Carta Aberta ao Ministro Palocci

Já escrevi 4 artigos na Veja sobre a política de juros nominalista que a
sua equipe convenceu V. Exa. a perseguir, esperando uma contraargumentação para que os leitores da Veja pudessem avaliar, mas
amigos me dizem que V.Exa. somente contra-argumenta “working
papers” acadêmicos.
Por isto estou enviando um “working paper” para 10.000 pessoas amigas
minhas, torcendo para que entre elas haja um primo ou parente que
incentive V. EXa. a dar alguma atenção às argumentações de pessoas
que querem, como eu, reduzir os juros, permitir que o país reduza a
volatilidade, e possibilitar o governo alongar a sua dívida, seus
problemas atuais.
Argumento Número 1.
Faça esta simples pergunta: Qual é hoje a
taxa de juros neste país para que eu e o resto
da população possamos comprar títulos do
governo, sabendo pelo menos quanto iremos
receber no final do período?
Nestes 18,25%, quanto é juro e quanto é inflação estimada? Ninguém
sabe, demora um ano para saber. Seu problema é de precificação do
produto, neste caso a precificação dos juros, ninguém compra nada com
preço incerto.
O Sr. daria uma injeção de glicose mais codeína a um paciente sem
saber a proporção exata desta composição?
Mas é exatamente isto que o seu governo está fazendo. Ninguém sabe a
proporção exata de juros e inflação embutida neste seu juro nominal.
Alguns economistas “acham” que o juro real será de 10%, outros
“acham” que será 8%. Diante deste achismo, o investidor se protege
escolhendo a pior estimativa para o governo. E o juro nominal
portanto sobe.
No início de 2004, estes mesmos economistas “achavam” que o juro real
seria de 8% a 10%, e com a publicação do IGP de 2004, agora sabemos
a verdade. O juro real foi de somente 4%. E agora os bancos, e
investidores enganados que foram, porque descontado o Imposto de
Renda, a rentabilidade foi quase zero, querem reaver o prejuízo e não
aceitam renovar os seus títulos.
O Sr. faria o mesmo.
Graças ao nominalismo econômico, comprar títulos do governo, que
deveria ser a opção menos arriscada para o investidor, é a mais
arriscada. É mais arriscado do que comprar ações em Bolsa. Petrobrás
dá dividendos de 6% e só distribui 1/3 do seu lucro. Entre receber 4% e
18%, que opção o Sr. prefere , se o risco é o mesmo?
A solução da escola realista, como eu e dezenas de advogados,
contadores e administradores financeiros e até alguns economistas

O juro real ex-ante no Brasil é sempre maior do que o juro real ex-post, com um
ágio de 5 pontos percentuais, como os dados do próprio Banco Central
demonstram.
Um título realista em que o juro real ex-ante é igual ao real ex-post teria
com ágio de risco zero .
Nos NTN-Cs e nos TIPS o juro real ex-ante é igual o juro real ex-post por definição.
O risco é zero, a variação do Value At Risk é zero!
Quando propus este título há 20 anos para reduzir os juros da nossa dívida externa,
os batizei de “Inflation Proof Bonds”.
O governo americano acabou lançando estes títulos, e os batizaram de Treasury
Inflation Protected Securities, TIPS.

Não é necessário ser banqueiro para saber o que estes títulos oferecem nem a sua
vantagem. Eles são o seu marketing.
Fica claro portanto que um nominalista que chama um título de NTN-C, obviamente
não tem o menor interesse que seja um título conhecido e difundido.

Argumento Número 4. Por que nominalistas são contra títulos com juros
reais conhecidos?

A principal razão é acharem que a correção monetária indexada gera inflação. Este
é o maior entrave intelectual.
Aliás, muitos brasileiros também foram levados a acreditar nesta mentira. A grande
maioria de economistas, jornalistas econômicos e a população acreditam nesta
frase de tanto ouvi-la.
Mas é pura falta de conhecimentos de contabilidade e de nunca ter feito uma
planilha Excel. Vou tentar provar neste pequeno espaço que tenho.
Nominalistas esquecem que juros nominais também são uma forma de
indexação. Só que no nominalismo se coloca a inflação nos juros. Não
eliminaram a inflação dos contratos financeiros, como alegam se referindo ao “fim
da correção monetária”.
A velha amiga “correção monetária” colocava a mesmíssima inflação não nos

Mulheres são Paralelas

Homens gostam de se gabar que possuem 23 bilhões de neurônios enquanto a
mulher possui "somente" 19 bilhões, 4 bilhões a menos. Consideram este fato,
comprovado cientificamente, um sinal de superioridade. As mulheres respondem
imediatamente, que não faz a menor diferença, no que elas estão absolutamente
corretas.
Do ponto de vista da seleção natural, não há como a natureza selecionar mulheres
"burras" e homens "inteligentes". Ambos os sexos tinham que ser igualmente
espertos para fugirem dos predadores nos primórdios, na
África.
Mulheres compensam esta diferença processando a
informação de forma diferente. Homens pensam
seqüencialmente, etapa por etapa, logicamente trilhando
o caminho da racionalidade, comparando fatos com
regras pré-estabelecidas. Suas conclusões dão do tipo
“sim-não”, “certo-errado”.
Mulheres raciocinam em paralelo, avaliam dezenas de variáveis simultaneamente,
suas conclusões são do tipo “melhor-pior” ou uma simples sensação visceral de
certeza da conclusão. Por isto, dizem que as mulheres são “intuitivas”. Elas
processam informação mais rapidamente, são mais abrangentes, mais holísticas.
Ou seja, mulheres são paralelas, homens são seriais.
Recentemente, um estudo descobriu que as mulheres possuem 13% mais sinapses
do que homens, o que compensa a diferença e muda a forma de pensar. Homens
têm mais neurônios, mulheres têm mais sinapses.
Talvez seja por isto, que as mulheres conseguem cuidar de 20 coisas ao mesmo
tempo. São excelentes enfermeiras, mães de 5 filhos, administradoras de equipes,
administradoras de escolas, hospitais e associações, onde ninguém fica quieto um
minuto. Homens adoram gerenciar planos, números e orçamentos que precisam ser
obedecidos. Por serem seriais e lógicos tendem a ser arrogantes e donos da
verdade, mesmo estando errados. Mulheres, por serem paralelas, sempre sofrem a
incerteza da dúvida, mesmo estando certas. São inseguras sem razão. Suas
conclusões são corretas, mas não seguem a lógica masculina serial.
Homens tendem a ver tudo preto ou branco, esquerda ou direita. Mulheres tendem
a ver o cinza, são muito menos dogmáticas e mais conciliatórias.
Homens arriscam um tudo ou nada com enorme facilidade, mulheres tendem a
procurar a opção mais segura. Numa briga de casal, homens discutem causa e
efeito. Mulheres discutem sentimentos e emoções, ambos de acordo como seus
cérebros processam informações.
Um dos problemas desta teoria é que não sabemos exatamente como funciona o
cérebro paralelo. A maioria dos estudos neurológicos tem sido feita em cérebros de
soldados mortos em combate, não em cérebros de mulheres.
Na realidade, ambos os sexos são seriais e paralelos e o que estamos sugerindo,
para uma reflexão mais aprimorada por cientistas, é que talvez os homens tendem
a ser mais seriais, as mulheres tendem a ser mais paralelas. Estas características,
às vezes, são descritas erroneamente como cérebro direito e cérebro esquerdo. O
lado do cérebro não tem nada a ver com estas diferenças.
A verdadeira explicação não é o lado, mas sim se está sendo processado pela parte
do cérebro que é paralela, ou a parte que é serial.

Se esta teoria for correta, e está longe de ser aceita, explicaria porque é tão difícil a
comunicação entre os sexos. Homens ficam num canto falando de dinheiro,
mulheres do outro falando de emoções. Para diminuir esta distância, mulheres
teriam de tentar explicar suas conclusões de forma mais serial. Homens deveriam
escutar mais os sentimentos (paralelos) das mulheres e falar com analogias e
cenários e não com deduções lógicas.
Na medida que o mundo se torna cada vez mais complexo, exigindo o
processamento de centenas de variáveis ao mesmo tempo, aumentam as
vantagens competitivas das mulheres sobre os homens. Já se falava que este
milênio seria das mulheres, e hoje mais mulheres se formam em administração de
empresas do que homens. Seu próximo chefe tem muita chance de ser uma
mulher. Quase tivemos uma presidenta em 2002, esperem para ver 2006.
Portanto, não são as mulheres que possuem 4 bilhões de neurônios a menos, são
os homens que precisam de 4 bilhões de neurônios a mais, para processarem as
mesmas informações.
Lilian e Stephen Kanitz

O FMI

Fico impressionado com o número de jovens que acredita que o FMI "manda" no
Brasil, quando a verdade é um pouco diferente. Vou tranqüilizar também aqueles
que temem que um eventual rompimento com o FMI elevaria o dólar para R$ 3,50
e geraria o caos para a nossa economia.
Nada disto deverá acontecer, pelas razões que
irei apresentar.
Quem manda no FMI não são os acionistas da General
Foods, nem George Soros e seus asseclas. O FMI é um
organismo governamental, regido por funcionários
públicos, de mais de 112 governos diferentes. Portanto,
de privado ele não tem absolutamente nada. Consulte
você mesmo o www.imf.org.
Os recursos do FMI são controlados por 112 governos, os Estados Unidos têm 18%
dos votos, 10% a mais do que deveriam se o critério fosse população, e 20% a
menos se o critério fosse produção.
O melhor hamburguer que comi na minha vida foi na cantina do FMI feito de filet
mignon argentino, e custou somente US$ 0,30. No McDonald´s ao lado, um
hamburger custava US$ 3,50. O pessoal do FMI sabe se cuidar com o dinheiro dos
contribuintes de seus países.
O FMI foi criado, entre outros, por John Maynard Keynes, um economista
intervencionista, hoje considerado centro-esquerda. Segundo o prêmio Nobel de
Economia Joseph Stiglitz, seus piores alunos terminavam trabalhando no FMI, os
melhores em Wall Street. Se o FMI fosse maquiavélico contrataria os melhores
economistas para implantarem suas políticas diabólicas, nunca os piores. Para que
serve então o FMI?
Banqueiros privados cometem erros de tempos em tempos e por isto cada país
possui um Banco Central para socorrê-los, com PROER e redescontos. Presidentes
de Bancos Centrais e governos também cometem erros de tempos em tempos, só
que em escala 100 vezes maior. A principal função do FMI é ser o Banco Central dos
Bancos Centrais, e socorrê-los quando os erros que cometem são irremediáveis.
Quando pedem socorro, o FMI manda uma equipe de economistas da Áustria até a
Zâmbia, para analisarem juntos os problemas e propor soluções. Numa destas
visitas eles conversaram com os empresários da FIESP, e o economista chefe do
FMI deixou Horácio Lafer Piva boquiaberto quando perguntou o que era uma
"duplicata". "O senhor sequer sabe o que é uma duplicata?", foi a resposta.
Caro estudante e leitor, vamos ser honestos e pensar objetivamente: economistas
de terceira categoria, que não conseguiram emprego melhor, vindos da Zâmbia,
Peru e Bolívia, que nem sabem o que é uma duplicata, saberiam como corrigir
nossos problemas e propor soluções? Seja sincero. É óbvio que não!
Aí é que entra a verdadeira função do FMI. Quem realmente prescreve as amargas
receitas são os próprios economistas do governo. São eles que conhecem o país
melhor do que ninguém, bem como os erros que cometeram. Eles sugerem
medidas drásticas e impopulares, mas quem leva a fama e o ódio da população é o
FMI.
"Esta medida foi uma imposição do FMI, não tínhamos como dizer não", é a
desculpa do Ministro da Economia, e que toda a população acredita. Nem o

Presidente da República, muito menos o Congresso, ficam sabendo destes
bastidores, é tudo uma enorme encenação. Os brados "Fora FMI!" é para criar um
inimigo externo e manter-se no poder, como sabiamente recomendava Maquiavel.
A verdadeira função do FMI é manter a governabilidade de governos
incompetentes, até a próxima eleição.
Não vou exagerar e dizer que nenhuma medida é imposta pelo FMI. A cartilha é a
mesma que aprendemos no pré-primário: colocar tudo em ordem, devolver o que
tomamos emprestado, não bater no país vizinho. Por isto se chama cartilha.
Mas nestas imposições, o FMI só quer seu dinheiro de volta para poder comer
hamburger de primeira. Por isto, o FMI se recusa a "dominar" a Argentina neste
momento. Sabem que nunca receberão o dinheiro de volta.
Toda esta encenação é feita em comum acordo entre os 112 países membros, pois
todo governo sabe que um dia poderá ser a sua vez.
Um rompimento com o FMI significa somente que os governos terão que admitir
publicamente que erraram, e pedir demissão. E aí, o próximo governo proporá as
medidas corretivas, dolorosas e necessárias.
O esquema de manter-se no poder culpando os outros, cai por terra para sempre.
Governos incompetentes poderão até ser destituídos pelo povo, e não mais
preservados pelo esquema FMI.
Que o FMI é um organismo nefasto, maquiavélico e que deve ser desmantelado,
não há a menor dúvida, mas totalmente por outras razões.
Stephen Kanitz

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1. Antes de implantar um projeto social pergunte
para umas vinte entidades do Terceiro Setor para
saber o que elas realmente
precisam.
A maioria das empresas começa
seu projeto social procurando
uma "boa idéia" internamente.
Contrariando os preceitos da administração que exige
pesquisar primeiro o mercado antes de sair criando novos,
na área social estes princípios são jogados fora. A maioria
dos projetos começa nos departamentos de marketing das
empresas sem consultar as entidades que são do ramo.
O espírito do Terceiro Setor é "servir o outro", e isto
significa perguntar primeiro: "O que vocês precisam?".
Parte deste trabalho já foi feito, e você poderá encontrá-lo
no www.filantropia.org onde anualmente perguntamos para
as 400 maiores entidades o que elas mais precisam.
2. O que as entidades precisam normalmente não é o
que sua empresa faz, nem o que a sua empresa quer
fazer.
O conceito de "sinergia" é muito atraente e poderoso para a
maioria dos executivos, mas lembra um pouco aquele
escoteiro que atravessa um cego para o outro lado da rua
sem perguntar se é isso que o cego queria.
Dar aula de inglês para moradores de favelas só porque
você é uma cadeia de escolas de inglês, não é resolver o
problema do Terceiro Setor. Pode ser uma forma de resolver
o seu problema na área social, com o menor esforço. Se
toda empresa pensar assim, quem vai resolver o problema
da prostituição infantil, abuso sexual, violência, dos órfãos?
Ninguém.
Por isto, muitas entidades estão começando a ver este
movimento de empresas "socialmente responsáveis" com
maus olhos. "Onde estavam estas empresas nestes últimos
400 anos, quando fizemos tudo sozinhos?", é a primeira
pergunta que fazem.
"Por que muitas estão iniciando projetos iguais ao que
fazemos, ao invés de nos ajudar?"
Se um concorrente entrasse na sua atividade, qual seria a
sua reação? É exatamente o que pensam nossas entidades.
A idéia certa é unir esforços com os que já fazem o que

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Os 11 Mandamentos da
Responsabilidade
Social
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3. Toda empresa que assumir uma responsabilidade será mais dia menos
dia responsabilizada.
Da mesma forma que sua empresa será responsabilizada pelos péssimos produtos
que venha a produzir, seu insucesso em reduzir a pobreza ou uma criança que for
maltratada no seu projeto social, também será responsabilidade da sua empresa.
Já existem Ongs que avaliam a "responsabilidade social" de cada empresa do
mundo atribuindo um Selo Social, baseado nos critérios que elas previamente
definiram.
Já existem 167 sites que divulgam as empresas socialmente irresponsáveis. Um dia
você poderá estar na lista. Muitos ativistas descobriram que podem colocar uma
empresa de joelhos se atacarem a sua marca (vide Nike).
Por isto, seu projeto terá de ter um duplo controle de qualidade e dedicação ao que
você normalmente devota para sua empresa.
4. Assumir uma responsabilidade social é coisa séria. Creches não mandam
embora órfãos porque a diretoria mudou de idéia.
Muitas empresas "socialmente responsáveis" não estão assumindo
responsabilidades sociais propriamente ditas.
Nenhuma empresa está disposta a adotar um órfão, um compromisso de 18 anos.
A maioria das empresas "socialmente responsável" está no máximo disposta a
bancar um projeto por um único ano.
E não poderia ser o contrário. Empresas não podem assumir este tipo de
responsabilidade, não foram constituídas para tal. As entidades foram instituídas
para exatamente prestar serviços sociais, e é triste ver que estão perdendo espaço.
Se o projeto não ganhar um destes prêmios de Responsabilidade Social, troca-se de
projeto. Hoje a tendência das empresas é trocar de projeto a cada dois anos se ela
não for premiada, por outro que tenha mais chance de vencer no ano seguinte.
Compare esta atitude com a internacional Associação dos Cavaleiros da Soberana
Ordem Militar de Malta, que existe desde 1798, uma das mais antigas instituições
humanitárias em atividade no mundo, com a missão "obsequium pauperium", servir
os pobres. Os verdadeiros socialmente responsáveis têm sido as entidades, as
empresas não chegam nem perto de merecer esta designação.
Na minha opinião, a postura socialmente responsável é apoiar as entidades
socialmente responsáveis de fato, com doações e ponto final. Você pode fazer isto
hoje, através do doações on line no site www.filantropia.org.
5. Todo o dinheiro gasto em anúncios tipo "Minha Empresa É Mais
Responsável do que o Concorrente", poderia ser gasto duplicando as
doações de sua empresa.
Os líderes sociais do país, que cuidam de 28 milhões de pessoas carentes, e não
têm recursos para comprar anúncios caríssimos na imprensa. Depois desta onda de
responsabilidade social das empresas com os anúncios que as empresas estão

Os 11 Mandamentos da Responsabilidade Social

1. Antes de implantar um projeto social pergunte para umas
vinte entidades do Terceiro Setor para saber o que elas
realmente precisam.
A maioria das empresas começa seu projeto
social procurando uma "boa idéia"
internamente.
Contrariando os preceitos da administração
que exige pesquisar primeiro o mercado antes de sair criando novos,
na área social estes princípios são jogados fora. A maioria dos projetos
começa nos departamentos de marketing das empresas sem consultar
as entidades que são do ramo.
O espírito do Terceiro Setor é "servir o outro", e isto significa perguntar
primeiro: "O que vocês precisam?".
Parte deste trabalho já foi feito, e você poderá encontrá-lo no
www.filantropia.org onde anualmente perguntamos para as 400
maiores entidades o que elas mais precisam.
2. O que as entidades precisam normalmente não é o que sua
empresa faz, nem o que a sua empresa quer fazer.
O conceito de "sinergia" é muito atraente e poderoso para a maioria
dos executivos, mas lembra um pouco aquele escoteiro que atravessa
um cego para o outro lado da rua sem perguntar se é isso que o cego
queria.
Dar aula de inglês para moradores de favelas só porque você é uma
cadeia de escolas de inglês, não é resolver o problema do Terceiro
Setor. Pode ser uma forma de resolver o seu problema na área social,
com o menor esforço. Se toda empresa pensar assim, quem vai
resolver o problema da prostituição infantil, abuso sexual, violência,
dos órfãos? Ninguém.
Por isto, muitas entidades estão começando a ver este movimento de
empresas "socialmente responsáveis" com maus olhos. "Onde estavam
estas empresas nestes últimos 400 anos, quando fizemos tudo
sozinhos?", é a primeira pergunta que fazem.
"Por que muitas estão iniciando projetos iguais ao que fazemos, ao
invés de nos ajudar?"
Se um concorrente entrasse na sua atividade, qual seria a sua reação?
É exatamente o que pensam nossas entidades. A idéia certa é unir
esforços com os que já fazem o que você pretende fazer.

3. Toda empresa que assumir uma responsabilidade será mais dia menos
dia responsabilizada.
Da mesma forma que sua empresa será responsabilizada pelos péssimos produtos
que venha a produzir, seu insucesso em reduzir a pobreza ou uma criança que for
maltratada no seu projeto social, também será responsabilidade da sua empresa.
Já existem Ongs que avaliam a "responsabilidade social" de cada empresa do
mundo atribuindo um Selo Social, baseado nos critérios que elas previamente
definiram.
Já existem 167 sites que divulgam as empresas socialmente irresponsáveis. Um dia
você poderá estar na lista. Muitos ativistas descobriram que podem colocar uma
empresa de joelhos se atacarem a sua marca (vide Nike).
Por isto, seu projeto terá de ter um duplo controle de qualidade e dedicação ao que
você normalmente devota para sua empresa.
4. Assumir uma responsabilidade social é coisa séria. Creches não mandam
embora órfãos porque a diretoria mudou de idéia.
Muitas empresas "socialmente responsáveis" não estão assumindo
responsabilidades sociais propriamente ditas.
Nenhuma empresa está disposta a adotar um órfão, um compromisso de 18 anos.
A maioria das empresas "socialmente responsável" está no máximo disposta a
bancar um projeto por um único ano.
E não poderia ser o contrário. Empresas não podem assumir este tipo de
responsabilidade, não foram constituídas para tal. As entidades foram instituídas
para exatamente prestar serviços sociais, e é triste ver que estão perdendo espaço.
Se o projeto não ganhar um destes prêmios de Responsabilidade Social, troca-se de
projeto. Hoje a tendência das empresas é trocar de projeto a cada dois anos se ela
não for premiada, por outro que tenha mais chance de vencer no ano seguinte.
Compare esta atitude com a internacional Associação dos Cavaleiros da Soberana
Ordem Militar de Malta, que existe desde 1798, uma das mais antigas instituições
humanitárias em atividade no mundo, com a missão "obsequium pauperium", servir
os pobres. Os verdadeiros socialmente responsáveis têm sido as entidades, as
empresas não chegam nem perto de merecer esta designação.
Na minha opinião, a postura socialmente responsável é apoiar as entidades
socialmente responsáveis de fato, com doações e ponto final. Você pode fazer isto
hoje, através do doações on line no site www.filantropia.org.
5. Todo o dinheiro gasto em anúncios tipo "Minha Empresa É Mais
Responsável do que o Concorrente", poderia ser gasto duplicando as
doações de sua empresa.
Os líderes sociais do país, que cuidam de 28 milhões de pessoas carentes, e não
têm recursos para comprar anúncios caríssimos na imprensa. Depois desta onda de
responsabilidade social das empresas com os anúncios que as empresas estão

O Contrato de Casamento
Na semana passada comemorei trinta anos de casamento. Recebemos dezenas de
congratulações
de nossos amigos, alguns com o seguinte adendo assustador: "Coisa rara hoje em
dia". De fato, 40%
de meus amigos de infância já se separaram, e o filme ainda nem terminou. Pelo
jeito, estamos nos esquecendo da essência do contrato de casamento, que é a
promessa de amar o outro para sempre.
Muitos casais no altar acreditam que estão
prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um
contrato.
Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo "vou
sempre amar você", como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase
mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que
alguém mais interessante apareça. "Eu amarei você para sempre" deixou de ser
uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o
outro.
Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é
incerto e imprevisível. Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de
idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma
gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das
mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de
casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher "ideal" para você aparecerá
somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que
provavelmente seu "verdadeiro amor" estará no grupo que você ainda não conhece,
e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu
par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu
azar? O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema.
Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões
corretas.
As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza,
sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você
promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: "Eu sei que nós
dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente
encontrarei dezenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao
longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais
inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e
abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em
meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com
um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento.
Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher
provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver
em harmonia". Homens e mulheres que conheceram alguém "melhor" e acham
agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge
esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento.
O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas
construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para
sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase:
que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos
pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a
separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da

família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros "melhores". Eles
aprendem a conviver com os pais que têm.
Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-adia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam
aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido
num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num
próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem
em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí,
você terá certeza de tudo.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1873, ano 37, nº 39, 29 de setembro de 2004,
página 22

Democracia Brasileira
República de banana, uma ova. Se você tem um amigo, vizinho ou chefe americano, que tal
dar uma cutucada de leve, sem ofender, e oferecer-lhe um pouco de know how eleitoral,made
in Brazil?
Por não terem aprimorado o processo eleitoral nos últimos 200
anos, como fizeram nossos legisladores e nosso Tribunal
Eleitoral, os americanos terão um presidente com sabor de
ilegitimidade — o pior que pode acontecer com o líder de um
país e, especialmente, de uma democracia.
Se as eleições americanas tivessem seguido regras brasileiras, nada disso teria acontecido.
Nosso processo eleitoral é superior ao americano em pelo menos cinco aspectos:
1. Segundo Turno: os democratas alegam que Gore é a “vontade da maioria do povo”,
apesar de ter obtido somente 48% dos votos. No Brasil, Gore e Bush iriam para o segundo
turno. Além disso, Ralph Nader e Buchanan não poderiam ter sido excluídos do debate público
do primeiro turno, como aconteceu.
Em um segundo turno, então sem Ralph Nader, Gore provavelmente teria obtido 52% contra
48% de Bush, já que Nader é na realidade um dissidente democrata. Agora sim, a maioria do
povo.
2. Voto obrigatório: nem Gore nem Bush obtiveram 48% da vontade do povo, como
dizem. Ambos conseguiram somente 24%, uma vez que metade dos americanos simplesmente
não votou. Essa eleição dos Estados Unidos me leva a ficar a favor da obrigatoriedade do voto,
para que não haja o risco das acusações de ilegitimidade que irão marcar o próximo governo
americano. Votar em todas as eleições, mesmo que em branco, significa renovar seu contrato
social com a democracia do Brasil, algo que não acontece naquele país.
3. Maioria popular: nosso presidente não é eleito por “maioria estadual ponderada pelo
número de habitantes do Estado”. O colégio eleitoral poderia fazer sentido quando o problema
era achar um “representante” para treze Estados independentes que haviam decidido se juntar
tempos atrás. Em um mundo globalizado, porém, o presidente da República representa a
nação como um todo, não um grupo de Estados.
4. Confirmação do voto: depois de digitado o número do candidato, nossas urnas
eletrônicas perguntam: “é esse o nome e a foto de seu candidato?” Isso é auditoria no ato. Nos
Estados Unidos, milhares de americanos não sabem com certeza em quem votaram.
Tecnicamente, nós votamos quando digitamos o número do candidato e, ao apertarmos a tecla
verde, estamos simplesmente confirmando nosso voto, já dado anteriormente.
5. Erros graves de arredondamento: esse erro aparece quando se tenta encaixar a
população americana nas somente 538 vagas do colégio eleitoral. Imaginem 100 milhões de
habitantes divididos em dois Estados e um colégio eleitoral com 100 vagas. O Estado “Nova
Flórida” tem 49 444 444 moradores, e a “Velha York” tem 50 555 556. Como não é possível
cortar a cabeça de nenhum delegado de colégio eleitoral, “Nova Flórida” manda 49 delegados,
e não 49,44, e “Velha York” terá 51 delegados, em vez de 50,56. Nesse caso, 444 444 votos
foram simplesmente transferidos para outro Estado. A situação se complica quando o número
de estados aumenta para cinqüenta e então os erros ficam ainda mais graves. Ninguém
comenta esse assunto, mas ser eleito por “erros de arredondamento” é algo muito sério. No
Brasil, cada voto vale um voto e não cometemos esse tipo de erro, inadmissível no mundo
moderno.
Nosso sistema eleitoral só perde em marketing. Li diversos comentaristas estrangeiros dizendo
que, apesar de tudo, os americanos deram um show de democracia. Discordo. Nosso sistema
eleitoral evoluiu com o passar dos anos. O deles parou no tempo.

Publicado na Revista Veja edição 1677 ano 33 no 48 de 29 de novembro de 2000

Dólares na Suíça, Filhos no Brasil
Existe uma enorme contradição na frase acima.
Ganhar dinheiro no Brasil e manter parte dele investido fora parece ser uma atitude
inteligente. Mas feito por dezenas de milhares de brasileiros, priva a nação dos
recursos já disponíveis para o nosso crescimento.
O total de depósitos de brasileiros no exterior
segundo pessoas que operam nesta área gira entre
45 e 140 bilhões de dólares. A estimativa mais freqüente
é de 95 bilhões. Nunca saberemos o valor verdadeiro,
mas, qualquer que seja, suspeita-se que esse valor tenha
aumentado em 20 bilhões nos últimos seis meses. O que,
no fundo, desencadeou a recente crise. É dinheiro suficiente para gerar de 1 a 6
milhões de empregos, reduzindo, além do desemprego, a violência urbana e a
criminalidade.
Por alguma razão, evita-se discutir esse assunto em público, mas acho que é
preciso abordá-lo neste momento. Primeiramente, alguns fatos: o grosso desse
dinheiro não foi depositado por bilionários nem por empresários com caixa dois,
mas sim por pessoas de classe média que receberam salários e honorários
honestamente e que, por uma razão ou outra, entraram em pânico. Dá para
entender por que as pessoas depositam seu dinheiro em países onde a regra do
jogo não muda. Provavelmente, abriram essas contas para proteger suas famílias
de uma hiperinflação que quase ocorreu, ou após um seqüestro de cruzados que de
fato aconteceu. Portanto, antes de julgá-los com falso moralismo, é importante
concordar que os tempos não foram fáceis.
Mas existe outra questão que esses poucos brasileiros precisam entender:
parte da crise reside justamente no costume e na rapidez com que se transfere
dinheiro para fora, ao primeiro sinal de problema. O Brasil tem investido no exterior
quase tanto quanto as multinacionais têm investido no Brasil, um contra-senso
monumental. Poupança para o crescimento o Brasil já tem, o problema é que ela
está no lugar errado.
Se você é um desses, mais dia menos dia você terá de resolver a seguinte questão:
ou coloca seus filhos também na Suíça, ou então aplica no país em que eles irão
viver e trabalhar, investindo na geração de seus empregos. Foi assim que os
alemães reconstruíram a Alemanha e os japoneses, o Japão, depois da II Grande
Guerra.
Quem investe em CDBs, fundos de renda fixa, cadernetas de poupança e
especialmente ações brasileiras está indiretamente ajudando a gerar os empregos
necessários para os próprios filhos. Além do mais, quem acha que seu dinheiro está
seguro numa pequena ilha do Caribe, deveria primeiro visitá-la. Noventa e cinco
bilhões de dólares é muito dinheiro para investir numa ilha. Quem garante que seu
dinheiro não está reinvestido na Rússia, no Japão ou em Hong Kong? Os 3% de
juros ao ano que se recebe não compensam esse risco.
Com o câmbio livre e unificado, a função do doleiro caminhará um dia para a
extinção, como ocorreu na Europa e nos Estados Unidos, e daqui a dez anos você
provavelmente não terá como trazer seu dinheiro de volta, nem ilegalmente. Ter de
gastar o dinheiro comendo lagosta caribenha poderá matá-lo do coração. Um dia as

leis financeiras serão mundiais, conseqüência inexorável da globalização. Aí não
haverá porto seguro no mundo, vide o que aconteceu com Pinochet.
Está na hora de perdoar os pacotes do passado e começar a reconstruir este país.
Está na hora de trazer pelo menos uma parte neste ano, e o resto, devagarinho. Os
preços dos imóveis estão ridiculamente baixos; as ações, nem se fala. Os juros
cairão e o dólar também. O risco Brasil só serve para os estrangeiros. Para quem
vive aqui, ele não existe.
Vamos ter de fazer uma campanha corpo a corpo para convencer os brasileiros a
investir de novo no país. Mas se, apesar de tudo, seu pai, seu tio, seu melhor amigo
ou você mesmo ainda acreditam que aplicar dinheiro lá fora é mais seguro,
pergunte ao seu gerente se não dá para depositar também seu filho ou sua filha.
Afinal, seu verdadeiro investimento são eles.
Publicado na Revista Veja, edição 1592, ano 32, nº 14, de 7 de abril de 1999,
página 21

Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1881, ano 37, nº 47, 24 de novembro de 2004,
página 22

Ensinando a Pescar Uma das frases mais divulgadas por empresas
socialmente responsáveis é "Nós não damos o peixe, nós ensinamos a pescar". Um
dos conceitos mais valorizados por intelectuais, e especialmente por professores, é
que ensinar a pescar é importante, dar
o peixe não é. São pessoas que se colocam contra o assistencialismo, a caridade e
a filantropia. Acham
que o assistencialismo é nocivo, que cria dependência
e reduz a auto-estima.
Existe atualmente enorme preconceito contra
entidades que dão assistência, como aquelas que cuidam
de moças solteiras grávidas e as inúmeras entidades que
servem sopão aos famintos. De uns anos para cá,
doadores estão deixando de ajudar entidades
assistencialistas – hoje as empresas não querem
patrocinar entidades que oferecem teto a moradores de
rua, olham feio para o Fome Zero. A maioria das
empresas socialmente responsáveis está sendo induzida a patrocinar
prioritariamente projetos que "ensinam a pescar". E aceita sem pestanejar porque
são projetos que proporcionam elevado retorno sobre o investimento.
Eu vou defender as entidades que prestam assistencialismo à moda antiga e tentar
ajudá-las a reverter a onda que estão sofrendo, e à qual muitas não estão
resistindo.
O ser humano tropeça muitas vezes na vida. Já vi o desespero de mulheres
abusadas, já vi pessoas humildes entrar em pânico porque os filhos contraíram

câncer. Essas pessoas não precisam aprender a pescar. Elas precisam de
assistência, carinho e compaixão. Alcoólatras precisam de ajuda, um ouvido amigo,
e não de cursos sobre os efeitos do álcool. Dependentes químicos não precisam de
cursos de "geração de renda", eles precisam de compaixão, colo e um ombro
carinhoso para poder readquirir forças para se reerguer SOZINHOS. Órfãos,
paraplégicos, portadores de hanseníase ou síndrome de Down, além de um curso
de três semanas, precisam de atenção dedicada anos a fio.
Todo ano analiso mais de 400 ONGs e descobri algo muito constrangedor. Nas
organizações que fazem "mero assistencialismo", 80% dos recursos doados são
revertidos em uma cadeira de rodas, em óculos para um deficiente visual ou em um
prato de comida. Ou seja, o dinheiro vai para quem precisa, enquanto nas ONGs
que "ensinam a pescar" 85% das doações terminam no bolso dos professores, não
no bolso dos alunos carentes. Por que professores não podem ser voluntários sem
receber nada, como os outros? Alguns, felizmente poucos, cobram fortunas dessas
entidades para dar aulas de gestão do terceiro setor e nem ficam vermelhos
quando em sala de aula enaltecem o trabalho voluntário.
Hoje as empresas socialmente responsáveis estão usando critérios capitalistas para
escolher projetos sociais, querem "investir", querem "retorno", querem "alavancar".
Por isso, adoram projetos que ensinam a pescar, porque o "retorno sobre o
investimento" é elevado. Com esses critérios tipicamente neoliberais, nenhuma
empresa investe mais no velho, no tetraplégico, no cego, porque "não compensa".
Empresário só "investe" em crianças, danem-se os doentes terminais. É o
neoliberalismo social sobrepujando o humanismo cristão.
Não sou contra ensinar a pescar, quero deixar isso bem claro. Fui professor por
trinta anos, precisamos de ambas as posturas sem dúvida alguma. Só que a
maioria das entidades que fazem "mero assistencialismo" também ensina a pescar
como parte da recuperação, mas isso os intelectuais nunca divulgam. O que me
preocupa é a enorme ênfase atual na primeira atitude em detrimento da segunda.
Precisamos reverter esse preconceito, precisamos dar valor àquelas entidades que
prestam assistência a órfãos, paraplégicos, portadores de hanseníase, síndrome de
Down, cegos, doentes mentais, velhos, vítimas de estupro e abuso sexual. Lamento
dizer que boa parte de nossos problemas sociais não é resolvida em sala de aula,
por isso temos de manter o equilíbrio.
Se sua empresa é uma dessas que fazem questão de não dar o peixe e somente
ensinam a pescar, repense sua posição. Muita gente necessitada vai preferir o apoio
e a mão amiga de sua equipe a umas brilhantes aulas.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1869, ano 37, nº 35, 1º de setembro de 2004,
página 20
Todo Escolhendo uma profissão ar pelo menos duas grandes
importantes decisões na vida. A escolha da profissão
e a do cônjuge. A maioria estuda e namora o futuro cônjuge nos mínimos detalhes,

mas escolhe e
descarta dezenas de profissões com uma única frase. Muitos passarão mais tempo
no emprego do que com
o marido, a esposa e a família. Quando chegarem em casa, todos já estarão
dormindo.
Como melhorar a escolha da profissão com a mesma
dedicação com que se escolhe um cônjuge?
1. Namore também sua profissão. Se seus pais possuem
um conhecido que exerça uma profissão, peça permissão
para acompanhá-lo por algumas semanas para sentir como é seu dia-a-dia. Mesmo
que tenha de ficar nos corredores, você verá o ambiente, sentirá um pouco a rotina
diária. Assista a uma semana de aulas em sua futura faculdade. Comece a explorar
as variantes da profissão, descubra as linhas de pensamento, os estilos. Quem são
as "feras" dessa área e como são os estilos de vida. Combinam com o seu?
2. Não se apresse. Se você estiver na dúvida quanto à escolha da profissão, tire um
ano mochilando pelo mundo afora. É preferível "perder" um ano a perder toda uma
vida profissional. A escolha da profissão precisa ser cuidadosa, porque hoje em dia
é mais fácil trocar de cônjuge que de profissão. Aos 32 anos você não terá mais
disposição para prestar um novo vestibular. Essa pressão da sociedade e dos pais
para uma escolha imediata vem do tempo em que a expectativa de vida de um
adulto era de somente quarenta anos. Hoje a expectativa média de vida é de 82
anos. Um ano ou dois não farão a mínima diferença.
3. O não por exclusão. Nossa tendência é sempre achar algum defeito numa idéia
nova. "Engenheiros sujam as mãos", "contabilidade é para tímidos", "advocacia é
para quem fala bem", "finanças e economia são para especuladores". Toda
profissão tem seus defeitos. Se você andou escolhendo algumas profissões por
exclusão, volte atrás e pense de novo.
4. Explore o cinza. Justamente porque o estereótipo do advogado é aquele que fala
bem, existe enorme falta de advogados que sejam bons em matemática. Por isso,
advogados tributaristas, os que mexem com números, são muito bem pagos no
Brasil.
5. Não confunda interesse com proposta de vida. Todos nós deveríamos ter
interesse em história e filosofia. Espero que nos fins de semana vocês leiam esses
temas, e não mais um livro técnico. Todo mundo deveria estudar um pouco de
economia, psicologia e direito, mas nem todos irão querer estudar essas matérias a
vida inteira. O simples interesse não é suficiente para fazer de você um profissional
dedicado e totalmente comprometido para o resto da vida. Uma fã do pianista
Arthur Moreira Lima disse que daria a vida para tocar como ele. "Pois eu dei a
minha vida", respondeu Moreira Lima. Se você está disposto a dar sua vida por
história ou filosofia, aí não é um mero interesse, é sem dúvida uma vocação.
Portanto, vá em frente. Se você escolher uma profissão no par-ou-ímpar, lembre-se
de que poderá estar tirando a vaga de alguém que tem vocação, a vaga de um
futuro Moreira Lima.

Faça um favor à sociedade e àqueles que adorariam estar em seu lugar: não tome
a vaga de quem realmente precisa. A sociedade, os excluídos e seus futuros
professores agradecerão efusivamente. Portanto, vá com calma. Estude a vida
inteira e escolha sua profissão de uma forma profissional. Boa sorte e meus votos
de sucesso.
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja, edição 1781, ano 35, nº 49, 11 de dezembro de
2002.

Estimulando a curiosidade
Durante a estada de Richard Feynman no Brasil –
um dos poucos ganhadores do Prêmio Nobel que o
Brasil pôde conhecer de perto –, os alunos pediram a ele que desse uma aula sobre
nossos métodos de ensino na área da física. Feynman pegou cinco ou seis livros de
física adotados pelo MEC naquela época e
um mês depois disse que só daria aquela aula no
último dia de sua permanência no país.
No dia fatídico, dezenas de professores de física se
reuniram para ouvir sua palestra. Essa história é contada
por ele no livro Deve Ser Brincadeira, Sr. Feynman.
Começou assim a palestra: "Triboluminescência, diz no
livro de vocês, é a propriedade que certas substâncias possuem de emitir luz sob
atrito". E mostrou como nossos livros apresentavam a matéria pronta, incentivavam
a decoreba, eram essencialmente chatos e confusos. Isso foi escrito há trinta anos,
mas, pelas queixas dos alunos, nossos livros de física não melhoraram tanto quanto
deveriam.
Segundo Feynman, um livro americano abordaria a questão de forma um pouco
diferente. "Pegue um torrão de açúcar e coloque-o no congelador. Acorde às 3 da
manhã, vá até a cozinha e abra o congelador. Amasse o torrão de açúcar com um
alicate e você verá um clarão azul. Isso se chama triboluminescência."
Não sei se ficou clara a diferença que Feynman tentava demonstrar, nem sei se os
livros didáticos americanos continuam os mesmos, mas basicamente nossos
métodos de ensino apresentam muita informação e teoria em vez de despertar a
curiosidade.
Criamos alunos tão bem informados que no Brasil inteligência virou sinônimo de
erudição. Inteligente é quem sabe muito, quem repete as teorias e conclusões dos
outros. Um dia ele poderá até ter opinião própria, mas será difícil se ninguém
estimular sua curiosidade.

Sem dúvida, toda sociedade precisa de pessoas eruditas, aquelas que sabem os
caminhos que já foram percorridos. Erudição não mostra necessariamente
inteligência, mas demonstra que a pessoa tem boa memória.
No mundo moderno, em constante mutação, inteligência quer dizer outra coisa.
Significa enxergar o que os outros (ainda) não vêem. Isso é próprio de pessoas
criativas, pesquisadoras, curiosas, exploradoras, que encontram soluções para os
novos problemas que temos de enfrentar.
O método de ensino eficaz, segundo Feynman, deveria formar indivíduos curiosos.
O objetivo final de uma aula teria de ser formar futuros pesquisadores, e não
decoradores da matéria. O que mais o espantou é que nosso ensino de física e
química é muito superior ao americano, algo que todo brasileiro já sabe. Mesmo
assim, notou Feynman, o Brasil produz menos físicos e químicos que os Estados
Unidos.
A hipótese que ele levanta é o método de ensino. Damos muita teoria e informação,
mas ensinamos pouco como usar as informações aprendidas. Por sua vez, os
americanos sabem e aprendem muito menos teoria, mas devotam mais tempo
aprendendo como usar a informação apresentada, sob todos os ângulos.
Suspeito que essa seja a razão de nosso péssimo desempenho nos testes
internacionais administrados pelo Programa Internacional de Avaliação Estudantil
(Pisa), em que o Brasil aparece nas últimas colocações, inclusive em física. Os
testes do Pisa enfatizam mais o uso da informação do que a lembrança da
informação em si, algo em que o aluno brasileiro se destaca.
O certo seria, talvez, escrever livros "didáticos" menos didáticos e mais
motivadores, que estimulassem a curiosidade e fossem mais relacionados com a
vida futura de nossos alunos. Alguns dos livros que avaliei mal estimulam o aluno a
virar a página para o próximo tópico, muito menos poderiam seduzi-lo a se dedicar
ao assunto o resto da vida.
Vamos fazer um simples teste entre 1 000 alunos e descobrir quantos jogaram fora
seus livros didáticos após a formatura e quantos os guardaram como o primeiro
volume de uma grande biblioteca sobre o assunto. Isso nos diria quais os livros
didáticos que de fato estimularam nossa curiosidade, o objetivo principal do ensino
moderno.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1826, ano 36, nº 43 de 29 de outubro de 2003,
página 20

Fazendo a Diferença

Ser rico, famoso ou poderoso tem sido o objetivo da maioria das pessoas, mas
sempre falta algo. Recentemente, ouvi sobre uma nova postura ética de sucesso,
que vale a pena resumir aqui, porque na época ninguém
noticiou.
Numa reunião no World Economic Forum, em Davos, o
local onde o mundo empresarial se reúne uma vez por
ano em janeiro, um empresário que acabava de fazer um
tremendo negócio foi convidado numa das várias sessões
a expor suas idéias.
Primeiro perguntaram como ele se sentia, subitamente um bilionário. Sem
pestanejar um único minuto, ele afirmou que o dinheiro não lhe pertencia, e que
doaria toda sua fortuna a instituições beneficentes.
"Sou simplesmente fruto do acaso, tenho os genes certos e estou no momento
certo, no setor certo. É difícil falar em 'mérito' numa situação dessas."
"Se eu, o Bill Gates aqui presente, ou então o Warren Buffett, tivéssemos nascido
2.000 anos atrás, nenhum de nós teria tido o porte atlético necessário para se
tornar um general do Império Romano, posição de destaque equivalente à nossa,
na época. Teríamos sido trucidados na primeira batalha."
Alguns seres humanos sempre estarão momentaneamente mais adequados ao
ambiente que os outros e receberão, portanto, melhores salários, apesar do esforço
dos demais.
A idéia da meritocracia, tão decantada pela direita conservadora como justificativa
para a sua riqueza, cai por terra se levarmos em consideração a nova teoria de que
somos todos frutos do acaso genético das interpolações do DNA de nossos pais.
Se nossos genes são mero acaso da variação genética, falar em QI, mérito, proeza
atlética e se achar merecedor de 100% dos ganhos que esses atributos nos
proporcionam não faz mais muito sentido. O que há de meritocrático em ter os
genes certos?
Ninguém está sugerindo o outro extremo de salários iguais para todos, porque toda
sociedade precisa incentivar os que se esforçam mais, os que trabalham melhor e
especialmente os que assumem riscos e têm a coragem de inovar.
O que essa nova postura sugere delicadamente é uma maior humildade e
generosidade daqueles que ganham fortunas por ter uma inteligência superior, um
porte atlético avantajado ou um talento excepcional. Por trás de toda "fortuna"
existe um elemento de sorte, muito maior do que os "afortunados" gostariam de
admitir.
Mas a frase que mais tocou a platéia estarrecida foi esta: "Mesmo doando toda a
minha fortuna", disse o empresário, "continuará a existir uma enorme injustiça
social no mundo. Eu terei tido um privilégio que muitos não terão. O privilégio de
ter feito uma diferença com o meu trabalho e minha vida."

Segundo essa visão, o mundo é dividido entre aqueles que fizeram ou não uma
diferença com sua vida, o dinheiro não é o objetivo final. E existem inúmeras
maneiras de fazer uma diferença, desde inventar coisas, gerar empregos, criar
produtos, até ajudar os outros com o dinheiro obtido.
Aproximadamente 55% dos empresários americanos não pretendem legar sua
fortuna aos filhos. Acham que estariam estragando sua vida gerando playboys e um
bando de infelizes. Percebem que o divertido na vida é chegar lá, não estar lá. Ser
filho de empresário e receber de mão beijada uma BMW, um Rolex e uma
supermesada não é o caminho mais curto para a felicidade. Muito pelo contrário, é
uma roubada.
Por isso, os ricos de lá criaram instituições como a Fundação Rockfeller, a Fundação
Ford, a Fundação Kellogg, a Fundação Hewlett. No Brasil, estamos muito longe de
convencer os empresários a fazer o mesmo, razão pela qual sua fortuna
provavelmente virará mais um imposto. O imposto sobre herança.
O segredo da felicidade, portanto, não é ganhar dinheiro, que a maioria acabará
perdendo de uma forma ou de outra. O segredo é ter feito uma diferença.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1838, ano 37, nº 4, 28 de janeiro de 2004
Isto é um teste de personalidade que poderá alterar
a sua vida. Portanto, preste muita atenção.

Iniciativa e Acabativa
Iniciativa é a capacidade que todos nós temos de criar,
iniciar projetos e conceber novas idéias.
Algumas pessoas têm muita iniciativa e outras têm pouca.
Acabativa, é um neologismo que significa a capacidade que algumas pessoas
possuem de terminar aquilo que iniciaram ou concluir o que outros começaram. É a
capacidade de colocar em prática uma idéia e levá-la até o fim.
Os seres humanos podem ser divididos em três grupos, dependendo do grau
deiniciativa e acabativa de cada um: os empreendedores, os iniciativos e
osacabativos - sem contar os burocratas.
* Empreendedores são aqueles que têm iniciativa e acabativa. Um seleto grupo que
não se contenta em ficar na idéia e vai a campo implantá-la.
* Iniciativos são criativos, têm mil idéias, mas abominam a rotina necessária para
colocá-las em prática. São filósofos, cientistas, professores, intelectuais e a maioria
dos economistas. São famosas as histórias de economistas que nunca assinaram
uma promissória. Acabativa é o ponto fraco desse grupo.

* Acabativos são aqueles que gostam de implantar projetos. Sua atenção vai mais
para o detalhe do que para a teoria. Não se preocupam com o imenso tédio da
repetição do dia-a-dia e não desanimam com as inúmeras frustrações da
implantação. Nesse grupo está a maioria dos executivos, empresários,
administradores e engenheiros.
Essa singela classificação explica muitas das contradições do mundo moderno.
Empresários descobrem rapidamente que ficar implantando suas próprias idéias é
coisa de empreendedor egoísta. Limita o crescimento. Existem mais pessoas com
excelentes idéias do que pessoas capazes de implantá-las. É por isso que
empresários ficam ricos e intelectuais, professores - entre os quais me incluo morrem pobres.
Se Bill Gates tivesse se restringido a implantar suas próprias idéias teria parado no
Visual Basic. Ele fez fortuna porque foi hábil em implantar as idéias dos outros dizem as más línguas que até copiou algumas.
Essa classificação explica porque intelectual normalmente odeia empresário, e viceversa. Há uma enorme injustiça na medida em que os lucros fluem para quem
implantou uma idéia, e não para quem a teve. Uma idéia somente no papel é letra
morta, inútil para a sociedade como um todo.
Um dos problemas do Brasil é justamente a eterna predominância, em cargos de
ministérios, de professores brilhantes e com iniciativa, mas com pouca ou
nenhuma acabativa. Para o Brasil começar a dar certo, precisamos procurar
valorizar mais os brasileiros com a capacidade de implantar nossas idéias.
Tendemos a encarar o acabativo, o administrador, o executivo, o empresário como
sendo parte do problema, quando na realidade eles são parte da solução.
Iniciativo almeja ser famoso, acabativo quer ser útil.
Mas a verdade é que a maioria dos intelectuais e iniciativos não tem o estômago
para devotar uma vida inteira para fazer dia após dia, digamos bicicletas.
Oiniciativo vive mudando, testando, procurando coisas novas, e acaba tendo uma
vida muito mais rica, mesmo que seja menos rentável.
Por isso, a esquerda intelectual e a direita neoliberal conviverão as turras, quando
deveriam unir-se.
Se você tem iniciativa mas não tem acabativa, faça correndo um curso de
administração ou tenha como sócio um acabativo. Há um ditado chinês, "Quem
sabe e não faz, no fundo, não sabe" - muito apropriado para os dias de hoje.
Se você tem acabativa mas não tem iniciativa, faça um curso de criatividade,
estude um pouco de teoria. Empresário que se vangloria de nunca ter estudado não
serve de modelo. No fundo, a esquerda precisa da acabativa da direita, e a direita
precisa das iniciativas da esquerda. Finalmente, se você não teminiciativa nem
tampouco acabativa, só podemos lhe dizer uma coisa: meus pêsames.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1572, ano 31, nº 45, 11 de novembro de 1998,
página 22

Não Seja Imprevidente
Militantes antiglobalização carregam celulares da Nokia, usam o Internet Explorer
para navegar na rede mundial de computadores e copiam seus protestos numa
impressora HP. Até eles são a favor do intercâmbio comercial entre os povos,
embora não admitam. O que eles abominam são as movimentações financeiras
entre países, uma conseqüência inevitável do comércio.
Hoje, americanos e europeus podem investir os reais que
recebem de suas exportações em dívidas do governo
brasileiro ou na bolsa, em vez de remetê-los
imediatamente de volta ao seu país. Isso reduz os nossos
juros porque aumenta a demanda por títulos do governo,
juros que seriam ainda maiores se não existisse esse
influxo internacional.
O lado ruim é que qualquer notícia ou frase infeliz de um governante ou análise
equivocada de um jornalista estrangeiro pode gerar certo pânico e uma
movimentação financeira no sentido inverso. É como se o leitor colocasse sua mão
numa toca à procura de ouro num país desconhecido. Qualquer raspão na pele, sua
mão sai da toca a 100 quilômetros por hora.
O problema é o curto prazo. Ter de agüentar a insegurança inicial desses
investidores estrangeiros novatos, que vivem com o dedo no gatilho. Com o tempo,
aprenderão as nossas idiossincrasias, descobrirão quem são nossos bons jornalistas
e economistas, e as fugas de capital no futuro serão bem mais brandas.
Infelizmente, a maioria de nossos intelectuais é contra movimentações financeiras;
eles querem criar uma sociedade estável a todo custo, com juros altos, com
controle de câmbio, CPMF internacional, quarentenas financeiras do influxo de
dinheiro e intervenções governamentais, sempre ditados por eles. Esquecem que
sempre existirão pessoas que se assustam com o novo, por isso intervenções só
pioram a situação.
Volatilidade faz parte da vida, a solução correta é aprender a conviver com ela, e
não impedi-la. O mundo não é regido por leis econômicas, mas por leis biológicas,
típicas de grandes populações de seres vivos. Hoje, até o noticiário econômico
demonstra que percebeu isso quando usa expressões como contágio, ataques
especulativos, mecanismos de defesa, vocabulário que vem da biologia, e não da
economia.
Palocci foi criticado por muitos economistas brasileiros por ser médico, mas
justamente por isso ele está muito mais adequado ao cargo do que se pensa. Um
dos "mecanismos de defesa" que os nossos economistas governamentais nunca
construíram no passado, porque não faz parte do receituário heterodoxo, foi a
criação de reservas financeiras adequadas à volatilidade. Reservas financeiras
compram tempo e tranqüilidade. Tempo para pensar numa melhor solução para a
crise.
No Brasil, nossas poucas reservas sempre terminaram muito antes de a crise
passar, obrigando-nos a nos endividar com todo o mundo, especialmente com o
FMI.
TODAS as crises mundiais foram nefastas para o Brasil porque criar reservas nunca
foi considerado uma política econômica importante, e sim um desperdício de

dinheiro. Tanto é que em 2002 o governo Lula herdou reservas internacionais
ínfimas, de somente 17 bilhões de dólares, o equivalente a dez dias da nossa
produção interna. A China vive uma fase de segurança e prosperidade porque tem
mais de 600 bilhões de dólares em reservas.
A visão do administrador para gerar estabilidade econômica contra a volatilidade da
globalização é a de promover políticas públicas que estimulem cada empresa, cada
governo estadual e municipal, cada família a criar reservas financeiras suficientes
para enfrentar as crises do futuro. A decisão de Antonio Palocci e Henrique Meirelles
de aumentar nossas reservas para 60 bilhões de dólares, em vez de investir no
social, trará muito mais tranqüilidade social do que seus críticos imaginam.
Portanto, se você é contra a globalização, proteja sua família da volatilidade
humana criando um fundo de reserva financeira. Se você vive perigosamente,
contraindo dívidas com juros flutuantes ou nunca se aprimorando no trabalho,
aumente a quantia que você "reserva" todo mês.
Até o termo "reservar" nos parece estranho. Não acredite nas previsões seguras
publicadas por aí. Acredite somente que teremos crises de tempos em tempos e
que, se você tiver zero de reservas, a crise o afetará 100%. Quanto mais reservas
você tiver, menos a crise o afetará.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)

Editora Abril, Revista Veja, edição 1906, ano 38, nº 21, 25 de maio de 2005,
página 22
O problema da globalização é que o tempo está a

O ano de quatro meses

celerando cada vez mais. A globalização sempre existiu,
desde o Império Romano, mas o que acelerou não foi a
globalização, e sim a rapidez das mudanças. O ano, que
era de doze meses, é hoje na prática de somente quatro.
Por isso todo mundo anda sem
tempo para respirar. Graças ao telefone, celular, internet,
e-mails, conseguimos decidir, analisar, coordenar e
implementar tudo muito mais rápido.
Em 1973 levei seis meses para fazer a pesquisa bibliográfica inicial da minha tese
de doutorado. Hoje eu faria a mesma pesquisa em doze horas, na
internet. Na época, os livros que encomendei demoraram quatro meses para chegar
do exterior.
Hoje chegam em uma semana.
Os Estados Unidos, uma economia já madura, voltaram a crescer 7% ao ano,
deixando muitos analistas perplexos. Não há nada verdadeiramente de inusitado.
Os americanos continuam a crescer seus modestos 2,1% ao ano de sempre, só que
implantam seus novos investimentos em somente quatro meses, e não mais em
doze, como antigamente.
Nós, infelizmente, ainda levamos quatro anos para fazer o que deveríamos fazer em

um. Nossas leis precisam de demoradas reformas constitucionais para mudar. Não é
por coincidência que os maiores críticos da globalização são professores que
continuam dando as mesmíssimas matérias nos mesmos doze meses de sempre.
Reduzir um curso de quatro anos para três, cortando matérias desnecessárias,
ensinar melhor e mais rápido sem encher as aulas com lengalenga, nem pensar. Os
grandes opositores da globalização são os conservadores que, como sempre,
preferem que o tempo pare, a seu favor.
Ilustração Ale Setti
No fim do ano que vem estaremos figurativamente em 2007, não em 2004. Só que
ainda estamos discutindo as reformas de 2003. Ninguém leu corretamente Darwin,
que nunca falou da sobrevivência do mais forte. O que ele mostra é a sobrevivência
do mais ágil, aquele que se adapta às mudanças inevitáveis do mundo com maior
rapidez. São os lerdos que são comidos pelos tigres. Normalmente as vítimas são
animais fortes que se tornaram velhos e lentos. Na selva capitalista não sobrevive o
mais forte, como todo mundo acredita, e sim o mais rápido, que enxerga e
responde com dinamismo. Não são aqueles que têm os melhores genes que
sobrevivem, apesar de a maioria dos livros dizer justamente o contrário. São
aqueles que se adaptam mais rapidamente, que mesmo com adaptações
imperfeitas enfrentam o problema.
Temos centenas de partes do corpo que são meros quebra-galhos, e não as
melhores adaptações possíveis. Se você tem constantes dores nas costas, lembrese de que a coluna não foi feita para que ficássemos em pé, e sim para andarmos
de quatro.
Uma das saídas dessa sinuca, no nível pessoal, não é necessariamente fazer mais
em menos tempo, mas sim largar tarefas menos essenciais e se concentrar naquilo
que realmente é importante. Isso significa largar funções que você continua a
carregar por tradição, para manter poder ou por vaidade.
Sem querer generalizar, todo ser humano tende a procurar mais poder do que
consegue administrar.
Delegar tarefas, funções e trabalho é visto como derrota, uma perda de poder, fatal
para qualquer político, executivo ou chefe de departamento.
Em vez de encarar a delegação como diminuição de status, encare-a como uma
forma de se concentrar naquele nicho em que você realmente é mais competente, o
que no fundo lhe trará muito mais poder. O segredo é fazer menos e melhor, algo
que ainda não aprendemos. Eu também gostaria de que o tempo andasse mais
lentamente, ou que o Primeiro Mundo tirasse nove meses de férias em vez de
continuar trabalhando como louco, tirando nossos empregos.
Por outro lado, essa aceleração do tempo significa que poderíamos estar resolvendo
mais rapidamente inúmeros problemas brasileiros, em especial nossos problemas
sociais.
O fato de que o tempo acelerou pode ser parte da solução, não somente parte do
problema. Portanto mexa-se, e feliz 2007 para todos.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1833, ano 36, nº 50 de 17 de dezembro de 2003
A

Fazer o que se Gosta

escolha de uma profissão é o primeiro calvário de todo a
dolescente. Muitos tios, pais e orientadores vocacionais
acabam recomendando "fazer o que se gosta", um
conselho confuso e equivocado.
Empresas pagam a profissionais para fazer o que a
comunidade acha importante ser feito, não aquilo que
os funcionários gostariam de fazer, que normalmente é jogar futebol, ler um livro
ou tomar chope na praia.
Seria um mundo perfeito se as coisas que queremos fazer coincidissem exatamente
com o que a sociedade acha importante ser feito. Mas, aí, quem tiraria o lixo, algo
necessário, mas que ninguém quer fazer?
Muitos jovens sonham trabalhar no terceiro setor porque é o que gostariam de
fazer. Toda semana recebo jovens que querem trabalhar em minha consultoria num
projeto social. "Quero ajudar os outros, não quero participar desse capitalismo
selvagem." Nesses casos, peço que deixem comigo os sapatos e as meias e voltem
para conversar em uma semana.
É uma arrogância intelectual que se ensina nas universidades brasileiras e um
insulto aos sapateiros e aos trabalhadores dizer que eles não ajudam os outros. A
maioria das pessoas que ajudam os outros o faz de graça.
As coisas que realmente gosto de fazer, como jogar tênis, velejar e organizar o
Prêmio Bem Eficiente, eu faço de graça. O "ócio criativo", o sonho brasileiro de
receber um salário para "fazer o que se gosta", somente é alcançado por alguns
professores felizardos de filosofia que podem ler o que gostam em tempo integral.
O que seria de nós se ninguém produzisse sapatos e meias, só porque alguns
membros da sociedade só querem "fazer o que gostam"? Pediatras e obstetras
atendem às 2 da manhã. Médicos e enfermeiras atendem aos sábados e domingos
não porque gostam, mas porque isso tem de ser feito.
Empresas, hospitais, entidades beneficentes estão aí para fazer o que é preciso ser
feito, aos sábados, domingos e feriados. Eu respeito muito mais os altruístas que
fazem aquilo que tem de ser feito do que os egoístas que só querem "fazer o que
gostam".
Então teremos de trabalhar em algo que odiamos, condenados a uma vida
profissional chata e opressiva? Existe um final feliz. A saída para esse dilema é
aprender a gostar do que você faz. E isso é mais fácil do que se pensa. Basta fazer
seu trabalho com esmero, bem feito. Curta o prazer da excelência, o prazer estético
da qualidade e da perfeição.

Aliás, isso não é um conselho simplesmente profissional, é um conselho de vida. Se
algo vale a pena ser feito na vida, vale a pena ser bem feito. Viva com esse
objetivo. Você poderá não ficar rico, mas será feliz. Provavelmente, nada lhe
faltará, porque se paga melhor àqueles que fazem o trabalho bem feito do que
àqueles que fazem o mínimo necessário.
Se quiser procurar algo, descubra suas habilidades naturais, que permitirão que
realize seu trabalho com distinção e o colocarão à frente dos demais. Muitos
profissionais odeiam o que fazem porque não se prepararam adequadamente, não
estudaram o suficiente, não sabem fazer aquilo que gostam, e aí odeiam o que
fazem mal feito.
Sempre fui um perfeccionista. Fiz muitas coisas chatas na vida, mas sempre fiz
questão de fazê-las bem feitas. Sou até criticado por isso, porque demoro demais,
vivo brigando com quem é incompetente, reescrevo estes artigos umas quarenta
vezes para o desespero de meus editores, sou superexigente comigo e com os
outros.
Hoje, percebo que foi esse perfeccionismo que me permitiu sobreviver à chatice da
vida, que me fez gostar das coisas chatas que tenho de fazer.
Se você não gosta de seu trabalho, tente fazê-lo bem feito. Seja o melhor em sua
área, destaque-se pela precisão. Você será aplaudido, valorizado, procurado, e
outras portas se abrirão. Começará a ser até criativo, inventando coisa nova, e isso
é um raro prazer.
Faça seu trabalho mal feito e você odiará o que faz, odiando a sua empresa, seu
patrão, seus colegas, seu país e a si mesmo.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1881, ano 37, nº 47, 24 de novembro de 2004,
página 22

A melhor proposta para reduzir juros, de todos os candidatos que estão aí, é a de
Feliciano Brasileiro,
um candidato virtual. Feliciano promete baixar os
juros para 5% ao ano sem queda-de-braço com os bancos, sem alongar a dívida
para doze anos, sem aumentar o câmbio para 3,2 reais o dólar e sem decretar
moratória da
dívida interna.

Juros em 5% ao ano
Como a inflação corrói nossas aplicações, todo investidor quer receber um juro
acima da inflação. Por isso, essa taxa básica de 18,5% não são juros, apesar de

economistas jurarem o contrário. "São a soma de juros mais inflação, só que
ninguém fica sabendo quanto é juro e quanto é inflação." Ambos vêm somados, e
por isso Feliciano chama essa taxa de "PerasComMaçãs". "No Brasil ninguém sabe
ao certo qual a taxa de juros que o governo irá pagar. Você compraria títulos sem
saber os juros que irá receber?" Claro que não, afirma Feliciano, o que somente
aumenta a taxa de risco do aplicador.
Para saber a taxa de juros, o aplicador precisa contratar
um economista de renome para fazer uma estimativa da
inflação, para então deduzi-la da taxa "PerasComMaçãs".
"Quando seu economista contratado estimar a inflação
entre 5% e 7%, qual das duas estimativas você
escolhe?", pergunta Feliciano. Essa incerteza de imediato aumenta os juros em 2
pontos porcentuais.
E, se você é um daqueles que não acreditam nas estimativas de nossos melhores
economistas, provavelmente você embutirá 3 ou até 4 pontos porcentuais para
compensar o risco de erro de estimativa. "Por que pagar por essa incerteza
desnecessária?"
A proposta de Feliciano é emitir títulos públicos que estabeleçam os juros reais
antecipadamente, de forma clara, sem previsões nem surpresas, como era a
caderneta de poupança antigamente. Se o juro de mercado for de 6%, este será o
juro que os títulos irão pagar. Ninguém terá de contratar economistas para estimar
a inflação futura e saber o juro que irá receber.
Pequenos investidores que não têm economistas a sua disposição precisam
acreditar nas "metas inflacionárias" do governo, que nem sempre são cumpridas. A
política de metas inflacionárias não diminui as incertezas, diz Feliciano, pelo
contrário, as aumenta. "O governo tem de garantir os juros, não a meta de
inflação", afirma o candidato virtual.
A constatação mais surpreendente de Feliciano é que o governo não acabou com a
correção e a indexação, o que é considerado o grande feito deste governo. "A
indexação continua", diz Feliciano, "só que agora corrige os juros embutindo a
inflação, antes se corrigia somente o valor da aplicação. Indexaram os juros, e
deixam a inflação corroer sua aplicação, o que não faz o menor sentido."
Segundo Feliciano a "correção monetária" não foi eliminada, simplesmente
trocaram a base da inclusão da inflação, e para pior. Indexar os juros aumenta-os
em níveis estratosféricos, enquanto indexar a dívida, como era feito antigamente,
mantém o juro baixo e garante que o investidor receba exatamente o que aplicou.
A segunda medida de Feliciano será eliminar o imposto de renda de 20% que incide
sobre os juros pagos. "Só isso reduziria os juros em mais de 20% e o maior
beneficiado seria o próprio governo federal, que é quem mais deve por aí."
Feliciano está introduzindo o conceito do "Municipal Bond" americano, que já existe
em outros países. "Municipal Bonds" são títulos emitidos por cidades americanas,
isentos de imposto de renda e que, portanto, pagam juros bem menores. Prefeitos

americanos que não são arrecadadores do imposto de renda não precisam implorar
benesses ao governo federal e depender politicamente, como ocorre no Brasil. Seria
a salvação de prefeituras endividadas.
Eliminado o risco de incerteza da inflação e de não saber o juro real a ser auferido,
colocando-se a inflação no lugar certo e sem imposto, os juros de fato poderão cair
para 5%, como propõe Feliciano. Só falta um candidato de carne e osso para
transformar essa idéia virtual em realidade.
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja, edição 1760, ano 35, nº 28, 17 de julho de 2002.

Nossos filhos terão emprego?
A grande maioria das mães de adolescentes e pré-adolescentes se preocupam, com
razão, com as perspectivas de emprego dos seus filhos e filhas.
As notícias sobre o fim do emprego, terceirização, globalização, níveis de
desemprego são alarmantes para quem pretende iniciar uma carreira daqui há
alguns poucos anos.
Quais são os fatos concretos?
1. As 500 maiores empresas brasileiras não
acrescentaram um único emprego novo nos últimos 10
anos. Pelo contrário, retiraram do mercado 400.000
postos de trabalho, passando a empregar somente 1.600.000 funcionários, o que
representa um insignificante 2,3% dos trabalhadores brasileiros.
2. A globalização está dizimando não somente empresas brasileiras, mas setores
inteiros.
3. O crescimento das importações não gera apenas um problemático déficit
comercial, mas cria empregos no exterior em detrimento do emprego interno.
Existem algumas considerações que amenizam este quadro, sem querer dar uma
impressão de um mar de rosas. Dificuldades os jovens terão, mas os argumentos
abaixo serão úteis quando o pânico empregatício surgir novamente.
1. O crescimento das importações não durará para sempre neste nível, e nunca
chegará a 90% do PIB, desempregando todo mundo, como uma simples
extrapolação poderia sugerir. Provavelmente estabilizaremos em torno de 15% as
importações, como na Índia e EUA. Oitenta e cinco porcento do PIB será feito por
brasileiros para brasileiros.
2. O grande gerador de emprego, no mundo inteiro não é a grande empresa, e sim
a pequena e média. Quem emprega 97,3% da força de trabalho hoje em dia é a
pequena e média empresa, bastante esquecidas ultimamente nas prioridades
econômicas do governo.

O governo FHC tem priorizado as grandes empresas, seja nas grandes
privatizações, na busca de grandes investidores internacionais e nas grandes
reformas. A pequena e média empresa mal figuram no discurso presidencial, uma
importante razão desse aumento do desemprego. Mais dia menos dia, alguém irá
alertar FHC que não é simplesmente abaixando os juros que irá fomentar os
empregos que precisamos.
3. Mas o principal argumento para acalmar mães aflitas é que o povo brasileiro
ainda não consome seu primeiro e segundo televisor, como ocorre no primeiro
mundo, nem seu quinto par de sapatos ou sua viagem a Fortaleza. Enquanto estes
desejos existirem, nossos filhos terão oportunidades incríveis para produzir os itens
necessários para satisfazê-los.
O mercado brasileiro é incrível em termos de potencial, e nosso problema hoje é
exclusivamente de produção, não de mercado nem econômico.
Preocupadas deveriam estar as mães alemãs, suíças e francesas, porque nesses
países eles já têm 5 pares de sapatos , três televisores em cada casa, um mercado
saturado. Nenhum europeu vai querer dois televisores em cada quarto, nem 10
pares de sapato, pois não são a Imelda Marcos. Na Europa não há mais emprego
porque o consumismo europeu está chegando à saturação.
4. Se seu filho e sua filha souberem adquirir competência e conhecimentos práticos
que sejam demandados por este novo mercado emergente, não terão dificuldades.
Quem não estiver minimamente preocupado com seu futuro profissional, ou
freqüentando uma escola mais preocupada em ensinar o que era importante no
passado do que o que será importante no futuro, vai ficar sem o que fazer.
Não querendo deixar a impressão de que tudo será fácil, nem de que estamos no
caminho certo, quem decifrar o seguinte enigma não terá de se preocupar: no
futuro faltarão empregos, mas não faltará trabalho.
Publicado na Revista Veja edição 1539 de 25 de março de 1998

O Fim da Incompetência Casar com a filha do dono da empresa,
arrumar emprego público, ter padrinho político ou obedecer piamente às ordens do
chefe eram, em linhas gerais, os caminhos para o sucesso no Brasil. QI era
sinônimo de "quem indica".
Ter mestrado no exterior, falar cinco idiomas, desenvolver nova tecnologia,
caminhos certos para o sucesso no Primeiro Mundo, em nada adiantavam. As
empresas brasileiras mamando nas tetas do governo, com créditos subsidiados,
numa economia protegida, eram obviamente super-rentáveis, mesmo sem muita
sofisticação administrativa. Até um perfeito imbecil tocava uma empresa brasileira

naquelas condições, fato que irritava sobremaneira a
esquerda e os acadêmicos, que na época dirigiam a
economia. Está aí uma das razões menos percebidas da
onda de estatização a que assistimos no Brasil.
Contratar pessoas competentes, além de não ser
necessário, era desperdício de dinheiro. Num país em que
se vendiam carroças a preço de carro importado,
engenheiros especializados em airbags morriam de fome.
Competência num ambiente daqueles não tinha razão
para ser valorizada. Os jovens naquela época não viam
necessidade de adquirir conhecimentos, só precisavam
passar de ano. Alunos desmotivados geraram professores
desmotivados, instalando um perverso círculo vicioso que tomou conta das nossas
escolas.
Tudo isso, felizmente, já está mudando. Empresários incompetentes estão
quebrando ou vendendo o que sobrou de suas empresas para multinacionais. Por
muitos anos, quem no Brasil tivesse um olho era rei. Daqui para a frente, serão
necessários dois olhos, e bem abertos. Sai o sábio e erudito sobre o passado e
entra o perspicaz previsor do futuro. Sai o improvisador e o esperto, entra o
conhecedor do assunto.
A regra básica daqui para a frente é a competência. Competência
profissional, experiência prática e não teórica, habilidades de todos os tipos. De
agora em diante, seu sucesso será garantido não por quem o conhece, mas por
quem confia em você. Estamos entrando numa nova era no Brasil, a era da
meritocracia. Aqueles bônus milionários que um famoso banco de São Paulo vive
distribuindo não são para os filhos do dono, mas para os funcionários que
demonstraram mérito.
Felizmente, para os jovens que querem subir na vida, o mérito será remunerado, e
não desprezado. Já se foi a época em que o melhor aluno da classe era
ridicularizado e chamado de CDF. Se seu filho de classe média não está levando o
1º e o 2º grau a sério, ele será rudemente surpreendido pelos filhos de classes
mais pobres, que estão estudando como nunca. As classes de baixa renda foram as
primeiras a perceber que a era do status quo acabou. Hoje, até filho de rico precisa
estudar, e muito.
Vinte anos atrás, eram poucas as empresas brasileiras que tinham programas de
recrutamento nas faculdades. Hoje, as empresas possuem ativos programas de
recrutamento nas faculdades, não somente aqui, mas também no exterior. Os 200
brasileiros que estão atualmente cursando mestrado em administração lá fora estão
sendo disputados a peso de ouro.
Infelizmente, os milhares de jovens competentes de gerações passadas acabaram
não desenvolvendo e tiveram seu talento tolhido pelas circunstâncias. Talvez eles
não tenham mais pique para desfrutar essa nova era, e na minha opinião essa é a
razão da profunda insatisfação atual da velha classe média. Mas, os jovens de hoje,
especialmente aqueles que desenvolveram um talento, os estudiosos e

competentes, poderão finalmente dormir tranqüilos. Não terão mais de casar com a
filha do dono, arrumar um padrinho, aceitar desaforo de um patrão imbecil.
O talento voltou a ser valorizado e remunerado no Brasil como é mundo afora.
Talvez ainda mais assustador é reconhecer que o Brasil não será mais dividido entre
ricos e pobres, mas sim entre competentes e incompetentes. Os incompetentes que
se cuidem.
Publicado na Revista Veja edição 1536 ano 31 nº 9 de 4 de março de 1998

O Fim das Pequenas Empresas
Hoje em dia as grandes empresas desempregam mais do que contratam. São as
pequenas e médias que geram emprego, aqui e mundo afora. Mas, em vez de
fortalecer a pequena empresa, quase todos os governos do Brasil a ignoram ou a
enfraquecem.
As pequenas e médias empresas são tipicamente dirigidas
pela classe média alta, em torno de 10% da população
brasileira. Se cada membro da classe média empregasse
dez funcionários, não teríamos desemprego neste país.
Teríamos 100% da população empregada, por definição.
Hoje, com os inúmeros cursos disponíveis de
administração, gerenciar uma empresa com dez pessoas
não é coisa do outro mundo. O difícil é abrir e manter
uma pequena ou média empresa no Brasil. A maioria das
leis, voltadas para conter a grande empresa, acaba
contendo a pequena e a média.
Entre no Google e pesquise os assuntos mais tratados pelos nossos economistas e
governantes - os temas mais freqüentes são juros, inflação e câmbio. "Pequenas e
médias empresas" raramente fazem parte do temário de discussão. Ajudar a
pequena e a média empresa a crescer, nem pensar.
Estamos assistindo a uma sistemática destruição desse setor no Brasil, de roldão,
de nossa classe média. Os ricos com suas grandes empresas já não criam mais
empregos e os pobres não têm como gerá-los. Denegrir e dizimar a classe média
por seus "valores pequeno-burgueses" pode ser uma grande vitória política, mas
será um enorme suicídio econômico.
De vinte anos para cá, além de aumentarem os impostos, reduziram os prazos de
pagamento desses impostos de 120 para quinze dias. Hoje, as empresas precisam
pagar 40% de sua receita ao governo antes de receber de seus clientes. O capital
de giro dessas empresas sumiu; em vez de financiar a produção, financia o
governo.

Não é a economia informal que está crescendo, é a economia formal e a classe
média que vêm sendo destruídas, e rapidamente. Estudo realizado pelo Sebrae, e
apresentado por Alencar Burti, estima que 31% das pequenas empresas quebrarão
até 2005. Ou seja, não somente não irão empregar ninguém como vão
desempregar aqueles que já têm emprego.
Não é exatamente uma previsão fora de propósito, porque a grande maioria dessas
empresas não obtém lucro há mais de três anos, e 90% delas não possuem mais
capital, muito menos capital de giro. Se levarmos em conta os encargos fiscais em
atraso, os Refis, os processos trabalhistas a pagar, a maioria está com patrimônio
negativo, ou seja, encontra-se literalmente quebrada. Muitas não fecham
imediatamente porque não podem pagar os elevados custos da demissão dos
funcionários. Vão levando, na esperança de que as coisas melhorem. A maioria dos
pequenos e médios empresários nem pensa mais em crescer, mas em vender suas
empresas assim que a economia melhorar.
Até recentemente, as empresas médias sobreviviam sonegando um ou outro dos 46
impostos a pagar. Sonegavam o suficiente para se manter vivas. Hoje não dá mais
para sonegar. Ou se sonega tudo, devido ao excelente controle e amarrações entre
os órgãos arrecadadores, ou não se sonega nada. Como sonegar todos os impostos
dá cadeia, e não sonegar nenhum significa falência em alguns anos, a saída é
fechar a empresa assim que for possível.
Ainda segundo estimativas de Burti, 59% das pequenas e médias empresas
fecharão as portas em 2009. Essas estatísticas não são exageradas. O número de
insolvências nesse segmento sempre foi elevado, só que antigamente cinco novas
empresas eram criadas para cada quatro que quebravam.
Hoje não. Não vejo mais aquela vontade de ser empresário e empreendedor no
Brasil, muito pelo contrário. Entre abrir uma pequena empresa e arrumar um
emprego público, os filhos da classe média estão preferindo a opção mais segura. E
eles têm razão.
Quando baixarem os juros dos empréstimos, nossos intelectuais vão descobrir que
não haverá mais classe média para tomá-los, não haverá administrador de
empresas querendo administrá-los, não haverá engenheiro querendo empregá-los.
Em sua opinião, quem tem mais condições de gerar os empregos de que este país
necessita? Nossos intelectuais, nossos economistas, nosso governo ou nossa classe
média? É uma interessante questão para ser discutida ao longo desta semana.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1845, ano 37, nº 11, 17 de março de 2004

O fim dos paraísos fiscais
Achar um terrorista fugitivo é como encontrar uma agulha no palheiro, e inútil.
Osama bin Laden venceu, conseguiu a fama que queria. Teve mais espaço na

imprensa do que Pelé em toda sua vida. A verdadeira guerra será agora contra os
paraísos fiscais, que abrigam as fontes de financiamento de muito futuro terrorista.
O grande perigo do futuro são os militantes e suas organizações não
governamentais piratas. Piratas não têm países, tecnologia nem armas sofisticadas.
Os terroristas de Nova York não tinham nem mísseis, somente pilotos suicidas, que
piratearam aviões americanos.
Achar uma leva de malucos que pode estar neste momento morando em Boston, no
Rio Grande do Sul, no Paraguai ou na casa ao lado, é um problema novo.
O próximo ataque poderá ser em uma usina nuclear de Nova York ou Paris, e aí os
mortos serão milhões. Um terrorista bacteriológico poderá matar 80 milhões e
acabar com o Brasil, por engano. Prevenir essa ameaça não é somente um
problema americano, como alguns têm afirmado. É também um problema
brasileiro.
Paraísos fiscais não têm leis rigorosas nem fiscalização internacional, e dão guarida
a traficantes, terroristas, políticos corruptos e dinheiro frio. Não me surpreenderia
se nos próximos quatro anos, quarenta "países" desaparecessem. "Países" como
Jersey, Bahamas, Ilhas virgens Britânicas, Cayman, Nauru e alguns até maiores.
Muitos virarão estados de seu país de origem.
O cerco já vinha sendo feito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) que criou o Financial Action Task Force, da qual participa o Brasil
(veja o site www.oecd.org/fatf/). O Ministério da Fazenda está cooperando
intensamente através do Controle de Atividades Financeiras (COAF),
www.fazenda.gov.br/coaf/. Vão dizer que estou exagerando. Por isso verifique por
si mesmo. Os Estados Unidos que se colocavam contra esta iniciativa brasileira
porque no fundo recebiam boa parte do dinheiro destes paraísos, rapidamente
mudaram de idéia.
Ironicamente, a luta de Laden contra o "Grande Satã" trará o início da maior das
globalizações, a globalização das leis, começando com as leis e a fiscalização
financeira. Nem precisamos ir muito longe: as normas contábeis já são globais.
Perderemos algumas liberdades individuais, como o sigilo nas ligações
internacionais e o sigilo bancário internacional. Haverá pressão para todos
adotarem leis comuns, provavelmente acordadas pelo G-7.
Acabou a brincadeira de os pequenos países terem leis próprias. Se seu dinheiro
estiver numa dessas ilhas, prepare-se para pagar imposto de renda da Inglaterra
ou Holanda e ter uma cópia enviada para o Everardo Maciel. A multa para dinheiro
frio é de 100%.
No artigo "Dólares na Suíça, filhos aqui", em VEJA de 7 de abril de 1999, eu
alertava os brasileiros a trazer seu dinheiro frio de volta nos dez anos seguintes. Há
quem diga que esse prazo encurtou para um ano. Ninguém mais terá coragem de
comprar dólares frios vindos de paraísos fiscais. Quem os tiver terá de vendê-los
para um traficante, em praça pública. Banqueiros que operam nessa área me
informam que grandes aplicadores já estão trazendo e legalizando o dinheiro
correndo, a ponto de o dólar no mercado paralelo estar próximo do oficial, em plena
crise mundial. Dinheiro lá fora só em país industrial, de preferência o seu, pagando
os impostos e legalizado na declaração de bens.
Os 300.000 brasileiros que têm dinheiro frio lá fora temem o risco Brasil, mas não
sabem o risco que estão correndo agora. Nem o preço que pagam, receber 0,5% de

juro real por ano, em vez de 10%, ou 20% dependendo da aplicação. Basta que 20
dos 80 bilhões voltem para que essa bolsa, em dólares, triplique. Risco por risco, o
Brasil é agora o lugar mais seguro.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja, edição 1720, ano 34,
nº39, 3 de Outubro de 2001.

O Partido e o Candidato
Às vésperas das eleições para a prefeitura, a maioria dos brasileiros ainda está na
dúvida em quem votar. No mais honesto ou naquele que fala melhor? No melhor
administrador, com melhor formação em administração, ou naquele que nem jogar
SimCity - o jogo eletrônico que simula a administração
de uma cidade - sabe?
A maioria das cartilhas da Internet que ensinam a votar
dá ênfase ao candidato, e não ao partido: "Analise seu
passado", "avalie suas propostas". Por isso nossos
partidos são fracos e nossos políticos infiéis.
Escolher um partido requer outros critérios de escolha. No mínimo alguns
conhecimentos de teoria política, que resumidamente irei simplificar, abordando
uma única questão. Uma questão básica, que todo cidadão precisa resolver. Uma
questão para a qual, adianto, não existe resposta feita, nem comprovação científica
clara, e por isso acaba sendo uma pergunta ideológica, de fé.
A pergunta crucial é esta: quem, na sua opinião, decide melhor, o Estado ou o
indivíduo? Quem escolhe melhor nossos médicos, os professores de nossos filhos,
as ações a comprar com nosso FGTS, quem aplica melhor o nosso INSS para a
aposentadoria?
Se você acha que o Estado decide melhor, então eleja um partido com gente
competente, inteligente e honesta que irá decidir e gastar seu dinheiro por você.
Pague seus impostos e não reclame. E quando um idiota tomar o poder, algo que às
vezes acontece, espere quatro anos e tente novamente.
Se você acha que o indivíduo decide melhor, então escolha um partido que luta por
Estados pequenos, por programas de governo enxutos, que decidam cada vez
menos, permitindo ao indivíduo decidir cada vez mais.
Com exceção dos anarquistas, todos os partidos políticos acreditam que em
algumas questões o Estado decide melhor. Até neoliberal convicto acredita que
Justiça e segurança ficam melhor na mão do Estado. Na maioria dos países os
partidos acabaram convergindo para somente dois: o que acredita mais no Estado e
o que acredita mais nos indivíduos.
Somos um país onde se acredita mais no Estado em inúmeras áreas de atuação,
como saúde, educação, previdência, bancos estatais, petróleo e crédito imobiliário.
Recentemente, o Estado decidiu que poderíamos, excepcionalmente, comprar ações
com nosso FGTS, mas somente as da Petrobrás, e muitos compraram a R$40,00 o
que poderiam ter comprado no ano passado por R$16,00.

Por que o leitor de Veja não pode aplicar os 32% de seu salário que são
depositados no INSS todo mês para sua própria aposentadoria? Porque quase todos
os partidos políticos acreditam, nesta questão particular, que o Estado decide
melhor como aplicar nosso dinheiro. Não somente todo este dinheiro sumiu como o
rombo anual equivale a mais 32% de nossos salários, ou seja, total de 64%.
Um dos grandes problemas da democracia é que as pessoas que se candidatam a
um cargo eletivo tendem a ser justamente as que acreditam que o Estado decide
melhor. Quem não acredita nisto simplesmente não se candidata: vai fazer o quê
num governo que acha que quem deve decidir são os indivíduos?
Este fato da sociologia política gera inexoravelmente um Estado cada vez maior,
com impostos cada vez maiores e promessas eleitoreiras cada vez mais
espetaculares.
Portanto, simplifique a sua escolha de candidatos elegendo primeiro o partido que
mais se aproxima de suas convicções sobre como devemos ser governados, seja fiel
a elas e exija que o candidato também o seja.
Publicado na Revista VEJA edição 1668 Ano 33 nº39 de 27 de setembro de 2000

O Perigo dos "7 Sigma"
Sempre haverá pessoas malucas no mundo. E para cada 1.000 pessoas malucas
haverá uma pessoa supermaluca, um "6 Sigma"*. E entre cada 1.000 dessas
haverá uma mais maluca ainda, gente a quem vou chamar de "7 Sigma". Pessoas
inteligentíssimas e competentes, mas que estão longe do
padrão normal.
Na Idade Média, um desses malucos, de mal com a vida
e o mundo, poderia sair matando uns vinte inocentes no
mercado principal, até que os cavaleiros do rei lhe
cortassem a cabeça. Nos anos 80, um terrorista matava
200 com uma bomba numa estação de trem.
Hoje, graças ao avanço da tecnologia, um maluco pode seqüestrar um avião e
matar 2.000 pessoas. Daqui a alguns anos, correremos o enorme risco de um "7
Sigma" modificar um vírus da gripe e misturá-lo com o vírus da Aids, e então
veremos 80% da população mundial e brasileira ser dizimada, se não percebermos
esse novo problema que nos assola. A luta contra esse terror não é exclusivamente
americana, como muitos estão comodamente achando. Um vírus aéreo da Aids
lançado em Nova York em dois meses estaria sendo respirado em Brasília.
Como identificar um "7 Sigma" antes que ele faça um estrago grave é um problema
sério que o mundo poderá enfrentar nos próximos cinqüenta anos. É um problema
policial-sociológico-jurídico-político absolutamente novo e exigirá soluções muito
impopulares.
Por exemplo, como identificar essa gente maluca com nossos valores de
privacidade, sigilo e liberdade? Como identificar os "7 Sigma" sem impor um Estado
policial, numa cultura que abomina o "dedo-duro"? Como prendê-los sem muitas

provas de suas malucas futuras intenções? Como condená-los à prisão se ainda não
cometeram o monstruoso crime?
Depois do 11 de setembro, esse perigo ficou mais claro para o mundo, mas o
governo americano mudou de enfoque e demarcou países como o Iraque e a Coréia
como perigosos, e não os futuros "7 Sigma" espalhados por aí. Em minha modesta
opinião, isso é um erro. Saddam e seus filhos queriam poder e dinheiro. Quem quer
dinheiro e poder avalia seus limites. Bin Laden e seus suicidas queriam vingança, e
isso sim é um perigo assustador. Vingança a qualquer preço, para si e para os
outros, e quem está disposto ao suicídio já ultrapassou qualquer limite de
razoabilidade.
Como também queria vingança o criador do vírus Sobig.F, que chegou a contaminar
um em cada dezesseis e-mails, e preparava um enorme ataque ao site da
Microsoft, destruindo e-mails de médicos a seus pacientes, pedidos de remédios e
chats de apoio psicológico, entre outras coisas.
Um segundo erro da doutrina Bush é que ela quer implantar democracias liberais no
resto do mundo como solução. Mas democracias liberais são justamente aquelas
que não acreditam em um Estado que controle a população, e sim numa população
que controle um Estado. Justamente o contrário do que precisamos para proteger a
nação de um "7 Sigma".
Os Estados Unidos já implantaram redes neurais que supervisionam movimentos de
pessoas, de cheques e sinais estranhos na população. Mas quem vai supervisionar o
mundo? Os americanos, a ONU, cada país por si ou a polícia montada canadense? É
uma bela encrenca a ser resolvida.
No fundo, o que ocorre é que o mundo está avançando em termos de tecnologia
muito mais rapidamente do que em termos de psicologia, sociologia e política. Um
único indivíduo instruído com um bom laboratório nos fins de semana tem acesso a
tecnologia de destruição capaz de dizimar o mundo. Talvez o risco dos "7 Sigma"
não seja tão grande quanto estou supondo, e vão me criticar por alarmismo. Eu
também prefiro achar que não vai acontecer nada, mas e se der zebra e não
estivermos preparados?
Vão dizer que o ser humano no fundo é bonzinho e não faria mal a ninguém.
Esquecem que todo dia hospitais, indústrias de remédios, médicos e dentistas
perdem arquivos valiosos por causa de 7.000 vírus que andam rodando por aí,
plantados no sistema por alguém, sem alvo definido, sem medir conseqüências. Eu
sinceramente preferiria discutir um pouco mais essa questão em vez de ignorá-la
como estamos fazendo.
* Sigma é uma medida estatística de desvio da normalidade. Quanto mais Sigma,
mais anormal. Estima-se que existam mais de 650.000 pessoas "6 Sigma" no
mundo e 1.650 pessoas "7 Sigma". O drama é que não se sabe quem são.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1820, ano 36, nº 37 de 17 de setembro de 2003,
página 22

O Professor de Bill Gates

Esta estória é meio lenda meio fato, mas merece
ser contada como se fosse real.
Quando Bill Gates estudava em Harvard, ele tinha
um professor de matemática fantástico e
muito exigente. Tanto isso é verdade que Bill Gates
se classificou em 18º lugar num teste nacional
de matemática. Esse professor dava uma prova
final dificílima e poucos alunos conseguiam acertar todas
as questões.
"Se alguém conseguir acertar completamente esta prova, eu renunciarei ao meu
cargo de Professor de matemática e trabalharei para ele", dizia o professor no início
da prova, com total seriedade.
Em inglês esta frase soa bem mais forte, tipo "eu serei seu subordinado para
sempre", uma forma simpática de dizer que se aceita a derrota e que finalmente se
encontrou alguém superior.
Bill Gates foi o aluno que mais próximo chegou de encontrar todas as soluções,
tendo errado uma questão, somente no finalzinho da dedução.
Passados vinte anos, se alguém for para Boston poderá encontrar o tal professor
batendo a cabeça na parede de Harvard Square, balbuciando : "Por que eu fui tão
rígido? Por que que eu fui tão rígido?’’
Tivesse sido menos rigoroso, o agora anônimo professor seria hoje, provavelmente,
o segundo homem mais rico do mundo.
O interessante dessa estória é o fato de que alunos de Harvard ouvem de seus
professores o seguinte conselho: "Se um dia você encontrar alguém, um colega ou
um subordinado, mais competente que você, faça dele o seu chefe, e suba na vida
com ele".
No Brasil, um colega de trabalho que comece a despontar é imediatamente tachado
de picareta, enganador e puxa-saco. Em vez de fazê-lo chefe, começa um lento e
certeiro boicote ao talento. Nossa mania de boicotar chefes lembra a mentalidade
do "Se hay gobierno soy contra". Nestas condições, equipes dificilmente conseguem
ser formadas no Brasil, e temos um excesso de prima-donas, donos da verdade
sem nenhuma equipe para colocar as idéias em prática.
Se não aprendermos a escolher os nossos chefes imediatos, como iremos escolher
deputados, governadores e presidentes da República ?
Milhares de jovens acreditam ingenuamente que, apesar de ter cabulado a maioria
das aulas, quando adultos contratarão pessoas inteligentes que suprirão o que não
aprenderem. Ledo engano, pessoas inteligentes são as primeiras a procurar
parceiros competentes para trabalhar.
Melhor do que procurar as melhores empresas para trabalhar é procurar os
melhores chefes e trocar de emprego quantas vezes seu chefe trocar o dele. Como
fizeram as dezenas de programadores que decidiram trabalhar para a Microsoft, na
época em que ela era dirigida por um fedelho de 19 anos e totalmente
desconhecido.

Achar um bom chefe não é fácil. Temos muito mais informações sobre empresas do
que sobre pessoas com capacidade de liderança.
Mas, na próxima vez que encontrar um amigo para saber se o emprego dele paga
bem, pergunte quem são os bons chefes e líderes da empresa em que ele trabalha,
É muito melhor promover um subordinado a seu chefe se ele for claramente mais
competente do que você, do que ficar atravancando a carreira dele e a sua.
Subordinar-se a um chefe competente não é sinal de submissão nem de servilismo,
mas uma das melhores coisas que você poderá fazer para sua carreira. Embora ser
o número 1 de uma organização seja o sonho de muitos jovens, a realidade é que
95% de sua carreira será desenrolada como o número 2 de algum cargo.
A pior decisão na vida do professor de Bill Gates foi a de não seguir o seu próprio
conselho. Portanto fique de olho nos seus colegas de trabalho e faculdade que
parecem ser brilhantes e tente trabalhar com eles no futuro. Eles poderão ser o
caminho para o seu sucesso.
Publicado na Revista Veja de 24 de junho de 1998

Observar e Pensar
O primeiro passo para aprender a pensar, curiosamente, é aprender a observar. Só
que isso, infelizmente, não é ensinado. Hoje nossos alunos são proibidos de
observar o mundo, trancafiados que
ficam numa sala de aula, estrategicamente colocada bem longe do dia-a-dia e da
realidade. Nossas escolas nos obrigam a estudar mais os livros de antigamente
do que a realidade que nos cerca. Observar, para muitos professores, significa ler o
que os grandes intelectuais do passado observaram – gente como Rousseau, Platão
ou Keynes. Só que esses grandes pensadores seriam os primeiros a dizer
"esqueçam
tudo o que escrevi", se estivessem vivos. Na época
não existia internet nem computadores, o mundo era totalmente diferente. Eles
ficariam chocados se soubessem que nossos alunos são impedidos de observar o
mundo que os cerca e obrigados a ler teoria escrita 200 ou 2.000 anos atrás – o
que leva os jovens de hoje a se sentir alienados, confusos e sem respostas
coerentes para explicar a realidade.
Não que eu seja contra livros, muito pelo contrário. Sou a
favor de observar primeiro, ler depois. Os livros, se
forem bons, confirmarão o que você já suspeitava. Ou
porão tudo em ordem, de forma esclarecedora. Existem
livros antigos maravilhosos, com fatos que não podem
ser esquecidos, mas precisam ser dosados com o
aprendizado da observação.
Ensinar a observar deveria ser a tarefa número 1 da
educação. Quase metade das grandes descobertas
científicas surgiu não da lógica, do raciocínio ou do uso
de teoria, mas da simples observação, auxiliada talvez
por novos instrumentos, como o telescópio, o
microscópio, o tomógrafo, ou pelo uso de novos algoritmos matemáticos. Se você
tem dificuldade de raciocínio, talvez seja porque não aprendeu a observar direito, e

seu problema nada tem a ver com sua cabeça.
Ensinar a observar não é fácil. Primeiro você precisa eliminar os preconceitos, ou
pré-conceitos, que são a carga de atitudes e visões incorretas que alguns nos
ensinam e nos impedem de enxergar o verdadeiro mundo. Há tanta coisa que é
escrita hoje simplesmente para defender os interesses do autor ou grupo que
dissemina essa idéia, o que é assustador. Se você quer ter uma visão
independente, aprenda correndo a observar você mesmo.
Sou formado em contabilidade e administração. A contabilidade me ensinou a
observar primeiro e opinar (muito) depois. Ensinou-me o rigor da observação, da
necessidade de dados corretamente contabilizados, e também a medir resultados, a
recusar achismos e opiniões pessoais. Aprendi ainda estatística e probabilidade, o
método científico de chegar a conclusões, e finalmente que nunca teremos certeza
de nada. Mas aprendi muito tarde, tudo isso me deveria ter sido ensinado bem
antes da faculdade.
Se eu fosse ministro da Educação, criaria um curso obrigatório de técnicas de
observação, quanto mais cedo na escala educacional, melhor. Incentivaria os alunos
a estudar menos e a observar mais, e de forma correta. Um curso que
apresentasse várias técnicas e treinasse os alunos a observar o mundo de diversas
formas. O curso teria diariamente exercícios de observação, como:
1. Pegue uma cadeira de rodas, vá à escola com ela por uma semana e sinta como
é a vida de um deficiente físico no Brasil.
2. Coloque uma venda nos olhos e vivencie o mundo como os cegos o vivenciam.
3. Escolha um vereador qualquer e observe o que ele faz ao longo de uma semana
de trabalho. Observe quanto ele ganha por tudo o que faz ou não faz.
Quantas vezes não participamos de uma reunião e alguém diz "vamos parar de
discutir", no sentido de pensar e tentar "ver" o problema de outro ângulo? Quantas
vezes a gente simplesmente não "enxerga" a questão? Se você realmente quiser
ter idéias novas, ser criativo, ser inovador e ter uma opinião independente,
aprimore primeiro os seus sentidos. Você estará no caminho certo para começar a
pensar.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1865, ano 37, nº 31, 4 de agosto de 2004,
página 18

Os grandes fundos de pensão
Em novembro de 2001, o presidente eleito Luiz
Inácio Lula da Silva e o economista Guido Mantega se reuniram com
alguns administradores financeiros e executivos para discutir o
futuro. Algumas de nossas preocupações eram as declarações de Lula
nas
eleições de 1994 e 1998, o plebiscito da dívida
externa, o "Fora o FMI", as bandeiras vermelhas, e
que, numa iminente vitória, o risco Brasil, o dólar e os juros iriam às
nuvens, gerando ainda mais desemprego.
O que de fato aconteceu.
Apesar do discurso mais ameno, havia
entre os bancos estrangeiros e brasileiros a
lembrança da moratória de 1987. O
ministro da Fazenda da época se esquecera
de uma das leis mais elementares de
administração financeira: banqueiros não são os donos do dinheiro,
são meros intermediários.
Por isso, nunca aceitaram soluções como a de Mário Henrique
Simonsen que limitava o pagamento dos juros a 30% do valor de
nossas exportações.
Pergunte a Mrs. Jones, a velhinha de Nova York que aplica 50.000
dólares no Citibank, se ela está disposta a receber juros
proporcionais a 30% das exportações brasileiras. Propostas ingênuas
e administrativamente inviáveis.
Por isso, moratórias devem ser sempre feitas em surdina, para não
assustar as velhinhas. Mas, contrariando o bom senso, o Brasil
decretou moratória em praça pública, todas as velhinhas do mundo
ficaram sabendo e começaram a sacar seu dinheiro aplicado nos
bancos que haviam acreditado no Brasil. Bancos americanos até
criaram anúncios na época que diziam: "Não temos um centavo
investido em países como o Brasil", para acalmar os correntistas
preocupados. Mas, antes de publicarem esses anúncios, venderam
correndo nossos títulos com enorme deságio, para não perder a
clientela, deságio que perdura até hoje e nos custa caro.
Em 1987, trabalhávamos no governo, adotando uma política de não
confrontar os bancos como fizeram, mas buscando recursos nos
fundos de pensão dos funcionários de empresas como GM e IBM, que
tinham subsidiárias no Brasil.
Nossa pequena equipe oferecia um título inovador que garantia um
juro real predeterminado de 3,5% ao ano e protegia da inflação
americana, algo que queriam mas não tinham quem lhes oferecesse.
Fundos como o da IBM e mais de 1.000 outros identificados pela
Towers Perrin, a maior consultoria de fundos de pensão dos Estados
Unidos, adoraram a idéia, mas a moratória acabou com todo o nosso
esforço. Nunca mais trabalho para o governo.
Nossa idéia acabou sendo adotada não pelo Brasil, mas, para minha
grande tristeza, pelo governo americano, que percebeu seu potencial.
O "nosso" título é vendido em mais de 300 sites nos Estados Unidos.
Vide os TIPS – Inflation Protected Securities.
Dinheiro barato e de longo prazo está nos fundos de pensão e não
precisamos de banqueiros para nos intermediar com a IBM, talvez
com a Mrs. Jones. Nossa equipe tinha trânsito livre nessas empresas,
devido aos enormes interesses que elas possuíam no Brasil.
Propusemos levar Lula e sua equipe a dois fundos de pensão
americanos: o Teachers Union, de Nova York, e o Fundo de Pensão
dos Funcionários Públicos da Califórnia. Os dois são multibilionários e

Paz de Espírito
A maioria das entidades beneficentes, aquelas que ajudam os outros, vive
intranqüila. A cada recessão e a cada aumento na taxa de juros elas também são
afetadas, como todas as empresas, embora não almejem lucro. Para piorar a
situação, em épocas de recessão as doações das empresas "socialmente
responsáveis" caem pela metade, e, ao contrário das empresas, as entidades não
mandam ninguém embora.
Um orfanato não coloca a metade dos órfãos na rua só
porque os juros subiram. Há oito anos organizo o Prêmio
Bem Eficiente, com o apoio de cinco generosos
patrocinadores. É um dos poucos prêmios dedicados aos
que devotam 100% de suas energias e receitas ao social:
as entidades beneficentes. Elas são o contrário das empresas, que gastam em
média 0,1% de suas receitas no social e acham que merecem prêmios por isso.
Das 380 entidades que analisamos anualmente, de 80% a 90% têm dinheiro em
caixa para suprir despesas por no máximo uma semana. Vivem do prato para a
boca, constantemente em stress, preocupadas se sobreviverão até o fim do mês.
Essa falta de reservas líquidas ou de colchão de segurança financeira deixa todos os
nossos líderes sociais intranqüilos e complica o esforço de arrecadação. Nenhum
doador quer doar para cobrir salários atrasados. Quer doar para construir um
prédio novo ou ampliar o serviço prestado.
Para tentar mudar esse paradigma, há quatro anos decidimos premiar uma das
cinqüenta entidades vencedoras com 200.000 reais. Escolheríamos uma eficiente
mas que estivesse nesse sufoco financeiro, resolvendo de vez seu problema.
Sugerimos às entidades que colocassem a doação num fundo de investimento, e só
a utilizassem em última necessidade. Era um pedido que fazíamos, sabendo que
talvez não fosse cumprido.
No ano passado, uma das duas entidades recebedoras dessa doação nos procurou
para prestar contas. Construiu uma nova sede, que batizou de Prédio Bem
Eficiente, que deve ter custado uns 600.000 reais. Perguntei como conseguiram a
diferença, e para minha surpresa me mostraram que a entidade não havia gasto
um tostão dos 200.000 da doação, que continuava toda aplicada em fundos
financeiros, conforme havíamos pedido. Fiquei mais confuso ainda. "Aquilo foi muito
mais do que uma doação, aquele dinheiro nos deu a paz de espírito de que
precisávamos", disse o diretor.
Paz de espírito para não entrar em desespero em cada recessão, com as constantes
mudanças na política econômica. Puderam ser mais agressivos, procurar recursos
adicionais sem desespero, mostrando planos futuros, e não despesas passadas. A
arrecadação explodiu.

O que me deixa perplexo nessa história toda, e por isso a estou relatando, é que do
ponto de vista financeiro não fizemos absolutamente nada. O dinheiro não foi
usado, e pelo jeito nunca será. Ainda bem.
Hoje, a maioria das empresas ditas socialmente responsáveis está cancelando seus
donativos para as entidades que já existem, preferindo criar institutos e fundações
com a marca de suas empresas, reinventando a roda, tirando muito mais do que a
tranqüilidade e a paz de espírito de muita gente boa nesse setor e que acaba
desistindo.
Por essa razão, sempre tenha um dinheirinho de reserva. Um dia sua empresa
também o despedirá, ou achará que seu trabalho não é mais interessante. Preparese para esse dia, que fatalmente virá. Tenha seis meses ou um ano de gastos
pessoais em caixa. Eu sei que é difícil, você terá de fazer sacrifícios, como não
comprar uma televisão ou não trocar de carro.
Mas ter um dinheiro guardado para os anos de vacas magras não fará mal a
ninguém. Dinheiro pode não trazer felicidade, mas ter uma certa quantia poupada
pode lhe trazer muita paz de espírito nos momentos difíceis.
Sua primeira compra na vida nunca deveria ser um televisor financiado pelo cartão
de crédito. Sua primeira compra deveria ser sua paz de espírito, que não custa
tanto, pode crer.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1841, ano 37, nº 7, 18 de fevereiro de 2004

Perdoem o meu desabafo
Eu já não entendo mais nada. Há mais de vinte anos estou escrevendo artigos
sobre um erro monumental que tem aumentado a percepção do risco Brasil à toa,
elevando os nossos juros à toa, e a impressão que tenho é que ninguém lê. Ou
então estou escrevendo bobagens nesses anos todos e ninguém tem a coragem de
me dizer.
O governo e a imprensa acabam de divulgar que o
"custo dos juros no governo Lula foi de nada menos que
150 bilhões de reais em 2003, quase 10% do PIB". Mais
uma vez repetem o erro da escola nominalista de
economia, com sérias conseqüências econômicas, um
erro para mim tão óbvio e banal, daí minha aflição.
A inflação embutida nos juros não é um custo, como afirmam os nominalistas, e
sim uma receita! Todo mundo sabe que inflação beneficia o devedor. A mesma
inflação que aumenta os juros, um custo, também corrói a dívida, portanto uma
receita que anula esse "custo" alardeada aos quatro cantos do planeta.

Críticos foram rápidos em apontar que Lula aumentou os juros para combater a
inflação, mas ninguém saiu a público para lembrar que essa mesma inflação
"corroeu" a dívida nos mesmos 9% da inflação, uma receita para o governo de
aproximadamente 70 bilhões de reais. Ou seja, o "custo" dos juros cai pela metade,
algo que todo realista está cansado de saber.
Essa dívida, na verdade, nem foi "corroída" como acabo de afirmar. Na realidade,
Lula pagou efetivamente 9% da dívida interna, com esses 150 bilhões chamados
erroneamente de "custo". Por isso, esses 150 bilhões estão tão elevados: eles
incluem uma parcela de amortização ou redução da dívida. Só que reduzir dívida
não é custo, é somente uma devolução.
Vocês que estão com medo de um calote ou espalhando por aí que o calote é
inevitável esquecem que o governo Lula pagou nada menos que 9% da dívida
interna em 2003. Nesse ritmo, em dez anos a dívida acaba, mas isso não vira
notícia.
A dívida interna não cai como porcentagem do PIB porque os investidores sabem
que esses 9% não são renda, e eles não são bobos em gastar o que é simples
"ilusão monetária" nominalista. Por isso, recompram títulos do governo em vez de
torrar sua poupança em consumo e divertimento.
Em 1981 escrevi mais de cinqüenta artigos mostrando este mesmíssimo erro,
naquela época referente à dívida externa. A inflação americana subira para 12%,
elevando os juros para 16,5% ao ano, os mesmos juros de hoje no Brasil e pela
mesma razão.
Infelizmente, um dos mais importantes economistas de então, Celso Furtado saiu
alardeando que a dívida externa era impagável e pregou a moratória. Só que
estávamos pagando a dívida via inflação embutida nos juros. E os juros reais em
1981 nunca ultrapassaram 4% ao ano, algo que todos sonham em ver aqui de
novo. Ou seja, estávamos pagando uma dívida que alguns diziam impagável.
O problema era mais contábil que financeiro, só que ao alardear uma informação
errada e assustadora aumentaram o risco Brasil. Minha proposta na época era
simplesmente indexar a dívida externa, e assim a inflação americana embutida nos
juros deixaria de ser devida no ato, aliviando nossa balança de pagamentos. Uma
medida realista e não nominalista. Mesmo o governo americano adota hoje essa
idéia com seus inflation protected securities, mas o governo brasileiro não se
convenceu disso até hoje.
Mas existe outro custo que não é custo. Todo mundo sabe que dos 16,5% dos juros
é deduzido no ato o imposto de renda na fonte e que no fundo o governo paga
13,2% de juros, e não os 16,5% publicado nos jornais.
Ou seja, dos 150 bilhões apresentados ao Senado pelo próprio governo como
"pagamento de juros", nada menos que 30 bilhões são retidos imediatamente como
imposto de renda na fonte. Ou seja, o custo líquido para o governo é bem menor.

Deduzindo o imposto na fonte e a amortização inflacionária, o custo da dívida é de
somente 40 a 50 bilhões. A conta é bem mais complicada que essa simplificação
didática, mas chega a 3% do PIB, e não aos 10% noticiados por aí.
Continua um valor elevado, mas agora sabemos por quê. O que me aflige é pensar
que durante todos esses anos eu não me expliquei direito. Então, que alguém me
explique, porque eu já não entendo mais nada.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1836, ano 37, nº 2, 14 de janeiro de 2004

Por que falta energia?

Há mais de quinze anos centenas de engenheiros vêm avisando que faltaria energia
elétrica se o Brasil voltasse a crescer. Mas será que o Brasil voltaria de fato a
crescer? Foi a resposta a essa questão que tomou todos de surpresa.
Em 1993, quando a inflação batia 30% ao mês, corri o Brasil dando palestras que
previam o fim da inflação e dez anos de crescimento econômico. Os economistas na
platéia caíam em gargalhadas, cumprimentavam-me no final pela excelente piada.
Em 1994, publiquei essa previsão em VEJA e no livro O Brasil que Dá Certo. À
época, nove em dez economistas deste país pintavam o pânico. Da esquerda à
direita diziam que o Real era um plano eleitoreiro e que a inflação voltaria. Rudiger
Dornbusch correu o mundo prevendo um efeito tequila. Roberto Macedo escrevia A
Crise Está Aí. Investir em hidrelétricas num clima desses?
Muitos jornalistas, infelizmente, acabaram dando mais espaço aos que
aconselhavam investir em dólares que aos poucos engenheiros e administradores
que alertavam para a necessidade de investir em usinas elétricas. Com a redução
pela metade do preço das geladeiras e dos televisores para vender o dobro,
aumentamos o consumo de energia sem aumentar o PIB.
Fomos pegos de surpresa pelos nossos economistas, pelo nosso Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão, pelo nosso Ministério de Minas e Energia, pelo
Ministério da Integração Nacional, pela Aneel, pela Eletrobrás, cinco órgãos de
planejamento e integração social. Estamos vendo, lamentavelmente,
desorganização, burocracia e manutenção de interesses políticos.
Aqueles que querem manter esse modelo de planejamento centralizado, achando
que o Estado decide e planeja melhor que uma sociedade civil organizada,
precisarão antes responder à questão: como é possível tantos órgãos de

planejamento serem pegos de surpresa? Convocaram Pedro Parente para criar um
Conselho de Planejamento para planejar os vários órgãos de planejamento.
Antes de publicar meu livro, tomei o cuidado de analisar a matriz energética deste
país. As respostas que obtive eram tranqüilizadoras. Com um mercado de capitais
forte e regras claras para a construção de termelétricas, que requerem somente
dois anos para ser construídas, não haveria tantos problemas.
Infelizmente, o governo minou nosso mercado de capitais ao implantar a CPMF e a
Lei Kandir, e agora dependemos de capital externo e indexadores em dólar.
Muita gente tem responsabilidade por essa falta de energia, os economistas são os
menos importantes. Previsões nunca são precisas, claras nem contundentes. Por
isso, países que dão certo criam regras claras, e não planejamento claro. O grande
culpado na realidade é nossa eterna visão de que o Estado planeja melhor que a
sociedade civil organizada. Por que não falta mais telefone neste país? Por que
ninguém precisa mais esperar dois anos por uma linha telefônica, como
antigamente?
Se você ainda acredita que o Estado decide melhor e estava disposto a esperar dois
anos por uma linha telefônica, então, por coerência ideológica, não tem do que
reclamar nestes dois anos que ficaremos sem luz elétrica.
Muitos candidatos à eleição de 2002 culparão a privatização das empresas de
energia pelos apagões, esquecendo que 80% da geração está na mão do Estado.
Argumentarão que teriam decidido melhor, planejado melhor que a sociedade civil
organizada. A escolha é sua.
Só que agora teremos de ficar esperando as turbinas da Califórnia serem
entregues, para só então entrar com nossas encomendas, tudo graças ao nosso
modelo de planejamento centralizado.
Publicado na Revista Veja edição 1702 ano 34 n° 21 de 30 de maio de 2001

Preparadas para Servir

Quem quiser viver da indústria e do comércio terá
de se conscientizar de que as coisas mudaram. Ninguém
mais opera exclusivamente nos setores do comércio e da
indústria. Na realidade, esses dois setores dependem dos serviços que prestam,
não dos produtos que entregam. O mundo empresarial de hoje
é o mundo dos serviços.

A grande maioria das empresas ainda não percebeu esse fato ou ainda não está
preparada para essa nova era. Poucas estão organizadas e treinadas para servir o
outro, nesse caso o cliente. As companhias de sucesso serão as empresas que eu
chamaria de "preparadas para servir".
Transformar empresas para servir é um grande desafio, e, por razões históricas,
administradores profissionais terão de promover uma mudança cultural de enormes
proporções. Herdamos da cultura portuguesa a visão de que servir tem a ver com
servidão, um fardo, uma obrigação a ser evitada. Servir o outro era visto nessa
cultura como uma penalidade, algo a ser evitado a todo custo.
Essa mentalidade tem muito a ver com os quase 400 anos de tradição escravocrata,
em que se importavam escravos justamente porque servir era impensável. Tanto
assim que o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão.
Por essas razões históricas, o Brasil ainda vive a resistência a servir os outros.
Servir o outro está associado a servilismo, a serviçal, a subserviência, termos
absolutamente negativos. Muito distante do ideal cristão de servir como finalidade
maior da existência humana.
Em culturas em que não houve a escravidão, servir o outro é um prazer, é algo feito
de bom grado, incentivado e remunerado. Um comportamento altruístico que gera
o círculo virtuoso da reciprocidade.
Como mudar esse pensamento dominante e hegemônico no Brasil? A maioria dos
brasileiros, inclusive muitos intelectuais, quer ser servida, e não servir. Quer todos
os seus direitos, sem pensar nas obrigações.
Que ações uma empresa ou uma repartição pública poderá efetivar para se
transformar numa organização preparada para servir os outros? Uma das saídas
que recomendo é contratar funcionários que tenham sido voluntários em entidades
beneficentes. Isso porque não há seminário, palestra motivacional ou treinamento
que induza alguém a mudar de postura. É uma característica pessoal e cultural.
Funcionários que tenham sido voluntários mostram predisposição para servir, coisa
rara neste país.
Existem no Brasil mais de 2.000 entidades sem fins lucrativos que precisam de
trabalho esporádico e eventual. São 2.000 entidades que sabem muito bem como
servir o outro e mostram claramente que isso pode ser um trabalho digno e muito
estimulante. Incentivar seus funcionários a ser voluntários é um primeiro passo
para aperfeiçoá-los na atuação no mundo dos serviços.
Ser voluntário abre uma oportunidade para funcionários que normalmente estão
bem distantes do foco da empresa, como os auditores internos, se envolverem nas
questões mais humanas e sociais. O que um auditor interno tem para contar de
interessante aos filhos na conversa depois do jantar? Que descobriu cinco notas
fiscais frias ou mais um desfalque no almoxarifado?
"Sexta-feira, dia que reservo para o trabalho voluntário, é uma ocasião em que fico
de bem com a vida e comigo. É minha terapia", disse-me um auditor interno após a

introdução do trabalho voluntário em sua empresa. O trabalho voluntário não
ultrapassa a média de três horas por semana, mas muda significativamente a vida
dos funcionários.
Há oito anos criei um site que aproxima entidades e potenciais voluntários,
www.voluntarios.com.br. Naquela época, ninguém sabia o que era uma ponto com,
muito menos uma ponto org, razão de nosso sufixo comercial. É um belo lugar para
começar.
Se ensinarmos as pessoas que servir o outro não é degradante, mas, pelo
contrário, um raro prazer, construiremos uma sociedade sólida e uma plataforma de
exportação de serviços. Criaremos uma nação de cidadãos compromissados com o
cliente e com o social. Vamos começar hoje a aprender a servir o outro em vez de
somente nos servir.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1850, ano 37, nº 16, 21 de abril de 2004, página
20

Procuro um Avalista
De vez em quando um amigo que mal me cumprimenta, ou um colega de trabalho
que nunca me ajudou, me pede que seja seu avalista. Provavelmente, ele raciocina
que perguntar não ofende, só depende da cara-de-pau de cada um. Por que os
bancos insistem em obter um aval de um amigo do cliente? No fundo, o que os
bancos querem é reduzir o risco da operação de crédito, arrolando também os bens
pessoais do avalista como garantia.
Mas que interesse tem o avalista em colocar seus bens
em risco sem nada receber em troca? O avalista entra
gratuitamente nesse contrato como um voluntário, um
altruísta, sem receber uma remuneração pelo serviço que
presta ao banco. O avalista só entra com obrigações e
não tem nenhum benefício, só chateação. O banco ficará obviamente feliz com o
empréstimo que você viabilizou.

Uma técnica que eu uso nessas ocasiões, e que aprendi com um verdadeiro amigo,
é ficar indignado com os juros exorbitantes cobrados pelo banco e oferecer o
mesmo empréstimo, sem cobrar juros.
Seu amigo ou parente vai pular de alegria, e você coloca uma única e singela
imposição: que o gerente ou o presidente do banco avalize a operação. Não é um
pedido exorbitante, e nenhum gerente de banco poderá recusar, porque é
exatamente o mesmo pedido que eles estão fazendo. Seria hipocrisia recusar.
Ninguém nunca voltou com meu contrato assinado, não sei por quê. Mas existe um
efeito socialmente muito negativo nessa prática do aval, para o qual infelizmente
sociólogos e antropólogos nunca atentaram. Ao pedir um aval de um parente ou
amigo, o sistema financeiro usa para seu próprio conforto creditício os laços
familiares e de amizade longamente costurados pela sociedade brasileira.
Que tio pode recusar um aval a um sobrinho? Que irmão pode recusar dar um aval
a outro irmão necessitado? É uma saia-justa complicada. Se você negar o pedido,
deixará o parente magoado e a família ressentida. Ninguém obviamente avalia
corretamente os riscos que você está correndo, só o banco.
Os laços de amizade e confiança que o próprio banco nunca sedimentou com seus
clientes são substituídos pelos laços de amizade e confiança que seus familiares e
amigos criaram com você. Aliás, se não tem o dinheiro para cobrir o aval, você
nunca deveria tê-lo dado. Caso contrário o banco poderá vender seus bens
oferecidos em garantia. Dar um aval ou emprestar o mesmo montante é
financeiramente a mesma coisa, porque um aval significa dar o dinheiro ao banco
se seu amigo ou parente virar caloteiro.
Já vi mais de vinte famílias ser desestruturadas pelo simples fato de um parente
não ter pago um empréstimo e o avalista ter sido processado, prejudicando
duplamente a família. Há pessoas hoje pobres e destituídas que cometeram o
pequeno erro de dar um único aval. Muitos eram diretores e empregados de
empresas, obrigados a dar um aval a um banco que financiava a empresa, senão
perderiam o emprego.
Nenhum país dará certo se não puder criar um clima de confiança mútua entre seus
cidadãos. Nossa inflação e as constantes mudanças das regras e dos planos
econômicos dilapidaram, e muito, nossos laços de confiança. Colocaram-se várias
vezes empregados contra patrões, fornecedores versus clientes, inquilinos versus
senhorios, alunos versus professores, por causa de planos econômicos mal
estruturados, que aumentaram a desconfiança entre nós, por nenhuma culpa das
partes.
Para piorar ainda mais, o novo Código Civil exige que a esposa assine também o
aval, criando discórdia entre marido e mulher, e nem toda esposa tem como
recusar. Mais sensatas que os homens, elas jamais aceitariam dar um aval a um
amigo do marido.
O novo Código Civil, em vez de aumentar os laços de confiança da sociedade,
aumentou os pontos de atrito entre marido e mulher. O correto seria restringir o

uso do aval, e não tornar a esposa co-solidária da operação financeira que em nada
a beneficia. Mulheres, portanto, prestem muita atenção. Lembrem-se de que, caso
o amigo do seu marido se torne inadimplente, você perderá seus bens e os de seus
filhos. E você, que pretende ser avalista, lembre-se de que poderá perder seu
amigo, seus bens e também sua esposa. Dito isso, alguém poderia me dar um aval?
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1853, ano 37, nº 19, 12 de maio de 2004, página
23

Qual é o Problema?
Um dos maiores choques de minha vida foi na noite anterior ao meu primeiro dia de
pós-graduação em administração. Havia sido um dos quatro brasileiros escolhidos
naquele ano, e todos nós acreditávamos, ingenuamente, que o difícil fora ter
entrado em Harvard, e que o mestrado em si seria sopa.
Ledo engano.
Tínhamos de resolver naquela noite três estudos de caso
de oitenta páginas cada um. O estudo de caso era uma
novidade para mim. Lá não há aulas de inauguração, na
qual o professor diz quem ele é e o que ensinará durante
o ano, matando assim o primeiro dia de aula. Essas
informações podem ser dadas antes. Aliás, a carta em que me avisaram que fora
aceito como aluno veio acompanhada de dois livros para ser lidos antes do início
das aulas.
O primeiro caso a ser resolvido naquela noite era de marketing, em que a empresa
gastava boas somas em propaganda, mas as vendas caíam ano após ano. Havia
comentários detalhados de cada diretor da companhia, um culpando o outro, e o
caso terminava com uma análise do presidente sobre a situação.
O caso terminava ali, e ponto final. Foi quando percebi que estava faltando algo.
Algo que nunca tinha me ocorrido nos dezoito anos de estudos no Brasil. Não havia
nenhuma pergunta do professor a responder. O que nós teríamos de fazer com
aquele amontoado de palavras? Eu, como meus outros colegas brasileiros, esperava
perguntas do tipo "Deve o presidente mudar de agência de propaganda ou demitir
seu diretor de marketing?". Afinal, estávamos todos acostumados com testes de
vestibular e perguntas do tipo "Quem descobriu o Brasil?".
Harvard queria justamente o contrário. Queria que nós descobríssemos as
perguntas que precisam ser respondidas ao longo da vida.
Uma reviravolta e tanto. Eu estava acostumado a professores que insistiam em que
decorássemos as perguntas que provavelmente iriam cair no vestibular.
Adorei esse novo método de ensino, e quando voltei para dar aulas na Universidade
de São Paulo, trinta anos atrás, acabei implantando o método de estudo de casos
em minhas aulas. Para minha surpresa, a reação da classe foi a pior possível.

"Professor, qual é a pergunta?", perguntavam-me. E, quando eu respondia que essa
era justamente a primeira pergunta a que teriam de responder, a revolta era geral:
"Como vamos resolver uma questão que não foi sequer formulada?".
Temos um ensino no Brasil voltado para perguntas prontas e definidas, por uma
razão muito simples: é mais fácil para o aluno e também para o professor. O
professor é visto como um sábio, um intelectual, alguém que tem solução para
tudo. E os alunos, por comodismo, querem ter as perguntas feitas, como no
vestibular.
Nossos alunos estão sendo levados a uma falsa consciência, o mito de que todas as
questões do mundo já foram formuladas e solucionadas. O objetivo das aulas passa
a ser apresentá-las, e a obrigação dos alunos é repeti-las na prova final.
Em seu primeiro dia de trabalho você vai descobrir que seu patrão não lhe
perguntará quem descobriu o Brasil e não lhe pagará um salário por isso no fim do
mês. Nem vai lhe pedir para resolver "4/2 = ?". Em toda a minha vida profissional
nunca encontrei um quadrado perfeito, muito menos uma divisão perfeita, os
números da vida sempre terminam com longas casas decimais.
Seu patrão vai querer saber de você quais são os problemas que precisam ser
resolvidos em sua área. Bons administradores são aqueles que fazem as melhores
perguntas, e não os que repetem suas melhores aulas.
Uma famosa professora de filosofia me disse recentemente que não existem mais
perguntas a ser feitas, depois de Aristóteles e Platão. Talvez por isso não
encontramos solução para os inúmeros problemas brasileiros de hoje. O maior erro
que se pode cometer na vida é procurar soluções certas para os problemas errados.
Em minha experiência e na da maioria das pessoas que trabalham no dia-a-dia,
uma vez definido qual é o verdadeiro problema, o que não é fácil, a solução não
demora muito a ser encontrada.
Se você pretende ser útil na vida, aprenda a fazer boas perguntas mais do que sair
arrogantemente ditando respostas. Se você ainda é um estudante, lembre-se de
que não são as respostas que são importantes na vida, são as perguntas.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1898, ano 38, nº 13, 30 de março de 2005,
página 18

Quero ser Índio
Antes da descoberta do Brasil, um índio que
quisesse fazer uma canoa, derrubava uma árvore e
em um mês de trabalho teria sua canoa novinha em folha. Um contribuinte
brasileiro que quiser fazer o mesmo descobrirá, assustado, as razões de nossa
estagnação e má distribuição da renda. Para facilitar
o raciocínio, vou supor que o contribuinte esteja empregado numa indústria de
canoas e que após um mês de trabalho, talhando a mesma árvore, receba 1.000

reais de salário. Descontados 15% de imposto de renda e 8% de contribuição
social, o salário se reduz para 770 reais. No final do ano você sai da fábrica e entra
na loja disposto a comprar a canoa que fabricou e
negocia com seu patrão:
"Sendo da casa, não vou cobrar o custo da matéria
prima, só sua mão-de-obra. Seu salário foi de 1.000
reais, que, acrescido de 50% de encargos sociais, soma
1.500. Tem mais 11% de IPI, 22% de ICMS, tem PIS,
COFINS e mais 58 taxas e tributos, um total de 2.200 reais. Tem ainda 5% do meu
lucro, igual à média brasileira, e o barco é seu pela bagatela de 2.310 reais”. Você
olha seu salário de 770 reais e percebe que não comprará sua canoa nunca, porque
ela custa três vezes seu salário por causa dos impostos.
O Brasil está numa canoa furada não pela ganância do capital, mas pela carga
tributária do governo, que praticamente consome 65% do custo do produto. Isso
explica por que nossa indústria está acabando e desempregando. Só sobrevivem a
área de serviços e a economia informal. Por isso o governo nem pode combater a
sonegação a ferro e fogo, porque todo mundo quebraria. Karl Marx deve estar
revirando na cova ao constatar que no Brasil quem explora o trabalhador não são
os 5% do capitalista e sim os 65% do Estado.
Não é a reforma tributária que precisamos estar discutindo neste momento, e sim o
tamanho e as verdadeiras funções de um Estado moderno. Esse exemplo, embora
simplificado, permite também explicar as verdadeiras razões da má distribuição da
renda no país. Nossa produção só pode ser vendida se existirem consumidores que
ganhem três vezes mais do que aqueles que produzem. Quem ganha 770 reais não
consegue comprar o produto de seu trabalho. Sua canoa depende de alguém que
ganhe 2.310 reais para que seja vendida e seu salário efetivamente pago. Você só
consegue comprar os produtos elaborados por quem ganha 260 reais.
Se as diferenças entre salários diminuíssem, ocorreria uma pequena melhoria na
distribuição de renda, mas a produção não escoaria, porque não haveria renda
suficiente para comprá-la. Tudo por causa da enorme carga dos impostos. Isso
explica por que cada vez que se tentou melhorar a distribuição da renda do país,
combatendo a inflação, gerou-se estagnação. Esse foi o grande erro do Real,
acreditar que o fim da inflação traria o crescimento sem uma imediata reforma
tributária. Algo que a população e administradores vêm reclamando desde o início.
Por outro lado, cada vez que piorava a distribuição da renda do país, como em
épocas de inflação, o país milagrosamente crescia, deixando economistas do mundo
inteiro perplexos e muitos brasileiros com saudades da inflação. Se a reforma
tributária não reduzir drasticamente os impostos, de preferência pela metade,
continuaremos com a pior distribuição de renda do mundo, desemprego, exclusão
social e violência. Nenhuma das propostas de reforma começou com a questão
fundamental: discutir as funções do Estado moderno, para depois discutir quais os
impostos necessários para pagar a conta.
Algo me diz que a reforma tributária aumentará ainda mais nossa carga tributária e
não propiciará uma redução, como se imagina. Se esse também for seu medo,
reclame já para seu deputado ou senador, ou então pague para sempre seus
impostos. A opção é sua. Não é à toa que, de todos os grupos residentes no Brasil,
os que têm de longe a melhor distribuição da renda são justamente os índios.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)

Editora Abril, Revista Veja, edição 1604, ano 32, nº 26, 30 de junho de 1999,
página 21

Salvem as florestas temperadas!
No filme A Bruxa de Blair, sucesso de bilheteria do cinema alternativo americano,
há uma cena que fez meu sangue de ecologista amador brasileiro e defensor do
crescimento sustentável literalmente borbulhar.
Os três estudantes do longa estão totalmente perdidos
numa floresta da Nova Inglaterra e a garota começa a
entrar em pânico achando que nunca mais sairia daquela
selva. Seu colega então diz algo parecido com: "Não seja
idiota, nós destruímos todas as nossas florestas
temperadas. É só andarmos meia hora em linha reta que logo sairemos daqui".
Ecologistas do mundo todo vivem fazendo protestos para preservar a floresta
tropical brasileira, mas raramente param para refletir sobre essa corajosa crítica
contida nesse filme, que fez tanto sucesso.
Se alguém se perder na Floresta Amazônica, poderá ter de andar por noventa dias
até achar uma saída, tal o nível de preservação de nossa Amazônia, comparada
com as demais florestas.
Então, não seria correto também discutir a reconstituição das florestas temperadas,
há muito tempo dizimadas? Na Europa e nos Estados Unidos, 98% a 99% das
florestas foram destruídas. O "Crescente Fértil" descrito na Bíblia é hoje o Iraque da
"Desert Storm". Em contrapartida, 86% da Floresta Amazônica continua intacta.
No famoso Museu Smithsonian de Washington, vi um painel que orgulhosamente
mostrava um pioneiro derrubando uma árvore para criar uma área arável e poder
"suprir nossos antepassados com a comida necessária".
Destruíram tantas florestas temperadas para plantar comida que hoje eles têm
muito mais agricultores do que o necessário, a maioria economicamente inviável.
Com a produtividade atual da agricultura, bastaria cultivar as planícies naturais que
todos os países já possuem.
A destruição das florestas temperadas é uma das razões dos maciços subsídios que
a Europa e os Estados Unidos dão à agricultura, razão de nossos protestos junto à
OMC.
Quando negociadores do governo brasileiro reclamam desses subsídios, a resposta
é que eles são necessários para manter a população no campo. Caso contrário, os
países teriam enormes espaços e terras vazias, com todo mundo vivendo nas
cidades.

O erro dessa lógica política está na frase "espaços e terras vazias", uma vez que
essas terras não eram "vazias" antes de as florestas temperadas serem dizimadas.
Há muito deveríamos ter colocado na agenda mundial a necessidade da
reconstituição das florestas temperadas ao lado da preservação da Floresta
Amazônica – o que exigiria dos países desenvolvidos a lenta substituição dos
agricultores subsidiados por guardas e bombeiros florestais em constante vigilância.
Pelo menos os agricultores passariam a ser úteis, em vez de receber subsídios para
nada plantarem. Os espaços não ficariam vazios, como temem os políticos desses
países. Voltariam ao equilíbrio original.
Isso teria importantes conseqüências econômicas para o Terceiro Mundo. Acabaria
com os enormes subsídios agrícolas e equilibraria a balança comercial de muito país
em desenvolvimento.
Bjorn Lomborg, autor do The Skeptical Environmentalist, escreve na página 117
uma frase de muita coragem política: "Que base nós (Primeiro Mundo) temos para
nos indignarmos com o desmatamento das florestas tropicais, considerando o nosso
desmatamento na Europa e Estados Unidos? É uma hipocrisia aceitar que nós nos
beneficiamos imensamente da destruição de enormes áreas de nossas próprias
florestas mas não vamos permitir que países em desenvolvimento se beneficiem
como nós o fizemos. Se não quisermos que eles usem seus recursos naturais do
jeito que nós usamos os nossos, devemos compensá-los de acordo". Obviamente,
ele foi massacrado por seus colegas.
Da próxima vez que um amigo, um jornalista ou um diplomata estrangeiro lhe
indagar sobre o que estamos fazendo com nossa Floresta Amazônica, antes de
responder, pergunte-lhe o que ele está fazendo para reconstituir 85% de suas
florestas temperadas.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1823, ano 36, nº 40 de 8 de outubro de 2003,
página 22

Todo Dia Falta Algo
Um avião da Embraer precisa de 1,5 milhão de peças para ser construído. Cem
aviões necessitam de 150 milhões de peças, componentes e matérias-primas,
inclusive energia, todos essenciais para o funcionamento e a segurança do avião.
Se faltar uma única peça, nenhum avião poderá ser
entregue.

Somando-se todos os produtos, peças e matérias-primas produzidos no Brasil,
chegamos a um número não menor que 10.000 trilhões de itens por ano. Só os
tubos de pasta de dentes são 1 bilhão.
O que ninguém fica sabendo é que todo dia uma pequena parte desse mundaréu de
peças, digamos 0,002%, está faltando. Ou seja, hoje 200 milhões de peças e
matérias-primas estão em falta em algum lugar do Brasil, só que ninguém é pego
de surpresa.
Cada fabricante tem executivos e funcionários que começam a antever a escassez e
aumentam os preços, algo que o setor de energia não fez. Esse reajuste sinaliza
duas importantes informações para a sociedade:
1. "Pessoal, está começando a faltar esta peça. Vamos tentar usá-la menos, ou
somente quando for indispensável."
Aqueles que podem substituir a peça por outra, ou que não precisam
desesperadamente dela, a consomem menos. Assim, os que precisam
desesperadamente da peça continuarão a recebê-la. Tudo feito de forma
espontânea e voluntária, ao contrário do racionamento e da ameaça de corte de
energia impostos pela intervenção do Estado. Hoje, se um amigo seu numa UTI
quiser mais energia, ele terá de fazer um requerimento ao governo, que talvez abra
uma exceção. Não se permite doar energia nem ele poderá compensar a energia de
sua casa vazia, algo que o sistema de preços permitiria.
O segundo aviso que um aumento de preços dá é mais importante ainda:
2. "Pessoal, a margem de lucro da peça número 1 432 aumentou.Vamos expandir
rapidamente a produção comprando máquinas e contratando mais trabalhadores."
O lucro adicional gerado pelo aumento do preço canaliza os recursos financeiros
necessários justamente àqueles mais capacitados para ampliar a produção no
momento. Tudo o que falta é corrigido sem os economistas nem os governos
ficarem sabendo. Imaginem o Pedro Parente cuidando de 199 milhões de câmaras
de emergência.
Se as empresas de geração de energia fossem privadas, seus executivos já teriam
aumentado os preços em 10% em 1998, reduzindo o consumo, e estariam obtendo
recursos e investindo bilhões de reais em energia, apesar do déficit do governo
federal e da preocupação do FMI.
Os que pagam mais por um produto sem o qual não podem ficar acabam
permitindo àqueles que abriram mão dele tê-lo novamente com o reinvestimento do
lucro adicional que terão de pagar, algo que não ocorre num racionamento. Os que
recebem salário mínimo não são prejudicados, porque governos democráticos e que
não têm déficit previdenciário reajustam o salário mínimo para compensar o
aumento da tarifa, para que todos continuem a receber o mínimo necessário de
energia.

O governo poderia ter elevado os preços da energia, mas empresas estatais são
geridas por outros critérios, como não aumentar a inflação num ano em que se
busca a reeleição, isto, sim, um egoísmo que favorece poucos e prejudica a todos.
Os que pedem a volta da capacidade de planejamento governamental do setor
esquecem que houve um "planejamento", um tanto maquiavélico, e com outros
propósitos.
Congelamentos desorganizam a economia. Setores que estão crescendo 20%,
como o de peças para geradores e celulares, precisam reduzir em vez de aumentar
sua produção. Setores que estão em decadência e caindo 20% não precisam fazer
nada. O mesmo não acontece com 199 milhões de produtos que neste momento
estão em falta, sem ninguém, presidente, ministro ou intelectual que odeia as
imperfeições de mercado, ficar sabendo.
Stephen Kanitz
Artigo publicado na Revista Veja, edição 1708, ano 34, nº27, 11 de julho de 2001

Turistificando o Brasil i
Em qualquer cidadezinha americana, um turista eventual encontrará uma pletora de
atrações
turísticas a sua disposição. Ele chega e depara com cartazes os mais ridículos
possíveis, como: “Aqui George Washington dormiu por uma noite”, “Abraham
Lincoln cuspiu neste chão”, “Foi aqui que Judas
perdeu as botas”, e assim por diante. Mas, por mais ridícula que seja, cada
cidadezinha tem umas sete
ou oito atrações turísticas bem documentadas em um panfleto disponível em toda
pousada e todo hotel.
Já visitei museus de caixa de fósforos e selos
comemorativos. Já vi como se fazem queijos franceses,
relógios suíços e como se plantam tulipas holandesas. A
variedade das coisas que pessoas comuns colecionam ou
produzem é infinita, e talvez mais interessante do que as
pirotecnias da Universal Studios.
Com recursos naturais, sol 320 dias por ano, um povo super-hospitaleiro, praias
maravilhosas, restaurantes de primeira, o Brasil deveria ter de 10 a 15% do seu
PIB comandado pelo turismo. O primeiro passo, portanto, para que possamos
aumentar a indústria do turismo, é “turistificar” nossas cidades. Das 5.000 cidades
brasileiras, somente 1.300 se cadastraram na Embratur como cidades potenciais
para o turismo. Talvez tenham esquecido que toda cidade tem sua história, sua
capacidade de criar um museu ou uma atração turística - nem precisa ser uma
beleza natural. Quem não caminharia léguas por causa do melhor chope do Brasil?
Se sua cidade não tem uma linda cachoeira do tipo Véu da Noiva ou uma vista
espetacular, não significa que ela esteja excluída do roteiro turístico. Nova York é a
prova concreta dessa afirmação.
Nosso erro tem sido colocar sempre a carroça na frente dos bois. Por vários anos, o
governo financiou caríssimos hotéis, a juros subsidiados, que depois de prontos
ficaram vazios porque as cidades não se “turistificaram”, não atraindo os turistas.

Esquecemos de criar museus, de colocar placas de sinalização em espanhol e inglês
- muitos de nossos museus não têm sequer cartazes de explicação em português,
muito menos no idioma de nossos turistas - e de criar panfletos turísticos de
qualidade internacional.
Se você é prefeito de uma cidade, digite o nome da sua cidade.com na internet e
veja o que aparece em termos de atrações turísticas. A net divulga tudo para todo
o mundo. São raras as cidades que possuem, pelo menos, o próprio site.
Não vamos atrair turistas se continuarmos agindo assim. Nem mesmo turistas
brasileiros, quanto mais do resto do mundo. “Turistificar” uma cidade não é
complicado, contanto que isso seja feito por pessoas especializadas, que consigam
escapar das pressões políticas da cidade e se concentrem nos desejos de um
turista.
Nossos economistas ficaram quatro anos pedindo mais câmbio. Agora estão
explicando por que as exportações não cresceram tanto quanto prometeram que
cresceriam. Na realidade, esqueceram o que nossos administradores vêm dizendo
há muito tempo. Exportar não é só uma questão de câmbio.
Exportar depende de canais de distribuição próprios, que não temos, qualidade e
constância de fornecimento, entregas just in time a 10.000 quilômetros de
distância. Sem falar de marca mundial, construída por anos de propaganda, como o
famoso personagem Juan Valdez, que faz a propaganda do café colombiano.
Foi-se o tempo em que uma nação poderia crescer por sua agricultura e indústria.
Cinqüenta por cento do PIB brasileiro já é dominado pelo setor de serviços. Como
se exporta turismo? Por meio do turismo receptivo, que faz parte hoje em dia de
toda nação bem-sucedida do mundo.
Parece que nos concentramos no turismo expulsivo, com o objetivo de levar todo
brasileiro para a Disney, para desespero de Armínio Fraga, que tem de fechar as
contas. Nossa balança comercial poderá ficar positiva como queriam os
economistas, mas a conta de serviços vai continuar por muito tempo negativa.
Podemos colocar o câmbio a 2, 3 ou 4 reais que não atrairemos turistas se primeiro
não "turistificarmos" o Brasil.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1632, ano 33, nº 3, 19 de janeiro de 2000,
página 20

Uma Definição de Felicidade
Todas as profissões têm sua visão do que é felicidade. Já li um economista defini-la
como ganhar 20.000 dólares por ano, nem mais nem menos. Para os monges
budistas, felicidade é a busca do desapego. Autores de livros de auto-ajuda definem
felicidade como "estar bem consigo mesmo", "fazer o que se gosta" ou "ter
coragem de sonhar alto". O conceito de felicidade que uso em meu dia-a-dia é difícil
de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly
Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A idéia é mais ou menos esta: todos nós
temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que
você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se

com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem.
Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você
sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão
enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar.
Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto
bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que
maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua
experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o
balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois
for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a
distância for mínima, você ficará tranqüilo, calmo, mas logo entediado e sem
espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que
se quer ter.
O primeiro passo é definir corretamente o tamanho de
seu sonho, o tamanho de sua ambição. Essa história de
que tudo é possível se você somente almejar alto é pura
balela. Todos nós temos limitações e devemos sonhar de
acordo com elas. Querer ser presidente da República é
um sonho que você pode almejar quando virar governador ou senador, mas não no
início de carreira. O segundo passo é saber exatamente seu nível de competências,
sem arrogância nem enganos, tão comuns entre os intelectuais. O terceiro é
encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois mundos. Saber administrar a
distância entre seus desejos e suas competências é o grande segredo da vida.
Escolha uma distância nem exagerada demais nem tacanha demais. Se sua
ambição não for acompanhada da devida competência, você se frustrará. Esse é o
erro de todos os jovens idealistas que querem mudar o mundo com o que
aprenderam no primeiro ano de faculdade. Curiosamente, à medida que a distância
entre seus sonhos e suas competências diminui pelo seu próprio sucesso, surge
frustração, e não felicidade.
Quantos gerentes depois de promovidos sofrem da famosa "fossa do bemsucedido", tão conhecida por administradores de recursos humanos? Quantos
executivos bem-sucedidos são infelizes justamente porque "chegaram lá"? Pessoas
pouco ambiciosas que procuram um emprego garantido logo ficam entediadas,
estacionadas, frustradas e não terão a prometida felicidade. Essa definição explica
por que a felicidade é tão efêmera. Ela é um processo, e não um lugar onde
finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o
sonho de tantos brasileiros. Felicidade é uma desconfortável tensão entre suas
ambições e competências. Se você estiver estressado, tente primeiro esvaziar seu
balão de ambições para algo mais realista. Delegue, abra mão de algumas
atribuições, diga não. Ou então encha mais seu balão de competências estudando,
observando e aprendendo com os outros, todos os dias. Os velhos acham que é um
fracasso abrir mão do espaço conquistado. Por isso, recusam ceder poder ou
atribuições e acabam infelizes. Reduzir suas ambições à medida que você envelhece
não é nenhuma derrota pessoal. Felicidade não é um estado alcançável, um
nirvana, mas uma dinâmica contínua. É chegar lá, e não estar lá como muitos
erroneamente pensam. Seja ambicioso dentro dos limites, estude e observe
sempre, amplie seus sonhos quando puder, reduza suas ambições quando as
circunstâncias exigirem. Mantenha sempre uma meta a lcançar em todas as etapas
da vida e você será muito feliz.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1910, ano 38, nº 25, 22 de junho de 2005,
página 24

Viver de aluguéis

O sonho de muitos brasileiros é construir duas ou três casinhas e viver de aluguel
na velhice. Nos
últimos cinqüenta anos a população brasileira cresceu de 50 para 176 milhões de
habitantes, gerando
enorme valorização dos preços de imóveis e terrenos para a construção. Por isso,
os imóveis eram sempre nossa primeira opção de
investimentos.
Só que nos próximos cinqüenta anos nossa população
não vai mais crescer 300%, mas somente 30%. E ainda
bem. Isso significa que a necessidade primária de novos
imóveis ficará em menos que 0,5% ao ano. Será que os
imóveis se valorizarão como no passado?
Dez anos atrás vendi um apartamento de um dormitório que me rendia um aluguel
e coloquei os 60.000 reais em ações de seis empresas, cotadas em bolsa. Minha
primeira alegria foi descobrir que a corretagem em ações não chegava a 0,5% por
transação, enquanto em imóveis o valor da corretagem chega a 6%, mais Imposto
sobre Aquisição de Imóveis (Sisa), mais CPMF, mais o custo do cartório e do
advogado independente, que hoje é imprescindível, o que pode elevar a brincadeira
toda para 8%.
A segunda alegria foi perceber que, enquanto meu inquilino me considerava seu
algoz, as empresas me chamavam de sócio e de parceiro. Meu inquilino considerava
meu aluguel uma despesa a ser reduzida de tempos a tempos, já que o prédio
envelhecia ano após ano. Por outro lado, as ações valorizavam-se com o tempo.
Enquanto meu apartamento ficava de três a quatro meses vazio entre um inquilino
e outro, nas empresas meu dinheiro não ficava parado um minuto. Enquanto meu
apartamento se desvalorizava 1% ao ano por obsolescência e depreciação, as ações
se valorizavam no mínimo 4% ao ano, porque boa parte dos lucros é reinvestida na
empresa, o que muita gente não percebe. Normalmente, só 25% a 50% dos lucros
são distribuídos em dividendos.

Hoje, tenho pessoas como Maurício Botelho, da Embraer, eleito um dos 25 melhores
executivos do mundo, trabalhando para mim. Ao contrário de meu ex-inquilino, que
vivia desempregado e atrasando o pagamento.
Por isso, metade das famílias americanas possui ações em vez de imóveis de
aluguel, enquanto no Brasil menos que 3% investem em ações de forma
significativa. Lá, os trabalhadores podem comprar seu imóvel, porque todos
investem em ações que geram duplamente empregos, nas empresas e no setor de
construção. Aqui, porque preferimos investir em imóveis sem risco, em vez de
ações que rendem mais por terem maiores riscos, só geramos empregos no setor
de construção, mantendo os salários baixos e condenando o trabalhador brasileiro a
alugar um imóvel para sempre.
A precaução que recomendo é nunca comprar ações justamente no meio de uma
alta, como agora, e sempre escolher com cuidado a ação a comprar, os mesmos
cuidados que deve seguir quem compra um imóvel.
Culturalmente o brasileiro acredita em imóveis por causa do medo da inflação, além
do fato de que "imóvel ninguém rouba". Mas empresas em bolsa são também
imóveis, e elas se protegem muito bem da inflação, e também ninguém as rouba.
As ações ficam custodiadas na própria bolsa.
Do rendimento anual do aluguel você precisa descontar o custo do corretor do
imóvel, do cartório, do administrador imobiliário, do corretor do inquilino, do pintor,
do advogado independente, dos atrasos, da inadimplência, dos aborrecimentos, da
depreciação do imóvel, da manutenção obrigatória, do aumento do IPTU. Quem
fizer os cálculos vai descobrir que no fim sobra bem menos do que se imaginava.
Há inúmeras ações que dão 5% a 9% só de dividendos, além da valorização. Óbvio
que existem algumas que perdem 50% do valor, mas tem imóvel que também vale
a metade depois de descontar a inflação ou a valorização do dólar quinze anos
depois. Mas o risco de seis ações caírem pela metade é muito menor, por isso
nunca coloque todos os seu ovos em um único imóvel, com exceção do seu. Ter o
próprio imóvel é uma paz de espírito que recomendo a todos.
Tente vencer essa nossa barreira cultural começando ao poucos, aplicando 5.000
reais numa ação que dê bons dividendos, apenas para se acostumar com a bolsa e
com a idéia de que não só de aluguel vive um aposentado.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1830, ano 36, nº 47 de 26 de novembro de
2003, página 30

Você está despedido!
Você é diretor de uma indústria de geladeiras. O mercado vai de vento em popa e a
diretoria decidiu duplicar o tamanho da fábrica. No meio da construção, os
economistas americanos prevêem uma recessão, com grande alarde na imprensa. A
diretoria da empresa, já com um fluxo de caixa apertado, decide, pelo sim, pelo
não, economizar 20 milhões de dólares. Sua missão é determinar onde e como
realizar esse corte nas despesas.
Esse é o resumo de um dos muitos estudos de caso que tive para resolver no
mestrado de administração, que me marcou e merece ser relatado. O professor
chamou um colega ao lado para começar a discussão. O primeiro tem sempre a
obrigação de trazer à tona as questões mais relevantes, apontar as variáveis
críticas, separar o joio do trigo e apresentar um início de solução.
"Antes de mais nada, eu mandaria embora 620 funcionários não essenciais,
economizando 12 200 000 dólares. Postergaria, por seis meses os gastos com
propaganda, porque nossa marca é muito forte. Cancelaria nossos programas de
treinamento por um ano, já que estaremos em compasso de espera. Finalmente,
cortaria 95% de nossos projetos sociais, afinal nossa sobrevivência vem em
primeiro lugar". É exatamente isso que as empresas brasileiras estão fazendo neste
momento, muitas até premiadas por sua "responsabilidade social".
Terminada a exposição, o professor se dirigiu ao meu colega e disse:
-Levante-se e saia da sala.
-Desculpe, professor, eu não entendi - disse John, meio aflito.
-Eu disse para sair desta sala e nunca mais voltar. Eu disse: PARA FORA! Nunca
mais ponha os pés aqui em Harvard.
Ficamos todos boquiabertos e com os cabelos em pé.
Nem um suspiro. Meu colega começou a soluçar e, cabisbaixo, se preparou para
deixar a sala. O silêncio era sepulcral.
Quando estava prestes a sair, o professor fez seu último comentário:
-Agora vocês sabem o que é ser despedido. Ser despedido sem mostrar nenhuma
deficiência ou incompetência, mas simplesmente porque um bando de prima-donas
em Washington meteu medo em todo mundo. Nunca mais na vida despeçam
funcionários como primeira opção. Despedir gente é sempre a última alternativa.
Aquela aula foi uma lição e tanto. É fácil despedir 620 funcionários como se fossem
simples linhas de uma planilha eletrônica, sem ter de olhar cara a cara para as
pessoas demitidas. É fácil sair nos jornais prevendo o fim da economia ou aumentar
as taxas de juros para 25% quando não é você quem tem de despedir milhares de
funcionários nem pagar pelas conseqüências. Economistas, pelo jeito, nunca
chegam a estudar casos como esse nos cursos de política monetária.
Se você decidiu reduzir seus gastos familiares "só para se garantir", também estará
despedindo pessoas e gerando uma recessão. Se todas as empresas e famílias
cortarem seus gastos a cada previsão de crise, criaremos crises de fato, com mais
desemprego e mais recessão. A solução para crises é reservas e poupança,
poupança previamente acumulada.
O correto é poupar e fazer reservas públicas e privadas, nos anos de vacas gordas
para não ter de despedir pessoas nem reduzir gastos nos anos de vacas magras,
conselho milenar. Poupar e fazer caixa no meio da crise é dar um tiro no pé. Demitir

funcionários contratados a dedo, talentos do presente e do futuro, é suicídio.
Se todos constituíssem reservas, inclusive o governo, ninguém precisaria ficar
apavorado, e manteríamos o padrão de vida, sem cortar despesas. Se a crise for
maior que as reservas, aí não terá jeito, a não ser apertar o cinto, sem esquecer
aquela memorável lição: na hora de reduzir custos, os seres humanos vêm em
último lugar.
Stephen Kanitz
Artigo Publicado na Revista Veja, edição 1726, ano 34,
nº45, 14 de Novembro de 2001

Volta às Aulas

Jamais esquecerei o meu primeiro dia de aula na Harvard Business School. No dia
anterior recebemos
90 páginas descrevendo três problemas
administrativos que haviam ocorrido anos atrás em empresas verdadeiras.
Tínhamos 24 horas para tomar uma série de decisões, utilizando as mesmas
informações disponíveis da diretoria da época. Era um problema por matéria, 3
matérias por dia.
O primeiro caso do dia tratava-se de uma empresa
controlada por dois irmãos, bem sucedida por trinta
anos, até o dia em que um deles se desquitou e casou
com uma moça vinte anos mais jovem. Esse pequeno
fato desencadeou uma série de problemas que afetava o
desempenho da empresa. Nós éramos os consultores que
teriam de sugerir uma saída.
No primeiro dia, na primeira aula, o professor entrou na sala e simplesmente disse:
- Sr. Kanitz, qual é a sua recomendação para esse caso ?
- Por que eu ?

As aulas a que eu estava acostumado em toda a minha vida de estudante
consistiam num bando de alunos ouvindo pacientemente um professor que
dominava as nossas atenções pelo resto do dia. Simplesmente, naquele fatídico dia,
eu não estava preparado quando todos viraram suas atenções para mim - e, pelo
jeito, eu é que teria de dar a aula.
Esse sistema é conhecido por ensino centrado no aluno e não no professor. Tanto é
que, minha grande frustração foi ter os melhores professores de administração do
mundo, mas que ficavam na maioria das aulas, simplesmente calados.
Curiosamente, falar em aula era uma obrigação, e não o que em geral acontece em
muitas escolas secundárias brasileiras, em que essa atitude é passível de punição.
Outra descoberta chocante foi constatar, que a maioria dos famosos livros de
administração de nada serviam para resolver aquele caso. Nenhum capítulo de
Michael Porter trata especificamente de 'problemas de desquites em empresas
familiares', um fato mais comum nas empresas do que se imagina.
A maioria das decisões na vida é de problemas que ninguém teve que enfrentar
antes, e sem literatura pré-estabelecida. Estamos sozinhos no mundo com nossos
problemas pessoais e empresariais. Quão mais fácil foi a minha vida de estudante
no Brasil, quando a obrigação acadêmica era decorar as teorias do passado de
Keynes, Adam Smith e Peter Drucker, como se fossem livros de auto-ajuda para os
problemas do futuro.
Durante dois anos, estudamos mais de 1.000 casos ou problemas dos mais
variados tipos: desde desquites, brigas entre o departamento de marketing e o
financeiro, greves, governos incompetentes, fusões, cisões, falências e até crises na
Ásia. Isto nos obrigava a observar, destilar as informações relevantes, ignorar as
irrelevantes, ponderar as contradições, trabalhar com vinte variáveis ao mesmo
tempo, testar alternativas, formar uma decisão e expô-la de forma clara e coerente.
Estavam ensinando por meio de uma metodologia inédita na época (1972), o que
poucas escolas e faculdades fazem até hoje: ensinar a pensar.
Em nada adianta ficar ensinando como outros grandes cérebros do passado
pensavam. Em nada adianta copiar soluções do passado e achar que elas se
aplicam ao presente.
Num mundo cada vez mais mutável, onde as inter-relações nunca são as mesmas,
ensinar fatos e teorias será de pouca utilidade para o administrador ou economista
de hoje.
Ensinar a pensar também não é tão fácil assim. Não é um curso de lógica, nem
uma questão de formar uma visão critica do mundo achando que isto resolve a
questão. Sair criticando o mundo, contestando as teorias do passado forma uma
geração de contestadores que nada constrói, que nada sugere.
Minha recomendação ao jovem de hoje é para que se concentre em uma das
competências mais importantes para o mundo moderno: aprender a pensar e a
tomar decisões.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1636, ano 33, nº 07, 16 de fevereiro de 2000,
página 21

Marketing, marketing, marketing
Diariamente, um brasileiro médio é bombardeado com nada menos do que 1.500 apelos de
venda pelo rádio, tv, imprensa, outdoors e folhetos promocionais. São 1.500 apelos de como
gastar o rico dinheirinho, apelos bem elaborados por gênios da propaganda e do marketing.
Apelos fortes com promessas de satisfação imediata,
direta e pessoal.
As entidades sem fins lucrativos concorrem por este mesmo rico
dinheirinho e com uma grande desvantagem. Quem receberá o
benefício será uma pessoa carente e não o próprio doador. Por isso,
não é à toa que, no Brasil, as entidades sem fins lucrativos têm tanta
dificuldade em levantar recursos financeiros.
Para ilustrar melhor essa dificuldade, basta compararmos o total de
recursos doados a entidades sem fins lucrativos no Brasil e nos
Estados Unidos. As 400 maiores entidades norte-americanas são
contempladas com o equivalente a R$ 94 bilhões de donativos
anualmente, enquanto as 400 maiores instituições sem fins lucrativos brasileiras recebem o
equivalente a R$ 1,7 bilhões, o que representa uma fatia de apenas 1/55 do total movimentado
nos Estados Unidos. Vide http://www.filantropia.org/.
Respeitando-se as devidas diferenças entre os dois países, o descompasso é enorme. O
Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, por exemplo, equivale a 1/10 do norte-americano. Há,
portanto, muito campo para avançar no terreno da filantropia no Brasil.
E como proceder para apoiar o crescimento desse segmento? Não há dúvida que o crescente
sentimento de cidadania que a sociedade brasileira está resgatando é uma contribuição de
inestimável valor para a disseminação de projetos e ações voltadas à comunidade. Falta,
entretanto, um trabalho mais consistente e de maior fôlego na divulgação de tais ações.
O Prêmio Bem Eficiente é, nesse sentido, a primeira iniciativa de envergadura que procura
expor, de forma organizada e sistemática, as atividades e empreendimentos de entidades sem
fins lucrativos.
Em seu oitavo ano de existência, o Prêmio Bem Eficiente procura divulgar o trabalho das
entidades filantrópicas com a maior sinergia possível, evitando a concorrência, mesmo que
involuntária, entre as entidades, ao atestar, com a premiação, o trabalho de cinquenta
instituições no curso de um ano. Assim, o Prêmio Bem Eficiente acaba por fazer um trabalho de
marketing conjunto, aumentando a projeção individual das entidades e do próprio setor.
Ao apresentar à sociedade exemplos de excelência na área beneficente, esperamos estar
contribuindo para o aumento do número de cidadãos, em geral, e de empresários, em
particular, empenhados em abraçar e apoiar causas que promovam o bem-estar da
coletividade.
Esse esforço, entretanto, pode ser consideravelmente reforçado pela ação de parceiros na
mídia, com sua reconhecida criatividade e precioso espaço e pelo empenho de voluntários, que
divulguem o trabalho das empresas vencedoras no Brasil e no exterior.

Contamos com o apoio de todos. Afinal, uma causa justa como essa não apenas merece a sua
atenção. Mais do que isso, ela precisa do seu empenho.
Stephen Kanitz e Leila Lorenzi

Ponto de Observação - O Mapa do Brasil
"Vamos virar nossos mapas para cima, para o Cruzeiro do Sul. Vamos criar
nossos referenciais para o nosso mapa, nosso jeito de ver o mundo. Essa é
a única forma de criar uma nação".
Poderá parecer curioso o que vou escrever às vésperas dos 500 anos do
Descobrimento: nós ainda não descobrimos o Brasil! Os portugueses talvez, mas
nós ainda não. Sílvio Romero, já em 1880, identificava como o grande problema
brasileiro a "imitação do estrangeiro na vida intelectual". Manoel Bomfim, anos
depois, apontava nossa "falta de observação". Gilberto Freyre em Casa-Grande &
Senzala nos definia pela "aptidão para imitar". Sérgio Buarque de Holanda em
Raízes do Brasil sentenciava que somos "desterrados em nossa terra" por trazermos
de outros países nossas formas de vida.
Copiamos coisas prontas, traduzimos tudo, preferimos citar a pensar,
ridicularizamos inclusive os observadores genuinamente brasileiros.

Preferimos acreditar em Marx, Gramsci, Anthony
Giddens, Keynes ou em idéias como "Inflation Targeting".
Inteligentes no Brasil são os eruditos da cultura alheia.
Vejam, por exemplo, o mapa do Brasil. Nenhum
observador genuinamente brasileiro teria feito nosso
mapa como todo leitor está acostumado a ver. O mapa
de antigamente apontavam para o Oriente, onde nasce o
Sol. As caravanas acordavam, apontavam o mapa na
direção do Sol, e traçava-se o caminho. Expressões como
"orientar-se", "desorientado" vieram dessa época. Quando os portugueses
começaram a navegar de noite, perceberam rapidamente que o Sol não era um
ponto de orientação útil, e o mapa começou a usar a estrela Polar do Norte como
ponto de referência.
O mapa europeu é inútil no Hemisfério Sul, pois não é possível localizar daqui a
estrela Polar. Nosso ponto de referência é o Cruzeiro do Sul. A partir dessa
premissa, elaborei um mapa segundo nossa epistemologia. Ele aparece no miolo
deste artigo e está disponível em tamanho maior no meu site. Não é um mapa
simplesmente diferente, é um mapa coerente com a realidade brasileira. Parece
estar de cabeça para baixo, mas na realidade são os mapas atuais que estão de
ponta-cabeça. Se o leitor ainda está achando o mapa estranho, é porque está
usando padrões cartográficos europeus para enxergar o próprio país.
O que pode parecer um detalhe cartográfico é, na realidade, o começo do enorme
erro destes 500 anos. Ainda não criamos nossos próprios pontos de referência,
nossas balizas, nossos pontos de apoio. Por isso, não temos ainda o conceito de
nação, de cidadania, justamente pelo fato de ainda não observarmos o Brasil com
nossos próprios olhos.
Nossa auto-estima é baixa, somos inseguros, sentimo-nos confusos, perdidos no

mundo globalizado. Estamos literalmente "desnorteados". Colocar o Brasil no centro
do mapa tampouco é um ato de ufanismo da minha parte ou uma crença de que o
Brasil está no centro do universo. Qualquer indivíduo que olhe 360 graus em sua
volta fatalmente construirá um mapa com sua cidade, ou ponto de observação, no
centro, algo que nunca fizemos.
O conhecimento humano nada mais é do que mapas simplificados que criamos para
auxiliar nosso caminho. O sucesso recai justamente naqueles que fazem os
melhores mapas. Damos pouco valor aos pesquisadores brasileiros, temos frases do
tipo "santo de casa não faz milagres", "ninguém é profeta em sua terra".
Vamos começar uma vida nova, de início virando nosso mapa para cima, para o
Cruzeiro do Sul. Vamos criar nossos referenciais, nossos pontos de apoio, nossas
formas de ver o mundo. Essa é a única forma de criar uma nação. Vamos
finalmente descobrir o Brasil, mas desta vez com nossos próprios olhos.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo veiculado na Revista VEJA do dia 9 de abril de 2000

Como escrever um bom artigo
Escrever um bom artigo é bem mais fácil do que
a maioria das pessoas pensa. No meu caso, português foi
sempre a minha pior matéria. Meu professor de português, o
velho Sales, deve estar se revirando na cova.
Ele que dizia que eu jamais seria lido por alguém. Portanto, se
você sente que nunca poderá escrever, não desanime, eu
sentia a mesma coisa na sua idade.
Escrever bem pode ser um dom para poetas e literatos, mas a
maioria de nós está apta para escrever um simples artigo, um
resumo, uma redação tosca das próprias idéias, sem mexer
com literatura nem com grandes emoções humanas.
O segredo de um bom artigo não é talento, mas dedicação,
persistência e manter-se ligado a algumas regras simples.
Cada colunista tem os seus padrões. Eu vou detalhar alguns
dos meus e espero que sejam úteis para você também.
1. Eu sempre escrevo tendo uma nítida imagem da pessoa
para quem eu estou escrevendo. Na maioria dos meus artigos
para a Veja, por exemplo, eu normalmente imagino alguém
com 16 anos de idade ou um pai de família.
Alguns escritores e jornalistas escrevem pensando nos seus
chefes, outros escrevem pensando num outro colunista que
querem superar, alguns escrevem sem pensar em alguém
especificamente.
A maioria escreve pensando em todo mundo, querendo
explicar tudo a todos ao mesmo tempo, algo na minha opinião
meio impossível. Ter uma imagem do leitor ajuda a lembrar
que não dá para escrever para todos no mesmo artigo. Você
vai ter que escolher o seu público alvo de cada vez, e escrever
quantos artigos forem necessários para convencer todos os
grupos.
O mundo está emburrecendo
porque a TV em massa e os
grandes jornais não conseguem
mais explicar quase nada,
justamente porque escrevem para
todo mundo ao mesmo tempo. E aí,
nenhum das centenas de grupos que compõem a sociedade
brasileira entende direito o que está acontecendo no país, ou
o que está sendo proposto pelo articulista. Os poucos que
entendem não saem plenamente ou suficientemente
convencidos para mudar alguma coisa.
2. Há muitos escritores que escrevem para afagar os seus
próprios egos e mostrar para o público quão inteligentes são.

Se você for jovem, você é presa fácil para este estilo, porque
todo jovem quer se incluir na sociedade.
Mas não o faça pela erudição, que é sempre conhecimento de
segunda mão. Escreva as suas experiências únicas, as suas
pesquisas bem sucedidas, ou os erros que já cometeu.
Querer se mostrar é sempre uma tentação, nem eu consigo
resistir de vez em quando de citar um Rousseau ou Karl Marx.
Mas, tendo uma nítida imagem para quem você está
escrevendo, ajuda a manter o bom senso e a humildade.
Querer se exibir nem fica bem.
Resumindo, não caia nessa tentação, leitores odeiam ser
chamados de burros. Leitores querem sair da leitura mais
inteligentes do que antes, querem entender o que você quis
dizer. Seu objetivo será deixar o seu leitor, no final da leitura,
tão informado quanto você, pelo menos na questão
apresentada.
Portanto, o objetivo de um artigo é convencer alguém de uma
nova idéia, não convencer alguém da sua inteligência. Isto, o
leitor irá decidir por si, dependendo de quão convincente você
for.
3. Reescrevo cada artigo, em média, 40 vezes. Releio 40
vezes, seria a frase mais correta porque na maioria das vezes
só mudo uma ou outra palavra, troco a ordem de um
parágrafo ou elimino uma frase, processo que leva
praticamente um mês.
Ninguém tem coragem de cortar tudo o que tem de ser
cortado numa única passada. Parece tudo tão perfeito, tudo
tão essencial. Por isto, os cortes são feitos aos poucos.
Depois tem a leitura para cuidar das vírgulas, do estilo, da
concordância, das palavras repetidas e assim por diante. Para
nós, pobres mortais, não dá para fazer tudo de uma vez só,
como os literatos.
Melhor partir para a especialização, fazendo uma tarefa BEM
FEITA por vez.
Pensando bem, meus artigos são mais esculpidos do que
escritos. Quarenta vezes talvez seja desnecessário para quem
for escrever numa revista menos abrangente. Vinte das
minhas releituras são devido a Veja, com seu público
heterogêneo onde não posso ofender ninguém.
Por exemplo, escrevi um artigo "Em terra de cego quem tem
um olho é rei". É uma análise sociológica do Brasil e tive de
me preocupar com quem poderia se sentir ofendido com cada
frase.
O Presidente Lula, apesar do artigo não ter nada a ver com
ele, poderia achar que é uma crítica pessoal? Ou um leitor

achar que é uma indireta contra este governo? Devo então
mudar o título ou quem lê o artigo inteiro percebe que o
recado é totalmente outro?
Este é o tipo de problema que eu tenho, e espero que um dia
você tenha também.
O meu primeiro rascunho é escrito quando tenho uma
inspiração, que ocorre a qualquer momento lendo uma idéia
num livro, uma frase boba no jornal ou uma declaração infeliz
de um ministro. Às vezes, eu tenho um bom título e nada
mais para começar. Inspiração significa que você tem um bom
início, o meio e dois bons argumentos. O fechamento vem
depois.
Uma vez escrito o rascunho, ele fica de molho por algum
tempo, uma semana, até um mês. O artigo tem de ficar de
molho por algum tempo. Isso é muito importante.
Escrever de véspera é escrever lixo na certa. Por isto, nossa
imprensa vem piorando cada vez mais, e com a internet nem
de véspera se escreve mais. Internet de conteúdo é uma
ficção. A não ser que tenha sido escrito pelo próprio
protagonista da notícia, não um intermediário.
A segunda leitura só vem uma semana ou um mês depois e é
sempre uma surpresa. Tem frases que nem você mais
entende, tem parágrafos ridículos, mas que pelo jeito foi você
mesmo que escreveu. Tem frases ditas com ódio, que soam
exageradas e infantis, coisa de adolescente frustrado com o
mundo. A única solução é sair apagando.
O artigo vai melhorando aos poucos com cada releitura, com o
acréscimo de novas idéias, ou melhores maneiras de
descrever uma idéia já escrita.
Estas soluções e melhorias vão aparecendo no carro, no
cinema ou na casa de um amigo. Por isto, os artigos andam
comigo no meu Palm Top, para estarem sempre à disposição.
Normalmente, nas primeiras releituras tiro excessos de
emoção. Para que taxar alguém de neoliberal, só para
denegri-lo? Por que dar uma alfinetada extra? É abuso do seu
poder, embora muitos colunistas fazem destas alfinetadas a
sua razão de escrever.
Vão existir neoliberais moderados entre os seus leitores e por
que torná-los inimigos à toa? Vá com calma com suas
afirmações preconceituosas, seu espaço não é uma tribuna de
difamação.
4. Isto leva à regra mais importante de todas: você
normalmente quer convencer alguém que tem uma convicção
contrária à sua. Se você quer mudar o mundo você terá que
começar convencendo os conservadores a mudar.

Dezenas de jornalistas e colunistas desperdiçam as suas vidas
e a de milhares de árvores, ao serem tão sectários e
ideológicos que acabam sendo lidos somente pelos já
convertidos. Não vão acabar nem mudando o bairro, somente
semeando ódio e cizânia.
Quando detecto a ideologia de um jornalista eu deixo de ler a
sua coluna de imediato. Afinal, quero alguém imparcial
noticiando os fatos, não o militante de um partido. Se for para
ler ideologia, prefiro ir direto na fonte, seja Karl Marx ou
Milton Friedman. Pelo menos, eles sabiam o que estavam
escrevendo.
É muito mais fácil escrever para a sua galera cativa, sabendo
que você vai receber aplausos a cada "Fora Governo" e "Fora
FMI". Mas resista à tentação, o mercado já está lotado deste
tipo de escritor e jornalista. Economizaríamos milhares de
árvores e tempo se graças a um artigo seu, o Governo ou o
FMI mudassem de idéia.
5. Cada idéia tem de ser repetida duas ou mais vezes. Na
primeira vez você explica de um jeito, na segunda você
explica de outro. Muitas vezes, eu tento encaixar ainda uma
terceira versão.
Nem todo mundo entende na primeira investida, a maioria
fica confusa. A segunda explicação é uma nova tentativa e
serve de reforço e validação para quem já entendeu da
primeira vez.
Informação é redundância. Você tem que dar mais informação
do que o estritamente necessário. Eu odeio aqueles mapas de
sítio de amigo que se você errar uma indicação você estará
perdido para sempre. Imagine uma instrução tipo: "se você
passar o posto de gasolina, volte, porque você ultrapassou o
nosso sítio".
Ou seja, repeti acima uma idéia mais ou menos quatro vezes,
e mesmo assim muita gente ainda não vai saber o que quer
dizer "redundância" e muitos nunca vão seguir este conselho.
Neste mesmo exemplo acima também misturei teoria e dois
exemplos práticos. Teoria é que informação para ser
transmitida precisa de alguma redundância, o posto de
gasolina foi um exemplo.
Não sei porque tanto intelectual teórico não consegue dar a
nós, pobres mortais, um único exemplo do que ele está
expondo. Eu me recuso a ler intelectual que só fica na teoria,
suspeito sempre que ele vive numa redoma de vidro.
6. Se você quer convencer alguém de alguma coisa, o melhor
é deixá-lo chegar à conclusão sozinho, em vez de você impor
a sua. Se ele chegar à mesma conclusão, você terá um aliado.
Se você apresentar a sua conclusão, terá um desconfiado.
Então, o segredo é colocar os dados, formular a pergunta que

o leitor deve responder, dar alguns argumentos importantes,
e parar por aí. Se o leitor for esperto, ele fará o passo
seguinte, chegará à terrível conclusão por si só, e se sentirá
um gênio.
Se você fizer todo o trabalho sozinho, o gênio será você, mas
você não mudará o mundo, e perderá os aliados que quer ter.
Num artigo sobre erros graves de um famoso Ministro, fiquei
na dúvida se deveria sugerir que ele fosse preso e nos pagar
pelo prejuízo de 20 bilhões que causou, uma acusação que
poderia até gerar um processo na justiça por difamação.
Por isto, deixei a última frase de fora. Mostrei o artigo a um
amigo economista antes de publicá-lo, e qual não foi a minha
surpresa quando ele disse indignado: "um ministro desses
deveria ser preso". A última frase nem foi necessária.
Portanto, não menospreze o seu leitor. Você não estará
escrevendo para perfeitos idiotas e seus leitores vão achar
seus artigos estimulantes. Vão achar que você os fez pensar.
7. O sétimo truque não é meu, aprendi num curso de
redação. O professor exigia que escrevêssemos um texto de
quatro páginas. Feita a tarefa, pedia que tudo fosse reescrito
em duas páginas sem perder conteúdo.
Parecia impossível, mas normalmente conseguíamos. Têm
frases mais curtas, têm formas mais econômicas, tem muita
lingüiça para retirar.
Em dois meses aprendemos a ser mais concisos, diretos, e
achar soluções mais curtas. Depois, éramos obrigados a
reescrever tudo aquilo novamente em uma única página,
agora sim perdendo parte do conteúdo.
Protesto geral, toda frase era preciosa, não dava para tirar
absolutamente nada. Mas isto nos obrigava a determinar o
que de fato era essencial ao argumento, e o que não era.
Graças a esse treino, a maioria das pessoas me acha
extremamente inteligente, o que lamentavelmente não sou,
fui um aluno médio a vida inteira. O que o pessoal se
impressiona é com a quantidade de informação relevante que
consigo colocar numa única página de artigo, e isto minha
gente não é inteligência, é treino.
Portanto, mãos à obra. Boa sorte e mudem o mundo com
suas pesquisas e observações fundamentadas, não com seus
preconceitos.
Stephen Kanitz

Como Escolher Um Bom Palestrante
Um bom palestrante pode ser a diferença entre um evento bem sucedido ou não.
Nos Estados Unidos, o palestrante chave é chamado de key note speaker, o que
significa que ele dará o tom para todo o resto do evento.
Vale a pena escolher meticulosamente o palestrante que dará o tom inicial ao seu
evento porque ele pode criar um clima de aceitação favorável aos palestrantes
seguintes e às mensagens que se deseja transmitir.
Um palestrante inicial amador e inexperiente pode jogar por terra toda a
programação do dia.

Histórico de comprometimento e pontualidade
Este é um critério que poucos pensam em verificar, um famoso palestrante que
chega atrasado de nada serve.

Trinta por cento dos palestrantes que aceitam palestras sem remuneração,
acabam cancelando. A porcentagem para políticos e ministros é sensivelmente
maior.
Um publicitário pode achar interessante fazer uma palestra promocional. Porém,
se na véspera seu principal cliente o convocar, adeus compromissos com clientes
em potencial.
A regra de bolso nesta área é contratar alguém que costuma realizar pelo menos
30 palestras ao ano. Estes têm um nome a zelar.
Palestras para grandes públicos requerem preparação contínua e prática
constante. Como um bom cirurgião. Cirurgiões eventuais só mesmo para os
corajosos.

Autenticidade
Bons palestrantes falam do coração. Eles próprios pesquisaram o assunto no
mercado, não em livros acadêmicos. Reengenharia descrita pelo seu inventor é
uma palestra fantástica, bem diferente da de quem simplesmente aprendeu o