ego versus mundo

[notas para um programa da resistência]

óscar de lis

Resumo: Trata-se o tema conjunto do modo em que as ontologias som diluídas pola acçom global do mundo rizomático no que se insere o ego, bem como a necessidade de recuperar a solidez desses discursos ontológicos para a recuperaçom da eutopia.

Abstract: This paper tells the complex theme about the way ontologies are erased by the global action of rizomatic world where they survive, and also about the necessity of coming back to the firmness of these ontological discourses to approach the recuperation of the eutopia.

Oscar de Lis

Ego versus Mundo. Notas para um programa da resitência

I. Situaçom
Acontece que a pergunta pola identidade e a alteridade dos seres preside na altura algum dos locais mais fundos no que se refere aos temas do pensamento humanista após a amarga estadia no deserto da indefiniçom operada nos anos últimos. Assim, a ontologia como ciência, ou como subsistema na que ancorar ciências, adquire um protagonismo fulcral agora, justamente no tempo em que já nom habitamos mais um mundo abrangível, mas um plano metastável, quase caprichoso, no tempo em que a definiçom dos seres, dos materiais e dos imateriais (seres entom enquanto têm existência – nom apenas física), chega a ser condiçom indispensável para assentar qualquer outro conhecimento que aspire a ser referencial, a nom cair no embate da primeira lufada, da primeira negaçom. A definiçom do que as cousas som adquire assim a personalidade do urgente, e, no concurso das existências a definir, talvez a que maior presteza exige é a do próprio ego, o ser eu humano, ainda que “humano” seja apenas um qualificativo insulso e geral, só gramaticalmente comprometido, e,

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portanto, inútil. Mas, às dificuldades da relaçom de qualificadores que dessem lugar à plena compreensom do eu, na pós-modernidade soma-se o facto de, como já se relatou, na altura, as transitoriedades podem devir em regularidades e vice-versa, de modo a configurar um território da experiência extremamente líquido e móbil, no que, por suposto, assentar com firmeza qualquer convicçom sobre o eu (ou sobre qualquer outra cousa), pode chegar a constituir um exercício até estúpido. Já nom é possível, pois, após a revoluçom tecnológica vulgarizada, definir o eu como existência física quando a tendência é que os corpos comecem a ser metacorpos concibidos polas sistemáticas virtualizaçons de todo o que, no comum, os nossos devanceiros teriam denominado vida. E também nom ajuda a tam ilustrada aceleraçom do tempo (que converte os seres em apenas o resultado de um sendo), nem o seu consequente aplanamento dos picos do encefalograma colectivo, no que poderia ter-se denominado inércia face à memória de peixe. Quando os nossos antepassados podiam afirmar com a voz alta que eles eram os que ali estavam; quando até as fórmulas jurídicas de acusaçom se fundamentavam no habeas corpus; entom, talvez nom éramos mais felices, mas incluso as penas tinham um objectivo concreto, um fim ou um início que era a matéria (penava-se por algo

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concreto). Agora, nesta época de metastrutural que construímos, porém, a indefiniçom dos corpos talvez tenha muito a ver com esse sentimento geral de decadência, de mau pressentimento. O que se passou foi que, de um modo mais ou menos visível, se operou um passo de um sistema sólido (com as suas centralidades, direcçons, e um medianamente claro sistema de causa-consequência) a um formato que foi definido tout court de rizoma, onde todo princípio de ordenaçom físico é abolido e substituído por esquemas paralógicos, de modo que a indefiniçom reproduz a indefiniçom. Em consequência, já nom é mais válido definir-se mediante a presença física, que cada vez aparece mais desintegrada. Como seja, esta crise parece guardar fortes pontos de uniom com as novas capacidades tecnológicas de mobilidade: a aranheira digital que permite estar (ergo, ser) numha multidom e lugares. E de nada vai servir negar a evidência, tratar de restar-lhe validez a essas estâncias por nom serem físicas, quando a verdade é que mais logo acreditamos (porque convém) nas bondades da ubiquidade que oferece o virtual. Bem ao contrário, umha análise crítica, qualquer que for, deveria partir do reconhecimento de idêntico status para essas múltiplas formas de ser. E, sem embargo, a tendência existe: gostamos de dizer, como crianças que escondem as maos do delito, “eu nom fum”. Nom queremos reconhecer ainda na nossa presença nom-física aquilo que nós somos (ou cremos ser), a nossa identidade. Recentemente ainda ingressados à pósmodernidade, gostamos mais de acreditar na espécie de “seguro de identidade” que é o corpo do que em qualquer marca digital de nós próprios, o que provavelmente se deva à medida em que o direito nom se estabeleceu de modo expansivo no território nodal da rede, e o imperativo da segurança, que é possivelmente um mal entendido instinto de conservaçom, parece estar detrás dessa assunçom desse direito que outros julgárom opressivo. Mas isto nom é umha reflexom sobre os locais aos que levaria esta inércia concreta, mas sobre a capacitaçom intelectual do conceito de identidade, embora sendo esquizóide, por oposiçom ao da alteridade. Á margem das possibilidades que oferece o conjunto populacional, o primeiro outro que conhece o eu é o mundo. O eu topa-se, pois, sabendo que ele próprio está inserido num plano contínuo, se calhar numha malha, composta de partes indivisíveis de tempo e espaço (quatro dimensons). Ainda o confortável sistema lógico pode ajudá-lo a determinar que, se ele está, com efeito, a fazer parte de algo, tem, de necessidade, de ser diferente desse algo. O eu acha-se sendo umha realidade diferente do plano no que se insere, umha alteridade dele, do mesmo modo que, ao contrário, acha que esse plano contínuo é umha alteridade de si próprio. O erro

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cartesiano foi, se calhar, nom considerar que o facto do cogito devia estar dirigido a ou contra algumha realidade. A dúvida sistemática marrou ao considerar que todo, agás o pensamento, era prescindível. Mas nom. Algo mais deve subsistir para que haja pensamento. O pensamento deve, entom, dirigir-se a algo para nom cair no fatal económico de se pensar apenas a si próprio. Esse algo, entom, finalmente, apenas pode ser umha alteridade do próprio pensamento. De tal modo, tem-se que, após construir solidamente o conceito de identidade (nom podendo mais duvidar de que se duvida) a sua própria receita obriga a reabilitar a alteridade, embora esta seja, polo momento, fundamentalmente indecifrável. Ao fim, restaurados os contrários (identidade vs. alteridade), e acreditando na inexistência factível da umha sem o concurso da outra, bem como reconhecendo também que o ego é igualmente outro para o outro, faz-se impossível chegar a formular nenhuma definiçom absoluta do eu se isso significasse deduzi-lo apenas a partir de si mesmo. O ego vai ser, entom, só na medida em que seja possibilitado polo outro, o contra-ego ou metaego. Porém, esta certeza nom tem que implicar necessariamente um abandono na porfia de achar umha definiçom para o ego. Simplesmente implica que, nela, deve contar-se com a acçom de todo o que nom é ego. Devem ser investigadas, entom, as vias relacionais, vectoriais (tensoriais) do ego com o metaego (mundo) com a esperança fundamentada de que por esse caminho, com essa estratégia, é possível achar umha ontologia que, se nom for indestrutível, sim seja abondo sólida como para permitir a gerência doutras ciências que venham ter base sobre ela. Comprovada, ademais, a estetizaçom difusa dos mundos de ser, tal como fora definida por Brea, bem como a tendência ao espectacular e ao simulacro desenvolvida por outros teóricos do holocausto, o estudo do eu próprio em relaçom com o mundo deve dirigir-se à investigaçom sobre os modos estéticos de se lerem reciprocamente o ego e o metaego, entanto que é a maneira em que as respectivas identidades som captadas e interpretadas polas suas respectivas alteridades. Isto é imprescindível polo facto de essa maneira ir determinar, na maior parte das vezes, as condutas subsequentes. Mas diante de nada, a modo de circunscriçom, devem advertir-se, sequer em modo geral, as consequências que trouxo a própria estetizaçom denunciada. Primeiramente, se o mundo, definido de realidade, se dá ao ser eu humano baixo a indisciplina estética dos pareceres, do dúctil, do modulável e o mutável, respondendo a nem se sabe quais motivos conectados mediante a

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estrutura rizomática, entom, o próprio ser, o próprio ego, que é lido por si mesmo através dos mesmos canais que o metaego, irá aparecer igualmente plástico, a duras penas configurado mediante um cristalizarem-se arbitrariamente as interpretaçons sensoriais, isto é, de pareceres ou similitudes. Esta advertência reforça assim aquela certeza de que nom é mais possível definir o ego em ausência do mundo. Em segundo lugar, no passado tinha-se que este segundo princípio, o de advertir o eu apenas em correlaçom com o metaego, obrigava a criar qualquer forma de organizaçom ética das condutas porque elas agem (mesmo agora) também na percepçom do ego por si próprio. Na altura, em troques, a inconsistência e a indefiniçom como estado da questom do indivíduo castram essa possibilidade de um modo violento. Já se dixo, portanto: todo sistema de coordenadas, toda referência de actuaçom para o ser humano, sendo em singular ou no conjunto das comunidades, precisa urgentemente de umha definiçom instrumental de aquele ser, de aquele ego. Como já se sugeriu desde o socratismo simplistamente apropriado pola arrogância de ocidente, o conhecimento do mundo deve passar-se polo conhecimento de um próprio. O programa está, pois, claro: investigar as relaçons do ego com o mundo, e concluir nelas as qualidades do próprio eu, de modo a, mais logo, assentar nelas toda aspiraçom de construir um sistema ético aceitável, que nom derive de novo nesta crise existencial que ameaça com perpetuar-se. Ou será, em câmbio, que efectivamente o futuro do ego é sempre repetir como Sísifo mais um resvalar, saltando de crise em crise, morrendo de crise em crise? Sentada a base de que a definiçom do ego apenas pode lograr-se na sua relaçom como mundo, observa-se que nem todo o que comumente é mundo constitui um metaego relacional. É dizer, que o ego nom estabelece convivências com a totalidade da realidade que lhe é alheia, entanto nom está a fazer parte fundamental dele e vice-versa. Ao contrário, os tensores jogam apenas com umha parte mínima; e, mesmo no conjunto dessas convivências efectivas, que podemos denominar de comunidades, observarám-se diferenças de intensidade e ainda de sentido. Em qualquer caso, essas reunions sobre o plano mais ou menos fixo da comunidade agem de um modo concreto na operatividade do dispositivo que configura o ego: têm consequências, ainda nom sendo umhas consequências originadas polo simples movimento mecânico de pancas, polés e motores. Que as consequêcias nom podam ser conhecidas com antelaçom, seguindo-se umha cadência de pensamento mecanicista, nom quer dizer as relaçons de causalidade fiquem abolidas. Bem antes,

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só significa que, na estrutura rizomática do real, o indivíduo nom está capacitado para coligir onde está cada causa dumha consequência. Parece, entom, que a própria disposiçom do rizoma joga um papel fulcral no desenho da indefiniçom por quanto dela se desprendem, em grande medida, as dificuldades que atinge qualquer estudo relacional. Se há anos era habitual, como se dixo acima, que os devanceiros se definissem, estando, pola sua presença física comprovável, agora é simplesmente impossível. Os usos tecnológicos habilitam a ubiquidade, a prática omnipresença de um indivíduo em multidom de áreas, em tempo real. Ao simulacro do holograma apenas lhe resta ir além do simples desenho 3D, conferindo solidez física à imagem que se projecta, e talvez mesmo dotando-a de algum tipo de inteligência artificial que a cibernética nom está longe de popularizar. Parece que assim se abrisse mais umha porta, umha segunda oportunidade à obstinaçom humana no criacionismo. Mas cumpre regressar ao centro da questom: as relaçons ego versus mundo. Cumpre,

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com efeito, delimitar esse mundo em base à intensidade dos vectores de relaçom tendidos entre essas duas realidades. Diria-se, entom, que existe umha porçom de mundo que é apropriada polo indivíduo, à vez que umha outra porçom, muito maior em termos apenas quantitativos, com a que o ego guarda umha mínima convivência, um mínimo reconhecimento cortês. Por questons puramente funcionais, fazendo ambas as porçons parte imprescindível do mundo, chamaremos aquela mais próxima ao ego segundo a terminologia antropogeográfica ratzeliana de Lebensraum (espaço de habitaçom, vaziado de toda referência fascista posterior). O Lebensraum é, pois, o território da experiência para o ego, o âmbito de actuaçom cultural que fica dentro dos limites siderais do resto do mundo, sem que haja fronteira forte nem fixa, mas umha leve linha divisória que circunvale esse espaço vital onde operam os vectores convivenciais e onde, ademais, a difusividade que caracteriza o universo parece minguar de modo inversamente proporcional à força de impacto das tecnologias da ubiquidade. Destarte, nesse Lebensraum, mundo próximo, realidade vizinha, o indivíduo apercebe as alteridades dotadas dumha maior fisicidade, e tende assim a lhes outorgar também maior realidade, maior credibilidade, o que se deve a que ainda sobrevive nele o instinto de o apalpar todo, de nom confiar cegamente na visom (do modo em que ainda as crianças tendem a introduzir os objectos na boca). Nesta certeza, portanto, deve fundamentar-se de modo claro toda política posterior: em privilegiar abertamente o tendido de laços no interior do espaço de residência do

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ego, no seu Lebensraum. Vectores tendidos nesse espaço habitacional irám estimular um acréscimo sensível no transvaze das afectividades, que podem à sua vez ser consideradas como convivências positivas sem que seja necessário ter desenvolvido previamente nenhum sistema ético. As afectividades passam-se, pois, a designar as relaçons onde o produto fornece qualquer tipo de benefício natural para os estremos vectoriais sem que se siga necessariamente um dano a terceiros. Talvez na fortaleça desses tensores esteja, finalmente, a soluçom à alienaçom pós-moderna, embora seja esta umha fraca esperança. Mas cabe ainda umha outra regiom onde os vectores relacionais têm maior presença do que no resto do mundo: trata-se das comunidades imaginadas ou naçons definidas por B. Anderson, cuja qualidade imaginária se justifica pola impossibilidade factual de um indivíduo conformante manter relaçons com todos os membros dessa mesma comunidade, a pesares do qual subsiste um certo nível de reconhecimento expresso entre a identidade desse indivíduo com as suas alteridades co-nacionais sobre a base do compartilhar-se das culturas. À margem de disquisiçoes de graus e fronteiras, a análise dos tensores, em

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consequência, deve centrar-se de preferência naqueles onde se observa maior transvaze de afectividades. Portanto, será nos que teçam a malha funda do Lebensraum. Joga-se aqui com a teoria polissistémica que possibilita a existência de vários desses âmbitos de vizinhança. Tal marco referencial permite, ademais, gerir umha mínima ordenaçom no rizoma: estabelece prioridades nos processos relacionais, de modo que para o ego alguns dos tensores ganham importância em comparaçom com outros. Em termos de presente, os tensores categóricos família, amizades, relaçons amorosas-sexuais, emprego, etc. apresentam um maior índice que comunicaçom e, derivadamente, os dados achegados por essas vias têm um impacto maior na configuraçom estrutural e condutual do ser, tal como foi apresentada na pirâmide de Maslow. Isto, que foi tam lógico e previsível para os psicólogos pré-virtuais, entra agora, porém, num momento crítico com o parcelamento imposto à vida do indivíduo. E aqui as culpabilidades som dissímeis. A comunidade, compreendida como âmbito relacional primário obriga a um fortalecimento constante dos tensores. Mas as comunidades inserem-se hoje em complexos maiores, em marcos nomeados de sociedades, onde ordenam e se orçamentam outros parâmetros, outros interesses. Começa-se inicialmente por dividir obrigatoriamente em trechos de oito horas o tempo vital, por abolir consequentemente o conceito de família extensa,

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substituindo-o pola sua fórmula nuclear, agora também em crise. Ao processo adiciona-se a disciplinar delimitaçom foucaultiana dos espaços, parelha à do tempo, de modo que o plano de toda relaçom, o conjunto tempo-espaço, fica partido por fronteiras que, procedendo da lógica dos réditos, deixam órfao ao ego das referências inelidíveis com as que contava. A história remata-se, finalmente, com a criaçom supressiva dumha realidade especular, superficialmente idêntica, profundamente divergente. O que alguém denominou pós-história é, na realidade, o resultante da substituiçom do plano referencial para o ego: a crise do tradicional seguiu-se com o oferecimento empresarial dum novo mundo em cuja promoçom se exibem, como doces, liberdades sem limite, perspectivas infinitas que nem só som alheias à territorializaçom deleuzeo-guattariana da realidade, mas claramente hostis. Se hoje os sociólogos som pessimistas ante a despesa dos processos de comunizaçom, provavelmente se deva a que aquele mundo especular parece mais atractivo. É inegável que os tensores que configuram a malha das comunidades diversas onde

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habita o ego têm capacidade para reportar uns benefícios naturais que nom podem ser transmitidos polos canais vectoriais que unem o próprio ego com outros locais relacionalmente mais afastados. Isto significa exclusivamente que, nas ligaçons mais compenetradas (mais fortes), cabem aquelas afectividades que se dam para o ego num intercâmbio justo de benefícios. Quer dizer, onde o ego ganha do metaego na medida em que essa ganância se produz também à inversa. Nom se trata aqui de qual identidade da mais nem de qual alteridade recebe menos: o peremptório é que o bem de intercâmbio seja igual ou equiparável, de que se estabeleça o que os psicólogos chamam empatia. Porém, nas ligaçons mais afastadas, as que unem pontos comunicacionais mais débeis ao agirem nos âmbitos vitais alheios que som inerentes ao rizoma, o bem de intercâmbio converte-se em mercadoria de transacçom. Já nom é mais umha relaçom de troco de afectividades, mas de aluguer de produtos, com o que o benefício natural (afectividade) real que se desprende para as partes é, no mínimo, escasso. Ainda se diria mais: neste modelo clientelar, as afectividades som preferentemente interditadas. Prefere-se umha tendência alexitímica, por mais que nos últimos anos se tenha posto de moda o conceito de valor engadido do produto, que é exactamente um tipo de afectividade insossa. As ligaçons afastadas, no que poderia chamar-se de regime de estrangeirice por quanto nom fam parte do Lebensraum, caracterizam-se, ademais, por constituírem um tipo relacional desequilibrado, onde o valor do produto é unilateralmente fixado e onde, ao fim, o

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objecto de transvaze é apenas o produto desafectivizado, desumanizado, que o tramado empresarial está a potenciar baixo umha publicidade falaz e perigosa. Com efeito, acima dixo-se que os vínculos relacionais de vizinhança tinham umha carga de afectividade evidente (porquanto som assim definidos por ela). Mas isso nom quer dizer que os vínculos relacionais clientelares careçam absolutamente dela. O rizoma, neste caso análogo à sociedade (por oposiçom à comunidade), dispom dos seus próprios meios de influência sobre a configuraçom interna da identidade: as pedagogias extensivas, que vam além da constataçom mais reduzida e intensiva dos aportes afectivos. Opera-se, assim, um salto desde a psicologia egoísta ao tratamento da mentalidade da massa, apenas expressável mediante inquéritos de intençom e diagramas de fluxo, mas tendencialmente modulável. Os modelos pedagógicos em uso trabalham como ferramentas para a eficaz imersom final da populaçom de indivíduos, maré informe, nas regras operativas do contraego, sob ameaça de ostracismo ou directamente penal. Daí que o potenciado seja, na altura, o padrom de bancarizaçom dos conhecimentos transmitidos. Os educandos, tal como fora sugerido por P. Freire (1969) e outros pedagogos da desopressom, estám inefavelmente ligados a um sistema que contempla só um exercício acumulativo de dados, que prioriza a quantidade sobre a qualidade e que, entom, considera apenas critérios económicos. Comparte, assim, a mesma inveja geográfica do rizoma: atingir a maior superfície possível, embora sendo a costa da profundidade. Consequentemente, as áreas de conhecimento partilham-se com o fim de expandirse, de rendibilizar-se exponencialmente, muito acima do máximo sustentável: a cultura, que é emanaçom dos vínculos entre indivíduos dumha mesma comunidade imaginada, é posta a produzir benefícios económicos no modo em que foi descrito por E. Rodríguez (2003). Em consequência, o que se persegue nom é mais umha ciência da profundeza, que apenas pode atingir-se em respeitando as relaçons interdisciplinares nom clientelares, em certo modo afectivas, que som a base de qualquer tipo de avanço cultural. Bem antes, prefere-se umha rendibilidade predadora que se passa necessariamente pola anulaçom da capacidade de agirem os indivíduos entre si, e claramente, entom, polo desrespeito face esse livre desenvolver-se das ligaçons entre as áreas do conhecimento. Todo, portanto, é subsumido no nível da produçom clientelar, e qualquer relaçom afectiva, portanto nom rendível como clientelismo, é deslegitimada baixo os cargos jurídicos de sabotagem, resistência e desacato da autoridade. Nom se trata, porém, de vogar como pigmeus contra a rítmica maré das autoridades titânicas, mas de discernir, no

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mínimo, entre as autoridades afectivas que tendem a se dissiparem motu proprio, e aquelas outras de signo transaccional cuja pretensom nom é em nenhum caso o livre troco de emotividades, mas a perpetuaçom fac-símile e sem fim. De regresso, a bancarizaçom dos dados que rege no sistema educativo de todo estado moderno e pós-moderno explica, ademais, umha das consequências do agir o mundo contra o ego: a desligaçom entre ego e mundo quando o mundo deixa de se dar para o indivíduo em forma de relaçons epistemológicas e o seu conceito passa a construirse sobre a base de especulaçons virtuais afuncionais que carecem das propriedades afectivas do háptico. Produz-se, entom, um estranhamento efectivo entre os complexos ego e mundo, e formula-se invariavelmente a teoria do ego versus mundo. E nisto têm muito a ver as ameaças potenciadas pola sociedade perpetuativa: ostracismo, cárcere ou pena de morte som apenas graus da mesma condena, da mesma estratégia antibiótica se se considera o conceito de biopoder foucaultiano. É certo que nom se habita já o mundo do disciplinar, mas nesta nova versom, no monstro, no controle denominado por Burroughs, a operatividade punitiva do império nom decresce. Bem antes, aumenta qualitativamente: novas tipologias de puniçom som inventadas e desenvolvidas sem sombra de reparo por um poder, umha alteridade que se orgulha em carecer de rosto e ser, por isso, nom identificável. Nom é mais possível negar a achega em forma de afectividade do referente social, mas ainda deve diferençar-se claramente o carácter dessa afectividade oposta àquela que se definiu para as relaçons de vizinhança: aqui, longe de constituir benefício natural positivo, a matéria relacional é mais sinistra, imparcialmente negativa porquanto ameaça, de modo que pode passar-se a falar de ilaçons de hostilidade por oposiçom às ilaçons de afectividade e de neutralidade. Insiste-se, de qualquer modo, no facto de que estes qualificadores nom dependem em caso nenhum de um sistema moral ou ético, mas dumha comprovaçom fáctica que tem como unidade de mediçom o benefício natural. Mas cabe ainda outro molde, quiçá a meio caminho entre os dous anteriores, porquanto trabalha na indefinibilidade do rizoma, mas com objectivos similares ao Lebensraum. Com efeito, o novo comunalismo parece discorrer, embora noutros termos, polo mesmo eido: o do compartilhar do conhecimento global (general intellect) com o fim de criar e implementar aprimoramentos que revertam de modo fundamental no substrato das comunidades comunicacionais. Desde os projectos neocooperativistas ao software livre, passando-se pola democratizaçom factual das

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capacidades de expressom (que pouco têm a ver, porém, com o direito de expressom porquanto os governos “garantem” o direito, mas nom a capacidade), o que se detecta é umha corrente de baixa intensidade, que em tempos seria chamada movimento, que se abre passo como umha terça via. O novo comunalismo nom se gera obrigatoriamente sempre sobre tensores afectivos de vizinhança, senom que pode operar em distâncias longas, em amplitudes largas mais próprias do rizoma e da virtualidade. E ainda se caracteriza por mais umha diferença fulcral: a sua intensidade relacional descontínua, que segue umha estrutura ondulatória com altas cristas que significam altos graus de relacionamento, e com pronunciados vales que podem ler-se quer como um aprazamento ou inactividade concreta da comunicaçom quer como umha desconexom final entre dous pontos (portos) que nom têm mais a se oferecerem; desconexom que também se dá para os tensores de cercania, mas que é o pior dos fados desde o ponto de vista dos tensores clientelares. Doutra banda, também o objecto de transvaze é diferente do que nos modelos anteriores: se no rizomático o que se comerciava era o produto desumanizado (produçom superficial, horizontal), e no Lebensraum os réditos som essencialmente humanos (produçom vertical que nom deve confundir-se com o humanitário), o que se transmite aqui é um bem operacional, instrumental. Umha ferramenta que, nom sendo de por si definível no contorno dos benefícios humanos, tem como funçom principal a de ajudar a intensificar e incrementar o impacto dessas afectividades. Trabalha, polo tanto, à vez, em sentido vertical e horizontal.

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II. Percurso
Sem pretender derivar nas especificidades relacionais do clientelar, o intensivo descontínuo e o Lebensraum, aceita-se, em modo geral, que o modelo que mais tem a ver com a configuraçom qualificativa e condutual do ego é aquele onde os tensores som mais grossos, aquele que favorece as relaçons de proximidade. Logo, longe de cair na tentaçom de pensar contra a instauraçom obrigada do clientelismo rizomático como modulaçom de base, o que se pretende é, após a apresentaçom do marco de acontecimentos e tendências, investigar algumha estratégia que vise recuperar, no mínimo, o nível de ontologizaçom que se tem referido para as alteridades, outros egos, que noutrora habitaram a terra. Aceita-se, também, que qualquer processo assim ou similar deve passar-se, de necessidade, por um incremento das relaçons que incorram nalgum tipo de afectividade, e/ou naquelas que traiam ferramentas de implementaçom das mesmas. Este mesmo objectivo, que é sinónimo do crescimento

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interior e que tantas vezes foi acusado de bagatela orientalista ou de romanticismo new age pola mal entendida racionalidade ocidental (que é império, nom se esqueça), está a ganhar, porém, cada vez mais, a materialidade do factível, do mais do que possível; e os derradeiros estudos em psicologia da emoçom confirmam as suspeitas: as relaçons com o metaego nom som apenas racionais, mas umha combinaçom concreta de lógica e empatia, definida pola recente psicologia emocional a estudar a capacidade do ego para conectar animicamente (pathos) com a alteridade, habilitando, assim, umha maior predisposiçom à comunicaçom da experiência, dos dados vitais que materializam no próprio ego aqueles que serám os qualificadores a contribuírem à sua ontologizaçom subjectiva, porquanto nom é possível qualquer percepçom estrita do outrem, mas apenas percepçons subjectivas que se esforcem, segundo seja requerido, por um grau aceitável de imparcialidade. A empatia perfila-se, em consequencia, como sistema de relacionamento básico entre o ego e os seus mundos comunicacionais (mundos de vida), como veículo da ligaçom da identidade com toda essa alteridade em diversos graus de descomposiçom, em distintos estádios de liquaçom, como já se expujo. As identidades adquirem, polo tanto, a sua ontologizaçom ao desenvolverem no plano referencial a sua própria construçom discursiva, de maneira que poderia dizer-se, a jeito de sinónimos, que o indivíduo nom é configurado em tempo finito, mas configurante (presente) e configurável (futuro) mediante a solidificaçom dos benefícios e prejuízos que adquire da comunicaçom e, o que é mais importante, mediante a cristalizaçom da dissimilitude entre o que é percebido como ego e aquilo que o é como contraego, a fazer parte do exterior. Em resumo, a construçom identitária cimenta-se no uso de qualificadores diferenciais que segregam mais ou menos claramente o que faz parte constituinte do ego e o que nom se passa de umha simples condiçom físico-mecânica do tipo da lei gravitaçom universal. Mas essa fronteira que apenas funciona mais ou menos claramente é, à vez, mais umha advertência sobre o que já foi exposto polos detractores deleuzianos da crise do espaço de habitaçom. Conclui-se, de todos modos, que a empatia pode igualmente referir-se a reacçons possitivas ou negativas perante os estímulos (dados sensoriais captados do rizoma), já que ela é só um veículo que possibilita melhores ilaçons entre portos emissores, e carece, destarte, de qualquer tipo de presença ética ou moral que qualifique esses dados. Isso é trabalho pedagógico, o que confirma, neste mundo global, que a complexidade do mundo entra também a fazer o seu papel na configuraçom do ego, como já se dixo.

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Aceitada a presença irrenunciável da empatia como meio comunicacional, e desenvolvidas as características dos mundos evidentes que concorrem à configuraçom do ego por acçom do contraego, cabe apenas determinar no que consiste a determinaçom nom mecanicista de privilegiar umha via relacional sobre outra, se, com efeito, se rejeita a capacidade de intervençom ética da empatia. Mergulhar-se nesse aspecto poderá explicar, também, a própria tendência antibiótica que se tem assentado na praxe condutiva dos indivíduos pós-modernos do correr loucamente face à desconexom fatal das suas comunidades imaginadas, para ingressar, finalmente, à massa informe da indefiniçom estrita. Nom é mais possível acreditar numha vontade como capacidade humana que vaia agir e gerir a conduta de um modo independente, fora do imperativo ambiental que já foi descrito polo materialismo. O homem a fazer parte do meio e vice-versa, proporcionadamente. A descriçom dos tensores relacionais prova mesmo isto e nega, à vez, qualquer efeito dum pretenso livre alvedrio absoluto que fora paladim de batalha do pensamento religioso e positivista. A vontade define-se, em todo caso, como aquela capacidade de preferir ou potenciar a acçom dum tensor determinado sobre a base de espectativas. A isso se dirige, de preciso, a fórmula publicitária ao activar os mecanismos do desejo, nom é novidade: procura-se em todo momento nem já anunciar a existência dum consumível, mas criar a necessidade dumha marca, dum logo que satisfaz espectativas criadas só na medida em que som atingíveis pola própria marca, que é, à sua vez produto, mas um produto intelectualizado, desmaterializado, resumo simbólico do mercável e, em todos os casos, seiva da vontade predadora. De diferente signo (desejo é diferente da vontade), mas operativamente idêntica, a voliçom positiva, aquela que seria identificada com a vontade de construçom e mantimento das cordas da comunicaçom, opera no sentido oposto: é atraída pola demonstraçom fáctica do contacto, e nom assim pola sua promessa escópica, puramente visual e sem peso. Ademais, o contacto efectuado segundo o imperativo da vontade é para se ligar o ego com umha outridade, percebida como emissor de dados da experiência, de vida. Topa-se cá, assim, outra esperança a minguar: a de o ego continuar a preferir a comunicaçom com alteridades emissoras (outros egos), acima das alteridades consumidoras que som os espectros dos produtos. Por alteridades consumidoras está-se a referir o facto de que elas estám a criar necessidades que dirigem a conduta dos egos. Isto é fulcral porque a conduta, o conjunto programático que resulta da gerência do próprio ego, é também

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material de retroalimentaçom para ele. O ego tem também a habilidade de perceber o seu programa condutual, que adquire, pola sua vez, capacidades descritivas, de modo a reforçar a percepçom que de si tem o eu. No mundo do consumo, isto significa apenas que o ego se vai topar sempre como sendo predador, e tal percepçom tem via livre para crescer consecutivamente até devir verdade universal. Se os apocalípticos atacam o excesso de poder da industria do desejo, que é industria da consciência em certo modo, é porque o tal panorama se oferece singelamente desolador, porque à idade da decadência que se reconhece para o hoje se lhe presupom umha idade da morte na que só resta concretizar se ela virá de acidente ou de puro suicídio.

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Em conclusom, atingir qualquer tipo de ré-ontologizaçom deve ser possível se, antes, é contravindo o abuso desterritorializador das alteridades clientelares com um reforço geral dos tensores relacionais de vizinhança. Tal reforço deve exigir-se na

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formaçom dos programas políticos que estám a vir à renovaçom do modelo também clientelar de Estado e Partido. Os próprios conceitos de Estado e Partido, respectivamente como sociedade e autoridade de direcçom, devem ficar abolidos após ter sido provada a sua participaçom nos programas de desterritorializaçom, na sua multidom de formas, regenerando assim as ontologias do que será determinado, por oposiçom, como comunidade e anarquia operativa, onde as únicas disciplinas a obedecer sejam o renovado conceito do bem-estar comunal e as leis físicas às que é impossível, se nom desnecessário, subtrair-se.

Oscar de Lis Estrada, Compostela – Galiza, junho de 2007