o   forte   descontentamento   pela  
cíclica   intensificação   da   mudança   socioeconómica.   Tal   basta   para   criar   um  
renovado  combate  ideológico  que  vemos  crescer  à  nossa  volta  e  para  o  qual  
temos  nos  preparar.  
Apesar   das   semelhanças,   é   importante   notar   as   novidades   que   o   nosso   tempo  
trouxe  a  esse  confronto  clássico.  Sem  que  aliviem  necessariamente  o  embate,  
não  deixam  de  ser  relevantes.  
O   primeiro   aspecto   original,   em   grande   medida   surpreendente,   é   a   ausência  
de   utopias.   Os   extremismos   actuais   limitam-­‐se   a   bramar   contra   a   situação,  
sem   prometerem   o   paraíso   na   terra.   Robespierre,   Marx,   Hitler,   Estaline   e   Mao  
cavalgavam  uma  onda  de  ideais,  que  justificava  os  sacrifícios  que  impunham;  
hoje,   Tsipras,   Trump,   Le   Pen,   Iglesias   e   Huckabee   protestam   muito   mais   do  
que   prometem.   A   culpa   ou   o   mérito   não   são   seus   pois,   após   os   desastres  
precedentes,   ninguém   acredita   já   nos   profetas   do   mundo   perfeito.   Isto,   se  
revela  um  tempo  mais  sensato  e  realista,  também  concede  uma  atitude  mais  
cínica,  amarga  e  desiludida.  
Por  outro  lado,  o  descontentamento  acontece  em  sociedades  espantosamente  
mais   ricas.   Ninguém   pode   menosprezar   o   terrível   sofrimento   da   desgraça  
grega,   o   desemprego   espanhol,   banlieues   franceses   ou   inner   cities   america-­‐
nas;  mas  é  também  inegável  que  esses  dramas  não  têm  comparação  com  os  
horrores  de  1793,  1848,  ou  1933.  Também  os  esfomeados  d"As  Vinhas  da  Ira  
de   Steinbeck   (1939),   apesar   dos   seus   automóveis,   continuavam   miseráveis,  
mas   muito   menos   do   que   os   de   Victor   Hugo   (1862).   A   presente   crise   social  
desenrola-­‐se  no  Twitter  e  no  Facebook,  usa  telemóvel  e  tem  serviço  nacional  
de   saúde   e   seguro   social.   Isso,   se   revela   um   tempo   mais   cómodo   e   burguês,  
também  concede  meios  mais  poderosos  às  forças  subversivas.  
De   qualquer   modo   não   pode   haver   dúvida   de   que   hoje,   como   nas   gerações  
anteriores,  vamos  ser  testados  nas  nossas  convicções  mais  decisivas.  No  meio  
da  dívida,  do  desemprego,  da  imigração,  do  aborto  e  do  terrorismo,  múltiplas  
questões  banais  e  quotidianas  vão  estar  mergulhadas  em  debates  profundos,  
como  nos  tempos  de  Danton,  Bismarck  ou  Roosevelt.  Os  conceitos  básicos  de  
liberdade  e  igualdade,  nascimento  e  casamento,  democracia  e  Europa,  justiça  
e  solidariedade,  que  há  uns  anos  eram  pacíficos  e  consensuais,  tomam  novos  
cambiantes  ambíguos  e  geram  acesas  discussões  e  lutas.  
Sabemos   que   isto   nos   pode   conduzir   à   desgraça.   Os   confrontos   anteriores  
terminaram   em   regimes   totalitários,   de   esquerda   ou   direita,   cujos   horrores  
ainda   vivem   na   memória   colectiva.   Essa   pode   ser   uma   vantagem,   se   tal   evi-­‐
dência   servir   de   antídoto.   Sabemos   que   a   única   solução   é   cada   um,   no   seu  
sítio,   dar   voz   às   posições   sábias   e  moderadas   que,   no   meio   da   fúria,   os   nossos  
antepassados  ignoraram.  Só  isso  nos  pode  salvar  no  próximo  terrível  embate.  

Debates e consensos
Raquel  Abecasis  RR  online  05-­‐08-­‐2015  

 
Na  véspera  das  eleições  de  4  de  Outubro  conseguiu-­‐se  o  que  normalmente  é  
impossível  em  Portugal:  mudou-­‐se  a  lei  e  houve  consenso  para  realizar  deba-­‐
tes  imprescindíveis  ao  esclarecimento  do  eleitorado.  
Depois  de  vários  actos  eleitorais  sem  debates,  por  causa  das  interpretações  de  
uma   lei   de   cobertura   de   campanhas   que   estava   completamente   obsoleta   e  
que   inviabilizava   a   qualquer   meio   de   comunicação   social   cumprir   todos   os  
requisitos   sem   perder   toda   a   sua   clientela,   na   véspera   das   eleições   de   4   de  
Outubro  conseguiu-­‐se  o  que  normalmente  é  impossível  em  Portugal:  mudou-­‐
se   a   lei   e   houve   consenso   para   realizar   debates   imprescindíveis   ao   esclareci-­‐
mento  do  eleitorado.  
Talvez  seja  um  bom  presságio  para  o  que  aí  vem.  Afinal  são  possíveis  enten-­‐
dimentos  em  benefício  do  país.  
A  Renascença  orgulha-­‐se  de  fazer  parte  desta  história.  No  mês  de  Maio  fez  o  
desafio   às   nossas   rádios   concorrentes,   para   que   nos   juntássemos   no   desafio  
de   trazer   o   debate   à   rádio.   O   desafio   foi   aceite   de   imediato   e,   desde   então,  
Renascença,  TSF  e  Antena  1  trabalharam  em  conjunto  até  agendarem  para  o  
dia  17  de  Setembro  a  realização  do  último  frente  a  frente  entre  os  dois  candi-­‐
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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS

1 de Setembro de 2015

datos  a  primeiro-­‐ministro:  Pedro  Passos  Coelho  e  
António  Costa.  
À  semelhança  do  que  fizeram  as  rádios,  as  televi-­‐
sões   tomaram   idêntica   iniciativa   ao   perceberem  
que  não  era  possível  realizar  um  debate  em  cada  
estação.   O   entendimento   foi   possível   entre   con-­‐
correntes  e  entre  candidatos  e  quem  fica  a  ganhar  
são   os   portugueses   que   podem   assim   ter   duas  
oportunidades  de  ponderar  e  escolher  perante  os  
argumentos  dos  que  pedem  o  nosso  voto.  
Toda   esta   história   prova   que   é   possível   fazer  
diferente   e   que   a   maturidade   democrática   tam-­‐
bém   mora   para   estas   bandas.   É   um   bom   início  
para  uma  campanha  eleitoral  que  se  espera  dife-­‐
rente  para  melhor,  porque  é  disso  que  Portugal  e  
os   portugueses   precisam   depois   de   terem   atra-­‐
vessado  a  maior  crise  dos  últimos  40  anos.  Agora  
é  tempo  de  virar  a  página.  
 

"Marcou a sua geração sacerdotal a vários
níveis, belíssimos todos"

6  de  Agosto  de  2015  

Nascido   em   Lisboa   a   15   de   setembro   de   1972,   o  
padre   Ricardo   Neves   viveu   a   infância   em   Rio   de  
Mouro,  beneficiando  desde  o  berço  de  uma  cari-­‐
nhosa  edução  cristã  e  humana  que  se  refletiu  em  
muitos   traços   da   sua   personalidade   e   da   sua  
atuação   pastoral.   Aluno   dos   seminários   do   Patri-­‐
arcado  de  Lisboa  desde  1986,  foi  ordenado  padre  
a   29   de   junho   de   1997,   no   Mosteiro   dos   Jeróni-­‐
mos,   e   celebrou   a   sua   Missa   Nova   a   13   de   julho,  
em  Rio  de  Mouro.  
 
Desde   setembro   de   2011   era   pároco   de   Santo  
António  do  Estoril  e  vigário  de  Cascais,  juntamen-­‐
te   com   a   direção   do   Serviço   de   Animação   Espiri-­‐
tual.   Ao   longo   dos   seus   18   anos   de   sacerdócio,   foi  
também   prefeito   e   vice   reitor   do   Seminário   de  
São   José   de   Caparide,   assistente   do   Sector   de  
Cascais  das  Equipas  de  Jovens  de  Nossa  Senhora  e  
diretor  diocesano  do  Serviço  da  Pastoral  Vocacio-­‐
nal.  
Escrevendo   um   dia   a   João   Costa,   membro   do  
“Percurso   Alpha”,   o   padre   Ricardo   Neves   confes-­‐
sava:  «Ser  padre  é  para  mim  uma  grande  felicida-­‐
de.  Não  o  procuro  por  causa  da  felicidade  mas  ela  
vem   realmente   como   consequência   de   estar   ao  
serviço,   de   viver   em   comunhão   com   Jesus,   de  
estar   na   vida   das   pessoas   e   ajudar   a   construir   a  
Igreja.   Esta   felicidade   tem   as   mesmas   marcas   da  
de   Jesus:   está   atravessada   pelo   mistério   da   Cruz,  
onde   o   amor   e   a   confiança   são   chamados   a   radi-­‐
calizar-­‐se.   Tenho   experimentado   também   isso   na  
minha   vida:   pelo   meio   de   tormentas   e   sofrimen-­‐
tos,  Deus  faz  crescer  um  amor  mais  límpido».    
O   Cardeal-­‐Patriarca   de   Lisboa,   D.   Manuel   Clemen-­‐
te,  que  o  conheceu  desde  a  entrada  no  seminário  
e  o  acompanhou  proximamente  na  sua  vida,  com  
um  cuidado  especial  neste  último  ano,  reconhece  
essa   felicidade   que   o   padre   Ricardo   Neves   expe-­‐

rimentava  no  seu  sacerdócio  e  no  serviço  às  pessoas:  «O  padre  Ricardo  Neves  
marcou   a   sua   geração   sacerdotal   a   vários   níveis,   belíssimos   todos.   Entre   os  
seus   colegas   de   seminário,   era   naturalmente   líder,   pela   inteligência,   pela  
sensibilidade,  pelo  entusiasmo.  Entre  os  seus  seminaristas,  depois,  juntava  um  
alto   grau   de   discernimento   com   a   relação   próxima,   fraterna   e   estimulante.  
Para   quem   o   escolheu   como   "diretor   espiritual",   de   perto   ou   mais   longe,   foi  
determinante   para   o   sentido   cristão   da   existência   e   a   fidelidade   certa   aos  
compromissos.  Para  os  seus  paroquianos,  foi  um  pastor  de  todas  as  horas,  de  
todos   os   projetos,   de   aplicação   sacerdotal   inteira.   Foi-­‐o   também   nos   longos  
meses  da  sua  doença,  de  que  fez  cruz  salvadora».    
Recorda  o  padre  José  Paulo  Machado,  vigário  paroquial,  que  o  auxiliou  e  viveu  
com  ele  todos  estes  anos  de  pároco  do  Estoril,  desde  que  se  encontraram  em  
Julho   de   2011   para   «traçar   um   plano   conjunto   para   a   comunidade   paroquial  
do   Estoril»:   o   padre   Ricardo   Neves   era   um   «atento   observador   de   todos   os  
pormenores»  e  «foi  essa  observação  amorosa  sobre  as  pessoas,  sobre  a  paró-­‐
quia,  sobre  as  situações,  sobre  os  pormenores,  a  responsável  pela  construção  
de  uma  paróquia  agora  verdadeiramente  conciliar,  dotada  de  instrumentos  de  
corresponsabilidade   transversais   a   todos   os   seus   membros».   Impressionado  
pelo   sentido   pastoral   e   pelo   testemunho   que   manteve   sempre,   incluindo  
durante   a   doença,   refere   ainda   que   «mesmo   na   dolorosa   provação   do   galo-­‐
pante   cancro   que   o   invadiu,   o   Padre   Ricardo   nunca   descurou   uma   atenta  
observação  sobre  o  amanhã  da  paróquia  e  sobre  si  próprio».    
Logo  quando  tomou  posse  no  Estoril,  o  padre  Ricardo  Neves  renovou  e  inovou  
muitas   práticas   pastorais,   mas   a   mais   simples   e   fundamental   de   todas   terá  
sido,   muito   provavelmente,   a   oferta   permanente   e   diária   do   sacramento   da  
Reconciliação.   «Num   dia   muito   importante   da   história   da   minha   conversão  
senti   uma   força   muito   grande   para   não   adiar   mais   a   Confissão:   meti-­‐me   no  
carro   e   fui   direita   à   paróquia.   A   minha   história   com   o   padre   Ricardo   começa  
porque  ele  estava  no  sítio  certo  à  hora  certa:  o  confessionário!  Aí  começou  o  
caminho  que  me  trouxe  ao  convento  e  no  qual  o  padre  Ricardo  tem  sido  uma  
mão   da   Providência»,   lembra   Sor   Maria   Madalena   da   Divina   Misericórdia  
(monja  concepcionista).  
No   mesmo   sentido   de   disponibilidade   permanente   para   o   acompanhamento  
pessoal,   Fátima   Terra,   atualmente   no   Secretariado   da   Catequese   do   Patriarca-­‐
do   de   Lisboa,   que   conheceu   o   Padre   Ricardo   Neves   na   juventude   e   era   sua  
dirigida   espiritual,   vê   nele   «um   irmão,   um   amigo,   um   companheiro   nesta  
peregrinação  que  fazemos  para  o  Céu…uma  vez  que  não  temos  aqui  morada  
permanente»  e  conclui:  «Tenho  a  certeza  que  o  padre  Ricardo  foi  colocado  no  
meu   caminho   por   Deus.   Foi   ele   que   nestes   seis   anos   me   acolheu,   apoiou   e  
suportou,  animando  a  minha  Fé  e  Esperança  e  estimulando  a  minha  vivência  
da  Caridade,  particularmente  nos  momentos  mais  difíceis».  No  mesmo  senti-­‐
do,   João   Costa:   «Através   da   sua   catequese,   a   minha   vida   espiritual   cresceu  
bastante.  Nos  dias  que  correm,  em  que  nos  faltam  mestres  de  vida  interior,  e  
de  uma  existência  digna  de  ser  vivida,  eu  sinto-­‐me  muito  privilegiado  por  o  ter  
tido  no  meu  convívio  íntimo  e  a  guiar-­‐me,  hoje  e  sempre».  
Maria   João   Dias   Ferreira,   jovem   da   paróquia   do   Estoril,   recorda   que   o   nosso  
prior   se   fazia   «transmissor   incansável   desse   mesmo   amor   [de   Deus].   Uma  
dádiva  de  Deus  na  minha  vida,  que  sem  eu  esperar  e  nada  antever,  me  tocou  
profundamente.   O   padre   Ricardo   era   uma   pessoa   cheia   de   Jesus.   Uma   alma  
amiga  e  extremamente  inspirada.  (…)  O  amor  de  Deus  é  grande  e  transmite-­‐se  
desta  forma:  através  de  quem  nos  ama,  de  quem  nos  quer  bem  e  nos  motiva  a  
fazer   o   mesmo.   Assim   era   o   padre   Ricardo   Neves,   alguém   que   me   amou   de  
verdade,  como  Jesus,  convertendo  o  meu  coração».Como  conclui  o  Patriarca  
de   Lisboa   no   seu   testemunho   sobre   o   padre   Ricardo   Neves,   «Continuaremos  
com  ele,  pois,  como  Santa  Teresinha,  "passará  o  seu  céu  a  fazer  bem  na  Ter-­‐
ra"».  

Holocausto inútil
Jaime  Nogueira  Pinto  |  Sol  |  11/08/2015  

 
Há  70  anos,  em  Agosto  de  1945,  a  guerra  continuava  no  Pacífico.  Acabara  na  
Europa  no  dia  8  de  Maio  e  tinham  já  desaparecido  três  dos  seus  grandes  pro-­‐
tagonistas:  F.  D.  Roosevelt  morrera  a  12  Abril  sem  que  chegasse  a  ver  a  vitória  
aliada;  Mussolini  fora  fuzilado  no  dia  28  de  Abril  por  um  grupo  de  partigiani,  
não  se  sabe  ao  certo  às  ordens  de  quem;  e  Adolfo  Hitler,  o  discípulo  de  Wag-­‐
ner  que  fizera  da  Europa  e  do  Mundo  o  cenário  do  seu  Götterdamerung,  suici-­‐
dara-­‐se  a  30  no  bunker  da  Chancelaria.  
Mas   ficara   o   Império   do   Japão,   que   os   Estados   Unidos   tinham   praticamente  
obrigado  a  ir  para  a  guerra  quando  lhe  cortaram  o  abastecimento  energético  
em  1941.  O  Japão,  depois  de  Pearl  Harbour,  lançara-­‐se  na  guerra  relâmpago,  
conquistando  e  dominando  grandes  extensões  do  Pacífico,  da  Indochina  e  da  
Insulíndia,  até  aí  domínios  coloniais  franceses  e  britânicos.    
Parados  em  Midway  pelos  porta-­‐aviões  americanos,  os  guerreiros  do  Sol  Nas-­‐
cente   vão   conhecer   depois   a   retirada   e   a   derrota.   A   guerra   aérea   com   bombas  
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incendiárias   contra   as   suas   cidades   e   a   guerra  
submarina   que   lhes   vai   afundando   os   navios,   os  
petroleiros   e   os   transportes,   vai   ter   um   efeito  
devastador  no  sistema  militar  e  logístico  imperial.  
No   dia   seguinte   à   vitória   na   Europa,   os   america-­‐
nos  concentraram-­‐se  na  frente  do  Pacífico.  Consi-­‐
derando   o   modo   renhido   e   fanático   da   resistência  
japonesa,   desde   os   aviadores   kamikazes   até   ao  
encarniçamento   da   infantaria   nas   ilhas,   pensava-­‐
se   que   a   conquista   final   do   Japão   pudesse   custar  
mais   de   dois   milhões   de   baixas   aos   invasores   e  
muitos  mais  às  tropas  e  às  milícias  civis  nipónicas.  
O   Projecto   Manhattan   começara   nos   Estados  
Unidos   no   pressuposto   de   que   os   alemães,   cujos  
físicos   eram   pioneiros   da   pesquisa   nuclear,   esta-­‐
vam  a  construir  a  bomba  atómica.  Em  Los  Alamos,  
Novo   México,   J.   Robert   Oppenheimer   dirigiu   e  
coordenou   a   equipa   que   construiu   as   duas   bom-­‐
bas  que  seriam  lançadas  sobre  o  Japão.  
Perante  os  efeitos  devastadores  das  novas  armas,  
os   japoneses   render-­‐se-­‐iam,   poupando   os   dois  
contendores  ao  preço  de  uma  longa  conquista.  Os  
alvos   iniciais   foram   Hiroshima   e   Quioto   mas,   por  
pressão  do  Secretário  da  Guerra,  Stimson,  Quioto  
foi  retirada  e  substituída  por  Nagasaki.    
No  dia  6  de  Agosto,  o  Enola  Gay  lançou  a  primeira  
bomba,   Little   Boy,   sobre   Hiroshima,   matando  
cerca   de   80.000   pessoas   de   imediato   e   deixando  
outras   tantas   com   vontade   de   ter   morrido.   Três  
dias   depois,   Nagasaki   recebia   a   segunda:   mais  
40.000  mortos.  
A  justificação  ‘humanitária’  de  Truman  e  dos  seus  
conselheiros  viria  a  ser  duramente  contestada  e  a  
polémica   ainda   não   terminou.   Os   responsáveis  
militares   americanos   -­‐   como   Eisenhower   e   o  
almirante  Leahy  -­‐  condenaram  a  bomba  por  inútil,  
já   que   o   Japão   estava   a   ponto   de   render-­‐se.   O  
próprio   general  Douglas   MacArthur,  comandante-­‐
em-­‐chefe   do   Pacífico,   que   não   fora   consultado,  
mostrou-­‐se   crítico.   O   Japão   render-­‐se-­‐ia   desde  
que   a   dinastia   continuasse.   Que   foi   o   que   veio   a  
acontecer.  
 

O milagre em Hiroshima
senzapagare,  2015.08.06  

 
A   6   de   Agosto   de   1945,   Festa   da   Transfiguração  
de  Cristo,  um  bombardeiro  americano  largou  uma  
bomba   atómica   que   detonou   580   metros   acima  
de   Hiroshima,   Japão.   A   explosão   incandescente  
matou  todas  as  pessoas  no  raio  de  1600  metros  a  
partir   do   “ground   zero”   -­‐   estimam-­‐se   60000   ho-­‐
mens,  mulheres  e  crianças.  
 
Nesta  data,  aconteceu  um  milagre  de  que  poucos  
ouviram  falar.  Os  únicos  sobreviventes  nesse  raio  
de   1600   metros   eram   oito   padres   jesuítas.   Estes  
oito   homens   escaparam   à   explosão   atómica   e  
viveram  até  uma  idade  avançada  sem  contamina-­‐
ção  radioactiva.  
 
O   padre   Jesuíta   Hubert   Schiffer,   um   dos   sobrevi-­‐
ventes,   tinha   30   anos   na   altura   da   explosão   de  
Hiroshima   em   1945.   Depois   de   celebrar   o   Santo  
Sacrifício   da   Missa,   da   festa   da   Transfiguração,  
sentou-­‐se   para   o   pequeno-­‐almoço   quando   todas  
as   janelas   brilharam   com   luz   em   todas   as   direc-­‐
ções.  
 
Aqui   está   a   descrição   do   Padre   Schiffer   sobre   o  
que   aconteceu:   “Uma   explosão   assustadora   en-­‐
cheu   o   ar   com   um   violento   choque   como   um  
trovão.   Uma   força   invisível   levantou-­‐me   da   minha  

cadeira,  arremessou-­‐me  através  do  ar,  agitou-­‐me,  bateu-­‐me,  e  arrastou-­‐me  a  
rodar  e  a  rodar.  
 
Ele  teve  algumas  lesões  menores,  e  os  médicos  do  Exército  Americano  ainda  
confirmaram   que   ele   e   os   seus   sete   companheiros   não   sofreram   nem   lesões  
graves  nem  danos  de  radiação.  
 
Quando   lhe   perguntaram   porque   é   que   ele   e   os   seus   companheiros   jesuítas  
saíram  sem  problemas  enquanto  que  todas  as  outras  pessoas  naquele  raio  de  
1600   metros   tinha   morrido,   o   Padre   Schiffer   respondeu:   “Nós   sobrevivemos  
porque  estávamos  a  viver  a  mensagem  de  Fátima.  Nós  vivíamos  e  rezávamos  o  
Terço  diariamente  em  casa.”  
 
Nagasaki,  casa  de  dois  terços  dos  Católicos  japoneses,  sofreu  a  segunda  bom-­‐
ba  atómica  a  9  de  Agosto  de  1945.  Este  cidade,  que  se  tinha  tornado  a  “capital  
japonesa   do   Catolicismo”   foi   obliterada.   No   entanto,   o   mosteiro   dos   francisca-­‐
nos   estabelecido   por   S.   Maximiliano   Maria   Kolbe   em   Nagasaki   permaneceu  
sem  danos.  S.  Maximiliano  tinha  anteriormente  decidido  ir  contra  um  conse-­‐
lho  que  lhe  tinham  dado  para  construir  o  seu  mosteiro  numa  localização  mais  
perto  da  cidade.  Em  vez  disso,  S.  Maximiliano  escolheu  uma  localização  atrás  
de  uma  montanha  que  ficava  no  meio  deles.  Quando  a  bomba  atómica  explo-­‐
diu,  o  mosteiro  mariano  foi  protegido  e  preservado.  

Perto do rio dos ‘Bons Sinais’ de Vasco da Gama
Gabriel  Mithá  Ribeiro  |  Obseravdor  16/8/2015  

 
Caminhei  cerca  de  oito  quilómetros  a  pé  da  ‘cidade  de  cimento’  de  Quelimane  
ao  bairro  periurbano  da  Madal,  no  norte  de  Moçambique.  Passada  a  primeira  
povoação,   continuei   na   única   estrada   de   terra   batida   ladeada   por   mangais  
despovoados.   Ao   início   da   manhã   havia   muita   gente   a   caminhar   em   sentido  
contrário   em   direção   à   cidade.   Iam   a   pé   e   sobretudo   de   bicicleta,   muitas   fa-­‐
zendo   de   ‘táxi’.   Também   circulavam   umas   poucas   motorizadas.   Em   qualquer  
caso,   algumas   transportavam   sacos   com   sal,   farinha,   carvão,   milho,   amen-­‐
doim,   fardos   de   lenha,   havia   um   cabrito   rechonchudo   torturado   a   cordas  
contra   o   suporte   da   bicicleta,   entre   outros   bens   que,   em   geral,   iriam   ser   nego-­‐
ciados  nos  mercados  da  cidade.  Como  eu  e  o  guia  que  me  acompanha,  poucos  
eram   os   que   ao   início   da   manhã   se   afastavam   da   cidade.   Entre   esses,   uns  
quantos   transportavam   bens   trazidos   da   cidade:   tábuas   polidas,   portas   de  
casas,  grades  de  bebidas  como  a  ‘2M’,  a  cerveja  nacional,  entre  outros.  
Entretido  com  a  paisagem,  a  caminhada,  o  movimento  ou  a  conversa,  a  certo  
passo   alertou-­‐me   um   sinal   do   poder   estado,   ou   melhor,   da   sua   ausência.   Atra-­‐
vessava  uma  ponte  metálica,  herança  colonial  que  passa  por  cima  de  um  dos  
afluentes  do  rio.  Junto  à  margem  oposta  havia  um  pequeno  engarrafamento.  
Ora  passavam  os  de  um  sentido,  ora  os  do  sentido  contrário.  De  perto  vi  que  
naquela  parte  só  é  possível  prosseguir  a  pé  porque  o  tabuleiro  da  ponte  fica  
reduzido   a   uma   largura   pouco   maior   do   que   a   de   uma   das   vigas   metálicas.  
Bicicletas   e   motorizadas   têm   de   ser   levadas   pela   mão.   Algumas   das   cargas  
exigem   destreza   aos   que   as   transportam   porque   o   risco   de   queda   não   deixa  
dúvidas.  Daí  a  ausência  de  carros  ou  camiões  naquele  circuito.  
A  ponte  serve  muita  gente  que  habita  numa  das  províncias  mais  populosas  e  
economicamente  mais  periféricas  de  Moçambique,  a  Zambézia.  A  sua  restau-­‐
ração  ou  reconstrução  valerá  um  quase  nada  comparado  com  os  sofisticados  
investimentos  em  betão  que  todos  os  dias  vemos  crescer  em  Maputo,  a  capi-­‐
tal  no  extremo  sul.  
Quem  andar  pelo  país  apercebe-­‐se  do  fascínio  civilizacional,  cultural,  ideológi-­‐
co   pela   cidade   e   pelo   que   ela   representa,   muito   em   particular   pela   cidade  
grande,   os   mesmos   espaços   que   num   passado   não   muito   longínquo   eram   a  
reserva   civilizacional   do   colono.   Há   semanas   na   Matola   (Maputo),   um   dos  
indivíduos  comuns  com  quem  vou  falando  opinou  (cito  de  cor):  ‘A  diferença  é  
que  no  tempo  colonial  os  brancos  iam  para  o  mato  e  agora  os  nossos  dirigen-­‐
tes  ficam  só  na  cidade’.  Tese  exagerada,  porém  sintomática.  
Ela  conduz  ao  enigma  das  raízes  culturais  dos  africanos  habitualmente  rotula-­‐
das  de  ‘profundas’.  Ou  são  de  tal  modo  profundas  que  dificilmente  se  rompem  
ou,  por  serem  profundas,  os  próprios  rompem-­‐nas  sem  retorno  para  abrirem  
caminho   a   uma   alteridade   identitária   ultra-­‐acelerada.   Por   essa   razão,   escu-­‐
dam-­‐se  num  mal  disfarçado  estado  de  negação  antieuropeu.  
Não   faz   muitos   anos,   um   intelectual   e   político   negro   moçambicano   criticava  
com  aspereza  o  facto  de  a  sua  sociedade  ser  regulada  pelo  que  designava  por  
“norma   branca”,   uma   herança   colonial   perversa   ainda   não   ultrapassada.   Por  
sua   causa,   explicava,   os   autóctones   abandonaram   a   sua   matriz   identitária,  
cultural  e  civilizacional  africana.  Curioso  é  que  esse  mesmo  intelectual  e  políti-­‐
co  sugeriu  que  a  entrevista  que  lhe  solicitei  decorresse  no  luxuoso  hotel  Pola-­‐
na,  em  Maputo,  vestia-­‐se  da  mais  apurada  indumentária  de  origem  europeia,  
exprimia-­‐se   num   português   límpido   de   fazer   inveja   e   é   descendente   de   uma  
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família   de   assimilados,   a   elite   autóctone   criada   no  
tempo   colonial.   Ainda   que   não   quisesse   julgá-­‐lo,  
saltavam   à   vista   as   dissonâncias   entre   discurso   e  
práticas,  entre  atitudes  e  comportamentos.  
Prosseguindo   a   caminhada   na   estrada   de   terra  
batida   e   quando   a   ponte   metálica   se   perdeu   da  
vista,   aproximei-­‐me   de   um   troço   no   qual   a   areia  
solta  dificultava  um  pouco  mais  a  circulação.  Nova  
revelação:  afinal  o  poder  do  estado  dava  um  ar  da  
sua   graça   junto   das   pessoas   comuns.   Cerca   de  
meia   dúzia   de   polícias   municipais   mandavam  
parar   os   transeuntes   para   lhes   exigirem   a   licença  
da  bicicleta  e  o  documento  da  permissão  de  con-­‐
dução.   Os   azarados   ou   distraídos   tinham   de   pagar  
uma   multa   para   seguirem   viagem.   O   guia   infor-­‐
mou-­‐me   que   era   de   cinquenta   meticais   e,   de  
seguida,   tinham   de   ir   tratar   da   legalização   na  
cidade.  O  custo  era  de  cento  e  cinquenta  a  duzen-­‐
tos   meticais,   valor   muito   acima   de   um   salário  
diário   médio,   se   se   quisessem   livrar   de   futuros  
incómodos.  
Como   o   mangal   que   ladeia   a   estrada   tinha   zonas  
sem   água,   em   vez   de   regressar   à   procedência,   um  
ou   outro   ciclista   indocumentado   metia-­‐se   pelo  
mangal   lodoso,   por   vezes   com   passageiros   ou  
carga,  e  saía  mais  à  frente  contornando  as  autori-­‐
dades,   um   ou   outro   a   barafustar   contra   os   abusos  
do   poder   e   contra   o   matope   (lama)   agarrado   ao  
calçado.  
Não  sei  se  tal  controlo  policial  faz  sentido.  O  que  
sei   é   que   o   episódio   trouxe-­‐me   à   memória   relatos  
dos   piores   dias   da   guerra   civil   (1976-­‐1992)   quan-­‐
do  as  pessoas  dificilmente  conseguiam  passar  por  
certos   controlos   nas   estradas   sem   que   fossem  
molestadas   por   militares.   Estes   poderiam   confis-­‐
car-­‐lhes   bens   conseguidos   e   transportados   a  
muito  custo  ou  cometer  todo  o  tipo  de  abusos  no  
caso   de   os   viajantes   serem   renitentes.   O   tempo  
passa   e   as   pessoas   vão   suportando   os   fardos   da  
vida.  
No   destino,   o   bairro   periurbano   da   Madal,   tive   a  
sorte  de  falar  longamente  com  o  régulo.  Conserva  
na   memória   a   permanência   por   seis   meses   em  
Portugal,   no   ano   de   1958,   e   de   então   ter   ouvido  
falar   na   campanha   presidencial   do   general   Hum-­‐
berto   Delgado.   Tinha   treze   anos   quando   começou  
a   trabalhar,   em   Quelimane,   como   empregado  
doméstico   do   comandante   do   navio   ‘Lúrio’.   Pró-­‐
ximo  do  rio  que  Vasco  da  Gama  batizou  de  ‘Bons  
Sinais’,   entre   outros   assuntos,   o   régulo   contou   a  
sua   versão   da   história   do   império   colonial,   a   que  
sobrevive   com   as   pessoas   que   (também)   o   vive-­‐
ram.  A  outra  é  a  versão  rainha,  a  dos  livros  e  das  
universidades.  
Por  alguma  razão  vou  preferindo  o  sentido  atribu-­‐
ído   à   vida   e   ao   tempo   que   passam   pelas   pessoas  
comuns  antes  que  os  mais  velhos  se  desliguem  da  
vida  e,  com  eles,  as  suas  subjetivas  e  indiscutíveis  
verdades.  

“O catolicismo está estritamente ligado à
razão. Para mim, é muito importante tentar
aprofundar as coisas em que acredito”
Catarina  Melo  |  Diário  Económico  |  2015.08.16  

 
Exigente  consigo  próprio  e  com  os  outros  
 
Apesar   do   seu   contributo   para   o   processo   de  
inovação   e   do   marketing   associado   aos   produtos  
da   Renova,   Paulo   Pereira   da   Silva,   alerta   para   a  
excessiva   personalização   que,   por   vezes,   há   na  
sua   pessoa.   "A   Renova   é   um   grupo   de   pessoas.   Se  
puder   contribuir   para   que   o   grupo   seja   inovador,  
criativo,  faça  coisas  com  paixão  e  arrisque,  é  essa  

a  minha  função.  É  mais  fazer  cultura  do  que  fazer  rolos  de  papel  higiénico",  faz  
questão  de  frisar.  A  viver  no  Chiado,  em  Lisboa,  o  gestor  desloca-­‐se  todos  os  
dias   à   fábrica   em   Torres   Novas.   Mas   as   viagens   preenchem-­‐lhe   cerca   de   meta-­‐
de   do   ano,   entre   deslocações   aos   60   mercados   onde   a   Renova   está   e   que  
contribuem   para   mais   de   metade   da   facturação   da   empresa,   que   ascende   a  
140  milhões  de  euros.  
No  dia-­‐a-­‐dia  de  trabalho,  a  rotina  de  Paulo  Pereira  da  Silva  é  sempre  diferente,  
entre  reuniões  e  ver  pessoas,  mas  há  coisas  das  quais  não  prescinde.  "Tenho  
de  ler  alguma  coisa,  espreitar  as  redes  sociais,  o  que  acaba  por  ser  um  hábito  
importante,   e,   se   puder,   à   hora   de   almoço   gosto   de   nadar",   refere.   As   redes  
sociais  são  espaços  que  muito  valoriza.  "Gosto  e  aprendo  todos  os  dias  muito  
com  as  redes  sociais".  
Quem   o   conhece   não   lhe   poupa   elogios   no   papel   de   gestor.   "As   pessoas   vêem  
nele   um   líder   e   uma   pessoa   de   acesso   fácil.   Quando   vai   à   fábrica   não   tem  
qualquer   preconceito   em   falar   com   uma   pessoa   que   está   na   linha   de   produ-­‐
ção",   refere   Luís   Saramago,   director   de   marketing   da   Renova,   que   já   estava   na  
empresa  quando  Paulo  Pereira  da  Silva  lá  entrou  em  1984.  O  rigor  e  a  exigên-­‐
cia  são  características  que  sobressaem  no  seu  perfil  de  trabalho.  "É  uma  pes-­‐
soa   de   um   grau   de   exigência   elevado   e   que   pauta   pelo   rigor   que   exterioriza  
nas   emoções,   tanto   na   satisfação   como   na   irritação",   explica   Luís   Saramago.  
Uma  exigência  que  considera  ser  uma  virtude  já  que  leva  as  pessoas  a  melho-­‐
rar.  Mas,  no  dia-­‐a-­‐dia,  há  coisas  que  Paulo  Pereira  da  Silva  não  admite.  Uma  
delas   é  a  falta   de   qualidade   na   informação.  "Para   lhe  exporem  um  assunto,  as  
pessoas  têm  de  o  saber  explicar  e  responder  às  questões  que  coloca",  explica  
Luís  Saramago.  
Já  o  amigo  José  Luís  Nunes  Martins  confessa  que  mudou  a  opinião  que  tinha  
acerca  do  gestor  quando  o  conheceu  há  cerca  de  três  anos.  "É  completamente  
diferente   do   que   julgava.   Pensava   que   era   vaidoso   e   rígido.   Na   verdade   é  
muito  humilde.  Só  pode  ser  verdadeiramente  humilde  quem  é  extremamente  
genial",   salienta   o   filósofo   que   desafiou   Paulo   Pereira   da   Silva   a   partilhar   a  
escrita  do  livro  "Via-­‐Sacra  para  Crentes  e  Não-­‐Crentes",  lançado  no  início  deste  
ano.  Reconhece-­‐lhe  ainda  a  determinação,  a  vontade  de  estudar,  conhecer  os  
problemas  a  fundo  e  resolvê-­‐los,  entre  os  principais  atributos.  
A  ligação  entre  a  ciência  e  a  religião  
Numa   das   paredes   do   gabinete   de   Paulo   Pereira   da   Silva   salta   à   vista   uma  
grande  ardósia  preta  preenchida  com  equações  de   Schrödinger  e  Maxwell  que  
este   classifica   de   "muito   belas",   e   que   mostram   até   onde   o   homem   chegou   na  
compreensão   do   universo.   Mesmo   ao   lado,   está   um   grande   telescópio   que,  
ainda   recentemente,   foi   usado   para   partilhar   com   os   colaboradores   um   vis-­‐
lumbre  do  último  eclipse  solar.  O  entusiasmo  com  que  fala  nos  fenómenos  da  
física  não  significa  que  se  considere  um  físico  frustrado.  "Não  tenho  frustração  
nenhuma.   Tenho   de   ser   humilde   em   relação   àquilo   que   Deus   me   deu   na   cabe-­‐
ça  para  ser.  Não  foi  para  ser  um  Einstein,  o  que  posso  dizer?",  diz  a  sorrir.  
Mas  a  formação  em  física  acaba  também  por  influenciar  o  seu  trabalho  como  
gestor.  "Quando  tinha  a  função  de  engenheiro,  tinha  fenómenos  físicos  no  dia-­‐
a-­‐dia,   hoje   em   dia   não.   Mas   o   rigor   intelectual   que   está   por   detrás   de   uma  
ciência   pura,   isso   sim.   Ou   seja,   o   método   abstracto   que   está   na   base   e   a   curio-­‐
sidade,  isso  sim  influencia  o  meu  trabalho",  refere.  
Um   físico   que   ao   mesmo   tempo   é   católico,   à   partida   poderá   parecer   incom-­‐
preensível.  Mas  não  na  cabeça  de  Paulo  Pereira  da  Silva.  "O  catolicismo  está  
estritamente  ligado  à  razão.  Para  mim,  é  muito  importante  tentar  aprofundar  
as   coisas   em   que   acredito.   Tentar   estudar",   disse   o   CEO   numa   entrevista   re-­‐
cente  ao  canal  Família  Cristã.  Na  mesma  ocasião  explicou  que  a  religião  é  uma  
questão   familiar.   "Sempre   fez   parte   da   minha   vida.   É   algo   importantíssimo  
para  o  meu  equilíbrio:  para  saber  o  que  me  move",  esclareceu.  
Os  ‘hobbies'  
Considerado   bom   ouvinte,   Paulo   Pereira   da   Silva   é   visto   também   como   uma  
pessoa  solitária,  sendo  que  nunca  casou  nem  tem  filhos.  É  o  próprio  a  admitir  
que   às   vezes   precisa   estar   sozinho   e   de   silêncio   para   "pensar   e   arrumar   a  
cabeça".   Podem   ser   três,   quatro   dias   ou   uma   semana,   mas,   nesse   espaço   de  
tempo,   todos   os   aspectos   práticos   do   dia-­‐a-­‐dia   têm   de   estar   resolvidos.   "Se  
não  estiverem,  não  estou  livre",  confessa.  Entre  o  grande  número  de  viagens  
que  faz  ao  longo  do  ano,  parte  são  dedicadas  ao  lazer.  Volta  normalmente  aos  
mesmos  sítios  e  elege  uma  noite  na  Grande  Chartreuse,  o  primeiro  mosteiro  e  
a   casa-­‐mãe   da   Ordem   dos   Cartuxos   situado   em   Grenoble,   França,   como   um  
dos  melhores  momentos  das  viagens  que  já  fez.  
Entre   os   ‘hobbies'   preferidos   os   seus   interesses   divergem   para   um   grande  
leque   de   áreas.   Tanto   pode   estar   absorvido   a   ler   um   livro,   como   nas   profundi-­‐
dades   do   mar   a   fazer   mergulho   e   a   abservar   peixes   ou   corais.   "A   água   é   um  
elemento   que   me   tranquiliza,   traz   paz,   e   é   um   meio   onde   há   sempre   uma  
descoberta.   Quando   estou   debaixo   de   água   consigo   ver   com   mais   facilidade  
coisas   que   não   estão   tocadas   pelo   Homem   e   gosto   também   do   silêncio",   reve-­‐
la.  
Paulo  Pereira  da  Silva  confessa-­‐se  também  um  leitor  compulsivo.  O  gosto  foi  
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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS

1 de Setembro de 2015

cultivado  desde  criança  quando  vivia  em  Abrantes  
e  se  deixou  envolver  pelos  livros  que  a  mãe  lia.  A  
literatura   brasileira   da   colecção   de   livros   "Dois  
Mundos"   e   autores   norte-­‐americanos   como   John  
Steinbeck   estão   entre   as   suas   primeiras   leituras.  
Hoje,   os   seus   hábitos   de   leitura   abrangem   desde  
livros   científicos   como   a   "História   da   ciência   em  
Portugal",   do   físico   Carlos   Fiolhais,   que   agora   está  
a   ler,   até   livros   de   fotografia   -­‐   outro   dos   seus  
hobbies  preferidos  -­‐,  passando  por  obras  de  Agus-­‐
tina  Bessa  Luís  ou  de  José  Luís  Peixoto.  Os  autores  
internacionais   premiados   também   são   leitura  
obrigatória.   "Leio   muito   e   não   seria   feliz   se   não  
estivesse   a   ler",   confessa.   Os   audio-­‐livros  são  seus  
parceiros,  sobretudo  quando  viaja.  
O  coleccionismo  de  antiguidades  é  um  dos  gostos  
que   habitualmente   lhe   atribuem.   Algo   que   nega.  
"Se   tiver   uma   edição   dos   ‘Pensamentos'   de   Pascal  
-­‐   de   quem   gosto   muito   -­‐   que   comprei   num   alfar-­‐
rabista,  em  Paris,  é  algo  que  me  é  muito  caro,  mas  
não  é  por  colecção.  Tem  a  ver  com  as  coisas  que  
quero.   Gosto   de   ter   e   estar   rodeado   por   muito  
poucos   objectos,   mas   alguns   deles   demorei   mui-­‐
tos  anos  até  ter  exactamente  o  que  queria",  con-­‐
clui.  
 

Quando uma astrofísica ateia se converte
a Cristo: "Eu percebi que existe uma ordem no Universo"
Aleteia,  2015.08.18  

 
Uma   história   turbulenta,   que,   entre   estudos  
rígidos   e   sofrimentos   profundos,   chegou   à   pleni-­‐
tude  em  Jesus  
Repercutiu   em   sites   de   todo   o   planeta,   recente-­‐
mente,   o   testemunho   de   Sarah   Salviander,   pes-­‐
quisadora   do   Departamento   de   Astronomia   da  
Universidade  do  Texas  e  professora  de  Astrofísica  
na   Universidade   Southwestern.   A   incrível   história  
da   sua   conversão   a   Cristo   começa   com   os   seus  
estudos   científicos   e   culmina   com   a   morte   da  
filha.  Vale  a  pena  investir  cinco  minutos  em  ler  o  
depoimento  dela.  
"Eu   nasci   nos   Estados   Unidos   e   fui   criada   no   Ca-­‐
nadá.  Meus  pais  eram  ateus,  embora  preferissem  
se  definir  como  ‘agnósticos’.  Eles  eram  carinhosos  
e   mantinham   uma   ótima   conduta   moral,   mas   a  
religião   não   teve   papel   nenhum   na   minha   infân-­‐
cia".  
"O  Canadá  já  era  um  país  pós-­‐cristão.  Olhando  em  
retrospectiva,   é   incrível   que,   nos   primeiros   25  
anos   da   minha   vida,   eu   só   conheci   três   pessoas  
que   se   identificaram   como   cristãs.   A   minha   visão  
do   cristianismo   era   intensamente   negativa.   Hoje,  
olhando  para  trás,  eu  percebo  que  foi  uma  absor-­‐
ção   inconsciente   dessa   hostilidade   geral   que  
existe   no   Canadá   e   na   Europa   em   relação   ao  
cristianismo.   Eu   não   sabia   nada   do   cristianismo,  
mas   achava   que   ele   tornava   as   pessoas   fracas   e  
tolas,  filosoficamente  banais".  
Aos  25  anos,  quando  abraçava  a  filosofia  raciona-­‐
lista  de  Ayn  Rand,  Sarah  entrou  em  uma  universi-­‐
dade   dos   EUA:   "Entrei   no   curso   de   Física   da   Eas-­‐
tern  Oregon  University  e  percebi  logo  a  secura  e  a  
esterilidade   do   objetivismo   racionalista,   incapaz  
de   responder   às   grandes   questões:   qual   é   o   pro-­‐
pósito  da  vida?  De  onde  foi  que  viemos?  Por  que  
estamos   aqui?   O   que   acontece   quando   morre-­‐
mos?   Eu   notei   também   que   esse   racionalismo  
sofria   de   uma   incoerência   interna:   toda   a   sua  
atenção   se   volta   para   a   verdade   objetiva,   mas  
sem   apresentar   uma   fonte   para   a   verdade.   E,  
embora  se  dissessem  focados  em  desfrutar  a  vida,  

os  objetivistas  racionalistas  não  pareciam  sentir  alegria  alguma.  Pelo  contrário:  
estavam   ferozmente   preocupados   em   se   manter   independentes   de   qualquer  
pressão  externa".  
A  atenção  da  jovem  se  voltou  completamente  ao  estudo  da  física  e  da  mate-­‐
mática.  "Entrei  nos  clubes  universitários,  comecei  a  fazer  amigos,  e,  pela  pri-­‐
meira  vez  na  minha  vida,  conheci  cristãos.  Eles  não  eram  como  os  racionalis-­‐
tas:   eram   alegres,   felizes   e   inteligentes,   muito   inteligentes.   Fiquei   de   boca  
aberta   ao   descobrir   que   os   meus   professores   de   física,   a   quem   eu   admirava  
muito,  eram  cristãos.  O  exemplo  pessoal  deles  começou  a  me  influenciar  e  eu  
me  via  cada  vez  menos  hostil  ao  cristianismo.  No  verão,  depois  do  meu  segun-­‐
do   ano,   participei   de   um   estágio   de   pesquisa   na   Universidade   da   Califórnia,  
num  grupo  do  Centro  de  Astrofísica  e  Ciências  Espaciais  que  estudava  as  evi-­‐
dências  do  Big  Bang.  Era  incrível  procurar  a  resposta  para  a  pergunta  sobre  o  
nascimento   do   Universo.   Aquilo   me   fez   pensar   na   observação   de   Einstein   de  
que   a   coisa   mais   incompreensível   a   respeito   do   mundo   é   que   o   mundo   é   com-­‐
preensível.   Foi   aí   que   eu   comecei   a   perceber   uma   ordem   subjacente   ao   uni-­‐
verso.  Sem  saber,  ia  despertando  em  mim  o  que  Salmo  19  diz  com  tanta  clare-­‐
za:   ‘Os   céus   proclamam   a   glória   de   Deus;   o   firmamento   anuncia   a   obra   das  
suas  mãos’".  
Depois  desse  insight,  a  razão  de  Sarah  foi  gradualmente  se  abrindo  ao  Misté-­‐
rio:   "Comecei   a   perceber  que  o  conceito  de  Deus  e  da  religião  não  eram  tão  
filosoficamente   banais   como   eu   pensava   que   fossem.   Durante   o   meu   último  
ano,  conheci  um  estudante  finlandês  de  ciências  da  computação.  Um  homem  
de   força,   honra   e   profunda   integridade,   que,   assim   como   eu,   tinha   crescido  
como  ateu  num  país  laico,  mas  que  acabou  abraçando  Jesus  Cristo  como  o  seu  
Salvador   pessoal,   aos   20   anos   de   idade,   graças   a   uma   experiência   particular  
muito  intensa.  Nós  nos  apaixonamos  e  nos  casamos.  De  alguma  forma,  mesmo  
não  sendo  religiosa,  eu  achava  reconfortante  me  casar  com  um  cristão.  Termi-­‐
nei   a   minha   formação   em   física   e   matemática   naquele   mesmo   ano   e,   pouco  
tempo  depois,  comecei  a  dar  aulas  de  astrofísica  na  Universidade  do  Texas  em  
Austin".  
A   penúltima   etapa   da   jornada   de   Sarah   foi   a   descoberta,   também   casual,   de  
um   livro   de   Gerald   Schroeder:   “The   Science   of   God”   “A   Ciência   de   Deus”.  
"Fiquei  intrigada  com  o  título  e  alguma  coisa  me  levou  a  lê-­‐lo,  talvez  o  anseio  
por  uma  conexão  mais  profunda  com  Deus.  Tudo  o  que  sei  é  que  aquilo  que  
eu  li  mudou  a  minha  vida  para  sempre.  O  Dr.  Schroeder  é  físico  do  MIT  e  teó-­‐
logo.   Eu   notei   então   que,   incrivelmente,   por   trás   da   linguagem   metafórica,   a  
Bíblia   e   a   ciência   estão   em   completo   acordo.   Também   li   os   Evangelhos   e   achei  
a   pessoa   de   Jesus   Cristo   extremamente   convincente;   me   senti   como   quando  
Einstein  disse  que  ficou  ‘fascinado  com  a  figura  luminosa  do  Nazareno’.  Mes-­‐
mo   com   tudo   isso,   apesar   de   reconhecer   a   verdade   e   de   estar   intelectualmen-­‐
te  segura  quanto  a  ela,  eu  ainda  não  estava  convencida  de  coração".  
O  encontro  decisivo  com  o  cristianismo  aconteceu  há  apenas  dois  anos,  depois  
de  um  acontecimento  dramático:  "Eu  fui  diagnosticada  com  câncer.  Não  muito  
tempo  depois,  meu  marido  teve  meningite  e  encefalite;  ele  se  curou,  felizmen-­‐
te,  mas  levou  certo  tempo.  A  nossa  filhinha  Ellinor  tinha  cerca  de  seis  meses  
quando   descobrimos   que   ela   sofria   de   trissomia   18,   uma   anomalia   cromos-­‐
sômica   fatal.   Ellinor   morreu   pouco   depois.   Foi   a   perda   mais   devastadora   da  
nossa  vida.  Eu  caí  nas  mãos  do  desespero  até  que  tive,  lucidamente,  uma  visão  
da  nossa  filha  nos  braços  amorosos  do  Pai  celestial:  foi  só  então  que  eu  encon-­‐
trei  a  paz.  Depois  de  todas  essas  provações,  o  meu  marido  e  eu  não  só  ficamos  
ainda   mais   unidos,   como   também   mais   próximos   de   Deus.   A   minha   fé   já   era  
real.   Eu   não   sei   como   teria   passado   por   essas   provações   se   tivesse   continuado  
ateia.   Quando   você   tem   20   anos,   boa   saúde   e   a   família   por   perto,   você   se  
sente   imortal.   Mas   chega   um   momento   em   que   a   sensação   de   imortalidade  
evapora  e  você  se  vê  forçada  a  enfrentar  a  inevitabilidade  da  própria  morte  e  
da  morte  das  pessoas  mais  queridas".  
"Eu  amo  a  minha  carreira  de  astrofísica.  Não  consigo  pensar  em  nada  melhor  
do  que  estudar  o  funcionamento  do  universo  e  me  dou  conta,  agora,  de  que  a  
atração   que   eu   sempre   senti   pelo   espaço   não   era   nada   mais   do   que   um   inten-­‐
so  desejo  de  me  conectar  com  Deus.  Eu  nunca  vou  me  esquecer  de  um  estu-­‐
dante   que,   pouco   tempo   depois   da   minha   conversão,   me   perguntou   se   era  
possível  ser  cientista  e  acreditar  em  Deus.  Eu  disse  que  sim,  claro  que  sim.  Vi  
que   ele   ficou   visivelmente   aliviado.   Ele   me   contou   que   outro   professor   tinha  
respondido  que  não.  Eu  me  perguntei  quantos  outros  jovens  estavam  diante  
de   questões   semelhantes   e   decidi,   naquela   hora,   que   iria   ajudar   os   que   esti-­‐
vessem   lutando   com   esses   questionamentos.   Eu   sei   que   vai   ser   uma   jornada  
difícil,  mas  o  significado  do  sacrifício  de  Jesus  não  deixa  dúvidas  quanto  ao  que  
eu  tenho  que  fazer".  
 

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