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Id. em Dest., Rio de Janeiro, n. 20, p. 96, jan./abr.

2006

Edição

Divisão de Estudos e Pesquisa

Editor Responsável

Manuel Cambeses Júnior

Projeto Gráfico

Mauro Bomfim Espíndola
Wânia Branco Viana
Jailson Carlos Fernandes Alvim
Abdias Barreto da Silva Neto

Revisão de Textos

Dirce Silva Brízida

Ficha Catalográfica elaborada pela
Biblioteca do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica

Idéias em Destaque / Instituto Histórico-Cultural da
Aeronáutica. – n.1, 1989 –
v. – Quadrimestral.

Editada pela Vice-Direção do INCAER até 2000.
Irregular: 1991–2004.
1. Aeronáutica – Periódico (Brasil). I. Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. II. INCAER.
CDU 354.73 (05) (81)

Apresentação
A Direção do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica
(INCAER) tem a grata satisfação de apresentar aos seus leitores o
exemplar de número 20 da revista Idéias em Destaque.
Como sói ocorrer, nesta edição, concernente ao primeiro
quadrimestre do corrente ano, apresentamos doze trabalhos da lavra
de prestigiosos e contumazes colaboradores deste periódico,
procurando contemplar uma ampla gama de assuntos que julgamos
ser importante ressaltar, de modo a tornar a revista Idéias em
Destaque assaz atraente e de agradável leitura.
Faz-se mister enfatizar que estamos receptivos àqueles que
desejarem colaborar com a nossa revista nos remetendo artigos de
interesse de nossos leitores.
Desta maneira, acreditamos estar contribuindo, sobremaneira,
para a divulgação de nossos vultos históricos, no registro de fatos
significativos da Aeronáutica brasileira, de Geopolítica, do
pensamento estratégico nacional e, acima de tudo, de cultura geral.
Tenente-Brigadeiro-do-Ar Ref. Octávio Júlio Moreira Lima
Diretor do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica

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..72 Manuel Cambeses Júnior 9... A Dinâmica do Processo Civilizatório............ Reflexos Lentos................91 Milton Mauro Mallet Aleixo ......86 Sergio Xavier Ferolla 12.... Mentalidade de Defesa no Brasil ...........82 Ivan Fialho 11.. 2006 Sumário 1............................42 Marcelo Hecksher 6.79 Araken Hipólito da Costa 10.................................. O Marechal-do-Ar Armando F..............49 Celso Paulino da Silva 7................................... A Religião na Modernidade: Algumas Funções Históricas e Sócio-Políticas............................................. Coréia Unificada e Brasil no Século XXI: A Ordem Multipolar........7 Marcos Henrique Camillo Côrtes 2....................../abr............................16 Carlos de Meira Mattos 3.... O Renascimento ................... China: Política e Religião................................. Trompowsky de Almeida............59 José Augusto Abreu de Moura 8.......................... As Violações “Invisíveis” das Fronteiras: Proposta Inovadora para a Tipologia de Fronteiras........37 Severino Cabral 5...................................................Nº 20 jan.................................................................. Novas Teorias do Poder Mundial ...............19 Edson de Castro Homem 4........................................................................... porém Descoordenados ............... O Fomento da Indústria de Defesa como Fator de Preparo da Mobilização Nacional ............ A Evolução do Poder Aéreo entre as duas Guerras Mundiais..................................................... Consolidador do Ministério da Aeronáutica ......

. Rio de Janeiro.Marcos Henrique Camillo Côrtes 6 Id. (20) : 7-15./abr. jan. em Dest. 2006 .

Por isso. geográficos e jurídicos. 2006 7 . à incolumidade do território nacional. o Brasil contou. as características do relacionamento internacional.Marcos Henrique Camillo Côrtes As Violações “Invisíveis” das Fronteiras: Proposta Inovadora para a Tipologia de Fronteiras Marcos Henrique Camillo Côrtes Os estudos sobre fronteira nacional. por meio de negociações diplomáticas ou arbitragem internacional. concretas ou em potencial. desfrutar da tranqüilidade de saber que o País não tem problema algum de fronteira. tenhamos tido. As várias definições da mesma podem ser resumidas na concepção de FRONTEIRA JURÍDICA. em Dest. ao chegar ao ano de 1910. continuamos tendo e poderemos sempre ter problemas na fronteira. Graças à atuação continuada do nosso serviço diplomático e. É também a partir da mesma definição que se elaboram os planejamentos de ação governamental para fins de desenvolvimento ou de emprego de elementos de segurança. muito especialmente./abr. entretanto. não elimina o fato de que. sem jamais recorrer ao uso da força. desde então. Entretanto. tratam dos seus aspectos históricos. após o fim da Guerra Fria. Essa definição tradicional é perfeitamente correta e serve de fundamento. além da dos órgãos policiais e aduaneiros especificamente incumbidos dessas tarefas. os brasileiros puderam. Isso.. jan. por exemplo. o Brasil tinha todas as suas questões de fronteira resolvidas pacificamente. Para evitar ou neutralizar ameaças e/ou violações de nossas fronteiras. (20) : 7-15. à extraordinária e devotada competência do Barão do Rio Branco. que é o limite legal entre as jurisdições soberanas de dois Estados. historicamente. para as preocupações com que muitos brasileiros analisam as ameaças. estimularam modos mais agressivos de comportamento. Rio de Janeiro. por diferentes causas e em diferentes momentos. com a vigilância e a capacidade profissional do Itamaraty e das Forças Armadas. seja nos bancos de escola seja no âmbito universitário. sobretudo por parte da superpotência Id.

2002. na verdade. ou seja. 792. no.. especialmente no que se refere ao uso do espaço aéreo. por exemplo. Aérea – também regida por normas internacionais. Rio de Janeiro.1 De tudo isso surge a necessidade premente de que se passe a considerar. até agora pouco apreciada. a variedade de categorias é maior e. As conseqüências da Terceira Revolução Industrial e o processo denominado Globalização aumentaram exponencialmente o hiato de poder entre esses três Centros de Poder Econômico (CPEs) e os demais países. em Dest. as fronteiras podem ser agrupadas em três categorias: 1. fluvial ou lacustre. em termos jurídicos. (20) : 7-15. Marítima e Oceânica – atualmente regidas pelas normas da Convenção das Nações Unidas sobre Direito do Mar. na “A Defesa Nacional”. seja considerado internacionalizado. as pragas do narcotráfico e do terrorismo internacional criaram novos riscos e ameaças. 2006 . Na concepção jurídica. embora o espaço sideral. Trata-se da FRONTEIRA METAFÍSICA./fev. confirmou a vigência ominosa do que se tem chamado de Pós-Modernismo Militar. demonstrada de maneira espetacular no ataque ao Iraque. outro tipo de fronteira./abr.Marcos Henrique Camillo Côrtes (Estados Unidos) e das duas megapotências (União Européia e Japão). popularmente conhecida como Convenção da Jamaica. Terrestre – que pode ser seca. com muito maior intensidade. por exemplo. Assim. 8 Id. 2. de jan. sobejamente conhecida./mar. Já na concepção metafísica. Um exemplo dessa fronteira (metafísica) espacial é a aplicação unilateral de 1 Sobre a Revolução em Assuntos Militares e o Pós-Modernismo Militares há vários textos publicados pelo autor. Além disso. que defino como a linha de defrontação entre interesses de dois (ou mais) Estados. como. destituído de fronteiras nacionais. e cuja definição e caracterização obedecem a critérios determinados pelo Direito Internacional Público. deve-se considerar uma fronteira (metafísica) espacial./abr. 3. Finalmente. jan. a adoção de conceitos emanados da chamada Revolução em Assuntos Militares (RAM). desfechado pelos EUA em março/abril de 2003. convém deixar sua listagem em aberto.

essa “visibilidade” exista em função de alguma convenção (por exemplo.Marcos Henrique Camillo Côrtes restrições ao acesso a tecnologias de mísseis.) ou a adoção de medidas executivas. um deles consegue impor a aceitação de atos internacionais (adesão a tratados. As ações de violação de uma fronteira jurídica são detectáveis./abr. é a que denomino fronteira institucional. em determinados casos. porém. em Dest. jan. Elas são visíveis. existe uma fronteira cibernética. É útil ressaltar que esse tipo de ação pode ter longo tempo de preparação “invisível”. Quando não chegam a ser previamente detectadas. Além disso. inclusive acordos e tratados bilaterais. uma linha geodésica). que visa a causar grandes danos ao adversário empregando exclusivamente meios informatizados para atacar sistemas informatizados do mesmo. coação ou indução ilegítima ou ilegal – com origem em outro Estado – são celebrados acordos internacionais. A mais importante das fronteiras metafísicas. evidenciada sobretudo com o surgimento da Ação Bélica Informatizada (ABI) e da Ação Bélica Estratégica Informatizada (ABEI)2. Analogamente. em função de defrontação de interesses de dois Estados. Vejamos as principais: – As fronteiras jurídicas são regidas por normas do Direito Internacional Público e por Atos Internacionais. as violações e seus resultados são fisicamente perceptíveis. 2 Ação Bélica Informatizada (ABI) – um dos novos recursos que compõem o arsenal de forças armadas pós-modernas. Rio de Janeiro. Ação Bélica Estratégica Informatizada (ABEI) – nova modalidade de agressão. na tipificação metafísica.. com a enorme importância da Internet. às vezes até mesmo antes de se efetivar a violação. ainda que. Id. (20) : 7-15. como ocorre com o Regime de Controle da Tecnologia de Mísseis (RCTM). por qualquer tipo de pressão. Os dois tipos de fronteiras apresentam características bastante diferentes. como ocorre com o recrutamento e emprego de “agentes de influência”. são adotadas normas legais e/ou regulamentares e são tomadas decisões executivas e/ou judiciais em detrimento dos interesses nacionais. legislativas ou judiciárias nocivas ao interesse nacional do Estado mais fraco. celebração de acordos etc. aí aumentam os interesses com potencial para gerar confrontações. De forma mais abrangente. Ela se configura quando. pode-se definir a fronteira institucional como aquela em que. 2006 9 .

a elas não se aplicam as normas consagradas pelo Direito Internacional. A natureza dos problemas que se configuraram ou podem vir a surgir nas nossas fronteiras decorre das formas existentes ou previsíveis das ameaças à soberania ou aos interesses nacionais do Brasil. Em primeiro lugar. A fim de esclarecer ainda mais a distinção entre as fronteiras jurídicas e as metafísicas. (20) : 7-15. O “agressor” age de forma sigilosa ou sub-reptícia. as ações do “agressor” são empreendidas em sigilo. revestem-se de algumas peculiaridades. Em segundo.. De modo a facilitar 10 Id. consideremos a situação do Brasil na conjuntura internacional. elas não só são invisíveis. as características descritas acima: Fronteiras jurídicas: Fronteiras metafísicas: Regidas por normas do Direito Internacional Público. Não sujeitas a normas internacionais específicas. acordos e tratados bilaterais. O “agredido” não percebe a violação ou só a discerne após o fato consumado. Atos Internacionais. Ações detectáveis. no quadro abaixo. Rio de Janeiro. sintetizo. porém. Por último. Visíveis (ainda que por convenção)./abr. Violações fisicamente perceptíveis. de detecção difícil ou até impossível. como geralmente são de detecção difícil ou mesmo impossível. em Dest. Invisíveis. e o “agredido” geralmente só percebe os resultados da violação quando estes já estão consumados. 2006 . que regem as fronteiras na concepção jurídica. tomando os últimos quinze anos como moldura cronológica. às vezes antes mesmo de efetivar-se a violação. Para entendimento prático dos diversos tipos de fronteira.Marcos Henrique Camillo Côrtes – As fronteiras metafísicas. jan.

adotei a relação abaixo para definir a natureza dos principais problemas na fronteira do Brasil: 1. não parece haver qualquer ameaça militar iminente. utilizando tecnologia desenvolvida pela Marinha do Brasil. como ocorre com as pressões dos EUA. o princípio de pacta sunt servanda (os tratados têm de ser respeitados) e. De fato. não se podem ignorar certas ameaças militares em potencial. diretamente e através da AIEA. na sua Usina de Enriquecimento em Resende (RJ). com a pretensão da Bolívia de recuperar (do Chile) sua saída para o mar. diversas perdas. Reivindicação “jurídica” Como o Brasil adota. 2. 4. ainda que indiretamente. porém é preciso relativizar tal inexistência. por tratados. jan. Como exemplificarei adiante. 2006 11 . nesse tipo de fronteira o Brasil sofreu. qualquer reivindicação desse tipo. conjugadamente. anunciada oficialmente pelo Governo norte-americano em 2002. no momento atual. Entretanto. é inadmitida e inadmissível. como ocorre. Rio de Janeiro. como todas as nossas fronteiras estão (desde 1910) fixadas juridicamente. por exemplo. de maneira inflexível. Pressões para adoção de legislação interna ou assinatura de acordos lesivos ao interesse nacional Estamos aqui diante de um dos tipos de fronteira metafísica. conjugado com a implementação./abr. (20) : 7-15. em controvérsia desse tipo. sobretudo caso se considere. nos últimos quinze anos.. a instabilidade em alguns dos países vizinhos e a vigência da Diretriz de Ação Preventiva. Id. inclusive com supervisão da AIEA. em Dest.Marcos Henrique Camillo Côrtes o estudo. Cabe sublinhar que essa atividade está sendo conduzida em estrito cumprimento das obrigações internacionais do Brasil. Ameaça militar Pode-se considerar essa ameaça como inexistente. O Brasil precisa sempre se manter atento para evitar ser envolvido. É importante sublinhar que o unilateralismo que vem sendo evidenciado por Washington. por qualquer vizinho. 3. Implicações de reivindicação entre terceiros Alguns dos nossos vizinhos ainda têm controvérsias sobre fronteiras em aberto. a institucional. para sustar a produção de urânio enriquecido pela empresa Indústrias Nucleares Brasileiras (INB). Existem ainda vários riscos de novas violações.

ainda que subsidiária. as quais já foram protagonistas. de violações da soberania brasileira. Finalmente. monitorados de modo a 12 Id. não se pode ignorar a ameaça que ele representa para os interesses nacionais. Outro tipo de ameaça armada decorre das atividades do tráfico internacional de drogas.Marcos Henrique Camillo Côrtes pelas forças armadas norte-americanas. (20) : 7-15. acarretar certo desvirtuamento das responsabilidades constitucionais das mesmas. 6. Rio de Janeiro. 8. das concepções da Revolução em Assuntos Militares (RAM). Atividades ilícitas Elas abrangem o contrabando.. a fim de equacionar eventuais desdobramentos perigosos. porém. essa porosidade nos é favorável. “transbordar” para o território brasileiro./abr. por diferentes motivos. assim. Porosidade decorrente de intensa atividade econômica De forma geral. 2006 . por exemplo. jan. 5. Ameaça armada Em alguns dos países vizinhos. 7. acentua intensamente a diretriz política de intervir onde quer que possa ser identificada ou presumida uma ameaça a interesses dos EUA. das Forças Armadas brasileiras. embora o Brasil não esteja incluído entre os alvos prioritários do terrorismo internacional. Impõe-se aqui o cuidado para evitar que esse envolvimento possa se ampliar e. Embora sua repressão seja atribuição precípua dos órgãos policiais. Assim ocorre. acompanhamento diuturno dessa “expansão” natural e não planejada. em Dest. É preciso. Exemplo desse risco é o crescimento continuado do contingente de emigrantes brasileiros no Paraguai. na enorme faixa do território brasileiro junto do sul da Guiana e do Suriname. “Vazios” Ainda existem algumas áreas de fronteira em que a ocupação se mostra muito rarefeita. direta ou indiretamente. O caso mais notório é a atuação das FARC na Colômbia. cabendo aqui destacar as medidas para controle e repressão no âmbito do SIVAM. a dimensão que muitas delas tenha assumido pode requerer a participação. Esses “vazios” precisam ser. pelo menos. onde são conhecidos como “brasiguaios”. pela dinâmica própria da economia e da demografia brasileiras. movimentos subversivos podem. a “pirataria” e a imigração ilegal.

Em 1808. de onde suas tropas só saíram em 1817. a Guiana Francesa pode vir a ser utilizada como instrumento por aqueles que pretendem a “internacionalização” da Amazônia brasileira. D. bem como de conhecidas ONGs. Em 1727. Em 1942-1943. o Brasil esteve envolvido com a Guiana Francesa de maneira episódica. Finalmente. já com a Corte instalada no Rio de Janeiro. faz com que a mais extensa fronteira terrestre da França seja com o Brasil. que ficariam sujeitos a certas regras coletivas Id. Washington tentou. Por outro lado. jan./abr. Jânio Quadros teria ordenado aos Ministros militares o planejamento da invasão da Guiana Francesa. a incúria das autoridades brasileiras ao estabelecer imensas áreas de proteção ambiental e de reservas indígenas em faixas de fronteira cria verdadeiros “vazios” do poder do Estado. sem êxito. Rio de Janeiro. porém. árbitro da chamada Questão do Amapá. o político socialista francês Pascal Lamy defendeu a tese de que as florestas tropicais devem ser tratadas como “bens públicos mundiais”. em 25 de agosto do mesmo ano. que era reivindicada pela França. Francisco de Melo Palheta conseguiu trazer para Belém as primeiras mudas de café.. pouco depois de ter assumido a Presidência da República. quando a colônia foi devolvida à monarquia francesa restaurada. graças à brilhante defesa conduzida pelo Barão do Rio Branco. São notórios os pronunciamentos de autoridades e pseudocientistas de outros países. (20) : 7-15. 2006 13 . o Presidente da Suíça. O assunto teria sido discretamente “esquecido” e superado com a surpreendente renúncia do Presidente. último remanescente do colonialismo europeu na América do Sul e que. numa conferência para diplomatas e especialistas na sede da ONU. João VI ordenou a ocupação da Guiana Francesa. curiosamente. Na atual conjuntura. no sentido de se proclamar a Amazônia como “patrimônio da Humanidade”. persuadir o Governo brasileiro a invadir e ocupar a Guiana Francesa em vez de enviar tropas para lutar na Itália. em Dest. Em 25 de fevereiro de 2005. reconheceu nossos direitos sobre a região compreendida entre os rios Oiapoque e Araguari. em 1961. gerando perigosas vulnerabilidades para a segurança e a soberania do Brasil. Uma problemática que requer estudo amplo e equacionamento multifacético é o “enclave” representado pela Guiana Francesa.Marcos Henrique Camillo Côrtes impedir a sua utilização criminosa por narcotraficantes. cumprindo dupla missão em Caiena. Historicamente. uma diplomática e outra secreta. Em 1900.

2.. É importante destacar que. Analogamente.Marcos Henrique Camillo Côrtes de gestão internacional./abr. 2006 . o Governo brasileiro aderiu (em 1997/1998) ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). de onde poderá continuar atuando para promover tal proposta. a servir de “modelo” para o resto da floresta amazônica. a pista de pouso em Iauaretê (a fim de lançar operação militar urgente para retomar a capital provincial de Mitu. a feição jurídica pode encobrir a real natureza metafísica da fronteira. Entretanto. violações da nossa soberania em termos jurídicos. ocupada pelas FARC). jan. sem dúvida. Vejamos alguns exemplos: 1. Nesses dois casos ocorreram. essa adesão significou gravíssima perda na fronteira (metafísica) institucional. de comum acordo com os EUA e os membros da União Européia. com perdas de numerosas vidas. a assinatura (pelo então Ministro de Ciência e Tecnologia. Anos depois. Portanto. sem autorização do Governo brasileiro. pela tibieza com que se portaram autoridades brasileiras no mais alto nível do Governo Federal. Na nossa fronteira com a Colômbia houve dois casos de violações da fronteira (jurídica) terrestre e aérea. poderia tomar a iniciativa de. às vezes. O TNP contém dispositivos que o tornam uma verdadeira imposição da desigualdade jurídica dos Estados e que violam de modo irretorquível a soberania nacional. excetuando a pequena área em torno de Caiena e da base espacial de Kourou. Por ordem direta do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Embaixador Ronaldo 14 Id. Na região do Traíra. em território brasileiro. Ora. elementos das FARC atacaram. em Dest. muito mais grave foi a violação da fronteira (metafísica) institucional. em maio de 2005. as Forças Armadas colombianas utilizaram. um governo francês. Rio de Janeiro. Aliás. efetivos do Exército Brasileiro. proclamar o território da Guiana Francesa como “bem público mundial”. Essa identificação é necessária para que se possam equacionar corretamente as verdadeiras vulnerabilidades e/ou violações e se adotem as medidas pertinentes. (20) : 7-15. contrariando décadas de resistência amplamente fundamentada às pressões dos Estados Unidos. claramente nociva aos interesses brasileiros. Lamy foi eleito Diretor-Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). deixando de lado a questão da propriedade.

A operação visava conseguir a libertação de uma senadora colombiana (que também tem nacionalidade francesa) seqüestrada pelas FARC. 3. 4. já que esse acordo continha cláusulas inaceitáveis. é fácil entender o imenso risco que isso significa para a segurança nacional. pela qual se destina território equivalente ao Estado de Sergipe a cerca de 14 mil índios. O autor é Embaixador de Carreira. em especial a fronteira institucional. Em 2003. configurada pela maneira hesitante e incompetente com que o Governo federal se portou no episódio. 2006 15 . Entretanto. Como essa “reserva” corresponde a um enorme trecho ao longo das nossas fronteiras com a Guiana e a Venezuela. Rio de Janeiro. transportando militares e agentes de inteligência e segurança. muito pior foi a violação da fronteira (metafísica) institucional. pelos norte-americanos. mais do que nunca. Contudo. do Centro de Lançamento de Alcântara foi outra perda na fronteira (metafísica) institucional.Marcos Henrique Camillo Côrtes Sardenberg. em área contínua. violação da fronteira (jurídica) aérea e terrestre. sua homologação foi sustada no Congresso Nacional. pousou no Aeroporto de Manaus sem a devida autorização prévia. impõe-se difundir o conhecimento e o estudo das ameaças que incidem sobre nossas fronteiras metafísicas. graças a oportunas gestões de brasileiros patriotas. aposentado a pedido./abr. em 21 de janeiro de 2005 Id.. por violarem a soberania e a dignidade nacionais. hoje chefe da Missão na ONU) de um Acordo para o uso. uma aeronave militar francesa. mas constituiu. cuja localização. obviamente. Felizmente. Isso não quer dizer que possamos continuar descurando da capacitação de nosso Serviço Diplomático e de nossas Forças Armadas para a defesa permanente e eficaz de nossas fronteiras jurídicas. O incidente jamais foi devidamente esclarecido. (20) : 7-15. em Dest. inegavelmente. jan. impedir novas perdas e recuperar o que já se perdeu nesse passado recente. Só assim poderemos. nos últimos quinze anos. Esses e muitos outros fatos levam à conclusão de que. da chamada Reserva de Raposa/Serra do Sol. Atualmente. está por se concretizar a intolerável demarcação. em mais uma perda na fronteira (metafísica) institucional. a maior vulnerabilidade do Brasil tem estado e continua estando na fronteira institucional (metafísica). nós brasileiros. está em Brasília.

Rio de Janeiro. Essas três teorias influíram na mente e nas decisões de importantes chefes de governo do passado. Novas teorias do poder mundial vêm ocupando o cenário internacional após a desagregação da União Soviética. assegurando-lhe a capacidade de livre navegação por todas as partes do planeta. do Almirante Alfred T. em Dest. Guilherme II. assim como a da antiga União Soviética. centro da massa continental euro-asiática. dominará o mundo. refletiram as teorias de Mackinder. A estratégia da política de poder da Alemanha no tempo do “kaiser” Guilherme II e de Hitler.Carlos de Meira Mattos Novas Teorias do Poder Mundial Carlos de Meira Mattos Durante os últimos cem anos. Reagan. – A mais antiga. também chamada de teoria do poder terrestre. a teoria do “Poder Marítimo” (1890). enquanto a estratégia de poder norte-americana tem sido inspirada pelas teorias do Almirante Mahan e do Professor Spykman. três teorias geopolíticas dominaram a mente dos estudiosos de política internacional das grandes potências: – A teoria do “heart land” (1904). de autoria do geógrafo e diplomata inglês Halford Mackinder. – A teoria do Professor norte-americano Nicholas Spykman (1942). Churchill. os estreitos e as passagens obrigatórias da navegação marítima. 2006 . e em face das pressões de uma sociedade globalizada. Franklin Roosevelt. que causou o fim da bipolaridade do poder mundial.. segundo a qual a potência que dominar a “area pivot”. Mussolini./abr. destacamos quatro que nos pareceram mais interessantes: 16 Id. tais como Theodore Roosevelt. escritor e geopolítico norte-americano. prevendo a conquista do mundo pela potência que dominar os mares. jan. (20) : 16-18. Mahan. Entre várias das novas teorias. Hitler. quem dominar a Ilha Mundial. por último. De Gaulle e. dominará a Ilha Mundial e. que prevê a conquista da Ilha Mundial pelas fímbrias. partindo da conquista das áreas costeiras (contrariando Mackinder. que antevia essa conquista partindo do interior do continente euro-asiático). Stalin.

de conseqüências imprevisíveis para a civilização e cultura ocidental-cristã. carência de água e perigo nuclear. exposta. Numa síntese comparativa sobre a visão de poder mundial oferecida pelas novas teorias. contida no seu livro “Le Mirage du Futur – La Nouvelle Ordre Internationel” (1990). do Estrategista francês Pierre Lellouche. uma visão do mundo como uma sociedade organizada nos moldes de uma enorme empresa multinacional. no sentido leste-oeste. contendo o enorme perigo da invasão da Europa pelos “novos bárbaros”. em Dest. autor da obra “Armadilha Humanitária” (1991). do Internacionalista francês Jean Christophe Rufin. Teme o que chama de invasão da fome e a invasão do fanatismo religioso. – A “Tríade” do Clube de Roma.. a China ainda era considerada potência secundária). Prevê um mundo organizado segundo o modelo das grandes empresas multinacionais e dirigido pelos três grupos de nações sob a supervisão dos Estados Unidos. Por último. povos africanos e asiáticos. podemos concluir que os autores Brochard e Rufin. no seu livro “Le Nouveau Monde de 1er Ordre de Yalta au Desordre des Nations”. explosão populacional. – A do “Lime” ou da fronteira viva móvel. a teoria das Incertezas do Professor Lellouche previu que nos próximos 30 anos (escreveu em 1992) não haverá um poder capaz de dominar a turbulência provocada por inúmeros conflitos de Id. não acreditam na duração do poder hegemônico dos Estados Unidos. principalmente. Rússia e Japão (quando escreveram. visando evitar as anunciadas calamidades de nível planetário: descontrole ambiental. de uma fronteira viva móvel. Europa e Japão) prospecta a organização de uma sociedade mundial planejada. nas suas prospectivas.Carlos de Meira Mattos – A dos “Blocos e Zonas Monetárias”./abr. jan. A Tríade do Clube de Roma (três blocos de nações liderados pelos Estados Unidos. Rio de Janeiro. Vêem o domínio do planeta exercido por grupos dos mais poderosos – Estados Unidos. do Professor francês Jacques Brochard. (20) : 16-18. – A da “Incerteza” (ou da Turbulência). Rufin vê a necessidade. Europa Ocidental. para a preservação do poder do Ocidente. crise energética. 2006 17 .

Rio de Janeiro. 2006 . sangrentos. étnica racial. Praticamente. fora do controle de qualquer poder ordenador. que se espalham pela Europa./abr. fanatismo religioso. O autor é General-de-Divisão Reformado. seja a ONU. a União Européia. Estamos vivendo as previsões de Lellouche sobre a ausência temporária de um poder ordenador capaz de restabelecer a paz e a segurança. fome e ameaças de uso de armas de destruição em massa.Carlos de Meira Mattos índole social. Ásia e África. ou Estados nacionais igualmente têm fracassado nesse desiderato. em Dest. consideraram a América Latina uma zona de relativa estabilidade e descartável em termos de influir na composição do poder mundial. Doutor em Ciência Política e Conselheiro da Escola Superior de Guerra (ESG). em suas teorias. (20) : 16-18. outros organismos internacionais. transnacionais. 18 Id. Anteviu três décadas de desordens e incontrolável onda de violências.. sufocando os vários pólos de conflitos graves. Todos os autores citados. não é isto que pensam outros pesquisadores estrangeiros que nos colocam na prospectiva de vir a se transformar numa grande potência dentro de 30 ou 50 anos. no presente. A ONU. Em se tratando do Brasil. A chamada hegemonia norte-americana tem-se mostrado insuficiente nesse mister de preservar a ordem mundial. jan. a sociedade mundial está vivendo um período de ausência temporária de um eficiente órgão ordenador. o Pacto do Atlântico ou alguma superpotência.

I. um elemento comum se destaca: com a separação entre a razão e a fé. em Dest. que abriu novas perspectivas para o relacionamento da Religião com o mundo. Os Estados modernos são estabelecidos.Dom Edson de Castro Homem A Religião na Modernidade: Algumas Funções Históricas e SócioPolíticas Dom Edson de Castro Homem A exposição de algumas funções históricas e sócio-políticas da Religião na modernidade é o objetivo de nossa abordagem. Abordagem Geral A modernidade supõe seus antecedentes: o Renascimento. Ela instaurou uma nova ordem política. a desvelar conflitos. e eles sempre retornam. sua função na ordem democrática. Na realidade. elaboradas pelos autores modernos. a convicção de que seu reino não é deste mundo e. Se houver conflitos. faremos uma abordagem geral. inicialmente. Esta é a grande herança que separa a Religião da Política. No entanto. Por isso. jan. social. sem pretender esgotar a vastidão do tema. na realidade sócio-econômica. São várias as leituras a respeito da função da Religião. na estética. especialmente a assertiva: Dai a César o que é de César e a Deus o que é Id. o Humanismo e a Reforma Protestante.. Com ela se rompe o projeto da cristandade. econômica e religiosa no Ocidente. na atuação prática de ambas as instâncias. dado que há sempre pontos de contato. instaura-se também a separação entre a Igreja e o Estado. Rio de Janeiro. há autores que remontam a Jesus e não aos pensadores modernos a idéia de emancipação da Religião em face do Estado. especialmente no Catolicismo. Sempre que possível também indicaremos as reações de adesão e de rejeição das influências modernas. 2006 19 . apresentarmos a Religião como promotora de Cultura./abr. para concluirmos com o ministério de João Paulo II. sobretudo entre os iluministas. Isto devido a sua atitude de fugir quando alguns queriam nomeálo rei. No entanto. é quanto à interpretação dessa separação e distinção. no exercício do diálogo com as diferenças. (20) : 19-36. faremos algumas indicações. para depois.

chegou a exigir que todos os reis e príncipes cristãos lhe prestassem obediência. isto é notório.. dependente do método empírico. confirmá-lo. para o que se tornou possível somente durante a modernidade. Ao contrário. (20) : 19-36. a modernidade acabaria com o privilégio do Padroado e. distinguindo a fé e a razão. 64). mediante o regime do Padroado. 2006 . ainda que em prazo longo. a Igreja era só protegida pelo rei. também. portanto a diferença de competências de ambas as instituições. jan. não significava afirmar nem o agnosticismo nem o ateísmo como postulado. Havia a distinção de poderes entre o báculo e o cetro. que o Papa Bonifácio VIII. seja a mediação das instituições eclesiásticas. Nesta interpretação. Cabia à igreja sagrar o rei. Do ponto de vista histórico. Com efeito. Sinalizamos. Surge a nova noção de ciência. 20 Id. avaliamos que o Padroado atrapalhou mais do que facilitou ou protegeu a ação apostólica da Igreja. elas se tutelavam mutuamente e sofriam ingerências recíprocas. No método científico. 1971. Na prática. LLANO CIFUENTES. pelo qual na pessoa do imperador se concentrava tanto o poder do Estado quanto da Igreja. In: Relações entre a Igreja e o Estado. Sublinhamos que. Rio de Janeiro. com a pretensão da Igreja acima do Estado. a modernidade e a República deram muito mais autonomia à Igreja. em Dest. isto é. a favor do progresso do conhecimento natural e do desenvolvimento tecnológico. ou a aceitação de Deus mediante a revelação e a especulação filosófica. fonte de onde emanou sua autonomia (Cf. Contudo. guardando sua autonomia nas questões de ordem espiritual. com a argumentação escolástica. Apenas o novo método de se fazer ciência. No Brasil. a Religião cristã teria influenciado. mas em contrapartida também é influenciada por posicionamentos religiosos que respeitavam ambas as esferas. parte do homem ficou emancipada do Estado./abr. a exclusão inicial da Teologia e da Filosofia que.Dom Edson de Castro Homem de Deus. Destacamos os desmandos do cesaropapismo. Rafael. Por tal afirmativa. na Bula Unam Sanctam. depois se consolidou como válida e necessária. José Olympio. p. a bem da verdade. Emerge a individualidade ou a subjetividade pensante contra os argumentos da tradição e da autoridade. no regalismo. Já era o presságio que o poder dos príncipes lhe fugiria das mãos. na Idade Média não havia separação como entendemos hoje. Esta posição contrária entra em conflito com a Religião medieval. seja a lógica aristotélica.

No entanto. Mesmo a Religião é considerada nos limites da razão. o Positivismo de Comte (1798-1857) e o Marxismo (Marx 1818-1881). Rio de Janeiro. a racionalidade. Na segunda metade do século XX. O próprio Kant pergunta: o que posso conhecer? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? As perguntas. em Dest. na fragmentação e na indeterminação ou debilidade do pensamento e da Religião como fenômeno midiático e na busca de novos embasamentos éticos diante do ceticismo. 2006 21 . com as várias e conflitantes tentativas de se pensar a modo racional a realidade pessoal e social. como critério único de verdade. É um pouco a situação que estamos vivendo. incluem seus limites ou suas condições de possibilidade. inclusive a Religião como fenômeno.. também eram contra a Religião positiva. sobretudo o Cristianismo. o Iluminismo é a saída ou a libertação do homem do estado de minoridade. Pensamentos fortes em termos de sistema ou paradigma com pretensão universal são o Hegelianismo (Hegel 1770-1831). e que viveríamos bastante tranqüilos se estivéssemos seguros de que não há nada a temer no outro mundo. A modernidade vai perdendo seu vigor. Entretanto determinou muitas interpretações da realidade social. Por exemplo.Dom Edson de Castro Homem Segundo a Filosofia da História de Hegel. mas não terão de conviver com o advento da pós-modernidade no pluralismo. ela tem seu apogeu no Iluminismo. De acordo com vários historiadores da Filosofia. que exaltam a possibilidade do conhecimento humano mediante a razão. que devem ser analisadas de modo crítico. jan. A Religião não tinha nenhuma boa e útil função. De acordo com a avaliação de Kant (1724-1804). após Kant. com ele ou contra ele. a modernidade começa com Bacon (1561-1626) e Descartes (1596-1650)./abr. mas não tem a incidência política dos pensamentos anteriormente citados. portanto contra o ateísmo. que ele deve imputar a si mesmo se não fizer uso de seu próprio intelecto e sem ser guiado por outro. do relativismo e do contextualismo dos valores morais. (20) : 19-36. é questionada se não passar pelo crivo da crítica. Os iluministas eram deístas. Também a Fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938) merece a afirmação de pensamento forte e abrangente. exceto infelizmente reprimir e inibir as paixões. Id. muitos aspectos da modernidade persistirão. O sagrado retorna. Diderot (17131784) declara contra a Religião que sem as paixões os homens excepcionais se degradam. Entretanto. já sendo um ato da razão.

mas supõe a Cultura para veicular sua concepção de Deus. para distingui-lo dos demais em que ele se encontra. sendo um fato simbolicamente plural. é influenciada e influencia. não pode prescindir das mediações culturais. (20) : 19-36. as religiões estão intimamente ligadas à História de seus respectivos povos. Rio de Janeiro. Mesmo o Cristianismo.. Dialeticamente. a que chama de Deus. compreenda o fenômeno com sua especificidade./abr. Neste sentido. Primeiramente. pois dependem da sociedade. pelo momento histórico em que nasceu e pelos períodos históricos que percorreu. a priori é necessário que cada um de nós. o homem está ligado ao ser absoluto e originante. girando em torno do simulacro e do lúdico para a satisfação de interesses imediatos. em particular. que se considera Religião revelada. assim como os povos aceitam outras influências culturais. 2006 . é influenciada e até condicionada pelo lugar cultural e geográfico de sua origem. Aliás. II. da Cultura e da linguagem. a Religião não só é pluridimensional. Assim se compreende quem pratica ou professa qualquer Religião. Trata-se da influência da tradição. não produzida diretamente pela Cultura. datado e comunicável. é comum observar alguns modos de sincretismo e até de justaposições de influências. permitindo várias formas de leitura ou de interpretação. também são condicionados ou determinados por elementos assimilados destas outras expressões religiosas que chegam. não existem fenômenos religiosos puros. relaciona-se com o conjunto da vida de um povo e das pessoas. crente ou descrente. como diz Mircea Eliade. sem as quais não seria um fenômeno histórico. entendida como memória viva e rica de significados.Dom Edson de Castro Homem Está presente na sociedade e na Política. de sorte que é muito difícil a Cultura ser separada da Religião em termos de influxo recíproco. O fenômeno humano e social da Religião. divulgada só oralmente e ritualmente. do homem e do mundo. De fato. O antigo Israel foi influenciado e acolheu aspectos das religiões dos povos vizinhos. No entanto. mas o forte monoteísmo javista conseguiu 22 Id. Isto porque. em Dest. A Religião como Elaboradora de Cultura Através da Religião. jan. constitui-se em fato duplamente cultural. inteligível. Portanto. Independentemente das várias concepções da divindade ou da Religião e das diversas expressões de religiosidade. Por isso.

o Id. ainda que sempre em processo de atualização. São fontes irrecusáveis de pesquisa. em função da identidade anglo-saxônica. Recebeu. a não ser excepcionalmente. o Credo Apostólico e o Niceno-constantinopolitano. A Igreja Ortodoxa Oriental mantém laços estreitos com a herança bizantina na Arte. A História dolorosa dos cismas coincide com o posicionamento posterior de manutenção e de afirmação. desde o início. que define a base de seu conteúdo. Na pretensão de romper em nome de um evangelho puro. Rio de Janeiro. O Anglicanismo. de onde veio a maior parte das Escrituras. no Direito e na organização eclesiástica. sobretudo da Ordem Beneditina. serviu para consolidar a nova proposta de ruptura contra as instituições tradicionais do poder sacralizado da realeza e da Igreja. Por estas razões intrínsecas. seja pela documentação histórica. A Igreja Católica Romana conserva as tradições latinas na Língua. Logo após. 2006 23 . A herança cultural dos mosteiros medievais. Também recebeu. No entanto. As Igrejas oriundas da Reforma rejeitaram a centralidade romana. na Liturgia e na Teologia. tanto influenciou quanto recebeu forte contribuição das Culturas grega e latina.Dom Edson de Castro Homem purificá-los de costumes pagãos e impedir a contaminação dos ídolos. parece que rejeitou mais do que recebeu. jan./abr. pela cópia e pela tradução de livros clássicos gregos e latinos. adentrou e se difundiu no mundo helênico. apesar da perseguição do Império Romano. também conservou e transformou muitos elementos do Catolicismo e assimilou aspectos consideráveis da Reforma Protestante. O mesmo se diga das bibliotecas e arquivos das Dioceses e do Vaticano. Tornou-se uma Igreja de gentios e não mais de judeus convertidos. embora não possa ser entendido sem sua dependência originária do Judaísmo. Nestas incursões. representada pela tradição católica e pelo magistério do Papa. distingue-se da vinculação devido ao apelo universalista que o obrigou. ao romper com o Papa. conservou e transformou. (20) : 19-36. conservou. sem rejeitar o patrimônio grego do pensamento. O Cristianismo. Por fidelidade a si mesmo e por razões de sobrevivência. de Lutero. e devido às primeiras perseguições em território judaico. A tríplice afirmação só a fé. de certas heranças culturais significativas que a Religião cristã transformou. seja pela conservação. a admitir o processo necessário de inculturação. mas transformou. em Dest.. a dispensa da circuncisão facilitou ambos os processos. só a Bíblia e só a graça. é reconhecida pela divulgação do saber. entrou também em Roma.

A segunda. ao agrupar tradições díspares independentemente da coerência interna. em função da mensagem contra o invólucro cultural já superado. pode respeitar e integrar se não todos. Não sem conflito com o Magistério católico que condenou o Modernismo. possibilita a releitura ou a re-interpretação. A íntima relação entre Religião e Cultura só seria compreendida e melhor valorizada. Tais reflexões visam considerar a Religião não só como criadora de Cultura. em Dest. de forma violenta e sangrenta. as cruzadas. as inquisições e as guerras religiosas. Isto pode se dar de forma pacífica. ao contrário do que normalmente se diz. A Religião a Desvelar Conflito O encontro de culturas pode ser um confronto de religiões. inclusive o nominalismo da Filosofia medieval. cuja solução supera o dogmatismo católico e o fundamentalismo protestante. jan. III. presentes na Reforma. (20) : 19-36. desconstruí-los ou mesmo inibilos.Dom Edson de Castro Homem agostinismo. percebeu-se melhor o problema da historicidade. especialmente a doutrinal. Trata-se da rejeição que condena. Recebeu. que é a justaposição. O primeiro supõe o lento discernimento da purificação histórica no processo de inculturação e. para recriá-los. Trata-se de nova aplicação do sentido da exortação de Paulo: “a letra mata. do Cristianismo e das tribos árabes./abr. foi transformado pala própria herança anglosaxônica. mas também transformadora de certos elementos culturais encontrados. Rio de Janeiro. também recebida e atualizada. adaptou ou transformou. Todas as perseguições contra as crenças alheias. se não da tradição viva da Igreja anterior? Muito do patrimônio recebido. Trata-se do sincretismo ou da justaposição. Contra ambos. devido à descoberta moderna da historicidade. Também o Islamismo muito recebeu do Judaísmo. persegue e elimina o diferente ou oponente. o Espírito é que vivifica”. 2006 . dispensa o discernimento. tais tentativas foram feitas e muitas são legítimas para a compreensão da fé que a Religião veicula. muitos valores encontrados. Aqui se trata de distinguir o que é vinculativo do que é elemento cultural ou da mentalidade de época. Com o método histórico-crítico aplicado à exegese e à hermenêutica dos textos bíblicos e dos dogmas. tema ligado à concepção da Filosofia da História. são formas de conflito em que a Religião foi utilizada como instrumento ideológico repressor 24 Id.. incluindo a guerra santa dos muçulmanos. a partir de Hegel.

e que existe em qualquer sociedade. apontado a serviço do diabo simbólico. a Religião e a religiosidade podem adquirir a função de dar sentido de bondade e de justiça à luta ou ao conflito social até à guerra como confronto radical. jan. cismáticos ou heréticos desestabilizam o tecido social. É uma função que hoje consideramos deplorável. Entretanto. nunca dos vencidos. em Dest. e que as análises sócio-políticas da Religião na modernidade nos ajudaram a perceber e a discernir. ele soube inculturar a recente Id. Na perspectiva da psicologia das massas e dos exércitos. por outro. Constantino escolheu a cruz como símbolo do exército: Com este sinal vencerás. Neste caso.. A modernidade indicou essa função que. 2006 25 . A forma do sucesso está no convencimento do discurso demonológico contra o outro. o pacifismo inicial durou pouco. Mais ainda no Alcorão. Paulo chama o cristão não só de atleta. Deus se põe do lado dos vitoriosos. Até porque o homem religioso precisa de explicações para conviver com ambos os aspectos de sua existência.Dom Edson de Castro Homem dos inimigos por um lado e justificador. o teólogo chamaria de patologia. Tratase da função social de canalizar simbolicamente o percentual de não adaptação que gera conflito até à violência. Hoje soa como ideologização o fato de ele ter instrumentalizado o mais sagrado símbolo cristão. Muitas vezes. certamente. mas de soldado ou combatente. No entanto. podem servir-se da religiosidade popular. mesmo quando não se trata de estado de guerra com teor religioso. Inclusive os poderes político e militar. baseando-se nas Escrituras. ainda que espiritual. O próprio pacifismo do Cristo e dos primeiros cristãos foi veiculado com expressões de combate. resolvia o dilema através do conceito de flagelo de Deus. Os vencidos pelos inimigos de Deus receberiam a derrota como castigo por faltas cometidas para retomar o processo penitencial purificador: Pecamos. Senhor. misericórdia! A Bíblia faz uma teologia quase sempre narrativa da guerra e da paz. A Idade Média. as novas religiões surgem destes movimentos separatistas. Rio de Janeiro. Ao final. No Antigo Testamento isto é muito claro. de interesses políticos e econômicos a serem conquistados./abr. (20) : 19-36. o confronto se dá no interior da própria Cultura religiosa quando grupos sectários. Muitas vezes. através de símbolos ou de orações ou da invocação do nome de Deus como ideologia justificadora ou encorajadora do conflito. as religiões tendem a se exorcizarem reciprocamente e a “caçar bruxas”.

anglicanos e católicos. com episódios deploráveis entre reformados. A nova Religião passava a ter uma função legitimadora do Império. tornar-se-á um Catolicismo de reconquista. de outro insistiria na ordem a ser defendida. Desta forma. (20) : 19-36.Dom Edson de Castro Homem simbologia religiosa. talvez até devido a tal indisposição. no interior do Cristianismo dividido após a Reforma. em nome da pureza evangélica. e o Estado que se reorganizava também diante do novo poder religioso emergente. Rio de Janeiro.. Com efeito. santos guerreiros em favor da Coroa Portuguesa. Santo Agostinho daria à cristandade emergente os elementos para pensar e construir a realidade sócio-política em tempo de paz e de guerra. esta nem um pouco tolerante. que não deixa de ter inspiração cristã. Não só nos altares. Os santos protetores foram considerados. A atitude de tolerância voltará com outro nome quando abordarmos a nova função dialógica da Religião. a prazo longo. Anglicanos e protestantes fizeram o mesmo nas colônias inglesas e holandesas contra a idolatria e a superstição. De um lado definiria a paz como tranqüilidade da ordem./abr. cujos motivos eram mais da ordem da Política e da Economia que propriamente da fé. liberdade e fraternidade. e após muitos conflitos. 26 Id. começava uma nova ordem de relação simbólica e efetiva entre a Igreja. 2006 . A Religião possuía a função de também expandir o império português com seu projeto de colonização. Trata-se de diálogo religioso e de ecumenismo. em Dest. muitas vezes. Durante a modernidade houve guerras de Religião. jan. apesar da contestação do poder temporal da Igreja. contribuíram para a tolerância religiosa e até a boa convivência. organizando-se no Império. apesar do seu lema de igualdade. Inaugurava igualmente o Catolicismo guerreiro que de início será de defesa e depois. a noção de guerra justa ou de legítima defesa a exigir a manutenção e a modernização dos exércitos. No entanto. diante das conquistas muçulmanas. Daí. no intuito da conquista. mesmo em tempo de paz e em regime de cristandade. segundo os ideais da Revolução Americana e da Revolução Francesa. como fruto da razão e da Democracia. aos poucos a cruz estaria presente em todos os lugares públicos. O Brasil Colônia conheceu a simbologia e a interpretação religiosa nas lutas entre portugueses e índios. eminentes pensadores políticos do Liberalismo e do Iluminismo. dando-lhe nova leitura a partir do lugar de destaque no seu exército.

através das eleições. Sem ter previsto e mesmo desejado seu livre exame da Bíblia em contraposição ao magistério da Igreja Católica./abr. como sublinhamos acima. A propósito. não passaria pela tutela da instância religiosa. guardando as respectivas instâncias de poder e as atribuições funcionais. concordam na concepção de um contrato social como fundamento da sociedade organizada racionalmente. para este novo estado de coisas nas disputas entre o cetro e o báculo. apressar a nova mentalidade emergente e em termos novos em que o poder do Papa é excluído. o que já seria um fato socialmente relevante. ainda que indiretamente. estimula de algum modo não só a alfabetização das pessoas. Rio de Janeiro. o Luteranismo. Ele foi dessacralizado. O poder não viria mais de Deus. em Dest. coube a Lutero.Dom Edson de Castro Homem IV. favoreceu dois aspectos da autonomia que caracterizariam a modernidade: a liberdade do indivíduo e o Liberalismo econômico. (20) : 19-36. quando põe a Bíblia na mão do povo. A Igreja se emancipou da tutela estatal. 2006 27 . Também ensejou a separação entre a Igreja e o Estado. jan. Na realidade. A Religião para a Ordem Democrática Hobbes. a escola pública e o acesso de todos à educação. Viria do povo. através da proposta separatista entre fé e razão e a ruptura com o papado. embora divirjam quanto às características do Estado Moderno democrático. a despeito de suas reconhecidas Id. O Estado se libertou da tutela religiosa. O fruto da ordem democrática foi de cooperação e de respeito mútuo. Historicamente. mas também propicia a progressiva participação popular que somente os republicanos inaugurariam pela implantação do regime democrático. Entretanto. foi bom para ambos. A Religião católica contribuiu. Locke e Rousseau. exigia uma nova presença da Religião na sociedade que fosse separada do Estado. não sem conflitos. a Igreja em cada Estado moderno tem sua história peculiar de harmonia e de confronto. bem como os ideais republicanos. De fato. como já vimos. Outros afirmam que o Protestantismo incentivou a prevalência do Estado sobre a Religião cristã. especialmente pela posição singular do poder papal. entre os defensores da autonomia de ambas as instituições. A pacificação dos espíritos se deu no sentido de que novas relações foram estabelecidas.. Portanto. A posição de distância e de diferenciação religiosa permitiria tal assertiva.

a Igreja reivindica o direito ao reconhecimento jurídico da própria identidade. A Igreja Católica aceitou sua autonomia e independência do Estado. A colegialidade se torna o governo mais de acordo com o retorno às fontes da fé: a Escritura e a Tradição. a separação não exclui a colaboração recíproca.Dom Edson de Castro Homem implicações democráticas. o modelo monárquico foi substituído pela consideração do poder colegial dos bispos entre si. na condição moderna. em Dest. irmandades e associações. mantendo-se internamente hierárquico e até monárquico na sua estrutura eclesial. através de confrarias. Os Cardeais eram considerados príncipes. de início não foi favorável à Democracia na Política por fidelidade à monarquia. típica da presença dos leigos no antigo regime. Perpetuou o rei como Chefe da Igreja. jan. recentemente contestador em relação ao Estado e. 28 Id. ou crítica de seus aspectos ideológicos e utópicos./abr. logo a seguir. o Catolicismo precisou elaborar uma teologia das realidades terrestres e a teologia do laicato ou da presença dos católicos na Igreja e na vida pública. O Anglicanismo inicialmente é a submissão da Igreja à vontade do rei. mediante comunidades e movimentos e pastorais de inserção no mundo. Neste novo contexto. Já dentro da nova ordem democrática. Só com o Concílio Vaticano II. Contudo. O Papa até à segunda metade do século XX era coroado. pois ela e o Estado estão a serviço do bem-comum dos homens. Calvino idealizou uma teocracia. no século XX. inclusive através de formas estáveis de acordos e de instrumentos que garantam relações harmoniosas entre ela e o Estado. declara ser o Estado moderno a realização do espírito absoluto. ou incentivadora dos ideais republicanos e democráticos. através das profissões e do testemunho de sua fé. (20) : 19-36. 2006 . então.. na superação da via devocional. Emerge um Catolicismo social e político. a Religião teve uma função ambígua: ou mantenedora das concepções de mundo e de governo anteriores ao novo regime. eminente filósofo de raiz protestante. Para realizar sua missão. pois são de natureza diversa pela configuração e pela finalidade. Rio de Janeiro. para uma via testemunhal. Quanto ao Catolicismo. Hegel. e em união e sob a autoridade do Papa. no lugar do Papa. Insiste. até no interior da própria Igreja. cuja releitura inspiraria ulteriormente os totalitarismos estatais de direita e de esquerda.

Basta lembrar que a modernidade influenciou mais a Arte Sacra ou Litúrgica do que o contrário. Disposições estéticas diferenciadas igualmente haveriam de influenciar a arquitetura dos respectivos templos e até o modo diverso de composição artística no interior dos cemitérios. além de artistas e artesãos que trabalhem os metais para os objetos do culto e a confecção das alfaias e das vestes litúrgicas. coincide com a Arte de estilo colonial nas igrejas do período. Neste caso e nos demais. Então. embora os temas religiosos também sejam apresentados até por artistas de formação racionalista./abr. Ainda que seja preciso matizar a polarização para evitar generalizações. Aqui seria necessário acrescentar a influência dos diversos momentos da História da Arte no período cultural da separação entre a fé e a razão. traduz dentro do espírito do Modernismo sua concepção religiosa. vestes e cores. enquanto a Cultura Católica a comunicação da imagem. As demais Artes serão aprimoradas. em Dest.. Se o Judaísmo e o Protestantismo proíbem esculturas é claro que esta forma de Arte não será difundida entre seus adeptos. ou quando o artista é solicitado ou contratado para dar sua contribuição. a Religião influencia a Arte e vice-versa. através das Artes Visuais. agnósticos e ateus. 2006 29 . sobretudo a Literatura e a Música. porque houve um confronto histórico e cultural com o Protestantismo. as religiões contribuem ou inibem as Artes. não da doutrina religiosa propriamente dita. Id. estimulando a participação da assembléia sem desvalorizar o solo e o coral. O Catolicismo precisará de bons escultores ou santeiros ou pintores. Enquanto o culto católico é festivo e lúdico. atendo-se quase com exclusividade ao simbolismo do livro: seja a Bíblia que se lê e da qual se prega. a influência é no nível do valor universal da mensagem humanística. Rio de Janeiro. a Cultura protestante acentuará a comunicação da palavra com a utilização da Oratória. inclusive a dramatização religiosa. A Arte Barroca só se entende como expressão de Arte Católica. veiculado pelo simbolismo de ritos. (20) : 19-36. jan. A Função Estética da Religião Numa leitura estética também com implicações sociais relevantes no nível do aprimoramento de competências artísticas.Dom Edson de Castro Homem V. No Brasil. Neste caso. o culto evangélico tradicional sempre optou pelo despojamento e pela simplicidade. seja o hinário que se abre para acompanhar o canto.

ao contrário. Ao contrário das catedrais medievais. ávida de perseguição e de morte. VI. o dos donos do capital contra os que vendem a força do seu trabalho. Para entrar no palácio do governo há que se subir à rampa. Também aqui o meio é a mensagem. Mesmo no estranhamento desta simbologia da morte de Deus. Ao contrário. no subsolo de Roma. Paul Ricoeur com a ajuda do princí30 Id. não o culto sagrado ou oficial. jan. o arquiteto ateu e comunista fez a Catedral enterrada em meio à cidade. especialmente. Além disso.. enquanto o palácio do governo jamais abrirá as portas a todos que quiserem subir. 2006 . Portanto. mediante o valor do trabalho e o acúmulo do capital como bênção divina. a Religião pode restaurar sempre a pureza do sentido a seu favor. mediante o conceito de princípio-esperança. desqualifica-a como agente transformador da História. desde quando a Eucaristia era celebrada nas catacumbas. No entanto. em Dest. o templo paradoxalmente deixa de ser simples monumento estético quando a assembléia de culto o preenche e aquece com a celebração da sua fé e de sua esperança. Deus se faz presente no templo santo do seu povo reunido. isto é. O que se vê da Catedral é apenas sua bela e delicada torre a significar as mãos do povo brasileiro em atitude de ofertório. Portanto. temos que admitir com fina ironia que a Catedral de Brasília sempre estará aberta a todos que se dispuserem a descer./abr. Ernst Bloch. Assim é enaltecida a religiosidade. também a Revolução Industrial tem um componente religioso ético originário. cheia de ideologia. é preciso descer a rampa. define a Religião como sendo o ópio do povo. Karl Marx. possibilita pensar a Religião unida à utopia. mesmo considerando-se marxista.Dom Edson de Castro Homem A Catedral de Brasília é um bom indicador dos sinais dos tempos modernos. Rio de Janeiro. (20) : 19-36. conforme as palavras de Jesus. Significa que a Religião pode ter influência transformadora na sociedade e gerar a Economia. A fé sempre vence o mundo. já que é superestrutura ideológica de pura alienação e de dominação para manter a ordem e o poder constituídos. opositor do Capitalismo. Para se adentrar no recinto do culto eucarístico. a arrogante Capital do Império. A Função Sócio-econômica da Religião Max Weber relaciona com boa análise sociológica o surgimento do Capitalismo com a emergência do Calvinismo na relação entre teoria e moral puritana com a Economia.

na França durante o período revolucionário. muitas religiões ou movimentos religiosos tiveram início como vanguardistas. Trata-se da esperança de um novo mundo de paz. na InglaId. as demais Igrejas elaboraram uma Teologia da práxis e igualmente exerceram e realizam uma ação social expressiva em favor dos pobres. Portanto. mediante grupos insatisfeitos e revolucionários da sociedade. do Marxismo e do Comunismo e das demais economias estatais e. Neste campo. Rio de Janeiro. tempo de serviço. através do descontentamento com o presente a ser modificado ou desconstruído em função da edificação do futuro. Também os teólogos com acertos e erros. e nos Pronunciamentos das Conferências Episcopais. e reunir o laicato na Ação Católica. a maioria das Igrejas exerce um papel de conscientização e de denúncia de irregularidades contra a dignidade humana. e os problemas mais abrangentes como a pobreza. com suas teorias e práticas de confronto ou de consenso no campo social. a Igreja Católica precisou elaborar sua Doutrina Social através das Encíclicas dos Papas. jan. aposentadoria e desemprego. VII. 2006 31 . até sectários. em sintonia com as Ciências Políticas e Sociais. A Função Dialógica da Religião Na modernidade. Julgar e Agir.Dom Edson de Castro Homem pio-esperança desenvolve um pensamento semelhante. a fome e a miséria. de justiça e de fraternidade. sobretudo. em laços estreitos com a utopia. haja vista a Teologia da Revolução e da Libertação. no sentido de serem regidas por normas e dirigidas por um corpo de especialistas ou ministros de culto. (20) : 19-36./abr.. Depois é que se organizaram em instituições de cunho eclesiástico. procuraram dar sua contribuição ao pensamento e à pratica. devido às questões sociais ligadas aos trabalhadores: salário. a educação. e dos demais Movimentos Sociais ou Entidades sócio-caritativas e educativas que surgiram já no final do século XIX e nas Pastorais Sociais e Comunidades Eclesiais de Base. através da influência de líderes carismáticos ou proféticos. a Igreja Católica se sentiu no dever de construir um ensinamento social em função de ações efetivas de transformação política. em Dest. houve perseguição à Igreja Católica em diversos países. recentemente. através do método Ver. Diante do Liberalismo econômico e do Capitalismo selvagem. a moradia e a saúde. De fato. De modo geral. Devido à modernidade.

neste testemunho extremo. (20) : 19-36. como movimento organizado. O testemunho dos mártires é o testemunho da verdade da consciência. em Dest. Deixa. Cunhouse a expressão: a Igreja na cortina de ferro. Nada se compara ao totalitarismo de Estado nos regimes comunistas. Com a reviravolta do Concílio Vaticano II. luteranos e católicos.Dom Edson de Castro Homem terra desde Henrique VIII e até no México. Participa como observadora. As religiões. irmanados os prisioneiros pelo mesmo sofrimento. Por isso João Paulo II chamou o século XX de século de mártires. com as diferenças. Em meio aos horrores contava pouco a diferença religiosa./abr. Não mais defesa e ataque. Aqui. mas passou a promovê-lo. no século XX. Surge. Rio de Janeiro. O Fascismo e o Nazismo. ela manifesta sua força de resistência moral. especialmente o Catolicismo. Morresse por aquilo em que se crê e de que não se pode abdicar. Muitas pessoas foram mortas por ódio à fé cristã ou à Religião em geral. uma nova era do relacionamento da Igreja Católica. a modernidade como expressão filosófica e cultural já chegava ao acaso. em Genebra. Nos campos de concentração nazista. mas a absorção da Religião pelo Estado. jan. mas compreensão e conversação. 2006 . o saldo positivo da possibilidade do 32 Id. igualmente criaram grandes obstáculos às Igrejas que ousaram criticá-los. pelo diálogo com o pensamento moderno. Muitos na China sofreram o crime da lavagem cerebral para abdicarem de sua fé e de suas convicções mais enraizadas. o ecumenismo começa entre os evangélicos diante da fragmentação de tantas comunidades eclesiais. pois. Os prisioneiros sem nome se igualavam por serem apenas numerados e marcados para morrer. Entretanto.. Inclusive os monges budistas sofreram horrores. Inclusive o diálogo com todas as religiões e com os ateus. Então se descobriram humanos demais na fraqueza. A Igreja Católica sempre teve dificuldade de entrar oficialmente quando convidada ao Conselho Mundial das Igrejas. não só aceitou o ecumenismo. porém. foram subjugadas ao controle estatal. praticamente se iniciou o ecumenismo prático. Por razões de consciência moral e religiosa. também ideologias do Estado forte e onipresente. na impotência e na dependência absoluta de forças tão hostis e desagregadoras. Historicamente. muitos foram mortos nos campos de concentração ao lado do extermínio dos judeus e dos homossexuais: testemunhas de Jeová. Foi possível se unirem em torno de um Deus comum e pessoal na fé do total abandono. O Comunismo não prega a separação. sobretudo os tibetanos.

em Dest. Foi mais além. Trata-se da implicação ética da Religião mediante o princípio de responsabilidade diante da vida. O ecossistema e a biodiversidade também foram integrados à religiosidade pela função dialógica estabelecida com a Religião e vice-versa.Dom Edson de Castro Homem diálogo recíproco e tolerante que inspira ou valoriza as relações pessoais e sociais. alocuções e aparições. a presença significante da Religião no mundo. que emergia um novo tempo não só para o futuro da Igreja. inclusive internacionais baseadas no respeito à alteridade. VIII. o diálogo religioso e ecumênico. A Função da Religião no Ministério de João Paulo II João Paulo II não só continuou o ideal conciliar. em função do bem estar e do bem viver do homem em sociedades livres e justas. a colaboração entre Estado e Igreja. Ao contrário./abr. fruto de sua fé. jan. Sua primeira encíclica programática dizia que o homem é a via de Cristo e. Sua personalidade receptiva e sua capacidade de aprender idiomas lhe permitiram ir ao encontro desta nova condição comunicativa. mais justo e fraterno. inclusive de sua própria finitude. portanto.. Seu pensamento nada tinha de débil. mesmo durante a velhice e a doença. Por isso. 2006 33 . bem utilizada para os fins propostos. se pôs em viagem ou a caminho. Rio de Janeiro. Propõe um itinerário antropocêntrico como meta de encontro. através da imagem midiática que construiu. ao pluralismo. Através de motivações religiosas. pelo anúncio e testemunho da transcendência. à diversidade. mas de todos os que professam uma Religião ou que tenham a boa vontade de construir um mundo mais humano. o homem é a via da Igreja. demonstrou que a Religião ainda tem algo a dizer ao mundo e pode criar práticas construtivas de aproximação. manifestava que a razão pode atingir o conhecimento quando se deixa iluminar pela lucidez da verdade. a possibilidade de ultrapassar o efêmero. Compreendeu com perspicácia. para defendê-la e promovê-la em favor das gerações futuras. (20) : 19-36. devido a sua experiência de vida na Polônia com a ocupação nazista e comunista. e por causa de sua formação filosófica. Id. Propôs de forma nova e convincente fundamentos para a razão e para a fé. mas também com todo o cosmo degradado pela poluição. Enfrentou com suas encíclicas. Trata-se da renovada consciência de que o ideal de comunhão com Deus exige não só a comunhão com as pessoas.

diante da nova expressão do terrorismo. 2006 . em Dest. há muito que fazer para a superação dos ressentimentos. Aprovou a Declaração Conjunta entre a Igreja Luterana e a Igreja Católica na questão principal que dividiu o Cristianismo ocidental: a justificação pela graça. baseadas na reconstrução do presente em função do futuro sem deixar-se aprisionar por heranças passadistas e obscurantistas.. Influenciado pelo atentado em Nova York. Visitou a sinagoga de Roma e./abr. para um novo relacionamento de cooperação harmônica e construtiva. o Presidente dos Estados Unidos deixouse levar pela linguagem religiosa da retaliação ao qualificar a área inimiga de eixo do mal. em suas viagens. (20) : 19-36. perpetrados por católicos. Visitou mesquitas e também estabeleceu em suas viagens contatos com muçulmanos. em 11 de setembro de 2001. Caíram as acusações recíprocas e a excomunhão. Rio de Janeiro.Dom Edson de Castro Homem Com sua liderança. Nesse sentido. Pediu perdão aos judeus pelos erros do passado durante a celebração do ano santo. A estrada está longe de ser percorrida. na virada do milênio. Em suma. jan. surge a posição do Governo americano. Orou junto com todos os crentes de várias religiões que foram aos Encontros de Assis. respeitando a divergência de posições. No entanto. Não admitia. purificar-se a si própria mediante a revisão histórica e aprender dos próprios erros. intensificou os laços de fraternidade em relação à Igreja Ortodoxa. o que qualificou de blasfêmia. porque dizia que a Religião é para unir as pessoas e não para desunir ou desagregar. Apelou para que as religiões contribuíssem para a paz mundial. e até justificou a invasão de uma nação de Cultura islâmica com argumentos não convincentes à comunidade 34 Id. pode colaborar para a construção de novas formas de vida social. significa dizer que a Religião pode também fazer autocrítica. usar a Religião e o nome de Deus para guerrear. estabeleceu contato com os judeus. afirmando que a Igreja Católica precisa respirar com os dois pulmões: o ocidental e o oriental. se não pusermos obstáculos às conquistas da modernidade. cuja conotação religiosa foi dada pelos grupos terroristas islâmicos que pretendem ter agido em nome de Deus. Ambas as instituições se comprometeram a compreender o que há de diferente no dado comum da fé. Insistiu na purificação da memória a respeito dos crimes e dos abusos históricos. No contexto contemporâneo da globalização também dos problemas internacionais. Mas os passos iniciais já foram dados.

Soa como tautologia. a tautologia é superada quando a razão se deixa também criticar Id. ela tem o mérito de nos ter ajudado a valorizar a razão e a considerar seus limites. Por isso. Uma semana de estudos como esta.Dom Edson de Castro Homem internacional. A atuação de João Paulo aponta para funções ainda relevantes e pertinentes das religiões se elas se abrirem às necessidades e aos apelos da Humanidade. segundo a expressão de Habermas. em Dest. Do ponto de vista católico. sobretudo. Rio de Janeiro. São atitudes irracionais que comprometem o tecido social e a Democracia. na pessoa do Papa João Paulo II. Se o projeto for levado a sério. Nem é tão racional como se apregoa. mas a razão precisa ser a instância crítica de si própria. filosóficas e sociológicas do pensamento moderno que também não existe neutralidade religiosa. jan. por aqueles que têm o poder de influência e de decisão na sociedade. Essas novas funções apregoadas e inauguradas serão possíveis se as conquistas da liberdade moderna forem facilitadas pelos líderes religiosos e. Com efeito. é necessário elaborar sempre de novo a crítica das religiões juntamente com a crítica das ideologias e das utopias. através do pensamento. certamente favorece a elaboração destes objetivos. até porque sempre ronda o risco do fanatismo. além do conteúdo próprio de cada credo professado. As expressões religiosas podem esconder ou veicular as ideologias e utopias. acolhendo-se também umas às outras na colaboração recíproca quando grandes causas humanísticas estão em jogo. o pensamento crítico é sempre uma reconquista da razão que a modernidade recorda. especialmente a contribuição de intelectuais e de filósofos. (20) : 19-36. Por isso. conforme Levinas. pois no acirramento das paixões produziu guerras mundiais e o extermínio de populações e de etnias. Se quiser permanecer no âmbito da razão comunicativa. inibe as polarizações que motivam ações persecutórias contra a Religião. 2006 35 ./abr. Defendeu o direito da soberania dos povos. Pediu a paz. as convicções e os interesses. A modernidade não é unívoca. insistiu na conversação.. as diferenças e as minorias. aquela que se deixa interpelar e solicitar pela alteridade. Conclusão Sabe-se por diversas análises históricas. do fideísmo e do fundamentalismo. A Igreja Católica. na ação diplomática.

ao menos no Ocidente. a Religião não tem só uma função ética que inspira ou motiva comportamentos pessoais e sociais. em Dest. Aliás. mas aquela que é conduzida pela inteligência. Quando isto ocorre. projetou e sedimentou a democracia conjugada com a liberdade. experimentarmos a convivência pacífica em meio às diferenças também religiosas. sabemos que a modernidade. o mistério da origem e do fim. Livremente. Rio de Janeiro. Eis o núcleo da fé em Deus. realizado na Escola Superior de Guerra. tendo como suposto não a fé fideísta. Enfim./abr. o sentido da vida e da morte para a eternidade. não existe Democracia sem essas garantias.. no período de 21 a 24 de novembro de 2005.Dom Edson de Castro Homem pela fé. ela comunica e celebra de acordo com seu credo aquilo que lhe é próprio: a dimensão sagrada da vida e da existência. 36 Id. sem a qual não teríamos a nova ciência e tecnologia. O resto é apenas mediação como a própria Religião. 2006 . O autor é Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro e proferiu esta palestra por ocasião do Seminário sobre a Religião. jan. desde que as instâncias e as instituições e as garantias individuais sejam preservadas pelo estado de Direito. (20) : 19-36. Provou-nos que é possível.

Rio de Janeiro. a difusão do conhecimento em suas sociedades. Um esforço neste sentido. por volta de metade do século XXI. A pouco e pouco se estrutura uma nova ordem mundial baseada no entendimento e na cooperação de todos os países do mundo. a estrutura do sistema Id. 2006 37 . por vezes geradoras de crises e conflitos. O que se traduz também por tensão e instabilidade. esta nova ordem pressupõe o rápido crescimento econômico e social de países que se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento. que também inicia o terceiro milênio.” (DA XUE) O inicio do século XXI./abr. Por outro lado. estarás ao alcance da Via. Nesta grande cena. Na antecipação dos autores do relatório. jan. o Brasil e a República da Coréia aparecem não só como dois importantes países desse mundo em crescimento. A extraordinária revolução na ciência e na técnica habilita a Humanidade a alcançar novos graus de desenvolvimento na arte de criar riqueza e gerar prosperidade. A comunicação via satélite e os meios de transporte aéreo praticamente uniram o mundo inteiro. baseada na independência e autodeterminação dos povos.Severino Cabral Coréia Unificada e Brasil no Século XXI: A Ordem Multipolar Severino Cabral “Sabendo reconhecer as prioridades. deve sempre partir das realidades do mundo atual e da necessidade permanente do diálogo para estabelecer as bases do entendimento e da negociação internacional. ao prever para o ano de 2050 a emergência do BRIC. por parte de pesquisadores brasileiros e coreanos interessados no aprofundamento dos laços de cooperação e aproximação entre os dois países. sobretudo. Conhecimento das condições existentes nas duas sociedades e no sistema internacional contemporâneo. Indivíduos e nações se aproximam e se relacionam cada vez mais em todos os horizontes do planeta. (20) : 37-41.. Faz pouco tempo um relatório da Goldman & Sachs de Londres despertou a atenção de analistas de todo mundo. apresenta o mundo em grande e rápida transformação. em Dest. desafiados a desenvolver não apenas a economia mas.

Acontecimentos como as duas guerras do Golfo e o incidente do 11 de setembro são sintomas da profunda e dramática instabilidade da ordem internacional gerada pela política de força de uma única potência. é a da constituição dos megaestados. 38 Id. população e base econômica./abr. O advento de uma ordem multipolar será positivo para a criação de uma situação internacional menos tensa e mais direcionada para a elevação do nível de vida das populações do mundo em desenvolvimento. que sejam dotados de considerável espaço territorial. Índia e China. Em suma. Rio de Janeiro. se situariam no topo do sistema mundial de poder. mais os Estados Unidos e o Japão. ampliar e até mesmo recuperar espaço. 2006 . a unidade e a integração européia servem de balizamento para o caminho das unidades políticas ativas do mundo contemporâneo: o seu êxito ou fracasso determinará a futura existência da Europa como centro mundial de poder. de população e de força econômica autônoma. Curiosamente. Neste sentido. A superação desse estado de coisas será viabilizada pela emergência de uma nova ordem mundial mais democrática e mais legítima. Como também é observável que os principais obstáculos no caminho dos BRIC para o topo da ordem mundial se relacionam à capacidade de cada um deles de manter. A segunda e decorrente tendência é de que o ambiente internacional deverá ser profundamente alterado em relação ao que era ao final da Guerra Fria. baseada num novo equilíbrio de forças entre as nações. a contrario sensu da fragmentação da “primeira onda globalizante”. O que significa que em Londres não se deseja muito ou não se visualiza bem a península ocidental da Eurásia como megapoder estatal. a União Européia ficou de fora desta relação. inauguradas com o fim da Guerra Fria.. em Dest. o curioso relatório serviu para atrair a atenção para a existência de macrotendências do sistema mundial. Esses países. Rússia. De qualquer modo. jan. A primeira tendência que se anuncia é a de que só os grandes países do mundo de hoje. e que são pouco debatidas pelo público em geral.Severino Cabral mundial de poder estará apoiada na economia dos países cujas iniciais formam o acróstico: Brasil. e que se denominou Nova Ordem Mundial. podem aspirar a constituir um pólo de poder mundial. a característica principal do processo em curso. que serão amanhã os sustentáculos da mundialização. (20) : 37-41. sobretudo o sistema que sucedeu a bipolaridade.

é possível constatar a ressurgência das civilizações afetadas em seu destino histórico pelo mundo euro-ocidental e pela ciência e técnica moderna. o conjunto dos países da América Latina. O novo mundo latino-americano integrará uma grande área econômica capaz de impulsionar a criação de uma nova ordem mundial multipolar. ao processo de industrialização e assimilação da técnica e da ciência. Ao fazer prolongar a divisão da Coréia. sobretudo. um país e um povo com uma História tão rica e cultura multimilenar. se encontra hoje no centro de um debate sobre o futuro do sistema internacional. em Dest. congelada num cessar-fogo inalterado. a ponto de ser interpretado como o desafio maior do pós-Guerra Fria. Trata-se da emergência do mundo latino. Mas uma quinta e importante tendência pode também ser vista a influenciar de forma decisiva a configuração do mundo de amanhã. Como quarta tendência. (20) : 37-41. Trata-se de uma região de importância cada vez maior no jogo de equilíbrio do poder mundial. da Ásia e do mundo árabe-muçulmano. essa realidade ainda se faz sentir como pesada hipoteca sobre os ombros da sociedade asiática. O mundo que assistiu. Daí porque a reunificação da grande nação coreana. cuja estrutura geral começa a esboçar-se neste início de século e de milênio. Uma herança da época da confrontação. Id. da Coréia e do Japão transformou o mundo ásio-oriental na vanguarda do sistema internacional. mas que mantém focos de aguda tensão e instabilidade na península coreana e no estreito de Taiwan. despertou importantes forças irradiantes e insurgentes com a descolonização da África. Embora a Europa meridional seja parte fundadora do mundo latino.. cujo protagonismo possível encontra no futuro megaestado brasileiro seu principal ator.Severino Cabral A terceira tendência cada vez mais visível no horizonte internacional é o papel da Ásia do Leste como um dos pilares do mundo multipolar em gestação. 2006 39 . no pós-Segunda Guerra. o emergente bloco deverá reunir. essa realidade determina que se irradiem efeitos negativos – como o demonstra a grave crise desencadeada pela decisão norte-coreana de se dotar de uma certa capacidade nuclear – para a paz e o desenvolvimento da região e do mundo. Rio de Janeiro. sinalizado pela ressurgência do Islamismo como protagonista da cena internacional./abr. O megadesenvolvimento da China (que já adquire a forma de um megaestado). tem impressionado observadores de todo o mundo. Este último fenômeno. jan.

Severino Cabral As cinco macrotendências apontadas desenham uma linha central que aproxima e faz convergir as estratégias dos grandes países do mundo emergente. pode observar-se que a Coréia (tanto quanto o Brasil) depende. seu destino final neste processo depende. assim como de um ambiente interno favorável ao seu desenvolvimento. tão-somente em junho de 2000. embora tenham revelado a disposição dos governantes de realizar os anseios mais caros à nação coreana. acima de tudo. mais do que nunca. respectivamente Kim Il-Sung e Park ChungHee chegaram a estabelecer as bases de um primeiro acordo visando à reunificação da nação coreana. para consolidar o seu processo de industrialização e ampliar sua participação no sistema internacional. da unificação do seu espaço territorial. No cenário em que se situa hoje. jan. É neste contexto que deve ser vista e avaliada a política brasileira para a região e muito especialmente para com a Coréia. 4 de julho de 1972. em Dest. faz-se presente em seu entorno um quadrilátero de poder constituído pelos Estados Unidos. pois. Não por acaso as maiores potências do mundo atual. o histórico encontro de Kim Jong-Il e Kim Dae-Jung abriu caminho para o entendimento entre os dois lados. respeitadora das soberanias e da autonomia dos países emergentes. pelo Japão e pela Federação Russa. as condições da época não favoreciam a reaproximação e./abr. aproximar-se e unir-se numa pauta comum em defesa do desenvolvimento. equilibrada. ainda não se efetivaram. com base na política de paz e prosperidade. pela China. num esforço conjunto visando à reunificação pacífica da pátria coreana. a eleição de Roh Moo-Hyun fará emergir um segundo front de aproximação entre as duas partes da nação. Rio de Janeiro. (20) : 37-41. os líderes do Norte e do Sul. 2006 . dividida por contingências impostas pela ocupação do seu território por forças estrangeiras. Em plena Guerra Fria. enfrentando as resistências e inércias do status quo mundial. 40 Id. para que se coloque à altura de poder ombrear-se com os grandes estados da região do leste da Ásia. Ambos os governos deviam. No caso da Coréia. Finalmente. Daí as dificuldades reais que apresenta e a complexidade que assume o processo de unificação coreana – e que analistas ocidentais como Samuel Huntington e Zbigniew Brzezinski tanto alardeiam. de uma ordem mundial estável. Contudo. As dificuldades e complexidades explicam por que as iniciativas de reunificação.. Desse modo.

eleito em 2003. embora distantes geograficamente. O Brasil e a Coréia. inaugurada pela histórica realização da cúpula intercoreana de junho de 2000. Mas não se restringe à pauta comercial a importância desse relacionamento. O autor é membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra e Diretor-Presidente do Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacífico (IBECAP). cultural. na paz e na prosperidade da região e do mundo. a níveis bem mais altos do que os atuais 2. Essa cooperação deverá consagrar a idéia de que o relacionamento coreano-brasileiro é uma instância muito importante para o diálogo entre as nações e entre as civilizações contemporâneas. 2006 41 . poderá ser duplicado e vir a atingir um patamar de trocas em torno dos 10 bilhões de dólares. Rio de Janeiro. em Pyongyang. em muito pouco tempo. E. para enriquecer-se mutuamente. Estima-se que. para a elevação do padrão civilizacional do mundo. Enquanto no campo político-diplomático. que pode elevar-se. pela convicção de que sua própria segurança como nação soberana e independente deve apoiar-se na estabilidade. recebeu apoio brasileiro para dar continuidade à política de mãos estendidas. encontra-se o da ampliação do comércio bilateral. por seu potencial. contribuindo. (20) : 37-41. Dentre as oportunidades que ora se apresentam ao relacionamento coreano-brasileiro. Ambos os países partem do entendimento de que culturas e sociedades diversas devem alimentar-se de sua própria diferença. assim.Severino Cabral O Brasil sustenta com a Coréia do Sul a terceira balança comercial na região da Ásia-Pacífico. assim./abr. pacífica e próspera. o Presidente Roh Moo-Hyun. integrados numa ordem internacional harmônica. em Dest. nos campos político. devem assegurar em grau máximo a cooperação bilateral. pois os dois estados têm interesses comuns e convergentes no plano maior da viabilização do projeto nacional de ambos. Id. jan. Uma primeira e rápida avaliação demonstra o fato de que a busca de uma balança comercial mais favorável ao Brasil tem marcado a ascensão recente de nossas exportações com destino à Coréia do Sul.. cientifico e técnico.300 bilhões de dólares. sustentarem um verdadeiro campo de força capaz de estabilizar as pressões e garantir os interesses dos países em seu conjunto.

Marcelo Hecksher

China: Política e Religião
Marcelo Hecksher

Introdução
A História da China é ininterruptamente documentada desde a
dinastia Zhou (1027 a 221 a. C.).
É importante que as análises efetuadas situem os problemas
políticos atuais da R.P.C. no contexto da História, porquanto os chineses cultuam a sua História. Pela História relatada, poder-se-á
verificar que a China viveu grandes turbulências internas e externas, até anos recentes. A vida do país retrata séculos de sofrimento
e provação da sua população, motivados pelo isolamento em que
viveu a China, pelo culto às personalidades dos governantes, tanto
na época das dinastias quanto na República, pelas incursões de várias potências ocidentais, em ataques diretos à soberania do país, e
em função das políticas econômicas defasadas da realidade, em um
panorama mundial cada vez mais globalizado e interdependente.
Nenhum país pode ser comparado à China. Seu imenso território, sua população, hoje estimada em 1.250.000.000 de pessoas, composta de diversas etnias, sua geografia, com as mais altas
montanhas do mundo, os desertos mais inóspitos e os climas dos
mais variados, sua inacreditável unicidade no idioma escrito, a par
dos vários dialetos existentes, fazem com que todos os problemas
e suas soluções sejam grandiosos.
Viver na China significa constatar que nada conhecemos desse
país, chamado no dialeto mandarim de “O Império do Centro”.
Sempre que missões diplomáticas ocidentais, particularmente
norte-americanas, se encontram com governantes chineses, existe
uma cobrança, direta ou velada, por uma maior liberdade de expressão e religiosa na República Popular da China (RPC). E as
discussões sempre são orientadas pelos olhos daqueles que consideram o modelo norte-americano de democracia um objetivo a ser
perseguido, desprezando características geopolíticas e culturais.
Por liberdade de expressão, nesse caso, leia-se dar voz aos dissidentes. Por liberdade religiosa, leia-se deixar os líderes religiosos utilizarem suas tribunas para tratar de qualquer assunto, inclusive de política.

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Não sendo comunista, sinto-me totalmente isento para falar sobre esses temas. Assim, vamos citar alguns fatos relacionados com
as políticas do governo chinês, muitas delas contestadas pelos ocidentais, sem uma análise mais cuidadosa das razões que levaram à
adoção dessas políticas.

Economia
O governo da China, que podemos chamar de Partido Comunista
Chinês (PCC), uma vez que esse constitui um dos três poderes formadores da estrutura de governo na RPC (o PCC, o Congresso Nacional
do Povo – CNP e a Conferência Consultiva do Povo Chinês – CCPC),
sendo, em realidade, o poder hegemônico, com a política de abertura
econômica buscou atender à questão básica que norteia qualquer política governamental, em qualquer regime político: a busca do bem-estar
da população, obviamente pelo desenvolvimento econômico de maneira a fazer frente às necessidades de investimentos governamentais,
suprindo, por si só, as carências sociais, ou que atraiam investimentos
estrangeiros tal chinês eram “podres”, sem possibilidade de serem honrados. A falência das indústrias estatais, apesar desse sistema bancário que lhes dava suporte, estava anunciada e tinha data para ocorrer:
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a da saída das empresas estrangeiras que operavam na China como
“joint ventures”, cansadas de perder dinheiro, aguardando a explosão econômica do Império do Centro.
O suporte que era dado ao regime comunista na China, pela URSS,
deixou de existir com a queda do Muro de Berlim. Vários sinais anteriores a esse fato já haviam sido percebidos pelos chineses. As carências
econômicas da pátria do comunismo, o declínio do Movimento Comunista Internacional, tudo indicava que a China teria que buscar o mercado
como fonte de seu desenvolvimento. O propalado mercado interno de
mais de um bilhão de habitantes era uma quimera, considerando-se o
poder aquisitivo da população economicamente ativa.
O Partido supria as carências básicas de todos os seus filiados
e, também, da maior parte da sociedade. Mas, até quando isto seria
possível?
O dilema ideológico era: mudar de uma economia totalmente
dependente do Estado para admitir a propriedade privada. Como adotar
práticas capitalistas, se estas contrariavam tudo que o regime comunista chinês pregava desde 1º de outubro de 1949?
Sabendo que, até 2000, ainda existia em Pequim o sistema de
moradia dos “hutongs”, casas intramuros, separadas por estreitas
aléias, com o banheiro e a cozinha coletivos, pode-se imaginar a revolução de paradigmas criada pelos modernos prédios, pelos condomínios de casas modernas e luxuosas de propriedade individual, pelos
clubes, pelos banheiros ocidentais, abandonando as latrinas, tidas como
mais saudáveis pela cultura chinesa, em virtude da posição de defecar. Como aceitar que essas modernidades fossem utilizadas primeiramente por alguns, não sendo, portanto, compartilhadas por todos,
como no tempo dos “hutongs”, sistema de moradia popular criado
pela revolução?
É importante conhecer como o PCC tratou dessa questão, mudança de paradigmas.
Deng Xiaoping, o arquiteto da abertura econômica, cunhou
várias slogans, tão ao gosto da cultura chinesa: “hoje não é mais
crime ser rico”; “democracia com características chinesas”; e
“um só país, dois sistemas” foram expressões criadas para justificar, perante os membros do PCC, a caminhada da China aceitando
o jogo do mercado internacional, para dele poder desfrutar, desenvolvendo-se economicamente.
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Id. em Dest., Rio de Janeiro, (20) : 42-48, jan./abr. 2006

praticamente.Marcelo Hecksher E essa caminhada não podia envolver erros estruturais. com recursos minerais em nível muito superior. E a educação é a alavanca que desenvolve a China. Para isso. guerra com o Vietnã. motivada por ações da Inglaterra a partir da Índia. informatizado. ameaça das forças republicanas a partir de Taiwan. posicionada no eixo desenvolvido do mundo ocidental. a China traçou o seu futuro: ser uma potência mundial no ano de 2015. investiu-se em educação. No XV Congresso do PCC. posteriormente. leal. em Dest. O controle das comunicações passou a ser fundamental. realizado em 1995. engenheiro. Rio de Janeiro./abr. em todos os campos do poder nacional. forte. (20) : 42-48. 2006 45 . Corajoso. essa imagem mudou. Id. que viveu a Guerra Fria em toda a sua intensidade. O campo político continua fechado. Este fato é importante. tinha a sua imagem utilizada em todas as propagandas do Exército Popular de Libertação (EPL). o exemplo de militar chinês era o Soldado Li Pen. Vinte anos de desenvolvimento continuado. É a necessidade sentida de controle dos movimentos sociais nascidos a partir da mudança de paradigmas. Segunda Guerra Mundial. que até à consolidação da República Popular em 1949 sofreu revoluções. Em 1997. Guerra da Coréia. Foi escolhido para tal um capitãode-corveta da Marinha do EPL. e o seu reflexo explosivo na mudança de paradigmas da população envolvida. fluente em inglês. Até 1997. A China viveu isolada – ou praticamente isolada – do mundo não comunista até à abertura econômica. Um país de 1. em face do volume de informações que passou a transitar pelos meios eletrônicos. em face do que representam as imagens e símbolos na cultura chinesa. Guerra Sino-Japonesa. jan. ameaça de separação do Tibet. obediente. com. não pode se dar ao luxo de não ter sucesso. que deixou de ser império no ano de 1912. e. culto e pai de uma família tradicional: mulher e um filho.3 bilhão de habitantes. preparando e educando uma geração para absorver a moderna tecnologia desenvolvida na China ou comprada (ou roubada – observação do autor). Os seus cinco mil anos de História documentada haviam esgotado o seu poder de contrapor a cultura chinesa ao desenvolvimento do Ocidente. particularmente pela Internet. Não pode ser pensado como se pensa uma potência de 250 milhões de habitantes. a mesma área geográfica. com mais que o dobro de terras agriculturáveis..

46 Id. supera o de homens na razão de duas mulheres para cada homem. 2006 . no qual a família deixaria de receber o apoio do Estado (saúde. admitir a introdução da religião na discussão política seria uma temeridade. nunca abandonado – de o primogênito homem ter a obrigação de sustentar os pais na velhice. principalmente no campo. desde o Império. é a de líderes religiosos e nunca de políticos ou administradores. na velhice. a aposentadoria era paga pelas empresas estatais. para que fossem contestadas as práticas políticas. proibiu a realização de ultra-som no pré-natal. Rio de Janeiro. Os templos tibetanos estão espalhados por todo o território chinês. Inexistindo um sistema de previdência único. em caso de gerar mais de um filho. A figura dos Lamas. regime de filho único. A tal ponto essa situação se agravou que o governo.Marcelo Hecksher Dar voz ativa aos dissidentes. Em um país com a diversidade religiosa da China. Psicossocial Dentre vários aspectos a serem considerados. O número de mulheres na China. receberem o suporte do Estado. o Dalai Lama. a falta de mercado e a falta do dinheiro fácil da URSS colocaram em cheque a possibilidade de os chineses. educação. por exemplo. e que desencadeou a crise da Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial). inclusive do seu principal líder. ou da que vive em outras províncias da China. ocorreu o aumento do número de abortos dos fetos femininos e do abandono das meninas recém-nascidas. que se tornou um problema. em Dest. O governo chinês não admite é que seja aproveitado o momento religioso para a discussão política. foi a atitude tomada em 1987. Um reflexo significativo desse fato foi o recrudescimento do costume tradicional – em realidade. A liberdade de religião merece uma análise mais detalhada. capazes de cuidar da população que vive na região do Tibet. A queda de produção por ineficiência. merece especial atenção a situação da sobrevivência na velhice. jan. temendo o aborto provocado quando anunciado o sexo do feto. em algumas regiões. (20) : 42-48. federal. Em regime de controle de natalidade. Neles se professa a religião sem restrições.. moradia e até emprego)./abr. sempre foi parte da China. O Tibet.

jan. as potências ocidentais não levantam a voz. (20) : 42-48. se as religiões pregam mudanças sociais (que devem ocorrer) sem que ocorram no ritmo da cultura do país? Id. pois estão interessadas no petróleo da Bacia do Tarin. Não há como aceitar conceitos da democracia ocidental como válidos para aplicação na China de hoje. para 1. Uzbesquistão. no sul da China. Paquistão e Afeganistão). a do Iraque demonstram que a cultura não pode ser desprezada e que a História não pula capítulos. um Poder Judiciário aos moldes dos existentes nos países ocidentais. em Dest. 2006 47 . Permitir tal fato em um país com as dimensões da China seria uma temeridade. a província de Xinjiang (capital Urumqi). isento de preconceito ou deslumbrado pela realidade visível. surgiu um movimento religioso no qual seu líder se denominava “Filho de Deus”. apesar de lá ter vivido e procurado estudar a História e acompanhar a evolução política da China. rica em petróleo – onde a nacionalidade Uygur é maioria (apenas 12% de chineses Han) – província fronteiriça com os países do “ão” (Kazaquistão. Pensar em permitir a influência religiosa no estado chinês é uma temeridade. Conclusão Por minha cultura e formação. sinto grande dificuldade em emitir opinião. E contra a política de controle religioso na região de Xinjiang. No início do século XX. por exemplo. que se dá no Oriente. mais recentemente. Foram três anos de lutas intensas.3 bilhão de habitantes. A experiência da Rússia e. estaria ela hoje sobre o controle político de um regime muçulmano xiita. Como admitir liberdade religiosa plena. uma vez que esse movimento pregava a criação de uma nação independente. pelo modelo americano. com várias instâncias e tribunais especializados? O ritmo da abertura política não pode ser ditado pelos países ocidentais. É o exemplo típico da influência religiosa na vida política. Como implantar..Marcelo Hecksher Se assim o fizesse. por exemplo. onde os movimentos religiosos são escapes para os sofrimentos da vida cotidiana./abr. Kyrquistão. mas não trazem a solução para os problemas sociais vividos. Rio de Janeiro. no deserto do Talamakan. Tajaquistão.

na China. a História. Excluindo-se o aspecto evasivo da resposta. perguntaram a Deng Xioping qual teria sido a influência da Revolução Francesa na vida política da China. em Dest. não pula degraus. (20) : 42-48.Marcelo Hecksher Certa vez. 2006 . jan./abr. 48 Id. definitivamente.. Rio de Janeiro. O autor é Coronel-Aviador da Reserva da Força Aérea Brasileira. Respondeu Deng: é um fato muito recente para podermos analisar. ainda assim se pode inferir que.

após Napoleão sair do palco dos acontecimentos. junto à Corte brasileira. o Marechal-do-Ar Armando Figueira Trompowsky de Almeida. A Rússia decide impor medidas rígidas para assegurar o estado de coisas estabelecido. surgiriam as Colônias de Itajaí. pai e filho. Consolidador do Ministério da Aeronáutica Celso Paulino da Silva O nome Trompowsky inscreveu-se na História das Forças Armadas brasileiras. chamado à Polônia. O primeiro. A região atraía os europeus. Rio de Janeiro. Ali ela conheceu José Leitão de Almeida. Às tantas. Desse matrimônio nasceram dois filhos: Roberto Trompowsky Leitão de Id. cabe destacar a Colônia de São Pedro de Alcântara. implantavam-se as famosas colônias formadas por filhos de muitos países. junto à então cidade de Desterro. já se encontrava em pleno desenvolvimento. iniciado graças à visão de estadista de D. Certamente atraído pelos encantos daquelas paragens. em conseqüência do Congresso de Viena. que reformulou o destino da Europa. pelo desempenho que nelas tiveram dois grandes brasileiros. a seguir. A esta altura. jan. em Dest. no início do século passado. tanto que. o Marechal Roberto Trompowsky Leitão de Almeida. Joinvile e outras. vem de Ana Elizabeth Von Trompowsky. com quem veio a se casar. 2006 49 . Blumenau. Consolidador do Ministério da Aeronáutica. decide permanecer no Brasil../abr. (20) : 49-58. Este nome. Dentro desse quadro. O pai de Ana Elizabeth. nascida na Polônia. principalmente da Europa. De Norte a Sul.Celso Paulino da Silva O Marechal-do-Ar Armando Figueira Trompowsky de Almeida. em 1894. passou a se chamar Florianópolis. o nobre povo polonês começou a se revoltar contra a tutela direta e indireta da Rússia. e o segundo. Patrono do Magistério Militar do Exército. aquele país. decidiu o pai de Ana Trompowsky mudar-se para a cidade de Desterro. João VI. que ilustra uma admirável família brasileira. a qual. Seu pai representava. o denominado movimento de colonização do Brasil.

Os outros dois foram: Dr. a família regressou ao Rio. novamente. Sr. A filha casou-se com o Almirante-de-Esquadra Adalberto Menezes de Oliveira. Rio de Janeiro.429. Roberto Trompowsky Jr. Santos-Dumont arrebata o Prêmio Deutsch de La Meurth. O Decreto nº 51. 2006 . designou-o Patrono do Magistério do Exército. Prosseguiu sua grande carreira no Exército Brasileiro. o ilustre patrício. foi reformado no posto de Marechal. vindo da Europa. pessoas de grande participação e de excelente evidência na vida pública e social brasileira. é recebido triunfalmente. no seu histórico vôo no 14-bis. O primogênito viria a ser Ministro da Aeronáutica e a atingir o posto máximo da carreira: Marechal-do-Ar Armando Figueira Trompowsky de Almeida. Santos-Dumont consagra-se. nasceram quatro filhos. sobretudo. em Dest.. O primeiro seguiu a carreira militar. A 8 de fevereiro de 1887. Nos primeiros postos. no século XX. o ufanismo toma conta de todos. o circuito que envolvia o contorno da Torre Eiffel. e o segundo. iria viver em sua juventude. O filho Roberto assentou praça com destino à Escola Militar. sempre ligado à cultura e ao ensino. Em 1901. A 23 de outubro desse ano. ao realizar. os grandes acontecimentos da conquista do ar. com a dirigibilidade dos balões. (20) : 49-58. É de se imaginar o entusiasmo que deve ter 50 Id.Celso Paulino da Silva Almeida e Oscar Trompowsky Leitão de Almeida./abr. Todos eles se tornariam. Faleceu a 2 de agosto de 1926. ressaltavam seus pendores para o magistério. a de engenharia civil. No Brasil. nos limites estabelecidos. O Marechal-do-Ar Trompowsky. quando em 1903. Sob a orientação segura e inteligente de seus pais. Em 1869. na qual ingressou em 1871. jan. Armando Trompowsky entra para a Escola Naval no início de 1906. nascido a 30 de janeiro de 1889. futuramente. Em 8 de fevereiro de 1919. De seu casamento com Dª Luísa. Domingos de Andrade Figueira. sendo uma mulher e três homens. Como capitão. Dentre esses. foi assistente de Analítica e Cálculo do grande Benjamin Constant. filha do Conselheiro do Império. Otávio Trompowsky Leitão de Almeida (do Banco do Brasil) e Dr. de 13 de março de 1962. aos 66 anos de idade. revelaram-se sua inteligência e outros predicados. casa-se com a jovem Luísa de Andrade Figueira.

naturalmente. Permanece ali como instrutor e em outras funções até 1921. Rio de Janeiro. onde completa o curso de piloto a 3 de outubro do mesmo ano.-do-Ar Armando Trompowsky é confirmado. A 31 de janeiro de 1946. o então Maj. Id. em Dest. nos EUA. é promovido a Contra-Almirante e assume a Direção-Geral da Aeronáutica Naval.-Brig. Em abril de 1945. Já era tenente-brigadeiro-do-ar. foi Delegado do Brasil na Conferência ae Organização Internacional das Nações Unidas. Em 1932./abr. Por decreto de 23 de agosto de 1916. No mesmo dia da sua exoneração como Ministro da Aeronáutica. é promovido a capitão-de-corveta e. que logo começa a formar pilotos. pelo novo Presidente. realizada em San Francisco. assume a Chefia do recém-criado Estado-Maior da Aeronáutica. Em 1934. Escola de Guerra Naval e Diretoria-Geral da Aeronáutica. chega a capitão-de-mar-e-guerra. deixa a Chefia do Estado-Maior para assumir as funções de Ministro da Aeronáutica. Em 16 de fevereiro de 1940. posto a que fora promovido em 20 de setembro de 1946. é promovido a major-brigadeiro-do-ar.Celso Paulino da Silva envolvido os alunos daquela Escola voltada para o patriotismo. Em 1935. serve na Escola de Aviação Naval. em 1923. comanda a Escola de Aviação Naval. Vem para o Ministério da Aeronáutica com a criação deste. Exerce a Vice-Direção da Aviação Naval. Vai para a Inspetoria da Marinha e. é criada a Escola de Aviação da Marinha. No final do ano. Nesse ano. o General Eurico Gaspar Dutra. em 1933. Em novembro desse mesmo ano. passa a exercer as funções de Ministro do Superior Tribunal Militar. de todo o seu Ministério. Em 1936 e 1937. (20) : 49-58. a capitão-de-fragata. em plena formação. em 20 de janeiro de 1941. Ainda nesse ano. é promovido a capitão-tenente. o Primeiro-Tenente Armando Trompowsky matricula-se nessa Escola. Depois para o Comando da 2ª Esquadrilha de Bombardeio. em 1914. 2006 51 . Em 1º de abril de 1942. tendo sido exonerado das funções por Decreto de 29 de janeiro de 1951. para o Comando de Defesa Aérea do Litoral. é eleito o novo Presidente. Sai da Escola em 1909 e. jan. que competira com o Brigadeiro Eduardo Gomes. voltando posteriormente para a Escola de Guerra Naval. No ano seguinte. em conseqüência da renúncia do Presidente da República e. em 30 de outubro. a 17 de abril.. função que exerceu até o final do mandato do Presidente Dutra. no Ministério da Aeronáutica. já é primeiro-tenente.

iniciava-se uma nova ordem de coisas. sobretudo. o Consolidador do novo Ministério. o Ministro Trompowsky depara-se com os problemas que decorriam da consolidação do Ministério e do recebimento das bases americanas do Norte e Nordeste brasileiros. – Reorganização e ampliação do Estado-Maior da Aeronáutica. uma série de providências se desenvolveram. Havendo terminado a Segunda Guerra Mundial. Com vistas a esses largos objetivos. 52 Id. Pode ser considerado. Com efetivos pequenos. – Criação do Curso de Tática Aérea.. naqueles locais. Rio de Janeiro. – Reorganização das Bases Aéreas. Ao término da Guerra. foi necessário utilizar os aspirantes da Escola de Aeronáutica e os oficiais da Reserva Convocada. em Dest. 2006 .888 e 9. vindo a falecer em 16 de janeiro de 1964. condição mandatória do Poder Aéreo. jan.Celso Paulino da Silva Foi promovido a marechal-do-ar em 30 de janeiro de 1959. seu nome foi aprovado para a Cadeira nº 6 como Patrono. pessoal capacitado e. Ao ser criada a Galeria dos Patronos do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica./abr. para que as bases fossem preservadas e mantidas em funcionamento. a longo prazo. com justiça. – Reorganização das Unidades Aéreas. o desenvolvimento de uma indústria nacional como fator básico de independência. (20) : 49-58.889. pelos Decretos-Leis nº 9. Dentre elas cabe destacar: – Criação da Diretoria de Ensino. A evolução do equipamento aéreo pedia novas estruturas. Na condução dos destinos da Aeronáutica brasileira. Para a consolidação do Ministério da Aeronáutica. de 16 de setembro de 1946. o Ministro Trompowsky deu-lhe nova organização e reorganizou a Força Aérea Brasileira. Armando Trompowsky houve-se com elevado espírito patriótico e visão profissional de grande alcance. – Criação da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica.

– Ampliação e instalação da Escola de Especialistas da Aeronáutica. órgão que viria a se firmar no campo internacional. integrando as Regiões Oeste e Amazônica do Brasil. cujas obras de construção se iniciaram em 1947 e permitiram o funcionamento do ITA. no período da Administração do Ministro Trompowsky. 2006 53 . estimulado pelo apoio oficial. a do Acre. bem como. Marechal Câmara. – Criação da Comissão de organização do Centro Técnico Aeroespacial. viveu uma grande expansão no seu memorável objetivo de integração nacional. conseqüências da nossa participação na Segunda Guerra Mundial./abr. – Aquisição de prédio na Av. Com os aviões C-47 e tripulações devidamente adestradas. em 1947. – Construção de duzentos e trinta e quatro aviões Fairchild PT-19. iniciou as linhas sobre os Andes e penetrou a fundo pelo Brasil. Id.. – Instalação do Curso de Oficial Mecânico. – Criação dos Parques de Material Aeronáutico de Belém.Celso Paulino da Silva – Criação da Escola Preparatória de Cadetes do Ar. fortalecido pela atualização profissional e um fluxo de novo material. Recife e Porto Alegre. em Dest. – Criação da Comissão de Estudos Relativos à Navegação Aérea Internacional (CERNAI). – O Correio Aéreo Nacional. (20) : 49-58. em Curitiba. Rio de Janeiro. jan. em Guaratinguetá . inaugurou a primeira linha transandina para La Paz e. São Paulo. em 1950. reunindo nele os diversos órgãos do Ministério da Aeronáutica que se achavam espalhados em diversos prédios. Em março de 1964. como solução racional para defesa de nossos interesses no setor da Aviação Comercial. – Criação das Auditorias.

Pelo Decreto nº 9. aos poucos o problema foi sendo dominado. tendo como pontos marcantes: – Os Regimentos e Grupos passam a Grupos e Esquadrões. Foi criada a Comissão de Organização do Centro Técnico da Aeronáutica (COCTA). após a Guerra.889 foi reorganizada a Força Aérea Brasileira. Expandiram-se as Linhas de integração pelo mecanismo das subvenções. 2006 . ficando mais adequados àquele empregado na Segunda Guerra Mundial.. Rio de Janeiro. – Todas as Unidades Aéreas tiveram suas denominações e organizações mudadas. exceto os Grupos de Transportes. recentemente terminada. por Portaria Ministerial. acompanhado pelo Tenente-Coronel-Aviador Montenegro. O Táxi Aéreo foi regularizado. conseqüência do baixo custo dos aviões que sobraram daquele conflito. havia necessidade de engenheiros aeronáuticos. uma proliferação de companhias aéreas. (20) : 49-58. muitos problemas foram enfrentados. Smith. Vários engenheiros foram formados na Escola Técnica do Exército. tendo como órgão central a Diretoria de Rotas Aéreas. as Bases Aéreas tiveram uma organização harmonizada com a nova concepção operacional. dos quais 230 tinham escola de pilotagem./abr. Houve. em 29 de janeiro de 1946. no qual o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) teria a prioridade de implantação. em Dest.Celso Paulino da Silva – Ativação e ampliação dos Serviços de Proteção ao Vôo através dos Serviços Regionais de Proteção ao Vôo. Ao final de 1949. para dar curso à implantação do Plano elaborado pelo Professor Richard H. jan. subordinada ao Ministro da Aeronáutica. – Ainda no Universo da Aviação Civil. – Reaproveitamento de Oficiais da Reserva da FAB. Com a evolução rápida da Aviação nessa época. Foi criada a homologação dos serviços técnicos. Em decorrência daquele Decreto. o número de Aeroclubes atingira 331. Pelo controle das concessões de Linhas e restrições às iniciativas aventureiras. 54 Id.

Foi criado o Serviço de Transporte e ativado o Parque de Viaturas. A Diretoria do Material foi reorganizada com um novo Regulamento.. tendo sido criada. um dos grandes responsáveis pela existência do CTA e do ITA. aeroclubes do interior e os que possuíam escola de formação de pilotos. no posto de tenente-brigadeiro. A Diretoria de Intendência. no Almanaque do Ministério da Aeronáutica. portanto. Naquele ano de 1949. assim como a Lavanderia da Aeronáutica. de Belém e de Porto Alegre. jan. (20) : 49-58. em Dest. Concedeu autonomia administrativa aos Núcleos de Parque de Aeronáutica de Recife. reestruturou o Serviço de Saúde e criou o Quadro de Farmacêuticos de Saúde da Aeronáutica e o Curso de Formação de Enfermeiros da Aeronáutica. que fora iniciado em 1945. Em 1948. que passaram a funcionar como 4º Escalão de Suprimento e Manutenção.Celso Paulino da Silva As obras do CTA. em Marechal Hermes (Rio de Janeiro). cem aviões de treinamento avançado North American AT-6. construiu o Depósito Central de Intendência. No ano de 1947. foram trazidos por tripulações brasileiras. organizou as Fazendas de Pirassununga e de Jacarepaguá. instalou o Reembolsável Central de Intendência e os Reembolsáveis Regionais. Salgado Filho. ficaram prontos o Edifício Central do Aeroporto Santos-Dumont e o hangar nº 3. e no Depósito de Aeronáutica do Rio de Janeiro. Durante a sua gestão. permitiram que o ITA passasse a funcionar no primeiro semestre de 1950. iniciada com o Ministro Dr. iniciadas em 1947. o Ministério subvencionou várias Linhas de penetração interiorana. Em 5 de dezembro de 1947. o nome de Alberto Santos-Dumont foi incluído. em caráter permanente. e foi implantado o Sistema Kardex nos Parques do Rio de Janeiro e de São Paulo. Na área de Saúde. assim como. As obras da construção da ponte. Rio de Janeiro. que ligava o continente à Ilha do Governador. Através da Diretoria de Aeronáutica Civil. foram aprovados o “Regulamento para o Serviço de Investigações de Acidentes Aeronáuticos” e as “Instruções para a Concessão de Funcionamento e Realização de Tráfego das Empresas de Táxi Aéreo”./abr. Id. 2006 55 . foram adquiridas várias aeronaves para a Força Aérea Brasileira. pelo Ministro Trompowsky. foi inaugurada em 31 de janeiro de 1949. O Ministro Trompowsky foi.

independente. Rio de Janeiro. de acordo com a legislação em vigor. (20) : 49-58. culminando essas dificuldades com a renúncia do próprio Presidente da República. Por outro lado. é aposentado por completar setenta anos. pois era digno. também. Nesses oito anos de magistrado. Dentro desse clima. AT-11 e C-45) e 30 aviões de transporte bimotor Douglas (C-47 e DC-3). de 1946 a 1950. aos poucos. foram adquiridos 25 aviões de caça Republic P-47 “Thunderbolt” e 60 aviões de bombardeio médio North American B-25 “Mitchell”. 2006 . Foram adquiridos. foi promovido a marechal-do-ar. o grande líder da Aviação. as consciências e as atenções foram se voltando para os grandes objetivos da nossa Aviação. PELO RESPEITO DE UMA LEGÍTIMA COMPREENSÃO. O QUE ABSTARDA E AMESQUINHA” – palavras proferidas por ele quando presidiu a instalação do Clube de Aeronáutica. As paixões políticas estavam exacerbadas. distribuiu justiça. foi nomeado Ministro do Superior Tribunal Militar. no início. Numa síntese de tudo. a Aeronáutica acabara de viver horas difíceis. porém. vinte dias antes de deixar o Ministério. trouxera uma frustração para os seus liderados. Em 30 de janeiro de 1959. Este. A 16 de janeiro de 1964 veio a falecer. O final do ano de 1945 fora difícil para o País. a 5 de agosto de 1946 – motivo pelo qual é Patrono da Cadeira nº 6 do seu Conselho Superior. 64 aviões bimotor Beechcraft (AT-7./abr. Sua grandeza. e pela simpatia e eficiência do seu Ministro Salgado Filho. ao perder as eleições para a Presidência da República. em Dest. jan. não deve ter sido fácil ao Ministro conduzir. naturalmente tinha seus admiradores e amigos. sereno e compreensivo. O Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER) reconhece no Marechal Trompowsky um lídimo representante da “CLASSE QUE REPELE. Por Decreto de 9 de janeiro de 1951. Em 12 de março de 1959.Celso Paulino da Silva Ao final de 1947 e início de 1948. Eduardo Gomes. os negócios da Aeronáutica. 56 Id. fez com que se amainassem os ressentimentos e.. Quando iniciou sua gestão. por suas ligações com a Aeronáutica. Muitos outros fatos poderiam ser lembrados para enaltecer a administração do segundo Ministro da Aeronáutica. basta lembrar sua atuação serena e patriótica durante os tempos atribulados de então.

– Naturalidade: Rio de Janeiro (RJ) – Nascimento: 30 de janeiro de 1889 – Esposa: Séfora Franco – Filhos: uma filha – Data de Praça: 11 de abril de 1906 – Declaração de Guarda-Marinha: 12 de janeiro de 1909 Promoções – Segundo-Tenente: 6 de outubro de 1910 – Primeiro-Tenente: 3 de junho de 1914 – Capitão-Tenente: 30 de novembro de 1921 – Capitão-de-Corveta: 25 de fevereiro de 1932 – Capitão-de-Fragata: 15 de junho de 1933 – Capitão-de-Mar-e-Guerra: 21 de fevereiro de 1937 – Contra-Almirante: 16 de fevereiro de 1940 – Major-Brigadeiro-do-Ar: 1º de abril de 1942 – Tenente-Brigadeiro-do-Ar: 20 de setembro de 1946 – Marechal-do-Ar: 30 de janeiro de 1959 Cursos Acadêmicos – Escola Naval – Aviador Naval – Comando da Escola de Guerra Naval Principais Cargos e Funções – Instrutor de vôo na Escola de Aviação Naval – Comandante da Esquadrilha de Caça – Oficial de Ligação entre a Escola de Aviação Naval e o Estado-Maior da Armada – Chefe do Departamento do Pessoal do Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro – Auxiliar de Ensino na Escola de Guerra Naval – Secretário Militar na Escola de Guerra Naval – Comandante da Escola de Aviação Naval – Diretor-Geral da Aeronáutica Naval Id. (20) : 49-58./abr.Celso Paulino da Silva Dados Biográficos – Filiação: Roberto Trompowsky Leitão de Almeida e Luiza Figueira Trompowsky de Almeida. Rio de Janeiro. jan. 2006 57 .. em Dest.

grau de Comandante. jan. grau de Cavaleiro – Medalha Militar de Ouro – Medalha da Campanha do Atlântico Sul – Legião do Mérito. grau de Grande Oficial – Ordem da Coroa da Itália. 58 Id.Celso Paulino da Silva – Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica – Ministro da Aeronáutica – Ministro do Superior Tribunal Militar Medalhas e Condecorações – Ordem do Mérito Aeronáutico. 2006 . conferido pelo Governo americano – Brevê do “Command Pilot Wings” da Força Aérea Americana O autor é Coronel-Aviador Reformado e Vice-Diretor do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica.. em Dest. Rio de Janeiro./abr. (20) : 49-58.

até à Primeira Guerra Mundial. Mas o avião não foi a única novidade do conflito a suscitar elucubrações para descobrir seu emprego ótimo. o arame farpado. o canhão de retrocarga. o telégrafo. ou seja. a trincheira etc. uma solução em busca do problema. Id. mas constituía. foram o carro de combate e o rádio. que viriam a se relacionar em importantes sistemas. 2006 59 . A Arte da Guerra na Primeira Guerra Mundial Após as guerras napoleônicas. Após as guerras de secessão americana e de unificação da Alemanha. a que se juntou o radar no fim dos anos vinte do século passado. A mobilização nacional. o novo paradigma parecia estabelecido e. Assim. apareceram: a ferrovia. as opiniões de alguns militares competentes que participaram do conflito iriam originar as teorias que. as armas portáteis de repetição.. a metralhadora. para todos os países. o avião estava consagrado como arma de guerra. em conjunto com as estratégias nacionais. em 1910. pelos vinte anos seguintes. jan. segundo alguns.José Augusto Abreu de Moura A Evolução do Poder Aéreo entre as Duas Guerras Mundiais José Augusto Abreu de Moura 1. Rio de Janeiro./abr. Introdução Ao terminar o primeiro conflito mundial. (20) : 59-71. desmentira a infeliz afirmação do Marechal Foch. só fez se firmar. condicionariam. em Dest. 2. o desenvolvimento do Poder Aéreo. a forma terrestre de lutar foi sendo alterada a passos largos com a evolução tecnológica da Segunda Revolução Industrial. Duas outras importantes. constituíra a verdadeira Revolução nos Assuntos Militares observada na Revolução Francesa. pois não se sabia exatamente como ele poderia melhor fazer o que as armas fazem. as técnicas de administração. contribuir para a solução de problemas militares. de que não tinha valor militar. Este trabalho procura abordar alguns aspectos considerados interessantes e que cercaram a preparação dos poderes aéreos de alguns países no período entre guerras e avaliar seus resultados na Segunda Guerra Mundial.

A tecnologia havia materializado a mobilização nacional.José Augusto Abreu de Moura O decreto da “Levée en Masse” (23 de agosto de 1793) institucionalizara a já presente mobilização de corações e mentes dos franceses para a defesa de la Nation. da administração pública. tornando-a um paradigma seguido por todos os países europeus. e até fácil. aí incluída a população civil. em Dest. Rio de Janeiro. porém. para o emprego de linhas de batalha. O revanchismo da Guerra Franco-Prussiana e o “tradicional élan do soldado francês”. das comunicações e dos transportes fazia com que uma necessidade de recompletamento sentida pelo alto-comando resultasse num telegrama chegando à casa do convocado. determinando o dia de seu comparecimento a um quartel. a reposição das imensas perdas humanas causadas pela guerra de trincheiras. tais estruturas. integrava uma Unidade que pegava um trem e ia para a área onde seria empregada. 2006 . o progresso do registro civil. menos importante. Esse paradigma foi firmado na Guerra Russo-Japonesa. o sentimento entre militares de vários países de que aquela carnificina não se deveria repetir. com a revolução naval do século XIX.. e isso motivava a busca de alternativas para que a próxima guerra fosse diferente. com navios de ferro portando canhões de grande calibre e forças ligeiras (navios menores com funções auxiliares no combate). empregado contra o tráfego mercante. duas novidades importantes: uma com visível e perturbadora repercussão na estratégia – o submarino. divulgados de forma estudada. porém. ao fim da guerra. confirmado na batalha da Jutlândia e assim continuou após a Grande guerra. o conceito que galvanizava as massas e proporcionava voluntários mal-contados mas orgulhosos. o combate naval havia evoluído. o paradigma mais terrível firmado na guerra tenha sido o do envolvimento das estruturas nacionais. Cento e vinte anos depois. em virtude da grande dependência das Forças Armadas e das operações militares em relação à estrutura econômica e social dos Estados – agora. onde recebia equipamento e armamento previamente preparado. Houve. o que fazia mecânica. a outra. cuidavam dos corações e mentes. passaram a constituir objetivos militares. Havia./abr. jan. porém. reeditou o corsário e mostrou a capacidade devastadora que as modernas tecnologias proporcionaram às campanhas de negação do uso do mar. (20) : 59-71. Talvez. guardava para o futuro o mistério de seu potencial: no dia de Natal 60 Id. No mar também – a partir dos padrões da Marinha a vela.

se preocuparam em dotar seus países da melhor forma de empregá-lo. Até ao fim do conflito a Marinha britânica possuía cerca de doze navios para essa finalidade. Id.1 Giulio Douhet Sem dúvida. em Dest. 3. foi a época dos ativistas do Poder Aéreo – uns poucos participantes da Primeira Guerra Mundial que. torná-la mais curta e menos onerosa em vidas. Como esses paradigmas eram muito fortes. – não é mais possível realizar ofensivas bem sucedidas empregando forças de superfície. As Teorias do Poder Aéreo Para a Aviação Civil. (20) : 59-71. paradoxalmente. tínhamos a espinha dorsal que até hoje sustenta os serviços aéreos. 3. os ingleses realizaram o primeiro ataque aeronaval da História – contra a base de zepelins de Cuxhaven – a partir de três navios improvisados que lançaram e recolheram sete aviões.. fizeram-se convenções internacionais normativas e. o mais radical dos teóricos do Poder Aéreo via o avião como uma forma de envolver no conflito a totalidade da nação – estruturas e população civil – e. ao final.José Augusto Abreu de Moura de 1914. Tornou-se o primeiro e principal formulador do que ficou conhecido como bombardeio estratégico – o voltado contra as capacidades da nação inimiga prosseguir na guerra – e seu pensamento foi resumido por David MacIsaac da seguinte maneira: – a guerra moderna não faz qualquer distinção entre combatentes e não combatentes./abr. o período entre guerras foi a época em que a Humanidade procurou compensar o atraso de dez mil anos de civilização bidimensional: desbravaram-se o Saara e os oceanos. impressionados com as possibilidades do avião. Rio de Janeiro. os mais exaltados desses precursores enfrentaram problemas em suas instituições. criaram-se os primeiros serviços de correio e transporte aéreo. jan. Para a Aviação Militar. 2006 61 . o que implicava na mudança de alguns dos paradigmas firmados.

teve sua grande capacidade reconhecida e aproveitada. sozinhos.2 Hugh Trenchard Trenchard não era um teórico. o que foi considerado no período abordado por este ensaio e se popularizou durante a Guerra Fria. portanto. 62 Id. Oficial do Exército Britânico.José Augusto Abreu de Moura – as vantagens da velocidade e da elevação no cenário tridimensional da guerra aérea tornam impossível realizar qualquer medida defensiva contra uma estratégia aérea ofensiva. deixando o governo inimigo sem outra opção além de pedir a paz. tendo. proporcionar continuidade às operações militares. antes de tudo. dotada de aviões de bombardeio de longo alcance e mantida num permanente estado de prontidão. Atacar primeiro e atacar pesadamente para destruir o moral da população civil inimiga. jan. Na guerra. Trenchard nunca advogou a tese de que os bombardeios podiam por si mesmos. (20) : 59-71. pode-se dizer que era um prático. 2006 . quando se formou o Corpo Aéreo do Exército. construídas com a experiência de combate. devido à insuficiência de interceptadores. o governo e a indústria do inimigo. quando foi escolhido para organizar e comandar a nova Arma. possuir uma força aérea independente.. assim. e o comandou na França de 1915 a 1918. com a extensão nuclear dos conceitos de Douhet. ganhar a guerra. – para fazer isso é necessário. a Força Aérea Real (RAF). Tal linha de raciocínio pressupõe a possibilidade de dissuasão. – por esses motivos./abr. Enfatizava o bombardeio estratégico em vários níveis – de depósitos de suprimentos e pontes até siderúrgicas e minas de carvão – e considerava que seus efeitos psicológicos eram superiores aos materiais na proporção de 20 para 1. cargo que exerceu até 1929. achava que o enfraquecimento do moral do inimigo era uma espécie de pré-requisito para que os exércitos pudessem avançar com uma oposição bem mais fraca. em Dest. oportunidade de moldá-la às suas idéias. 3. Rio de Janeiro. Aprendeu a voar já como major. uma nação deve estar preparada desde o começo para lançar bombardeios em grande escala contra os centros populacionais. argumentava que a primeira tarefa da Aviação era atacar os aeroportos alemães para mantê-los fora do ar e.

a única forma de dar ao país a vitória na guerra. dois são dignos de menção. Id. foi submetido à Corte Marcial por ter chamado de incompetentes os líderes da Marinha e do Exército. ainda que em regiões urbanas. na qual ele predisse que: – a próxima guerra seria global. 3. em sua concepção. sentindo-se ridicularizado pela Marinha por ter expressado a opinião de que um encouraçado. que durou sete semanas. que previa como inevitável. maximizando os efeitos estratégicos da ação. (20) : 59-71. Em 1921. no Pacífico. embora admitisse o ataque a áreas industriais. segundo ele. desafiou a força naval para um teste. O teste foi realizado e o resultado foi o afundamento do encouraçado alemão Ostfriedland. Considerava importante o bombardeio estratégico.José Augusto Abreu de Moura Era contra o bombardeio indiscriminado de áreas residenciais. Para ele. podia ser afundado por um desses engenhos. em Dest. dava grande valor às aeronaves de combate e. jan. os bombardeios deveriam atingir o maior número possível de fábricas e não necessariamente destruir umas poucas. mas. 2006 63 . o pânico se espalharia mais na população e induziria ao absenteísmo. já com 38 anos.. o enfrentamento entre as forças aéreas oponentes ocupava lugar de destaque. o ataque a Pearl Harbour e às Filipinas. ao contrário de Douhet. Dentre os choques que travou com as estruturas. – os acontecimentos da futura guerra contra o Japão. Essa Corte Marcial. Mitchell era um estudioso de Estratégia e causava-lhe exasperação a falta de atenção das autoridades com o desenvolvimento do Poder Aéreo. inclusive. e era observador americano na França quando os EUA entraram na guerra em 1917. – os EUA enfrentariam o Japão./abr. que se tornou seu mentor. Conheceu muito bem Hugh Trenchard. se converteu na realidade em um seminário sobre Estratégia e sua teoria do Poder Aéreo. Em dezembro de 1925.3 William (Billy) Mitchell Mitchell também aprendeu a voar como major. pois assim. que custava mil vezes mais que um avião. tendo lá estabelecido e comandado o Corpo Aéreo do Exército Americano. Rio de Janeiro.

estava disposto a gastar generosamente com carros de combate e aviões. (20) : 59-71. que já era uma força singular e comandada pelo segundo homem na hierarquia nazista./abr. tendo-se resignado a prover. os pilotos alemães estavam aprendendo importantes lições na Guerra Civil Espanhola: era extremamente difícil localizar e atingir alvos com alguma precisão. O Desenvolvimento do Poder Aéreo Como não poderia deixar de ser. a Opção pela Quantidade Segundo o historiador Marcio Scalércio. – um forte Poder Aéreo era a única forma de enfrentar com êxito tal situação. do ponto de vista político. em Dest. jan. Hitler tinha os objetivos expansionistas definidos no Mein Kampf. nessa época. e o moral da população civil era menos frágil do que supunham os defensores do bombardeio estratégico.. no esquema operacional da “blitzkrieg”. pois não acreditava que outro líder posterior aceitasse tais desafios. mas ele morreu em 1936 e. 64 Id.1 Na Alemanha. Assim. Havia um grande defensor do papel independente da Força. um apoio às forças blindadas que era equivalente ao de uma artilharia móvel de muito longo alcance. que interferia bastante na estrutura militar. e a consciência de que eles tinham que ser atingidos durante sua gestão. não ter pleiteado um papel mais independente. o rearmamento alemão foi extremamente rápido. citadas no item anterior.José Augusto Abreu de Moura – os navios-aeródromos não poderiam fazer frente à aviação baseada em terra. 4. que via. como armas de terror. o desenvolvimento do Poder Aéreo teve como condicionante básico uma estratégia nacional dos países. O Führer. além das visões dos pioneiros. o General Wever. Causa estranheza o fato de a Luftwaffe. Rio de Janeiro. 2006 . além de dispensar muita coisa considerada necessária pelo EMG. da PUC-RJ. que contava com um exército adequadamente equipado e organizado não antes de 1943. 4. além de serem parte de um sistema de armas – a “blitzkrieg” – que prometia decisões militares rápidas. exceto os maiores. o que era coerente sua orientação. horrorizando o Estado-Maior Geral (EMG).

ainda que proporcionassem alguma precisão.2 Na Inglaterra. como a primeira força aérea independente no mundo. (20) : 59-71. Essa propensão inglesa ao bombardeio estratégico foi corroborada nos anos 1920 pelo livro de Douhet e. Na época do Armistício. havia sido conseqüência de um estudo realizado ao calor dos ataques realizados contra Londres pelos Zepelins e pelos aviões alemães Gotta que. 2006 65 . o que acrescentava a vantagem de a taxa de crescimento do número de aeronaves causar maior impressão aos inimigos em potencial. os protótipos dos quadrimotores não foram bem sucedidos e verificou-se que os bimotores poderiam ser construídos a um custo mais baixo e mais rapidamente. a Versão Trenchard dos Princípios de Douhet A criação da RAF em 1918. Desta maneira. o que ocorreria com a aplicação do conceito de bombardeio estratégico. os inimigos prováveis da Alemanha eram a Tchecoslováquia e a França. a estratégia alemã incluía a conquista de outros países passo a passo. além disso. de modo a utilizar seus recursos. Rio de Janeiro. jan. o que não era compatível com a destruição de suas indústrias e comunicações. em 1919. cuja primeira missão seria destruir a região do Ruhr. Em conseqüência. que podiam ser alcançadas por bombardeios médios. em 1917. haviam inaugurado a era do bombardeio estratégico. Estes. em Dest. Havia também outras razões: na época (1937-1938)./abr. decidiu-se investir no bombardeiro de mergulho. a partir de um conceito americano: abandonar a idéia da criação de uma força de bombardeiros pesados e investir na construção de bombardeiros bimotores. não permitiam o apoio aproximado.José Augusto Abreu de Moura Além disso. os ingleses planejavam criar uma força de bombardeiros de longo raio de ação.. a Luftwaffe se considerava equipada para fazer a sua parte – cooperar com o Exército – desde que a força aérea inimiga fosse neutralizada ou destruída logo no início da campanha. 4. nos anos 1930. sendo empregados contra alvos a alguma distância por trás da linha de frente. a força de bombardeiros foi constituída de uma grande quantidade de bombardeiros médios – Heinkel e Dornier – e uma pequena quantidade de bombardeiros de mergulho – Stuka. o que fazia parte dos planos. pela propaganda nazista que propalava a capacidade destruidora da Luftwaffe Id. Assim.

a Marinha reassumiu o controle do pequeno esquadrão aéreo da Esquadra. contudo. o navio-aeródromo substituiria o encouraçado. como prescrevia Douhet. A insistência desse civil acabou vencendo e. bem a tempo de aproveitar os novos interceptadores Spitfire. jan. contra uma ofensiva de bombardeio estratégico. Isso fez com que a ofensiva aérea fosse supervalorizada.3 O Avião como Sucessor do Canhão Naval (EUA) A Marinha americana se beneficiou do entrevero com o General Mitchell. cuja produção estava sendo iniciada. não havendo uma defesa possível. e ele foi. (20) : 59-71./abr. A comprovação prática de que os aviões eram capazes de afundar encouraçados possibilitou a definição do conceito operacional básico da Aviação Naval. em 1937. Rio de Janeiro. o jeito seria evitá-la ameaçando o terror com mais terror. veio a decisão de dar prioridade à construção do citado sistema e dos aviões. o que era coerente com a orientação implantada por Trenchard. em 1938. Isso parecia a melhor defesa porque. pela qual era responsável. para as de apoio ao Exército e à Marinha. 2006 . mas não investiu muitos recursos nele. destinados basicamente às tarefas anti-submarino e de busca aérea.José Augusto Abreu de Moura – o principal inimigo após 1933. É bem verdade que a RAF passou boa parte do período entre guerras lutando ferozmente para manter sua independência e relutava em desviar recursos da tarefa de bombardeio estratégico. e o avião 66 Id. 4. que continuou dotado de aviões de baixo desempenho. Vale dizer que. criando uma força de bombardeiros capazes de transportar grandes cargas de bombas a grandes distâncias e dando prioridade à construção desses aviões. durante bastante tempo favorável à prioridade acima citada. A Inglaterra possuía um órgão que definia as prioridades de defesa – o Comitê de Necessidades de Defesa (DRC) – do qual faziam parte os representantes dos ministérios civis e os das Forças Armadas. cuja busca estava consumindo esforços dos estrategistas e dos táticos: Dentro da concepção mahaniana. em 1936 ou 1937. mas a tecnologia indicava – um sistema de defesa aérea baseado no radar. o representante do Tesouro no Comitê começou a forçar a busca de outra alternativa – o que Douhet achava impossível. em Dest.. Tais fatos fizeram com que a Inglaterra adotasse uma estratégia de dissuasão. quando se percebeu a impossibilidade de obter a paridade numérica em bombardeiros com a Luftwaffe. de que esse seria o principal papel da força aérea.

os porta-aviões deveriam ter a capacidade de relançar os aviões armados com rapidez e estes deveriam ser capazes de portar armamento eficaz contra navios – bombas e torpedos. (20) : 59-71./abr. uma guerra no Pacífico contra o Japão. segundo alguns autores. uma marinha que houvesse tido a mesma idéia – e esse era exatamente o caso: a partir de 1932. mas também a cadência de tiro e a capacidade de destruição dos projetis. Rio de Janeiro. isto porque. 2006 67 .José Augusto Abreu de Moura seria o lançador de explosivos nos navios capitais inimigos. elas poderiam ter que enfrentar. a Marinha americana passou a explorar um novo campo de emprego do Poder Aéreo. uma das principais revoluções dos assuntos militares evidenciadas no segundo conflito mundial. constituída pela artilharia de tiro rápido. como foi o caso do B-17. pioneira nas operações aeronavais. enquanto a Marinha inglesa. 4. substituiria o canhão naval de grande calibre. Assim. Além disso – e aqui vai a adesão sem preconceitos a outras opiniões de Mitchell – seria necessário. o Admirador de Mitchell O Japão tinha duas Forças Armadas que. Assim. com exceção dos aviadores suicidas. além de possuírem forças aéreas próprias.. às forças navais. capacidade de realizar o bombardeio estratégico. continuava com a concepção tradicional. a principal arma no paradigma da linha de batalha. além de poderem operar dentro do raio de ação da Aviação de ataque baseada em terra. jan. a Força Aérea do Exército americano acabou desenvolvendo aviões que ultrapassavam as necessidades do apoio operacional às forças terrestres e tinham. passava a ser tema dos jogos de guerra na Escola de Guerra Naval americana. Id. em Dest. dispor de interceptadores para defesa aérea. O Almirante Niemitz dirá mais tarde que. faziam guerras separadas e disputavam prestígio. além da defesa antiaérea. Esta foi. todas as alternativas estratégicas empregadas pelos japoneses haviam sido jogadas antes da guerra. cuja Marinha também desenvolvia semelhante conceito de Aviação Naval. só que com um alcance muito maior. claramente.4 No Japão. ou seja. Embora os americanos não houvessem constituído uma Força Aérea independente – só viriam a fazê-lo após a Segunda Guerra Mundial – alguns estudiosos produziram pareceres aproximados aos princípios de Douhet sobre as vantagens da ofensiva aérea. Como os canhões têm como especificações importantes não só o alcance. no mar.

onde foi auxiliar do adido naval. de que a operação a partir das bases na França ocupada compensaria o curto raio de ação de seus debilmente armados bombardeiros bimotores e dos interceptadores que os escoltavam. Para os alemães. A Marinha japonesa. jan. tudo funcionou bem até à queda da França. A essa altura. normalmente com predominância do Exército. e desistiu da invasão da Inglaterra – que. cujas idéias procurou implementar em sua Marinha.José Augusto Abreu de Moura prioridades e verbas com algum açodamento. mas a Batalha da Inglaterra dizimou sua força de bombardeiros. A crença inicial. (20) : 59-71. 68 Id. a fim de formar o maior número possível de pilotos. ainda que em parte. Sua força aeronaval teve como um dos principais organizadores (para alguns. Dentre essas medidas constou a de despertar o interesse pela Aviação Naval. a vislumbrar a substituição do encouraçado pelo porta-aviões./abr. com as limitações impostas pela menor capacidade do Japão e tomando medidas em várias áreas para compensar. que constavam do Mein Kampf. no início dos anos vinte. nos anos trinta do século XX. de orientação nitidamente mahaniana. aspecto avaliado como crítico. Rio de Janeiro. em Dest.. serviu por dois anos nos EUA. maior capacidade defensiva. seu verdadeiro fundador) o futuro Almirante Yamamoto que. melhorada com novos carros de combate e a experiência adquirida. a Alemanha não podia fazer muita coisa. além da americana. o “gap” de poder que as separava. a esquadra japonesa que. não se verificou. estudou em Harvard e se tornou grande admirador de Mitchell. não constava do projeto político original – antes que sua força aérea se debilitasse tanto que comprometesse as operações seguintes – estas sim. foi a única. 2006 . Os Resultados Como seria de se esperar. também considerava a US Navy uma possível adversária no futuro. evidenciando a falta que fazia uma Aviação estratégica constituída de bombardeiros com maior capacidade de carga. o grande exame vestibular ocorrido entre 1939 e 1945 refletiu os efeitos das incorreções da preparação dos poderes aéreos diante da sorte da guerra. principalmente. 5. maior raio de ação e. e onde seria empregada a “blitzkrieg” já testada. afinal. procurou preparar-se à sua imagem e semelhança. Assim.

certamente. interceptador americano medíocre que. Justamente quando parecia que os bombardeios teriam que ser suspensos. no início da guerra. o que os salvou na Batalha da Inglaterra foi o sistema de defesa aérea com radares. negligenciada ao contrário da dos alemães. Os interceptadores. que operavam à noite. foram superexigidos. (20) : 59-71.. A dissuasão dos bombardeiros havia fracassado e as poucas incursões realizadas contra a Alemanha só tiveram como conseqüência a interferência de Hitler junto à Luftwaffe para realizar ataques de represália contra cidades. os efeitos dessas ações eram considerados pequenos em face do poder industrial alemão e. e foi determinante para a realização do desembarque na Normandia.José Augusto Abreu de Moura Para os ingleses. Seguiu-se a alteração dos objetivos para as fábricas de aviões e as usinas de óleo sintético essenciais à Luftwaffe que. a ofensiva aérea foi aos poucos sendo fortalecida pelos pesados bombardeios da Força Aérea do Exército americano que. que ficara pronto exatamente em 1940./abr. em Dest. que a primeira vitória da campanha de bombardeios estratégicos foi a destruição da Força Aérea alemã. contribuindo para a derrota do exército na Grécia e em Creta. a defesa das cidades alemãs estava infligindo perdas inaceitavelmente altas aos aviões anglo-americanos. o que. se não foi um efeito negligenciável. Rio de Janeiro. desviando esforços dos objetivos realmente estratégicos – fábricas de aviões. estava longe de ser o propósito para o qual a força de bombardeiros havia sido criada. não era um de seus objetivos originais. o que permitiu fazer a escolta desses aviões e engajar a defesa aérea. conseguiam precisão um pouco melhor. operação básica para a vitória aliada. conseguiu desempenho superior ao dos interceptadores alemães com o raio de ação de um bombardeiro. em 1943.. Id. apareceu uma arma salvadora – o P-51 Mustang. o que. então pouco numerosos. merecendo a conhecida frase elogiosa de Churchill. os bombardeiros ingleses. Com a entrada dos EUA na guerra. Apesar da prioridade que haviam recebido. ao receber o motor do Spitfire. A Aviação de apoio às forças terrestres. Mesmo assim. 2006 69 . foi deficiente no início da guerra. centros de treinamento de pilotos etc. foi praticamente destruída. desta maneira. jan. Vemos. sendo diurnos. não obtinham resultados esperados devido à falta de precisão nos ataques. assim.

Os porta-aviões ingleses eram apenas navios que lançavam e recolhiam aviões e estavam longe de serem substitutos dos encouraçados. ao contrário dos ingleses. sem dogmatismos. contudo.José Augusto Abreu de Moura O esquadrão aéreo da esquadra inglesa fez milagres apesar da má qualidade de seus aviões. o piso abaixo. se notabilizando pelo ataque à Base Naval italiana de Taranto. ao que parece. nem mesmo a Marinha. enquanto os japoneses e americanos levavam de 80 a 100. em pouco tempo se recuperaram. graves problemas trazidos por orientação estratégica inadequada porque. e seu 70 Id. com sua notória capacidade industrial. no ano seguinte. jan. 2006 . também nesse ano. Os japoneses fizeram o que podiam. não possuíam. em 1941. Para se ter uma idéia. a quem cabia a defesa da Índia e do Ceilão teve que se refugiar em portos africanos para não ser destruída pela Aviação Embarcada japonesa. bons interceptadores. haviam iniciado a formação de pilotos navais com certo atraso. quando um encouraçado e um cruzador de batalha foram afundados. mas estavam por demais exigidos com uma custosa guerra terrestre da qual não conseguiram se livrar. em Dest. Rio de Janeiro. em 1939. quando a Esquadra do Oriente. reabastecidos e rearmados no convés de vôo. após o período de perplexidade dos anos vinte do século passado. por aviões japoneses e. mas a falta de maiores investimentos nessa capacidade foi sentida em diversas ações.. seis contratorpedeiros e em avarias graves em dois encouraçados e um portaaviões. de onde tinham que ser levados ao convôo para a decolagem e deste trazidos após o pouso. Não tiveram. e que podiam ser estacionados./abr. quando a total superioridade aérea da Luftwaffe resultou na perda de três cruzadores. que só podiam fazê-lo no hangar. souberam adaptar-se às contingências da época. que teve dificuldades com os “Zero” japoneses mas. no início da guerra. Seu material era adequado às operações realizadas mas. (20) : 59-71. além da guerra naval onde seu destino foi decidido. para quem a defesa aérea do território nacional não constituía um problema. Os americanos. após a queda de Singapura. Isso indica que o tempo para relançamento de uma nova vaga não havia sido considerado em suas especificações. na Malásia. um navio-aeródromo inglês de primeira linha levava somente de 24 a 30 aeronaves. como as realizadas ao largo de Creta.

no caso da Alemanha. na guerra do Iraque. na Batalha de Midway./abr. apesar do importante efeito cumulativo de cinco anos de bombardeio sobre suas indústrias. 5. Posteriormente. que venceu a batalha contra os bombardeiros alemães devido à opinião de um civil – o representante do Tesouro no DRC e o da Marinha americana. num cenário em que a enorme disparidade de forças favoreceu o atacante. felizmente. em Dest. pois as “armas feitas para não usar” nunca foram realmente usadas após Nagasaki. (20) : 59-71. a Segunda Guerra Mundial parece ter aprovado as iniciativas que não se limitaram aos dogmas e que alijaram os preconceitos para. O autor é Capitão-de-Mar-e-Guerra da reserva da Marinha de Guerra e Mestre em História Militar pela UNIRIO. jan. Mais recentemente. 2006 71 . estabelecer as estratégias mais convenientes às necessidades e possibilidades do país. Rio de Janeiro. só serviram para dissuasão. O moral das populações não caiu a ponto de forçar governos à rendição e. com base em análises sérias..José Augusto Abreu de Moura número não foi suficiente para sustentar as operações após as grandes perdas aéreas sofridas até sua segunda ofensiva naval. Conclusão No geral. os princípios de Douhet voltaram à baila com o advento da arma nuclear e. As idéias de Douhet referentes ao aspecto absoluto do bombardeio estratégico não foram demonstradas na prática. ou mesmo operacional: a destruição da Luftwaffe. Id. que colocou de lado as diatribes de Mitchell e aproveitou suas idéias tirando grande proveito. foram implementados sob nova roupagem – a do “Choque e Pavor”. o efeito do bombardeio estratégico que teve mais importância para a vitória aliada foi de natureza militar. em parceria com o Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB). dessa vez. que possibilitou o desembarque na Normandia. Há casos emblemáticos como o da Inglaterra.

por isto a Terra se tem transformado. o centro do Universo. em que se digladiam. Este é o fenômeno.Manuel Cambeses Júnior A Dinâmica do Processo Civilizatório Manuel Cambeses Júnior A base de tudo é o homem. em sua totalidade. Para nós. Os astros não giram em torno da Terra e isto foi provado por Copérnico. a Terra tem sido. de outro lado. extrapola a visão do historiador ou do antropólogo ao tentar dar essa explicação. A Terra. todos nós sabemos. o mundo de Ptolomeu. e. em um campo de luta. crescentemente. tem sido ocupada pelas mesmas questões e tem sido arrebatada pelas mesmas idéias. nos últimos quatro séculos. ao ser progressivamente ocupada pela civilização. não é mais. É fácil tanto para um como para outro explicar por que Atenas ou Esparta colocava o seu mundo na Grécia. 2006 . o centro de tudo. cada vez mais. E de idéias que. a prevalência das mesmas teses no mesmo espaço e a sua luta têm explicitado. a intransigência e suas aliadas: o mercado e a desordem natural. de um lado. conceitualmente. (20) : 72-78. há quatro séculos. em Dest. Diferentemente daquilo que tem sido propagado. a sua visão de mundo e a sociedade que cria. em seu interior. Para eles. na astronomia.. a razão e suas forças principais: o planejamento e a ordem construída./abr. Não é a globalização. contudo. ou Roma colocava o seu mundo no Mar Mediterrâneo. crescentemente. jan. as dualidades primitivas das sociedades humanas: a do centro com a periferia. Nossa tarefa. e a da barbárie com a cultura. a Terra. O homem e a sociedade humana têm em si variáveis e processos que podem nos permitir explicar a civilização ou o domínio crescente do homem sobre aquilo que o cerca. como foi por longo tempo. o entendimento deste pressuposto tenderia a restabelecer. ou por que se chegou a uma época em que o mundo está colocado no planeta Terra. é de fundamental importância o entendimento de que es72 Id. Na verdade. que olhamos sob o prisma das relações entre dualidades. É a civilização. cada vez mais. carregam o processo civilizatório. Rio de Janeiro. de forma estranha e paradoxal. Entretanto. Entretanto.

Manuel Cambeses Júnior tes contrários sempre formam uma única unidade. nos últimos quatrocentos anos. hoje. a forma dessas soluções sempre foi a mesma: o pacto. tem sido feita. em todos os pensadores que discutem o progresso humano: a vida social e a sua acompanhante permanente. num ensaio. O Estado-Nação constitui o resultado das soluções silenciosas e progressivas das questões que surgiram da convivência humana. Existe. imenso planeta. para ele. como sua última criatura: o Estado-Nação. Um para o outro. seja aquele que advém da composição de vontades. A linha que liga as hordas à sociedade atual – à civilização – é um contínuo de Id. também. Seja aquele resultante da imposição do mais poderoso e que. permanentemente. Nem o trabalho. estabelecer o preciso momento e a melhor via em que se deram essas soluções. A idéia de Estado-Nação é um pensamento muito elaborado. é buscar o inalcançável. 2006 73 . desde que se levantou sobre as patas posteriores e andou em alguma planície desse. um produto da razão./abr. jan. a vida política. é inegável que o homem se aproximou do Absoluto. é a ciência. porque a disputa desse espaço. uma unidade dos contrários. Entretanto. (20) : 72-78. o trabalho. há a sua antítese – o universo. As razões dessa aproximação com o Absoluto são várias. defrontou-se com a intransigência. Rio de Janeiro. E estas têm. Entretanto. através do espaço e do tempo. decorre da racionalização de desvantagens. antes de tudo. que é finito. se inconformou. A mediação entre esses contrários foi. na época. Mas também é a afirmação de uma dominação. que é limitado. até à época das luzes. As perguntas iniciais permanecem sem respostas. portanto. Seu entendimento pressupõe o caminhar por uma linha ininterrupta de idéias. chegar a esse estágio no processo civilizatório requereu um permanente embate do homem com o universo. é unânime.. portanto. Há uma tese original – o homem – mas. A conquista é uma ação de cooptação. O homem. em Dest. Essa é a verdadeira explicação. resulta da racionalização de vantagens. com muito maior vigor e rapidez. nem a ciência desvelam o ignoto. Querer. As contradições permanecem intocadas. E isto se tornou possível porque assumiu a posição de ordenador de seu contraditório: a natureza – materialização primeira do universo. O pacto é. que ligam as hordas às grandes potências. pelas partes que compõem o todo. desde que racionalizou. Uma. E desde que se inconformou. e que. no entanto. Entretanto.

se defronta internamente com muitas dualidades. a mais visível expressão da razão. onde se verifica empiricamente a formulação proposta e que foi por nós nomeada como teoria do retardo. Ruptura e equilíbrio transitório. Roma era bárbara. Grécia era a periferia. Bizâncio era bárbara. os árabes eram bárbaros. As mais importantes para a sua existência são. há ações que desencadeiam a desordem e há ações que restabelecem uma nova ordem. em sua inteireza. Pérsia era culta. a Península Ibérica era a periferia. fruto de seu inconformismo. (20) : 72-78. Veio o tempo. Em síntese. em um novo patamar. 2006 . O EstadoNação é a última estação dessa linha ininterrupta de acordos. Grécia era o centro. De certa forma. Veio o tempo. Pode-se observar passagens da História da civilização. Nada pode explicar melhor a marcha do processo civilizatório do que o aceite da teoria do retardo e das rupturas que nela estão consignadas e que resultam da ação ordenadora do homem. Conceituamos a resignação e a emoção como formadores da intransigência. pelo gênero humano. mas a última praticada./abr. assim. Rio de Janeiro. Roma era a periferia. isto se expressa nas idéias contidas nos versos abaixo: Pérsia era o Centro. talvez. Grécia era culta. essa posição ordenadora se processa por ondas sucessivas. E essa síntese nos acompanhará ao longo deste ensaio. enquanto consideramos o inconformismo e a razão como os estimuladores da conquista do universo. Roma era culta. A idéia de Estado Nacional resulta. Veio o tempo. Esta nova ordem é início de uma nova desordem. A uma ruptura processada segue-se uma nova ordem. mas a última conhecida. O homem. em nossa opinião: o inconformismo versus a resignação. Bizâncio era o centro. o processo.Manuel Cambeses Júnior pactos.. Não a última. da posição ordenadora do homem. Conhecer o Estado-Nação é conhecer a história da razão e de seus pactos. e a razão versus a emoção. Veio o tempo. jan. Entretanto. O entendimento de que o Estado-Nação resulta da razão é importantíssimo. estes se alternam. sendo. Os árabes estavam no centro. em Dest. Não a definitiva. Grécia era bárbara. portanto. 74 Id. Bizâncio era a periferia. Roma era o centro. Sintetizamos. os árabes estavam na periferia. Bizâncio era culta.

Dentre essas. O centro não tem a dinâmica. Id. A Inglaterra era o centro. de forma inequívoca. a América era bárbara. a capacidade de vetorizar a barbárie. a Península Ibérica era bárbara. o que. à cultura. algo imanente. Quanto mais bem sucedido for o centro na repulsão dessas forças. sucessivas vezes. dois outros papéis: o de atrator e o de organizador. o fluxo de idéias etc. Rio de Janeiro. no decorrer deste processo. jan. em muito. pode também contribuir para seu papel de repulsor. o predomínio sempre transitório no processo civilizatório. podemos citar: a migração. O tempo virá. pode ser assim resumida: toda periferia busca o centro e toda a barbárie busca a cultura. que aqui foi nomeado como teoria do retardo. sobre a barbárie. além de mostrarem. A América é o centro. mostram. Veio o tempo. A Inglaterra era culta. A simplificação estabelecida permite ainda concluir que a dinâmica do processo civilizatório. a Inglaterra era a periferia. a ruptura e o estabelecimento de uma nova ordem. maior sucesso poderá ter o centro em permanecer centro.Manuel Cambeses Júnior Os árabes eram cultos. em Dest. esta exerce. (20) : 72-78. é o que movimenta as sociedades. A função de organizador dá. A América é culta. a Inglaterra era bárbara.. A função de atrator da cultura. buscando uma soma zero. de forma singela. O centro deve ser sempre visto como um castelo sitiado. A Península Ibérica era o centro.. Esses versos. O papel de repulsor do centro repousa na capacidade que desenvolve de repelir o que aqui nomearemos de forças de atração ou de avanço. de acordo com seus interesses. A Península Ibérica era culta. Veio o tempo. Veio o tempo. Já a cultura. na transformação delas em forças centrífugas. fornece a dinâmica ao processo e provoca a atração da periferia para o centro. e que resultam da busca do centro pela periferia. objetivando minimizar sua resultante. o comércio. O papel de articulador do centro reside na capacidade que desenvolve de organizar as forças caóticas que existem na periferia./abr.. 2006 75 . a América era a periferia. no sentido de compô-las. que é atributo exclusivo da periferia. O centro exerce sobre a periferia dois papéis: o de repulsor e o de articulador.

só a mais competente barbárie é que pode aspirar provocar ruptura. do lado da barbárie. apesar de mobilizadora. apesar de contemplativa. Da análise procedida verifica-se que a barbárie mais competente tem duas características claras: em primeiro lugar. Rio de Janeiro. suas funções atratora e organizadora no centro. pois essa só consegue preencher. Outro ponto muito importante é o fato de que o centro nem sempre é a cultura.Manuel Cambeses Júnior A ruptura se processa quando a barbárie atinge o centro com força suficiente para se impor. Esse choque entre periferia e centro. um alto grau de coesão social e uma posição contestatória da cultura dominante. Por isso é que a cultura do antigo centro sempre é absorvida pelo novo centro. no Estado-Nação. que é a condição para o sucesso do processo civilizatório. E essa ação ordenadora resulta dos pactos que se processam no âmbito das sociedades periféricas. tan76 Id. Esta é a razão pela qual enfatizamos neste ensaio o tema do Estado-Nação. portanto. Para se chegar ao centro se tem de ter coesão social e se tem de ser contestatório. nos últimos quatrocentos anos. de algo que resulte de um determinismo. contemplação e mobilização se juntam. dada a complexidade das questões postas. 2006 . em Dest. Periferias alinhadas nunca chegaram ao centro. Mas. A busca não é a materialização. jan. de acordos que só poderão se processar no âmbito do Estado-Nação. Por que Estado-Nação? Por que não simplesmente Estado? Ou por que não simplesmente Nação? Porque nem Nação./abr. Não se trata. e um alto grau de coesão social. também chamado por alguns de Estado Nacional. as relações no centro e na cultura. É por isso que o começo de um novo centro é sempre na barbárie. uma ação ordenadora para processar a ruptura. Trata-se de um fenômeno de natureza similar ao da fecundação. Nem toda periferia está fadada a chegar ao centro. exige. tornando possível a realização coletiva. Isto porque o conceito de Nação é uma abstração contemplativa. hoje. Resulta. ou melhor dizendo. nem toda a barbárie está vocacionada para chegar à cultura. é a barbárie mais competente. quando a antiga periferia passa a ser o novo centro. Assim como só o mais competente espermatozóide é que pode aspirar fecundar o óvulo.. (20) : 72-78. plenamente. também. e o conceito de Estado é uma abstração mobilizadora. assim. nem Estado são a mais elaborada ordenação humana na vida política e nem sozinhos foram capazes de alterar. E nem o serão nos próximos cem anos. Não é a periferia que rompe o centro.

sem as pressões de hipóteses preestabelecidas. as duas partes são múltiplas. na visão do filósofo. que se dá de forma repentina. Em todo processo social é o sonho que o move. Nova cultura. Aquele que começou vendo o mundo como um embate entre girondinos e jacobinos e acabou por vê-lo como um embate entre Leste e Oeste. Poderia. Desaparecendo os opostos. o tempo de transição da primeira para a segunda revolução industrial. Como o filósofo apresentou. Rio de Janeiro. um velho maniqueísmo recolheu-se. se só existem duas partes. a questão central do processo civilizatório. jan. a visão marxista poderia explicar as questões sociais do seu tempo. conseqüentemente. agora. Id. o século XIX. ser a conclusão de quem estivesse trabalhando sob a ótica hegeliana. pois só contemplava a busca econômica como a única responsável pelas modificações em todos os outros setores e. Após a queda do Muro de Berlim. essas colocações recuperam a visão de Hegel (1770-1831) em sua inteireza. Hegel afirmava que a razão universal ou o espírito universal era a mola propulsora da História. a simplificação marxista poderia explicar as revoluções do seu tempo. como de outro. Como a Física newtoniana explicava parcela restrita dos fenômenos da natureza. a evolução histórica resulta da solução da tensão entre opostos. Isto é óbvio. desaparecia. em Dest. O Estado Nacional Moderno se explicita por um Projeto Nacional. Para Marx. (20) : 72-78. mas sim o oposto: as condições materiais é que determinavam.Manuel Cambeses Júnior to de um. aquela que se dá no exclusivo mundo da mecânica clássica. nova barbárie. De certa forma. que existiriam soluções na tensão entre esses opostos. conseqüentemente. Ao assim fazê-lo. Ao se tratar dessas dualidades. Pode-se discutir. o que garante a permanente tensão e. a imortalidade da história. Novo centro. nova periferia. Marx achava que não era esse ente espiritual o demiurgo das transformações e que Hegel havia posto as coisas de cabeça para baixo. a tensão. Marx reduzia o sonho humano ao simples olhar econômico. Síntese feita. as espirituais./abr. em última instância. então. antítese colocada. ou da dualidade barbárie e cultura. tornando possível a construção de um Projeto Nacional. 2006 77 . Marx dizia que não eram os pressupostos espirituais numa sociedade que levavam a modificações materiais. Dessa forma. pelo rumo da História.. as condições materiais de vida eram decisivas para o processo histórico. ao tratar da dualidade centro e periferia. Entretanto.

Membro-correspondente do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra. mais proximamente. e japoneses. se sentiram latinos e recuperaram para o Lácio o fio condutor da História.. é o que se processa entre sociedades e não aquele que se dá dentro de uma sociedade. jan. E este sonho é muito mais claro e muito mais forte na periferia e na barbárie. negros. Em outras palavras. é chegada a hora de assumirmos a dinâmica que esses atributos nos impõe. da cultura contra a barbárie. mais antigamente. onde ibéricos. alemães e italianos. O sonho. E esta dinâmica se vetoriza com um Projeto Nacional. O que Hegel colocava em sua filosofia era a permanente dinâmica.Manuel Cambeses Júnior Cumpre. que somos considerados bárbaros e periféricos. a intransigência nada mais é do que a ação do centro contra a periferia. recuperar Hegel. fruto do espírito. O autor é Coronel-Aviador da reserva da Força Aérea. tudo aquilo que se opõe à dinâmica social. em Dest. Diferentemente do que Marx havia colocado. Poderemos ser ou não ser. Existe uma dinâmica social. entretanto. Espaço este. 2006 . Para nós brasileiros. é o impulsionador da História. Rio de Janeiro. Mas teremos de tentar. O maior dos choques é o que se dá entre o sonho coletivo de uma sociedade emergente e a intransigência. E a origem desta dinâmica é o sonho coletivo. holandeses. 78 Id. Se o conseguirmos daremos ao processo civilizatório um novo espaço em ser. o maior choque. o grande responsável pelo processo civilizatório. (20) : 72-78. Sonho que resulta e se processa no âmbito de uma sociedade./abr. índios. Membro Titular do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil e Pesquisador do INCAER. ou seja.

Araken Hipólito da Costa O Renascimento Araken Hipólito da Costa No seio da cultura ocidental. A fé vai perdendo sua exclusividade e a filosofia declara sua autonomia diante da teologia. provocou grande celeuma. que. Verdade é que as novas idéias propostas por Copérnico não tiveram a repercussão que podiam ter. prepararam o caminho para a tese de Galileu Galilei que. Para os pensadores cristãos da época. O movimento protestante é iniciado por Martinho Lutero. Fizeram. a natureza como o seu reino. sua autonomia. Esta teoria implicava em que o homem não habitava o lugar central do cosmos. a própria encarnação do Verbo não se terá dado no centro do universo. mas também deixaram de lado grandes valores. Em 1548. a História como sua criação e a Arte como expressão de sua superioridade sobre os demais seres da criação. Id. com uma hipótese revolucionária. apresentando três pontos capitais: a) a justificação pela fé. (20) : 79-81. Copérnico lançou a teoria do heliocentrismo. em Dest. no século seguinte./abr. 2006 79 . Reduziam a realidade às dimensões desta ciência. Rio de Janeiro. se descobriu a pólvora pírica e se chegou às Américas. por conseqüência. mas um planeta subsidiário. que contrariava a concepção geral então vigente. põe o sol como centro do universo e faz a Terra girar ao redor dele. O indivíduo é visto como valor absoluto. quis reformar o Credo e as instituições cristãs. Todavia. que desconhece a qualidade e as demais categorias que não sejam a quantidade. sem as obras. Defendiam a tese de que o tipo de conhecimento tem seu método próprio e. A razão torna-se a instância privilegiada de busca de sentido para coisas em geral. Foi assim que se inventou a imprensa. constituindo um processo que se notabilizou por buscar e favorecer tudo o que aperfeiçoasse o homem intelectual e praticamente.. a Renascença surgiu a partir de 1450. já solidamente adquiridos. E. jan. sem dúvida. isto era um tanto desconcertante. Os homens da ciência passaram a não aceitar mais o despotismo da filosofia e da teologia. a partir de 1517. Os defensores das novas teorias eram matemáticos. grandes descobertas.

Uma das descobertas mais significativas da História da Arte foi o método de criar ilusão de profundidade numa superfície plana – chamado perspectiva. percebemos já uma noção cara ao mundo moderno: a correta concepção da realidade é matemática. o que permitia aos pintores representar texturas e simular formas em três dimensões. diferente da clássica. analogamente o olhar do sujeito passa a conhecer a realidade. sucedeu a do crente.Araken Hipólito da Costa b) a Bíblia. por ser uma base pesada. entretanto. em nome do qual se operou a insurreição contra a autoridade religiosa. sujeita ao livre exame. 80 Id. presentes na antigüidade e no medievo. Como o olhar do pintor está fora do quadro retratado. Ao reinado do dogma. que fez da volta ao pensamento. Psicologicamente. substituiu-se pelo domínio da vontade. exorbitou do terreno religioso e alcançou todos os demais. c) a negação de intermediários entre Deus e o crente. assim como da medieval. Foi. pois permitiu o aumento das opções de cores. os artistas deixaram de pintar na madeira. com suaves nuances de tonalidades. cedem lugar às quantitativas. sucedeu o reinado da opinião. o que trouxe a reforma ao Ocidente foi o individualismo. que veio a ser a base da pintura européia nos quinhentos anos seguintes. tinham de lutar por uma nova forma de expressão. Todas as manifestações da atividade humana no Ocidente. jan. (20) : 79-81. o Renascimento. Através dela. onde as relações qualitativas. Assim. que facilitava o seu transporte e era um meio mais fácil de alcançar a burguesia que surgia. Neste período. 2006 . Eles passaram a trabalhar sobre uma tela esticada numa estrutura leve: o chassi. em matéria escriturística. o individualismo moderno. única fonte de fé. às formas estéticas e aos modelos políticos antigos uma das novas civilizações. com destaque nas Artes Plásticas durante os séculos que mediaram entre a reforma e os nossos dias. Ao organismo medieval. em Dest.. Rio de Janeiro. estão dominados por essa primazia crescente do indivíduo sobre a sociedade. A perspectiva implica em que as relações existentes são puramente matemáticas. O espírito do livre exame. A obediência à lei. tornando-se referência. desconfortável e de preparo demorado. mas relacionada a ambas e devedora de ambas. À autoridade da Igreja. A descoberta da tinta a óleo pelo pintor flamengo Van Eyck (1422) tornou-se por excelência o meio da Renascença./abr.

(20) : 79-81. O autor é Coronel-Aviador da reserva da Força Aérea e artista plástico. jan. a magia do sfumato. manifesta-se o aparecimento de um novo gênero que ultrapassa a temática religiosa: o auto-retrato. O mais famoso quadro do pintor: Monalisa ou La Gioconda (1503-1506) incorporava todas as descobertas renascentistas de perspectiva. Rio de Janeiro. da luz suave e atenuada. inventor. Com a invenção do espelho em Florença. escultor. em Dest. composição e. Há muitas obras suas inacabadas. sobretudo. arquiteto. Ao acentuar permanentemente os aspectos intelectuais da Arte e da criatividade. religiosos e políticos. Seu protótipo foi Leonardo Da Vinci (1452-1519). tornando-se um meio imprescindível para a leitura do transcurso da História.. cientista. Homem de grandes idéias. que chegou mais perto deste ideal. engenheiro. destituída de qualquer dureza. o termo fama surge no Renascimento. sendo motivo de estudos pelos alunos nas Escolas de Medicina. nem sempre realizadas. Id. ou seja./abr. Carreira de apenas trinta quadros. o rosto. Quando deu início ao seu primeiro projeto. anatomia. Leonardo transformou o status do artista. em Senhor e Deus. 2006 81 . Os pintores renascentistas começaram por se concentrar na possibilidade mais evidente de individualização. o que provoca um sem-número de sentimentos do observador. Leonardo da Vinci era pintor. O termo homem da renascença veio a significar um indivíduo de talentos múltiplos. Aliás. o artista era considerado um artesão servil. Leonardo fez mais que qualquer outro para criar o conceito de gênio-artista. segundo suas palavras. A pintura era também utilizada como reprodução da anatomia humana. que irradiava saber.Araken Hipólito da Costa Cabe ressaltar a importância da pintura desta época em registrar os momentos históricos.

(20) : 82-85. na intelectualidade e na mídia.. com a participação do historiador José Murilo de Carvalho. na busca da valorização da segurança e da defesa nacionais – condição básica para propiciar a concepção e implementação de um Sistema Nacional de Defesa. 2006 . inicialmente. que disponha de efetiva capacidade dissuasória para neutralizar ou minimizar as vulnerabilidades estratégicas do País. foi superada. há muito. a da Argentina. 82 Id. A própria Política de Defesa Nacional (PDN) expressa que “após um longo período sem que o Brasil participe de conflitos que afetem diretamente o território nacional. consciente desse problema. a percepção das ameaças está desvanecida para muitos brasileiros”. em setembro de 2005. em Dest. Uma das maneiras de tentar reverter essa situação é uma ação concertada e sistemática do Ministério da Defesa e dos Comandos das Forças junto aos formadores de opinião no meio político. É preciso. reconhecer que a ausência de mentalidade de defesa tem várias explicações de natureza histórica e política: – não há percepção de ameaça militar externa. aos interesses nacionais e à integridade territorial do Brasil”. realizou um seminário sobre o tema./abr.Ivan Fialho Mentalidade de Defesa no Brasil Ivan Fialho O desenvolvimento de uma mentalidade ou cultura de defesa no âmbito da sociedade brasileira constitui-se numa variável independente fundamental. orienta que “o desenvolvimento de mentalidade de defesa no seio da sociedade brasileira é fundamental para sensibilizá-la acerca da importância das questões que envolvam ameaças à soberania. O poder militar brasileiro está há vários anos aquém da estatura político-estratégica do País. Noutra passagem. justamente pela baixa prioridade que os governos vêm dando à segurança e à defesa. cujas principais idéias são abordadas neste artigo. Rio de Janeiro. o que gerou desinteresse pela defesa. a qual se traduz em dotações orçamentárias insuficientes e instáveis. jan. Muitas dificuldades se levantam para esse propósito. do Almirante-deEsquadra R1 Mário César Flores e do Jornalista e Professor Oliveiros Ferreira. A Escola Superior de Guerra.

mas que não devem desvirtuar a atividade principal que é o preparo para a defesa externa. apenas./abr. – o despreparo das elites – o que o preconceito e o desinteresse aportam suas influências – e vice-versa – é parte das deficiências das elites brasileiras. inclusive um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. especialmente nas áreas mais carentes e vazias. 2006 83 . durante a Guerra do Paraguai). hoje não mais acontece. – nossas guerras foram lutadas fora do território nacional (Segunda Guerra Mundial. de maior responsabilidade. esta com participação irrelevante). não tem prestigiado sua dimensão estratégica. precisa valorizar sua própria Segurança e Defesa. pois o País não dispõe de Forças Armadas com o “status” pretendido. endossada pela sociedade e pelo mundo político. sendo esta vista por largos setores da mídia e dos intelectuais como repressão política. em Dest. – por muitos anos. das interferências militares na vida nacional. Murilo de Carvalho. (20) : 82-85. sendo que essa incongruência pode servir de poderoso argumento em favor da ênfase na defesa. com inclinações para a liderança regional e que aspira maior projeção internacional. jan. no século passado. um País com a 14ª economia do mundo. como o fazem os países que pesam no cenário internacional. Rio de Janeiro. dado o processo de crescente profissionalização das Forças Armadas. – esse preconceito. Id. Ora. houve contaminação entre conceitos de defesa externa e de segurança interna.Ivan Fialho – o País não entra em guerra há muito tempo (a última vez em que houve invasão do território brasileiro foi em 1864. segundo o Prof. por suas atividades subsidiárias – atividades realmente importantes. por outro lado. Aliás. – os assuntos de defesa não empolgam a sociedade e por isso não geram votos nem atraem a atenção dos políticos que se concentram em questões de apelo eleitoral. principalmente. é um contra-senso essa pretensão. que deixam de oferecer à defesa nacional uma atenção adequada e competente. o que por sua vez gerou forte preconceito contra os militares.. o que. – o desinteresse e o despreparo chegam a ponto de freqüentemente as Forças Armadas serem conhecidas. deriva. Primeira Guerra Mundial. – nossa política externa. a propósito.

é malhar em ferro frio. aqueles que se desiludiram da política depois de vinte anos em que a palavra Democracia perdeu seu sentido e o Estado está se desfazendo aos poucos. seu potencial interno e. num processo que fragiliza o preparo do sistema militar. que a discussão da criação de uma mentalidade de defesa não pode ser separada do papel das Forças Armadas no Brasil e no mundo de hoje.Ivan Fialho Para o Jornalista Oliveiros Ferreira. Em outras palavras. é preciso planejar e deslanchar a solução para que se inicie o resgate da segurança e da defesa do ostracismo que as vem caracterizando. até mesmo. Acrescenta que “é necessário recuperar na sociedade brasileira. são postas à margem pelo governo e incompreendidas em sua missão.que se confunde também. por outro lado. em Dest. Não se pode esquecer. Será mais fácil aproveitar a ´insegurança´ total em que vivemos. no momento em que as Forças Armadas. antes de tudo. sob a direção de um pronto suporte. o sentido de ´Segurança Nacional´ . que tenha claro o que deseja para o País. seu papel de respaldo à inserção ativa da presença brasileira na ordem internacional (segundo o 84 Id. a idéia de segurança nacional permite congregar em torno dela. cotidianamente. além do consenso social sobre segurança e defesa. Ao contrário. De qualquer forma. porque é o único grupo que pode reunir os meios necessários para a preservação do país que representa. para mostrar aos cidadãos de boa vontade que cuidar do fortalecimento de Segurança. com a definição de preocupações. o problema envolve revisões estruturais. principalmente. com a segurança dos cidadãos diante do avanço do crime sob todas as suas formas. já a segurança compete ao Estado e à sociedade. induzido pelo próprio governo a que sustenta”. o de foros civis capazes de opinar além do aumento dos recursos orçamentários. vulnerabilidades e prioridades – o que transcende o sistema de defesa e exige a contribuição política e.. significa incorporar as grandes massas à civilização. é preciso interromper a lógica circular do desinteresse/desconhecimento/baixa prioridade/autonomia disfuncional/irrelevância/desinteresse/desconhecimento e por aí vai. por muitos anos.Falar em defesa. Para o bem do País. como se idéia-força fosse. 2006 ./abr. Rio de Janeiro. jan. provavelmente lento. a defesa compete ao Estado. (20) : 82-85.

Ivan Fialho Almirante-de-Esquadra Mário César Flores./abr. Rio de Janeiro. citando o livro que prefaciou – “Política Externa e de Defesa: a Síntese Imperfeita”.. 2006 85 . jan. Id. do Diplomata João Paulo Soares Alsino). (20) : 82-85. em Dest. O autor é Coronel da reserva do Exército Brasileiro e membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra.

de forma a otimizar as transações intra-empresas do mesmo grupo. observando-se mais uma internacionalização nas transações do que. em particular. baseou-se na solução adotada pelos Estados Unidos da América do Norte. nos atrativos e rentáveis mercados do Hemisfério Norte. quando da deflagração da Segunda Guerra Mundial. No Brasil. em Dest. apregoada como panacéia pelos Organismos internacionais manipulados pelos países industrialmente desenvolvidos e. Um fator importante para a inserção de tecnologias de interesse das Forças Armadas no parque industrial é a autonomia decisória das empresas e o interesse em absorver tais tecnologias para aplicação local e na inovação dos seus produtos e processos. 2006 . Dessa forma. (20) : 86-90. é destacada a participação de empresas transnacionais e assim sendo. persistem os bloqueios e as dificuldades de colocação para alguns produtos nacionais. Rio de Janeiro. com oportunidades de competir em condições vantajosas. Tais empresas. raramente a inteligência nacional é chamada para a geração de produtos destinados aos grandes mercados. jan. popular e profissional. em geral. propriamente. para o Sistema Nacional de Mobilização. utilizam suas filiais. como decorrência da acentuada presença de empresas estrangeiras. Esse é um aspecto peculiar no atual contexto. carecem de uma formatação viável. incompatível com a realidade tecnológica e industrial brasileira. sendo. O modelo. incompreensível e passivamente aceita por influentes segmentos da elite brasileira./abr. pelas políticas adotadas. trabalhando sob a direção de suas matrizes no país de origem. 86 Id. a política de abertura econômica indiscriminada. portanto. considerando-se as atuais e peculiares condicionantes do nosso País. a tão propalada globalização. ainda vigente. seguindo uma estratégia de maximização de lucros e interesses corporativos. em especial. já que.. para a produção de alguns materiais e componentes.Sergio Xavier Ferolla O Fomento da Indústria de Defesa como Fator de Preparo da Mobilização Nacional Sergio Xavier Ferolla Os abrangentes conceitos sobre Mobilização Nacional há muito sedimentados nos Fundamentos Doutrinários da Escola Superior de Guerra. fora dessa cadeia intra-empresas.

tanto para a manutenção do material e dos armamentos. devido às importações resultantes do processo desigual de competição. Rio de Janeiro. Boa parcela das empresas brasileiras e de capital nacional. com um parque industrial não sujeito aos mecanismos Id. no bojo de um projeto e para que resultem diretrizes balizadoras e passiveis de implementação./abr. quando muito. bem como na aquisição de máquinas e equipamentos para os novos processos que lhes são fornecidos.. especialmente a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). nosso país passa a não ter argumentos para proteger suas próprias empresas que. a nosso ver prioritária. em conflitos de prolongada duração. considerando-se o complexo cenário internacional e o momento de dificuldades e de transição política por que passa nosso País. necessitam contar com instalações logísticas adequadas e. Se a preocupação com os equipamentos e a qualificação profissional dos efetivos militares é condição essencial para o sucesso nas operações militares. em especial. quase sempre restrito aos laboratórios das grandes organizações transnacionais. como para a fabricação de partes e peças de interesse das Forças. Para tal. em Dest. Sob uma falsa ótica de modernidade. também se valem das vantagens da importação sobre a produção local. sobrevivendo assim por pequenos ciclos produtivos. a dependência de armamentos e acessórios produzidos no exterior pode inviabilizar a ação continuada das Forças Armadas. 2006 87 . (20) : 86-90. Porém. faz-se essencial um formal compromisso de apoio dos Organismos governamentais de fomento e financiamento. impondo uma política industrial divergente dos reais interesses nacionais. já que adquirem fora do país o “know-how” (como fazer). os Comandos militares sempre inseriram em seus planejamentos estratégicos a busca de uma auto-suficiência nacional. nos setores tecnológico e industrial. jan. investem na aquisição das informações tecnológicas ainda disponíveis no exterior. mas sendo-lhes negado o “know-why” (por que fazer).Sergio Xavier Ferolla tem propiciado a preponderância de um vetor comercial/exportador com orientação norte-sul. para prosseguirem atuando. bem como da diminuição da produção local de componentes. com a redução do espaço até então ocupado pelas empresas locais. Formatar um novo modelo de Mobilização Nacional é tarefa. partes e peças para os produtos ofertados pelas empresas alienígenas que atuam em nosso mercado doméstico. Por essa razão. principalmente.

Sergio Xavier Ferolla

de controle e bloqueios do exterior, uma vez que somente empresas de
capital nacional poderão ser consideradas mobilizáveis para fins de
Defesa, quando da possibilidade de ocorrência de conflitos militares.
Além dessa condição primordial, deve ser assegurada às empresas,
uma continuada capacitação tecnológica e produtiva, para que possam
fazer frente aos constantes aperfeiçoamentos, mantendo a garantia da
qualidade dos produtos, em suas áreas de especialização. Uma aquisição programada, mesmo de pequenos lotes, devido à rotineira carência
de recursos orçamentários, os quais chamaríamos lotes educativos, é
uma das formas eficazes de viabilizar a permanente mobilização dessas estratégicas e diversificadas empresas.
São premissas importantes, que deveriam constar como diretrizes do governo para uma Política e programas de Defesa e, como
ação imediata, julgamos essencial que o MD, coordenando o trabalho das Forças, viabilize a elaboração de catálogo das empresas
homologadas como produtoras de componentes, equipamentos e
materiais de interesse, nos moldes do trabalho elaborado pelo Centro Técnico Aeroespacial (Catálogo de Empresas do Setor
Aeroespacial do Brasil – CESAER). O recente lançamento do
“Diretório da Indústria de Defesa”, já representou um avanço
significativo em prol dos objetivos maiores.
Aspecto importante e condicionante básica a ser observada é a
certificação das empresas e dos produtos, de forma que a relação possa, em futuro próximo, servir, inclusive, como forma de qualificação
das mesmas para os processos licitatórios, excluindo, “a priori”, os
aventureiros que surgem por ocasião das aquisições, perturbando e,
quase sempre, prejudicando aqueles que investiram em desenvolvimentos
e engenharia dos produtos e dos processos, objetivando a qualidade
final e o atendimento dos requisitos operacionais especificados.
Dentro de suas limitadas possibilidades, as Forças Singulares,
há muito, desenvolvem esforços em busca da capacitação nacional
nos campos científico, tecnológico e industrial. Marinha, Exército e
Aeronáutica, com seus Centros de Pesquisas e Parques Logísticos,
têm gerado tecnologias e desenvolvido produtos que são transferidos
às indústrias nacionais, para a produção em série.
Nessa verdadeira batalha, não bastasse a carência de recursos
materiais e humanos, surge, rotineiramente, o difícil óbice da superação dos bloqueios tecnológicos, impostos pelas potências hegemônicas,
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os quais retardam e oneram os projetos de concepção local, obrigando
o desmembramento dos trabalhos de desenvolvimento em tarefas que
deveriam se limitar à simples aquisição, uma vez que materiais, componentes e dispositivos especiais, não acessíveis localmente e são ardilosamente bloqueados no mercado internacional. Como conseqüência, a
reação dos setores operacionais é, algumas vezes, de impaciência e
descrédito na engenharia nacional, pugnando pela simples compra imediata no exterior. O resultado dessa solução simplista é, não só, a criação de uma dependência de fornecedores pouco confiáveis como também e, principalmente, o enfraquecimento do parque industrial doméstico, agravando a evasão de divisas e a perda de preciosos e qualificados postos de trabalho.
Com uma visão de mais longo prazo, além das necessidades rotineiras dos produtos de interesse da Defesa, resta-nos, também, priorizar
aqueles setores ainda sob controle nacional e buscar investir em segmentos estratégicos, que de forma direta e ou indireta, gerarão subsídios para a participação da tecnologia e da empresa brasileira em produtos mais elaborados, capacitando-as para competirem no complexo e
seletivo mercado que a nova realidade internacional tem proporcionado, assim como para a produção complementar dos itens mais sofisticados de interesse das aplicações militares.
Esse modelo foi aplicado na Europa, na década dos 60, quando os
países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), na época, analisando a defasagem do seu parque industrial, frente, particularmente, aos Estados Unidos, concluíram pela necessidade da fixação de objetivos estratégicos, de médio e longo prazo,
que servissem de estímulo a um desenvolvimento regional auto-sustentado. Hoje, os resultados podem ser avaliados, com a moderna indústria européia ofertando, por exemplo, seus aviões Airbus, Caças de
última geração e seus foguetes Ariane, novos materiais, sofisticada
eletrônica e tantos outros produtos de elevado conteúdo tecnológico,
além de avançados equipamentos e sistemas de interesse militar. Tais
investimentos prosseguem, com os Estados nacionais destinando, para
os Programas de Defesa, consideráveis parcelas dos recursos alocados
para seus desenvolvimentos nos setores de C&T.
Os programas de sucesso da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, que já surtiram resultados concretos, segundo o modelo descrito, atestam sua validade e, como mostrado, não é outro o caminho
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ainda seguido pelos países industrializados, em plena era do propalado
modelo neoliberal, que falsamente prega a não participação do Estado na economia, cabendo, apenas, à livre iniciativa a responsabilidade
pelos investimentos em tecnologia e na indústria.
Os ainda modestos gastos do Brasil não podem ser colocados
como termo de comparação com as potências industriais, mas os
resultados já obtidos propiciaram especial significado em nosso parque industrial. São exemplos estimulantes, os benefícios auferidos
com o Programa Espacial; a EMBRAER; a fabricação de navios e
submarinos; a indústria eletrônica profissional, produzindo radares e
demais equipamentos de comunicações e proteção ao vôo; o desenvolvimento do motor a álcool; os armamentos convencionais e mísseis com tecnologia 100% doméstica; além do domínio da tecnologia
nuclear pela Marinha, que assegurou ao nosso país o domínio do ciclo
de produção do urânio enriquecido para os reatores Angra I e II;
entre muitos outros.
São conquistas que, se corretamente divulgadas e submetidas
ao crivo imparcial da sociedade, mostrariam a capacidade de realização da gente brasileira e que enchem de orgulho os anônimos cientistas, engenheiros e técnicos, civis e militares, guerreiros que, com as
armas da inteligência e da dedicação, superaram dificuldades materiais e bloqueios absurdos, somando esforços com os combatentes de
terra, mar e ar, a fim de assegurar, com a missão que lhes foi atribuída, a liberdade, o progresso e a soberania da nação brasileira.

O Ten.-Brig.-do-Ar Ref. Sergio Xavier Ferolla é Aviador,
Engenheiro e Ministro Aposentado do Superior Tribunal Militar.

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o Aluno quase entrou em parafuso. Era um “alemãozão” esquisitão. tudo isso na base do autodidatismo. Se eu morresse. (20) : 91-92. tinha que dar certo. não conseguia corrigir o vento. Esse mesmo Aluno já tinha sido contemplado por mim com algumas Fichas. No primeiro ano. muito susto. já que estava de serviço de Oficial-de-Dia. Havia. E logo que missão! Era uma tal de P1. ou seja. 71 e 72. ali mesmo de Natal (como eu). no entanto. mas a gente procurava destacar o lado cômico do cotidiano. Id. no Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM). Exemplo: “Orientado a fazer uma curva de grande inclinação. tendo repetido inúmeras vezes a mesma situação ante os olhares estupefatos do Instrutor”. E isso acontecia “de montão”. eu era Instrutor de Vôo. tudo era novidade./abr. porém Descoordenados Milton Mauro Mallet Aleixo Nos anos de 1970. quando meu Chefe (mui amigo!) mandou um colega para ficar temporariamente no meu lugar.. Era quando o Instrutor aprendia os segredos do ofício.Milton Mauro Mallet Aleixo Reflexos Lentos. para que eu fizesse uma missão com o alemão. jan. Esforçou-se. uns poucos que se revelavam difíceis de conduzir. que me fez passar uns belos sustos. que eram lidas pelo Oficial de Operações do Esquadrão para a galera de Instrutores. Eu tive um desses no meu plantel. havia os oriundos do 5º Grupo de Aviação. quatro Alunos. Rio de Janeiro. No nosso grupo de Instrutores. Cada Instrutor recebia. pelo tom enfático com o qual descreviam as manobras. Numa dessas ocasiões. na cidade de Natal. Havia as dificuldades de iniciante. na maioria tenentes. Era preciso aprender rapidamente as diferenças entre o temperamento de cada um. minha mulher teria ficado encrencada. quarenta minutos de parafusos até o Aluno aprender a fazer. em Dest. 2006 91 . as situações inusitadas. no início da instrução. e os que vieram de Fortaleza. nas reuniões das sextas-feiras. da Aviação de Caça. Outro exemplo: “Solicitado a fazer um oito sobre cruzamento. debalde”. 1970. eu estava de serviço de Oficial-deDia. pois eu não poderia estar voando.

Pensei ter chegado a minha vez. em Dest. os dois. porém descoordenados”. E. vivos. Pobre de mim! O autor é Coronel-Aviador da reserva da Força Aérea Brasileiro. pelo menos dessa vez. veio parar voando. ele prosseguiu: – Continua.Milton Mauro Mallet Aleixo Mas. De medo. na minha frente. A cada um deles. (20) : 91-92. que eu guardara atrás da minha cadeira. No fim dos quarenta minutos estávamos. Minha prancheta de perna. e com o mesmo Instrutor. No Conselho de Instrução (de Vôo). Mas a Ficha registrou o resultado da missão: “O aluno apresenta reflexos lentos. ele não foi desligado. minhas pernas tremiam no “palonier”. jan. menos mal. Não./abr. Rio de Janeiro. várias vezes. antes que eu tivesse meu pedido para falar interrompido por um “cutelo” desferido pelo meu Comandante de Esquadrão. 92 Id. 2006 .. perdi a conta. voltando aos parafusos. Foram muitos. um susto. o Comandante do Centro de Formação decidiu: – Continua.

J.José de Carvalho 22 .João Vieira de Sousa 12 – P-47 B4 – O Avião do Dorneles .Gustavo Wetsch 10 – História do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica . E. VOL. Magalhães Motta 17 – O Esquadrão Pelicano em Cumbica – 2º/10º GAv . VOL. VOL. 2 – De 1921 às Vésperas da Criação do Ministério da Aeronáutica. SÉRIE HISTÓRIA SETORIAL DA AERONÁUTICA BRASILEIRA 1 2 3 4 5 6 7 – Santos-Dumont e a Conquista do Ar . Magalhães Motta – A Última Guerra Romântica – Memórias de um Piloto de Patrulha .Marion de Oliveira Peixoto 14 – Alberto Santos-Dumont .Lysias Rodrigues 20 – CESSNA AT-17 .Adéele Migon 18 – Base Aérea do Recife – Primórdios e Envolvimento na 2ª Guerra Mundial Fernando Hippólyto da Costa 19 – Gaviões de Penacho .COLEÇÃO AERONÁUTICA DO INCAER SÉRIE HISTÓRIA GERAL DA AERONÁUTICA BRASILEIRA VOL. 1 – Dos Primórdios até 1920. 3 – Da Criação do Ministério da Aeronáutica ao Final da Segunda Guerra Mundial.Fausto Vasques Villanova – Força Aérea Brasileira 1941-1961 – Como eu a vi . E. E.Flávio José Martins 11 – Ministros da Aeronáutica 1941-1985 .Fernando Hippólyto da Costa – Com a 1ª ELO na Itália . 4 – Janeiro de 1946 a Janeiro de 1956 – Após o Término da Segunda Guerra Mundial até a Posse do Dr. Magalhães Motta 21 – A Pata-Choca .Ivan Janvrot Miranda .Aluízio Napoleão – Santos-Dumont and the Conquest of the Air .J. E.J.J.Aluízio Napoleão – Senta a Pua! . Juscelino Kubitschek como Presidente da República. Magalhães Motta 13 – Os Primeiros Anos do 1º/14 GAv . Magalhães Motta 16 – Lockheed PV-1 “Ventura” .Oscar Fernández Brital (ESGOTADO) 15 – Translado de Aeronaves Militares .Ivo Gastaldoni (ESGOTADO) 8 – Asas ao Vento .Os Primórdios da Atividade Espacial na Aeronáutica .Newton Braga 9 – Os Bombardeiros A-20 no Brasil .Rui Moreira Lima – Santos-Dumont – História e Iconografia .J. E.

no Topo .Giulio Douhet A Evolução do Poder Aéreo .J.Rio de Janeiro .gov.Nelson de Abreu O’ de Almeida Emprego Estratégico do Poder Aéreo .Tel: (21) 2101-4966 / 2101-6125 Internet: www. Guillaumet.Adyr da Silva (ESGOTADO) O Caminho da Profissionalização das Forças Armadas .Fernando Hippólyto da Costa 10 – O Roteiro do Tocantins .. Pinto e Geraldo Souza Pinto 13 – Vôos da Alma .Coriolano Luiz Tenan 7 – O Vermelhinho – O Pequeno Avião que Desbravou o Brasil -Ricardo Nicoll 8 – Eu vi.aer. de Mermoz.L. Seversky O Domínio do Ar .SÉRIE ARTE MILITAR E PODER AEROESPACIAL 1– 2– 3– 4– 5– 6– 7– 8– A Vitória pela Força Aérea .Jean-Gérard Fleury 2 – Memórias de um Piloto de Linha .incaer.A.RJ Cep: 20021-200 .Ivan Reis Guimarães 14 – Voando com o Destino .Marina Frazão 5 – Anesia .Coriolano Luiz Tenan 3 – Ases ou Loucos? .João Soares Nunes 12 – Piloto de Jato .Geraldo Guimarães Guerra 4 – De Vôos e de Sonhos . Saint-Exupéry e dos seus companheiros de Epopéia .Lysias A. S.Murillo Santos Aeroportos e Desenvolvimento .br e-mail: incaer@maerj.br .Carlos P. vivi ou me contaram .Murillo Santos A Psicologia e um novo Conceito de Guerra . 15-A.mil.Ronald Eduardo Jaeckel (no prelo) Pedidos ao: INSTITUTO HISTÓRICO-CULTURAL DA AERONÁUTICA Praça Marechal Âncora. Aché Assumpção 9 – Síntese Cronológica da Aeronáutica Brasileira (1685-1941) . E. Rodrigues 11 – Crônicas.Ivan Zanoni Hausen SÉRIE CULTURA GERAL E TEMAS DO INTERESSE DA AERONÁUTICA 1 – A Linha.Augusto Lima Neto 6 – Aviação de Outrora .. P. Magalhães Motta Da Estratégia – O Patamar do Triunfo . Centro .