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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Proc. No. 79/C.Ord/TDD/2009

Acordam os juízes que constituem o Tribunal Colectivo do Tribunal


Distrital de Dili:

1. RELATÓRIO
O Digno Magistrado do Ministério Público deduziu acusação
contra:
1- Amaro da Costa, mais conhecido por Susar, casado, ex-
PNTL, natural de Same, onde nasceu no dia 2 de Maio de 1970, filho
de Inocêncio da Costa e de Maria Madalena, residente antes de ser
preso, em Beto Oeste-Dili;

2- Domingos do Amaral, mais conhecido por Ameu, solteiro,


natural de Mauulo-Ainaro, onde nasceu no dia 4 de Novembro de
1972, ex-F-FDTL, filho de Rafael Amaral e de Margarida da Costa,
residente, antes de preso, em Taibesi-Dili;

3- Gilson José António da Silva, conhecido por Gilson/Agio,


casado, natural de Fatobess-Ermera, onde nasceu no dia 22 de Janeiro
de 1981, ex-F-FDTL, filho de Olegário António da Silva e de Elda
Galucho, residente, antes de preso, em Aimutin-Dili;

4- Paulo Neno Leos, conhecido por Paul - solteiro, nascido em


Oe-Cusse no dia 30 de Maio de 1981, ex-F-FDTL – Policia Militar, filho
de Elias Neno Leos e de Elisa Tafen, residente antes de preso em Fatu-
hada- Dili;

5- Gilberto Suni Mota, conhecido por Mota, solteiro, natural de


Oe-Cusse, onde nasceu no dia 15 de Abril de 1981, ex- F-FDTL, filho de

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Francisco Suni e de Anastácia Lomen, residente, antes de ser preso,


em Oecussi;

6- Marcelo Caetano, conhecido por Akai, casado, natural de


Ermera, onde nasceu no dia 7 de Abril de 1976, filho de Jorge Bermal e
de Margarida Olomau, residente, antes de preso, em Atara-Ermera;

7- Joanino Maria Guterres, conhecido por Nino/Joanino,


casado, natural de Ainaro Cassa, onde nasceu no dia 11 de Novembro
de 1981, ex-F-FDTL, filho de Paulino Magalhães e de Paulina Ximenes,
residente, antes de preso, em Cassa-Ainaro;

8- Ismael Sansão Moniz Soares, conhecido por Asanko,


casado, natural de Dili, onde nasceu no dia 29 de Abril de 1982, ex-F-
FFDL,filho de António de Jesus Soares e de Santina Pereira Moniz,
residente, antes de preso, em Aitarak Laran-Dili;

9- Egídio Lay Carvalho,conhecido por Lay, solteiro, natural de


Dili, onde nasceu no dia 10 de Janeiro de 1982, ex-F-FDTL, filho de
Plácido dos Santos Carvalho e de Maria Fátima Nunes Lay, residente,
antes de preso, Bairro Pité;

10- Caetano dos Santos Ximenes, conhecido por


Valente/Caetano, solteiro, natural de Dili, onde nasceu no dia 28 de
Dezembro de 1984, ex-F-FDTL, filho de Angelino Borges e de
Domingas Pereira Ximenes, residente, antes de preso, em Aldeia Mata
Rua, Fatuhada, Dili;

11- Bernardo da Costa, mais conhecido por Cris, casado,


natural de Laleia, onde nasceu no dia 24 de Junho de 1974, ex-F-FDTL,

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filho de José da Costa e de Bernarda da Costa, residente, antes de


preso, em Manututo;

12- Avelino da Costa, conhecido por Apai, casado, nascido em


Same, em 28 de Agosto de 1976, ex-FDTL, filho de Abel da Costa e de
Emília da Costa, residente, antes de preso, em Balibar-Dili;

13- Alexandre de Araújo, mais conhecido por Alex, casado,


Natural de Ainaro, onde nasceu no dia 16 de Maio de 1977, ex-PNTL,
filho de Manuel de Araújo e de Manuela de Araújo, residente, antes de
preso, em Ainaro;

14- Raimundo Maia Barreto, mais conhecido por Mané Forte,


casado, natural de Hobulo-Atsabe, onde nasceu no dia 21 de Junho de
1977, ex-F-FDTL, filho de Adão Maia e de Luisa Afonso Cardoso,
residente, antes de preso, em Odomanu-Maliana;

15- Januário Babo, conhecido por Ajano, solteiro, natural de


Lete-Foho-Ermera, onde nasceu no dia 5 de Março de 1980, ex-F-FDTL,
filho Moisés Soares e de Amélia Babo, residente, antes de preso, em
Lete-Foho-Ermera;

16- Júlio Soares Guterres, conhecido por Júlio Rambo, Casado,


Natural de Dili, onde nasceu no dia 6 de Janeiro de 1974, ex-F-FDTL,
filho de Alfredo Guterres e de Maria Soares, residente, antes de preso,
em Suco Beira Mar-Fatu-Hada, Dili;

17- Gastão Salsinha, conhecido por Salsinha, casado, Natural


de Ermera, onde nasceu no dia 4 de Fevereiro de 1974, ex-F-FDTL,
filho de João Soares e de Romana Salsinha Pinto, residente, antes de
ser preso, em Gleno;

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18- Gaspar Lopes, conhecido por Halerik, casado, natural de


Fahu-Berleu-Same, onde nasceu no dia 5 de Fevereiro de 1971, ex-F-
FDTL, filho de Paulo de Jesus e de Seobere, residente, antes de preso,
em Alas-Same;

19- José Agapito Madeira, conhecido por José Espelho, casado,


natural de Liquiçá, onde nasceu no dia 15 de Maio de 1981, ex-F-FDTL,
filho de Gregório Madeira e de Lucinda da Silva, residente, antes de
preso, em Liquiçá;

20- Julião António Soares, conhecido por Joni, solteiro, natural


de Dili, onde nasceu no dia 26 de Dezembro de 1984, ex-F-FDTL, filho
de Carlos Soares de Elisa da Conceição, residente, antes de preso, em
Aimutin-Dili;

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21- Quintino Espírito Santo, conhecido por Quintino, solteiro,


natural de Maliana, onde nasceu no dia 6 de Abril de 1983, ex-F-FDTL,
filho de Inocêncio Espírito Santo e de Celeste de Jesus, residente,
antes de preso, em Lahomea-Maliana;

22- Adolfo da Silva, conhecido por Adolfo/Dolfo/Jovem, solteiro,


natural de Maubisse, onde nasceu no dia 15 de Maio de 1966, ex-F-
FDTL, filho de Carlos da Silva e de Joana da Silva, residente, antes de
preso, em Usindo III, Dili;

23- José da Costa, conhecido por Ventura, casado, natural de


Alas-Same, onde nasceu no dia 4 de Dezembro de 1969, ex- F-FDTL,
filho de Calistro da Costa e de Cecília da Costa Fernandes, residente,
antes de preso, em Aldeia Lurin, Suco Taitudok, Alas, Manufahi – Same;

24- João Amaral, conhecido por Abere, solteiro, natural de


Camanassa-Cova Lima, onde nasceu no dia 21 de Março de 1984, ex-
F-FDTL, filho de Manuel Amaral e de Felicidade de Araújo, residente
em Beto Barat- Comoro – Dili;

25- Tito Tilman, conhecido por Tito, solteiro, natural de


Camanassa-Cova Lima, onde nasceu no dia 7 de Setembro de 1983,
ex-F-FDTL, filho de Fernando Tilman e de Silvina Gusmão, residente
em Camanassa-Suai;

26- Francisco Ximenes Alves, conhecido por Chico, solteiro,


natural de Lacló-Manatuto, onde nasceu no dia 14 de Outubro de
1976, ex-F-FDTL, filho de Naha Labek e de Namu Hadik, residente em
Aldeia Au Hun, Becora, Dili;

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27-Alfredo de Andrade, casado, natural de Kaimauk-Same,


onde nasceu no dia 10 de Outubro de 1975, ex-F-FDTL, filho de
Adriano Barbosa e de Jacinta Soares, residente em TurisCai;

28-Angelita Maria Francisca Pires, mais conhecida por


Angelita/Angi, solteira, natural de Moro Lauten, onde nasceu no dia 1
de Outubro de 1965, filha de Laurentino António Pires e de Maria
Francisca Pires, residente em Bebonuk-Dili;

Imputando aos arguidos factos que, em seu entender,integram os


seguintes crimes:

1 - Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José Silva, Paulo


Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Sunimota, Joanino Maria
Guterres, Egidio Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano
dos Santos Ximenes, em co-autoria e autoria singular, na forma
consumada, e em concurso real:
Um crime de atentado contra a vida do Presidente da República, p.
e p. pelo art.º 104º do Código Penal;
Doze crimes de homicídio tentado p. e p. pelos art.º 53º e 338º do
Código Penal;
Um crime de dano p. e p. pelo art.º 406º do Código Penal;
Um crime de roubo, p. e p. pelo art.º 365º/2, § 2º, do Código Penal;
Um crime detenção e uso de armas de fogo para perturbação da
ordem pública, p. e p. pelo art.º 4º nº 4.7 do Regulamento da UNTAET
n. 5/2001;

2 –Gastão Salsinha, Avelino da Costa, Bernardo da Costa, Alexandre


de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Juliano António Soares,

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Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura, Tito


Tilman, João Amaral, Francisco Ximenes Alves e Alfredo de Andrade,
em co-autoria e autoria singular, na forma consumada, e em concurso
real:
Sete crimes de homicídio tentado p. e p. pelos art.º 53 e 338 do
Código Penal;
Dois crimes de dano p. e p. pelo art.º 406 do Código Penal;
Um crime detenção e uso de armas de fogo para perturbação da
ordem pública, p. e p. pelo art.º 4º nº 4.7 do Regulamento da UNTAET
n. 5/2001.

3 – O arguido Gastão Salsinha, em autoria singular, na forma


consumada e em concurso real, um crime de conspiração p. e p pelos
art.º 88º e 110º nº. 1 e 5 do Código Penal.

4 – A arguida Angelita Maria Francisca Pires, como autora mediata e,


em concurso real, nos termos do art.º 55 n. 1, § 1 do Código Penal dos
seguintes crimes:
Um crime de atentado contra a vida do Presidente da República, p.
e p. pelo art.º 104º do Código Penal.
Doze crimes de homicídio tentado p. e p. pelos art.º 53º e 338º do
Código Penal;
Sete crimes de homicídio tentado, p. e p. pelos art.º 53 e 338 do
Código Penal;
Três crimes de dano p. e p. pelo art.º 406º do Código Penal.

O arguido Julião António Soares contestou (fls. 4675 e seg.),


alegando, em síntese, que agiu sob o comando do Major Alfredo
Reinado, seu superior hierárquico, a quem devia obediência, não
podendo por isso ser-lhe imputada a responsabilidade a título
individual;

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O arguido levou consigo uma arma quando saiu do quartel,


sendo que podia fazê-lo, uma vez que não se encontrava suspenso
das suas funções;
O arguido seguiu para Balibar integrado no grupo do arguido
Gastão Salsinha, desconhecendo o que se passou em Metiaut;
Juntamente consigo, vieram os arguidos Gastão Salsinha,
Januário Babo, José Agapito Madeira, Júlio Soares Guterres, Avelino da
Costa, Quintino Espírito Santo e José da Costa (Ventura);
Nenhum dos arguidos atirou contra as viaturas em que
seguiam o Primeiro Ministro e os seus seguranças;
O arguido encontrava-se a cerca de 200 metros do local
quando ouviu barulho de tiros, mas não viu quem atirou;
Ao ouvir os tiros, todos os arguidos que estavam consigo
ficaram surpreendidos, e só mais tarde, novamente em Lauala, é que
teve conhecimento do que se passou com o Presidente da República e
com o Primeiro Ministro.
O arguido arrolou testemunhas, das quais veio a prescindir.

A arguida Angelita Maria Francisca Pires, em momentos


distintos, veio arguir várias nulidades do inquérito, bem como requerer
várias diligências de prova.
Sobre tais requerimentos foram proferidos vários despachos,
tendo as nulidades arguidas sido apreciadas no despacho que
antecede o presente acordão, proferido ao abrigo do art. 278 do CPP.

Procedeu-se a Julgamento com observância do formalismo


legal.

Por despacho proferido em acta, na sessão de julgamento do


dia 11 de Fevereiro de 2008, aditou o Tribunal à acusação novos

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factos, ao abrigo di disposto no art. 273, n.1 do Código de Processo


Penal.
Dada a extensão dos factos aditados, dão-se os mesmos aqui
por reproduzidos, remetendo-se a sua leitura para o despacho de fls.
6090 a 6092.

Encerrada a fase instrutória, o Tribunal, após deliberação,


proferiu despacho nos termos do disposto no art. 278 do CPP,
efectuando o saneamento do processo, elaborou os quesitos, e
respondeu aos mesmos, constando ainda do despacho a devida
motivação.

2. DECISÃO SOBRE A MATÉRIA DE FACTO

FACTOS PROVADOS

Discutida a causa, o Tribunal considerou provados os


seguintes factos:

1. Na sequência das eleições presidenciais de Abril e Maio de 2007, e


legislativas de Junho do mesmo ano, o Dr. Ramos Horta foi investido no
cargo de PR, e Xanana Gusmão no cargo de PM.

2. Em data não apurada, mas antes do dia 11 de Fevereiro de 2008, o


ex-major Alfredo Reinado e os arguidos concentraram-se em Lauala,
ocupando casas próximas umas das outras, sendo certo que, uma era
chefiada por ele e a outra, por Gastão Salsinha.

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3. Em Lauala, procediam à vigilância da área, por forma a só poder


entrar quem tivesse autorização do ex-major Alfredo Reinado, do arguido
Gastão Salsinha ou, na companhia de pessoas da confiança dos arguidos.

4. Os arguidos contactavam-se entre si, nomeadamente através de


telefonemas, utilizando para o efeito, entre outros os números 7368917,
7335648, 7272269, 7299216, 7339581,7343056, 7348575, 7234041.

5. A arguida Angelita Pires deslocava-se muitas vezes a Lauala, para


onde levava, entre outros, géneros alimentares e bebidas para o grupo
liderado pelo ex-major Alfredo.

6. No dia 16 Dezembro de 2007 estava agendada uma reunião no


Palácio das Cinzas, em que estariam presentes o Presidente da República,
o Presidente do Parlamento Nacional, o Primeiro-ministro, o General
Brigadeiro das F-FDTL, o arguido Gastão Salsinha e o ex-major Alfredo
Reinado, com o objectivo de solucionar a questão da entrega do
denominado grupo “Peticionários”.

7. Apesar de o Alfredo Reinado ter confirmado a sua presença, nem


ele, nem o Gastão Salsinha compareceram, pelo que, tal encontro não se
realizou.

8. A arguida Angelita Pires mantinha contactos permanentes com o


ex-major Alfredo Reinado através, nomeadamente, dos números 7234041
e 7372773, e que deu a sua opinião, entendendo que não estavam
reunidas as condições de segurança necessárias para a deslocação do
Alfredo Reinado a Dili.

9. A arguida Angelita Pires convenceu o Ex-major Alfredo Reinado que


o PR e o PM estavam a preparar um plano para matar o denominado

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grupo “Peticionários”, no qual aquele se integrava, bem como aqueles que


se juntaram a tal grupo.

10. A arguida Angelita Pires, deslocou-se à Austrália em finais de Janeiro


de 2008.

11. Esta arguida contactou desde a Austrália Alfredo Reinado e o


arguido Gastão Salsinha, através de telefones, designadamente, um com
o número +61431232264.

12. A arguida regressou da Austrália no dia 6 de Fevereiro de 2008 e,


no dia seguinte dirigiu-se a Lauala, onde o ex-major e os arguidos
estavam acantonados tendo levado coisas diversas.

13. No dia 9 de Fevereiro de 2008, de manhã, em Lauala, a arguida


Angelita Pires disse ao ex-major Alfredo Reinado que, se eles se
deslocassem ao PR e ao PM, estes tinham que ser mortos.

14. Disse ainda ao arguido Avelino que, se o ex-major Alfredo Reinado


viesse a ser condenado pelo Mundo, este poderia justificar-se como se
tendo tratado de um golpe de Estado.

15. A arguida Angelita Pires esteve em Lauala no dia 7 de Fevereiro,


que dormiu lá do dia 8 para o dia 9, e que regressou no dia 10, após o que
voltou para Dili.

16. A arguida Angelita Pires, no dia 9 de Fevereiro de 2008, no


restaurante Beach Café, após um jantar com pessoa não identificada,
disse que, “o ex-major Alfredo Reinado viria a Díli nos próximos dias, e
que todos deveriam abraçá-lo para ser protegido porque, caso contrário,
poderia morrer”.

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17. No dia 10 de Fevereiro de 2006, por volta das 21 horas, estando


todos os arguidos em Lauala, sob a direcção do Alfredo Reinado e do
arguido Gastão Salsinha, foram chamados e ordenados para se fardarem e
se armarem, porque iriam deslocar-se para Díli.

18. No mesmo dia, por volta das 13h, o Alfredo Reinado, através de um
dos números que utilizava, telefonou ao Leopoldino Exposto, que se
encontrava em Díli, pedindo-lhe que fosse a Lauala, com mais um carro.

19. O Leopoldino Exposto providenciou por um veículo, no qual, na


companhia do arguido Sansão, rumaram a Lauala, onde chegaram por
volta das 18 horas.

20. No dia 10 de Fevereiro, a hora não apurada mas, provavelmente


antes da meia-noite, em momentos distintos, os arguidos saíram de
Lauala em direcção a Dili, fazendo-se transportar em pelo menos quatro
viaturas.

21. Os veículos Nissan Safari, com a matrícula nº 02-083 G/18-397 TLS


e Mitsubishi Pajero, com a matrícula nº 16-891 TLS, foram conduzidos,
respectivamente, pelo ex-major Alfredo Reinado e pelo Leopoldino
Exposto.

22. Nesses dois veículos os arguidos transportaram fardas,


medicamentos, armas e caixas de munições.

23. Nos dois referidos veículos vinham, pelo menos, os arguidos Amaro da
Costa, Domingos do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno
Leos, Gilberto Suni Mota, Marcelo Caetano, Joanino Maria Guterres, Ismael

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Sansão Moniz Soares, Egídio Lay Carvalho e Caetano dos Santos Ximenes,
fardados e armados.

24. Dirigiram-se para a residência do PR, sita em Metiaut, onde chegaram


por volta das 6horas da manhã do dia 11 de Fevereiro de 2008.

25. A caminho, passaram por Balibar, local da residência do PM.

26. Outros dois veículos partiram de Lauala, um deles conduzido pelo


arguido Gastão Salsinha, transportando os co-arguidos Bernardo da Costa,
Avelino da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia
Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião
António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa
Ventura, e Francisco Ximenes Alves, fardados e armados.

27. Dirigiram-se para a residência do PM, sita em Balibar, onde chegaram


na madrugada do dia 11 de Fevereiro de 2008.

28. Chegados ao local, parte deles posicionou-se à beira da estrada, por


onde ia passar a coluna de veículos em que seguiam o Primeiro-Ministro e
os seus seguranças, e outra parte dos arguidos colocou-se na parte
traseira da residência do PM.

29. Com o propósito de fazerem uma emboscada ao Primeiro Ministro.

30. Na manhã do dia 11 de Fevereiro de 2008, por volta das 6h, o PR saiu
de sua residência para o seu habitual footing matinal em direcção ao
Cristo Rei, na companhia dos seguranças, os militares da F-FDTL Isaac da
Silva e Pedro Joaquim Soares.

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31. Chegados à residência do PR, os arguidos Amaro da Costa, Domingos


do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Gilberto Suni
Mota, Marcelo Caetano, Joanino Maria Guterres, Ismael Sansão Moniz
Soares, Egídio Lay Carvalho e Caetano dos Santos Ximenes, pararam em
frente ao portão da entrada principal, onde se encontrava de serviço,
fardado e armado, o segurança Domingos Simões Pereira, militar das F-
FDTL, acompanhado de José Luís da Costa Pereira.

32. Os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José


António da Silva, Paulo Neno Leos, Gilberto Suni Mota, Marcelo Caetano,
Joanino Maria Guterres, Ismael Sansão Moniz Soares, Egídio Lay Carvalho
e Caetano dos Santos Ximenes, fardados e na posse de armas e munições,
desceram dos veículos e, de imediato, cercaram o Domingos Simões
Pereira.

33. Apontaram-lhe as armas, disseram-lhe para não oferecer resistência e


desarmaram-no.

34. O arguido Domingos Amaral ficou com a arma M16 que se encontrava
na posse do segurança Domingos Simões Pereira, depois da mesma ter
sido subtraída por um dos elementos do grupo não identificado.

35. Os arguidos permaneceram no exterior do compound, enquanto o


Alfredo Reinado, Leopoldino Exposto e os arguidos Gilberto Suni Mota e
Igídio Lay entraram para o compound.

36. Os quatro elementos, uma vez no interior do compound, dirigiram-se


ao interior da casa onde se encontrava a cozinheira Amélia Paixão da
Silva.

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37. O ex-major Alfredo questionou esta sobre a localização do quarto de


dormir do PR e obrigou-a a deitar-se no chão.

38. Seguidamente, os quatro supra referidos, vieram para o exterior da


casa, e dirigiram-se para as tendas onde se encontravam guardadas as
armas dos seguranças, começando a apossar-se delas.

39. Enquanto se apossavam dessas armas o Alfredo Reinado dirigiu-se ao


segurança João Soares e disse-lhe para não se mexer, caso contrário
morreria.

40. O Francisco Lino Marçal, segurança de serviço em casa do PR


encontrava-se abrigado no interior de uma casa de banho.

41. Ao ver o Alfredo Reinado e os colegas a apoderarem-se das armas e a


ameaçar o João Soares, disparou sobre os mesmos.

42. Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto faleceram na sequência de


disparos de arma de fogo.

43. Quando ouviram tiros, os arguidos Lay e Mota saíram a correr do


interior do compound, e já no exterior, e na companhia dos restantes
arguidos, abriram fogo em simultâneo na direcção do compound onde se
encontravam alguns dos militares, seguranças da casa do Presidente,
entre os quais, Domingos Simões Pereira, José Pinto Freitas, Francisco Lino
Marçal e Albino Assis.

44. Durante a troca de tiros, aproximou-se do local uma viatura militar


conduzida pelo lesado Celestino Filipe Gama, a qual foi atingida por tiros.

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45. Provocando a sua queda numa vala o que veio a importar diversos
estragos, nomeadamente, no motor, capot, quebra de faróis dianteiros,
quebra do vidro frontal, destruição dos pneus dianteiros, e diversos
orifícios de balas por toda a carroçaria, deixando mesmo de funcionar.

46. O lesado Celestino Filipe Gama foi atingido, na cabeça e em outras


partes do corpo.

47. Como consequência necessária e directa desta conduta, resultaram as


lesões: ferida no lobulo temporal-parietal esquerdo, com extenso edema e
fragmentos metálicos, causadora de lesão cerebral e danos neurológicos
(impossibilidade de visão à direita, monoparesis grave do membro
superior direito, fraqueza ligeira dos membros inferiores, confusão); ferida
no cotovelo direito com fragmentos metálicos, múltiplas lacerações no
crâneo, ferida no joelho direito, com fragmentos metálicos, as quais
necessitaram de duas intervenções cirúrgicas para tratamento, a
permanência do lesado na Unidade de Cuidados Intensivos por um período
de uma semana, e cuidados de fisioterapia.

48. Esteve internado no Hospital em Díli e, posteriormente foi evacuado


para o Hospital de Darwin, onde foi submetido a várias intervenções
cirúrgicas.

49. Na altura em que foi atingido, o lesado Celestino Filipe Gama passava
ocasionalmente na estrada em frente à casa do PR, vindo de Metinaro, a
caminho de Dili, conduzindo um Jeep das F-FDTL.

50. Do interior do compound, os seguranças responderam aos tiros e


houve tiroteio por tempo não determinado até que os arguidos se
esconderam algures, nas valas e ribeiras próximas e por trás de um
acampamento de refugiados, nas imediações da residência do PR.

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51. Os seguranças Domingos Simões Pereira, José Pinto Freitas, Francisco


Lino Marçal, Albino Assis só não foram atingidos por se terem abrigado.

52. Por volta das 06h45m, o PR, de regresso à sua residência, vindo do
footing e na companhia dos militares Isaac da Silva e Pedro Joaquim
Soares, já próximo do restaurante “Kas Bar”, ouviu barulho de tiros que
vinham na direcção da sua residência.

53. Altura em que telefonou ao Brigadeiro General Taur Matan Ruak,


informando-lhe do que se estava a passar.

54. Quando o PR por volta das 7 horas se encontrava a uma distância de


cerca de 20 metros do portão de entrada do compound da sua residência,
surgiu um dos arguidos, que se encontrava escondido atrás do tronco de
uma árvore, empunhando uma arma HK 33 – ATM, com a qual disparou
três tiros.

55. Dois dos tiros atingiram o Presidente da República, atingindo-o no


ombro direito e na zona lombar direita, provocando-lhe três feridas na
região direita do torax, uma com penetração na parte direita posterior
causando fracturação de costelas, contusão do lobulo inferior do pulmão
direito, fractura laminar da vertebra 8.

56. Acto contínuo, o Pedro Joaquim Soares, o outro segurança que


acompanhava o PR no footing, tirou a pistola que trazia e disparou tiros
contra aquele arguido.

57. Outros seguranças do PR, também dispararam contra este arguido.

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58. Porém, o mesmo fugiu em direcção à montanha e conseguiu escapar-


se.

59. Dois dos arguidos conseguiram retirar duas armas que estavam na
posse dos seguranças, pertencentes às F-FDTL, e levaram-nas com eles.

60. O arguido Marcelo Caetano, no dia 29 de Março de 2008 o arguido


Marcelo Caetano tinha na sua posse uma arma HK 33 – ATM – n. 019366.

61. No mesmo dia, o PR foi evacuado para o Hospital em Darwin, onde


esteve em coma induzido por vários dias e foi sujeito a várias
intervenções cirúrgicas.

62. O PR esteve internado durante cerca de dois meses.

63. O PR regressou a Díli cerca de três meses depois da data da


ocorrência dos factos.

64. Por volta das 07h30, do dia 11 de Fevereiro de 2008, o PM Xanana


Gusmão, que se encontrava na sua residência em Balibar, foi informado
sobre o que tinha acontecido momentos antes com o PR.

65. Acto contínuo saiu da sua residência, escoltado por uma coluna
composta por 4 veículos, com a sua segurança pessoal, elementos da
PNTL e da Unpol em direcção a Dili.

66. O primeiro veículo da coluna, identificado nos autos como Sec. 1, era
conduzido por Joni Barbosa, transportando o colega José Maria Barreto
Soares.

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67. O segundo veículo da coluna, identificado nos autos como PM1, era
conduzido por Adolfo Soares, transportando o colega Boby Agapito
Gonçalves e o Primeiro Ministro Xanana Gusmão, que vinha sentado no
banco de trás.

68. O terceiro veículo da coluna, identificado nos autos como UN 0617,


era conduzido por Komsan Tookokgruado, acompanhado pelo colega
Alongkorn Kalayanasoontor.

69. O quarto veículo da coluna, identificado nos autos como 01-55G, era
conduzido por Abílio Santos.

70. No momento em que a coluna de veículos saiu da residência do PM, os


arguidos Gastão Salsinha, Bernardo da Costa, Avelino da Costa, Alexandre
de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares Guterres,
Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António Soares, Quintino
Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e Francisco Ximenes
Alves, fardados e armados, mantinham as posições que haviam tomado
nas traseiras da casa do PM e junto à estrada.

71. No momento em que a coluna de veículos passava pelos arguidos


emboscados à beira da estrada, a cerca de 500 metros da casa do
Primeiro Ministro, por determinação do arguido Gastão Salsinha,
começaram a disparar intensivamente em direcção à viatura em que
seguia o Primeiro Ministro, tentando atingir os seus ocupantes.

72. Os disparos foram efectuados em maior número na direcção da


viatura em que seguia o Primeiro-ministro, tendo sido a única a ser
atingida pelos projécteis.

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73. Em consequência, a viatura onde seguia o Primeiro Ministro sofreu


danos no parachoques frontal, farol frontal direito e capot, quebra do vidro
traseiro, diversos orifícios de balas nas portas e no assento dianteiro
direito, bem como destruição do pneu traseiro esquerdo.

74. Perante a intensidade dos disparos, os condutores dos veículos Sec1 e


PM1 aceleraram a marcha, indo o primeiro despistar-se numa ravina
sofrendo os seguintes estragos: destruição de toda a parte dianteira do
veículo, com redução da área do motor, destruição dos pneus dianteiros,
danos em ambas as partes laterais da carroçaria, perda do parachoques
traseiro, quebra dos faróis traseiros direitos.

75. Os seguranças do terceiro veículo da coluna, o UN 0617, pararam e,


um deles respondeu aos tiros dos arguidos, que fugiram para o interior do
arvoredo existente no local, indo juntarem-se aos demais arguidos, que
estavam emboscados atrás da casa do Primeiro-ministro.

76. Os ocupantes da viatura em que seguia o Primeiro Ministro só não


foram atingidos porque esta se encontrava em movimento.

77. Em consequência dos disparos o veículo onde circulava o PM, veio a


imobilizar-se mais à frente.

78. Perante o sucedido, os seguranças que seguiam no veículo UN 0617


regressaram de imediato à residência do PM, onde se encontravam a
mulher e os filhos deste, a ama das crianças e António Caldeira Duarte,
segurança da esposa do Primeiro-Ministro.

79. Nas traseiras da residência do PM, estavam os arguidos,


designadamente, o Gastão Salsinha e Avelino da Costa.

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80. O arguido Gastão Salsinha dirigiu-se ao segurança Roque Exposto,


que entretanto acabara de chegar à residência do PM, exigindo-lhe a
entrega das armas pesadas.

81. Como essas armas não se encontravam na residência do PM, os


arguidos fugiram.

82. Alguns dos arguidos que estiveram na residência do PR e os que


estiveram na residência do PM, após a prática dos crimes reuniram-se em
parte incerta do território nacional.

83. Outros arguidos, entre os quais, Egidio Lay de Carvalho, José Agapito
Madeira e Ismael Sansão Muniz Soares, fugiram para a Indonésia.

84. Na sequência destes factos o PR ficou impedido do exercício das suas


funções, foi substituído nos termos constitucionalmente definidos, e o
Parlamento Nacional autorizou o Presidente interino a decretar o estado
de sítio, sujeito a sucessivas prorrogações, por um período total de três
meses e dez dias.

85. O que os arguidos sabiam poder ser uma das consequências da


utilização das armas nos termos em que foram utilizadas, querendo eles
que tal sucedesse.

86. O arguido Amaro da Costa “Susar”, após 3 Maio de 2006, abandonou


as fileiras da PNTL, tendo levado consigo uma arma pertencente à PNTL.

87. Alguns dos arguidos procederam à entrega das armas e/ou uniformes
às autoridades, nos seguintes termos:
- Gastão Salsinha, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série 020467, 2
(dois) carregadores, 78 (setenta e oito) munições e 1 (um) uniforme.

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- Marcelo Caetano, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série 019366, 2


(dois) carregadores, 179 (cento e setenta e nove) munições e 1 (um)
uniforme.
- Gaspar Lopes “Halerik”, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série
011221, 2 (dois) carregadores, 120 (cento e vinte) munições e 1 (um)
uniforme.
- Gilberto Suni Mota, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série 017235,
2 (dois) carregadores, 76 (setenta e seis) munições e 1 (um) uniforme.
- Joanino Maria Guterres, 1 (uma) arma HK 33, com o número de série
018672, 2 (dois) carregadores, 140 (cento e quarenta) munições e 1 (um)
uniforme.
- José Agapito Madeira “José Espelho” , 1 (uma)arma HK 33, com o número
de série 005700, 76 (setenta e seis) munições e 1 (um) uniforme.
- Domingos Amaral, 1 (uma) arma M 16, 1 carregador, 20 (vinte) munições
e 1 (um) uniforme.
- José da Costa Ventura, 1 (uma) arma HK 33, 1 (um) carregador,
munições e 1 (um) uniforme.
- Adolfo da Silva, 1 (uma) arma HK 33, 2 (dois) carregadores, munições e 1
(um) uniforme.
- Julião António Soares, 1 (uma) arma HK 33, 2 (dois) carregadores, 65
(sessenta e cinco) munições e 1 (um) uniforme.
- Paulo Neno Leos, 1 (uma) Metralhadora, 1 (um) carregador, 340
(trezentos e quarenta) munições e 1 (um) uniforme com botas.
- Amaro da Costa “Susar”, 2 (duas) armas (1 FNC e 1 HK 33), 7 (sete)
carregadores, 250 (duzentos e cinquenta) munições e 1 (um) uniforme.
- Avelino da Costa, 1 (uma) arma HK 33, 2 (dois) carregadores, 80
(oitenta) munições e 1 (um) uniforme.
- Quintino Espírito Santos, munições e 1 (um) uniforme.
- Bernardo da Costa, 1 (uma) arma HK 33, 1 (um) carregador, 40
(quarenta) munições e 1 (um) uniforme.

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- Januário Babo, 1 (uma) arma HK 33, 3 (três) carregadores, 100 (cem)


munições e 1 (um) uniforme.
- Raimundo Maia Barreto, 1 (uma) arma HK 33, 2 (dois) carregadores, 65
(sessenta e cinco) munições e 1 (um) uniforme.

88. Os arguidos sabiam que não estavam ao serviço das F-FDTL nem da
PNTL, e que, nessa condição, não podiam estar armados com armas
dessas instituições.

89. Os arguidos sabiam também que não possuíam licença de uso e porte
de armas e munições, nem dela estavam isentos, pelo que não podiam tê-
las na sua posse nem usá-las, fora das condições legais.

90. Fizeram uso de tais armas para, entre outros fins, criarem medo e
receio na comunidade.

91. Sendo os arguidos militares e polícias, conheciam as características


das armas e munições que detinham e sabiam que, devidamente
municiadas e disparadas contra o Presidente da República, Primeiro-
ministro, os seus respectivos seguranças e outras pessoas que estivessem
no local, eram aptas a causar-lhes a morte ou lesões contra a sua
integridade física.

92. E que por via disso o PR poderia deixar de exercer as suas funções.

93. Os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José da


Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Sunimota, Joanino Maria
Guterres, Egídio Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos
Santos Ximenes quiseram matar o Presidente da República.

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94. Para esse fim, consideraram necessária a morte das pessoas que
efectuavam a segurança à casa e à pessoa do PR.

95. Resultados estes que os arguidos consideraram necessários para a


prossecução do objectivo principal de matarem o Presidente da República.

96. Os arguidos agiram em comunhão de esforços e de forma


previamente concertada, aceitando participar de forma conjunta na
execução de um plano destinado a matar o Presidente da República.

97. Os arguidos Gastão Salsinha, Avelino da Costa, Bernardo da Costa,


Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maria Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Juliano António Soares,
Quintino Espírito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e Francisco
Ximenes Alves quiseram matar o Primeiro Ministro.

98. Para esse fim, consideraram necessária a morte das pessoas que
viajavam no carro onde seguia o Primeiro Ministro.

99. Os arguidos consideraram também necessário causar estragos na


viatura em que seguia o Primeiro Ministro.

100. Resultados estes que os arguidos admitiram como sendo necessários


para a prossecução do objectivo principal de matarem o Primeiro-Ministro.

101. Os arguidos agiram em comunhão de esforços e de forma


previamente concertada, aceitando participarem de forma conjunta na
execução de um plano destinado a matar o Primeiro Ministro.

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102. A morte do Presidente da República, do Primeiro Ministro, de quatro


dos seguranças da residência daquele, do segurança e condutor deste
último, só não sobreveio por razões alheias à vontade dos arguidos.

103. O arguido Gastão Salsinha sabia que ao combinar e planear com


outra ou outras pessoas, matar ou agredir fisicamente o Presidente da
República podia efectivamente levar a que estes crimes fossem
cometidos.

104. Conheciam perfeitamente os arguidos, como timorenses e membros


de instituições militares e policiais, o Presidente da República, Dr. Ramos
Horta, e a sua residência.

105. Os arguidos sabiam que os disparos sobre o veículo em que seguia o


Primeiro-ministro, eram aptos a provocar-lhe estragos.

106. Os arguidos, em todas as circunstâncias dadas como provadas,


quiseram os respectivos resultados.

107. E agiram de forma livre, deliberada e consciente.

108. Bem sabendo que, tais condutas eram proibidas e punidas por lei.

109. Na sequência da denominada “Crise de 2006”, todos os arguidos,


com excepção da arguida Angelita Maria Francisca Pires, abandonaram os
respectivos quartéis e esquadras, e passaram a integrar ou a colaborar
com movimentos de reivindicação compostos por militares e elementos da
PNTL, entre os quais o denominado movimento “Peticionários”, liderados
por Alfredo Reinado e Gastão Salsinha.

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110. Na sequência dessas actuações dos arguidos, os seus vencimentos


nas respectivas instituições militares ou de segurança deixaram de lhes
ser pagos.

111. O arguido Amaro da Costa é casado, vive com a mulher e quatro


filhos, tendo o mais velho 9 anos de idade, e o mais novo 5 anos de idade.

112. É agente da PNTL, tendo o vencimento mensal de 100,00 dólares, os


quais não recebe.

113. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

114. Tem como habilitações literárias o SMP.

115. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

116. O arguido Domingos Amaral é solteiro, e vive com os pais.

117. É alferes das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 130,00 dólares,


os quais não recebe.

118. Tem como habilitações literárias o SM.

119. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

120. O arguido Gilson José António da Silva é casado, vive com a mulher e
um filho com 2 anos de idade.

121. É soldado da Unidade de Polícia Militar das F-FDTL, tendo o


vencimento mensal de 85,00 dólares, os quais não recebe.

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122. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

123. Tem como habilitações literárias o ensino secundário.

124. Já foi condenado em Tribunal pela prática de um crime de ofensas


corporais, tendo estado preso durante 1 mês, no ano de 2002.

125. O arguido Paulo Neno Leos é casado, vive com a mulher e dois filhos,
tendo o mais velho 5 anos de idade.

126. É segundo sargento da Polícia Militar das F-FDTL, tendo o


vencimento mensal de 115,00 dólares.

127. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

128. Tem como habilitações literárias o SLTA.

129. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

130. O arguido Gilberto Suni Mota é solteiro, e vive com os pais.

131. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares.

132. Tem como habilitações literárias o SMP.

133. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

134. O arguido Marcelo Caetano é casado, vive com a mulher e um filho


com 3 anos de idade.

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135. É soldado da F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

136. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

137. Tem como habilitações literárias o pré-secundário.

138. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

139. O arguido Joanino Maria Guterres é casado, vive com a mulher e um


filho com 2 anos de idade.

140. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

141. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

142. Tem como habilitações literárias o SMA.

143. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

144. O arguido Ismael Sansão Moniz Soares é casado, vive com a mulher
e dois filhos, tendo o mais velho 6 anos de idade, e o mais novo 3 anos de
idade.

145. É primeiro sargento das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de


120,00 dólares, os quais não recebe.

146. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

147. Tem como habilitações literárias o SMA.

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148. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

149. O arguido Igídio Lay Carvalho é solteiro, e vive com a avó.

150. É soldado da Unidade Naval das F-FDTL, tendo o vencimento mensal


de 85,00 dólares, os quais não recebe.

151. Tem como habilitações literárias o SMA.

152. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais, embora tenha


estado preso preventivamente à ordem do Proc. n. 233/07.

153. O arguido Caetano dos Santos Ximenes é solteiro, e vive com os


pais.

154. É soldado da Unidade Naval das F-FDTL, tendo o vencimento mensal


de 85,00 dólares, os quais não recebe.

155. Tem como habilitações literárias o SMA.

156. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

157. O arguido Gastão Salsinha é casado, vive com a mulher e quatro


filhos, tendo o mais velho 11 anos de idade, e o mais novo 3 anos de
idade.

158. É tenente das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 136,00


dólares, os quais não recebe.

159. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

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160. Tem como habilitações literárias o SMA.

161. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

162. O arguido João Amaral é solteiro, e vive com os pais.

163. É soldado da Unidade Naval das F-FDTL, tendo o vencimento mensal


de 85,00 dólares, os quais não recebe.

164. Tem como habilitações literárias o STM.

165. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

166. O arguido Bernardo da Costa é casado, vive com a mulher e três


filhos, tendo o mais velho 9 anos de idade, e o mais novo 2 anos de idade.

167. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

168. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

169. Não frequentou qualquer grau de ensino, sendo analfabeto.

170. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

171. O arguido Avelino da Costa é casado, vive com a mulher e três filhos,
tendo o mais velho 8 anos de idade, e o mais novo 1 ano de idade.

172. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

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173. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

174. Tem como habilitações literárias o SMP.

175. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

176. O arguido Alexandre de Araújo é casado, vive com a mulher e quatro


filhos, tendo o mais velho 9 anos de idade, e o mais novo 1 ano de idade.

177. É agente da PNTL, tendo o vencimento mensal de 100,00 dólares, os


quais não recebe.

178. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

179. Tem como habilitações literárias o SMA.

180. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

181. O arguido Januário Babo Soares é solteiro, e vive com os pais.

182. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

183. Tem como habilitações literárias o SMA.

184. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

185. O arguido Raimundo Maia Barreto é casado, vive com a mulher e


quatro filhos, tendo o mais velho 9 anos de idade, e o mais novo 2 anos de
idade.

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186. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

187. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

188. Tem como habilitações literárias o SMP.

189. Já esteve preso entre 2002 e 2006 pela prática de um crime de


homicídio.

190. O arguido Julio Soares Guterres é casado, vive com a mulher e dois
filhos, tendo o mais velho 4 anos de idade, e o mais novo 2 anos de idade.

191. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

192. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

193. Tem como habilitações literárias o SMP.

194. À data da prática dos factos não possuía antecedentes criminais,


tendo sido posteriormente condenado no proc. n. 131/TDD/06 (por
acórdão transitado a 6 de Abril de 2009) pela prática de um crime de dano
e outro de ofensas corporais, na pena única de dois anos de prisão.

195. O arguido Gaspar Lopes é casado, vive com a mulher e seis filhos,
tendo o mais velho 15 anos de idade, e o mais novo 1 ano de idade.

196. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

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197. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

198. Tem como habilitações literárias o SMP.

199. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

200. O arguido José Agapito Madeira é solteiro, e vive com os pais.

201. É furriel das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 110,00 dólares,


os quais não recebe.

202. Tem como habilitações literárias o SMA.

203. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

204. O arguido Julião António Soares é solteiro, e vive com os pais.

205. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

206. Tem como habilitações literárias o ensino secundário.

207. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

208. O arguido Quintinho Espírito Santo é solteiro, e vive com a mãe.

209. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

210. Tem como habilitações literárias o SMA.

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211. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

212. O arguido Adolfo da Silva é solteiro, e vive com os pais.

213. É furriel das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 100,00 dólares,


os quais não recebe.

214. Tem como habilitações literárias a primeira classe.

215. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

216. O arguido José da Costa Ventura é casado, vive com a mulher e


quatro filhos, tendo o mais velho 15 anos de idade, e o mais novo 1 ano
de idade.

217. É primeiro sargento das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de


105,00 dólares, os quais não recebe.

218. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

219. Tem como habilitações literárias o SD.

220. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

221. O arguido Tito Tilman é casado, vive com a mulher e um filho, com
um ano de idade.

222. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

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223. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

224. Tem como habilitações literárias o SMA.

225. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

226. O arguido Alfredo de Andrade é casado, vive com a mulher e quatro


filhos, tendo o mais velho 7 anos de idade, e o mais novo 1 ano de idade.

227. É soldado das F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

228. A mulher é doméstica, não recebendo qualquer vencimento.

229. Tem como habilitações literárias o SMP.

230. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

231. O arguido Francisco Ximenes Alves é solteiro, e vive com os pais.

232. É soldado dos F-FDTL, tendo o vencimento mensal de 85,00 dólares,


os quais não recebe.

233. Tem como habilitações literárias o SMP.

234. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

235. A arguida Angelita Maria Francisca Pires é solteira, e vive com


colegas.

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236. É consultora técnica, tendo rendimentos mensais de cerca de


3.000,00 dólares.

237. Tem como habilitações literárias o segundo ano do curso de Direito.

238. Não lhe são conhecidos antecedentes criminais.

FACTOS NÃO PROVADOS

Discutida a causa não resultou provado que:


1. Os arguidos utilizavam também o número de telefone 7370709 nos
contactos entre eles efectuados.

2. A arguida Angelita Pires, nas visitas que fazia a Lauala, levava


consigo medicamentos para o grupo de Alfredo Reinado.

3. Na reunião agendada para o Palácio das Cinzas no dia 16 de


Dezembro de 2007 estiveram presentes todas as entidades convocadas
(Presidente da República, o Presidente do Parlamento Nacional, o
Primeiro-ministro, o General Brigadeiro das F-FDTL), exceptuando Alfredo
Reinado e o Gastão Salsinha.

4. Os quais não compareceram por determinação da arguida Angelita


Pires.

5. A deslocação da arguida Angelita Pires à Austrália em finais de


Janeiro de 2008 destinou-se à busca de apoios para o grupo liderado por
Alfredo reinado, mormente a angariação de meios financeiros.

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6. A arguida, na sequência de uma conversa tida em 10 de Fevereiro


de 2008, disse ao ex-major que, se ele morresse, colocaria uma garrafa de
vodka na sua campa.

7. No dia 10 de Fevereiro de 2008, por volta das 19h, a arguida


Angelita Pires, antes de deixar Lauala, disse ao ex-major: “vão lá matar os
dois cães”, referindo-se ao PR e ao PM.

8. Os arguidos prepararam a saída de Lauala para Balibar e Dili com


alguns dias de antecedência.

9. No telefonema entre Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto que teve


lugar no dia 10 de Fevereiro de 2008, Alfredo Reinado disse: “é hora de
nós decidirmos o nosso destino”.

10. Os arguidos Tito Tilman, Alfredo de Andrade e João Amaral


seguissem num dos veículos do grupo do arguido Gastão Salsinha, com
destino a Balibar.

11. A espingarda M16 do segurança Domingos Simões Pereira foi


subtraída pelo arguido Amaro da Costa.

12. Os quatro elementos (Alfredo Reinado, Leopoldino Exposto,


arguidos Gilberto Suni Mota e Egídio Lay) permaneceram no compound
cerca de 15 a 20 minutos.

13. Os tiros disparados por Francisco Marçal atingiram o Alfredo


Reinado e o Leopoldino Exposto.

14. Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto faleceram em consequência


dos disparos da arma de fogo utilizada por Francisco Marçal.

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15. No momento em que os arguidos abriram fogo, os seguranças


Adelino da Silva, João Soares, José Luís da Costa Pereira, Agostinho Freitas
e Filomeno Ximenes ainda se encontravam no interior do compound.

16. Os arguidos, ao verem a viatura das F-FDTL conduzida por Celestino


Gama, abriram fogo contra ela.

17. Os tiros que atingiram Celestino Gama foram disparados pelos


arguidos.

18. Os vários disparos efectuados pelos arguidos para o interior do


compound da residência do PR atingiram árvores, vedações e tendas.

19. Foi o arguido Marcelo Caetano quem disparou sobre o PR.

20. A arma encontrada na posse do arguido Marcelo Caetano aquando


da sua entrega às autoridades foi por ele utilizada para efectuar os
disparos contra o PR.

21. As balas e invólucros disparados contra o PR pertenciam à arma


encontrada na posse do arguido Marcelo Caetano no momento em que foi
detido.

22. À fuga do arguido que disparou sobre o Presidente da República


juntaram-se-lhe os restantes arguidos, que estavam escondidos nas
imediações e todos dispararam em direcção aos seguranças do PR, Pedro
Joaquim Soares e Isac da Silva.

23. Enquanto fugiam em direcção a montanha de Fatu-ahi – Camea os


arguidos não pararam de efectuar disparos.

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24. Os arguidos João Amaral, Tito Tilman e Alfredo de Andrade estavam


em Balibar no dia 11 de Fevereiro de 2008 juntamente com o grupo
composto pelos demais arguidos.

25. Os arguidos efectuaram disparos na direcção das outras viaturas


que seguiam à frente e atrás da viatura do Primeiro Ministro.

26. Os disparos efectuados sobre a viatura em que seguia o Primeiro


Ministro dirigiram-se para os pneus.

27. A arguida Angelita Pires quis matar o Presidente da República.

28. Os arguidos consideraram necessária a morte de qualquer outra


pessoa que surgisse no local, para além dos seguranças que se
encontravam no compound e que acompanhavam o Presidente da
República, e que pudesse colocar em perigo as suas intenções de matar o
Presidente da República.

29. Os arguidos consideraram necessário causar estragos em viaturas


que surgissem no local por forma a evitar que as pessoas que nelas
seguiam pudessem colocar em perigo as suas intenções de matar o
Presidente da República.

30. Os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José da


Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Sunimota, Joanino Maria
Guterres, Egídio Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos
Santos Ximenes sabiam que as armas que levaram da casa do Presidente
da República com a intenção de fazê-las suas, não lhes pertenciam, e não
podiam fazê-las suas, contra a vontade de quem as detinha.

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

31. Os arguidos Tito Tilman, João Amaral Alfredo de Andrade e Angelita


Maria Pires quiseram matar o Primeiro Ministro.

32. A arguida Angelita Pires sabia que, as conversas que tinha com o
Alfredo Reinado, pelo menos as que eram presenciadas por alguns dos
arguidos, eram de molde a provocar nele e, consequentemente, nos
demais elementos do seu grupo, ódio e raiva contra o Presidente da
República e Primeiro-ministro.

33. A arguida Angelita Pires, com tais conversas, queria motivá-lo e


determiná-lo a planear e praticar atentados contra a vida quer do
Presidente da República, quer do Primeiro-Ministro, pretendendo a arguida
ver esse resultado concretizado.

34. A arguida Angelita Pires pretendeu a morte de quaisquer pessoas


que, pelo exercício das suas funções ou por motivos imponderáveis se
encontrassem nos locais escolhidos para atentar contra a vida daqueles, e
cuja morte se mostrasse necessária como forma de afastar o perigo de
frustrarem aquela intenção.

35. A arguida considerou necessários os danos nas viaturas onde


seguiam o Primeiro-Ministro, os seus seguranças, ou noutras viaturas que,
por motivos imponderáveis se encontrassem nos locais escolhidos para
atentar contra a vida quer do Presidente da República, quer do Primeiro
Ministro, e cuja danificação se mostrasse necessária como forma de
afastar o perigo de frustração daquela intenção.

36. A arguida admitiu como sendo necessários tais mortes e danos para
a prossecução do objectivo pretendido de matar o Presidente da República
e o Primeiro-Ministro.

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República Democrática de Timor Leste

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MOTIVAÇÃO DA DECISÃO DE FACTO

Dada a extensão da motivação da decisão sobre a matéria de facto,


dá-se aqui por reproduzido a tal propósito o teor do despacho que
antecede o presente acórdão, remetendo-se os intervenientes processuais
para a sua leitura, conforme permite o art. 281, n. 2 do Código de
Processo Penal.

3. DECISÃO SOBRE A MATÉRIA DE FACTO

Do Crime de Conspiração

Vem o arguido Gastão Salsinha acusado da prática, em autoria


singular, na forma consumada e em concurso real, de um crime de
conspiração, p. e p. nos termos conjugados dos art. 88 e 110, ns. 1 e 5 do
Código Penal Indonésio.
Dispõe o art. 110, n.1 do CPI que “A conspiração para a prática de
um dos crimes previstos nos art. 104 a 108 deve ser punida com pena de
prisão até 6 anos”, acrescentando o n.5 do mesmo artigo que “Se nos
casos mencionados nos ns. 1 ou 2 deste artigo, o crime vier a ser
praticado, a punição é elevada para o dobro”, ou seja, 12 anos de prisão.
Conforme dispõe o art. 88 do CPI, “A conspiração verifica-se assim
que duas ou mais pessoas acordam em praticar um crime”.
Entre os crimes mencionados pelo art. 110 do CPI consta o de
Atentado contra o Presidente da República, p. e p. pelo art. 104.
Das citadas disposições legais resulta a punição da mera intenção e
planificação concertada de atentar contra o Presidente da República.
Basta que duas ou mais pessoas acordem entre si praticar o crime
previsto pelo art. 104 do CPI, para que a punição possa ocorrer, ainda que,

41
República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

na sequência desse acordo não venham a ser praticados quaisquer actos


de execução para a concretização do crime.
Por essa via pretendeu o legislador fazer recuar a tutela conferida
aos crimes contra a segurança do Estado para uma fase muito liminar da
violação dos bens jurídicos em causa. Na verdade, pelo mencionado crime
não está em causa, sequer, a punibilidade da tentativa do atentado (a
qual é punida nos termos gerais), mas sim os factos anteriores à própria
tentativa, e que se reportam à própria decisão de praticar o crime, com ou
sem actos de execução.
Contudo, no presente caso, não haverá interesse em aprofundar
muito mais a análise deste tipo legal, uma vez que, com a entrada em
vigor do Código Penal de Timor Leste (aprovado pelo DL n. 19/2009, de 8
de Abril, com entrada em vigor a 7 de Junho do mesmo ano), a mera
conspiração do crime de atentado deixou de ser punida. Na verdade, o
actual Código Penal deixou de prever uma disposição equivalente ao art.
110 do CPI, pelo que apenas passou a ser punido o crime de atentado
contra representante máximo de órgão de soberania (art. 203 do CPTL),
ou o crime de homicídio, simples ou qualificado, p. e p. pelos art. 138 e
139 do CPTL. Não sendo tais crimes consumados, haverá lugar à punição
da conduta na forma tentada, desde que se verifiquem os pressupostos da
punibilidade da tentativa previstos pelos art. 23 e 24 do CPTL. Sendo que
este novo Código dispõe agora expressamente que “Os actos
preparatórios não são puníveis, salvo disposição legal em contrário” – art.
22 do CPTL. Ora, na falta de disposição expressa no sentido de punir o
mero acordo concertado de vontades no sentido de atentar contra a vida
do Presidente da República, deve entender-se que a mera conspiração
constitui um mero acto preparatório (por oposição à nocão de actos de
execução constante do art. 23, considerando-se como tal os actos
objectivamente adequados a produzir o resultado). E como acto
preparatório, não é punível, na falta de disposição legal expressa.

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Assim, e no seguimento das alegações finais apresentadas pelo


Ministério Público, entende o Tribunal que a entrada em vigor do novo
Código Penal operou uma descriminalização da conduta imputada ao
arguido Gastão Salsinha.
Nos termos do disposto no art. 31 da Constituição da República de
Timor Leste, “Ninguém pode ser julgado e condenado por um acto que
não esteja qualificado na lei como crime no momento da sua prática, (...)”
– n.2 desse artigo - , acrescentando o n. 5 que “A lei penal não se aplica
retroactivamente, a menos que a nova lei beneficie o arguido”. Das
disposições legais citadas resultam os príncipios básicos da legalidade e
da aplicação da lei penal no tempo, mais concretamente os da
irretroactividade, e da retroactividade in mitius. Os corolários de tais
princípios encontram-se desenvolvidos no Código Penal, dispondo o art. 3,
n.1 que “Ninguém pode ser punido por facto definido como crime no
momento da sua prática se lei posterior deixar de o considerar como
crime”.
De tais normas decorre que, quando o legislador opte por
descriminalizar determinada conduta que anteriormente era prevista
como crime, deixa de haver lugar à punição. O que deve considerar-se
como uma causa de extinção da responsabilidade criminal (art. 118 do
CPTL).
Em conformidade, nos termos dos art. 3, n.1 e 118 do Código Penal
de Timor Leste, decide o Tribunal declarar extinta a responsabilidade
criminal do arguido Gastão Salsinha pelo crime de conspiração em
atentado contra o Presidente da República, anteriormente p. e p. pelos
art. 110, 88 e 104 do CPI, por descriminalização da conduta.

Do Crime de Atentado Contra o Presidente da República

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República Democrática de Timor Leste

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Na acusação deduzida é imputada aos arguidos Amaro da Costa,


Domingos do Amaral, Gilson José Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano,
Gilberto Sunimota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho, Ismael
Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes, a co-autoria, na
forma consumada, de um crime de atentado contra a vida do Presidente
da República, p. e p. pelo art.º 104º do Código Penal Indonésio. À arguida
Angelita Pires é imputada também a prática desse crime enquanto autora
mediata do mesmo.
Dispõe o art. 104 do CPI que “A tentativa levada a cabo com a
intenção de privar o Presidente ou o Vice-Presidente da sua vida ou da sua
liberdade, ou de torná-lo incapaz de governar, é punida com a pena
capital, ou com prisão perpétua, ou com pena de prisão até 20 anos”.
Num primeiro momento da análise dos elementos típicos deste
crime, importa resolver uma questão suscitada pela defesa da arguida
Angelita, em requerimento constante de fls. 4515 e seg.
No entender da Defesa, face à ordem jurídico-constitucional
instituída em Timor Leste, o crime de atentado contra o Presidente da
República previsto pelo art. 104 do Código Penal Indonésio apenas deveria
ser aplicado, mediante interpretação correctiva do artigo, nos casos de
atentado contra o Primeiro-Ministro.
Baseia tal entendimento na circunstância daquele artigo tutelar,
como bem jurídico, a governabilidade do Estado, a qual, nos casos de
morte do Presidente da República, apenas é posta em causa nos Estados
de sistema presidencialista. Nos casos em que o Chefe de Estado não
exerça funções governativas, conforme sucede nos sistemas
parlamentaristas, a sua morte não perturba a governabilidade do Estado.
E não sendo tal bem jurídico posto em causa, então, a morte do
Presidente da República em tais sistemas não integra o crime previsto no
art. 104 do CPI.
Conforme decorre da posição exposta pela defesa da arguida, a
governabilidade do Estado é equiparada ao exercício de poderes

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

executivos, pelo que só haveria crime quando o atentado fosse praticado


contra quem exercesse os poderes executivos do Estado, o que só
sucederia com os Presidentes da República em sistemas de governo
presidencialista.
Ora, conforme a defesa bem afirma, o crime específico em causa
destina-se a tutelar a segurança do Estado (conforme se lê no Capítulo I
do Livro II do CPI). Também se concorda com a defesa quando afirma que,
de acordo com o legislador penal indonésio, esse bem jurídico é violado
quando o acto praticado impeça a governabilidade do Estado.
O que sucede, sem qualquer dúvida, nos sistemas presidencialistas.
Mas sucede também noutros sistemas de governo, onde os vários poderes
são repartidos por vários órgãos.
A Constituição da República Democrática de Timor Leste optou por
um sistema de governo onde o poder político é exercido por vários órgãos
de soberania, os quais se relacionam entre si observando os princípios da
separação e interdependência – art. 62, 67 e 69 da CRDTL. De acordo com
as definições que a própria Constituição oferece, “O Presidente da
República é o Chefe de Estado, símbolo e garante da independência
nacional, da unidade do Estado e do regular funcionamento das
instituições democráticas”- art. 74, n.1 - ; por sua vez “O Parlamento
Nacional é o órgão de soberania da República Democrática de Timor Leste
representativo de todos os cidadãos timorenses, com poderes legislativos,
de fiscalização e de decisão política”- art. 92 - ; por fim, “O Governo é o
órgão de soberania responsável pela condução e execução da política
geral do país e o órgão superior da Administração Pública” – art. 103. Uma
vez analisadas as competencias próprias de cada um desses órgãos,
constata-se que, entre eles, existem efectivos mecanismos de
interdependência destinados a impedir que os poderes próprios de cada
um possam ser exercidos o controlo dos outros órgãos. Não nos
deteremos nessa análise por não ser este o lugar próprio, mas poderemos
apenas afirmar que o Presidente da República, enquanto garante do

45
República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

regular funcionamento das instituições democráticas, possui mecanismos


de controlo sobre o poder legislativo exercido pelo Parlamento Nacional,
bem como sobre o poder executivo exercido pelo Governo.
A ser assim, desde logo importa fazer um afastamento face à
posição da defesa quando esta afirma que a governabilidade do Estado só
é atingida quando sejam afectados os órgãos com poder executivo. Nos
termos da CRDTL, deve entender-se por governabilidade não apenas o
exercício do poder executivo, mas o normal exercício do poder político do
Estado (que não se limita, conforme se viu já, ao poder de governar) pelos
seus vários órgãos. Ora, o garante desse normal exercício do poder é
precisamente o Presidente da República, através do conjunto de
competências que lhe são atribuídas com a finalidade de controlar a
actividade dos outros órgãos de soberania com poder político. E não se
diga que tais poderes são meramente genéricos, como sejam os de
dissolução do Parlamento e Demissão do Governo – art. 86, alíneas f) e g)
da CRDTL. Ao contrário desses, cujo exercício é tendencialmente
excepcional, possui o Presidente da República o poder de promulgação e
veto, através do qual controla e limita as actividades fundamentais dos
outros dois órgãos.
Assim, ao contrário do que afirma a defesa, num sistema de
governo como o de Timor Leste, a governabilidade do Estado é afectada
quando cada um dos órgãos de soberania com poder político seja
impedido de exercer os seus poderes e competências – certamente por
isso, o novo Código Penal prevê agora o crime de atentado contra
representante máximo de órgão de soberania (art. 203 do CPTL).
Chegados a esta conclusão, poderíamos ser levados a considerar
que o art. 104 do CPI, ao invés de necessitar de uma interpretação
correctiva, como defende a defesa, necessitaria antes de uma
interpretação extensiva de forma a poder tutelar integralmente o bem
jurídico pretendido. No entanto, apesar da falta de disposição expressa a
proibir tal operação interpretativa, deverá a interpretação extensiva ser

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

vedada no âmbito das normas incriminadoras de condutas, por violação


do princípio da tipicidade, um dos corolários do princípio da legalidade,
previsto, como se viu já no art. 31, n.2 da CRDTL.
De todo o modo, uma conclusão parece ser possível: ainda que se
entenda que o art. 104 do CPI, uma vez transposto para um ordenamento
constitucional como o de Timor Leste, não tutela de forma integral a
governabilidade do Estado, ainda assim, continua a ser pertinente a sua
aplicação ao Presidente da República, na medida em que este é o garante
do normal funcionamento das instituições que exercem o poder político.
Não há, por isso, que fazer qualquer interpretação correctiva do artigo 104
do CPI na medida em que os poderes do Presidente da República de Timor
Leste concorrem e são essenciais para a governabilidade do Estado. Nessa
medida, impedindo-se o Presidente da República do normal exercício dos
seus poderes, atinge-se a governabilidade do Estado, ainda que aqueles
poderes sejam em menor número que os dos presidentes de sistemas de
governo presidencialista.
Ou seja, a norma do art. 104 do CPI continua a ter fundamento e
âmbito de aplicação quando transposta para Timor Leste, porque a
conduta nela tipificada, quando praticada, afecta, mesmo em Timor Leste,
o bem jurídico que pretendia tutelar.
E não se diga que o bem jurídico tutelado nunca é afectado em
Timor Leste porque ocorrendo um atentado ao Presidente da República
este pode ser substituído. Ora, em Timor Leste, assim como em todos os
sistemas constitucionais que conhecemos, todos os órgãos do poder
político são substituíveis, prevendo as Constituições mecanismos próprios
destinados a esse fim. A seguir-se essa argumentação ao seu extremo,
poderíamos mesmo dizer que um atentado contra o Presidente da
República ou contra o titular de qualquer outro órgão de soberania, nunca
poría em causa a governabilidade do Estado, porque qualquer um deles é
substituível nos termos da lei. Ora, o legislador, mesmo sendo conhecedor
de tais mecanismos de substituição, entendeu por bem manter a punição,

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

considerando tais mecanismos como situações de excepção, que é como,


de facto, deverão ser encarados.
Assim sendo, entende-se que não há lugar a qualquer interpretação
correctiva do art. 104 do CPI (com excepção da parte respeitante ao Vice
Presidente, que é figura que não está prevista no ordenamento
constitucional de Timor Leste, e que, como tal, se deverá ter por não
escrita).
Analisemos agora os elementos do tipo previsto neste artigo.
A acção típica prevista é a tentativa de praticar determinado tipo de
actos.
A finalidade desses actos é uma de três: causar a morte do
Presidente da República; privá-lo da sua liberdade; torná-lo incapaz de
exercer os seus poderes.
Exige-se ainda a específica intenção do agente de atingir uma
dessas finalidades.
O preceito exige também que a tentativa seja também levada a
cabo, ou seja, terão de ser praticados actos concretos adequados a
prosseguir uma daquelas finalidades, não bastando a mera prática de
actos preparatórios (que como se viu já, cabiam na figura do crime de
conspiração para atentado, previsto pelo art. 110 do CPI).
Conforme se vê, o preenchimento dos elementos típicos ocorre
mesmo que a finalidade da conduta não venha a verificar-se, ou seja, não
se trata de um crime de resultado, podendo a punição ocorrer mesmo que
o Presidente da República não venha a falecer na sequência dos actos, ou
não chegue a ser privado da sua liberdade, ou não chegue a ser impedido
de exercer os seus poderes. Nos termos em que o preceito se encontra
redigido, para a punição da conduta basta a prática de actos adequados a
qualquer um daqueles fins, tendo o agente a intenção de ver concretizado
um deles, sem que se mostre necessária a produção de qualquer
resultado decorrente dessa sua conduta.

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Não prevendo o art. 104 do CPI uma agravação da moldura penal


abstracta por via da ocorrência do resultado pretendido, deverá entender-
se que, quando o resultado previsto no tipo (mas não exigido para a
consumação) ocorra, tal circunstância deverá ser empregue como
agravente da pena dentro da moldura prevista pelo tipo base.
Ainda ao nível do resultado, que não é exigido pelo tipo para a
consumação do crime, importará saber se a incapacidade para a
governação deve ou não ser permanente. Uma análise menos detalhada
do preceito poderia levar-nos a concluir que só nos casos em que o
Presidente da República ficasse definitivamente incapacitado de exercer
os seus poderes estaria verificado esse resultado. Assim, só as condutas
aptas a gerar a sua incapacidade permanente poderiam preencher a
conduta típica do crime. As demais condutas geradoras de incapacidade
para o exercício do poder, mas com carácter não definitivo, não seriam
aptas a causar o resultado previsto no tipo, pelo que não constituiriam
crime.
Mas a interpretação do artigo leva-nos a concluir em sentido
diverso. Um dos resultados nele previstos é também a privação da
liberdade do Presidente da República. Estamos certos que o legislador
quando estatuiu um tal resultado não estava a prever uma situação de
privação permanente ou perpétua dessa liberdade. Bastará a privação
temporária da liberdade para que o resultado se verifique, sendo que esta
conclusão parece não suscitar qualquer dúvida.
Ora, também a incapacidade temporária para o exercício das
funções deverá ser entendida como suficiente para a verificação do
resultado previsto no tipo. Em nosso entender a situação de incapacidade
mostra-se verificada quando se mostre necessário o recurso ao
mecanismo excepcional de substituição do Presidente da República
previsto no art. 84, n.1 da Constituição para os casos de impedimento
temporário (e por maioria de razão, para os casos de necessidade de
exercício interino por parte do Presidente do Parlamento Nacional).

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República Democrática de Timor Leste

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Como tal, qualquer conduta apta a causar uma incapacidade do


exercício das funções presidenciais, determinante de um impedimento
temporário, preenche os elementos típicos do crime p. e p. pelo art. 104
do CPI.
Uma vez analisados os elementos do tipo importa agora determinar,
a partir dos factos dados por provados, se as condutas praticadas pelos
arguidos preenchem integralmente o tipo.
Conforme resultou provado, os arguidos Amaro da Costa, Domingos
do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo
Caetano, Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho,
Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes, na execução
de um plano ao qual todos aderiram e cujos resultados pretendidos todos
aceitaram, deslocaram-se no dia 11 de Fevereiro de 2008 à residência do
Presidente da República, sita em Metiaut, Dili, com a intenção de matarem
o Presidente da República. Na execução desse plano, parte deles,
acompanhados de Alfredo Reinado e Leopoldino expostos, entraram no
compound residencial, procurando pelo Presidente da República. Os
demais arguidos permaneceram junto ao portão de acesso ao compound,
estando armados.
Na execução desse plano, Alfredo Reinado disse a vários
seguranças para permanecerem imobilizados, ameaçando-os de morte, e
subtraiu as armas que estes possuíam. Procurou também saber onde se
situava o quarto do Presidente da República.
Enquanto Alfredo reinado, Leopoldino Exposto, e os arguidos
Gilberto Suni Mota e Egídio Lay permaneciam no interior, os dois primeiros
foram atingidos por tiros de uma arma de fogo, que causaram a morte de
ambos.
Os outros dois arguidos fugiram nesse momento para o exterior do
compound, tendo-se seguido uma troca de tiros entre os arguidos e os
seguranças do compound.

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Minutos depois do tiroteio, quando o Presidente se encontrava a


chegar a casa vindo de uma caminhada na praia, um dos arguidos, cuja
identidade não se apurou, surgiu na estrada de acesso ao compound, e
disparou três tiros contra o Presidente, tendo este sido atingido por dois
desses tiros.
Na sequência das lesões sofridas, o Presidente da República foi
sujeito a evacuação urgente para Darwin, sujeito a diversas intervenções
cirúrgicas, tendo permanecido internado por um período de dois meses.
Regressou a Timor Leste cerca de três meses depois, tendo sido
substituído, durante tal período, pelo Presidente do Parlamento Nacional,
nos termos constitucionalmente definidos. Durante a sua ausência, foi
decretado o estado de sítio pelo Presidente da República em substituição,
o qual foi sucessivamente renovado por um período total superior a três
meses.
Resultou também provado que os arguidos sabiam que a sua
conduta, mediante a utilização de armas de fogo, era apta a causar a
morte do Presidente da República (objectivo esse só não alcançado por
razões alheias à vontade daqueles), bem como a impedi-lo, ainda que
temporariamente, de exercer as suas funções, propósito este que, por
maioria de razão, previram e pretenderam, tendo agido de forma
voluntária, livre e consciente.
Ou seja, apesar dos arguidos pretenderem causar a morte do
Presidente da República, propósito que não alcançaram, conseguiram os
arguidos impedi-lo de exercer as suas funções por um período prolongado,
sendo que, este resultado, só por si, permite já a consumação do crime
em causa.
Entende-se, por isso, que a conduta dos arguidos preenche todos os
elementos típicos do crime que lhes é imputado na acusação.
No entanto, conforme resultou provado, apenas um dos arguidos,
cuja identidade não se apurou, efectuou os disparos que vieram a ferir o
Presidente da República. Importa pois saber com que fundamento se

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República Democrática de Timor Leste

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imputa a responsabilidade pelo crime a todos os arguidos que se


encontravam no local.
A questão remete-nos para a figura da co-autoria criminosa.
As diversas formas de autoria, como uma das formas de
participação na prática de actos considerados crimes, encontram-se
previstas no art. 55 do CPI nos seguintes termos:
“1. Como autores de um acto punível deverão ser punidos:
1- os que executarem, determinarem outrem a executar, ou
tomarem parte directa na execução do acto;
2- os que intencionalmente instigarem a execução do acto através
de ofertas, promessas, abuso de poder ou de influência, do uso
da força, ameaça, engano, ou proporcionando a oportunidade,
meios ou informação.
2. No que respeita ao instigador, apenas os actos que tenham sido
deliberadamente provocados e as respectivas consequências
deverão ser considerados”.
Nos termos do citado artigo serão co-autores aqueles que tomam
parte directa na execução do acto. Ou seja, os que, na execução de um
plano, praticam actos de execução desse plano, tendo por objectivo uma
finalidade que é pretendida por todos. Não se basta a lei com a prática de
meros actos de auxílio ou com a facilitação de meios. Exige-se, na
verdade, que os intervenientes co-autores partilhem entre si o chamado
domínio funcional do acto, repartindo entre eles as tarefas essenciais para
a concretização da decisão conjunta que tomaram.
São pois elementos da co-autoria a intervenção directa na fase da
execução do crime; o acordo para a realização conjunta do facto (acordo
este que não pressupõe a participação conjunta na elaboração do plano
comum, e não carece de ser expresso, podendo manifestar-se através de
um comportamento concludente);a posse do domínio funcional do acto,
entendendo-se como tal, a detenção do domínio da sua função no plano,
do seu contributo na realização do tipo, devdndo considerar-se que sem

52
República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

esse contributo e domínio, não haveria lugar à realização do facto típico


nos termos planeados. O domínio do facto é detido por várias pessoas,
devido ao princípio da repartição das tarefas entre elas, assumindo todas
por igual a responsabilidade pela sua realização. A soma das distintas
contribuições individuais é encarada como um todo, e esse todo deve ser
atribuído à responsabilidade de cada um, independentemente da
qualidade ou quantidade do contributo individual – assim, Francisco Muñoz
Conde e Mercedes Garcia Arán, Derecho Penal, Parte General.
No caso presente, devemos ter em conta que o plano dos arguidos
não se forma só nos momentos anteriores aos disparos efectuados pelo
arguido atirador, mas sim desde que os arguidos se deslocaram de Lauala.
Ainda que alguns ou todos eles, em Lauala não soubessem dos objectivos
da viajem. Conforme se viu já, em algum momento os arguidos souberam
desse objectivo, e aceitaram-no, pois agiram em termos tais que denotam
tal conhecimento e vontade. E se assim foi, os actos de execução do plano
começam no momento em que todos descem dos carros em que se
deslocaram, colocando-se uns nas imediações do portão, outros junto ao
segurança, e outros no interior do compound. A segurança dos que
entraram no compound com o objectivo de procurar o Presidente da
República e desarmar os guardas que lá se encontram é assegurada pelos
que permanecem na estrada, armados. Sendo essa segurança essencial
para que os actos previstos executar no interior do compound possam ter
lugar sem imprevistos (o que, depois, na prática, não se verificou).
Frustrada a possibilidade de matar o Presidente da República no interior
da residência, os arguidos praticam então os actos necessários a
assegurar que o resultado se verifique no exterior, tentando, através dos
tiros que dispararam contra os seguranças que estavam no interior,
neutralizar a segurança do compound, procurando diminuir a capacidade
de reacção ao plano.
Conseguido esse objectivo (uma vez que os seguranças do
compound, para não serem mortos, tiveram de se abrigar em vários

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

locais), ficou o atirador individual em condições de segurança, ou pelo


menos sem qualquer resistência manifesta, para poder disparar contra o
Presidente no momento em que este surgiu no local.
Conclui-se, assim, que a intervenção de todos os arguidos foi
determinante para a execução de todas as fases do plano, e que todos
partilharam entre eles actos de execução do crime que se consumou.
Devem, por isso, ser considerados co-autores do crime de atentado,
e punidos como tal.
A conduta dos arguidos é ilícita e culposa, não se encontrando
abrangida por qualquer causa de exclusão da ilicitude ou da culpa.
Embora alguns dos arguidos tenham afirmado, quer em
declarações, quer na contestação, que agiram no cumprimento de ordens
emanadas por superiores hierárquicos, conforme se viu já, esse
argumento não lhes retira a responsabilidade criminal por nenhum dos
actos praticados. A esse propósito, dão-se aqui por reproduzidos os
fundamentos já expostos na motivação da decisão de facto para se
considerar que os arguidos agiram de forma voluntária e livre.
Também não se verifica que os arguidos se encontrassem sujeitos a
um qualquer conflito de deveres, desde logo porque as ordens que
receberam não eram legítimas, e porque nem Alfredo Reinado nem
Gastão Salsinha, nas circunstâncias em que todos se encontravam
(voluntariamente desvinculados das estruturas militares ou de segurança
de que faziam parte) eram seus legítimos superiores hierárquicos.
Assim, se agiram no cumprimento de ordens, fizeram-se de forma
voluntária e não porque a tal estivessem obrigados, pelo que, em tais
circunstâncias, não se verifica uma qualquer exclusão de ilicitude.
Impõe-se, portanto, a punição dos arguidos acima identificados pela
prática do crime de atentado contra o Presidente da República, p. e p.
pelo art. 104 do Código Penal Indonésio.

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Com a entrada em vigor do Código Penal de Timor Leste este crime


passou a ser previsto e punido pelo art. 203 nos seguintes termos:
“1. Quem atentar contra a vida, integridade física ou a liberdade de
representante máximo de órgão de soberania ou de quem
constitucionalmente o substituir ou de quem tenha sido eleito ou nomeado
para o cargo, mesmo antes de tomar posse, é punido com pena de prisão
de 8 a 20 anos.
2. Em caso de consumação de crime contra a vida, a integridade
física ou a liberdade, o agente é punido com pena de prisão de 12 a 25
anos”.
Analisado o tipo criminal agora previsto, constata-se que ocorreu
um alargamento das entidades que são agora sujeito passivo do crime
(precisamente pela circunstância de, pela nova configuração
constitucional, a governabilidade do Estado ser agora assegurada pelo
exercício concertado de vários órgãos de soberania), mas, à semelhança
do que sucedia no Código Penal Indonésio, o crime consuma-se com a
prática dos actos de execução que se destinam a violar os bens jurídicos
pessoais das entidades em causa (a vida, a integridade física ou a
liberdade). O crime consuma-se pois pela mera tentativa idónea de causar
a morte, ofender a integridade física, ou privar da liberdade alguma
daquelas entidades. A consumação do resultado pretendido não é
elemento do tipo, sendo mera circunstância que determina a agravção da
moldura penal abstracta.
Face aos factos dados por provados, conclui-se que a conduta dos
arguidos preenche, também, todos os elementos típicos deste novo crime,
sendo que da mesma resultaram lesões físicas, ou seja, consumou-se um
crime contra a integridade física (já que a tentativa de matar se frustrou),
pelo que a moldura penal a que os mesmos estarão sujeitos por via deste
crime será a prevista no n.2 do art. 203 do CPTL: pena de prisão de 12 a
25 anos.

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Também à luz do novo Código não ocorre qualquer causa de


exclusão da ilicitude ou da culpa, nomeadamente o conflito de deveres
previsto pelo art. 46, pelas razões já expostas.

Do Crime de homicídio, na forma tentada

Na acusação deduzida é imputada aos arguidos Amaro da Costa,


Domingos do Amaral, Gilson José Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano,
Gilberto Sunimota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho, Ismael
Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes, a co-autoria, na
forma tentada, de doze crimes de homicídio, p. e p. pelos art. 338 e 53 do
Código Penal Indonésio.
Conforme dispõe o art. 338 do CPI, quem matar outra pessoa é
punido com pena de prisão até 15 anos.
Estamos, portanto, no âmbito dos chamados crimes contra a vida,
de entre os quais o homicídio assume sempre particular relevo, atendendo
ao bem jurídico que nele está em causa. Com efeito, a vida é considerada
como o mais precioso dos bens, sendo que como tal é tratada pela nossa
Constituição, que consagra a inviolabilidade da vida humana (artigo 29º nº
1).
Daí que, como refere Nélson Hungria, o homicídio tenha a primazia
entre os crimes mais graves, pois é atentado contra a fonte mesma da
ordem e segurança geral, sabendo-se que todos os bens públicos e
privados, todas as instituições se fundam sobre o respeito à existência dos
indivíduos que compõem o agregado social (Comentário ao Código Penal
Brasileiro, V – 26 e 27).
No que diz respeito ao sujeito activo deste crime, ele poderá ser
qualquer pessoa singular, sendo que, o sujeito passivo terá também de
ser uma pessoa humana, viva (já completamente nascida e com vida).

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O crime exige a prática de uma acção ou omissão pela qual o


agente realiza o resultado proibido – será pois qualquer facto humano
apto a provocar a morte de alguém, seja mediante a utilização de um
meio idóneo a produzir directamente a supressão da vida (acção), seja
pela falta de actuação capaz e devida para evitar o resdultado letal
(conduta omissiva).
O resultado típico é, naturalmente, a morte de alguém, exigindo-se
também que entre este resultado e aquela acção ou omissão exista um
nexo de causalidade, de tal forma que se possa afirmar que a morte
resultou, directa e necessariamente, da actuação do agente.
Na vertente subjectiva, exige-se que o crime seja praticado com
dolo, ou seja, a morte terá de ser intencional. É pois necessário que o
agente queira causar a morte, e actue de forma voluntária, livre e
consciente, sabendo que a sua conduta é apta a causar a morte por si
pretendida.
Mesmo nas situações em que o resultado não se produz, ou seja,
quando a morte do terceiro não chega a ocorrer, ainda assim poderá
haver lugar à punição da conduta destinada a causá-la, desde que se
verifiquem os pressupostos previstos pelo art. 53 do CPI.
Estatui este artigo que “A tentativa de cometer um crime é punível
se a intenção do perpetrador tiver sido revelada num início da acção e
esta não tenha sido completada apenas por circunstâncias alheias à sua
vontade”.
Ou seja, haverá lugar à punição da tentativa quando o agente
pratica actos de execução de um crime que pretende cometer, e este não
chega a consumar-se por uma causa alheia à sua vontade.
Por acto de execução deverá entender-se todo o acto que preenche
um elemento constitutivo de um tipo legal de crime, o acto que se mostre
idóneo a produzir um resultado típico, podendo ainda considerar-se como
tal todos os actos que, segundo a experiência comum, forem de natureza
a fazer esperar que se lhe sigam qualquer um dos actos anteriormente

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mencionados (ou seja, actos constitutivos do tipo, ou actos idóneos a


produzir um resultado típico).
Analisemos então as condutas dadas por provadas.
Os arguidos, uma vez colocados no exterior do compound, após
saberem da morte de Alfredo Reinado e Leopoldino Exposto, disparam
para o interior do compound, havendo uma troca de tiros entre eles e os
seguranças que lá se encontram. Estes seguranças (Domingos Simões
Pereira, José Pinto Freitas, Francisco Lino Marçal e Albino Assis) só não são
atingidos pelos disparos dos arguidos por se conseguirem abrigar.
Porém, não resultou provado que, no momento em que os arguidos
abriram fogo contra o compound, os seguranças Adelino da Silva, João
Soares, José Luís da Costa Pereira, Agostinho Freitas e Filomeno Ximenes
ainda se encontravam no interior do compound.
Assim, desde logo se conclui que, relativamente a estes cinco
seguranças, os tiros disparados contra o compound pelos arguidos não
são uma conduta apta a causar a morte daqueles, que já não se
encontram em tal local.
Quanto ao lesado Celestino Gama, conforme resultou provado, este
foi atingido por tiros disparados durante a troca de tiros entre os arguidos
e os seguranças, não tendo ficado provado que os tais tiros foram
disparados pelos arguidos. Assim, não se pode concluir que, relativamente
àquele lesado, os arguidos tenham praticado qualquer acto idóneo a
causar a sua morte, sendo legitimo admitir-se a possibilidade que esse
acto idóneo possa ter sido praticado por um dos seguranças. Por outro
lado, não resultou provado que os arguidos tivessem a intenção de atingir
aquele lesado.
Por fim, quanto aos seguranças do Presidente da República, Isaque
da Silva e Pedro Joaquim Soares, também não resultou provado que os
arguidos tenham efectuado qualquer disparo contra ambos. Pelo que
também não se pode concluir que tenham praticado qualquer acto idóneo
a produzir a morte destes dois seguranças.

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Logo, relativamente aos crimes de homicídio tentado tendo por


lesados Adelino da Silva, João Soares, José Luís da Costa Pereira,
Agostinho Freitas e Filomeno Ximenes, Celestino da Gama, Isaque da Silva
e Pedro Joaquim Soares, devem os arguidos ser absolvidos.
Quanto aos restantes quatro seguranças do compound (Domingos
Simões Pereira, José Pinto Freitas, Francisco Lino Marçal e Albino Assis),
deve concluir-se que a conduta dos arguidos constitui um acto de
execução do crime de homicídio de cada um daqueles lesados, crimes
estes que só não se consumaram por um facto alheio à vontade dos
arguidos. A conduta destes é apta a produzir a morte daqueles, na medida
em que, caso viesse a ocorrer, existiria um nexo causal entre os disparos
dos arguidos e a morte daqueles. Por outro lado, de tais factos, conforme
resultou provado, extrai-se a intenção dos arguidos pretenderem a morte
de tais seguranças, como meio necessário a diminuir a reacção dos
lesados ao objectivo final pretendido pelos arguidos: a morte do
Presidente da República. Pelo que se conclui que os arguidos agiram com
dolo necessário, ou seja, os arguidos só pretenderam causar tal resultado
porque o mesmo se mostrou necessário à prossecução do objectivo
principal.
As considerações já expostas a propósito da co-autoria, mantêm
aqui plena validade, pelo que se entende que a conduta dos arguidos
preenche, por quatro vezes, os elementos típicos do crime de homicídio,
na forma tentada.
As condutas dos arguidos são ilícitas e culposas, sem que se
mostrem abrangidas por qualquer causa de exclusão da ilicitude ou da
culpa.
No caso presente, é de afastar por completo a figura da legítima
defesa (art. 49 do CPI). Nos termos deste artigo será praticado em
legitima defesa o facto que constitua o meio necessário para repelir uma
agressão actual e ilícita de intereeses juridicamente protegidos, seja do
agente, seja de terceiros. Por agressão entende-se a lesão ou perigo de

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lesão de um interesse próprio protegido pelo ordenamento jurídico –


Jescheck, Tratado de Derecho Penal, Parte General, 4 Ed., p. 303. A
agressão deve ser actual e ilícita, ou seja, quem agride não tem o direito
de inflingir a agressão. Uma vez que os arguidos se encontram naquele
local desde o início numa posição ilícita, de atentado contra bens jurídicos
quanto mais não seja pelo facto de invadirem a residência do Presidente
da República, tem de se concluir que a reacção dos seguranças é, essa
sim, praticada em legítima defesa. E sendo praticada em legítima defesa,
não é ilícita, pelo que não podiam os arguidos responder legitimamente ao
ataque destinado a impedir a lesão dos bens jurídicos que os arguidos
pretendiam violar.
Pelo que, nos termos conjugados dos artigos 338 e 53 do Código
Penal Indonésio, devem os arguidos ser condenados a uma pena até 10
anos de prisão, por cada um dos quatro crimes de homicídio tentado
praticados, devendo ser absolvidos dos restantes oito crimes de que
vinham acusados.

Os arguidos Gastão Salsinha, Bernardo da Costa, Avelino da Costa,


Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António Soares,
Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura, e Francisco
Ximenes Alves encontram-se também acusados da prática de sete crimes
de homicídio, na forma tentada, tendo por lesados o Primeiro Ministro e os
seguranças que seguiam nos veículos que compunham a coluna que saiu
da casa daquele com destino a Dili.
As considerações acima expostas quanto ao tipo de crime em
causa, co-autoria e tentativa mantêm aqui a sua plena validade, pelo que
nos escusamos de as reproduzir.
Analisados os factos dados por provados, constata-se que este
grupo de arguidos, na madrugada do dia 11 de Fevereiro de 2008 desceu
de Lauala com destino a Balibar e, uma vez nesse local, de acordo com as

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instruções dadas pelo arguido Gastão Salsinha, dividiram-se em dois


grupos, colocando-se um nas imediações da residência do Primeiro
Ministro, e outro a cerca de 500 metros de distância, junto a uma curva da
estrada em direcção a Dili.
Tendo o Primeiro Ministro saído da sua residência por volta das
7h30 minutos, numa coluna composta por quatro carros, no momento em
que o carro em que seguia descrevia uma curva, foi atingido pelos tiros
disparados pelos arguidos que se encontravam nesse local, sendo que tais
tiros atingiram portas, vidros e pneus, apesar do que continuou a sua
marcha até conseguir sair do alcance dos tiros. Os seus ocupantes só não
foram atingidos porque o veículo continuou a sua marcha.
Não resultou provado que os outros veículos que seguiam na
coluna, quer à frente, quer atrás daquele veículo, tenham sido atingidos
por qualquer disparo de arma.
De tais factos não restam dúvidas que os tiros disparados
constituíam um meio apto a causar a morte das pessoas que seguiam no
veículo atingido, a qual só não ocorreu por razões alheias à vontade dos
arguidos.
Face aos locais atingidos (alguns dos tiros perfuraram o interior do
habitáculo do veículo, nomeadamente o banco onde seguia o Primeiro
Ministro e aquele em que seguia o seu condutor) é de excluir a intenção
de os arguidos pretenderem apenas a imobilização do veículo, pelo que se
considerou provada a intenção de matar.
Porém, uma vez mais também, considerou-se que as mortes do
segurança e condutor do Primeiro Ministro foram pretendidas pelos
arguidos apenas porque se mostravam necessárias ao objectivo principal
de causar a morte do Primeiro Ministro. Quanto a este, conforme ficou
provado, havia a efectiva intenção de causar a sua morte.
Pelo que se considera que quanto aos dois primeiros os arguidos
agiram com dolo necessário, agindo relativamente a este último com dolo
directo.

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Apesar dos arguidos colocados nas imediações da casa do Primeiro


Ministro não terem efectuado nenhum dos disparos que atingiram o
veículo, deve entender-se que, ainda assim, participaram no plano
destinado a matar aquele, plano este ao qual aderiram quando dele
tiveram conhecimento. Na verdade, no ponto em que se colocaram,
tinham os arguidos visibilidade sobre a residência daquele, tendo assim a
oportunidade de o atingir, caso essa possibilidade se verificasse. Deve
pois entender-se que o plano visava a morte do Primeiro Ministro, fosse na
sua residência, fosse na estrada a caminho de Dili. Frustrada a primeira
possibilidade, deram os arguidos execução à segunda.
Razão pela qual se entendeu que todos os arguidos presentes no
local possuiam o domínio funcional do facto por todos pretendido, cada
um colaborando na medida necessária, consoante as várias possibilidades
que pudessem ocorrer. Pelo que devem todos eles ser responsabilizados
pelo facto como co-autores.
Não resultou provado que os arguidos Tito Tilman, Alfredo de
Andrade e João Amaral tenham estado presentes no local, ou por qualquer
outra forma tenham participado na execução deste plano.
Pelo que devem estes arguidos ser absolvidos destes crimes, bem
como dos demais por que vinham acusados.
Não se provou que os veículos onde seguiam os restantes
seguranças do Primeiro Ministro tenham sido atingidos por qualquer
disparo.
Pelo que, relativamente a tais ofendidos (Johnny Barbosa, José
Maria Barreto Soares, Komsan Tookokgruado e Alongkorn
Kalayanasoontor), não foram praticados quaisquer actos idóneos a causar
a sua morte. Razão pela qual devem todos os arguidos ser absolvidos das
quatro tentativas de homicídio em causa.
Os arguidos serão punidos pela co-autoria de três crimes de
tentativa de homícidio, um deles praticado com dolo directo (tendo por

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vítima o Primeiro Ministro) e os outros dois praticados com dolo necessário


(Bobby Gonçalves e Adolfo Soares).

Com a entrada em vigor do novo Código Penal, os crimes imputados


aos arguidos passaram a estar previstos pelo art. 138, sendo aí punidos
com pena de prisão entre 8 e 20 anos. Face à redacção do preceito, nada
há a acrescentar ao que já acima foi exposto, no que concerne ao
preenchimento dos elementos típicos deste crime pelos arguidos, bem
como quanto à ausência de causas de exclusão da ilicitude ou da culpa.
As considerações já expostas a propósito da co-autoria e da
tentativa mantêm aqui plena actualidade, face ao disposto nos art. 23 e
30, n.2 do novo Código.
Sendo a tentativa punível, haverá lugar a uma atenuação especial
que determina a redução do limite máximo em 1/3 e do limite mínimo a
1/5, passa o crime praticado a ser punido com uma pena de 1 ano, 7
meses e 6 dias a 13 anos e 4 meses – art. 23; 24, n.2 e 57, n.1, alin. A) e
b) do Código Penal de Timor Leste.
No entanto, no que se refere à tentativa de homicídio do Primeiro
Ministro, importa ter em conta que as condutas praticadas pelos arguidos
a tal propósito, bem como os objectivos por eles pretendidos, se
enquadram agora no âmbito de previsão da norma do art. 203 do CPTL, já
acima analisado. Com efeito, ao agir como agiram, quiseram os arguidos
atentar contra a vida do mais alto representante do Governo.
Por esse motivo, ao abrigo do Código Penal novo, tal conduta é
subsumível à estatuição prevista neste artigo, enquanto crime consumado
(conforme acima se viu já), sendo a moldura penal aplicável a de 8 a 20
anos de prisão, não havendo lugar à agravação da moldura penal prevista
pelo n.2 do artigo uma vez que não se consumou nenhum dos crimes aí
previstos.

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Do Crime de Uso de Arma

Vieram todos os arguidos, com excepção da arguida Angelita Pires,


acusados da prática, em autoria individual, de um crime de uso de arma
de fogo para perturbação da ordem pública, p. e p. pelo art.º 4º nº 4.7 do
Regulamento da UNTAET n. 5/2001.
Dispõe o art. 4.2 do Regulamento UNTAET 5/2001: “Qualquer
pessoa que, sem estar autorizada ao abrigo do presente regulamento,
importe, exporte, produza ou fabrique qualquer arma de fogo, imitação de
arma de fogo, munição ou explosivo ou tente qualquer acção supracitada,
será culpada de ofensa criminal e será punida por multa não superior a
cinquenta USD, ou por pena de prisão não superior a 10 anos ou ambas”.
Por sua vez o art. 4.7 do mesmos regulamento refere que:
“Qualquer pessoa que, sem autorização legal, importar para Timor-Leste
qualquer arma de fogo, munição ou explosivo com a intenção de perturbar
a ordem pública, ou que usar qualquer arma de fogo, munição ou
explosivo para perturbar a ordem pública será culpado de ofensa criminal
e punida com uma multa não superior a cinquenta mil dólares americanos
ou com uma pena de prisão não superior a vinte anos, ou ambas”.
De acordo com art. 1 do regulamento em causa, arma de fogo
significa “ qualquer engenho, quer esteja montado ou não, operável ou
incompleto, concebido, ou adaptado, ou que possa ser prontamente
convertido para disparar um projéctil por meio de expansão de gases
produzidos no engenho através da ignição de material combustível, e que
inclua qualquer acessório concebido ou que se destine a ser acoplado a tal
engenho”.
Munição significa '' qualquer instrumento concebido ou destinado a
ser utilizado num arma de fogo como projéctil ou que contenha material
combustível concebido ou destinado a provocar uma expansão de gases
numa arma de fogo para expelir um projéctil ”.

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República Democrática de Timor Leste

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Ainda de acordo com o diploma em causa possuir significa “ter


domínio físico ou controlo, directa ou indirectamente. A posse ocorre
quando alguém tem uma coisa consigo ou à volta da sua pessoa, ou
dentro das instalações ou das viaturas sobre as quais essa pessoa tem
custódia, controlo ou fácil acesso”.
São, pois, elementos constitutivos do ilícito em causa (previsto no
art. 4, n. 4.7), no que para o caso interessa, o uso de armas e suas
munições, nos termos da definição supra referida, exigindo o legislador
que tal uso se verifique com intenção de perturbar a ordem e
tranquilidade pública.
Ou seja, para além do dolo genérico, prevê-se ainda um elemento
volitivo específico, que consistirá na intenção de perturbar a ordem e
tranquilidade pública.
Dos factos provados resulta que os arguidos, na prossecução do seu
plano, fizeram uso de armas, sendo que todos, seja inicialmente, seja na
sequência dos demais actos entretanto praticados, ficaram na posse de
armas.
O uso concreto feito dessas armas determinou que o Presidente da
República tenha sofrido ferimentos que o obrigaram a permanecer
internado no exterior do país por um período de dois meses, tendo
regressado apenas ao fim de três meses. Durante tal período,
encontrando-se impossibilitado de exercer as suas funções, foi necessário
proceder-se à sua substituição nos termos constitucionalmente previstos.
Quase em simultâneo com aqueles actos, os outros arguidos,
também mediante a utilização de armas, atentaram contra a vida do
Primeiro Ministro.
Face a tais factos, foi decretado o estado de sítio, sucessivamente
renovado por cinco vezes.
A declaração do estado de sítio, conforme está previsto na CRDTL,
só pode ser decretada em situação de grave perturbação ou ameaça de
perturbação séria da ordem constitucional democrática – art. 25, n. 2.

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Ou seja, para que haja perturbação da ordem pública, não se


mostra necessária a existência de revoltas, motins, incêndios, homicídios
indiscriminados, ou uma situação de insegurança e violência
descontroladas. Basta que o normal e regular funcionamento das
instituições necionais fique comprometido, e que haja lugar ao
decretamento de medidas de excepção destinadas a acautelar tais
situações. A limitação de direitos fundamentais imposta a toda a
população de um país constitui já de si, perturbação bastante, à qual se
somou o perigo de violência iminente que esteve no fundamento do
decretamento desse estado de excepção.
Os arguidos sabiam que as suas condutas eram adequadas a causar
este resultado (ou outro ainda mais grave, caso a morte do Presidente da
República ou do Primeiro Ministro viesse a concretizar-se, conforme os
arguidos pretendiam). Pelo que se entende que se mostra preenchido o
requisito previsto pelo artigo citado.
Coloca-se, contudo, a questão de saber se os arguidos, sendo
miliatres e agentes de segurança, ao fazerem uso de armas, possuiam
autorização legal para esse efeito. Ou seja, se o uso das armas ocorreu no
exercício das suas funções.
A resposta só pode ser negativa. A prática de atentados contra o
Presidente da República e contra o Primeiro Ministro, em circunstância
alguma poderão ser tidas como uma das funções características do
exercício da função militar ou policial. Por outro lado, os arguidos, no
momento da prática dos factos, tinham-se desvinculado voluntariamente
das estruturas militares e de segurança a que pertenciam, não estando
integrados em qualquer estrutura hierárquica dessas duas instituições. Por
isso, não estavam seguramente no exercício de qualquer função
profissional, e muito menos legalmente autorizados a agirem como
agiram. No momento em que os factos ocorreram, os arguidos não tinham
qualquer autorização legal para fazerem uso das armas que tinham
consigo. Não devem pois ser tratados como militares ou agentes de

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República Democrática de Timor Leste

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segurança, quando eles próprios, por sua iniciativa, optaram por se


desvincular, de facto, das respectivas instituições, sendo que o grupo em
que se integraram, independentemente de quem o dirigia, não fazia parte
da estrutura de defesa ou de segurança do país.
Conclui-se pois que, cada um dos arguidos cometeu o crime por que
vinha acusado, na medida em que, também a respeito deste crime, não se
verifica qualquer causa de exclusão ou da culpa.

Com a entrada em vigor do Código Penal de Timor Leste, o crime de


uso de arma passou a estar previsto e punido pelo art. 211, n.3 nos
seguintes termos: “A simples detenção, uso ou porte de arma de fogo sem
que o agente esteja legalmente autorizado, é punível com pena de prisão
até 2 anos ou multa”.
Face ao novo tipo, verifica-se que este não exige agora como
resultado a perturbação da ordem pública. Assim, provado o uso, desde
logo ficam preenchidos os elementos típicos e consumado o crime.
Quanto à falta de autorização legal para o uso, dá-se aqui por
reproduzido o que já acima foi exposto a esse propósito.
Pelo que se conclui que, também face ao novo crime, se mostram
preenchidos todos os pressupostos que permitem a punição individual dos
arguidos pela prática deste crime.

Do Crime de Roubo

Vieram os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson


José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto
Sunimota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho, Ismael Sansão
Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes acusados da prática de um
crime de roubo p. e p. pelo art. 365, n.2, parágrafo segundo do Código
Penal.

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República Democrática de Timor Leste

TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Face aos factos dados provados, e que abaixo se irão expor, não
nos interessa deter na análise do tipo legal em causa.
Com efeito, resultou provado que dois dos arguidos, cuja identidade
não se apurou, subtraíram duas armas do interior da residência do
Presidente da República.
Contudo, não resultou provado que a subtracção de tais armas
fizesse parte do plano definido e aceite e executado por todos. Assim, não
se pode afirmar que todos os arguidos agiram com a intenção de subtrair
tais armas, e que todos quizeram fazê-las suas.
Como tal, a conduta individual daqueles dois arguidos não derivou
de uma vontade conjunta de todos os arguidos nesse sentido, e que todos
tenham agido com o propósito de concretizá-la, ou tenham contribuído por
qualquer forma para essa concretização. Nessa medida, impôs-se ao
Tribunal considerar que tal conduta se ficou a dever apenas à intenção e
iniciativa individuais de cada um dos dois arguidos que realizaram tal
subtracção, pelo que só a eles poderia imputar-se a responsabilidade pelo
facto.
Na medida em que não se determinou a identidade desses dois
arguidos, importa absolver todos eles da prática de tal crime.

Do Crime de Dano

Os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José


António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Suni Mota,
Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares
e Caetano dos Santos Ximenes acusados da prática de um crime de dano
p. e p. pelo art. 406 do Código Penal, tendo por objecto o veículo das F-
FDTL conduzido por Celestino Gama.
Por seu turno, os arguidos Gastão Salsinha, Avelino da Costa,
Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia

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Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião
António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa
Ventura, Tito Tilman, Alfredo de Andrade, João Amaral e Francisco
Ximenes Alves foram acusados da prática de dois crimes de dano p. e p.
pelo mesmo artigo, tendo por objectos o veículo automóvel com a
matrícula SEC 1, e o veículo automóvel em que seguia o Primeiro Ministro.
O art. 406º,no.1 do Código Penal, estatui que: “Quem com dolo e
ilicitamente destruir, no todo ou em parte, danificar, desfigurar ou tornar
não utilizável coisa alheia, é punido com pena de prisão até dois anos e
oito meses ou multa até quatro mil e quinhentas rupias,”.
São pois pressupostos do citado preceito: a intenção (não se configura
este crime como uma acção negligente); a ilicitude do acto (o agente não
age ao abrigo de qualquer causa que o autorize ou legitime a causar o
resultado típico); a acção adequada a produzir como resultado destruir /
danificar / desfigurar/ tornar não utilizável; e o facto da coisa ser alheia.
Conforme se viu já, no que diz respeito ao veículo de Celestino Gama, não
resultou provado que tenham sido os arguidos a disparar sobre tal veículo,
nem que praticaram qualquer outra conduta determinante dos danos que
tal veículo veio a sofrer.
Assim, devem aqueles arguidos ser absolvidos da prática desse crime.
Quanto aos outros dois crimes de dano, conforme foi já mencionado
também, não resultou provado que os arguidos Tito Tilman, Alfredo de
Andrade e João Amaral tenham tido qualquer participação nos factos
ocorridos em Balibar. Pelo que devem também estes arguidos ser
absolvidos dos dois crimes de dano.
Não resultou provado que os arguidos tenham disparado sobre qualquer
um dos outros veículos que seguia à frente ou atrás da viatura em que
seguia o Primeiro Ministro. Embora o veículo que seguia à frente se tenha
despistado, não foi feita prova de que tal despiste se ficou a dever a
qualquer conduta dos arguidos. Assim, os danos sofridos por esse veículo
não podem ser imputados aos arguidos.

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República Democrática de Timor Leste

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Pelo que se impõe a absolvição de todos eles da prática do crime de dano


que tem por objecto o veículo com a matrícula SEC 1.
Quanto ao veículo em que seguia o Primeiro Ministro, resultou
provado que sofreu danos no parachoques frontal, farol frontal direito e
capot, quebra do vidro traseiro, diversos orifícios de balas nas portas e no
assento dianteiro direito, bem como destruição do pneu traseiro esquerdo.
Tais danos foram causados pelas balas disparadas pelos arguidos, tendo
resultado provado também que os arguidos consideraram necessário
causar estragos na viatura em que seguia o Primeiro Ministro, como forma
de conseguir matá-lo, conforme pretendiam.
Os considerandos acima expostos a propósito da co-autoria têm
aqui plena aplicação, pelo que se remete para tudo quanto foi já dito a
esse propósito.
Conclui-se pois que a conduta dos arguidos preenche os elementos
típicos do crime de dano que lhes é imputado, sendo ilícita e culposa, pelo
que devem os mesmos ser condenados pela prática co-autoria de um
crime de dano, praticado com dolo necessário.

Com a entrada em vigor do novo Código Penal o crime de dano


passou a estar previsto e punido pelo art. 258 do CPTL, em termos muito
semelhantes aos anteriormente previstos, prevendo agora uma pena de 3
anos de prisão ou multa.
A conduta dos arguidos é ilícita e culposa também à luz do novo
Código.

Da Responsabilidade Penal da arguida Angelita Pires

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TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Impora agora analisar com mais detalhe a imputação dos crimes


feita à arguida Angelita Maria Francisca Pires.
Na acusação é esta arguida acusada da autoria mediata do crime
de atentado contra a vida do Presidente da República, 19 tentativas de
homicídio e 3 crimes de dano.
As diversas formas de autoria, como uma das formas de
participação na prática de actos considerados crimes, encontram-se
previstas no art. 55 do CPI já acima citado.
Da leitura do preceito constata-se que o CPI assimila a figura da
instigação (quem provoca um terceiro a praticar o acto) à figura da autoria
mediata (quem determina um terceiro a praticar o acto). Embora
prevendo já a distinção das duas figuras, acaba por equipará-las, para
efeitos de punição, englobando ambas num conceito amplo de autoria.
Trata-se de uma concepção antiga da autoria, abandonada pela doutrina e
pelos Códigos mais recentes, na medida em que assume como iguais as
situações em que alguém detém o domínio do facto (aquele que, por si, ou
por meio da instrumentalização de um terceiro, ou em conjugação de
esforços com outros, possuem a capacidade de, no processo de execução
do facto, prosseguirem com ele até à produção do evento lesivo, ou pelo
contrário, decidirem parar essa execução evitando a produção do
resultado), e as situações em que alguém gera num terceiro a vontade
deste praticar um determinado crime. Nesta última situação, o agente que
provoca o outro a praticar um crime não detém o domínio do facto, o qual
está integralmente centrado na esfera de quem executa o facto
autonomamente.
Daí que as teses mais recentes, apoiadas na teoria do domínio do
facto, optem por um conceito mais restrito de autor, considerando como
tal: 1) quem executa por si próprio todos os elementos do tipo; 2) quem
executa o facto utilizando outra pessoa como instrumento (autoria
mediata), 3) quem realiza uma parte necessária de execução do plano
global (domínio funcional do facto), ainda que não seja um acto típico em

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sentido estrito, mas participando em todo o caso da comum resolução


criminosa. O critério distintivo do domínio do facto não estaria apenas
no poder de interromper a realização do tipo legal (teses finalistas), mas
na pertinência exclusiva ou compartilhada do facto em que este não
resulta de quem depende a possibilidade da sua execução, mas de quem
a realiza por si só ou através de outro ou a compartilha com outros –
assim, Santiago Mir Puig, Derecho Penal, Parte General, PPU, 2.ª ed., pp.
307 e seguintes.
Esse domínio do facto pode manifestar-se em três vertentes:
O domínio da acção, em que o agente por suas mãos executa o
facto, caso do autor imediato;
O domínio da vontade próprio da autoria mediata, em que o homem
de trás (o que formula o propósito criminoso e decide a sua efectivação)
domina a vontade do homem da frente (o instrumento, ou executor que
executa o facto), por coacção, indução em erro ou no âmbito de um
aparelho organizado de poder; e
O domínio funcional do facto, característico da co-autoria, face ao
significado funcional da contribuição de cada co-autor na divisão de
trabalho ou repartição de tarefas na concretização da decisão conjunta. -
Claus Roxin, Problemas Fundamentais de Direito Penal, Editora Vega, pp.
145 e seguintes.
Na teoria do domínio do facto, autor é, em síntese, quem domina o
facto e dele é «senhor», dele dependendo o se e o como da realização
típica - distinguindo-se aliás e, por vezes, um domínio positivo do facto (a
capacidade de o fazer prosseguir até à consumação) e um domínio
negativo (a capacidade de o fazer gorar) - , sendo pois o autor a figura
central do acontecimento, em que numa unidade objectiva-subjectiva o
facto aparece «como obra de uma vontade que dirige o acontecimento
dotada de um determinado peso e significado objectivo - conforme
Figueiredo Dias, Direito Penal, Questões Fundamentais, A Doutrina Geral
do Crime, 1976, p.766.

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A execução do facto por intermédio de outrem pressupõe sempre


um homem de trás ou da retaguarda e um homem da frente, executor,
intermediário ou instrumento, que pode ser jurídico-penalmente
irresponsável ou responsável. Verifica-se a autoria mediata quando o
homem de trás domina a vontade do homem da frente, como sucede no
domínio da vontade por coacção, por erro e nos quadros de aparelhos
organizados de poder.
Nesse seguimento, a diferença entre autoria mediata e instigação
estará em que na autoria mediata o homem de trás não perde o domínio
do facto, ao passo que na instigação a determinação de alguém,
plenamente responsável pela prática do facto, faz perder ao homem de
trás o domínio do facto, devendo então o homem da frente ser autor e o
homem de trás simples participante. Ambas pressupõem um homem de
trás, que prevê a realização de um ilícito típico, e um homem da frente,
que executa ou começa a execução, e em ambas há dolo do homem de
trás, mas enquanto na autoria mediata o homem de trás serve-se do
homem da frente para através deste realizar o facto, mantendo o
interesse efectivo na sua concretização e não fica alheado do domínio do
facto; na instigação, o facto ilícito típico, desde a sua concepção à sua
realização, surge exclusivamente da acção do instigado ao ficar
determinado pela acção do instigador, ficando o instigado no domínio
exclusivo do facto, a que o instigador se torna alheio.
Na instigação a decisão de construção e realização do crime é da
autonomia plena da pessoa determinada. O instigador limita-se a criar ou
produzir nessa outra pessoa a própria decisão de praticar o crime, a qual
age por sua exclusiva iniciativa decisória, no modo e tempo de actuação
que entender por conveniente sem qualquer subordinação a terceiro,
nomeadamente a quem o determinou (o instigador) a assumir
convictamente esse propósito. O instigado torna-se o único senhor do
facto, por si decidido e assumido, por ter ficado convencido por alguém (o

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instigador) que o determinou a decidir, conceber e realizar o facto ilícito


típico punível, ou seja, o crime.
O que se acaba de expôr constitui o tratamento mais comum dado
recentemente à questão da autoria mediata e instigação pela Teoria Geral
do Direito Penal.
Contudo, analisando com mais pormenor o art. 55 do CPI, vemos
que este não segue de perto todas aquelas considerações. Na verdade,
contemplando o segundo parágrafo desse artigo as situações de
instigação, vemos que, relativamente a alguns dos meios aí previstos
como forma de determinar a formação da vontade do executor são, para a
Teoria Geral, causas que afastam a instigação e transpõem a situação
para a autoria mediata. Assim sucede, por exemplo, com o erro, a
ameaça, o uso da força, etc, os quais, quando se verificam, constituem
formas de anular a vontade do executante e o colocam sob o domínio do
mandante. Nessa conformidade, na medida em que tais actos colocam o
executor sob o domínio do mandante, e levam aquele a agir sem vontade,
estariamos em presença de situações de autoria mediata e não de
instigação.
Mas assim não entendeu o legislador indonésio, que optou por
considerar tais situações também como de instigação.
E ainda mais relevante, na análise deste artigo, resulta da
circunstância do legislador exigir que a instigação opere,
necessariamente, através do recurso aos meios taxativamente previstos
pelo parágrafo segundo do art. 55. Ou seja, a instigação está sempre
dependente do meio utilizado pelo instigador para determinar a vontade
do executor. Pelo que só há instigação quando o instigador utilize um dos
meios previstos no parágrafo segundo, não podendo utilizar outros meios
– R. Soesilo, Kitab Undang-Undang Hukum Pidana, serta Komentar –
Komentarnya Lengkap Pasal demi Pasal, Politeia Bogor, 1980, p. 63.
Analisando agora os factos que se reportam à arguida Angelita Pires
à luz das considerações acima feitas, desde logo se retira uma conclusão

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que nos parece evidente: tais factos não permitem o enquadramento da


conduta da arguida na autoria mediata. De nenhum facto dado por
provado resulta que a arguida dominava a vontade do Alfredo Reinado ou
de qualquer um dos arguidos, ou que estes agissem sob o domínio
daquela, numa situação de ausência de vontade. Ainda que se alargue o
conceito da autoria mediata a outras situações que não as de
inimputabilidade, erro ou coacção.
No que diz respeito à instigação, também não foi feita prova que a
arguida, por qualquer um dos modos previstos no art. 55 do CPI tenha
influenciado de forma determinante quer Alfredo reinado, quer os
arguidos, a praticarem os factos por ela pretendidos. Sendo certo que
também não se provou que a arguida quisesse qualquer um dos
resultados em causa.
Em face de tais considerações, conclui-se que a arguida não pode
ser responsabilizada por nenhum dos crimes praticados pelos demais
arguidos, pelo que se impõe a sua absolvição relativamente a todos os
crimes de que era acusada.

Da medida concreta da pena


A finalidade da aplicação de qualquer pena reside, essencialmente,
na tutela dos bens jurídicos e na reinserção do arguido. Por outro lado, a
par dessas finalidades, a pena não poderá nunca ultrapassar a medida da
culpa concreta do agente.
Assim, apena terá de ter em conta, sempre, a culpa do arguido, as
exigências de prevenção de futuros crimes, e a necessidade sentida pela
comunidade em ver reposta a validade das normas que tutelam bens
jurídicos essenciais.
No limite mínimo da moldura concreta interessará ponderar a
necessidade de tutela dos bens jurídicos atingidos pelo acto criminoso.

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Importa encontrar um valor de referência abaixo do qual a comunidade


deixa de sentir uma efectiva tutela de tais bens jurídicos.
No limite máximo será colocada a culpa do arguido, sendo que,
valor esse que será inultrapassável, ainda que as necessidades de
prevenção exigissem um valor mais elevado.
Por fim, dentro desses dois parametros, será encontrado o valor que
satisfaça as necessidades de prevenção especial do arguido, ou seja, a
medida necessária para a sua ressocialização.
Nesta operação serão ponderadas todas as circunstâncias que
deponham a favor ou contra os arguidos.
Passando ao caso concreto, importa considerar as seguintes
circunstâncias:
O grau de ilicitude, na vertente do desvalor da acção mostra-se
elevado no crime de atentado contra o Presidente da República,
considerando as lesões físicas provocadas. Já no que concerne aos crimes
de homicídio tentado mostra-se pouco significativo, considerando que
nenhuma das vítimas sofreu qualquer tipo de lesão.
Na vertente do desvalor da acção considera-se a ilicitude das
condutas muito elevadas no que diz respeito a ambos os crimes, tendo em
conta as consequências que adviriam caso o plano fosse integralmente
consumado, conforme os arguidos pretendiam, e que estariam muito para
além da lesão dos bens jurídicos pessoais dos visados, como seja por
exemplo, a segurança nacional, que seria fortemente posta em crise.
Nos atentados contra o Presidente da República e Primeiro Ministro,
os arguidos agiram com dolo directo e intenso, na medida em que o plano,
conforme foi executado, denota uma considerável reflexão sobre o modo
de acção, número de agentes envolvidos, e coordenação de meios.
Quanto aos demais crimes os arguidos agiram apenas com dolo
necessário, o que revela uma menor intensidade da vontade criminosa.
Os arguidos não demonstraram qualquer tipo de arrependimento
pelos factos praticados, nem por qualquer forma demonstraram ter

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assimilado a censurabilidade das suas condutas. Nem mesmo os arguidos


que prestaram declarações (tendo por essa via contribuído para a
descoberta da verdade) revelaram uma tal interiorização, na medida em
que nenhum deles reconhece ter praticado os factos dos quais resultou a
sua responsabilização.
O arguido Gastão Salsinha participou no planeamento dos factos, e
pelo menos os arguidos de Balibar agiram sob as suas orientações.
À data dos factos os arguidos haviam-se desvinculado das
instituições a que pertenciam, tendo, pelo menos um dele, levado consigo
a arma que lhe havia sido distribuída.
Não são conhecidos antecedentes criminais aos arguidos, com
excepção de dois deles.
Todos os arguidos são de condição sócio-económica e cultural
baixa, e por isso, mais carentes de um espírito crítico que melhor lhes
permitisse avaliar a censurabilidade dos actos que se propuseram
executar.
A culpa dos arguidos mostra-se consideravelmente elevada nos
crimes praticados com dolo directo, e mais atenuada nos praticados com
dolo necessário. Porém, face às profissões de todos eles, era-lhes
altamente exigível a adopção de um comportamento mais conforme ao
Direito, não atingindo valores essenciais do Estado como seja a
segurança, que eles próprios como militares estavam obrigados a tutelar.
As necessidades de prevenção geral mostram-se muito elevadas,
tendo para mais em consideração que Timor Leste é uma nação muito
jovem, ainda em fase de conciliação, necessitando de ser demonstrado
através das penas que as suas instituições políticas democraticamente
eleitas são merecedoras de indiscutíveis protecção, seja qual for a
circunstância; que o valor da vida humana constitui o polo central à volta
do qual gira toda a actividade comunitária, e que não pode ser
instrumentalizado por via de qualquer outro interesse, muito menos ilícito
e fortemente censurável.

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No que diz respeito ao uso das armas, essas necessidades de


prevenção geral mostram-se igualmente elevadas, dada a perigosidade de
tal meio, esperando a comunidade que o seu uso seja feito apenas em
circunstâncias excepcionais e controladas, e não na prossecução de
interesses individuais ou de grupo, ainda para mais por parte de
indivíduos que receberam formação e treino adequados para um uso
cuidadoso e vinculado a princípios de legalidade.
As necessidades de prevenção especial, se não se mostram
significativas pelo facto da grande maioria dos arguidos não ter
antecedentes criminais, já se mostram relevantes se tivermos em conta
que sob os arguidos, pelo facto de terem recebido formação militar e de
segurança, pendia um dever acrescido de um comportamento conforme
ao Direito.
A situação de instabilidade vivida no país nos anos anteriores não
pode servir de justificação para nenhum dos actos praticados.
Em face de todo o exposto, face às molduras penais que já foram
indicadas a propósito de cada um dos crimes analisados e pelos quais os
arguidos deverão ser punidos, consideram-se justas e adequadas as
seguintes penas, não se justificando, salvo menção expressa em contrário,
a distinção de penas entre os arguidos:
Pela prática do crime de atentado contra o Presidente da República,
p. e p. pelo art. 104 do CPI, a pena de 12 anos de prisão para cada um dos
arguidos (Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José António da
Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Suni Mota, Joanino Maria
Guterres, Egidio Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos
Santos Ximenes);
Pela prática dos crimes de tentativa de homicídio de Domingos
Pereira, Albino de Assis, José Pinto Freitas e Francisco Lino Marçal, p. e p.
pelos artigos 338 e 53 do Código Penal Indonésio, a pena de quatro anos
de prisão para cada um dos crimes, para cada um dos arguidos (Amaro da
Costa, Domingos do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno

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Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio
Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos
Ximenes);
Pela prática do crime de tentativa de homicídio do Primeiro Ministro
Kay Rala Xanana Gusmão, p. e p. pelos artigos 338 e 53 do Código Penal
Indonésio, a pena de sete anos de prisão para cada um dos arguidos
(Avelino da Costa, Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo,
Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito
Madeira, Julião António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva,
José da Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves);
Para o arguido Gastão Salsinha considera-se justa e adequada a
pena de oito anos pela prática desse mesmo crime;
Pela prática dos crimes de tentativa de homicídio de Bobby Agapito
Gonçalves e Adolfo Soares dos Santos, p. e p. pelos art. 338 e 53 do
Código Penal Indonésio, a pena de cinco anos de prisão, para cada um dos
crimes, para cada um dos arguidos (Avelino da Costa, Bernardo da Costa,
Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António Soares,
Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e Francisco
Ximenes Alves);
Para o arguido Gastão Salsinha considera-se justa e adequada a
pena de seis anos pela prática desse mesmo crime;
Pela prática de um crime de dano, relativo ao veículo em que seguia
o Primeiro Ministro, p. e p. pelo art. 406 do Código Penal Indonésio, a pena
de um ano de prisão para cada um dos arguidos (Avelino da Costa,
Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia
Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião
António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa
Ventura e Francisco Ximenes Alves);
Para o arguido Gastão Salsinha considera-se justa e adequada a
pena de um ano e seis meses pela prática desse mesmo crime;

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Pela prática de um crime de uso proibido de arma para perturbação


da ordem pública, p. e p. pelo art. 4, n.4.7 do Regulamento da UNTAET
5/2001, a pena de 6 anos de prisão para cada um dos arguidos (Amaro da
Costa, Domingos do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno
Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio
Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares Caetano dos Santos Ximenes,
Avelino da Costa, Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo,
Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito
Madeira, Julião António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva,
José da Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves);
Para o arguido Gastão Salsinha considera-se justa e adequada a
pena de sete anos pela prática desse mesmo crime.

Conforme se viu já, com a entrada em vigor do novo Código Penal,


as molduras penais dos crimes imputados aos arguidos foram
consideravelmente alteradas pelo que, por imposição do disposto no art.
3, n.3 do novo Código, importa determinar qual dos regimes punitivos é,
em concreto, mais favorável aos arguidos, o que implica a determinação
das penas concretamente aplicáveis a cada um dos arguidos.
As circunstâncias determinantes para tal fixação são as acima
expostas, não se vislumbrando qualquer circunstância que justifique a
atenuação extraordinária das penas.
Nos crimes em que a pena de multa é prevista como alternativa à
pena de prisão, optou o tribunal por afastar a aplicação da pena não
privativa da liberdade, por entender que nas circunstâncias graves em
que os crimes foram praticados, tal não prosseguiria de forma suficiente
as finalidades das penas, nem se mostraria adequada à culpa dos
arguidos.
Assim, à luz dos novos tipos legais, considerou-se justa e adequada
a fixação das seguintes penas:

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Pela prática do crime de atentado contra representante máximo de


orgão de soberania (Presidente da República), p. e p. pelo art. 203, n.2 do
CPTL, a pena de 15 anos de prisão para cada um dos arguidos (Amaro da
Costa, Domingos do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno
Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio
Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos
Ximenes);
Pela prática dos crimes de tentativa de homicídio de Domingos
Pereira, Albino de Assis, José Pinto Freitas e Francisco Lino Marçal, p. e p.
pelos artigos 138, 24, n.2 e 57, n.1 do CPTL, a pena de seis anos de prisão
para cada um dos crimes, para cada um dos arguidos (Amaro da Costa,
Domingos do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos,
Marcelo Caetano, Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay
Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes);
Pela prática do crime de atentado contra representante máximo de
orgão de soberania (Primeiro Ministro), p. e p. pelo artigo 203, n.1 do
CPTL, a pena de doze anos de prisão para cada um dos arguidos (Avelino
da Costa, Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo,
Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito
Madeira, Julião António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva,
José da Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves);
Para o arguido Gastão Salsinha considera-se justa e adequada a
pena de catorze anos pela prática desse mesmo crime;
Pela prática dos crimes de tentativa de homicídio de Bobby Agapito
Gonçalves e Adolfo Soares dos Santos, p. e p. pelos art. 138, 24, n.2 e 57,
n.1 do CPTL, a pena de sete anos de prisão, para cada um dos crimes,
para cada um dos arguidos (Avelino da Costa, Bernardo da Costa,
Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António Soares,
Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e Francisco
Ximenes Alves);

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Para o arguido Gastão Salsinha considera-se justa e adequada a


pena de oito anos pela prática desse mesmo crime;
Pela prática de um crime de dano, relativo ao veículo em que seguia
o Primeiro Ministro, p. e p. pelo art. 258 do CPTL, a pena de dois anos de
prisão para cada um dos arguidos (Avelino da Costa, Bernardo da Costa,
Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António Soares,
Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e Francisco
Ximenes Alves);
Para o arguido Gastão Salsinha considera-se justa e adequada a
pena de dois anos e seis meses pela prática desse mesmo crime;
Pela prática de um crime de uso proibido de arma, p. e p. pelo art.
211, n.3 do CPTL, a pena de dois anos de prisão para cada um dos
arguidos (Gastão Salsinha, Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson
José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Suni
Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz
Soares Caetano dos Santos Ximenes, Avelino da Costa, Bernardo da Costa,
Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio Soares
Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António Soares,
Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e Francisco
Ximenes Alves);

Comparadas as penas, constata-se que, para todos os casos, com


excepção do crime de uso de arma, as penas aplicadas ao abrigo do
Código Penal Indonésio são mais favoráveis aos arguidos, pelo que vão os
arguidos condenados nas penas aí fixadas, aplicando-se apenas o CPTL à
pena do crime de uso proibido de arma, por determinar a aplicação de
uma pena mais baixa do que a aplicada ao abrigo do Regulamento da
UNTAET.

Cúmulo Jurídico das Penas

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Importando agora condenar os arguidos numa pena única, impõe-se


proceder ao cúmulo jurídico das penas, primeiro de acordo com as regras
previstas pelo Código Penal Indonésio (art. 65), e posteriormente pelas
regras previstas pelo Código Penal de Timor Leste (art. 36).
Pelo Código Penal Indonésio, de acordo com a regra geral da soma
material das penas concretas, deveriam os arguidos Amaro da Costa,
Domingos do Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos,
Marcelo Caetano, Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay
Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes ser
condenados na pena única de trinta anos de prisão. Porém, uma vez que
esse valor ultrapassa o da pena concretamente aplicada mais elevada,
acrescido de um terço, devem os arguidos ser condenados na pena de
dezasseis anos.
Por via da mesma regra, deveriam os arguidos Avelino da Costa,
Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia
Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião
António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa
Ventura e Francisco Ximenes Alves ser condenados na pena única de vinte
e dois anos. Porém, como tal valor ultrapassa o da pena concreta mais
alta acrescido de um terço desse valor, vão tais arguidos condenados na
pena única de nove anos e quatro meses de prisão.
Já o arguido Gastão Salsinha, a soma material das suas penas
ascende a vinte e três anos e seis meses de prisão, pelo que, sendo a sua
pena concreta mais elevada de oito anos, vai condenado na pena única de
dez anos e oito meses de prisão.

Face às regras de cúmulo de penas previstas pelo Código Penal


Timorense, os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral, Gilson José
António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano, Gilberto Suni Mota,
Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares

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e Caetano dos Santos Ximenes deverão ser condenados numa pena


determinada entre os 12 anos (pena concreta mais elevada) e os 30 anos
de prisão (limite máximo da pena cumulada – art. 36, n.2), considerando o
Tribunal adequada a fixação dessa pena única nos dezoito anos de prisão.
Pelas mesmas regras, os arguidos Avelino da Costa, Bernardo da
Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio
Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião António
Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da Costa Ventura e
Francisco Ximenes Alves deverão ser condenados numa pena
determinada entre os sete anos (pena concreta mais elevada) e os vinte
anos (soma das penas concretas aplicadas), considerando-se adequada a
fixação dessa pena única nos onze anos de prisão.
Quanto ao arguido Gastão Salsinha,deverá o mesmo ser condenado
numa pena determinada entre os oito anos (pena concreta mais elevada)
e os vinte e três anos e seis meses (soma de todas as penas concretas),
considerando-se adequada a fixação dessa pena única nos treze anos de
prisão.
Verifica-se pois que, também no cúmulo jurídico, é mais favorável
aos arguidos o regime punitivo previsto pelo Código Penal Indonésio do
que o previsto pelo Código Penal de Timor Leste, razão pela qual vão as
penas impostas aos arguidos cumuladas segundo a regra jurídica prevista
por aquele Código.

Indemnização

Nos termos do disposto no art. 72 do Código de Processo Penal,


conjugado com o disposto, nomeadamente no art. 278, pode o Tribunal,
oficiosamente, determinar uma indemnização aos lesados da prática de
determinado crime.

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TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

No entanto, face à falta de elementos que permitam a sua fixação


justa, entende o Tribunal não conhecer tal matéria, sem prejuízo dos
lesados poderem deduzir o pedido em separado, recorrendo aos meios
comuns.

Medidas de Coacção

Todos os arguidos, com excepção de Angelita Pires, Tito Tilman,


Alfredo de Andrade e João Amaral encontram-se em prisão preventiva,
imposta à ordem do presente processo.
Da fundamentação dos despachos mencionados consta a menção à
existência de fortes indícios da prática, pelos arguidos dos crimes pelos
quais vieram agora a ser condenados.
Concluem tais despachos pela existência de perigo de fuga,
perturbação da ordem pública, e perigo de perturbação da investigação,
face às previsíveis penas que venham a ser aplicadas aos arguidos, à
gravidade dos factos e à circunstância das testemunhas poderem vir a ser
intimidadas ou sujeitas a acções de retaliação.
Considerando-se então que nenhuma das outras medidas de
coacção se mostravam adequadas e suficientes à prevenção de tais
perigos, foi por isso imposta aos arguidos a medida de prisão preventiva.
A situação processual dos arguidos foi sendo sucessivamente
revista nos termos do art. 196 do CPP, decidindo-se sempre pela
manutenção da prisão preventiva.
Realizada a audiência de julgamento e elaborado o presente
acordão, decidiu o Tribunal Colectivo condenar os arguidos em penas de
dezasseis anos, nove anos e quatro meses e dez anos e oito meses de
prisão pela prática de vários dos crimes pelos quais vinham acusados,
absolvendo-os da prática de alguns dos que lhes eram imputados na
acusação.

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TRIBUNAL DISTRITAL DE DILI

Cumpre pois apreciar a situação dos agora condenados no que


concerne a medidas de coacção, conforme estipula o art. 282 do CPP.
Os indícios da prática de crimes puníveis com penas superiores a
três anos mostram-se agora mais fortes, considerando que o Tribunal, a
partir da prova produzida em audiência, formou a sua convicção no
sentido dos arguidos terem praticado os crimes pelos quais vieram a ser
condenados;
As penas que aos arguidos foram impostas são consideravelmente
elevadas;
O evidenciado perigo de fuga decorrente da possibilidade de
poderem vir a ser aplicadas penas elevadas é agora mais concreto, face
às penas estabelecidas após o julgamento. Tal perigo, no presente
momento, não é susceptível de ser acautelado pela aplicação de qualquer
outra medida de coacção menos gravosa.
Em face do exposto, nos termos dos artigos 183, 194, n.1, 195, n.1,
alínea a), todos do CPP, entende o Tribunal que se justifica plenamente a
manutenção da prisão preventiva até ao trânsito em julgado da decisão
condenatória proferida.

4. DISPOSITIVO

Em face de todo o exposto, o Tribunal Colectivo delibera:

1. Declarar extinta a responsabilidade criminal do arguido


Gastão Salsinha pelo crime de Conspiração em Atentado Contra o
Presidente da República, anteriormente p. e p. pelos art. 110, 88 e 104
do Código Penal Indonésio, por descriminalização da conduta – art. 3, n.1
e 118 do Código Penal de Timor Leste.

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2. Absolver o arguido Tito Tilman da prática de todos os crimes


que lhe são imputados na acusação (sete crimes de homicídio tentado, p.
e p. pelos art.º 53 e 338 do Código Penal; dois crimes de dano; p. e p. pelo
art.º 406 do Código Penal; um crime uso de armas de fogo para
perturbação da ordem pública, p. e p. pelo art.º 4º nº 4.7 do Regulamento
da UNTAET n. 5/2001).

3. Absolver o arguido Alfredo de Andrade da prática de todos os


crimes que lhe são imputados na acusação (sete crimes de homicídio
tentado, p. e p. pelos art.º 53 e 338 do Código Penal; dois crimes de dano;
p. e p. pelo art.º 406 do Código Penal; um crime uso de armas de fogo
para perturbação da ordem pública, p. e p. pelo art.º 4º nº 4.7 do
Regulamento da UNTAET n. 5/2001).

4. Absolver o arguido João Amaral da prática de todos os crimes


que lhe são imputados na acusação (sete crimes de homicídio tentado, p.
e p. pelos art.º 53 e 338 do Código Penal; dois crimes de dano; p. e p. pelo
art.º 406 do Código Penal; um crime uso de armas de fogo para
perturbação da ordem pública, p. e p. pelo art.º 4º nº 4.7 do Regulamento
da UNTAET n. 5/2001).

5. Absolver a arguida Angelita Maria Francisca Pires da prática de


todos os crimes que lhe são imputados na acusação (autoria mediata de
um crime de atentado contra a vida do Presidente da República, p. e p.
pelo art.º 104º do Código Penal; dezanove crimes de homicídio tentado p.
e p. pelos art.º 53º e 338º do Código Penal; três crimes de dano p. e p.
pelo art.º 406º do Código Penal).

6. Absolver os arguidos Amaro da Costa, Domingos do


Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo
Caetano, Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay

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Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos


Ximenes da prática de um crime de dano p. e p. pelo art. 406 do
Código Penal, tendo por objecto o veículo das F-FDTL conduzido por
Celestino Gama.

7. Absolver os arguidos Amaro da Costa, Domingos do


Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo
Caetano, Gilberto Sunimota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay
Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos
Ximenes da prática de um crime de roubo p. e p. pelo art. 365, n.2,
parágrafo segundo do Código Penal.

8. Absolver os arguidos Amaro da Costa, Domingos do


Amaral, Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo
Caetano, Gilberto Sunimota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay
Carvalho, Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos
Ximenes da prática de oito crimes de homicídio, na forma tentada,
p. e p. pelo art. 338 e 53 do Código Penal (tendo por vítimas Celestino
Gama, Isaque da Silva, Pedro Joaquim Soares, Adelino da Silva, João
Soares, José Luis da Costa Pereira, Agostinho de Freitas e Filomeno
Ximenes).

9. Absolver os arguidos Gastão Salsinha, Avelino da Costa,


Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo
Maia Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito
Madeira, Julião António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da
Silva, José da Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves da prática
de quatro crimes de homicídio, na forma tentada, p. e p. pelo art.
338 e 53 do Código Penal (tendo por vítimas Johnny Barbosa, José Maria
Barreto Soares, Komsan Tookokgruado e Alongkorn Kalayanasoontor).

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10. Absolver os arguidos Gastão Salsinha, Avelino da Costa,


Bernardo da Costa, Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo
Maia Barreto, Júlio Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito
Madeira, Julião António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da
Silva, José da Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves da prática
de um crime de dano p. e p. pelo art. 406 do Código Penal (tendo por
objecto o veículo automóvel com a matrícula SEC 1).

11. Condenar os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral,


Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano,
Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho,
Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes pela
prática, em co-autoria, de um crime de atentado contra a vida do
Presidente da República, p. e p. pelo art.º 104º do Código Penal
Indonésio, na pena de doze anos de prisão.

12. Condenar os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral,


Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano,
Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho,
Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes pela
prática, em co-autoria, de quatro crimes de homicídio, na forma
tentada, (tendo por vítimas Domingos Pereira, Albino de Assis, José Pinto
Freitas e Francisco Lino Marçal), p. e p. pelos artigos 338 e 53 do Código
Penal Indonésio, na pena de quatro anos de prisão para cada um dos
crimes.

13. Condenar os arguidos Amaro da Costa, Domingos do Amaral,


Gilson José António da Silva, Paulo Neno Leos, Marcelo Caetano,
Gilberto Suni Mota, Joanino Maria Guterres, Egidio Lay Carvalho,
Ismael Sansão Moniz Soares e Caetano dos Santos Ximenes pela
prática, em autoria singular, de um crime de uso de arma proibida, p.

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e p. pelo art. 211, n. 3 do Código Penal de Timor Leste, na pena de dois


anos de prisão.

14. Condenar os arguidos Avelino da Costa, Bernardo da Costa,


Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio
Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião
António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da
Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves, pela prática, em co-
autoria, de um crime de homicídio, na forma tentada, (tendo por
vítima Kay Rala Xanana Gusmão), p. e p. pelos art. 338 e 53 do Código
Penal Indonésio, na pena de sete anos de prisão.

15. Condenar os arguidos Avelino da Costa, Bernardo da Costa,


Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio
Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião
António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da
Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves, pela prática, em co-
autoria, de dois crimes de homicídio, na forma tentada, (tendo por
vítimas Bobby Agapito Gonçalves e Adolfo Soares dos Santos), p. e p.
pelos art. 338 e 53 do Código Penal Indonésio, na pena de cinco anos de
prisão, para cada um dos crimes.

16. Condenar os arguidos Avelino da Costa, Bernardo da Costa,


Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio
Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião
António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da
Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves, pela prática, em co-
autoria, de um crime de dano (tendo por objecto o veículo automóvel
com a matrícula PM 1), p. e p. pelo art. 406 do Código Penal Indonésio, na
pena de um ano de prisão.

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17. Condenar os arguidos Avelino da Costa, Bernardo da Costa,


Alexandre de Araújo, Januário Babo, Raimundo Maia Barreto, Júlio
Soares Guterres, Gaspar Lopes, José Agapito Madeira, Julião
António Soares, Quintino Espirito Santo, Adolfo da Silva, José da
Costa Ventura e Francisco Ximenes Alves, pela prática, em autoria
singular, de um crime de uso de arma proibida, p. e p. pelo art. 211, n.
3 do Código Penal de Timor Leste, na pena de dois anos de prisão.

18. Condenar o arguido Gastão Salsinha, pela prática, em co-autoria,


de um crime de homicídio, na forma tentada, (tendo por vítima Kay
Rala Xanana Gusmão), p. e p. pelos art. 338 e 53 do Código Penal
Indonésio, na pena de oito anos de prisão.

19. Condenar o arguido Gastão Salsinha, pela prática, em co-autoria,


de dois crimes de homicídio, na forma tentada, (tendo por vítimas
Bobby Agapito Gonçalves e Adolfo Soares dos Santos), p. e p. pelos art.
338 e 53 do Código Penal Indonésio, na pena de seis anos de prisão,
para cada um dos crimes.

20. Condenar o arguido Gastão Salsinha, pela prática, em co-autoria,


de um crime de dano (tendo por objecto o veículo automóvel com a
matrícula PM 1), p. e p. pelo art. 406 do Código Penal Indonésio, na pena
de um ano e seis meses de prisão.

21. Condenar o arguido Gastão Salsinha, pela prática, em autoria


singular, de um crime de uso de arma proibida, p. e p. pelo art. 211, n.
3 do Código Penal de Timor Leste, na pena de dois anos de prisão.

22. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Gastão Salsinha condenado na


pena única de dez anos e oito meses de prisão.

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23. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Amaro da Costa condenado na


pena única de dezasseis anos de prisão.

24. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Domingos do Amaral


condenado na pena única de dezasseis anos de prisão.

25. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Gilson José António da Silva


condenado na pena única de dezasseis anos de prisão.

26. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Paulo Neno Leos condenado na


pena única de dezasseis anos de prisão.

27. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Marcelo Caetano condenado na


pena única de dezasseis anos de prisão.

28. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Gilberto Suni Mota condenado


na pena única de dezasseis anos de prisão.

29. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Joanino Maria Guterres


condenado na pena única de dezasseis anos de prisão.

30. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Egídio Lay de Carvalho


condenado na pena única de dezasseis anos de prisão.

31. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Ismael Sansão Moniz Soares


condenado na pena única de dezasseis anos de prisão.

32. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Caetano dos Santos Ximenes


condenado na pena única de dezasseis anos de prisão.

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33. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Avelino da Costa condenado na


pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

34. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Bernardo da Costa condenado


na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

35. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Alexandre de Araújo condenado


na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

36. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Januário Babo condenado na


pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

37. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Raimundo Maia Barreto


condenado na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

38. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Júlio Soares Guterres


condenado na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

39. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Gaspar Lopes condenado na


pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

40. Em cúmulo jurídico, vai o arguido José Agapito Madeira


condenado na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

41. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Julião António Soares


condenado na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

42. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Quintino Espírito Santo


condenado na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

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43. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Adolfo da Silva condenado na


pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

44. Em cúmulo jurídico, vai o arguido José da Costa Ventura


condenado na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

45. Em cúmulo jurídico, vai o arguido Francisco Ximenes Alves


condenado na pena única de nove anos e quatro meses de prisão.

46. Declarar perdidos a favor do Estado todos os objectos


apreendidos aos arguidos, determinado-se a entrega das armas às
respectivas instituições de proveniência, e a destruição de todos os
objectos que não possuam qualquer valor utilitário ou comercial.

47. Declarar extintas as medidas de coacção de obrigação de


permanência na habitação impostas aos arguidos Tito Tilman e João
Amaral, bem como a de proibição de ausência para o estrangeiro importa
à arguida Angelita Maria Francisca Pires, nos termos do disposto no
art. 203, n.1, alínea c) do Código de Processo Penal.

48. Determinar que os restantes arguidos continuem a aguardar o


trânsito em julgado da presente decisão sujeitos à medida de prisão
preventiva em que se encontram.

Face à situação económica dos arguidos condenados, os quais se


encontram reclusos há já dois anos, não se condena nenhum deles no
pagamento das custas processuais – art. 358, n.1 do Código de Processo
Penal.

Remeta-se boletins ao Registo Criminal – art. 96, alínea a) do


Código de Processo Penal.

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Deposite.

Dili, 3 de Março de 2010

___________________________

(Constâncio Basmery)

___________________________

(Antonino Gonçalves)

____________________________

(Deolindo dos Santos)

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