Dezembro 2009

Inovação
www.valoronline.com.br

MICRO E PEQUENAS

EMPRESAS

MOvIMENTO
Governo, universidade e empresa agindo em sincronia para correr atrás do prejuízo e criar um ambiente de inovação

unIfoRME

COMO AGÊNCIAS DE FOMENTO FINANCIAM P&D NAS EMPRESAS

TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA PARA O MERCADO
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cARtA Ao lEItoR |

SIStEMA nAcIonAl dE InovAção
or muitos anos, principalmente durante o período de substituição de importações, a maior parte das empresas brasileiras operava tecnologias importadas e maduras. A capacitação necessária para usar essas tecnologias era considerada relativamente fácil. Por isso, não se requeria ou estimulava, de forma efetiva, a geração de novos conhecimentos. Esse cenário está mudando. Desde o início do século XXI, o país colocou na pauta de suas políticas públicas a inovação. O lançamento do Livro Branco, em 2002, com as estratégias para o sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação foi um marco. Antes disso, no final dos anos 90, a implantação dos fundos setoriais já foi um demonstrativo de que o país começava a se preocupar com o desenvolvimento de tecnologias nacionais. O marco legal veio com a regulamentação da Lei 10.973, em 2004. Esses mecanismos lançados pelo governo federal buscam criar um ambiente adequado para que as empresas inovem, principalmente enfatizando programas cooperativos entre setor produtivo e Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT). O governo não é o único agente na estruturação de um sistema nacional de inovação. As universidades e os centros de pesquisa também são peças importantes nesse processo, principalmente no Brasil, onde 80% dos pesquisadores estão nessas instituições. Além das ICT, incubadoras de empresas e parques tecnológicos, que têm a inovação como razão de ser, atuam muitas vezes na estruturação de sistemas locais de desenvolvimento econômico e social. No país, existem 377 incubadoras e 74 parques, que já incubaram 6 mil projetos inovadores. No centro de todo esse processo estão as empresas. De acordo com a última Pesquisa de Inovação Tecnológica realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 33,4% das empresas industriais brasileiras fizeram algum tipo de inovação em produtos ou processos entre 2003 e 2005. O primeiro número do suplemento Valor Inovação traz informações de como o Brasil está estruturando seu sistema nacional de inovação e como a sociedade está lidando com os mecanismos lançados pelo governo para a criação desse ambiente. As estratégias e políticas são pensadas em longo prazo, mas existe urgência em tratar sobre o tema e entendê-lo cada vez mais. Boa leitura!
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P

Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Comunicação e Expressão Departamento de Jornalismo Trabalho de Conclusão de Curso Reportagem e diagramação: Cora Dias Orientação: Prof. Tattiana Teixeira Fotos: Caroline Mazzonetto, Claudio Bezerra, João Luiz Ribeiro, divulgação. Ilustração da capa: João Pedro Agnoletto Cardoso Impressão: Copicenter Florianópolis, dezembro de 2009

ÍndIcE|

SIStEMA nAcIonAl dE InovAção
País quer consolidar política nacional de ciência, tecnologia e inovação e está em busca da independência tecnológica.

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fInAncIAMEnto
Agências de fomento subsidiam pesquisa e desenvolvimento nas empresas, para dividir os riscos inerentes ao processo inovador.

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unIvERSIdAdE
Transferência de tecnologia para o setor produtivo e garantia de proteção da propriedade intelectual é o papel desempenhado pelos Núcleos de Inovação.

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PARquES tEcnológIcoS
Investimento em formação de recursos humanos é ferramenta estratégica para a ecnomia do conhecimento.

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InovAção AbERtA
Realizar pesquisa em parceria traz benefícios para grandes e pequenas empresas como redução de gastos em P&D e acesso a novos mercados.

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SIStEMA nAcIonAl dE InovAção | POR CORA DIAS

PAÍS SAI EM buScA dA Ind
inovação é um processo de risco. Manuais, bestsellers e guias apresentam receitas, fórmulas e casos de sucesso para que empresas aprendam a inovar. Todos querem fazer como Google, Apple, Toyota ou LG, mesmo estando no Brasil, no Senegal ou em Cingapura, e sem levar em consideração o ambiente e o momento em que essas empresas inovaram. De acordo com Jean Guinet, economista e diretor de Ciência, Tecnologia e Indústria da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estabilidade macroeconômica e competição entre as empresas são condições essenciais para a existência de um ambiente de inovação. Além disso, Guintet afirma que o governo deve cumprir seu papel de suporte, com políticas públicas e infraestrutura, e dividir os riscos inerentes ao processo, com incentivos e financiamentos

Governo lança mecanismos legais para criar ambiente nacional de inovação

A

Jean Guinet, da OCDE, explica que governo deve criar ambiente de inovação

subsidiados. “A inovação é um fenômeno complexo, multidimensional, que pressupõe a presença e articulação de número elevado de agentes e instituições de natureza diversa, com lógicas e procedimentos distintos”. É assim que o Livro Branco do Ministério de Ciência e Tecnologia, lançado em 2002, define o fenômeno. Esse livro representa a incorporação do processo de inovação na política pública brasileira. O marco legal veio com a regulamentação da Lei 10.973, em 2004. Esses mecanismos lançados pelo governo federal buscam criar um ambiente adequado para que as empresas inovem, principalmente com a ênfase de programas cooperativos entre setor produtivo e Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT). O parecer do relator da Lei de Inovação, deputado Ricardo Zaratinni Filho (PT-SP) cita quais são esses mecanismos. “A criação do referido ambiente inclui desde investimentos na formação de recursos humanos, de forma adequada e em volume suficiente, até a manutenção de uma política macroeconômica que estimule o crescimento. Passa, contudo, por uma outra série de mecanismos e instrumentos voltados especificamente para promover a capacidade de inovação dos atores envolvidos nas diversas etapas de obtenção do conhecimento científico e tecnológico, tais como as universidades, os institutos de pesquisa e as empresas de base tecnológica, e sua aproximação”, detalhou. Para se entender melhor a formação do sistema brasileiro de inovação, é necessário voltar aos anos de formação do MCT, em meados da década de 80, quando

o país passava por um processo de substituição das importações. Nesse período, a maior parte das tecnologias adquiridas pelo Brasil era relativamente madura. Por isso, não se estimulava a capacitação necessária para gerar novos conhecimentos. As pessoas eram treinadas apenas para usar e operar as tecnologias importadas. O apoio à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), apesar de ser um mecanismo de política há muito tempo utilizado no mundo todo, transformou-se no mais importante instrumento de política industrial dos países da OCDE, na década de 90. No Brasil, o incentivo à P&D ganhou fôlego principalmente nos anos 2000. “Hoje a política de C&T está articulada com a política industrial. Temos um amadurecimento dos dois setores, que devem trabalhar juntos”, explicou Sérgio Rezende, Ministro de C&T, durante o 3º Congresso de Inovação na Indústria, em agosto de 2009, em São Paulo. Atualmente, o Brasil investe 1,02% do PIB em P&D, mas a meta é que esse valor suba para 1,5%, em 2010. Para Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e, em 1985, primeiro secretário executivo do MCT, a economia brasileira, hoje, admite que o país tenha estratégias de longo prazo nas políticas monetária, fiscal e financeira – o que permite investir mais e melhor no desenvolvimento nacional. Se o governo aprovar, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do MCT, vão disponibilizar R$ 2,7 bilhões, em 2010, ao setor de inovação.

CAROLINE MAzzONETTO

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dEPEndêncIA tEcnológIcA
Marco legal
O mapa mostra os estados brasileiros que aprovaram leis complementares à Lei Federal de Inovação, regulamentada em 2004, que estabelece medidas de incentivo à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo. Os ícones referem-se à quantidade de ICT e parques tecnológicos que o país possui por região.
CE - Lei nº 14.220, de 16 de outubro de 2008 AM - Lei Estadual nº 3.095, de 17 de novembro de 2006

o. Empresas e instituições científicas precisam agir em sincronia

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PE - Lei nº 13.690, de 12 de dezembro de 2008

MT- Lei Complementar nº 297, de 7 de janeiro de 2008

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SP - Lei Complementar nº 1049, de 19 de junho de 2008

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17

MG - Lei nº 17.348, de 17 de janeiro de 2008

50 25
RS - Lei nº 13.196, de 13 de julho de 2009

RJ - Lei nº 5.361, de 29 de dezembro de 2008

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SC - Lei nº 14.348, de 15 de janeiro de 2008

Os ícones são referentes às regiões brasileiras:
Entenda os ícones: 101 ICT (Instituições Científicas e Tecnológicas)

Instituições Científicas e Tecnológicas (ICT)
42 Parques Tecnológicos Parques Tecnológicos em operação ou em implantação
FONTES: MCT E ANPROTEC CORA DIAS

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CAROLINE MAzzONETTO

duzam do Imposto de Renda e da Contribuição sobre o Lucro Líquido, dispêndios efetuados em atividades de P&D. Olívio Ávila, diretor executivo da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), explica que, apesar de reduzir a burocracia e possibilitar que a dedução seja feita sem aprovação prévia de projeto, a Lei do Bem restringiu muito o número de beneficiadas, pois os incentivos fiscais só são concedidos para empresas que trabalham com regime de lucro real. “Acontece que mais de 90% das empresas brasileiras trabalham com regime de lucro presumido, que não possibilita determinar exatamente o valor gasto em P,D&I. Com isso, o incentivo fiscal está mais voltado para as grandes, que já trabalham normalmente com o regime de lucro real”, argumenta. Sincronia O governo não é o único agente na estruturação de um sistema nacional de inovação. As universidades e os centros de pesquisa também são peças importantes nesse processo. Principalmente no Brasil, onde a maioria dos pesquisadores está nessas instituições: 80%. Eles são responsáveis por grande parte das novas tecnologias desenvolvidas no país e é a partir da transferência desse conhecimento que as empresas conseguem inovar. Por isso, núcleos de inovação estão sendo criados dentro das universidades para otimizar a relação com a indústria, auxiliando na transferência de tecnologia para o setor produtivo e cuidando da propriedade intelectual dessas instituições. Além disso, incubadoras de empresas e parques tecnológicos, que têm a inovação como razão de ser, atuam muitas vezes na estruturação de sistemas locais. No país, existem 377 incubadoras e 74 parques, que já incubaram 6 mil projetos inovadores. No centro de todo esse processo estão as empresas. Joseph

Ministro de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende: governo deve usar seu poder de compra para incentivar inovação

A Finep é o órgão responsável por articular alguns dos mecanismos criados pela Lei de Inovação, como a subvenção econômica a empresas privadas. A lei também prevê a eliminação de entraves burocráticos para estimular a aproximação entre as ICT e o setor produtivo, possibilitando o afastamento do pesquisador para constituir empresa de caráter inovador. Rezende defende, ainda, que o Estado deve usar seu poder de compra como incentivo à inovação para dar preferência aos produtos desenvolvidos por empresas nacionais. O Ministro explica que esse é um mecanismo tradicional, utilizado em muitos países, e que, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), é permitido. Embora a Lei de Inovação aborde o tema, o que predomina é a Lei 8.666, que regulamenta as compras públicas dando ênfase determinante ao menor preço. Outro mecanismo criado pelo governo foi a Lei do Bem, de 2005. Os incentivos fiscais previstos possibilitam que empresas de-

Schumpeter, economista austríaco tido como pai da inovação, afirmou que o proprietário individual do século XIX e as grandes empresas do século XX foram os responsáveis por transformar o conhecimento em riqueza (ver box). De acordo com a última Pesquisa de Inovação Tecnológica realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 33,4% das empresas industriais brasileiras fizeram algum tipo de inovação em produtos ou processos entre 2003 e 2005. O conceito de ações inovadoras adotado pelo Instituto inclui práticas que são novas apenas para as próprias empresas e não necessariamente para o mercado. Se reduzirmos o recorte, apenas 9,7% das empresas nacionais consideradas inovadoras lançaram novos produtos ou processos. Durante o 3° Congresso Brasileiro de Inovação na Indústria, realizado em 19 de agosto, pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), os industriais brasileiros assinaram um manifesto em que assumem a responsabilidade de investir em estratégias inovadoras. Uma das metas é duplicar, nos próximos quatro anos, o número de empresas inovadoras no país. Além disso, o manifesto ressalta a importância de investimento num modelo educacional que estimule o empreendedorismo, para a criação de novas empresas inovadoras. Os resultados do sistema de inovação que está sendo criado no Brasil ainda não se concretizaram. De acordo com Jean Guinet, da OCDE, o risco é inerente ao processo de inovação, mas quando os economistas fazem o que chamam de decomposição do crescimento – cálculo que busca medir o efeito de diferentes fontes no avanço econômico – percebese, cada vez mais, que a inovação age sobre o potencial de crescimento. Tanto de um ponto de vista puramente econômico, quanto social, o crescimento depende da inovação.

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O profeta da inovação
Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) foi um dos maiores economistas do século XX. Ele é mais famoso por sua teoria da “destruição criativa” – que sustenta que o sistema capitalista progride por revolucionar constantemente sua estrutura econômica: novas firmas, novas tecnologias e novos produtos substituem constantemente os antigos. Como a inovação acontece de repente, a economia capitalista está, de forma natural e saudável, sujeita a ciclos de crescimento e implosão. O agente deste processo revolucionário, segundo Schumpeter, é o empresário: o proprietário individual do século XIX e as grandes empresas do século XX. A inovação precisa de recompensa, daí a economia dinâmica permitir enormes lucros ao inovador. O monopólio temporário é a forma de a natureza permitir que os inovadores ganhem com suas invenções. A desigualdade de curto prazo é o preço do progresso no longo prazo. De acordo com Clemente Nóbrega, físico e escritor, em artigo publicado em julho de 2007, Schumpeter era baixinho, careca, gordinho. “Mulherengo, falastrão, adorava contar vantagem. vaidosíssimo, demorava horas para se vestir para jantar (em casa). Excêntrico, ia às reuniões da Universidade Harvard – onde foi professor – de botas para montar. Era adorado por seus alunos. Dizia aos amigos que tinha três objetivos na vida: ser o maior amante da Europa, o maior cavaleiro do mundo e o maior pensador econômico de todos os tempos. Antes de morrer declarou que só não estava satisfeito com suas performances como cavaleiro”, conta. Schumpeter nasceu na Áustria e viveu em sete países diferentes, o que certamente contribuiu para a visão única que construiu sobre o que gera a riqueza das nações. Seus dois maiores insights foram os seguintes: 1 - A força motriz do progresso econômico é a inovação. Riqueza, prosperidade e desenvolvimento vêm da inovação e só dela. Para Schumpeter, inovação tem um significado preciso: é a substituição de formas antigas por formas novas de produzir e consumir. Produtos novos, processos novos, modelos de negócios novos. Essa substituição é permanente, e ele a chamou de “destruição criativa”. É esse processo que faz o sistema capitalista ser o melhor que existe para gerar riqueza e produzir crescimento econômico. 2 - Os agentes da inovação são os empreendedores. Empreendedores são indivíduos (são pessoas, não instituições, não governos, não partidos) movidos “pelo sonho e pela vontade de fundar um reino particular”. Por causa da “destruição criativa”, homens de negócios prósperos pisam num terreno que está permanentemente “se esfarelando embaixo de seus pés”. A instabilidade, o não equilíbrio, a desigualdade e a turbulência são inevitáveis – o preço a pagar pelo progresso. A maioria das obras do economista está publicada em inglês ou alemão. Além de desenvolver teorias próprias, Schumpeter estudou e analisou outros economistas, como John Maynard Keynes. Em 2007, foi lançada sua quarta biografia, intitulada Prophet of Innovation: Joseph Schumpeter and Creative Destruction, de Thomas k. McCraw.

AS ONDAS DE SCHUMPETER
Para Schumpeter, os negócios vivem ondas de inovação, que surgem e desaparecem. Os ciclos eram longos e duravam de 40 a 60 anos, com o passar do tempo, encurtaram. O gráfico representa a teoria de Schumpeter nos anos atuais.

Energia hidráulica Têxteis Aço

vapor Aço Estradas de ferro

Eletricidade Químicos Motores de combustão interna

Petroquímicos Eletrônicos Aviação

Redes virtuais Softwares Novas mídias

PRIMEIRA ONDA
1785 60 ANOS
FONTE: FOREPLAY - ENGAJAMENTO DIGITAL CORA DIAS

SEGUNDA ONDA
1845 55 ANOS 1900

TERCEIRA ONDA
1950 50 ANOS

QUARTA ONDA
1990 40 ANOS

QUINTA ONDA
2020 30 ANOS

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A EMbRAPA E o AgRonEgócIo dAS MPE
DIvULGAçãO

Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia auxiliou a Panflora a produzir mudas em laboratório

A Cultivis Cogumelos Comestíveis produz, beneficia e comercializa cogumelos do tipo Lentinula edodes (Shiitake) e Pleurotus ostreatus (Shimejii) in natura. Com pesquisas desenvolvidas pela Unidade de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Cultivis pôde alavancar seu negócio. A tecnologia que a empresa utiliza atualmente é baseada em uma técnica chinesa, chamada Jun Cao (substrato de fungo e capim), modificada pela Embrapa para otimizar o suprimento nutricional necessário para o melhor desenvolvimento do cogumelo em clima tropical. A Cultivis faz parte do Proeta Incubação de Agronégócios, projeto da Embrapa que auxilia na criação de novas empresas de base tecnológica agropecuária, através de parcerias público-privadas. No caso da Panflora, empresa de Caponga (CE), graduada em 2008, a tecnologia transferi-

da pela Embrapa Agroindústria Tropical foi a micropropagação de frutas e flores tropicais. Essa técnica permite que os produtores cultivem mudas em laboratório sob condições controladas e assépticas. Como resultado, a Panflora comercializa mudas de alta qualidade e padrão uniforme, pois há controle de todas as etapas de produção. Empresa pública vinculada ao Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a Embrapa possui um modelo consolidado de transferência de tecnologia para o mercado que é referência para muitos projetos desse teor no Brasil. Seus 8.440 funcionários estão divididos em 41 centros de pesquisa no país. A Embrapa teve, em 2008, receita operacional de R$ 1,353 bilhão. Em 2003, esse valor era de R$ 790 milhões. Entre 2005 e 2007, foram registrados, no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), 40 pedidos de reconhecimento de patentes. Além disso, a Embrapa registrou 28 marcas e 9 softwares . A Agência de Informação da Embrapa também é um importante mecanismo de transferência de tecnologia. Através de um sistema web, pode-se ter acesso à organização, ao tratamento, ao armazenamento, à divulgação e ao acesso à informação tecnológica e ao conhecimento gerados pela Embrapa e outras instituições de pesquisa. Essas informações estão organizadas numa estrutura ramificada, denominada Árvore do Conhecimento. Essas estruturas são desenvolvidas pelas Unidades Descentralizadas da Embrapa, sobre produtos e temas do negócio agrícola. Nos primeiros níveis desta hierarquia estão os conhe-

Embrapa desenvolve técnica chinesa adaptada ao clima tropical

cimentos mais genéricos e, nos níveis mais profundos, os mais específicos. Cada item da Árvore é denominado “nó” e é definido a partir da subdivisão sucessiva do conteúdo (“subnós”). Para incentivar o empreendedorismo no agronegócio, a Embrapa promove workshops em todo o país sobre inovação. De acordo com Lucio Brunale, da Assessoria de Inovação Tecnológica, a Embrapa precisa ampliar, junto aos diferentes segmentos da sociedade, o uso dos resultados da pesquisa gerados por ela. ”Eventos dessa natureza permitem a discussão de estratégias que facilitam a aplicação destes resultados, que é imprescindível para caracterizar a inovação”, afirma. Atualmente, a estrutura de inovação da Embrapa está passando por alterações operacionais, mas pretende manter atuante a transferência de tecnologia para o mercado.

CLAUDIO BEzERRA

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A AtuAção do SEbRAE
Responsáveis por 99,3% dos negócios no Brasil, as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) também podem e devem inovar. Pelo menos é o que afirma Magaly Albuquerque, gerente adjunta de inovação do Serviço Brasileiro Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Desde o final de 2008, o Sebrae está promovendo programas de sensibilização, capacitação e consultoria sobre inovação. Para informar as MPEs, o Sebrae utiliza os conceitos apresentados pelo Manual de Oslo. Desenvolvido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em parceria com a Eurosat, esse Manual é a principal fonte internacional de diretrizes sobre atividades inovadoras em empresas. Em sua terceira edição, lançada em 2005, traz quatro formas de inovação: de produto, de processo, em marketing e organizacional. Magaly explica que, dessa forma, o Sebrae consegue mostrar para as empresas que inovação não está apenas ligada à tecnologia ou ao lançamento de novos produtos no mercado. “Passamos a mensagem de que inovar é um fator diferencial para a competitividade das MPEs e a inovação ocorre em diversos setores da organização empresarial”. Com o mote “Faça diferente”, cartilhas explicativas, blog na internet e programas de rádio, o Sebrae mostra ao pequeno empresário exemplos concretos de inovação. Em um dos textos explicativos, João Pedro, um divertido personagem, conta como inovou no seu negócio ao focar em um público alvo diferente do de seus concorrentes. Ele reorganizou sua academia de ginástica para atender especialmente pessoas da terceira idade. O trabalho do Sebrae na sensibilização dos empresários com relação à inovação ocorre também através da promoção de workshops. De abril a agosto deste ano, foram realizados 200 encontros que envolveram 17 mil participantes. Na fase de capacitação, o pequeno empresário tem acesso a cursos de gestão da inovação, módulo que passou a ser disponibilizado também à distância. “Nem todos podem participar presencialmente dos cursos, por isso buscamos atendê-los também à distância”, explica Magaly. Para a fase de consultoria do programa, o Sistema implementou o projeto-piloto ‘Agentes Locais de Inovação’ que teve início em 2008, no Distrito Federal e no Paraná. A proposta é elevar a inovação nas empresas por meio de soluções ligadas à gestão e desenvolvimento de produtos, processos produtivos e serviços. Em dois anos, 1,5 mil empresas foram atendidas em cada uma dessas unidades da federação. O projeto cede profissionais capacitados para fazer o atendimento direto às MPEs. Cabe a essas pessoas fazer o papel de agentes locais de inovação (ALI) e estar em contato permanente com os pequenos empresários para identificar suas necessidades e apresentar soluções. No Distrito Federal, o atendimento do programa ocorre em empresas da área de construção civil, vestuário e confecção, açougue, mercearias e feiras de verdura. No Paraná, o atendimento é na área de construção civil, vestuário e alimentos. A partir de 2009 mais 16 unidades da federação foram atendidas pelo projeto. Eu inovo Na seção Eu inovo do blog “Faça Diferente” pequenos empresários trocam experiências de como inovaram em seus negócios. Matheus Zeuch, de Lageado, RS, conta que, em 2006, ele e dois sócios abriram uma produtora de vídeos para internet. “A empresa, além de oferecer o serviço de produção de vídeos comerciais na região, também inovou ao trabalhar com a cobertura de festas e eventos em vídeo, publicados na internet gratuitamente. Muitos sites fazem isso com fotos, na maioria das grandes cidades do país, mas em vídeos ainda são poucos, mesmo quase 4 anos depois de começarmos nesse formato”, explica. Hoje, a empresa de Matheus possui 400 vídeos publicados na internet e outros programetes periódicos.

Campanha informa e incentiva micro e pequenos empresários a inovarem em diversos setores da estrutura organizacional

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fInAncIAMEnto | POR CORA DIAS

A MAtEMátIcA dA SubvEnção EconôMIcA
Programas de financiamento incentivam pesquisa, desenvolvimento e inovação nas empresas brasileiras com recursos não-reembolsáveis

O
Eduardo Costa, diretor de Inovação da Finep: capital de risco traz maior retorno

governo pretende investir R$ 2,7 bilhões no setor de inovação em 2010, através dos programas da Financiadora de Projetos e Estudos (Finep) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O orçamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico (FNDCT), previsto para o próximo ano, foi encaminhado ao Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Para 2009, estavam previstos R$ 3,09 bilhões, mas a crise financeira do final do ano passado fez com que o governo aprovasse apenas R$ 2,051 bi.

Esse montante é distribuído a partir de programas de incentivo à Ciência, Tecnologia e Inovação que buscam disponibilizar apoio financeiro a todas as fases da cadeia produtiva. Desde o custeio de despesas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), produtos e processos, o financiamento de máquinas e equipamentos utilizados no desenvolvimento das inovações, até a criação de novas empresas, por meio da participação da Finep em quotas de fundos de capital empreendedor. Segundo Eduardo Costa, diretor de Inovação da Finep, existem três formas de apoio a micro e pequenas empresas concedidas pela agência: crédito subsidiado, subvenção econômica e capital de risco. Para evitar a aprovação de projetos não coerentes com as estratégias dos programas propostos, a Finep passou a realizar parcerias com instituições de C&T nos estados, que proporcionam capilaridade na distribuição dos recursos financeiros para diferentes regiões do país. Esse mecanismo foi utilizado no Programa Primeira Empresa Inovadora (Prime), lançado no final de 2008 pela Finep. “Esse é de longe o maior programa da Finep que pretende, em quatro anos, apoiar 5.400 novos empreendimentos”, explica Costa. O Programa concederá R$ 120 mil em recursos nãoreembolsáveis para cada projeto aprovado, na primeira etapa. Um ano depois, se a empresa nascen-

te obtiver bons resultados, receberá mais R$ 120 mil do Programa Juro Zero, crédito subsidiado que deve ser pago em cem vezes, sem juros, pelo empreendedor. A experiência das incubadoras de empresas em prospectar e apoiar empreendimentos inovadores fez com que a Finep elegesse 18 incubadoras-âncora em nove estados, para selecionar os projetos para a primeira etapa do Prime. A Finep descentralizou o Prime com as incubadoras. Além da seleção das empresas beneficiadas, essa parceria também deverá atuar no processo de avaliação do resultado dos projetos. No dia 26 de outubro deste ano, 1.400 pessoas, que tiveram seus projetos aprovados na primeira etapa do programa, assinaram o contrato com a Finep. Além de descentralizar a seleção de projetos, o Prime foi elaborado para atender os empreendimentos nascentes e dar apoio na área de gestão para que o empreendedor mantenha seus esforços no desenvolvimento de projetos inovadores. Este era um dos gargalos percebidos pela agência de fomento nos outros programas de apoio à inovação. Diferentemente da subvenção econômica e do crédito subsidiado, o instrumento de capital de risco é concedido para um número muito restrito de empresas. “É uma espécie de dinheiro de butique, ele é muito mais inteligente que as outras formas de financia-

JOãO LUIz RIBEIRO

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ValorInovação

Formas de financiamento para empresas
A Financiadora de Projetos e Estudos (Finep), do Ministério de Ciência e Tecnologia, possui três diferentes formas de financiamento para que as empresas brasileiras inovem. O dinheiro que a agência repassa para as empresas, através de editais, é assim dividido:

Crédito subsidiado
60%
Todo o dinheiro investido retorna para a sociedade

Forma mais comum de financiamento

Finep

30%

Subvenção
O retorno para a sociedade é através da geração de empregos

Financiamento a fundo perdido, viabilizado com a aprovação da Lei de Inovação, de2004

10%

Capital de risco
Investimento com maior retorno - relação direta entre retorno e risco

A Finep trabalha com fundos de investimento. Há R$ 1,7 bi no mercado para essa forma de financiamento

Programas da Finep para MPEs
Programa Pró-Inovação: Concede financiamento para projetos de inovação, no valor mínimo de R$ 1 milhão, para empresas com faturamento anual mínimo de R$ 10,5 milhões. O prazo para repasse dos recursos financeiros pode alcançar até 120 meses, com até 36 meses de carência, e a execução do projeto deve ser feita em até dois anos. Programa Juro Zero: As operações de financiamento são implementadas com a participação de parceiros estratégicos da Finep nos estados brasileiros. Para resolver a restrição enfrentada pelas MPEs quanto às garantias normalmente exigidas nas concessões de crédito, o Programa prevê três fontes de cobertura. O valor de crédito varia de R$ 100 mil a R$ 900 mil, e está sujeito a limite equivalente de 30% do faturamento da empresa. O prazo de amortização do crédito pelas empresas é de 100 meses. Pappe Subvenção: Concessão direta de recursos financeiros não-reembolsáveis às MPEs, para a cobertura de despesas de custeio de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. Com recursos de R$ 245 milhões, esse programa também possui uma pré-seleção descentralizada, com parceiros da Finep espalhados pelo país. O valor de subvenção para cada projeto poderá variar de R$ 50 mil a R$ 500 mil. Projetos de Inovação Tecnológica de MPEs em cooperação com ICTs – MCT/ Finep/Sebrae: As chamadas públicas visam selecionar propostas apresentadas e a serem executadas por ICTs, públicas ou privadas, voltadas ao apoio de inovação tecnológica envolvendo um grupo mínimo de três MPEs. O apoio financeiro por empresa varia de R$ 200 mil a R$ 500 mil, para cobertura de despesas correntes e de capital. Os recursos são repassados pelas ICTs e não podem ser utilizados na cobertura de despesas de produção comercial. Primeira Empresa Inovadora: Concessão direta de recursos financeiros não-reembolsáveis a empresas nascentes. São concedidos R$ 120 mil de subvenção no primeiro ano do projeto. Em seguida, o novo empreendimento recebe mais R$ 120 mil do programa Juro zero. Em quatro anos, a Finep pretende apoiar 5.400 novos negócios.

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fInAncIAMEnto |
DIvULGAçãO

José Mauro de Morais, economista do Ipea, analisa programas de financiamento da Finep

mento, mas atinge um número menor de empresas”, explica o diretor. Com esse tipo de recurso, os empresários conseguem financiar os seus negócios sem se endividar. O investidor entra como sócio temporário da empresa emergente, através de aquisição de ações ou debêntures, conversíveis em ações, visando rentabilidade acima das alternativas disponíveis no mercado financeiro. Para Costa, a tradução do termo em inglês venture capital para capital de risco assusta o investidor. “Deveria ser chamado de capital empreendedor, porque essa é a forma de financiamento

de maior retorno”, sugere. A Finep auxilia empresas a encontrarem potenciais investidores de risco, promovendo fóruns e rodadas de negociação. “A gente aloca R$ 200 milhões nessa operação. Como os fundos de investimento são alavancados pela Finep e o grosso do dinheiro vem de outros investidores, nós temos, ao todo, R$ 1,7 bi no mercado para investir em negócios inovadores com o capital de risco”, explica. Inovação sem risco Estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplica-

De onde vem o dinheiro
A inovação é um processo de risco e dificilmente capta recursos de empréstimos bancários, que impõem juros altos para situações com resultados incertos. Uma saída para isso tem sido as políticas de financiamento do governo de apoio à Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I). Apesar do histórico de baixo investimento tanto público quanto privado em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e da importação de tecnologia, desde o final dos anos 1990, o país busca consolidar uma política estratégica de inovação e desenvolvimento tecnológico. A instituição dos fundos setoriais, entre 1999 e 2001, representou uma reforma no sistema de apoio governamental à C,T&I. À época em que os primeiros fundos foram instituídos, o sistema apresentava crescente escassez de recursos e operava com assimetrias, como a baixa participação do setor produtivo privado nos recursos para pesquisa no setor público e reduzidos esforços de pesquisa e inovação nas empresas. Os fundos foram criados para que houvesse uma ampliação de recursos financeiros para P&D, além de impulsionar os investimentos privados em pesquisa e inovação e fomentar parcerias entre as universidades, as instituições de pesquisa e o setor produtivo. As receitas dos fundos provêm de diver14 ValorInovação

sas fontes, como as parcelas dos royalties incidentes sobre a produção de petróleo e gás natural, por exemplo, e as contribuições de empresas sobre os resultados da exploração de recursos naturais pertencentes à União, como mineração e energia elétrica. Essas receitas são alocadas no orçamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDTC) e aplicadas pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O Fundo verde-Amarelo (FAv) constitui a principal fonte de recursos para o apoio à inovação nas micro e pequenas empresas (MPEs). O marco legal da Lei de Inovação lançou novos mecanismos nas áreas de crédito e subvenção – são programas que financiam projetos a fundo perdido, sem que haja uma contrapartida para o governo. “Esse é um avanço da política de C,T&I do governo federal. Até então apenas Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) recebiam esse tipo de financiamento, as empresas só tinham acesso às linhas de crédito”, explica Olívio Ávila, secretário executivo da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei). Fundos Setoriais Há 16 Fundos Setoriais, sendo 14 relati-

vos a setores específicos e dois transversais – o verde Amarelo e o de Infraestrutura. As receitas são oriundas de contribuições incidentes sobre o resultado da exploração de recursos naturais pertencentes à União, parcelas do Imposto sobre Produtos Industrializados de certos setores e de Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) incidente sobre os valores que remuneram o uso ou aquisição de conhecimentos tecnológicos/transferência de tecnologia do exterior. Com exceção do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (FUNTTEL), gerido pelo Ministério das Comunicações, os recursos dos demais Fundos são alocados no FNDCT e administrados pela FINEP. A princípio, todos os grupos de pesquisas em universidades, institutos e centros de pesquisas, individualmente ou associados a empresas, e que estiverem de acordo com as exigências estabelecidas por cada Fundo, podem participar das licitações. As instituições passíveis de utilização de recursos são: universidades, públicas ou privadas e centros de pesquisa do país. Empresas também podem participar, desde que em parceria com as instituições de pesquisa e ensino.

DIvULGAçãO

da (Ipea) analisou as principais práticas de financiamento das agências de fomento e mostrou como é feito o repasse de dinheiro para as empresas. Há muitos casos em que conseguem recursos de diferentes programas e, assim, minimizam o risco com o investimento em P&D. “Há financiamentos subsidiados para as mesmas empresas, que dispõem de facilidades de acesso simultâneo aos instrumentos de apoio das agências de fomento. Isso é legítimo”, explica o economista José Mauro de Morais, responsável pela pesquisa do Ipea. Um exemplo foi o que aconteceu com a Biologicus, incubada no Centro no Instituto de Tecnologia de Pernambuco. A empresa de biotecnologia, fundada em 2004, conseguiu R$ 1,5 milhão no edital de Subvenção Econômica da Finep para o apoio ao desenvolvimento de dermocosméticos e, apenas neste ano, foi contemplada em outros editais, que, somados, totalizam R$ 700 mil. Além disso, a BioLogicus abriu negociação com um fundo de capital-semente com possibilidade de receber um aporte de R$ 3

milhões. Caso semelhante ocorre com a SK Bombas, incubada do Centro de Tecnologia do Ceará, criada em 2002 para atuar como desenvolvedora de novos produtos de uma fabricante tradicional de bombas centrífugas. Para realizar as pesquisas, a nova empresa buscou formas de

Bombas produzidas pela SK: financiamento possibilitou pesquisa e desenvolvimento de novos produtos

subvencionar seus projetos. A SK Bombas possui propostas aprovadas pelo CNPq, para contratação de pesquisadores, e pelo programa Pappe Subvenção, direcionado apenas para MPEs. Recentemente, a empresa foi contemplada pela chamada pública do Programa de Subvenção Econômica 2009 da Finep, na área de Desenvolvimento Social, e receberá R$ 966.889,00 para o desenvolvimento e aplicação de baixo custo e baixo consumo de energia de tratamento de água. Morais alerta que com a possibilidade da subvenção econômica, a avaliação dos projetos aprovados, feita pelas agências, deve ser ainda mais rigorosa. “O instrumento de subvenção deve ser eminentemente seletivo, indicando para apoio somente os bens e serviços que representem descontinuidades nas cadeias de produção de alta tecnologia, como os priorizados na nova política de Desenvolvimento Produtivo e no Plano de Ação Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional”, conclui. Em 2008, a Finep liberou R$ 453 milhões para o programa de subvenção. O montante foi dividido entre 209 empresas.

Pesquisadores da Biologicus: R$ 2,2 milhões em recursos de editais somente em 2009

DIvULGAçãO

ValorInovação

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unIvERSIdAdE | POR CORA DIAS

AgREgAndo vAloR Ao conhEcIMEnto
Transferência de tecnologia para o setor produtivo é imprescindível, mas instituições de pesquisa precisam garantir propriedade intelectual
capacidade de uma nação de gerar conhecimento e convertê-lo em riqueza e desenvolvimento social depende da ação de alguns agentes institucionais: universidades, empresas e governo. Este modelo é conhecido por tríplice hélice. No país, a quase totalidade das atividades de pesquisa e desenvolvimento ocorrem em ambientes acadêmicos, onde estão 80% dos pesquisadores. Em artigo publicado no livro Brasil em Desenvolvimento, Carlos de Brito Cruz, diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), explica que no país existe uma tendência de se atribuir à universidade a responsabilidade pela inovação que fará a empresa competitiva. “Trata-se de um grave equívoco, o qual, se levado a cabo poderá causar dano profundo ao sistema universitário brasileiro, desviando-o de sua missão específica que é educar profissionais e gerar conhecimentos fundamentais”. No Brasil, de acordo com dados do IBGE, CNPq e CAPES, existem 397.170 pesquisadores, dos quais 307.416 estão nas universidades e apenas 79.350, nas empresas. Os demais pesquisadores estão no governo ou no setor privado sem fins lucrativos. Para se ter acesso ao conhecimento gerado nos centros de pesquisa existem mecanismos, como a transferência de tecnologia e o licenciamento de patentes, que
16 ValorInovação

A

Situação das ICT no Brasil
FONTE: MCT / CORA DIAS

Distribuição regional das ICT nos anos de 2006, 2007 e 2008.
120 120 100 100

80 80
60 60 2006 2006 2007 2007 2008 2008

40 40
20 20 0 0

Su

de

Su C

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l tr o o-

es

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al

Comparação das ICT com relação à natureza
120 120 100 100 80 80 60 60 40 40 20 20 0 0 2006 2006

e

2007 2007 2008 2008

Federal Federal

Estadual Municipal Estadual Municipal

Privada Privada

Total Total

Proteções requeridas e concedidas no Brasil e exterior
1200 1200 1000 1000 800 800 600 600 400 400 200 200 0 0

Fase de implantação de NIT nas ICT

20%
Requeridas

6% 74%

Implementado Implementando Não implementado

Proteções Concedidas requeridas Proteções concedidas

Brasil Brasil

Exterior Exterior

Implementado Implementando Não implementado

possibilitam que o setor produtivo explore a nova tecnologia no mercado. Foi para ajudar nesse processo que o governo, com a Lei de Inovação, de 2004, estimulou as universidades a criarem Núcleos de Inovação Tecnológica (NIT) – mecanismos responsáveis por otimizar o relacionamento com as indústrias, cuidar da propriedade intelectual e facilitar a entrada no mercado da tecnologia produzida nas universidades. Desde então, o MCT pede que as Instituições Científicas e Tecnológicas (ICT) do país respondam a um questionário anual para que o desenvolvimento dos NIT seja avaliado. O relatório referente ao ano de 2008 mostra que de 101 ICT brasileiras analisadas, 75 já possuem NIT implementados. Quando se avalia a capacidade de inovação de um país, o número de patentes depositadas ainda é o principal índice. Casos como o captopril, medicamento contra a hipertensão cujo princípio ativo foi descoberto no Brasil e patenteado no exterior, mostram a importância de se incentivar a proteção sobre o conhecimento gerado no país (ver box). Apenas em 2008, essas 101 instituições que responderam ao questioná-

rio do MCT fizeram requerimento de 1.133 proteções, das quais apenas 167 foram concedidas, 146 no Brasil e 21 no exterior. O próprio documento do Ministério afirma que isso é reflexo da demora na concessão de proteções por parte do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) – órgão responsável pelo depósito de patentes. Em certos casos, pode chegar a oito anos a espera entre a requisição e a concessão de proteções. (ver infográfico do processo). Das vinte maiores instituições residentes depositantes no INPI, a Universidade de Campinas (Unicamp) está em primeiro lugar, com 537 patentes. O NIT da Unicamp foi criado em 2003 e, desde então, busca consolidar a parceria entre a universidade e o setor produtivo para o licenciamento das patentes e a transferência de tecnologia. Até o final do ano passado, a InovaUnicamp já havia articulado mais de 240 convênios de transferência de tecnologia e de desenvolvimento colaborativo, que renderam à Universidade R$ 900 mil em royalties. Roberto Lotufo, diretor executivo da Inova, explica que a grande dificuldade na interação empresa-universidade está relacionada

à diferença de objetivos, culturas e missões dos dois agentes. “A empresa, focada na competitividade e sustentação financeira, busca resultados rápidos de seus investimentos; já a universidade, focada na disseminação e no avanço do conhecimento, busca projetos interessantes para complementar a formação dos alunos. O desafio dos núcleos de inovação é fazer esta mediação trazendo para a universidade oportunidades que fortaleçam o ensino e a pesquisa e que também tragam benefícios para as empresas, como acesso à tecnologia de ponta, identificação de talentos e redução dos custos de P&D”, afirma. Para Lotufo, ainda há uma baixa demanda por parte do setor empresarial em buscar essa parceria com a universidade. Na contramão, estão empresas como a Click Automotiva, de Campinas, que tem por tradição enviar um colaborador, uma vez por semana, para dentro da universidade a fim de encontrar algum conhecimento que possa aplicar no mercado. José Luiz Giacomassi, gerente executivo da Click, conta que foi em um desses dias que sua equipe descobriu a existência da patente de um sensor de fibra óptica que

Made in Brazil
Em 1948, procurando explicar como o veneno da jararaca mata ou paralisa suas vítimas, o pesquisador Gastão Rosenfeld levou para o laboratório do químico e farmacologista Maurício Rocha e Silva, no Instituto Biológico, em São Paulo, uma amostra da peçonha da Bothrops jararaca . O objetivo era estudar seus efeitos em cães. Após injetarem o veneno num animal, os pesquisadores puderam observar que a reação com o plasma sangüíneo liberava uma substância que possuía intensa ação hipotensora, denominada bradicinina. Sérgio Henrique Ferreria, orientando de Maurício Rocha e Silva na Universidade de São Paulo (USP), no início da década de 1960, constatou que a hipotensão provocada pela liberação da bradicinina no sangue da vítima era potencializada pela ação de toxinas encontradas em grandes quantidades no veneno da jararaca. Essas substâncias, denominadas peptídeos potenciadores da bradicinina (BPPs), foram isoladas por Ferreira e outros colaboradores. Em 1965, quando foi para a Inglaterra fazer pós-doutorado, Ferreira levou consigo o resultado das pesquisas, o que permitiu que um grupo de cientistas liderado pelo inglês John vane (ganhador do Prêmio Nobel de Medicina) chegasse a um protótipo molecular dos BPPs. Certos do potencial da pesquisa, Ferreira e vane firmaram parceria com o laboratório americano Bristol-Myers Squibb, cedendo a descoberta em troca de financiamento para outras pesquisas. Foi assim que o laboratório registrou a patente da versão sintética da substância isolada pelos brasileiros e criou, em 1977, o Captopril, medicamento utilizado por milhões de hipertensos. Lançada nos Estados Unidos no início da década de 80, a droga se tornou referência mundial para o tratamento da hipertensão e sua comercialização gera um faturamento de US$ 5 bilhões por ano ao laboratório americano. Hoje, uma versão genérica da droga é usada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil.

ValorInovação

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unIvERSIdAdE |
JOãO LUIz RIBEIRO

Pesquisador Carlos Kenichi Suzuki, da Unicamp, desenvolveu sensor para verificar a alteração de combustível

havia sido desenvolvido sob a coordenação do pesquisador Carlos Kenichi Suzuki. A equipe do cientista propôs, então, que esse sensor fosse utilizado para verificar a alteração de combustível. Com a confirmação de que o desenvolvimento do produto era possível, a empresa do setor automotivo entrou em contato com a Inova para que fosse formalizado um contrato entre a Click e a Universidade. O trabalho de pesquisa passou a ser desenvolvido com a contra-

partida de colaboração financeira – a empresa não cita os valores investidos. A patente foi licenciada em 2008 e, de acordo com o contrato, a Click tem o direito de uso do sensor óptico para pelo menos duas aplicações: sensor de préqueima e o sensor de adulteração de combustível. Como a empresa é a responsável por transformar o conhecimento em riqueza e testá-lo no mercado, foi firmado o compromisso de comercializar o produto

em um prazo de três anos após a assinatura do contrato. Caso isso não ocorra, pode haver uma renegociação ou o contrato pode ser reiscidido para que a Unicamp negocie a patente com outra organização. Com a venda do sensor, a Click repassará à Fundação da Unicamp um percentual (royaltie) de tudo o que for faturado com essa comercialização, num prazo de três anos, que é quando o contrato vence. O fato de a empresa ter realizado esse tipo de parceria não substitui a atividade de pesquisa e desenvolvimento dentro da empresa. Atualmente, a Click possui um departamento próprio de P&D e está desenvolvendo mais dois produtos do setor eletroeletrônico. “A pesquisa interna tem grande importância para a empresa. A única maneira de você sobreviver no setor automotivo é colocando no mercado novos produtos, o retorno é muito maior”, justifica Giacomassi. Quanto vale? Mensurar o valor do conhecimento desenvolvido dentro da universidade é uma das tarefas mais difíceis atribuída às agências de inovação. O sensor óptico

Como depositar patentes no Brasil
O órgão brasileiro responsável pelo depósito de patentes é o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Patente é um título de propriedade temporária sobre uma invenção ou modelo de utilidade, outorgados pelo Estado aos inventores, autores, pessoas físicas ou jurídicas detentoras de direitos sobre a criação. Entenda o processo para depósito de uma patente no INPI:
1. Consultar a LPI (Lei de Propriedade Industrial) para verificar se sua invenção pode ser patenteável.

anos e consiste em melhoria incremental de produto ou processo.
3. Realizar uma busca para certificarse de que sua invenção tem novidade

4. Escrever o pedido de patente

Não são consideradas patenteáveis as matérias contrárias à moral, bons costumes, segurança, ordem e saúde

pública.
2. Determinar se o pedido é patente de invenção (PI) ou modelo de utilidade (MU)

PI: vigora por 20 anos e consiste em novo produto e processo. MU: são 15
FONTE: INPI / CORA DIAS

Certificar-se de que se trata de algo novo não somente no Brasil, mas também no mundo. Consultar revistas especializadas, publicações técnicas e bases de patentes disponíveis gratuitamente na internet como o próprio site do INPI, , escritório europeu e norte americano.

O pedido de patente é composto de requerimento, relatório descritivo, reivindicações, desenhos, resumo e comprovante de pagamento da retribuição relativa ao depósito. (R$ 200).
5. Depositar o pedido de patente

O depósito deve ser feito na sede do INPI localizada na Praça Mauá, 7 - Rio de Janeiro - RJ, CEP 20083-900 ou por envio postal. Um exame preliminar é realizado no momento da entrega.

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ValorInovação

desenvolvido por Carlos Kenichi Suzuki da Unicamp, por exemplo, foi resultado de 30 anos de pesquisa. Rozângela Curi Pedrosa, diretora do Departamento de Inovação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explica que a transferência de tecnologia da universidade para a empresa deve ser avaliada com rigor, já que os interesses normalmente são divergentes. “A gente tem que negociar, porque é um valor intangível. O conhecimento que existe na universidade é intangível. O interesse maior é proteger o patrimônio intelectual, mas a universidade precisa também transferir a tecnologia, socializar a informação. Buscamos uma forma para que todas as partes sejam beneficiadas”. Rozângela explica que é essencial que haja um assessor contábil quando se fecha esse tipo de contrato. Além disso, o artigo 13 da Lei de Inovação prevê que é direito do pesquisador, responsável pela pesquisa, uma participação mínima de 5% e máxima de 1/3 nos ganhos econômicos (royalties), auferidos pela instituição científica e tecnológica (ICT), resultantes de contratos de transferência de tecnologia e de licenciamento – a lei não espe-

cifica casos em que o pesquisador possui Dedicação Exclusiva. O Departamento de Inovação da UFSC negociou o primeiro contrato que garantiu a propriedade intelectual à Universidade, em 2007. O Laboratório de Farmacologia Experimental desenvolveu um creme dermatológico em parceria com uma empresa de cosméticos. Constituído a base de flavonóides de Passiflora alata (espécie de maracujá existente no Brasil), o novo produto antiidade pertence à linha Chronos da Natura. A pesquisa, coordenada pelo professor João Calixto, durou quatro anos. O pesquisador explica que a ideia começou a ganhar corpo depois que algumas pesquisas iniciais em outra área deram resultado negativo. Em 2003, quando iniciaram a parceria, a Natura estava focada em uma pesquisa mais voltada à área de farmacologia. A empresa havia comprado a Flora Medicinal, do Rio de Janeiro, e a parceria inicialmente com a UFSC era para reestudar um produto daquela empresa, que contava com três plantas na sua composição, sendo uma delas a Passiflora. A intenção era realizar testes para comprovação de sua

eficácia. Como não obteve sucesso, o produto, cujo nome não foi revelado, saiu de linha. Calixto, incomodado com os resultados negativos, decidiu procurar detalhar cada uma das três plantas isoladamente e a Passiflora alata lhe chamou a atenção pelo seu componente antiinflamatório. Foi nesse momento que se chegou à ideia de usar a passiflora como cosmecêutico antienvelhecimento. O núcleo de inovação da UFSC auxiliou na questão contratual e isso possibilitou que a Universidade garantisse participação nos ganhos da exploração do novo produto. Calixto explica que, apesar da parceria ter sido um sucesso, houve entraves na negociação do contrato de propriedade intelectual, pois o Regime Jurídico Único (regulamento do servidor público federal) não permitia que ele recebesse os royalties pela sua descoberta por ser professor de Dedicação Exclusiva. “Isso exigiu que se buscassem mecanismos alternativos para que eu recebesse os recursos a que tinha direito”, explica. A Natura está negociando outro tipo de parceria com a UFSC para ser iniciada ainda este ano.

6. Solicitar o pedido de exame

O pedido de patente será mantido em sigilo durante 18 meses contados da data de depósito. Depois disso, ele é publicado, com exceção de quando a patente é de interesse da defesa nacional. A publicação do pedido poderá ser antecipada a requerimento do depositante.

7. Acompanhar o andamento processual do pedido e aguardar o exame técnico

9. Solicitar a expedição da carta patente

O processo pode ser acompanhado pela Revista da Propriedade Industrial, editada semanalmente, disponível gratuitamente na Biblioteca do INPI.
8. Cumprir as eventuais exigências técnicas feitas pelo examinador

Pagamento para expedição da cartapatente (R$ 200). Todo o processo pode durar, de acordo com o INPI, até oito anos.
10. Manter o pagamento das anuidades em dia Os valores variam de R$ 500 a R$ 660, nos primeiros seis anos e de R$ 1.030 a R$ 3.380m, nos nove últimos. Para mais informações, consulte o site do INPI: www.inpi.gov.br.

No final do exame, o responsável elabora um parecer relativo a: patenteabilidade do pedido (deferimento); adaptação do pedido à natureza reivindicada; reformulação do pedido, divisão ou exigências técnicas. Depois da conclusão do exame, é proferida decisão (R$ 100).

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PARquES tEcnológIcoS | POR CORA DIAS

do Pé dE cAfé Ao Polo tEcnológIco
Histórias como a de uma cidadezinha do sul de Minas mostram a importância do investimento em educação para o desenvolvimento
anta Rita do Sapucaí é um pequeno município do sul de Minas Gerais, com uma população de 35 mil habitantes. Atualmente a cidade, que tinha sua economia baseada na produção de café e leite, é conhecida como Vale da Eletrônica, por ter desenvolvido, a partir dos anos 50, escolas e empresas especializadas no setor. Com 80% da população urbana e um PIB de R$ 250 milhões, Santa Rita do Sapucaí conta com 130 empresas do setor de eletroeletrônicos, organizadas em um Arranjo Produtivo Local e que empregam dez mil pessoas. O polo tecnológico da cidade mineira começou a ser criado em 1959 com a fundação da Escola Técnica de Eletrônica (ETE). A iniciativa foi de Luzia Rennó Moreira, a Sinhá Moreira, filha do banqueiro Francisco Moreira da Costa e descendente de uma família de políticos tradicionais. Depois de viver alguns anos no Japão, Sinhá Moreira voltou ao Brasil com a ideia de implantar, com recursos próprios, a primeira escola técnica de eletrônica do país, em sua cidade natal. O Presidente Juscelino Kubitschek instituiu o ensino médio profissionalizante no Brasil, naquele mesmo ano. Dessa forma, a ETE pôde ter suas atividades iniciadas. Elias Kallás, professor de sociologia em Santa Rita, conta que na cidade há um folclore em torno das atividades que fizeram de Snhá Moreira o grande símbolo
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Parques Tecnológicos no Brasil
De acordo com levantamento da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores, de 2008, o país possui 74 Parques Tecnológicos, que estão em diferentes fases de atuação: 25 já operam normalmente, 17 estão em implantação e 32 ainda estão na fase de projeto.

43%

34%

Operação operação
implantação Implantação projeto

Projeto

23%
Os Parques Tecnológicos do Brasil empregam 26.233 pessoas.

18%
Nível superior Nível supeior

27%

55%

Pós-graduação Pós-graduação
Sem formação Formação

inferior a ensino superior

Existem 520 empresas em operação nos Parques Tecnológicos do país, que juntas geram uma receita de R$ 1,68 bilhão.
1.800.000.000,00 1.800

(R$) milhão

1.600 1.600.000.000,00
1.400.000.000,00 1.400 1.200.000.000,00 1.200 1.000.000.000,00 1.000 800.000.000,00 800 600.000.000,00 600 400.000.000,00 400 200.000.000,00 200 Receitas Receitas Exportações Importações Exportações Importações
FONTE: ANPROTEC / CORA DIAS

DIvULGAçãO/SINDvEL

do Vale da Eletrônica. Preocupada com o fato de todos os homens saírem da cidade para estudar e retornarem já casados, ela buscou estruturar o ensino técnico de Santa Rita. Com isso, os homens poderiam estudar lá, as moças teriam oportunidade de se casar e a cidade não passaria por um processo de envelhecimento. A verdade é que Sinhá Moreira se preocupou com questões sociais de diferentes formas, inclusive na área da saúde. Ela faleceu em 1963, muito antes de se pensar na formação do atual Vale da Eletrônica. Se o incentivo à educação tivesse parado por aí, Santa Rita não teria se tornado o que é hoje. Em 1964, foi criado o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), idealizado pelo professor José Nogueira Leite, para formar engenheiros eletricistas especializados em eletrônica e telecomunicações. Durante os anos 70, o setor de telecomunicações nacio-

nal passou por um difícil período devido às crises internacionais do petróleo. Muitos alunos formados pelo Inatel não tinham perspectiva de emprego. Começaram, então, a abrir o próprio negócio em Santa Rita do Sapucaí. Esse período foi marcado pelas primeiras iniciativas de incubação de empresas na cidade. Da reunião de um grupo de alunos, ex-alunos e professores do Inatel e da ETE, nasceu a Linear, empresa conhecida atualmente por ter desenvolvido um transmissor brasileiro para TV Digital. O polo tecnológico foi institucionalizado em meados da década de 1980, quando o prefeito da cidade, conhecido por Paulinho Dentista, passou a incentivar a criação de micro e pequenas empresas em Santa Rita. Paulinho respondia àqueles que lhe pediam emprego: “Isso eu não tenho, mas se você criar uma empresa de eletrônica, a prefeitura paga seu aluguel por dois anos”. Desde 2005, a

cidade possui uma Secretaria de Ciência e Tecnologia. Assim como Santa Rita, o país também iniciou um movimento de incentivo à criação de empresas de base tecnológica nos anos 80. Hoje são 377 incubadoras e 42 parques tecnológicos no Brasil, que já incubaram seis mil empreendimentos inovadores. Como o próprio nome já diz, as incubadoras possuem a função de fazer com que projetos tornem-se empresas, que depois do estágio de incubação podem lançar seus produtos no mercado. Além de espaço físico para a instalação de escritórios e/ou laboratórios, as incubadoras oferecem salas de reunião, auditórios, área para demonstração dos produtos, secretaria e bibliotecas. Mas são as consultorias gerenciais e tecnológicas, que configuram os mais importantes serviços prestados pelas incubadoras. Assim, o empreendedor pode se dedicar mais à pesquisa e ao desenvolvimento

APL de eletroeletrônica fez de Santa Rita importante polo tecnológico

ValorInovação

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PARquES tEcnológIcoS |
DIvULGAçãO

Investimento em produtos de baixa demanda física e alto valor agregado traz bons resultados para a Alpha BR

do produto até que ele tenha viabilidade de estar no mercado. Para receber esse serviço, a empresa incubada precisa pagar uma taxa de condomínio. No caso do Centro Incubador de Empresas (Cietec) – espaço de empreendedorismo e inovação de São Paulo que está situado na cidade universitária da USP e é a maior incubadora do país –, o condomínio para empresas residentes é de R$ 1 mil. As 122 empresas do Cietec, desde sua criação em 1998, já receberam R$ 58,2 milhões em recursos de programas como os da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É a partir desses financiamentos que as empresas desenvolvem seus projetos para que, num período de três anos,

possam ser graduadas e chegar à fase mercadológica. Em onze anos de incubação, as empresas do Cietec faturaram cerca de R$ 175,8 milhões. As exportações renderam às incubadas U$ 290 mil. De acordo com José Carlos Lucena, do Cietec, 30% das empresas incubadas fecham – o mesmo índice das empresas da incubadora que obtêm sucesso no mercado nacional. Exemplo disso é o caso da empresa de produtos químicos Alpha BR, graduada em 2005, que desenvolve tecnologia e produz matérias-primas (fármacos) de alto valor agregado e baixa demanda física para produção de anestésicos e sedativos para medicamentos de uso hospitalar. O laboratório faturou R$ 1,15 milhão em 2008, o que corresponde

a um crescimento de 27% em relação ao ano anterior. Em setembro de 2009 a empresa já tinha dobrado o faturamento de 2008. “Essa evolução se deve à conclusão de projetos que já estavam em desenvolvimento”, explica William Carnicelli, sócio do laboratório. Os projetos demoram de três a quatro anos para serem desenvolvidos. Lucena explica que o Cietec foi criado como o embrião do Parque Tecnológico de São Paulo, que deve ser inaugurado ainda em este ano. As oito empresas que o parque abrigará já foram selecionadas, das quais sete delas graduadas pelo Cietec. Enquanto na incubadora as empresas possuem salas de 50 m 2, no parque, serão 200 m 2 por empreendimento. Hoje, esses espaços de inovação estão agregando cada vez mais atividades diferenciadas. Segundo o vice presidente da Associação Internacional de Parques Tecnológicos (IASP, na sigla em inglês), Maurício Guedes, em plenária durante o XIX Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas, o conceito original de um parque comum, como um espaço dedicado somente a empresas – onde se chega às oito horas da manhã e se vai embora às seis da tarde – está mudando. “Devem ser criados espaços mais abertos, para os quais não serão atraídas somente empresas, mas também pessoas, os chamados trabalhadores do conhecimento. Portanto, serão áreas habitadas, bairros, onde há residências, espaços para lazer, colégios e também incubadoras e empresas” (ver box). Assim, mais do que um espaço empresarial, esses parques representarão redes sociais, mantendo o caráter de empresas tecnológicas, voltadas à inovação. Esta filosofia, de algum modo, já foi implantada na cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí, onde o Arranjo Produtivo Local Eletroeletrônico faturou mais de R$ 1 bilhão em 2008.

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ValorInovação

Plantando sequoias
Atrair pessoas com opções de cultura, lazer e educação é um dos objetivos do Sapiens Parque de Florianópolis que foge dos padrões tradicionais de parques tecnológicos. O projeto iniciado em 2000, possui 4,5 milhões de m2 e está localizado no norte da Ilha de Santa Catarina. A área foi concedida pelo Estado e, por isso, criou-se uma empresa de Sociedade Anônima em que 93% do capital pertence ao governo catarinense. Foram necessários dois anos para a conclusão do Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) desta área e mais um ano e meio para o licenciamento ambiental junto ao Ibama. Isso porque o Sapiens Parque está localizado numa área de mangue de Florianópolis. Dos 25 parques em operação no Brasil, nove não possuem licença ambiental. De acordo com José Eduardo Fiates, diretor executivo do Sapiens, o parque vai desenvolver atividades que já são vocação de Florianópolis, como os setores de tecnologia e turismo. “São quatro áreas consideradas de base: experiência, ciência, arte e meio ambiente que gerarão conhecimento para as áreas consideradas estratégicas para a capital catarinense. Queremos consolidar um grande shopping de inovação”, explica. Projetos como o Instituto do Petróleo da Petrobras e o Laboratório de Farmacologia pré-clínica do Ministério da Saúde, ambos em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina, terão investimentos de R$ 37 milhões e
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Revitalização urbana de bairro industrial catalão: aposta na economia do conhecimento

Animaking traz novidade para o setor nacional de entretenimento

devem ser instalados no parque. Fiates acredita que a implantação de todos os projetos previstos para o Sapiens se dará ao longo de vinte anos, com uma área construída de 1 milhão de m2. Desde a inauguração do marco zero, em abril de 2006, dez empresas foram aceitas para atuar no parque. A AnimaKing, por exemplo, foi instalada em 2007 no Studium Sapiens, que abrigará um cluster de mídia e animação gráfica integrando instituições, empresas e conhecimento gerado pelas universidades. A empresa desenvolve animações gráficas para televisão e cinema e os 22 profissionais trabalham no primeiro longa-metragem brasileiro de animação stop-motion, chamado “Minhocas”. O filme será lançado em 2010. Em Barcelona, ideia semelhante norteia a recuperação do antigo bairro industrial, o Poblenou, que está sendo revitalizado para atender atividades intensivas em conhecimento. De acordo com o plano estratégico da capital catalã, a região de Poblenou, conhecida por 22A, era cercada de vias férreas e o principal motor econômico da Catalunha. Abrigando indústrias pesadas e de forte agressão ao meio ambiente, o bairro de Barcelona entrou em decadência e, desde 2000, a região, agora chamada de 22@, vem passando por uma revitalização urbana, para se tornar um centro de inovação. Desde o início do projeto, 1.441 novas empresas se instalaram em Poblenou, das quais 69% pertencem a algum dos cinco setores de atuação previstos no projeto 22@Barcelona: mídia, tecnologias médicas, design, energia e tecnologia da informação e comunicação. Dos 42 mil novos trabalhadores de Poblenou, mais da metade possuem graduação. O projeto, que está previsto para ser concluído entre 2015 e 2020, terá investimentos imobiliários e de infraestrutura que somam 174 bilhões de euros. São empreendimentos caros e de longo prazo, que buscam adequar os setores produtivos à economia do conhecimento.

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PEquEnAS EMPRESAS, gRAndES RESultAdoS
Parceria ganha-ganha entre pequenas e grandes: acesso a novos mercados para uma e redução dos custos de P&D para a outra
iPod não é uma invenção só da Apple. O cultuado aparelho existe apenas porque pequenas empresas do Vale do Silício, como a Portal Player, participaram da sua construção com tecnologia e conhecimento de mercado. A criação coletiva entre pequenas e grandes empresas ocorre inclusive no Brasil e traz benefícios para os dois lados. Conhecido como open innovation (inovação aberta), esse modelo possibilita que companhias pesquisem e desenvolvam novos produtos externamente através de parcerias com outras empresas ou instituições privadas e públicas. A ESSS, por exemplo, foi criada a partir de um grupo de pesquisa e desenvolvimento da (P&D)

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Sinmec, laboratório de simulação numérica da UFSC, que deu origem à ESSS

da Universidade Federal de Santa Catarina que desenvolvia softwares de simulação para a Petrobras. Em 1995, quando foi fundada, a ESSS era incubada no Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas de Florianópolis. A empresa ganhou projeção nacional ao desenvolver a biblioteca de programação COIlib, junto com o Laboratório de Simulação Numérica em Mecânica dos Fluidos e Transferência de Calor da UFSC. A COIlib foi base para importantes projetos na área de simulação de reservatórios de petróleo, criando um vínculo com o Centro de Pesquisas da Petrobras, para realizar pesquisa e desenvolvimento nas áreas de exploração, produção, refino e distribuição

de petróleo e derivados. Hoje, já possui mais de cem funcionários, escritórios no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Santiago, no Chile. Além disso, passou a atuar em outros mercados – desenvolve, customiza e comercializa softwares próprios e de parceiros - diversificando sua carteira de clientes. Mesmo assim, a gigante petrolífera brasileira ainda é a principal responsável pelo faturamento da empresa. No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, existem 14,8 milhões de micro e pequenas empresas – 4,5 milhões formais e 10,3 milhões informais – que respondem por 28,7 milhões de empregos e por 99,23% dos negócios do Brasil. Em 2007, o valor exportado por essas companhias foi de R$ 2,1 bilhões, com alta de 12,4% em relação a 2006. As MPEs que desenvolvem inovações possuem características comuns: estão, na maioria das vezes, ligadas às universidades e com uma equipe técnica de alta qualificação. Na ESSS, 97% de seus funcionários possuem nível superior completo, dos quais 11% são doutores. Dessa forma, há uma transferência clara do conhecimento gerado nas universidades para o mercado. Dados da última Pesquisa de Inovação Tecnológica do IBGE, divulgada em 2007 e referentes aos anos de 2003 a 2005, mostram que 32 mil empresas do setor produtivo e de serviços incorporaram inovações de produtos ou

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processos no Brasil. Dentre todas as novas tecnologias, 25 mil saíram de outras empresas e institutos ou da cooperação entre esses agentes. Pelo menos na busca de invenções, as pequenas levam vantagem. “Os negócios de menor porte podem responder mais rapidamente às demandas do mercado”, diz André Calazans, analista de projetos da Finep. Empreendimentos menores têm um diferencial difícil de bater: o alto grau de especialização. Mas a mesma estrutura enxuta que barateia as pesquisas também pode atrapalhar os pequenos na hora da comercialização. Sem tantos recursos para investir em marketing e distribuição, fica difícil competir em pé de igualdade com os grandes nomes do mercado. A simbiose entre pequenas e grandes empresas auxilia também na diversificação de clientes. Essa alavancagem ocorre quando a gigante recomenda a MPE para outras parceiras que necessitem de um serviço semelhante prestado para ela. É o que a IBM faz com a VANguard, empresa de consultoria no gerenciamento de infraestrutura e Tecnologia da Informação (TI). “A parceria com a IBM é muito boa porque ela nos traz serviços e nos indica para outros clientes”, conta Luciana Varejão, sócia da empresa.

A VANguard, graduada em 2001 na incubadora CESAR, de Recife, é considerada parceira premier, classificação adotada pela IBM, está licenciada para revender suas soluções, bem como implementá-las e dar treinamentos para quem as compra. Luciana explica que, a partir da parceria, a IBM aumenta sua rede de serviços, o que sozinha ela não conseguiria fazer. “Enquanto isso nós temos acesso à tecnologia de ponta desenvolvida pela gigante do setor de TI”, conta. Embora a VANguard possua outros clientes, a IBM é responsável por cerca de 70% do seu faturamento. “Há sempre um risco, quando uma empresa tem grande parte de seu faturamento atrelado a somente um fornecedor ou cliente. Porém, a chance de um fornecedor como a IBM mudar a sua forma de atuação ou mesmo apresentar resultados negativos é mínima”, explica Luciana. Um risco que as MPEs inovadoras enfrentam ao se aproximar de grandes corporações é o de serem absorvidas por elas. Foi o que aconteceu com a PGT, empresa graduada pela incubadora de empresas Coppe/UFRJ, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A empresa de consultoria, análise e interpretação de dados de bacias petrolíferas, que possuía clientes em outros países, foi comprada pela Vale em 2008.

A operação foi concluída e o negócio, estimado pelo mercado em US$ 10 milhões, garantirá à gigante do setor mineração corpo técnico qualificado para a busca por reservas de petróleo e gás. Com a compra da PGT, a Vale incorporou todo o quadro técnico da empresa, de cerca de 50 funcionários. Desde 2007, a PGT prestava serviço de avaliação na área de exploração para a Vale e assessorou a mineradora na compra de nove blocos na 9ª Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), todos em parceria com empresas de petróleo. A Vale decidiu entrar no setor ainda em 2007, em busca principalmente de reserva de gás para garantir suprimento de energia para suas atividades. Com faturamento estimado em R$ 10 milhões por ano, a PGT é especialista em identificar áreas com potencial para descobertas de petróleo. Além da Vale, figuravam entre seus clientes as brasileiras Queiroz Galvão e Starfish, a norueguesa Norse Energy e a colombiana Ecopetrol. Para Alfredo Laufer, da Coppe/UFRJ, se a aquisição pela Vale fosse prejudicial, a PGT não teria fechado o negócio. “A tecnologia desenvolvida pela consultoria era essencial para os novos negócios da mineradora, por isso houve negociação. Em nenhum momento vimos isso

Compromisso com a mudança
A inovação entrou de vez na pauta do setor produtivo nacional. Durante o 3° Congresso Brasileiro de Inovação na Indústria, realizado em 19 de agosto, pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), lideranças políticas e empresariais se reuniram para debater e lançar um manifesto, assinado por representantes de diversos segmentos do segundo setor, confirmando a responsabilidade da categoria de investir em estratégias inovadoras: “Inovação é uma atividade coletiva, em que a empresa é o ator principal, mas que depende de boa infra-estrutura, sólidas instituições de pesquisa e boas universidades”. De acordo com o documento, 6 mil empresas brasileiras realizam pesquisa e desenvolvimento e 30 mil declaram inovar em produtos e processos. A meta principal do manifesto é duplicar o número de empresas brasileiras inovadoras nos próximos quatro anos. “A inovação, em qualquer país, é fruto de uma forte parceria entre governo e setor privado. Passos importantes foram dados ao posicionar a inovação no centro da política industrial”, conclui o presidente da CNI, o deputado federal Armando Monteiro (PTB/PE). No dia 23 de outubro, o manifesto foi entregue ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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como algo ruim, mas sim como reconhecimento do trabalho da PGT”, explica. A Universidade Federal do Rio de Janeiro possui tradição no setor de petróleo e gás e abriga o Cenpes, Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Petrobras (ver box abaixo). A maioria das atividades das empresas da incubadora da Universidade está voltada para atender ao setor. Internacionalização O movimento de internacionalização das cadeias produtivas e o de globalização da economia tiveram como agente a grande empresa. Esse processo também possibilita, de forma menos evidente, a entrada de pequenas empresas no mercado global. Mediante associações com empresas locais, como é o caso da VANGuard trabalhando em parceria com a IBM, ou integrando cadeias produtivas transnacionais, como aconteceu com a PGT. No setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) é comum que o processo de internacionalização se dê por meio de parceria entre empresas. A ESSS, por exemplo, chegou ao mercado externo quando passou a atuar como revendedora das soluções da ANSYS, empresa americana que também desenvolve ferramentas de simulação virtual. Com um escritório no Chile e projetos em Houston, nos EUA, e na Argentina, a ESS desde o ano passado alcançou faturamento superior a R$ 10 milhões e pode ser considerada empresa de médio porte, o que mostra que as pequenas empresas devem e podem crescer. Alguns programas desenvolvidos pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) auxiliam especificamente as MPEs. Um deles oferecerá, em dois anos, R$ 6 milhões em recursos para apoiar empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) instaladas em incubadoras e parques tecnológicos de todo o país. A meta do projeto é elevar o patamar de exportações, passando dos U$ 100 mil obtidos em 2008 para U$ 1,9 milhão em 2009 e U$ 2,3 milhões em 2010. ”As MPEs precisam entender que o processo de inovação está diretamente ligado à internacionalização. Para isso investimos também na capacitação de gestores para que conciliem os dois processos”, explica Alessandro Teixeira, presidente da Agência. Os mercados-alvo iniciais do projeto são Estados Unidos, México, França, Reino Unido, Alemanha, Portugal, Espanha e Colômbia. A internacionalização de pequenas empresas é, inclusive, uma das quatro metas-país da Política de Desenvolvimento Produtivo do governo federal. O objetivo é aumentar em 10% o número de MPEs exportadoras em 2010, frente a 11.792 empresas que exportavam em 2006.

Parceria
O projeto Redes Temáticas, da Petrobras, assinado em conjunto com reitores de universidades e diretores de institutos de pesquisa, teve início em 2006. Nesses três anos, a empresa investiu R$ 1,8 bilhão nas 80 instituições brasileiras de pesquisa e desenvolvimento com as quais tem parceria. Através do projeto, a Companhia definiu 50 redes temáticas relacionadas às metas tecnológicas da Petrobras, definidas a partir de seu plano de negócios. Em 2004, o valor destinado às instituições nacionais de P&D foi R$ 89 milhões; já em 2008, estes investimentos totalizaram R$ 443 milhões. O gerente executivo do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras (Cenpes), Carlos Tadeu da Costa Fraga, conta que o Brasil passou a ter laboratórios de classe mundial que antes só existiam no Hemisfério Norte, como o Calibrador Hidrodinâmico, na USP, o Núcleo de Tecnologia de óleo e Gás, no Espírito Santo e o Laboratório de Ensaios Não Destrutivos, Corrosão e Soldagem na UFRJ. Além da Petrobras e das instituições nacionais de P&D, o modelo das redes conta com outros importantes atores, como a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e os ministérios da Ciência e Tecnologia (MCT) e de Minas e Energia (MME).

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Sede do Cenpes na UFRJ: Petrobras possui 50 redes temáticas em parceria com 80 instituições nacionais

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