Universidade Federal do Ceará

Centro de Humanidades III
Departamento de Ciências Sociais

O dilema do arroz integral

Fortaleza
Marcio de Lucas Cunha Gomes
2015

Introdução Ao entrar na Universidade. logo me apresentaram o Restaurante Universitário da sede Benfica. possui uma infraestrutura que dispõe para os seus frequentadores duas filas. que é um elemento importante nesse texto. Nas primeiras idas ao lugar. após o término das minhas aulas. estava acompanhado dos veteranos do meu curso que organizaram a recepção dos calouros e. o Restaurante Universitário.à esquerda temos uma fila. no ano de 2014. nesse. as mesmas guarnições da outra fila e o arroz integral. é entendida como um elemento do plano da realidade objetiva. num planejamento bastante minimalista . a constituição . o qual fica próximo ao meu Campus. que é plano de fundo desse ensaio. na qual se serve uma opção de carne e as guarnições (normalmente arroz e feijão). e à direita temos outra. desde então. a estrutura desse espaço o qual nos referimos. é lá onde almoço de segunda à sexta. Tomando aqui por base alguns autores da tradição da escolha racional. ou seja. o Centro de Humanidades III. uma para cada opção de almoço do dia. O local. disponível apenas em um dos lados. tradicionalmente onde se serve o almoço vegetariano.

que essa estrutura foi construída por pessoas para servirem a seus propósitos e se cristalizaram defronte a outras pessoas que as sucederam temporalmente. Isso constitui um desarranjo básico entre desejo e oportunidades. portanto a estrutura física deve ser adequada para realização do desejo. no caso. alguns deles avaliaram-na como uma questão simples: existe um problema quanto as oportunidades que impendem invariavelmente a combinação carne2 e arroz integral. ao novo universo de desejos que surge. realizando ações sobre uma physis que lhe é externa que impõe uma restrição das possibilidades de agir. ao menos a priori. ressaltando a imanência das construções humanas numa realidade que se completa em si mesma. alguém que adentra o lugar para almoçar tende de fazer uma escolha inicial sobre uma das filas a qual irá se posicionar. a estrutura é lida como um objeto a se adaptar. como as regras de um jogo que ninguém questiona. Vale apontar. O restaurante Universitário é uma construção realizada por seres humanos com para atender um propósito e. para esses autores. o qual opôs Indivíduo e Natureza. Então. Nesse ponto. Apesar disso. a problemática desse ensaio não existiria caso o plano da vida social não fosse tão dinâmica e outra . como dispõe as oportunidades das quais o ator social se serve para realizar seu desejo. Contudo isso não representa na vida prática uma configuração passiva e imóvel. No seio da cognoscibilidade dos atores sociais insatisfeitos. a escolha de uma fila. Trata-se de uma distinção que tem como seu expoente do passado o Iluminismo. rompendo com as escolas filosóficas que tentavam produzir uma filosofia da natureza a qual unisse por um princípio as pessoas e os elementos físicos. para que o prazer do indivíduo seja maximizado o quanto poderia ser caso essa falha não existisse. Ao expor tal situação para colegas. faço referência a uma outra linha de pensamento que questiona a possibilidade de ações humanas se cristalizarem efetivamente como uma physis. tendo em mente um princípio exposto por exemplo por Marx quanto diz que “tudo que é sólido desmancha no ar”. por isso. também pode ser reconstruída para atender novas vontades. contudo.física do espaço. pois o plano físico não dispõe a possibilidade de um cálculo de meios-e-fins. Um elemento problemático aqui surge de uma falha do serviço: alguém que deseja escolher a opção de carne da fila 2 e comer arroz integral se vê impedido diante do fato de só existir a opção do arroz integral na fila 1. visto ser constituída pela vontade humana.

e nesse caso o uso de um canhão seria compreensível. no caso. fazendo isso com a anuência de alguém que está na outra fila e que lhe cederia espaço. de uma ação produzida por um ator. Essa distinção surge. tal como o Utilitarismo de Bentham. numa diagrama de cálculo de meios-e-fins. sim. pois a situação se constrói. pois existe uma tendência de alguns autores. de avaliar as ações dos sujeitos de tal forma que lhes permita definir se uma ação foi racional ou irracional . um mata-moscas em vez de um canhão. é que duas pessoas que tem como intencionalidade matar a mosca podem se diferenciar na medida em que o fim de uma delas é simplesmente tornar aquele ser inerte enquanto outra pode tomar o ato de matar a mosca como uma exortação de raiva. a questão enunciada diversas vezes pelo professor Valmir de um homem que visa matar uma mosca que lhe incomoda é julgada na medida em que ele faz uso dos meios adequados para isso. Nesse autor. Cabe apontar inicialmente que. lógica e ilógica. então.solução surgisse: um sujeito pode tomar uma das filas e trocar de balcão. é preciso situar a pergunta sobre a desejabilidade. ou não. O entendimento das ações dos sujeitos é posta. para pegar a outra oportunidade de carne. se distanciando de uma certa perspectiva que teoriza uma racionalidade sobre critérios mais “rígidos” e postulando-a como homogênea ao ponto de se tornar normativa. Ou seja. pode a vontade de desejo. como enuncia Jonh Elster. tais como Pareto. fundamentalmente por uma busca que se lança de maneira fugaz a seus obstáculos.no caso do autor. quebrar uma certa perspectiva ética e fazer ampliar os meios de sua realização? Certamente. Todavia isso é desejável? O desejo como construtor do dilema e uma distinção no conceito de intencionalidade. Ou seja. contudo. Algo que o autor não leva em conta. pelo fato das ações possuírem maior ou . o desejo subjetivo do ator ocupa um papel central aqui. O dilema surge aí: diante da falha das oportunidades. num aparente desarranjo de normas. na prática.

Trata-se da ideia de que o princípio de racionalidade precisa de alguma instrumentalidade para ser considerado como categoria analítica de uma situação de ação. Portanto deter um nível mínimo informação para conhecer os elementos fundamentais que fazem parte da realidade sobre a qual se projeta a intencionalidade é condição ontológica do agir humano. Por isso. vai para o outro e.menor envolvimento com sentimentos 1. parece razoável julgar equivocado o cálculo que ela faz ao escolher uma das filas aleatoriamente em vez daquela que flui mais rapidamente. entre o autocontrole. e a ultra convicção. no diálogo com alguém da outra fila. ou mesmo que ainda tenha arroz integral para ser servido. No caso de ações precipitadas. pois é bastante provável que a própria menina concorde com você caso você a aponte essa conclusão. para citar Boudon. visto que as tentativas de apontar uma conduta adequada costumam descartar importantes parcelas da compreensão das ações. derivando daí ações subinformadas2 e não calculadas. derivando daí ações informadas e calculadas. dentre uma diversidade de motivações. dentre as duas opções. motivadas por situações de intenso desejo. que não tomam procedimentos de coleta de informações e cálculo de meios para atingir fins. Diante de uma série de carências de informação. 2 Uma questão que pode surgir é por que as ações movidas por uma intencionalidade ultra convicta são subinformadas e não não-informadas. alguém que anseia muito por arroz integral dificilmente irá interromper a ação baseada nessa hipótese prematura a qual tem 1 Merton desenvolveu essa questão ao postular a “imperiosidade do interesse” como uma das falhas da racionalidade. Essa situação é diferente de questionar alguém que diante da impossibilidade de pegar arroz integral em um dos balcões. constrói a própria oportunidade de escolha. visto que ter lugar na outra fila não é algo garantido previamente. entendo que o desejo se projeto sobre um rol de elementos os quais o ator social tem consciência. nem o fato de que a funcionária vá servir alguém que está vindo de outro balcão. isso. aquela que julga ser mais saborosa. . aqui descarto a possibilidade da análise da situação apontar alguma prescrição normativa. Numa situação de almoço no Restaurante Universitário no qual uma aluna tem por preferência não chegar atrasada na aula a comer. A resposta sobre isso remonta novamente a cognoscibilidade humana. o estudo delas passa por uma consideração maior ou menor do cálculo dos meios e da consideração das razões psicológicas. descontextualizando a intencionalidade de um dinamismo nativo o qual pendula.

contudo. a carência de razão concretas para se disputar pequenas quantidades de tempo. Para aquele que busca o arroz integral. não parece revelar as causas de por qual motivo. Tomo aqui como metodologia a reconstrução subjetiva utilizada por Boudon para encadear os elementos envolvidos no agir dos sujeitos. mas a o ato de conceder lugar na fila pode ser produto também de uma dificuldade moral em postular negativas. . além disso existe a tentativa de neutralizar uma possível negação. cabendo aqui compreendermos a relação de sentidos envolvidos nisso. por isso abaixar o tom da voz e ser bem polido. ela está resguardada por sua prioridade no balcão. o ato de buscar integral no outro balcão constituição uma ação social. A interação social Por depender da solicitude de outra pessoa. em todas as vezes em que pessoas que frequentavam o Restaurante Universitário foram abordadas para responderem se se incomodavam em ceder lugar para alguém que desejava licença pegar um pouco de arroz integral a resposta foi não. Essa exposição inicial. O que explica o altíssimo grau de permissividade? Podemos entender que dilemas como o do arroz integral são apenas uma das facetas de uma predominância de interações sociais empáticas que subsistem em um ambiente que favorece a cooperação. Quanto a pessoa da fila. de luta “para matar um leão por dia”. e contar com a possibilidade de perder mais tempo e não ter o que deseja. no sentido weberiano. devido as normas.sobre o que acontecerá para refletir e mensurar tudo o que está disposto. que são compartilhadas por muitos e também por um certo “saldo de tempo” que afasta o cotidiano de um estudante de um dos campi do Benfica de uma lógica competitiva. algumas opções estratégicas de convencimento parecem ser adotadas: a primeira delas é abordar alguém que aparenta ser capaz de entender melhor a sua atitude. ou seja. são meios de gerar maior empatia. o arroz integral. por serem posturas reconhecidas como adequadas para alguém que pede um favor. num sentido que retomo de Elster. portanto pessoas da mesma idade tendem a ser preferencialmente escolhidas. portanto ela aparenta estar em vantagem nessa situação.

por exemplo. nenhum deles está só. individualmente. na verdade. de uma série de pequenos grupos ou tribos. Ele então espera que seus colegas e se agrupem para irem todos juntos. é de defesa e semi-luta corporal para conseguir entrar e sentar em um dos bancos. uma das filas para tomar.Cabe apontar aqui que existem dois mecanismos principais de controle das ações: as crenças e as normas. termo utilizado por David Logan3 para definir que num agrupamento aparentemente grande de pessoas. numa perspectiva macro. seguindo o ritmo lento da fila. Trata-se de uma diferença temporal que marca as preferências do grupo: conversar à chegar mais rapidamente. numa perspectiva mais atenta. Igor Marques e seu grupo tem de escolher. acaba às 12 horas. conversando enquanto caminham. normalmente pela metade. veterano no curso de física. na hora do embarque do veículo. encontramos agrupamentos menores que se unem entorno de micro lideranças as quais ampliam seu potencial de mudanças com a expansão de suas tribos e difusão de suas ideais para outras.U. cada um. e assim tomam 15 minutos para percorrer uma distância que individualmente poderia ser superada em 7. Ainda assim. a entrada na Universidade implica no compartilhamento de novas normas as quais possibilitam. como a sociedade. que num dia comum leva 20 minutos do final ao começo. e nesse momento o grupo se divide. Isso se torna bem nítido ao percebermos que a postura de um estudante num terminal de ônibus. Durante esses 20 minutos existe a formação. . e a coerção. Ao chegarem no R. a previsibilidade da vida cotidiana e a saída de um certo estado de caos. Se numa perspectiva metafórica a saída do estado de natureza para o estado de sociedade civil implicou a existência de um sistema coercitivo centralizado. ao passo que no campus Universitário é comum que atrase seu trajeto segurando a porta para alguém passar. Tendo isso em mente é possível reconstruir numa narrativa os acontecimentos: A aula de Igor Marques. Continuam conversando. estudante do primeiro semestre de Ciências Sociais na Universidade Federal do Ceará. incluindo nessa situação o fato de estarem com fome. assim como no aparelho de punição. e 3 Tomei como base teórica duas apresentações que os dois fizeram no evento TED as quais pude assistir no Youtube.

ele o fará. não possui apenas um valor descritivo. devido a um mecanismo de liderança tribal. ao menos manterá uma postura analítica e não apenas rotineira. Cabe aqui a abertura de uma análise semelhante acerca do comportamento na fila e desse tipo de prática em um dos restaurantes populares de Fortaleza. seguindo sua intuição e seu desejo. seja ela favorável ou desfavorável a conduta. então acaba por cercear essa oportunidade do campo das possíveis. Numa situação dessas. ao se dirigir a outra bandeja ela se deparou com um grupo de servidores da UFC em sequência. seguindo um conjunto de estratégias emocionais já mencionadas aqui. fazendo referência a Giddens. acompanhado de uma amiga. Em seu grupo. e tendo sucesso. Tendo em mente o impacto da discussão ética nas ações dos atores sociais. ou. Igor Marques pode ou não se ver em meio a uma discussão sobre o dilema ético entorno da questão de furar fila e pegar arroz integral. Tomando a tese de David Logan. caso não adote a postura enunciada como correta por sua liderança. mas também explicativo. que se torna forte em espaços pequenos como o de um bar no qual uma pessoa assume um lugar de liderança informal naquele espaço com aquele grupo. que aconteceu naquele ano. os quais nitidamente não deram abertura para que ela alcançasse a bandeja. que as eleições presidenciais Barack Obama vs John Mccain foram significativamente influenciadas pelo SuperBow. A segunda é que. Partindo dessas situações que podem ser geradas.como parte de um deles. é factual apontar que Igor. mensuro que eram 5. contudo. certamente haverá alguém – no máximo duas pessoas – que guiariam a discussão e tencionando as conclusões do grupo para a sua perspectiva. não teríamos uma narrativa diferente da que já temos desenvolvido aqui. 4 Aproveito para narrar o que poderíamos denominar de “situação limite”. contudo. ao não se deparar com uma discussão entorno da prática de ir no outro balcão para pegar arroz integral. ao ter partilhado da discussão. A primeira é que. estimado por Logan entre cerca de 20 e 150 pessoas. ele ou julgou inadequado a ação ou custoso e enfrentar o julgo de sua liderança caso a praticasse. . a vi indo no outro balcão a fim de pegar macarrão. temos dois desenvolvimentos possíveis para a ação de Igor Marques. numa situação “normal”4. o qual tinha acabado na bandeja da fila que tínhamos escolhido. uma consciência discursiva e não apenas uma consciência prática. pedindo. Esse fato parece corroborar com a tese de que predomina entre os estudantes uma determinada sociabilidade a qual não difere de um outro tipo predominante na lógica de uso dos equipamentos urbanos. Certa vez. A simples distinção em 2 campos de desenvolvimento.

1995 MERTON. com isso. J. tornou-se mais comum.sua opinião expandida na medida em que as pessoas tendem a concordar com ela.U. um dos colegas que mencionei se opôs a essa postura argumentando que o paradigma das escolhas estava objetivamente dado. então perguntando para as lideranças tribais por todo o país eles concluíram que Obama venceria as eleições. 1994 Tratado de Sociologia. Rio de Janeiro: RelumeDumará. 1979 . Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. Igor Marques fazia parte desse grupo. tais como ganhar mais de um doce de sobremesa da funcionário do R. Isso pode ser mensurado na medida em que a prática entre dois grupos de pessoas que participaram da discussão introduzida por mim. num entendimento de que isso é adequado numa situação de falha infra estrutural. armada com algumas argumentações expositivas advindas do debate com os colegas os quais discordavam da legalidade da postura. Zahar. receber benefícios. Robert K. ou qualquer outra ação que pudesse envolver um dilema ético. gerando uma pressão negativa de adotar ações de “furar-fila”. Dessa forma. podemos averiguar o que aparentemente constitui uma consequência não intencional da feitura desse trabalho: a expansão da aceitação da possibilidade de ir no outro balcão pegar a opção do arroz integral. Já em outro grupo. Esse é um entendimento próximo ao de Robert Michels na medida em que este também declara a maior efetividade de comícios políticos mais restritos. na forma do que parece ter me constituído como uma liderança tribal em uma delas. na medida em que que assim o potencial de sedução psicológica do líder é mais intenso.. se sucedendo diversas discussões e debates em torno de um grupo de 5 pessoas as quais passaram a se atentar para as suas posturas no espaço. A Ambivalencia sociologica e outros ensaios. e a escolha informada e calculada da ida ao outro balcão. Bibliografia ELSTER. Peças e engrenagens das Ciências Sociais.. Org. Raymond Boudon. Rio de Janeiro : J.

São Paulo: Martins Fontes. 2000 . As etapas do Pensamento Sociológico.ARON. Raymond.