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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARÁ
CONSULTA DE PROCESSOS DO 1º GRAU
DADOS DO PROCESSO
Nº Processo:

0053736-44.2015.8.14.0000

Comarca:

BELÉM

Instância:

2º GRAU

Vara:

3ª CÂMARA CÍVEL ISOLADA

Gabinete:

GABINETE DE DESEMBARGADOR MARIA FILOMENA DE ALMEIDA BUARQUE

Data da Distribuição: 14/08/2015

DADOS DO DOCUMENTO
Nº do Documento:

2015.03138117-93

CONTEÚDO
SECRETARIA DA 3ª CÂMARA CÍVEL ISOLADA
AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 0053736-44.2015.8.14.0000
AGRAVANTE: LOWRENA RUY DEL PUPO
AGRAVADOS: MARKO – ENGENHARIA COMÉRCIO IMOBILIÁRIO LTDA e
INFINITY CORPORATE CENTER EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS SPE LTDA
RELATORA. DESª. MARIA FILOMENA DE ALMEIDA BUARQUE
CIVIL. CONSUMIDOR. PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. ATRASO DE OBRA. CLAUSULA DE TOLERANCIA.
NULIDADE. LUCROS CESSANTES À RAZÃO DE 1% DO VALOR DO CONTRATO. RECURSO A QUE SE DÁ PROVIMENTO.
1- A jurisprudência do STJ é pacífica no sentido de que, descumprido o prazo para entrega do imóvel objeto do compromisso de
compra e venda, é cabível a condenação por lucros cessantes. Precedentes.
2- Indenização a título de lucros cessantes calculada à razão e 1% do valor de cada imóvel previsto em contrato que se mostra
razoável.
3 - Cláusula de tolerância afastada diante da afronta ao art. 51 do CDC. Precedentes do STJ.
4 – Recurso a que se dá provimento, na forma do art. 557, §1º do CPC.

DECISÃO MONOCRÁTICA
Trata-se de Agravo de Instrumento, com pedido liminar, interposto por LOWRENA RUY DEL PUPO em face de decisão proferida
pelo Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e Empresarial da Comarca de Belém nos autos da Ação Ordinária c/c Reparação por Danos
Morais e Materiais, ajuizada em face da MARKO – ENGENHARIA COMÉRCIO IMOBILIÁRIO LTDA e INFINITY CORPORATE
CENTER EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS SPE LTDA, que indeferiu o pedido de tutela antecipada. Vejamos:
Declaro a inversão do ônus da prova à Requerida, por tratar de relação de consumo, havendo hipossuficiência da parte Requerente,
nos termos do art. 6º, VIII do CDC. INDEFIRO o pedido de tutela antecipada formulado nos autos, posto que a pretensão do
Requerente exige dilação probatória, sob o pálio do contraditório, restando ausente o requisito da verossimilhança exigido pelo art.
273, do Código de Processo Civil. Designo o dia 15/09/2016, às 09:30h para a realização da Audiência Preliminar, nos termos do art.
331, do Código de Processo Civil, ocasião em que será dada oportunidade às partes para conciliarem. Não havendo conciliação,
serão fixados os pontos controvertidos, decididas as questões processuais pendentes e demais atos previstos na legislação
processual.
Em suas razões recursais (fls. 02/14) afirma a agravante que não há necessidade de dilação probatória após o contraditório
estabelecido com a contestação dos réus, bem como que o objeto da tutela antecipada requerida está trazendo prejuízos diários,
estando assim presentes o fumus boni iuris e o periculum in mora.
Cita precedentes do TJPA.
Requereu, assim, a concessão de efeito liminar e, no mérito, o provimento do presente recurso, para reformar a decisão agravada.

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Juntou documentos às fls. 15/260.
É o relatório.
DECIDO.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do presente recurso.
Cinge-se a controvérsia recursal à verificação da presença dos requisitos autorizadores do deferimento do pedido de tutela
antecipada.
O artigo 273 do Código de Processo Civil expõe que:
Art. 273 - O juiz poderá, a requerimento da parte, antecipar, total ou parcialmente, os efeitos da tutela pretendida no pedido inicial,
desde que, existindo prova inequívoca, se convença da verossimilhança da alegação e:
I - haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação; ou
II - fique caracterizado o abuso de direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório do réu.
Extrai-se da leitura do supracitado dispositivo legal que para se conceder a antecipação dos efeitos da tutela é necessário a
visualização de prova inequívoca, que demonstre a verossimilhança das alegações, fundando receio de dano irreparável ou de difícil
reparação, bem como a reversibilidade da tutela antecipada.
A prova inequívoca se encontra no campo da certeza aparente, sendo efetivo elemento de convicção, se revestindo assim de grande
rigidez para sua configuração.
Atualmente, o entendimento que prevalece, tanto nos Tribunais estaduais quanto no STJ, é o de que o atraso na entrega de obra
enseja indenização por lucros cessantes. Nesse sentido:
PROCESSO CIVIL VENDA E COMPRA - IMÓVEL. ATRASO NA ENTREGA - LUCROS CESSANTES – PRESUNÇÃO
ANTECIPAÇÃO DE TUTELA PREENCHIDOS OS REQUISITOS CABIMENTO RECURSO IMPROVIDO.
I - O Superior Tribunal de Justiça tem jurisprudência pacífica no sentido de que, descumprido o prazo para entrega do imóvel objeto
do compromisso de compra e venda, é cabível a condenação por lucros cessantes. Nesse caso, há presunção de prejuízo do
promitente-comprador, cabendo ao vendedor, para se eximir do dever de indenizar, fazer prova de que a mora contratual não lhe é
imputável.
II - Não merece reproche a decisão que antecipou os efeitos da tutela, uma vez preenchidos os requisitos do art. 273 do CPC
III - Agravo de Instrumento conhecido e improvido.
(AI n. 201230011954, 1ª Câmara Cível Isolada, rel. Des. Leonardo de Noronha Tavares, ).
AGRAVO REGIMENTAL - COMPRA E VENDA. IMÓVEL. ATRASO NA ENTREGA - LUCROS CESSANTES - PRESUNÇÃO CABIMENTO - DECISÃO AGRAVADA MANTIDA - IMPROVIMENTO.

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1.- A jurisprudência desta Casa é pacífica no sentido de que, descumprido o prazo para entrega do imóvel objeto do compromisso de
compra e venda, é cabível a condenação por lucros cessantes. Nesse caso, há presunção de prejuízo do promitente-comprador,
cabendo ao vendedor, para se eximir do dever de indenizar, fazer prova de que a mora contratual não lhe é imputável. Precedentes.
2.- O agravo não trouxe nenhum argumento novo capaz de modificar o decidido, que se mantém por seus próprios fundamentos.
3.- Agravo Regimental improvido.
(AgRg no REsp 1202506/RJ, Rel. Ministro SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA, julgado em 07/02/2012, Dje 24/02/2012).
Diante disto, firmo o meu entendimento de que os danos materiais emergem não só do direito ao ressarcimento pelos valores pagos,
bem como a autora poderia ter usufruído caso o contrato tivesse sido cumprido, ou seja, os frutos com aluguéis que o imóvel poderia
render caso tivesse sido entregue no prazo do contrato, conforme entendimento do STJ, cujo aresto transcrevo a seguir:
COMPRA E VENDA. IMÓVEL. ATRASO NA ENTREGA - LUCROS CESSANTES - PRESUNÇÃO - CABIMENTO - DECISÃO
AGRAVADA MANTIDA - IMPROVIMENTO.
1.- A jurisprudência desta Casa é pacífica no sentido de que, descumprido o prazo para entrega do imóvel objeto do compromisso de
compra e venda, é cabível a condenação por lucros cessantes. Nesse caso, há presunção de prejuízo do promitente-comprador,
cabendo ao vendedor, para se eximir do dever de indenizar, fazer prova de que a mora contratual não lhe é imputável. Precedentes.
2.- O agravo não trouxe nenhum argumento novo capaz de modificar o decidido, que se mantém por seus próprios fundamentos. 3.Agravo Regimental improvido. (AgRg no REsp 1202506/RJ, Rel.
Ministro SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA, julgado em 07/02/2012, DJe 24/02/2012)
PROCESSUAL. ACÓRDÃO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. JULGAMENTO MONOCRÁTICO. INTERPOSIÇÃO. AGRAVO
INTERNO. APRECIAÇÃO. COLEGIADO. PREJUÍZO. AUSÊNCIA. CIVIL. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA. ATRASO NA
ENTREGA DO IMÓVEL. LUCROS CESSANTES. CABIMENTO. QUITAÇÃO PARCIAL.
PROPORCIONALIDADE. ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA. INEXISTÊNCIA.
I - A competência para julgar embargos de declaração opostos a acórdão é do colegiado que o proferiu. Contudo, se, por meio do
agravo interno, a impugnação acabou sendo apreciada pelo órgão competente, não ocorre prejuízo à parte, razão pela qual não se
declara a existência de nulidade. Precedentes.
II - A argüição de afronta ao artigo 535, incisos I e II, do Código de Processo Civil, deve indicar os pontos considerados omissos e
contraditórios, não sendo suficiente a alegação genérica, sob pena de aplicação do enunciado 284 da Súmula do Supremo Tribunal
Federal.
III - Conforme entendimento desta Corte, descumprido o prazo para entrega do imóvel objeto do compromisso de compra e venda, é
cabível a condenação por lucros cessantes. Nesse caso, há presunção de prejuízo do promitente-comprador, cabendo ao vendedor,
para se eximir do dever de indenizar, fazer prova de que a mora contratual não lhe é imputável. Não há falar, pois, em
enriquecimento sem causa.
Recurso não conhecido, com ressalva quanto à terminologia. (REsp 808.446/RJ, Rel. Min. Castro Filho, DJ 23/10/2006).
REGIMENTAL. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. LUCROS CESSANTES. PRECEDENTES. - Não entregue
pela vendedora o imóvel residencial na data contratualmente ajustada, o comprador faz jus ao recebimento, a título de lucros
cessantes, dos aluguéis que poderia ter recebido e se viu privado pelo atraso.
(AgRg no Ag 692543/RJ, Rel. Ministro HUMBERTO GOMES DE BARROS, TERCEIRA TURMA, julgado em 09/08/2007, DJ
27/08/2007, p. 223)

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Seguindo o mesmo entendimento, confiram-se as seguintes decisões monocráticas: REsp 1.121.214/RS, Rel. Min. Vasco Della
Giustina (Desembargador convocado do TJ/RS), DJe 26/04/2010; REsp 865417/PR, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJe
01/12/2009; Ag 897.922/PR, Rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, DJ 01/08/2007.
Neste sentido, entendo cabível o ressarcimento da demandante/agravante pelo que deixou de auferir, caso os imóveis tivessem sido
construídos e entregues no prazo do contrato, seja com a dispensa do pagamento do aluguel de outro imóvel, mesmo que não tenha
comprovado que nele ocupe, ou com a possibilidade de obter renda com o aluguel do próprio imóvel objeto do contrato de compra e
venda.
Portanto, considerando que os objetos do contrato de promessa de compra e venda são 4 unidades comerciais, com o valor de
mercado, à época da celebração do pacto em R$ 131.008,64 (cento e trinta e um mil, oito reais e sessenta e quatro centavos) cada,
conforme cópia do instrumento contratual, há necessidade da reparação material dos lucros cessantes que naturalmente advém
deste tipo de relação negocial, no montante de R$ 1.310,08 (mil trezentos e dez reais e oito centavos) para cada unidade imobiliária,
o que equivale a 1% do valor do imóvel, por se mostrar razoável para ressarcir a agravante de suas perdas.
Com efeito, de acordo com as disposições do artigo 47 do Código de Defesa do Consumidor ("As cláusulas contratuais serão
interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor") para interpretar-se que o prazo de tolerância da cláusula VIII – 8.2, do
contrato de promessa de compra e venda (fls. 70/82) deveria ter sido destinado apenas ao acabamento, aos preparativos finais para
a entrega do imóvel, isto é, para obras de arremate, não devendo ser um prazo tão excessivo como no caso em tela que foi fixado
360 (trezentos e sessenta dias) de tolerância.
Tal cláusula não pode se traduzir em uma prorrogação do prazo de entrega do imóvel, pois apenas autoriza no caso a construtora à
realizar obras de arremate.
Assim, o prazo de tolerância, não parece ser destinado a arremates da obra, mas sim uma forma de colocar o consumidor em
desvantagem excessiva, atribuindo à construtora uma prorrogação de prazo extremamente alongada e fora das margens do
razoável.
Nesta senda, referida cláusula serve para que a construtora possa vender seus imóveis aos consumidores prometendo uma
vantagem inexistente, qual seja, um prazo curto para entrega da obra, e ao mesmo tempo tenha um respaldo contratual de que seus
atrasos não irão ser punidos. Diz-se isso, porque ao oferecer no mercado o imóvel, os Agravados comprometeram-se a entregar as
unidades imobiliárias em julho de 2013 (cláusula VIII – 8.1 fls. 74), contudo, garantida por uma outra cláusula contratual, estende este
prazo de forma velada, desrespeitando o consumidor. Se queria ter um prazo maior, deveria a construtora ter estabelecido outra data
de entrega.
Entendo que tal cláusula contratual coloca a consumidora, ora Agravante, em desvantagem excessiva perante as Recorrida,
devendo, assim, os preceitos contratuais nela inclusos serem declarados nulos.
Por fim, quanto à nulidade de cláusula de tolerância de 360 (trezentos e sessenta) dias, entendo que esta afronta as disposições do

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art. 51, I, do Código de Defesa do Consumidor que assim dispõe:
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: I impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou
impliquem renúncia ou disposição de direitos (...).
Nesse sentido:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. ATRASO NA
ENTREGA DA OBRA. CLÁUSULA DE TOLERÂNCIA. ABUSIVIDADE. DESCABIMENTO DO PEDIDO ATINENTE À DEVOLUÇÃO
DA COMISSÃO DE CORRETAGEM. APLICAÇÃO DE ÍNDICE DE CORREÇÃO MONETARIA PELO INCC. APLICABILIDADE DA
MULTA CONTRATUAL EM FAVOR DO CONSUMIDOR. A cláusula de tolerância de 180 dias sem motivação para sua justificação,
coloca o consumidor, em desvantagem excessiva, devendo, assim, os preceitos contratuais nela inclusos serem declarados nulos.
O simples inadimplemento por parte da fornecedora de produtos e serviços de construção civil no tocante à entrega do imóvel na
data aprazada, sem justo motivo, já gera dever de pagar lucros cessantes correspondentes aos valores a que o consumidor poderia
auferir com o aluguel do imóvel não recebido
Ante o exposto, DOU PROVIMENTO ao presente recurso de agravo de instrumento, nos termos do art. 557, do CPC, para obrigar às
Agravadas ao pagamento de R$ 1.310,08 (mil trezentos e dez reais e oito centavos), por cada unidade imobiliária, a partir da data
limite da entrega dos imóveis, isto é, 01/07/2013.
Comunique-se ao juízo a quo.
P.R.I.C. Operada a preclusão, arquivem-se os autos.
Belém, 27 de agosto de 2015.

MARIA FILOMENA DE ALMEIDA BUARQUE
Desembargadora Relatora

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