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Aniversário do 25 de Abril

Da Revolução ao PREC

A revolta dos capitães, que fez cair
mais um regime totalitário na
Europa, comemora 36 anos neste
Abril de 2010. O período que se
viveu a seguir à revolução e que
culminou com o resultado das
eleições de 1976, dando a vitória
ao Partido Socialista, ficou
conhecido por Período
Revolucionário em Curso (PREC)
que teve o seu auge durante o
Verão quente de 1975, com início
a 11 de Março e fim a 25 de
Novembro.

Durante este período existiram em
Portugal um conjunto de lutas,
tanto militares como políticas que
puserem o país completamente
dividido em relação ao rumo a
seguir após a conquista da
liberdade e da democracia, com o
Partido Comunista a exercer uma importante influência em todas as frentes.

Estas lutas entre diferentes ideologias acabaram por extravasar as fronteiras do país. Portugal,
que tinha sido praticamente esquecido e ostracizado pela maior parte dos principais países do
mundo, estava, de repente, no centro das atenções e no meio da guerra fria entre os Estados
Unidos e a União Soviética. Os correspondentes estrangeiros dos maiores jornais mundiais
estavam em Portugal a noticiar tudo o que aqui se passava, levando a revolução em directo a
Paris, Londres, Washington e Moscovo. Mário Soares refere à jornalista Maria João Avillez que
“o caso português foi estudado à lupa e comentado em todo o mundo: era a última tentativa
de uma revolução leninista, copiada a papel químico dos acontecimentos de S. Petersburgo,
em Outubro de 1917, que ocorreu. Coincidiu, curiosamente, com o zénite do expansionismo
soviético que, a partir de então, entrou em imparável declínio” 1. Em Washington, Henry
Kissinger, ficou muito preocupado com o que se estava a passar em Portugal, alegando que
“em Portugal, terreno actual de preocupação, a União Soviética não deve partir da ideia de

1
que tem a possibilidade de, directa ou indirectamente, influenciar os acontecimentos,
contrariando o direito do povo português a determinar o seu futuro” 2.

Em causa e por definir estava, durante este período, a contenda ideológica que a revolução de
Abril não clarificou, mas que se afirmava cada vez mais necessária. “A questão ideológica
arrastava, consigo a questão estratégica do tipo de revolução a prosseguir: autoritária ou
democrático-pluralista, sob a égide militar ou sob a égide civil, com um MFA funcionando
como motor da revolução ou como um simples árbitro ou «fiscal» do respeito pelas regras
democráticas” 3.

Logo no início deste período, a 12 de Março, são dissolvidos a Junta de Salvação Nacional e o
Conselho de Estado, sendo constituídos novos órgãos representativos dos militares, a saber, o
Conselho da Revolução e a Assembleia do Movimento das Forças Armadas. “O Conselho da
Revolução era a cúpula do poder cívico-militar e era composto por vinte e nove membros, na
sua maioria gonçalvistas, o que provocou um violento confronto com os moderados (…). As
primeiras medidas que tomou o Conselho da Revolução, na reunião que teve lugar no dia 14,
foram no campo socioeconómico a nacionalização da banca e dos seguros“ 4, para além da
siderurgia e de outras empresas de transportes, energia, cimentos, celulose e tabaco.

No plano militar é exercida forte pressão para que se mantenha a data das eleições para 25 de
Abril de 1975. Na madrugada de 12 de Março, o General Costa Gomes fez aprovar uma moção,
numa Assembleia do MFA, para a realização de eleições dentro do espaço de um ano, tal como
previa o Programa do MFA. “Costa Gomes fê-lo por estar consciente de que a liberdade de
acção estratégica de instituição militar dependia da realização dessas eleições” 5. A questão das
eleições constituía um factor chave e decisivo para quem defendia uma democracia
representativa e parlamentar.

No plano político, o PCP ia tentando implementar a sua ideologia, tal como refere Zita Seabra
“se conseguíssemos continuar a concretizar os objectivos fundamentais da revolução
democrática e nacional a caminhada para o socialismo tornar-se-ia irreversível. Esta foi a tese
central que durante todo o Verão quente explicámos aos militantes. A irreversibilidade das
alterações económicas verificadas, o caminho seguro para a colectivização dos principais
meios de produção, a abolição da exploração do homem pelo homem, vinham criar as
condições objectivas para o Portugal socialista. Depois disto competia ao Partido conseguir as
condições subjectivas, isto é, a insurreição armada vitoriosa para o socialismo” 6. Entretanto, e
na mesma linha de pensamento, em entrevista à jornalista italiana Oriana Fallaci, Álvaro
Cunhal não deixava dúvidas sobre o que o PCP pretendia para Portugal, “estou a dizer que as
eleições não têm nada, ou muito pouco, a ver com a dinâmica revolucionária (...) Se pensa que
a Assembleia Constituinte vai transformar-se num Parlamento comete um erro ridículo. Não! A
Constituinte não será, de certeza, um órgão legislativo. Isso prometo eu. Será uma Assembleia
Constituinte, e já basta (...). Asseguro-lhe que em Portugal não haverá Parlamento”. Na prática
o PCP via assim as suas reivindicações políticas serem postas no terreno. “Era o avanço
impetuoso da revolução. É o próprio Álvaro Cunhal quem o afirma: «com o 28 de Setembro e o
11 de Março, até à grande ofensiva contra-revolucionária, desencadeada no Verão de 1975, o
movimento operário e popular de massas, faz avançar impetuosamente o processo
revolucionário»” 7.

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Com base nestas teses, a reforma agrária avançava nos campos do sul, face às condições
políticas favoráveis. “Até finais de Julho de 1975 só tinham sido ocupados pouco mais de
150.000 hectares, mas até ao final do ano o processo acelerou consideravelmente: nos dois
meses seguintes (Agosto e Setembro) a área ocupada foi da ordem dos 300.000 hectares e
entre Outubro e Novembro atingiu quase os 700.000 hectares, com particular relevo para os
distritos de Beja, Évora e Portalegre” 8.

Mas é também a partir do 11 de Março que Portugal passa a chamar a atenção da diplomacia
americana. Logo no início do ano, em18 de Janeiro de 1975, Frank Carlucci chega a Portugal
como embaixador dos Estados Unidos. Poucos dias após 11 de Março, Helmut Sonnenfeldt,
adjunto de Henry Kissinger, elaborou um relatório sobre a situação existente em Portugal,
onde denotava claros sinais de preocupação face à influência comunista nas decisões que
estavam a ser tomadas em Lisboa. Na discussão do documento com o Presidente Gerald Ford,
Kissinger chegou a afirmar que “provavelmente temos que «atacar» Portugal e expulsá -lo da
NATO” 9.

Mas para além da decisiva
influência americana, existiu um
outro factor interno que foi
determinante para enfrentar os
ideais de esquerda: a Igreja
Católica. A ocupação da Rádio
Renascença a 27 de Maio de 1975
conduziu a uma “enérgica
actuação da Igreja que levou
centenas de milhares de crentes
para manifestações de rua como
nunca se tinham visto em Portugal. Foi nesta altura que o Partido Socialista e a Igreja Católica
perceberam que, quando o poder cai na rua, é na rua que ele tem de ser recuperado” 10. Assim,
o PS convoca duas grandes manifestações na Fonte Luminosa, em Lisboa, e no Estádio das
Antas, no Porto. Em Lisboa, perante 120.000 pessoas, “Mário Soares, em grande forma, ataca
Vasco Gonçalves, acusa-o de não ser isento partidariamente – por fazer o jogo do PCP -, opõe-
se a que ele forme novo Governo. E ameaça «o PS pode paralisar o país »”11.

Em Agosto, o major Melo Antunes apresenta “o documento dos Nove” no sentido de clarificar
as posições nas forças armadas e criticar as posições assumidas por Vasco Gonçalves , que
começava a ficar cada vez mais isolado. Em 30 de Agosto o primeiro-ministro deixa o Governo,
o que constitui um sério revés para as forças leais ao PCP que começa a ver a situação política
a clarificar-se e a isolar as posições comunistas. Esse é o sentimento dentro do partido
reconhecendo também que nas forças armadas, os fiéis ao PCP, começam a ter cada vez
menos influência.

Depois do cerco da Assembleia Constituinte que tinha sido eleita democraticamente, no dia 11
de Novembro por trabalhadores da construção civil, o embate entre as forças no terre no
estava cada vez mais próximo, mas, de facto, ninguém pretendia uma guerra civil. A
expectativa gerada pelos comunistas para uma completa radicalização da situação política e do

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caminho a seguir pela própria revolução “teriam requerido ou um popular apoio a nível
nacional ou um quase unânime suporte por parte dos militares. Nenhuma destas condições
existiu” 12. Álvaro Cunhal constatou então que não existiam condições de “conduzir o país, de
forma duradoura, para uma situação de não-alinhamento internacional e, muito menos, de o
transformar num aliado do Pacto de Varsóvia”13, pelo que fez a escolha da legalidade e levou o
PCP para a oposição.

No dia 25 de Novembro “depois de muitos contactos, Costa Gomes deixou actuar os comandos
do major Jaime Neves, a única unidade militar com que «os Nove» contavam em Lisboa. (…) A
27, Otelo demitiu-se e o COPCON foi dissolvido. O major Eanes, novo Chefe do Estado Maior
do Exército, suspendeu todas as assembleias e órgãos do MFA” 14 e colocou de fora do
comando militar os aliados do PCP. Zita Seabra revela o impacto da derrota dos comunistas
sublinhando que “depois do 25 de Novembro levámos um ano a recompor-nos do choque da
derrota”15.

O historiador Kenneth Maxwell 16, aponta quatro razões para que a esquerda não tenha
conseguido manter-se no poder, depois de ter posto em prática os seus ideais em
consequência dos acontecimentos de 11 de Março. Em primeiro lugar a aliança entre os
militares e os revolucionários acabou por não ter capacidade de se manter, devido em parte à
influência de Melo Antunes, o que levou à quebra da disciplina militar. Em segundo lugar, a
situação económica do país estava a deteriorar-se, o que levou à necessidade de intervenção
estrangeira que condicionou os empréstimos a uma determinada condição política. Em
terceiro lugar os comunistas leram mal o equilíbrio de forças políticas em Portugal e
sobrestimaram o apoio que poderiam ter por parte da União Soviética. Por último, os
pequenos e médios agricultores do norte de Portugal, através das suas acções contra os
comunistas, acabaram por ser decisivos para os acontecimentos que se estavam a passar em
Lisboa.

António Ramos, que em 1975 foi director do Diário de Lisboa relatou a Leonor Xavier o espírito
dessa época revolucionária. “É um período que se recorda com saudade, porque aprendeu-se
muito. Não sei bem para quê, porque provavelmente não haverá outra revolução na minha
vida (…) Havia muitas pressões, uma ventania muito grande. Quando hoje se lêem as colecções
de jornais dessa época, há coisas que não se percebem, sem conhecer o contexto. Houve um
vento que varreu Portugal e que pode explicar aquilo que hoje dá às vezes vontade de rir” 17.

Trinta e cinco anos passados sobre os acontecimentos do Verão de 1975, é interessante
verificar que Portugal soube manter o rumo da democracia parlamentar, deixando cair a
revolução que o PCP pretendia e que nunca teve a necessária representatividade através do
sufrágio popular. Nas eleições de Abril de 1976 a escolha do povo foi clara e reforçou de forma
inequívoca as decisões tomadas pelos militares e pelo Presidente da República em 25 de
Novembro.

A.M. Santos Nabo
Abril 2010

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1
AVILLEZ, Maria João ‘Soares’, s/l, 1996, Círculo de Leitores
2
THEMIDO, João Hall ‘Dez Anos em Washington’, Lisboa, Dom Quixote, 1995
3
REIS, António ‘Portugal Contemporâneo’, Lisboa, 1996, SRD
4
CERVELLÓ, Josep Sánchez ‘A Revolução Portuguesa e a sua Influência da Transição Espanhola’, Lisboa,
1993, Assírio & Alvim
5
FERREIRA, José Medeiros ‘História de Portugal’, Dir. de José Mattoso, s/l, 1994, Círculo de Leitores,
6
SEABRA, Zita ‘Foi Assim’, Lisboa, 2007, Aletheia
7
SÁ, Tiago Moreira de ‘Os Americanos e a Revolução Portuguesa’, Lisboa, 2004, Editorial Notícias
8
CARVALHO, Lino ‘Reforma Agrária: Da Utopia à Realidade”, Porto, 2004, Campo das Letras
9
GOMES, Bernardino e SÁ, Tiago Moreira de ‘Carlucci vs. Kissinger’, Lisboa 2008, Dom Quixote
10
AMARAL, Diogo Freitas do ‘O Antigo Regime e a Revolução’, s/l, 1995, Círculo de Leitores
11
SOUSA, Marcelo Rebelo de ‘A Revolução e o Nascimento do PPD’, Lisboa, 2000, Bertrand
12
SASSOON, Donald ‘One Hundred Years of Socialism’, London, Tauris Publishers, 1996
13
MATEUS, Rui ‘Contos Proibidos’, Lisboa, 1996, Dom Quixote
14
RAMOS, Rui e outros ‘História de Portugal’, Lisboa, 2010, Esfera dos Livros.
15
SEABRA, Zita ‘Foi Assim’, Lisboa, 2007, Aletheia
16
MAXWELL, Kenneth ‘The Making of Portuguese Democracy’, New York, Cambridge U.P., 1995
17
XAVIER, Leonor ‘Portugal Tempo de Paixão’, s/l, 2000, Círculo de Leitores

5