You are on page 1of 7

EDUCAÇÃO DO CAMPO, MOVIMENTOS SOCIAIS E POLÍTICAS PÚBLICAS

MARIA ANTONIA DE SOUZA
Portanto, pensar a Educação do Campo significa evidenciar as práticas de sujeitos coletivos que educam e são
educados cotidianamente num contexto complexo de relações econômicas sociais e políticas
É a trajetória desses sujeitos que constitui o material empírico dos pesquisadores da Educação do Campo, que,
por sua vez, também são sujeitos centrais na luta social da Educação do Campo. Estão imbricados nesse
processo diversos níveis de conhecimento, desde os saberes produzidos nas práticas sociais do campo até
aqueles elaborados cientificamente no universo acadêmico. Isso ficou evidente nos dias de debates, durante o
Encontro em que a temática da educação das populações do campo apareceu sob diversas perspectivas teóricas.
PAG 86
Nossa construção será tanto mais sólida quanto mais estivermos próximos das práticas dos sujeitos coletivos,
garantindo, assim, que nossas pesquisas não “enviesem” a realidade. Recorremos a Frigotto para nos ajudar a
enfatizar essa preocupação
que o momento é fecundo para agregar pesquisadores que partilham matrizes teóricas diferentes, na luta da
Educação do Campo, sem perder o horizonte da empreitada: emancipação humana e transformação social
E a escola pública? Notamos que foi pouco debatida no coletivo. Ela está no cerne da Educação do Campo,
embora esta não se restrinja ao mundo escolar. Afinal, qual é a concepção de educação e de escola pública
predominante no movimento da Educação do Campo? Como analisar a escola pública, no contexto da luta pela
Educação do Campo? Um cuidado é imprescindível: a Educação do Campo integra a escola pública, embora
não se reduza a ela. A Educação do Campo integra e desafia a escola pública tal qual organizada historicamente.
Desafia o ritual homogêneo e fragmentado da organização do trabalho pedagógico 88

A escola pública foi construída mediante política governamental orientada por técnicos da educação. A
Educação do Campo emerge da práxis, que provoca a política governamental e possibilita novas experiências
de gestão e de trabalho pedagógico na escola. Entretanto, cabe perguntar se a Educação do Campo não está
ignorando experiências escolares e não escolares, que poderiam potencializá-la, em nome da transformação
social, em oposição à conservação.
A questão é: agregar as experiências que envolvem tais trabalhadores ou ignorá-las? Parece-nos que essa
interrogação está posta nos projetos governamentais oriundos das lutas dos Movimentos Sociais, da mesma
forma que a opção epistemológica desafia os pesquisadores.
A questão é: agregar as experiências que envolvem tais trabalhadores ou ignorá-las? Parece-nos que essa
interrogação está posta nos projetos governamentais oriundos das lutas dos Movimentos Sociais, da mesma
forma que a opção epistemológica desafia os pesquisadores.
Qual política orienta a Educação do Campo? 90
Talvez aí resida a concepção de política que norteia a Educação do Campo, ou seja, a política do movimento, do
grupo, da prática coletiva. No CPC, um pesquisador afirmou que aquilo que os Movimentos Sociais defendem
como política não é o que o Estado defende. Por exemplo, a Política Pública demandada, pensada, proposta
pelos Movimentos Sociais, quando chega ao Estado é transformada. Defende-se que a política tenha a forma e o
conteúdo que os Movimentos Sociais desejam. É nesse sentido que Nogueira (2001) nos auxilia a pensar que a
reforma da política e a própria reforma do Estado dependem da ampliação dos espaços societais, da força
política desses espaços e dos sujeitos que o compõem

vem sendo modificada pela prática social. em processo de indagação quanto à prática desenvolvida nas escolas do campo. lentamente. A pesquisa que se produz em Educação do Campo é fruto da práxis. os interesses da classe dominante expressos no paradigma dda educação rural e as contradições do modo de produção capitalista. a concepção de educação do campo valoriza os conhecimentos da prática social dos camponeses e enfatiza o campo como lugar de trabalho. p. a práxis é mais do que atividade. moradia. em essência. 2004). torna-se práxis criadora. as questões educacionais dos camponeses e trabalhadores rurais ficaram mais visíveis.) revolucionou a prática educativa. PRÁTICAS PEDAGÓGICAS E PRODUÇÃO CIENTÍFICA* Maria Antônia de Souza Em contraponto à visão de camponês e de rural como sinônimo de arcaico e atrasado. expressando as divergências políticas entre a concepção de educação rural pautada na política pública estatal e a concepção de campo pautada no debate empreendido pelos movimentos sociais de trabalhadores. Campinas. identidade. Percebe-se que a educação do campo apresenta heterogeneidade no que tange à prática educativa em sala de aula e à gestão da escola. Soc. diretores. possibilita o debate acerca da prática pedagógica nas escolas do campo. Nos anos de 1960. Nos anos de 1980.. 43). tal como definida por Vásquez. Com isso. lazer. Questiona. a história da educação brasileira mostra o predomínio de uma educação que objetivava “treinar e educar” os sujeitos “rústicos” do rural. 1999. 2008 Disponível em entendimento do que seja a escola estatal burguesa e a escola democrática popular.Podemos nos perguntar: são duas políticas que norteiam a Educação do Campo? A política dos movimentos e a política do Estado? O que se salienta é que a realidade social discutida no coletivo é vivida e pensada pelos sujeitos nele presentes. atividade vivida.ção de novas possibilidades de reprodução social e de desenvolvimento sustentável. com a ampliação do número de ocupações e assentamentos organizados no MST.. A própria academia vem. coloca professores. Ele destaca o papel do Estado no desenvolvimento da extensão rural e das preocupações com o atraso educacional que permeava o meio rural no início do século XX./dez. entretanto. do que fazer. vol. 1089-1111. práticas pedagógicas e produção científica Educ. enfim. 1093 (Andrade & Di Pierro. EDUCAÇÃO DO CAMPO: POLÍTICAS. secretarias de educação. set. A prática é atividade. e a política educacional se organizava em conformidade com os interesses capitalistas predominantes em cada conjuntura. como lugar da constru. São as histórias de vida que se encontram na produção de conhecimentos no interior da luta social. p. Na trajetória da educação rural. 29. 105. criando os métodos de educação popular. Ela. quando articulada a uma necessidade. . aos poucos. entre outros.. tendo por suporte filosófico-ideológico os valores e o universo sociolingüisticocultural desses mesmos grupos” (Leite. Sanfelice (2005) nos auxilia no 1092 Educação do campo: políticas. uma mostra de que a realidade. o homem do campo foi concebido como exemplo do atraso. A existência de um número reduzido de escolas e o trabalho com conteúdos caracterizados pela ideologia do Brasil urbano fizeram com que o movimento social iniciasse novas experiências e produzisse documentos mostrando as necessidades e as possibilidades na construção de uma política pública de educação do campo. n. pensada e transformadora. Freire “(. interessando-se pela prática desenvolvida pelos movimentos sociais do campo Leite (1999) nos auxilia a entender a diferença no uso das terminologias. sociabilidade. O movimento social questiona o paradigma da educação rural e propõe a educação do campo como um novo paradigma para orientar as políticas e práticas pedagógicas ligadas aos trabalhadores do campo. no Brasil.

ao afirmar. O lançamento do Programa Nacional da Educação na Reforma Agrária. acumulando experiências para a elabora. de forma que os filhos dos agricultores possam estabelecer articulação entre o conteúdo estudado na escola e a vivência na pequena propriedade Arroyo (1989) salienta a existência de uma pedagogia que vai além da escola. ribeirinhos e extrativistas. por exemplo. da Educação de Jovens e Adultos. tratada como educação rural na legislação brasileira. Na década de 1990. tem um significado que incorpora os espaços da floresta. evidenciando a necessidade da construção de escolas e da inserção das crianças no ambiente da educação formal. UNESCO) e entidades nacionais como a CNBB fortaleceram a luta pelo direito à educação e a valorização das experiências educativas do MST. da Ciranda Infantil etc. 1094 A emergência da educação do campo caracteriza-se pela ausência e experiência. foi fundamental para gerar a Conferência. da Pedagogia da Terra. A realização da I Conferência Nacional Por uma Educação Bá. p. encontros. das minas e da agricultura. a possibilidade de adequação curricular e metodologias apropriadas ao meio rural. demonstra a força dos movimentos sócia O marco da inserção da educação do campo na agenda política e na política educacional pode ser indicado a partir da LDB 9394/96. caiçaras. (Brasil. mais do que um perímetro não-urbano. ausência de técnico-agrícola. mas os ultrapassa ao acolher em si os espaços pesqueiros. demonstra o fortalecimento da educação do campo na política educacional. 1992). responsável pela organização e sistematização de propostas e práticas pedagógicas nas escolas localizadas nos assentamentos da reforma agrária e nos acampamentos. reafirmada nos encontros estaduais. propõem atendimento às necessidades escolares dos filhos dos pequenos agricultores. Ausência e experiência desencadeiam uma prática afirmativa da educação do campo. documentos etc.ção do Programa Nacional da Educação na Reforma Agrária (1998). em 1998. Organizam um projeto pedagógico com base na Pedagogia da Alternância. As Casas Familiares Rurais.A partir da criação do Setor de Educação (1987). a Associação de Estudos. Gohn. 1996.ria. A ação (experiências. vários estados organizaram projetos de Educação de Jovens e Adultos. que é organizada nos movimentos sociais. na prática social. na base. ausência de professores. com sustentação teórica na obra de Paulo Freire. Da ausência. no limite infra-estrutural e político local. nacionais e conferências sobre educação do campo. que tinha as estratégias políticas e a ocupação da terra como prioridades. as reflexões sobre práxis educativa foram ocupando espaço e gerando formulações sobre o movimento social como espaço educativo (Fernandes. emerge a experiência do Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (ITERRA). 1) .sica do Campo fortaleceu o processo de inserção da educação do campo na agenda política. com adequação do calendário escolar. da pecuá. Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. que desenvolvem projetos alternativos para as escolas do campo. É a ausência de escola. é um campo de possibilidades que dinamizam a ligação dos seres humanos com a própria produção das condições da existência social e com as realizações de sociedade humana. de professor com formação consistente para o trabalho nas escolas localizadas nos assentamentos.) anterior do movimento social. flexibilizar a organização escolar. As primeiras inquietações originaram-se em torno das crianças dos acampamentos e dos assentamentos. Posteriormente. O encontro entre entidades internacionais (UNICEF. na ação do movimento social. destacando que: A educação do campo. como o I Encontro Nacional de Educadores da Reforma Agrária (1997) e a I Conferência Nacional Por uma Educação Básica do Campo (1998). Orientação e Assistência Rural (ASSESOAR). nesse sentido. O campo. 2001. As discussões sobre educação do campo foram fortalecidas a partir das experiências do MST. Existem organizações sociais. em seu artigo 28. A educação foi conquistando lugar no interior do próprio MST. em especial na organização dos espaços públicos. o MST passou por um processo de fortalecimento na demanda e proposição de ações ligadas à política educacional.

reiteramos o nosso pensamento (Souza. destacam a presença da Secretaria Municipal da Educação e. a diversidade cultural e os processos de interação e transformação do campo. houve citação da presença de lideranças do MST. como já foi dito. p. o acesso do avanço científico e tecnológico e respectivas contribuições para a melhoria das condições de vida e a fidelidade aos princípios éticos que norteiam a convivência solidária e colaborativa nas sociedades democráticas. considerado como lugar de atraso. a educação do campo e o respeito às organizações sociais e o conhecimento por elas produzido. O planejamento é feito com base na proposta pedagógica da escola. particularmente. ibid. no estado do Paraná. na busca por uma educação pública que valorize a identidade e a cultura dos povos do campo. movimentos e organizações sociais. nos Parâmetros Curriculares Nacionais e também com base em aspectos da realidade da comunidade. universidades. composta pelos sujeitos coletivos que trabalham com a educação do campo e que dela se aproximam. Embora a concepção de educação do campo venha se fortalecendo nos últimos anos. numa perspectiva de formação humana e de desenvolvimento local sustentável. em um dos casos. é possível afirmar que a educação do campo se fortalece por meio de uma rede social. 1099 Os professores. predominantemente. de modo a articular os conteúdos escolares com assuntos ou experiências do cotidiano dos alunos. é importante destacar que existem professores que buscam uma prática pedagógica diferenciada. movimento sindical. secretarias estaduais e municipais de Educação. a educação do campo e o respeito às características do campo. a educação do campo como formação humana para o desenvolvimento sustentável. ele irradia o debate da educação do campo e atrai os sujeitos que com ela trabalham. ssim. na organização do ensino. responderam que o fazem segundo as orientações da Secretaria Municipal de Educação. que contribuem no momento do planejamento educacional. do assentamento. centros familiares de Formação de Alternância. a realidade do campo brasileir Assim. (Idem. Já a educação do campo expressa a ideologia e força dos movimentos sociais do campo. a educação do campo enquanto produção de cultura. a educação do campo na formação dos sujeitos. Ainda que o MST seja o sujeito forte na rede social. diversos municípios têm criado a coordenação da educação do campo e . Nos dois últimos anos. a gestão democrática. 2006) de que a concepção de educação rural expressa a ideologia governamental do início do século XX e a preocupação com o ensino técnico no meio rural.Propostas pedagógicas que valorizem. Quanto às orientações pedagógicas. Nessa rede encontramos ONGs. fortalecendo assim a sua própria atuação política na organização de uma proposta pedagógica que valoriza a "cultura camponesa" e que questiona as relações de classe que marcam.. vale destacar que a situação pedagógica e de infra-estrutura nas escolas públicas ainda é bastante precária ontudo. 25) 1097 PRINCIPIOS a educação do campo de qualidade é um direito dos povos do campo. a educação do Campo no campo.

trabalhos em grupos. trabalhos práticos. de fato. debates. Os PCN são citados como proposta. U Os professores indicam que há projetos escolares e que eles estão relacionados com a localidade: trabalho com hortas. plantio de árvores etc. Há um conflito a ser trabalhado no que se refere à cultura. pesquisas. embora o livro didático seja o instrumento central no trato dos conteúdos. Não há consenso do que seja uma proposta curricular. . rodas de conversas. leituras partilhadas. 1101 Metodologia de ensino Os professores destacam a presença de aulas expositivas.realizado momentos de forma.ção continuada que propiciam a discussão do planejamento do ensino nas escolas do campo. boa parte das reflexões produzidas pelos movimentos sociais sobre educação do campo não chega até aqueles que. embora sejam um documento que oferece indicadores para o desenvolvimento de uma educação na esfera nacional O professor da escola localizada no assentamento enfrenta o conflito entre organizar um conteúdo independente das orientações oficiais do Estado ou seguir os documentos e livros de sua escolha. ilustrações etc. hierarquia e burocracia escolares. Assim. datas comemorativas. fazem a realidade escolar. desenhos. fazendo as relações possíveis. leitura. conservação da água. Os professores dão relevância aos aspectos da comunidade e da realidade local na seleção dos conteúdos escolares. A produção educacional do MST não chega às escolas.

hoje. quando se deslocam. organiza as atividades. na transformação do homem do campo e de uma vida digna no meio rural. o que é reconstruído? Que valores passam a definir? O 1º Encontro de Pesquisadores de Educação do Campo realizado em Brasília. aqueles que residem em comunidades rurais possuem uma tradição: modos de vida. relação com o trabalho. O professor não tem de lidar com “sujeitos cognitivos em desenvolvimento”. aju da os alunos e julga seus resultados. mas com um grupo de crianças. 160 pag. finalidades e modos de vida. Isso significa que ele não pode apenas ser aquele que executa um programa. de comunidades rurais para assentamentos de reforma agrária. ou seja. regras morais. 77 Sua meta inicial estava voltada para a construção de um projeto educacional centrado na luta pela terra. . Talvez a presente pesquisa possa demonstrar a importância desse tipo de questão para a compreensão da educação do campo. (CHARTIER.. Esse campo de atuaçãose alargou e. Ao saírem desses espaços e formarem um outro grupo regido por outras regras. esse setor de educação está envolvido em várias outras frentes de atuação escolar que vai desde a educação infantil até a pós-graduaçao 81 éo professor quem conduz a turma.Os povos do campo. pois o sucesso de seus alunos depende da margem de iniciativa em que ele cria sua maneira de dar aula. p. 90 A SALA DE AULA . por exemplo. 2007. cada uma com sua história singular. em 2006. apontou dentre outros temas relevantes para pesquisas: qual a capacidade que os povos do campo têm de serem fiéis à tradiçãoe de modificá-la.

cadernos dos alunos. ou seja. As carteiras que sobravam na sala e que. ao fundo. dicionários e um globo terrestre. com uma etiqueta “Banco arqueológico”.O foco dessa turma era o desenvolvimento das práticas de leitura e de escrita. após a mesa da professora. em relação a 2006. tudo muito bem apresentável. ficavam amontoadas foram reorganizadas e distribuídas formando bancadas lat erais contornando a sala. Não eram realizadas atividades específicas com a turma que objetivassem alfabetizar. tanto em relação à estética qua nto em relação à organização dos materiais. era a organização das carteiras em fileira. essencialmente. Logo na entrada. 91 Naquele ano. a sala de aula estava totalmente diferente. . do outro lado da sala. uma primeira bancada com materiais pedagógicos. o desenvolvimento da leitura oral e a habilidades com a escrita. anteriormente. As interações Prof essora e aluno eram mediadas pelo texto escrito e objetivavam. expunha um conjunto de os sos de animais do assentamento. encontravam se pilhas bem organizadas de livros didáticos e um expositor c om livros de literatura. 92A terceira e última bancada dividia o espaço entre os armários e o quadro de giz. Nela. O que permanecia. Uma outra bancada. a aquisição do sis tema alfabético.