O PAPEL DO VASCO CONTRA O RACISMO NO FUTEBOL

Rio de Janeiro – RJ

EDUARDO DE FREITAS MAGANHA
Marc-Apoio :: Turma 904-3

HISTÓRIA
Professor Cláudio Camardella

JUSTIFICATIVA DA ESCOLHA DO TEMA
Sou Sócio-Proprietário do Club de Regatas Vasco da Gama, colaborador e pesquisador da história cruzmaltina, portanto não foi por acaso que escolhi este tema para o trabalho final. O Vasco foi decisivo para o fim do racismo no futebol brasileiro na década de 1920, escrevendo um dos capítulos mais belos da história de um clube esportivo.

INTRODUÇÃO
Antes de falar do fim do racismo no futebol brasileiro, é importante mencionar as origens desse esporte no mundo, quem praticava e quem trouxe para o Brasil. Ancestrais do futebol Ao longo dos séculos, em diversas localidades, historiadores apontam jogos diferentes, que envolvem o chute na bola e podem ser considerados formas primitivas do futebol. O mais antigo é um exercício militar na China, entre os séculos II e III AC, denominado “Tsu' Chu”, que consistia em chutar uma bola de couro cheia de penas e pelos através de uma abertura de 30-40cm de largura. De acordo com a variação do exercício, o jogador podia usar pés, peito, costas e ombros para resistir aos ataques oponentes. O uso das mãos não era permitido. Outra forma primitiva do futebol, também originária do Oriente, foi o “Kemari”, no Japão, que começou cerca de 500-600 DC, e ainda é jogado até hoje. Os jogadores formam um círculo pequeno e mantém a bola no ar o maior tempo possível, passando-a entre si, sem competitividade. O grego “Episkyros” e o romano “Harpastum” foram jogos mais animados. O último era praticado por duas equipes e uma pequena bola, num campo retangular delimitado por linhas. O objetivo variava. Podia ser cruzar a linha de fundo oponente ou proteger a bola na própria metade do campo. Sua prática permaneceu popular por uns 700 anos, mas o uso dos pés passou a ser raro quando os romanos levaram o esporte para a Grã-Bretanha. As regras do futebol moderno O Futebol como conhecemos hoje, teve suas regras estabelecidas em 1863, com a fundação da Football Association, na Grã-Bretanha. Até então, o esporte praticado nos colégios britânicos permitia a utilização de mãos e pés para conduzir a bola, e uma certa dose de violência para impedir tal condução. Com o fim do uso das mãos e a proibição dos pontapés, rasteiras e agarrões, os insatisfeitos criaram o Rugby, esporte mais conservador, praticado até hoje pelas “boas famílias” europeias. O Futebol seguiu um caminho distinto. Ganhou popularidade, profissionalizou-se cedo, ainda no século XIX na Europa (década de 1930 no Brasil), rompendo as fronteiras britânicas.
2

A fundação da Fédération Internationale de Football Association (FIFA), em Paris, no ano de 1904, foi determinante para a descentralização e expansão do futebol. Foram 7 membros fundadores: França, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Espanha (representada pelo Real Madrid FC, o único clube), Suécia e Suíça. A Federação Alemã de Futebol enviou um telegrama no mesmo dia, com a intenção de se afiliar. Pouco mais de um século depois, a FIFA já conta com 208 membros de todas as partes do mundo (dados do “2007 FIFA Congress”). Futebol no Brasil O futebol se espalhou pelo mundo através de imigrantes e descendentes de britânicos, não demorando muito para chegar na América do Sul. Na Argentina, em 1867, ferroviários ingleses fundaram o Buenos Aires FC, o primeiro clube de futebol no continente. No Uruguai, em 1891, professor e alunos de um colégio britânico criaram o Albion FC, apesar de partidas de futebol terem sido disputadas anteriormente por clubes de remo e críquete. No Brasil, a história não foi muito diferente. A versão considerada pioneira é do paulista Charles Miller, filho de um ferroviário escocês com uma brasileira de ascendência inglesa, que estudou por uma década numa escola em Southampton (Inglaterra), jogando bola no time local (St Mary YMA). Regressou ao Brasil com 20 anos, trazendo o futebol na bagagem: duas bolas, um par de chuteiras e um livro de regras do futebol. No dia 14 de abril de 1895, Charles Miller reuniu os amigos na Várzea do Carmo, em São Paulo, e realizou uma partida entre ingleses e anglo-brasileiros, formados pelos funcionários da Companhia de Gás e da Estrada de Ferro São Paulo Railway, onde ele trabalhava com seu pai. O São Paulo Railway venceu o amistoso por 4x2. Há controvérsias! Existem registros da prática do futebol no Brasil anteriormente. Em 1874, marinheiros estrangeiros disputaram uma partida em praias cariocas. Em 1878, tripulantes britânicos do navio Criméia enfrentaram-se em uma exibição para a Princesa Isabel, também no Rio de Janeiro. Em 1886, em Nova Friburgo, os padres jesuítas impuseram a prática regular do futebol aos alunos do Colégio Anchieta. O pioneirismo de Charles Miller também é contestado pelo Bangu Atlético Clube, clube fundado pelos funcionários de uma fábrica têxtil no subúrbio carioca em 1904. Teria sido o escocês Thomas Donohoe quem introduziu o futebol em terras brasileiras. Thomas era um técnico da firma inglesa Platt Brothers and Co., de Southampton, e assim como Charles Miller, também jogou naquele mesmo time local. Contemporâneos, possivelmente tabelaram por lá. Thomas veio para o Rio de Janeiro contratado para ajudar na implantação da fábrica têxtil de Bangu. Em maio de 1894, promoveu a primeira de uma série de partidas de futebol, praticamente um ano antes de Charles Miller. Há também outras histórias não comprovadas. É dito que, em 1882, um homem chamado Mr. Hugh teria introduzido o futebol em Jundiaí-SP, entre seus funcionários. Diz-se também que entre 1875 e 1876, no campo do Paissandu Atlético Clube, na cidade do Rio de Janeiro, funcionários de duas companhias teriam disputado uma partida.
3

Entretanto, a versão a partir de Charles Miller é a mais aceita e difundida no cotidiano brasileiro.

DESENVOLVIMENTO
Para descrever o processo de democratização do futebol no Rio de Janeiro, é preciso analisar as conjunturas, os pensamentos e as disputas pelo poder. Acima de tudo, será fundamental identificar algumas diferenças extra-campo que eram levadas para dentro das quatro linhas, batalhas declaradas ou silenciosas, tais como: - Zona Sul x Zona Norte e Centro; - República x Monarquia e Império; - Descendentes de Portugueses x Descendentes de outras nacionalidades; - Elite Social x Negros, Mulatos e Brancos Pobres; - Alfabetizados x Analfabetos; - Amadorismo x Profissionalismo. A conjuntura carioca até o final do século XIX A vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil (1808), revolucionou a vida do carioca. A população ocupava o quadrilátero formado pelos morros Santo Antônio, São Bento, Conceição e Castelo, obrigando os monarcas se estabelecerem no Rio de Janeiro em local afastado, na Zona Norte, mais precisamente na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. A nobreza construiu seus casarões próximos à residência de D.João VI, que realizou obras de infra-estrutura nas cercanias do bairro. Por outro lado, a Zona Sul também deixava de ser um bairro rural para absorver o crescimento demográfico do Rio de Janeiro. Outros imigrantes europeus, comerciantes e barões do café foram construindo suas casas nos bairros Catete, Flamengo e Botafogo. A decadência da Zona Norte veio com a proclamação da República em 1889, decretando o fim do Império no Brasil. A família imperial foi banida do país. Os republicanos tentavam apagar qualquer ranço da Monarquia e do Império. A Quinta da Boa Vista ficou anos abandonada. O Paço Imperial virou agência de correios e telégrafos, passando a sede do Poder Executivo para o Palácio do Itamaraty, próximo ao Campo de Santana, no Centro. Em 1897, a sede foi transferida para o Palácio do Catete, na Zona Sul, bem longe da portuguesada da Zona Norte que permaneceu na Capital Federal. A elite social emergente residia e enriquecia nos bairros da Zona Sul. A Zona Norte, cada vez mais deixada de lado, decadente. O Centro, ainda repleto de cortiços e moradias insalubres. A fundação do Club de Regatas Vasco da Gama Em meio a esse panorama do Rio de Janeiro, o Club de Regatas Vasco da Gama nasceu no dia 21 de agosto de 1898, próximo à Praça Mauá. Clube de Regatas, remava na
4

contramão de um sentimento anti-lusitano, pregando a união entre Brasil e Portugal, união entre todos os povos. Seu quadro de sócios era formado por gente das duas nacionalidades, a maioria pobre e residente no Centro da cidade. Alguns caixeiros, outros comerciantes, que dormiam em cima do balcão ao final do expediente ou moravam no andar de cima do estabelecimento. O discurso do Professor Manuel Ferreira de Castro Filho durante a sessão solene pelo Cinquentenário do Vasco, em 1948, transmite a motivação para a fundação do clube: “(...) É necessário que se recue a uma cidade ainda alumiada a querosene, na qual, senhoras de saias como as de hoje, mas de costumes mais ataviados, pouco apareciam pelas ruas. É preciso que se recue para um tempo em que mal se tinha coragem de falar do corpo e do físico, para um tempo em que a República apenas ensaiava os primeiros passos, engatinhando nos seus primeiros dias, para um tempo em que, só um ou outro moço de coragem tinha audácia de contrariar conceitos conselheirais e falar do que já se fazia além-mar: a prática da educação física. Era num ambiente assim, quase hostil, que a golpes de audácia se havia de fundar um clube de regatas. Já os havia de ginástica, mas de remo, esse desporto feito ao sol e no mar, só existiam por aqui aqueles cuja influência viera de rapazes louros de nomes arrevesados. Estes rapazes louros, em que pese a sua simpatia, diziam os de então: ‘têm nomes que não se decoram com facilidade e para que nos tornemos companheiros, falta-nos a compreensão mútua do idioma’. Os nossos rapazes, portugueses do comércio, que tinham de levantar cedo, para dias inteiros de canseiras, esses rapazes procuravam as praias, para os banhos de mar, somente aos domingos. Os clubes a que pertenciam os jovens de nomes arrevesados, ou os estudantes das academias, iniciavam suas atividades muito tarde e aqueles que haviam de ser dos nossos começavam a sua labuta quase pela madrugada. Esses rapazes precisavam, portanto, de ter uma agremiação sua, de acordo com os seus hábitos, onde todos falassem a mesma língua e onde todos sentissem as mesmas emoções; e surgiu a idéia, dentro de um dos clubes de ginástica da época, de se fundar um clube de remo. (...)” O nome da instituição foi bastante debatido. Preteriram CR Álvares Cabral e CR Santa Cruz, homenageando o navegador português Vasco da Gama, em comemoração ao quarto centenário da viagem de descoberta do caminho marítimo para as Índias. Curiosamente, até hoje o termo “Club” faz parte do nome cruzmaltino, talvez para lembrar aos menos avisados que o Vasco é uma instituição centenária, que já atravessou 2 séculos, que foi fundada quando “clube” ainda se escrevia “club”. Os clubes de Remo no Rio de Janeiro O Remo antecede a popularidade do futebol no Rio de Janeiro. Historiadores afirmam que os egípcios foram os primeiros a remar, aproximadamente em 1430 AC. A origem do esporte moderno aponta para 1715 DC, quando os taxistas do Rio Tâmisa, em Londres, disputavam corridas valendo grandes premiações. O esporte passou a ser praticado em
5

colégios e universidades da Inglaterra, culminando com a tradicional disputa entre Oxford e Cambridge, a partir de 1829. Na Baía de Guanabara, o Jornal do Commercio anunciou, em 20 de agosto de 1846, a sensacional disputa entre as canoas Cabocla e Lambe-Água, com os remadores Alecrim e José Ferro, respectivamente. A largada foi na Praia de Jurujuba (Niterói) e a chegada na Praia de Santa Luzia (Rio de Janeiro). Alecrim, o vencedor, foi carregado pela multidão delirante pela cidade. Daí em diante, os desafios públicos entraram na moda. Em 1851, foi criado o Grupo dos Mareantes, em Niterói, realizando a primeira regata do Brasil. No ano seguinte, uma das embarcações naufragou causando a morte do remador e a dissolução do clube. A Marinha passou a apoiar e realizar as regatas a partir de 1862, tendo a presença de D.Pedro II na platéia. O esporte se desenvolveu e foi ganhando novos clubes ao longo dos anos. No final do século XIX, nasceram os dois clubes de maior rivalidade e popularidade no Rio de Janeiro: CR Flamengo (1895) e CR Vasco da Gama (1898). A União de Regatas Fluminense passou a promover campeonatos na enseada de Botafogo, em 1898. O campeão de cada ano saía da disputa de uma prova especial. Por problemas internos, o Vasco só disputou a competição a partir de 1905, sagrando-se campeão logo no primeiro ano, assim como aconteceria no futebol em 1923. O Vasco é a instituição com maior número de títulos na história do Remo do Rio de Janeiro. Vale destacar que o CR Botafogo (1894) era um clube de Remo independente do Botafogo FC (1904), que praticava Futebol e foi fundado por garotos de 15 anos. Inclusive, o CR Botafogo chegou a enfrentar o Botafogo FC nas quadras de basquete. Ambos se fundiram em 1942, formando o atual Botafogo de Futebol e Regatas. O Fluminense FC (1902) jamais se dedicou à prática do Remo. Oscar Cox, seu primeiro presidente, era remador do CR Botafogo. O Futebol no Rio de Janeiro O Futebol levou muitos anos para superar a popularidade do Remo no Rio de Janeiro. O primeiro clube a ser formado para a modalidade foi o Fluminense Football Club, em 1902. O tricolor fazia amistosos contra clubes paulistas e cariocas que praticavam outros esportes, como o críquete. Em 1905, surgiu a necessidade de estruturar a realização dos jogos e organizar as competições. Com a filiação de Fluminense FC, Rio Cricket and Athletic Association, Football Athletic Club, América Football Club, Bangu Atlético Club, Botafogo Football Club, Sport Club Petrópolis e Paysandu Cricket Club, surgiu a Liga Metropolitana de Football (LMF). Porém, eram comuns os desintendimentos nos bastidores, causando desfiliações e criações de novas instituições para promover os torneios. Fluminense e Botafogo foram os campeões nos primeiros anos. O América venceu pela primeira vez em 1913. O futebol do Flamengo, que surgiu a partir de uma cisão no Fluminense, em 1911, foi campeão em 1914. Esses quatro clubes elitistas eram os “grandes” que o Vasco desbancaria na década de 20.
6

A criação do departamento de Futebol do Vasco O Vasco só voltou seus olhos para o futebol a partir de 1913, quando o Botafogo FC convidou um combinado de Lisboa para se apresentar no campo na Rua General Severiano. O evento atraiu o interesse da colônia portuguesa, que assistiu a vitória da Seleção de Portugal e motivou a criação de equipes de futebol, das quais apenas o Centro Esportivo Português, o Lusitano Football Club e o Lusitânia Sport Club sobreviveriam. Em 1915, o Lusitânia SC passou a compor o departamento de futebol do Vasco. O uniforme do Lusitânia foi mantido: camisas pretas com punhos, golas e calções brancos. A única alteração foi a adição da cruz-de-malta em substituição à esfera armilar portuguesa no lado esquerdo peito. Os Camisas Pretas dariam o que falar. Observação: O uniforme assim permaneceria até 1938, quando foi incorporada a faixa diagonal branca, usada desde o início pelas guarnições de remo. Data também dessa época o uniforme branco com a faixa diagonal negra. O clube do povo Em 1916, o Vasco fez a estréia na terceira divisão, tendo vencido apenas um jogo. Nos anos posteriores, o nível do time vascaíno foi melhorando, certamente graças ao atrevimento de não discriminar negros e mulatos. Apesar de ser basicamente um clube de colônia, o Vasco seguia a boa tradição portuguesa da mistura, ao contrário dos tradicionais grandes clubes de futebol do Rio. Estes, via de regra, não somente não aceitavam indivíduos de cor em seus quadros sociais, como alguns chegavam ao extremo de admitir exclusivamente ingleses e seus descendentes - caso do Paysandu, campeão de 1912, e do Rio Cricket. Ao contrário dos grandes clubes de futebol do Rio, desde a sua fundação o Vasco esteve aberto aos brasileiros de todas as origens e classes sociais, além dos portugueses, tendo tido, inclusive, um presidente mulato ainda na época do remo, Cândido José de Araújo, em 1904. O Lusitânia havia sido um clube fechado, só para portugueses, mas, ao ser absorvido pelo Vasco, foi a filosofia aberta deste que prevaleceu. Para reforçar a sua equipe de futebol, o Vasco ia recrutando sem discriminação aqueles que se sobressaíam nas peladas de subúrbio e nos clubes pequenos. Assim, enquanto os jogadores dos aristocráticos clubes grandes eram praticamente todos brancos ricos, a maioria acadêmicos, os jogadores do Vasco eram de profissão humilde, sendo que alguns mal sabiam assinar o nome. Anos mais tarde, o clube chegaria até a contratar um professor de gramática, satisfazendo uma exigência da Liga - leia-se, dos clubes rivais, sempre à procura de pretextos para hostilizar o Vasco. Em 1922, o Vasco foi campeão da série B da primeira divisão, conquistando o direito de enfrentar os grandes: América, Botafogo, Flamengo e Fluminense. Os jovens da elite carioca não acreditavam no time cruzmaltino, recheado de jogadores negros e de operários dos subúrbios cariocas.

7

Assim pensavam os elitistas: o que é que podia fazer um clube de segunda divisão, cuja maioria dos jogadores residiam em alojamentos na Rua Morais e Silva, ao lado de um campinho de treinamento tão ruim que nem para jogos oficiais servia? Os portugueses do Vasco que botassem no seu time quantos crioulos quisessem, mas tudo continuaria como sempre foi, com os brancos vencendo os campeonatos e os pretos nos seus lugares, nos clubes pequenos. O Campeonato de 1923 Em 1923, o Vasco celebrava 25 anos de fundação e queria fazer bonito na estréia da primeira divisão do Campeonato Carioca. A preparação física do time foi determinante. O técnico uruguaio Ramón Platero submetia os jogadores a um ritmo alucinante de treinos, fazia-os correr diariamente do campo do Vasco, então na Rua Morais e Silva, na Quinta da Boa Vista, até a Praça Barão de Drumond, em Vila Isabel. Os demais grandes, apesar de instigados, não notaram a força da equipe do Vasco. Para esmagar seus adversários, o Vasco utilizava uma técnica infalível. Como o preparo físico do time era evidentemente superior ao dos outros, Platero fazia a equipe levar o primeiro tempo em ritmo lento, para, no segundo, arrasá-los. Todas as 11 vitórias no campeonato foram alcançadas nos últimos 45 minutos. Aquele desprezo na pré-temporada se transformou em inveja e as torcidas adversárias se uniam, a um só tempo humilhadas por verem seus galantes "players" superados por um "team de negros" rumo ao titulo invicto e frustradas por perderem dinheiro em apostas semanais com portugueses. O Vasco era um fenômeno. Com seu time brasileiríssimo, era acusado pelos adversários filo-britânicos de ser um intruso estrangeiro, ou pelo menos português. A única derrota cruzmaltina em 1923 foi para o Flamengo. No 1º turno o Vasco havia vencido o arqui-rival por 3x1. No 2º turno, registrou-se público recorde no estádio das Laranjeiras. "Mais de 35 mil pessoas, sem exagero, encheram as vastas dependências do tricolor", escreveu "O Imparcial". Com todos os espaços reservados ao público preenchidos, muitos torcedores pularam a grade que separava o campo para assistir ao jogo da pista de atletismo. O interesse naquela partida era justificável: os vascaínos vinham vencendo todos os clubes cariocas e o que se viu naquela tarde foi a reunião de torcedores de todos os times contra os terríveis camisas pretas. O jogo terminou 3x2 para os rubro-negros, mas criou uma polêmica histórica. Os cruzmaltinos afirmam, até hoje, ter havido um terceiro gol, mal anulado pelo árbitro, o botafoguense Carlito Rocha. A comemoração dos flamenguistas e dos outros times ultrapassou todos os limites. Saíram em passeata pelas ruas, desde as Laranjeiras em direção à Lapa, festejando como se tivessem ganho o campeonato. Pelo caminho, na Glória, "enfeitaram" um busto de Pedro Álvares Cabral com um colar de réstias de cebola, e chegando na Lapa, concentraram-se em frente ao restaurante Capela, tradicional reduto vascaíno, com um dos carros da procissão exibindo um tamanco de mais de dois metros, retirado da marquise de uma loja. Aí o pau comeu, e assim começou a rivalidade Vasco-Flamengo.
8

No entanto, a derrota para o rival não abalou a confiança do Vasco, que partiu com tudo para o título nos jogos seguintes. Bem alimentados pelas refeições que faziam no restaurante Filhos do Céu, na Praça da Bandeira, e bem dispostos, graças ao repouso oferecido no dormitório do Clube, os jogadores vascaínos bateram América, Fluminense e São Cristóvão, conquistando o troféu com uma rodada de antecipação. O Vasco, no seu ano de estréia na primeira divisão do Campeonato Carioca, tornava-se campeão com todos os méritos possíveis. Era a vitória dos negros, mulatos e brancos pobres contra os filhos da aristocracia carioca.

O Bicho No campeonato de 1923 o Vasco instituiu uma forma criativa de pagamento aos seus jogadores. Nos mercados de secos e molhados da Saúde e da Rua do Russel, os portugueses tinham o hábito de apostar nas vitórias do Vasco. Como quase sempre venciam, decidiram dividir o lucro com os jogadores. Contudo, os atletas não poderiam receber em dinheiro, já que eram amadores. Criou-se, então, uma tabela que rendia uma premiação de animal, de acordo com a importância do adversário que o Vasco vencia. O América, o campeão em 22, valia uma vaca com quatro pernas. O Flamengo, bicampeão em 20/21 era merecedor de uma vaca com três pernas. Uma vitória sobre o tricolor carioca era trocada por duas ovelhas e um porco. Vencer o Botafogo e outros times também rendiam algum animal, sempre de galo para cima. Estava então criado o bicho, um tipo de premiação por bom resultado em um jogo e que
9

viraria uma instituição no futebol brasileiro. A reação da aristocracia - 1923/1924 Somente o Vasco poderia resistir à onda de perseguição e intolerância que se levantou contra ele após o título de 1923. É bom lembrar que na sociedade da época – e não apenas no futebol – havia um enorme preconceito contra o português imigrante e o negro. No censo de 1920, os portugueses representavam cerca de 15% da população do Rio de Janeiro: 172.338 de 1.157.873 habitantes, segundo dados do IBGE. Portugal representava o passado. A moda era ser francês e o Rio de Janeiro sofria intervenções urbanísticas a fim de se tornar uma nova Paris. O racismo contra os negros dispensa maiores comentários, porém é importante destacar que, em 1921, o próprio presidente da república solicitou a não convocação de jogadores negros para o Sul-Americano da Argentina, já que não era positivo para a nação brasileira ser associada aos “macaquitos”. Foi nessa sociedade que o Vasco se inseriu. Uma sociedade que se esforçava para ser branca e aristocrática, relegando seu passado luso-africano. O futebol apenas espelhava esse pensamento. Para os adeptos do América, Botafogo, Flamengo e Fluminense, o Vasco não era brasileiro, os brasileiros negros e os brasileiros brancos, pobres e analfabetos não podiam ser considerados iguais aos jogadores deles. Brasileiros eram eles: os ricos, os brancos, os da Zona Sul. Por esse motivo o Vasco tinha que ser banido do futebol, não havia espaço para brasileiros negros e pobres no “football” elitizado. Nem para esses portugueses abusados que deram chance para eles, subvertendo a ordem natural das coisas. Era preciso parar o Vasco, o inimigo número 1 das demais torcidas cariocas. O rival a ser batido, de qualquer maneira. E já que era difícil superá-lo em campo, os dirigentes dos clubes rivais resolveram investigar as posições profissionais e sociais dos camisas pretas, pois o futebol ainda era amador e jogador não podia receber pela prática do esporte. A mesma tática havia sido utilizada no campeonato de Remo, anos antes. Um verdadeiro golpe para tirar o Vasco das disputas. Entretanto, os vascaínos driblaram com categoria as leis da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) ao registrarem seus craques como empregados de estabelecimentos comerciais dos portugueses. Não satisfeitos, os membros da sindicância da entidade resolveram fiscalizar a veracidade das informações. O tricolor Reis Carneiro, o rubro Armando de Paula Freitas e o rubronegro Diocésano Ferreira se cansaram de bater às portas das firmas lusitanas e ouvir que os jogadores, ou melhor, funcionários, estavam realizando serviços externos. A fiscalização das profissões dos jogadores era, na realidade, ilegítima. Por baixo dos panos, muitos atletas dos grandes clubes cariocas já recebiam para jogar. O que de fato incomodava os adversários era a origem daqueles jogadores: um time formado por negros,
10

mulatos e operários, arrebanhados nas áreas pobres da cidade do Rio de Janeiro. E, ainda por cima, agora com o troféu nas mãos. A carta histórica contra o preconceito Depois de esgotadas todas as possibilidades de retirar o Vasco da disputa, pelo regulamento da Liga Metropolitana, os adversários apelaram para a criação de uma nova entidade, a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA). Aceitaram a inscrição de todos os grandes e, é claro, recusaram a dos vascaínos. Com um argumento nada convincente. Segundo os dirigentes adversários, o time cruzmaltino era formado por atletas de profissão duvidosa e o clube não contava com um estádio em boas condições. Realmente, o campo da Rua Morais e Silva não tinha a estrutura que o Vasco merecia, mas não era esse o problema. Isso ficou claro na proposta feita pela AMEA, excluir 12 de seus jogadores da competição, justamente os negros e operários. O Vasco recusou a proposta por uma carta histórica de José Augusto Prestes, então presidente cruzmaltino, ao presidente da AMEA, o tricolor Arnaldo Guinle: "Estamos certos de que Vossa Excelência será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno de nossa parte sacrificar, ao desejo de filiar-se à AMEA, alguns dos que lutaram para que tivéssemos, entre outras vitórias, a do Campeonato de Futebol da Cidade do Rio de Janeiro de 1923", argumentou Prestes. Ele prosseguiu defendendo seus atletas. "São 12 jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de suas carreiras. Um ato público que os maculasse nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles com tanta galhardia cobriram de glórias". E finalizou, decidindo não entrar na nova entidade: "Nestes termos, sentimos ter de comunicar a Vossa Excelência que desistimos de fazer parte da AMEA". A construção do estádio São Januário Sem um campo em condições e vítima do racismo de seus adversários, restou ao Vasco disputar, com outros 21 times de menor expressão o campeonato de 1924 da LMDT, abandonada pelos grandes. Dezesseis vitórias depois, sem nenhum empate ou derrota, os Camisas Pretas levantavam o bicampeonato sem dificuldades. Por causa do Vasco, a competição da LMDT despertou mais interesse do que o campeonato dos grandes da AMEA. Os jogos do Vasco eram sucesso absoluto de público. Em 1925, graças à intervenção de Carlito Rocha, dirigente do Botafogo e árbitro da polêmica partida contra o Flamengo (1923), o Vasco foi admitido na AMEA. O clube mandava seus jogos no campo do Andaraí, onde é hoje o Shopping Iguatemi, mas seus dirigentes já se movimentavam para construir um belo estádio de futebol. E, por tabela, dar uma lição naqueles que um dia afastaram os camisas pretas da disputa com os grandes. A idéia de possuir um estádio próprio já circulava nos bastidores do Vasco desde 1923. Porém, foi nos anos de 1925 e 26 que os dirigentes cruzmaltinos colocaram em prática. No sentido inverso de quem o discriminava, o Vasco iniciou uma campanha histórica de arrecadação de fundos entre associados e simpatizantes, de todas as classes sociais, para a construção de uma praça de esportes. Em pouco tempo, as contribuições somavam 685
11

contos e 895 mil réis. O dinheiro era suficiente para a aquisição de uma enorme área (65.445 m²) em São Cristóvão, num sítio que pertenceu à Marquesa de Santos. Este bairro da Zona Norte foi escolhido por vários motivos. De acordo com o geógrafo Fernando Ferreira, o bairro tinha as características condizentes com a origem do clube bem como de outros fatores que intervieram na escolha do local: "a relativa proximidade com o antigo campo da Rua Morais e Silva e com a zona portuária, parte da cidade onde o clube fora fundado; a existência de uma numerosa colônia portuguesa em São Cristóvão, composta tanto por moradores quanto por comerciantes e industriais; a identificação do bairro com Portugal, construída desde a chegada da Família Real, em 1º de janeiro de 1809 à Quinta da Boa Vista”. Com o terreno comprado, o próximo passo seria ainda mais difícil: arrecadar aproximadamente 2.000 contos de réis para a construção do estádio. Outra vez, a força do povo falou mais alto. A popularidade vascaína aumentava cada vez mais, a ponto do clube registrar o ingresso de 7.189 pessoas no quadro social somente no ano de 1926. No dia 6 de junho de 1926 o prefeito do Distrito Federal, Alaor Prata, assinou o termo de lançamento da Pedra Fundamental, dando início às obras. Para isso, a firma dinamarquesa Cristiani & Nielsen foi contratada, enquanto Ricardo Severo ficou sendo o arquiteto responsável. O projeto seguiu as orientações da Federação Alemã de Esportes, prevendo todos os detalhes de uma arena esportiva. Um dos exemplos disso é a instalação do conjunto na direção nornoroeste-sulsudeste, evitando que o sol dificultasse a ação dos goleiros de ambos os times. Nesse processo surgiu uma pedra no caminho do Vasco. O presidente da República, Washington Luís, não autorizou a importação de cimento belga, obrigando os construtores a acharem uma solução criativa, na mistura de cimento, areia e pedra britada. Estima-se que pelo menos 6.600 barris de cimento e 252 toneladas de ferro foram utilizados na obra. São Januário se tornaria não apenas um belo estádio, mas um marco na história da construção civil do país. Em 21 de abril de 1927, dez meses depois do lançamento da pedra fundamental, o estádio foi inaugurado. Os clubes elitistas que tentaram expulsar pobres e negros do futebol, testemunharam o poder de mobilização da massa vascaína em torno de um objetivo. Aqueles que quiseram amesquinhar o Vasco por não possuir um campo de futebol, foram obrigados a engolir o maior estádio da América do Sul, até a década de 40, e o maior estádio particular no Rio de Janeiro até os dias de hoje. Pioneirismo do Bangu Apesar de ter democratizado o futebol da Capital Federal, o Vasco não foi o primeiro clube a ser defendido por negros ou mulatos. No Bangu de 1905, jogava Francisco Carregal, um tecelão mulato da fábrica do bairro, único brasileiro a jogar entre os engenheiros e técnicos
12

ingleses. Porém, ao contrário do Vasco, o Bangu não lutou por ele, saindo da Liga em 1907 porque o estatuto não permitia a inscrição de atletas de cor. O Vasco, ao contrário, quebrou a estrutura elitista conquistando o Campeonato Carioca de 1923, e permaneceu na LMDT em 1924, forçando os incomodados a se retirarem para formar a preconceituosa AMEA. O pó-de-arroz Há quem diga que o episódio do pó-de-arroz não passou de uma lenda criada por jornalistas. Trata-se do caso do jogador Carlos Alberto do Fluminense, em 1914. Com medo da aristocracia tricolor rejeitá-lo pela cor da sua pele, o atleta entrou em campo com pó-de-arroz no rosto. A medida que suava, a maquiagem saía. E a partir daí as torcidas passaram a gritar “pó-de-arroz” quando Carlos Alberto entrava em campo. O fato de nenhum clube com negros e mulatos no time ter sido campeão até 1922, reforçava a idéia de que o futebol era mesmo um jogo para brancos, ricos, com tradição familiar. Os negros pareciam não ter vez nesse universo, até a chegada do Vasco.

CONCLUSÃO
O Club de Regatas Vasco da Gama foi fundamental para o fim do preconceito no futebol. Não foi o primeiro clube a aceitar negros, mulatos, brancos pobres e analfabetos. Porém, foi pioneiro no sentido de lutar a favor deles, esmagando os clubes que se consideravam a fina flor da sociedade, clubes racistas que foram derrotados pela primeira vez em 1923. O Vasco também mudou o futebol fora de campo. As arquibancadas desses clubes, antes restritas à elite, foram invadidas pela massa vascaína. O povo entrava em lugares antes restritos a alguns. Os estádios agora não eram suficientemente grandes para acomodar tantos. Era a revolução vascaína transformando para sempre o futebol. Ninguém imaginava que aquela equipe suburbana, inferior racialmente e socialmente, na opinião dos ignorantes da época, pudesse ganhar dos clubes ricos da Zona Sul. O que o Vasco fez para o esporte pode ser comparado ao negro Jack Johnson nocauteando o branco Tommy Burns em Sydney no ano de 1908. Antes dessa vitória, o boxe era segregado. A mudança operada pelo Vasco também pode ser comparada com Jesse Owens calando o Estádio Olímpico de Berlin em 1936. Antes disso os nazistas tinham como certeza a vitória dos “puros arianos”. Com o passar dos anos, os clubes se abriram para todos. Graças ao Vasco, agente dessa mudança, o mundo pôde conhecer Pelé, que nem era nascido em 1923. O Vasco, como comunidade de sentimentos, tem orgulho de seu passado sem nenhuma mancha do racismo. Pelo Vasco, o negro pôde se afirmar no futebol. O trabalhador também pôde jogar futebol, por que não? O esporte não deveria ser somente para uma casta de privilegiados. O ano de 1923 marcou essa ruptura. Depois desse ano nada mais foi igual.

13

BIBLIOGRAFIA
CARVALHO, Candido Fernandes. Club de Regatas Vasco da Gama - Memória do Cinquentenário 1898-1948. Rio de Janeiro: Club de Regatas Vasco da Gama, 1949. RODRIGUES FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1964. ROCHA, José da Silva. Club de Regatas Vasco da Gama - Histórico 1898-1923. Rio de Janeiro: Olímpica, 1975. MALHANO, Clara B., MALHANO, Hamilton Botelho. São Januário: arquitetura e história: projeto de pesquisa Memória Social dos Esportes. Rio de Janeiro: Mauad / FAPERJ, 2002. http://www.fifa.com/classicfootball/history/game/historygame1.html acessado em 26 de dezembro de 2009. http://www.netvasco.com.br/historia/historico/ acessado em 27 de dezembro de 2009. http://www.netvasco.org/mauroprais/vasco/histor1.html acessado em 27 de dezembro de 2009. http://www.lazer.eefd.ufrj.br/remo/docs/menu6.html acessado em 28 de dezembro de 2009.

14