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Id.Id.
em
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Dest.,
Dest.,Rio
RiodedeJaneiro,
Janeiro,n.n.18,
18,p.p.01-96,
96, maio/ago.
maio/ago.2005
2005
Id. em Dest., Rio de Janeiro, (x) : .....-....., jan./abr. 2005

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Edição
Divisão de Estudos e Pesquisa
Editor Responsável
Manuel Cambeses Júnior
Projeto Gráfico
Mauro Bomfim Espíndola
Wânia Branco Viana
Jailson Carlos Fernandes Alvim
Abdias Barreto da Silva Neto
Revisão de Textos
Dirce Silva Brízida

Ficha Catalográfica elaborada pela
Biblioteca do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica

Idéias em Destaque / Instituto Histórico-Cultural da
Aeronáutica. – n.1, 1989 –
v. – Quadrimestral.

Editada pela Vice-Direção do INCAER até 2000.
Irregular: 1991–2004.
1. Aeronáutica – Periódico (Brasil). I. Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. II. INCAER.
CDU 354.73 (05) (81)

Apresentação

É com subida honra e grata satisfação que a Direção do Instituto
Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER) apresenta o exemplar de número 18 da revista Idéias em Destaque.
Nesta edição, concernente ao segundo quadrimestre do ano
em curso, apresentamos doze artigos da lavra de diversos autores nacionais, contumazes colaboradores deste Instituto e do prestigioso periódico.
Como sói acontecer, neste compêndio procurou-se contemplar
uma ampla gama de temas que julgamos por oportuno destacar,
quer pela importância histórica em resgatar acontecimentos
marcantes da vida nacional quer como forma de transmitir conhecimentos de fatos vivenciados por nossa Força Aérea, além de inocular instigantes idéias sobre temas de natureza estratégica.
Focados nesses objetivos, cremos estar contribuindo, sobremaneira, para a divulgação de nossos vultos históricos, para o registro de fatos marcantes da Aeronáutica brasileira e, acima de tudo,
para a difusão de cultura geral.

Tenente-Brigadeiro-do-Ar Ref. Octávio Júlio Moreira Lima
Diretor do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica

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............................................ 2005 Sumário 1............7 Sérgio Xavier Ferolla 2.Idéias em Destaque Nº 18 maio/ago..... Desenvolvimento e Soberania.. 79 Paulo César Milani Guimarães 12... A Epopéia do 2068 .............. Centros Mundiais de Poder ................. Uma Política de Defesa para a Amazônia ......................................................... 53 Milton Mauro Mallet Aleixo 8....33 Luiz Paulo Macedo Carvalho 6........................................................ 57 Carlos de Meira Mattos 9........................47 Tacarijú Thomé de Paula Filho 7............ A Inesquecível 8BA .........................................................27 Fernando de Almeida Vasconcellos 5.............................15 Manuel Cambeses Júnior 3..............................................61 Manuel Cambeses Júnior 10......23 Lauro Ney Menezes 4................. 91 Pasqual Antônio Mendonça ..........Uma Nova Abordagem ..... Conseqüências e Reflexos da Participação da FEB na Segunda Guerra Mundial ................................ Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho: Um Notável Brasileiro ................ O Estado: Apreciação sob quatro Enfoques ....... Abreviaturas .................... O Processo de Criação na Pintura ...................... 73 Araken Hipólito da Costa 11................ Os Militares e o “Direito de Opinar” ....... Reflexões sobre a Educação .

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econômica e social. que no passado produziram as denominadas “políticas de fronteiras”. periférico. Contudo. de forma bastante diversa. sob o império do diálogo e do respeito ao direito universal. com uma minoria industrial e economicamente muito desenvolvida. Como fator agravante para os perceptíveis desajustes nesse macrocenário. maio/ago. atuando no centro do sistema. o princípio da soberania acompanha a evolução histórica.13. destaca-se a assimetria entre os Estados nacionais. em poucos e poderosos grupos transnacionais. 2005 7 . buscando sobrepor seus interesses a um mundo considerado. é um acirramento na disputa pelos bens essenciais à sobrevivência dos povos. cada vez mais dependente de tecnologias e recursos financeiros. porém. militares ou diplomáticas. dentro de um espectro de convivência que está longe de ser definitivamente organizado e no qual têm predominado as desigualdades sociais. em Dest. entendido este como categoria histórica e instituição política.Sérgio Xavier Ferolla Desenvolvimento e Soberania Sérgio Xavier Ferolla As Constituições brasileiras consagram como fundamentos do Estado os princípios da soberania e da autodeterminação nacional. São esses fundamentos que orientam as estratégias do Estado-nação. Tem-se atualmente como certo que a soberania implica uma visão sócio-econômica.. política e cultural. que tenha como ponto de partida o interesse nacional e como objetivo a permanente consolidação do País e sua continuidade histórica. o desemprego e a recessão. Nos dias atuais. de forma monopolista. científica e tecnológica. por eles. Rio de Janeiro. a revolução tecnológica no setor das telecomunicações e da informática tem propiciado à grande massa da sociedade a ilusória sensação da convivência em uma aldeia global. já não se limitando à questão geográfica dos limites territoriais. A realidade palpável. sem os quais não pode existir a cidadania e a nacionalidade. concentrados. Id. (18) : 7 .

burocratas e influentes lideranças políticas. Como o estamento militar representa um dos pilares para o posicionamento soberano da nação brasileira. mais recentemente. Boa parte desses líderes de ocasião. CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU. esses parâmetros também devem ser realçados em uma Política de Defesa. mas. principalmente. (18) : 7 . como símbolo de eras pré-históricas e do atraso. interesses políticos e econômicos alienígenas. com os interesses do comunismo internacional e. apregoando para os Estados já enfraquecidos. Associado a todos esses malefícios. em uníssono e em oposição à globalmente falida cantilena do modelo neoliberal. trabalho. veículos de comunicação. vem conduzindo o País à deprimente dependência do capital internacional e à alienação espoliativa de grande parte do estratégico patrimônio arduamente edificado pelo povo brasileiro. já é passado o momento da sociedade brasileira. em especial. em Dest.. Rio de Janeiro. a ideologia do Estadomínimo e a submissão passiva aos interesses do mercado. maio/ago. bradar com ênfase que não nos interessam modelos importados e que o desenvolvimento de uma nação não se mede tão-somente pelas variáveis comuns das estatísticas econômicas. bem como pela capacidade de atendimento às necessidades de alimentação. o fim das fronteiras geográficas. BIRD. pois não podem existir Forças Armadas.). visando à inviabilização de um sólido Estado industrializado ao sul do Equador. capazes de dissuadir aventureiros. 2005 . saúde. usando como instrumento as Agências internacionais que habilmente manipulam (FMI. sob o símbolo diabólico do neoliberalismo. como o Brasil. buscam argumentos para eliminar o pouco que resta do conceito de soberania nos países periféricos. além-fron8 Id. soma-se a histórica e perniciosa influência da geopolítica norte-americana. pela existência de um clima de igualdade de oportunidades para todos os cidadãos.13. Por tudo isso. educação e segurança do seu povo. bem como. cooptando destacados técnicos.Sérgio Xavier Ferolla No caso do Brasil. cumprindo o papel submisso que lhes é imposto. para tal fazendo confundir os sentimentos nacionalistas em efervescência desde a década dos 30 (1930). OMC etc. Sua ação nos dias atuais prossegue de forma mais sutil.

cuja continuidade certamente conduzirá a nação brasileira a uma situação de crise sem retorno e.Sérgio Xavier Ferolla teiras. maio/ago. Faz-se. citando. especialmente. em artigo sob o título “Os EUA e a ALCA”. Centros de Pesquisa e Desenvolvimento e das Forças Armadas nacionais.. (18) : 7 . geração e distribuição de energia elétrica. permanecendo 40% da população abaixo da linha de pobreza. com clareza de detalhes. se internamente nos permitimos conviver com uma população fragilizada. bem como a participação do capital externo na mídia e nas Universidades. Professor LUIZ DE TOLEDO MACHADO. “romper as condicionantes externas e internas como pressuposto básico para nossa sobrevivência. como tem enfatizado o ilustre brasileiro. após sua adesão ao NAFTA (1). portanto. se choca frontalmente com os conceitos da ALCA. urgente declarar a falência do modelo dependente e do pacto neoliberal a que fomos submetidos. em Dest. 2005 9 . Sobre a pretensa ALCA. tudo acompanhado do sucateamento dos Laboratórios. organizações. em que pese sua fronteira de mais de 3. em especial. trabalhos de competentes estudiosos brasileiros.13. Sobre o setor serviços. os inexpressivos resultados obtidos pelo México. Id. Tal projeto. sob os aspectos mínimos e essenciais para uma vida digna em sociedade. é importante destacar o firme e esclarecedor posicionamento do Professor Doutor PAULO NOGUEIRA BATISTA Jr. renomado escritor e incansável defensor dos fundamentos da nacionalidade.000 quilômetros com os Estados Unidos. sobressaindose aqueles de autoria do Embaixador SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES. correntes políticas e. da privatização danosa de empresas estratégicas em setores como telecomunicações. entre outros exemplos. através de um projeto efetivamente nacional”. jazidas minerais e de produtos fósseis. o falso argumento das vantagens relativas da participação em uma hipotética área de livre comércio das Américas. entre outros. parâmetro facilitador para uma proposta e teoricamente desejada integração. minuciosos e exaustivamente fundamentados. maximizando a “Questão Nacional” acima dos interesses menores de pessoas. demonstram. Rio de Janeiro. do mercado globalizado.

é minuciosamente analisado pelo Professor Doutor DALMO DE ABREU DALLARI. buscam se viabilizar como atores regionais. largamente utilizadas como instrumento de proteção contra a concorrência de produtores do Brasil e de outros países”. (18) : 7 .. ainda unipolar. assegurando caminhos alternativos envolvendo a questão nacional e a própria soberania do nosso país. serviços de energia e serviços relacionados à atividade industrial”. serviços profissionais (arquitetos. mais do que relevante sobre o setor serviços.). internas e externas. mostrando o grave aspecto da inobservância de Princípios e Normas Constitucionais. maio/ago. Se os possíveis acordos de livre comércio têm motivado a benéfica e auspiciosa mobilização da sociedade. NOGUEIRA BATISTA Jr.Sérgio Xavier Ferolla quando informa que “Os Estados Unidos oferecem e buscarão em contrapartida. “após a conclusão de negociações formais. turismo. amplo acesso a mercados em setores como serviços financeiros. Outro aspecto. em defesa dos interesses maiores da nacionalidade. não se subordine aos interesses maiores do Estado-nação e que. decorrente do esfacelamento do império soviético. advocacia etc. desenvolvendo harmoniosa e viável convivência no âmbito das Américas. serviços audiovisuais. culmine com sua aprovação pelo Congresso Nacional”. por exemplo. engenheiros. construção e engenharia. certos serviços de transportes. 2005 . nosso país tem contornado e sobrepujado as pressões e ameaças.13. como o Brasil. especialmente. Para realçar a ameaça dessa cláusula o Prof. Rio de Janeiro. informática. nesse conturbado cenário. “para os aspectos do mandato negociador aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos – ´Bipartisan Trade Promotion Authority Act´ – o qual especifica. que os EUA devem preservar as suas leis comerciais. contadores. telecomunicações. serviços de entrega rápida. no campo interno. bem como desbravando novos canais de relacionamento com países que. muito além de opiniões pessoais. caso o trato da questão ALCA. em trabalho sob o título “ALCA e Comércio de Serviços”. Graças ao patriótico e maiúsculo posicionamento do Chanceler CELSO AMORIM e sua competente equipe de diplomatas. alerta. de forma sorrateira e incompreensivelmente tolerada pelos novos governantes. publicidade. em Dest. a equipe 10 Id.

com as seguidas rodadas de licitação sendo promovidas pela ANP. caso não venha a descobrir novas jazidas. só dispõe. que não disporá de recursos financeiros e bélicos para assegurar o suprimento de óleo importado. aproximadamente. durante a fase em que a PETROBRÁS ainda terá capacidade de assegurar o fornecimento interno. oriundo de suas jazidas. no momento. e que vêem em nosso país um porto seguro para a satisfação de suas vorazes necessidades de consumo comprometidas pela inevitável escassez do produto em futuro não muito remoto e pelas ameaças constantes de turbulência nas regiões tradicionalmente produtoras. Assim. É esperado que a PETROBRÁS produza o volume diário de petróleo necessário à demanda interna. 3. que assinaram contratos com a ANP com 30 anos de validade. até 2014. facilmente identificáveis. o mínimo que poderá acontecer será uma exploração predatória das reservas nacionais. em Dest.. Com os dados disponíveis no momento.Sérgio Xavier Ferolla encastelada pelos interesses dos ideólogos do neoliberalismo na Agência Nacional do Petróleo – ANP prossegue alienando as jazidas nacionais do precioso e valioso ouro negro. de imediato. 2005 11 . vulnerabilizando o País. fragilizando de forma irreversível a nossa soberania. 4. Os contratos já firmados permitem a exportação do petróleo descoberto. abrindo sua exploração a empresas transnacionais. 2. quando o quadro de escassez e de tensões se acentuar no cenário internacional. ou seja.13. particularmente no oriente médio. A empresa. Se o Governo brasileiro não bloquear. Rio de Janeiro. que já teve assegurado reservas nacionais capazes de atender por 30 anos o consumo nacional. uma vez supridas as necessidades domésticas de consumo. Id. (18) : 7 . de estoques garantidos por uma década. Dois terços das áreas já licitadas foram entregues a empresas estrangeiras. maio/ago. alguns pontos merecem especial atenção: 1. cujo único objetivo é o lucro imediato e a satisfação de interesses alienígenas. já em 2005. essa inconcebível sangria do nosso subsolo. as empresas estrangeiras poderão exportar o petróleo excedente.

Também nesse campo. o modelo vigente é pernicioso para o País. bem como intensificando a busca por fontes alternativas de combustíveis. Dessa forma.13. Em aproximadamente 10 anos a PETROBRÁS poderá não estar mais em condições de suprir.Sérgio Xavier Ferolla 5. a abastecer nosso País. É. não é outro o caminho ainda seguido pelos países industrializados. especialmente aqueles oriundos da biomassa. maio/ago. como decorrência da exportação dos excedentes. bem como prosseguindo com a exportação da produção excedente. gerarão subsídios para a participação da tecnologia e das empresas brasileiras em produtos mais elaborados. cujos fundamentos foram seriamente comprometidos pelo modelo até recentemente vigente. desmentindo a falácia do modelo neoliberal. assim. como o álcool e os óleos vegetais. Rio de Janeiro. neste caso. com 12 Id. 7. 6. em curto prazo. porém cobrando os preços do mercado internacional. em Dest. incentivando a prospecção de novas áreas pela PETROBRÁS. impõe-se um planejamento e ações com visão de mais longo prazo.. a uma dependência onerosa das empresas estrangeiras. pelo contrato. além de possibilitar o acelerado esgotamento das jazidas nacionais. as empresas estrangeiras serão obrigadas. priorizando os setores ainda sob controle nacional e investindo em segmentos estratégicos que. de forma direta e/ou indireta. Autores e estudiosos conceituados garantem que o preço do petróleo será sempre crescente a partir de algum momento entre 2004 e 2010. (18) : 7 . pois nos conduzirá. prioridade nacional a reformulação do modelo no setor dos combustíveis fósseis. determinando novos rumos nas condenáveis ações da ANP. inclusive para adquirir o petróleo retirado de nosso próprio subsolo e a elas concedido pelas injustificáveis cláusulas contratuais. de forma a complementar o crescente consumo doméstico e. sobre os quais nosso País detém total domínio tecnológico e industrial. No campo científico. alongando o período de exploração econômica das preciosas jazidas ainda incorporadas ao patrimônio nacional. portanto. viabilizando a competição no complexo e seletivo mercado que a nova realidade internacional tem propiciado. a demanda nacional e. tecnológico e industrial. autonomamente. 2005 .

com a produção local do urânio enriquecido para o complexo de Reatores de Angra dos Reis. engenheiros.. a média da participação estatal em pesquisa e desenvolvimento está em 35%. São conquistas que. bem como dos inigualáveis recordes tecnológicos e industriais da nossa PETROBRÁS. técnicos e operários. ainda que modestos se comparados ao cenário internacional. destacando-se os Estados Unidos. mostrariam a capacidade de realização da gente brasileira. o desenvolvimento e a industrialização dos motores a álcool e o pleno domínio tecnológico da agroindústria suero-alcooleira. 2005 13 . Id. mas que poderão orientar ações dos órgãos de fomento e financiamento.Sérgio Xavier Ferolla o Estado investindo pesadamente em tecnologia e industrialização. em Dest. se corretamente divulgadas e submetidas ao crivo imparcial da sociedade. que enchem de orgulho os anônimos cientistas. o progresso e a soberania da nação brasileira. a fim de assegurar. (18) : 7 . com destaque para o novo e eficiente posicionamento do BNDES. civis e militares. constando para a área de defesa aproximadamente 54% do orçamento de P&D.13. que com as armas da inteligência e da dedicação. a liberdade. a produção de radares e equipamentos de interesse do controle da navegação aérea. sob o argumento de necessidades no campo da defesa. além do domínio da tecnologia dos combustíveis nucleares. ex-Ministro do Superior Tribunal Militar. superaram dificuldades materiais e bloqueios absurdos. O Brasil já auferiu resultados significativos com o modelo proposto. maio/ago. Na OCDE. a produção de armamentos convencionais e mísseis com tecnologia 100% doméstica. com a missão que lhes foi atribuída. São palpáveis e exemplares: o sucesso da EMBRAER. a fabricação de navios e submarinos. que apresentam um gritante predomínio de gastos públicos direcionados ao complexo industrial-militar. Rio de Janeiro. O autor é Tenente-Brigadeiro-do-Ar Reformado.

br .mil.aer.gov.Pedidos ao Tel: (21) 2101-4966 / 2101-6125 Internet: www.incaer.br e-mail:incaer@maerj.

habilidade. interessou-se pela Aviação. em 20 de janeiro de 1928. maio/ago. Embalado pelo ardente sonho de bem servir à pátria. de modo contumaz. dava os primeiros passos e começava a apresentar os contornos de algo que marcaria o modo de viver das pessoas em todo o mundo. fruto da inspiração e obstinação de um grupo de oficiais idealistas como Eduardo Gomes. O Marechal Montenegro. em Dest. em 20 de outubro de 1904. inexcedível clarividência e acendrado patriotismo. no Campo dos Afonsos.Manuel Cambeses Júnior Marechal-do-Ar Casimiro Montenegro Filho: um Notável Brasileiro Manuel Cambeses Júnior Neste trabalho. ingressou na Escola Militar do Realengo. naquela época. (18) : 15 . tornou-se merecedor do galardão e do prestígio que ora lhe conferimos. Tal era o grau de interesse. no Rio de Janeiro. pela sua diligente atuação. Ceará. Lavenère-Wanderley. que. figura inconteste de um invulgar e notável cidadão que. ainda na adolescência. nascia o Correio Aéreo Militar. onde ocupou a Cadeira número 3 – cujo Patrono é Alberto Santos-Dumont – nasceu em Fortaleza. Desde cedo. na primeira turma da Arma de Aviação Militar da então nascente Escola de Aviação Militar. Em 1923. comandado por Eduardo Gomes. 2005 15 .21. Naquele ano. Lemos Cunha e o próprio Montenegro. alcançando com rapidez destacadas e importantes posições. Rio de Janeiro. Foi declarado aspirante-a-oficial do Exército. movidos por um profundo sentimento de justiça e gratidão cívica. em 1931 foi designado para servir no Grupo Misto de Aviação. nesta edição da revista “Idéias em Destaque”. Patrono da Engenharia da Aeronáutica e ex-Conselheiro do INCAER.. responsabilidade e competência nas funções para as quais era destacado. mostrando. entusiasmo e comovente denodo dos homens envolvidos no desafio. que um mês Id. procuramos realçar a memória do insigne Marechaldo-Ar Casimiro Montenegro Filho.

Confabulou com alguns companheiros simpáticos à causa como: Juarez Távora. partindo do legendário Campo dos Afonsos. sendo um dos revolucionários de primeira hora. Seu espírito irrequieto e empreendedor.. a bordo da aeronave Curtiss Fledgling K-263. três dias depois. com destino a 16 Id. 2005 . coordenar e entusiasmar seus pares e subordinados. goiano e mineiro. completava-se assim a primeira missão do Serviço Postal Aéreo Militar.. decolou. a 15 do mesmo mês. Siqueira Campos e outros. rompera-se a limitação até então imposta pela Missão Francesa ao restringir os vôos a um cilindro de 10 km de raio. O Marechal participou ativamente da Revolução de 1930. realizaram a viagem inaugural. levou-o a desbravar novas rotas aéreas valendo-se de todos os meios de transporte terrestre. sua contumaz teimosia em perseguir objetivos e sua incrível capacidade de aglutinar.E. maio/ago. acompanhado de Lemos Cunha. (18) : 15 .O. Estava dada a partida para a consagração deste prestimoso serviço que tanto contribuiu para a integração nacional. não por idealismo políticopartidário. mas pelo seu imenso desejo de ver o país dirigido no rumo do desenvolvimento educacional e tecnológico. mais tarde batizado como Correio Aéreo Militar. Atualmente. Montenegro. Rio de Janeiro. do Campo dos Afonsos. percorrendo de trem. denominado Correio Aéreo Nacional. de libertá-lo do condicionamento em que se mantinha preso. transportando uma mala postal do Rio de Janeiro para São Paulo.Manuel Cambeses Júnior após a criação da Unidade Aérea. em um avião POTEZ T. Destarte. a cavalo e a pé o interior paulista. Com pleno êxito. sem que ninguém soubesse. merecidamente. a 12 de junho de 1931. aproximando os brasileiros dos rincões mais longínquos e carentes aos centros mais avançados do país. A Revolução eclodiu em 3 de outubro e. em Dest. ele mesmo e seus companheiros viriam a pousar. é detentor de um legado de glórias e. fixando os marcos de novos aeroportos. das monoculturas do açúcar no Nordeste e do café em Minas e São Paulo. goza de consagrado prestígio no seio da sociedade brasileira. os então Tenentes Casimiro Montenegro Filho e Nélson Freire Lavenère-Wanderley. sob a orientação de uma política interesseira e subserviente às conveniências da oligarquia agrícola. de automóvel. Eduardo Gomes. em torno do Campo dos Afonsos. onde pouco tempo depois. e de lá trouxeram outra.21.

O insigne Marechal sempre demonstrou. Casimiro Montenegro partilhava desse ideal e imaginava ser primordial o preparo de uma base sólida de recursos humanos e a formação de técnicos de alto nível. o então Cel. fatores fundamentais para a implantação e o desenvolvimento de uma indústria aeronáutica. tendo sido reestruturada em 1949. Rio de Janeiro. assumiu a Diretoria Técnica da Aeronáutica. Em lá chegando. Na década de 1940. Em 1943. maio/ago. em 1938.. Germinava. concluiu. quando dispuséssemos de uma escola que pudesse proporcionar a formação e a preparação de técnicos de alto nível. Daí passou a engajar-se em missões que objetivavam sobrevoar os quartéis de Minas Gerais.Manuel Cambeses Júnior Minas Gerais. (18) : 15 . o Curso de Engenheiro Militar na Escola Técnica do Exército. A primeira Comissão de Organização do Centro Técnico de Aeronáutica (COCTA) surgiu em janeiro de 1946. Dedicou-se intensamente à construção de bases para atividades industriais que assegurassem o desenvolvimento da Aviação e. O intuito dessas investidas era intimidá-los e conseguir a adesão de alguns batalhões à causa revolucionária. no posto de tenente-coronel. quando começou a pensar que somente teríamos uma indústria aeronáutica. atual Instituto Militar de Engenharia. forte vocação de pioneiro e visionário. conseqüentemente. Era um sonho que fascinava e um desafio a enfrentar. 2005 17 . entrou em contato com alguns revolucionários como Cordeiro de Farias e outros. jogando bombas e panfletos ameaçadores. no Brasil. os quais seriam imprescindíveis para deslanchar projetos mais ambiciosos que demandassem o pleno domínio de tecnologias sensíveis. em sua mente fértil e privilegiada. Entregue à sua capacidade e ao seu fervoroso idealismo. ganhava corpo a idéia de se criar uma indústria aeronáutica que pudesse atender às crescentes necessidades da Aviação em benefício do Brasil. Prosseguindo em sua brilhante carreira. do parque industrial do País. em Dest. Acreditava firmemente na força da educação como ferramenta do desenvolvimento. ao longo de sua vida. a idéia da criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Casimiro Montenegro Filho foi à procura das escolas que Id.21.

em 1950. e que. 2005 . especialmente nos Estados Unidos..21. a preparação e formação de quase cinco mil engenheiros. maio/ago. Regada inicialmente com o suor de seu labor e com o carinho e a firmeza de propósitos pelos seus pósteros. sistemas de armas e equipamentos de comunicação e navegação. Finalmente. que surgiu em 1953. o ITA e os engenheiros dele oriundos contribuem decisivamente para a ampliação de nossa cultura tecnológica no amplo espectro de aplicação da tecnologia de ponta. evidenciando a nossa capacidade em produzir e exportar aviões. o nosso parque industrial experimentou uma notável expansão. notável centro de treinamento e de formação de pessoal para a Força Aérea daquela nação. sob essa ótica inspiradora que nasceu o ITA. local escolhido para implantar o Centro Técnico de Aeronáutica que. portanto. em Dest. em 1948. veio a constituir-se na pedra angular para o desenvolvimento da promissora Indústria Aeronáutica brasileira. em 1969. em 1950. esta germinou em uma frondosa árvore que frutificou em 18 Id. o Curso de Engenharia Aeronáutica teve início em São José dos Campos. começou a transformar o sonho em realidade. O tempo se encarregou de evidenciar quão preciosa e visionária foi a promissora semente originalmente lançada pelo Marechal Montenegro. o qual.Manuel Cambeses Júnior mais se destacavam no ramo. fortalecendo. conseqüentemente. sendo responsável direto pelo elevado grau de desenvolvimento nos campos aeronáutico e aeroespacial de nosso País. Rio de Janeiro. auxiliado por uma equipe de oficiais da Aeronáutica e assessorado pelo Professor-Reitor Richard Smith. Lá visitou o Massachussetts Institute of Technology e o Wright Field. contemplando um enorme cabedal de realizações nos campos da Ciência e da Tecnologia. o que lhe confere elevado prestígio em nível internacional. transformou-se no Centro Técnico Aeroespacial. Foi. (18) : 15 . Foi assim que. o Poder Aeroespacial brasileiro. tem a seu crédito além da extraordinária folha de serviços. Como corolário da criação do complexo ITA/CTA. Pesquisa e Indústria. até hoje. O CTA registra uma abrangência e multiplicidade de atividades que ultrapassa suas cercanias físicas. Seus pensamentos caminhavam na direção de um modelo que foi perseguido por uma estratégia definida pela trilogia: Ensino. juntamente com o CTA.

padrão de senso de equilíbrio. maio/ago.Manuel Cambeses Júnior grandes conquistas como a produção de aviões civis e militares em grande escala e o domínio das técnicas de produção e lançamento de foguetes. No dia dois de dezembro de 1975. faceta fascinante de sua atraente personalidade. probidade. jamais perdeu a serenidade. concentração do poder e do mérito em um só indivíduo. com devotamento. em Dest. Sempre trabalhei em equipe. também. Objetivando prestar uma significativa homenagem póstuma ao ilustre Marechal. A verdade é que um homem de tal envergadura moral. histórica e ética deixou marcas indeléveis. é o de ter sabido despertar em meus companheiros o entusiasmo. proferiu as seguintes palavras: “Em toda minha vida profissional. em 26 de abril de 2000. jamais acreditei em messianismo. Rio de Janeiro. em proveito do povo brasileiro”. gesto amigo e carinhoso do ITA em homenagear e retribuir ao homem que dedicou à Aviação em geral. delegar-lhes autoridade com responsabilidade. e em particular ao CTA. patriotismo e espírito empreendedor. A vida do Marechal Montenegro sempre foi um exemplo constante de retidão e nobreza.21. em inúmeros setores da vida pública brasileira. (18) : 15 . 2005 19 . exortálos ao pleno uso de suas potencialidades e qualidades. E se algum merecimento tenho. em reconhecimento por notáveis feitos e. ingentes esforços e extremada dedicação. como forma de cultuar os grandes vultos nacionais de nossa Engenharia. estrelismo. uma constante Id. em várias iniciativas fecundas. Por todos esses notáveis feitos em prol da ciência. foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Em todas as múltiplas atividades que exerceu. tanto na vida acadêmica quanto nas lides castrenses.. maestria e tenacidade. Toda a sua vida transcorreu na labuta. a Academia Nacional de Engenharia o galardoou com o título de Patrono da Área de Engenharia Aeronáutica da Academia. profissional. energia inesgotável. Mesmo ao atravessar os momentos mais críticos de sua existência. ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ademais. em Dest. O Marechal Casimiro Montenegro Filho faleceu aos 95 anos. também esplendoroso. como leal companheiro e como chefe de família exemplar. pela preciosidade de seu exemplo. como administrador diligente e íntegro. proclamou o Marechal-do-Ar Casimiro Montenegro Filho Patrono do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. das mais positivas virtudes cívicas. por muitos 20 Id. em prestigioso e concorrido evento. em Petrópolis. maio/ago. o límpido fulgor das causas nobres. proporcionou-lhe amplo e atraente enfoque. extrapolando dos contornos de sua gloriosa e pujante Instituição para fazer-se credor de título mais amplo e mais proporcional à grandeza e à multiplicidade de sua edificante vida: Patrono do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. em que o INCAER. como marca registrada sem intermitências nem fugas. em tributo a um homem cuja vida foi um eterno sonhar e sua magnífica obra o doce despertar para a materialização de idéias benfazejas. No decorrer de sua vida castrense pode ser olhado sob o halo. Como valoroso militar.. Pela dimensão de sua vida. A brilhante carreira de dedicado e destemido aviador militar. restou a todos agradecer ao Criador por nos ter brindado com o privilégio de ter acolhido. É pela multiplicidade de sua presença na vida pública do País que o Marechal Montenegro há de ser conhecido.Manuel Cambeses Júnior balizava seus esforços: o bem de nossa Aeronáutica. (18) : 15 . Naquele momento histórico marcado por forte emoção. no dia 26 de fevereiro de 2000. altruísmo e dignidade foram o seu paradigma de vida. entendido e louvado. deixando um legado de extrema importância ao desenvolvimento do País e um exemplo dignificante para todas as gerações vindouras. a disciplina modulava os seus passos e. associada à condição de criativo engenheiro. 2005 . o nosso insigne homenageado tornou-se um gênio inspirador que paira sobre a pátria inteira. região serrana do Rio de Janeiro. porque nada pode produzir um brilho mais intenso do que as luzes radiantes da glória. Rio de Janeiro.21. perpetuado. Seus relevantes serviços à pátria sempre tiveram. pela grandeza de suas lições e por suas brilhantes realizações.

Id. Ao Marechal-do-Ar Casimiro Montenegro Filho. admiração e profunda gratidão. O nosso respeito. Vulto proeminente e personalidade marcante da vida nacional. personalidade tão fascinante e destacada da historiografia nacional.21. Rio de Janeiro. nas fileiras de nossa Força Aérea. Que o transforma em presença eterna e cristalina em nossos corações. Chama viva de idealismo e de visão prospectiva. na Galeria de Patronos de nosso Instituto. (18) : 15 . Exemplo vivificante de cidadão e de soldado. um brasileiro dotado das mais excelsas virtudes e poder entronizar. maio/ago. O autor é Coronel-Aviador da Reserva e Chefe da Divisão de Estudos e Pesquisa do INCAER. 2005 21 .Manuel Cambeses Júnior anos.. em Dest.

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como fazem alguns. mesmo não falando. as Forças Armadas brasileiras impuseram-se a figura do “Grand Muet”. na data de hoje.26. personalidades castrenses desejosas de aglutinar a caserna. portanto. pensa! Id. falência ou omissão. em circunstâncias emergenciais do passado. “imune e descontaminada” aos olhos da sociedade. chamada de “retorno aos quartéis”. Essa iniciativa das Forças Armadas assegurou ao processo de formação e desenvolvimento dos seus componentes o cultivar e manter valores e ética no seio da sua comunidade. em Dest. Nem mesmo cabe julgar o quanto a formação castrense. mas que. inaugurada e implementada após o ocaso dos governos militares. os cidadãos-fardados foram convocados pela própria sociedade civil para participar na solução do impasse político de momento. maio/ago. “fechando-se em si mesma” por muito tempo. cederam aos militares.Lauro Ney Menezes Os Militares e o “Direito de Opinar” Lauro Ney Menezes A participação dos militares brasileiros na arena política é sobejamente conhecida. Rio de Janeiro. permanecendo. ficou imune ao processo de esquerdização ostensivamente implantado em toda a nossa universidade e na nossa mídia em épocas passadas. Assim. independentemente do processo externo. avaliar o quanto de espaço no cenário político as elites (?) brasileiras. razão pela qual.. Como decorrência da orientação. por força de sua decrepitude. Mesmo tentando discuti-la ou questioná-la. Não caberia. 2005 23 . é um fato histórico e irretorquível. incutido nas mentes dos cidadãos civis. mesmo para a defesa de seus mais lícitos direitos. o qual parte da premissa inquestionável de que “organização-metodologia-isenção-disciplina-hierarquia-desprendimento-vocação etc. em detrimento daquilo que possa ocorrer (ou estar em prática) na sociedade civil. (18) : 23 .. há um quê de “caldo de cultura”. nestas notas rápidas e sintéticas.. felizmente. Além disso.” são os apanágios permanentes dos militares. as lideranças fardadas naturais foram abandonando o cenário. não existindo. o grande mudo.

auto-outorga de salários de forma indiscriminada. independentemente até mesmo de sua vocação. i) as Forças Armadas não se despojam. proveniente da fome e da miséria que imperam. e) a Constituição é. em que se inscrevem fisiologismo. surdas e. b) o clima político em que vivemos é de “revolução branca”. não querem estar “cegas. contraditória. deve ser urgentemente reformada.Lauro Ney Menezes Sem muito se diferenciar da postura geral com relação ao que poderia ser titulado CRISE NACIONAL. será um inimigo quase impossível de conter. Rio de Janeiro. mesmo pelas próprias Forças Armadas. E. descomprometimento político e partidário para com o bem-estar social. descrédito. a justiça. fundamentalmente originada da (omissão) política. d) o sistema judiciário está em estado falimentar. por si própria. e é complacente com a permissividade que conduz ao aparecimento de “Estados dentro do Estado”. da posição de fiadores máximos da ordem e da lei. não responde aos anseios da Nação e. através da falta do controle do tráfico de drogas.26. f) o País vem sendo progressivamente “libanizado”. principalmente. antes de tudo. como tal.. em nenhuma circunstância. maio/ago. 2005 . 24 Id. c) a inflação é. a saúde pública e a educação. h) a “convulsão social” (caso venha a ocorrer). portanto. do banditismo e da corrupção. g) as lideranças políticas e comunitárias estão falidas. mudas” em face de uma realidade que poderá vir a lhes impor atuação no cenário. da banalização da violência e do desprezo pelos valores éticos e morais. (18) : 23 . em Dest. a opinião castrense (muito antes do que tratar simplesmente de questões salariais) poderia ser sintetizada como abaixo: a) “a apatia das lideranças nacionais” (vista como “superfluidade”) compele a buscar o comprometimento das elites para fazer face a qualquer clima de crise.

com o objetivo de se integrarem legitimamente na condução do processo político brasileiro. o que as Forças Armadas hoje procuram são os bons (velhos) soldados. a partir Id. isto sim.Lauro Ney Menezes Hoje. por que não. motivados pelo abrandamento dos Regulamentos (naquilo que se refere à participação de militares no processo político partidário). as novas (e. promovem declarações à imprensa. com mais ênfase. O que causa estranheza. se dispõe a abandonar o mutismo e vir à luz e expor posições. indiscutíveis profissionais das armas. Tentando. sensibilizar a parcela silenciosa da sociedade civil (e da própria militar). se contrapor ao status quo e a quaisquer posições radicalizadas. 2005 25 . sem abandonar o exercício do regime democrático.26. reequipamento das Forças e sua destinação constitucional e emprego. assim como opinar na formulação das soluções para o encaminhamento dos assuntos profissionais.. E o fazem com pleno direito de cidadão. estimulados a participar no equacionamento da grande problemática nacional. Em assim sendo. as velhas) gerações. portanto.na busca e manutenção de seus princípios basilares de existência e sobrevivência . é encontrar uma forma de aglutinar a “massa de opinião militar” e direcionála em busca da conquista de suas expectativas e atendimento de suas carências. com o fim de gerar um “movimento de opinião”. Como cabe a qualquer membro da sociedade. Rio de Janeiro. (18) : 23 . em Dest. Além disso. insatisfeitas com a baixa prioridade atribuída pelo Governo à condução e o tratamento dado às mais urgentes e justificadas aspirações das Forças Armadas. E agora. A solução. alguns membros das gerações militares passadas (na Reserva) voltam ao cenário. buscam saídas. não há por que entender de outra forma a participação dos militares no “momento” brasileiro. na expectativa de.tornem público sua filosofia e conceitos. maio/ago. somados à expansão do sentimento de “associatividade em torno de interesses comuns”. através deles. (principalmente) “inferindo a missão”. que encarnem na realidade as figuras dos representantes de uma comunidade que . já que esta faz parte do processo característico dos regimes democráticos de “mobilização de opinião”. Principalmente no que tange à profissionalização. assim como pela facilidade de acesso à mídia e à opinião pública. como é fácil concluir. é o fato de que. E é aqui que a Reserva.

(18) : 23 . o acesso não lhe fosse permitido. nem mesmo CIDADÃO! Opinar.Lauro Ney Menezes da prática dessa mobilização (mesmo aquelas totalmente alinhadas com as da própria sociedade).. trazido à vida de um “parque jurássico” qualquer. conseqüentemente. sim. portanto. de amanhã. como uma forma de atuação permanente de tornar público seus pensamentos e seu ideário. os militares possam ser vistos por alguns como “saudosistas do passado”.. a manifestação de militares (principalmente os da Reserva) não pode mais ser vista como exceção. Visto de outra forma. principalmente. se expressam! Em suma.. Como se um estranho no ninho fosse. seria como entender a participação dos militares no panorama político como se “um mastodonte fossilizado”. maio/ago. em Dest. por princípio. mas. para adentrar um cenário que. 26 Id. em busca da ressurreição de movimentos que não se coadunam nem com a realidade e nem com as necessidades do Brasil de hoje. E. não é só direito: é obrigação! O autor é Major-Brigadeiro-do-Ar da Reserva e Presidente da Associação Brasileira dos Pilotos de Aviação de Caça. 2005 . na democracia do século 21. Rio de Janeiro. como o fazem os outros diversos segmentos da sociedade! Sem inibições.26. Somente porque pensam e.

em Dest. (18) : 27 . e possibilitar aos participantes a observação de uma equipe PARASAR atuando no resgate de sobreviventes em plena selva. proporcionar ao Corpo de Cadetes. a organização. na região de Cachimbo. filmes e exposição de equipamentos especializados. Foi muito bem planejado. até às cabeceiras do Rio Iriri. que. proporcionar aos participantes a oportunidade de conhecerem.31. A operação tinha como objetivos. mediante palestras. da ordem de 120 km. Id. entretanto. Em janeiro de 1967 a Academia Militar das Agulhas Negras montou um exercício a ser realizado na região do Cachimbo.. 2005 27 . Bonumá) e cadetes da Academia. através da selva. têm conhecimento de uma operação realizada naquela região cinco meses antes e. a finalidade e o emprego do PARASAR (1). ilustrações. através dos sertanistas Orlando e Cláudio Villas Boas.Fernando de Almeida Vasconcellos A Epopéia do 2068 Uma Nova Abordagem Fernando de Almeida Vasconcellos Muito já foi escrito sobre a epopéia do FAB 2068 – um C-47 que caiu na Selva Amazônica. desenvolver um “raid” terrestre. maio/ago. em junho de 1967. após oito horas de vôo. o Parque Nacional do Xingu. acompanhada por observadores de outras organizações e de pessoal especializado para o apoio. no Brasil Central. está muito relacionada com aquela tragédia. entre outros. transportando uma tropa armada que se destinava à defesa do Destacamento de Cachimbo. Rio de Janeiro. proporcionar aos participantes do exercício a possibilidade de estabelecerem contato com as tribos hostis e semi-hostis da região. Poucos. no meu entender. e constava de uma expedição constituída por instrutores (entre os quais o então Ten. a fim de apoiar e resgatar as vítimas. supostamente atacado por índios hostis. no rumo 110 graus. Da operação participaram – (1) Esquadrilha Aeroterrestre de Salvamento – Equipe de militares da Aeronáutica treinados para serem lançados de pára-quedas no local de um acidente aeronáutico.

2005 . (4) Exposição onde são apresentados aos participantes os detalhes de uma operação. Nelson Brites. realizou-se um brifim (4). pernoi(2) Comando de Transporte Aéreo – Grande Comando então existente na Aeronáutica que enfeixava todas as Unidades voltadas para essa atividade.31. fauna e flora. transportando a carga necessária para a realização do exercício. na AMAN (5). (3) 1a Esquadrilha de Ligação e Observação – Unidade da Aeronáutica dotada de aeronaves de pequeno porte. um mecânico e um enfermeiro do PARASAR. condições climáticas e sanitárias. Brites participou de toda a operação e é graças a sua memória privilegiada e a documentos por ele guardados que pude reconstituir muitos detalhes de sua realização. que incluía rações liofilizadas preparadas pela FAB e que seriam utilizadas pela expedição. do 1º/10º Grupo de Aviação e da 1ª ELO (3). Comandante da 1 ª ELO. em Dest. assim como combustível – gasolina de 80 octanas – que seria utilizado pelas aeronaves da 1ª ELO. mas. no qual foi distribuída a documentação contendo todas as informações voltadas à segurança do exercício. e pelo Ten. também. Conduziam também.-Av. do Parque dos Afonsos. não apenas no local do exercício.Fernando de Almeida Vasconcellos da Força Aérea – além do PARASAR. decolaram dos Afonsos dois L-19. sobrevivência na selva. decolou do Galeão um C-47 do Parque dos Afonsos. Após escalas em Belo Horizonte e Paracatu. da Escola de Aeronáutica. Cabe aqui um parêntese para registrar que o Ten. aeronaves e tripulações do COMTA (2). onde são formados os oficiais do Exército. maio/ago. No dia quatro. na tripulação. informações sobre as tribos conhecidas. destinadas prioritariamente ao apoio ao Exército. tripulados pelo Cap. 28 Id. orientação sobre o contato com os indígenas e um glossário de termos úteis da língua tupi. No mesmo dia.-Av. (5) Academia Militar das Agulhas Negras. Rio de Janeiro.. em seu deslocamento para a região. para todos os envolvidos. No dia três de janeiro. hidrografia. (18) : 27 . Dela constavam: fisiografia da região. Sílvio da Gama Barreto Viana.

era previsto o apoio dos L-19 que. diariamente. entre os quais se incluíam o Cap. (18) : 27 . estimava-se que o percurso total de ida e volta era de 250 km de marcha a pé. maio/ago. A marcha através da selva. Para tanto. medicamentos ou qualquer outro suprimento que se fizesse necessário e. testemunhando a participação em diversas missões reais de salvamento. no dia seguinte. No dia seguinte. Rio de Janeiro. após escalas em Aragarças e Xavantina e depois de pousar em Posto Leonardo e na Aldeia Kamaiurá. assassinado em 1961 por índios Kren-A-Karore. no rumo 110 graus. O reconhecimento aerofotogramétrico realizado pelo 1º/10º GAv (6) indicava uma distância (em linha reta) de 60 km. Até um bolo foi lançado no dia 20. decolou dos Afonsos um C-47 da Escola de Aeronáutica. heróis que tive a honra de conhecer. iniciada no dia oito de janeiro.Fernando de Almeida Vasconcellos taram em Goiânia. Int.31. chegaram ao Destacamento do Xingu. em Dest. utilizavam-se da comunicação por fonia. obedecia ao mesmo itinerário seguido pelo explorador inglês Richard Mason. Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho e o Cap. o Lago Ipavu.. Rubens Marques dos Santos. ainda hoje vivo e atuante) e dos mesmos elementos do PARASAR que haviam realizado o resgate do corpo do explorador inglês. em plena selva. com essa finalidade. Méd. já em apoio à Operação. contava com a participação dos irmãos Villas Boas. lançavam fardos com mantimentos. a ser percorrida em um período estimado de vinte dias. em comemoração do ani(6) Esquadrão especializado em reconhecimento foto. A expedição pernoitou na Aldeia Kamaiurá e. 2005 29 . em direção ao Destacamento do Xingu. de onde decolaram para o Cachimbo. Para tanto. No dia cinco. do Destacamento de Cachimbo até às cabeceiras do Rio Iriri. de dois índios Tchucarramães (um deles era o Raoni. visual e meteorológico. conforme estabelecido no brifim e nas palestras que o PARASAR ministrara na Academia. que transportou para o Xingu os componentes da expedição e demais membros do PARASAR. atravessou. e previa a possibilidade de contato com essa tribo. por painéis ou até pelo lançamento de tubos porta-mensagem. Id. Devido às irregularidades do terreno. em pirogas fornecidas pelos índios.

com os tanques cheios. o combustível que tinha sido colocado pelo C-47 do Parque dos Afonsos. Ion Oscar Augusto. No dia 28. pernoitamos em Aragarças. Ipameri e Goiânia. Apesar de não ter havido contato com os Kren-A-Karore. (8) Equipamento de navegação. Todos os objetivos previstos pela expedição foram alcançados. DCM (7). O Cap. para tanto. conforme preconizavam as orientações sobre contato com os selvagens. O Comandante do Destacamento.. No dia 27. chegamos aos Afonsos. diante do pânico que se estabeleceu entre as famílias. Av. 30 Id. Decolou de Jacareacanga e não encontrou Cachimbo. utilizando. o que lhe dava oito horas de autonomia. Uberlândia. maio/ago. Após o pouso no Cachimbo. Nesse dia alcançamos Goiânia. Após escalas em São Paulo. por iniciativa da esposa do Comandante do Destacamento. Pirassununga. terminan(7) Devido às más condições meteorológicas. Rio de Janeiro. existente na aeronave. Em um determinado dia de junho. iniciamos o traslado dos dois L-19.31. Voou noturno sobre a Amazônia – o que não era permitido na época. fiz três vôos na área da operação. (18) : 27 . Xavantina e Aragarças. em Dest. Barreto Viana retornara no dia 12 como passageiro da linha LPN3 – XT. após pousos intermediários em Xingu.Fernando de Almeida Vasconcellos versário do nosso Ministério. no C-47 2042. 2005 . do COMTA. com escalas em Xavantina. evidenciando as intenções amistosas da expedição. Voltou para Jacareacanga e também não a encontrou. solicitou socorro. após pouso em Barbacena. armamento e munição. apareceram diversos índios na margem oposta do rio existente ao lado do Campo de Cachimbo. que nunca encontrou. totalmente carregado de soldados. pousamos em Paracatu e Belo Horizonte. foram deixados presentes pendurados em árvores ou em cipós. devido à precariedade do apoio à navegação – e com um radiocompasso (8) em pane. No dia 26. Decolou acima do peso permitido. Posto Leonardo e Xingu. sob o comando do Maj. duplo. e a Primeira Zona Aérea enviou um C-47. de onde prosseguimos no dia seguinte. Fiz percurso inverso no dia 24 de janeiro. Prosseguiu para Manaus.

Id. Ouvi na época. o PARASAR – aí incluídos os elementos que tinham participado da Operação Cachimbo no mês de janeiro – e os integrantes da equipe de Forças Especiais do Exército para começarem a busca do 2068. Dentro do mesmo espírito. o comandante da aeronave decidiu decolar. As mensagens transmitidas em radiotelegrafia foram acompanhadas pelo SALVAERO (9). a 1ª ELO. e outros meios. O Comando da Zona Aérea também tomou as decisões que visavam proteger aqueles que trabalhavam em difíceis condições. (18) : 27 .31. conduzindo dois helicópteros da 1ª ELO. o Ten. O Comandante do Destacamento. que acionou o PARASAR. maio/ago. o que derruba a hipótese de que tinham intenções hostis. Pedro Luiz. de diversas testemunhas. (9) Serviço de Busca e Salvamento da Aeronáutica. e que incluíra a colocação de presentes nas árvores. em proveito da segurança da navegação aérea e que se encontravam – segundo seu conhecimento – em situação de iminente risco de vida. com tal ato. decolava o C-130 2454. entretanto. à noite. responsável pela segurança dos militares e dos familiares que ali trabalhavam. de Jacareacanga. Na minha interpretação. 2005 31 . sob o comando do Maj.. pois foram todas baseadas nos dados então disponíveis. e. em condições extremamente desfavoráveis e. sua chegada foi uma decorrência das iniciativas da expedição realizada em janeiro do mesmo ano. que os índios que apareceram no entorno do Campo do Cachimbo estavam acompanhados de mulheres e crianças. tinha sido – juntamente com a maioria dos militares – recentemente transferido para o Cachimbo e. critico qualquer das decisões tomadas. no dia 16 de junho. Brites. em Manaus. em Dest. Por uma enorme coincidência. provavelmente. O autor é Tenente-Brigadeiro-do-Ar da Reserva. o Ten. Rio de Janeiro. escreveu uma das mais belas páginas de coragem e heroísmo dentre as muitas que honram a História da nossa Força Aérea. como sinal de boa vontade. Almeida. não tinha conhecimento das medidas de aproximação efetuadas pela expedição da AMAN.Fernando de Almeida Vasconcellos do por cair na selva após oito horas de vôo. Em nenhum momento.

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porque a política de ambas as nações era de conveniência ou de fachada. e somente pretendiam a utilização das bases militares em nosso território e o fornecimento de matérias-primas estratégicas e alimentos. se saímos realmente vitoriosos do conflito. o Brasil colheu bônus e ônus. os EUA. não se preocupavam com a defesa do hemisfério americano nem queriam a presença de forças brasileiras na África ou na Europa. enquanto o Governo brasileiro procurava tirar vantagem do namoro aparente com o Eixo e da ameaça latente ao continente sul-americano para armar-se ante a hipótese de invasão argentina e assegurar uma política desenvolvimentista. Só muito após Id.. Os norte-americanos.Luiz Paulo Macedo Carvalho Conseqüências e Reflexos da Participação da FEB na Segunda Guerra Mundial Luiz Paulo Macedo Carvalho No balanço final do tributo pago a Marte na Segunda Guerra Mundial. Consideravam-nos despreparados e sem experiência para participar do conflito mundial. através da política de boa vizinhança. (18) : 33 . Ficou comprovado o valor das ilhas oceânicas e do saliente nordestino – cognominado Trampolim da Vitória – para a campanha anti-submarina do Atlântico Sul e para os teatros de operações da China-Burma-Índia e do Mediterrâneo. buscavam a americanização do Brasil para neutralizar a influência germânica. Eram evidentes as marcantes transformações políticas.46. às vezes. que chegam a questionar. julgando que as tropas brasileiras trariam mais problemas do que ajuda. em Dest. Ganhou dimensão estratégica e importância geopolítica continental e mundial. maio/ago. mascarando os reais interesses nacionais. militares e psicossociais verificadas no pós-guerra. O Brasil emergente da ilusória coalizão que derrotou o totalitarismo nazi-fascista não era mais o mesmo. A aliança Brasil-Estados Unidos de 1937 a 1945 pode ser considerada enganosa. Inicialmente. econômicas. Rio de Janeiro. 2005 33 . na verdade.

Essas bases. não nos teria sido possível ajudar os ingleses no Egito. concluíram que só a sua participação ombro a ombro com os norte-americanos nos campos de batalha lhes asseguraria as vantagens almejadas pelo Governo e uma posição respeitada após a guerra. maio/ago. permitiram que voassem os nossos aviões. em Dest.453. para a África Ocidental. visando tirar proveito da situação. em grande número.46. por outro lado. apossarem-se de Gibraltar. Rio de Janeiro. por mais modesta que fosse. Os brasileiros. e dali para os teatros de operações na Europa e no Extremo Oriente. Em reconhecimento aos esforços do Brasil referentes à contribuição dada à vitória aliada.. a vitória na Europa e na Ásia não teria ocorrido tão cedo. mereceria o respeito no concerto das nações e permitiria a concretização do sonho de vir a ser uma potência. mas as ações em curso na Ásia e na África. acabaram concordando que enviássemos uma força expedicionária à Itália. Em face da recusa do Governo brasileiro a tal proposta. projetando-se à distância no Atlântico Sul. Ante as pressões de Oswaldo Aranha e de Dutra para o envio de três divisões de infantaria e de uma blindada ao Teatro de Operações do Mediterrâneo. (18) : 33 .Luiz Paulo Macedo Carvalho se terem confirmado as informações transmitidas por Churchill a Roosevelt sobre a Operação Félix – que previa tropas alemãs cruzarem a Espanha. colocando em perigo não só o Hemisfério Ocidental. instalarem-se na África e utilizarem-se de Fernando de Noronha como base de submarinos para atuarem no Atlântico Sul – é que admitiram a possibilidade de as Forças do Eixo ameaçarem o saliente nordestino brasileiro e comprometerem a segurança do seu flanco sul. os norte-americanos apresentaram uma alternativa de que ocupássemos as Guianas Francesa e Holandesa ou os Açores. 2005 . A contribuição prestada pelo Brasil na luta em defesa dos ideais de liberdade. não fossem as bases brasileiras. assim se expressou Cordell Hull – Secretário de Estado dos EUA de 1943 a 1944 e Prêmio Nobel da Paz em 1945 – em suas Memórias: Sem as bases aéreas. mas onde se registrou o maior número de baixas por divisão – 5. tida como frente secundária. como fizemos no momento crucial 34 Id.

Rio de Janeiro.). evitando. Os nacionalistas.Luiz Paulo Macedo Carvalho da batalha de El Alamein (. na América do Sul e.. em Dest. proteger o seu extenso litoral no Atlântico Sul. 2005 35 . o vasto espaço aéreo. “uma verdadeira aliança de destinos” com os Estados Unidos – já antevista por Jefferson – alicerçada no apoio brasileiro à hegemonia norte-americana em troca do reconhecimento da liderança. A despeito das crises políticas internas vividas pelo País até nossos dias. manter o equilíbrio de poder. No esforço para abastecer os EUA. ainda. firmando. Enviou.. perdeu o Brasil parte considerável da sua Marinha Mercante. no dizer de Oswaldo Aranha. sem receber qualquer indenização pelos prejuízos e sofrimentos experimentados. Conseqüências Políticas Não há dúvida quanto à posição assumida pelo Brasil em defesa da democracia. cada vez mais. Constituiu-se uma injustiça Id. conhecida aos olhos do mundo. Contribuiu sua Marinha de Guerra para o patrulhamento do Atlântico. maio/ago. ficando.. eventualmente. declararia que “sem a produção brasileira de materiais estratégicos e a ponte aérea [dos Estados Unidos para Belém do Pará e Parnamirim] não teriam cumprido as suas metas”. Para espanto dos que esperavam melhores dias após a guerra. assim. a política externa brasileira – apenas sintonizada à política de defesa no período de Rio Branco no Itamaraty (19021912) – teve por finalidade defender a fronteira terrestre dos vizinhos de origem castelhana. conforme ficara acordado em Ialta e Potsdam. posteriormente. a imensa bacia amazônica. a maioria da Nação brasileira vem assimilando gradualmente. Tradicionalmente. os ideais democráticos. causou desapontamento ver-se o Brasil excluído da Conferência de Reparações de Guerra de Paris. o Brasil uma força expedicionária à Europa. no Brasil. assim. na África Ocidental. a dominação por esse país. (18) : 33 . tinham em mente uma outra aliança com a Argentina e o Chile. para se contraporem à estabelecida com os Estados Unidos.46. O United States War Production Board.

A guerra alterou o quadro das relações internacionais. Alimentação. não foram bem aproveitados. O Plano Marshall era a prioridade e as atenções se concentravam na ajuda aos novos aliados. particularmente para a nossa economia. sob a alegação de que poderia lançar mão dos bens dos súditos do Eixo já penhorados e integrados à Nação brasileira. que nos proporcionou alguma ajuda através do Export-Import Bank e do Banco Internacional. numa tentativa de se proteger contra novas guerras.46. a Missão Abbink. possivelmente como reflexo da Guerra da Coréia. maio/ago. e do início do Governo Truman. ocorrendo um surto industrial que mudou o aspecto colonial do Brasil. assim. em que se poderia vislumbrar um futuro promissor. que nada fizeram pela preservação do mundo livre. O maior arquiteto do estreitamento dos laços com os norte-americanos – Oswaldo Aranha – começava a se desapontar com a política externa dos EUA e recomendava cautela. Em 1950. África e Ásia. o conhecido Plano SALTE (Saúde. caíram no esquecimento os serviços prestados pelo Brasil no conflito mundial. 36 Id. por falhas nossas.. A partir da Conferência de São Francisco. o governo dos EUA enviou. em 1948. Em conseqüência. Transporte e Ensino) do Governo Dutra e a criação da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos. no propósito de favorecer o pan-americanismo. em Dest. sinalizadores da mudança de rumo da política externa norte-americana de concepção global e de segurança avançada na Europa. (18) : 33 . 2005 . instituindo o Ponto IV. Rio de Janeiro. Durante a vigência da política de boa vizinhança de Roosevelt. realizada em 1945. Agora. o Brasil já não possuía posição estratégica vantajosa como fornecedor de matérias-primas nem suas bases militares se faziam necessárias. financiando alguns projetos importantes que.Luiz Paulo Macedo Carvalho irreparável nivelar o Brasil a países americanos. o Brasil desfrutou de certa situação confortável. esboçando. a fim de ver de perto a situação do Brasil e propor soluções. Truman preocupou-se com o subdesenvolvimento e tomou providências. O Brasil exigia o mesmo tratamento dispensado pelos norte-americanos a outros aliados.

particularmente de matérias-primas.Luiz Paulo Macedo Carvalho A guerra teve conseqüências em nossa política interna. O Brasil arrendara aos Estados Unidos 13 navios tripulados da nossa frota mercante e três petroleiros sem tripulação. manufaturados e combustíveis. ao preço simbólico de US$1 mensal por unidade. a principal conseqüência política foi o alinhamento do Brasil aos Estados Unidos. Os sacrifícios impostos aos brasileiros na luta contra o totalitarismo nazi-fascista em defesa dos ideais democráticos entraram em choque e acabaram por derrubar a ditadura de Vargas. Ao mesmo tempo. em Dest. principais produtos de nossa pauta de exportação. ensejandonos o retorno ao estado de direito. Passamos a ter saldos positivos na balança comercial. atingindo somas consideráveis para a época. maio/ago. Finalmente.46. (18) : 33 . além de produtos agropecuários. minério de ferro. de refinarias e de siderurgia. Id.. o Brasil perdera antigos mercados europeus e não conseguira manter os novos. Conseqüências Econômicas O impacto da guerra sobre nossa frágil economia mostrou-se contraditório. Importávamos tudo de tudo. por bens de capital. de características coloniais. 2005 37 . tais como: borracha. aumentando o volume e o valor das exportações. comprometera-se a destinar 23 outros para a navegação entre o Brasil e portos norte-americanos e ingleses. Na iminência da guerra. cristal de quartzo. o comércio exterior se intensificou e diversificou. Não dispúnhamos de hidrelétricas. Éramos um país essencialmente agrícola. algodão e café. foi elaborada a Constituição democrática de 1946. dependente de capital estrangeiro. voltando a ser tradicional exportador de cacau. em que pese as crises ocasionadas pelas paixões políticas. Rio de Janeiro. Terminada a guerra. A economia brasileira de antes da guerra se limitava à troca de café e de algodão. Convocada uma Assembléia Constituinte.

dos quais US$100milhões destinados ao Exército). Finalizada a guerra. quase dois milhões de marcos pagos à Alemanha.46. em Dest. Rio de Janeiro. Desta forma. referentes à compra de material de artilharia não entregue em virtude da deflagração da guerra. dando a impressão de prosperidade às camadas mais altas da sociedade. eletrodomésticos. Dos elevados saldos em moeda forte no exterior. impôs uma licença de importação. maio/ago. provocando descontentamentos entre as menos abastadas. com a perda de 972 vidas. só aprovando negócios aparentemente nãolesivos aos nossos interesses. O Brasil contribuiu também com vultosa quantia dos saldos existentes no exterior para a criação do Banco Internacional de Reconstrução. quase a metade importando automóveis. à custa de sacrifícios do povo brasileiro.. malbaratamos. A Lei de Empréstimos e Arrendamento (Land-Lease) dos EUA (totalizando US$200 milhões. cuja última prestação foi saldada em 12 de julho de 1954. o Governo. a tempo. que tanto sangrou nossa debilitada economia. o correspondente a mais de um terço da nossa frota comercial. lamentavelmente. Assim. cigarros e quinquilharias.Luiz Paulo Macedo Carvalho Tivemos 32 navios mercantes afundados pelos submarinos do Eixo. 2005 . Arcamos com as despesas operacionais das Forças Armadas num total de US$361 milhões. Perdemos. as divisas obtidas no estrangeiro. teve um aspecto positivo: proporcionou a modernização e revitalização das Forças Armadas brasileiras. foram esbanjadas. recorremos a empréstimos externos e à emissão de moeda. (18) : 33 . ainda. uísque. pouco recebemos. os saldos congelados nos EUA e na Inglaterra atingiram mais de seis bilhões de dólares. Desprovidos de reservas cambiais e de poupança interna. A fim de se resguardar dessa gastança. totalizando 140 mil toneladas. bem como aceitamos a aplicação de boa parte na recuperação de empresas estrangeiras instaladas no Brasil. provenientes de exportações feitas durante e após a guerra. dando origem a 38 Id.

do padrão de vida e dos valores da gente fardada. teve importantes reflexos em nossas Forças Armadas sob diversos aspectos. acabamos economicamente pior do que os vencidos. em Dest.46. A imagem do militar cresceu no âmbito da sociedade. Não atentamos. o Governo lentamente procurou aumentar os investimentos nessas regiões para assegurar um desenvolvimento integrado e harmônico da economia nacional. A FEB projetou o Brasil no exterior sobremaneira. causando desequilíbrios regionais que acentuaram a insatisfação no campo e na cidade. segundo palavras do Ministro das Relações Exteriores Vasco Leitão da Cunha. maio/ago. (18) : 33 . bem como para as discrepâncias da renda per capita da Região Centro-Sul em relação às das demais. a construção da hidrelétrica de Paulo Afonso e da Usina Siderúrgica de Volta Redonda. Id. Um ambiente menos rígido e tolerante prevaleceu na convivência da caserna. Preocupado com as secas do Nordeste e os desafios da Amazônia e do Centro-Oeste. ainda que considerada limitada no conjunto de 69 divisões norte-americanas nas operações levadas a efeito em solo europeu. foco da ambição internacional. a imagem do Brasil era a de um país continental subdesenvolvido. ganhando o merecido respeito da Nação. 2005 39 . rompendo o isolamento social decorrente do nível cultural. inexpressivo. Antes da guerra. Rio de Janeiro. Na realidade. para as disparidades entre empreendimentos industriais e agrícolas. entretanto. apesar de vencedores. resultante do elogiado desempenho em face de experimentados e determinados combatentes. fonte inesgotável de matérias-primas. Conseqüências Militares A participação da FEB na campanha da Itália. para criar um parque industrial e promover o crescimento econômico. O soldado brasileiro recuperou a auto-estima conquistada nos campos de batalha sul-americanos em defesa da Pátria. com a exploração de petróleo na Bahia..Luiz Paulo Macedo Carvalho contínuo fluxo inflacionário.

Devemos agir com muita prudência e discernimento para não abdicarmos da nossa identidade nacional e dos valores tradicionais de amantes da liberdade. ocidentais e americanos. O Exército reestruturou-se completamente. 40 Id. fomos estimulados a desenvolver a doutrina militar brasileira. A Guerra Fria. 2005 . das forças aeromóveis e aerotransportadas.46. de modernos equipamentos de engenharia. dos blindados. O advento do avião. continentais e internacionais. maio/ago. em Dest. (18) : 33 . adquirindo armamento moderno. tendo sempre em mente que somos cristãos.Luiz Paulo Macedo Carvalho O aumento do efetivo demográfico da Nação. aliado à compreensão da necessidade de segurança e modernização das Forças Armadas permitiu a ampliação dos seus contingentes e quadros. regionais. motorizando-se. cujo fantasma volta a pairar sobre o mundo. de comunicações e de guerra química sinalizou o início de nova era. Priorizar – nesta seqüência – os interesses nacionais. A guerra exigiu tais transformações e estas demandaram maiores gastos para os cofres públicos. do helicóptero. não confiar a nossa segurança a terceiros nem nos deixar levar por modismos passageiros ou aceitar alinhamento automático de qualquer natureza de quem quer que seja. Era o preço a pagar pela liberdade – si vis pacem para bellum. então. cônscios das nossas potencialidades e vulnerabilidades. dos mísseis. Trocamos a doutrina francesa defensiva de emprego das forças terrestres pela norte-americana de concepção ofensiva e. Fez-se mister uma guerra para que atingíssemos patamar reclamado há muito tempo. marcadamente ideológica. A criação da Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos veio muito contribuir para o profissionalismo e a modernização das Forças Armadas brasileiras.. canhões antiaéreos e de campanha com maior alcance. trouxe-nos outros desafios para os quais não estávamos preparados – a guerra revolucionária e psicológica. mecanizando-se e substituindo as Unidades hipomóveis por outras dotadas de grande capacidade de fogo e mobilidade. Rio de Janeiro.

veio sanar lacunas constatadas há anos. maio/ago. em detrimento da formação militar do soldado. indispensáveis à formação dos quadros. sentimos a influência profunda Id. Do convívio com as tropas estrangeiras. Pedagogia. Não podemos nos dar ao luxo de repetirmos o erro de ir à guerra com advogados. mantendo os quadros atualizados.Luiz Paulo Macedo Carvalho Os avanços tecnológicos aplicados à arte da guerra exigiram que o soldado de nossos dias tenha mais cultura e melhor nível educacional. O Exército. A especialização prevaleceu sobre a generalização diminuindo o academicismo e levando-nos à criação da EsIE e de outros estabelecimentos de ensino especializados.46. dispomos de processos que aproveitam o convocado segundo suas aptidões e tendências. nivelando e sistematizando os conhecimentos. A seleção e a classificação processadas empiricamente e sem critérios científicos na guerra passada não têm mais lugar. médicos e outros profissionais liberais especializados preenchendo claros de combatentes das armas-bases. A adoção do sistema de ensino à distância difundiu conhecimento. engenheiros. As alterações dos currículos nos estabelecimentos de ensino militares. em Dest. impedindo desajustamentos inaceitáveis. abrindo espaço para o estudo de Chefia e Liderança. portanto. Modernamente. de cultura. (18) : 33 . Os norte-americanos exerceram influências altamente benéficas na padronização dos programas de instrução – os famosos PPs – e de métodos atualizados de ensino e de instrução.. Foi outra grande experiência introduzida entre nós pelo contato com os norte-americanos. hábitos e mentalidade completamente diferentes. 2005 41 . não deve retroagir aos tempos das antigas escolas regimentais e dos centros profissionalizantes para os contingentes incorporados às suas fileiras. Psicologia e Sociologia. A realização de estágios e cursos ministrados em centros de estudos e pesquisas ou estabelecimentos de ensino militares e civis estrangeiros por oficiais e graduados brasileiros elevou o nível cultural dos quadros da Força Terrestre. facilitou o ensino de línguas e reduziu custos. Rio de Janeiro.

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verificada na disciplina, tornando-nos mais compreensíveis, humanos,
liberais, menos rígidos e isentos de preconceitos. A disciplina autoritária e do medo cedeu lugar à consciente, reduzindo a distância entre
subordinados e superiores.
O fardamento usado pelos norte-americanos durante a campanha
italiana serviu de modelo para o novo plano de uniformes do Exército,
adotado logo após a guerra. Foram abolidos o talabarte Sam Browne,
inglês, as botas, a espora e o esporim, o culote, a túnica abotoada até
o colarinho, o capacete tipo adriano francês, a capa “Ideal” e a pelerine,
tornando-o mais confortável, distinto, funcional, simples e adequado
às variações climáticas.
A guerra revelou o despreparo das Forças Armadas para cumprir missões além-mar em terreno adverso e sob severas condições
climáticas.
Não possuíamos mentalidade de país marítimo com vasto litoral,
forçando-nos o estabelecimento de um programa de reaparelhamento
da Marinha de Guerra.
A necessidade de centralização dos meios aéreos levou à criação
da Força Aérea Brasileira e à fabricação de aeronaves.
A evidente carência de um órgão de cúpula de planejamento e de
coordenação do emprego das Forças Armadas exigiu a criação, em
1946, do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), predecessor
do Ministério da Defesa, da Secretaria, do Conselho de Segurança
Nacional (existente desde 1927 com o nome de Conselho de Defesa),
da Escola Superior de Guerra (1949), despertando as elites para a
magnitude dos problemas de segurança e desenvolvimento e a responsabilidade de todos os cidadãos. A despreocupação do Brasil com
as ameaças latentes internas e externas configuradas em hipóteses de
guerra atualizadas colocou-nos em situação crítica por não darmos a
importância devida ao preparo da mobilização e desmobilização.
Infelizmente, a criminosa desmobilização prematura da FEB (antes
da sua chegada ao Brasil), por razões políticas e injustificáveis ciúmes,
geradora de problemas insolúveis até agora, impediu-nos a absorção
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de valiosos ensinamentos colhidos a duras penas nos campos de batalha. A maioria das praças licenciadas não recuperou os empregos que
tinha antes da guerra. Muitos sequer tinham profissão e na volta foram
abandonados à própria sorte. Boa parte dos oficiais de carreira viu-se
espalhada pelo País afora, não tendo a sua experiência de combate
aproveitada. Que lhes sirva de alento o sábio conselho do Padre Antônio Vieira: “Se servistes à Pátria e ela vos foi ingrata, vós fizestes o
que devíeis e ela o que costuma”.
A FEB foi a única tropa ibero-americana, integrada por brancos,
negros, pardos e amarelos, a cruzar o Atlântico para lutar além-mar,
causando perplexidade como os brasileiros conseguiam essa proeza
sem choques raciais.
Constituiu-se um esforço sobre-humano e até mesmo verdadeiro
milagre que tenhamos ido à guerra e nos superado, ante o nosso grau de
despreparo e subdesenvolvimento, cobrindo-nos de glórias.
Podemos nos ufanar das palavras de despedida do Tenente-General Willis D. Crittenberg, Comandante do 4o Corpo de Exército, que
enquadrava a 1a DIE:
(...) Combatestes brava e valentemente e contribuístes substancialmente para a conquista da vitória das Nações Unidas (...). Podeis
estar orgulhosos, com a certeza de terdes cumprido integralmente
a missão para a qual o povo brasileiro vos enviou para solo estrangeiro. (...)
Esta mensagem acompanhava a outorga do título de membro honorário do 4o Corpo de Exército dos EUA a todos os integrantes da 1a
DIE, não homologada pelo Congresso dos EUA.
Por outro lado, os feitos do soldado brasileiro em campanha não
empolgaram a juventude a procurar a carreira das armas.
Conseqüências Psicossociais
A mobilização procedida em clima de guerra psicológica adversa converteu a propaganda negativa em positiva – é mais fácil a
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cobra fumar do que a FEB embarcar – no seu símbolo e lema – a
cobra fumando.
O brasileiro levava a sua vidinha tranqüila, isolado nos trópicos,
sem pressões, acomodado aos interesses regionais ou locais, não se
apercebendo das graves ameaças que o aguardavam.
A guerra registrou a penetração norte-americana no País e o pósguerra a disseminação da cultura e dos costumes norte-americanos.
O francês saiu de moda e a língua inglesa dominou por meio do cinema, do rádio, da música e da mídia em geral. Contribuíram, ainda,
para tal, bolsas de estudo, programas de intercâmbio e de visitas aos
EUA, patrocinados pelo governo norte-americano, afora o comércio incrementado de vestuário e produtos alimentícios. O fascínio
pelo way of life, pelos automóveis luxuosos e bens de consumo atraentes, resultado de propaganda, levou à americanização da sociedade brasileira.
A ruptura de acordos firmados no tempo da guerra e a Guerra do Vietnã conduziram ao distanciamento político entre os
dois povos.
As correntes migratórias avolumaram-se no pós-guerra, quantitativa e qualitativamente, incluindo até contingentes de alemães, italianos e
japoneses, prova de nossa índole pacífica e hospitaleira, e evidência
de que temos condições ainda de abrigar gente de diversos padrões
culturais e de qualquer parte, disposta a trabalhar de boa vontade pelo
engrandecimento da Nação.
No pós-guerra, constatou-se elevação da expectativa de vida e
queda da mortalidade infantil, valorização do homem, com redução
das chagas do analfabetismo e de doenças endêmicas, mas conservando também índices deprimentes terceiro-mundistas de desenvolvimento social, fome e miséria, que até hoje nos afligem.
A explosão populacional que se seguiu ao conflito acentuou a
falta de uma política social para atender à demanda habitacional,
assistencial e trabalhista, geradora de empregos. Intensificou-se
a prática de esportes e da educação física. Sentiu-se necessidade
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) “deixarmos transcorrer o atual momento histórico (. junto com as Marinhas de Guerra e Mercante no Atlântico Sul e a FAB nos céus brasileiros e europeus. especialmente nas camadas de onde provinham os soldados. mas verdade comprovada pelos fatos. mas inegavelmente o espírito da FEB serviu de fio condutor de idéias antigas e enraizadas dos militares que levaram o Brasil a ser içado a 8a economia do mundo... O patriota e talentoso General Góes Monteiro. De nada vale se não colhermos ensinamentos dos acertos e erros cometidos no passado para projetarmos um futuro mais promissor. mais por culpa própria. Id. em Dest. em correspondência ao Ministro das Relações Exteriores Oswaldo Aranha.. Se não logramos êxitos no campo econômico. bem como da eliminação dos quistos raciais estrangeiros.Luiz Paulo Macedo Carvalho de comunicação social e de massa. A participação brasileira no conflito serviu para despertar o gigante adormecido e representou. que se confunde com a da própria nacionalidade. e muito menos aos norte-americanos. 2005 45 . O mundo travava a maior guerra já enfrentada pela Humanidade e os líderes civis e militares brasileiros se empenhavam para alcançar uma posição compatível com a estatura do Brasil. creio que arriscaremos a perder tudo mais”.46. a guerra não nos trouxe apenas sacrifícios. dizia: (. por inexistência de bons hábitos de alimentação e de higiene. A epopéia escrita pela FEB na Itália. não poderá cair no esquecimento das gerações de hoje e futuras e ver-se substituída das páginas da nossa História Militar. um ponto de inflexão do Brasil para a modernidade. História não é simpatia ou antipatia.) sem nos levantarmos do berço para adquirirmos uma posição sólida e desafogada no continente. Rio de Janeiro. em síntese. no dizer de Pedro Calmon. maio/ago.. A convocação de cem mil homens para se selecionar 25 mil para a FEB mostrou a falta de higidez do povo em geral.. (18) : 33 . Conclusão É um erro associar a Revolução de 1964 à doutrina de segurança nacional inspirada pela ESG. no ano de 1944.

. maio/ago. pois.Luiz Paulo Macedo Carvalho Constitui. O autor é Coronel QEMA Reformado. 2005 . autêntico desserviço à nacionalidade brasileira neste momento não referenciar acontecimentos históricos que deram rumos diferentes ao Brasil em seu processo evolutivo há sessenta anos.46. em Dest. Membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História. Rio de Janeiro. (18) : 33 . 46 Id. é bom lembrar.

De qualquer forma. seja por ele mesmo. Em seu fazer a “mesma coisa”. sempre será necessário estabelecer-se o que o educando precisa saber e fazer. todas impossíveis de serem controladas. é preciso encontrar uma máquina. por exemplo. o “software” de um computador reproduz o igual. Assim. Funciona como a gravação da interpretação de uma sinfonia que sempre reproduz a interpretação gravada num momento do passado. que substitua o sujeito e o faça sempre do mesmo modo e com o mesmo resultado. Na época. os pensadores da educação iniciaram um movimento.52. mesmo quando produz um componente de um sistema físico qualquer.. ou melhor. O sujeito. Sua interpretação está sujeita às mais diversas interferências. em Dest. que ora Id. no sentido de deslocar o centro de gravidade do processo ensino-aprendizagem do educador para o educando. 2005 47 . que o componente seja sempre igual. seja por outro alguém. visando reproduzir o mesmo. resultando em discursos muitas vezes plenos de emoção. superando aquela centrada no mestre. (18) : 47 .Tacarijú Thomé de Paula Filho Reflexões sobre a Educação Tacarijú Thomé de Paula Filho Há algumas décadas. em seu permanente vir-a-ser histórico e jamais repetido. ou mesmo de difícil entendimento para os não iniciados. jamais toca a mesma sinfonia do mesmo modo uma segunda vez. pensemos no educando como um sujeito singular. Se desejarmos a repetição. sempre haverá uma diferença. é tudo o que o sujeito faz. sejam psicológicas. Diferentemente dos sujeitos. é esta a característica que neles buscamos insistentemente. que nunca reproduz o já feito. Rio de Janeiro. isto é. nunca será reproduzido nos “softwares” e computadores. um jamais realizado. um novo. um computador. sejam fisiológicas. Tudo indica que a mensagem foi entendida de várias maneiras diferentes. Um músico. maio/ago. falava-se de uma educação centrada no aluno. Um músico interpreta a mesma sinfonia de forma diferente a cada momento que a toca. a fim de realizar uma atividade específica por ele escolhida. Antes de responder a questão “do que saber para fazer?”. sejam elas ambientais. que tudo sabia sobre as coisas e sobre as pessoas.

Se não se repetissem. ou mesmo observando o comportamento do sujeito. ou os comportamentos observáveis. Rio de Janeiro. descobriremos que a trama dos neurônios e seus engramas não explicam o conteúdo do pensamento.52. 2002) O mistério do homem está muito além das máquinas por ele concebidas. O código das máquinas não reproduz a combinação semântica e sintática da linguagem em seu deslizar de intensidades e sentidos. 2005 . é impossível descrever esse conteúdo a partir da visão dos campos elétricos existentes na complexidade cerebral. Alguns podem imaginar a possibilidade de se controlar quimicamente os pensamentos. se olharmos a base orgânica sobre a qual ocorre o pensamento. Felizmente. A linguagem carrega um conteúdo. cujo sentido se transforma a cada momento. apenas o interpreta ao preencher as lacunas da percepção e do jogo simbólico das representações estruturalmente incompletas. O pensamento não é capaz de reproduzir o físico. sem vislumbrar suas expectativas. Além disso. a realidade representada pelo pensamento do sujeito nunca retrata a realidade física em si. a intenção do sujeito que pensa. contudo. apontam apenas para a possibilidade da existência de um pensamento. De fato. sem vislumbrar. transcende a base orgânica sobre a qual se estrutura. em função dos limites da simbolização do pensamento humano.. O sentido do pensamento. de seu conteúdo. ambas se confundem numa realidade para o sujeito que percebe. sem vislumbrar seus motivos. em Dest. Tais campos. sendo esta última uma realidade considerada virtual. para que serviriam afinal? (Demo. em função da emoção que atravessa a percepção da realidade. Isso só seria possível se houvesse uma relação direta e linear entre esta e o conteúdo dos pensamentos. Embora se faça diferença entre realidade física e realidade psíquica.Tacarijú Thomé de Paula Filho conhecemos. maio/ago. Como já foi dito. (18) : 47 . É dessa realidade que estamos falando. a mente humana 48 Id. o código do “software” é sempre o mesmo. atuando-se sobre essa base orgânica. Tais “softwares” são valiosos porque repetem. A linguagem por seu lado é pura interpretação a partir de uma base codificada cheia de lacunas. na medida em que o simbólico não recobre inteiramente o real.

mas cultural. os quais se misturam inteiramente com o deslizar das intensidades emocionais e com a incompletude estrutural da linguagem. interesses e intensidades emocionais.. em Dest. Id. Como seria então uma educação centrada no educando. tanto na transmissão do conhecimento. independentemente de nossos desejos mais conservadores. Nenhum dos dois momentos retrataria a realidade tal qual ela é. Diante desse paradoxo. Ou será que há um jogo de forças entre o homem e seu mundo. ou mesmo no educador. na medida em que cada sujeito elabora um sentido singular para o conhecido segundo seus desejos. que ocorre. 1992). Portanto. na medida em que você sabe o que ensina. não possui a possível estabilidade linear dos sistemas físicos. se o que se ouve é diferente do que foi dito? Tudo indica que o conhecimento é transmitido sempre se alterando. Freud chegou a dizer que a educação seria um ofício impossível. que. se estamos diante de um permanente “mal entendido”? Como o conhecimento poderia ser passado entre as gerações. No nosso caso. só se resolve no próprio diálogo. tanto a cada transmissão. a própria transformação do mundo parece dominar a comunicação e não o inverso. Durante o processo educacional. Portanto. energizando suas transformações? Talvez exista algo de revolucionário em todo e qualquer processo educacional. paradoxalmente humano. não controla suas interpretações da realidade percebida.Tacarijú Thomé de Paula Filho representa a realidade percebida através de símbolos. Evidentemente. além do alcance de controle do educador. Todos. sendo dependente muito mais da complexidade dos valores e das atitudes de seus componentes do que de um relacionamento formal estabelecido por lei (Demo. poderíamos dizer que o diálogo é um contrato com o mal entendido que. quanto na sua recepção. mas na interpretação do que foi recebido (Sfez. Rio de Janeiro.52. no qual estão presentes todos os requisitos definidores de sistema. pelos mesmos motivos. estava falando do processo de interpretação da realidade. a questão não está no que foi transmitido. 1990). quanto a cada recepção. maio/ago. (18) : 47 . o sistema não é físico. 2005 49 . imaginemos um sistema educacional. contudo nunca sabe o que o sujeito aprende. alterando constantemente o seu sentido durante o processo de comunicação (Freud. Nesse processo.

visualizemos o sujeito dividido em conhecimentos. um dos requisitos do perfil desejado: conhecimento. ao construirmos o processo educacional. habilidade e atitude. 50 Id.. isto é. Assim. Foi o que a taxionomia dos objetivos educacionais de Bloom pretendeu ao estabelecer domínios relativos ao campo cognitivo. há uma entrada disparadora de seu movimento. respectivamente. nos quais jamais se consegue reproduzir o mesmo. em Dest. ou do que era. (18) : 47 . De qualquer forma. teríamos como referência esses requisitos. da produção em massa. alguns critérios de avaliação destes resultados e uma retroalimentação capaz de mantêlo atualizado. a capacidade de transformar a realidade através de seus atos. 1976). a retroalimentação não serve para corrigi-lo e obrigá-lo a reproduzir de forma padronizada o mesmo. Rio de Janeiro. a capacidade de representar a realidade através de símbolos a ela relacionados. nos quais a repetição é puro engano. Assim. Ainda esquematizando. um processo de geração de resultados. 2005 . Um modelo sugere a possibilidade da repetição. habilidades e atitudes. maio/ago. Cada domínio focando. os quais poderiam ser expostos de acordo com conhecimento.Tacarijú Thomé de Paula Filho 2002). diríamos que uma atividade qualquer tem alguns requisitos para sua realização. nunca na reprodução do que foi. e atitude como sendo o seu modo de ser diante da realidade.52. ao campo psicomotor e ao campo afetivo. Diferentemente de um sistema físico. tomando como referência a complexidade dos sistemas culturais. A retroalimentação dos sistemas culturais serve para atualizá-los num permanente vir-a-ser transformador e criativo. o sistema educacional nunca volta ao mesmo ponto de partida. Tais requisitos balizariam o perfil daquele capaz de realizá-la. Nenhum deles se manifesta isoladamente. olhemos com dúvida para o que se apresenta como modelo educacional. induzindo os não iniciados a acreditarem na existência de fórmulas salvadoras para os resultados da educação. nem pode ser deduzido a partir dos demais. habilidade. Esses aspectos se misturam numa trama maior que a soma de suas partes. Numa tentativa de esquematizar nosso argumento. habilidade e atitude (Bloom. Sendo Conhecimento.

no sentido de “melhorar” o processo.52. Contudo. Estará fora de seu tempo. tal como ocorre “mecanicamente” nos “softwares”. De novo. Atualização parece estar mais próxima do sujeito que nunca se repete.Tacarijú Thomé de Paula Filho A questão agora é: como definir os requisitos para uma determinada atividade? Na era do conhecimento e da comunicação. o processo ensinoapredizagem não responderá ao esperado pelos “experts” das diferentes atividades. provavelmente o será perguntando às figuras representativas dessas atividades (“experts”) o que elas esperam como resultados objetivos. Rio de Janeiro. não será o esperado. surpreendentemente. sempre mudando a cada “giro”. haverá diferenças. Suas respostas estarão de acordo com seu tempo. O sistema educacional partirá do agora e chegará ao antes no futuro. (18) : 47 . haverá novidades inesperadas. quando as atividades se faziam diferentes. perguntamos aos “experts” o que esperam das atividades realizadas pelos “doutores”. sempre “girando”. Assim. teremos um eterno recomeço. Algo será feito e. A resposta para esse paradoxo parece estar numa Educação Permanente. pelos artífices.. A avaliação do desempenho dirá que algo deve ser feito. de fazer com que ele responda às expectativas dos “experts” consultados. se os educadores se conformarem Id. no sentido de atualizá-lo. o sistema produzirá alguém que precisa de atualização. ao se estruturar o sistema educacional com seus objetivos bem elaborados e focados nos requisitos estabelecidos. pelos sacerdotes. o que elas pensam sobre os requisitos para atingi-los. não será o ideal. pelos técnicos. sempre se afastando do antes e nunca chegando ao depois. pelos militares. 2005 51 . maio/ago. em Dest. Haverá lacunas. mas fora do tempo futuro do educando. tal qual o descrevemos neste texto. para realizar a atividade para a qual teria sido preparado. de novo. Formação parece estar mais próxima da possibilidade de repetição do mesmo. A operacionalização desse conceito será viável se os educadores descobrirem que sabem o que já passou e puderem ouvir os “experts” das atividades em suas atualidades. que escape do conceito de Formação e mergulhe no de Atualização. pelos que plantam nossa comida. Finalmente.

por enigmas da existência guardados pelos desígnios do Criador. por sendas do conhecimento ainda por serem desveladas. Inventar constantemente a própria vida parece ser o destino humano. 2005 . longe de ensinar o presente. A vida é um processo helicoidal em perpétuo movimento. é apenas uma imagem atraindo uma esperança que fala do futuro. descobre-se alguém tateando por caminhos nunca trilhados. ainda sem resposta fora Dele. em Dest. 52 Id. O autor é Coronel-Aviador da Reserva da Aeronáutica. deslocando-se para um infinito desconhecido.Tacarijú Thomé de Paula Filho que precisam perguntar para saber e que saberão sempre em atraso com o futuro. já que não aportaremos em lugar algum neste processo. pelo “de onde vim e para onde vou?”. O papel dos educadores neste novo tempo é criar as condições favoráveis para que o processo educacional “gire” em seu eterno movimento de atualização. A educação. maio/ago. (18) : 47 . Rio de Janeiro. para que o educando esteja sempre com o olhar no tempo que virá. eu diria que o lugar finalmente esperado não existe ainda. é apenas uma plataforma de lançamento para o futuro ainda virtual. estaremos um passo adiante e não reconheceremos nele o passado esperado com saudade. Quando se imagina que se possui o saber. Se alguém se perguntar o que é educar. que será o presente do educando..52. Quando imaginamos voltar ao mesmo lugar.

zonzo. o “Boi”. depois de uma hora e meia de vôo. com a tal “Ficha Rosa pra ajudar”. E. era uma desgraceira de uma hora e meia de vôo. sem repetir. E. na nacele traseira do T-6. na primeira 8BA. Era a famosa missão de pau-e-bola. inclusive devido à fome. Já me ajudara uma vez. Até aí muito lero-lero. e a minha desdita. sem comandar mais nada. 2005 53 . fiquei quietinho. (18) : 53 . com meu Mestre. resolveu me ajudar um pouquinho. “manche mágico”.55. É que só o Santos-Dumont conseguiu fazê-la (voá-la) apenas uma vez. sob capota. E nós ali voando. O “Boi” era um gauchão gente boa. na Escola de Aeronáutica. “na moita”. que ainda tinha a “cara de pau” de dizer para o cadete: – Não contraria não. o amado Mestre. sim. sem meu comando. voando Instrumentos com auxílio apenas do pau-e-bola (Indicador de Curvas e Viragens). maio/ago. ele que. outra lenda da Instrução de Vôo. pois era hora do Rancho do almoço. como “cadete tem parte com o demônio” (essa expressão é dele).. mas explicando numa linguagem mais popular. na minha segunda 8BA. Era o “Boi” me ajudando. já via estrelas. compadecido. E assim mesmo porque ele foi um privilegiado: o único aviador que não teve Instrutor. “brabo pra caramba”. Foi quando notei a sutileza de o manche mover sozinho. a bem da verdade. não era “manche mágico”. em Dest. diga-se. moreno. Eu levei pau na primeira e repeti UMA vez. Então. Lembrei de um outro IN. cujo nome oficial guardava uma pompa: Painel Parcial. Essa missão apresenta uma semelhança com aquela máxima do “vai dar de novo” (relativa ao cavalo-de-pau). Rio de Janeiro. Pois é aí que começa nossa história. daí o nome de Painel Parcial.. esse. eu. Id. mas era gauchão. como tal.. Tendo eu “dançado” na primeira tentativa em superar a 8BA.Milton Mauro Mallet Aleixo A Inesquecível 8BA Milton Mauro Mallet Aleixo “Oitobeá” era a oitava missão do Curso Básico (BA) de VI (Vôo por Instrumentos).

mas calado não. pois eu não iria apanhar calado. Então. para minha desgraça. batendo de um a outro lado do canopi. Não era só por levar uns cacetes. devagarzinho. lá da nacele da frente. 54 Id. quebra costelas. Ainda bem que eu estava de capacete. Apanhar eu ia. ensandecido. que era feito pelo IN.. aquele abraço de gaúcho. Pensei em te desligar. que não posso repetir aqui e. Lá na frente caminhava o “Boi”. simultaneamente. que por acaso preservo até hoje. pois minha cabeça acompanhava. missão encerrada. Não aquele. havia pressa. a rodar o manche como se estivesse mexendo aquele panelão de feijão no Rancho. É que eu. Desci e fui andando para o hangar para preencher a Ficha FAB (Relatório de Vôo). abri a capota de VI e. 2005 . Eu resolvera nem abrir a capota de VI. que quase te esmaga ou. Foi quando ele fez meia-volta e veio em minha direção. De repente silêncio. o avião estremeceu com o salto do “Boi” para cima da asa esquerda. Foi quando. “Pô”. na mala do carro. E retornamos para o pouso. Minha turma sabe quem é. embora magrinho. O que eu via ali era o meu desligamento. (18) : 53 . maio/ago. a nacele.. no mínimo. A minha nacele estava fechada. Rio de Janeiro. sem eu querer. mas aquilo não era impedimento para o gauchão. e falou: – Eu pensei em te encher de pancada. o “Boi” notou a malandragem. fiquei escondido lá. imagine! De repente. Já passara seis anos de Escola me defendendo de cearenses e gaúchos com um famoso porrete. começou a urrar uma seqüência de palavrões.55. seria para o almoço? Depois. mas. eu fiquei preocupado.. em te aplicar mil estrelas. Paramos no estacionamento já com o motor cortado. mas uma versão aperfeiçoada.. O Brabo não estava mais lá.Milton Mauro Mallet Aleixo Mas desse eu não digo o nome. era um bocado “encardido” (irado). em Dest. E eu esperando a primeira lambada. eu só não sabia para quê. enfurecido. calmaria.. Então o “Boi” me abraçou. os movimentos do manche. passados alguns poucos minutos. imaginando o que aconteceria após o corte do motor.

fez suspense.”. Rio de Janeiro. – Capota de VI: cortina branca. Assim foi o final feliz. que impedia totalmente a visão para o exterior do avião.Milton Mauro Mallet Aleixo Aí ele parou.. Nunca mais faça isso! Vamos almoçar. em Dest.. 2005 55 . (18) : 53 . A arrecadação era utilizada no final do ano para um churrasco dos Instrutores. Id.. maio/ago. era só isso que me interessava. Então ele concluiu: – Mas cadete é assim mesmo. Legenda: – Estrela: moeda corrente na Instrução para punir as mancadas dos cadetes. Hoje o “Boi” mora aqui em Fortaleza e sempre que a gente se encontra ainda dá boas risadas lembrando desse lance. de lona. E eu querendo saber o que viria depois do “mas. “tem parte com o demônio”. O autor é Coronel-Aviador da Reserva da Aeronáutica.55.

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estabelecendo a Política de Desenvolvimento Sustentado. As ONGs internacionalistas escolheram para tema de sua penetração a questão indígena e. em 1988. ultimamente. Baseado em critério interpretativo questionável. lançou o Programa Nossa Natureza. em parte. Poucas vezes firme. vacilante. tem perdido eficiência por falta de recursos financeiros e por vergonhosa corrupção. o Executivo homologou. o território norte do Estado de Roraima. que vinha obtendo resultados favoráveis no combate ao desmatamento. com 180 línguas e dialetos (IBGE). com decretos e portarias. em Dest.Carlos de Meira Mattos Uma Política de Defesa para a Amazônia Carlos de Meira Mattos A Assembléia Constituinte de 1988.. cedente e. o Governo Sarney. divididos em 215 etnias. vem conquistando um número crescente de adeptos no exterior e mesmo no nosso País. totalizando 1/10 do território nacional. Qual tem sido a atitude do Governo brasileiro em face das investidas internacionalistas? Algumas vezes cega. lançadas na Europa e nos Estados Unidos pelas ONGs transnacionais. pressionada pelas Organizações Não Governamentais (ONGs). para uso privilegiado de cerca de 700 mil índios. outras vezes dúbia. as reivindicações sobre reservas indígenas. Buscando responder críticas internacionais acusatórias de ineficiência na preservação do meio ambiente e na contenção da destruição da floresta tropical. particularmente entre as organizações que delas recebem financiamento e brasileiros que delas dependem por seu emprego.59. Visando executar o Programa foi criado o Ibama. para área principal de operação. maio/ago. A propaganda das idéias de internacionalização. mas que. (18) : 57 . 2005 57 . contíguo às nossas fronteiras com a Id. Rio de Janeiro. entre tribais e semitribais. colocou na Constituinte vigente conceitos de interpretação duvidosa sobre “terras tradicionais dos índios”.

em qualquer país ou em entidade internacional. M Administrar eficazmente a proteção da floresta. em Dest. 58 Id.. Rio de Janeiro. Elas escolheram uma região vulnerável. A soma da superfície destas duas reservas esteriliza para a ocupação e economia cerca de 50% do território do Estado de Roraima. superfície de 96.430 km2 (metade do território do Estado do Rio de Janeiro) para uma população de 15 mil índios. pela sua contigüidade com um espaço trifronteiriço (Brasil – Venezuela – República da Guiana). superfície de 17. envolvendo o Brasil. a proteção da população indígena e a preservação do meio ambiente (sem prejuízo da valorização política. a nosso ver.59. (18) : 57 . pela distância dos grandes centros. e a demarcação das reservas dos índios de Raposa Terra do Sol. econômica e social da região e de seus habitantes). capaz de refutar veementemente. M Possuir uma diplomacia super ativa e vigilante. deve se basear nos seguintes itens principais: M Demonstrar vontade nacional inabalável de preservar intocável nossa soberania territorial (para isto mobilizar a consciência das elites e do povo). surjam eles onde surgirem. de imediato. Nossa política de defesa contra as pretensões de internacionalizar a nossa Amazônia. A constância de sua ação e o apoio de ONGs internacionais nas suas pressões sobre o Governo brasileiro já lhes asseguraram duas vitórias: a demarcação das reservas indígenas de Ianomâmis. buscando integrá-los na missão de defesa contra a campanha de internacionalização da área.649 km2 (equivalente à do Estado de Santa Catarina) para uma população de cerca de nove mil índios. maio/ago. M Estreitar nossas relações com os países nossos vizinhos amazônicos.Carlos de Meira Mattos Venezuela e República da Guiana. 2005 . qualquer insinuação ou projeto internacionalista. pelo seu despovoamento. Incentivar os projetos de povoamento e de desenvolvimento sustentado da Amazônia Norte e Oeste.

. 2005 59 . por seu efetivo. armamento moderno. Rio de Janeiro. em Dest.59. Doutor em Ciência Política e Conselheiro da Escola Superior de Guerra. maio/ago. que. veterano da Segunda Guerra Mundial. especializado em guerra na selva. equipamento e adestramento represente uma força de dissuasão convincente. Id. capaz de desencorajar aqueles que projetem uma conquista fácil. Saberemos respondê-lo? O autor é General-de-Divisão Reformado do Exército.Carlos de Meira Mattos M Manter na região um dispositivo militar de defesa. (18) : 57 . Este é o grande desafio diante dos brasileiros desta geração.

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locando barreiras ao exercício de seu poder. como conceito e como ordenamento político institucional.71. na área econômica. que buscava aumentar o poder dos Estados às expensas dos demais Estados rivais. uma Entidade Imprescindível O Estado moderno. O período compreendido entre o final do século XVIII e início do século XIX é conhecido com a Era das Revoluções. Rio de Janeiro. O Estado. Ao final do século XVIII. A convergência da economia de mercado. Não obstante. a qual buscava traçar limites precisos ao Estado. maio/ago. (18) : 61 . a Revolução Francesa e a Guerra da Independência Hispano-Americana. A chamada ordem liberal.Manuel Cambeses Júnior O Estado: Apreciação sob quatro Enfoques Manuel Cambeses Júnior O artigo reúne quatro comentários do autor sobre o Estado. cujo conceito parece atravessar uma fase de ajustamento no mundo que emergiu do fim da Guerra Fria. Entre os séculos XVI e XVIII a noção do Estado assentou-se em uma concepção mercantilista de economia. geraram as bases de uma nova ordem. De acordo com ele.. Durante esse espaço de tempo. no campo político. tanto mercantilismo como absolutismo entraram em crise. e do Estado de direito. começa a desenvolver-se na Europa a partir do século XIII. ocorreram a Revolução Americana. a lealdade fundamental do cidadão deveria ser dirigida ao Estado-Nação. Todas elas se assentaram sobre a idéia do Estado-Nação como conceito Id. o mesmo vai adquirir novos ares com a aparição do fenômeno nacionalista. em Dest. Não foi sem razão que essa doutrina econômica resultou paralela ao surgimento e auge do absolutismo. 2005 61 . A sua característica principal é a busca da centralização do poder em uma instância que abarque as relações políticas fundamentais. longe de iniciar-se nesse momento o declínio do Estado.

Para os lados. nesse momento. Sob o aspecto jurídico. provê as bases para a consolidação deste novo conceito de Estado. Para cima. maio/ago. A nova linguagem do Direito Internacional se assenta em noções como soberanias limitadas. ao iniciar a década final do século XX. que hoje recaem sobre este antigo e familiar conceito. expandindo o seu âmbito em nível planetário. a sobrevivência do Estado como instituição fundamental está seriamente comprometida. 2005 . o político e o econômico.71. novos Estados centralizados. as quais se consideram representativas de identidades étnicas e culturais. Nele se produziu a estadolatria dos totalitarismos fascistas e comunistas. Para baixo. todas as quais têm como denominador comum o desconhecimento do Estado como ator essencial da vida internacional. Rio de Janeiro. O século XX levou o Estado a limites nunca vistos anteriormente. tutelas internacionais. direito de ingerência e administrações supranacionais. que trouxe consigo a implantação de todo um conjunto de paradigmas emergentes. conduzindo-o a uma intensa crise histórica. A tese da soberania popular. O período compreendido a partir da Segunda Guerra caracterizou-se pela contraposição de dois superestados e de seus respectivos aparatos e sistemas de alianças.Manuel Cambeses Júnior superior. que emergem ao interior dos próprios Estados. Terminada a Segunda Guerra Mundial. em direção a regiões cada vez mais autônomas. por sua parte. como Alemanha e Itália. em Dest. No campo político. o poder deste fortaleceu-se na Europa. um autêntico cataclismo fez sacudir em seus alicerces a noção de Estado. Entre os dois últimos segmentos e o primeiro há a tendência de se estabelecerem relações cada 62 Id. a União Européia e a Organização Mundial de Comércio. tais como o Conselho de Segurança da ONU. Entretanto.. Isto foi o resultado inevitável do colapso do comunismo. são tão grandes quanto variadas. o Estado-Nação se identificou com o processo de descolonização na Ásia e na África. o poder que tradicionalmente deteve o Estado está tendendo a fluir em distintas direções. Surgiram. (18) : 61 . Ao longo do século XIX. As ameaças. para Organizações não Governamentais enraizadas com a sociedade civil. em direção aos organismos supranacionais e coletivos. originária de Rousseau. cavalgando sobre a idéia do nacionalismo.

que a economia tem evidenciado nestes últimos anos. em Dest. o Estado apresenta-se cada vez mais impotente. o filósofo alemão Hegel escreveu um dos livros mais importantes do século XIX: a Constituição Alemã. Dentro dela. Destruir o Estado significa. principados. como também. A queda do Muro de Berlim trouxe consigo a preeminência do econômico sobre o político e. também. eram os únicos territórios que encarnavam verdadeiros Estados. perder o sentido do coletivo e renunciar a mobilizar as forças espirituais dos cidadãos em função de um ideal superior. permitindo acumulações de capital nunca antes imaginadas. torna-se mais necessário do que nunca contar com essa instituição ancestral. aos megaconglomerados da comunicação social e à fusão das grandes corporações transnacionais. Rio de Janeiro. Áustria e Prússia não somente se haviam convertido em duas forças dominantes. indispensável e insubstituível: o Estado. na década de 1930 e no pós-guerra. do âmbito do privado sobre o público. vai perdendo o seu caráter de articulador fundamental da vida nacional e de interlocutor natural em matéria internacional. O Estado. Nele. é no campo econômico que as ameaças contra o Estado se apresentam maiores. deixar sem intérprete o sofrimento dos excluídos. ducados.. Acuado frente aos mercados financeiros.Manuel Cambeses Júnior vez mais diretas que obstam o Estado central. dessa maneira. (18) : 61 . acompanhado de um gigantesco salto tecnológico. quando o frenesi dos mercados ameaça condenar à pobreza centenas de milhões de seres humanos. Destruir o Estado é retirar do jogo a única instituição que foi capaz. de sustentar a economia e de reverter suas grandes crises. entretanto. tem proporcionado uma extraordinária vitalidade ao fenômeno econômico.71. 2005 63 . Naquela época. entretanto. o processo de desregulação. Entretanto. territórios eclesiásticos e entidades autônomas dos mais variados matizes. sufocar as reivindicações dos povos. Por sua vez. no sentido moderno. Id. Estado e Modernidade Em 1802. fazia um chamado à formação de um Estado unitário alemão como requisito indispensável para que os germânicos adentrassem nos tempos modernos. a Alemanha se achava dividida em: reinos. Hoje. maio/ago.

Rio de Janeiro.71. em 1861. Bismarck. lutaram pela conformação de Estados unitários. um movimento a favor da unificação do país. Foi em 1871 que essa aspiração unitária se consolidou. como Hegel.. maio/ago. em Dest. Estavam convictos de que ao banir as divisões territoriais e autônomas. Este. a partir de 1815. além de um Estado papal. Este movimento. que servia de base à desunião. semelhante à Alemanha. Foi a partir da conformação desse Estado unitário que pôde surgir. que se passassem várias décadas para que isso se transformasse em realidade. uma outra nova criação: uma linguagem comum a todos os italianos. a cada um de seus integrantes. Tratava-se. diferentemente de Hegel. teve como seu maior expoente intelectual o célebre Mazzini. 2005 . de um direito definido por todos e assentado na chamada liberdade alemã. utilizou o idioma francês para escrever o seu trabalho literário. Quando homens talentosos. estavam convencidos de que a força da História os acompanhava. o direito de livre arbítrio. Mazzini ou Garibaldi. herdadas da Idade Média. não passava de um anacronismo que mantinha a Alemanha de costas para a História. que ficou conhecido como o Ressurgimento. efetivamente. Isto submetia os alemães a uma manifesta condição de atraso frente aos grandes Estados nacionais da Europa. Hegel fazia referência ao princípio de organização feudal que prevalecia na Alemanha e que reconhecia e garantia. ingressariam nos novos tempos e se adaptariam 64 Id. Para Hegel esta liberdade. Após longos anos de conspirações e combates. (18) : 61 . que não existia uma linguagem que fosse comum a todos. Hegel formulava um vigoroso chamado à conformação de um verdadeiro Estado alemão. se encontrava dividido em múltiplos reinos. com a criação do moderno Estado germânico. porém. como França e Inglaterra. principados e ducados. Dessa maneira. Foi necessário. também. Também na Itália começou.Manuel Cambeses Júnior Em sua obra. que escrevia suas obras em um alemão comum a todos os alemães. o novo Estado italiano pôde tornar-se realidade. que. os italianos conseguiram emergir da Idade Média para adentrarem-se nas filas da modernidade. A razão disso é que havia tantos dialetos e variações do idioma italiano.

Id. bem poderia afirmar-se que o Muro de Berlim não somente representava a última muralha de contenção do pensamento político frente ao avanço do setor econômico. Huntington em sua famosa obra The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order.. Durante muito tempo as identidades. não somente para promover seus interesses. linguagem. Dele nos fala Samuel P. costumes e instituições. ao finalizar o século XX. as distinções mais importantes entre os povos não são ideológicas. em todos os tempos. Como exemplo pode-se citar a Espanha que. (18) : 61 . estiveram reprimidas em função das imposições ideológicas. Com a fratura das ideologias. a modernidade se identificaria com os fracionamentos. propugnava. valores. políticas ou econômicas. nações. Os povos estão utilizando a política. história. o fenômeno cultural pôde atingir plena força e vigor. Com a queda do Muro de Berlim. sinônimos do cultural. as divisões territoriais. Eles se identificam com grupos culturais: tribos. José Ortega y Gasset. De fato. maio/ago. as autonomias desatadas e a proliferação de diversas linguagens no interior de vários Estados? Faz-se mister ressaltar que esse processo não é novo.. na década de 1930. em Dest. Porém. no mundo do pós-Guerra Fria. para definir suas identidades. com o desaparecimento das barreiras ideológicas.. Rio de Janeiro.71. Os povos e as nações estão tentando responder à pergunta mais elementar que os seres humanos podem formular: quem somos? Os povos estão definindo-se a si próprios em termos de religião. bem como do ideológico em face do avanço do cultural. a necessidade de dar rédeas soltas às autonomias regionais. São culturais. foi com o colapso do comunismo que esse processo recuperou toda a sua força. Segundo suas palavras. Não obstante.Manuel Cambeses Júnior às exigências do futuro. Em 1931. a economia passou a ocupar espaços de preeminência que antes eram reservados ao setor político. 2005 65 . grupos étnicos. o surgimento do cultural ocorreu de forma inevitável. comunidades religiosas. enveredou por estes caminhos. também. sob o rótulo de modernidade. uma das inteligências mais brilhantes desse país. ao mesmo tempo. como. Poderiam eles imaginar que. nas cortes constitucionais.

a venda da idéia autonomista. Inevitavelmente. o Governo inglês decidiu tomar a iniciativa. O poder.. cada cidade. Entretanto. 2005 . Diante desta curiosa realidade. recentemente. autonomias perdidas há séculos. as quais se consideram mais representativas de uma identidade étnica ou grupal. Reivindicar tradições locais ou regionais. o fenômeno étnico ocupa um lugar relevante.71. de reformar as bases constitucionais da Nação. Rio de Janeiro. em direção aos organismos supranacionais e coletivos. no caso da Escócia. dialetos. O curioso deste processo é que o próprio Estado central se transformou em artífice de seu debilitamento. diversos Estados encontravam-se desgarrados por conflitos étnicos. o desmembramento comunista iniciado a partir de 1989 desatou uma efervescência do sentido étnico que conduziu ao questionamento de inumeráveis fronteiras estatais em vários locais do mundo. flui agora em duas direções distintas: para cima. está em moda no mundo atual. a marcha dos tempos aponta em direção aos particularismos culturais. cada região. em direção a regiões cada vez mais autônomas. costumes específicos. busca encontrar sinais definidores de seu próprio ser. para baixo. em Dest. Muito antes que começassem a aparecer os sintomas da enfermidade que consumia o Império Soviético. Se bem que. o estado de ânimo prevalecente favorecia esse processo. (18) : 61 . onde foi necessário que o Governo central pusesse todo o seu poder de convicção frente aos reticentes eleitores locais. que diriam Hegel ou Mazzini dessa volta aos ideais da Idade Média? Estados e Etnias Na nova realidade internacional que emergiu após o colapso do comunismo. assumindo.Manuel Cambeses Júnior Diante desse novo cenário. na atualidade. Cada município. De fato. frente a tais regiões. Numerosos grupos étnicos reclamam. seu direito a uma existência independente dos Estados de que fizeram 66 Id. devolvendo à Escócia e ao País de Gales. que até pouco tempo eles detinham. Sob essa ótica. maio/ago. em detrimento de Gales. a ele corresponde uma cota de responsabilidade muito importante na crise que hoje vive o Estado. isto somente é possível às custas do poder e do sentido unitário dos Estados centrais.

os problemas não pararam de crescer. A Rússia sofreu na própria carne os custos do desmembramento que a URSS lhe proporcionou. compartindo um mesmo espaço estatal. (18) : 61 . Contudo. e viabilidade política. Prevaleceu a impressão de que qualquer mini-Estado que emergisse no cenário internacional poderia encontrar viabilidade econômica. integrando-se a um mercado comum. os enfrentamentos da origem étnica fizeram-se sentir na Moldávia. Id. em Dest. após o final da Guerra Fria. sem contar com o poder aglutinador e protetor de um Estado consolidado. o fato de proclamar-se a preeminência dos organismos supranacionais e coletivos como fundamento da nova ordem mundial muito colaborou para o florescimento dos sentimentos de origem étnica. na Turquia. no Azerbaijão. colocou em marcha um furacão político de grandes proporções. maio/ago. Isto porque se tratava de um Estado integrado pelos despojos de dois grandes impérios (Austro-Húngaro e Turco). A Iugoslávia foi a primeira a sofrer o impacto dos novos tempos. seguida pelo esfacelamento da União Soviética. Na Chechênia.71. para aqueles que possuíam uma pluralidade de identidades étnicas. Na antiga União Soviética. graças ao guardachuva protetor dos mecanismos de segurança coletivos. a retirada dos soviéticos deixou quatro grupos étnicos enfrentando-se entre si. Os Estados assentados em uma identidade nacional sólida ficaram imunes à força dos ventos originados pela queda do Muro de Berlim. trinta mil mortos é o balanço dos intentos de Moscou para evitar a secessão. na Armênia e no Tadjiquistão. sustentados por países vizinhos. o embate armado da população de origem curda prossegue de forma sangrenta. 2005 67 . Não obstante..Manuel Cambeses Júnior parte durante longo tempo. na Geórgia. Somente na Bósnia morreram duzentas e cinqüenta mil pessoas. Ademais. cuja diversidade étnica a convertia em um laboratório ideal para sofrer os rigores da nova realidade. observa-se que os massacres proliferam entre etnias obrigadas a conviver sob um mesmo teto estatal. Um pouco mais a oeste. Rio de Janeiro. No Afeganistão. Isso estimulou muitos grupos étnicos a propugnar por uma existência independente. O exemplo dado com a reunificação alemã.

A África e o mundo árabe são testemunhas altamente ilustrativas neste sentido. Ruanda e Borundi constituem casos extremos do potencial de violência que leva consigo o tema étnico. Curiosamente. oitocentas mil pessoas feneceram depois do assassinato do presidente da República. Entre 1993 e o final de 1995. pode encontrar-se na resposta internacional contra o Iraque. como resultado desse mesmo fenômeno. os enfrentamentos entre os grupos Tutsi e Hutu. maio/ago.. porém ocorre que também no Hemisfério Norte a sobrevivência de vários Estados encontra-se comprometida. após o desconhecimento das fronteiras kuwaitianas. A razão disso. Em ambos os casos. ao contrário. com exceção do problema curdo no Iraque.71. os problemas étnicos têm proliferado livremente. a secessão de Quebec constitui-se em fonte de permanente preocupação para os canadenses. 2005 . que traçava fronteiras com total desconhecimento dos grupos étnicos subjacentes. o cenário árabe encontra-se à margem da crise dos etnicismos desatados. coração da Europa unitária. Na Libéria. têm sido a causa das matanças. tornaram-se particularmente vulneráveis à força desestabilizadora deste fenômeno. a 68 Id.Manuel Cambeses Júnior Os Estados criados pela mão do colonialismo. Em Ruanda. O problema ali é outro: o fundamentalismo. Canadá e Bélgica são dois exemplos particularmente representativos. por parte de Saddam Hussein. Na África. em abril de 1994. comuns a ambos os países. Poderíamos continuar enumerando exemplos de guerras civis e massacres no Hemisfério Sul. No primeiro deles. o qual tem em comum com o fenômeno étnico a busca de uma parcela própria do universo que permita viver de acordo com as raízes islâmicas. Na Bélgica. Verifica-se que no continente africano a identidade étnica transformouse em fonte de constante ameaça para a subsistência dos Estados herdados da era colonial. uma sangrenta guerra civil enfrenta diversas facções que se assentam em grupamentos étnicos definidos. em Dest. Já se fala do desaparecimento das fronteiras artificiais de ambos os Estados. seguramente. mais de 100 mil pessoas morreram no Borundi como resultado dos massacres gerados pelo ódio étnico. Rio de Janeiro. para criar uma Tutsilândia e uma Hutulândia que permitam a integração destas etnias em dois Estados homogêneos. (18) : 61 .

O novo Direito Internacional aponta para concepções tais como: o direito de ingerência. O século XX. não somente Alemanha e Itália fizeram seus aparecimentos no cenário mundial. o fenômeno da globalização vai carcomendo implacavelmente as funções dos Estados e as identidades sobre as quais estes se assentam. (18) : 61 . Por outro lado. dirigido a regiões cada vez mais autônomas. para baixo. transformou-se na era do ocaso dos Estados. para os lados. catalães.e. tutelas supranacionais. maio/ago. finalmente. ao mesmo tempo em que o fenômeno étnico e os fundamentalismos vão escavando suas bases de sustentação. Nesse século. mas. em Dest. também. durante os cinqüenta anos que durou a Guerra Fria. orientado aos organismos supranacionais e coletivos. corsos. Observa-se que o poder que anteriormente os Estados detinham. conseguiu evidenciar as máximas expressões de estadolatria . direitos humanitários e soberanias limitadas. bretões. de importantes Estados surgidos do desmembramento dos impérios coloniais. transformando-se em um grande Estado continental. A última década desse século.. escoceses. o mundo girou em torno de um sistema de relações interestatais centrado em dois grandes Estados. também. entretanto.71. Id. A Crise do Estado O século XIX viu o surgimento dos últimos grandes Estados. Em nenhum momento da evolução histórica da Humanidade os Estados encontraram-se em tal condição de desprestígio. os Estados Unidos puderam realizar seu destino manifesto. todos os quais coincidem com o desconhecimento da primazia estatal dentro da ordem internacional. atualmente tende a fluir em três direções distintas: para cima. entretanto. A esse curioso cenário poderemos acrescentar a problemática do fenômeno autonomista que envolve gauleses. bascos etc. 2005 69 . Rio de Janeiro.Manuel Cambeses Júnior ancestral rivalidade entre walones e flamengos projeta-se como uma espada de Dâmocles à subsistência deste rico Estado.com o aparecimento do fascismo e do comunismo . Acrescente-se que. em direção às organizações não governamentais e.

Sob o influxo da globalização os Estados vão se desfazendo de boa parte das funções que os caracterizavam. observam como. O porquê desse fenômeno está intimamente ligado à própria crise do Estado. Em outras palavras. ao seu redor. A inevitável erosão da lealdade do cidadão para com o Estado vê-se reforçada com o desgaste da identidade nacional que a globalização traz em seu bojo. crescentemente desassistidos e ansiosos. através de uma intensa ação asfixiante. confrontam a mesma ameaça. em Dest. Os cidadãos. De alguma maneira. a possibilidade de encontrar. e deixaram de ser unidades de auto-sustentação. ou seja. de cima para baixo. em nível planetário. destruindo seus alicerces. Em segundo lugar. da Iugoslávia e da Tchecoslováquia surgiram vinte e dois Estados independentes. o Estado. maio/ago. como Canadá e Bélgica. Somente do desmembramento da União Soviética.. na medida em que os Estados se integraram. Cada vez menos os Estados se distinguem das corporações privadas e cada vez mais vão se regendo pelas mesmas normas de competitividade. (18) : 61 . torna-se possível que suas regiões componentes possam aspirar a uma existência independente. em nível global. Porém. os elementos de complementaridade e integração que davam sentido ao Estado. Quatro elementos centrais explicariam o processo em marcha. os núcleos radicais de identidade que buscam conformar Estados que atendam às suas particulares características. Em terceiro lugar. Em primeiro lugar. 2005 . o fenômeno globalizador vai pressionando. o próprio fato de que o êxito na economia global não é 70 Id. não foi somente no velho bloco socialista que se produziu esse fenômeno. tudo passa a reger-se pelas exigências e pela ética do capital privado. É o resultado inevitável da homogeneização planetária. que conspiram sistematicamente contra os Estados.Manuel Cambeses Júnior Particularmente chamativo é o duplo processo de desmontagem que se opera sobre o Estado. adentrando em processos de privatização e abandono de serviços públicos. Paradoxalmente. desde as instâncias da globalização e do fundamentalismo. Países centrais dentro do mundo ocidental. a crise do Estado tem vindo acompanhada do surgimento indiscriminado de novos Estados. A única resistência capaz de interpor-se a essa ação devastadora e implacável é representada pelos núcleos de identidades subsistentes.71. os fundamentalismos e os etnicismos desatados. Rio de Janeiro.

maio/ago. Em quarto lugar. mas pela qualidade de seus recursos humanos. Os segmentos e regiões mais avançados do interior dos Estados começam a ver. Rio de Janeiro.. hodiernamente.Manuel Cambeses Júnior determinado pela quantidade de recursos naturais. sob a proteção dos organismos de segurança coletiva e do novo Direito Internacional. a crise que o Estado enfrenta é a própria fonte de sua proliferação. O autor é Coronel-Aviador da Reserva da Aeronáutica. buscando desvencilhar-se deles. os territórios e porções sociais mais atrasados. (18) : 61 . 2005 71 . Id. na atualidade. porém significam cada vez menos em termos de soberania e autodeterminação. tornando-se desnecessário o escudo protetor dos Estados mais fortes.71. membro-correspondente do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e pesquisador do INCAER. já é possível a subsistência de Estados débeis. ou seja. os Estados ampliam-se em quantidade. como uma carga desnecessária. em Dest. Em síntese.

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(18) : 73 . dentre outros. tornandoos. Listaremos algumas destas perfeições necessárias. Rio de Janeiro.77. capazes de reconhecer quais são suas fronteiras de atuação. procurei apresentar o processo de criação na pintura em quatro tópicos distintos. Acredito que esta visão do processo criativo serve também. o desejo de tornar-se um pintor precisa de uma avaliação deste universo plástico e do ato de mover-se nesta direção com firme vontade. Esta constante prática conduz a Id. 2005 73 . Conhecimentos históricos – a tradição oral e pictórica permite aos artistas de hoje a compreensão dos contextos históricos. Conhecimentos técnicos – a ferramenta básica do artista virtuoso é o contínuo aprendizado do desenho.. sem as quais nada será erguido. as faculdades da sensibilidade e a obra. Em se tratando de um tema complexo. Assim. da perspectiva. do uso das cores. das transparências. o objeto da pintura. cuja obtenção propiciam o criar: Vontade – sabemos que nossos atos dependem da inteligência e da vontade. O artista Todo homem tem um potencial a ser atualizado. mas interligados: o artista. Essas habilidades são como as fundações de uma casa. que permearam a evolução da sensibilidade humana e artística. aos nossos atos do cotidiano.Araken Hipólito da Costa O Processo de Criação na Pintura Araken Hipólito da Costa Este assunto sempre desperta interesse em todos aqueles que desejam iniciar-se na pintura. maio/ago. Prática – as artes plásticas não estão no conceito. nem na palavra. assim. em Dest. de luz e sombras. é preciso a materialização da imagem. 1. Permanecer no passado ou negá-lo é contrariar o movimento do caminho da perfeição. de maneira análoga.

sair das aparências. a vida. fruto do pensamento débil. O atelier é um local sagrado. o pincel etc. Neste processo mental há uma adequação do motivo captado a uma ordenação estética. Por isso. podemos dizer que pintura é coisa para adulto. portanto. a sua prática requer tempo proporcional ao tempo de ver. em Dest. do mercado é rápido para vender bem. se possível. Atelier e material de pintura – a infra-estrutura condizente com a pintura requer um local. Tempo de fazer – o mundo contemporâneo induz ao imediatismo. imediata. Os materiais. do superficial e aprender a ver a essência das coisas. maio/ago. Tempo de ver – o olhar da propaganda. da TV. fundamentamos através de juízos de valores a questão. onde o artista faz do seu trabalho o dispensário da sua Fé. Desta forma. como a tinta. devem ser de boa qualidade para guardar fielmente as impressões no transcorrer do tempo. Isso exige tempo. sereno. A pintura não tem uma utilidade prática. Entendemos como maturidade no homem.. maturidade para expressar o conteúdo e a força que sustenta a arte. assim como o conhecimento. o olhar do artista tem que ser calmo. existe uma tendência à banalização das coisas. Maturidade – constata-se na História da pintura a inexistência de precocidade em artistas. reduz todo aprendizado à rapidez de uma produção industrial... enfim. A pintura exige. (18) : 73 .77. amplo. 2005 . Juízo de valor da pintura – quando avaliamos uma situação. des74 Id. Diante da execução de uma obra é preciso dar um tempo para ver cada passo a ser feito.. concretizando o ato criativo. Rio de Janeiro. Tal adequação junto às faculdades intelectivas permite que a sensibilidade produza arte. quando ele deixa de brincar com sua própria vida. aprender em dez lições. Nos dias de hoje. Logo. claro e arejado. Croqui mental – é importante o hábito de elaborar mentalmente aquilo que se pretende expor no suporte.Araken Hipólito da Costa uma adequação entre o pensamento criativo e a imagem reproduzida. ela transita no transcendente. assim como o amor.

Id. Cabe ao artista reagir. no qual tudo vale. Amor – o homem conduz o seu pensar e seu agir em diversas direções. No entanto. Aprofundamento –não basta a um pintor ser curioso. mantenha imperturbável o rumo de seu destino. a fim de permitir ver para além dos sentidos da visão. portanto. em Dest. Para superá-los.77. aproximar-se gradativamente da beleza. maio/ago. gerando toda beleza e toda perfeição. Só na vivência do amor a arte e a vida têm sentido. pautando-se na reta ordenação de seus atos. através dos olhos do coração e da razão e. O mercado apresenta facetas às vezes não tão nobres. mas um olhar interativo e investigativo. 2005 75 . ser um estudioso. despido de qualquer presunção. ele tem que ir além. Isto significa que não basta um olhar contemplativo perante as coisas do mundo. só o amor é capaz de aglutinar todos os pensamentos e manifestações da sua vida e da sua relação com o outro. (18) : 73 . encontramos obstáculos no transcorrer do caminho. precisamos de uma forte determinação em nossa vontade. instigando o artista à perda da ética profissional. O homem de reto agir é exemplo de conduta para o próximo e. transformador da sociedade. Rio de Janeiro. O artista deve ter plena consciência de sua missão para que. cuja ação se inicia no plano mental para depois viabilizá-lo na prática. Como diz Paul Klee: “O artista não pode ser apenas uma máquina fotográfica mais sensível”. Cabe ao artista. O artista deve lembrar que a criação do mundo. assim. mover-se no amor. procurando compreender e mobilizar suas potencialidades para sua vida. Dignidade – o artista deve distinguir bem o que é arte do que é mercado. nos momentos de turbulência. da verdade e de Deus. gerando o relativismo.. da perfeição. O artista precisa conhecer profundamente qual é o valor de seu ofício.Araken Hipólito da Costa provido de uma análise acurada e de um juízo de valor adequado. das coisas e de todos os seres é um ato do amor de Deus. Determinação – tanto na vida como na arte. tudo é possível. para que possa exercê-lo consciente da sua representação perante a sociedade.

3. no momento de sua criação por Deus. então. bom e belo. Objeto da pintura O único ser capaz de criar é o homem. Deste modo. assim. maio/ago. como: cor. através dos transcendentais. são consideradas as qualidades sensíveis das coisas. criando. Em seu processo criador. por meio de sua sensibilidade. deixando de lado outros aspectos. a beleza torna presente a força contundente da graça e do mistério da vida na pintura. em Dest. luz e sombra. Matemática e Metafísica. Verifica-se que o homem intervém no ambiente natural que o cerca.C. para o processo de conhecimento e criação.Araken Hipólito da Costa 2. mostra a expressão profunda da espiritualidade da alma humana. torna-se uma das faculdades cognitivas fundamentais da alma humana. (18) : 73 . trans76 Id. capta a beleza transcendente nas coisas criadas e faz. O artista procura.77. ao longo da História da Humanidade. As faculdades da sensibilidade A beleza foi impregnada em todos os seres. por meio da abstração. universais. Entendemos abstração como sendo o ato pelo qual o intelecto agente fixa-se em um determinado aspecto da coisa (essência). o artista utiliza os três graus de abstração: Física. o progresso. Assim. o essencial. o artista elabora o seu croqui mental (conceito). Na abstração física.. então.: “Nada está no intelecto que não tenha passado pelos sentidos”. interpretar a realidade através das suas faculdades. a cultura e a arte. Diz Aristóteles. Sua dedução metafísica apresenta-se desta forma: todo ser é uno. permite ao homem entender. Neste contexto. 2005 . os aspectos do ser. O artista. a qual. o objeto da pintura é percebido pelos sentidos. verdadeiro. captado pelo intelecto e. do belo o objeto da sua pintura. Rio de Janeiro. surge a pintura como uma das manifestações mais antigas da arte. filósofo do séc. IV a. A capacidade de conceber noções abstratas.

volume e perspectiva. O manuseio das tintas sobre a tela branca é sempre uma experiência rica. como comprimento. O autor é Coronel-Aviador da Reserva da Aeronáutica e também Diretor do Departamento Cultural do Clube de Aeronáutica Id. (18) : 73 . superfície. prescindindose de toda quantidade e qualidade. considera-se a quantidade. Com efeito. Diz Santo Agostinho: “Não se pode conter o infinito no finito”. A obra As mãos do artista. materializa a imagem e o espírito. 2005 77 . cabe ao pintor iluminar o belo que permanece em todo ser criado.77. torna a obra viva para sempre. em Dest. a beleza é o corpo do espírito. o ser do objeto é considerado. quando o artista. Já na abstração metafísica. maio/ago. pelo uso do belo. 4. largura. Na abstração matemática. por se tratar da adequação da imagem mental à imagem impressa. são parte essencial do processo criativo. Porém. Esta adequação reflete o trabalho do pintor em expor a beleza percebida e dar forma dentro do espaço limitado da tela. Em verdade. que ela torna visível o espírito e o esplendor da graça.Araken Hipólito da Costa parência etc. por mais modesta que seja a tarefa a ser executada. Rio de Janeiro. Tal é a magnitude da beleza..

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500 km de extensão. o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho.. às margens oeste e sul do Mar Negro (Trácia e Armênia). no Golfo Pérsico. ao sul do Cáucaso. como portos e a construção de uma rede de estradas. Os persas falavam um idioma relacionado com o sânscrito e desenvolveram um alfabeto de 39 letras. Susa.) foi o principal centro de poder do mundo conhecido em sua época. mas de caráter cultural. a mais famosa a Estrada Real. Rio de Janeiro. alcançando a fronteira sul do Império. político e religioso. 2005 79 . caldeus. talvez ao longo de toda a História. sumérios. variando o âmbito do que se chama “mundial” em cada momento. O Império Persa foi a primeira grande conformação política da História. em Dest. na Ásia Menor. às margens sul e oeste do Cáspio.93. o mar de Omã. Persépolis. Com efeito. (18) : 91 . estendendo-se das margens do Rio Indo até ao Egito. tendo realizado diversas instalações estratégicas. Tiveram enorme influência no Oriente Médio e no Império Helenístico. Id. sobre a possível concepção de “Centros Mundiais de Poder”. As grandes estradas ligavam as províncias a uma das quatro capitais do Império.C.Paulo César Milani Guimarães Centros Mundiais de Poder Paulo César Milani Guimarães Neste artigo. babilônios. militarmente superior ao seu entorno e a outras civilizações importantes. e por essas vias no mundo romano. histórico e sociológico. com 2. A idéia de Centros Mundiais de Poder pode aplicar-se a diversos momentos da História. como assírios. Babilônia e Ecbátana. ligando Susa. contudo não foi uma influência de caráter econômico ou militar. cretenses. Dario I era a expressão de poder de seu tempo. traçando considerações sobre a situação do mundo contemporâneo. maio/ago. o império persa sob Dario I (521 a 485 a. a natureza desse poder e a possível projeção histórica de um “cmp”. a Sárdis. o autor apresenta um estudo de caráter duplo.

reunia as conquistas das duas maiores civilizações até então: a dos gregos e a dos persas. os preparava para eles. com 20 anos de idade.). estes com população de sete milhões de almas nos dias de dominação romana. de certo modo. poderoso. Em 323 morreu da febre dos pântanos da Babilônia. característica do mundo de hoje.. representavam outro grande cmp da Antigüidade. expressivo. Mas tinha um filho. em 330 a. consagrada em Roma.C. em Dest. O moço era Alexandre.C. sucessores de egeus e fenícios e herdeiros dos egípcios em muita coisa. e cruzariam o caminho dos persas. A conquista de Alexandre mudaria vencedores e vencidos e todo o mundo de seu tempo.93. que. durante 12 anos moveu guerras para conquistar o Oriente Médio e. E o conseguiu cerca de 320 a. com Epaminondas de Tebas (371 a. com exceção de Esparta. depois. o domínio de toda a Grécia. Felipe era um bárbaro e os macedônios atrasados. 2005 . a federação grega estava exausta e a supremacia de Esparta durou 30 anos.Paulo César Milani Guimarães fenícios. com 33 anos. maio/ago. embora fosse mais antigo do que os persas (os tempos homéricos datam de 1200 a.C. mostraria seu esplendor em Alexandria. (18) : 91 . depois. hebreus e egípcios. porque outras fontes de poder preparavam seu devir. 80 Id. O novo cmp. e certamente não fora menor anteriormente. mas a permanência do cmp Pérsia não estava assegurada. contemporâneo em boa parte do Império Persa. e foram destruídos pelas lutas internas. mas é Felipe de Macedônia que logra. Logo depois vieram os tebanos. Depois da queda do Peloponeso. Naturalmente que os gregos. Surgiu o Império Helenístico – verdadeira base de tudo que a cultura dos tempos modernos e o mundo contemporâneo viria a desenvolver. Tivera como preceptor Aristóteles de Estagira. que contava cerca de um milhão de habitantes e dispunha de uma bem organizada biblioteca de 750 mil volumes. toda a Pérsia.C.. Os gregos não chegaram a ter o poder militar dos persas. Alexandre Magno. A própria vida urbana. Rio de Janeiro. quando foi assassinado.).

em Dest. As regiões dele derivadas entram em decadência por volta de 180 a. à Hungria.C. tal como os de hoje. Ruiria. 2005 81 .. Fundara-se como poder na força da economia (principalmente das regiões conquistadas). tendência ao autoritarismo e à prepotência. Embora avançado em tantos aspectos e militarmente poderoso. o Oriente Médio..) e ainda continua na região oriental – Constantinopla – por mais 10 séculos. Controlava o mundo conhecido. Quais os Fatores que apontavam os Futuros cmp´s? O caso romano é o seguinte. ao Golfo Pérsico. o declínio da democracia (prezada na Grécia). Durara pouco menos de três séculos. a concorrência desenfreada entre comerciantes. a rivaliId. ao Egeu. tendo ao centro o Mediterrâneo. (18) : 91 . o crescimento da escravidão. Tal era o império entre 98 e 117 a.C. Roma como civilização dura 13 séculos (753 a. Houve o desenvolvimento dos grandes negócios. ao Adriático. a expansão do comércio. por força da multidão urbana desempregada e pobre. ao Mar Vermelho. o interesse pela tecnologia (inventos mecânicos). abrigaria diversas formas de governo. o inchamento das metrópoles com áreas congestionadas e habitações insalubres e um vasto abismo entre ricos e pobres. à Alemanha. praticamente todo o território helenístico estava sob o domínio romano. maio/ago. à Espanha. em 146.Paulo César Milani Guimarães A civilização helenística. um autêntico lago romano. a situação era muito débil e.D.93.. a excessiva preocupação com o conforto e a obsessão da prosperidade material. ao norte da África.D. incluindo a Ásia Menor. a península grega e a Mesopotâmia. às Ilhas Britânicas. que irradiava poder desde o seu centro – Roma – até ao Cáspio.C. Por essa época alguns aspectos característicos do passado oriental entram em transformação. a 476 a. o Império Helenístico fragmenta-se após a morte de Alexandre. ao Mar Negro. em 30 a. Extraordinário cmp. Rio de Janeiro. o desenvolvimento e o amor ao militarismo. cmp de seu tempo. na força das legiões e no discernimento de sua elite. à França. o zelo pela exploração e pela descoberta.

Paulo César Milani Guimarães dade de outros estados menores. relativamente à duração e ao futuro daquele povo ou nação. mas num período – trouxe grandes conseqüências para o mundo daquele tempo. a clamorosa corrupção política e moral e a discórdia entre as classes sociais. Além disso. houve grande migração e caldeamento de povos e um vago anseio por compensações religiosas e morais. Roma ainda existia. data em que se retira para Medina (Yatreb). Enquanto os imperadores do Ocidente e do Oriente. em Dest. o mais importante cmp da Antigüidade e controlou praticamente todo o mundo conhecido então. quando as invasões bárbaras. foram derrubadas barreiras internacionais. até 632. data da morte do profeta. Estavam abertas as portas para as invasões bárbaras e o lento declínio do Império. é intensa a preparação doutrinária. Enorme foi sua influência – que se estende até hoje – mas. ensinando-lhes (o que se faz até hoje) que “a unidade de Deus deve corresponder à unidade dos crentes”. Com efeito. Em dez anos 82 Id. por volta de 180 d. a política tributária era escorchante e as pestes asiáticas dizimaram regiões do Império. começaram. proibindo-lhes que se guerreassem entre si e prometendo felicidades eternas aos que tombassem pela fé. de Roma e de Constantinopla não se entendiam. Vale notar que o poder militar tem grande significação para a determinação de um cmp.O Islã ganha força e certeza.. ninguém imaginava que fosse este o fim do mais expressivo império de todos os tempos. Por volta de 700. confusão e medo. surgindo um tipo de religiosidade destinada a medrar como erva nova. maio/ago. os seguidores de Maomé lançam-se ao assalto do mundo. pois mostrava aos homens um verdadeiro refúgio que os livraria de um mundo de ansiedade. A atenção dos homens voltava-se para a “vida futura”. A imensa máquina militar pedia recursos inexistentes. Roma foi. governada por imperadores bárbaros cristianizados e um novo e importante ator preparava sua entrada na História.C. certamente. mas em si não é determinante da dinâmica histórica. diplomática e militar.. (18) : 91 .93. Depois de 622. 2005 . Maomé reúne os árabes fazendo o ardor natural deles um instrumento para espalhar a sua doutrina. Rio de Janeiro. O fim do Império – que não se deu numa data. exceto o Oriente.

com poderosa esquadra. da Catalunha na insegurança. No outro extremo do continente. os muçulmanos – o Islã.. e força a migração dos centros políticos europeus para o norte. este novo poder apaga dois traços característicos da Antigüidade. Mas o fato é que os sequazes de Maomé tornaram difíceis as relações do Oriente com o Ocidente. pois orientou o avanço de Carlos Magno para o oeste (a Baviera. a Armênia. a Lombardia e a Córsega no Mediterrâneo). numa só batalha.Paulo César Milani Guimarães conquistaram a Síria. em pessoa. Em 711. Assim. embora lhes faltassem forças militares e navais mais poderosas. e a vitória de Carlos Martel. enfim. Eudes. Faltavam-lhes forças militares e navais. 720 a 737. o Egito. bloquearam os portos muçulmanos no oeste. e atingem as fronteiras leste e oeste da Europa. com exceção da Espanha. impõe derrota aos sarracenos.93. a Cirenaica. mas mantêm o controle das margens do Mediterrâneo e de suas ilhas estratégicas (Creta. com uma cultura cujo fulgor eclipsou o de Damasco e o de Bagdá – de tal sorte que pela primeira vez houve dois califas no Islã (Córdova e Bagdá) – acarreta um outro importante. maio/ago. Se permaneceram um século e meio no controle do Mediterrâneo. “os cristãos já não podem fazer flutuar uma tábua sobre o mar”. o Duque de Aquitânia. forçando que evitasse a zona fronteiriça espanhola. a Unidade romana e a supremacia mediterrânica. da Septimânia. os muçulmanos foram gradualmente empurrados para o sul. de vez que os bizantinos. Constantinopla resiste heróica e vitoriosamente de 711 a 718. 2005 83 . Os sarracenos. a Itália. o controle do Mediterrâneo pelos sarracenos terá enormes conseqüências: mergulha as costas da Itália. o que dá origem à própria Idade Média. a Pérsia. onde ficarão até o século XII. deve-se mais ao fato de que não tinham como sair dali. deixaram em farrapos a Grécia. destroçam as defesas visigóticas da Espanha. criando em Córdova o mais brilhante Estado da Europa. A presença do Islã na Espanha. Em resumo. escreve um cronista à volta da metade do século VIII. a Id. teria sido a seu tempo um cmp. expulsa-os do continente. Na Gália. em Dest. (18) : 91 . da Provença. Rio de Janeiro. Sicília e Malta). Dos séculos IX ao XI.

Rio de Janeiro. E não receberia. ou se têm recursos culturais e sociais para abdicar do modelo. político etc. quer do mundo. fizeram parte do mundo latino e cristão um dia. porque a guerra era (e é) um perigo insuportável num mundo de armas nucleares. de lidar com os grandes e graves problemas atuais do mundo. o Egito. o norte da África e a Espanha. 2005 . um problema desse tipo não receberia o tratamento usual: a guerra entre os competidores. haja vista o caso da URSS. Pela primeira vez na História. Contudo. O Islã quebrou a unidade e as idéiasforça do passado. em Dest. para ser óbvio. cortaram laços e apagaram traços. esses fatores nada dizem da possível duração e influência na História de um centro mundial de poder contemporâneo. dominaram a Síria. Esses centros de poder da Antigüidade nada têm a ver com os cp’s do “novo ordo seculorum”. se não era mais previsível a possibilidade de um salto qualitativo. de um modelo civilizacional completamente esgotado (já no limite). moral.. militar. por exemplo. proporcionado por uma nova fonte de energia ou por uma tecnologia revolucionária – e se o recurso à guerra estava fora do jogo – restavam as reformas do capitalismo moderno para permitir mais 84 Id. quer de cmp. evidente na segunda metade do século XX. Assim.93. químicas e bacteriológicas. maio/ago. o acerto dos poderosos em face da grave crise de rentabilidade do capital. material. grande parte dele. a Trácia e a Ásia Menor. O fenômeno que se decidiu chamar de globalização é. na verdade. social. (18) : 91 . A questão contemporânea é sabermos se os atuais cmp’s podem gerar capacidade inovadora suficiente para vencer esses limites. dependente.Paulo César Milani Guimarães Macedônia. ecológico. que se encontra hoje numa verdadeira esquina da História. economia forte e poderio militar. Estas são as questões que ditarão o futuro. que dependem da conjugação de tecnologia. As aparências são evidentemente enganosas. No Ocidente e no Oriente. O que vai determinar isso é sua capacidade de resolver crises paradigmáticas autênticas. segundo diversos aspectos – econômico.Sua ação foi de tal ordem que hoje mal podemos imaginar que a Argélia e a Tunísia.

com paz duradoura entre as classes sociais. mas seu objetivo é claro: aumentar a rentabilidade dos investimentos. o principal e seus juros. A nova sistemática financeira do mundo implicava na revogação das políticas sociais e. o ciclo da acumulação capitalista acaba também exportado.93.Paulo César Milani Guimarães circulação do capital e novo incremento da rentabilidade. por uma ou outra justificativa. “destruía os valores da sociedade” – agora existe a dívida. ainda que para comprar empresas já Id. Agora. mas não é tudo. e ainda está em desdobramento. Morreu. suprimiu-se o compromisso keynesiano. Marx tinha razão: os mecanismos de acumulação/concentração. Isso é muito grave. a tomada do empréstimo. não mais o trabalho ou as carências sociais. a sociedade deve privilegiar com recursos. assim. sob o sinal das bandeiras do pleno emprego e da redistribuição de renda. de portfólio ou inversão direta estrangeira.. O Ocidente verificava. é muito extensa e complexa. mas o capital – para recebê-lo entusiasticamente. deprimem com o tempo a rentabilidade de capital. com a agravante que. gastando toda a sua poupança nacional para pagar juros. de tal modo que a possibilidade de aumentar o endividamento (novos empréstimos) é ditada pelo aumento da capacidade de pagar juros. a poupança da sociedade – e do Estado. Essa reforma tem o nome de globalização. típicos do capitalismo e necessários a ele. Rio de Janeiro. no entanto. em Dest. no qual se havia fundado uma democracia social. qualquer que seja sua extensão. O capitalismo periférico não acumula mais. por compressão do orçamento público – pertence aos credores internacionais. Se essa capacidade aumenta. 2005 85 . com banda de música. Em poucas décadas praticamente todo o conjunto de países periféricos (chamados também de mercados emergentes) passou à condição de grande devedor de grandes corporações financeiras internacionais sediadas nos países centrais. (18) : 91 . maio/ago. da maneira atual. é agora obrigatória. As conseqüências têm sido impressionantes. ou seja. vitorioso sobre o comunismo que. por obstar uma circulação ideal segundo as variáveis de volume e velocidade. Se antes havia a famosa inflação – que dizia certo ministro.

enquanto a população européia envelhecerá ainda mais e reduzir-se-á significativamente. 2005 . estradas. Os países periféricos suportarão semelhante mecanismo por muito tempo? Se não. no campo político – isto porque a tentativa de solucioná-las é muito onerosa.93. tantas vezes. de água. o fim das políticas keynesianas e de seu compromisso de paz social. É claro que tudo isso tem muito a ver com o equilíbrio das sociedades e a coesão social. os números da demografia são desfavoráveis. 86 Id. porque concessionárias de serviços essenciais. monopolísticas (como distribuição de gás. concernentes aos enormes déficits de fundos públicos/privados de pensão. Parece claro que os países centrais – dentre eles cmp’s – não mostram disposição de enfrentar realmente as crises paradigmáticas – como a finitude próxima do petróleo (40 anos talvez) ou o esgotamento do ambiente natural ou outra condição limite. vem a tomada do mercado nacional por empresas internacionais que trazem uma concorrência insuportável para agentes produtores locais: escala de produção mundial e taxas de juros do país de origem (4.). qual será a situação dos atuais cmp’s diante de uma crise planetária? De outra. No entanto. Rio de Janeiro. e. 60 por cento dele em países miseráveis. De outra parte. em Dest.. (18) : 91 . Em 50 anos a população mundial passará de 5. orçamentos públicos e balanças comerciais. 7 ou até 10 vezes menor do que no país hospedeiro). também afeta os países centrais e neles – mesmo no caso de um cmp – pode mexer com muita coisa. de preferência pertencentes ao poder público. portos etc. propriamente econômicas.7 para 10 bilhões e 90 por cento desse crescimento estará situado no mundo periférico. maio/ago.Paulo César Milani Guimarães existentes e lucrativas. ainda há outras questões críticas. inclusive a coesão nacional e o poder militar. e porque não há entendimento entre eles e dentro de cada um deles sobre a urgência dessas questões. Quem enfrentará o compromisso com pensões nos EUA e na Europa daqui a 30 anos? De resto. por exemplo.

É uma unidade na diversidade acima de qualquer comparação ocidental. Com efeito. Os muçulmanos. para favorecer o aporte de capital estrangeiro e de tecnologia moderna. em Dest. estando apta a combinar partes dessas soluções. é certo que todos regem a organização social e comunitária e a política. além de outras na fronteira com Hong Kong e a Ilha de Hainan. e segundo o princípio “dois sistemas. tal como os chineses. pelos preceitos do Corão. Desde 1990 a lista cresceu enormemente. (18) : 91 . 2005 87 . o que é a antítese do que fizeram os ocidentais. sempre com o mesmo objetivo. que dispõe de condições sociais e culturais. tanto para participar do modelo como para abdicar dele. Ainda que dos 40 países muçulmanos alguns sejam insignificantes e poucos sejam repúblicas islâmicas. relegando a um segundo plano o Cristianismo. inscreve-se a República Popular da China. há séculos passando por muitas experiências. Rio de Janeiro. que é o único integrante desse elenco. desde 1979 a China vem criando suas SEZ – Zonas Econômicas Especiais – junto ao litoral. mas uma vigorosa ideologia religiosa que une povos e Estados – 40 Estados e cerca de um bilhão de habitantes – o Islã. algumas vezes. como referencial ético. É evidente que a força social dessa fonte é muito menor do que a força e o sentido universal do referencial permanente de caráter axiológico de fundo espiritual. O Islã não separou a vida civil e política da fonte religiosa. A engenhosidade dos chineses é conhecida historicamente e o país já esteve dividido. unidade e vigor – para submeter-se à lei positiva. não aderiram ao “novo ordo” iluminista e não só não aderiram.. um só país”. tantas vezes.Paulo César Milani Guimarães Entre os principais cmp de hoje. por maiorias eventuais em assembléias. até mais recentemente a revolução cultural e a atual situação juridicamente muito complexa. mas concomitantes. fonte das idéias e ideais de vida social – gerador de certeza. tanto podem se incorporar ao modelo ocidental como abdicar dele. em formas sociais e culturais diferentes. Id. As primeiras foram nas províncias costeiras de Fijuan e Guangdong. estabelecida mesmo. como Estado nacional. maio/ago. Aliás. Um outro cmp contemporâneo não é um Estado westfaliano. a despeito da lei natural. como o denunciam. contudo.93.

Paulo César Milani Guimarães

O Ocidente usufruiu dessa mudança, e muito, em termos de progresso material e avanço técnico, mas as suas sociedades não são
sempre modelos consideráveis. As sociedades do Islã, por estarem
movidas por um esquema não-secular e de fundo religioso, têm a possibilidade de – tal como os chineses, por outras razões – abdicar do
modelo tecnológico-capitalista do Ocidente.
Contudo, neste momento da História nada parece ter força e meios
suficientes para suplantar os Estados Unidos – e seus aliados ocidentais – e o Japão. Tamanha força é inconfrontável e pode muito, mas
ainda não pode, do ponto de vista político, controlar objetivos simultâneos dispersos pelo mundo, e talvez nem os localizados, de modo
absoluto e completo (vide Iraque).
De outra parte, não há o vislumbre de que os problemas graves
hoje existentes no sistema técnico ou em seus insumos não possam ser
resolvidos via ciência e tecnologia, ainda que a custos sociais e econômicos muito elevados.
Tecnicamente os americanos podem afirmar que terão condições
inclusive de continuar a civilização humana no espaço, com pequenos
grupos, se o planeta vier a mostrar-se inviável no futuro.
Entretanto permanece atual a assertiva de Toynbee em passagem
célebre:
“O grau de avanço de uma sociedade será menos significativo
do que a medida do seu sucesso em oferecer solução aos problemas de poluição, de exaustão de recursos e da tensão social, que
são, no presente momento, os elementos concomitantes não-vencidos pelo sistema industrial. O futuro poderá revelar uma resposta não-ocidental a um problema que foi apresentado originalmente pelo Ocidente”.
Assim, se parecem óbvios os cmp atuais, nada se pode precisar
quanto ao futuro deles. O mundo é incerto e a mudança, rápida. Um
cientista social fez uma advertência muito importante, na década de
70, mostrando que a hecatombe nuclear e o holocausto bacteriológico
– ingredientes típicos de uma fase bélica – poderiam ser os responsá88

Id. em Dest., Rio de Janeiro, (18) : 91 - 93, maio/ago. 2005

Paulo César Milani Guimarães

veis pela desorganização social, perda de padrões culturais e de coerência dos sistemas culturais em vigor. Isso levaria a um retrocesso sério,
que representaria avanço para outros mais atrasados, e que perderiam
menos em termos de padrões culturais avançados e coerência de suas
culturas, suportada por um referencial externo de tipo religioso.
Talvez semelhantes catástrofes possam ser evitadas, mas seus efeitos podem estar sendo perseguidos por novas formas de luta – a principal delas, o terrorismo – que pode lançar mão de qualquer tipo de
arma, certamente de alcance limitado, porém com efeitos globais.
Impressiona lembrar que os romanos, durante séculos, escreveram
sobre Direito, Filosofia e Política, e tinham por certa a segurança do
Estado romano, deixando aos pessimistas de plantão a preocupação
com invasões de povos bárbaros, muito atrasados, em geral, e com as
idéias ilógicas e ridículas dos cristãos.
A autor é cientista social, professor de Sociologia
e conferencista da Escola Superior de Guerra.

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Pedidos ao

Tel: (21) 2101-4966 / 2101-6125
Internet: www.incaer.aer.mil.br e-mail:incaer@maerj.gov.br

maio/ago. e o mesmo continua cheio. por ser muito trabalhoso. convidava para tomar uma branquinha de um pequeno barril que dizia conter uma aguardente de 40 anos. pudessem contribuir para o andamento das obras em suas áreas de atuação. Para atender a estas visitas. uma passagem rápida na Caninha 29. As programações eram diversas e algumas exóticas: as comitivas de americanos apreciavam uma pescaria de dourado no Rio Mogi. levando empresários interessados nas obras. Por sinal. visitas. usavam-se as mais variadas abreviaturas e um catálogo de decodificação que nem todos utilizavam. ou mais demorada nos tonéis da 51. as comunicações eram através de telegrafia sem fio. o barril devia ser mágico. Uma boa idéia! Na época. até hoje. gentilmente cedido pelo Cel.Pasqual Antonio Mendonça Abreviaturas Pasqual Antonio Mendonça Durante a construção da Academia da Força Aérea em Pirassununga (SP). empregando o Código Morse. as visitas à Estação de Piscicultura e as peixadas na Cachoeira de Emas.93. foi criada uma comissão chefiada por um brigadeiro-do-ar que. em gostando. Para diminuir o tempo de transmissão das mensagens.. Id. se deslocava do Rio de Janeiro para lá. para um papo com o Del Nero. Transcrevo a seguir o radiograma original. freqüentemente. Daí: 51. em Dest. no C-45-2789. onde o Esio Müller dissertava sobre o processo de produção e. comitivas de estrangeiros. procurava-se proporcionar as melhores condições possíveis. conhecido na intimidade por Didi Dada. que o guarda até hoje. (18) : 91 . outras.-Int. 2005 91 . Cremildo Ferreira Cardoso. pois sempre vi retirar a velha cachaça. ao final. as brasileiras sempre eram incluídas na programação. Rio de Janeiro. tratando de uma dessas visitas. a fim de que. de Parnamirim. autoridades.

atender aos dois jogadores de sinuca. Finalmente. ainda. que foi assim decodificado: Radiograma número 63. A visita e a palestra ficavam por conta dos engenheiros.Pasqual Antonio Mendonça KK CECAFA SBYS 63/CMDO/140566 INFO ETA FAB 2789 16051400Z COND CMTV 05 PAX PT SOL PRV BRFG E VISITA SIST ABTC AGUA PT CMTV PRNT PTVG JANTAR CHURRASCO NO BOSQUE VG 02 TACO PT CECAFA SBRJ ZWRJ 15001405 O então Ten. como sempre. cuidar das atividades administrativas referidas no telegrama. Informo a estimada de chegada da aeronave FAB 2789 dia 16 de maio às 1100 horas local.. tomou as providências solicitadas para pernoite. transporte e churrasco.-Int. após percorrer bares e clubes de Leme. fala do programa a ser cumprido. Cardoso soubera. com autorização de sua Excelência Reverendíssima Dom Rui Serra. e só encontrou tacos tortos. obteve informações que o Clube Pirassununga poderia ter. Ou seriam jogadores de bilhar? Foi aos cassinos dos cadetes. No Bar Azul. encontrou dois excelentes tacos – um pesado e outro leve – no Seminário Diocesano de São Carlos.93. Nada que valesse a pena. na Avenida Duque de Caxias. oficiais. e que foram gentilmente cedidos. A comitiva pernoitará. Restava. antes de iniciar a palestra sobre a captação de água. Nenhum digno de tais jogadores mencionados no telegrama. em Dest. Rio de Janeiro. ensebados. (18) : 91 . 92 Id. sem cabeça. Chegados os visitantes. Solicito providenciar palestra e visita ao sistema de abastecimento de água. o Coronel Antonio José de Campos apresenta as boas-vindas ao brigadeiro e à comitiva e. 2005 . Bispo da diocese. Porto Ferreira e Descalvado. jantar. Imediatamente. dois tacos. churrasco no bosque. do Comando da Comissão de 14/05/1966. sargentos. conduzindo comitiva de 5 passageiros. maio/ago.

prevenido. são DOIS TAIFElROS COZINHEIROS!!! O autor é Coronel-Aviador da Reserva da Aeronáutica e escritor. em Dest.. o Brigadeiro contesta: – Que dois tacos coisa nenhuma. Id. com os dois tacos. o pedido: 02 TACO. Cardoso. Rio de Janeiro. esclarecendo ser um leve e o outro pesado. O brigadeiro não entende e pede esclarecimentos sobre os tacos. Irritado.Pasqual Antonio Mendonça Finalmente.93. 2005 93 . orgulhoso. apresenta o Tenente Cardoso. Excelência. maio/ago. mostra o telegrama: – Aqui está. (18) : 91 .

Juscelino Kubitschek como Presidente da República.Aluízio Napoleão – Santos-Dumont and the Conquest of the Air .Aluízio Napoleão – Senta a Pua! . Magalhães Motta 21 – A Pata-Choca .J. E. E.J.Newton Braga 9 – Os Bombardeiros A-20 no Brasil . 1 – Dos Primórdios até 1920.José de Carvalho 22 – Os Primórdios da Atividade Espacial na Aeronáutica .Rui Moreira Lima – Santos-Dumont – História e Iconografia . VOL. Magalhães Motta 16 – Lockheed PV-1 “Ventura” .João Vieira de Sousa 12 – P-47 B4 – O Avião do Dorneles . E. SÉRIE HISTÓRIA SETORIAL DA AERONÁUTICA BRASILEIRA 1 2 3 4 5 6 7 – Santos-Dumont e a Conquista do Ar .Oscar Fernández Brital (ESGOTADO) 15 – Translado de Aeronaves Militares .Fernando Hippólyto da Costa – Com a 1ª ELO na Itália . VOL.Fausto Vasques Villanova – Força Aérea Brasileira 1941-1961 – Como eu a vi . E.Marion de Oliveira Peixoto 14 – Alberto Santos-Dumont .Ivan Janvrot Miranda .COLEÇÃO AERONÁUTICA DO INCAER SÉRIE HISTÓRIA GERAL DA AERONÁUTICA BRASILEIRA VOL.Adéele Migon 18 – Base Aérea do Recife – Primórdios e Envolvimento na 2ª Guerra Mundial Fernando Hippólyto da Costa 19 – Gaviões de Penacho .J. 2 – De 1921 às Vésperas da Criação do Ministério da Aeronáutica.Flávio José Martins 11 – Ministros da Aeronáutica 1941-1985 .Gustavo Wetsch 10 – História do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica . E.Ivo Gastaldoni (ESGOTADO) 8 – Asas ao Vento . 3 – Da Criação do Ministério da Aeronáutica ao Final da Segunda Guerra Mundial. Magalhães Motta 13 – Os Primeiros Anos do 1º/14 GAv .J. Magalhães Motta – A Última Guerra Romântica – Memórias de um Piloto de Patrulha . Magalhães Motta 17 – O Esquadrão Pelicano em Cumbica – 2º/10º GAv .J. 4 – Janeiro de 1946 a Janeiro de 1956 – Após o Término da Segunda Guerra Mundial até a Posse do Dr.Lysias Rodrigues 20 – CESSNA AT-17 . VOL.

. P.Murillo Santos Aeroportos e Desenvolvimento .Geraldo Guimarães Guerra 4 – De Vôos e de Sonhos .Fernando Hippólyto da Costa 10 – O Roteiro do Tocantins .mil. Aché Assumpção 9 – Síntese Cronológica da Aeronáutica Brasileira (1685-1941) . Saint-Exupéry e dos seus companheiros de Epopéia .Marina Frazão 5 – Anesia .João Soares Nunes 12 – Piloto de Jato .br .A.Augusto Lima Neto 6 – Aviação de Outrora .RJ Cep: 20021-200 .SÉRIE ARTE MILITAR E PODER AEROESPACIAL 1– 2– 3– 4– 5– 6– 7– 8– A Vitória pela Força Aérea .Tel: (21) 2101-4966 / 2101-6125 Internet: www.J. S. Guillaumet. de Mermoz. no Topo .Rio de Janeiro . Pinto e Geraldo Souza Pinto 13 – Voando com o Destino . Magalhães Motta Da Estratégia – O Patamar do Triunfo .Coriolano Luiz Tenan 7 – O Vermelhinho – O Pequeno Avião que Desbravou o Brasil -Ricardo Nicoll 8 – Eu vi.Adyr da Silva (ESGOTADO) O Caminho da Profissionalização das Forças Armadas . Seversky O Domínio do Ar .Murillo Santos A Psicologia e um novo Conceito de Guerra . 15-A. vivi ou me contaram .gov..br e-mail: incaer@maerj.Ivan Zanoni Hausen SÉRIE CULTURA GERAL E TEMAS DO INTERESSE DA AERONÁUTICA 1 – A Linha.Giulio Douhet A Evolução do Poder Aéreo .Jean-Gérard Fleury 2 – Memórias de um Piloto de Linha .aer.L. E. Centro .Coriolano Luiz Tenan 3 – Ases ou Loucos? .Ronald Eduardo Jaeckel (no prelo) Pedidos ao: INSTITUTO HISTÓRICO-CULTURAL DA AERONÁUTICA Praça Marechal Âncora. Rodrigues 11 – Crônicas.Carlos P.incaer.Lysias A.Nelson de Abreu O’ de Almeida Emprego Estratégico do Poder Aéreo .