A imaginação surge, assim, como algo impreciso, situada entre dois tipos de

invenção – criação inteligente e inovadora, de um lado; exagero,
invencionice, mentira, de outro. No primeiro caso ela faz aparecer o que não
existia ou mostra ser possível algo que não existe. No segundo caso, ela é
incapaz de reproduzir o existente ou o acontecido. Com isso, nossas frases
cotidianas apontam os dois principais sentidos da imaginação: criadora e
reprodutora.
A imaginação na tradição filosófica
A tradição filosófica sempre deu prioridade à imaginação reprodutora,
considerada como um resíduo do objeto percebido que permanece retido
em nossa consciência. A imagem seria um rastro ou um vestígio deixado
pela percepção.
Os empiristas, por exemplo, falam das imagens como reflexos mentais das
percepções ou das impressões, cujos traços foram gravados no cérebro.
Desse ponto de vista, a imagem e a lembrança difeririam apenas porque a
primeira é atual enquanto a segunda é passada. A imagem seria, portanto,
a reprodução presente que faço de coisas ou situações presentes.
Por exemplo, se neste momento eu fechar os olhos, posso imaginar o
computador, a mesa de trabalho, os livros nas estantes, o quebra-luz, a
porta, a janela. A imagem seria a coisa atual percebida quando ausente.
Seria uma percepção enfraquecida, que, associada a outras, formaria as
idéias no pensamento.
Os filósofos intelectualistas também consideravam a imaginação uma forma
enfraquecida da percepção e, por considerarem a percepção a principal
causa de nossos erros (as ilusões e deformações da realidade), também
julgavam a imaginação fonte de enganos e erros. Tomando-a como
meramente reprodutora, diziam, por exemplo, que a imaginação dos artistas
nada mais faz do que juntar de maneira nova imagens de coisas percebidas:
um cavalo alado é a junção da imagem de um cavalo percebido com a
imagem de asas percebidas; uma sereia, a junção de uma imagem de
mulher percebida com a imagem de um peixe percebido.
A imaginação seria, pois, diretamente reprodutora da percepção, no campo
do conhecimento, e indiretamente reprodutora da percepção, no campo da
fantasia.
Por isso, na tradição filosófica, costumava-se usar a palavra imaginação
como sinônimo de percepção ou como um aspecto da percepção.
Percebemos imagens das coisas, dizia a tradição.
A tradição, porém, enfrentava alguns problemas que não podia resolver:

A imagem é diferente do percebido porque ela é um análogo do ausente. A percepção observa porque alcança as coisas. tem a imagem dela. ir “completando” o percebido com novos dados ou aspectos. Imaginar um livro é relacionar-se ou com a imagem do livro percebido ou com um livro ausente e inexistente. as pessoas. A imaginação. Pela imaginação. ao contrário. o imaginário ou o objeto-em-imagem. não olha para as manchas coloridas. ou correlato. A imaginação é a capacidade da consciência para fazer surgir os objetos imaginários ou objetos-em-imagem. a fenomenologia fala na consciência imaginativa como uma forma de consciência diferente da percepção e da memória. não observa o objeto: cada imagem põe o objeto por inteiro. para os traços reproduzidos no papel. perspectivas. Graças à imaginação. é inobservável.  Se uma pessoa apaixonada tem diante de si a pintura ou a fotografia da pessoa amada. Assim. somos capazes de distinguir nossa percepção e a imaginação de uma outra pessoa. A fe Distanciando-se da tradição. por exemplo. Assim. distinguimos o sonho da vigília. as pessoas. Perceber este livro é relacionar-se com sua presença e existência. que ainda não foi escrito e é apenas o-livropossível. Uma imagem. distinguimos perfeitamente a percepção direta de um bombardeio da imagem do que seria uma explosão atômica. Ao olha-la. não confundimos percepção e imagem. tenho de uma só vez a rua-em-imagem ou o edifício-em-imagem. num processo sem fim. podendo sempre enriquecer nosso conhecimento. cada um deles possui uma única face e é essa que existe em imagem. ? em nossa vida. por exemplo. as situações por perfis. Observar é jamais ter uma coisa. tendo como ato o imaginar e como conteúdo. abre-se para nós o tempo futuro e o campo dos possíveis. percebemos o sofrimento psíquico de alguém que está tendo alucinações. Assim. O filósofo francês Sartre dá um exemplo: quando imagino uma rua ou um edifício.? em nossa vida. mas torna presente a pessoa amada ausente. por exemplo. relacionamo-nos com o ausente e com o inexistente. sua presentificação. mas não somos capazes de alucinar junto com ela. mas cada uma delas é uma imagem distinta das outras. não confundimos perceber e imaginar. não presta atenção no trabalho do pintor nem do fotógrafo. faces diferentes que vão sendo articuladas umas às outras. ? em nossa vida. distinguimos um fato que vemos na rua da cena de um filme. . as situações. perceber aspectos novos. pessoa ou situação de uma só vez e por inteiro. diz Sartre.  A percepção observa as coisas. Podemos ter muitas imagens da mesma rua ou do mesmo edifício.

como na canção de John Lennon. Percebo a fisionomia da pessoa fotografada (o olhar. As modalidades de imaginação Partindo da diferença entre imaginação reprodutora e imaginação criadora. São dois estados de consciência simultâneos e diferentes. que presentifica o ausente por meio de imagens com forte tonalidade afetiva. Percebo a fotografia e imagino a pessoa amada. a imaginação pode criar um mundo irreal que julgamos melhor do que o nosso. 3. quando sonhamos ou entramos em devaneio. que cria os mitos e as lendas pelos quais uma sociedade. criam sentidos inexistentes ou presentificam o ausente. Quando a criança brinca.Em outras palavras. a preferência por certas roupas. a doçura do sorriso. imaginação reprodutora propriamente dita. o sorriso. um cabo de vassoura é uma espada-em-imagem. Esta imaginação tem forte tonalidade mágica. imaginação fabulosa. Aqui. assim. 2. por um lado. a . sua imaginação desfaz a percepção: todos os objetos. quando passamos definitivamente para o “outro lado”. de caráter social ou coletivo. É por isso que a imaginação tem também uma força prospectiva. as mãos. que ela é capaz de tornar ausente o que está presente (o armário deixa de estar presente). imaginação irrealizadora. a roupa) e imagino a sedução do olhar. um avental preso às costas é uma capa-em-imagem. como no sonho. oferecendo uma explicação para seu presente e sobretudo para a morte. É o que acontece. a imaginação que toma suas imagens da percepção e da memória. a ponto de recusarmos viver neste para “viver” imaginariamente naquele. ou como na invenção de uma teoria científica ou de um objeto técnico. isto é. que torna ausente o presente e nos coloca vivendo numa outra realidade que é só nossa. de tornar presente o ausente (o navio torna-se presente) e criar inteiramente o inexistente (a aventura nos mares). 4. um grupo social ou uma comunidade imaginam sua própria origem e a origem de todas as coisas. perdendo todo o contato com o real. Mas é também o que acontece todos os dias. Pelo mesmo motivo. mas remetem a outros sentidos. por exemplo. A imaginação é. todas as pessoas e todos os lugares nada têm a ver com seu sentido percebido. uma folha de jornal é um mapa-em-imagem. consegue inventar o futuro. na loucura. percebemos e imaginamos ao mesmo tempo. Imagine. um tapete é um mar-em-imagem. podemos distinguir várias modalidades de imaginação: 1. Um armário é um navio-emimagem. imaginação evocadora. uma capacidade irrealizadora. a sutileza dos gestos. isto é. no devaneio e no brinquedo. embora perceber e imaginar sejam diferentes. A força irrealizadora da imaginação significa.

Aqui. imaginação criadora. . combinam-se elementos afetivos. o justo e o injusto. como imagem prospectiva ou como possibilidade aberta. que inventa ou cria o novo nas artes. por exemplo] e promete uma vida futura feliz. o belo e o feio. após a morte. o tempo e a Natureza pela referência às divindades e aos heróis criadores. explica os males desta vida por faltas originárias cometidas pelos humanos [o pecado original. É a imaginação religiosa. o puro e o impuro. à memória. primeiro. às idéias existentes. o mortal e o imortal. nas técnicas e na Filosofia.imaginação cria imagens simbólicas para o bem e o mal. nas ciências. A imaginação criadora pede auxílio à percepção. à imaginação reprodutora e evocadora para cumprir-se como criação ou invenção. 5. intelectuais e culturais que preparam as condições para que algo novo seja criado e que só existia.