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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Museu Nacional
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

UMA ETNOGRAFIA PARA MUITAS AUSÊNCIAS
O desaparecimento de pessoas como ocorrência policial e problema social

Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira

Rio de Janeiro
2011

UMA ETNOGRAFIA PARA MUITAS AUSÊNCIAS
O desaparecimento de pessoas como ocorrência policial e problema social

Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira

Tese de Doutorado apresentada ao
Programa
de
Pós-Graduação
em
Antropologia Social do Museu Nacional,
Universidade Federal do Rio de Janeiro,
como parte dos requisitos necessários à
obtenção do título de Doutor em
Antropologia.
Orientadora: Adriana de Resende Barreto
Vianna

Rio de Janeiro
Setembro de 2011
ii

UMA ETNOGRAFIA PARA MUITAS AUSÊNCIAS
O desaparecimento de pessoas como ocorrência policial e problema social
Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira
Orientadora: Adriana de Resende Barreto Vianna
Tese de Doutorado submetida ao corpo docente do Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte
dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Antropologia. Aprovada por:

_________________________________________
Profª. Dra. Adriana de Resende Barreto Vianna, Presidente da Banca
PPGAS/Museu Nacional/UFRJ

_________________________________________
Prof. Dr. Antonio Carlos de Souza Lima
PPGAS/Museu Nacional/UFRJ

_________________________________________
Prof. Dr. Moacir Gracindo Soares Palmeira
PPGAS/Museu Nacional/UFRJ

_________________________________________
Prof. Dr. Sérgio Luís Carrara
Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(IMS/UERJ)

_________________________________________
Profª. Dra. Claudia Lee Williams Fonseca
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (PPGAS/UFRGS)

_________________________________________
Prof. Dr. John Cunha Comerford (Suplente)
PPGAS/Museu Nacional/UFRJ

_________________________________________
Profª. Dra. María Gabriela Lugones (Suplente)
Universidad Nacional de Córdoba
Rio de Janeiro
Setembro de 2011
iii

FERREIRA, Letícia Carvalho de Mesquita.
Uma Etnografia para Muitas Ausências: O Desaparecimento de Pessoas
como Ocorrência Policial e Problema Social./Letícia Carvalho de Mesquita
Ferreira. Rio de Janeiro: UFRJ/Museu Nacional/PPGAS, 2011.
xvi, 308 p.; 31 cm.
Orientadora: Adriana de Resende Barreto Vianna.
Tese (doutorado) – UFRJ/ Museu Nacional/ Programa de Pós-Graduação
em Antropologia Social, 2011.
Referências Bibliográficas: pp. 281-293.
1. Desaparecimento de Pessoas 2. Pessoas Desaparecidas 3. Ocorrência
Policial 4. Problema Social 5. 6. I. Vianna, Adriana de Resende Barreto. II.
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa de PósGraduação em Antropologia Social. III. Título.

iv

RESUMO

O desaparecimento de pessoas é um tipo de ocorrência registrado diariamente nas delegacias
de polícia brasileiras. Ao mesmo tempo, é também tema de eventos públicos, dedicados a
debater e promover iniciativas para seu combate e prevenção. A presente tese tem o propósito
de compreender como solicitações, acontecimentos e ausências múltiplas e heterogêneas são
tanto classificadas como mesmo tipo de ocorrência policial, quanto encaradas como
manifestações particulares de um só problema social. O texto é resultado de trabalho de
campo realizado inicialmente no Setor de Descoberta de Paradeiros (SDP) da antiga
Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro (Centro/Capital), repartição policial dedicada a
investigar exclusivamente casos de desaparecimento, e estendido para eventos da Rede
Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos
(ReDESAP), que reúne órgãos governamentais e organizações não-governamentais que lidam
com desaparecimentos de pessoa. Ao longo de cinco capitulos, as rotinas burocráticas e os
artefatos de gestão por meio dos quais casos de desaparecimento são registrados, investigados
e arquivados por policiais são objeto de descrição. Ademais, os embates e jogos de força
estabelecidos entre agentes sociais engajados em eventos públicos sobre o tema, ponto nodal
da constituição do desaparecimento de pessoas como problema social, também são descritos.
Narrativas de casos particulares hoje arquivados no SDP atravessam todos os capítulos. A
partir dos casos narrados e dos embates, artefatos e rotinas descritos, constata-se que o
registro, investigação e arquivamento de casos de desaparecimento em delegacias produzem
cotidianamente a irrelevância desse tipo de ocorrência, ao passo que eventos sobre o tema
esforçam-se por conferir-lhe visibilidade e inseri-lo na agenda pública. Não obstante, tanto em
repartições policiais, quanto em eventos públicos são igualmente empreendidas classificações
que implicam processos de (des)responsabilização. Para policiais, desaparecimentos são
“problemas de família”; para outros agentes sociais engajados no tema, desaparecimentos são
“problemas de segurança pública” ou “problemas de assistência social”. Por meio dessas
classificações, policiais, mães de pessoas desaparecidas e gestores de políticas públicas
posicionam-se uns em relação aos outros e constroem, juntos, denúncias públicas de múltiplas
ausências. Enquanto a falta de uma pessoa em espaços geográficos e teias de relações sociais
em que se esperava que ela pudesse ser localizada é objeto de comunicação em repartições
policiais, em eventos públicos sobre o desaparecimento a falta de um Estado assistente, uma
família protetora e uma polícia sensível e competente são objeto de denúncia.

Palavras-chave: Desaparecimento de Pessoas, Pessoas Desaparecidas, Ocorrência Policial,
Problema social

Rio de Janeiro
Setembro de 2011
v

ABSTRACT

The disappearance of people is a type of event recorded daily in Brazilian police stations. At
the same time, it is also the subject of public events dedicated to debating and promoting
initiatives to its combat and prevention. This thesis aims at understanding how requests,
events, and many heterogeneous absences are both classified as the same type of police
report, and seen as particular manifestations of a single social problem. The text is the result
of fieldwork carried out initially in the Setor de Descoberta de Paradeiros (SDP), a sector of
the former Homicide Division of Rio de Janeiro devoted exclusively to investigating cases of
disappearance, and extended to events of the Rede Nacional de Identificação e Localização de
Crianças e Adolescentes Desaparecidos (ReDESAP), an assemblage of governmental and
nongovernmental organizations dealing with missing persons. Over five chapters, the
bureaucratic routines and management artifacts through which disappearance cases are
recorded, archived and investigated by the police are subject of description. Moreover, the
conflicts and power games between social actors engaged in public events on the theme,
which are the nodal point constituting the disappearance of persons as a social problem, are
also described. Narratives of individual cases archived in the SDP cut through all the chapter.
Based on the cases recounted and the battles and routines described, it appears that the
registration, investigation and filing of cases of disappearance by police officers routinely
produce the irrelevance of such occurrence, while events on the subject strives to turn the
issue visible and insert it into the public agenda. However, classifications entailing
assignments (and retreats) of responsibility are undertaken both in police departments, and in
public events. For police officers, disappearances are "family problems", whereas to other
social actors engaged in the subject, disappearances are "issues of public safety" or "social
service problems". Through these rankings, police officers, mothers of missing persons and
government officials position themselves in relation to each other and build together public
denunciations of multiple absences. While the lack of a person in geographic sites and webs
of social relations in which he/she were expected to be located is the subject of
communication in police offices, at public events about the disappearance the lack of a
provider state, a protective family and a sensitive and competent police are the subject of
denunciation.

Key-words: Disappearance of people, Missing Persons, Police Report, Social Problem

Rio de Janeiro
Setembro de 2011
vi

AGRADECIMENTOS

Adriana de Resende Barreto Vianna, minha querida orientadora, costuma chamar os
casos que encontrei nos arquivos da polícia de “contos da burocracia mágica”. Adriana é
assim: volta sempre seu olhar certeiro para as fabulações e efeitos mágicos que todo objeto de
estudo pode despertar, desde o mais árido até o mais facilmente envolvente. Aprender com ela
os melhores sentidos da palavra autonomia, contar com sua orientação tão firme quanto
carinhosa, e poder compartilhar os gostos e desgostos da pesquisa, da antropologia e da vida
são luxos impossíveis de agradecer à altura. Ainda assim, registro aqui meus mais sinceros
agradecimentos pelo privilégio inestimável que é contar com a leveza da sua confiança.
A Antonio Carlos de Souza Lima, agradeço por cada curso, indagação e palavra de
incentivo. Ao longo do mestrado e do doutorado, em diversas ocasiões e em especial nos
Exames de Qualificação, sua presença franca e clarividente sempre me pareceu uma imensa
sorte. A ele agradeço ainda por ter me ensinado, através de sua própria postura, que o trabalho
intelectual não é algo que deva ficar encastelado e inacessível, nem se pretender excepcional.
Ao lado de Antonio Carlos, o professor Moacir Palmeira levou poesia para os Exames
de Qualificação que precederam a escrita desta tese. Agradeço enormemente suas leituras,
idéias e indicações quando minha relação com o material de pesquisa era ainda bastante
confusa e, no entanto, recebeu dele uma bela dose de Carlos Drummond de Andrade.
A Cláudia Fonseca, Sergio Carrara, María Gabriela Lugones e John Comerford, que
aceitaram compor a Banca de Defesa ao lado de Antonio Carlos de Souza Lima e Moacir
Palmeira, registro aqui meu muito obrigada por concederem tempo e atenção ao meu trabalho.
Sou igualmente grata a cada professor com que tive chance de fazer cursos e trocar
idéias no PPGAS/Museu Nacional nos últimos seis anos e meio, em especial Lygia Sigaud (in
memoriam), Federico Neiburg, Luiz Fernando Dias Duarte, Olívia Cunha, Antonádia Borges
e Fernando Rabossi. Também aos funcionários da Secretaria, da Biblioteca e da Xerox,
registro aqui meus agradecimentos pela presteza e dedicação. Agradeço a todos no nome da
adorável e sempre gentil Carla de Freitas. Agradeço ainda o apoio do CNPq e da FAPERJ,
que me concederam bolsas de estudo ao longo do doutorado.
Durante a realização da pesquisa, pude contar também com recursos do projeto
“Políticas para a Diversidade e os Novos Sujeitos de Direitos: Estudos Antropológicos das
Práticas, Genêros Textuais e Organizações de Governo – DIVERSO”, realizado no
vii

Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED), Museu
Nacional/UFRJ, em convênio com a FINEP.
Paulo Esteves, amigo querido, foi quem me apresentou o Museu Nacional e apontou o
caminho que me trouxe até aqui. A ele, nem sei como agradecer pelas inúmeras oportunidades
criadas e oferecidas desde minha graduação na PUC-Minas, quando fui sua aluna e
orientanda, até minha acolhida (e retorno) no Instituto de Relações Internacionais da PUCRio, agora como professora.
Adentrando o mundo que gostamos de encantar chamando de “campo”, registro meus
agradecimentos aos policiais do Setor de Descoberta de Paradeiros da antiga Delegacia de
Homicídios do Centro/Capital, em especial e com muito carinho ao inspetor Robson
Fontenelle, por terem partilhado comigo a preciosidade que alimenta a pesquisa
antropológica: seu cotidiano. Nessa cidade em que tanto se pensa e fala sobre “a polícia”, foi
um privilégio ouvir o que pensam e falam os policiais do SDP.
Aos membros do comitê gestor da Rede Nacional de Identificação e Localização de
Crianças e Adolescentes Desaparecidos, sou grata pela chance de compartilhar uma causa.
Luiz Henrique Oliveira, Ivanise Esperidião da Silva, Vânia Nogueira, Laura Argôllo, Elton
Galindo e Adriano Severino Santos mobilizam o que podem e o que não podem para atender
familiares de desaparecidos e procurar maneiras de lidar com casos impossíveis. Em nome
deles, registro minha gratidão e admiração por todos os membros da ReDESAP.
Na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, agradeço àqueles que
articularam a ReDESAP nos últimos anos e me abriram espaços e fizeram convites. Benedito
Santos, Walisson Araújo, Beatriz Brandão e Denille Melo, ao coordenar e promover eventos
da rede, reúnem idéias que me motivaram (e motivam) a pensar sobre o tema desta tese.
Também me motivaram e motivam, não só a pensar sobre o tema deste trabalho, mas a
deixá-lo de lado em momentos essenciais, meus queridíssimos amigos e familiares.
Julia O‟Donnell foi literalmente a primeira pessoa que conheci no Museu, e desde
aquele começo dividimos bairros, apreensões e surpresas. Como se já não fosse tanto, Julia
colocou no mundo, ao lado do querido Leonardo Pereira, nossa pequena Helena e tudo o que,
com ela, ainda está por vir. E Fernanda Figurelli, com sua doce presença estrangeira, me
ajudou a fazer do Rio minha/nossa casa. Estou e estarei sempre à espera de suas visitas.
Zoy Anastassakis, minha grega do coração, é uma amiga dessas que só se faz uma vez
na vida e se leva para a vida inteira. Só posso dizer que torço pelas conquistas dela
exatamente como anseio pelas minhas. E André Dumans Guedes, mineiro mais carioca que
viii

há, é sempre uma inspiração para antropologias, idéias e, sobretudo, para um mundo tão lido,
quanto corrido. Pela gentileza de ter lido parte desta tese e escrito preciosas páginas sobre ela,
a ele devo meu melhor obrigada.
Paula Lacerda, Rita Santos, Sílvia Aguião, Juliana Farias, Martinho Silva, Laura
Lowenkron, Cláudia Cunha e Liane Braga estão presentes neste trabalho por seus incentivos,
leituras, comentários e, sobretudo, desejos de que tudo desse certo no final. Em nome deles,
que acompanharam de perto resultados parciais da pesquisa, agradeço a todos com que
compartilhei as salas de aula do Museu. À Liane agradeço ainda pela generosa oportunidade
de trabalho no Claves/Fiocruz, que me deu tranqüilidade para escrever depois de encerrado o
prazo regular do doutorado.
Com Paula e Rita pude também compartilhar outras salas de aula e muitos quartos de
hotel em viagens que fizemos para realizar cursos de capacitação de atores da ReDESAP.
Admiro cada detalhe do modo honesto, decidido e ao mesmo tempo terno e colorido com que
as duas levam a vida, e não consigo imaginar melhores companhias para aquela empreitada e
para todas as outras que, tenho certeza, ainda enfrentaremos juntas.
À minha companheira de desterro Camila Meireles, agradeço pelas infinitas gentilezas
e delicadezas com que preenche nossa amizade. E aos meus saudosos amigos “de BH”, hoje
espalhados pelo mundo, registro meu obrigada pelo carinho à distância, pela tolerância diante
de minhas ausências e pelas deliciosas visitas feitas nos últimos anos.
Com minha amada irmã Luciana compartilho uma família, uma história e muitas
memórias, mas quero agradecer imensamente pela certeza do que ainda vamos dividir. Pelas
viagens que faremos, os álbuns de fotografia que preencheremos, as conquistas que
comemoraremos e as alegrias, surpresas e bobagens de que riremos juntas.
Meu pai, Eduardo, acompanha minhas escolhas e rumos com muito carinho, respeito e
entusiasmo. Saber que posso contar com seu apoio é um conforto que não cabe em palavras.
A ele agradeço também pela revisão do texto e pelos comentários deixados nos cantos das
páginas, que aplacaram muito da solidão que é escrever uma tese.
Minha mãe, Wânia, construiu nos últimos anos uma casa que mais parece um pedaço
de paraíso. Busquei a imagem dessa casa todas as vezes que parei por alguns instantes diante
de dificuldades que passaram e de idéias que ficaram nesta tese. Isso sempre me serviu como
uma injeção de ânimo, aconchego e alegria. Coisa de mãe!
E ao meu amor, Sérgio Veloso, devo vários obrigadas pela companhia, pelo incentivo
e por cada uma das vezes que o ouvi tocando violão pela casa enquanto escrevia estas
ix

páginas. Não sei se ele sabe, mas no começo da pesquisa minha intenção (e inquietação) era
entender não só como algumas pessoas desaparecem, mas também como tantas outras voltam
diariamente para suas casas, tranqüilas e determinadas, sem sequer aventar a possibilidade de
sair por aí e perder-se no mundo. A ele agradeço por ser um dos meus melhores motivos.

x

LISTA DE QUADROS E FIGURAS

Quadro 1

Classificações de Sindicâncias

48

Quadro 2

Mesas e Temas do II Encontro Nacional da ReDESAP

64

Quadro 3

Grupos de casos

124

Quadro 4

Alguns números da ReDESAP

192

Figura 1

Situando o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas

240

xi

LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

BPM

Batalhão da Polícia Militar

Cedae

Companhia Estadual de Águas e Esgotos

CT

Conselho Tutelar

DAIRJ

Delegacia de Polícia do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro

DEAM

Delegacia Especial de Atendimento à Mulher

DESIPE

Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro

DETRAN-RJ

Departamento de Trânsito do Rio de Janeiro

DP

Delegacia Policial

DH

Delegacia de Homicídios

ECA

Estatuto da Criança e do Adolescente

MJ

Ministério da Justiça

MP

Ministério Público

FCNCT

Fórum Colegiado Nacional de Conselheiros Tutelares

Fenseg

Federação Nacional de Seguros Gerais

FIA-RJ

Fundação para a Infância e Adolescência do Rio de Janeiro

HSA

Hospital Municipal Souza Aguiar

HFM

Hospital Ferreira Machado

ICCE

Instituto de Criminalística Carlos Éboli

IFP

Instituto Félix Pacheco

IML

Instituto Médico-Legal

IMLAP ou
IML-RJ

Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto ou Instituto Médico-Legal do Rio de
Janeiro

INSS

Instituto Nacional do Seguro Social

IPERJ

Instituto de Previdência do Estado do Rio de Janeiro

ISP

Instituto de Segurança Pública

ONG

Organização Não-Governamental

PAF

Projétil de Arma de Fogo

PNCFC

Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e
Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária

POLINTER

Polícia Interestadual
xii

PF

Polícia Federal

RG

Registro Geral

Rede
INFOSEG

Rede de Integração Nacional de Informações de Segurança Pública, Justiça e
Fiscalização

ReDESAP

Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes
Desaparecidos

SAMU

Serviço de Atendimento Móvel de Urgência

SDP

Setor de Descoberta de Paradeiros

SENASP

Secretaria Nacional de Segurança Pública

SEDH/PR

Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República

SICRIDE/PR

Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas do Paraná

SPC

Serviço de Proteção ao Crédito

SPDCA

Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente

TJ

Tribunal de Justiça

xiii

SUMÁRIO

Prólogo
Introdução
Uma forma para muitas ausências
Através da porta que fica aberta
Organização da tese

1
2
10
19
25

1. Nada opor: um problema de pesquisa e seus trâmites
1.1 Por um paradeiro ou por um papel?
1.2 A entrada em campo e a abertura dos arquivos
1.3 A burocracia e seus becos: o SDP
1.4 A pesquisa e suas curvas: a ReDESAP

27
29
36
45
60

2. Salvo melhor juízo: uma ocorrência policial e suas rotinas
2.1 Uma rotina para um fato atípico
2.2 De que é feito um enigma
2.3 É problema do Estado
2.4 (Outros)

72
73
94
112
120

3. Esgotadas todas as possibilidades: uma ocorrência policial e seus artefatos
3.1 São essas coisas de todo instante
3.2 Aborrecimentos, conselhos e compromissos
3.3 Desvios, suspeitas e reputações
3.4 Perturbações, cuidados e dependência
3.5 Errância, corpos e territórios

129
131
140
149
160
171

4. É o que me cumpre informar: um problema social e seus embates
4.1 Outras portas que se abrem
4.2 Uma rede e seus enlaces
4.3 Uma rede e seus nós
4.3.1 Há famílias desestruturadas em todas as classes sociais
4.3.2 Minha família se desestruturou depois que minha filha desapareceu
4.3.3 Não temos a estrutura necessária
4.4 De quantas ausências é feito um problema

187
193
198
206
207
211
222
227

5. Isso é coisa do destino: algumas formas escorregadias de classificação
5.1 Sem destino certo
5.2 Mas com tudo arrumado
5.3 Algumas formas eficazes de exclusão
5.4 Uma nota sobre participação

234
238
246
255
265
xiv

Considerações finais: à procura de Luísa Porto

271

Referências Bibliográficas

281

Anexos
I.
Documentos
II.
Índice alfabético e resumos dos casos
III.
Membros da ReDESAP
IV.
Eventos da ReDESAP

295
298
305
307

xv

Mais do que comer, correr ou flechar a carne
alheia, mais do que aquecer a prole sob a
palha, nós nos sentamos e damos nomes, como
pequenos imperadores do todo e de tudo. Uma
mulher dirigiu seus passos ao poente e sumiu;
sabem o que fez aquele que ela abandonou,
enquanto fitava o poente com os olhos cavos?
Ele grunhiu, e este grunhido virou o nome da
desaparecida. Ele lhe deu um nome, ele ganhou
seu nome, como um coágulo, uma retenção
daquilo que passava, confuso, por ele, um
poente paralelo ao poente diante dele.
Nuno Ramos, Ó

xvi

Prólogo

O sétimo andar do edifício sede da Polícia Civil correspondia, naquela época, à
Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro – Centro/Capital. Depois de devidamente
identificado na portaria, quem a ele ascendia via, assim que saía de um dos quatro elevadores
do prédio, alguns corredores e muitas portas. Todas as portas tinham placas indicando o que
funcionava e/ou quem trabalhava nas respectivas salas. De um lado, a primeira porta que se
avistava era a dos Delegados Adjuntos. Do outro, a porta da sala 709, cuja placa indicava
Seção de Descoberta de Paradeiros. Era esta sala que eu procurava naquela manhã. O mês
era março e o ano, 2008.
Logo que saí do elevador encontrei, parados diante da porta da sala 709, Maria e
Jeferson. Eles aguardavam um policial específico, de nome Fernando, que nas palavras dela já
“sabia do que se tratava”. Perguntei então se eles queriam registrar o desaparecimento de
algum parente, ao que Maria respondeu negativamente: estavam ali, ao contrário, para pedir a
suspensão das investigações em torno do paradeiro de uma pessoa que eles mesmos haviam
localizado. Pensando pouco e pressupondo muito, imediatamente eu disse que deveria ser um
grande alívio reencontrar alguém dado como desaparecido. Para minha surpresa, Maria assim
me contestou: “Pra mim não é alívio nenhum. Eu preferia que ele evaporasse”.
Segundo relatos de Maria, Antônio, a pessoa que ela preferia que evaporasse, era seu
ex-marido, de quem estava separada há cerca de vinte anos. Ainda que separados, viviam na
mesma casa, habitada também por Jeferson, atual companheiro dela. Nas palavras de Maria,
mais do que alguém com quem fora casada no passado, Antônio era alguém que lhe dava
“muito trabalho” no presente. Desaparecer, fazendo com que ela e seu companheiro tivessem
que procurar não só por ele, mas também pelos serviços da polícia, era um exemplo desse
trabalho.
Enquanto Maria enumerava outras tarefas em que consistia o trabalho que Antônio lhe
dava, um policial saiu da sala, abrindo subitamente a porta diante da qual conversávamos. Era
o inspetor Fernando, policial que, conforme havia dito Maria, “sabia do que se tratava”. Ao
constatar que estávamos aguardando há algum tempo, o inspetor Fernando afirmou que não
precisávamos ter esperado do lado de fora. Poderíamos ter entrado quando quiséssemos, já
que, nas palavras dele, “a porta do Setor fica aberta”.
1

Introdução

Em dezembro de 2009, o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP),
autarquia estadual dedicada à pesquisa e à capacitação de servidores na área de segurança
pública, divulgou um estudo sobre casos de desaparecimento de pessoas ocorridos no estado.
Intitulado “Pesquisa de Desaparecidos”, o estudo teve como objetivo

mapear as ocorrências de pessoas desaparecidas no estado do Rio de Janeiro,
no ano de 2007. A base de dados utilizada é proveniente de ocorrências
registradas pela Polícia Civil naquele período (...) na tentativa de traçar o
perfil dessas pessoas (sexo, raça, idade, nacionalidade, naturalidade, renda,
escolaridade, local de moradia e localização da ocorrência), além de
identificar as circunstâncias das ocorrências e as possíveis causas. (ISP,
2009)

Na solenidade de divulgação dos achados da pesquisa, diante da presença de redes de
televisão e emissoras de rádio, foram destacados os seguintes dados: em 2007, a incidência de
casos concentrou-se na capital do estado e entre pessoas do sexo masculino que tinham entre
10 e 19 anos; outros grupos que teriam destaque numérico nos casos “eram idosos, pessoas
com problemas mentais e usuários de drogas e álcool” (ISP, 2009); e, da amostra de
ocorrências analisadas, 71,3% tiveram como desfecho o retorno dos desaparecidos às suas
casas ou ao menos a descoberta de seus paradeiros. Esse último percentual serviu de mote
para o momento central da apresentação da pesquisa, em que seus resultados foram
comparados ao que seria o perfil das vítimas de homicídios dolosos no estado. Contrastando
com casos de desaparecimento, homicídios dolosos ocorreriam a pessoas com idades entre 20
e 29 anos, o que indicaria que a porção da população envolvida em desaparecimentos é
distinta da composta pelas vítimas de homicídio. Ademais, enquanto mais de 80% das vítimas
de homicídios dolosos seriam homens, entre os desaparecidos essa cifra baixaria para 60%.
Há algo de reconfortante na idéia de que é possível definir quem são as pessoas que
desaparecem em determinado local, afirmando inclusive que essas pessoas não só são
localizadas, como também não são vulneráveis a certo tipo de crime e no mais das vezes
retornam para suas casas. Estive presente na solenidade de divulgação da pesquisa do ISP e o
tom de otimismo que nela reinou não me deixou dúvidas a esse respeito. Por outro lado, esse
mesmo tom de otimismo me legou um conjunto de indagações de outra natureza: a produção
2

daqueles dados buscava atenuar que desconfortos e preocupações? Se havia otimismo em sua
divulgação, qual seria o cenário de pessimismo que ela confrontava?
Um ano antes da solenidade do ISP, a organização não-governamental (ONG) Rio de
Paz promoveu uma manifestação em Copacabana que ficou conhecida como “Protesto Forno
de Microondas”. Pilhas de pneus foram distribuídas nas areias da praia, de modo a expor o
que seria um método de assassinato e carbonização de corpos utilizado por criminosos,
sobretudo atuantes no tráfico de drogas, nas chamadas comunidades do Rio de Janeiro. Dentro
das pilhas de pneus, pessoas e bonecos representavam as vítimas desses crimes; na frente de
cada pilha, um cartaz dizia: “9.000 pessoas desaparecidas nos últimos 2 anos. Suspeita-se que
6.300 pessoas desaparecidas foram assassinadas”.
Se o ISP separou os dois tipos de ocorrência, afirmando que as parcelas da população
atingidas por cada um são distintas, a manifestação da ONG expôs um possível número de
homicídios dolosos que estariam encobertos no universo mais amplo dos desaparecimentos.
Ao fazê-lo, explicitou com bastante eloqüência alguns dos desconfortos e preocupações a que
os resultados da pesquisa do Instituto pareciam se contrapor. Contudo, como apresento ao
longo da presente tese, um olhar detido sobre casos, sobre a rotina de pessoas que com eles
lidam e sobre eventos públicos dedicados ao tema revela que há outras razões para certo
pessimismo em torno do desaparecimento de pessoas além de sua possível vinculação a
crimes como, por exemplo, homicídio e destruição de cadáveres.
A própria classificação de um conjunto de fatos como desaparecimento carrega
consigo mais incômodos que certezas. Mais do que isso, efetuada no decurso de uma cadeia
de comunicações entre pessoas e instituições, a designação de fatos e experiências como
desaparecimento é constituída por questionamentos e incertezas. Policiais, gestores de
políticas públicas, famílias e grupos de pessoas que lidam com essa classificação, seja por
força de suas atribuições profissionais, seja por circunstâncias pessoais, vêem-se envolvidos
em complexas tramas de significados voláteis e imprecisos. Não saber o paradeiro de uma
pessoa, comunicar esse não saber a órgãos públicos e/ou ter que registrá-lo, investigá-lo e
administrá-lo como policial, assistente social ou funcionário de uma ONG implica lidar com
inúmeras dúvidas e imprecisões. Tais imprecisões são obliteradas tanto em resultados de
pesquisas estatísticas que buscam traçar perfis fechados, como o estudo do ISP, quanto por
protestos como o da ONG Rio de Paz, que cola desaparecimentos a homicídios.
O desaparecimento não implica uma cadeia unilinear de fatos, em que alguém some, é
procurado e, caso tudo aconteça como esperado, é localizado e retorna à ordem de coisas e
3

relações em que estava inscrito anteriormente. Embora seja essa a visão recorrente no senso
comum, e embora aqueles que lidam com casos particulares muitas vezes esforcem-se para
construí-los narrativamente assim, ela não resiste a um olhar mais atento. Citado no Prólogo,
meu encontro com Maria, cujo ex-marido desapareceu e foi encontrado, sugere o quão contraintuitivo pode ser um caso de desaparecimento. Enquanto eu imaginava que ela estaria
aliviada por tê-lo localizado, Maria preferia que Antônio “evaporasse”. Por outro lado, como
sugere o mesmo encontro, não necessariamente o desaparecimento relaciona-se aos
fenômenos da criminalidade e da violência urbana. Antônio, afinal, foi dado por desaparecido
enquanto “descansava da vida” longe do Rio de Janeiro.
O que, então, é o desaparecimento de pessoas? A que referentes esse termo pode ou
pretende ser conectado em seus diversos usos? Se os chamados desaparecimentos políticos,
inscritos dentre as práticas de repressão constitutivas de alguns regimes ditatoriais, são alvo
de debates, comissões e indenizações, que tratamento é dado ao que, por contraste, Oliveira
(2007) chama de desaparecimentos civis?
Casos de desaparecimento não qualificados como políticos são muitas vezes definidos
por desconhecimento e exclusão. Freqüentemente, o termo é utilizado quando não se sabe
onde uma pessoa está, não se pode assegurar se ela foi vítima de crime, se optou por deixar o
local e o círculo social em que habitualmente se encontrava ou se sofreu algum acidente. A
exceção mais visível a esse uso aparece no habitual emprego do termo desaparecimento em
casos de intempéries, catástrofes e acidentes que deixam vítimas fatais cujos corpos não são
encontrados, ou vítimas com vida, mas impossibilitadas de retornar aos locais de onde saíram.
Mesmo nesses casos, no entanto, não se sabe onde a pessoa está e não se pode determinar com
precisão o que lhe ocorreu.
Perguntar-se sobre o que esse termo pode significar descortina o quão escorregadias
são as idéias que compõem seu campo semântico. Além de se tratar de uma classificação por
exclusão, o fato designado como desaparecimento de uma pessoa se faz sempre em relação à
outra ou outras. Não há como desaparecer em absoluto: se a pessoa está fora do alcance de
outra, possivelmente está ou esteve ao alcance de uma terceira, inscrita em um cenário ou
conjunto de circunstâncias inacessíveis apenas para a segunda. Tampouco há como
estabelecer de forma absoluta as coordenadas espaço-temporais que marcam onde e quando
uma pessoa desapareceu. O máximo que se pode tentar afirmar, fazendo uso de idéias apenas
aproximativas e da voz passiva, é a hora e o local em que alguém “foi visto pela última vez”
por outra pessoa que o conhecia ou pôde reconhecê-lo.
4

Ademais, delegacias de polícia são procuradas por pessoas que comunicam como
desaparecimentos fatos que, após investigações, passam a ser designados raptos, homicídios,
seqüestros ou outros crimes que anulam sua definição inicial como desaparecimentos. Nessas
ocasiões, desaparecimento designa o desconhecimento e a inacessibilidade que uma pessoa
experimenta em relação ao paradeiro de outra e, ainda, o desejo de buscar ajuda e/ou delegar a
terceiros a busca por ela. Caso essa busca permita conhecer o paradeiro do desaparecido, o
termo passa a ser substituído por outro. Um bom exemplo é o caso das onze vítimas da
chamada Chacina de Acari, ocorrida em 1992 no município fluminense de Magé. Inicialmente
consideradas pessoas desaparecidas por alguns de seus parentes que procuraram a polícia, ao
longo das investigações as vítimas passaram a figurar em livro (Nobre, 2005), trabalho
acadêmico (Araújo, 2007) e inquéritos policiais como vítimas de seqüestro e homicídio. Por
fim, a despeito do fato de seus corpos jamais terem sido encontrados, algumas foram
registradas como mortas em certidões de óbito. Em suma, tanto quanto determinar o “local do
fato” é algo mais complexo do que pode parecer, registros policiais que classificam um
acontecimento como desaparecimento são freqüentemente passíveis de negação.
Não obstante ser tão escorregadio, o desaparecimento de pessoas é encarado,
alternadamente, como “problema social” decorrente da omissão ou da ineficiência de
múltiplos agentes que disputam o poder de definí-lo. Familiares de pessoas desaparecidas,
policiais civis e militares, gestores governamentais de políticas públicas e funcionários de
ONGs

acusam-se

mutuamente

de

serem

responsáveis

ora

pela

ocorrência

de

desaparecimentos, ora pela não-solução de muitos casos, e ora pelo dever de preveni-los.
Embora abordem o fenômeno de formas distintas e apresentem-se como pólos opostos em
embates variados, porém, esses agentes partem de um ponto comum: a falta de precisão
quanto a definições e diretrizes para enfrentá-lo. Dispersas por distintas searas da
administração pública, as competências e responsabilidades de gerir e combater o
desaparecimento são tão escorregadias e imprecisas quanto o próprio vocabulário disponível
para falarmos dele.
Tenho me deparado com tais imprecisões desde março de 2008, quando conheci
Maria, Jeferson, o inspetor Fernando e o caso de desaparecimento de Antônio, citados no
Prólogo. Naquela ocasião, iniciei formalmente minha pesquisa de doutorado. Através de
trabalho de campo no Setor de Descoberta de Paradeiros (SDP) da Delegacia de Homicídios
do Rio de Janeiro, acompanhei a rotina de agentes da Polícia Civil que trabalham

5

exclusivamente com casos de desaparecimento. 1 Seguir essa rotina incluiu ler, transcrever e
analisar os documentos por eles produzidos acerca dos casos que recebem, investigam e
arquivam diariamente. Acompanhar o cotidiano de uma repartição pública, afinal, significa
tomar contato com quadros administrativos burocráticos constituídos por funcionários
públicos e arquivos de documentos e expedientes. No primeiro capítulo da tese, detenho-me
sobre minha entrada em campo junto aos agentes do SDP e seus arquivos.
O SDP é a seção da Delegacia de Homicídios responsável por investigar casos de
desaparecimento de pessoas registrados nas delegacias distritais compreendidas entre a 1ª e a
44ª Delegacia Policial (DP) do Rio de Janeiro. Todo caso de desaparecimento registrado
nessas delegacias que não seja solucionado no prazo de quinze dias é remetido ao SDP, onde
deve ser investigado por um dos cinco policiais que integram o quadro ativo do Setor.2
Contudo, com considerável freqüência casos registrados em delegacias não compreendidas
entre a 1ª e a 44ª DP também são remetidos ao SDP, e o prazo de quinze dias é usualmente
estendido por períodos de tempo muito variados. Entre março de 2008 e dezembro de 2009,
com dois intervalos, freqüentei o SDP regularmente. Nesse período, acompanhei, li e
transcrevi um total de 172 casos de desaparecimento recebidos no SDP entre 2004 e 2009.
Desse conjunto, uma seleção de 57 casos é objeto de reflexão no corpo da tese.3
Minha presença no Setor levou-me a estabelecer relações também com membros da
Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos
(ReDESAP), coordenada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da
República (SEDH/PR)4. A rede articula 47 instituições, entre ONGs e órgãos de
1

Desde janeiro de 2010, a referida Delegacia de Homicídios (DH) passou a ter estatuto de Divisão, tendo tido
seu quadro de pessoal aumentado e sua estrutura física e organizacional alterada. Contudo, como encerrei a
pesquisa no SDP no mês anterior, em dezembro de 2009, faço referência em todo o texto da tese à Delegacia de
Homicídios, e não à atual Divisão de Homicídios.
2
Procedimento regulado pela Resolução 513/1991 da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Essa
resolução é objeto de reflexão mais adiante.
3
Os casos não foram selecionados a partir de critérios de representatividade e capacidade de generalização, nem
tampouco aleatoriamente. Como adverte Small (2009), associar pesquisa de campo a esses critérios de seleção de
casos implica anular o potencial heurístico próprio do conhecimento etnográfico. À luz dessa advertência,
escolhi para tratar mais detidamente casos particulares que proporcionam oportunidades e espaços narrativos
para a apresentação dos aspectos específicos do desaparecimento de pessoas que busco destacar. Em suma, a
escolha dos casos é ela mesma uma estratégia narrativa de que faço uso tendo como finalidade algo que é
característico do texto etnográfico: a persuasão do leitor. Evidentemente não se trata de buscar convencer o leitor
às expensas de compromissos com as pessoas e informações enredadas no texto, mas sim o contrário disso.
Afinal, “uma vez que se começa a olhar para os textos de etnografia, além de olhar através deles, e se percebe
que eles são construídos, e construídos para persuadir, aqueles que os produzem passam a ter muito mais por que
responder.” (Geertz, 1988, p.181).
4
Desde março de 2010, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR)
passou a ser designada apenas Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Esta alteração foi
parte de um conjunto de modificações na organização de Presidência da República e dos Ministérios instituídas
por Medida Provisória (432/2010) convertida em Lei (12.314/2010) em agosto de 2010. Como a maior parte da

6

administração pública municipal, estadual e federal, como conselhos tutelares, órgãos de
assistência social e delegacias de polícia. 5 No curso da pesquisa, passei a frequentar as
reuniões do comitê gestor da ReDESAP, então composto por três delegados de Polícia Civil, a
presidente de uma associação de mães de desaparecidos, uma conselheira tutelar, o diretor de
um programa estadual de busca de crianças e adolescentes desaparecidos e um gestor da
SEDH/PR. Ao longo do ano de 2010, participei de reuniões do grupo centradas na principal
iniciativa em torno da qual a rede está mobilizada atualmente: o projeto ainda não
implementado do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas.
Além disso, também em 2010 preparei material didático (cartilha), coordenei e
ministrei curso sobre desaparecimento de pessoas intitulado “Programa de Capacitação de
Atores Estratégicos no Âmbito da ReDESAP”, idealizado pela SEDH/PR e executado em
convênio com uma ONG e uma fundação de ensino e pesquisa. O público-alvo do Programa
consistiu em conjunto de servidores públicos e membros de organizações da sociedade civil
que lidam com casos de desaparecimento de pessoas, mais ou menos diretamente, em seis
unidades da federação: Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe, Pará, Distrito Federal e Goiás. Os
debates levados a cabo nos eventos da rede em que estive presente ao longo da pesquisa, entre
eles o curso, são objeto de reflexão na tese.6 A trajetória que percorri do SDP para a
ReDESAP é apresentada no primeiro capítulo.
O cotidiano do SDP, na Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, e os eventos
promovidos pela ReDESAP nas cidades do Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Aracaju,
Goiânia e Boa Vista apresentaram-me os dilemas e desafios que casos de desaparecimento
colocam para todos que com eles se envolvem, tanto em diversos níveis e searas da
administração pública, quanto em experiências classificadas como pessoais e/ou familiares.
Mais do que isso, a rotina da delegacia e os encontros da rede sugeriram-me que dilemas e
desafios são o que constitui o desaparecimento como fenômeno passível, por um lado, de
enfrentamento e gestão pública, e, por outro, de investigação antropológica.
A ausência de uma pessoa em lugares ou círculos em que se espera que ela seja
encontrada não é a única falta que determina um caso de desaparecimento. Ao contrário,
muitas vezes essa ausência é apenas um de seus vários elementos constitutivos. Tanto quanto
ela, a ausência de definições precisas do que seja desaparecimento e sobre quem recaem as
pesquisa foi realizada antes dessa modificação, contudo, refiro-me em todo o texto da tese à Secretaria Especial
de Direitos Humanos.
5
No Anexo III encontra-se a listagem dos membros da ReDESAP.
6
No Anexo IV encontra-se um quadro que compila os eventos da ReDESAP em que estive presente, listando os
locais onde ocorreram e dados sobre minha participação.

7

responsabilidades de sua gestão e de seu combate determina o curso de cada caso particular.
Por isso, essa ausência de definições é o eixo em torno do qual as questões analisadas na tese
estão organizadas. Em outros termos, apresento casos com que tive contato no SDP e debates
de que participei na ReDESAP colocando em relevo essa falta de definições. “O que é o
desaparecimento de pessoas”, nesse sentido, não é apenas uma pergunta retórica ou
narrativamente estratégica que se presta a introduzir este trabalho, como utilizei acima. Antes,
trata-se também de uma indagação evocada pelos agentes que lidam com casos particulares,
envolvem-se em debates públicos em torno do desaparecimento e, cotidianamente, definem,
redefinem e questionam seus significados.
Inspirada primordialmente na problemática antropológica do “gestar e gerir” (Souza
Lima, 2002), a pergunta mais ampla que reúne as questões aqui tratadas é a seguinte: como é
construído e gerido o desaparecimento de pessoas no Brasil contemporâneo? Ao compilar
análises processuais sobre a instauração e utilização de espaços e categorias sociais que são
“alvos e cauções de uma „burocracia‟ destinada a geri-las, em si fragmentada, comportando
histórias de constituição muito diversa e articulando setores sociais heterogêneos” (Souza
Lima, 2002, p.17), Souza Lima explora o universo prescritivo e pedagógico das práticas,
técnicas e saberes constitutivos do que, em sentido lato, podemos chamar de administração
pública. Conforme a abordagem do autor, em categorias jurídico-normativas, políticas
públicas e “problemas sociais”, tanto quanto na crescente formação de especialistas e técnicos
em áreas temáticas diversas, há mais que aplicação de regras, normas e procedimentos
burocráticos a realidades supostamente dadas ao conhecimento. Importa, portanto, investigar
os processos de mútua constituição através dos quais categorias, políticas e “problemas”
conectam-se aos mundos sociais que buscam circunscrever.
Tomada como pergunta, a dupla “gestar e gerir” proporciona reflexões sobre casos
particulares e debates públicos em torno do desaparecimento de pessoas que não naturalizam
categorias e mantêm no horizonte analítico a idéia de que todo fenômeno tomado como objeto
de administração pública é, necessariamente, construído por técnicas, práticas e saberes que
sobre ele incidem. Estabelecer a pergunta do “gestar e gerir” como pilar de um trabalho sobre
o desaparecimento de pessoas, portanto, significa admitir por princípio que o objeto em foco
não é o desaparecimento de pessoas, e sim aquilo que é construído como desaparecimento de
pessoas, procurando compreender o processo por meio da qual se dá tal construção.
A interrogação sobre a constituição e gestão do desaparecimento de pessoas desdobrase, aqui, em duas indagações principais: como casos particulares de desaparecimento são
8

construídos como ocorrências policiais, e como o desaparecimento de pessoas é construído,
em outro plano, como “problema social”. Tais indagações desdobram-se, ainda, em uma
terceira: a pergunta acerca das unidades e responsabilidades construídas e atribuídas em casos
particulares de desaparecimento e em debates públicos em torno do fenômeno. “Família”,
“polícia” e “Estado” são termos constantemente evocados nos referidos casos e debates, daí
minha opção por me perguntar, também, como são construídas unidades e atribuídas
responsabilidades diante de desaparecimentos de pessoas.
As reflexões incitadas pelos casos e debates apresentados na tese são devedoras de um
conjunto de etnografias que, ao tomar como objeto práticas classificadas como
administrativas, burocráticas e/ou judiciárias, prestam-se a pensar sobre processos de
formação de Estado e constituição de sujeitos. Em franco diálogo com a filosofia de Michel
Foucault, tais trabalhos, que aparecem ao longo da tese não só em citações explícitas, mas
também e principalmente como interlocutores com os quais gostaria de dialogar, promovem
reflexões que revelam a faceta mais dinâmica e insidiosa do poder de Estado: a arte de
governar seres humanos e suas relações (Inda, 2005). Alguns desses estudos são as
etnografias realizadas em contextos estrangeiros e compiladas por Das & Poole (2004) e Inda
(2005), além dos trabalhos de Lugones (2004, 2009) em tribunais da província argentina de
Córdoba, e, com especial destaque, os estudos voltados para a realidade brasileira realizados
por Souza Lima (1995), Vianna (1999, 2002) e Schuch (2009). Também compõem esse
quadro as coletâneas organizadas por Souza Lima (2002) e Fonseca & Schuch (2009).
Almejando dialogar com os trabalhos citados, busco discutir as questões centrais
acima introduzidas ao longo de cinco capítulos, cujos conteúdos encontram-se resumidos no
final dessa Introdução. Antes disso, faz-se necessário ressaltar que os casos de
desaparecimento com que tive contato no SDP e que selecionei para apresentar na tese
atravessam os cinco capítulos, fazendo-se presentes no corpo do trabalho como um todo.
Casos são a matéria prima mais fundamental da tese, e sem referência a eles nenhuma das
questões tratadas teria sido sequer levantada. Em suma, é através deles que busco
compreender como o desaparecimento é gestado e gerido no Brasil contemporâneo.7

7

Todos os casos com que tive contato nos arquivos do SDP tiveram lugar no estado do Rio de Janeiro, o que a
princípio demandava que eu circunscrevesse meu objetivo de pesquisa ao Rio de Janeiro contemporâneo, e não
ao Brasil. Porém, a pesquisa estendeu-se para eventos da ReDESAP ocorridos em outras unidades da federação,
onde conheci e conversei sobre outros desaparecimentos além dos investigados no SDP e tomei contato com
formas de abordá-los e geri-los empreendidas em outros locais, permitindo ampliar o escopo da tese.

9

Uma forma para muitas ausências
Cada caso de desaparecimento investigado no SDP equivale a uma pasta de
documentos que reúne registros relativamente autônomos. Produzidos em diversas repartições
e encaminhados para o Setor em datas variadas, Registros de Ocorrência (RO), Ofícios,
Despachos, fotografias e bilhetes pessoais, entre outros suportes materiais de informação, são
compilados ali sob o título de Sindicâncias. 8 As gavetas dos arquivos do SDP reúnem
Sindicâncias que são numeradas e organizadas ora segundo datas de desaparecimentos, ora
segundo datas de registros dos casos, e ora segundo suas datas de arquivamento. 9
Abrir qualquer gaveta do Setor significa encontrar maços de papéis reunidos em pastas
cujos indexadores são os nomes das pessoas desparecidas. Cada pasta equivale a uma
Sindicância. Diante da mistura de registros heterogêneos reunida nas Sindicâncias, a ordem de
produção e as conexões entre os papéis por elas compilados só podem ser compreendidas se
nos debruçarmos sobre cada pasta durante certo tempo, dedicando-nos a analisar as peças
documentais ali depositadas e a construir enredos que as reúnam, impondo-lhes uma ordem.
Formular enredos coerentes a partir das fragmentárias coleções de documentos guardadas nas
pastas é, nesse sentido, ficcionar (Ortega, 2008). Não que traçar percursos narrativos a partir
daqueles documentos implique construir farsas, falácias ou ilusões. Antes, “convertir en
ficción – ficcionar – no significa dar rienda suelta a fantasias escapistas, sino inducir un efecto
de realidad a través del uso de práticas discursivas cuyos referentes están en disputa.” (Ortega,
2008, p.61). O referente central em disputa nos registros de casos de desaparecimento, como
demonstro ao longo da tese, é o próprio termo desaparecimento.
Atos oficiais de nomeação, os documentos reunidos em cada Sindicância de
desaparecimento arrogam para si o estatuto de verdade e assim produzem verdades
autorizadas (Bourdieu, 2008), a despeito de sua heterogeneidade e aparente incoerência. Já os
enredos que se pode construir a partir deles, ao contrário, carregam consigo tons de ficção, à
medida que lhes impõem certa coerência, mas induzem um efeito de realidade crucial para seu
entendimento e análise. Enquanto freqüentei o SDP dediquei-me sobretudo à compreensão
daquelas peças documentais e a tentativas de construção de enredos que as ordenassem. Nessa
8

No Anexo I encontra-se um quadro listando os documentos que, em combinações variadas, podem compor uma
Sindicância. No quadro são apresentadas características básicas de cada documento.
9
Três critérios de guarda de Sindicâncias podem ser encontrados nas gavetas dos arquivos do SDP. Há casos
guardados em gavetas segundo o ano em que a pessoa que dá nome à Sindicância desapareceu; há casos
guardados em gavetas segundo o ano em que o registro de ocorrência de desaparecimento foi firmado em uma
DP, que muitas vezes não corresponde ao ano do desaparecimento; e, por fim, há casos em que o que conta é o
ano em que o caso foi arquivado. A maioria dos casos obedece ao primeiro critério.

10

empreitada, busquei tratar os documentos que toquei, li e transcrevi como artefatos
etnográficos especialmente reveladores de técnicas e procedimentos burocráticos estatais
(Riles, 2006) e, ao mesmo tempo, de representações e marcas sociais produzidas e
perpetuadas por tais técnicas e procedimentos (Cunha, 2002). Como não deixam dúvidas os
trabalhos de Souza Lima (1995), Carrara (1998), Vianna (1999, 2002), Cunha (2002) e
Lombardo (2010), apenas para ficar no âmbito institucional mais próximo desta tese,
etnografias em arquivos e sobre arquivos não são trabalhos destoantes ou raros no campo da
Antropologia Social, embora muitas vezes sejam assim apresentadas. Na lida com os papéis
produzidos e arquivados no SDP, sigo a trilha percorrida por esses autores e mantida aberta
por trabalhos anualmente defendidos em programas de pós-graduação e/ou apresentados em
eventos como, por exemplo, o seminário Quando o campo é o arquivo: etnografias, histórias
e outras memórias guardadas, realizado em novembro de 2004.10
Nesse sentido, encaro os documentos compilados nos arquivos que pesquisei como
precipitações de encontros e relações. Não se tratam de encontros entre menores e policiais no
começo do século passado (Vianna, 1999), entre vadios e policiais nos arredores da década de
1930 (Cunha, 2002) ou entre pleiteantes e administradoras de guardas judiciais em tribunais
(Lugones, 2009), embora essas díades ocupem lugar crucial na construção da tese, como
inspirações analíticas e metodológicas. A especificidade das relações que se precipitam nos
documentos aqui estudados decorre do fato de que eles centram-se na falta de uma pessoa, ela
mesma ausente do encontro que os produz: o desaparecido.
Da perspectiva que orientou a pesquisa e a escrita desta tese, cada peça documental
guardada nas gavetas do SDP é produto de encontros entre pessoas que se dirigiram a
delegacias para comunicar desaparecimentos e policiais civis que os registraram, além de
servidores públicos e funcionários de instituições diversas. Os encontros entre esses agentes e
os documentos que deles resultam implicam o emprego de recursos narrativos variados e,
determinando forma e conteúdo do que resta arquivado, implicam também a incidência de
regras e padrões de registro. Nos termos de Bourdieu, poderíamos dizer que tais encontros
implicam “um compromisso entre interesse expressivo e uma censura constituída pela própria
estrutura do campo onde o discurso é produzido e também circula.” (Bourdieu, 2008, p. 131).
Além disso, também incidem sobre forma e conteúdo do que resta arquivado atos e artefatos

10

O seminário foi “realizado em 25 e 26 de novembro de 2004 pelo CPDOC da Fundação Getúlio Vargas e pelo
Laboratório de Antropologia e História do IFCS/UFRJ, com o apoio da Associação Brasileira de Antropologia.”
(Castro e Cunha, 2005, p.3). Uma seleção de trabalhos apresentados no seminário encontra-se publicada no
número 36 da revista Estudos Históricos, do CPDOC/FGV, intitulado Antropologia e Arquivos.

11

que se aproximam do que Lugones (2009) chama de “formas de aconselhamento” e “fórmulas
de compromisso”, como busco deixar claro ao longo da tese.11
Como os documentos guardados no SDP compõem um arquivo policial, a censura que
determina sua forma e conteúdo é em grande medida derivada das formalidades e padrões de
registro resguardados pelos próprios formulários que dão corpo aos documentos, e pelas
hierarquias e cadeias de autoridade ao longo das quais se distribuem os vários agentes que os
assinam, autorizam, colocam em circulação e/ou arquivam. Tanto as cadeias de autoridade por
que se estendem os procedimentos executados pelos policiais e demais agentes que lidam com
desaparecimentos, quanto os documentos por eles produzidos são parte constitutiva do
conjunto de práticas que fazem o Estado enquanto exercício de poder. (Foucault, 2004). A
racionalidade governamental que orienta tais práticas, com suas formalidades, hierarquias e
padrões de registro, não anula, contudo, a criatividade e habilidade narrativa dos envolvidos
na produção dos documentos sobre os casos – sejam eles comunicantes de desaparecimentos,
policiais que atendem a esses comunicantes ou funcionários de instituições não-policiais que
são envolvidos nas tramas registradas.
Em suma, por mais interessados e formalizados que sejam, registros documentais cuja
autoria remete a encontros entre funcionários que zelam por sua forma e cidadãos que
demandam respostas de determinadas autoridades revelam as habilidades narrativas de todos
esses agentes. (Davis, 1987). Se pensarmos nos policiais que registram e arquivam casos de
desaparecimento, podemos notar suas habilidades para criar e manter arquivos, emblema
máximo da burocracia moderna (Riles, 2006), suas tentativas de oficializar formas de
aconselhamento e fórmulas de compromisso (Lugones, 2009) e, ainda, sua destreza em exibir
um suposto controle total sobre pessoas e territórios. Se pensarmos nos cidadãos que vão a
delegacias de polícia solicitar investigações em torno de um desaparecimento, por outro lado,
podemos notar suas tentativas de emprego de recursos narrativos que sejam eficazes para
diversos fins – como, por exemplo, atribuir uma boa reputação à pessoa desaparecida ou
revestir de suspeita pessoas enredadas nos casos. Portanto, os encontros entre agentes
11

Lugones (2009) denomina “formas de aconselhamento” e “fórmulas de compromisso” as técnicas de
menorização que observou em ato nos tribunais prevencionais de menores onde realizou trabalho etnográfico.
Tais formas e fórmulas reúnem, a um só tempo, “a força intrínseca da forma (o conselho) e a eficácia própria da
formalização dos compromissos exercida por especialistas” (Lugones, 2009, p.203), além de operacionalizarem
exercícios de poder “que reencaminham situações „desgovernadas‟ através de atuações pedagógicas” (idem,
ibidem, p.203). Registradas em autos de processos judiciais, “formas de aconselhamento” e “fórmulas de
compromisso” cristalizam maneiras de conduzir situações tidas como fora de controle ao deslizarem, de modo
tão escorregadio quanto eficaz, entre conselhos e ordens, e entre atribuições e compromissos. É por meio dessas
técnicas que as administradoras judiciais junto às quais Lugones fez sua pesquisa gestam e gerem os casos e os
grupos de pessoas diante dos quais atuam. Nos capítulo 2 e 3, mostro que o trabalho da autora ilumina muitos
dos registros firmados por policiais em sua lida rotineira com casos de desaparecimento.

12

envolvidos em tramas de desaparecimento produzem registros documentais censurados por
formalidades, mas que dão margem não só ao uso de formas e fórmulas padronizadas, mas
também a habilidades e estratégias narrativas.12
Para a escrita desta tese, os registros documentais com que tive contato no SDP foram
submetidos ao compromisso entre meu interesse expressivo e a censura determinada pelas
normas da escrita acadêmica. Encontrados nos arquivos compilados em pastas, mas não
ordenados e enredados em tramas apresentadas com começo, meio e fim, os registros
documentais lidos, transcritos e analisados ao longo da pesquisa foram aqui ficcionados
(Ortega, 2008, p.61) como casos de desaparecimento. Para fins de análise, os casos são
tratados como se tivessem assim sido encontrados, sem que haja aí qualquer pressuposto de
objetividade ou pretensão de narrar verdades. (Riles, 2006, 16-17). Ao contrário, fundamenta
a construção dos casos a idéia de que, sejam quais forem os artefatos etnográficos utilizados, é
inconcebível que o intento da etnografia seja coletar dados num suposto mundo real cuja
verdade se queira descrever. Ser desprovida da pretensão de revelar a verdade, porém, não a
exime de buscar a verossimilhança (Geertz, 2009, p.13-14), reconhecer seu potencial efeito de
realidade e, sobretudo, honrar compromissos epistemológicos e éticos com os sujeitos e
informações enredadas no texto:
O que isso quer dizer é que agir desse modo não livra ninguém do ônus da
autoria, mas o aprofunda. Transmitir com exatidão as idéias de Emawayish,
tornar seus poemas acessíveis, tornar sua realidade perceptível e esclarecer o
contexto cultural em que ela existe significa colocar todas essas coisas na
página de maneira suficiente para que alguém possa adquirir alguma
compreensão do que elas podem ser. E essa é não apensa uma tarefa difícil,
mas uma tarefa que não deixa de ter conseqüências para o “nativo”, o
“autor” e o “leitor” (e, na verdade, para aquela eterna vítima das atividades
alheias, o “espectador inocente”). (Geertz, 2009, p.190)

A seguir, para colocar em cena uma das narrativas que construí a partir dos
documentos arquivados no SDP, apresento um exemplo de caso de desaparecimento já no
12

Em sua análise de cartas de remissão escritas na França do Século XVI, Davis (1987) une as idéias de arquivo
e ficção, ao atentar-se para os artifícios narrativos empregados pelos autores das cartas analisadas. Esses autores
eram pessoas que cometeram crimes e pediam perdão ao rei por seus atos, mas na escrita das cartas contavam
com o trabalho de escribas e notários que zelavam pelas formalidades que os pedidos necessariamente deveriam
respeitar. Por mais distante que seja, no tempo e no espaço, da temática aqui focada, a obra é inspiradora para
essa tese por partir do princípio de que as cartas resistem a ser analisadas a partir da dicotomia ficção X verdade.
As narrativas nelas produzidas visam à persuasão e dizem muito das habilidades dos suplicantes como
contadores de história, embora ao mesmo tempo digam muito sobre os limites formais que margeavam essas
habilidades. Ademais, a obra é inspiradora porque, de modo semelhante ao que ocorre em alguns casos de
desaparecimento, as cartas apresentam os suplicantes como figuras moralmente ilibadas, constroem os crimes
como excepcionalidades em suas vidas e, ainda, revestem de suspeitas outros personagens das tramas que
narram.

13

formato em que eles aparecem na tese. O caso escolhido é o desaparecimento (e localização)
de Antônio, protagonizado por ele, Maria, Jeferson e o inspetor Fernando, e encontra-se em
uma caixa de texto destacada do corpo desta Introdução por quatro bordas. Esse formato é
utilizado para alguns casos que escolhi destacar. Não obstante, há na tese menções a trechos,
passagens e fragmentos de outros casos que optei por mencionar ao longo do texto, sem
empregar o destaque formal. Utilizo esse modo de apresentação com o objetivo de
compartilhar com o leitor algo que encontrei ao longo da pesquisa, trazendo formalmente para
a tese características dos artefatos etnográficos pesquisados.13 Minha intenção é que a forma
como construo os casos espelhe, em alguma medida, a forma como os desaparecimentos de
pessoas aparecem nos documentos que li e transcrevi. 14
Dos pontos de vista dos agentes envolvidos em casos particulares e engajados em
debates públicos, designar e tratar um acontecimento como desaparecimento implica
desentranhá-lo do emaranhado de atos e fatos que dá corpo à vida social, conferindo-lhe o
estatuto de “problema” e a forma de um evento narrável com começo, meio e fim – ainda que
por “fim” entenda-se a perpetuação da ausência do desaparecido, sem razões conhecidas.
Nesse exercício, recursos narrativos específicos são utilizados, concomitantemente, tanto por
comunicantes de desaparecimentos, quanto por policiais que os registram em formulários e,
ainda, por agentes que os denunciam em debates públicos. Para espelhar formalmente essa
idéia, optei por apresentar os casos narrando-os também com começo, meio e fim, e
enquadrando-os em caixas de texto que se destacam do corpo do trabalho. Os casos que assim
aparecem na tese foram desentranhados do conjunto de papéis e falas com que tive contato ao
longo da pesquisa e formulados como narrativas. Nessa formulação, utilizo como recurso
certo vaivém entre o que está firmado nos documentos e a leitura que fiz deles, aqui
convertida em escrita. Faço isso permeando a narrativa de cada caso com trechos de
documentos, que aparecem em forma de citação (entre aspas ou destacado por recuo).
Os arquivos do SDP e os encontros da ReDESAP sugerem que a classificação de um
acontecimento como desaparecimento desdobra-se na produção de fronteiras entre o que seria
da ordem do ordinário e o que seria algo excepcional a ponto de se tornar ocorrência policial
ou manifestação de um “problema social”. Não obstante, os arquivos e encontros explicitam
também que a produção dessas fronteiras é um exercício constante e sempre incompleto:
13

Sigo a sugestão de Riles (2006), que sustenta que uma forma possível de respondermos às práticas com que os
etnógrafos tomamos contato é “borrowing responses from the ethnographic artifact itself (here, documents and
documentary practices) onto the ethnographer’s own terrain.” (Riles, 2006, p.25)
14
No Anexo II encontra-se um quadro que compila os casos narrados ao longo da tese nesse formato destacado.
A função do quadro é facilitar que o leitor rememore e encontre casos a partir do nome da pessoa desaparecida.

14

acontecimentos construídos como casos de desaparecimento são distinguidos da vida
cotidiana ao serem narrados e registrados, mas, ao mesmo tempo, dela não são totalmente
apartados. À luz das propriedades da magia, pode-se dizer que temos, também aí, mundos que
momentaneamente se sobrepõem sem que se destaquem. (Mauss, 2003, p. 150). As caixas de
texto colocadas ao longo do corpo da tese, mas destacadas pelas bordas que as delimitam, são
tentativas de dar forma a essas características dos casos.
Como o caso de Antônio bem ilustra, mesmo que construídos como eventos
extraordinários, casos de desaparecimento são constituídos por elementos do cotidiano e são
constitutivos do cotidiano daqueles que com eles se envolvem. Ademais, são cotidianamente
geridos por meio de rotinas burocráticas.

ANTÔNIO
Maria e Antônio, policial civil aposentado, viveram juntos por muitos anos e estão
separados há quase duas décadas. Logo após a separação, Antônio voltou a viver com sua mãe.
Falecida a mãe, seguiu residindo no mesmo endereço, em companhia da irmã. Em setembro de
2007, porém, o imóvel foi a leilão por inadimplência. A irmã de Antônio partiu para o Mato
Grosso e ele, desde então, voltou a residir com Maria, agora na casa que ela divide com
Jeferson, seu atual companheiro.
Questões financeiras, repletas de ambigüidades, são parte constitutiva das relações
entre Maria, Antônio e Jeferson. Segundo Maria, Antônio vive em sua residência por não ter
meios para manter casa própria desde o leilão do imóvel em que vivia com a irmã. Entretanto,
contribui considerável e regularmente para o orçamento da casa onde mora com ela e Jeferson.
Certa manhã de março de 2008, contados quase seis meses que vinham morando sob
mesmo teto, Maria, Antônio e Jeferson foram até uma agência bancária em Cascadura. Lá,
Antônio sacou setecentos reais de sua conta corrente e entregou a quantia, integralmente, a
Jeferson. Do banco, os três partiram no mesmo ônibus. Maria e Jeferson desembarcaram
primeiro, diante de um supermercado, e Antônio seguiu viagem. Ele estava a caminho de outra
agência bancária, no Centro, onde depositaria certa soma de dinheiro que havia colocado na
meia antes de sair de casa.
No começo da tarde, Maria começou a estranhar que Antônio não retornasse para casa
e decidiu procurar por ele nas ruas do bairro onde moram. Como não obteve sucesso, telefonou
em seguida para o irmão de Antônio, Walter Lúcio, que surpreso informou-lhe que Antônio
sequer sabe seu endereço. Em companhia de Jeferson, Maria foi então à agência bancária em
que Antônio depositaria o dinheiro que portava dentro da meia, “onde foram informados que
não consta o comparecimento de Antônio naquele estabelecimento”. Frustradas essas três
15

buscas, no bairro, na parentela e no banco, Maria decidiu procurar a polícia para registrar o
desaparecimento do ex-marido, decisão que a conduziu a três repartições policiais: a 29ª
Delegacia Policial (DP), a 6ª DP e o Setor de Descoberta de Paradeiros (SDP) da Delegacia de
Homicídios (DH).
Na 29ª DP, Maria foi informada que o registro só poderia ser feito depois de passadas
48 horas do desaparecimento.15 Como Antônio havia desaparecido naquele mesmo dia,
nenhuma providência seria tomada naquela repartição. Da 29ª, Maria seguiu para a 6ª DP, onde
tentou mais uma vez notificar o desaparecimento. Relatou então que seu ex-marido é policial
civil aposentado e, sob a justificativa de que se tratava de “questão envolvendo policial”, foi
encaminhada para a Delegacia de Homicídios e instruída a procurar o SDP.
Embora não seja da competência do SDP receber solicitações de registro diretamente
de familiares ou conhecidos de pessoas desaparecidas, e embora não haja qualquer respaldo
legal para a justificativa do encaminhamento de Maria diretamente à DH, o inspetor do SDP
que a recebeu achou por bem efetuar o registro. Tomou então as declarações de Maria e, a
partir delas, instaurou Sindicância em nome de Antônio. Dentre os registros que compõem a
Sindicância, o inspetor grafou uma justificativa para a exceção concedida:
Independentemente da peregrinação sofrida por muitos familiares de
pessoas desaparecidas, fica cada vez mais notória a falta de informação
dentro do próprio organismo da Polícia Civil, seja no que diz respeito ao
registro do desaparecimento, seja a área de sua atribuição. No ensejo de
amenizar o périplo da comunicante e melhor definir uma solução para que
se dê início às buscas do paradeiro do cidadão desaparecido, foram tomadas
a termo as declarações ora apresentadas para conhecimento e providências
cabíveis.

Passados onze dias da instauração da Sindicância, Maria retornou ao SDP para solicitar
a suspensão das investigações e registrar que ela mesma havia encontrado Antônio. Ele estava
hospedado “num hotel caro” da cidade mineira de Juiz de Fora, onde disse estar “descansando
da vida”. Ao relatar esse fato, Maria pediu ao inspetor do SDP que registrasse que ela não se
preocuparia em localizar Antônio caso ele voltasse a desaparecer. Aquela era a segunda vez
que seu ex-marido desaparecia e ela desejava ser desencarregada de procurá-lo se o fato
tornasse a se repetir.
Negando o pedido, o policial alertou Maria de que, se era esse seu desejo, ela deveria
se divorciar de Antônio, com quem era oficialmente casada até então. Segundo o policial, caso
continuasse casada “no papel”, Maria teria obrigações em relação a ele. “Se numa dessas ele
15

Ronda os casos de desaparecimento de pessoas no Brasil o chamado “mito das 48 horas”. Embora não haja
qualquer norma que afirme que registros de desaparecimento devam ser efetuados apenas 48 horas depois do
fato, é prática comum nas delegacias do país que policiais passem essa informação aos solicitantes. A Lei
Federal 11.259/2005, conhecida como “Lei da Busca Imediata”, foi instituída para combater este mito. Contudo,
ela determina a busca imediata apenas para casos de desaparecimento de crianças e adolescentes. O “mito das 48
horas” e a “Lei da Busca Imediata” são objeto de reflexão no capítulo 4.

16

for atropelado ou qualquer outra coisa” e ela nada fizesse, poderia ser responsabilizada por
negligência.
Diante dessa advertência, Maria descreveu “o trabalho” que Antônio representa em sua
vida. O policial insistiu que a solução para esse inconveniente seria o divórcio, única medida
que os desvincularia definitivamente. Em resposta, Maria deixou claro que estar casada com
Antônio lhe permitia acesso a alguns benefícios dos quais ela não poderia abrir mão. O policial
então afirmou que ela deveria ter ciência de estar agindo “por interesse” e de possuir
responsabilidades em relação a Antônio - como, por exemplo, reportar à polícia um eventual
novo desaparecimento dele. Encerrando o diálogo, Jeferson, companheiro de Maria que até
então permanecera calado, disse ao policial: “É. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.”
Ao se levantar para deixar o Setor, Maria por fim perguntou ao inspetor se ele não
queria checar o documento de identidade de Antônio, que ela levou consigo para comprovar
que o encontrara. Despedindo-se dela e de Jeferson, o inspetor afirmou que não havia qualquer
necessidade de checagem de documento para comprovação. 16

Enquanto foi registrado como desaparecido em documentos policiais hoje arquivados
no SDP, Antônio estava “descansando da vida” em um hotel. Embora para Maria ele estivesse
misteriosamente ausente, o que a levou a solicitar investigações policiais em torno de seu
paradeiro, ele havia se retirado, voluntariamente, do círculo social, das obrigações financeiras
e do ponto no espaço a que estava costumeiramente vinculado. Sendo Antônio maior de
idade, aposentado e dotado de meios materiais para tanto, é no mínimo intrigante que sua
decisão de se retirar tenha sido registrada, sob o nome de desaparecimento, em uma DP.
Se não pelo simples fato de que todos nós somos eventualmente acometidos pelo
desejo de “descansar da vida”, ao menos a indicação de que a própria Maria “preferia que ele
evaporasse” impõe que nos perguntemos, afinal, por que o que se passou com Antônio
recebeu o nome de desaparecimento.17 O que significa designar um acontecimento ou cadeia
de fatos como desaparecimento? E o que registrá-la em uma repartição policial implica?
Elementos do caso de Antônio oferecem pistas para refletirmos a partir destas
perguntas. Podemos notar, por exemplo, que as posses do ex-policial, importantes para a
16

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 061/08 do SDP/DH.
O detetive particular norte-americano Frank Ahearn fez da possibilidade de qualquer um de nós nutrir o desejo
de “descansar da vida” mote para um manual, atualmente traduzido e publicado em dez países, intitulado “How
to disappear: Erase Your Digital Footprint, Leave False Trails, and Vanish without a Trace” (Ahearn, 2010).
Em livrarias norte-americanas, encontra-se o manual de Ahearn lado a lado com seu avesso: manuais sobre como
encontrar desaparecidos e como solucionar casos de desaparecimento, como “Missing Men: the story of the
Missing Persons Bureau of the New York Police Department” (Ayers & Bird, 1932) e “Tracking - Signs of Man,
Signs of Hope: A Systematic Approach to the Art and Science of Tracking Humans” (Diaz, 2005).
17

17

manutenção da casa de Maria, bem como as responsabilidades acarretadas pelo vínculo civil
entre os dois figuram nos registros como razões para que a polícia fosse comunicada do
desaparecimento. Do ponto de vista de Maria, as razões operantes seriam as primeiras; do
ponto de vista do policial que a atendeu, seria crucial que ela agisse em função das últimas.
O diálogo entre Maria e o inspetor do SDP sugere, ainda, que a comunicação do
desaparecimento à polícia seria uma forma de garantir que, caso um acidente ou crime
acontecesse a Antônio e a polícia tomasse conhecimento, Maria fosse avisada, mas não
culpabilizada. Oficializar, comunicar e documentar a ausência de Antônio em sua casa e em
seu cotidiano, enfim, seria uma forma de Maria desincumbir-se de possíveis conseqüências da
retirada voluntária dele. Tanto quanto o casamento “no papel” acarreta responsabilidades, o
desaparecimento registrado nos papéis de um órgão policial pode eximir um sujeito de
algumas responsabilidades. Ao mesmo tempo, o desaparecimento registrado nesses papéis
pode impor à polícia tarefas, encargos e, por que não, bastante trabalho.
Atentando para especificidades do desaparecimento de Antônio, podemos notar que
questões financeiras, obrigações morais e responsabilidades civis constituem as relações entre
o policial aposentado, sua ex-mulher e o atual companheiro dela. Ademais, podemos notar
que essas mesmas questões, obrigações e responsabilidades constituem a própria ausência do
primeiro, ainda que temporária, na vida dos últimos. Ainda que tenha ganhado ares de
mistério, tons de fato extraordinário e estatuto de caso polícia, aparentemente destoando da
vida cotidiana de Antônio, Jeferson e Maria, o desaparecimento do primeiro pode ser visto
como parte constitutiva das relações e eventos mais ordinários entre os três.
Como indicam os trabalhos de Das (2007) e Kleinman (2006), para fins de análise é
possível e necessário encarar o cotidiano como constituído por fatos e acontecimentos que
colocam em questão certezas e preceitos morais que orientam os sujeitos. Alguns desses
eventos são classificados e vivenciados como excepcionais e desestabilizadores, ao passo que
a outros é cotidianamente negada tal classificação. Cabem então algumas perguntas, sobre as
quais reflito a partir da minha presença no SDP e na ReDESAP: o que faz das ausências
narradas em casos de desaparecimento eventos extraordinários? Que certezas e preceitos
morais são colocados em xeque nos casos? Como essas ausências são produzidas como
ocorrências policiais? E como ganham o estatuto de manifestações particulares de um
“problema social”?

18

Através da porta que fica aberta
Foi na data do reencontro entre Maria, Jeferson e o inspetor Fernando, narrado no caso
de Antônio, que nós quatro nos conhecemos. Mais do que isso, foi naquela data que conheci o
próprio SDP e soube que ali são investigados e arquivados exclusivamente casos de
desaparecimento de pessoa.
O inspetor Fernando é um dos cinco agentes da Polícia Civil do Rio de Janeiro que
compõem o quadro regular do Setor. Diferente da usual circulação entre delegacias e setores
que caracteriza a carreira da maioria dos policiais civis, Fernando está lotado na Delegacia de
Homicídios e trabalha no SDP há cerca de quinze anos. Junto a seus colegas de Setor, sua
atribuição central é investigar casos de desaparecimento registrados e não solucionados em
quarenta e quatro delegacias comuns do Rio de Janeiro.18 Tais investigações originam
registros documentais que são arquivados, organizados e contabilizados no próprio SDP com
o estatuto de Sindicâncias. Até o mês de setembro de 2008, encontravam-se arquivados no
SDP Sindicâncias em nome de 9.293 pessoas que desapareceram, algumas delas mais de uma
vez, desde o ano de 1993. Antônio é uma delas. Diariamente, segundo a escala de alternância
e horas de trabalho seguida pelos agentes do SDP, há sempre pelo menos dois policiais
presentes no Setor. Os desaparecimentos investigados são distribuídos entre os cinco, que
diante dos casos exercem o papel de “sindicantes”.
Os únicos instrumentos legais que regulam diretamente a forma através da qual a
Polícia Civil e, em particular, o SDP deve lidar com casos de desaparecimento no Brasil e no
Rio de Janeiro são a Lei Federal 11.529, de dezembro de 2005, e a Resolução 513 da
Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro (hoje integrada à Secretaria de Segurança
Pública), de dezembro de 1991. O curtíssimo texto daquela Lei determina apenas que casos de
desaparecimento de crianças e adolescentes devem gerar investigações imediatas.19
Relativamente mais detalhada, a Resolução, por sua vez, normatiza prazos e diretrizes para a
18

Grafo “delegacia comum” de modo a diferenciar as delegacias distritais, conhecidas como DPs, das delegacias
especializadas. Durante a execução da pesquisa que resultou nessa tese, havia 168 DPs no Rio de Janeiro, e cerca
de 55 delegacias especializadas. No desaparecimento de Antonio, as delegacias comuns envolvidas são a 29ª DP
e a 6ª DP; a especializada, por sua vez, é a Delegacia de Homicídios, em cuja estrutura está inscrito o SDP. São
exemplos de delegacias especializadas que compõem a estrutura da Polícia Civil do Rio de Janeiro: a Delegacia
de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), a Delegacia Especial de Atendimento à Pessoa de Terceira
Idade (DEAPTI), a Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), a Delegacia Especial de Apoio ao Turista
(DEAT) a Delegacia de Repressão do Crime Organizado (DRACO). Para uma reflexão sobre a atuação de
delegacias especializadas, bem como sobre o conhecimento (pouco) específico que nelas circula e é produzido,
ver Nascimento (2008).
19
A Lei 11.529/2005 foi incorporada como um parágrafo do Artigo 208 do Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA).

19

investigação policial de desaparecimentos no Rio de Janeiro, e é também utilizada como base
legal em outros estados da federação.
Embora a Resolução defina padrões administrativos para investigação policial, a
averiguação dos arquivos do SDP ou mesmo um único dia de observação dos trabalhos
levados a cabo no Setor permite notar que, na prática cotidiana, a heterogeneidade é o que
caracteriza o trabalho dos policiais e o conjunto de casos ali investigados. Não há padrão
único

de acontecimentos,

definições

e desdobramentos que permitam

falar

de

desaparecimento, sem contradições, como fenômeno unidimensional. Ao contrário, há
desaparecimentos múltiplos e definições múltiplas de desaparecimento, e é com essa
multiplicidade que os policiais do Setor trabalham.
A pesquisa indicou-me, não obstante, que tal multiplicidade não se confina no interior
das paredes de repartições policiais. Uma ampla gama de significados é atribuída ao
fenômeno, cotidianamente, não só por policiais, mas também pelas pessoas que procuram a
polícia para comunicar desaparecimentos e, ainda, por funcionários de instituições nãopoliciais que também lidam com o fenômeno, como conselhos tutelares, órgãos de assistência
social e ONGs. A abordagem de funcionários e servidores de todas essas instituições para o
tratamento de casos de desaparecimento varia de forma considerável. Basta lembrarmos a
pesquisa do ISP e o protesto da ONG carioca com que abri essa Introdução. Enquanto para o
Instituto desaparecimentos são protagonizados por jovens que deixam seus lares apenas
temporariamente, para a ONG essas ocorrências encobrem crimes hediondos.
Para além das abordagens de agentes que lidam institucionalmente com o
desaparecimento, também se distinguem bastante as abordagens dos (poucos) estudiosos
dedicados ao fenômeno. De modo excludente, há interpretações que classificam o
desaparecimento como uma das faces da “violência urbana” (Espinheira, 1999), enquanto
outras o encaram como conseqüência direta da “violência intrafamiliar” (Oliveira e Geraldes,
1999) e de valores patriarcais e seus impactos sobre relações de gênero e geração no interior
de famílias brasileiras (Oliveira, 2007). Vistas em conjunto, essas interpretações constróem
duas abordagens excludentes: em alguns trabalhos, as “famílias de desaparecidos” são
encaradas como “instâncias produtoras de desaparecimentos” (Oliveira, 2007), ao passo que
em outros são vistas como agentes passivos que precisam ser protegidos pelos poderes
públicos dos impactos da violência urbana (Soares et al, 2006), apresentada como causa
primordial dos desaparecimentos.

20

Pesquisar o cotidiano e os arquivos do SDP e integrar reuniões da ReDESAP permitiume confirmar a inexistência de abordagens únicas do fenômeno tanto entre aqueles que o
tomam como objeto de gestão e intervenção, quanto entre os que o tomam como objeto de
estudo. A variedade de casos particulares abarcada pelo polivalente termo desaparecimento
resiste a ser compreendida por qualquer perspectiva unívoca. O desaparecimento de uma
pessoa pode inscrever-se, a um só tempo, tanto na seara da segurança pública, quanto em
tramas familiares, e pode não consistir em acontecimento decorrente de qualquer tipo de
violência facilmente classificável como “intrafamiliar” ou “urbana”, como sugerem,
respectivamente, Oliveira e Geraldes (1999) e Espinheira (1999).
De fato, há casos passíveis de interpretação a partir da idéia de “violência
intrafamiliar”. Ao longo da pesquisa me foi relatado, dentre outros exemplos, que os
inspetores do SDP certa vez apuraram que um homem que comunicara o desaparecimento de
sua esposa e filho recém-nascido havia agredido fisicamente aqueles que afirmou terem
desaparecido. Nesse caso, a esposa deixara sua residência, levando consigo o bebê, para
proteger-se (e à sua prole) de novos episódios de violência conjugal. Ao longo de eventos
promovidos pela ReDESAP, de modo semelhante, ouvi inúmeros relatos de casos tratados
como desaparecimentos que poderiam, ao mesmo tempo, ser classificados como episódios de
subtração de incapazes, segundo o Código Penal. 20 Tais relatos enredavam pais ou mães de
crianças e/ou adolescentes que subtraíram seu(s) filho(s) do “poder de quem o tem sob sua
guarda em virtude de lei ou de ordem judicial”, conforme prevê a lei, como forma de
recrudescer conflitos conjugais.
Contudo, junto a ocorrências desse tipo, delegacias de polícia lidam também com
desaparecimentos que, no decorrer de investigações, passam a ser designados seqüestro,
homicídio e/ou ocultação de cadáver, crimes encarados como manifestações da “violência
urbana” na contemporaneidade. Exemplo notório ocorrido no Rio de Janeiro é a chamada
Chacina de Acari, já mencionada nesta Introdução. Outro exemplo, sem dúvida menos visível,
mas não menos representativo, é o caso investigado pelo SDP de um homem que, segundo
20

Subtração de incapazes é um crime tipificado pelo Código Penal brasileiro no Artigo 249. Embora sua
definição não o estabeleça, em repartições policiais utiliza-se este tipo penal para tratar de casos de seqüestro em
que o seqüestrador é o pai, a mãe ou o guardador de uma criança ou adolescente. Nos termos da lei, a subtração
de incapazes consiste em “Subtrair menor de 18 anos ou interdito ao poder de quem o tem sob guarda em virtude
de lei ou de ordem judicial: Pena – detenção, de 2 meses a 2 anos, se o fato não constitui elemento de outro
crime. §1º. O fato de ser o agente pai ou tutor do menor ou curador do interdito não o exime de pena, se
destituído ou temporariamente privado do pátrio poder, tutela, curatela ou guarda. §2º. No caso de restituição do
menor ou do interdito, se este não sofreu maus-tratos ou privações, o juiz pode deixar de aplicar a pena.”
Definido pelo Artigo 148, o seqüestro, por sua vez, consiste em “Privar alguém de sua liberdade, mediante
seqüestro ou cárcere privado”.

21

sua esposa, “já esteve preso no Artigo 12 [Tráfico Ilícito] da antiga Lei de Entorpecentes,
ficando encarcerado cerca de 3 anos; que também é usuário de drogas e, atualmente, estava
desempregado”. Policiais do SDP apuraram que o homem, dias após ter sido visto por sua
mulher pela última vez, fora assassinado.21
Ainda que haja exemplos como esses, uma coleção heterogênea de acontecimentos
registrados como desaparecimento em delegacias brasileiras ou tratados como tal por
servidores de órgãos de administração pública, funcionários e/ou militantes de outras
instituições escapa à dicotomia classificatória que separa casos decorrentes de “violência
intrafamiliar” daqueles vistos como parte da “violência urbana”. Os arquivos do SDP não
deixam dúvidas quanto a isso, e o caso de Antônio pode ser visto como exemplo. Outros
exemplos, que aparecem ao longo da tese, são o desaparecimento de um homem que,
enquanto era atendido em um hospital, sumiu do campo de visão de todos os profissionais que
o atendiam e de sua mãe, que o acompanhava; dias depois, foi encontrado “caído pela rua na
Praia de Ipanema”, recolhido e internado em uma clínica psiquiátrica.22 Ou o
desaparecimento de uma jovem que, segundo sua irmã, fugiu de casa por estar “aborrecida
com a vida, cansada e extremada”. 23 Ou ainda o caso comunicado por uma mulher que
afirmara a policiais que seu sobrinho “vivia vagando pelas ruas como pedinte”.24
Embora tão distintos entre si, tais exemplos convivem na mesma gaveta dos arquivos
do SDP – a propósito, a mesma em que hoje se encontra o caso de Antônio. O que chama
atenção nessa coleção é que, de modo geral, as ocorrências não possuem componentes
especificamente criminais, constituindo, nos termos de Mota (1995), “casos sociais”. A
especificidade dos “casos sociais” abarcados pelo nome de desaparecimento, entretanto, é que
componentes criminais eventualmente se fazem presentes, não podendo ser excluídos a priori.
A presença eventual e por vezes apenas virtual de componentes criminais faz com que
policiais não reconheçam casos de desaparecimento como parte constitutiva de suas
atribuições profissionais (Oliveira, 2007), ao menos não sem submetê-los a severos
questionamentos. Assim como nas Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAMs)
estudadas por Muniz (1996) e Soares (1999), setores e delegacias que, como o SDP, dedicamse a desaparecimentos, são vistos como “delegacias de papel” e têm sua importância posta em

21

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 008/08 do SDP/DH.
Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 004/08 do SDP/DH.
23
Esse desaparecimento é narrado no capítulo 3. Os documentos a ele relativos compõem a Sindicância 020/08
do SDP/DH.
24
Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 009/08 do SDP/DH.
22

22

dúvida por seus próprios funcionários, entre outros policiais. 25 Essa questão é, inclusive, um
dos mais recorrentes objetos de reflexão no interior do SDP. Perguntados sobre o trabalho
diário executado ali, inspetores do Setor afirmam repetidamente que fazem “atendimento
psicológico” e “serviço de assistente social”, embora não tenham nem formação, nem
responsabilidade para isso. Em linhas gerais, para eles desaparecimentos são experiências de
pessoas que deixam suas casas, vizinhanças e comunidades em decorrência de fatos de
natureza familiar e privada, desprovidos de componentes criminais, nos quais a polícia não
deve intervir. Em suma, segundo policiais desaparecimentos são “problemas de família”.
Em um esforço constante para definir a natureza do fenômeno e determinar de quem é
a responsabilidade por cada caso, relatos e reflexões de policiais do SDP promovem uma
divisão entre “problemas de polícia” e ocorrências que não contam com componentes
criminais. Essa divisão contrapõe o que, nos termos dos policiais, seriam “problemas de
família”, “problemas de assistência social” e “problemas do Estado” do que lhes parece ser
efetivamente atribuição da polícia. No emprego desses termos, procuram depurar o que é de
sua competência e situar no pólo oposto o que julgam ser de responsabilidade ora de unidades
domésticas, parentelas, casas e outros conjuntos de pessoas que denominam, genericamente,
como “famílias”, ora de outros órgãos governamentais e repartições públicas que denominam,
genericamente, como “Estado” e “assistência social”. Os resultados desse jogo de
classificações, muito semelhante ao que produzem os estudiosos do tema, são visões
dicotômicas e excludentes do desaparecimento de pessoas e das responsabilidades que o
circunscrevem, além de uma concepção restrita do que seja o trabalho policial. Ao buscar
desincumbir-se do que não é crime, policiais parecem apontar (e tentar se opor) para a
amplitude do papel da polícia, historicamente constituída como agente de controle e
manutenção da ordem social que deve atuar frente às “coisas de todo instante” (Foucault,
2006, p.176) que constituem a vida em sociedade.
Ao atravessar a porta do SDP e me deter sobre os casos ali investigados e a rotina dos
policiais que ali atuam, tomei contato com esse jogo de classificações e com essas
concepções. Contudo, como indiquei acima, a pesquisa de campo não se restringiu às paredes
do Setor. A partir da minha presença naquela sala da Delegacia de Homicídios, como deixo
mais claro no primeiro capítulo, passei a participar de eventos da Rede Nacional de
Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (ReDESAP), que
reúne não só policiais, mas também associações de mães de desaparecidos e gestores
25

“Delegacia de papel” ou “delegacia seca” é aquela que “não prende, não promove batidas, não desempenha
ações espetaculares.” (Soares, 1999, p.53)

23

governamentais que se envolvem com casos de desaparecimento. Deixar para trás a porta do
SDP para participar desses eventos, porém, não me distanciou do jogo de classificações com
que tomei contato no Setor. Ao contrário, as reuniões da rede revelaram-me que aquele jogo é
ainda mais complexo e conta com outros jogadores além de agentes de Polícia Civil que
investigam e arquivam casos de desaparecimento.
Situando-se em debates públicos como respectivos e legítimos representantes do
“Estado” e das “famílias”, gestores governamentais e associações de mães de desaparecidos
que

são

membros

da

ReDESAP

questionam

suas

responsabilidades

diante

do

desaparecimento e colocam-se, alternadamente, ora em posição de aliança, ora em oposição.
Assim como os policiais do SDP, esses agentes lidam diariamente com casos de
desaparecimento, mas questionam também diariamente se deveriam de fato fazê-lo, e como.
Enquanto para gestores governamentais encontram-se nas “famílias” as causas e as
possibilidades de combate e prevenção de casos de desaparecimento, para associações de
mães “a polícia” e “o Estado”, ausentes e ineficientes, são os grandes responsáveis pelo
fenômeno em geral e pelo curso de cada caso particular. Em suma, tentativas de definir se
desaparecimentos são “problemas de polícia”, “problemas de família”, “problemas de
assistência social” e/ou “problemas do Estado” multiplicam-se e ganham novos tons e
significados nos eventos da rede.
Como sustento no quarto capítulo da tese, os embates entre essas múltiplas tentativas
de definição do fenômeno são mais que jogos classificatórios e tomadas de posição
propiciadas pelos eventos da ReDESAP. Tais embates são o ponto nodal da constituição do
desaparecimento de pessoas como “problema social”, e é em torno deles que se organiza sua
gestão como fenômeno passível de combate e prevenção. Policiais, gestores e associações de
familiares são agentes que se reúnem em torno do desaparecimento, mas não partilham da
mesma definição nem desse fenômeno, nem das responsabilidades por ele acarretadas. Ao
contrário, partilham (e perpetuam) certa falta de definições em torno do desaparecimento de
pessoas. Eventos da ReDESAP, nesse sentido, são contextos privilegiados para se
compreender essa falta de definições. A partir de minha participação neles, é isso o que busco
explicitar.
Ademais, a partir da participação em eventos da ReDESAP busco também refletir
sobre os significados atribuídos à minha presença nos debates propiciados pela rede. Em meio
à falta de definições que ronda o desaparecimento de pessoas, a concessão de espaço e
apresentação de demandas a uma pesquisadora dedicada ao tema merece especial atenção.
24

Como explicito no quinto capítulo, esse espaço expõe idiossincrasias da forma como o
desaparecimento de pessoas é gerido no Brasil. Não obstante e indo além do fenômeno do
desaparecimento, esse espaço expõe também algumas formas através das quais, atualmente,
“o pesquisador é instado a abandonar qualquer simulação de neutralidade” (Pacheco de
Oliveira, 2009, p. 13) e se posicionar diante das questões que toma como objeto de estudo.

Organização da tese
A tese está organizada em cinco capítulos e algumas considerações finais. No
primeiro, apresento minha entrada em campo no SDP e na ReDESAP e a trajetória comum
percorrida pelos casos de desaparecimento com que tive contato ao longo da pesquisa. Ao
fazê-lo, discuto características e efeitos de técnicas burocráticas de gestão de populações e
indivíduos como, por exemplo, práticas de registro e documentação. Com a apresentação dos
momentos iniciais do trabalho de campo e do percurso burocrático comum aos casos
pesquisados busco introduzir, em linhas gerais, como desaparecimentos tornam-se
ocorrências policiais e objeto de debates públicos.
No segundo capítulo, reflito sobre as rotinas que fazem dos desaparecimentos
ocorrências policiais. A indagação central é como fatos, acontecimentos ou falta de notícias
sobre uma pessoa são registrados, investigados e arquivados como casos de desaparecimento.
Para respondê-la, detenho-me sobre características formais dos registros e seus efeitos sobre
os enredos dos casos. Entre esses efeitos, destaco a construção dos casos como enigmas,
produzida tanto pelo modo como os desaparecimentos são comunicados, quanto pela própria
rotina burocrática que lhes dá forma. Comento, por fim, os sentidos das frustrações e
desapontamentos experimentados pelos policiais no decurso dessa rotina.
No terceiro capítulo, tento compreender o que chamo de artefatos da gestão dos casos
de desaparecimento como ocorrências policiais. Pergunto-me o que o trabalho policial em
torno de casos de desaparecimento produz, partindo da idéia de que esse trabalho é
constituído, a um só tempo, pelas demandas apresentadas à polícia por comunicantes de
desaparecimentos e pelos serviços prestados por policiais em resposta a essas demandas. Os
artefatos mais fundamentais gerados pelo trabalho policial em torno de casos de
desaparecimento são conselhos e compromissos, reputações, relações de dependência e
exibição de certo controle sobre corpos e territórios. Ao apresentá-los, reflito sobre preceitos
morais que grassam através dos procedimentos administrativos de que os casos são alvo.
25

No quarto capítulo, busco apresentar os embates e conflitos por meio dos quais o
desaparecimento de pessoas é construído como “problema social”. Faço isso analisando o que
observei nos eventos promovidos pela ReDESAP. Neles, casos de desaparecimento são
apresentados como manifestações particulares de um problema passível de combate e
prevenção. Apresentando as posições e oposições em que os membros da rede se organizam,
busco mostrar que o desaparecimento é construído como problema social à medida que à
ausência do desaparecido são somadas (e denunciadas) outras ausências: a falta de uma
“família” protetora, de um “Estado” assistente e de uma “polícia” sensível.
No quinto capítulo, por fim, trato da iniciativa em torno da qual a ReDESAP se reuniu
ao longo do ano de 2010: o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. Eventos
promovidos em torno do Cadastro Nacional são objeto de descrição no capítulo, e a partir
deles busco discutir, por um lado, a (im)possibilidade de se classificar casos de
desaparecimento, e, por outro, meu papel na ReDESAP e na construção do desaparecimento
de pessoas como “problema social”.
Como anunciado anteriormente, fazem-se presentes nos cinco capítulos casos de
desaparecimento apresentados no mesmo formato utilizado, nessa Introdução, para expor o
caso de Antônio. Também atravessam todo o trabalho as seguintes formalidades e marcas
gráficas: Todos os termos redigidos entre aspas são citações literais de documentos
arquivados no Setor de Descoberta de Paradeiros (SDP) ou de falas proferidas no SDP da
Delegacia de Homicídios e em encontros e reuniões da ReDESAP. Todos os nomes próprios a
que me refiro foram modificados para preservar as identidades das pessoas enredadas na tese;
foram mantidos nomes próprios sem modificações apenas em eventuais referências a casos de
desaparecimento amplamente divulgados por meios de comunicação de massa. Datas,
referências a cargos e vinculações institucionais, ao contrário dos nomes pessoais, foram
mantidas exatamente como me foram apresentadas tanto em documentos arquivados e falas
proferidas por policiais do SDP, quanto em falas proferidas em eventos da ReDESAP e/ou
registradas em atas e relatórios produzidos a partir deles. Apenas erros ortográficos presentes
em trechos de documentos sofreram alteração. O uso de grifos e letras maiúsculas nas citações
aparece exatamente como estão no material pesquisado. O negrito é utilizado apenas para
destacar os nomes de documentos citados no segundo capítulo. Emprego o itálico, por fim,
para dar ênfase a alguns termos e para destacar palavras redigidas em língua estrangeira.

26

Capítulo 1
Nada opor:
Um problema de pesquisa e seus trâmites

Nos meses em que a freqüentei, a sala do SDP possuía seis mesas de trabalho, quatro
computadores, três aparelhos de telefone, alguns armários e muitos gaveteiros dispostos ao
longo de três de suas quatro paredes. Só não havia gaveteiros na parede tomada, de um lado a
outro, por janelas de vidro. Esses gaveteiros compunham os arquivos do SDP. Cada gaveta
dos arquivos guardava os formulários, ofícios, registros, fotografias e bilhetes pessoais que
constituem os casos de desaparecimento que narro ao longo da tese. Reunidos em pastas, os
conjuntos de documentos relativos a cada caso são chamados de Sindicâncias.
Sobre as mesas do SDP, pilhas de Sindicâncias estiveram sempre à vista de qualquer
um que adentrasse a sala. Dentro dos armários, outras pilhas podiam ser entrevistas também
com certa freqüência, na medida do abrir e fechar de portas característico da rotina do Setor.
As Sindicâncias empilhadas sobre as mesas e dentro dos armários eram consideradas ainda
sob investigação e chamadas de Sindicâncias “em andamento”. Assim se diferenciavam das
Sindicâncias depositadas nas gavetas, consideradas já arquivadas.
Nas paredes da sala, cartazes com fotografias de crianças e adolescentes desaparecidos
ficavam afixados e, algumas vezes, eram olhados em detalhe por algum policial do Setor. Em
distintas ocasiões a inspetora que chefiava o SDP enquanto realizei a pesquisa apontou-me
fotografias de crianças e adolescentes que têm seus rostos estampados nesses cartazes e cujos
casos de desaparecimento passaram por ali. Mediante o patrocínio de um banco, o Programa
SOS Crianças Desaparecidas, da Fundação para a Infância e Adolescência (FIA) da Secretaria
de Assistência Social e Direitos Humanos do estado do Rio de Janeiro, periodicamente produz
e distribui esses cartazes para diversas instituições, entre elas o SDP.
Os gaveteiros, as lixeiras, o bebedouro, os grampeadores e outros itens menores e
menos vistosos do mobiliário e do material de escritório sempre presente na sala continham a
inscrição “SDP”, marcando sua pertença ao Setor. Durante a noite, guardando a sala e o
patrimônio do SDP, a porta ficava trancada com cadeado até que o primeiro policial chegasse
para trabalhar, o que ocorria sempre por volta das dez horas da manhã. Dos cinco policiais
que compunham seu efetivo, todos os dias ao menos um agente ficava no Setor ao longo da
manhã e da tarde, saindo apenas no horário de almoço e para tomar eventuais cafezinhos ou
27

providências pessoais. Sua escala de trabalho, contudo, previa que houvesse sempre dois
policiais na sala.
Os primeiros passos de minha trajetória de pesquisa foram dados no exíguo espaço
físico do SDP, que descrevo no passado não apenas por ter encerrado meu trabalho de campo,
mas também porque atualmente o Setor funciona em outras dependências, bastante distintas
do espaço que freqüentei. Meu cotidiano na extinta sala 709 consistia basicamente em abrir as
gavetas do Setor, ler e transcrever documentos, e conversar com os policiais. Desde a terceira
semana de pesquisa, passei também a atender ao telefone quando os agentes precisavam se
ausentar. Os telefonemas que atendia eram, em sua maioria, de pessoas que desejavam saber
como proceder depois de constatar um desaparecimento, ou de pessoas que queriam notícias
sobre casos de desaparecimento que julgavam estar sob os cuidados do SDP. Às primeiras,
respondia sugerindo que fossem a uma DP e narrando a trajetória padrão de todo caso, que
começa na DP e depois é encaminhado ao Setor; às últimas, solicitava que telefonassem
novamente tempos depois e falassem com algum dos policiais. Para todos os interlocutores
com que falei, informei que não era policial, e sim uma pesquisadora. Isso não os impedia,
contudo, de expor suas dúvidas e tentar saná-las comigo.
No presente capítulo, narro algumas das cenas, processos e conversas que permearam
minha entrada em campo e me conduziram, tempos depois, do SDP para outro espaço de
debates e relações: a ReDESAP. Casos de desaparecimento são parte constitutiva do texto, ao
lado de referências a falas, idéias e expressões de policiais, gestores de políticas públicas,
membros de ONGs e outros agentes sociais com que tive contato no decorrer da pesquisa.
Encaro tanto os casos narrados, quanto as falas, idéias e expressões a que me refiro como
elementos constitutivos da gestão do desaparecimento de pessoas no Brasil hoje. Portanto, se
opto por citar falas, vale destacar, é porque as encaro não como simples comentários, mas
como ditos que são feitos (Peirano, 2001) – isto é, como enunciados que não apenas
referenciam significados, mas também têm efeitos pragmáticos em determinados contextos de
situação (Malinowski, 1935) (Austin, 1962). Agentes sociais, afinal, atuam através de
palavras, na mesma medida em que se comunicam através de atos.

28

1.1 Por um paradeiro ou por um papel?
Em março de 2008, depois de conhecer Maria e Jeferson na porta do Setor, adentrei a
sala e conversei por um par de horas com o inspetor Fernando, que estava sozinho naquela
manhã. Expus minha intenção de tomar o desaparecimento de pessoas como tema de
pesquisa, e disse que uma boa porta de entrada para compreendê-lo seria o SDP. Mostrandose bastante receptivo, o inspetor me instruiu a solicitar formalmente autorização para fazer a
pesquisa. A solicitação deveria partir da instituição em que eu cursava doutorado e ser
endereçada à Chefia de Polícia Civil do Rio de Janeiro. Por fim, Fernando encorajou-me
dizendo que “já estava mais do que na hora” da universidade se dedicar ao desaparecimento
de pessoas, tema negligenciado e invisível, apesar de grave.
Depois de prospectar outras possíveis portas de entrada para o trabalho, optei por
seguir a sugestão de Fernando, solicitar a autorização e, em caso de resposta positiva, começar
a pesquisa pelo SDP. Em junho de 2008, depois de algumas idas ao edifício sede da Polícia
Civil tentando compreender como fazer meu pedido chegar à Chefia, fui ao setor de Protocolo
Geral, no térreo do edifício, onde enfrentei longa fila e finalmente entreguei a solicitação.
Assinada pela Coordenação do PPGAS/Museu Nacional, a solicitação foi recebida, carimbada
e reunida a uma assustadora pilha de papéis. Em troca, me foi dado um “Cartão de
Andamento de Processo” com um número de protocolo, outro de telefone e a seguinte
instrução: para acompanhar minha solicitação, eu deveria telefonar periodicamente para me
informar “onde ela estava” e se já havia sido respondida. O cartão dispunha de linhas que eu
deveria preencher com as datas e os nomes dos órgãos por onde meu pedido passasse,
construindo um mapa de sua trajetória dentro da Polícia Civil.
No começo de setembro de 2008, depois de alguns telefonemas e muitas linhas
preenchidas no cartão, soube pela Secretaria do PPGAS/Museu Nacional que minha
solicitação havia sido recebida ali, já com uma resposta. Entre onze carimbos de diferentes
setores e órgãos da Polícia Civil pelos quais o documento passou, no verso da solicitação
encontrava-se a curta frase que, pela negativa, me permitiu entrar regularmente no SDP:
“Nada opor a pretensão acadêmica no que refere-se a pesquisa.”
Passados alguns dias, comecei a freqüentar o Setor durante três manhãs por semana,
levando sempre comigo o documento autorizado. Tempos depois, o inspetor Fernando fez
cópia do documento e deixou em uma das gavetas da sala do plantão da DH, para que eu não
precisasse portá-lo todos os dias que ia à delegacia. Entre outubro de 2008 e dezembro de
29

2009, quando encerrei a pesquisa no SDP, a cópia do documento foi retirada da gaveta uma
única vez. Isso aconteceu quando o inspetor Fernando me apresentou para um dos delegados
da DH, cerca de seis meses depois que eu começara a freqüentar o Setor. Tratava-se do
delegado que redigira e assinara o breve “nada opor” no verso da minha solicitação, e o
inspetor mostrou-lhe o documento não porque foi requisitado, mas por vontade própria.
A brevidade e a construção negativa da frase que me deu acesso ao SDP, bem como a
necessidade de autorização expressa para que eu realizasse a pesquisa, ainda que nunca
checada, são especialmente reveladoras da cadeia de atos oficiais, autoridades e autorizações
que estruturam o campo burocrático (Bourdieu, 1996). Não obstante, esses momentos e atos
que marcaram o início da pesquisa são reveladores do próprio objeto de estudo em foco: a
forma como o desaparecimento de pessoas é rotineiramente gerido no Brasil. Narrado a
seguir, o desaparecimento de Álvaro, servidor público, explicita isso com bastante nitidez.
Relações estabelecidas a partir de negativas e ausências oficializadas em registros
escritos são aspectos centrais da gestão cotidiana de casos de desaparecimento. Se a
necessidade de papéis e atestados é experimentada, por um lado, como a face mais opressora
da burocracia (Reis, 1996; DaMatta, 2002), por outro é cumprida como condição inescapável
para que a vida cotidiana se desenrole e para que bens sociais sejam distribuídos.
Documentos, afinal, funcionam como critérios de respeitabilidade, elegibilidade e acesso a
benefícios e direitos (Santos, 1979; Peirano, 1986, 2006a, 2006b). O que tanto a autorização
para minha pesquisa, quanto o caso de Álvaro descortinam, contudo, é que a exigência de
documentos e carimbos não é simplesmente uma perversidade derivada “do anonimato e da
impessoalidade que são, no fundo, a tradução burocrática de dramas essencialmente
humanos.” (Reis, 1998, p. 249)
Dramas e relações humanas são muitas vezes constituídos por procedimentos
burocráticos sem os quais sequer seriam experimentados, o que exige que qualquer
pesquisador, autorizado ou não por um papel repleto de carimbos, encare o mundo da
burocracia oficial como seara povoada (Herzfeld, 1992, p. 59), constituída por e constituinte
de relações sociais. Objetividade e formalismo são finalidades a serem perseguidas por
funcionários e arquivos de repartições burocráticas (Weber, 1963). Isso não significa, porém,
que essas instituições não hierarquizem, individualizem e pessoalizem “relações que
formalmente deveriam ocorrer de outra forma” (Bevilaqua e Leirner, 2000, p. 125). Vejamos
o desaparecimento de Álvaro, servidor público municipal cuja ausência deu início, a um só
tempo, à produção de papéis, carimbos e frases negativas, e à criação de laços e relações. A
30

partir de alguns aspectos centrais desse caso, discuto minha opção por estudar o
desaparecimento de pessoas e, em seguida, minha entrada em campo no SDP.

ÁLVARO
Em abril de 2005, Francinete foi à delegacia comunicar o desaparecimento de Álvaro,
seu irmão mais velho. No final de março, Álvaro saiu de casa “para beber e dar uma volta” e
desde então não retornou. Ao comunicar o fato na DP, Francinete relatou apenas que Álvaro
era servidor da prefeitura do Rio de Janeiro e informou que havia procurado por ele, sem
sucesso, em hospitais e necrotérios da cidade.
Em dezembro de 2005, depois de meses transcorridos sem que fosse solucionado ou
mesmo melhor esclarecido, o caso de Álvaro foi encaminhado da DP para o SDP. De lá foram
remetidos ofícios a algumas instituições que poderiam ter acolhido, internado, tratado ou
mesmo enterrado Álvaro desde a data de seu desaparecimento, como hospitais, fundações e
órgãos policiais, além do Instituto de Identificação Félix Pacheco (IFP), que poderia ter
registrado dados úteis à sua localização.
Com exceção do ofício remetido ao IFP, todos os outros foram respondidos com “nada
consta” e outras negativas sobre eventuais passagens de Álvaro pelas respectivas instituições
depois de seu desaparecimento. Nem a Santa Casa, nem o hospital Souza Aguiar, nem a
Fundação Leão XIII, a Polinter ou o DESIPE tinham em seus arquivos registros acerca de
Álvaro. Apenas o IFP respondeu informando que, em seus arquivos, consta que Álvaro possui
uma anotação criminal. A resposta do Instituto, porém, não forneceu qualquer dado que
esclarecesse essa informação, manuscrita sumariamente.
Em agosto de 2006, mais de um ano após o desaparecimento de Álvaro, compareceu ao
SDP uma funcionária da Comissão de Inquéritos da Prefeitura do Rio de Janeiro de nome
Suzana. Ela desejava “tomar ciência do andamento das investigações para a localização do
cidadão acima [Álvaro], funcionário daquele órgão público.” Na ocasião, Suzana solicitou que
“algum familiar de Álvaro fosse localizado e pudesse responder nos autos que tramitam na
Comissão por força do desaparecimento.” A ausência de Álvaro no órgão público em que é
servidor teve como desdobramento a abertura de procedimento administrativo em seu nome.
Para que o procedimento fosse encerrado era necessária a presença de “algum familiar” que
confirmasse que a ausência de Álvaro não se restringia ao ambiente de trabalho, mas também
se espraiava para outros espaços por ele freqüentados.
Em setembro de 2008, então, compareceu ao SDP uma filha de Álvaro de nome
Valéria. Conforme registrou um inspetor do Setor, “para nossa surpresa” Valéria, que quando
prestou declarações no SDP contava 42 anos de idade, não via Álvaro desde os 8. Após a
separação de seus pais, Valéria passou a conviver apenas com a mãe, “a qual constituiu nova
31

família”, e só teve notícias sobre o pai novamente ao “receber um telefonema da Dra. Suzana,
da Comissão de Inquéritos da Prefeitura do Rio de Janeiro”. Depois do referido telefonema,
Valéria esteve na prefeitura e lá “foi orientada a comparecer neste SDP para prestar
esclarecimentos”. Tais esclarecimentos pouco elucidaram o desaparecimento de Álvaro, mas
muito acrescentaram sobre a vida de sua filha.
Segundo Valéria, “sua mãe nunca fez qualquer comentário sobre a vida pessoal de seu
pai, inclusive sobre seus parentes, os quais a declarante sequer sabe quem são ou onde vivem”.
Dos fatos e frutos do casamento desfeito entre seus pais, Valéria afirmou saber apenas que tem
três irmãos, um dos quais já falecido, “restando além da declarante sua irmã ELAINE DA
CUNHA e o irmão CLÁUDIO DA CUNHA, ambos casados”. Disse ainda não saber se seu pai
teve outros filhos e outros casamentos, e que “somente nesta oportunidade visualizou uma
fotografia 3X4 de seu pai, acostada nos autos, a qual solicita para sua guarda pessoal”.
Em outubro de 2008, o caso de Álvaro foi suspenso e arquivado no SDP, sob a
justificativa de “que até a presente data não há qualquer indício que leve ao paradeiro do
cidadão desaparecido”. No relatório final redigido sobre o caso, o inspetor do SDP que dele
cuidou registrou que Valéria seguia aguardando os resultados das investigações e
“acompanhando os trâmites trabalhistas do pai”, e que a ela foi fornecida uma “certidão sobre o
andamento das investigações”. 26

Decorrido longo período de tempo e emissão de ofícios e outros registros, o
desaparecimento de Álvaro culminou na produção de uma certidão. Esse documento, que
assegurava que Álvaro havia desaparecido e que seu desaparecimento estava sob
investigação, foi produzido para que sua filha Valéria acompanhasse os “trâmites trabalhistas”
desencadeados por sua ausência no serviço público. A emissão da certidão deixa patente que
registros e investigações em torno de um desaparecimento não necessariamente servem ao
propósito de encontrar a pessoa desaparecida. Se, ao solicitar o registro do desaparecimento
de seu irmão, Francinete tinha interesse em que o paradeiro de Álvaro fosse descoberto, ao
longo do tempo outro interesse foi posto em jogo, personificado pela servidora da Comissão
de Inquéritos da Prefeitura, que desejava ser informada sobre o andamento das investigações.
O registro de desaparecimento de Álvaro era necessário para que o procedimento
administrativo gerado por suas seguidas faltas ao trabalho fosse desembaraçado.
As investigações em torno do paradeiro do servidor restringiram-se à procura por ele
em instituições a que Francinete compareceu e, com algumas coincidências, com as quais
agentes do SDP se comunicaram por meio de ofícios. Nenhuma dessas procuras redundou no
26

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 099/06 do SDP/DH.

32

encontro de registros em nome de Álvaro, nem dele em pessoa. Paralelamente ao acúmulo de
respostas negativas a essas buscas, dois fatos aconteceram: Francinete saiu de cena e não
reapareceu mais no caso de seu irmão, e a necessidade de desembaraço dos tais “trâmites
trabalhistas” desencadeou, a pedido da servidora da Comissão de Inquéritos da Prefeitura, a
procura não propriamente por Álvaro, mas por “algum familiar” dele. Diferente das
investigações em torno do paradeiro do servidor, essa procura não só foi bem sucedida, como
também causou “surpresa” nos agentes do SDP, que localizaram Valéria, com quem Álvaro
não teve qualquer contato nos trinta e seis anos que antecederam seu desaparecimento.
O nome de Álvaro encontra-se registrado na carteira de identidade de Valéria, o que
fez com que os agentes do SDP vinculassem-na ao caso de desaparecimento que
investigavam e encontrassem nela o “familiar” que a servidora da prefeitura solicitava.
Documentos, afinal, são atos de instituição e regulação estatal que, sob a aparência de
descrever e registrar supostas unidades naturais reais, estáveis, padronizáveis e objetivamente
apreensíveis, impõem a idéia de “família” (Bourdieu, 1996) a arranjos e relacionalidades
diversos, vivenciados transitória e subjetivamente. (Yanagisako, 1979). Revelando o caráter
prescritivo desses atos de instituição, o laço inscrito no RG de Valéria não correspondia a
qualquer vínculo extra-documental entre pai e filha desde que Valéria tinha oito anos de
idade. A relação entre os dois foi restabelecida somente após o desaparecimento de Álvaro e,
principalmente,

apenas

em

função

de

“trâmites”

burocráticos

provocados

pelo

desaparecimento. Nesse sentido, o desfecho do caso se deu não com a descoberta do
paradeiro do desaparecido, mas com a entrega de dois suportes materiais de informação para
Valéria: além da certidão produzida no SDP, que serviria aos “trâmites trabalhistas do pai”,
uma fotografia de Álvaro, “para sua guarda pessoal”.
A relação de filiação entre Álvaro e Valéria, portanto, reconstituiu-se em função de
procedimentos burocráticos. Não há como falar dela supondo qualquer tipo de separação entre
um mundo familiar e doméstico e outro universo, constituído pelas formalidades e
oficialidades do mundo burocrático e estatal. Nesse e em outros casos narrados ao longo da
tese, é mais profícuo pensar em formas de coextensividade e complementaridade entre essas
searas, como revela Vianna (2002) ao tratar de processos judiciais de guarda de crianças e
adolescentes. No terceiro capítulo, atento mais a essa questão.
Por ora, retomemos um dos documentos recebidos por Valéria ao final do caso: a
certidão que registra e certifica o desaparecimento do servidor público e afirma que a Polícia
Civil o está investigando. A necessidade da certidão para os “trâmites trabalhistas” de Álvaro
33

decorre da possibilidade do processo em seu nome acarretar, diante de sua ausência,
responsabilidades para terceiros. Como servidor, Álvaro possui atribuições e obrigações que,
diante de seu desaparecimento, restaram não cumpridas. Ao mesmo tempo, certamente goza
de benefícios que restaram não recebidos e poderiam ser destinados a outros fins ou outras
pessoas. A certidão formalizando seu desaparecimento provavelmente seria condição para
que as questões deixadas em aberto por Álvaro, responsabilidades ou benefícios, fossem
reconduzidas.
Como indica o caso tratado por Reis (1998), a presença física do cidadão diante de
órgãos públicos não é garantia de recebimento de direitos e outros bens sociais. Confirmando
pelo avesso a situação analisada pela autora, o caso de Álvaro indica que a ausência física de
uma pessoa não implica que sejam cessados procedimentos, responsabilidades e distribuição
de benefícios em seu nome. É necessário certificar determinados órgãos dessa ausência,
através de papéis carimbados, assinados e autorizados.
Em outra ocasião (Ferreira, 2009), pesquisei um fenômeno que expõe, no limite, a
importância de documentos e registros burocráticos para a vida social: a gestão da morte
anônima. Analisei laudos, guias e outros papéis produzidos no Instituto Médico-Legal do Rio
de Janeiro acerca de cadáveres que foram classificados como não-identificados e enterrados
como indigentes no Rio de Janeiro das décadas de 1940 e 1950. Ao longo daquela pesquisa,
tornou-se claro algo que o desaparecimento de Álvaro também indica: a necessidade de
possuir e portar documentos “tem seu lado inverso: o de remover, despossuir, negar e esvaziar
o reconhecimento social do indivíduo que não possui o documento exigido em determinados
contextos”. (Peirano, 2006a, p.27). Mesmo em casos em que o indivíduo não está presente, ou
talvez sobretudo neles, possuir o documento certo, na hora certa, é condição não só para que
procedimentos como os “trâmites trabalhistas” de Álvaro sejam desembaraçados, mas
também para que bens, direitos e responsabilidades sejam redistribuídos.
Para efeitos de curadoria e sucessão de bens, pessoas desaparecidas podem ser
juridicamente consideradas ausentes se assim determinar um juiz de Direito.27 Casos
arquivados no SDP, alguns narrados ao longo desta tese, revelam que muitos registros de
ocorrência de desaparecimento são solicitados por pessoas interessadas em obter
judicialmente declarações de ausência e, a partir delas, gozar de bens, direitos e patrimônio
dos desaparecidos. Os registros de ocorrência, nesses casos, são apresentados como prova
27

Segundo o Código Civil, “Desaparecendo uma pessoa do seu domicílio sem dela haver notícia, se não houver
deixado representante ou procurador a quem caiba administrar-lhe os bens, o juiz, a requerimento de qualquer
interessado ou do Ministério Público, declarará a ausência e nomear-lhe-á curador”. (Art. 22 do Código Civil)

34

documental do desaparecimento e reunidos aos autos dos processos judiciais. Em linhas
gerais, depois do desaparecimento, “em se passando três anos poderão os interessados
requerer que se declare a ausência e se abra provisoriamente a sucessão” (Art. 26 do Código
Civil); “dez anos depois de passada em julgado a sentença que concede a abertura da sucessão
provisória, poderão os interessados requerer a sucessão definitiva e o levantamento das
cauções prestadas.” (Art. 37 do Código Civil).
A ausência não se confunde com a figura da morte presumida, embora possa haver
coincidência entre as duas. “Presume-se esta [a morte], quanto aos ausentes, nos casos em que
a lei autoriza a abertura de sucessão definitiva” (Art. 6º do Código Civil). Não obstante, em
dois casos pode ser declarada a morte presumida sem decretação de ausência: “se for
extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida; se alguém, desaparecido
em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra”
(Art. 7º do Código Civil, §I e §II). Outra possibilidade de presunção de morte no Brasil
refere-se aos casos de desaparecimento político ou desaparecimento forçado de pessoas
durante a ditadura militar, aos quais me refiro mais adiante. 28 Ausência e morte presumida são
formalizadas em registro público tanto quando nascimentos, casamentos, emancipações,
interdições e óbitos. (Art. 9º do Código Civil)
Diante desse arcabouço jurídico, fica claro que a certidão entregue à Valéria pode ter
utilidade não só para o desembaraço dos “trâmites trabalhistas” de Álvaro, mas também para
que seus bens sejam transmitidos a despeito de seu desaparecimento. Portanto, se corpos
enterrados como indigentes indicam a possibilidade do não-reconhecimento social de
determinados indivíduos em função, entre outras razões, de não possuírem ou portarem o
documento certo, na hora certa (Ferreira, 2009), casos como o de Álvaro indicam o que me
parece um corolário disso: a possibilidade de determinados sujeitos existirem ao largo do
mundo dos documentos e do reconhecimento, inacessíveis e desgarrados de certas relações,
ainda que sob pena de não gozarem de direitos e perderem a titularidade sobre seu patrimônio.
Pesquisar a classificação de cadáveres não-identificados demandou que eu me
perguntasse pela utilidade e finalidade da produção de documentos sobre aqueles corpos.
Embora abundantes em número, os documentos referentes aos não-identificados eram ao
mesmo tempo enxutos, repetitivos e pouco informativos: referindo-se uns aos outros e
exigindo a produção em cadeia de novos papéis que validassem papéis anteriores, prestavamse a registrar o fato de que nada havia a registrar nem sobre a morte daquelas pessoas, nem
28

A presunção de morte em casos de desaparecimento político no Brasil foi regulamentada pela lei 9.140 de 15
de dezembro de 1995

35

sobre suas identidades. Daquela massa singular de papéis resultava, a um só tempo, a
inscrição hierarquizada e anônima de cada cadáver no corpo mais amplo e contabilizável da
população brasileira, e a afirmação carimbada e repetitiva do poder exercido via técnicas,
práticas e saberes mobilizados em sua classificação. A gestão da morte anônima, nesse
sentido, é parte do processo mais amplo de governo de vidas e espaços territoriais e sociais
que constitui os Estados-nacionais modernos e, como tal, revela um aspecto crucial desse
exercício de poder: sua perene incompletude, que exige a repetitiva afirmação e exibição de
autoridade, mesmo diante (ou principalmente nesses casos) de sujeitos que, na vida ou na
morte, parecem escapar de suas teias reguladoras.
Partir daí para a pesquisa sobre a gestão do desaparecimento de pessoas parece-me
uma forma de seguir perscrutando o que se passa com aqueles que, ao menos de certos pontos
de vista, não são localizáveis. No nosso mundo de territórios recortados, de um canto a outro,
por Estados-nacionais que se fazem constantemente no sempre ativo exercício de
sedentarização de povos (Souza Lima, 1995; Scott, 1998) e identificação de sujeitos (Caplan
& Torpey, 2001), a possibilidade de alguém desaparecer é não só intrigante e misteriosa,
como também desafia certezas fundamentais que carregamos conosco. Parece-me improvável
que casos como o de Álvaro não causem espécie nem suscitem perguntas, ainda que
silenciosas e irrespondíveis. O que teria se passado com o servidor público, que não só não foi
mais visto depois de sair “para beber e dar uma volta”, como também deixou de ser procurado
depois que uma certidão foi expedida e entregue a alguém que não o via há mais de trinta e
cinco anos? Estimulada pelo complexo anonimato incorporado pelos cadáveres nãoidentificados sobre os quais escrevi anteriormente, focar o desaparecimento de pessoas é uma
oportunidade não de responder diretamente a interrogações impossíveis como essa, mas de
refletir sobre formas de conceber e gerir tais impossibilidades chamando-as, narrando-as e
investigando-as como casos de desaparecimento de pessoas.

1.2 A entrada em campo e a abertura dos arquivos
Dia 6 de outubro de 2008, portando a autorização remetida à Secretaria do
PPGAS/Museu Nacional, fui ao SDP pela primeira vez na condição de pesquisadora. Embora
a porta do Setor ficasse aberta, como meses antes eu ouvira, e ainda que o papel que portava
comigo afirmasse que nada se opunha à minha pretensão acadêmica, naquele primeiro dia
ficou claro que negociações e relações extra-documentais demandariam outra ordem de
36

aberturas e autorizações. Assim que encontrei o inspetor Fernando, entreguei a ele o papel e
disse que gostaria de combinar uma sistemática de pesquisa que lhe parecesse razoável e de
acertar datas para que eu pudesse ficar no SDP e observar os trabalhos rotineiros dos policiais.
Devolvendo-me rapidamente a autorização, o inspetor disse: “Essa palavra observar vai te
causar problemas. Ninguém gosta de ser observado em seu trabalho”.
Com sua franqueza e objetividade características, Fernando me advertiu que ficar ali,
observando a rotina e conversando com os policiais, me conduziria necessariamente a um de
dois tipos de trabalho: ou os policiais narrariam o que fazem e o que devem fazer de forma
idealizada e eu escreveria um trabalho “bonito, mas irreal”, ou eu escreveria o que de fato
acontece na delegacia e no Setor, produzindo um trabalho “real”, e atrairia toda a animosidade
dos policiais. Argumentei que meu interesse não era fazer uma pesquisa sobre a polícia, e sim
sobre o desaparecimento de pessoas. A polícia seria, no meu entender, a porta de entrada para
compreender o tema, e não o alvo da investigação. Com sua também característica rapidez de
resposta, o inspetor então me apresentou o que acreditava ser a melhor alternativa que
atenderia aos meus interesses: focar os arquivos do Setor e entender o desaparecimento a
partir do que ele chamou de “delegacia de papel”. Para ele, averiguar os registros sobre os
casos “seria fácil”, acarretaria menos riscos que observar a rotina dos policiais (que, vale
dizer, consiste também na produção daqueles documentos) e atenuaria possíveis desconfortos
entre mim e os agentes do SDP.
A apresentação da pesquisa de arquivo como alternativa fácil e pouco problemática
surpreendeu-me. Tratava-se de acessar arquivos que colecionam memórias pessoais e
investigações policiais resguardadas pelo direito ao sigilo, elemento crucial das
administrações burocráticas (Weber, 1963), o que contraria o fato de que
as práticas formais de investigação policial no Brasil são, por força da lei,
efetuadas em regime sigiloso, como uma garantia do sucesso do inquérito.
Em nenhum caso os cidadãos comuns tomam conhecimento dos detalhes das
atividades policiais. (Kant de Lima, 1995, p.19)

Não é sem razão, afinal, que o acesso a documentos e registros oficiais seja uma das
bandeiras de muitos movimentos sociais e que esforços para limitar o poder do Estado
ganhem freqüentemente a forma de demandas pela abertura de arquivos (Riles, 2006). Por
que, então, “seria fácil” abrir os arquivos do SDP e analisar registros sobre desaparecimento
de pessoas?29
29

Vale citar o inciso XXXIII do Artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, que normatiza a
questão do sigilo na administração pública nos seguintes termos: “todos têm direitos a receber dos órgãos

37

No Brasil, assim como em outros países latino-americanos, a principal demanda pela
abertura de arquivos volta-se especialmente para os chamados arquivos da repressão,
encarados como “territórios de memória política” (Catela, 2002, p.15) do período em que
vivemos sob ditadura militar. “Uma considerável parte do poder da polícia política resulta da
eficácia dessa operação de produção, acumulação e organização de documentos” (Lombardo,
2010, p. 40) empreendida durante o regime militar, e uma parte também considerável dos
movimentos pelos direitos humanos e pela redemocratização no Brasil centrou suas
reivindicações no acesso a esses documentos, fundamentando-se no chamado direito à
memória e à verdade. Entre recuos e controvérsias, algumas vitórias têm sido alcançadas
nesse campo desde o começo dos anos 1990, ainda que tímidas “diante do imenso volume de
informações produzidas pelos órgãos repressivos às quais o acesso é ainda hoje objeto de
disputa” (Lombardo, 2010, p. 16). Dentre os acervos hoje acessíveis a consultas, destacam-se
os fundos de polícias políticas estaduais, como a do Departamento de Ordem Política e Social
(DOPS/RJ) e do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS/SP), além do
acervo do Serviço Nacional de Informações (SNI) e das mais de dez mil peças reunidas pela
equipe de pesquisadores do projeto Brasil: Nunca Mais.30
Remetendo não só aos acervos brasileiros, Catela (2002) define o que seriam arquivos
da repressão e se pergunta sobre as especificidades desses conjuntos documentais, levantando
uma indagação especialmente útil para pensarmos sobre a abertura dos arquivos do SDP para
minha pesquisa:
llamamos archivos de la represión al conjunto de objetos secuestrados a las
víctimas o producidos por las fuerzas de seguridad (polícias, servicios de
inteligência, fuerzas armadas) en acciones represivas (allanamientos,
persecución, secuestros, tortura, desaparición, asesinatos, etc.) perpetradas
durante las últimas dictaduras militares en los países del Cono Sur. Muchas
veces se incluye dentro de esta categoría a los acervos producidos por
instituciones de derechos humanos como producto de las acciones de
denuncia y de búsqueda de información relativa a hechos de la represión.
¿En qué se diferencian los acervos de la represión de otros acervos
documentales? (Catela, 2002, pp.209-210)

públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo
da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da
sociedade e do Estado”.
30
O Projeto Brasil: Nunca Mais dedicou-se a estudar “a repressão exercida pelo Regime Militar a partir de
documentos produzidos pelas próprias autoridades encarregadas dessa tão controvertida tarefa. De que modo?
Cuidando de reunir as cópias dos processos políticos que transitaram pela Justiça militar brasileira entre abril de
1964 e março de 1979, especialmente aqueles que atingiram a esfera do Superior Tribunal Militar.”
(Arquidiocese de São Paulo, 1985, p.22)

38

Arquivos da repressão aportam fundos documentais que podem funcionar, ao mesmo
tempo, como chaves para a memória de e sobre vítimas de crimes cometidos pelos Estados
em períodos ditatoriais; como provas judiciais desses crimes; como fontes para investigação
histórica; e, por fim, como instrumentos para ações pedagógicas sobre o totalitarismo político
e seus efeitos mais terríveis. (Catela, 2002, pp. 212-214). Arquivos da repressão, nesse
sentido, seguem sendo produzidos e expandidos continuamente, tanto em nome da
reconstrução do passado e da memória, quanto como instrumento de salvaguarda dos valores
democráticos do presente. Entre outras, uma evidência disso, no Brasil, é o livro Retrato da
Repressão Política no Campo - Brasil 1962-1985: Camponeses Torturados, Mortos e
Desaparecidos, publicado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e pela Secretaria de
Direitos Humanos da Presidência da República, em dezembro de 2010. A obra nomeia e
reúne depoimentos de trabalhadores e líderes sindicais rurais que foram vítimas da repressão
política ao longo da ditadura militar brasileira. Compõe, portanto, relevante acervo
documental sobre a singularidade da repressão no campo.
Dos crimes às custas dos quais a repressão política foi levada a cabo nas ditaduras
latino-americanas, destaca-se o usualmente chamado desaparecimento político, hoje
internacionalmente intitulado desaparecimento forçado de pessoas.31 Definido no âmbito do
Tribunal Penal Internacional em abril de 1998, e regulado pelo chamado Estatuto de Roma,
por desaparecimento forçado de pessoas entende-se a prisão, detenção ou
seqüestro de pessoas por um estado ou por organização política, ou com a
autorização, apoio ou aquiescência destes, seguidos da negativa de informar
sobre a privação de liberdade ou dar informação sobre a sorte ou o paradeiro
dessas pessoas, com a intenção de deixá-las fora do amparo da lei por um
período prolongado. Esse conceito foi mantido no Estatuto definitivo,
enquanto crime contra a humanidade. (Jardim, 2011, p.14)

O desaparecimento forçado de pessoas, por suas próprias características, expõe
algumas das razões pelas quais a abertura dos arquivos da repressão coagula lutas, interesses
e bandeiras de movimentos sociais sob o signo do direito à memória e à verdade. Os
desaparecidos forçados, ou desaparecidos políticos, não deixaram corpos que pudessem ser
31

A Corte Interamericana de Direitos Humanos “no Caso Gomes, Lund e outros (Guerrilha do Araguaia), em
sentença de 24 de novembro de 2010, responsabilizou o Brasil a tipificar o crime de desaparecimento forçado de
pessoas, entre outras medidas. O caso diz respeito à responsabilidade do Estado Brasileiro pela detenção
arbitrária, tortura e desaparecimento forçado de membros do Partido Comunista do Brasil e camponeses, em
decorrência de operações do Exército entre 1972 e 1975 para erradicar a Guerrilha do Araguaia. Mais
precisamente, o §109 da mencionada sentença determina que o Brasil deva regulamentar o desaparecimento
forçado como delito autônomo, a fim de permitir a persecução penal de um crime que se caracteriza justamente
pelo objetivo de impedir o exercício dos recursos legais pelas vítimas e familiares, e eliminar todos os obstáculos
jurídicos para julgar os responsáveis.” (Jardim, 2011, p.5)

39

velados ou rastros que pudessem ser perseguidos porque o crime de que foram vítimas
consiste exatamente nesse apagamento, garantidor da inimputabilidade de seus autores. 32 No
Brasil, desde dezembro de 1995, do ponto de vista legal são reconhecidas “como mortas
pessoas desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades
políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979.” (Brasil, 1995). Do
ponto de vista de seus familiares, contudo, os desaparecimentos dessas pessoas são vividos
como mortes inconclusas (Catela, 2001), reproduzidas no tempo pela ausência tanto de
corpos, quanto de memórias sobre os crimes de que foram vítimas. A luta pela abertura dos
arquivos, nesse sentido, é uma batalha contra a perpetuação desse apagamento - daí a
relevância a ela atribuída e a ameaça por ela representada.
Mas e outros acervos documentais, referentes a desaparecimentos que não recebem o
nome de desaparecimento forçado de pessoas? E os registros produzidos diariamente em todo
o país sobre as pessoas que Oliveira (2007) chama de “desaparecidos civis”? Por que, ao
contrário dos arquivos da repressão, revestidos de importância e objeto de disputas, acessá-los
é “fácil”, como me foi revelado nas primeiras horas de pesquisa de campo no SDP?
Diferente do tipo penal internacional desaparecimento forçado de pessoas, o
desaparecimento de pessoas registrado diariamente em delegacias de polícia brasileiras não é
crime. Ao contrário, trata-se de ocorrência que não possui o traço determinante da definição
de crime: a materialidade. Em seu sentido jurídico, materialidade é o nome que se dá ao
“conjunto de elementos e circunstâncias que evidenciam a criminalidade de um ato” (Houaiss,
2001, p. 1868), e para Fernando, a ausência de materialidade de casos de desaparecimento
decorre do fato de que a pessoa desaparecida é por definição alguém cujo corpo não se
encontra acessível àqueles que a procuram. E, nos termos utilizados (também) pelo policial,

32

Araújo (2007a, 2007b, 2008, 2009) vem desenvolvendo pesquisas sobre a incidência do crime de
desaparecimento forçado de pessoas no Brasil hoje, a partir inicialmente de etnografia junto a um movimento
que reúne familiares de vítimas de violência policial no Rio de Janeiro: as Mães de Acari (Araújo, 2007). O
objeto central que reúne os trabalhos do autor são as “relações dos familiares de vítimas de desaparecimento
forçado com as instâncias burocráticas do Estado” (Araújo, 2009, p.1) e o que ele chama de “práticas de luto
reivindicativas de justiça” (Araújo, 2008). No quarto capítulo, detenho-me sobre as contribuições das pesquisas
do autor para o entendimento da construção do desaparecimento de pessoas como problema social, sobretudo a
partir de sua idéia da passagem de um “tempo do choque para um tempo da política” (2007b, p.5). Por ora, fazse necessário ressaltar que é parte central da definição do crime de desaparecimento forçado, conforme o
Estatuto de Roma, a agência atribuída ao estado “ou organização política” na efetiva prisão, detenção ou
seqüestro dos desaparecidos, bem como na não prestação de informação sobre seus paradeiros. Nos trabalhos de
Araújo (2007a, 2007b, 2008), essa agência é encarnada por policiais militares, em sua maioria inscritos nas
organizações criminosas que se convencionou chamar “milícias”. Embora os trabalhos do autor indiquem que
parte dos desaparecimentos investigados no SDP pode traduzir-se em casos de desaparecimento forçado de
pessoas, para as finalidades da presente tese e pelo que acredito revelarem os próprios casos que atravessam os
capítulos, é impossível designar o desaparecimento de pessoas aqui focado a partir exclusivamente do tipo penal
internacional desaparecimento forçado de pessoas.

40

“se não há corpo, não há crime”. Conseqüência de seu caráter não-criminal é a
impossibilidade de casos de desaparecimento gerarem inquérito policial; outra é a
necessidade de todo caso ser tratado, em qualquer repartição e documento policial, como “fato
atípico” – isto é, como ocorrência que não corresponde a nenhum tipo previsto pelo Código
Penal brasileiro. Desaparecimentos, por esses motivos, são geridos por meio de
procedimentos administrativos que levam o nome de Sindicâncias e não têm o mesmo
estatuto que inquéritos policiais.
Para Fernando, daí decorrem as maiores dificuldades enfrentadas por policiais que
lidam cotidianamente com casos de desaparecimento. Não constituir crime faz do
desaparecimento um tipo de ocorrência delicado, que demanda habilidades específicas dos
agentes que venham a investigá-lo. Familiares de desaparecidos que demandam escuta e
atenção, sensibilidade para compreender casos em que os desaparecidos são encontrados, mas
não desejam retornar para os locais de onde saíram, e paciência para lidar com “parentes
inconformados” são, da perspectiva do inspetor, parte do cotidiano do SDP e índices da
idiossincrasia das tarefas executadas ali. Esses elementos do cotidiano do Setor aproximariam
os trabalhos de seus agentes do que, para Fernando, merece mais o nome de “atendimento
psicológico” e “serviço de assistente social” do que “trabalho policial”. Para o inspetor, “o
problema é que aqui ninguém tem formação pra isso”. Ademais, tanto o caráter atípico da
ocorrência, quanto os trabalhos executados pelos agentes que lidam com casos particulares,
fazem com que, em geral, policiais considerem o desaparecimento menos importante que
outros fatos que registram, apuram e investigam diariamente. Mais do que isso, fazem com
que policiais questionem se ele é ou deveria ser, de fato, ocorrência policial.
Ao longo da pesquisa, algumas das idéias contidas nessa perspectiva do inspetor
Fernando foram ganhando sentido e sendo reforçadas por outros policiais e agentes sociais.
Os três outros agentes do SDP com que mantive (longas) conversas nos dias de pesquisa
expressaram, em diferentes momentos e de formas diversas, seus questionamentos quanto às
atribuições do SDP e da polícia em geral diante de casos de desaparecimento. Tanto quanto as
falas a mim dirigidas por esses policiais, o atendimento a um telefonema que presenciei no
Setor e o caso de Daniela, narrado a seguir, são bastante esclarecedores do nó central contido
nas reflexões de Fernando e de seus colegas.
Atendido pelo inspetor Paulo, o telefonema aconteceu no final de outubro, quando eu
já vinha pesquisando no Setor há três semanas. Depois de desligar o telefone, o policial me
relatou que a pessoa do outro lado da linha pretendia solicitar o registro de desaparecimento
41

de sua filha. Contudo, o que para a mãe configurava desaparecimento era o fato de sua filha
ter saído de casa e decidido não lhe fornecer o telefone e o endereço de sua nova residência.
Para Paulo, porém, isso não poderia ser visto como desaparecimento. Por isso, antes que ele
desligasse e comentasse comigo o conteúdo da ligação, o ouvi dizendo: “Minha Senhora, mas
isso não é problema da polícia, isso é um problema da senhora com a sua filha. Ela não quis
dar o telefone e o endereço? A gente não pode fazer nada pela senhora! A senhora tente
resolver isso aí com algum parente ou amigo, por que isso não é desaparecimento.”

DANIELA
Daniela, auxiliar de serviços gerais, tem 22 anos de idade e duas filhas: Fabiane e
Flaviane. Fabiane tem 8 anos e Flaviane, 3. Dia 26 de abril de 2007, Daniela deixou a
primogênita na casa de Fábio, pai da criança, e a caçula na casa de sua mãe, Magda. Saiu da
casa de Magda “por volta das 16:30hs e nunca mais foi vista e nem deu notícias à família”.
Em outubro daquele ano, Magda foi a uma delegacia reportar o desaparecimento de
Daniela. Na ocasião, disse que nos últimos meses procurara pela filha “em endereços e
telefones de amigos e parentes, sem sucesso”. Relatou ainda que, ao partir de sua casa, Daniela
havia deixado com ela o endereço de onde estaria. Ao procurar pelo endereço, no entanto,
Magda constatou que
o mesmo não existia e assim voltou à estaca zero na tentativa de localizar a
referida DESAPARECIDA, e mesmo assim ainda procurou por hospitais e
demais órgãos públicos e sem mais locais a procurar e esperando notícias da
mesma, que não tem até a presente data, comparece a esta delegacia de
polícia.

Já em 2008, o caso de Daniela foi encaminhado para o SDP. A primeira providência do
inspetor que lá ficou encarregado do caso foi telefonar para Magda, mãe de Daniela e
comunicante do desaparecimento. A partir do telefonema, o policial decidiu solicitar o
arquivamento do caso como Sindicância Solucionada, sob a justificativa de que o que se
passara a Daniela não era efetivamente caso de desaparecimento:
Ficou apurado que o fato em questão não trata de desaparecimento, uma vez
que deve ter ocorrido algum problema familiar que fez com que DANIELA
saísse de casa, já que segundo a comunicante a sua filha ligou no carnaval
deste ano dizendo que iria aparecer, mas que infelizmente até a presente data
não foi visitar a mãe.

O arquivamento do caso foi feito em julho de 2008, 1 ano e 3 meses depois que
Daniela foi vista pela última vez por suas filhas. 33

33

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 030/07 do SDP/DH.

42

As falas do inspetor Paulo ao telefone e os registros do caso de Daniela indicam que,
do ponto de vista de agentes do SDP, “algum problema familiar” ou a decisão de romper
vínculos familiares não deveriam ser classificados como desaparecimento. Na nossa conversa
depois do telefonema por ele atendido, Paulo me disse um tanto indignado que “se é questão
de relacionamento ou briga de família, não tem que colocar a polícia no meio!”. Com isso,
permitiu-me compreender os inúmeros telefonemas e atendimentos nos quais policiais
procuram distinguir “questão de relacionamento ou briga de família” do que seriam
desaparecimentos, através de interrogações como as que ouvi certa vez de Carlos Ernesto,
diante de um pai de adolescente desaparecido: “Mas me diz, ele desapareceu mesmo? Vocês
não brigaram e o senhor não está querendo me dizer?”.
Segundo outros registros de casos e falas de policiais que ouvi ao longo da pesquisa,
os desaparecimentos que chegam ao SDP para investigação contêm, em sua maioria,
“problemas de família” que não deveriam ocupar delegacias. Para os policiais, os casos com
que lidam diariamente, em sua maioria, não deveriam ser incumbência de nenhum deles, nem
do Setor em que estão lotados, nem, em última instância, da Polícia Civil. Nas palavras da
inspetora Telma, policial que chefiou o SDP na maior parte do tempo em que o freqüentei, os
casos de desaparecimento investigados no Setor “não são serviço nosso [da polícia], mas a
gente acaba fazendo”. Para a policial, tratam-se de dramas e questões “de família” que têm
que ser geridas “pelo Estado, e não pela polícia”. A partir desse posicionamento da inspetora,
nota-se que a fala do inspetor Paulo ao telefone, bem como os registros finais sobre o caso de
Daniela, respondem não só à senhora do outro lado da linha ou ao desaparecimento da mãe de
Fabiane e Flaviane. Antes, respondem ao conjunto mais amplo de casos com o qual os
agentes do SDP têm que lidar diariamente e que encaram não como “problema da polícia”, e
sim “problema de família” ou “problema do Estado”.
A meu ver, a abertura fácil dos arquivos do Setor para minha pesquisa também
responde a esse conjunto mais amplo de casos e ao caráter não-policial a eles atribuído pelos
policiais que os investigam e arquivam. Mais do que aplacar desconfortos acarretados pela
idéia de observação, como me advertira Fernando, pesquisar os arquivos do SDP implicaria
consultar dramas, “problemas de família” e “questões de relacionamento” vistas como
ocorrências menores se comparadas ao que seriam propriamente “problemas de polícia”.
Diferente do desaparecimento forçado de pessoas e dos arquivos da repressão, os
desaparecimentos cotidianos documentados e guardados nas gavetas do SDP não são crimes,
não são “problemas de polícia” e não são vistos como relevantes no interior de instituições
43

policiais. Apesar de minha surpresa inicial, portanto, é bastante compreensível que sua
abertura me tenha sido apresentada como alternativa “fácil” para realizar a pesquisa.
Mas além de revelarem as razões da abertura dos arquivos à pesquisa, as reflexões e
posições dos policiais sobre o caráter atípico e a natureza não-policial do desaparecimento de
pessoas dão sentido, também, a um dos traços dos documentos arquivados que me chamou
atenção desde os primeiros dias de trabalho de campo: eram raros os usos das palavras
“vítima” e “denúncia”, e a escassez desses termos lembrava-me a todo tempo a primeira vez
que pisei no SDP, quando, diante de uma pergunta minha sobre “quem são as pessoas que
denunciam desaparecimentos?”, Fernando me corrigiu dizendo “as pessoas não denunciam
desaparecimentos; elas comunicam ou notificam desaparecimentos”.
Essa correção me advertia para o que só pude compreender depois: o fato dos
desaparecimentos serem ocorrências policiais não-criminais, sujeitadas a questionamentos por
parte dos profissionais que os registram, faz com que o vocabulário mobilizado para tratar dos
casos seja objeto de hesitação e vigilância. O desaparecimento de Rodrigo, narrado a seguir,
explicita a impossibilidade formal de se classificar a pessoa desaparecida como “vítima” de
ocorrência policial, em função do caráter atípico do desaparecimento. Rodrigo desapareceu
no mesmo Carnaval em que Daniela fez contato com sua mãe, em 2008.

RODRIGO
Trata-se de desaparecimento de adolescente, fato comunicado pelo pai da
vítima do desaparecido na 30ª DP no dia 11.02.08, com RO no. 061/08;
segundo o comunicante Jaime, seu filho Rodrigo estava acompanhado de
colegas num domingo de carnaval, onde seguia rumo a sua residência,
seguiu sozinho e nunca mais foi visto, não se sabendo seu paradeiro.

Esse breve texto está registrado no primeiro documento com que se depara quem abre a
Sindicância em nome de Rodrigo Diniz, hoje arquivada no SDP. A rasura sobre a palavra
“vítima”, substituída a lápis pelo termo “desaparecido”, foi transcrita exatamente como aparece
no registro.
No domingo de Carnaval de 2008, Rodrigo, filho de Jaime, separou-se do grupo com
que voltava para casa e, desde então, não foi mais visto. Isso aconteceu dia 3 de fevereiro
daquele ano. “Com a ajuda de parentes, o pai [do desaparecido] realizou buscas por seu filho
em vários hospitais públicos e por último no IML-RJ, não logrando êxito quanto ao paradeiro
dele.” Dia 11 de fevereiro, então, Jaime foi à 30ª DP comunicar o fato à polícia. Levou consigo
uma fotografia de Rodrigo.
Algumas das falas de Jaime proferidas na delegacia foram assim registradas:

44

DESAPARECIMENTO: relata o comunicante que no domingo de carnaval,
dia 03/02/2008, por volta das 01:00h, seu filho de 15 anos de idade saiu da
praça do Valqueire acompanhado de quatro colegas, com destino a
residência, em Osvaldo Cruz. E ao chegarem a Estrada Henrique Melo,
altura da numérica 790, em Bento Ribeiro, Rodrigo, segundo os colegas, se
separou do grupo, seguindo sozinho, pela estrada supracitada. Sucedeu que a
partir daquele momento, seu filho, não mais foi visto, não mais retornou
para casa e nem fez qualquer contato com os familiares ou amigos.

Na mesma data em que o pai de Rodrigo esteve na DP e o registro de desaparecimento
foi firmado, o caso foi encaminhado ao SDP. No Setor, sem que quaisquer registros tenham
sido produzidos além do relatório final, o caso foi arquivado como Sindicância Solucionada em
julho de 2008. As razões do arquivamento foram assim registradas:
Inicialmente informado pela madrasta, Rosilene, e posteriormente
confirmado pela avó, Augusta, o menor saiu voluntariamente de casa,
morando no Morro da Serrinha, vivendo com a namorada, e com
conhecimento de todos os familiares; foi informado ainda que o menor
costuma visitar os parentes e mantém contato permanentemente com a tia
Jaqueline, via Orkut [rede de relacionamentos via Internet]. Face o
informado, solicito encerramento das investigações haja vista que a
Sindicância está solucionada.34

1.3 A burocracia e seus becos: o SDP
Em sua análise de formulários utilizados por uma agência estadunidense de
financiamento de pesquisas acadêmicas, Brenneis (2006) sugere que para compreendermos
um documento e seus efeitos é preciso situá-lo nos processos administrativos de que é parte,
seguindo sua carreira. A carreira do documento, para o autor, é a cadeia de atos nos quais ele
é rotineiramente envolvido, da qual participam múltiplos atores e audiências, que colocam em
cena diferentes interesses e preocupações. (Brenneis, 2006, p.65) Se pensarmos nos casos de
Daniela e Rodrigo, narrados acima, podemos entrever as (curtas) carreiras traçadas por seus
registros de desaparecimento: a mãe de Daniela e o pai de Rodrigo, depois de procurarem por
seus filhos em hospitais públicos, no IML-RJ e entre “amigos e parentes”, dirigiram-se a
delegacias de polícia e solicitaram registros de ocorrência (RO) de desaparecimento. Depois
de produzidos, ambos registros foram remetidos, pelas delegacias em que foram redigidos,
para o SDP. No Setor, ambos conduziram os policiais que se encarregaram respectivamente
de cada caso a fazer telefonemas para os números fornecidos pelos comunicantes dos
desaparecimentos e inscritos nos registros. No caso de Rodrigo, tentaram contato com seu
pai, Jaime, mas efetivamente quem atendeu ao telefonema foi a madrasta do adolescente e,
34

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 073/08 do SDP/DH.

45

posteriormente, sua avó. Já no caso de Daniela, tentaram e conseguiram fazer contato com
Magda, mãe da desaparecida. Depois desses telefonemas, e em função do que neles foi dito,
ambos casos foram arquivados.
A carreira comum traçada pelos registros de ocorrência em nome de Rodrigo e
Daniela se repete em grande parte dos casos de desaparecimento com que tive contato nos
arquivos do SDP. Depois de procurarem em casas de amigos e parentes e percorrerem
hospitais públicos e IML, mães, pais, irmãos, tios, filhos ou amigos dos desaparecidos vão a
delegacias de polícia e comunicam o desaparecimento daquele que procuram. As delegacias
produzem um RO de desaparecimento e, a partir das informações nele documentadas,
conduzem investigações em torno do caso. Essas investigações consistem nas chamadas
oitivas do comunicante do desaparecimento, que fala sobre o fato, é ouvido por um policial e
tem suas declarações registradas em Termos de Declarações. Em alguns casos, são feitas
também oitivas de outras pessoas que poderiam elucidar o caso. Por vezes, também são
efetuadas consultas aos mesmos hospitais e outros órgãos públicos onde muitos comunicantes
procuraram seus desaparecidos antes de se dirigirem às delegacias. A diferença é que as
delegacias efetuam essas consultas através de Ofícios e Comunicação Interna, ao passo que os
comunicantes o fazem pessoalmente. Nas delegacias, todos os atos investigativos
desencadeados pelo RO são chamados, indiferenciadamente, de diligências. Caso as
diligências não conduzam à localização do desaparecido, depois do prazo mínimo de 15 dias
contado desde a data do RO, a delegacia deve encaminhar o caso ao SDP (Rio de Janeiro,
1991). Essa norma, contudo, não é seguida à risca. Muitos casos são encaminhados para o
SDP logo após serem registrados ou, ao contrário, meses e meses depois. O conjunto de
documentos produzido na delegacia sobre cada caso, que necessariamente inclui o RO, recebe
o nome de Verificação Preliminar de Informação (VPI).
Ao ser recebida no SDP, cada VPI dá origem à sua respectiva Sindicância. Como nos
casos de Rodrigo e Daniela, a primeira providência tomada diante de cada Sindicância
instaurada no Setor costuma ser um telefonema. Caso, do ponto de vista dos policiais do SDP,
as informações obtidas nesse telefonema não apresentem o desenlace do caso, outras
diligências são levadas a cabo. Na grande maioria dos casos, Ofícios e documentos de
Comunicação Interna são remetidos do Setor para instituições e órgãos públicos diversos,
policiais e não-policiais, solicitando informações e registros que possam elucidar o caso.
Paralelamente, sistemas de informação como a Rede INFOSEG (Rede de Integração Nacional

46

de Informações de Segurança Pública, Justiça e Fiscalização) 35 e a base de dados do
DETRAN-RJ, órgão que emite documentos de identificação civil no estado, são consultadas
pelos computadores do SDP. O rol de instituições consultadas via ofícios e sistemas de dados
varia a cada caso, de acordo com o endereço anotado no RO como “local do fato” e, como
discuto no próximo capítulo, segundo as hipóteses levantadas pelos policiais quanto ao
paradeiro de cada desaparecido. Em linhas gerais, as instituições mais comumente consultadas
pelo SDP são hospitais públicos municipais e estaduais, o Instituto Médico-Legal, o Instituto
de Identificação Félix Pacheco, a Santa Casa de Misericórdia (exclusivamente os arquivos que
registram os nomes das pessoas enterradas nos 13 cemitérios por ela administrados), a
Fundação Leão XIII, que coordena abrigos e projetos assistenciais da Secretaria de Estado de
Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro, e, por fim, a Polinter, que
administra as carceragens da Polícia Civil no estado, e a Secretaria de Estado de
Administração Penitenciária, antigo Desipe. Além dessas consultas, algumas oitivas de
comunicantes de desaparecimento e pessoas envolvidas em casos também são feitas no SDP.
Caso as diligências conduzam à localização da pessoa desaparecida, ou caso o Setor
seja notificado de que a pessoa foi encontrada, por outros meios, por seus parentes, amigos ou
conhecidos, a Sindicância é encerrada como Solucionada e arquivada. Sindicâncias podem ser
encerradas também como Suspensas, e não como Solucionadas, caso as investigações não
conduzam a quaisquer conclusões sobre o paradeiro do desaparecido. Em média, os policiais
do SDP suspendem Sindicâncias depois de três anos de investigações inconclusas. Esse prazo,
contudo, não é regulamentado. Sindicâncias Suspensas podem ser reabertas a qualquer
momento, desde que novas informações sobre o caso cheguem ao conhecimento do SDP. Por
fim, Sindicâncias podem ser Encaminhadas a outras repartições policiais que estejam levando
a cabo investigações correlatas ao caso, ou, ainda, Juntadas a outras Sindicâncias já abertas
em nome da mesma pessoa desaparecida. Ficam nos arquivos do Setor as Sindicâncias
Solucionadas, Suspensas e Juntadas. A seguir, o Quadro 1 organiza esses dados.
Ao final de cada mês, os agentes contabilizam quantas Sindicâncias se encaixaram em
cada uma dessas classificações naquele período, e somam os números obtidos aos totais que

35

Administrada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), a Rede INFOSEG “integra
informações dos órgãos de Segurança Pública, Justiça e de Fiscalização em todo o País, provendo dados de
pessoas com inquéritos, processos, mandados de prisão, além de dados de veículos, condutores e armas. A Rede
INFOSEG disponibiliza informações dos seguintes órgãos: Polícias Civis; Polícias Militares; Departamento
Nacional de Trânsito; Exército Brasileiro; Superior Tribunal de Justiça e Justiça Federal; Departamento de
Polícia Rodoviária Federal; Departamento de Polícia Federal; Secretaria da Receita Federal; Tribunais de Justiça
Estaduais”. (SENASP, s/d, p.3) Só acessam a rede servidores de órgãos públicos autorizados pela SENASP para
esse fim, mediante uso de senha pessoal. Todos os policiais do SDP têm senhas para utilizar a Rede INFOSEG.

47

vêm se acumulando desde 1993. O inspetor Fernando chama essa contabilização de “nossas
estatísticas”.36 Apontando as limitações dos números que produzem, “caseiros”, como me
disse algumas vezes, Fernando fez um curso de “Técnicas Quantitativas aplicadas à
Segurança Pública” com o firme propósito de melhorar as “nossas estatísticas” e aprender a
“retirar dali alguma coisa útil”. O curso é oferecido periodicamente pelo ISP para servidores
da área de segurança pública, e policiais recebem uma gratificação para participar dele e de
outros processos de formação e atualização semelhantes.

Sindicâncias
Solucionadas

Definição
A pessoa desaparecida é localizada.

Observações
A localização pode se decorrer de
investigações policiais ou se dar por
outros meios. Independente de ter
decorrido de investigação policial ou
outros acontecimentos e tipos de
busca, a Sindicância é Solucionada
assim que a localização chega ao
conhecimento do SDP.
A pessoa desaparecida não é Podem ser reabertas a qualquer
Suspensas
localizada e não há pistas a momento,
desde
que
novas
investigar.
informações sobre o caso cheguem ao
conhecimento do SDP. Não há
regulamentos definindo em quanto
tempo uma Sindicância pode ou deve
ser classificada como Suspensa.
O caso de desaparecimento Os documentos relativos ao caso são
Encaminhadas
relaciona-se a investigações em todos remetidos à unidade policial
curso em outra unidade policial.
interessada. Nos casos em que fica
determinado
que
a
pessoa
desaparecida está envolvida em crime
ou suspeita de crime, a Sindicância
Encaminhada passa a integrar um
Inquérito Policial.
Há outras Sindicâncias arquivadas As Sindicâncias são reunidas.
Juntadas
em nome da mesma pessoa
desaparecida.
Quadro 1: Classificações de Sindicâncias

As Sindicâncias instauradas no SDP são distribuídas entre os policiais que compõem o
quadro fixo do Setor. Essa distribuição não obedece a critérios específicos, e os casos são
distribuídos à medida que chegam. A única exceção são os casos que envolvem crianças e

36

Tive acesso a essas estatísticas em setembro de 2008, mês em que haviam sido instauradas 35 Sindicâncias no
SDP. Entre 1993 e aquele mês, um total de 9.293 Sindicâncias foram instauradas no Setor. Desse total, 994
estavam em andamento, 5.167 haviam sido Suspensas, 2.551 Solucionadas, 477 Encaminhadas, 46 juntadas e 58
deixaram o SDP para integrar VPIs ou inquéritos conduzidos por outras repartições policiais.

48

adolescentes. Todos eles, chamados no Setor de “casos de menores”, ficam a cargo do
inspetor Fernando. Ao longo da pesquisa, trabalhavam no SDP os seguintes inspetores de
polícia: Telma, que chefiava o Setor, Carlos Ernesto, Paulo, Rocha e Fernando. Em função
dos dias da semana em que eu freqüentava o SDP, de acordo com a agenda acordada com
Fernando, e do fato de que por alguns meses ele esteve licenciado do trabalho, meus contatos
com o inspetor Rocha foram esparsos. Meu convívio mais rotineiro se deu de fato com
Fernando, Telma, Carlos Ernesto e Paulo.
Acompanhei algumas mudanças no efetivo do Setor durante a pesquisa. A inspetora
Telma saiu do SDP duas vezes (uma temporária e, meses depois, outra definitiva); o inspetor
Menezes, que já havia trabalhado no Setor, teve nova e curta passagem por lá, mas
rapidamente saiu de licença médica; e o inspetor Jorge, professor da Academia de Polícia que
também já havia trabalhado no Setor, voltou trazendo consigo duas investigadoras que haviam
sido suas alunas: Luísa e Maria. Luísa e Maria passaram a integrar o SDP no processo de
renovação do quadro que começou quando eu finalizava a pesquisa. Por isso, tive pouco
contato com elas e com Jorge.
O inspetor Fernando é quem lá trabalha há mais tempo. Como seus colegas me
disseram em diferentes ocasiões, Fernando é “o cara”, “o ás da descoberta de paradeiro”,
“quem melhor conhece a questão dos desaparecidos”, “quem é chamado pra resolver os casos
quentes, de gente importante”; enfim, é o “bam-bam-bam do desaparecimento”. Fernando
trabalha há cerca de quinze anos no SDP, e sua situação na polícia é uma exceção, já que
agentes costumam ser lotados em diversas repartições policiais ao longo do tempo de serviço.
Embora esteja há muito mais tempo no SDP do que seus colegas e seja também o mais velho
entre eles, certamente com mais tempo de polícia, Fernando nunca havia chefiado o Setor e
dizia não ter essa intenção. Prefere “fazer o trabalho de todo dia”, e diz não querer saber de
“ser chefe de nada”. Seu engajamento nos serviços do SDP, não obstante, destaca-se.
Fernando é o policial mais solicitado pelos próprios colegas para sanar dúvidas,
possuindo evidente autoridade. A aceitação da minha presença no SDP foi facilitada pelo fato
de ter sido ele quem primeiro me recebeu. Todos os agentes da Delegacia de Homicídios que
conheci me foram apresentados por Fernando. Mais do que isso, a pessoa crucial para que a
pesquisa de fato tenha acontecido, a servente Ana, me foi cuidadosamente apresentada por ele
já em meu primeiro dia de pesquisa. Dona Ana, como é chamada por todos, possui as chaves
de todas as salas da DH. Foi ela quem efetivamente me possibilitou entrar no SDP e acessar
os arquivos nas inúmeras vezes que cheguei à delegacia antes dos policiais.
49

Fernando é também o agente com que me encontrei mais freqüentemente. Embora a
escala de trabalho dos policiais seja a mesma em número de horas, ele costuma dar plantões
na DH e é visto por seus próprios colegas como alguém que não só trabalha há mais tempo
com desaparecimentos, mas também trabalha mais. Em três ocasiões diferentes, o inspetor
Carlos Ernesto e o próprio Fernando me disseram que seu engajamento é diferenciado porque
ele tem mais tempo disponível para o trabalho, já que “não tem família”. Por “não ter
família”, entenda-se o fato de o inspetor, diferente dos outros agentes, não ser casado e não ter
filhos. Por “família”, portanto, entenda-se a concepção usual, centrada na reprodução,
presente não só no senso comum, como também em muitos estudos antropológicos. 37 Essa
falas, vale ressaltar, aproximam-se do que Lugones (2009) encontrou nos tribunais
prevencionais em que pesquisou, onde funcionárias afirmavam que seu compromisso com o
trabalho só competiria com seu compromisso com suas famílias, e que apenas “uma obrigação
moral com os próprios filhos justificaria delimitar o compromisso” (Lugones, 2009, p. 101)
para com os menores em causa nos processos que administram.
O inspetor Carlos Ernesto, que me chamou atenção para o engajamento diferenciado
de Fernando, é policial e taxista. Mora na Tijuca, é casado, tem duas filhas e seu hobbie é a
pescaria. Falante e piadista, Carlos Ernesto é o inspetor com que mais mantive conversas
sobre outros assuntos que não o desaparecimento de pessoas. Ao mesmo tempo, é quem me
pareceu ter uma visão mais precisa sobre o fenômeno. Para ele, “em mais ou menos sessenta
por cento dos casos são viciados e criminosos, que já estão mortos mas já foi dado cabo dos
corpos; o resto se divide entre maridos que abandonam famílias, normalmente por conta de
outra mulher, acidentes tipo atropelamento e afogamento, e casos de loucura e perda de
memória, principalmente de velhos.” Todos os policiais do Setor tratam o inspetor apenas por
seu primeiro nome.
Carlos relacionou inúmeras vezes, em nossas conversas, as figuras da pessoa
desaparecida à do cadáver não-identificado. De seu ponto de vista, o primeiro grande
problema da polícia hoje é a vaidade. “Policiais querem ser heróis e por isso não
37

Como mostram Yanagisako (1979), Creed (2000), Peletz (1995) e Yanagisako & Collier (1987), surveys de
estudos antropológicos focados em diferentes décadas da segunda metade do século XX revelam que de fato a
família é encarada como forma social dotada de um único e sempre presente núcleo definidor: na maioria dos
trabalhos, ela aparece como fenômeno de parentesco centrado na reprodução. Pressupondo que a função
prioritária singular exercida por toda a pluralidade de famílias observáveis é a procriação, ou a produção e
socialização de pessoas, a despeito do referido acúmulo de conhecimento metodológico, epistemológico e
etnográfico, parte dos estudos antropológicos publicados até o presente deixa de lado o fato de que famílias “are
as much about production, exchange, power, inequality and status” (Yanagisako, 1979, p.199). Tais estudos
fundamentam-se na convicção, muitas vezes implícita e irrefletida, de que o elemento irredutível e comum a
todas as possíveis manifestações do fenômeno “família” são os laços estabelecidos a partir e em função dos fatos
biológicos da procriação, vistos como sempre presentes e inexoráveis.

50

compartilham informação”, impedindo o bom andamento de investigações. Não obstante, o
segundo grande problema, também relativo a fluxos de informação, é a falta de ligação entre
sistemas de informação de diferentes estados do país e órgãos da polícia. “Por exemplo”, me
disse ele já no meu segundo dia de pesquisa: “um turista de São Paulo vem pra cá e se afoga
em Copacabana. Dias depois, o corpo vai aparecer lá em Niterói, porque a corrente [marítima]
leva. Nem tem jeito de conferir as digitais, o corpo já está em decomposição, e mesmo que
tivesse, os dados estão lá em São Paulo, e os IMLs daqui não têm acesso. Ele vai ser enterrado
como indigente e a família nunca vai saber! Vão ficar procurando como se ele fosse
desaparecido!”.38
A escala cumprida por Carlos no tempo em que freqüentei o SDP era em larga medida
coincidente com a do inspetor Paulo. Os dois são muito próximos, tratam-se por apelidos e
dividiram com freqüência a sala 709 nas minhas manhãs de pesquisa. Em um dos chistes mais
recorrentes entre eles, Carlos costuma dizer, em tom jocoso, que Paulo “é um cara sensível,
um verdadeiro assistente social, quase uma moça”, ao que Paulo responde colocando em
dúvida a confiabilidade de Carlos e afirmando que tudo o que ele diz é “conto de pescador”.
Na freqüente brincadeira entre os dois, Carlos explicita a estigmatização de profissionais
envolvidos em funções ditas “sociais” (Fonseca e Schuch, 2009, p.15) e atribui caráter
feminino às tarefas de atendimento a familiares de desaparecidos e à sensibilidade com que
Paulo as executa. Ao fazê-lo, dá voz a uma das dicotomias analisadas por Brown (1995), para
quem discursos burocráticos são masculinistas à medida que sustentam divisões entre valores
socialmente construídos como masculinos, como racionalidade abstrata e formalismo, e
outros construídos como femininos, como racionalidade substantiva, responsabilidade e zelo
pelas relações. Paulo, no chiste de Carlos, é “um verdadeiro assistente social, quase uma
moça” por prezar pelas relações que estabelece com as pessoas que atende.
Coincidentemente, meu primeiro dia no SDP foi também o primeiro dia de trabalho do
inspetor Paulo depois de encerrada sua licença-paternidade. Seu primeiro filho, de quem me
mostrou muitas fotos e sobre quem conversamos bastante, nasceu dias antes da minha entrada
em campo. O bebê era objeto recorrente de conversas entre Paulo e a inspetora Telma, mãe de
um garoto de cerca de 3 anos. Em função das trocas de informações entre Telma e Paulo
sobre filhos pequenos, mas certamente não só delas, grande parte dos assuntos levantados no
Setor evocava a palavra “família”.
38

Esse exemplo hipotético criado pelo inspetor remete a um caso real, ocorrido no verão de 1951, que encontrei
nos arquivos do IML-RJ e narrei sob o título “O afogado” (Ferreira, 2009, pp. 155-158). O caso envolve um
banhista, de cerca de 35 anos, que se afogou na praia de Copacabana, foi necropsiado no IML-RJ e enterrado
como indigente alguns dias depois.

51

Telma, dentre os inspetores do SDP, foi quem mais me falou sobre “as famílias dos
desaparecidos”. A chefe do Setor tem uma visão bastante cética acerca das pessoas que
procuram a polícia para registrar casos de desaparecimento. Para ela, “as famílias atrapalham
muito nosso trabalho” e costumam “mentir e ocultar fatos”, muitas vezes por medo do que a
polícia possa fazer a seus parentes desaparecidos, que freqüentemente “são bandidos, estão
envolvidos com tráfico e criminalidade”. Além disso, as famílias costumam “negar a
realidade dos fatos”, o que dificulta tanto as investigações policiais, quanto as relações entre
os agentes e os familiares de desaparecidos.
Para justificar e ilustrar sua visão, Telma me relatou inúmeros e complexos casos de
desaparecimento que chegaram ao SDP. Em um deles, um homem teria registrado o
desaparecimento de sua filha, bebê recém-nascido, alegando que sua ex-mulher sumira com a
criança. Depois de alguns telefonemas, Telma soube que o homem havia espancado sua exmulher, e que por essa razão ela viajara para São Paulo levando o bebê, onde se encontrava
em companhia de um irmão. Para a inspetora, esse caso exemplifica como pessoas tentam
“fazer uso da máquina da polícia” para ameaçar umas às outras e para recrudescer conflitos
familiares. Outro exemplo seria um conjunto de casos envolvendo cinco meninas, todas com
características físicas semelhantes e cerca de seis anos de idade. Segundo Telma, para quem
as garotas foram mortas “por um mesmo maníaco, já que os casos têm o mesmo modus
operandi”, as mães das meninas, auxiliadas por uma ONG, “criaram muitos problemas” para
o SDP. Telma marcou um encontro com as mães quando policiais encontraram ossadas que
poderiam ser das garotas. A inspetora solicitou que elas fizessem exames para cotejar seu
DNA com o material genético que seria coletado das ossadas, e apresentou sua hipótese de
que as meninas teriam sido mortas pela mesma pessoa. As mães, no entanto, recusaram-se a
fazer os exames e a aceitar aquela hipótese, dirigiram-se a delegados da DH e pediram que os
casos de suas filhas não fossem mais investigados pelo SDP. Com o auxílio da ONG,
organização da qual Telma diz ter “pavor”, as mães conseguiram que os casos fossem
transferidos para a Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV).
Para a inspetora, familiares de desaparecidos geram “ainda mais problemas” para o
SDP quando são assessorados por ONGs. Além do caso das cinco garotas, ela me relatou
brevemente outra história, que havia ficado a cargo do inspetor Paulo, em que a mesma ONG,
juntamente com a família de um adolescente desaparecido, atravancou os trabalhos do SDP.
Segundo as investigações do inspetor Paulo, o adolescente fugira de casa, já havia sido
localizado e estava “vivendo a vida numa boa, feliz, trabalhando e ganhando dinheiro”, mas
52

de acordo com seus familiares e com a ONG, teria sido vítima de aliciamento por traficantes.
Os relatos de Telma quanto a esse caso deixam claro que, enquanto ela e o inspetor Paulo
viam o garoto como alguém que saíra de casa por conta própria e que já havia sido localizado,
seus familiares e a ONG alegavam que ele era vítima de crime e deveria continuar sendo
procurado, sobretudo para ser protegido. Em suma, enquanto para os agentes do SDP o garoto
não havia retornado ao convívio familiar porque não queria, para a família ele estaria sendo
impedido de voltar. A conclusão de Telma acerca desse e de outros casos é que tanto com as
“famílias”, quanto com ONGs interessa à polícia estabelecer parcerias somente se não houver
omissão e contestação de informação, nem interferência nas investigações.
Segundo a inspetora, o SDP realiza com muita freqüência atividades de “assistência
social”, que são “problema do Estado, e não da polícia”. Evidência disso seria o caso de um
senhor de avançada idade que foi registrado por seus vizinhos como desaparecido. As
investigações do SDP concluíram que os vizinhos fizeram a comunicação não porque o
senhor estivesse de fato desaparecido, e sim para que a polícia tomasse conhecimento de que
ele vinha sendo explorado por uma jovem, que passara a morar em sua residência e ter acesso
a seus bens. Segundo Telma, os vizinhos esperavam da polícia alguma atitude em relação à
jovem. Contudo, ficou constatado que, embora a mulher estivesse de fato usufruindo dos bens
do senhor, por outro lado estava cuidando dele diariamente. Executando o que ela chama de
serviço de “assistência social”, a inspetora foi, em companhia do inspetor Fernando, até a casa
onde o casal estaria vivendo, e checou a situação com seus “próprios olhos”, no intuito de
averiguar se haveria entre eles uma relação de exploração. A situação que, do ponto de vista
dos vizinhos, seria de submissão do senhor pela jovem, para Telma tratava-se de uma espécie
de troca justa de favores, já que o homem não possuía familiares e/ou outras pessoas que dele
cuidassem tão de perto quanto a jovem vinha fazendo.
Essa checagem do caso com seus “próprios olhos” é uma diligência excepcional dentre
as tarefas executadas pelos agentes do SDP. Presenciei policiais do Setor deixando a DH para
fazer o que chamam de “operação de rua” poucas vezes, das quais duas se destacam em
minhas notas de campo. A primeira foi uma manhã de agosto de 2009 que passei sozinha no
Setor. O inspetor Fernando, que segundo sua escala estaria lá naquele dia, havia se juntado à
equipe da Delegacia de Homicídios no que recebeu o nome de “Operação Anjo”: a invasão, o
flagrante e o posterior fechamento de duas clínicas de aborto na Zona Sul carioca. A segunda,
uma ida dos inspetores Fernando e Paulo a um hotel no bairro de Santa Teresa, com a
finalidade de “pegar a ficha” de um ex-funcionário que fora citado como “melhor amigo” da
53

protagonista de uma Sindicância em andamento. Tratava-se do desaparecimento de uma
adolescente, e Fernando estava cuidando das investigações. Os policiais convidaram-me para
ir com eles ao hotel, na viatura da Delegacia de Homicídios, e essa foi uma das poucas vezes
que tive contato com eles fora das dependências do SDP. Diferente do que afirmam sobre a
lida diária com desaparecimentos, ambas ocasiões deram espaço para que os inspetores
executassem atividades apresentadas como propriamente constitutivas do trabalho policial. Na
manhã da “Operação Anjo”, por exemplo, diferentes agentes da DH me informaram que o
inspetor Fernando demoraria a retornar ao SDP por ter ido a um hospital público
acompanhando as mulheres presas nas clínicas enquanto passavam por procedimentos
cirúrgicos. “Ele foi com elas porque, você sabe como é nosso trabalho, tem que garantir o
flagrante”, me disse uma policial.
À parte situações (raras) como essas, as diligências levadas a cabo pelos agentes do
SDP consistem basicamente em atividades executadas nos computadores, telefones e arquivos
do Setor. Como detalho no próximo capítulo, uma VPI recebida de uma delegacia comum
implica a instauração de Sindicância no SDP. A Sindicância gera, em combinações variadas,
emissão de Ofícios, consultas a órgãos e oitiva de pessoas que possam esclarecer o caso. Os
Ofícios emitidos, por sua vez, geram respostas que são anexadas à Sindicância, assim como os
Termos de Declarações a que as oitivas dão origem. Os telefonemas, muitos dos quais
encerram casos, geram anotações que são igualmente incluídas nas Sindicâncias. Nesse
processo, o caso se desenrola e é arquivado, seja como Sindicância Solucionada, seja como
Sindicância Suspensa, nas várias gavetas que compõem o mobiliário do Setor.
Embora essa carreira dos documentos relativos a casos de desaparecimento seja, a
meu ver, bastante padronizada e encontrada nos arquivos do SDP com poucos desvios e
exceções, Fernando costuma dizer, entre cético e resignado: “não temos [no SDP] uma
metodologia, só preenchemos papel”. Para o inspetor, a investigação policial de casos de
desaparecimento de pessoas “é uma ilusão”, e o simples correr dos dias entre o registro do
caso na delegacia comum e seu encaminhamento para o SDP é suficiente para encerrá-los,
restando aos policiais do Setor “dar um telefonema e ouvir que a pessoa já voltou pra casa”.
Além disso, grande quantidade de casos consiste em “questão patrimonial e se resolve
simplesmente com um documento”, como bem exemplificam os casos de Geraldo e Sílvio,
abaixo narrados. Fernando atentou-se para casos desse tipo especialmente depois de passar
pelo que chamou de “desilusão”: depois de investigar um caso, promoveu o reencontro entre
um pai tido como desaparecido e sua filha. O reencontro se deu no próprio SDP, sob os olhos
54

de Fernando. Meses depois, o pai antes desaparecido retornou ao Setor “para tomar
satisfações”. Sua filha estaria brigando na Justiça pelo direito de usufruir de seu patrimônio, e
para ele o gatilho da briga teria sido disparado no reencontro promovido no SDP.
O considerável número de casos encerrados ou com um telefonema, ou com um
documento, segundo Fernando, dá a falsa impressão de que a investigação policial em torno
de casos de desaparecimento “é um sucesso”, como se a polícia descobrisse freqüentemente o
paradeiro de pessoas. Na solenidade de apresentação da “Pesquisa de Desaparecidos”
realizada pelo ISP e citada na Introdução desta tese, encontrei-me com Fernando e ouvi dele
comentários nesse sentido. Para o inspetor, a pesquisa do Instituto só confirmara o que
rotineiramente ele percebe no SDP: embora seja “uma ilusão”, a investigação policial em
torno de casos de desaparecimento é muitas vezes vista como “um sucesso”.

GERALDO
Adalgisa e Antônio, hoje falecidos, tiveram três filhos juntos: Geraldo, Maria Lúcia e
Vera Helena. O primogênito dos três é Geraldo, “homem de cor branca, magro, altura de cerca
de 1,65 metro, cabelos castanhos claros aparados, que sofreu uma amputação na perna
esquerda, pouco acima do joelho”. Desde a morte de Adalgisa e Antônio, os três irmãos gozam
de direito à pensão junto ao Instituto de Previdência do Estado do Rio de Janeiro (IPERJ).
Munida de um ofício expedido pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro e
de uma declaração do IPERJ, Maria Lúcia compareceu à 17ª DP, em São Cristóvão, para
solicitar Registro de Ocorrência que oficializasse o desaparecimento de Geraldo. Segundo
Maria Lúcia, a última vez que ela e Vera Helena tiveram “notícias de Geraldo, ele estaria
residindo em um barraco no Morro da Mangueira há muitos anos, sendo certo que a família não
possui qualquer informação de seu paradeiro nem fotografia de Geraldo”. Contudo, não era
essa falta de notícias e informações que Maria Lúcia queria solucionar ao procurar a polícia.
A declaração do IPERJ que Maria Lúcia portava ao comparecer à DP atestava que
Geraldo, “filho inválido, está com sua pensão retida desde junho de 1988” – isto é, desde
aquela data, não viria recebendo a pensão a que tinha direito. A declaração foi apresentada por
Maria Lúcia como evidência do desaparecimento de seu irmão e, também, como explicação
para sua solicitação de que o mesmo fosse registrado pela polícia. Maria Lúcia desejava que a
pensão de Geraldo fosse redistribuída e passasse a compor pensão em seu nome e no de sua
irmã, Vera Helena. Para tanto, procurara a Defensoria Pública que, por sua vez, orientou-a a
procurar a delegacia. O RO em nome de Geraldo instruiria uma ação de Declaração de
Ausência a ser movida pela Defensoria. Somente a partir dessa ação, finalmente, Maria Lúcia
poderia pleitear a recomposição das pensões.
55

No dia 23 de março de 2005, data em que compareceu à 17ª DP, Maria Lúcia obteve o
que procurava: o RO de desaparecimento em nome de Geraldo, que teria uso em
procedimentos administrativos e judiciais fora da polícia. Não obstante, investigações policiais
em torno do desaparecimento de Geraldo foram conduzidas. Por meio de comunicações
internas, agentes da 17ª DP consultaram o IML e o IFP, solicitando “averiguar a existência de
registro do cadáver de Geraldo, desaparecido desde 25/06/88”. A data firmada como dia do
desaparecimento correspondia ao vencimento da primeira pensão que Geraldo não recebera.
Ambos os institutos consultados pelos agentes da DP empregaram a expressão “nada
consta” ao responderem a averiguação solicitada. Diante dessas negativas, o caso de Geraldo
foi encaminhado para o SDP, que deveria prosseguir com investigações. O Setor enviou ofícios
ao Desipe, à POLINTER, à Santa Casa de Misericórdia e, repetindo o que havia sido feito na
DP, novamente ao IML e ao IFP. Ecoando o “nada consta” tanto do IML, quanto do IFP, as
respostas obtidas pelo SDP afirmam que Geraldo “não faz parte do efetivo carcerário” do
estado, não se encontra enterrado em nenhum dos “13 (treze) cemitérios administrados por esta
Santa Casa” e não tem em seu nome registro ou mandado de prisão.
O caso de Geraldo permaneceu em andamento no SDP até 6 de janeiro de 2009, mais
de quatro anos depois que sua irmã obteve, na 17ª DP, o registro que desejava. Naquela data, o
caso foi arquivado como Sindicância Suspensa.39

SÍLVIO
Nascido em 1949, Sílvio “morava sozinho, não trabalhava e costumava andar numa
bicicleta velha” pelas ruas da cidade. Em dezembro de 2004, a pedido de Mercedes, mãe de
Sílvio, sua prima Lourdes comunicou o desaparecimento dele em uma DP. Segundo Lourdes,
Sílvio “foi visto pela última vez” no apartamento em que morava, em setembro de 2004.
Depois disso, sua mãe procurou por ele no apartamento, mas “ao abrir o referido endereço,
encontrou vários entulhos no seu interior” e nenhum sinal de Sílvio. Ao comunicar o
desaparecimento do primo, Lourdes esclareceu seu interesse em efetuar o registro e justificou o
fato de tê-lo solicitado apenas em dezembro:
somente veio no dia de hoje comunicar o fato, visto que ficou na expectativa
de que Sílvio aparecesse, o que não ocorreu; (...) que também tomou
providências em fazer a referida comunicação visto que existe um espólio do
pai do desaparecido, ficando do advogado comunicar ao juízo do inventário
sobre a situação do aludido imóvel.

Lourdes foi à DP portando uma procuração, da qual Mercedes é outorgante e ela,
outorgada. Entre dezenas de atos, a procuração garante que Lourdes tenha poderes para, em

39

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 275/07 do SDP/DH.

56

nome de Mercedes,
(...) requerer e receber pensões, aposentadorias, seguros, benefícios, salários
família, pecúlios, auxílio funeral, proventos, carteirinhas, cheques saúde,
seguro desemprego, PIS, PASEP, FGTS, diferença de planos, quantias
referentes ao Plano Collor, Bresser, passar recibos e dar quitação, quantias
vencidas ou vincendas, abrir, movimentar e encerrar contas correntes e
cadernetas de poupança, abrir conta conjunta com ele outorgante, fazer
depósitos e retiradas, emitir e endossar cheques, requisitar e receber
talonários de cheques, saldos, extratos, cartões magnéticos e suas senhas,
inclusive, alterá-las, cartões de crédito e suas senhas, desbloquear cartões de
crédito, assinar livros, fichas, termos, ofícios, requerimentos, fazer
declarações, receber e dar quitação, autorizar débitos, interpor recursos as
instâncias superiores (...)

Em março de 2005, passados seis meses desde que Sílvio “foi visto pela última vez”,
Lourdes votou à DP. Portava, na ocasião, não uma procuração, mas uma certidão de óbito.
Mercedes, mãe de Silvio, falecera em janeiro. Lourdes reportou o fato a policiais, disse que
Sílvio seguia desaparecido e acrescentou apenas que “não sabe dizer o que aconteceu com
Sílvio; que o imóvel onde Sílvio reside continua fechado; que a bicicleta que Sílvio costumava
andar nunca mais foi encontrada; que nada sabe dizer quanto às amizades de Sílvio”.
Logo após o registro dessas falas de Lourdes, o caso de Sílvio foi encaminhado ao
SDP. No Setor, foram efetuadas pesquisas na Rede INFOSEG e na base de dados do
DETRAN-RJ. De tais pesquisas, foi concluído que Sílvio não tem anotações criminais, nem
registro de passagem pelo sistema prisional. Foram também remetidos ofícios solicitando
informações sobre Sílvio para o IML, a Polinter, a Santa Casa de Misericórdia, a Fundação
Leão XIII, o Instituto Phillipe Pinel, a Delegacia de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteira e os
hospitais Souza Aguiar e Cardoso Fontes. Todas as respostas recebidas no SDP foram
negativas: não há qualquer registro que possa esclarecer o desaparecimento de Sílvio nessas
instituições.
Por fim, em junho de 2005, Lourdes telefonou para o SDP. Conforme manuscrito entre
os vários papéis que compõem a Sindicância de Sílvio, no telefonema Lourdes confirmou que
seu primo seguia desaparecido e “só relatou que o apartamento continua fechado, a mãe do
desaparecido faleceu e o mesmo morava sozinho e que vagava pelas ruas; que desconfia que o
mesmo tem problemas mentais”. 40

Maria Lúcia, irmã de Geraldo, solicitou o RO de desaparecimento em nome dele não
por esperar que o documento desencadeasse a descoberta de seu paradeiro. Seu interesse
voltava-se para o próprio documento e, por isso, sua interação com a polícia esgotou-se
minutos depois que começou, imediatamente após a conclusão do registro. A carreira do RO
40

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 174/05 do SDP/DH.

57

em nome de Geraldo, afinal, continuaria fora de delegacias, já que o documento integraria
ação judicial por meio da qual Maria Lúcia buscava obter outro documento: uma declaração
de ausência. Com essa declaração, ela pleitearia o direito de receber parte da pensão a que seu
irmão tinha direito, mas que não recebia desde junho de 1988.
Os “nada consta” gerados pelas solicitações de informação sobre Geraldo feitas pelo
SDP garantiram que o caso transcorresse como Maria Lúcia esperava. A eventual descoberta
do paradeiro de seu irmão impediria que ela alcançasse o que queria, anulando a possibilidade
de obtenção judicial da declaração de ausência. Portanto, do ponto de vista dela, a medida do
“sucesso” do caso estava justamente na não-localização de seu irmão. Em outros termos, para
Maria Lúcia nada seria mais eficaz do que pouca ou nenhuma investigação em torno do
paradeiro de Geraldo. Se, fazendo uso dos termos do inspetor Fernando, a investigação
policial em torno de casos de desaparecimento “é uma ilusão”, essa ilusão garantiria à Maria
Lúcia a consecução de seus objetivos.
Já no desaparecimento de Sílvio, um duplo interesse foi expresso por Lourdes, prima
do desaparecido, no momento de confecção do registro de ocorrência: em nome da mãe de
Sílvio, Lourdes disse que tanto esperava que ele aparecesse, quanto precisava tomar
providências relacionadas ao imóvel em que ele morava. No decorrer do caso, Lourdes
esboçou uma imagem de Sílvio como alguém desgarrado. Afirmou que o apartamento em que
ele vivia estava entulhado, além de ter dito, logo na notificação do desaparecimento, que ele
“não trabalhava e costumava andar numa bicicleta velha”. No último contato que teve com
policiais que lidaram com o caso, Lourdes fez uma colocação que aparentemente visava a
explicar o modo de vida de seu primo: disse desconfiar que ele tivesse “problemas mentais”.
Lourdes procurava por Sílvio, que desaparecera levando consigo a tal bicicleta velha com que
transitava pela cidade. Mas além disso, ela procurava também por meios de desembaraçar o
inventário do pai dele, do qual constava o imóvel em que seu primo residia. Esses interesses,
contudo, não eram imediatamente seus. Lourdes era procuradora de Mercedes, mãe de Sílvio,
e por isso poderia tomar providências em seu nome.
Os casos de Sílvio e Geraldo não destoam do conjunto de Sindicâncias com que tive
contato ao longo da pesquisa. Não são poucos os casos arquivados no SDP em que
comunicantes de desaparecimento associam “problemas mentais” ao modo de vida e ao
comportamento dos desaparecidos, como destaco no terceiro capítulo. Tampouco são raros os
casos em que o sucesso, do ponto de vista de seus comunicantes, reside justamente em muitos
“nada consta” e na não descoberta do paradeiro dos desaparecidos, assim como não são
58

poucos os desaparecimentos que envolvem “questão patrimonial”, como me disse Fernando.
Não obstante, os casos de Sílvio e Geraldo são nitidamente distintos entre si, e guardam
poucas semelhanças com os casos de Rodrigo, Daniela e Álvaro, narrados anteriormente.
Esses cinco casos, se comparados entre si, recebem tratamento semelhante no interior das
repartições policiais por que passam. Contudo, suas tramas distinguem-se, fazendo deles uma
coleção heterogênea de casos de desaparecimento: o servidor público municipal Álvaro saiu
para beber e dar uma volta e nunca mais foi visto, nem deu notícias; Daniela, mãe de duas
meninas, passou por “algum problema familiar”, saiu de casa, fez contato telefônico com sua
mãe, mas não foi mais visitá-la; Rodrigo sumiu no domingo de Carnaval, mas depois foi viver
com sua namorada e “costuma visitar os parentes”. Isso sem citarmos Geraldo, Sílvio e outros
casos que serão narrados nos próximos capítulos. Diante da heterogeneidade desses
desaparecimentos, é no mínimo intrigante sua reunião nas gavetas do SDP, sua designação a
partir de um mesmo termo e a carreira comum percorrida pelos documentos a eles referentes.
Afinal, é possível pensar nos casos como manifestações particulares do mesmo fenômeno?
Se relembrarmos os primeiros parágrafos da Introdução, encontramos maneiras de
falar sobre desaparecimentos que encaram casos particulares como manifestações não
simplesmente do mesmo fenômeno, mas do mesmo “problema social”. Os desaparecimentos
transformados em números e perfis estatísticos pelo ISP, afinal, foram apresentados pelo
Instituto como questão não tão problemática quanto pode parecer a princípio, passível até
mesmo de ser, de certo modo, comemorado. O veemente protesto da Rio de Paz, ao contrário,
falou esteticamente sobre os desaparecimentos tratando-os como questão ainda mais
problemática e grave do que pode parecer a princípio. De todo modo, ainda que por prismas
opostos e buscando provocar sentimentos antagônicos, tanto o Instituto quanto a ONG
falaram sobre o desaparecimento de pessoas no Rio de Janeiro como “problema”. Por
heterogêneas que sejam as tramas com que os arquivos do SDP me colocaram em contato,
portanto, da perspectiva de alguns agentes sociais seria possível falar, no singular, sobre o
“problema social” do qual elas seriam manifestações particulares. Mas como?
Sayad (1998), ao abordar a imigração e seus paradoxos constitutivos, chama atenção
para as diferenças e possíveis correlações entre dois constructos relativamente independentes
entre si: os problemas sociais e os problemas sociológicos. Sobre os problemas sociológicos,
destaca a importância de não mitigarmos, e sim transmitirmos, a opacidade dos fenômenos
que os cientistas sociais construímos como objetos de pesquisa. Nos termos do autor,

59

o discurso do sociólogo não existe para atenuar, com observações
lingüísticas e com comentários “esclarecedores”, logo reconfortantes, a
opacidade do discurso autêntico, que mobiliza todos os recursos de uma
cultura e uma língua originais para expressar experiências que essa língua e
essa cultura desconhecem, ou recusam. Essa opacidade da linguagem que
não se entrega à primeira vista é, sem dúvida, a informação mais importante,
a mais rara em todo caso num momento em que tantos porta-vozes da boa
vontade emprestam aos emigrantes sua própria língua. (Sayad, 1998, p.25)

Já sobre os problemas sociais, adverte-nos de que têm relativa independência diante da
realidade fenomênica a que se referem e, necessariamente, “têm suas condições sociais de
possibilidade” (Sayad, 1998, p.55). Essas formulações do autor clareiam ao menos dois
aspectos centrais sobre o desaparecimento de pessoas, tomado aqui como problema
sociológico e evocado, em múltiplos espaços, como “problema social”. Primeiro, é preciso
transmitir, e não obliterar, a opacidade desse fenômeno, exposta na heterogeneidade de casos
que recebem a mesma designação e o mesmo tratamento no interior de repartições policiais.
Ao mesmo tempo, é preciso também perscrutar as condições sociais que possibilitam que o
desaparecimento seja construído como um só “problema social”, independentemente da
heterogeneidade de casos que lhe caracteriza.

1.4 A pesquisa e suas curvas: a ReDESAP
No começo de meu terceiro mês de pesquisa no SDP, a inspetora Telma apresentoume o que posteriormente tornou-se um meio privilegiado para que eu refletisse acerca dessas
questões: a Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes
Desaparecidos (ReDESAP). Entre os dias 2 e 5 de dezembro de 2008, aconteceria no Rio de
Janeiro o II Encontro Nacional da ReDESAP, em cuja organização alguns policiais da
Delegacia de Homicídios estavam envolvidos, e Telma não só sugeriu que eu fosse, como
também se ofereceu para fazer minha inscrição “pela delegacia”, caso fosse necessário.
Segundo ela, o evento poderia ser “bom para a pesquisa”, como de fato foi. Ali estabeleci
relações que se desdobraram em convites para reuniões e outros eventos da rede, nos quais
ouvi falas, acompanhei debates e entrevi embates que iluminam como o desaparecimento de
pessoas é construído como problema social no Brasil.
Ao sugerir que eu participasse, Telma me deu o telefone da FIA, principal
organizadora local do evento, que estava concentrando as inscrições. Fui inscrita como
doutoranda da UFRJ, sem que fosse necessária qualquer menção ao SDP ou à Delegacia de
60

Homicídios. Durante três dias, identificada por crachá que trazia meu nome, fui ao centro de
convenções em que o evento aconteceu. Mesas e debates tomavam a manhã e a tarde e, entre
os dois blocos de trabalhos, o almoço era servido no próprio local. Passei grande parte do
tempo do evento ao lado do inspetor Fernando, que participou representando o SDP, mas abri
três outras frentes de diálogo: travei conversas e troquei contatos com o grupo de servidores
da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) e da
FIA que organizou o evento; conheci três mães de desaparecidos que fundaram ONGs que
reúnem e assistem familiares de pessoas desaparecidas; e conversei com pesquisadores que
também estavam desenvolvendo pesquisas de pós-graduação.
O evento era a segunda reunião nacional da ReDESAP, rede criada em 2002 que
articula 47 organizações (entre órgãos públicos, policiais e assistenciais, e iniciativas nãogovernamentais) que lidam com o desaparecimento de pessoas no Brasil. 41 Algumas delas
lidam exclusivamente com desaparecimentos de crianças e adolescentes, entre outras
atribuições, como o já mencionado SOS Criança Desaparecida, da FIA, e delegacias de
Polícia Civil especializadas na proteção de crianças e adolescentes e na investigação de
crimes que as tenham como vítimas. 42 Não obstante, a rede também conta com membros cuja
atuação não se restringe a casos de crianças e adolescentes, como a Delegacia de Homicídios
e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo, as ONGs Mães em Luta e Mães da Sé, e a
Defensoria Pública do estado do Rio de Janeiro.
A reunião entre organizações inscritas na já consolidada seara da defesa e promoção
de direitos da criança e do adolescente e instituições cujas atribuições não se relacionam a
esse domínio específico de intervenção não é nem casual, nem sem efeitos para a construção
do desaparecimento como problema social. Como mostram estudiosas desse campo como
Vianna (1999, 2002), Lugones (2004, 2009), Schuch (2009) e Fonseca e Schuch (2009), a
área da infância e adolescência consolida-se cotidianamente como domínio específico de
41

Embora a ReDESAP tenha sido criada em 2002 e promovido, entre aquele ano e o ano de 2011, três encontros
nacionais, mais de uma dezena de reuniões de seu grupo gestor e outros tantos eventos locais, ela foi
formalmente instituída, por meio da Portaria n. 1.520, somente dia 5 de agosto de 2011. Assinada pela então
ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a Portaria determina fundamentalmente
dois atos: “Art. 1º Instituir no âmbito da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República a Rede
Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos - ReDESAP, tendo por
finalidade acompanhar a implementação de políticas públicas para a prevenção, localização e atendimento de
crianças e adolescentes desaparecidos no país. Art. 2º Fica instituído o Comitê Gestor da ReDESAP, com a
finalidade de coordenar e estabelecer diretrizes para o funcionamento, disseminação e gestão da referida rede.”
(SDH, 2011) Os eventos de que participei no decurso da pesquisa, sobre os quais teço considerações na tese,
ocorreram durante o (longo) período em que a rede não estava amparada em instrumentos jurídicos específicos,
mas não deixava, por isso, de funcionar ativamente.
42
Sobre as especificidades da atuação profissional de policiais civis lotados nessas delegacias especializadas
depois da promulgação do Estatuto da Criança do Adolescente, ver Schuch (2009, pp.157-160).

61

intervenção moldado por regimes discursivos e suas respectivas práticas e tecnologias de
poder. No Brasil contemporâneo, “a mais nova legislação especial para crianças e
adolescentes – o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), implementado em 1990 –
redimensiona autoridades e sentidos à infância e juventude” (Schuch, 2009, p. 105),
instituindo a linguagem dos “sujeitos de direitos” e buscando materializar em texto legal uma
concepção de infância que se pretende “universal” (Vianna, 2002). Aliando as idéias de
democratização e modernização, a gestão da criança e do adolescente como “sujeito de
direitos” prescrita pelo ECA e
a concepção de uma infância tão soberana que pudesse fazer com que a
entidade mítica Estado fosse cobrada em suas responsabilidades tem nesse
momento um poder de sedução que não pode ser menosprezado. (Vianna,
2002, p.74)

Pensada a partir da ReDESAP, a construção do desaparecimento de pessoas como
problema social é devedora do poder de sedução da área da infância e adolescência e mobiliza
em certas ocasiões o que Lugones chama de “vulgata dos direitos da criança” (Lugones, 2009,
p.47). No entanto, não só a composição da rede, que não se restringe a instituições da área da
infância, mas também e sobretudo as falas e debates levados a cabo em seus eventos e
reuniões indicam que o desaparecimento de pessoas não se fixa nesse domínio de
intervenção. Ao invés disso, sua inserção na área da infância é instável, circunstancial e
escorregadia. Referências ao fenômeno são feitas por representantes das instituições reunidas
na rede, indiferenciadamente, a partir dos termos desaparecimento, desaparecimento de
crianças, desaparecimento de crianças e adolescentes e desaparecimento de pessoas. Além
disso, alguns desses representantes, com destaque para mães de desaparecidos que fundaram
ONGs de apoio a familiares, sublinham freqüentemente o fato de seus filhos terem
desaparecido quando crianças e, atualmente, já serem adultos. “Minha filha hoje tem 28 anos
e por isso não merece mais ser procurada?” Com essas palavras, uma das mães respondeu à
minha indagação sobre a indistinção com que na rede são usados os termos acima citados.
Para ela e para outros membros da rede, é imprescindível que as iniciativas de combate e
prevenção do desaparecimento foquem as crianças e adolescentes, vistos como mais
vulneráveis a esse e outros problemas, mas estendam seus efeitos para toda a população,
independente de faixas etárias. 43 Nesse sentido, se a soberana concepção de infância de que
43

“Menores”, “Crianças e adolescentes”, “Infância” e “Adolescência”, como deixam claros os trabalhos já
citados (Vianna, 1999, 2002), Lugones (2004, 2009), Schuch (2009) e Fonseca e Schuch (2009), entre tantos
outros, são categorias que não designam simplesmente grupos e faixas de idade. Se chamo atenção para

62

fala Vianna (2002) permite a múltiplos agentes sociais cobrar responsabilidades do Estado, na
ReDESAP busca-se fazer tal cobrança sem necessariamente vinculá-la à questão da infância.
A ReDESAP é coordenada pela SEDH/PR, mais especificamente pela equipe gestora
do Sistema de Garantia de Direitos (SGD) da Subsecretaria Nacional de Promoção dos
Direitos da Criança e do Adolescente (SNPDCA).44 Conforme folhetos que circularam no II
Encontro Nacional, em texto que encontrei replicado em diversos folders e websites que
mencionam a rede, ela “tem como objetivos constituir um cadastro nacional de casos, criar e
articular serviços especializados de atendimento ao público e coordenar um esforço coletivo e
de âmbito nacional para busca e localização dos desaparecidos”. Desde a criação da rede, foi
construído um website que tem funcionado como embrião do referido Cadastro. As
organizações que integram a rede alimentam o website, embora de forma precária e pouco
sistemática. Ao longo dos anos de 2009 e 2010, participei de reuniões e eventos dedicados à
formulação e consolidação do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas que substituiria o
website. No capítulo cinco detenho-me sobre tais reuniões e sobre o Cadastro Nacional de
Pessoas Desaparecidas.
As questões gerais debatidas ao longo do II Encontro Nacional da ReDESAP, objeto
de opiniões e disputas diversas, ecoavam muitas das reflexões presentes no cotidiano do SDP
e registradas ou suscitadas por seus arquivos. Em linhas gerais, nas oito mesas programadas
para o evento, as falas e debates entre membros da rede orbitaram as seguintes interrogações:
O que é o desaparecimento de pessoas? Trata-se de questão policial ou de assistência social?
Quais são as atribuições específicas de delegacias de polícia, conselhos tutelares e órgãos de
assistência social diante de casos de desaparecimento? Qual dessas instituições devem atender
“as famílias” de desaparecidos? Quais as razões principais do desaparecimento de crianças e
adolescentes no Brasil? Que políticas públicas têm potencial para combatê-las? O Quadro 2
sistematiza os temas debatidos em cada mesa na forma de tópicos. Ficaram fora do quadro
assuntos, certamente relevantes, que foram objeto de conversas paralelas às mesas e levadas a
cabo nas refeições e intervalos entre elas. Apesar disso, o quadro é útil à medida que delineia
uma espécie de mapa dos temas evocados como relevantes para se compreender, combater e
administrar o desaparecimento de pessoas no Brasil.

diferenças etárias e para a necessidade se combates de casos de desaparecimento independentemente delas, é
para apresentar umas das reivindicações centrais de muitos dos membros da ReDESAP.
44
Desde a mudança legislativa que transformou a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da
República (SEDH/PR) em Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), em março de
2010, a SNPDCA deixou de ser uma Subsecretaria e passou a ser designada Secretaria Nacional de Promoção
dos Direitos da Criança e do Adolescente.

63

Nome da Mesa
Abertura

Crianças e Adolescentes
desaparecidos: uma realidade invisível

Causas e fatores que levam ao
desaparecimento de crianças e
adolescentes no Brasil

Marcos Legais do Desaparecimento de
Crianças e Adolescentes, Proteção
Jurídica e Acesso à Justiça

Balanço dos Serviços e Políticas de
Notificação, Identificação e
Localização de Crianças
Desaparecidas

Temas apresentados e discutidos
Importância do engajamento do poder público, da
iniciativa privada e do terceiro setor na questão;
angústia das famílias; necessidade de maior
divulgação do fenômeno e dos casos; necessidade
de melhor articulação entre membros da
ReDESAP.
Escassez de estudos sobre o tema e registros não
policiais dos casos; necessidade de combater mitos
em torno do desaparecimento; como enfrentar a
subnotificação de casos; necessidade de proteger
“a família” para prevenir novos casos; como
atender e acompanhar as famílias de desaparecidos.
Seqüestros intrafamiliares; violência doméstica e
castigos físicos; famílias recombinadas e novos
modelos de família; fugas de casa; precariedade e
despreparo da polícia para lidar com dramas
familiares.
A imprecisão conceitual do desaparecimento;
vazio legal em torno do tema; possibilidade de não
se falar em desaparecimento, e sim “busca” e
“localização”; relação entre “busca” e “invasão de
privacidade”; possibilidade da polícia atuar apenas
em casos de suspeita de crime; os limites e
possibilidades oferecidos pelo ECA.
Os trabalhos da Polícia Civil do Rio de Janeiro, do
Disque-Denúncia 100, da SEDH/PR, do SOS
Crianças Desaparecidas e dos Conselhos Tutelares
em casos de desaparecimento.

Possibilidades de prevenção e combate de
desaparecimentos
oferecidas
pela
Política
Nacional de Assistência Social, pelo Plano
Nacional de Convivência Familiar e Comunitária e
pela Política Nacional de Enfrentamento do
Tráfico de Pessoas; balanço dos avanços e recuos
vividos pela rede desde o I Encontro Nacional,
ocorrido em 2005.
Objetivos e resultados de projetos voltados para
Projetos
meninos de rua e crianças e adolescentes
necessitados de proteção e defesa judicial.
Objetivos e resultados de programas de prevenção
de violência doméstica, enfrentamento do tráfico
de pessoas, atendimento psicológico de famílias de
desaparecidos e criação de bancos de DNA.
A importância da mídia para a divulgação de casos
Informação, Prevenção e Divulgação:
e do tema dos desaparecimentos em geral.
mídia e campanhas
Quadro 2: Mesas e temas do II Encontro Nacional da ReDESAP
Políticas de atenção e projetos de
intervenção

O gestor do serviço público federal que à época do Encontro ocupava o papel central
na articulação da rede é um antropólogo que realiza pesquisas na área da infância e
64

adolescência, exerceu funções de coordenação na SNPDCA e dedica-se tanto a atividades de
ensino em universidade, quanto a consultorias para organizações internacionais. Pode ser
classificado como um autor-ator atuante na constituição e gestão da infância como domínio
de intervenção, se replicarmos o uso que Lugones (2009, p.47) faz da expressão cunhada por
Castro Faria. O gestor não só coordenou o evento, como também proferiu palestras em duas
mesas e presidiu o encerramento. Uma de suas falas, fundamentada em sua pesquisa de
doutorado junto a meninos e meninas em situação de rua, apontou o fenômeno da fuga do lar
como causa central do desaparecimento de crianças e adolescentes e, construindo uma cadeia
causal, determinou como razões primordiais da fuga do lar “conflitos familiares” e “novos
formatos de família”. Meninos e meninas fugiriam de suas casas porque nelas sofrem castigos
físicos e psicológicos, e nem eles, nem suas “famílias” têm encontrado instituições preparadas
para lhes ajudar a enfrentar essa situação.
No quarto capítulo, inscrevo a posição desse gestor no marco mais amplo do
posicionamento de gestores diante do desaparecimento de pessoas, refletindo sobre as reações
e os embates por ela provocados no evento e em outras reuniões da ReDESAP. Por ora,
contudo, a referência à sua fala é útil por indicar o alvo central dos debates levados a cabo no
II Encontro Nacional da ReDESAP, para o qual convergiram os temas sistematizados no
quadro acima: o que é o desaparecimento de pessoas, quais são suas causas e que posição as
“famílias” ocupam na ocorrência dos casos e podem ocupar em sua prevenção.
De modo análogo ao que o protesto da ONG Rio de Paz promoveu ao estabelecer
relação direta entre desaparecimentos e homicídios, a fala do gestor vinculou
desaparecimentos a fugas do lar. Nas palavras dele, o tema de sua apresentação era “conflito
familiar como motivo de desaparecimento”, e os fundamentos a partir dos quais ela havia sido
preparada eram os resultados de pesquisa junto a crianças e adolescentes que fugiram de casa.
Utilizando o termo desaparecimento como sinônimo de fuga do lar, o antropólogo afirmou
que o foco de iniciativas de combate e prevenção de casos devem ser as “famílias”,
causadoras últimas dos episódios de fuga/desaparecimento. Com isso, posicionou-se com
precisão diante do fenômeno do desaparecimento, determinando-lhe uma causa e sugerindo
que casos de desaparecimento de crianças e adolescentes são casos de fuga do lar.
Se o antropólogo apontou uma definição e uma causa para o fenômeno, já na mesa
seguinte um juiz de Direito pautou sua fala na “imprecisão conceitual do termo e os
problemas que ela gera”. O juiz propôs que o termo desaparecimento não fosse utilizado
como é, afirmando que melhor seria que as instituições que se envolvem com casos
65

particulares empregassem as palavras “busca” e “localização”. Com essa proposta, tornou
bastante objetiva e clara a vigilância e hesitação em torno do vocabulário usado para registrar
e falar de casos de desaparecimento que eu vinha notando no SDP. Além de defender essa
mudança vocabular, o juiz afirmou que “é preciso nos perguntarmos se se trata de
competência e responsabilidade da polícia ou se o desaparecimento é uma questão de
assistência social”, já que de sua perspectiva a maior parte dos casos dizem respeito a
situações de duvidosa configuração de crimes sujeitos a investigação policial.
Relembrando as falas do inspetor Fernando e de seus colegas de Setor que até aquele
momento eu ouvia no SDP, o evento da ReDESAP pareceu-me funcionar como instância de
amplificação de questionamentos como o dos policiais civis que lidam com o
desaparecimento, multiplicando agentes, reflexões e posições diante do fenômeno. Na rede,
como no SDP, em meio a posições definidas como a do gestor acima citado ou dos inspetores
Carlos Ernesto e Telma, o desaparecimento é objeto do mesmo conjunto de interrogações.
Vale registrar, porém, que embora suas interrogações ecoassem em alto e bom som no centro
de convenções, agentes do SDP não tiveram espaço no evento, nem mesmo na mesa que
contou com a apresentação sobre a atuação da Polícia Civil do Rio de Janeiro diante do
desaparecimento. Quem proferiu essa fala foi um policial do Departamento de Polícia
Especializada (DPE) a quem o inspetor Fernando havia passado as “estatísticas” produzidas
no SDP desde 1993. O policial se apresentou como “representante da Delegacia de Proteção
da Criança e do Adolescente (DPCA), da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima
(DCAV), da Divisão Anti-Seqüestro (DAS) e da Delegacia de Homicídios (DH)”.
Dessas quatro instituições, duas dedicam-se a ocorrências que necessariamente
envolvem crianças e adolescentes, e duas não. Tanto quanto a composição mais geral da
ReDESAP, a reunião dessas quatro repartições policiais na fala proferida no evento indica que
a inserção escorregadia do desaparecimento de pessoas na área da infância se faz presente
também na Polícia Civil do Rio de Janeiro. Se não é de interesse de membros da ReDESAP
inscrever o desaparecimento exclusivamente nesse domínio de intervenção, como indiquei a
partir da fala da mãe de desaparecido que preside ONG integrante da rede, ao mesmo tempo
esses agentes não apartam totalmente aquele problema dessa seara.
Narrado a seguir, o caso de Graziele coloca em cena essa escorregadia inserção do
desaparecimento na área da infância e adolescência, permitindo notar como ela aparece na
gestão cotidiana de casos em repartições policias. O caso cita a questão, mas não confere a ela
importância, nem a trata com acuidade. Graziele fugiu de casa aos 15 anos e seu caso foi
66

arquivado quando ela já havia completado 16. Cerca de um ano e meio depois de fugir de
casa, Graziele requereu e obteve uma carteira de identidade. A emissão do documento, que
chegou ao conhecimento do policial que cuidou do caso no SDP, engendrou o arquivamento
da Sindicância, sobrepondo-se em importância a quaisquer especificidades legais e/ou morais
que seus 16 anos de idade pudessem exigir, dadas as “estruturas jurídico-estatais brasileiras
[que] vêm sendo modificadas como conseqüência nas novas orientações legais, especialmente
introduzidas no país com a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”
(Schuch, 2009, p.253). Em seus registros, o policial que cuidou do caso no SDP firmou que
Graziele havia atingido a maioridade.
O caso de Graziele, dentre muitos episódios qualificados como fuga do lar que
encontrei no SDP, é também um dos vários casos depositados nas gavetas do Setor que
expõem a relevância atribuída aos documentos no Brasil, mencionada no começo desse
capítulo. Além disso, assim como muitos desaparecimentos o caso deve seu desfecho ao fato
de que “documentos têm vida simbólica dentro de um determinado Estado” (Peirano, 2006a,
p.35), e não só identificam indivíduos e permitem sua contagem como membros de
populações, mas também mantêm com eles vínculos que vão além da referencialidade:
Reconhecidos e regulados, os papéis estabelecem o indivíduo como único e
particular e produzem, no mundo moderno, um máximo de singularização e
uma individualização idealmente absoluta. O documento, assim, legaliza e
oficializa o cidadão e o torna visível, passível de controle e legítimo para o
Estado; o documento faz o cidadão em termos performativos e obrigatórios.
(Idem, Ibidem, p.27)

A carteira de identidade de Graziele, fazendo a localização da adolescente, encerrou
seu caso de desaparecimento – caso este que, permitindo o uso do termo da mesma forma
como o empregara o gestor que coordenava a ReDESAP quando do II Encontro Nacional,
traduzia-se também em mais um caso de fuga do lar.

GRAZIELE
Dia 7 de fevereiro de 2007, a dona de casa Maria das Graças foi ao Conselho Tutelar
de Madureira comunicar que sua filha Graziele, de 15 anos, havia fugido de casa. A
conselheira que a atendeu orientou Maria das Graças a procurar uma delegacia e, lá, solicitar o
registro do desaparecimento da adolescente. Para auxiliá-la, a conselheira preencheu um
formulário de requisição de serviço que Maria da Graça levou consigo à delegacia, solicitando
por escrito a feitura do Registro de Ocorrência.
67

Maria das Graças seguiu então para a delegacia, onde a requisição da conselheira foi
atendida, depois de apreciada pelo delegado titular. Além de dados pessoais da menina e de sua
mãe, apenas o texto abaixo transcrito foi redigido:
Relata a comunicante que procurou o Conselho Tutelar 6 - Madureira, para
comunicar o desaparecimento de sua filha Graziele Rodrigues, sendo
atendida mediante a RS 476 [Requisição de Serviço], que a encaminhou a
esta UPAJ [Unidade de Polícia Administrativa e Judiciária], com o referido
documento, onde o Dr. Delegado exarou o seguinte despacho: ao plantão
para proceder o registro, caso se converta em competência de nossa área.
Em 7/2/07.

Cerca de um mês depois, o inspetor que efetuou o registro remeteu Mandado para a
casa de Maria das Graças, intimando-a a comparecer à DP “para prestar esclarecimentos sobre
o fato em apuração: desaparecimento de Graziele Rodrigues. Trazer retrato da desaparecida.”
O mandado estabeleceu data e horário para que Maria das Graças fosse à delegacia, mas ela
não compareceu. Alguns dias depois, ficou decidido que uma equipe de policiais iria ao
endereço residencial fornecido por Maria das Graças “a fim de que a intimação fosse feita
pessoalmente, tendo a equipe concluído que não existe tal rua no bairro, podendo ser esta no
alto do Morro da Pedreira, dificultando a entrega da intimação.”
Sem que Maria das Graças tivesse sido ouvida, como queria o inspetor que cuidava do
caso de sua filha, os documentos relativos ao desaparecimento de Graziele foram
encaminhados para o SDP. Poucos dias depois de recebidos no Setor, porém, os papéis foram
devolvidos à DP, sob a justificativa de que ninguém havia sido ouvido, e “sem que a foto da
desaparecida fosse anexada”. O caso, com isso, voltou à DP onde fora registrado e lá
permaneceu até novembro de 2007. No final do mês, foi reencaminhado ao SDP.
Em julho de 2008, cerca de um ano e meio depois de iniciado, o caso foi arquivado
como Sindicância Solucionada. Por meio de pesquisas em sistemas de informação, o agente do
Setor encarregado do caso constatou que um documento de identidade em nome de Graziele foi
emitido em junho de 2008. Acompanhada de registro sobre a idade da adolescente, essa
informação foi encarada como justificativa para encerrar o caso, assim concluído:
Segundo pesquisa realizada no sistema ICA/DETRAN, consta RG (...), de
21/06/08, em nome da menor em referência, residente na Estrada do
Camboatá, 4040, Costa Barros, posterior a data do registro de
desaparecimento, após atingir maioridade. Face o informado, solicito
encerramento das investigações, haja vista que a Sindicância está
45
solucionada.

A mãe de Graziele, diante da fuga da filha, procurou pelo Conselho Tutelar e por uma
delegacia de polícia. Ambas repartições produziram documentos sobre a fuga da adolescente,
45

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 015/08 do SDP/DH.

68

nomeando-a como desaparecimento. Cerca de trinta dias depois, foi uma equipe da delegacia
que procurou por Maria da Graça, mas diante de endereço que poderia “estar no Alto do
Morro da Pedreira” ou inexistir, não a localizou. A intenção da equipe de policiais era
entregar à mãe de Graziele um terceiro documento, que oficializava o convite para que ela
voltasse à delegacia para falar sobre o caso e levasse uma fotografia da menina.
Passado mais de um ano da fuga de Graziele e da não localização de sua mãe, uma
diligência levada a cabo por um agente do SDP engendrou o arquivamento do caso como
Sindicância solucionada. Não que Graziele tivesse sido encontrada pessoalmente por
policiais, como os agentes da DP desejavam que tivesse ocorrido à sua mãe para que a ela
fosse entregue a intimação. O que justificou o encerramento de seu caso como “solucionado”
foi a emissão da carteira de identidade de Graziele, detectada pelo policial que cuidou do caso
no SDP por meio de buscas em sistemas de informações e dados disponíveis à Polícia Civil
como a Rede INFOSEG.
No Brasil, a carteira de identidade, ou RG (abreviatura para Registro Geral), traz em si
a impressão digital de seu titular. Conforme analisam os trabalhos de Corrêa (1982), Carrara
(1984), Cunha (2002) e Pechman (2002), a consolidação da datiloscopia - tomada de
impressões digitais - como método de identificação civil é parte constitutiva do denso e longo
percurso histórico que diz respeito, a um só tempo, ao processo de formação do Estado
brasileiro e à consolidação de campos do saber entre os quais tem papel preponderante a
Antropologia.46 Práticas de identificação como a datiloscopia e aparatos para documentação
de identidades individuais são meios através dos quais os Estados nacionais modernos
definem quem são (e quem não são) seus cidadãos, conferindo-lhes legibilidade (Caplan &
Torpey, 2001; Trouillot, 2001). Condição de possibilidade para o exercício de tarefas
constituintes dos Estados, como por exemplo a cobrança de impostos e a composição de
exércitos (Scott, 1998; Scott, Theranian & Mathias, 2002), a legibilidade dos indivíduos
garantida por técnicas como a datiloscopia engendra efeitos que podem ser encontrados tanto
no trecho do trabalho de Carrara (1984) citado a seguir, quanto no caso de Graziele:
Se a identificação aparece no contexto histórico de uma sociedade que se
complexifica e se industrializa, ao mesmo tempo em que se organiza
politicamente reforçando a centralização do poder, por outro lado, enquanto
prática, ela proporcionará a continuidade do mesmo processo, pois „garante‟
46

O sistema datiloscópico Vucetich foi concebido em 1891 na Argentina, tendo a princípio se difundido na
América Latina e posteriormente na Europa. No Brasil, primeiro país a adotá-la oficialmente, foi difundido não
simplesmente como uma técnica, mas defendido por uma doutrina (Carrara, 1984) e tomou proporções amplas
na década de 1930, integrando um projeto de identificação civil obrigatória (Corrêa, 1982). Sobre o método
Vucetich, ver também Ruggiero (2001).

69

o florescimento do indivíduo em toda a sua impossibilidade, solitário e
ausente de qualquer grupo social concreto, liberto de qualquer outro para se
determinar enquanto eu, mas nem por isso menos controlado, vigiado e
conhecido pelo olhar policial do Estado que se institui. Se ela, enquanto
técnica de controle, responde a uma certa acumulação um tanto caótica de
homens, ao mesmo tempo é o meio para que essa acumulação continue a
passos largos. (Carrara, 1984, p.24)

Para fins de identificação e controle de indivíduos e populações por parte de órgãos e
instituições de administração pública estatal, tanto a datiloscopia, quanto a carteira de
identidade como a que encerrou o caso de Graziele possibilitam que a existência social de um
cidadão independa de sua inserção e presença em grupos e relações sociais determinados.
Afinal, o desaparecimento da menina foi solucionado assim que o número do RG, emitido
tempos depois que ela fugira de casa, foi detectado no SDP a despeito do fato de nem
Graziele, nem sua mãe terem sido fisicamente encontradas.
Se retomarmos os casos de Álvaro e Sílvio, narrados em distintos pontos deste
capítulo, encontramos indicações da possibilidade de um sujeito existir ao largo do mundo
dos documentos, ainda que sob pena de perder a titularidade sobre seus bens e direitos. A
partir do caso de Graziele, por sua vez, deparamo-nos com outra face dessa moeda: a
possibilidade do mundo dos documentos existir e ser revestido de importância ao largo (ou
acima) do mundo dos sujeitos. O arquivamento do caso da menina foi efetuado sem que
nenhuma diligência fosse levada a cabo depois da constatação da emissão do RG em seu
nome. Com isso, seu desaparecimento foi dado por solucionado sem que qualquer informação
sobre onde e com quem ela está ou esteve tenha sido produzida e registrada.
Não obstante, é preciso ressalvar que o mundo dos documentos pode incidir de
maneiras surpreendentes sobre o mundo dos sujeitos. Se a separação entre eles é uma
possibilidade em determinadas situações, por outro lado é bastante improvável que ela resista
por muito tempo às exigências burocráticas constitutivas da vida cotidiana no mundo
contemporâneo, que, como afirmei anteriormente, é recortado de um lado a outro por
fronteiras de Estados-nacionais. Basta relembrarmos a reconstituição do vínculo de filiação
entre Álvaro e sua filha Valéria, que ocorreu não apesar, mas em função do desaparecimento
do servidor público e dos trâmites burocráticos por ele engendrados.
Mas, afinal, o que encerra um caso de desaparecimento, se tomarmos a palavra
encerrar nos dois sentidos que ela comporta? O que lhe dá fim, desfecho, término? E o que
ele abrange, inclui, compreende? O desaparecimento de Graziele, por exemplo, encerra um
episódio de fuga do lar e tem como desfecho a emissão de um documento de identidade. Não
70

obstante, os casos de Álvaro, Daniela, Rodrigo, Sílvio e Geraldo abrangem outros
acontecimentos

e

desfechos,

explicitando

a

heterogeneidade

que

caracteriza

o

desaparecimento de pessoas. Essa heterogeneidade, como clareiam reflexões dos policiais do
SDP e posições enunciadas no II Encontro Nacional da ReDESAP que busquei recuperar no
presente capítulo, leva os agentes sociais que lidam com o desaparecimento a interpelarem
uns aos outros (e a si mesmos) acerca do que é esse fenômeno e sobre quem recai a
responsabilidade pela gestão, prevenção e combate dos múltiplos casos que acontecem
diariamente no Brasil.
Nos dois próximos capítulos, detenho-me sobre rotinas (capítulo 2) e artefatos
(capítulo 3) engendrados pelo registro, investigação e arquivamento dos casos de
desaparecimento que li, transcrevi e analisei a partir dos arquivos do SDP. Meu objetivo é
apresentar dimensões e elementos dos casos que atravessam a heterogeneidade do fenômeno e
aparecem em muitos dos registros com que tive contato ao longo da pesquisa. Feito isso,
retomo o evento da ReDESAP acima referido, entre outros, para refletir sobre a construção do
desaparecimento de pessoas, a despeito da heterogeneidade de casos que comporta, com um
só “problema social” (capítulo 4).

71

Capítulo 2
Salvo melhor juízo:
Uma ocorrência policial e suas rotinas

“O desaparecimento é a quebra da rotina. É quando as coisas fogem do hábito, do
comum, do cotidiano.” Com essa curta e expressiva frase, Cecília, fundadora de uma
associação de familiares de desaparecidos que conheci no II Encontro Nacional da ReDESAP,
respondeu a uma pergunta minha, menos dirigida e mais compartilhada com ela no evento.
A entrada em campo no SDP e na ReDESAP colocou-me em contato com pessoas
inscritas em diversas instituições e com seus questionamentos e perspectivas diante do
desaparecimento de pessoas. Em conjunto, esses questionamentos e perspectivas colocam em
relevo que o desaparecimento não só não é crime, como também não possui definição que
sirva de diretriz a todos aqueles que lidam com casos particulares e debatem sobre o
fenômeno em geral. No vácuo de uma conceituação delimitada, múltiplas formas de abordá-lo
constituem-se cotidianamente, casos heterogêneos são reunidos e indagações sobre quem
deveria ser responsável pelo fenômeno são levantadas.
A imprecisão conceitual e ausência de definição legal do que seja desaparecimento
foram objeto não só dos debates e embates do II Encontro Nacional da ReDESAP, mas
também de outros eventos da rede de que participei. Também no SDP, como venho indicando
desde a Introdução, essas questões suscitam conversas e reflexões. Mais do que isso, aliás, no
Setor elas propiciam espaços comunicativos relativamente amplos para que policiais definam
constantemente, diante de casos particulares, o que é e o que não é desaparecimento. Ao fazêlo, buscam delimitar também o que é e o que não é atribuição da polícia, não por arrolarem
tarefas que seriam responsabilidade de policiais, mas por oporem a idéia de “problema da
polícia” ao que chamam de “problemas de família” e “problemas de assistência social”.
Foi diante desse quadro que, no último dia do II Encontro Nacional da ReDESAP,
compartilhei com algumas das pessoas de que me aproximei uma pergunta sobre como, afinal,
poderíamos definir o desaparecimento de pessoas. E foi dizendo que o desaparecimento “é
quando as coisas fogem do hábito” que Cecília respondeu à minha indagação, apontando algo
sugerido também na (parca) literatura disponível sobre o fenômeno.
Para Hogben (2006), o desaparecimento, tomado como problema sociológico, propicia
reflexões sobre o tempo e a repetição rotineira de atividades como dispositivos que ordenam
72

relações. Analisando apelos e relatos em torno de desaparecimentos divulgados em meios de
comunicação britânicos, a autora sustenta que, do ponto de vista daqueles que reportam casos,
o desaparecimento é um evento intersticial, saturado de incertezas, que se traduz em espera e
inaugura uma temporalidade: o presente estendido. O desaparecimento implica a suspensão
do que a autora chama de “calendários privados”, esvaziando de sentido marcos temporais
que pautam vidas pessoais e familiares. Ademais, as incertezas que o constituem colonizam
com perguntas irrespondíveis o passado e o futuro daqueles que esperam pelo desaparecido.
Cecília costuma contar quantos anos, meses e dias se passaram desde que sua filha
desapareceu, aos 13 anos, quando voltava de uma festa de aniversário. Na última vez que
estive com Cecília, por ocasião não do II, mas do III Encontro Nacional da ReDESAP, na
cidade de Boa Vista, fazia 14 anos, 10 meses e 13 dias que sua filha desaparecera. Um dos
dias do encontro da rede coincidiu com a data de aniversário de Cecília. Reunidos em torno de
um bolo, demos a ela um presente e cantamos “Parabéns pra você”. Cecília é muito querida
pelos membros da ReDESAP e desempenha papel central nos debates em torno do
desaparecimento que o constroem como problema social, como discuto no capítulo 4. Ainda
que lisonjeada e visivelmente contente com a homenagem, depois do “Parabéns pra você”
Cecília afirmou, com lágrimas nos olhos, que desde que sua filha desapareceu eventos como
seu aniversário nunca mais foram os mesmos. Ela tinha o hábito de comemorá-los, mas
depois do desaparecimento da menina não fez mais festas.

2.1 Uma rotina para um fato atípico
Muito embora relações sociais demandem atenção continuada aos objetos e eventos
mais ordinários da vida cotidiana, segundo Das (2007) certo impulso teórico de cientistas
sociais nos conduz freqüentemente a escapar do rotineiro e buscar acontecimentos
grandiloqüentes que seriam extraordinários e destoantes da vida cotidiana. Como mostram
pesquisas da autora junto a vítimas de episódios de violência coletiva, contudo, eventos
críticos estão sempre enraizados no ordinário, ainda que não possam ser capturados em toda
sua força pelo repertório de ação e pensamento disponível no cotidiano ou, nos termos dela,
pela “gramática do ordinário”. (Das, 2007, p.7) A experiência de um evento crítico e de seus
efeitos disruptivos é, ela mesma, rotineira: aquele que passa pelo acontecimento que escapa
do ordinário e não cabe em seus marcos de inteligibilidade vive essa experiência

73

cotidianamente. Compreender tais eventos e seus desdobramentos, portanto, demanda o que a
autora chama de descida (descent) ao ordinário.
Desaparecimentos, como indicam as falas de Cecília, são concebidos e vividos como
rupturas do cotidiano, muitas vezes dramáticas e sofridas. Falas e posicionamentos de outras
mães de desaparecidos que integram associações e ONGs tornam isso patente, como também
discuto no capítulo 4, assim como as entrevistas com mães de crianças desaparecidas feitas
por Oliveira (2008). Por outro lado, tais quebras de rotina são parte da rotina mesma dessas
pessoas, que vivem suas vidas integrando a elas a ausência do desaparecido. O trecho do
depoimento de uma mãe atendida por uma das ONGs que fazem parte da ReDESAP, abaixo
citado, deixa isso palpável. O desaparecido citado, Quitério, foi encontrado anos depois de ter
seu desaparecimento reportado à polícia. O depoimento de sua mãe é parte de um vídeo
institucional exibido no II Encontro Nacional da ReDESAP.
(...) Ele sumiu e minha vida era chorar e procurar. Eu arrumava o quarto dele
todos os dias, eu checava as crianças debaixo das marquises pra ver se ele
não estava entre elas. Tudo o que eu fazia era ele que estava me fazendo
falta. Uma comida que eu ia pegar, era o Quitério que estava faltando; uma
coisa que eu ia comprar, era o Quitério que estava faltando. (...)

Ainda que seja tarefa crucial para uma abordagem mais ampla do fenômeno, não é
meu objetivo refletir nesta tese sobre a experiência do desaparecimento e sobre como,
enquanto evento crítico, ele tanto implica ruptura do cotidiano, quanto se torna parte da rotina
das pessoas envolvidas. Não obstante, o propósito que me guia de certo modo tangencia essa
tarefa. Afinal, para compreender o “gestar e gerir” do desaparecimento é imprescindível
pensar no cotidiano e, tomando de empréstimo a expressão de Das (2007), descer ao
ordinário. O ordinário a que é preciso descer, porém, diz respeito não à rotina das mães,
famílias e casas dos desaparecidos, e sim de repartições burocráticas como delegacias e o
SDP, às quais pessoas envolvidas em desaparecimentos comparecem para reportá-los.
A comunicação dos desaparecimentos nessas repartições, como fica especialmente
claro a seguir, no caso de Francisco, de fato os constrói como quebras de rotina. Contudo, a
forma como casos são registrados, investigados e arquivados constitui, ela mesma, uma
rotina. Procedimentos de documentação, oitivas de comunicantes, remessas de documentos a
diferentes instituições e o próprio arquivamento dos casos compõem uma rotina burocrática

74

passível de escrutínio e reflexão.47 No presente capítulo, procuro apresentar alguns passos
dessa rotina, destacando os procedimentos levados a cabo em delegacias e no SDP chamados
pelos policiais do Setor de “trâmites legais”. Com isso, busco tanto refletir sobre as
imprecisões oficializadas no decurso dessa rotina, discutindo seus efeitos sobre os casos de
desaparecimento, quanto expor os documentos, registros e fragmentos a partir dos quais
construí as narrativas que atravessam toda a tese.
Ainda que repleta de formalidades, jargões policiais, procedimentos e formas
narrativas padronizadas, essa rotina é feita de relações e constrói relações, como vimos no
caso de Álvaro. Ademais, essa rotina engendra alguns produtos, a que chamo de artefatos da
gestão dos casos. Tais artefatos são os seguintes: conselhos, compromissos, reputações,
relações de dependência e controle sobre corpos e territórios. No presente capítulo, debruçome sobre a rotina percorrida por ocorrências de desaparecimento, destacando as formalidades,
padrões de registro e formas narrativas presentes nos casos; no próximo, foco os artefatos por
ela engendrados. Tanto aquela rotina, quanto estes artefatos consistem nos meios e resultados
da concepção e gestão dos desaparecimentos de pessoas guardados nos arquivos do SDP.
Comecemos então pelo caso de Francisco. Ao contrariar a rotina que compartilha com
sua tia Graça, Francisco teve seu nome registrado em um RO de desaparecimento.

FRANCISCO
Francisco, servente de pedreiro de 29 anos, mora na casa de sua tia Graça, em Niterói.
Todos os dias, ao final do expediente, Francisco volta para casa a tempo de jantar com Graça.
Se por algum contratempo ou mudança de planos não o faz, telefona avisando que não chegará
para o jantar. Dia 17 de março de 2007, contrariando o hábito, Francisco não retornou à
residência, nem telefonou para sua tia. Graça esperou que ele aparecesse durante os dois dias
que se seguiram, mas diante da falta de notícias, decidiu ir à delegacia.
Na repartição, Graça afirmou que Francisco “não está acostumado a fazer isso e que ele
tem problema psiquiátrico e faz tratamento de saúde.” Disse que no dia seguinte ao
desaparecimento procurou por seu sobrinho em alguns hospitais, mas constatou que ele não
47

Termo empregado em todo canto com os mais diversos sentidos, muitos deles pejorativos, burocrático, aqui,
não diz respeito senão a uma forma de administração. Segundo a conceituação de Max Weber (1963; 2000), a
burocracia é uma das formas que o tipo de dominação racional-legal, característico dos Estados-nacionais
modernos, pode tomar. Um quadro administrativo burocrático é constituído por funcionários que ocupam
ativamente cargos públicos e seus arquivos de documentos e expedientes - elementos que, vale dizer, servem
perfeitamente a uma descrição do SDP ou de qualquer DP que tenha produzido registros sobre os casos de
desaparecimentos narrados ao longo deste trabalho. Nos escritórios ou repartições burocráticas, “aplica-se o
princípio da documentação dos processos administrativos, mesmo nos casos em que a discussão oral é, na
prática, a regra ou até consta no regulamento”. (Weber, 2000, p.143)

75

estava, nem esteve em nenhum deles. As falas de Graça deram origem a um Registro de
Ocorrência em nome de Francisco, que foi encaminhado ao SDP quinze dias depois.
Apenas três dias depois da remessa do documento para o SDP, Graça foi novamente à
delegacia, agora pelo motivo inverso do que a levara à repartição da primeira vez: notificar que
teve notícias de seu sobrinho e sabia onde ele estava. Como revelam os registros abaixo,
Francisco estava trabalhando em outro município durante todo o tempo em que sua tia o
considerou desaparecido.
(...) Graça Teixeira afirmou que o mesmo encontrava-se trabalhando como
biscateiro em obras (servente de pedreiro) no Município de Mangaratiba/RJ,
não avisando, alegando que ligava para casa, mas o telefone não funcionou
(é da VESPER e é com cartão de crédito), não conseguindo avisá-la; que
Francisco continua trabalhando em Mangaratiba; que [Graça] compareceu
hoje somente para avisar a esta unidade policial. E mais não disse.

As declarações de Graça foram assim registradas e seguiram, em cópia, para o SDP.
Dois meses depois, o caso de Francisco foi arquivado no Setor como Sindicância
Solucionada.48

Movida pela preocupação com seu sobrinho, que por mais de dois dias não voltara
para casa nem fizera contato, Graça procurou a polícia. Sua ida à delegacia teve como
resultado a produção de Registro de Ocorrência e Termo de Declarações e, em seguida, a
remessa desses documentos ao SDP, no prazo estipulado pela regulamentação pertinente. Três
dias depois da remessa, Graça voltou à DP e comunicou que já sabia onde estava seu
sobrinho, o que resultou em outro Termo de Declarações, remetido dias depois para o SDP.
No Setor, o RO e os dois Termos foram reunidos, compondo uma Sindicância, e arquivados
como caso solucionado.
Nem na DP em que o RO foi produzido, nem no SDP diligências além do próprio
registro e arquivamento de documentos em nome de Francisco foram levadas a cabo. O caso
do servente de pedreiro teve início e fim com o preenchimento de documentos a partir das
falas de Graça, apontando para a lógica cartorial vigente em repartições policiais de que falam
Paes (2008) e Miranda et al (2010). A partir de pesquisas de campo em delegacias e análises
de Registros de Ocorrência, as autoras sustentam que em repartições policiais providências
são tomadas mais para que prazos legais e atribuições funcionais sejam cumpridos, e menos
para que investigações sejam alimentadas. Isto é, o preenchimento de papéis em DPs ou

48

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 090/07 do SDP/DH.

76

setores como o SDP tem como finalidade primeira o cumprimento da própria obrigação de
documentação.49
Não se trata, contudo, de um preenchimento de papéis tautológico, com fim em si
mesmo e desprovido de efeitos e especificidades. A lógica cartorial vigente em repartições
policiais responde também à necessidade de estabelecer a veracidade do que fica depositado
nos documentos. Não que policiais que efetuam registros atribuam confiabilidade às falas de
cidadãos que, como Graça, vão a delegacias expressar suas preocupações e solicitar serviços.
Antes, a veracidade do que é registrado fundamenta-se na fé pública encarnada pelo policial,
que tem a prerrogativa e a obrigação de registrar as solicitações e preocupações dos cidadãos.
Em suma, cada policial atesta a veracidade dos registros que faz e assina, mas não do
conteúdo das falas dos cidadãos que procuram por seus serviços:
Quem tem fé pública nesse sistema cartorial é quem atesta, não quem
simplesmente relata. Assim, entendo que a lógica do documento que tem de
ser registrado e protocolado precede a lógica do registro como um insumo
para a investigação.” (Paes, 2008, p. 175)

Enquanto a fé pública é encarnada pelo policial, o cidadão que vai à repartição
também assume seu quinhão de responsabilidade pela veracidade do que resta documentado.
O Termo de Declarações produzido a partir das falas de Graça sobre as notícias mais
recentes que teve de seu sobrinho é bastante revelador disso, já que, como todo Termo de
Declarações produzido em repartições policiais, é encerrado pelo jargão “E mais não disse”,
que tem como equivalentes “Nada mais disse” e “Nada mais disse nem lhe foi perguntado”.
Essas formas narrativas são utilizadas por policiais para concluir todo Termo de Declarações
que registram, dando por finalizadas as falas que ficam depositadas. Indicam, portanto, a
prerrogativa dos policiais de interromper os registros e dar-lhes ponto final.
Após o “E mais não disse” que o policial emprega para encerrar o conteúdo do
Termo, porém, o próprio formulário que dá corpo ao documento traz em si outra forma
narrativa, que responsabiliza o cidadão que prestou “declarações” pelo conteúdo dos registros.
Impressa no formulário logo acima de espaços destinados a assinaturas, a frase certifica que
aquele cidadão, “Nada mais havendo, mandou a Autoridade Policial encerrar o presente
49

Lançado em 1999 e ainda em processo de implementação, o Programa Delegacia Legal, que hoje dá forma a
muitas DPs do Rio de Janeiro, vem reestruturando e informatizando os procedimentos e modelos de atuação da
Polícia Civil fluminense. O Programa padronizou a documentação de ocorrências e investigações e tornou
obrigatório o preenchimento de todos os campos dos documentos cujos formulários encontram-se disponíveis
nos computadores das delegacias. Sem que todos os campos dos documentos sejam preenchidos, é impossível
que o policial encerre o procedimento. Sobre o Programa Delegacia Legal, ver o relatório de pesquisa de Misse e
Paes (2004) e os trabalhos de Miranda et al (2010) e Kant de Lima et al (2008).

77

Termo que, lido e achado conforme, assina com o(a) Testemunha.” Com essa frase, o
formulário determina que todo cidadão que presta “declarações”, ao encerrar suas falas ou têlas encerradas pelo “Nada mais disse” firmado pelo policial, leia o Termo e, depois de “lido e
achado conforme”, o assine juntamente com uma testemunha que também possa assegurar
que suas falas foram propriamente registradas. Ler, achar conforme e assinar, inclusive com a
presença de testemunha, é responsabilizar-se pelo conteúdo do documento.
A partir dos casos de Francisco e, a seguir, de Lúcio, e levando em conta a lógica
cartorial vigente nas repartições policiais e a partilha de responsabilidade pela veracidade dos
registros entre policiais e cidadãos, descrevo doravante os passos fundamentais da rotina
burocrática constitutiva de casos de desaparecimento. Embora essa rotina apresente-se
dilatada e acrescida de procedimentos diversos em alguns casos, um conjunto mínimo de
medidas dá forma a todo desaparecimento. É esse conjunto que busco descrever, tanto para
sobre ele refletir, quanto para expor a matéria prima a partir da qual construí as narrativas do
desaparecimento de Francisco e de todos desaparecidos citados ao longo deste trabalho.
A rotina fundamental percorrida por todos os casos tem início com a ida de alguém a
uma repartição policial. Movidos por sentimentos e preocupações, como Graça, por interesses
patrimoniais ou burocráticos diversos, como nos desaparecimentos narrados no capítulo
anterior, ou pela decisão de solicitar investigações policiais em torno de um paradeiro, entre
tantas outras razões imponderáveis, aqueles que se dirigem a DPs são chamados
comunicantes. A ida do comunicante à delegacia pode responder a razões imponderáveis
porque, como mostra o caso de Lúcio, é difícil determinar o que distingue uma saída de casa
e/ou a falta de notícias sobre alguém que não é reportada à polícia de acontecimentos
semelhantes que se tornam casos de desaparecimento.
A rotina rompida pelo desaparecimento de uma pessoa pode ser constituída de saídas
de casa e/ou intervalos de tempo que se passam sem que a pessoa dê notícias de seu paradeiro
para familiares, amigos e conhecidos. Enquanto são consideradas rotineiras, essas saídas e
faltas de notícias não são reportadas nem registradas como casos de desaparecimento. Em
determinado episódio aparentemente habitual, por motivos que só aparecem nos documentos
de forma vaga, a ausência rotineira da pessoa ou de notícias a seu respeito pode ser vista
como fora de ordem e levar alguém à delegacia. No caso de Lúcio, conforme ficou registrado,
a duração de uma de suas saídas de casa, que se distinguiu das costumeiras por não ter sido
“curta”, teria levado seu pai à delegacia e dado início a seu caso.

78

LÚCIO
Filho de Manoel e Walderez, Lúcio nasceu em 1962, é solteiro e vive com os pais.
“Tem problemas mentais” e costuma sair de casa sem aviso e retornar depois de curtos
intervalos de tempo. Uma dessas saídas aconteceu em novembro de 2006, mas contrariando o
costume, até fevereiro do ano seguinte Lúcio não havia voltado. Foi então que Manoel, depois
de procurar pelo filho em diversos hospitais, decidiu ir à delegacia. Isso aconteceu dia 7 de
fevereiro de 2007.
Na DP próxima a sua residência, Manoel relatou o desaparecimento de Lúcio, que foi
registrado como tendo ocorrido entre “01/11/2006 e 07/02/2007”. Manoel descreveu seu filho
fisicamente, informou que ele era portador de “problemas mentais” e afirmou não possuir
retratos dele, “nem mesmo de criança”.
Exatos 30 dias depois do registro de desaparecimento de Lúcio, afirmando que “apesar
dos esforços não foi possível localizar o paradeiro do referido nacional até o presente
momento” e que o prazo normativo para investigação na DP estava esgotado, o inspetor que
tomara as declarações de Manoel solicitou que o caso fosse encaminhado para o SDP.
Em dezembro de 2007, passados já nove meses que o registro do caso se encontrava no
SDP, Manoel foi pessoalmente ao Setor informar que Lúcio já estava em casa. Do encontro de
Manoel com um inspetor, restou registrado um pequeno manuscrito, assinado pelo pai de
Lúcio. No manuscrito, lê-se que Lúcio “retornou para casa quatro meses depois de
desaparecer” e, mais uma vez, que ele “tem problemas mentais”.50

Diferente do que se passou no caso de Lúcio, é comum que aquele que decide ir à
delegacia reportar algo que resta registrado como desaparecimento leve consigo uma
fotografia do desaparecido. Caso as falas desse cidadão, como ocorreu a Graça e Manoel,
sejam encaradas por um policial como comunicação de desaparecimento, configura-se o
marco inicial da rotina de todo caso: a produção de Registro de Ocorrência ao qual é
anexada, quando há, fotografia do desaparecido. Assim como muitas ausências e faltas de
notícias não conduzem pessoas a delegacias, certamente a ida de muitas outras a repartições
policiais não redunda em Registros de Ocorrência e não dá início a casos de
desaparecimento. O desaparecimento de Antônio, por exemplo, não foi registrado em duas
DPs a que sua ex-mulher Maria se dirigiu antes de chegar ao SDP, onde finalmente foi
produzido RO. Embora os arquivos do SDP documentem apenas as solicitações que foram
ouvidas e registradas como casos de desaparecimento, portanto, dentro de suas gavetas há
anúncios de solicitações que, como quase ocorreu ao desaparecimento de Antônio, não se
50

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 117/07 do SDP/DH.

79

tornaram casos. Esses anúncios indicam o que considero o primeiro juízo fundamental
emitido por policiais diante de desaparecimentos: a decisão de registrar (ou não) as falas
daquele que vai à DP reportar o caso, triando os relatos que ouve na repartição. Feitos os ROs
referentes a relatos que não foram descartados nessa triagem, enquanto permanecem na DP os
casos têm estatuto de Verificação Preliminar de Informação (VPI).
O próprio caso de Antônio traz em si a razão mais freqüentemente evocada por
policiais para não registrarem algumas solicitações como casos de desaparecimento: o tempo.
Na primeira repartição policial a que Maria se dirigiu para comunicar o desaparecimento do
ex-marido, foi informada de que sua comunicação só seria registrada depois de passadas 48hs
da última vez que ela esteve com Antônio. O intervalo de dois dias, para o policial, faria com
que a ausência ou a falta de notícias de alguém de fato configurasse desaparecimento. Antes
de expirado esse prazo, porém, não haveria caso. Comum em delegacias, essa prática é
chamada por alguns policiais de “mito das 48hs” ou “mito das 24hs”. Orientados por esse
“mito”, muitos agentes alegam que antes de um ou dois dias sem que o comunicante tenha
notícias ou encontre o desaparecido não se pode falar, ainda, em desaparecimento. 51
Esperadas ou não as 24 ou 48hs solicitadas em algumas repartições, todo Registro de
Ocorrência preenchido a partir das falas de comunicantes, assim como todo Termo de
Declarações, é feito em formulário próprio, que “impõe ao policial uma forma de contar o
evento” (Paes, 2008, p.172). Em linhas gerais, o formulário de RO oferece espaço para que as
pessoas envolvidas na ocorrência sejam identificadas, para que a própria ocorrência seja
descrita e para que as diligências realizadas por policiais para esclarecê-la e/ou solucioná-la
sejam paulatinamente registradas. O primeiro registro de todo RO, porém, é o título da
ocorrência, registrado em negrito no topo do documento. O título reflete o segundo juízo
fundamental feito pelo policial que confecciona o RO, depois da decisão primeira de registrar
ou não o caso. Ao intitular o RO a partir das falas do comunicante que tem seus relatos
registrados, policiais decidem
de que se trata o evento (classifica o fato como crime ou não), depois, por
meio de um processo de criminalização, procuram impor uma definição legal
ao crime, ver qual artigo do Código Penal pode ser atribuído ao fato – em
51

Para combater esse mito, mas apenas diante de casos envolvendo crianças, adolescentes e deficientes, em julho
de 2001 foi sancionada pelo então governador do estado do Rio de Janeiro a chamada “Lei Estadual de Busca
Imediata”, que “determina à autoridade policial e aos órgãos de Segurança Pública a busca imediata de pessoa
desaparecida menor de 16 (dezesseis) anos ou pessoa de qualquer idade portadora de deficiência física, mental
e/ou sensorial” (Rio de Janeiro, 2001). Conforme discuto no capítulo 4, lei semelhante, mas válida para todo o
território nacional e apenas para desaparecimentos de crianças e adolescentes, foi sancionada pelo presidente da
República em dezembro de 2005.

80

caso de suspeita ou se estiver sustada a existência do crime, são atribuídas
algumas categorias administrativas, tais como remoção de cadáver, fato
atípico ou auto de resistência. (Paes, 2008, p. 173)

O título mais comum dado aos ROs de desaparecimento é “Desaparecimento –
Desaparecimento (Outros)” e “Fato Atípico – Desaparecimento (Outros)”. No conjunto de
casos com que tive contato, encontrei apenas quatro títulos destoantes: “Fato Atípico –
Medida Assecuratória de Direito Futuro”, “Desaparecimento de menor”, “Desaparecimento
nas águas” e “Desaparecimento de adolescente”.52 No RO e em outros documentos
produzidos posteriormente sobre cada caso, o desaparecimento, como toda ocorrência
policial, é chamado de “fato”.
Em seguida ao título, o policial deve firmar no RO a “data e hora do fato”, bem como
o “local” onde ele ocorreu. Além da importância investigativa dessas coordenadas, é
imprescindível determinar o “local” do fato para que a responsabilidade pela investigação seja
estabelecida. Delegacias são responsáveis por áreas da cidade denominadas “circunscrições”.
Depois de efetuado RO em determinada delegacia, caso o “local” da ocorrência esteja na
circunscrição de outra DP, a primeira delegacia deve remeter o documento à DP
responsável. 53 Não são raros casos de desaparecimento que transitam entre DPs em função do
“local” do fato, não só por ser prática comum em repartições policiais, mas também por
características do próprio desaparecimento. Afinal, não há como determinar com precisão
onde e quando uma pessoa desapareceu, o que dificulta não só o preenchimento do RO, mas
também a determinação da responsabilidade pela investigação.
Em grande parte dos casos, tanto a “data e hora do fato”, quanto o “local” registrados
no RO referem-se à “última vez” que o comunicante do desaparecimento esteve com o
desaparecido. É comum também que o “local” registrado seja o endereço residencial do
comunicante ou do desaparecido, ou ainda faça referência ao local ao qual, segundo o
comunicante, o desaparecido dirigia-se quando desapareceu. Bom exemplo é o caso de
Otávio, narrado mais adiante neste capítulo. O jovem dissera a seus pais que iria ao bairro de
52

ROs feitos em delegacias que ainda não foram reestruturados pelo Programa Delegacia Legal e, portanto, não
possuem os formulários em computadores, oferecem margem para que diferentes títulos sejam dados às
ocorrências. Essas DPs são chamadas por policiais de “delegacias tradicionais”. Nelas, os ROs são preenchidos
em máquinas de escrever e não impõem aos policiais a obrigatoriedade de preenchimento de todos os campos,
nem o uso de títulos e terminologias pré-determinadas pelo sistema de informática usado nos computadores das
“delegacias legais”. Só encontrei títulos diferentes de “Desaparecimento - Desaparecimento (Outros)” e “Fato
Atípico – Desaparecimento (Outros)” em ROs confeccionados em delegacias tradicionais.
53
Paes (2008) mostra que tecnologias hoje disponíveis nas “delegacias legais” do Rio de Janeiro, destinadas ao
acompanhamento georreferencial das ocorrências registradas, são cotidianamente utilizadas para a determinação
de responsabilidades por “circunscrição”, embora sua finalidade seja produzir dados que venham a orientar
políticas públicas na área de segurança.

81

Copacabana. Buscando traduzir essa informação, o RO de desaparecimento de Otávio firma
como “local” do fato o seguinte endereço: “Av. Nossa Senhora de Copacabana, número 0,
bairro Copacabana, município Rio de Janeiro, RJ, CEP 00000-000”. Há ainda registros em
que o “local” do fato é apenas o nome de um bairro ou favela, e outros que registram
referências a instituições, como “próximo do Asilo dos Velhos José Lima, bairro Novo,
município Bom Jesus de Itabapoana, RJ”, ou “Rodoviária Novo Rio”, ou ainda “Aeroporto
Internacional do Galeão, Ilha do Governador”.
Quanto à “data e hora do fato”, o formulário que dá corpo ao RO oferece espaço não
para dia e hora específicos, mas para o intervalo de tempo em que a ocorrência teria se
passado. Os desaparecimentos são usualmente registrados como tendo ocorrido entre a data e
horário aproximados do último encontro entre comunicante e desaparecido e a data e hora em
que o RO é confeccionado na DP. Porém, essa é apenas a mais comum das estratégias
utilizadas por policiais para preencher esse dado obrigatório. Foi usada, por exemplo, no caso
de Francisco, que tem como “local” do fato o endereço residencial de Graça, e no de Lúcio,
que desapareceu entre “01/11/2006 e 07/02/2007”. Outra estratégia comumente utilizada
pelos policiais é deixar quase vazio o espaço do formulário dedicado a esses dados,
fornecendo apenas uma data como “data e hora” da ocorrência. No campo descritivo do RO,
sobre o qual falo mais adiante, referências as mais variadas são feitas a “data e hora” do
desaparecimento, indicando a imprecisão que leva policiais a adotarem essas estratégias.
Encontrei nos arquivos do SDP um caso que teria ocorrido “desde o último telefonema” do
desaparecido para o comunicante, outro “na terça-feira, quando foi vista na escola” e,
lembrando o desaparecimento de Geraldo, um terceiro que teve como marco a data de
vencimento da primeira (de muitas) pensão que não foi recebida pelo desaparecido.
Determinado título, data, horário e local do “fato”, cabe ao policial preencher o campo
do documento intitulado “Envolvidos”. Trata-se do espaço do RO destinado à identificação
de pessoas relacionadas à ocorrência. Em casos de desaparecimento, essas pessoas são o
comunicante, o desaparecido e, eventualmente, terceiros citados pelo comunicante. O
comunicante é qualificado no próprio formulário como “Testemunha”, e o desaparecido como
“Vítima” - embora, como vimos no caso de Rodrigo, haja melindre e hesitação entre policiais
no uso desse último termo para falar de desaparecidos. Terceiros citados pelo comunicante
que sejam identificados no RO são também qualificados como “Testemunhas”. Sobre cada
um dos “Envolvidos” são registrados: número de carteira de identidade, data de nascimento,
naturalidade, endereço residencial, local de trabalho, telefones, filiação, estado civil, sexo,
82

cor, nacionalidade e ocupação principal. Em alguns casos, “Envolvidos” têm registrado a seu
respeito também números de outros documentos, como CPF e carteira de trabalho, e o vínculo
que mantêm entre si. Encontrei muitos casos em que, ao lado do nome do comunicante,
registrou-se, freqüentemente à mão, que aquela “Testemunha” é mãe, pai, tio, filho, marido ou
esposa do desaparecido, entre outros tipos de vínculo como vizinho, companheiro e amigo.
É comum que nem todos os campos para preenchimento com dados sobre os
“Envolvidos” contenham efetivamente a informação que demandam. Policiais empregam os
termos “ignorado”, “não informado” e/ou “desconhecido” para preencher esses campos, ou
mesmo optam por deixá-los em branco quando possível. Se, além de pessoas, há “Bens
Envolvidos” na ocorrência – por exemplo o carro ou documentos do desaparecido, que o
comunicante entende terem desaparecido também –, a listagem desses “Bens” é feita abaixo
da identificação dos “Envolvidos”.
Além de dados “ignorados” ou “não informados”, que tornam precária a identificação
dos “Envolvidos”, e das múltiplas estratégias usadas por policiais para lidar com a difícil
determinação da data, hora e local do desaparecimento, a própria intitulação do “fato” como
“Fato Atípico - Desaparecimento (Outros)” é mais complexa do que pode parecer a princípio,
quando vista, em negrito, anunciada no topo do RO. Ao longo da rotina burocrática que sigo
descrevendo, em muitos momentos e documentos preenchidos sobre o caso policiais
questionam sua classificação como desaparecimento. Se relembrarmos o caso de Daniela,
encontramos bom exemplo. No último documento produzido sobre o caso, intitulado no RO
como “Fato Atípico - Desaparecimento (Outros)” e arquivado no SDP como todos os casos de
desaparecimento de que falo nessa tese, um policial do SDP afirmou que “o fato em questão
não trata de desaparecimento, uma vez que deve ter ocorrido algum problema familiar”. Não
são raros registros firmados no decorrer dos casos que negam sua classificação como
desaparecimentos, tratando-os como “fugas”, “separações” ou “problemas de família”. Com
isso, tanto as informações iniciais obrigatoriamente registradas no começo de todo caso,
quanto seu próprio título são acompanhados de questionamentos, contradições e imprecisões.
Depois de intitular a ocorrência, registrar onde e quando ela se passou e identificar os
“Envolvidos”, o policial deve preencher um campo descritivo, desprovido de dados a ser
respondidos, intitulado “Dinâmica do fato”. Para Miranda et al (2010), “essa é a segunda
reconstrução do fato na lógica institucional policial, a primeira é enquadrar o fato em uma
classificação penal ou administrativa.” (Miranda, et al, 2010, p. 129). A meu ver, contudo,
esse é o terceiro juízo fundamental feito pelo policial diante do caso, já que o primeiro é a
83

decisão de registrar o fato, oficializando-o (ou não) como ocorrência policial; a segunda,
enquadrá-lo em classificação específica, dando-lhe um título; e a terceira, por fim, sua
descrição como um fato que pode ser resumido no campo do formulário destinado a esse fim.
Esses três juízos são também exercícios de triagem, por meio dos quais o policial
paulatinamente delimita o universo de solicitações com que terá que lidar. Nesse sentido,
inicialmente o agente determina o que é (e o que não é) ocorrência policial, em seguida
designa a ocorrência com o título específico que a defina e, por fim, seleciona fatos e relatos
que julga relevantes e suficientes para descrevê-la.
A descrição fornecida como “Dinâmica do fato” deriva diretamente das falas dos
comunicantes, como fica claro no caso de Francisco. Muitas vezes essa descrição coincide
integralmente com o que é registrado a partir das falas do comunicante em Termo de
Declarações. A descrição do “fato”, portanto, pode coincidir literalmente com o que o
comunicante relata ao policial que primeiro o recebeu na DP. O mais comum, contudo, é que
a “Dinâmica do fato” seja uma forma sintética de apresentar seleções de trechos das
declarações do comunicante. Termos de Declarações não são produzidos a partir das falas de
comunicantes em todos os casos, embora em muitos acompanhem a produção do RO. No
caso de Francisco, como já afirmado, a primeira ida de Graça à delegacia deu origem a um
Termo de Declarações e ao RO. O conteúdo do Termo, do qual deriva a descrição resumida
registrada como “Dinâmica do Fato”, é o seguinte:
Disse que seu sobrinho saiu de casa no dia 17/03/2007 com destino ao
Município de Mesquita para trabalhar e até a data de hoje não retornou nem
telefonou, ele também tem problema psiquiátrico e faz tratamento de saúde.
Ela procurou por ele no HUAP [Hospital Universitário Antônio Pedro] e foi
informado que o mesmo não estava, e foi no CPN [Hospital Municipal
Carlos Tortelli] onde o mesmo já foi internado e não estava lá, e informou
ainda que ele quando sai do trabalho vai direto para casa para a janta ou
telefona, e disse que próximo a sua residência não teve nenhum vizinho que
o visse.

Já sua versão sintética, registrada no RO como “Dinâmica do fato”, é a seguinte:
Relata a comunicante que seu sobrinho saiu de casa no dia 17/03/2007 com
destino ao bairro de Mesquita para trabalhar até a data de hoje não retornou a
sua residência e nem telefonou e o mesmo não está acostumado a fazer isso e
ainda ele tem problema psiquiátrico e faz tratamento.

Produzido o RO, marco inicial que, em alguns casos, é acompanhado de Termo de
Declarações que registra as falas do comunicante, todo caso de desaparecimento passa para
84

um segundo momento, agora sem a presença do comunicante junto ao policial. A despeito
dessa saída de cena nas repartições policiais, é comum que comunicantes sigam interagindo
com repartições burocráticas e fazendo buscas pelo desaparecido, como discuto no capítulo 3.
Há registros de que comunicantes fazem visitas periódicas ao IML, a hospitais públicos e a
locais em que acreditam poder encontrar o desaparecido ou obter notícias. Em casos que
envolvem crianças e adolescentes, comunicantes dirigem-se também a Conselhos Tutelares e
ao “SOS Criança Desaparecida” da FIA/RJ, muitas vezes por sugestão dos próprios policiais
que os atenderam em DPs. No “SOS Criança Desaparecida”, comunicantes relatam os casos,
recebem atendimento e, quando munidos de fotografia do desaparecido, recebem também
cartazes para distribuição e divulgação do retrato, que neles é impresso em formato ampliado.
Além da foto e do telefone do “SOS Criança Desaparecida”, esses cartazes contêm nome e
data de nascimento do desaparecido e, em alguns casos, números de telefone para que
qualquer pessoa que tenha notícias sobre ele faça contato com o comunicante.
Na delegacia, paralelamente às medidas tomadas pelo comunicante fora de repartições
policiais, o policial encarregado do caso leva adiante algumas diligências, a partir não só de
suas deliberações, mas também guiado por Despachos redigidos pelo delegado titular da DP
que, por “circunscrição”, fica responsável pelo caso. Nos termos utilizados em delegacias,
delegados comunicam-se com os agentes exarando Despachos em que determinam por
escrito que providências devem ser tomadas diante de cada ocorrência investigada nas DPs
em que são autoridade máxima. No caso de Francisco, o policial encarregado consultou as
bases de dados a que tem acesso, diligência que lhe permitiu confirmar os dados sobre o
servente de pedreiro já preenchidos no RO, além de obter a informação de que ele “não
possui anotações criminais”. Ademais, recebeu Despacho do delegado da DP, solicitando que
fossem tomadas as providências assim listadas:
1.
Ao GI [Grupo de Investigação] para, em 15 dias, diligenciar, visando
a localizar o paradeiro da pessoa desaparecida, oferecendo ao final
informação das investigações realizadas;
2.
Ao final do prazo, não havendo solução, a investigação deverá vir a
ser encaminhada para a SDP/DH;
3.
Seja ouvida a comunicante, minudentemente, ocasião em que deverá
descrever os trajes da pessoa desaparecida por ocasião do fato.
4.
Outras medidas indispensáveis à instrução do procedimento.

As diligências mais usualmente realizadas depois da feitura do RO são consultas a
bases de dados, como feito no caso de Francisco, e oitivas de comunicantes e de outras
pessoas arroladas nos ROs como “Envolvidos”, conforme solicitado pelo delegado no terceiro
85

item de seu Despacho. No desaparecimento de Francisco, o policial responsável não realizou
outra oitiva de Graça, e apenas produziu Relatório de “Informação sobre investigação
preliminar” com informações não sobre Francisco e seu paradeiro, e sim sobre as diligências
por ele realizadas (e mal sucedidas). Miranda et al (2010) sustentam que, na descrição de
procedimentos e não de informações sobre os casos, encontra-se mais um indício da lógica
cartorial vigente em repartições policiais.
De forma breve, no Relatório do policial sobre o desaparecimento de Francisco, o
agente sugeriu que o caso fosse remetido ao SDP “salvo melhor juízo” – isto é, desde que o
delegado não apresentasse outra visão do caso ou outra diretriz. O jargão “Salvo melhor
juízo”, normalmente abreviado como “s.m.j,”, aparece em todos os Relatórios emitidos por
policiais em DPs e no SDP. Chamados por policiais de “Informação”, Relatórios de
“Informação sobre investigação preliminar” ou “Informação sobre investigação definitiva”
são dirigidos aos delegados das DPs ou da DH quando os policiais encarregados dos casos
julgam que algum desfecho deve lhes ser dado – mesmo que esse desfecho consista não no
encerramento do caso, mas em seu envio para outra repartição policial. Normalmente, nas
DPs os Relatórios sugerem que os casos sejam remetidos ao SDP; já no SDP, solicitam seu
arquivamento. Caso concordem com a sugestão ou solicitação apresentada no Relatório,
delegados exaram Despachos ordenando que a sugestão seja efetivada. O Relatório do caso
de Francisco, acatado pelo delegado, diz:
Dr. Delegado,
Informo que por diversas vezes tentamos contato, e inclusive efetuamos
diversas diligências com o objetivo de localizar o desaparecido, porém não
logrando êxito na empreitada, face ao exposto sugiro s.m.j. a remessa do
feito ao SDP/DH para as devidas pendências.

Alguns casos contêm Relatórios mais extensos, que descrevem o caso, qualificam os
“Envolvidos” e detalham diligências levadas a cabo nas delegacias, compilando informações
registradas em ROs, Termos de Declarações, Despachos e outros documentos produzidos
acerca do caso, mas é usual que o conteúdo desses documentos seja curto e contenha seleções
enxutas de informações.
A remessa do caso para o SDP não necessariamente significa seu encerramento na DP.
Graça, por exemplo, retornou à repartição a que comunicara o desparecimento de Francisco
três dias depois que o caso já havia sido encaminhado ao SDP, demandando que o policial
que a atendeu desse continuidade ao “feito” e registrasse suas falas. Por isso, diante de sua
86

presença na repartição, o policial registrou novo Termo de Declarações, onde se encontram,
em discurso indireto, os relatos de Graça sobre as notícias mais recentes que teve de seu
sobrinho. O Termo de Declarações, depois de “lido e achado conforme” e assinado por
Graça, foi remetido ao SDP. No Setor, seu conteúdo justificou a última diligência levada a
cabo no caso de Francisco: seu arquivamento como Sindicância Solucionada.
Vale ressaltar que a ida de Graça à DP para relatar que seu sobrinho lhe dera notícias
foi registrada como anúncio do desfecho do caso, pois o que restou registrado no Termo de
Declarações remetido ao SDP motivou seu arquivamento. Contudo, tanto quanto adjetivei
como imponderáveis as razões que determinam que tipo de quebra de rotina é levada à
repartição policial e registrada como desaparecimento, nos ares de desfecho que revestem as
falas de Graça há também algo de imponderável. Graça não encontrara com Francisco, não
estivera em Mangaratiba, onde o desaparecido disse estar, e não o recebera novamente em
casa para seus jantares habituais. Todavia, mesmo que a rotina dos dois ainda não tivesse sido
restaurada, a notícia que teve dele foi encarada por Graça como fim do desaparecimento de
seu sobrinho, o que foi referendado nos registros do caso.
Há casos, a um só tempo semelhantes e distintos do de Francisco, em que o
comunicante tem notícias do desaparecido, mas não considera que essas notícias impliquem o
fim do desaparecimento. Saber onde o desaparecido está, localizando-o, sem que isso
implique o retorno dele ao local de onde desaparecera, em alguns casos – mas só em alguns é considerado continuação do desaparecimento. Esses casos indicam que, para alguns
“Envolvidos”, somente o retorno do desaparecido para o local ou círculo social de onde ele
desaparecera encerra o caso. Entre policias, contudo, a praxe é considerar o caso solucionado
a partir da localização do desaparecido, independente de haver retorno ou não. Caracterizam a
localização do desaparecido, do ponto de vista dos policiais: “declarações” de Envolvidos que
afirmem que o desaparecido retomou contato ou retornou para casa, como no caso de
Francisco; emissão de documentos em datas posteriores ao desaparecimento, como vimos no
caso de Graziele; constatação da presença do desaparecido em alguma repartição pública; ou a
presença do desaparecido na própria DP em que o caso foi registrado. No capítulo 3, reflito
sobre essa questão.
Por ora, vale ressaltar que são freqüentes casos em que o desaparecido retorna ao local
e ao círculo social de que havia desaparecido e comunicantes não só relatam esse retorno, mas
também buscam dar garantias dele à polícia, levando consigo documentos de identificação do
desaparecido ou sublinhando a volta da rotina rompida pelo desaparecimento. São comuns
87

relatos como “retornou e já está freqüentando a escola”, “voltou à casa e ao trabalho” e “já
retomou contato”. São igualmente comuns relatos de que o desaparecido “está bem”, “está em
bom estado de saúde” e “com aparência de estar bem cuidado”, que pretendem assegurar não
só o retorno do desaparecido, mas também seu bem-estar no local, no círculo social e na
rotina que retomou. Ao mesmo tempo, porém, é igualmente comum que comunicantes não
retornem às DPs para relatar o retorno do desaparecido. São muitos os casos remetidos para o
SDP e considerados “em andamento” que, depois de telefonema dado pelo policial
encarregado, revelam estar solucionados há tempos para os comunicantes, embora o retorno
ou a localização do desaparecido não tenha sido notificada à polícia. Essas múltiplas
possibilidades de localização e retorno do desaparecido fazem com que o encerramento dos
casos seja tão variado e repleto de imprecisões e imponderabilidades quanto seu início.
Embora não necessariamente implique seu encerramento na DP, e a despeito de tantas
imprecisões, a remessa do caso para o SDP engendra um novo começo que é, também,
continuidade. Ao ser recebido na Delegacia de Homicídios, antes mesmo de ser encaminhado
para a sala 709, onde fica o SDP, a VPI oriunda das DPs dá origem a outro Registro de
Ocorrência. Nesse RO, feito na sala do Plantão da Delegacia de Homicídios, são copiados os
dados dos “Envolvidos” contidos no primeiro RO do caso. Contudo, quem figura como
comunicante do fato não é mais a pessoa que se dirigira à DP, e sim o delegado titular daquela
repartição, que decidiu em Despacho acatar a sugestão de um policial e remeter o caso ao
SDP. Além disso, nesse documento consta como “Dinâmica do fato” não a descrição do
desaparecimento a partir da fala do comunicante, como no primeiro RO, e sim um parágrafo
bastante padronizado que dá poucos dados sobre o caso e prioriza três registros: a delegacia
de origem, a relação entre o primeiro comunicante e o desaparecido, e o título da ocorrência.
No caso de Francisco, é também priorizado o registro de seus “problemas mentais”:
Trata-se de expediente oriundo da 79ª DP, sobre DESAPARECIMENTO do
nacional Francisco, onde segundo informação da comunicante, Sra. Graça,
tia de Francisco, o mesmo havia saído de casa no dia 17/03 para trabalhar e
não retornou e nem telefonou, e que Francisco tem problemas mentais e faz
tratamento de saúde.

Depois de confeccionado pela equipe do Plantão, o Registro de Ocorrência passa
pela apreciação de um dos delegados da DH, que exara Despacho no próprio RO, à mão,
oficializando a instauração de Sindicância e a encaminhando ao SDP. Esse Despacho permite
a circulação dos documentos entre as salas da Delegacia de Homicídios.
88

No SDP, a Sindicância é considerada “em andamento” desde o momento em que é
recebida na sala 709 até seu arquivamento, o que perdura por períodos de tempo que variam
caso a caso. Encontrei casos arquivados menos de um mês depois de recebidos no SDP, mas
também li e transcrevi outros em que três, quatro e até cinco anos se passaram entre seu
recebimento e arquivamento. No decurso desse intervalo temporal de duração variada, dois
tipos de diligências são usualmente empreendidos pelos agentes do SDP: buscas a partir do
nome do desaparecido em sistemas de informação e bases de dados que reúnem registros de
órgãos públicos, repetindo procedimentos também comumente levados a cabo nas DPs; e
remessas de Ofícios para instituições diversas, solicitando que buscas semelhantes sejam
feitas em seus arquivos. Em alguns casos, oitivas de comunicantes e de outros “Envolvidos”
também são feitas, mediante Mandados de Intimação enviados a essas pessoas por
telegrama ou convites feitos pelo telefone por policiais.
Os Ofícios remetidos pelos agentes do SDP a instituições que possam contribuir para
as investigações contêm um texto padrão, que independe da instituição de destino. Conforme
transcrito abaixo, sucede o texto campos para preenchimento com uma seleção de dados sobre
o desaparecido e o desaparecimento. Ao preenchê-los, policiais repassam a imprecisão
registrada nos casos para as instituições que recebem os Ofícios: no campo “Local do
Desaparecimento” registram uma área de circunscrição de delegacia, embora “circunscrições”
desempenhem função importante em repartições policiais, mas não digam muito para outras
instituições; já em “Data do Desaparecimento”, empregam aproximações como as feitas nos
ROs. O exemplo citado abaixo foi retirado do caso de Justo, narrado mais adiante:
Pelo presente solicitamos que seja informado a este Serviço de Descoberta
de Paradeiros, com a maior brevidade possível, o que consta registrado nos
arquivos deste órgão/instituição, sobre a pessoa abaixo relacionada.
Outrossim, esclarecemos que trata-se de pessoa desaparecida e que a
presente solicitação visa instruir a Sindicância em referência.
Nome: Justo Silva
Filiação: Pedro Silva e Maria da Silva
Nascimento: 14/05/1946
Identidade: XXXXX
Data do Desaparecimento: 27/08/2003
Local do Desaparecimento: área da 159ª DP

O rol das instituições que recebem os Ofícios em cada caso retrata hipóteses aventadas
pelos agentes do SDP quanto ao paradeiro do desaparecido. Os destinatários dos Ofícios
variam caso a caso, mas três instituições são consultadas em todos os desaparecimentos que
contam com essa diligência: o IML, o IFP e a Santa Casa de Misericórdia, cujos arquivos
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podem conter registros de óbito e/ou sepultamento em nome do desaparecido. A morte,
portanto, é uma hipótese de desfecho considerada válida em todo desaparecimento. Em casos
como o de Francisco e de Lúcio, em que há registros de que o desaparecido possui
“problemas mentais”, Ofícios são usualmente remetidos a hospitais, ao Instituto Pinel e à
Fundação Leão XIII. Ao remeter Ofícios para essas instituições, policiais apostam na
possibilidade do desaparecido ter sido internado ou atendido em instituições de saúde ou
assistência social.
Hospitais são consultados na maior parte dos casos, e não só nos que enredam
alegados “problemas mentais”. Porém, o conjunto de hospitais consultados em cada caso
varia de acordo com o impreciso “local” do fato registrado do RO da DP e repetido no RO da
DH. Assim como Graça procurou por Francisco em instituições que ficam em Niterói, onde
ambos moram, agentes do SDP optam por consultar hospitais próximos do “local” do
desaparecimento. Além de hospitais, são comuns a muitos casos consultas a órgãos que
controlam carceragens e penitenciárias e, em casos de crianças e adolescentes, ao
Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas (DEGASE). Ofícios remetidos a essas
instituições indicam que, entre os policiais, levanta-se usualmente a hipótese do desaparecido
ter cometido algum crime ou infração e estar encarcerado ou cumprindo medidas sócioeducativas. O desaparecimento de Otávio, narrado a seguir, é um dos casos arquivados no
SDP em que essa hipótese foi confirmada. Todavia, a informação de que Otávio estava
encarcerado não foi obtida via Ofício, e sim através de comunicação entre o SDP e DP em
que o desaparecimento foi comunicado. Esse traço do caso de Otávio indica que, no decurso
da rotina burocrática percorrida pelos casos, SDP e DP podem fazer contato e trocar
informações sobre os desaparecimentos.
Outra especificidade do caso de Otávio indica um segundo aspecto da rotina
burocrática dos casos de desaparecimento que se faz presente desde seu início nas DPs,
passando por sua trajetória no SDP e comparecendo em falas de policiais como as que
registrei no capítulo anterior: a desconfiança entre comunicantes e policiais. A inspetora
Telma compartilhou comigo algumas vezes seu entendimento de que “as famílias mentem” e
“as famílias se contradizem”, afirmando que a troca de informações sobre casos entre
comunicantes e policiais se faz em cenário de desconfiança, sobre o qual reflito no capítulo 3.
Como aparece no caso de Otávio, comunicantes podem relatar a policiais fatos que diligências
levadas a cabo nas delegacias venham a contradizer, e vice-versa. Conforme relatou a mãe de
Otávio, ele saíra de casa “rumo a Copacabana” e nunca mais dera notícias. O pai do jovem
90

teria procurado por ele no IML, em hospitais e na Polinter, mas não obtivera sucesso.
Segundo as buscas de policiais, contudo, o jovem havia sido preso por cometer um crime em
Copacabana, informação que uma busca na Polinter, que administra as carceragens do estado,
poderia confirmar. Não é possível, nem útil, determinar se a mãe de Otávio mentiu para o
policial. Não obstante, é importante ressaltar que essa é uma possibilidade que ronda a rotina
dos casos de desaparecimento e as contradições entre registros firmados em cada caso.

OTÁVIO
Filho de Shirley e Tito, Otávio é desempregado e, segundo sua mãe, “não tem residência
fixa”. Em outubro de 2006, aos 19 anos de idade, Otávio teria saído da casa de seus pais, em São
João de Meriti, “rumo ao bairro de Copacabana”. Desde então, nem Shirley, nem Tito souberam
dizer precisamente onde seu filho poderia ser encontrado.
Embora Otávio tenha telefonado para a casa dos pais algumas vezes, esses contatos
foram rareando até que cessaram. Shirley e Tito decidiram então procurar por ele em alguns
órgãos públicos: Tito foi à Polinter, “e lá informaram que Otávio não teria sido preso”, ao passo
que Shirley foi ao IML e ao IFP. No IML, não encontrou nenhum corpo e/ou registro que
dissesse respeito à Otávio; no IFP, foi orientada a procurar uma DP.
Seguindo essa orientação, dia 8 de janeiro de 2007, Shirley foi à 13ª DP, em
Copacabana. Comunicou ao inspetor o desaparecimento de Otávio, que foi registrado como
tendo acontecido na data de 30 de outubro de 2006, “na Avenida Nossa Senhora de Copacabana,
número 0, bairro Copacabana, município Rio de Janeiro, RJ, CEP 00000-000”.
Passados exatos 15 dias da feitura do RO, a 13ª DP encaminhou o caso para o SDP. No
Setor, pesquisas em sistemas de informação revelaram que Otávio tinha “uma anotação
criminal” e que seu nome constava, até aquela data, em cinco diferentes Registros de Ocorrência
além do efetuado a partir da comunicação de Shirley. A “anotação criminal” refere-se à prisão
em flagrante sofrida por Otávio, que foi autor de roubo, ocorrido no bairro de Copacabana, dia 2
de setembro de 2006. Os ROs, por sua vez, assim se distribuem: três efetuados em 2003, em que
Otávio figura como “adolescente infrator”, sendo dois por “tráfico de entorpecentes” e um por
“porte de entorpecentes para uso”; um RO de desaparecimento, também registrado em 2003; e,
por fim, o RO de roubo pelo qual Otávio foi preso em flagrante.
Depois de obter essas informações, o inspetor do Setor que ficou responsável pelo caso
sugeriu seu arquivamento como solucionado, sugestão acatada pelo Delegado da DH em março
de 2007. A justificativa para o arquivamento encontra-se assim registrada:
Que este Sindicante ao consultar o sistema de identificação notou que a
vítima tinha uma anotação criminal, ao verificar viu que se tratava de uma
prisão em flagrante no Artigo 157 do CP, datado de 02/09/06 na 12ª DP –

91

Copacabana, em contato com o Controle de Presos, este sindicante foi
informado que o mesmo continua detido na Casa de Custódia de Magé.54

Retomemos a descrição da rotina burocrática dos casos, agora considerando não só a
imprecisão que os ronda, mas também a possibilidade de contradições perpassarem seus
registros. Os órgãos a que são remetidos Ofícios respondem ao SDP com documentos tão
padronizados quanto os próprios Ofícios que recebem. A leitura dessas respostas deixa a
nítida sensação de que as instituições têm, normalmente em seus departamentos de registro e
arquivo, formulários prontos, cuja finalidade é justamente preencher esse momento da rotina
burocrática dos desaparecimentos. Todas as (curtas) repostas aos Ofícios, à medida que
chegam ao Setor, são anexadas aos documentos relativos a cada caso. Não tive contato com
nenhum caso em que a resposta das instituições fosse distinta de “nada consta”, “não
encontramos em nossos arquivos informações sobre a pessoa em referência”, “não há
registro” e negativas semelhantes. Encontrei apenas repostas do IFP que destoassem dessa
lista de negativas, não por conterem informações sobre o paradeiro do desaparecido, mas por
registrarem dados sobre seu documento de identidade e, quando há, suas “anotações
criminais”.
Caso as buscas em sistemas de informações, os Ofícios remetidos a instituições,
eventuais oitivas de “Envolvidos”, comunicações com as DPs ou, durante essas diligências,
caso o comunicante ou o próprio desaparecido notifiquem ao SDP seu retorno ou localização,
a Sindicância é arquivada como Solucionada. Para que isso seja feito, porém, o policial
encarregado do caso deve antes redigir Relatório de “Informação sobre investigação
definitivo” resumindo a ocorrência e sugerindo seu arquivamento ao delegado. Relatórios de
“Informação sobre investigação definitivo”, como ocorre nas DPs, são lidos por um dos
delegados da DH, que avaliam se o arquivamento sugerido deve ser efetuado ou se fazem
“melhor juízo” sobre como proceder. A redação dos Relatórios varia pouco, e seus conteúdos
são bastante padronizados. Há, contudo, exceções - como veremos no caso de Elói, narrado ao
final desse capítulo. Independentemente desses textos padronizados, que pouco refletem as
especificidades dos casos, não encontrei nenhum caso em que o delegado não acatasse a
sugestão de arquivamento feito pelo policial encarregado.
Sindicâncias que não têm esse destino permanecem “em andamento” mesmo depois de
feitas consultas em bases de dados, oitivas de “Envolvidos”, emissão de Ofícios, recebimento
de respostas de instituições e contatos com as DPs. Isso significa que essas Sindicâncias
54

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 022/07 do SDP/DH.

92

permanecem à vista dos policiais, fora das gavetas do SDP, mesmo que nenhuma diligência
em relação a elas seja levada a cabo durante todo o tempo em que estão “em andamento”. Em
determinadas semanas do ano, quando julgam que devem dar desfecho às várias Sindicâncias
que progressivamente se empilham sobre suas mesas e no interior dos armários, os agentes do
Setor redigem Relatórios de “Informação sobre investigação” em que sugerem o
arquivamento de vários casos como Sindicâncias Suspensas. Além de tê-la presenciado
algumas vezes ao longo da pesquisa, encontrei muitos Relatórios redigidos na mesma data
por um mesmo policial, indicando essa prática de solicitação de arquivamento de Sindicâncias
Suspensas em conjunto. É usual que essa prática aconteça semanas antes da chamada
“Correição” – procedimento efetuado três vezes ao ano na DH e em todas as delegacias de
polícia, no curso do qual servidores da Corregedoria da Polícia Civil auditam e conferem os
procedimentos efetuados nas repartições.
Sindicâncias são Suspensas também depois que, como vimos no caso de Álvaro,
Certidões são expedidas para que comunicantes e outros “Envolvidos” dêem prosseguimento
a trâmites burocráticos em outros órgãos e repartições em que haja processos (das mais
variadas naturezas) envolvendo o desaparecido. Como vimos, casos como o de Álvaro são
movidos não só por interesses na descoberta do paradeiro do desaparecido, mas também em
documentos que atestem seu desaparecimento. Vale então citar o texto de uma Certidão. A
aqui transcrita traz dados de Marília, desaparecida que protagoniza um caso que narro mais
adiante, ainda neste capítulo. O texto do documento reúne formas narrativas e aspectos da
rotina burocrática dos casos que apresentei até aqui, como a fé pública encarnada pelo
policial, o impreciso “local” do fato, e a referência à remessa de Ofícios para consulta a
instituições e a suas repostas negativas:
CERTIDÃO
CERTIFICO e DOU FÉ que consta instaurada nesta Delegacia
Especializada a Sindicância no. XXX/2005 para apurar o desaparecimento
de MARÍLIA, onde CARMEN TEIXEIRA, RG XXXX/IFP, residente na
Rua Alice, Laranjeiras, Rio de Janeiro, RJ, na qualidade de Procuradora,
REQUER que seja passado por CERTIDÃO, para fins de prova junto à
Justiça, o que consta com referência ao desaparecimento de MARÍLIA
LOPES, desaparecida da circunscrição da 9ª Delegacia Policial, sendo o
registro efetuado nesta Delegacia de Homicídios sob o número de ocorrência
RO XXXX, que originou a Sindicância XXX/05 no Setor de Descoberta de
Paradeiros. O que consta é a realização de diversas pesquisas junto aos
registros de órgãos públicos competentes, bem como, diligências e oitivas de
testemunhas na tentativa de localizar o paradeiro da cidadã desaparecida,
sendo certo que, até a presente data, não foi logrado êxito quanto à
localização do paradeiro da desaparecida, MARÍLIA LOPES, razão pela
qual este SDP e os demais órgãos públicos continuarão empenhados na sua
93

busca. Dada e passada aos dois dias do mês de outubro de dois mil e oito.
Eu, oficial de cartório, lavrei e assino. 55

Embora tenham sido expedidas em muitos casos e possam ser encontradas em cópias
anexadas a muitas das Sindicâncias arquivadas no Setor, logo no começo da pesquisa o
inspetor Fernando advertiu-me de que Certidões eram documentos que “não deveriam ser
feitos no SDP”. Segundo ele, policiais não possuem “essa atribuição, e o correto é que a
pessoa procure a Defensoria Pública”, mas como muitas vezes comunicantes solicitavam dele
e de seus colegas esse tipo de documento, achava por bem atender às solicitações e prestar
esse serviço. “Emitimos pra eles resolverem logo suas questões”, me disse Fernando certa
vez. Em agosto de 2009, o próprio Fernando instruiu aos policiais do SDP que a partir
daquele dia Certidões não seriam mais expedidas no Setor. Caso comunicantes os
procurassem com esse fim, “a ordem é encaminhar para a Defensoria.”
Depois de arquivadas, Sindicâncias Solucionadas e Suspensas só são consultadas se e
quando novos casos que chegam ao SDP enredam pessoas envolvidas em casos já arquivados.
Não são raros casos protagonizados por um mesmo desaparecido, razão pela qual há, no SDP,
uma classificação para as Sindicâncias que têm o mesmo nome como “vítima” - as
Sindicâncias Juntadas. Com exceção dos momentos em que reúnem Sindicâncias Juntadas,
são esporádicas as ocasiões em que policiais abrem as gavetas de arquivo do Setor.

2.2 De que é feito um enigma
No decurso da rotina burocrática descrita, que assim se apresenta em todos os casos,
mas, em alguns, é dilatada e acrescida de procedimentos e registros além dos destacados aqui,
a imprecisão que ronda o desaparecimento de pessoas se faz presente reiteradamente,
expressando-se tanto em registros como a “data e hora” e “local” do fato, quanto nas
imponderáveis e múltiplas razões que levam alguém a uma DP tanto para comunicar o
desaparecimento, quanto para notificar que ele já foi solucionado. A imprecisão que ronda
essa ocorrência policial, nesse sentido, não só não impede o registro dos casos, como também
é gradualmente firmada, oficializada e arquivada. A vaga determinação de coordenadas
espaço-temporais e as escorregadias distinções entre rupturas de rotina que configuram casos
55

O cargo de Oficial de Cartório Policial é um posto do quadro permanente da Polícia Civil do Rio de Janeiro e
de outras unidades da federação. Embora as Certidões emitidas no SDP afirmem, em seu texto padrão, que quem
as lavra e assina é um oficial de cartório, contudo, policiais que ocupam outros cargos assinam esse documento
sem restrição.

94

e outras que não são comunicadas e/ou não são registradas por policiais, afinal, perpetuam-se
nos documentos e trâmites constitutivos da rotina burocrática dos desaparecimentos.
Ao longo dessa rotina, procedimentos menos marcados que o preenchimento do RO, a
emissão de Ofícios e Certidões ou o registro de Termos de Declarações também são
empreendidos. A conversão de pessoas que vão a delegacias em “comunicantes” e
“Envolvidos”, de suas solicitações e falas em “declarações”, de trechos selecionados de seus
relatos em “Dinâmica do fato”, além da tradução e síntese do conteúdo de seus dizeres em
ocorrências de “fato atípico” são medidas tomadas e referendadas no decurso dos casos. Tais
medidas são tão constitutivas da rotina burocrática dos desaparecimentos quanto qualquer
diligência empreendida por policiais para investigá-los.
Esses procedimentos engendram efeito específico sobre os desaparecimentos: a
construção dos casos como enigmas, que amplifica a imprecisão que os ronda desde seus
primeiros registros. Se a princípio as falas de comunicantes expressam interesses variados,
desconhecimento quanto ao paradeiro de uma pessoa e/ou preocupações diante de sua
ausência, ao longo da rotina percorrida pelos casos essa ausência é gradualmente revestida de
um cunho enigmático bastante peculiar. As falas de uma pessoa sobre a ausência ou a falta de
notícias de outrem, porque registradas em delegacias de polícia como “declarações” do
“comunicante” de um “fato” ocorrido em “data e hora” e “local” imprecisos e tomadas como
objeto de Ofícios que indicam hipóteses de morte, prisão e internação são as bases mais
fundamentais que constroem casos de desaparecimento.
Como se operassem a partir de um leque de hipóteses quase ilimitado, partindo do
pressuposto de que qualquer coisa possa ter ocorrido aos desaparecidos, “declarações” de
comunicantes muitas vezes apresentam desaparecimentos como eventos indecifráveis. Ainda
que eventualmente esbocem suspeitas, “declarações” proferidas e registradas em delegacias
por comunicantes e “Envolvidos” produzem incógnitas. Não obstante, no decurso da rotina
burocrática que percorrem, tais incógnitas são paulatinamente matizadas e convertidas em
ocorrências não exatamente indecifráveis – ainda que restem arquivadas como casos sem
solução. Como se operassem a partir de restrito leque de hipóteses, partindo do pressuposto de
que alguns fatos como morte, prisão e internação permitam não só concluir o que se passou
aos desaparecidos, mas também localizá-los, policiais nuançam o caráter enigmático dos
casos. O limitado arco de hipóteses que determina as instituições para as quais são remetidos
Ofícios solicitando informações sobre os desaparecidos, afinal, contrasta a olhos vistos com o
amplo leque de possibilidades que um enigma carrega em si.
95

Vejamos, a partir do caso de Justo, como isso acontece. Embora a comunicante do
desaparecimento do agricultor esboce suspeitas do que lhe teria ocorrido, o caso é
inicialmente revestido de caráter enigmático. No decurso de sua trajetória burocrática, é
investigado a partir apenas de duas hipóteses: morte ou prisão. Não havendo confirmação de
nenhuma delas, o desaparecimento é arquivado como Sindicância Suspensa, perpetuando no
tempo aquele caráter enigmático com que primeiro foi registrado.

JUSTO
Justo e sua esposa Iraci vivem em um sítio no município de Magé. Justo é aposentado;
Iraci, dona de casa. Na tarde de 27 de agosto de 2003, Justo adentrou uma fazenda em
Cachoeiras de Macacu para fazer algo que, segundo Iraci, ele gosta muito: caçar passarinhos.
Enquanto caminhava pela propriedade, deparou-se com o encarregado da fazenda, Paulo
Cigano, com quem discutira. A razão da discussão, segundo Iraci, seria exatamente o fato de
que Justo “estava passando no interior da fazenda em causa”, o que, para o encarregado, era
uma ofensa. Depois da discussão, “ninguém mais teve qualquer registro de Justo”.
Dois dias depois, ainda em agosto de 2003, Iraci foi à delegacia de Magé. A partir de
seus relatos, foi registrado que Justo desapareceu às 15hs do dia 27, na “Fazenda cujo
encarregado é Paulo Cigano de Tal, km 13, no caminho de C. Macacu, depois da moita de
Bambu”. Iraci figura nos documentos em que esses registros foram feitos como “testemunha”
do desaparecimento de seu marido.
Além de Paulo Cigano, outros empregados da fazenda teriam avistado Justo na
propriedade no dia de seu desaparecimento. Contudo, esses empregados “o viram entrar, mas
não o viram sair das matas da mesma”. Iraci e alguns amigos conversaram com esses
trabalhadores e procuraram por Justo na fazenda. Encontraram rastros da passagem dele por lá,
mas também esses rastros desapareceram:
A testemunha e outros amigos do desaparecido viram pegadas do nacional
JUSTO entrando na mata, todavia, depois de segui-las, observaram que ao
começar o terreno na forma de brejo as referidas pegadas desapareceram.

Passado mais de um ano do desaparecimento de Justo, o registro efetuado na DP de
Magé foi encaminhado para a DP de Cachoeiras de Macacu, “para fins de registro”, em função
do “local” do fato. Tendo o desaparecimento ocorrido na circunscrição da DP de Cachoeiras de
Macacu, caberia a esta repartição investigá-lo. Lá, o inspetor a quem coube o caso produziu
novo registro sobre o ocorrido, não sem hesitação:
Procedimento iniciado nesta UPAJ [Unidade de Polícia Administrativa e
Judiciária, designação dada a Delegacias Policiais em alguns registros] em 9
de novembro de 2004, tratando-se do DESAPARECIMENTO de JUSTO

96

LIMA. O desaparecido e a comunicante residem, digo, residiam no
município de Magé na época do fato, sendo que a comunicante segue
residindo naquele município.

Passados outros seis meses, já em 2005, os mesmo documentos circularam novamente
entre repartições e foram remetidos ao SDP. No intervalo temporal que separa a data do
desaparecimento e a data do encaminhamento do caso para o SDP, a única pesquisa efetuada
que ficou registrada é um manuscrito assinado por inspetor da DP de Magé, que diz: “Informa
a V. Sa. que após pesquisas realizadas nos Registros de Ocorrência desta Delegacia Policial
nada foi encontrado relativo ao nacional Justo Lima. Em 14/04/04”.
No SDP, já em agosto de 2005, foi feita pesquisa nos sistemas de informações do
Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). Resultou dessa busca o registro de
“ausência às urnas” nas eleições de outubro de 2004, associado ao número do título eleitoral de
Justo. Em seguida, foram remetidos Ofícios solicitando informações sobre eventuais registros
em nome de Justo para as seguintes instituições: IFP, Santa Casa de Misericórdia, Desipe,
Polinter, IML de Itaboraí e IML de Nova Friburgo. As seis instituições responderam não ter em
seus arquivos qualquer anotação que permitisse esclarecer o desaparecimento.
Finalmente, mais de cinco anos depois que Justo adentrou a fazenda em que trabalha
Paulo Cigano, o caso foi arquivado no SDP, sob a seguinte justificativa:
Trata-se de Sindicância instaurada no ano de 2005, porém, até a presente
data não foram encontradas registros em nome do cidadão desaparecido nas
diversas pesquisas realizadas; bem como, não há dados suficientes para
novas investigações. Assim informado, considerando a carência de
elementos para prosseguimento das diligências; considerando o tempo
decorrido desde sua instauração, em detrimento às demais ora em
andamento, solicito a SUSPENSÃO da Sindicância até o surgimento de
novos dados ou manifestação das partes.56

O relato de Iraci sobre as pegadas que marcam um caminho traçado e interrompido no
solo da fazenda onde seu marido desapareceu por si só confere ao caso cunho enigmático.
Embora Iraci tenha apontado o nome de alguém com quem Justo discutira na fazenda,
claramente construindo suspeitas, ao mesmo tempo suas falas sublinham a indeterminação do
que teria ocorrido a seu marido depois da tal discussão, delineando um desaparecimento que,
como tantos outros que encontrei nos arquivos do SDP, pode ser lido como uma incógnita.
Ocorre que a incógnita em que consiste o caso de Justo e de tantos outros homens e
mulheres cujos nomes estão registrados naqueles arquivos não resulta apenas de falas de
comunicantes, convertidas em “declarações” nos documentos policiais. Antes, é da integração
de “declarações” de comunicantes na rotina burocrática constitutiva dos casos que resulta o
56

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 214/05 do SDP/DH.

97

caráter enigmático dos desaparecimentos. Assim como o próprio solo onde Iraci procurou
pegadas de seu marido apaga rastros, já que se trata de “terreno na forma de brejo”,
certamente úmido demais para manter em si marcas de pegadas, a rotina que dá base e forma
a todo caso de desaparecimento o constrói como enigma - não por apagar rastros do
desaparecido, mas por consistir no acúmulo de registros vagos e imprecisos a seu respeito.
Iraci relatou que “ninguém mais teve qualquer registro de Justo” depois de sua
discussão com Paulo Cigano, que embora Justo tenha sido visto adentrando a fazenda,
ninguém o viu saindo, e fez questão de falar sobre o apagamento das pegadas que viu na
propriedade e que, segundo ela, eram de seu marido. Não obstante, durante dois anos policiais
que ficaram encarregados do caso registraram também que “nada foi encontrado relativo ao
nacional Justo Lima” ao longo das poucas diligências empreendidas para se descobrir seu
paradeiro. Essas poucas diligências, talvez exatamente por serem poucas, produziram dados
insuficientes “para novas investigações” e, finalmente, engendraram o arquivamento do caso
como Sindicância Suspensa. Enfim, o caso de Justo restou arquivado com ares de enigma
tanto porque foi assim comunicado por Iraci, quanto porque foram parcas e pouco produtivas
as investigações levadas a cabo por policiais, que efetivamente verificaram, através de
Ofícios, duas únicas hipóteses: que Justo tivesse falecido e tido sua morte e/ou sepultamento
registrados em IMLs, no IFP ou em alguns cemitérios, ou que Justo tivesse sido preso.
Os termos empregados por comunicantes de desaparecimentos traduzem, eles
mesmos, enigmas. “Sumiu”, “ausentou-se”, “virou areia”, “saiu para não mais voltar”, “não
deu mais notícias”, “nunca mais regressou” e “descacetou”, entre outros termos, expressões e
frases como o “ninguém mais teve qualquer registro” presente no caso de Justo, ao serem
registrados nos ROs e Termos de Declarações apresentam os casos como incógnitas.
Revelam, de forma sintética e forte, o amplo arco hipotético de possibilidades que se faz
presente na comunicação de muitos desaparecimentos. A afirmação de que alguém “virou
areia”, afinal, abarca um campo semântico tão vago quanto ilimitado. Contudo, o acúmulo de
papéis que traduzem esses termos como desaparecimento, além dos registros de trechos
selecionados das falas de comunicantes e da execução de minguadas diligências, orientadas
pelo leque limitado de hipóteses com que trabalham os policiais, consolidam essas incógnitas
e, ao evocarem a fé pública, revestem-nas de veracidade. Nesse processo, desempenham papel
crucial as incontáveis formas narrativas negativas que aparecem nos casos de
desaparecimento, seja para qualificar os “Envolvidos”, seja para informar que “nada consta”
ou “não foi encontrado registro sobre o desaparecido” nos arquivos de cemitérios, necrotérios,
98

carceragens, penitenciárias, hospitais e órgãos assistenciais contactados por policiais. O caso
de Sebastião é rico em negativas e, também por isso, pode ser lido como um enigma
construído no decurso de sua rotina burocrática e por ela perpetuado.

SEBASTIÃO
Cearenses que migraram para o Rio de Janeiro no começo da década de 1960,
Valdelice e João tiveram quatro filhos: Jacira, Edna, Jurandir e Sebastião. Os quatro cresceram
no Rio de Janeiro, mas Jacira mudou-se para Fortaleza e Edna, para São Paulo. Jurandir e
Sebastião, que permaneceram na cidade onde foram criados, durante muitos anos viveram no
mesmo terreno - Jurandir na casa da frente, com sua esposa Elisa; Sebastião, nos fundos.
Depois de muitos anos sem encontrá-los, em julho de 2004 Jacira veio ao Rio de
Janeiro visitar seus irmãos e amigos. Contrariando suas expectativas, porém, não encontrou seu
irmão Sebastião. Ao chegar ao terreno que ele dividia com Jurandir, “foi informada pela
senhora Elisa que o seu irmão [Sebastião] havia sido morto há cerca de 4 anos atrás por uma
pessoa desconhecida e que havia fugido para o Nordeste”. Depois de receber a notícia, Jacira
voltou para Fortaleza. Mas seis meses depois, já em dezembro de 2004, viajou novamente ao
Rio de Janeiro e decidiu ir a uma delegacia. Dizendo-se “muito estarrecida com toda a
história”, na DP Jacira relatou o que sua cunhada Elisa havia lhe dito em julho. A partir desses
relatos, foi produzido RO de desaparecimento em nome de Sebastião.
Uma semana depois, Elisa compareceu à mesma delegacia em que Jacira esteve. Sem
fazer qualquer menção ao suposto assassinato de Sebastião, Elisa confirmou que ele
desaparecera há cerca de 4 anos, mas acrescentou que antes disso ele já havia desaparecido
outras vezes. Listando negativas, Elisa informou
que não possui nenhuma foto de Sebastião em sua casa; que não sabe
informar se Sebastião possui carteira de identidade do estado do RJ; que não
sabe informar o tipo de vida que Sebastião levava neste estado, nem com
quem se relacionava quando do seu desaparecimento; que, desde aquela
data, Sebastião não manteve mais nenhum contato com a declarante ou com
seus familiares; que, na época do desaparecimento, a família não o procurou
nos hospitais ou no IML pois o mesmo costumava desaparecer por algum
tempo e depois aparecia, mas desta vez tal fato não ocorreu até a presente
data; que o companheiro da declarante, Jurandir Cardoso, irmão do
desaparecido, nada sabe informar sobre o desaparecimento de Sebastião que
possa auxiliar nas investigações. E mais não disse. E como nada mais lhe foi
perguntado, mandou a Autoridade Policial encerrar o presente, que depois
de lido e achado conforme vai devidamente assinado.

Quinze dias depois, Jurandir compareceu à mesma delegacia em que estiveram sua
esposa e sua irmã e acrescentou negativas aos registros produzidos até então:
que seu irmão Sebastião nunca trabalhou de carteira assinada; que Sebastião
era catador de papel na Zona Sul do Rio de Janeiro; que o seu irmão não

99

sofria de qualquer problema mental, nem fazia uso de qualquer tipo de
medicamento; que o seu irmão não deixou qualquer aviso que justificasse o
seu desaparecimento; que não sabe esclarecer a roupa usada por seu irmão
no dia do seu desaparecimento; que desconhece qualquer tipo de amizade
que seu irmão possuía; que não possui nenhuma fotografia do seu irmão;
que apesar de serem irmãos pouco se falavam; que não sabe informar se o
seu irmão era usuário de drogas; que não procurou por seu irmão em
qualquer hospital, nem pelo corpo do mesmo no IML; que se encontra à
disposição da Justiça no dia em que for intimado. E mais não disse.

Depois de assim registrar as declarações de Jurandir e Elisa sobre o desaparecimento
de Sebastião, o policial da delegacia onde o caso foi iniciado optou por encaminhá-lo ao SDP.
No relatório final produzido sobre o caso na DP, grafou que “nem sequer a família da vítima
procurou em qualquer hospital, nem tampouco pelo corpo do mesmo no IML”. Os documentos
foram recebidos na DH em março de 2005.
Um ano depois, saíram do SDP, com destino a seis diferentes instituições, Ofícios
solicitando informações que pudessem esclarecer o desaparecimento de Sebastião. Foram
consultadas a Fundação Leão XIII, a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, o IML, a
Polinter e o Desipe. As seis, contudo, responderam aos Ofícios com frases como “nada consta”,
“não foi encontrado dado” e “não há registro quanto ao nome de Sebastião Cardoso”.
Reunindo tanto essas negativas, quanto as registradas a partir das falas de Jurandir e
Elisa, o caso foi arquivado como Sindicância Suspensa em janeiro de 2009, “considerando a
carência de elementos para prosseguimento das diligências”. 57

Um olhar detido sobre os registros acerca de Sebastião e de seu desaparecimento
descortina um retrato em negativo do catador de papel, espécie de silhueta vazia de alguém
desaparecido também nos documentos, embora a princípio pareçam repletos de informações.
Sebastião nunca trabalhou de carteira assinada, não tem problemas mentais, não mantém
contato com familiares, não toma medicamentos controlados, não deixou aviso que explicasse
seu desaparecimento e não foi procurado em hospitais ou IML por seus irmãos e cunhados. A
respeito dele, as pessoas que prestaram “declarações” em delegacias não sabem informar
senão negações: que desconhecem desafetos de Sebastião, que não têm fotografias dele e que
não sabem informar “o tipo de vida” que levava. No mesmo sentido, instituições que
poderiam conter registros a seu respeito, consultadas por agentes do SDP, não têm dados
sobre o catador em seus arquivos. Se seu desaparecimento é um enigma, também o é o retrato
do próprio Sebastião construído nos documentos.
A construção do desaparecimento e do desaparecido como enigmas peculiares é efeito
da rotina burocrática constitutiva dos casos. Decorrem, afinal, da forma como os casos são
57

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 193/05 do SDP/DH.

100

registrados desde seus marcos iniciais, quando são comunicados como eventos em que
qualquer coisa pode ter ocorrido, passando por sua investigação a partir de limitadas
hipóteses sobre o que possa ter se passado ao desaparecido, freqüentemente sem sucesso, até
chegar a seus arquivamentos justificados, entre outras razões, pela “carência de elementos
para prosseguimento das diligências”. Ao percorrer esse circuito, os casos são finalmente
reinvestidos do cunho indecifrável com que foram reportados à polícia inicialmente, e assim
perpetuam-se nas gavetas do SDP.
Não obstante, em alguns casos a construção do desaparecimento como enigma é efeito
também de interesses dos comunicantes. O caso do jovem que, segundo seu pai, “saiu de casa
por volta das 9hs com uma gaiola com um passarinho e nunca mais apareceu”, é bastante
ilustrativo. Cerca de quatro meses depois da confecção do RO em nome de seu filho, o
comunicante retornou à DP “pedindo para suspender as investigações para evitar que seja alvo
de represálias”. Ele acreditava que seu filho havia sido morto por traficantes e preferia que o
caso seguisse sem esclarecimento, por temer que os assassinos de seu filho fossem
identificados.58 Em outro caso, comunicado pela esposa do desaparecido, ficou registrado que
“seu marido saiu de casa porque passavam por problemas particulares que a comunicante não
quer especificar”. Nesse desaparecimento, a comunicante optou por não expor seus
“problemas particulares” na repartição policial, independente de terem ou não relação com o
caso.59 Em ambos, portanto, comunicantes tinham interesse tanto na localização dos
desaparecidos quanto na manutenção do cunho enigmático de seus desaparecimentos, que
preferiam que fossem solucionados sem ser exatamente desvendados.
No desaparecimento de Sebastião, um registro específico chama atenção para
pensarmos sobre a construção dos casos como enigmas: a frase do policial encarregado de que
“nem sequer a família da vítima procurou em qualquer hospital, nem tampouco pelo corpo do
mesmo no IML”. Com esse registro, o agente converteu a comunicante e os demais
“Envolvidos” no desaparecimento do catador de papel em “família”, e os responsabilizou
pelo caráter enigmático do caso, acusando-os de descuido e desinteresse. Esse registro faz
supor que, no caso em que a comunicante optou por não revelar “problemas particulares” ao
comunicar o desaparecimento de seu marido, essa decisão possa ter acarretado a atribuição,
por parte de policiais, de responsabilidades em torno do caso à própria comunicante.
No decorrer da rotina burocrática dos desaparecimentos, aqueles que reportam fatos e
fazem solicitações em delegacias não só são convertidos em comunicantes e “Envolvidos”,
58
59

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 201/05 do SDP/DH.
Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 185/05 do SDP/DH.

101

mas também em “famílias de desaparecidos”. Responsabilizadas não apenas pela incógnita
em que consistem os casos, mas, como discuto no próximo capítulo seguinte, pelo próprio
desaparecimento em que estão envolvidas, “famílias de desaparecidos” são entidades
recorrentes em falas e registros em delegacias e no SDP e, como mostro no capítulo 4, em
outras instituições e entre outros agentes sociais que lidam com casos de desaparecimento.
Por “famílias”, contudo, é preciso compreender não o grupo de parentes do desaparecido, mas
o círculo de pessoas que o considera desaparecido e, por isso, procura pelos serviços da
polícia e de outras instituições. Nos usos do termo feitos por policiais diante de
desaparecimentos, “famílias” são unidades de localização em que os desaparecidos estão ou,
prescritivamente, deveriam estar inscritos. Tais unidades de localização, como mostram os
casos de Marília e de Gutemberg, muitas vezes incluem grupos domésticos e vizinhanças,
entre outros conjuntos de pessoas de que o desaparecido é considerado membro em função de
vínculos e relações muito mais vastas e variadas do que se costuma supor a partir do termo
“família”. No caso de Marília, há acusações de desinteresse semelhantes às registradas sobre a
“família” de Sebastião.
Os casos de Marília e Gutemberg foram construídos no decurso de rotinas burocráticas
dilatadas, constituídas por mais procedimentos que os descritos no começo deste capítulo.
Entretanto, o preenchimento de ROs e Termos de Declarações e a redação de Despachos por
delegados e de Relatórios por policiais fez-se presente em ambos, exatamente como descritos
acima. É notável nos dois casos, embora tenham desfechos bastante diferentes, a construção
dos desaparecimentos como enigmas e, ao mesmo tempo, a coexistência de seu caráter
enigmático tanto com hipóteses, quanto com revelações sobre o que de fato ocorrera aos dois.
Ademais, é também notável em ambos a presença de questões financeiras e patrimoniais entre
as razões que levaram os “Envolvidos” a repartições policiais. No caso de Marília, essas
questões mobilizaram moradores da mesma casa; no de Gutemberg, levaram o síndico de um
condomínio à DP mais próxima ao edifício.

MARÍLIA
Dia 10 agosto de 2005, o SDP recebeu uma petição, assinada por um advogado que
representava, naquele ato, a Sra. Carmen Teixeira. A petição havia passado, desde o mês de
outubro do ano anterior, por três DPs: primeiramente protocolada na 9ª DP, foi de lá
encaminhada para a 25ª DP, dela para a 18ª DP e, finalmente, encaminhada para o SDP.
Anexada à petição, encontravam-se duas procurações, cópias de carteira de identidade e duas
fotografias de uma senhora de avançada idade. Tratava-se de Marília Lopes, nascida em 1914,
102

que estaria desaparecida. A petição solicitava que a 9ª DP, primeira repartição policial por onde
passou o documento, registrasse e investigasse o desaparecimento de Marília. O fato
acontecera em dezembro de 2002. Depois de passar mal em sua residência, Marília teria sido
levada ao Hospital Municipal Souza Aguiar (HSA) por um “taxista que costumava prestar
serviços de táxi para a família” e desde então não fora mais vista. Ao procurá-la no HSA, “a
família foi informada de que a mesma não estivera naquele local”.
A petição informava mais sobre o que se passara à Marília. Filha de um coronel do
Exército já falecido, viúva e sem filhos, ela gozava de direito à pensão junto ao Ministério do
Exército. Desde seu desaparecimento, no entanto, sua pensão vinha sendo depositada na conta
de um homem de nome José Fernandes. A solicitação de registro do desaparecimento dela,
conforme afirmado na petição, foi motivada pela descoberta desse fato por Carmen. Carmen,
“que conhece Marília desde 1963” e desconhecia o tal José Fernandes, era apresentada na
petição como procuradora de Marília, e desejava compreender por que a pensão dela vinha
sendo usufruída por outra pessoa.
Carmen compareceu e prestou declarações no SDP em 23 de agosto de 2005. Na
ocasião, esclareceu como soube do desaparecimento e narrou fatos que, de seu ponto vista,
poderiam ajudar a esclarecer o caso.
Em 1969, já viúva, Marília foi morar em uma casa em Laranjeiras em que vivia uma
amiga sua, Lavínia, com seus quatro filhos: duas gêmeas, Eva e Diva, e dois meninos.
Carmem, então com 15 anos de idade, também vivia na casa, onde “ajudava a criar os filhos”
de Lavínia e “fazia parte da mesma família”. Em 1995, Lavínia e seu filho caçula faleceram.
Depois disso, permaneceram na casa de Laranjeiras Marília, Carmen, as gêmeas e um terceiro
filho de Lavínia, casado, que ali vivia com sua esposa. Também em 1995, Carmen passou a ser
procuradora de Marília, que contava cerca de 81 anos de idade. Essa condição dava a Carmen
acesso a “uma previdência privada, cujo depósito era feito diretamente da pensão de Marília”.
“Em razão de desavenças pessoais com as referidas irmãs gêmeas”, Carmen mudou-se
da casa de Laranjeiras em 2002 e “perdeu o contato” com os seus moradores por dois anos. Já
em 2004, reencontrou Eva, voltou a viver na casa e soube dos últimos acontecimentos vividos
por seus moradores: a morte de Diva, que acabara enterrada como indigente, e o
desaparecimento de Marília. Sobre o desaparecimento, Eva narrou a Carmen uma controversa
ida de Marília ao Hospital Souza Aguiar e disse que, na ocasião, ela e sua irmã Diva
acreditaram que Marília estivesse na companhia de Carmen. Como, na época, as três não se
falavam, as gêmeas não verificaram se essa hipótese era verdadeira. Desde então, portanto,
nem as irmãs, nem Carmen tinham qualquer notícia sobre Marília. O encontro com Eva levou
Carmen a procurar o HSA, onde confirmou a inexistência de registro de atendimento em nome
da desaparecida, e “vários locais e órgãos públicos sem sucesso na localização de Marília”.
103

Tempos depois, Carmen teve contato com extratos e contracheques que agravaram a
nebulosidade acarretada pelos dizeres de Eva e pela inexistência de registros sobre Marília nos
órgãos em que foi procurada. A previdência privada alimentada pela pensão de Marília, à qual
Carmem tinha acesso, parara de receber depósitos no mês de janeiro. Investigando a questão,
Carmen descobriu que em 2003 Marília não foi recadastrada no Ministério do Exército, como
deveria fazer anualmente, o que ocasionou a suspensão da pensão e, conseqüentemente, a
ausência de depósitos na previdência privada. Porém, em outubro de 2004 chegou à casa de
Laranjeiras “um contracheque de pagamento de pensão, o que levou a crer que seu pagamento
havia sido reabilitado”. Para seguir investigando o que teria ocorrido, Carmen
procurou o Ministério do Exército onde foi informada que o pagamento da
pensão de Marília estava sendo depositado na conta de José Andrade
Fernandes, a quem a declarante [Carmen] desconhece; que segundo
informações do Ministério do Exército, foi instaurado um Inquérito Militar
para apurar se houve alguma irregularidade neste pagamento.

Foi após essa descoberta que Carmen procurou o advogado que assinou a petição
entregue na 9ª DP naquele mesmo outubro de 2004 e, após peregrinação por diversas
repartições, foi recebida no SDP em agosto de 2005. Foi também após essa descoberta que se
chegou ao nome de José Fernandes, o beneficiário da pensão da desaparecida.
O inspetor do SDP responsável pelo caso efetuou, entre novembro de 2005 e abril de
2007, algumas buscas em sistemas de dados, consultas através de Ofícios e oitivas de pessoas
envolvidas no caso visando esclarecer o que teria ocorrido à Marília. Ofícios foram remetidos e
respondidos pelo HSA, pela Santa Casa de Misericórdia, pelo IML e pelo IFP, e
correspondências foram trocadas com a Seção de Inativos e Pensionistas do Ministério do
Exército. Em todos os documentos produzidos por estas buscas, nenhum registro forneceu
pistas do paradeiro dela. Conforme registrado pela chefia da Seção de Inativos e Pensionistas, a
mesma falta de pistas caracterizava as buscas feitas pelo Ministério do Exército.
De posse então, além das declarações prestadas por Carmen, apenas do nome de quem
recebera a pensão de Marília, o inspetor fez consultas nas bases de dados que lhe são acessíveis
e tomou nota de três endereços associados não ao nome de Marília, mas de “José Fernandes”,
aos quais remeteu Mandados de Intimação: dois residenciais e um comercial. Três pessoas
compareceram ao SDP em resposta às intimações, e as três foram unânimes em dizer que
desconhecem tanto José Fernandes, quanto as razões que fazem com que seus endereços
constem como sendo os mesmos desse homem.
Finalmente, em agosto de 2008, exatos três anos depois de receber a petição do
advogado de Carmen, o inspetor do SDP que ficou responsável pelo caso de Marília solicitou a
Suspensão da Sindicância, que teve anuência do delegado da DH. No relatório que justifica o
arquivamento do caso, o inspetor registra não só as razões que o levaram a solicitar a
104

Suspensão da Sindicância, mas também suas hipóteses do que poderia ter ocorrido à Marília:
não havendo maiores interesses no atual paradeiro de Marília; ressaltando
que o pagamento da pensão foi cancelado desde 2004, acreditando que
assim como Diva foi sepultada como indigente, por desinteresse dos irmãos,
o mesmo pode ter ocorrido com Marília, ou mesmo seu corpo tenha sido
doado para universidades, observados os trâmites legais, o que não podemos
afirmar, haja vista que não foram encontrados quaisquer registros nas
pesquisas realizadas até a presente data.60

Além de explicitar uma das várias relacionalidades que, entre casas, parentelas e
vizinhanças, são designadas por policiais como “famílias”, o desaparecimento de Marília
coloca em cena dimensões cruciais do uso de documentos e registros oficiais no contexto dos
Estados-nacionais. Afinal, enreda uma trama de roubo de identidade que se assemelha aos
casos norte-americanos de ID theft analisados por Peirano (2009) e remete à histórica
impostura de Martin Guerre (Davis, 1983), tratada por alguns autores como possibilidade
extinta pelas práticas estatais de identificação e documentação inauguradas (e inaugurais) da
Modernidade. (Caplan & Torpey, 2001). Não obstante, ao trazer em seu enredo um roubo de
identidade, o caso descortina não só os ardis propiciados pela relevância dos documentos no
chamado mundo moderno, como também seus “aspectos paradoxalmente complementares: de
um lado, permitem a seus portadores vários privilégios em relação aos que não os possuem;
de outro, submetem-nos a um constante controle externo.” (Peirano, 2009, p.65)
No desaparecimento de Marília, uma pessoa não localizada fisicamente pela polícia,
mas que teve nome e endereço identificados em bancos de dados e descobertos como falsos,
recebeu por alguns meses posteriores ao desaparecimento a pensão a que Marília tinha
direito. Por essa razão, pessoas que jamais ouviram o nome daquele que recebeu a pensão,
embora vivam ou trabalhem no endereço a ele associado em registros oficiais, foram
intimadas a comparecer a repartições policiais e prestar “declarações” sobre um “fato” que
desconheciam. Essa passagem do caso explicita que, se documentos atestam identidades por
meio da redundância ideal garantida por fotos, assinaturas e impressões digitais como as
contidas nas carteiras de identidade brasileiras (Peirano, 2009, p. 63), por outro lado são
instrumentos que permitem a determinadas autoridades intimar cidadãos. Ao mesmo tempo,
se documentos permitem àqueles que identificam fazer valer seus direitos e receber benefícios
e bens sociais, por outro lado são, eles mesmos, bens. Não bens quaisquer, e sim bens
fundamentais, cobiçados e passíveis de serem roubados, que se desdobram em outros bens,
como a pensão de Marília.
60

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 377/05 do SDP/DH.

105

Vejamos agora o desaparecimento de Gutemberg, que também enreda, na forma de
acusação, roubo de bens.

GUTEMBERG
Dia 21 de março de 2007 a dona de casa Rejane foi a 18ª DP, repartição policial
próxima à casa de sua mãe, no Estácio. Seu marido Gutemberg, técnico de manutenção em
elevadores, saíra de casa para trabalhar no dia 5 daquele mês e, desde então, não retornara.
Rejane procurou a delegacia e, a partir de suas falas, foi produzido registro de desaparecimento
em nome de Gutemberg. No documento, ficaram registrados a descrição física de Gutemberg,
relatos de Rejane sobre o dia do desaparecimento e o fato de que, entre aquela data e sua ida à
delegacia, Rejane tentou compreender o que ocorrera a seu marido “tendo procurado-o por
todos os lugares possíveis, tais como casas de amigos, familiares, locais que habitualmente
freqüentavam juntos, sem êxito.”
O registro de desaparecimento de Gutemberg foi produzido na 18ª DP, mas, logo em
seguida, remetido para a 6ª DP. O policial que efetuara o RO ponderou que, como Gutemberg
não morava no bairro do Estácio e o endereço firmado como “local do fato” foi seu endereço
residencial, o caso deveria ser investigado pela 6ª DP.
Meses depois, da 18ª DP o caso foi remetido ao SDP. Contudo, o policial do SDP que
recebeu o caso julgou que cabia à DP a responsabilidade de investigá-lo. Sob a justificativa de
que o caso ali chegara “sem que ninguém fosse ouvido e sem que a foto do desaparecido fosse
anexada, sendo apenas confeccionado o Registro de ocorrência”, os documentos a ele relativos
voltaram para a 6ª DP. Esse último encaminhamento do caso entre repartições aconteceu em
novembro de 2007.
Menos de quinze dias depois, o caso retornou ao SDP, agora sob a justificativa de que
“o prazo da Res. 513 [que determina que em 15 dias as DPs remetam casos não solucionados
ao SDP] é fatal”.
Enquanto os documentos sobre o desaparecimento do técnico em manutenção de
elevadores circulavam, um vizinho seu, de nome Carlos Alberto, foi à 6ª DP comunicar outro
fato protagonizado por Gutemberg. Segundo Carlos Alberto, Gutemberg era síndico do edifício
em que ambos moravam e utilizou-se do cargo para roubar dinheiro do condomínio. A partir
das falas de Carlos Alberto, foi feito RO intitulado “Apropriação indébita” em nome de
Gutemberg. Dias depois, o próprio Gutemberg foi à delegacia prestar declarações sobre a
acusação de Carlos Alberto. Expôs seu ponto de vista sobre a denúncia e não fez qualquer
menção a seu desaparecimento que tenha ficado registrada.
Segundo Gutemberg, dia 5 de março de 2007, registrado como data do seu

106

desaparecimento, houve em seu edifício uma assembléia de condomínio. Na ocasião, ele foi
destituído do cargo de síndico, que ocupava desde outubro de 2005. Mesmo fora do cargo, ele
seguira morando no edifício, na casa que dividia com sua esposa Rejane. Meses depois, o casal
se separou e “está em fase judicial de reconhecimento dessa situação”. Segundo Gutemberg,
tempos depois Carlos Alberto assumiu as funções de síndico,
efetuou uma assembléia e alegou que administração anterior havia deixado
vários débitos; que o declarante embora tomasse conhecimento desse débito,
informa ter dúvidas e entende que melhor seria se fosse feita uma prestação
de contas, o que faria ou fará através de medidas próprias e cabíveis no caso;
que não se furta de ressarcir o condomínio, mas entende por demais
necessário que seja feita após demonstrativos de débitos apresentados e
confrontados na prestação de contas; que essa situação é solicitada pelo
declarante, desde a data de seu afastamento daquela administração, e que
jamais foi aceita ou respondida pelo atual síndico; que tudo foi solicitado ao
síndico de forma verbal, e como não respondido, foi feita uma “carta
notificação” reiterando os pedidos anteriores e solicitando uma data à
realização de uma assembléia, carta essa recebida pelo síndico. E mais não
disse.

Cópias dos documentos relativos à denúncia de Carlos Alberto foram remetidas ao
SDP, para que fossem reunidos aos registros referentes ao desaparecimento de Gutemberg.
Todos os papéis foram compilados e, em março de 2008, arquivados como Sindicância
Solucionada. Na justificativa para o arquivamento, lê-se que “o desaparecimento já foi
localizado, prestando depoimento na 6ª DP”.61

É provável que a esposa de Gutemberg tenha comunicado o desaparecimento dele à
polícia para se proteger da acusação que posteriormente recaiu sobre o desaparecido na forma
de um RO de “Apropriação indébita”. É também provável, por outro lado, que Gutemberg
tenha desaparecido voluntariamente de sua casa e do edifício em que morava para se esquivar
da mesma acusação. De todo modo, há potenciais intencionalidades enredadas no caso do
técnico de elevadores que apontam para mais um elemento da rotina dos casos de
desaparecimento que tem como efeito sua construção como incógnitas. Além das
“declarações” dos “Envolvidos”, dos “nada consta” e das múltiplas negativas que revestem
desaparecidos e desaparecimentos de nebulosidade, a possibilidade de todo desaparecimento
resultar de decisões do desaparecido reforça seu caráter enigmático.
Alguns documentos arquivados no SDP contêm registros que tratam desaparecimentos
como comportamentos. Muitos casos protagonizados por crianças e adolescentes que fugiram
de suas casas, por exemplo, trazem em seus papéis frases como “a comunicante não entende o
que pode ter ocorrido e declara que a desaparecida nunca teve esse comportamento antes” ou
61

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 003/08 do SDP/DH.

107

“narra que seu filho sempre faz isso, desaparecendo com freqüência”. Registros como esses
indicam que o desaparecido teria optado por deixar o local e/ou o grupo a que costumava estar
vinculado deliberadamente, o que leva os comunicantes a se perguntarem pelas razões dessa
decisão. Não obstante, muitos casos tratam desaparecimentos não como comportamentos dos
quais os desaparecidos são sujeitos ativos, mas, ao contrário, como acontecimentos de que
foram agentes passivos. Nesses casos, para retratar a condição de agente passivo do
desaparecido, há frases como “não sabe o que pode ter se passado com seu filho” ou “não
entende quem pode ter feito isso com o desaparecido”.
Entre os dois pólos, um em que o desaparecimento aparece como fruto direto da
deliberação do desaparecido, outro em que ao desaparecido é atribuída completa passividade,
casos registrados de formas variadas entendem-se ao longo do que Biehal et al (2003)
denominam “continuum do desaparecimento”.62 Entre decidir desaparecer, como pode ter
ocorrido a Gutemberg, e ser forçado a isso, como talvez tenha ocorrido a Marília, ausências
provocadas por motivos muito variados são construídas como casos de desaparecimento.
Reforçando seu caráter enigmático, contudo, em todos esses casos faz-se presente, como
virtualidade, a possibilidade do desaparecimento ser fruto de uma escolha. Mais do que isso,
em todos os casos faz-se presente também a possibilidade da comunicação do
desaparecimento ser fruto de decisões que servem a finalidades diversas. Registrar o
desaparecimento de Gutemberg, afinal, pode ter sido a maneira encontrada pelo técnico de
elevadores para se esquivar de uma acusação ou, ao mesmo tempo, a forma que sua esposa
encontrou de proteger-se dos desdobramentos da tal acusação. Em suma, potenciais intenções,
tanto de desaparecer quanto de produzir um caso de desaparecimento, fazem-se presentes nos
casos e reforçam-lhes seu peculiar caráter enigmático.
No Despacho exarado no caso do menino que desapareceu carregando a gaiola de
passarinho, citado acima, o delegado titular da DP em que o desaparecimento foi inicialmente
registrado menciona as múltiplas intenções e finalidades que podem mobilizar comunicantes e
desaparecidos. Destoante dos textos padronizados usualmente empregados em Despachos, o
conteúdo do documento apresenta a reflexão do delegado sobre o desaparecimento de pessoas

62

Biehal et al (2003) realizaram pesquisa sobre o desaparecimento de pessoas no Reino Unido a partir de
registros produzidos pela The National Missing Persons Helpline, instituição beneficente que disponibiliza
linhas telefônicas destinadas, por um lado, a prover assistência a familiares de desaparecidos e, por outro, a
oferecer aos próprios desaparecidos um canal confidencial para enviarem notícias a suas famílias caso desejem.
Os pesquisadores construíram bancos de dados estatísticos compilando todos os desaparecimentos reportados à
instituição durante um ano, analisaram em profundidade uma amostra dos casos e, por fim, sistematizaram dados
colhidos a partir de formulários respondidos por pessoas desaparecidas que foram localizadas e se dispuseram a
participar da pesquisa.

108

e um ideal de rotina burocrática a ser seguida diante de cada caso. Cotejada com os parcos e
breves procedimentos levados adiante nos casos narrados ao longo deste trabalho, a rotina
descrita pelo delegado revela-se um modelo de atuação que, se é vigente em repartições, o é
precisamente como modelo, não como prática. Pelo contraste que provoca desde sua primeira
linha, vale transcrever integralmente esse Despacho excepcional, sobretudo depois de
descrever a rotina que os casos arquivados no SDP percorreram e destacar as imprecisões e os
“nada consta” que a constituem:
Despacho da Autoridade
Prazo de 30 dias.
O Desaparecimento é uma ocorrência de grande importância podendo ter
sido o desaparecido assassinado ou seqüestrado, gerando direitos civis
devido à ausência. É constante se alegar desaparecimento e a pessoa estar
presa ou doente mental, que já se ausentou de casa diversas vezes, sendo
puro comodismo do comunicante que não quer procurar o local da prisão ou
internação e aguardar que se avisem a ele. É de difícil elucidação porque
algumas vezes, o desaparecido não quer ser localizado, tendo escolhido
outro relacionamento sentimental ou modo de vida. Diversas vezes, é
abandono voluntário do lar, problema cível, no qual o companheiro(a) sabe
onde a pessoa está, diz que ela desapareceu achando que o encontro pela
polícia vai fazê-lo(a) reatar o relacionamento, seja sentimental ou familiar,
ou facilitar desfecho favorável na Justiça, o que nem sempre é verdade,
devido aos motivos do abandono do lar. O sindicante deve ouvir outros
parentes do comunicante que podem ser apresentados no ato do registro e se
caso alegar que não os tenha, apresentar vizinhos. A recusa peremptória de
apresentação pode ensejar suspeita de que o comunicante está querendo
esconder informação valiosa e até grave. É comum o ausente mencionar o
destino a várias pessoas, exceto aquele que está comunicando o
desaparecimento, pois não quer ser localizado por este, que sabe da
ocultação, mas não o local, e está utilizando a polícia para descobrir para ele.
Desavenças ou maus tratos familiares, principalmente de padrasto em
relação à enteada, não aceitação de opção sexual ou de relacionamento
sentimental, ocultação contra a aplicação da lei ou similares, por exemplo,
não pagamento de dívidas – o RO serve para dizer que não sabe o paradeiro
do procurado – emigração ilegal, etc., são motivos de desaparecimento
ocultados pelos comunicantes que dificultam a investigação. Tomadas todas
as providências preliminares e havendo fundadas razões de desaparecimento,
orientar aos comunicantes acerca da notícia do REAPARECIMENTO e que
procurem a hospitais da região, IML(s) e de posse de documento do ausente,
em que conste a filiação, ir até ao IFP e verificar se não houve sepultamento
como indigente. (O Instituto faz a coleta de individuais datiloscópicas de
falecidos e pesquisa no Fichamento. Mesmo localizada a qualificação e
endereço do falecido, aguarda-se o comparecimento de familiares ao IML
para o sepultamento, e havendo ausência, caso raro porque as funerárias
sempre encontram – não se deve esquecer a recusa do pagamento do enterro
– é inumado como indigente.) Após, comparecer à Cruz Vermelha, jornais
para se publicar o desaparecimento, à FIA (Fundação da Infância e da
Adolescência) em Botafogo e a 2ª Vara de Infância e Juventude
109

(Sambódromo), se menor. A televisão é um excelente localizador de
desaparecidos. O sindicante deve perguntar onde trabalhava o desaparecido,
mesmo atividade informal, seus companheiros e, principalmente, patrão para
saber se continua trabalhando ou o paradeiro; se tem parentes, mesmo fora
do RJ, porque são excelentes fontes de informações. A foto do desaparecido,
alcunha, suas características (tatuagens, defeitos físicos, higidez mental,
etc.), roupa que trajava, se estava acompanhado, banco onde tem conta (para
saber se houve saque após a ausência), e-mail (deve-se enviar mensagem e
ver se foi “baixado”) e se o comunicante informar o telefone do
desaparecido, principalmente celular, sem dúvida que deve ser contatado na
hora pois isto pode localizá-lo. Perguntar por endereço e telefones das
pessoas de relacionamento sentimental ou familiar do desaparecido, mesmo
fora do RJ, e principalmente, CPF que informam se existe veículo em nome
do desaparecido, o qual o comunicante não informou, podendo haver local e
hora [de] infração de trânsito, após a comunicação de desaparecimento, uma
boa fonte de pesquisa para localização. Ir até ao local da residência do
comunicante e do desaparecido, entrevistando, outros parentes e vizinhos
não informados, quando da comunicação. OFICIAR à Polinter e IFP (pode
estar preso, com mandado de prisão ou morto o desaparecido), ao Arquivo
Nacional, ao Desipe, ao DETRAN-RJ (ver se foi agendado algum serviço
após a ausência), ao SPC, Cedae, à Light, à Fenseg (saber se o desaparecido
tem seguro de vida e em nome de quem, entrevistando o beneficiário), à
Santa Casa de Misericórdia (informa se há certidão de óbito), à Claro, Vivo,
Oi, TIM, etc., para saber se tem telefone em nome do desaparecido não
informado pelo comunicante, ao TRE (se não votou pode estar morto e em
caso de comparecimento a pleito eletivo, após notícia de desaparecimento,
por via judicial ou Ministério Público, pode-se saber o endereço constante do
banco de dados acerca do título eleitoral), a Institutos de Identificação e
Médico-Legais, sede do local de trabalho, DETRAN, Penitenciária,
Tribunais de Justiça, no estado natal, fora do RJ, conforme dados colhidos
com os comunicantes, porque pode ter havido viagem do desaparecido, sem
aviso, e ocorrer algum registro nos órgãos. Pesquisas na Internet, com o
nome do ausente, se consta processo na Justiça, como Autor/Réu,
verificando se compareceu a audiência após o desaparecimento e à Telemar
para saber se tem telefone fixo e qual o endereço. São dados valiosíssimos
que facilitam e encerram a investigação com êxito favorável do encontro ou
não, porque pode ser encaminhado os autos ao SDP/DELEGACIA DE
HOMICÍDIOS ou outra dependência policial, sem pretexto para devolução. 63

Entre as várias intenções que podem mobilizar comunicantes de casos e as múltiplas
diligências sugeridas no Despacho, chama atenção que o delegado registre que a “televisão é
um excelente localizador de desaparecidos”, apontando para a importância atribuída, dentro
de delegacias, para meios de se descobrir paradeiros que estão fora das atribuições dessas
repartições. O Despacho indica que não apenas às “famílias” são delegadas responsabilidades
pelos casos, como discuto no próximo capítulo, mas também que outras instituições são
chamadas a desempenhar papéis na investigação de desaparecimentos. Como mostra o caso
de Tiago, algumas vezes meios de comunicação de massa realizam aquilo que, ao procurar
63

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 201/05 do SDP/DH.

110

delegacias, cidadãos esperam que seja feito pela polícia. 64 E como fica claro no Despacho,
policiais muitas vezes contam com isso.
Tiago é um menino surdo-mudo que vivia com a mãe em Teresópolis e, em três
ocasiões diferentes, fugiu de onde estava rumo a cidades litorâneas - Niterói, Araruama e
Angra dos Reis. Em uma dessas ocasiões, sua mãe e sua tia tomaram conhecimento de seu
paradeiro ao ver a foto do menino impressa em jornal comercializado em Barra Mansa. O
jornal periodicamente veicula imagens de pessoas que desejam encontrar familiares ou, como
no caso de Tiago, que foram acolhidas em instituições públicas e não informaram, por razões
as mais variadas, de onde vieram. Esse serviço é executado por um programa da FIA/RJ
intitulado “Procuro minha família”.
TIAGO
Em setembro de 2006, Ângela foi à 110ª DP, em Teresópolis, comunicar o
desaparecimento de seu filho Tiago, de 15 anos. Conforme relatado por Ângela, Tiago, que é
surdo-mudo, havia saído de casa em direção à escola no dia 1º de setembro e até aquele
momento, começo da tarde do dia 12, não retornara. Segundo ela, “fato igual a esse” havia
ocorrido em junho daquele mesmo ano, quando Tiago foi encontrado em Niterói e levado de
volta para casa quinze dias depois, pelo motorista do Conselho Tutelar local.
Em março de 2007, antes que registros de solução ou suspensão do caso fossem
produzidos, Delizete, irmã de Ângela e tia de Tiago, foi à 90ª DP, em Barra Mansa, comunicar
novo desaparecimento do menino. Relatou então que depois de desaparecer “inicialmente em
Teresópolis, onde morava com a mãe”, seu sobrinho havia sido encontrado em um abrigo da
cidade de Araruama. O caso ocorrido em setembro de 2006, portanto, poderia ter sido
solucionado aí. Contudo, antes mesmo que Ângela ou Delizete reencontrassem Tiago, o
adolescente fugiu do abrigo, “estando desaparecido desde então”.
Na 90ª DP, Delizete relatou ao inspetor que, depois do desaparecimento de Tiago em
setembro de 2006, Ângela esteve internada na Santa Casa, “muito abalada pelo estado
emocional”. Depois de deixar o hospital, mudou-se para a casa de Delizete. Além dessa
informação, a tia de Tiago agregou aos documentos produzidos pelo polícia um recorte de
jornal. Tratava-se de nota intitulada “Procuro minha família”, creditada ao Programa SOS
Crianças Desaparecidas, mantido pela FIA/RJ.
Ao lado de outras quatro fotografias, a nota veiculava o retrato de Tiago e o seguinte
texto: “O jovem foi encontrado próximo a uma Igreja Evangélica de Araruama. Ele se

64

Sobre o papel da mídia no fornecimento de bens sociais, que a um só tempo tem alargado a noção de espaço
público e esvaziado canais tradicionais de exercício da cidadania, ver Canclini (1999).

111

comunica com dificuldade – por sinais –, fala poucas palavras. Ele recebeu o nome de Tiago
Costa Cunha, está abrigado e sem referências familiares.” A veiculação da foto de Tiago no
jornal foi o que permitiu a Ângela e Delizete saberem que, depois de desaparecer em
Teresópolis, o adolescente fora abrigado em Araruama. No entanto, embora tenham tomado
conhecimento do abrigamento, as duas não chegaram a rever Tiago antes que ele fugisse.
Passado um mês do registro da fuga de Tiago do abrigo na forma de RO de
desaparecimento, o caso saiu da responsabilidade da 90ª DP e foi encaminhado ao SDP. A essa
altura, já estava sob investigação no Setor a VPI em que constava o RO efetuado na 110ª DP,
em setembro do ano anterior, a partir da comunicação de Ângela. Os dois conjuntos de
documentos foram então reunidos na forma de Sindicâncias Juntadas.
Menos de dois meses depois, novo documento oriundo da 90ª DP chegou ao SDP.
Tratava-se de comunicação interna em que o Delegado Titular da DP informava que Delizete
havia retornado àquela repartição policial para comunicar que seu sobrinho
apareceu no dia 23/5/2007, em bom estado de saúde; que Tiago estava em
um abrigo próximo a Praia do Sapo na Cidade de Angra dos Reis, desde o
mês de fevereiro; que Delizete comunicou que Tiago está em bom estado de
saúde, apesar dos problemas.65

2.3 É problema do Estado
Não são raros casos em que as finalidades do registro do desaparecimento passam ao
largo da descoberta do paradeiro do desaparecido e miram tão somente o próprio registro. Um
deles, relembrando o capítulo anterior, é o de Geraldo. Em casos como o dele, é de interesse
de comunicantes e outros “Envolvidos” que nenhuma diligência realizada por policiais
conduza à localização do desaparecido. Ao contrário, é de interesse deles que os casos se
reproduzam no tempo como enigmas não solucionados. Não como enigmas quaisquer,
evidentemente, mas como enigmas registrados e certificados em repartições policiais.
No SDP, o registro e certificação de enigmas como os desaparecimentos de
Gutemberg, Marília, Sebastião, Justo, Otávio, Lúcio e Tiago são feitos em meio a
questionamentos quanto à responsabilidade da própria polícia diante do desaparecimento de
pessoas. Como me disse algumas vezes a inspetora Telma, o desaparecimento “é um
problema do Estado” e cuidar dos casos “não é serviço nosso, mas a gente acaba fazendo”.
Para a policial, desaparecimentos são “problemas de família” e “problemas de assistência
social” que se situam na jurisdição do que ela chama de “Estado”. Esse “Estado” exclui a
65

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 120/07 do SDP/DH.

112

polícia e suas repartições, apesar de, em certa medida, incluir a televisão, como indica o
Despacho citado acima. Mas o que, afinal, significa dizer que o desaparecimento é “problema
do Estado”? Por que separar a polícia do “Estado” é a forma encontrada pela policial para
lidar com os casos e refletir sobre o desaparecimento de pessoas?
Tanto quanto “a burocracia”, “o Estado” é um construto retórico evocado por cidadãos
diante de desapontamentos, frustrações e humilhações experimentadas em encontros com
servidores públicos em repartições variadas como, por exemplo, delegacias de polícia. 66 Não
raro cidadãos queixam-se, em diversas instâncias, de que procedimentos e exigências feitas
por funcionários de repartições são excessos opressores e absurdos, como mostra Reis (1998),
verdadeiros “sinais de um intolerável e brutal, porque impessoal e mecânico, controle
político-burocrático” (DaMatta, 2002, p.39). Nessas queixas, “a burocracia” e “o Estado”
figuram como entidades logicamente opostas à agência individual dos cidadãos, dotadas de
força e poder tais que causam, por si sós, toda a opressão e brutalidade que possa ter recaído
(ou vir a recair) sobre aquele que vai a uma repartição pública solicitar serviços, receber
benefícios ou cumprir determinações legais. Impotentes, cidadãos seriam acachapados pelo
poder mecânico e impessoal dessas entidades. Para Herzfeld (1992), evocar desse modo “o
Estado” é um recurso simbólico que permite aos cidadãos tanto lidar, de modo fatalista, com
seus próprios desapontamentos diante de servidores, repartições e procedimentos
burocráticos, quanto resignar-se face às humilhações experimentadas por outros cidadãos,
reproduzindo um processo de “produção social da indiferença”. (Herzfeld, 1992, p.13)
Ao dizer que o desaparecimento é “problema do Estado”, a inspetora Telma defende
que casos como os arquivados no SDP não sejam registrados e investigados por policiais, e
sim geridos por servidores de outros órgãos e instituições que não a polícia. Não obstante, ao
evocar “o Estado” separando dele a polícia e os policiais, Telma também aponta para as
frustrações e descontentamentos experimentados por ela, por seus colegas de Setor e por
comunicantes e “Envolvidos” diante da rotina burocrática que tece os casos de
desaparecimento. Como busquei apresentar ao longo deste capítulo, relatados como enigmas
por pessoas encaradas com desconfiança ou responsabilizadas pelos casos nas delegacias,
desaparecimentos são registrados de forma precária. Questões centrais em toda ocorrência
policial, o quando, onde e como do desaparecimento são perguntas de resposta impossível,
que tornam o conteúdo dos documentos relativos a cada caso impreciso e ineficaz como
instrumento de investigação. O efeito mais notável desses registros, repletos de negativas e
66

Sobre “o Estado” como construto retórico, ver também a análise de Gupta (1995) sobre discursos de indianos
em torno da “corrupção”.

113

retratos vazios, é reproduzir o caráter enigmático com que os casos são revestidos quando
comunicados, e não facilitar a “descoberta de paradeiros”, tarefa que dá nome ao SDP. Diante
disso, não é difícil imaginar o quão frustrante pode ser, tanto para policiais, quanto para
comunicantes, relatar e registrar um caso de desaparecimento.
Ademais, o desaparecimento é considerado ocorrência desimportante no universo
mais amplo de “fatos” investigados em repartições policiais, a despeito do que se lê no
Despacho exarado pelo delegado titular da DP onde o caso do menino que desapareceu
carregando uma gaiola foi registrado. Não foram poucas as vezes que o inspetor Fernando
chamou minha atenção para o contraste entre a invisibilidade dos milhares de casos
arquivados no SDP e alguns desaparecimentos de grande repercussão, como o da garota
inglesa Madeleine McCain. 67 Nessas ocasiões, o policial sugeria que o mesmo contraste se
dava entre os trabalhos feitos no SDP e as operações policiais espetaculares em torno de
crimes e outras ocorrências grandiloqüentes, como a “Operação Anjo”, mencionada no
primeiro capítulo, da qual ele mesmo participou. A rotina de “só preencher papel” que faz da
investigação de paradeiros “uma ilusão” que, na prática, nada tem a ver com o extenso e
detalhado Despacho supra citado, reveste o SDP e os casos ali arquivados de pouco ou
nenhum prestígio, e pouca ou nenhuma visibilidade. Os frustrantes e incômodos resultados
disso, conforme registrado no caso de Antônio e, a seguir, no de Elói, são a “falta de
informação dentro do próprio organismo da Polícia Civil, seja no que diz respeito ao registro
do desaparecimento, seja a área de sua atribuição”, e um trabalho policial que “pouco
conforma, apenas informa que não há registros em nome daquele desaparecido”. O inspetor
Carlos Ernesto resume a desimportância e invisibilidade do desaparecimento e do SDP
dizendo que “por mais que a gente trabalhe, tudo o que a gente faz aqui é só procedimento
administrativo, não têm valor nenhum e não adianta nada”.
O desaparecimento de Elói coloca em cena tanto a frustração, quanto a resignação do
policial encarregado do caso diante de seu desfecho. Na forma como relata a ocorrência antes
do arquivamento, o agente comunica não só que pouco foi feito para solucioná-la, resignandose, mas também que pouco poderia ser feito nesse sentido, afirmando que o trabalho policial é
impotente diante dos desaparecimentos. Não obstante, o caso também coloca em cena a

67

Em 3 de maio de 2007, Madeleine McCain, de 3 anos de idade, desapareceu em um hotel da Praia da Luz, em
Portugal, onde estava hospedada com seus pais e dois irmãos menores. As polícias portuguesa e inglesa
investigaram o caso e, paralelamente, os pais da menina implementaram um programa de doação de recursos
para viabilizar investigações particulares. Meios de comunicação de todo o mundo deram espaço para o caso,
ainda não solucionado. A versão dos pais da criança sobre o ocorrido pode ser lida em
http://www.findmadeleine.com

114

comoção do agente diante de sua trama, comoção esta que se revela em toda sua força tanto
pelas palavras e frases escolhidas para relatar detalhadamente o caso, quanto pelo evidente
contraste entre elas e as formas narrativas padronizadas também presentes no documento. Se,
como vimos no caso de Tiago, comunicantes e “Envolvidos” como a mãe do menino ficam
“muito abalados pelo estado emocional” engendrado pela experiência do desaparecimento, o
caso de Elói convida-nos a pensar sobre os impactos provocados pelos relatos dos
comunicantes nos policiais que os registram. Em suma, o desaparecimento do jovem
demanda que a idéia da “produção social da indiferença” (Herzfeld, 1992) seja encarada com
parcimônia, chamando atenção para a possibilidade de um espectro de sentimentos bastante
distintos da indiferença conviverem com a resignação e impotência de que fala um cidadão,
seja ele servidor público ou não, quando fala que determinada questão é “problema do
Estado”.
Prestar serviços que mais se parecem com “atendimento psicológico”, como tantas
vezes me disse o inspetor Fernando, faz com que policiais encarregados de casos de
desaparecimento tomem contato com os “estados emocionais” dos comunicantes e demais
“Envolvidos”. Logo em nossas primeiras conversas, Fernando me contou que muitas vezes
fornece o número de seu telefone celular para as “famílias de desaparecidos”, envolvendo-se
com os casos e colocando-se à disposição com mais intensidade e por mais tempo do que faz
supor a rotina burocrática padronizada percorrida pelos desaparecimentos. “Perco noites de
sono”, me disse certa vez. Depois de atender a mãe de adolescente desaparecida que foi ao
SDP buscar e dar notícias sobre o caso, o inspetor me contou que aquela “família” vinha
procurando um Centro Espírita para ter pistas do paradeiro da garota. Toda pista obtida no
Centro era cuidadosamente informada ao SDP para auxiliar nas investigações. Segundo
Fernando, “religião e crenças são fontes de esperança para as famílias”, e para ele os policiais
não devem “retirar delas essa esperança”. Sensibilizado pelos freqüentes contatos daquela
mãe para fornecer pistas sobre o caso de sua filha, o inspetor as ouvia e anotava
diligentemente. Não considerava que as informações obtidas no Centro Espírita pudessem de
fato auxiliar na solução do caso, mas julgava imprescindível respeitar “a esperança” e outros
sentimentos que, em meio a elas, a mãe da menina comunicava à polícia.
No desaparecimento de Elói, entre procedimentos e formas narrativas constitutivas da
rotina burocrática de todo caso arquivado no SDP, encontramos registros que firmam em
documentos escritos o que essas falas do inspetor Fernando indicam.

115

ELÓI
Sr Delegado,
Trata-se de mais um caso onde as famílias são as vítimas maiores, pois
nelas se misturam as incertezas e as certezas dos acontecimentos que levam
ao desaparecimento de seus filhos, sobretudo, e principalmente, quando se
trata de envolvimento com as drogas. Desocupado e morando sozinho o
jovem Elói se aproveitava do sustento que o pai proporcionava para
alimentar seu vício; acreditava o pai que o mantendo financeiramente o teria
mais perto, mesmo dando-lhe espaço físico e geográfico, pois mudou-se
com a mulher para Saquarema para lhe proporcionar maior liberdade, na
melhor das intenções. No entanto, a partir do desaparecimento encontrou
um rastro de desordem e apenas a notícia de que o seu filho saíra para
comprar drogas em um morro, enquanto alguns amigos esperavam em casa,
porém, não mais retornou. A partir daí surgiram inúmeros comentários e
detalhes mórbidos do que teria sido sua execução por parte dos traficantes,
não se sabendo a razão ou mesmo se são verdadeiras ou falsas. Resta o
registro de desaparecimento, antecipação de um óbito imaginário; resta um
trabalho policial que pouco conforma, apenas informa que não há registros
em nome daquele desaparecido. Infelizmente. Nada encontrado. Nenhum
registro. Nenhuma esperança de vida.
Assim exposto, considerando o tempo decorrido desde sua instauração;
considerando a carência de indícios ou fatos; considerando as respostas
negativas às pesquisas realizadas, solicito a Vossa Senhoria a SUSPENSÃO
da Sindicância, até segunda ordem, salvo melhor juízo.
É o que me cumpre informar.

Destoando dos textos padronizados que dão corpo a relatórios de “Informação sobre
investigação definitivos” produzidos no SDP, assim foi encerrado o caso de Elói, de 20 anos,
que desapareceu em agosto de 2005. Depois de consultar diversas instituições sem sucesso e
registrar declarações do pai do jovem, o inspetor que cuidou do caso relatou não só a intenção
de arquivá-lo, mas também a supracitada descrição comovida de alguns de seus elementos.
Elói morava sozinho no bairro de Vila Isabel, em imóvel pertencente aos pais, que
haviam se mudado do Rio de Janeiro para Saquarema. Na noite de quinta-feira, 4 de agosto de
2005, Elói recebeu três amigos em sua casa: Marina, Helena e Tomás. Os quatro partiriam
juntos para Saquarema no dia seguinte, e combinaram de passar a noite juntos para viajar no
amanhecer. Porém, por volta das onze horas da noite, Elói tomou emprestada a moto de
Tomás, foi comprar drogas no Morro São João, e não mais retornou, nem deu notícias.
Dias depois, Gilson, pai de Elói, veio ao Rio de Janeiro. Esteve no IML e nos hospitais
municipais Souza Aguiar e do Andaraí procurando por seu filho. Não o encontrou. Portando
uma fotografia dele, foi então à delegacia registrar o desaparecimento de Elói. Na ocasião,
relatou não só o que sabia que se passara na casa de Elói na noite do desaparecimento, mas
também o que “realmente teria acontecido” com ele no Morro São João:
lá teria ocorrido um desentendimento e os traficantes do local teriam
tomado a motocicleta dele estando ele desaparecido desde então, surgindo
comentários que ele estaria morto; que ainda obteve informações que seu
filho não tinha dívidas na boca de fumo; que segundo outra informação que

116

recebeu seu filho teria sido levado para Madureira e deixado morto dentro
de um veículo incendiado, ainda não tendo procurado por ele naquele
bairro; que também foi informado que o corpo dele estaria jogado na divisa
entre os Morros São João e Macacos; que policiais militares do 3º e do 6º
BPMs fizeram incursões aos Morros São João e Macacos, porém não
conseguiram localizá-lo; que a motocicleta também está sumida.

Minutos após registrar essas declarações, o investigador de polícia que recebeu Gilson
na DP solicitou informações sobre Elói à Santa Casa de Misericórdia, ao Hospital do Andaraí,
ao IML, ao IFP e à Polinter. Nas solicitações, aventava a possibilidade de Elói “ter dado
entrada com o nome de Tomás Kupfer”, proprietário da moto que guiava quando desapareceu.
Nenhuma das instituições forneceu informações que esclarecessem o paradeiro de Elói.
Quinze dias depois, quem compareceu à DP foi Tomás, que relatou brevemente o que
acontecera na noite do desaparecimento de Elói e solicitou Registro de Ocorrência de “Roubo
de Veículo”, para documentar o que ocorrera à sua motocicleta.
O caso de Elói foi encaminhado ao SDP em novembro de 2005. No começo de
dezembro, Gilson compareceu ao Setor e prestou extensas declarações sobre o
desaparecimento de seu filho. Na ocasião, além do que já havia narrado na DP, relatou fatos de
que tomara conhecimento posteriormente ao desaparecimento de Elói e que fariam parte da
trajetória de seu filho no que chamou de “mundo da ilegalidade”. Elói faria parte de um
esquema de “roubo de mangueiras de incêndio de prédios residenciais”, o que Gilson pôde
comprovar ao encontrar instrumentos como “alicates para grandes cortes” guardados em malas
no apartamento em que Elói vivia.
Sobre o desaparecimento do jovem, Gilson estendeu-se em descrições sobre o que teria
acontecido no Morro São João na noite de 4 de agosto:
O desaparecido teria sido reconhecido por um dos componentes da boca
como sendo comprador de uma “boca” rival, ou seja, pertencente a uma
outra facção criminosa; que dali iniciou-se uma discussão resultando em
briga corporal, onde Elói levou um tiro e foi arrastado para o alto do morro,
de onde foram ouvidos mais tiros; que o declarante ouviu comentários
também de que logo em seguida foi dado dinheiro para alguns menores do
morro comprarem gasolina e pneus para serem utilizados na carbonização
do corpo de Elói, e que realmente naquele dia foi feita uma grande fogueira
na localidade; que esse referido local foi fotografado e realizado algumas
incursões pelos policiais do 3º BPM, no entanto, não foram encontrados
vestígios de carbonização, sabendo-se apenas que o local foi devidamente
limpo; que tal versão mencionada pelo declarante foi confirmada por
moradores da comunidade, o que fez o declarante acreditar que realmente
seu filho tenha sido morto por traficantes daquela “boca de fumo”.

Foi depois dessas declarações de Gilson que o inspetor que o recebeu no SDP redigiu o
relatório acima transcrito encerrando o caso. 68

68

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 394/05 do SDP/DH.

117

Na “versão mencionada” por Gilson, Elói foi morto e carbonizado em função da
rivalidade entre traficantes que comandam diferentes bocas de fumo. Os detalhes do
assassinato e extermínio do corpo chegaram ao conhecimento de seu pai e fizeram parte das
“declarações” por ele prestadas no SDP, a despeito de não terem sido confirmadas pelas
incursões de policiais militares ao Morro São João, nem checadas por agentes do SDP ou da
DP que registrou o caso. Por isso, do ponto de vista do policial encarregado do caso no Setor,
os registros do desaparecimento de Elói consistem na “antecipação de um óbito imaginário”
que restou e restará sem confirmação ou contestação. O arquivamento do caso como
Sindicância Suspensa, afinal, garante que os documentos que registram a possível execução
do jovem ficarão depositados nas raramente abertas gavetas de arquivo do SDP.
Muitos são os casos guardados nos arquivos do Setor que trazem registros de
suspeitas, boatos e suposições de que o desaparecido tenha sido morto e tido seu corpo
ocultado, carbonizado ou exterminado de alguma maneira. “Acredita-se que esteja morto”,
“disseram que foi assassinado”, “possivelmente sendo vítima de homicídio”, “ouviu dizer que
foi morto e queimado” ou “sabe que seu filho foi queimado por bandidos” são frases
registradas em casos semelhantes ao de Elói que indicam o que o policial que cuidou do caso
do jovem chama de “antecipação de um óbito imaginário”. São casos em que os protagonistas
figuram como agentes passivos de seus desaparecimentos, opostos àqueles em que se registra
a intenção de desaparecer. Esses casos costumam trazer descrições não de hábitos e
características da personalidade do desaparecido, como muitos desaparecimentos arquivados
no SDP, e sim sobre detalhes de seus corpos. Enquanto dados sobre hábitos e personalidade
poderiam auxiliar a descoberta de um paradeiro, detalhes sobre corpos facilitariam a
identificação de cadáveres. O caso de Wilson, de 20 anos, é bastante ilustrativo. O pai de
Wilson, ao comunicar o desaparecimento de seu filho, relatou que o jovem “foi executado por
traficantes do Morro São Carlos e enterrado em um local conhecido como grotão, em uma
mata próxima de um muro branco que faz divisa com um local de que não se recorda”.
Wilson encontra-se assim descrito nos documentos:
Foi visto por último pela genitora, utilizando bermuda preta, camisa de
malha amarela e tênis de cor cinza, no local onde reside. É negro, com vinte
anos de idade, forte, com pelo menos 1.75m de altura, cabelo rapado, possui
duas tatuagens, uma tatuagem de uma índia no ombro esquerdo, um desenho
de contorno de Jesus Cristo na costa do lado direito. Um dente quebrado da
arcada superior. Sobrancelhas cerradas e unidas. Não sabe o nome da

118

dentista recordando-se apenas que tem consultório no Jardim Catarina em
São Gonçalo. 69

O cunho imaginário da morte desses desaparecidos não decorre de dúvidas dos
comunicantes, que detalham execuções a partir de boatos, recados e informações obtidas de
fontes não reveladas. De fato, muitas “declarações” como as do pai de Elói são feitas não
como certezas, mas como descrições de fatos sobre os quais o comunicante “ouviu dizer”,
“acredita, mas não pode confirmar”, e “tomou conhecimento porque dizem pela localidade
que o desparecido foi morto”. Porém, o óbito desses desaparecidos é imaginário não em
função das dúvidas que revestem as falas de comunicantes, mas porque tais falas restam sem
confirmação ou contestação por parte dos policias. No mais das vezes, as diligências
realizadas tendo como finalidade verificar se houve ou não óbito em casos de
desaparecimento restringem-se a buscas em sistemas de informação e ao envio de Ofícios ao
IML, IFP e Santa Casa de Misericórdia, respondidos usualmente com os “nada consta” que
tornam os casos mais nebulosos quanto mais se acumulam.
A prática de não averiguar e, assim, não confirmar nem contestar relatos de
assassinato e carbonização de cadáveres situa os desaparecidos e demais “Envolvidos” em
casos semelhantes ao de Elói nas “margens do Estado” de que falam Das & Poole (2004). 70
Meios em que, porque ausente, o poder regulador do Estado constitui-se como
imprescindível, espaços territoriais e populações “marginais” são aquelas que passam ao largo
da lei e de certa pedagogia no mundo da lei, de práticas de documentação e estatística e/ou de
poderes disciplinares. (Das & Poole, 2004, p.9-11) A não confirmação dos relatos registrados
sobre o destino de Elói, à luz dessas idéias, revela a posição marginal em que o próprio jovem
desaparecido é situado no decurso da trajetória burocrática de seu caso, ao lado de seu pai,
que o comunica à polícia, e ainda do próprio “morro” em que ele teria sido assassinado. A
cena da morte do jovem descrita por Hamilton, afinal, nada mais é que a descrição de um

69

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 205/05 do SDP/DH.
Na concepção de Das & Poole (2004), práticas administrativas estatais constroem e perpetuam “margens”
territoriais e sociais nas quais o próprio poder de estado é cotidianamente refundado. Apresentadas como
desordeiras, ilegíveis e fora de controle, as “margens do estado” de que falam as autoras são espaços e
populações face aos quais o estado, porque aparentemente ausente, constitui-se como instrumento de regulação
imprescindível. Tal perspectiva demanda que nos afastemos de concepções do estado como forma administrativa
racionalizada que se torna mais frágil em suas margens e de suposições de que o que está fora da ordem e da lei
está necessariamente fora do estado ou ameaçando seu poder. Ao contrário disso, espaços e populações sobre os
quais não há registros e processos de documentação oficiais, regulamento e normatização legal ou, como em
casos de desaparecimento, identificação e localização de indivíduos, são condição de possibilidade para a
constituição do próprio estado em toda sua força reguladora.
70

119

episódio de desordem, vivido em território fora da lei e protagonizado por pessoas não
identificadas, às quais não serão imputadas responsabilidades pelo ocorrido.
Segundo o inspetor Menezes, o desaparecimento é hoje uma das formas de atuação
mais comuns entre “bandidos e traficantes de morros cariocas”. Construindo uma cadeia de
acontecimentos que começa com a retirada de uma pessoa de circulação, o inspetor sustenta
que “os bandidos e traficantes desaparecem com as pessoas, depois matam e desovam ou
queimam os corpos”. Sem precisar exatamente quando essa mudança teria ocorrido, Menezes
defende que “antes” bandidos e traficantes assassinavam seus rivais e inimigos e, para
demonstrar poder, exibiam os cadáveres “à luz do dia, pra quem quisesse ver”. “Agora” a
prática é distinta: os cadáveres das vítimas desses criminosos são carbonizados, entre outros
métodos, no interior da pilha de pneus do chamado forno de microondas, como teria ocorrido
a Elói, ou desovados em locais de difícil acesso que são controlados por bandidos, como
Wilson. Ocultar ou exterminar os corpos de suas vítimas para apagar possíveis pistas dos
crimes que cometem seriam fonte de poder para criminosos hoje, ao contrário da exposição de
cadáveres de que faziam questão “antes”. A recorrência com que essa prática é empregada no
Rio de Janeiro, para Menezes, é a grande causa do recebimento diário de casos de
desaparecimento no SDP e faz com que muitas ocorrências restem sem solução. Afinal, nos
termos dele, “a polícia não sobe o morro e, mesmo se subir, não encontra os corpos”.

2.4 (Outros)
Casos como o de Elói e, a seguir, o de Urbano, enredam suspeitas e denúncias de
crimes que são registrados como desaparecimentos, embora aparentemente pudessem ser
enquadradas em tipos penais. Muitas vezes isso ocorre porque em sua primeira ida a
repartições policiais comunicantes dizem apenas que não sabem onde estariam as pessoas por
que procuram, desconhecendo ou optando por não relatar notícias, boatos e informações sobre
suas execuções e mortes. Não obstante, ao prestar “declarações” na segunda ou terceira ida às
delegacias, comunicantes detalham cenas de execução, homicídio, vilipêndio e ocultação de
cadáveres que seguem registradas sob o título “Desaparecimento - Desaparecimento
(Outros)”. A segunda ou terceira ida do comunicante à delegacia, portanto, não incide sobre
os juízos feitos pelos policiais que registraram o caso no ato de sua comunicação. Mesmo que
suas “declarações” neguem o que havia dito na primeira vez que procurou a repartição e
descrevam o caso em todos os seus “detalhes mórbidos”, como relatou o policial encarregado
120

do caso de Elói, o que o comunicante diz no decorrer do caso não leva o policial a questionar
sua decisão inicial de intitular a ocorrência como desaparecimento.
No desaparecimento de Urbano, o policial encarregado registra com tom de certezas
que o jovem foi “assassinado por traficantes”. Contudo, esse assassinato está registrado como
caso de desaparecimento, hoje arquivado como Sindicância Suspensa junto a todos os
desaparecimentos que venho narrando até aqui.

URBANO
Dia 23 de novembro de 2003, Hamilton dirigiu-se à DP de Neves, em São Gonçalo, para
comunicar o desaparecimento de seu filho Urbano, que completara 20 anos pouco antes, no
comemorativo dia 15 de novembro. Segundo Hamilton, na manhã do dia 21, Urbano saiu para
trabalhar em seu horário habitual e, desde então, não voltou para casa. Hamilton aguardou a volta do
filho por dois dias, até que “recebeu um telefonema anônimo em que diziam que seu filho havia sido
morto na FAZENDINHA DE INHAÚMA e que seu corpo havia sido carbonizado”. Ao solicitar o
registro, Hamilton firmou compromisso de retornar à DP levando uma foto de Urbano e, ainda, pediu
“uma ressalva para as horas ausentes de trabalho” que passara na repartição policial.
Em abril de 2003, sob a justificativa de que “os familiares do desaparecido não atenderam aos
convites enviados, mostrando assim, total falta de interesse no fato”, o inspetor da DP que ficara
responsável pelo caso solicitou seu encaminhamento para o SDP. Do SDP, porém, o caso retornou
para DP, já em março do ano seguinte. Um inspetor do Setor, afirmando não ter havido investigações
efetivas em torno do caso na DP, devolveu o caso “para o cumprimento integral da Res. 513/1991”.
Em maio de 2004, Hamilton voltou à DP e prestou novas declarações. Contradizendo a si
próprio, afirmou então que Urbano não saíra de casa para ir trabalhar no dia 21 e que, na verdade, seu
último contato com o filho havia sido por telefone, dia 15 de novembro. Depois do telefonema, a
única notícia que teve do filho foi aquela trazida pelo telefonema anônimo.
Contando com as novas declarações de Hamilton, o caso foi reencaminhado para o SDP. Em
agosto de 2004, então, circularam Ofícios entre o Setor e o IFP, a Santa Casa de Misericórdia, o
Desipe, a Polinter e o IML. Neles, informações sobre Urbano foram solicitadas e respostas negativas
foram remetidas ao SDP. Também naquele mês, o inspetor do Setor que cuidou do caso solicitou de
duas DPs de São Gonçalo
que seja enviada ao Serviço de Descoberta de Paradeiros desta Especializada,
cópias dos registros de ENCONTRO DE CADÁVER, não identificados, no período
de 16 a 30 de novembro de 2003. No ensejo, informo que tal solicitação visa
instruir os autos da sindicância acima em referência, instaurada para apurar o
paradeiro do cidadão URBANO AMARAL.

Ambas DPs responderam à solicitação remetendo ao SDP, ao todo, sete Registros de
121

Ocorrência: quatro de “Encontro de Cadáver”, acompanhados de suas respectivas Guias de Remoção;
um de “Homicídio proveniente de Auto de Resistência”; e dois de “Homicídio Provocado por PAF
(Projétil de Arma de Fogo)”. Em todos os ROs havia referência a cadáveres não-identificados que
foram assassinados, encontrados e/ou removidos no mês do desaparecimento de Urbano. Nenhum
deles, segundo o inspetor que cuidou do caso, era de Urbano. Além de reunir os ROs recebidos e
checados à Sindicância de Urbano, o inspetor também consultou o registro do desaparecido na Justiça
Eleitoral. Constatou então que Urbano esteve “ausente nas urnas em 10/2004 e 10/2005”.
Quase cinco anos depois, já em agosto de 2008, a Sindicância foi arquivada como Suspensa,
sob a justificativa de não haver indícios do paradeiro de Urbano que permitissem que a investigação
continuasse. Paradoxalmente, porém, no mesmo relatório em que o arquivamento foi solicitado, o
inspetor que cuidou do caso registrou certezas quanto ao que ocorrera ao desaparecido:
Sendo certo que restou apurado que seu [de Hamilton] filho foi assassinado por
traficantes na Comunidade Fazendinha, no Bairro de Inhaúma, que após matá-lo
atearam fogo ao seu cadáver, fato ocorrido no alto do referido Morro.
Ressaltando-se desde logo que o requerimento de suspensão não implica na
paralisação definitiva das investigações, que deverá ser reativada tão logo haja
indícios para seu prosseguimento ou qualquer manifestação positiva das partes
envolvidas.71

A decisão de intitular o RO que deu início ao caso com o termo desaparecimento foi
tomada diante dos primeiros relatos do pai do jovem, Hamilton, ao policial encarregado do
caso na DP. Embora tenham sido parcialmente contraditos meses depois, esses relatos já
informavam sobre o telefonema anônimo recebido na casa de Urbano, através do qual seu pai
ficara sabendo de seu possível assassinato. Entre os documentos do caso, não há registros de
que essa informação tenha sido rastreada por policiais. Tampouco há registros de contatos
telefônicos ou Mandados de Intimação que tenham sido emitidos pela DP para o pai de
Urbano, convocando-o a retornar a DP. Entretanto, o caso conta com o registro acusatório de
que “os familiares do desaparecido não atenderam aos convites enviados, mostrando assim
total falta de interesse no fato”. Ainda assim, o “fato” que levou Hamilton à DP e a reportar
ao policial que o atendeu o conteúdo do telefonema anônimo recebido em sua casa foi tratado
no Relatório final do caso como um assassinato que “restou apurado”.
Consultas a instituições feitas através de Ofícios permitiram ao policial do SDP
encarregado do caso não obter notícias do desaparecido, mas confirmar seu desaparecimento
e reforçar seu caráter enigmático: Urbano não compareceu às urnas para exercer suas
obrigações eleitorais, não teve seu corpo necropsiado no IML, não teve seu óbito registrado
pelo IFP, não foi enterrado em nenhum dos treze cemitérios administrados pela Santa Casa e
71

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 304/04 do SDP/DH.

122

não foi preso ou recebeu Mandado de Prisão que pudesse ser rastreado no Desipe e na
Polinter. A checagem de ROs de “Encontro de Cadáver” registrados em datas próximas ao
desaparecimento do jovem também tiveram o mesmo efeito: do ponto de vista do policial que
cuidou do caso na DP, nenhum dos cadáveres citados nos documentos seria de Urbano.
Cada uma dessas negativas pode ser encarada como confirmação do relato de
Hamilton: se Urbano foi morto e carbonizado, sua morte de fato não engendraria registro nas
instituições consultadas e seu corpo, convertido em cinzas, não seria objeto de ROs de
“Encontro de cadáver”. Não há, contudo, registros de que essa hipótese tenha sido verificada,
embora o Relatório final do caso afirme sumariamente que ela “restou apurada”. Urbano foi
assassinado e teve seu corpo carbonizado, mas seu caso restou arquivado como
desaparecimento. Paradoxalmente, esse desaparecimento é tanto construído como enigma,
quanto traz em si uma provável resposta para esse enigma.
Embora não seja crime, e sim uma categoria administrativa como todo “fato atípico”
registrado em delegacias, o desaparecimento pode conter relatos de fatos passíveis de ser
classificados como crimes e enquadrados em tipos penais, como o caso de Urbano torna
nítido. Contudo, a decisão de intitular um RO como desaparecimento, tomada no começo da
rotina burocrática de todo caso, incide sobre sua trajetória de modo determinante, se não
irreversível. Casos como o de Urbano, Elói e tantos outros jovens sobre os quais são descritos
“detalhes mórbidos do que teria sido sua execução”, talvez justificassem prestigiosas
operações policiais como as que contrastam, nos dizeres do inspetor Fernando, com o “só
preencher papel” característico do dia-a-dia do SDP. Mais do que isso, casos como esses
talvez explicassem por que, afinal, o Setor consiste em uma sala da Delegacia de Homicídios.
Entretanto, como profecias que se auto-cumprem, desaparecimentos são inicialmente
registrados como ocorrências desimportantes e assim seguem seu curso até o momento de seu
arquivamento, sem que registros firmados entre seus documentos dêem origem a muito mais
que novos registros. Execuções, carbonização de cadáveres, suspeitas de envolvimento com
tráfico de drogas e relatos de vinganças e querelas entre desaparecidos e aqueles que o
inspetor Menezes chama de “bandidos e traficantes” preenchem as gavetas do SDP. São
considerados aspectos dos enredos de desaparecimentos, e não indícios de que os casos
possam consistir em outros tipos de ocorrência policial.
Entretanto, esses são aspectos de apenas alguns dos desaparecimentos guardados nas
gavetas do Setor. Tramas variadas, constituídas por elementos que não justificam, e sim
lançam dúvida sobre a pertinência do SDP à Delegacia de Homicídios, convivem naqueles
123

arquivos. Ao longo da pesquisa, para tentar compreender e tornar manejável a
heterogeneidade dos casos guardados no SDP, agrupei as Sindicâncias com que tive contato
em onze grupos que apresento no Quadro 3, começando pelo que reúne desaparecimentos
como os de Urbano e Elói. Ao construir grupos a partir de semelhanças entre casos, busquei
tanto abarcar a variedade de tramas registradas como ocorrências de desaparecimento, quando
explicitar os limites dessa variedade. O quadro que descreve os grupos permite visualizar a
multiplicidade de enredos que subjazem à idéia de desaparecimento, apresentando em resumo
o espectro de tramas que um “fato” assim registrado em repartições policiais pode comportar.
Esse espectro não é nem ilimitado quanto fazem supor as comunicações de casos que os
constroem como incógnitas, nem tão restrito quanto o enxuto leque de hipóteses levantado de
praxe por policiais leva a pensar.

Grupo
Rumores de morte

Característica comum
Casos em que há registros como “acredita-se”, “supõe-se”, “suspeita-se”
ou, enfim, presume-se que o desaparecido esteja morto, mas não há
registros de que seu cadáver e/ou registro de óbito tenham sido
localizados. Registram suposições de morte, como os casos de Urbano e
Elói (neste capítulo).

Andanças

Casos em que há registros de que os desaparecidos vivem nas ruas e/ou
foram encontrados perambulando pela cidade ou vivendo na mendicância.
Registram descrições de certo modo de vida andarilho, como o caso de
Vicente (próximo capítulo).

Perturbações

Casos em que há registros atribuindo aos desaparecidos desvios como
“problemas mentais”, “doença mental”, “perturbação da cabeça”,
“esquizofrenia” ou “problemas psiquiátricos”. Registram fatos vistos
como decorrentes de problema mental (permanente ou temporário) que
acometeu o desaparecido, como no caso de Lúcio (neste capítulo).

Institucionalizações

Acidentes

Desapropriações

Casos em que o desaparecido, enquanto era procurado como tal,
encontrava-se internado, abrigado ou sob tratamento em hospital, abrigo
ou asilo, sem que aquele que comunicou seu desaparecimento tivesse
conhecimento. Registram internações em instituições que não são de
conhecimento daqueles que procuram o desaparecido, como o caso de
Otávio (neste capítulo).
Casos em que o desaparecido foi vítima de um acidente, intempérie ou
calamidade pública. Registram a impossibilidade de se encontrar vítimas
de acidentes, intempéries ou calamidade ou localizar seus cadáveres,
como o caso de Bruno (próximo capítulo).
Casos em que o desaparecido possui patrimônio, bens, direitos ou
obrigações pendentes e/ou que sejam do interesse de outrem. Aqueles que
comunicam esses casos o fazem para posteriormente obter Declaração de
Ausência ou qualquer documento que certifique o desaparecimento da
pessoa e permita desembaraçar pendências ou processos de transmissão de
patrimônio. Registram ausências que deixaram questões judiciais e/ou
124

administrativas em aberto, como o caso de Sílvio (capítulo 1).

Rotinas
desconhecidas

Enterros não
sabidos

Casos em que há registros de que o desaparecido, enquanto era assim
considerado, estava realizando atividades costumeiras. Trazem frases
como “estava no trabalho” ou “só tinha ido dormir fora”. Registram o
desconhecimento por parte de quem comunica o fato à polícia de que o
desaparecido está realizando atividades habituais, como o caso de
Francisco (neste capítulo).
Casos em que o desaparecido faleceu e teve óbito certificado e registrado
em cartório sem que pessoas de seu convívio tomassem conhecimento.
Registram o desconhecimento da morte do desaparecido por parte de
quem comunica o fato, como o caso de Humberto (próximo capítulo).

Fugas

Casos em que o desaparecido partiu furtivamente, sem deixar qualquer
aviso ou expressar abertamente desejo de partir, sendo por isso visto como
alguém que fugiu - de uma casa, instituição ou local em que costumava ser
visto. Registram fugas, como o caso de Arlete (próximo capítulo).

Retiradas

Casos em que o desaparecido deixou o lugar em que vivia
voluntariamente, deixando aviso ou expressando abertamente o desejo de
partir e não ser procurado. Registram retiradas, como o caso de Rodrigo
(capítulo 1)

Outros

Casos que não contêm registros que permitam enquadrá-los nos outros
grupos. Os documentos não deixam saber nada além do fato de que um
comunicante reportou à polícia que uma pessoa desapareceu.

Quadro 3: Grupos de casos

Como discuto no capítulo 5, o Quadro 3 não tem como finalidade apresentar uma
taxonomia do

desaparecimento

de pessoas,

sobretudo

porque separar tipos de

desaparecimento causa a equivocada impressão de que casos são facilmente agrupáveis e
distinguíveis, quando na realidade muitos têm características que os fazem deslizar entre os
grupos propostos e os tornam passíveis de ser enquadrados em dois ou três deles ao mesmo
tempo, colocando em questão a validade da própria distinção de grupos. Agrupar casos torna
possível localizar os desaparecidos de um ponto de vista lógico e analítico, a partir dos
registros feitos pelos policiais que são chamados a localizá-los física e burocraticamente.
Diferente de classificar desaparecimentos, sua função é exibir e delimitar a heterogeneidade
das ocorrências arquivadas no SDP, construindo um mapa do território documental
relativamente vasto que se descortina a quem abre as gavetas do Setor.
Além de uma forma de representação da limitada heterogeneidade dos casos, o quadro
produz um efeito digno de destaque: a constatação de que muitos casos não cabem em grupos
e tipos, sobrando para o grupo que intitulei “Outros”. Os casos reunidos como “Outros” são
desaparecimentos cujos registros resultam somente em sua construção e reprodução como
enigmas. Não contêm relatos de supostas mortes, nem de desaparecidos que vagam pela
125

cidade, fugiram de suas casas, sofreram acidentes ou, entre outras possibilidades, estavam
simplesmente executando atividades rotineiras sem que aquele que comunicou seu
desaparecimento à polícia soubesse disso. Enquanto os casos reunidos nos demais grupos
contêm registros que especificam suas tramas, os “Outros” revelam apenas que um
comunicante reportou o desaparecimento de alguém, que DPs e SDP realizaram diligências e
nada descobriram que esclarecesse o caso, e, finalmente, que ele foi arquivado. Expressão
máxima da lógica cartorial vigente em repartições policiais, os “Outros” são casos cujos
registros documentam apenas a rotina burocrática por eles percorrida.

JOSÉ
Em dezembro de 1966, Otávio e Ivonete tiveram um filho e a ele deram o nome de
José. Oito meses depois, Ivonete “levou o menino e o entregou à Sra. Maria dos Santos”, que
providenciou o registro de nascimento de José como sendo seu filho. Otávio tentou reaver o
bebê naquela época, mas não conseguiu. Vinte e três anos depois, José “quis encontrar os
verdadeiros pais”. Foi então que ele e Otávio se reencontraram.
Otávio relata “que recebeu o filho com muito carinho e fez com que José se
aproximasse de toda família”. Conta ainda que, no reencontro, não só reviu o filho, como
também foi apresentado ao neto, Daniel, e à nora, Nélia.
Em janeiro de 2004, Otávio recebeu um telefonema de Daniel, preocupado por não ter
notícias do pai. Otávio então telefonou para Nélia e confirmou que tampouco ela tinha notícias
de José. Saiu em busca do filho “em hospitais, IMLs, casas de amigos e inclusive ligou para a
mãe biológica de José, a Sra. Ivonete, mas não obteve êxito”. Decidiu então ir a uma delegacia,
onde o desaparecimento de José foi registrado. Na mesma ocasião, os relatos de Otávio sobre a
história de sua relação com seu filho foram registrados em um Termo de Declarações.
Em março de 2004, passados quase três meses do registro do caso e sem que outras
diligências tenham sido levadas adiante, o inspetor que atendera Otávio redigiu relatório
informando que “o pai do desaparecido não forneceu elementos necessários para o
prosseguimento das investigações”, e sugeriu que o caso de José fosse encaminhado ao SDP.
Já em 2005, quase um ano depois de receberem o caso, inspetores do SDP solicitaram
informações que pudessem esclarecer o paradeiro de José através de ofícios remetidos
a vários órgãos oficiais do Estado, tais como IFP, IMLAP, Polinter,
DESIPE, Santa Casa de Misericórdia, entre outros; como também foram
efetuadas buscas no INFOSEG – Integração Nacional de Informação de
Justiça e Segurança Pública da Secretaria Nacional de Segurança Pública,
conforme se verifica nas cópias inseridas nos autos; contudo, as respostas
recebidas foram negativas.

126

Enquanto as referidas respostas negativas chegavam ao SDP, Otávio e Nélia foram
convidados a prestar declarações no Setor, mas não compareceram. Feitos pelo telefone, os
convites aos dois foram registrados em relatório, bem como seu não comparecimento no SDP.
Os convites não foram refeitos, e nenhuma outra diligência foi empreendida.
Anos depois, já em maio de 2008, o caso foi suspenso “até que eventualmente surjam
novos elementos com valor investigatório que possibilitem a retomada das investigações”.
Além das informações sobre a relação entre José e Otávio, a Sindicância conta apenas com
registros dos poucos procedimentos empreendidos em seu decurso. 72

Conforme busquei sustentar neste capítulo, todo caso é construído pelos próprios
procedimentos levados a cabo em seu decurso como um enigma bastante peculiar. Como
destacado a partir do caso de Urbano, desaparecimentos muitas vezes são compostos, a um só
tempo, por registros que os apresentam como enigmas e outros que descrevem em detalhes
fatos e questões que os explicariam, especificando suas tramas e permitindo a um pesquisador
construir grupos que reúnem casos – ou, como descrevo no capítulo 5, a gestores
governamentais, policiais e outros agentes sociais a produzirem, juntos, categorias de
desaparecimento. O que os casos que sobram indicam é que muitos desaparecimentos não
contam com registros de possíveis explicações para o “fato” que documentam. Por
restringirem-se a documentar procedimentos, tais casos restam arquivados como tramas de
solução e explicação aparentemente impossível.
Essas tramas não são apenas casos remanescentes que desafiam possíveis tipologias e
complicam a tarefa daqueles que pretendam compreender o desaparecimento de pessoas. Nas
repartições em que são registrados, tais enredos têm evidente utilidade: justificam a idéia de
que o trabalho policial diante de desaparecimentos não faz, nem poderia fazer muito além de
“só preencher papel”. Afinal, consistem em “fatos” de explicação impossível. Diante deles, só
há espaço para um “trabalho policial que pouco conforma, apenas informa que não há
registros em nome daquele desaparecido”, como vimos registrado no caso de Elói. Como me
disse em certa ocasião o inspetor Carlos Ernesto, “em muitos casos nada adianta. Você pode
chamar os familiares, ouvir todo mundo e perguntar um monte de coisas, mas não vai saber
nada do desaparecido e nada de nada.”
No capítulo 5 retomo o quadro proposto e reflito mais detidamente sobre a utilidade e
os efeitos de se construir tipologias a partir de casos de desaparecimento. Antes disso, porém,
discuto os artefatos engendrados pela rotina burocrática percorrida pelos desaparecimentos
72

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 321/04 do SDP/DH.

127

arquivados no SDP (capítulo 3) e, em seguida, como o desparecimento, a despeito de
comportar tramas tão heterogêneas, é construído como um só “problema social”, passível de
combate e prevenção (capítulo 4).

128

Capítulo 3
Esgotadas todas as possibilidades:
Uma ocorrência policial e seus artefatos

A palavra diligência, empregada em repartições policiais para designar cada passo da
rotina burocrática de casos de desaparecimento e de outros tipos de ocorrência, pode
significar também “interesse ou cuidado aplicado na execução de uma tarefa; zelo”. (Houaiss,
2001, 1.041) Presta-se, pois, tanto a nomear medidas executadas com determinado fim, como
em seu emprego usual nas repartições policiais, quanto a qualificar atos e comportamentos.
As diligências levadas a cabo diante de desaparecimentos, muitas vezes restritas a
chamadas telefônicas, registros de “nada consta” e, nas palavras do inspetor Carlos Ernesto,
“só procedimentos administrativos”, são providências tomadas por policiais apesar de seus
questionamentos quanto a sua responsabilidade diante dos casos e em meio a frustrações,
indiferença, resignação e todo um conjunto de sentimentos. Mesmo afirmando que não são
“problema da polícia”, e sim acontecimentos que deveriam estar sob os cuidados da
“assistência social”, policiais tomam providências, algumas vezes com diligência, diante das
múltiplas situações enredadas nos casos de desaparecimento que registram e arquivam
diariamente. Ainda que encarados como “problemas de família” e “problemas de assistência
social”, portanto, desaparecimentos são parte constitutiva do trabalho policial.
O quadro administrativo burocrático que executa esse trabalho é composto por
servidores públicos específicos: policiais civis concursados, que integram a atualmente
denominada Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro. Em relação aos que atuam
no SDP, é possível especificar ainda mais sua posição organizacional. Trata-se de grupo de
servidores inscritos no Departamento Geral de Polícia Especializada e, dentro desse
Departamento, lotados na Delegacia de Homicídios do Centro/Capital, hoje Divisão de
Homicídios. Essa posição específica e bastante delimitada dos policiais que lidam com
desaparecimentos, contudo, deve ser encarada com parcimônia ou, por que não, com bastante
diligência. Isso não apenas por se tratar de um quadro de servidores inscrito no pouco
especializado âmbito da polícia especializada fluminense, como demonstra Nascimento
(2008), mas também pelas propriedades mais amplas do trabalho policial.
Bayley (2006), em sua análise comparativa de padrões de atuação e operações
policiais em diferentes países, reflete sobre o quão complexa é a tarefa de definir a natureza
129

do trabalho da polícia. “É difícil assegurar o acesso permanente a ela” (Bayley, 2006, p.118),
determinando de antemão o que é e o que não é trabalho policial, e daí derivaria essa
complexidade. Para o autor, na prática de repartições e operações, a definição do que é o
trabalho policial se faz constantemente, levando em conta “a descrição organizacional do que
os policiais estão fazendo – patrulhando, investigando, controlando o tráfego, aconselhando e
administrando” (Bayley, 2006, 118) e do que usualmente fazem, mas também as
situações com as quais a polícia se envolve: crimes em andamento, brigas
domésticas, crianças perdidas, acidentes de automóvel, pessoas suspeitas,
supostos arrombamentos, distúrbios públicos e mortes não-naturais. Nesse
caso, a natureza do trabalho policial é revelada por aquilo com que ela tem
de lidar. (Idem, Ibidem, p.119)

O trabalho policial pode, pois, ser definido como aquilo que policiais fazem diante das
situações que lhe são cotidianamente apresentadas, mas também por essas situações mesmas,
por mais heterogêneas que sejam. Embora seja usual a idéia de que o objeto do trabalho
policial restringe-se, factual ou idealmente, a crimes e ocorrências correspondentes a tipos
penais, as atribuições da polícia vão muito além da investigação criminal. Como afirma Durão
(2008) em sua etnografia da polícia lisboeta,
A referência ao crime é investida de uma neutralidade consensual e
transforma-se no suporte privilegiado da reivindicação da autonomia
profissional e da autodeterminação policial das suas orientações. Mas o
trabalho policial e as suas tarefas são de uma variação incomensurável e não
merece consenso unânime. Há dificuldade em avançar com uma definição
exaustiva do trabalho policial: a ordem social, porque é social, é por
definição arbitrária, sujeita às avaliações sociais, ora implicando ora
excluindo práticas de conservação, reforço e sanção tão variadas como as
que originam os “desarranjos” e as “desordens”. (Durão, 2008, p.79)

A princípio, as reflexões de agentes do SDP mencionadas nos capítulos anteriores
parecem refutar essa idéia. Afinal, as falas dos policiais excluem casos de desaparecimento do
que seriam “problemas de polícia”, definindo o trabalho policial por oposição ao que seriam
“problemas de família” e atribuições “da assistência social” ou, resignando-se diante de
frustrações, “do Estado”. Todavia, como cada caso narrado nessa tese não deixa dúvida, em
seu trabalho cotidiano policiais efetivamente registram, investigam e arquivam casos de
desaparecimento. Ao afirmar que não deveriam fazê-lo, certamente não estão negando que o
fazem. Ao invés disso, ao questionar sua responsabilidade diante dos casos os agentes
apontam para a incomensurável amplitude de escopo do trabalho policial.

130

3.1 São essas coisas de todo instante
Em sua genealogia do complexo científico-judiciário que teve como um de seus
principais instrumentos e resultados a prisão moderna, Foucault (2006) reflete sobre o
processo através do qual resguardar a ordem social deixou de ser função de patronatos, grupos
privados de inspiração religiosa ou sociedades de auxílio e tornou-se função de um sistema
policial estatizado. Focando a França do século XVIII, o filósofo apresenta o quão amplo era
o leque de atribuições do então nascente sistema policial estatizado, e o quão diligente e
minuciosa deveria ser sua forma de atuação:
se a polícia como instituição foi realmente organizada sob a forma de um
aparelho de Estado, e se foi mesmo diretamente ligada ao centro da
soberania política, o tipo de poder que exerce, os mecanismos que põe em
funcionamento e os elementos aos quais ela os aplica são específicos. É um
aparelho que deve ser coextensivo ao corpo social inteiro, e não só pelos
limites extremos que atinge, mas também pela minúcia dos detalhes de que
se encarrega. O poder policial deve-se exercer “sobre tudo”: não é entretanto
a totalidade do Estado nem do reino como corpo visível e invisível do
monarca; é a massa dos acontecimentos , das ações, dos comportamentos,
das opiniões – “tudo o que acontece”; o objeto da polícia “são essas coisas
de todo instante”, “essas coisas à toa” de que falava Catarina II em sua
Grande Instrução. Com a polícia estamos no indefinido de um controle que
procura idealmente atingir o grão mais elementar, o fenômeno mais
passageiro do corpo social. (Foucault, 2006, p. 176)

Os trabalhos de Brandão et al (1981), Holloway (1993), Vianna (1999) e Cunha
(2002), entre outros estudos históricos e antropológicos focados na formação e/ou atuação da
polícia no Rio de Janeiro, revelam que as palavras de Foucault acerca do sistema policial
francês dizem muito sobre cenários e temporalidades tão distantes daquele contexto quanto
próximos de nós.73 Nos finais do século XIX e começo do XX, o então Distrito Federal em
pleno processo de urbanização teve na nascente polícia um agente de controle que zelava pela
manutenção de supostos padrões de ordem pública e decoro moral que poderiam ser violados
pelas situações aparentemente mais corriqueiras. “O simples esforço para viver nas cercanias
das áreas urbanas e relacionar-se com seus iguais nas ruas ou praças, nas tavernas, nos
botequins ou nos batuques de quintal” (Holloway, 1993, p.252), pelos olhos da polícia,

73

Outras referências sobre a história e o escopo de atuação da polícia no Rio de Janeiro são: BRETAS, Marcos
Luís. A guerra das ruas: povo e polícia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995;
BRETAS, Marcos Luís. Ordem na cidade: o exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro:
Rocco, 1997; MATTOS, Marcelo Badaró. Vadios, jogadores, mendigos e bêbados na cidade do Rio de
Janeiro no início do século. (Dissertação de mestrado.) Niterói: ICHF/UFF, 1991.

131

poderia ser convertido em mendicância, embriaguez, jogo e vadiagem, comportamentos
definidos pelo Código Penal de 1890 como contravenções. (Vianna, 1999, p. 45).
Eminentemente discricionário, o trabalho da polícia como agente de controle
demandava (e cumulativamente produzia) um tipo de saber específico, que habilitava seus
agentes a reconhecer perigos em potencial, supostamente encarnados por indivíduos tidos
como suspeitos. Tomando de empréstimo o iluminador trocadilho que dá título ao trabalho de
Vianna (1999), a polícia adivinhava o que poderia advir de determinados sujeitos,
enquadrando-os em tipos e categorias e determinando-lhes destinos. Nesse exercício de
adivinhação, o trabalho da polícia se fazia como ato e qualificação, unindo os dois
significados que o termo diligência comporta.
O olhar arguto e perscrutador que permitia aos agentes identificar suspeitos deveria
alcançar os espaços mais diversos, supondo que perigos em potencial espalhavam-se por todo
o também nascente cenário urbano. 74 Transgressões, crimes e contravenções estariam
imiscuídos no emaranhado de fatos e relações constitutivo da vida social, cabendo à polícia
não só “identificar na massa o tipo perigoso” (Pechman, 2002, p.359), mas também delimitar
e distinguir ordem e desordem, em consonância com as transformações sanitárias e
urbanísticas então em processo. (Chalhoub, 1986). Nesse quadro, a polícia desempenhou
papel central “na criação de um novo cotidiano urbano, centrado no trabalho – de preferência
no trabalho apenas minimamente especializado – como um modo de controle social” (Vianna,
2002, p.45), o que as leis e operações que reprimiam a vadiagem explicitam com nitidez. O
arcabouço legal e operacional que incidia sobre sujeitos classificados como vadios,
Mais do que cunhar uma concepção em que a idéia de ganhar a vida fica
referida ao exercício de uma profissão dando-lhe portanto sentido, permite
também a internalização de uma concepção que é o seu oposto, não
trabalhar, não exercer uma atividade produtiva é perder a vida, ou melhor,
seu direito como cidadão. (Brandão et al, 1981, p. 224)

Kant de Lima (1995), a partir de pesquisa de campo junto à polícia do Rio de Janeiro
realizada na década de 1980, mostra que o saber de tons divinatórios empregado por policiais
pode ser encontrado na condução dos inquéritos policiais em sua forma contemporânea,
74

Como mostram Carrara (1984), Corrêa (1998), Cunha (2002) e Moses (2002), o processo de formação da
polícia e da força policial no Rio de Janeiro e o desenvolvimento de técnicas de identificação de indivíduos
suspeitos inscrevem-se no marco mais amplo de “discursos em torno da cientifização dos mecanismos de
identificação criminal [que] estiveram intimamente ligados a determinadas concepções que uma série de atores
que se debruçaram sobre o tema tinham a respeito da sociedade e dos indivíduos” (Cunha, 2002, p.31) Medicina
legal, antropologia e física e antropologia criminal aglutinaram-se em torno da identificação, em um denso
processo sobre o qual não me deterei aqui, analisado em profundidade pelos autores em referência.

132

iniciada pelo reconhecimento e identificação de suspeitos. Ademais, o autor afirma que segue
orientando o trabalho policial “uma correlação positiva entre trabalho e ordem e não-trabalho
e crime, (...) na presunção de uma oposição necessária entre duas categorias sociais:
trabalhadores e marginais.” (Lima, 1995, p. 56). Se chamo atenção para a pesquisa desse
autor, não o faço apenas para indicar continuidades históricas entre o começo e o final do
século XX no que diz respeito à polícia do Rio de Janeiro. Antes, meu objetivo é ressaltar que
o trabalho policial, tanto em seu processo de formação, quanto em suas operações rotineiras
como, por exemplo, a condução de inquéritos, se faz em atos e qualificações de
comportamentos e sujeitos.75 Nessas diligências, mobilizam concepções sobre “o trabalho”
que lhe conferem papel determinante na manutenção da ordem social.
Tais atos e qualificações não são aplicações imediatas do texto da lei, nem se
confinam a um supostamente puro mundo do crime e da criminalidade. Ao contrário, o
trabalho policial se faz em diligências e rotinas que se espraiam por uma zona relativamente
indeterminada, em que acontecem as “coisas de todo instante” de que falou Foucault. Essas
“coisas à toa” deslizam através das fronteiras entre ordem e desordem, entre crime e lei e
entre trabalho e marginalidade, delineadas em larga medida pela própria polícia, propiciandolhe largo espaço de atuação. Nos termos de Holloway,
Entre os cidadãos particulares serem deixados em paz, por um lado, ou
serem acusados de transgredir a lei, por outro, havia uma grande área
cinzenta preenchida pela correção disciplinar. Quando se criou o sistema
policial, esperava-se que seus agentes corrigissem aqueles cujas faltas se
enquadrassem nessa área cinzenta, e essa tradição não foi eliminada de
forma fácil e completa. (Holloway, 1993, p.258)

Enquanto em seu processo de formação o trabalho policial no Rio de Janeiro e no
Brasil respondeu a demandas, interesses e concepções sobre o indivíduo e a sociedade
75

Pesquisadores do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU), ligado ao
Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vêm produzindo sistematicamente trabalhos sobre inquéritos
policiais e outras operações rotineiras levadas a cabo em delegacias do Rio de Janeiro nos dias atuais. Algumas
de suas publicações mais recentes são MISSE, Michel et al. (orgs.). O Inquérito Policial no Brasil: uma
pesquisa empírica. Rio de Janeiro: Booklink, 2010; MISSE, Michel. O papel do inquérito policial no processo de
incriminação no Brasil: algumas reflexões a partir de uma pesquisa. Revista Sociedade e Estado. Abr 2011,
vol.26, no.1, p.15-27; PAES, Vivian Ferreira. A Polícia Civil no Estado do Rio de Janeiro: análise de uma
(re)forma de governo na Polícia Judiciária. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Antropologia). Universidade
Federal do Rio de Janeiro, 2006; PAES, Vivian Ferreira. Como se contam crimes: um estudo sobre a
construção social do crime no Brasil e na França. Tese (Doutorado em Programa de Pós-Graduação em
Sociologia e Antropologia). Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2010; RIBEIRO, Ludmila. A qualidade do
atendimento prestado pelas delegacias de Polícia Civil na perspectiva dos seus próprios usuários: uma
experiência de aproximação entre polícia e sociedade. In: Viva Rio. (Org.). Polícia e Sociedade: prática e
saberes no campo da integração da segurança pública. Rio de Janeiro: Viva Rio, 2010, v. 01, p. 26-40.

133

expressas pelo que Brandão et al (1981) chamaram de classe senhorial, na contemporaneidade
assistimos a um processo distinto. Como mostram as etnografias de Mota (1995) e Barreira
(2004), as solicitações que mobilizam o trabalho policial são levadas a repartições sobretudo
pelas camadas pobres da população ou, para usar o termo de Barreira (2004), pela
comunidade. Entre brigas conjugais, querelas de vizinhança, acidentes de trânsito, furtos,
assaltos e, claro, tramas classificadas como desaparecimentos, as queixas, conflitos e
demandas levadas pela comunidade às repartições policiais são múltiplas. Não obstante,
múltiplas também são as respostas geradas por essas demandas, que vão muito além da
investigação criminal e do inquérito policial.
Resolver desavenças por mediação, conciliar grupos e pessoas em conflito, ouvir
relatos e emitir opiniões ou, como indicam alguns casos de desaparecimento, simplesmente
produzir um RO ou uma Certidão são serviços prestados cotidianamente pela polícia diante de
solicitações feitas em delegacias. Ainda que, nas palavras do inspetor Fernando e de seus
colegas no SDP, tarefas como essas sejam “trabalho de assistência social” ou, nos termos do
delegado entrevistado por Barreira (2004), trate-se de “clínica geral”, a prestação desses
serviços é parte fundamental do trabalho policial. Ausentes de manuais e textos legais, mas
exercidas a todo instante nas repartições policiais, reafirmo, tais tarefas são tão variadas
quanto são múltiplas as solicitações da comunidade a que visam responder. É a soma entre
essas solicitações e tarefas que confere opacidade à zona cinzenta de que fala Holloway. Mais
do que isso, é na soma entre elas que se tece o trabalho policial.
Voltemos então para os desaparecimentos de pessoa. Narrado a seguir, o caso de
Linda enreda situações que se passam nessa zona cinzenta em que se faz o trabalho policial,
beirando muitas vezes o mundo do crime e da lei e, ao mesmo tempo, revelando a
permeabilidade de quaisquer fronteiras que pretendam delimitá-lo como único espaço de
atuação da polícia. Como todos os desaparecimentos narrados ao longo da tese e como todo
trabalho policial, o caso de Linda é fruto do encontro entre pessoas – algumas na condição de
comunicantes e solicitantes de serviços policiais, outros ocupando ativamente cargos de
agentes da Polícia Civil.

LINDA
No começo da década de 1980, Ana Maria colocou um anúncio de emprego no Jornal
Fluminense. Seu buffet “Rosa Vermelha” precisava de uma lancheira que dormisse no local de
trabalho, e a vaga foi oferecida através daquele jornal. Linda, que tinha então 18 anos,
134

apresentou-se e foi contratada. Linda tinha acabado de voltar para o Rio de Janeiro, seu estado
natal, depois de morar por alguns anos no Espírito Santo. Pouco tempo depois de ser
contratada, Linda passou a trabalhar tanto como lancheira no buffet, quanto como empregada
doméstica na casa de Ana Maria. Também pouco tempo depois, começou a namorar
Wellington, filho de sua patroa.
Passados alguns anos, Linda e Wellington foram viver juntos em São Gonçalo e
tiveram dois filhos: Lígia, hoje adolescente, e Felipe, hoje com 9 anos. Separaram-se algumas
vezes, mas sempre temporariamente. Linda deixou o trabalho no buffet e tornou-se dona de
casa. Wellington é motorista e, nos finais de semana, trabalha como DJ nas festas organizadas
pelo “Rosa Vermelha”.
No começo de julho de 2004, Carmem Lúcia, irmã de Linda, foi à delegacia da Praça
da Bandeira, no Rio de Janeiro, comunicar o desaparecimento da irmã. Relatou que havia um
mês que Linda “não faz nenhum contato com a família, nem mesmo com a própria mãe” e
construiu imagem bastante suspeita de Wellington, estendendo a suspeita para Ana Maria.
Afirmou que vinha pedindo notícias de Linda a Wellington há algum tempo, e ele “só informa
que ela está viajando, não dizendo para onde, que inclusive a mãe dele também é conivente
com o filho não dando nenhuma informação”. Arrematando a suspeita, Carmem relatou que
certa vez, durante uma briga, o cunhado esfaqueou Linda. Convertidos à linguagem penal, os
relatos de Carmen sobre a briga restaram assim registrados: “Wellington anteriormente foi
Autor de Crime de Lesão Corporal contra a desaparecida”.
Minutos depois de efetuar o registro, o inspetor da DP que atendeu Carmem Lúcia
remeteu um Mandado de Intimação a Wellington. Atendendo ao chamado, o companheiro de
Linda compareceu à repartição policial e relatou, a sua maneira, os fatos que considerava
relevantes para explicar o que ocorrera a Linda. Descreveu também a personalidade de sua
companheira e falou um pouco sobre o relacionamento dos dois. Disse que Linda é ciumenta,
tem “temperamento explosivo, agressivo e que sempre viveram bem, apesar de algumas
separações de curto tempo”. Sobre a briga que, segundo Carmem, teria gerado inquérito de
Lesão Corporal em que Linda seria vítima e Wellington, autor, disse sumariamente que “foi
quando tinha cerca de 16 anos de idade e era namorado de Linda e havia uma outra mulher e
que na briga generalizada houve facadas e que após entendimentos Linda retirou a queixa”.
Para Wellington, o que Carmem Lúcia comunicara e a polícia registrara como
desaparecimento era apenas mais uma separação “de curto tempo” entre ele e Linda, que “irá
retornar mais cedo ou mais tarde”. O motorista e DJ “não registrou o desaparecimento porque
já havia se separado por mais tempo anteriormente”, e conforme indicam os registros firmados
a partir de suas falas, afirmou conhecer precisamente os motivos que a levaram a sair de casa:
Ultimamente a Linda andava deprimida porque queria que o declarante

135

parasse de trabalhar com a mãe (...) e também porque tinha brigado com a
irmã, a comunicante, e ainda que sua filha de 16 anos estava grávida e o pai
seria um ex-presidiário e também que Linda sempre quis casar com o
declarante e o mesmo nunca quis; por isso Linda dizia que estava
DESGOSTOSA DA VIDA, com vontade de SUMIR. Que há cerca de dois
meses Linda pegou uma mochila, colocou algumas peças de roupas e disse
que iria caçar seu rumo e partiu deixando um filho menor de 6 anos, e não
disse para onde iria e não retornou.

Cerca de duas semanas depois que Wellington compareceu à DP, e depois que
inspetores da repartição fizeram buscas em hospitais e outros “locais, juntamente com
familiares, onde poderiam encontrar a vítima, porém sem êxito”, o caso de Linda foi
encaminhado para o SDP. A primeira providência tomada pelo inspetor do Setor que ficou
encarregado de investigá-lo foi convocar Wellington e Ana Maria para “prestar
esclarecimentos”. A partir das falas do companheiro e da sogra de Linda, ficaram registradas
reafirmações acerca do “temperamento explosivo” da desaparecida, detalhes sobre situações
controversas em que ela estaria envolvida e, ainda, uma descrição de seu “conturbado”
relacionamento com Wellington.
Wellington relatou que meses antes do desaparecimento, Linda, ele e seus dois filhos
tiveram que deixar a casa em que viviam em São Gonçalo porque Lígia, a filha mais velha,
estava “namorando um traficante da localidade que veio a ser assassinado”. Mudaram-se então
para a Cova da Onça, em Niterói, e deixaram a casa de São Gonçalo sob os cuidados de Beto,
sobrinho de Linda e filho de Carmem Lúcia. Beto, entretanto, teria furtado alguns bens da casa,
frustrando Linda e causando desavença entre ela e Carmem Lúcia. Grande parte da fala de
Wellington foi dedicada a relatar essa desavença, tanto quanto grande parte da fala de Carmem,
quando da comunicação do desaparecimento, foi dedicada a cobrir Wellington de suspeitas.
Ana Maria, por sua vez, relatou seus primeiros encontros com Linda e falou
longamente sobre o relacionamento da desaparecida com seu filho - que, nas palavras dela,
“era uma confusão só”. Disse que durante o tempo em que Linda morou em sua casa e
trabalhou em seu buffet foram vários os episódios de desentendimento entre Linda e ela, entre
Linda e seus colegas de trabalho e entre Linda e Wellington. Atribuiu todos esses episódios ao
temperamento de Linda, e disse “que por várias vezes teve que chamar a polícia para contornar
a situação, chegando a ir na delegacia.”
Embora tenham se estendido por longas páginas, as declarações de Wellington e Ana
Maria nada informaram sobre o paradeiro de Linda. Enquanto tais declarações eram “tomadas
a termo” pelo inspetor do SDP encarregado do caso, ofícios solicitando informações em nome
dela já estavam em circulação entre o Setor e um conjunto de instituições entre hospitais,
fundações e alguns órgãos da polícia civil do Rio de Janeiro. Tampouco as repostas dadas a
esses ofícios forneceram dados esclarecedores do paradeiro de Linda.
A essa falta de informações seguiram-se e somaram-se quatro anos sem que Linda
136

fosse localizada por agentes do SDP e sem que qualquer novo registro sobre seu
desaparecimento fosse produzido. Em novembro de 2008, o caso foi arquivado como
Sindicância Suspensa.76

Como o desenrolar do caso revela, Carmen dirigiu-se à DP para comunicar não só o
desaparecimento de Linda, mas também algumas suspeitas em relação ao companheiro e à
sogra da desaparecida. A desconfiança de Carmen em relação aos dois baseava-se, por um
lado, nas vagas informações sobre o paradeiro de Linda que ambos vinham lhe dando. Por
outro lado, fundava-se também no fato de Wellington já ter cometido um ato contra a
desaparecida classificado, nos documentos, como “Crime de Lesão Corporal”. Tanto a
imprecisão das informações prestadas por Ana Maria e Wellington, quanto os acontecimentos
passados entre ele e Linda foram reportados por Carmen à polícia de modo a rebaixar o
marido da desaparecida, imprimindo em suas “declarações” a força niveladora da fofoca
(Fonseca, 2000).
Para confrontar as suspeitas que recaíam sobre ele, Wellington fez parecido: revestiu
sua cunhada de suspeitas, colocando em questão sua relação com Linda e acusando o filho
dela, Beto, de ter cometido algo que também poderia ser classificado como crime. Além de
destacar a briga entre as irmãs e acusar Beto, Wellington negou que houvesse cometido
qualquer crime contra sua companheira, dizendo que de fato “houve facadas” numa situação
de conflito entre os dois, mas que Linda retirara a queixa. Com isso, explorou a importância
dos registros e documentos, posicionando-se diante das acusações de Carmen “como se só
existisse no mundo o que está corroborado no papel” (Peirano, 2009, p.70) e sustentando que
se não há queixa, não há crime. Por fim, para confrontar a própria comunicação de
desaparecimento feita por Carmen, marco mais amplo em que ela inscreveu suas suspeitas,
Wellington afirmou que Linda saiu de casa por razões conhecidas e que voltaria “mais cedo
ou mais tarde”, tendo inclusive anunciado que estava desassossegada e desejava “sumir”. O
que estava acontecendo, do ponto de vista de Wellington, era não um desaparecimento, e sim
(mais) uma separação entre os dois.
Já Ana Maria, que muitos anos antes contratara Linda como funcionária de seu buffet
e empregada doméstica, deteve-se em qualificações sobre o temperamento de Linda e
descrições de situações conturbadas por ela causadas. Ao construir a imagem da desaparecida
como pessoa destemperada, Ana Maria chamou atenção para as inúmeras vezes em que teve
76

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 343/04 do SDP/DH.

137

que “chamar a polícia para contornar” alvoroços provocados por Linda. Ter que recorrer à
polícia para dirimir esses alvoroços, da perspectiva de Ana Maria, indicava o quão desordeira
poderia ser a presença de Linda. Ademais, levar os conflitos entre sogra, filho e nora a
delegacias poderia funcionar como meio de restabelecer cadeias de obrigações e restaurar
padrões de ordem (Enne, Vianna e Carrara, 2002) almejados por Ana Maria.
Nas descrições de Ana Maria e Wellington, o relacionamento entre Linda e seu
companheiro, sua inserção no buffet “Rosa Vermelha”, o tempo que viveu na casa de Ana
Maria e acontecimentos que se passaram em sua própria casa aparecem como “uma confusão
só”, permeada pela presença da polícia e por acontecimentos ora classificados, ora
desclassificados como crimes. Nesse sentido, ter que “prestar esclarecimentos” sobre o
desaparecimento de Linda ou, da perspectiva de Wellington, sobre a mais recente separação
entre eles, era uma das muitas situações protagonizadas pela nora que teriam levado Ana
Maria a repartições policiais. O que é curioso, não obstante, é que a comunicação de Carmen
Lúcia, que deu início à rotina burocrática constitutiva do caso de Linda, de certo modo
também seguiu nessa direção. Ainda que a ela não interessasse construir a imagem de sua
irmã como pessoa destemperada e explosiva, e sim cobrir Wellington de suspeitas, Carmen
contribuiu para que a vida de Linda fosse apresentada e registrada como desordeira, ao
mencionar as facadas de que a desaparecida já havia sido vítima.
Aspecto chave da gestão do desaparecimento de pessoas, a construção de imagens do
desaparecido e dos demais “Envolvidos” nos casos se faz presente não apenas no caso de
Linda, e sim no conjunto mais amplo de desaparecimentos que encontrei nos arquivos do
SDP. Somando-se, mesmo quando expressam pontos de vista distintos ou opostos, as
“declarações” de comunicantes de desaparecimentos e demais “Envolvidos”, juntamente aos
registros dos policiais que os investigam e arquivam, constroem imagens sobre os
desaparecidos e sobre suas vidas. Agregando interesses expressivos e censura (Bourdieu,
1982), o encontro entre pessoas envolvidas nos casos e policiais a que são relatados fatos,
cenas e “coisas de todo instante” que restam registradas como desaparecimentos não só
constrói enigmas, como afirmado no capítulo anterior, como também produz imagens sobre
pessoas e avaliações de comportamentos. Esse encontro engendra, enfim, aquilo que o termo
diligência pode significar: atos e qualificações.
Reveladores da multiplicidade de demandas e serviços que circulam na zona cinzenta
em que se faz o trabalho policial, atos e qualificações engendrados pelo encontro entre
“Envolvidos” e policiais são meu foco de atenção no presente capítulo. Se o ofício da polícia
138

é definido por seus métodos e por seus objetos, já que, como afirmado anteriormente, o
trabalho policial é o que os policiais fazem diante das situações que lhes são apresentadas,
cabe nos perguntarmos também pelos resultados que ele gera. Já que desaparecimentos não
engendram inquéritos e investigações criminais, o que o trabalho policial que se faz em torno
dos casos produz? Mesmo que o fazer policial diante de desaparecimentos seja encarado
como “só preencher papel”, o que resulta desse fazer? Que atos e qualificações específicos a
rotina burocrática constitutiva dos casos de desaparecimento engendra?
Por mais formalizados que pareçam, dados os formulários padronizados que lhes
servem de suporte material e os jargões que veiculam, registros documentais cuja autoria
reside em encontros entre funcionários de repartições e cidadãos que lhes demandam
respostas e serviços revelam as habilidades narrativas de todos esses agentes. (Davis, 1987).
Se pensarmos nos policiais que registram e arquivam casos de desaparecimento, podemos
notar suas habilidades para criar e manter arquivos, emblema máximo da burocracia moderna
(Riles, 2006), suas tentativas de oficializar conselhos e compromissos e, ainda, sua destreza
em exibir um suposto controle total sobre territórios e pessoas. E se pensarmos, ao mesmo
tempo, nos cidadãos que vão a delegacias comunicar desaparecimentos, deparamo-nos com o
emprego de recursos narrativos que visam a atribuir boa reputação à pessoa desaparecida ou
revestir de suspeitas pessoas enredadas nos registros, como vimos no caso de Linda. Sendo
assim, se em contextos como o etnografado por Fonseca (2000) manipular opiniões
construindo reputações é a arma dos fracos, que impõem suas vontades por outros meios que
não a força física, importa tentar compreender a que se presta a construção de imagens
positivas e negativas em torno dos “Envolvidos” em casos de desaparecimento.
Os atos e qualificações constitutivos do fazer policial em torno de casos de
desaparecimento, nesse sentido, precipitam-se do encontro entre estratégias narrativas e
podem ser entrevistos no que fica depositado em documentos e arquivos. A seguir, destaco
atos e qualificações que considero artefatos centrais da gestão dos casos de desaparecimento
que pesquisei no SDP: conselhos e compromissos, reputações, dependência e controle sobre
corpos e territórios. Afirmo que tais atos e qualificações são artefatos da gestão dos casos
para chamar atenção para seu duplo caráter. Conselhos, compromissos, reputações,
dependência e controle são tanto instrumentos, quanto resultados do trabalho policial diante
de desaparecimentos.

139

3.2 Aborrecimentos, conselhos e compromissos
CINIRA
Nascidas em Campos dos Goitacazes, as irmãs Jandira e Cinira têm 11 anos de
diferença de idade. Em novembro de 2007, quando contava 30 anos, a primogênita foi à
delegacia de polícia comunicar o desaparecimento de Cinira, caçula. Afirmando que aquela não
era a primeira vez que sua irmã desaparecia, tendo em outra ocasião passado mais de uma
semana sem dar notícias, Jandira relatou apenas que cinco dias antes Cinira
desapareceu apenas com a roupa do corpo não sabendo informar que tipo de
roupa Cinira usava, que já foi a hospitais e no IML, fez contatos com amigos
parentes, no sentido de encontrar sua irmã Cinira, porém até a presente data,
Cinira não apareceu e tampouco fez contato, procedendo da mesma forma
que na 1ª vez que desapareceu; a declarante disse que se compromete a
comparecer a esta delegacia, caso tenha notícias de sua irmã Cinira.

Três dias depois que essas declarações de Jandira originaram registro de
desaparecimento em nome de Cinira, o caso foi remetido ao SDP. Contudo, passada mais uma
semana, foi na delegacia que o registrou que ele teve continuidade. Dia 8 de dezembro, vinte
dias depois de desaparecer, Cinira compareceu à repartição onde foi produzido seu registro de
desaparecimento. Fazendo uma espécie de confissão de culpa e firmando compromisso de agir
de modo diferente daquele momento em diante, Cinira disse
que na verdade não ocorreu nenhum crime relacionado ao seu
desaparecimento; que saiu da casa onde mora com sua mãe, em data de 17
de novembro, às 22:00 horas aproximadamente, não dando satisfação a
ninguém e não fazendo nenhuma espécie de contato e reaparecendo em sua
casa em data de 27 de novembro de 2007, ou seja, 10 (dez) dias após o
desaparecimento, dizendo que estava aborrecida com a vida, cansada e
extremada; que a declarante está muito arrependida de não ter feito contato
com a família, que quando sair para passear e demorar um pouco ligará para
alguém de sua família, para comunicar onde e com quem está; a declarante
disse que esta é a segunda vez que desaparece, sendo que na primeira nem
sequer conversou com a mãe, o que ocorreu durante o tempo em que ficou
fora de casa, que foram 9 (nove) dias; que desta vez conversou com sua irmã
Jandira dizendo que estava em Volta Redonda, na casa de uma amiga; que
durante o período em que ficou fora não sentiu vontade de falar com
ninguém, atitude da qual se arrepende e muito. E nada mais disse.

Uma cópia do Termo de Declarações em que estão registradas as falas de Cinira foi
imediatamente remetida ao SDP, onde o caso foi arquivado como Sindicância Solucionada.77

Jandira já havia passado por situação semelhante: Cinira certa vez desapareceu,
passando nove dias sem dar notícias, mas depois retornou. Diante de novo episódio, que
77

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 020/08 do SDP/DH.

140

poderia ter o mesmo desfecho, a mais velha das irmãs fez o que a grande maioria dos
comunicantes de desaparecimentos faz: esperou, procurou pela desaparecida entre amigos e
parentes e percorreu hospitais e IML. Por não obter sucesso em nenhum desses atos, dirigiuse à delegacia de polícia. Muitos casos apresentam entre seus primeiros registros o jargão
“esgotadas todas as possibilidades” para se referir ao fato de o comunicante ir à delegacia
apenas após ter tomado essas providências. A delegacia é apresentada, com isso, como último
recurso para a localização de desaparecidos, instância à qual se delega a função de encontrálos apenas depois de tomadas outras medidas – medidas, aliás, que seguem sendo
empreendidas em paralelo ao trabalho policial, uma vez que muitos desaparecidos são
encontrados pelos próprios comunicantes.
O caso de um idoso, comunicado na delegacia por sua filha, esclarece bem essa
questão. Depois de relatar ao policial que seu pai sofria de recorrentes perdas de memória e
que deveria estar perambulando pelas ruas do bairro onde mora, a comunicante recebeu do
agente um catálogo telefônico e a instrução de primeiro procurar seu pai por conta própria. O
policial disponibilizou o telefone da delegacia para que ela fizesse algumas buscas e só depois
produziu o RO. Dias depois, o idoso foi encontrado por um vizinho e a comunicante voltou à
DP. Além de relatar o encontro, justificou o fato de ter ido à polícia dizendo que
quando procurou esta DP para fazer o registro do desaparecimento de seu pai
foi pelo fato de estar desesperada e achar que se seu pai acabasse sendo
achado por alguém que o conduzisse até uma delegacia policial, poderia ser
que as demais tomassem conhecimento de que a família o estava
procurando.78

Nesse caso, nota-se não só que a polícia aparece como último recurso, mas também
que a comunicação do desaparecimento, como afirmado no capítulo anterior, responde a
intenções e finalidades variadas, e não simplesmente ao desejo de que o desaparecido seja
encontrado através de investigação policial. A filha do idoso desaparecido, afinal, acreditava
que a real possibilidade de seu pai ser encontrado residia não no trabalho policial, e sim em
“alguém” que pudesse encontrá-lo e eventualmente conduzi-lo a uma delegacia. Em outro
caso igualmente revelador, uma mulher comunicou o desaparecimento do pai de seus filhos
afirmando saber que ele havia sido morto e carbonizado por traficantes e deixando claro, em
tom de súplica, que buscou a polícia não para que o paradeiro do desaparecido fosse
investigado, mas para oficializar o desaparecimento e obter junto “às autoridades” uma
pensão que restaurasse, ao menos do ponto de vista orçamentário, a rotina de sua casa. Vale
78

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 042/08 do SDP/DH.

141

ressaltar que esse caso contém registros em primeira pessoa, destoando do discurso indireto
usual em Termos de Declarações e tornando palpável o tom usado pela comunicante:
a única prova que tenho são as testemunhas; tenho sete filhos dele, quatro
maiores e três menores; eu peço ajuda às autoridades, tudo o que vocês
podem fazer por mim e pelos meus filhos, eu necessito da pensão das
crianças porque eu preciso criar meus filhos e ele [o desaparecido]
trabalhava de carteira assinada.79

Voltando ao desaparecimento de Cinira, encontramos uma das possíveis razões para
que a polícia figure nos casos como último recurso: a já mencionada idéia de que o trabalho
policial tem como objeto crimes, suspeitas de crime e a criminalidade, e de que, por isso,
esclarecimentos são necessários quando as ocorrências não são criminais. A primeira frase
registrada a partir das falas de Cinira, nesse sentido, diz que “na verdade não aconteceu
nenhum crime relacionado ao seu desaparecimento”, indicando que na zona cinzenta em que
se faz o trabalho policial, reflexões como as expressas pelos agentes do SDP transitam
também entre comunicantes e demais “Envolvidos” nos casos. Os registros acima transcritos
do caso do idoso desaparecido explicitam isso com nitidez, já que a comunicante justificou o
fato de ter ido à DP, como se, de seu ponto de vista, o desaparecimento de seu pai não fosse
atribuição da polícia.
Cinira, depois de esclarecer que seu desaparecimento não teve relação com nenhum
crime, estendeu-se em relatos não só sobre onde esteve, mas também sobre sentimentos que
causaram seu desaparecimento (aborrecida, cansada, extremada) e foram por ele originados
(arrependida). Entre esses sentimentos e antes que o jargão do “nada mais disse” encerrasse o
registro feito a partir de suas falas, Cinira firmou compromisso, dizendo “que quando sair
para passear e demorar um pouco ligará para alguém de sua família, para comunicar onde e
com quem está”. Esse compromisso aparece nos registros como conseqüência direta de seu
arrependimento.
Compromissos como esse, firmados por desaparecidos, comunicantes e outros
“Envolvidos” em desaparecimentos diante dos policiais que os atendem, aparecem em muitos
casos, envolvendo não só desaparecidos que se comprometem a não desaparecer novamente,
o que é recorrente em casos de adolescentes, mas também comunicantes que pactuam que
tomarão determinadas providências. É usual que comunicantes se comprometam a retornar à
delegacia para comunicar o eventual retorno do desaparecido e a requerer documentos de
identidade. A notificação do retorno do desaparecido visa a evitar que a polícia trabalhe sem
79

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 209/05 do SDP/DH.

142

necessidade na busca por pessoas que não estejam mais desaparecidas; já a emissão da
carteira de identidade é apresentada como forma de evitar desaparecimentos ou, como vimos
no caso de Graziele, solucioná-los sem demandar diligências. Não obstante, são também
comuns compromissos relacionados ao controle do comportamento dos desaparecidos, que
condensam laços de continuidade entre formas patrimoniais e formas burocráticas de
dominação como os analisados por Vianna (2002). Isso fica claro no caso da adolescente
Arlete, narrado seguir, e em outros casos como o de Melissa, cuja mãe voltou à DP para
informar que sua filha “foi encontrada debaixo do viaduto, sendo levada para casa para serem
tomadas certas medidas com relação ao comportamento da mesma”. 80
Compromissos de comunicantes com a tomada de providências ou controle de
comportamentos, bem como afirmações de desaparecidos assegurando que não desaparecerão
novamente, respondem a conselhos e orientações de policiais. Como toda atividade
constitutiva do trabalho policial, os atos e qualificações produzidos no decurso de casos de
desaparecimento são fruto do encontro entre comunicantes e demais “Envolvidos” e policiais.
Compromissos não fogem a essa regra, e muitas vezes são respostas dos “Envolvidos” nos
casos a conselhos e sugestões de policiais. No mesmo sentido, conselhos e orientações de
policiais respondem a demandas e queixas de comunicantes e outras pessoas ouvidas no
decorrer dos casos. Se retomarmos o desaparecimento de Antônio, narrado ainda na
Introdução dessa tese, encontramos bom exemplo. Quando Maria foi ao SDP informar que
havia encontrado o desaparecido e relatar “o trabalho” que ele lhe dava, o inspetor Fernando
sugeriu, com tons de especialista que presta assessoria, que eles deveriam se divorciar “no
papel” para que ela se prevenisse de possíveis responsabilizações por acontecimentos futuros.
Essa sugestão, evidentemente, respondeu às queixas de Maria.

ARLETE
Dia 7 de janeiro de 2008, a empregada doméstica Regina saiu cedo para o trabalho,
como de hábito. Voltou por volta das 20hs, horário também habitual, e encontrou sua filha
Arlete, de 16 anos, “em casa como sempre”. Por volta das 22hs, Regina foi deitar, “deixando
sua filha acordada, e sua filha falou que iria para a residência de sua colega Ana, e lá iria
dormir”. No dia seguinte, Regina trabalhou normalmente, mas “quando chegou em casa não
encontrou sua filha”.
Durante os quatro dias que se seguiram, a doméstica seguiu sua rotina de trabalho,

80

Os documentos relativos ao segundo caso mencionado compõem a Sindicância 159/08 do SDP/DH

143

esperando encontrar Arlete toda noite ao voltar para casa, o que não aconteceu. Dia 12 de
janeiro, então, Regina foi à delegacia “para formalizar o registro de desaparecimento de
Arlete”. Ao policial que a atendeu, narrou o ocorrido, descreveu a adolescente fisicamente e
afirmou “que esta é a primeira vez que sua filha sai de casa e não retorna.” Quase um mês
depois, Regina voltou à delegacia, agora para comunicar o contrário:
Que sua filha, a MENOR Arlete Santos, já retornou ao lar; que perguntado
para sua filha onde esteve, a mesma falou que foi para a residência de uma
colega, mas resolveu ir para residência de outra colega; que sua filha
retornou no dia 14/01/2008, uma semana após ter desaparecido.

Em junho de 2008, o caso de Arlete foi encaminhado para o SDP. O inspetor que
recebeu os documentos arquivou o caso como Sindicância Solucionada. Antes disso, porém,
telefonou para a mãe da menina e confirmou que
sua filha retornou para casa, após ficar alguns dias na companhia de colegas;
[Regina] disse ainda que desde então procura manter maior controle da menor,
inclusive, a castigou com uma surra quando chegou em casa. Foi orientado
81
que a mãe providenciasse carteira de identidade da menor.

Ao analisar como são administrados processos judiciais em torno de crianças e
adolescentes “sem conflito com a lei penal”, Lugones (2009) denomina as técnicas
empregadas nos tribunais em que fez trabalho de campo de “formas de aconselhamento” e
“fórmulas de compromisso”. Essas técnicas reúnem “a força intrínseca da forma (o conselho)
e a eficácia própria da formalização dos compromissos exercida por especialistas” (Lugones,
2009, p.203), além de operacionalizarem exercícios de poder “que reencaminham situações
„desgovernadas‟ através de atuações pedagógicas” (Idem, Ibidem, p.203). Registradas nos
autos dos processos, “formas de aconselhamento” e “fórmulas de compromisso” cristalizam
maneiras de conduzir situações tidas como fora de controle, e devem sua eficácia justamente a
sua forma, que desliza entre conselhos, assessorias e ordens, e ao seu alcance, já que
envolvem todo o círculo social em que as crianças e adolescentes em causa estão inscritos.
Iluminados pelo trabalho dessa autora, os compromissos e conselhos firmados em
casos de desaparecimento revelam toda sua força e relevância. Assim como os menores em
causa nos processos judiciais acompanhados por Lugones (2009) não têm “conflito com a lei
penal”, casos de desaparecimento são ocorrências policiais não-criminais. Como objetos de
administração judicial ou policial, ambos são construídos e geridos por atos, qualificações,
formas e fórmulas que se espraiam pelo amplo espaço aberto pela impossibilidade de se julgar
e penalizar pessoas por crimes previstos na lei penal. Nesse espaço, conselhos que têm tons de
81

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 131/08 do SDP/DH.

144

assessoria especializada e intenções registradas como compromissos desempenham papel
central, funcionando muitas vezes como instrumentos de controle de pessoas e situações
construídas, para usar o termo de Lugones (2009), como “desgovernadas” - ou, para lembrar o
caso de Linda, como “uma confusão só”. A surra que a mãe de Arlete lhe deu e relatou ao
policial com quem falou pelo telefone, a orientação desse agente para que ela providenciasse
o RG da menina e a garantia de Cinira de que não desapareceria novamente são apenas alguns
dos vários conselhos e compromissos produzidos no decurso de casos de desaparecimento.
As fórmulas e formas mobilizadas nos tribunais junto aos quais Lugones (2009)
realizou sua etnografia tinham lugar no marco mais amplo das concepções das funcionárias
que administravam os processos sobre a importância de seu trabalho. As empregadas que
levavam as causas, nos termos da autora, “consideravam que suas próprias atuações não eram
decisivas” (Lugones, 2009, p.158), e sim que os destinos dos menores envolvidos nos
processos eram determinados pelo juiz, autoridade máxima dos tribunais, cujas decisões eram
revestidas da máxima relevância. Contudo, os serviços por elas prestados através de “formas
de aconselhamento” e “fórmulas de compromisso” incidiam sobre os rumos desses destinos
de modo tão eficaz quanto aparentemente invisível.
Analogamente, nos casos de desaparecimento conselhos e compromissos são
oferecidos e firmados no marco mais amplo das concepções dos policiais sobre a importância
de seu trabalho. Não obstante, nos desaparecimentos essas concepções desdobram-se em
posições sobre o papel das “famílias” nos rumos tomados por cada caso. A “família”, da
perspectiva dos policiais, é a instância em que os casos são gerados e devem ser solucionados,
cabendo à polícia entrar em cena apenas depois de “esgotadas todas as possibilidades” e para
exercer papel, nas palavras do inspetor Fernando, de “apenas mediação”. De forma
semelhante ao que ocorre a muitas denúncias de violência contra mulheres, policiais
inscrevem as tramas de desaparecimento “no plano do cotidiano da relação, procurando
retirar sua excepcionalidade.” (Enne, Carrara e Vianna, 2002, p.53). Se, como vimos na fala
de Cecília citada no capítulo anterior, familiares de desaparecidos constroem os casos
atribuindo-lhes excepcionalidade, policiais fazem o oposto: domesticam o caráter
extraordinário atribuído aos desaparecimentos pelos comunicantes, classificando os casos
como “problemas de família”. Ao retirar a excepcionalidade dos desaparecimentos, policiais
eximem-se de responsabilidade diante deles e explicitam que, de seu ponto de vista,
“famílias” necessariamente têm “problemas” e devem geri-los por conta própria.

145

Para Fernando, “quem encontra um desaparecido é a própria família”, o que acontece
em dois sentidos: são as informações fornecidas pela própria família, e só elas, que habilitam
policiais a localizar desaparecidos; e muitas vezes quem efetivamente encontra o desaparecido
é um familiar que, cumprindo o compromisso muitas vezes firmado no ato da comunicação do
desaparecimento, retorna à DP e relata que teve sucesso em sua busca. Para Fernando, “se a
família não comunica, a polícia não vai investigar, e se a família não colabora, a polícia não
tem nem por onde começar”. Da perspectiva dele, todo caso de desaparecimento começa e
termina na família, apenas passando pela polícia: é a família que vai à delegacia e comunica o
desaparecimento, e é a família que capacita (ou não) a polícia a descobrir o paradeiro do
desaparecido e solucionar o caso.
Conselhos de policiais a comunicantes e demais “Envolvidos”, bem como
compromissos por eles firmados diante de policiais inscrevem-se nesse quadro. Designando
essas pessoas como “famílias”, policiais atribuem a elas tamanha responsabilidade pelos casos
que se colocam na posição de mediadores, que aconselham, dão sugestões e empreendem
diligências, mas não determinam os desfechos dos desaparecimentos. Não obstante, como me
disse algumas vezes a inspetora Telma, do ponto de vista de muitos policiais “as famílias
mentem” e costumam “ocultar fatos”, em larga medida por medo do que a polícia possa fazer
aos desaparecidos. Muitos dos conselhos e compromissos firmados nos encontros entre
policiais e “Envolvidos”, portanto, inscrevem-se não só num quadro amplo de concepções que
atribuem às “famílias” a responsabilidade pelos casos, mas também em um cenário de
desconfiança.
Durante a pesquisa no SDP, tomei parte desse cenário de desconfiança algumas vezes,
dentre as quais destaco duas. Em uma ocasião, enquanto transcrevia documentos, presenciei a
chegada de um homem de meia idade que, depois de relatar memórias de sua mais tenra
infância aos policiais do Setor, afirmou acreditar ser o menino Carlinhos. Carlinhos é a
criança que sofreu um controvertido seqüestro em 1973 e jamais foi encontrada,
protagonizando o que se tornou um caso de desaparecimento de grande repercussão não só no
Rio de Janeiro, mas em todo país. 82 Depois que o homem deixou o SDP, entusiasmada eu
disse aos inspetores que talvez ali estivesse a solução de um dos casos mais célebres de que já

82

Carlos Ramires da Costa, que tinha então 10 anos de idade, teria sido seqüestrado na casa onde residia com
sua família, em Laranjeiras, tendo o seqüestrador deixado um bilhete com pedido de resgate para sua família.
Um inquérito policial foi instaurado em torno do caso. O homem apontado no inquérito como seqüestrador do
garoto foi julgado e absolvido pela Justiça. O jornalista que redigiu a primeira matéria sobre o chamado “caso
Carlinhos” a sair na mídia impressa compilou em seu website pessoal os jornais da época que divulgaram o caso
(cf. http://www.serqueira.com.br/caso/recortes.html).

146

tive notícia. Os policiais, rindo da minha empolgação e contrapondo-lhe o saber de tons
divinatórios constitutivo do trabalho policial, logo descartaram qualquer possibilidade da
hipótese do homem ser verdadeira, dizendo que “só de olhar dá pra saber que é um maluco!”.
Na ocasião, a forma tão automática quanto assertiva com que os agentes
desqualificaram a hipótese do suposto Carlinhos frustrou minhas expectativas. Por outro lado,
porém, explicitou o que, do ponto de vista daqueles detentores de um conhecimento encarado
como “disposição incorporada, quase postural” (Bourdieu, 2010, p.61), os diferencia
definitivamente de mim e de outras pessoas que não compartilhem de seu habitus. Como nas
formas de saber cujos preceitos não se prestam a ser ditos ou formalizados de que fala
Ginzburg (1989), o conhecimento detido por policiais é constituído por “elementos
imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição” (Ginzburg, 1989, p.179). Tais elementos
permitem-lhes identificar não só criminosos em potencial que ameaçam a ordem pública, mas
também “malucos” como o homem que afirmou ser o menino Carlinhos. Nesse sentido, a
situação protagonizada por esse “maluco” e os risos dos policias diante do entusiasmo que ela
me causou seriam evidências de que, enquanto para eles “só de olhar dá pra saber”
informações sobre fatos e pessoas, a mim ocorreriam idéias pouco astutas diante de muitos
dos cidadãos que procuram o SDP.
Em outra situação igualmente reveladora, o irmão e o pai de um desaparecido foram
ao Setor perguntar o que deveriam fazer. O desaparecido havia sumido em uma favela e
quando seu irmão foi à DP mais próxima solicitar investigações em torno do caso ouviu de
policiais que não fariam buscas na localidade. Depois de orientá-los a retornar à DP, o agente
do SDP que os atendeu me disse que era certo que se tratava de caso de envolvimento com o
tráfico de drogas, dada a favela mencionada. Dirigindo-se a mim, mas falando também para
outro policial presente, afirmou que o pai e o irmão do desaparecido “com certeza não
disseram tudo o que sabem. Estão querendo me convencer que não sabem o que o sujeito foi
fazer na favela? Aposto que tem ficha suja e a família vai dizer que também não sabe o que
ele foi fazer na cadeia.” O outro policial então afirmou: “É assim, enquanto o filho está lá
usando ou vendendo droga, eles não fazem nada. Depois some e é morto e eles vêm aqui.”
Essa situação indica o que aparece expressamente em alguns dos depoimentos
compilados por Soares et al (2009) e nas falas de familiares das vítimas da Chacina de Acari
(Nobre, 2005; Araújo, 2007a, 2007b, 2008). Concepções em torno da favela que a associam
às categorias pobreza e criminalidade têm efeitos diretos sobre a forma como policiais lidam
com solicitações de seus moradores e com fatos que se passam em seu território. Os trabalhos
147

citados mostram que o que chamo de cenário de desconfiança recobre as demandas levadas a
repartições policiais por moradores de favelas ainda com mais força, carregando de
concepções depreciativas e estereótipos as poucas e pouco empenhadas diligências levadas a
cabo para respondê-las. Decker & Wagner (2007), analisando denúncias de cidadãos contra a
polícia de certa municipalidade estadunidense, mostram processo semelhante diante de
demandas e solicitações de negros que lá procuram por repartições policiais e solicitam seus
serviços.
Em depoimento apresentado em Soares et al (2009), a mãe de uma das vítimas da
Chacina de Acari, hoje militante de movimento social, afirma que a própria classificação de
fatos como desaparecimento pode responder a esse cenário de desconfiança e à associação
entre favela, pobreza e criminalidade. Ao apontar para essa associação, a militante aponta
também para a inferioridade atribuída ao desaparecimento em relação a ocorrências criminais
e à domesticação de seu caráter excepcional empreendida por policiais. Classificar
acontecimentos como o que se passou com sua filha como desaparecimentos, para ela, é uma
forma de diminuir sua importância para fazer jus à inferioridade atribuída ao “pobre” e aos
moradores de favelas:
Rosana viajou com mais dez jovens, quase todos moradores de Acari. No dia
26 de julho de 1990, por volta das nove da noite, eles foram retirados do sítio
em que estava e até hoje estão desaparecidos. O desaparecimento – porque
pobre desaparece, não é seqüestrado – foi registrado na delegacia local.
(Soares et al, 2009, p. 93)

A inferioridade do desaparecimento, da favela e de seus moradores anunciam um
segundo artefato do trabalho policial em torno de casos de desaparecimento, que destaco a
seguir: a construção de reputações. No cenário de desconfiança em que os casos são
registrados, “só de olhar” policiais levantam parcos conjuntos de hipóteses sobre o que pode
ter passado a certos desaparecidos. Como a situação acima narrada deixa claro, casos de
homens jovens registrados como tendo ocorrido em favelas são freqüentemente encarados a
partir de um leque de hipóteses ainda mais restrito que o característico da rotina burocrática
percorrida por desaparecimentos. Se, como vimos no capítulo anterior, de modo geral
policiais trabalham com as hipóteses de morte, prisão e internação, diante de muitos casos
esses mesmos agentes afirmam ter certeza do que se passou: os jovens estariam envolvidos
com uso ou tráfico de drogas e teriam sido mortos em conseqüência disso. Já diante de casos

148

protagonizados por mulheres jovens e meninas, muitas vezes policiais expressam suspeitas de
que as desaparecidas estariam se prostituindo ou teriam sumido com seus namorados. 83
Essas hipóteses e certezas alegadas por policiais diante de muitos casos restam
registradas nos documentos não de forma direta, mas a partir de um de seus efeitos.
Comunicantes e outros “Envolvidos” que prestam “declarações” em delegacias muitas vezes
alongam-se em relatos sobre os desaparecidos que intentam contrapor-se ao cenário de
desconfiança que recobre os casos e às restritas possibilidades de desfecho aventadas por
policiais. Negando que jovens desparecidos são usuários de drogas ou têm envolvimento com
tráfico, e afirmando que meninas desaparecidas não têm namorados, tais relatos parecem
responder ao que, por vezes silenciosamente, policiais acreditam saber “só de olhar”. Ainda
que, por definição, os desaparecidos estejam fora do alcance desse “olhar”, as avaliações
divinatórias características do fazer policial não deixam de se fazer presentes em casos de
desaparecimento. Ao invés da ausência do desaparecido implicar a impossibilidade desse tipo
de avaliação, o que ocorre nos desaparecimentos é que “só de olhar” para os comunicantes e
demais “Envolvidos” nos casos que se dirigem às DPs, policiais parecem “saber” informações
inauditas sobre os desaparecidos.

3.3 Desvios, suspeitas e reputações
No cenário de desconfiança e no quadro de responsabilização das “famílias” pelos
casos de desaparecimento, não são produzidos somente conselhos e compromissos.
Tampouco são apenas mobilizados estereótipos e concepções sobre porções da população e
localidades como as favelas, partindo de supostas reputações pré-definidas. Do trabalho
policial em torno dos desaparecimentos também resulta a construção de reputações, boas ou
más. Essas reputações visam não só a fazer frente à desconfiança e à responsabilização das
“famílias”, mas também a explicar fatos e comportamentos de pessoas enredadas nos casos.
Nas descrições de Linda como mulher de temperamento explosivo e de Wellington como
homem que sonega informações e esfaqueia a companheira, na confissão de culpa de Cinira,
em que ela se apresenta arrependida, e nas falas da mãe de Arlete sobre si mesma,
descrevendo-se como alguém que trabalha o dia inteiro todos os dias, mais que informações
variadas sendo prestadas para auxiliar buscas de paradeiro, vemos reputações sendo
83

No quarto capítulo detenho-me sobre as suspeitas que recaem sobre as meninas, a partir das falas de mães de
desaparecidos que integram a ReDESAP.

149

comunicadas e registradas em documentos policiais. Reputações, vale dizer, não são
qualidades intrínsecas de alguém, mas opiniões de algumas pessoas sobre outras. A
importância dessas opiniões para as pessoas envolvidas depende da intensidade das interações
entre elas. (Bailey, 1971)
Em seus encontros com policiais, “Envolvidos” em casos de desaparecimentos são
inscritos nas tramas documentadas através de descrições e informações sobre hábitos e
características suas que certamente não são comunicadas e registradas sem propósito.
Mirando finalidades múltiplas, essas descrições desenham imagens pessoais ora positivas, ora
negativas: ou descrevem pessoas idôneas, trabalhadoras, tranqüilas e localizáveis em círculos
sociais, instituições e endereços residenciais ou, por outro lado, apresentam pessoas
desgovernadas, desgarradas, intranqüilas e envolvidas em situações e relações obscuras. Para
pensar sobre imagens negativas, vale lembrar o caso de Sílvio, sutilmente descrito por sua
prima como alguém desgarrado, que vivia em meio a entulhos e andava pela cidade guiando
sua bicicleta velha. Outro exemplo aparece no desaparecimento duplo dos irmãos Gil e Cid,
que saíram de casa juntos e não mais retornaram. As falas do irmão mais velho dos dois
constroem imagens positivas de ambos e delas excluem características que as poluiriam:
Que desconhece qualquer ameaça que seus irmãos tenham sofrido e também
qualquer problema com eles ou que estes tenham se envolvido com a
marginalidade da região onde residem. Que seus irmãos moravam juntos
com a mãe e o declarante, eram boas pessoas e estudavam regularmente,
tendo Flávio [um dos dois] completado o 2º grau e estava recentemente
procurando trabalho. 84

Outro exemplo da construção de imagem negativa aparece em mais um
desaparecimento de irmãos, cujos registros afirmam que
A comunicante [mãe dos garotos] procurou o Conselho Tutelar, que a
encaminhou para esta delegacia para fazer o registro. As crianças citadas
fogem constantemente, têm desvio de conduta, dizem que serão marginais e
a comunicante não tem qualquer autoridade sobre eles, que são rebeldes.85

Duas das múltiplas finalidades da construção de imagens positivas ou negativas em
torno dos desaparecidos e de outros “Envolvidos” nos casos são o fornecimento de possíveis
explicações para os desaparecimentos e o seu avesso - a afirmação que nenhuma
característica ou comportamento da pessoa pode explicar o que teria ocorrido. No caso
84
85

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 281/05 do SDP/DH.
Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 043/07 do SDP/DH.

150

envolvendo um idoso, por exemplo, registrou-se a partir das falas do filho do desaparecido
“que José tinha perfeita saúde mental, mantinha um bom relacionamento familiar e não
passava por nenhum tipo de problema que pudesse dar causa a seu desaparecimento.”86 Em
outro, envolvendo uma garota de 13 anos, encontra-se o registro de que a menina “sempre foi
uma criança muito tranqüila e nunca cometeu atos de rebeldia”. 87 Por fim, em um terceiro e
especialmente interessante, lê-se logo nos primeiros registros do caso que o desaparecido,
homem de 49 anos, “nunca fez algo do tipo, sendo homem de compromisso e seriedade, que
também não tinha inimigos ou desafetos, não acreditando a esposa em nenhum problema por
conta disso”.88 O homem havia saído do trabalho com um colega e ido ao bar próximo de sua
casa. Depois que deixou o bar, não foi mais visto nem pelo colega, nem por vizinhos, nem por
sua esposa, que foi à DP comunicar o desaparecimento.
Assim como nesse caso, desaparecer aparece em muitos outros como ato ou
comportamento desabonador, um “desvio de conduta” como o dos irmãos acima referidos,
indicativo de que o desaparecido não é “homem de compromisso e seriedade”. O emprego dos
termos desaparecer e desaparecimento com esse sentido sugere que, em casos voluntários,
em que desaparecidos optam por “sumir”, como pode ter ocorrido a Linda, a ruptura de
vínculos por eles provocada é avaliada como irresponsabilidade, leviandade, insensatez,
enfim, como um ato de que o desaparecido deveria se arrepender, como ocorreu a Cinira.
Nesses casos, atribuir boa reputação ao desaparecido pode ter entre suas finalidades
contrapor-se ao sentido negativo atribuído ao próprio desaparecimento e, ainda, descrever o
círculo social de onde ele partiu como meio moralmente adequado e capaz de garantir que
seus membros não se desgarrem (Vianna, 2002, p.130), apesar daquele episódio de
desaparecimento. O caso de um idoso que deixou a casa onde morava revela que o próprio
desaparecido por vezes faz frente a esse sentido negativo atribuído ao desaparecimento e se
apressa em valorar positivamente a casa que deixou. O idoso partiu deixando bilhete para as
duas irmãs que o abrigavam. Na nota, pediu desculpas por partir, disse nunca ter encontrado
pessoas mais generosas do que elas e que melhor o acolhessem, e afirmou, como quem
oferece a compensação por um mal, que “pelo menos um bilhete eu deixei pra vocês”. 89

86

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 358/05 do SDP/DH.
Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 092/07 do SDP/DH.
88
Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 202/05 do SDP/DH.
89
Esse desaparecimento encontra-se narrado no quinto capítulo. Os documentos a ele relativos compõem a
Sindicância 004/07 do SDP/DH.
87

151

Narrados abaixo, os casos de Janilson e Humberto colocam em cena a construção de
imagens positivas e negativas em torno dos “Envolvidos” em desaparecimentos. Neles, como
em tantos outros casos com que tive contato, as imagens positivas delineiam boas reputações,
ao passo que as negativas revestem de suspeitas aqueles a que se referem. No caso de
Janilson, as suspeitas colocadas sobre o desaparecido parecem fundamentar-se no local em
que ele “foi visto pela última vez” - um baile funk, evento em torno do qual pululam
representações estigmatizantes, como mostram Herschmann (2000) e Silveira (2007). O baile
aconteceu em uma favela, trazendo para o caso os estereótipos e concepções depreciativas que
recaem sobre essa localidade e seus moradores. A imagem negativa em torno do desaparecido
aparece sobretudo no relatório final do policial que cuidou do caso na DP, e se contrapõem à
boa reputação delineada pelas “declarações” dos amigos e de uma conhecida do desparecido
que estiveram na DP que cuidou do caso.
Já no caso de Humberto, sua boa reputação calca-se em repetitivas afirmações sobre
sua inserção no mundo do trabalho, remetendo-nos ao papel crucial atribuído ao trabalho
como instrumento de controle social sobre o qual falam Vianna (2002) e Brandão et al (1981),
entre outros autores citados. “O emprego” ou “o trabalho”, assim como “a família”,
comparecem nos desaparecimentos como unidades de localização e formação moral.
Expressam, afinal, vínculos cotidianos com firmas, patrões, colegas e/ou tarefas ordenadas
que tanto inscrevem o sujeito em círculos sociais e espaços territoriais determinados, quanto o
distanciam das concepções de policiais (mas não apenas deles) em torno da marginalidade e
do leviano ato de desgarrar-se e “sumir”. Como registrado no caso de Humberto, o fato de
estar empregado indica que o desaparecido é um sujeito “estável”.
Vale destacar ainda que o desaparecimento de Humberto enreda uma operação
policial de rua e, diferente dos casos narrados até aqui, conta não só com um componente
criminal virtual, mas também com cenas de tiros e encontro de cadáver que, se cotejadas com
as reflexões de policiais apresentadas nos capítulos anteriores, talvez os levasse a questionar
se, como muitos afirmam, desaparecimentos são “problema de assistência social”.

JANILSON
Janilson, 28 anos, ajudante de caminhão, costumava freqüentar os bailes funk da
Cidade Alta, em Cordovil, com seus amigos Nildo e Gonçalves. Na noite de 5 de fevereiro de
2005, como de hábito, os três saíram juntos da casa de Janilson em direção ao baile. Ao
deixarem a casa, passaram por Marina, vizinha de Janilson e amiga de Jane, sua mãe.
Diferente das outras vezes que lá estiveram, naquela noite “Janilson começou a
152

namorar uma jovem no baile e no final do baile, ao ser chamado pelos colegas para ir embora,
o mesmo lhes informou que ficaria com a jovem”. Desde então, Janilson não retornou para
casa, nem foi mais visto nem por seus amigos ou pela vizinha Marina. Cinco dias depois, Jane
foi à delegacia mais próxima de sua casa. A partir de seus relatos acerca do ocorrido, foi então
produzido um Registro de Ocorrência de desaparecimento em nome de Janilson.
No começo de março, ainda sem notícias de seu filho, Jane voltou à repartição policial,
levando consigo uma foto 3X4 e uma cópia da certidão de nascimento de Janilson. Além de
repetir o que já havia relatado, acrescentou que tinha procurado por ele “em todos os lugares
possíveis”, que vinha telefonando periodicamente para o celular dele e que havia recebido
algumas ligações de um número que lhe era estranho. Sem especificar quais seriam, em
nenhum dos lugares em que procurou pelo filho Jane obteve qualquer informação. Sobre os
telefonemas, disse que algumas de suas chamadas para o telefone de seu filho vinham sendo
atendidas por uma pessoa que logo desligava a ligação; e sobre o número estranho de onde
partiram chamadas para ela, disse ter descoberto ser o telefone de uma pessoa de nome
Auxiliadora Silva.
Contactada por policiais, no dia seguinte Auxiliadora compareceu à mesma DP e
prestou declarações. Sobre o desaparecimento de Janilson, nada disse; já sobre o desaparecido
e sua relação com ele, falou um pouco:
Inquirido, DISSE: que conhecia o nacional Janilson Vieira, o qual se
encontra desaparecido, pois o mesmo residia próximo a residência da mãe
da declarante; que acredita a depoente que possivelmente sua mãe foi quem
ligou para a mãe do desaparecido, uma vez que a mãe da declarante tinha
muito “carinho” pelo desaparecido, pois o mesmo se assemelhava a um
irmão da depoente já falecido; que a declarante conhece a mãe do
desaparecido, no entanto não tem vínculo de amizade com a mesma; que não
sabe detalhes da vida pessoal do desaparecido, no entanto o mesmo parecia
ser boa pessoa e muito respeitador. Que está a disposição da Justiça para
dirimir qualquer tipo de dúvida. Nada mais disse nem lhe foi perguntado.

Já no mês de abril, em dois dias diferentes, os amigos de Janilson que com que ele
foram ao baile funk também compareceram à DP. Separadamente, ambos narraram os fatos de
forma semelhante e acrescentaram aos registros do caso, assim como fizera Auxiliadora,
apenas descrições sobre Janilson e as relações entre os três. Nildo afirmou que “sua relação de
amizade com o desaparecido era das melhores”, e Gonçalves, com uma série de negativas e
associando sua reputação à do amigo, afirmou
que não houve nenhum tipo de confusão no período em que estiveram no
baile, que não sabe informar o que possa ter havido com Janilson, que vem
ressaltar que não tem vícios de fumar ou de usar “drogas”, e que Janilson
também não fazia uso de “drogas”; que foram embora deixando Janilson no
baile, para nunca mais voltarem a vê-lo.

153

Em agosto de 2005, o inspetor que cuidou do caso na DP produziu relatório encerrando
a participação daquela repartição nas investigações e encaminhando o caso para o SDP. Em
contraste com as descrições sobre Janilson e suas relações, registradas a partir das falas de seus
amigos e de Maria Auxiliadora, no documento o policial assim resumiu o desaparecimento:
foi apurado que Janilson saiu em companhia de 02 amigos para irem a um
baile funk no local conhecido como Cidade Alta, no bairro de Cordovil,
local onde se homiziam marginais da pior espécie, devido aquela
comunidade ser propícia ao tráfico de entorpecentes, que em determinada
hora, os acompanhantes o teriam chamado para ir embora, no que foi
recusado pelo mesmo, que então Janilson foi deixado no local, não mais
sendo visto até a data presente.

No SDP, além da emissão de ofícios para diversas instituições que poderiam ter
registros e esclarecedores sobre o desaparecimento de Janilson, foram feitas consultas em
sistemas de dados da polícia e da justiça. Todas essas diligências geraram informações
negativas sobre Janilson: ele não foi atendido em hospitais públicos que foram contactados,
nem teve entrada registrada no IML, na Polinter, na Fundação Leão XIII ou no Instituto Pinel.
As pesquisas em sistemas de dados revelaram ainda que ele “não possui anotações criminais”.
Em outubro, nove meses depois do desaparecimento de seu filho, Jane foi ao SDP.
Afirmou que, assim como policiais do Setor fizeram através de ofícios, ela vinha fazendo
buscas pessoalmente no IML e em hospitais públicos. Além disso, vinha também conversando
“com moradores do local do referido baile, mas não ficou sabendo de qualquer incidente
diferente naquela localidade”. A única informação que obtivera e poderia acrescentar algo às
investigações, segundo Jane, era o fato de que cerca de uma semana depois do desaparecimento
dois saques foram feitos na conta corrente de Janilson, “um no valor de dez reais, e outro no
valor de duzentos”, que ela comprovou com um extrato bancário.
Em março de 2009, sem que nenhuma diligência tenha sido levada a cabo depois da ida
de Jane ao Setor, o caso foi arquivado no SDP como Sindicância Suspensa. 90

HUMBERTO
Em 2001, depois de se aposentar como motorista, Humberto decidiu seguir trabalhando
para complementar sua renda. Tornou-se então funcionário de uma empresa de táxi.
Costumava acordar às 6hs30min e começar a trabalhar logo em seguida. Algumas vezes na
semana, dormia e saía para trabalhar da casa de sua namorada Jurema, em Jacarepaguá. Jurema
“é autônoma, fazendo bolos, salgados e doces para clientes”. Conheceu Humberto em 1995, e
desde então os dois mantêm o que ela chama de “um relacionamento caseiro”. Nos dias da
semana em que não dormia na casa dela, Humberto saía para trabalhar de sua própria

90

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 380/05 do SDP/DH.

154

residência, em Padre Miguel, que fica no terreno onde há duas outras casas: a de seu filho Luiz
Humberto, e a de uma prima sua, Vanda.
Na última semana de setembro de 2006, Humberto dormiu na casa de Jurema todos os
dias. Na manhã de sexta-feira, ao sair para trabalhar, disse a ela que voltaria por volta das 22hs,
como havia ocorrido nas noites anteriores. Jurema então esperou pela chegada de Humberto,
mas ele não apareceu nem no horário marcado, nem nas horas que se seguiram. Preocupada e
sem conseguir falar com o namorado pelo telefone celular, procurou por Luiz Humberto, filho
e vizinho dele. Luiz Humberto, que é policial militar, disse não saber onde seu pai estava, nem
porque não teria comparecido ao encontro com Jurema. Na busca por explicação, fez contato
com amigos de seu pai, mas nenhum deles sabia de Humberto.
Passaram-se três dias sem que qualquer notícia de Humberto chegasse ao
conhecimento de Jurema ou de Luiz Humberto. O filho do desaparecido decidiu então procurar
informações na empresa de táxi e “em todos os hospitais e nos institutos do IML”. Na empresa,
soube apenas que na sexta-feira, dia 29 de setembro de 2006, Humberto esteve na firma, como
de costume, “por volta das 14hs, saindo depois com o táxi, que também desapareceu”. Nos
hospitais e institutos, nada encontrou que esclarecesse o sumiço de seu pai. Diante de tanta
falta de informação, Luiz Humberto dirigiu-se finalmente a uma delegacia de polícia.
A partir dos relatos dele, na DP foi confeccionado RO de desaparecimento em nome de
Humberto. No documento foram registradas, como negações de hipóteses que pudessem
explicar o que ocorrera a seu pai, que Luiz Humberto “não tem conhecimento de ameaças ou
inimigos que possa informar e que a saúde de seu pai era estável e não tomava medicamentos;
que seu pai não tinha vício algum”. Além desses registros, na DP foi feita pesquisa sobre o táxi
que Humberto dirigia no “Sistema de roubos e furtos de veículos do estado do RJ”. Não
constava qualquer alerta ou pendência no sistema a respeito do automóvel.
Entre os dias 3 e 5 de outubro, porém, motoristas da empresa de táxi em que Humberto
trabalhava avistaram o carro “circulando nos bairros do Estácio e Candelária em poder de um
homem, cor parda, cabelos baixos quase careca, aparentando 30 a 35 anos”. Diante dessa
informação, um representante da firma foi até a DP onde o desaparecimento de Humberto foi
registrado e prestou queixa de furto do automóvel. Ao RO de desaparecimento foi então
acrescentado mais um título: “Furto de veículo”. Com esse acréscimo e dados sobre o
automóvel, o RO foi encaminhado à Delegacia de Roubos e Furtos de Autos (DRFA), ao
DETRAN-RJ e ao 3º Batalhão de Polícia Militar (BPM) do Rio de Janeiro.
A partir das falas do representante da empresa foram firmados registros sobre a boa
reputação e a “vida particular” de Humberto:
Humberto sempre cumpriu com as obrigações referentes a empresa, não
causando nenhum problema ou outro motivo que desabonasse sua conduta;
que Humberto tinha o costume de ingerir cervejas, mas nunca apresentou

155

problemas referentes a bebida; que Humberto era bem visto por todos e não
tinha inimigo na empresa; que sobre sua vida particular, sabe informar que
tinha família e filhos; que Humberto costumava dizer que ia para
Saquarema, Santa Cruz e Muriqui nos dias de folga; que não sabe fornecer
mais dados sobre sua vida particular; que procurou saber com outros
motoristas da empresa algum motivo ou ameaça que pudesse elucidar tal
desaparecimento, mas nada foi informado.

Outra descrição da boa reputação de Humberto, associada a possíveis explicações para
seu desaparecimento, foi registrada a partir de falas de Jurema. A namorada de Humberto
esteve na DP horas depois do representante da empresa de táxi e, além da boa reputação do
desaparecido, falou também sobre lugares que Humberto costumava freqüentar, dentro e fora
da cidade do Rio de Janeiro, construindo um mapa de seus trajetos costumeiros. A cada lugar,
encontra-se associada uma pessoa do círculo de convivência de Humberto:
Humberto nunca comentou qualquer assunto que viesse ajudar na elucidação
do seu desaparecimento, como também nunca comentou que tivesse sido
ameaçado, brigado na rua ou inimigos (sic); que Humberto tinha o hábito de
beber cervejas e era conhecido no local, sempre fazendo amigos; que
Humberto não tinha problemas de coração ou pressão a ponto de passar mal
e não fazia uso de medicamentos; que Humberto não tinha vícios em jogos e
não fumava; que Humberto era aposentado como motorista e recebia pelo
INPS; que a declarante não sabia quanto Humberto recebia de benefícios;
que não sabe informar se Humberto tinha conta bancária ou dívidas, pois
nunca comentou sobre sua situação financeira; que um dos prazeres de
Humberto era visitar o filho que reside em Saquarema, de nome Alan; que
visitava também o irmão da declarante, de nome Péricles, em Muriqui,
sempre acompanhado da declarante; que Humberto comentava que
trabalhava rodando na praça, não se fixando em ponto de táxi; que por não
ter ponto fixo, Humberto freqüentava diversos bairros, em especial o bairro
da Tijuca e morros adjacentes, não demonstrando medo.

Na manhã de 10 de outubro, quando já havia mais de dez dias que Humberto estava
desaparecido, o táxi que ele dirigia foi encontrado. Enquanto fazia ronda no bairro de
Copacabana, um policial militar “ouviu no rádio a respeito de uma ocorrência na qual o pai de
um policial militar estava desaparecido juntamente com seu veículo”. Naquele mesmo instante,
avistou o táxi cujas características foram descritas no rádio e aproximou-se para “fazer a
abordagem”. Diante do policial, o homem que dirigia o táxi “sacou uma arma da bolsa, todavia,
como estava rendido, não efetuou nenhum disparo e voltou a guardá-la”. O motorista então
saiu em disparada, sendo perseguido pelo policial, que “executou dois disparos de arma de
fogo para neutralizar a fuga”. Ferido, o motorista abandonou o veículo e seguiu em sua fuga a
pé. O policial recuperou o táxi, que foi rebocado para uma DP, mas o motorista não foi
alcançado. Em seguida, Luiz Humberto foi avisado do que ocorrera.
Já em novembro, Luiz Humberto retornou à DP em que comunicou o desaparecimento.
Relatou que já havia ido várias vezes ao IML e a alguns hospitais em busca do pai, além de ter
156

conferido se houve movimentação na conta bancária dele desde o desaparecimento. Relatou
ainda que os documentos de Humberto foram encontrados na Barreira do Vasco, em São
Cristóvão, por um funcionário da linha de ônibus que percorre a região. Depois de
encaminhados à empresa de táxi, os documentos foram entregues a Luiz Humberto.
Em janeiro de 2007, o caso foi encaminhado ao SDP. Na primeira pesquisa realizada
no Setor, pelo sistema de identificação civil do DETRAN-RJ, foi encontrado registro de óbito
em nome do desaparecido, o que encerrou a Sindicância como solucionada. Luiz Humberto já
sabia do óbito, mas não retornara à DP para informá-lo. Depois de se inteirar dos
acontecimentos através de um telefonema para a delegacia, o inspetor que cuidou do caso no
SDP registrou que Humberto faleceu em outubro de 2006, o que foi descoberto quando
uma viatura foi solicitada para comparecer a Rua Frei Fabiano em frente a
numérica 467, no bairro do Méier, onde constatou um cadáver de um
homem, que os policiais, sabedores do ocorrido com o pai de um colega de
farda, entraram em contato com o 26º DP onde foi feito a ocorrência do
desaparecimento, que o comunicante [Luiz Humberto] foi chamado a
Unidade Policial e posteriormente ao IML onde reconheceu o corpo sendo
91
do seu pai.

Janilson não usa drogas e não houve qualquer confusão no baile funk em que esteve.
Humberto nunca teve problema com a bebida ou no trabalho, não demonstra medo quando
transita próximo a favelas e nunca comentou que tivesse sido ameaçado ou brigado na rua.
Como muitos desaparecidos e pessoas envolvidas nos casos arquivados no SDP, os dois não
têm vícios, não têm inimigos, não fumam, não têm dívidas e são qualificados através dessas e
de várias outras negativas. Se, como afirmado no capítulo anterior, negativas e repetidos
“nada consta” constroem desaparecimentos como enigmas, por outro lado essas mesmas
formas narrativas tão presentes nos casos constroem também reputações.
Uma possibilidade interpretativa passível de ser acionada diante delas é encará-las
como negativos fotográficos, como se fossem respostas para indagações de policiais que não
restaram registradas nos documentos. Assim como compromissos firmados por comunicantes
e desaparecidos muitas vezes respondem a conselhos a eles fornecidos por policiais, as falas
dos primeiros muitas vezes respondem a interrogações dos últimos. Inquirir comunicantes e
“Envolvidos” em ocorrências, afinal, é método básico de investigação policial. Entre
inúmeros outros, o registro de que “Humberto nunca comentou qualquer assunto que viesse
ajudar na elucidação do seu desaparecimento” é um bom exemplo. É difícil imaginar que
Jurema, namorada do taxista, tenha dito algo nesse sentido sem que fosse provocada por

91

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 025/07 do SDP/DH.

157

alguma pergunta acerca de possíveis causas do desaparecimento dele, a serem procuradas
retroativamente em sua memória. Contudo, essa possibilidade interpretativa conduz à
equivocada idéia de que é possível separar, nos documentos, o que é registro de fala de
comunicantes do que é registro (ou ausência de registro) de supostas falas e perguntas de
policiais. Conforme venho chamando atenção ao longo da tese, os casos de desaparecimento
são produzidos em encontros entre comunicantes e policiais, e se interpelados em termos de
autoria mostram-se como composições únicas produzidas por múltiplos autores. A própria
forma como são construídos os registros, que empregam no mais das vezes o discurso
indireto, não transcrevem perguntas, nem indicam que uma ou outra frase responde a
determinada indagação, resiste a tal interpelação.
Se reputações, tanto quanto conselhos e compromissos, precipitam-se desses
encontros, buscar autorias exclusivas em fragmentos dos casos é não só impossível, como
também analiticamente improdutivo. Se trechos de casos parecem derivar diretamente das
“declarações” do comunicante, é preciso levar em conta que necessariamente foram
registrados por policiais, a despeito de terem ou não sido provocados por perguntas. No
mesmo sentido, se alguns registros parecem aplicações automáticas de jargões policiais, é
preciso considerar que consistem em respostas a demandas e solicitações de comunicantes.
Mas há algo mais na improdutividade de se separar as partes dos encontros que tecem casos
de desaparecimento. Entre solicitações e respostas, falas e registros, interesses expressivos e
censuras, os comunicantes e policiais articulam-se e estabelecem laços de complementaridade
que qualquer separação obscureceria.
Um conselho ou compromisso firmado por aqueles que os policiais denominam
“famílias” de pessoas desaparecidas, como ocorre nos processos judiciais analisados por
Vianna (2002), “supõe a prerrogativa da capacidade das últimas em conseguir controlar seus
membros num plano mais individual, cabendo à administração gerir populações” (Vianna,
2002, p.42) Não que a polícia se exima de suas obrigações diante de casos de
desaparecimento. Antes, o que se passa é a instituição de uma cadeia de responsabilização
semelhante ao que Vianna (2002) intitula “circuito tutelar de obrigações sobrepostas”, em que
policiais e comunicantes de casos não se opõem ou separam, mas se complementam. Nessa
cadeia, procurados por comunicantes cujas solicitações são registradas como casos de
desaparecimento, policiais os aconselham a manter os desaparecidos sob controle; esses
comunicantes, por sua vez, comprometem-se a providenciar documentos de identificação e a
corrigir e vigiar comportamentos. Nesse sentido, o trabalho policial se faz não só por meio de
158

diligências, mas também por meio de delegações: para gerir casos de desaparecimento,
policiais delegam a gestão dos desaparecidos e das relações em que eles se inscrevem a suas
“famílias”, devolvendo-lhes, em novas formas, suas solicitações.
Em suma, se a polícia é apresentada nos casos como último recurso, e se comunicantes
procuram delegacias depois de “esgotadas todas as possibilidades” de busca de que parecem
dispor, o trabalho policial em torno dos desaparecimentos abre novas possibilidades e aponta
para outro último recurso, encarnado pelos próprios comunicantes que vão àquelas repartições
e se postam diante dos policiais para solicitar seus serviços. Inscrevendo comunicantes e
demais “Envolvidos” nas unidades a que chamam “famílias”, policiais a elas delegam funções
e atribuições. Nesse exercício, contam com o papel ativo dos membros dessas “famílias”, que
se comprometem a tomar providências que se distribuem por um continuum de atos e
qualificações que vão desde a emissão de um RG até “uma surra”, como no caso de Arlete.
Embora as “famílias” tenham papel ativo nessa delegação, e ainda que seja necessário
pensar nos casos como frutos do encontro entre essas “famílias” e os policiais, é preciso
também levar em conta que os laços de complementaridade aí tecidos não implicam simetria
de poder. O esforço de comunicantes por atribuir boas reputações aos desaparecidos e a si
mesmos, assim como a confissão de culpa de Cinira diante de um policial ou a justificativa da
filha do idoso que “só” procurou a delegacia porque estava mesmo “desesperada”, indicam
um desnível entre comunicantes e policiais. Em todos esses casos, vemos comunicantes, em
sua condição de membros de “famílias”, situados na ponta da gestão dos desaparecimentos,
responsáveis últimos pelo controle de seus membros e suas relações. Ao mesmo tempo,
legitimando essa delegação, vemos esses mesmos cidadãos situados abaixo do patamar de
poder de decisão em que estão colocados os policiais que ouvem seus relatos, registram suas
solicitações e arquivam os casos que lhes dizem respeito.
Chamo atenção para essa superioridade do poder de decisão dos policiais não apenas
para apresentá-la como característica do trabalho policial, mas para apontar um de seus
efeitos: nos desaparecimentos, a assimetria entre policiais e “famílias” é condição de
possibilidade para que os encontros entre eles tomem, efetivamente, a forma de casos. Diante
da miríade de situações e “coisas de todo instante” que fazem o trabalho policial, zelar por
padrões de atuação e formas de registro é uma prerrogativa dos policiais imprescindível para
tornar seu trabalho possível. Afinal, são esses padrões e formas, ao determinar o que fica e o
que não fica registrado nos documentos, que emolduram cada caso, definindo a extensão e a

159

complexidade dos problemas com que a polícia tem que lidar. Assim como nos processos
analisados por Vianna (2002), nos casos de desaparecimento
A autoridade narrativa dos diferentes agentes especializados que
transformam a polifonia das falas em peças padronizadas e univocais é,
assim, não apenas tributária da posição de autoridade de que dispõem, mas
uma exigência a ser cumprida para que tal polifonia não crie a inviabilidade
da administração dos “problemas” a serem resolvidos (Vianna, 2002, p.95)

Diante das solicitações de comunicantes, tantas vezes extensas, pouco lineares e
permeadas por sentimentos, e também das informações obtidas em sistemas de dados e
através de Ofícios que circulam entre instituições, a delimitação e organização do que resta
registrado viabiliza o trabalho policial. Talvez valha a analogia com a própria emolduração
dos casos de que venho lançando mão ao longo desta tese. Construir narrativas a partir de
conjuntos de documentos reunidos em pastas e, em seguida, colocar tais narrativas em caixas
que se destacam do corpo do texto são instrumentos de que venho dispondo para tornar os
múltiplos papéis pesquisados nos arquivos do SDP manejáveis para a produção de um
trabalho acadêmico. Tanto na redação desta tese, quanto nos registros firmados por policiais,
bordas que circunscrevem casos e jargões como “nada mais disse nem lhe foi perguntado” são
formas de interromper fluxos de idéias, atos e qualificações para convertê-los em objetos
administráveis nos marcos, respectivamente, do trabalho acadêmico e do trabalho policial.
Sigamos agora para um terceiro artefato do trabalho policial em torno dos
desaparecimentos, que se soma às reputações e aos conselhos e compromissos: a construção
da dependência.

3.4 Perturbações, cuidados e dependência
NINA
Viúva, a dona de casa Maria Célia mora no Méier em companhia da filha Nina, de 35 anos.
Segundo Maria Célia, Nina “é deficiente mental e só sai de casa para ir à padaria e à Igreja próxima
de sua residência”, de onde sempre retorna tranquilamente. Na manhã do dia 26 de outubro de 2007,
porém, Nina “saiu para comprar pão e não voltou mais”. Preocupada, Maria Célia aguardou a volta da
filha por dois dias, durante os quais não teve qualquer notícia. Na manhã do terceiro dia, procurou
uma delegacia, onde foi produzido Registro de Ocorrência de desaparecimento em nome de Nina.
Maria Célia levou consigo “um laudo médico de Nina, que descreve um quadro de retardo
cognitivo e esquizofrenia parcial com agitações psicomotoras”, e relatou que sua filha “já foi
160

internada no Instituto Pinel”. Além desses dados sobre a saúde mental de Nina, Maria Célia
mencionou ainda “que a desaparecida teria dito que gostava de um rapaz de nome Renato Magalhães
e que se casaria com ele. Ainda segundo a declarante, Nina foi vista com ele perto da Igreja.”
No final de novembro, o registro de desaparecimento de Nina foi encaminhado a outra
delegacia. O inspetor que cuidava do caso verificou que a rua registrada como local de ocorrência do
fato, endereço da casa de Maria Célia e Nina, pertence às circunscrições de duas DPs: a 22ª e a 23ª.
Examinando o número da casa das duas, concluiu que o caso deveria ser investigado na 23ª DP, e não
na repartição em que ele estava lotado, a 22ª DP.
Depois do encaminhamento, Maria Célia foi chamada a prestar declarações na delegacia que
passaria a cuidar do caso. Na ocasião, relatou não que Nina saíra para comprar pão e não mais
retornara, e sim que “desceu por sua própria conta para o portão da casa, onde apareceu uma pessoa e
chamou sua filha pra ir com ele; que sua filha então foi com o rapaz, pois o portão estava
destrancado”. Além dessa nova narrativa sobre o momento do desaparecimento de Nina, Maria Célia
estendeu-se em relatos sobre a incapacidade da filha, que restaram assim registrados:
que sua filha tem problemas psiquiátricos inclusive toma diversos remédios
controlados e faz acompanhamento médico tendo estado internada por mais de 1
ano; que a declarante informa que é a pessoa responsável por sua filha doente; que
a declarante informa que sua filha não responde por ela, pois tem problemas
mentais, e que é a própria declarante que responde por ela sendo a responsável por
medicá-la e por levá-la aos locais necessários; que a declarante obteve a informação
de que a pessoa que levou sua filha é morador da favela Boca do Mato, de nome
Renato Magalhães e que sua filha falava sempre em casa que gostava dele e que iria
se casar com ele; que a declarante está muito preocupada pois além de estar longe
de sua filha já faz dois meses, ainda tem medo de que alguém a obrigue a fazer algo
de errado, pois sua filha tem debilidade mental e por isso não sabe o que faz.

Em janeiro de 2008, passado cerca de um mês da produção desses registros, o caso de Nina
foi encaminhado ao SDP. Passados outros cinco meses, o agente do Setor encarregado do caso
telefonou para Maria Célia para obter informações e prosseguir as investigações iniciadas na 22ª e 23ª
DPs. Na ligação, Maria Célia, “na condição de mãe da desaparecida, informou que sua filha já
retornou para o lar há cerca de 3 meses”. Com base nessa informação, na mesma data do telefonema o
caso foi arquivado como Sindicância Solucionada.92

Em função do que aparece no caso como “problemas mentais”, “debilidade mental”,
“problemas psiquiátricos” e “deficiência mental”, Nina tem pouca mobilidade e quase
nenhuma autonomia: “só sai de casa para ir à padaria e à Igreja” e “não responde por si”.
Restrita a esses três locais - casa, Igreja e padaria - e ao percurso entre eles, sua vida é

92

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 010/08 do SDP/DH.

161

responsabilidade de sua mãe, Maria Célia, que “responde por ela” e executa duas tarefas que
talvez sintetizem seu caso de desaparecimento: “medicá-la e levá-la aos locais necessários”.
Quando Nina fez um deslocamento que destoou dos curtos percursos que constituem
sua rotina, Maria Célia procurou a polícia. No primeiro momento, afirmou que a quebra de
rotina que determinou o desaparecimento de Nina ocorreu quando ela saíra para comprar pão.
Em uma segunda ocasião, afirmou que a quebra da rotina teria sido outra: contrariando o
hábito de só ser conduzida por sua mãe, e apenas quando precisa ir “aos locais necessários”,
Nina saíra de casa com um rapaz, cujo nome e local de moradia Maria Célia informou à
polícia. Entre os relatos que fez na DP, Maria Célia expressou ter medo que “alguém a [Nina]
obrigue a fazer algo errado, pois sua filha tem debilidade mental e não sabe o que faz”. Até
mesmo em suas preocupações em relação ao desaparecimento de sua filha, portanto,
sublinhava a incapacidade de Nina para tomar decisões e conduzir a si mesma e a sua vida,
fundamentando essa incapacidade em uma “doença mental”.
No caso de Nina, mais que investimentos na construção de reputações, destacam-se
reiteradas afirmações de que seu desaparecimento decorre de uma condição à qual é atribuído
poder explicativo máximo. Não só o desaparecimento de Nina, que seria uma ruptura de sua
rotina, mas sua rotina de vida mesma é determinada diretamente por sua “deficiência mental”,
que faz dela alguém que necessita, sempre, não só de cuidados, mas de uma pessoa que por
ela se responsabilize integralmente. Nesse sentido, o caso parece prescindir de reputações,
conselhos e compromissos por ter como eixo central a “doença mental” da desaparecida, que
aparece na trama não só como causa primordial daquele desaparecimento, mas também como
dispositivo capaz de lhe conferir importância diferenciada, tornando-o automaticamente
delicado. Afinal, pode ser que “alguém a obrigue a fazer algo errado”. A condição de Nina,
em suma, tanto explica seu desaparecimento, quanto o constrói como uma passagem da
peculiar biografia moral ou da carreira de um doente mental (Goffman, 1999).
Ainda que seja objeto de trabalho policial, e não de ação judicial, o caso de Nina
remete aos processos de interdição civil analisados na etnografia de Zarias (2005). O autor
destaca processos que correlacionam “doença mental” e “incapacidade civil” e reflete sobre as
relações entre família, justiça e medicina que se fazem nos autos, abordando as interdições
como espaços de negociação de significados entre essas instituições. Processos de interdição
têm como finalidade última retirar a condição de cidadão pleno daquele que se quer interditar,
declarando-o desprovido de “condições de responder por seus atos e por sua pessoa segundo a
lei” (Zarias, 2005, p.24) e nomeando-lhe um curador. O curador passa a responder
162

judicialmente pela gestão do interdito e de seus bens ou somente de seus bens. Guardadas as
especificidades dessas figuras jurídicas, a interdição assemelha-se à ausência, condição para
que bens de um desaparecido declarado judicialmente ausente possam ser transmitidos, como
apresentado no capítulo 1.
“A curatela, cargo cuja responsabilidade corresponde à regência da pessoa e dos bens,
ou somente dos bens de pessoa que por si só não se encontra em condições de fazê-lo, em
virtude de problemas de ordem física ou mental” (Zarias, 2005, p.38), ilumina a posição
ocupada por Maria Célia no caso de desaparecimento de Nina. Não ter sido judicialmente
nomeada curadora de sua filha não impede que Maria Célia declare que Nina não tem
condições de reger a si mesma e a seus movimentos, atribua essa incapacidade à sua condição
de “deficiente mental” e, ainda, declare a si mesma como responsável por “medicá-la e levá-la
aos locais necessários”.
Dessa apresentação da desaparecida e de sua relação com sua mãe, assim como dos
autos de muitos processos de interdição civil, resulta a produção e formalização de uma
relação de dependência. Nina depende de cuidados e controles constantes, e seu
desaparecimento aparece nos registros como evidência máxima dessa dependência. Se, como
dito anteriormente, em alguns casos desaparecer é visto como ato irresponsável e leviano, no
caso de Nina esse mesmo verbo designa um acontecimento de que a desaparecida não pode
ser responsabilizada, apresentado como conseqüência de sua condição de “doente mental”.
Nina, afinal, “não sabe o que faz”. Ainda que tenha saído de casa em companhia do rapaz por
quem se diz apaixonada, nem essa saída, nem sua paixão são encaradas como decisões e atos
plenamente conscientes e conseqüentes, frutos que são de uma condição que a destitui de
autonomia. Como indica o especulativo futuro registrado no caso, tão temido por Maria Célia,
se Nina vier a fazer “algo errado” será certamente por ter sido obrigada por outrem.
Não são poucos os casos de desaparecimento depositados nas gavetas do SDP em que
o

desparecido

é

qualificado

como

“doente

mental”,

“desequilibrado

mental”,

“esquizofrênico”, “têm transtorno mental”, “distúrbio mental”, “problema de nervos”,
“perturbação da cabeça”, “toma remédios controlados” e outros termos semelhantes. Os casos
de Francisco, Lúcio e Tiago, narrados no segundo capítulo, são apenas três de muitos. Sua
especificidade reside justamente no emprego de expressões como essas, que se aproximam, de
formas e em graus variados, do campo de saberes psi. Em alguns casos, nomes de doenças e
listas de medicamentos registradas nos documentos parecem derivar diretamente de uma
receita, consulta ou diagnóstico psiquiátrico. Em outros, que afirmo sem hesitar serem muito
163

mais numerosos, os termos empregados para qualificar “doenças” fazem sentido quando
afastados dos diagnósticos psiquiátricos e encarados como parte do que Duarte (1986) chama,
em sua etnografia junto a classes trabalhadoras urbanas, de “perturbações físico-morais”.
Conforme mostra o autor, o nervoso, “que é o modo ou código em que se enuncia
fundamentalmente as „perturbações físico-morais‟ sofridas pelos membros desses grupos
sociais” (Duarte, 1986, p.13), é um dispositivo vital para que as classes trabalhadoras situemse no mundo social articulando sua cultura e as concepções de pessoa, corpo e doença nela
vigentes às noções da cultura dominante, conformada pelo modelo individualista impregnado
nos saberes psi.
Nos casos de desaparecimento em que aparecem, “doença mental”, “perturbação da
cabeça” e outras expressões também desempenham papel importante, já que figuram como
explicações para os desaparecimentos a que se referem. Pessoas com “doença mental” ou
“perturbações de cabeça”, nesse sentido, desaparecem exatamente porque são pessoas com
“doença mental” ou “perturbações de cabeça”. Por vezes, tais expressões qualificativas são
sustentadas por laudos levados às delegacias pelos comunicantes como prova da condição de
“doente” do desaparecido, mas por outras se fundamentam em descrições de comportamentos,
excentricidades, internações e desaparecimentos prévios protagonizados pelo desaparecido. O
fato de alguns “doentes mentais” já terem desaparecido outras vezes é apresentado como
indício de sua doença, o que faz do desaparecimento mais um possível “aspecto da carreira da
pessoa a quem foi atribuído o papel de doente” (Zarias, 2005, 76), assim como a interdição
civil. A diferença entre esses aspectos da carreira do “doente”, contudo, é que o
desaparecimento figura como um controverso problema de polícia, ao passo que a interdição
consiste em questão médico-judicial.
Desaparecidos descritos com expressões como as atribuídas a Nina são também
qualificados, afirmativa ou negativamente, a partir de informações sobre uma suposta
agressividade que parece estar englobada na idéia mais ampla de “doença mental”. Se a
dependência produzida em seus casos demanda cuidado e controle, em larga medida é para
fazer frente a essa agressividade. No ilustrativo caso envolvendo um homem de 52 anos, lê-se
que “ele era doente mental, razão pela qual teria sido aposentado; que esta não é a primeira
vez que desaparece, mas que o mesmo não é agressivo ou violento.”93 Em outro, que associa
não só agressividade, mas também dificuldade de comunicação à “doença mental”,

93

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 330/04 do SDP/DH.

164

A comunicante relata que seu irmão, que possui problemas mentais, foi
internado no HFM [Hospital Ferreira Machado] no último domingo, depois
que se sentiu mal. Na segunda ele teve alta e desde então a família não teve
mais notícias. O desaparecido não aparenta ter problemas mentais, pois
comunica-se bem e não é agressivo, mas não sabe voltar para casa sozinho e
é muito inocente na relação com as pessoas. 94

Alegações de agressividade são associadas, ainda, a rupturas ou dificuldades na
manutenção de vínculos entre o desaparecido qualificado como “doente” e outras pessoas. Em
caso exemplar, “a comunicante esclarece que a desaparecida começava a apresentar distúrbios
mentais, tais como perda de memória e excesso de agressividade com os próprios parentes.” 95
Em outro, comunicado pela esposa do desaparecido, a partir das “declarações” da
comunicante restou registrado
Que é casada com Firmino Lopes, o qual sofre de problemas mentais e está
separado da comunicante há cerca de nove anos; que Firmino mora sozinho
pois o mesmo é muito agressivo e não consegue conviver sob o mesmo teto
com a família; que a comunicante todos os dias levava almoço e janta para
Firmino; que no dia 29 de setembro Firmino desapareceu e até a presente
data ninguém sabe do paradeiro de Firmino. 96

Agressividade, impossibilidade de manter vínculos “com os próprios parentes”, não
responder por si e não saber o que faz são elementos de casos de desaparecimento como o de
Nina que, em conjunto, produzem relações de dependência e apresentam os desaparecidos
como sujeitos necessitados de cuidados e controle. Nesses casos, a delegação das funções de
gestão pela polícia para as “famílias” encontra expressão máxima, como explicita a posição
de curadora voluntária e não judicial ocupada por Maria Célia. Não obstante, nesses casos
encontra expressão também uma nova delegação, que dá prosseguimento à responsabilização
das “famílias” pelos desaparecimentos.
Como dito anteriormente, se comunicantes procuram repartições policiais para
solicitar serviços e investigações de desaparecimentos, num segundo momento policiais
devolvem a eles, como membros de “famílias”, as funções de gestão dos casos, através
sobretudo de conselhos e compromissos. O que casos como o de Nina e, a seguir, o de
Marlene, tornam patente é que esse jogo de responsabilização não necessariamente finda aí.
Comunicantes e pessoas envolvidas nos casos por vezes assumem as funções de cuidado e
controle dos desaparecidos, como fez Maria Célia, mas por outras as delegam a instituições
94

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 503/04 do SDP/DH.
Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 169/08 do SDP/DH
96
Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 026/08 do SDP/DH.
95

165

que não a polícia, como, por exemplo, o Centro Psiquiátrico em que Marlene esteve internada.
Isso é freqüente não só em casos que enredam desparecidos qualificados como “doentes
mentais”, mas também naqueles protagonizados por desaparecidos qualificados como
“menores”. No caso de Gilson Filho, que segue o de Marlene, a instituição que se
responsabiliza pelo cuidado e controle do adolescente é um abrigo, hoje intitulado Centro de
Acolhimento. Vale ressaltar que abrigos como o que acolheu Gilson Filho, como mostram
Schuch e Fonseca (2009), são alvo de densos processos de estigmatização relacionados à
crescente responsabilização familiar na gestão da infância e adolescência.
Em suma, a produção de relações de dependência em todos esses casos, como se pode
notar tanto no desaparecimento de Marlene, quanto no de Gilson Filho, abre novas
possibilidades de delegação e atribuição de responsabilidades pelos desaparecimentos e pelos
desaparecidos, dada sua necessidade de cuidado e controle. Se, a princípio, policiais atuam
depois de “esgotadas todas as possibilidades”, os registros dos casos que restam arquivados
em repartições policiais revelam que muitas outras possibilidades entram em cena antes,
durante ou depois que os desaparecimentos são matéria de trabalho policial.

MARLENE
Dia 4 de maio de 2008, a dona de casa Marta foi à 37ª DP, na Ilha do Governador, comunicar
o desaparecimento de sua sobrinha Marlene. No dia anterior, Marlene estava sendo atendida por uma
ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), quando “achou que a citada
ambulância iria levá-la para algum manicômio e empreendeu fuga correndo pelas ruas, sendo que
desde aquela oportunidade não foi mais vista”. Marta descreveu as roupas que sua sobrinha usava na
ocasião, relatou que Marlene “sofre de esquizofrenia e já ameaçou eliminar sua vida; [e] que Marlene
vestia camiseta mostarda e bermuda preta quando desapareceu (sem calçados).” Por fim, firmou
compromisso de retornar à DP “tão logo obtenha qualquer notícia de Marlene”.
Quatro dias depois, cumprindo o compromisso, Marta voltou à delegacia. Relatou então que
recebeu dois telegramas informando que Marlene estava internada no Centro Psiquiátrico do Rio de
Janeiro, e que “familiares já se dirigiram ao local e verificaram que a informação é verdadeira”. Antes
de deixar a DP, Marta recebeu de volta uma fotografia de Marlene, que havia deixado com o policial
ao solicitar o registro de ocorrência. O caso de Marlene foi enfim encaminhado para o SDP e
arquivado, como Sindicância Solucionada, em julho de 2008.97

97

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 136/08 do SDP/DH.

166

GILSON FILHO
Gilson Filho, 16 anos, foi abrigado no Centro de Acolhimento Dom Hélder Câmara,
instituição da prefeitura que fica na Praça da Bandeira, no final de março de 2007. “A medida de
abrigamento, aplicada pelo Conselho Tutelar”, foi o ponto de chegada de uma história de múltiplos
desaparecimentos vivida por Gilson Filho desde seu nascimento.
Gilson Filho nasceu em janeiro de 1991, da relação entre Gilson e Ione. Ione abandonou a
família quando o menino era ainda recém-nascido. Tempos depois, Gilson casou-se novamente, com
Cristiane, com quem teve uma filha. O casamento não durou muito, já que Gilson faleceu pouco
depois. Cristiane então “obteve a guarda judicial [de Gilson Filho], tendo em vista a mãe do
adolescente ter também desaparecido logo após o nascimento dele”. Cristiane também se casou
novamente, com um homem de nome Márcio, e teve mais um filho. Viviam todos na mesma casa, em
Coelho Neto.
Dia 1º de outubro de 2006, Gilson Filho saiu de casa sem dizer para onde ia ou quando
voltaria. Passados dois dias sem que tivesse notícias dele, Márcio comunicou o desaparecimento do
enteado em uma delegacia, afirmando que era “a primeira vez que Gilson Filho tem esse
comportamento”. Na DP, relatou que o enteado “fora visto pela última vez na Avenida Automóvel
Clube, 1.200, Coelho Neto, perto da favela de Acari”, mas não informou quem o vira e em que
circunstâncias.
Dia 5 de outubro, antes mesmo que qualquer investigação fosse levada a cabo por policiais da
DP, Márcio retornou à repartição em que comunicou o desaparecimento, acompanhado de Cristiane.
Afirmou então que naquele mesmo dia Gilson Filho “apareceu em casa dizendo que se encontrava na
casa de um amigo no bairro da Penha, manifestando a vontade de levar todos os seus pertences, já que
havia resolvido morar naquele bairro”. Da DP, Márcio e Cristiane foram encaminhados “ao Conselho
Tutelar de Madureira para as medidas cabíveis e para a atenção necessária”.
No começo de dezembro, Márcio e Cristiane retornaram à DP e ao CT de Madureira para
comunicar que Gilson Filho “ausentou-se do lar mais uma vez sem dar qualquer explicação para onde
iria”. Márcio e Cristiane sabiam apenas que amigos do adolescente encontraram Gilson Filho nas
redondezas da casa da família,
tendo o desaparecido deixado com um dos colegas uma camisa para ser entregue à
um irmão, que conta atualmente 5 anos de idade (...) e pedindo somente que
avisassem à sua mãe que estava residindo em companhia de uma namorada. Porém
não disse quem era, nem tampouco onde a mesma morava.

No final do mês, o inspetor da DP que estava cuidando do caso procurou a família e
ao telefone Cristiane relatou que, por informações de pessoas conhecidas, o
desaparecido atualmente encontra-se residindo na comunidade de Vila Cruzeiro em
Inhaúma, e que foi visto há pouco tempo com aparência de estar bem cuidado, não
sabendo informar em que casa ou com quem ele está residindo.

167

Depois de registradas essas informações, o caso foi encaminhado para o SDP. Seis meses
depois, o inspetor do Setor que ficou responsável por ele conversou com Cristiane, também pelo
telefone, e foi informado que Gilson Filho “foi localizado e acolhido no Abrigo de Menores da Praça
da Bandeira”, atendendo medida de abrigamento aplicada pelo Conselho Tutelar da Zona Sul. O
inspetor do SDP fez então contato com o abrigo, confirmou a informação e logo em seguida solicitou
o arquivamento do caso de Gilson Filho como Sindicância Solucionada.
A justificativa para essa solicitação parte de um resumo da história familiar do adolescente e
aponta para o fato de que o desaparecimento que deu origem aos documentos que se queria arquivar
faz parte de um conjunto de acontecimentos dramáticos envolvendo Gilson Filho, mas pode ser
destacado e encarado como único evento que caberia à polícia solucionar:
(...) o menor é órfão de pai e foi abandonado pela mãe, sendo adotado legalmente
pela madrasta e seu atual companheiro; entretanto, fugiu várias vezes de casa,
passando a ser assistido pelo Conselho Tutelar, que optou por sua internação
provisória. Considerando que o objetivo dessas investigações é a localização do
referido menor, considerando que o menor está atualmente no Centro de
Acolhimento Dom Hélder Câmara; considerando que é do conhecimento dos
responsáveis o atual paradeiro do menor, solicito o arquivamento da Sindicância,
haja vista que está SOLUCIONADA. 98

O caso de Gilson Filho retrata o adolescente como alguém que escapa, já que os
documentos a ele referentes não registram somente um desaparecimento. Ao contrário, Gilson
Filho vive desaparecendo, e seu caso registra que ele “fugiu várias vezes de casa” e que as
notícias que seus familiares têm dele são informações fugidias que o rapaz deixa com
vizinhos e conhecidos, aos quais pede que avisem à sua mãe por onde anda ou repassem para
seu irmão um presente. A mãe do garoto não sabe ao certo onde ele mora, mas afirma que
Gilson Filho “foi visto” exibindo “aparência de estar bem cuidado”. Gilson Filho é, ele
mesmo, presença sempre fugidia, e embora suas idas e vindas levem seus pais a procurar
polícia e o Conselho Tutelar, ao mesmo tempo engendram certa resignação.
Essas mesmas idas e vindas, depois de comunicadas ao CT, provocaram uma medida
que teve como objetivo fixar Gilson Filho no interior de uma instituição, permitindo que
policiais dessem seu caso por solucionado. Não obstante, o Centro de Acolhimento a que o
adolescente foi conduzido pelo CT o recebeu para “internação provisória”, o que por
definição implica que o constante ir e vir de Gilson Filho passaria pelo abrigo, mas
certamente não cessaria ali. Provavelmente, como indica o próprio caso e também a pesquisa

98

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 011/07 do SDP/DH.

168

de Schuch e Fonseca (2009), a passagem do adolescente pelo abrigo poderia caracterizar-se
pela mesma manutenção de laços frouxos, mas ativos, com seus familiares. 99
O caso de Gilson Filho, assim como o de Nina, exibe relações de dependência
engendradas pelo trabalho policial diante de casos de desaparecimentos. Porém, o caso do
adolescente exibe esse artefato porque o próprio desaparecido tenta negá-lo e refutá-lo a cada
“fuga”, “ausência” ou vaivém entre endereços ignorados por seus pais, vizinhos, irmão e
conhecidos. Fazendo frente às negações e escapadas do garoto, a medida de “internação
provisória” aplicada pelo Conselho Tutelar sublinha, enfim, a posição de dependência
atribuída a Gilson Filho em relação a sua “família” e a instituições como o Centro de
Acolhimento em que foi abrigado.
Os arquivos do SDP guardam muitos casos semelhantes ao de Gilson Filho,
protagonizados por crianças e adolescentes que fogem repetidas vezes de suas casas, mas não
só delas. São também freqüentes casos de fuga de abrigos como o que acolheu Gilson Filho.
Sob o título de desaparecimento, os documentos relativos a casos como esses registram não
uma, mas múltiplas idas e vindas entre casas e instituições percorridas pelos desaparecidos em
curtos espaços de tempo, e remetem às falas do gestor governamental que coordenava a
ReDESAP quando do II Encontro Nacional. Como exposto no primeiro capítulo, o gestor
encara desaparecimento como sinônimo de fuga, e de certo modo casos como o de Gilson
Filho referendam sua abordagem.
Lúcia, 14 anos, também teve seu desaparecimento reportado em uma DP. A mãe da
adolescente esteve na repartição e, nos registros então produzidos, o caso de Lúcia desdobrase em duas fugas. É, nesse sentido, semelhante ao caso de Tiago, narrado no capítulo anterior.
Em um dos Termos de Declarações que compõem o caso de Lúcia, firmado a partir da
presença da mãe da desaparecida na DP, lê-se:
Que é mãe de Lúcia; que a comunicante é separada do pai de Lúcia e, por
esta razão, ela mora com a declarante; que no dia 3 de abril, Lúcia estava
num bar próximo da sua residência juntamente com a irmã Maria; que por
volta das 23h, Maria foi para casa e, posteriormente, retornou ao mesmo bar
para comprar refrigerante e Lúcia já não estava mais lá; que desde aquele dia
Lúcia ficou desaparecida, quando então a declarante perguntou a vários
conhecidos se sabiam algo a respeito dela, pedindo ainda para alguém que
por acaso encontrasse com ela pedisse para ela voltar para casa; que
99

A partir de pesquisa junto a abrigos da cidade de Porto Alegre, as autoras concluíram “que é possível que essas
próprias unidades estabeleçam formas de pertencimento e inserção social que podem funcionar no sentido de
provocar continuidade dos laços entre crianças e adolescentes atendidos, instituições e famílias de origem. (...) A
colocação em uma instituição para o abrigamento de crianças e adolescentes não implica, desta maneira,
necessariamente, ruptura de vínculos com suas famílias de origem.” (Schuch e Fonseca, 2009, p. 135)

169

posteriormente, na sexta-feira, dia 6 de abril, Lúcia voltou para casa e disse
para a declarante que iria morar com o pai dela, Rivaldo, que mora na Penha,
não sabendo a declarante precisar o endereço dele; que a outra filha da
declarante, Maria, manteve contato com Rivaldo, o qual informou que Lúcia
chegou na casa dele na sexta-feira e dormiu lá, mas, no sábado, por volta das
17h, Lúcia saiu com dinheiro dele para pagar uma conta e desapareceu
novamente. 100

Lembrando os recados que Gilson Filho pedia que vizinhos dessem à sua mãe, o caso
de Lúcia foi arquivado como solucionado depois que o policial que dele se encarregou no
SDP telefonou para um número indicado nos registros como “para recado”. Tratava-se do
telefone de vizinha da família, de nome Iracema, que informou ao policial que a garota havia
voltado a residir com sua mãe e irmã, e que “estava tudo bem”.
A exemplo do que ocorreu no caso de Lúcia, muitos relatórios que encerram casos
registram telefonemas atendidos por vizinhos ou conhecidos do desaparecido e/ou do
comunicante. As informações fornecidas por essas pessoas constam nos documentos como tão
relevantes quanto dados obtidos em sistemas de informação como a Rede INFOSEG ou
relatos feitos presencialmente pelo comunicante ou pelo próprio desaparecido, que vão às DPs
reportar que o caso em que estão “Envolvidos” foi solucionado. Se lembrarmos do caso de
Graziele, narrado no primeiro capítulo, encontramos um desaparecimento solucionado por um
dado obtido via sistema informatizado de buscas: a emissão do RG da menina. Se lembrarmos
do caso de Antônio, narrado na Introdução, encontramos um desaparecimento solucionado
pela comunicante, que foi ao SDP notificar que encontrara o desaparecido “descansando da
vida” numa cidade de Minas Gerais. Por fim, se lembrarmos de Cinira, que desapareceu
porque estava “cansada, extremada e aborrecida com a vida”, encontramos um
desaparecimento solucionado porque a própria desaparecida foi à DP “esclarecer que não
aconteceu nenhum crime relacionado” ao seu caso.
Entre os múltiplos procedimentos que podem ensejar o fim de um caso, vale destacar a
possibilidade de que um vizinho da adolescente desaparecida que diga ao policial, pelo
telefone, que “estava tudo bem” seja condição suficiente para que o desaparecimento seja
arquivado como solucionado. Essa possibilidade aponta para o último artefato do trabalho
policial diante dos casos de desaparecimento que quero destacar: a ênfase no controle de
corpos e territórios idealmente exercido pela polícia, com todos os paradoxos e ambigüidades
que ele comporta.

100

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 178/08 do SDP/DH.

170

3.5 Errância, corpos e territórios
Não raro, casos de desaparecimento são arquivados assim que policiais obtêm
informações sobre o desaparecido a partir de relatos de vizinhos, conhecidos e parentes dos
“Envolvidos”. Freqüentemente policiais contactam pessoas cujos números de telefone são
citados nos ROs como “para recado”, parentes que não vivem na mesma casa que o
desaparecido e/ou comunicante e pessoas cujo vínculo com o desaparecido não é objeto de
registro. Se casos como o de Elói e Urbano, narrados no capítulo anterior, indicam que
rumores e informações reportadas por comunicantes sobre possíveis desfechos de casos não
são confirmadas, nem contestadas por policiais, casos como o de Gilson Filho, “visto há
pouco tempo com a aparência de estar bem cuidado”, e o de Lúcia, acima citado, seguem na
direção oposta. Como eles, muitos desaparecimentos são encerrados e encarados como
solucionados mediante relatos que são endossados como se prescindissem de confirmação,
encarados não como boatos ou dizeres imprecisos, e sim como verdades.
Como me disse algumas vezes o inspetor Fernando, casos arquivados como
solucionados depois de telefonemas causam a equivocada impressão de que o trabalho do
SDP é “um sucesso”. São eles, da perspectiva do policial, que melhor evidenciam que o
serviço de busca de paradeiros é “uma ilusão”, já que se tornam Sindicâncias Solucionadas
sem que diligências além de chamadas telefônicas sejam empreendidas. Sindicâncias
Solucionadas indicam que o trabalho policial de fato promove a localização de desaparecidos,
estejam eles onde estiverem, o que nada mais é que uma fantasia ou, novamente, “uma
ilusão”. Retomando Foucault (2006) no trecho citado no começo desse capítulo,
desaparecimentos assim solucionados corroboram o ideal de que o sistema policial estatizado
“é coextensivo ao corpo social inteiro, e não só pelos limites extremos que atinge, mas
também pela minúcia dos detalhes de que se encarrega” (Foucault, 2006, p.176), mas ao
mesmo tempo denunciam seu caráter ideal.
Como afirma o inspetor Menezes, “a polícia não sobe o morro e, mesmo se subir, não
encontra os corpos”. Se idealmente ela atinge todos e quaisquer corpos e territórios, na prática
seu alcance é limitado. Contudo, ainda que negada na prática, não deixa de ser parte do
trabalho policial a concepção de que seus agentes exercem “um controle que procura
idealmente atingir o grão mais elementar, o fenômeno mais passageiro do corpo social”
(Foucault, 2006, p.176), alcançando integralmente as totalidades territoriais e populacionais
inscritas em suas “circunscrições”. Tal concepção consiste, afinal, em um modelo de atuação
171

ou uma ficção social que, como nos ensina Leach (1996) a respeito de modelos e ideais, pode
perfeitamente integrar uma realidade social que lhe contradiga.
Esse alcance ideal de totalidades populacionais e territoriais, como tornam patente
casos de desaparecimento, faz-se muitas vezes por meio do que denominei delegações.
Policiais atribuem responsabilidades às “famílias” de desaparecidos, por meio sobretudo de
conselhos, compromissos e relações de dependência, repassando a elas tarefas para as quais
são convocados. As delegações mostram com nitidez que a gestão de casos de
desaparecimento, bem como a administração judicial de processos de guarda analisada por
Vianna (2002), descortina “o paradoxo de um Estado que não pode fugir daquilo que também
não consegue realizar” (Vianna, 2002, p.202). Afinal, a despeito de não localizar
desaparecidos através de suas próprias diligências, o trabalho policial em torno de muitos
desaparecimentos redunda no arquivamento de casos solucionados, independentemente de
como se deu sua solução. Nada realizar além de um telefonema, portanto, não coloca em risco
o modelo de atuação vigente, precisamente como modelo, em repartições policias.
O caso do adolescente Sérgio, arquivado como solucionado depois que um policial do
SDP falou por telefone “com a irmã da ex-esposa do pai do desaparecido” coloca em cena os
meandros das delegações por meio das quais, parafraseando Vianna (2002), a polícia não foge
daquilo que não consegue realizar. Conforme restou registrado, Sérgio, de 12 anos, “teria
saído da casa do pai por não se dar bem com a atual madrasta, porém, não há indícios de maus
tratos, tão somente incompatibilidade de relacionamento”.101 O caso foi arquivado sem que
qualquer diligência tenha sido levada a efeito depois do referido telefonema, no qual a
interlocutora do policial informou-lhe que Sérgio estava morando com a mãe. O registro de
que “não há indício de maus tratos” entre as causas do desaparecimento do menino prestou-se
a justificar a inação do policial depois do telefonema, já que “incompatibilidade de
relacionamento” é, para usar os termos que tantas vezes ouvi no SDP, “problema de família”,
e não “problema de polícia”. A distinção entre “maus tratos” e “tão somente
incompatibilidade de relacionamento”, enfim, possibilitou tanto que o policial se eximisse de
responsabilidade diante do caso, quanto o encerrasse como “um sucesso”.
Se relembrarmos o caso de Linda, encontramos estratégia semelhante, empregada não
pelos policiais encarregados daquele desaparecimento, mas por Wellington, companheiro da
desaparecida. Durante uma briga, Wellington teria esfaqueado Linda. Nas palavras dele,
contudo, naquele episódio “houve facadas”, mas não houve crime, dado que Linda “retirou a
101

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 141/08 do SDP/DH.

172

queixa”. Assim como o policial encarregado do desaparecimento de Sérgio traçou uma
fronteira entre “maus tratos” e “incompatibilidade de relacionamento”, Wellington fez o
mesmo entre “facadas” e crimes constituídos por queixas. Ambos, a despeito de
desempenharem papéis distintos diante dos desaparecimentos em que estão enredados,
distinguiram duas searas e eximiram-se de responsabilidades em face de uma delas: diante de
“facadas” que não foram objeto de queixa, Wellington não teria culpa; diante de “somente
incompatibilidade de relacionamentos”, o policial que cuidou do caso de Sérgio não teria
nenhuma incumbência. Tal estratégia indica, tanto quanto a própria separação feita no SDP
entre “problemas de polícia” e “problemas de família”, que o ideal de ubiqüidade e largo
alcance do trabalho policial convive, no cotidiano, com práticas de delimitação de espaços
sociais restritos em que efetivamente se dá sua atuação. Espaços sociais, como afirma
Bourdieu (2010, p.134), são conjuntos de relações de força em que agentes e grupos de
agentes são definidos por suas posições relativas.
A ilusão de que o trabalho policial alcança “tudo o que acontece” e atua
permanentemente, referendada a cada caso arquivado como solucionado, se faz presente
também na própria comunicação dos desaparecimentos. Como mostram o caso de Lia, uma
estrangeira que desapareceu quando passava férias de verão no litoral fluminense, e o
desaparecimento de Nuno, vítima de afogamento em um dia de temporal, acionar a polícia
diante da necessidade de localizar desaparecidos é supor que o trabalho policial dê conta da
integralidade do território sob sua jurisdição, desde as águas de seus rios até festas de
Réveillon que se passem em suas praias, e de todos os corpos que nele transitem. Não
obstante, acionar a polícia não impede que comunicantes reconheçam o caráter ideal desse
alcance, e sigam fazendo buscas pelos desaparecidos por conta própria. Miriam, mãe de
Nuno, fornece bom exemplo disso, já que desde o afogamento de seu filho passa a fazer
visitas regulares ao IML-RJ.

LIA
A jovem paraguaia Lia veio ao Brasil passar férias de verão. Chegou ao Rio de Janeiro
dia 19 de dezembro e hospedou-se em um albergue da juventude. Durante a estadia, conversou
por telefone com sua mãe algumas vezes. Em uma delas, informou que viajaria a “Paraty e/ou
Angra dos Reis, possivelmente para uma das ilhas na região, para uma festa de Réveillon”.
Desde então, não deu mais notícia a nenhum de seus familiares no Paraguai.
A mãe de Lia procurou autoridades paraguaias, o que engendrou a mobilização do o
Consulado Geral do Paraguai no Rio de Janeiro. O Consulado remeteu então um ofício ao
173

Delegado Superintendente do Departamento de Polícia Federal do Rio de Janeiro,
comunicando o desaparecimento de Lia e solicitando o
apoio das Autoridades Policiais locais no sentido de localizar, e, neste caso,
colocar em contato com este Consulado Geral, ou prestar informações
acerca do paradeiro, ou ainda informar a existência de algum registro, que
possa auxiliar nas investigações em nome da nacional paraguaia LIA CRUZ.

Pesquisas foram então feitas no sistema de dados da Polícia Federal (PF). Foram
encontrados apenas registros de duas entradas anteriores de Lia em território brasileiro. Em
seguida, o caso foi encaminhado ao SDP, sob a seguinte justificativa: “Como NADA mais
consta, e desaparecimento de pessoas é caso a ser resolvido, ainda que de estrangeiros, pela
Polícia Civil, sugiro, s.m.j. [salvo melhor juízo], solicitar apoio àquela instituição”.
O caso chegou ao SDP dia 11 de fevereiro de 2008. Através de telefonema para o
Consulado, primeira providência tomada no Setor, a inspetora encarregada registrou que a
jovem foi localizada logo depois que o Consulado comunicou seu desaparecimento à PF. Lia
estava em Paraty para a festa de ano novo, exatamente como disse à sua mãe.
Em março do mesmo ano o caso foi arquivado como Solucionado. 102
NUNO
Dias de temporal costumam ser comemorados por crianças que moram nos bairros de
Coelho Neto e Fazenda Botafogo. Diferente do que acontece em outros dias, “toda vez que
chove forte é normal as crianças tomarem banho no Rio Acari”, que atravessa a região.
16 de janeiro de 2004 foi um desses dias. Choveu tão forte e tantas crianças foram
“pular e mergulhar nas águas do rio” que até Nuno, que “não tinha o costume de ir tomar banho
no Acari, pois ele não sabia nadar”, acompanhou seus amigos e vizinhos na brincadeira. Nuno
é filho de Miriam e contava, naquela data, 15 anos de idade.
Alguns adultos assistiam as crianças brincando no rio e testemunharam quando as
brincadeiras acabaram ganhando ares de tragédia. O volume das águas subiu rapidamente e,
sem que conseguissem controlar seus movimentos, três meninos foram levados pela correnteza.
Um deles era Nuno.
Nuno foi arrastado pelas correntezas do rio diante de Regina, amiga e vizinha de sua
mãe, e de um vizinho deles de nome César. Regina “ficou com a roupa da vítima nas mãos”
enquanto ele sumia nas águas do rio. César tentou acudir o menino, “tendo o mesmo entrado no
rio para procurar a vítima, mas não conseguiu encontrá-la”. Desde então, Nuno não foi mais
visto. Um dos outros meninos que, como Nuno, foram levados pelas correntezas, foi
encontrado morto e teve seu óbito registrado em cartório.

102

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 022/08 do SDP/DH.

174

Miriam, mãe de Nuno, fez “várias buscas pelo corpo de bombeiros sem sucesso”, e foi
algumas vezes ao IML. Dia 22 de janeiro, seis dias depois do acontecido, Miriam foi também a
uma delegacia, onde foi confeccionado RO de desaparecimento. O título específico dado ao
documento foi “Desaparecimento – hipótese de morte por afogamento”. Meses depois, já em
abril de 2004, Miriam foi novamente à mesma DP, “atendendo convite via telefone”. Na
ocasião, afirmou que seu filho continua desaparecido, e disse que “tem ido IML com
freqüência para tentar localizar seu filho, mas que até o momento não conseguiu encontrá-lo”.
Em agosto de 2004, o caso de Nuno foi encaminhado ao SDP. No Setor, foi arquivado
como Suspenso quase quatro anos depois, em junho de 2008. Não há entre os documentos
arquivados qualquer registro de pesquisas e buscas por Nuno, apenas as frases de praxe
utilizadas como justificativa para suspensão de Sindicâncias no SDP:
Desde a instauração do registro de desaparecimento neste SDP, foram feitas
diversas pesquisas nos sistemas disponíveis para a localização do menor
acima em referência. Ocorre que até a presente data não foram encontradas
quaisquer referências ao menor, tão pouco foram localizadas as partes para
novas informações. Face o informado, considerando a necessidade de maior
agilização nas demais Sindicâncias ora em andamento; considerando que
todas as pesquisas foram devidamente atualizadas sem indícios do menor ou
de seus familiares, solicito SUSPENSÃO da Sindicância até que hajam
novos fatos para prosseguimento ou manifestação das partes.103

Embora comunicantes reportem desaparecimentos supondo (e, ao mesmo tempo,
reconhecendo-lhe o caráter ideal) que o trabalho policial alcance “tudo o que acontece”, as
diligências empreendidas por policiais efetivamente dirigem-se não só a espaços sociais
delimitados por estratégias como a destacada do caso de Sérgio, mas também a espaços
territoriais igualmente restritos. É para essa restrição que aponta o inspetor Menezes, ao
afirmar que “a polícia não sobe o morro”. Não obstante, com essa frase Menezes aponta
também para os inúmeros “fatos” que não são reportados à polícia, explicitando que se “a
polícia não sobe o morro”, por outro lado moradores do “morro” não relatam à polícia muitos
dos “fatos” em que se envolvem ao longo de suas vidas.
A remessa de Ofícios descrita no capítulo anterior explicita que policiais procuram
desaparecidos exclusivamente em necrotérios, hospitais, carceragens, penitenciárias e alguns
órgãos e serviços assistenciais - territórios institucionais, portanto. O fato da busca por
desaparecidos direcionar-se a tais territórios institucionais revela não só a limitação do
alcance do trabalho policial, como também sua intermitência. Como os checkpoints104
103

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 432/04 do SDP/DH.
A partir de etnografia em Colombo, cidade do Sri Lanka, Jeganathan busca constituir o checkpoint como
objeto antropológico especialmente revelador de práticas de assujeitamento (subjection) vigentes em territórios
104

175

analisados por Jeganathan (2004) ou como os postos da Polícia Federal que registraram as
entradas de Lia em território brasileiro, hospitais públicos, penitenciárias e o IML freqüentado
pela mãe de Nuno são postos em que fluxos de pessoas e corpos são interrompidos e cada um
deles é identificado e registrado. Desaparecidos são localizados por policiais se e quando são
objeto de identificação e registro em postos institucionais como esses, e somente nesses casos,
muito embora a comunicação dos desaparecimentos em delegacias alimente o ideal de que o
trabalho policial é permanente, ubíquo e atuante sobre as “coisas de todo instante” (Foucault,
2006, p.176).
Alguns casos são especialmente valiosos para refletirmos sobre essa questão, por
serem protagonizados por pessoas cujas trajetórias de vida, e não apenas seus
desaparecimentos, passam ao largo de espaços institucionais como os checados por policiais.
São casos em que os desaparecidos são descritos como errantes e têm seu modo de vida
apresentado em registros como “vive vagando pela cidade”, “vaga pelas ruas”, “fica na rua”,
“está sempre na rua”, “é visto perambulando pelo Centro” e “vive na mendicância”, entre
outros. São casos, enfim, cujos protagonistas não se encontram situados em unidades de
localização como “famílias”, “empregos” e/ou casas, não porque estão desaparecidos, e sim
porque vivem desvinculados, mais ou menos permanentemente. 105 Casos como esses se
estendem por um espectro de desvinculações, tendo como protagonistas desde adolescentes
que escapam de suas casas e de instituições de acolhimento e passam períodos de tempo “nas
ruas”, como Gilson Filho e Lúcia, até adultos que vivem relativamente isolados, como vimos
no caso de Silvio, que “vagava pelas ruas”, “andava pela cidade numa bicicleta velha” e tinha
um “apartamento cheio de entulho” onde não foi localizado.
O caso de Pedro é um dos desaparecimentos arquivados no SDP que se inscreve nesse
espectro de desvinculações e, como tal, é especialmente revelador do caráter ideal do alcance
ilimitado e supostamente permanente do trabalho policial. Em agosto de 2004, Laura, esposa
de Pedro, procurou uma delegacia para relatar que “em agosto de 2002 Pedro começou a
estatais. Em Colombo, checkpoints marcam espaços territoriais encarados como possíveis alvos de bombas,
circunscrevendo-os. A partir dos checkpoints de Colombo, o autor assim define esse objeto antropológico: “At
its most basic and ordinary, a checkpoint is staffed by low-ranking soldiers, men or women, who stop the flow of
traffic, usually vehicular but quite often pedestrian, to ask questions of those who pass by. The questions turn
around matters of identity.” (Jeganathan, 2004, p.69)
105
Vale ressaltar que a desvinculação característica da vida desses desaparecidos, ainda que registrada como
duradoura, necessariamente não é absoluta: primeiro, pelo fato fundamental de que seus desaparecimentos foram
comunicados em delegacias de polícia por alguém que os conhecia; segundo, porque como sugere Araújo (2000)
em trabalho sobre pessoas que moram nas ruas ou vivem delas, é comum, especialmente quanto a crianças e
adolescentes, que contatos com familiares sejam feitos com certa regularidade; e terceiro, mas não menos
importante, porque em muitos municípios brasileiros é possível detectar “um elo de ligação entre as populações
de rua e a cidade oficial, que é simbolicamente expressivo: a prática de recolhimento de materiais do lixo,
notadamente latas de alumínio, que servem de fonte de renda.” (Bursztyn, 2000, p.25)

176

perambular por sua vontade por bairros e ruas da Ilha do Governador, sem que se tenha
notícias sobre seu atual paradeiro”. 106 Enquanto era avistado por Laura, antigos vizinhos e/ou
conhecidos em suas perambulações, Pedro não foi objeto de registros de desaparecimento.
Quando deixou de ser visto por bairros e ruas da Ilha, sua esposa procurou a polícia. A rotina
cuja ruptura constitui o desaparecimento de Pedro, nesse sentido, era uma rotina de
perambulação. Como em outros desaparecimentos protagonizados por pessoas que vagam
pela cidade, é difícil imaginar interseções entre a rotina de perambulação de Pedro, mesmo
antes que ele fosse registrado como desaparecido, e os espaços institucionais comumente
consultados por policiais diante de casos de desaparecimento.
A localização de desaparecidos como Pedro, Gilson Filho, Sílvio e, conforme caso
narrado a seguir, Vicente, parece impossível se contarmos apenas com meios investigativos
como a emissão de Ofícios realizada de praxe no SDP. Afinal, suas perambulações, seu modo
de vida errante e seu constante vagar desafiam a procura voltada apenas a espaços
institucionais como barreiras policiais e checkpoints (Jeganathan, 2004). Não obstante, ainda
que permaneçam desaparecidas, essas pessoas são objeto de outra ordem de localização.
Como deixa nítido o caso de Vicente, andarilhos e pessoas que escapam a unidades de
localização como “famílias” e “empregos”, e dificilmente são registrados nos espaços
institucionais checados por policiais, aparecem nos registros ocupando uma posição peculiar
no espaço social em que são inscritos no curso de seus desaparecimentos.

VICENTE
Nascido em 1934, Vicente é lavrador e mora na Serra das Araras, mais precisamente na
“pista de subida da Rodovia Presidente Dutra, km 221”. Foi casado com Maria por cerca de
dez anos, e com ela criou três filhos: José Luiz, André Luiz e Joel. Estão separados há mais de
vinte anos, mas Maria segue freqüentando a casa de Vicente “a fim de visitá-lo e a seu filho de
criação José Luiz”. José Luiz mora com Vicente e vende frutas em uma barraca na rodovia.
Em meados de fevereiro de 2005, José foi à DP de Piraí e relatou
Que, desde que nasceu foi criado por seu padrasto, VICENTE DOS
SANTOS; que, sempre manteve um bom relacionamento com o mesmo;
que, há cerca de dois meses, seu padrasto vem se comportando de maneira
estranha, sai de casa, fica perambulando pelas ruas, retornando cerca de dois
ou três dias depois; que, o mesmo já apresentou este problema antes, tendo
inclusive sido levado ao médico pelo declarante, no entanto, nada de errado
foi constatado; que, há cerca de dezoito dias, seu padrasto saiu novamente
de casa, porém, desta vez não mais retornou.

106

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 326/04 do SDP/DH.

177

José Luiz relatou ainda que dois primos seus, João e Manoel, foram as últimas pessoas
que avistaram Vicente. João e Manoel trabalham no posto da concessionária responsável pela
manutenção da rodovia onde Vicente mora, e teriam visto seu tio na região de Arrozal. José
Luiz descreveu as roupas que Vicente vestia quando foi visto por João e Manoel e detalhou
algumas de suas características físicas. Por fim, afirmou que “seu padrasto não bebe nem fuma;
que seu padrasto não freqüentava casa de parentes ou amigos; que, o mesmo vinha
apresentando também problemas de memória. E mais não disse nem lhe foi perguntado”.
O inspetor que ouviu os relatos de José Luiz produziu RO de desaparecimento em
nome de Vicente. No documento, registrou como data do desaparecimento um intervalo de
tempo encerrado pelo dia em que José Luiz esteve na DP; já como local do fato, registrou as
mesmas indicações geográficas anotadas como sendo o endereço da casa de Vicente.
Logo após confeccionar o RO, o inspetor emitiu quatro Mandados de Intimação.
Através deles, convidou quatro pessoas para “prestar declarações no procedimento
investigatório” sobre o desaparecimento de Vicente: João e Manoel, sobrinhos do lavrador, sua
ex-mulher Maria, e seu filho André. Dos quatro, apenas Maria e André compareceram à DP. A
partir das falas de Maria, o inspetor registrou
Que há um ano VICENTE passou a apresentar problemas de memória e
constantemente saía de casa, ficava perambulando pelas ruas, retornando
para casa dois ou três dias depois; que, o mesmo já não reconhecia as
pessoas, inclusive a declarante; que, há cerca de trinta dias, VICENTE saiu
de casa e não mais retornou, estando seu paradeiro incerto e não sabido; que,
quando do desaparecimento de VICENTE, também sumiram todos os seus
documentos pessoais, inclusive os documentos do sítio que lhe pertence.

Também a partir das falas de André foram produzidos registros sobre o que vinha
acontecendo com Vicente e poderia justificar seu desaparecimento: “problemas de memória”,
“que esquece das coisas que fala”, “fica desaparecido por cerca de três ou quatro dias”.
Um mês depois, o caso foi encaminhado ao SDP. Há apenas um registro de pesquisas
realizadas no Setor, manuscrito em pequeno papel grampeado na capa da Sindicância. Segundo
o manuscrito, em junho de 2005 foi feita pesquisa no sistema de identificação do DETRAN-RJ,
órgão que atualmente emite documentos de identificação civil no Estado. Os resultados da
pesquisa foram traduzidos por um curto “não consta nada”.
Em janeiro de 2009, quase quatro anos depois da efetuação do RO de desaparecimento,
a Sindicância foi suspensa, sob a justificativa de que “até a presente data nas pesquisas
realizadas não foram encontrados registros em nome do cidadão desaparecido; bem como não
há dados suficientes para novas investigações”, e também “em função do tempo decorrido
desde sua instauração”.107

107

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 189/05 do SDP/DH.

178

Apesar de “nada de errado” ter sido constatado pelo médico a que Vicente foi levado
quando começou a perambular, sua ex-mulher e seus filhos sustentam que suas andanças
consistiam em “uma maneira estranha” de se comportar. Quando uma dessas estranhas
andanças durou, diferente do hábito, não dois ou três, mas dezoito dias, foi reportada à polícia
como caso de desaparecimento. Os documentos do caso registram não apenas o esquisito
hábito de Vicente, mas que “o mesmo vinha apresentando também problemas de memória” e,
ainda, que com ele “sumiram todos os seus documentos pessoais, inclusive os documentos do
sítio que lhe pertence”. Retratam o desaparecido, portanto, como alguém que vinha passando
por problemas e vagando, desprovido de documentos de identificação, por não se sabe onde.
Até os papéis oficiais que comprovam que o sítio “que lhe pertence” de fato é propriedade sua
desapareceram, reforçando a imagem de Vicente como andarilho desgarrado, despossuído e
de identificação improvável ou impossível. A busca de dados sobre ele no sistema de registros
do DETRAN-RJ, cujo resultado negativo restou manuscrito entre os documentos do caso,
reforçou ainda mais tal imagem.
Nesse retrato feito a partir de algumas “declarações” e um “nada consta”, Vicente é
situado em uma posição específica, constituída por certo conjunto de faltas: perdeu vínculos,
inclusive documentais, com seu sítio, espaço territorial que habitava; perdeu a memória, e por
isso não reconhecia pessoas, nem mesmo sua ex-mulher, e “não freqüentava casa de parentes
ou amigos”, vivendo como que desprovido de relações e laços sociais; por fim, e não menos
importante, “sumiram todos os seus documentos pessoais”, bens fundamentais que, como
afirmado nos capítulos anteriores, poderiam garantir-lhe o usufruto de bens e direitos e, ao
mesmo tempo, permitir sua localização.
Destacar essa posição em que Vicente é situado ilumina e dá sentido aos artefatos da
gestão dos desaparecimentos destacados ao longo deste capítulo – os conselhos,
compromissos, reputações, relações de dependência e o ideal de controle de corpos e
territórios engendrados pelo trabalho policial. Isto porque o lugar de faltas em que Vicente é
posicionado sugere que tais artefatos precipitam-se da rotina burocrática dos casos à medida
que cada procedimento constitutivo dela orienta-se por prescrições de ordem moral ou, para
evocar mais uma vez Foucault, agora em sua obra sobre a história da loucura, certa “coação
moral” (Foucault, 2005a, p.75). Ao apresentar o que denomina período da grande internação,
em que casas de internamento foram criadas como destinos ideais daqueles que perturbavam a
ordem das cidades por viverem na pobreza, na ociosidade e na loucura, Foucault (2005)
179

demonstra que procedimentos administrativos como os previstos nos regulamentos daquelas
instituições dão lugar a claras prescrições e proscrições de ordem moral. 108 Guardadas as
devidas proporções, nos registros, trâmites e “nada constas” constitutivos de casos de
desaparecimento também grassam prescrições de ordem moral – prescrições estas a que
Vicente fugira em suas andanças, na perda de seus documentos e em seu viver desvinculado
de relações. Em outros termos, nos trâmites a que o inspetor Carlos Ernesto denomina “só
procedimentos administrativos” ao falar do dia-a-dia do SDP é possível entrever ditames
morais determinantes da gestão dos casos de desaparecimento.
Na Europa do século XVIII descrita por Foucault (2005), hospitais e centros de
internamento funcionaram como dispositivos garantidores de uma ordem em que eram
proscritas a pobreza e a mendicância. Mediante sua criação, o pobre, o mendigo e “o
desempregado não é mais escorraçado ou punido; toma-se conta dele, às custas da nação mas
também de sua liberdade individual” (Foucault, 2005a, p.65), condenando-lhe à coação física
e moral do internamento e contendo seus movimentos em prol do saneamento e da
manutenção da ordem. A aplicação do internamento para o louco é parte desse processo:
Se o louco aparecia de modo familiar na paisagem humana da Idade Média,
era como que vindo de um outro mundo. Agora, ele vai destacar-se sobre um
fundo formado por um problema de “polícia”, referente à ordem dos
indivíduos na cidade. Outrora ele era acolhido porque vinha de outro lugar;
agora, será excluído porque vem daqui mesmo, e porque seu lugar é entre os
pobres, os miseráveis, os vagabundos. A hospitalidade que o acolhe se
tornará, num novo equívoco, a medida de saneamento que o põe fora do
caminho. De fato, ele continua a vagar, porém não mais no caminho de uma
estranha peregrinação: ele perturba a ordem do espaço social. Despojada dos
direitos da miséria e de sua glória, a loucura, com a pobreza e a ociosidade,
doravante surge, de modo seco, na dialética imanente dos Estados.
(Foucault, 2005a, p.63)

Esse trecho da obra de Foucault é especialmente valioso para a compreensão das
prescrições de ordem moral que perpassam a gestão de casos de desaparecimento, à medida
que explicita que a movimentação de loucos, pobres, vagabundos e miseráveis perturba a
ordem resguardada por sistemas policiais estatizados desde seus primórdios. Mais uma vez
observando as diferenças de escopo e escala, os registros constitutivos de casos de
108

Para citar o autor: “Fenômeno importante, essa invenção de um lugar de coação onde a moral grassa através
de uma disposição administrativa. Pela primeira vez, instauram-se estabelecimentos de moralidade nos quais
ocorre uma surpreendente síntese entre obrigação moral e lei civil. A ordem dos estados não sofre mais com a
desordem dos corações. Por certo, não é a primeira vez na cultura européia que a falta moral, mesmo em sua
forma mais privada, assume aspecto de atentado contra as leis escritas ou não escritas da cidade.” (Foucault,
2005, p.75)

180

desaparecimento apontam um panorama semelhante. O fato do desaparecimento não ser
crime e não possuir definição jurídica não impede que sua gestão prescreva comportamentos e
proscreva formas de viver que perturbem a ordem que o trabalho policial deve resguardar.
Como o caso de Vicente torna nítido, na sutil (des)qualificação de suas andanças e do próprio
hábito da perambulação, e na importância atribuída à posse dos bens fundamentais que são os
documentos e registros oficiais, podemos entrever a prescrição, a um só tempo, de duas
práticas: a identificação e a sedentarização.
A identificação deve ser efetuada por procedimentos como a emissão de RG, como
vimos no caso de Graziele, ou de documentos como os que desapareceram junto com Vicente,
que garantem o registro oficial da identidade e das propriedades do cidadão e de tudo o que
pode ser obtido a partir deles - desde direitos, benefícios e proteção, até controles e vigilância.
Já a sedentarização, como sugere o desaparecimento de Vicente, implica a contenção e
controle da mobilidade e do isolamento, proscrevendo tanto perambulações e andanças no
espaço, quanto desvinculações de círculos sociais e rupturas de laços e relações.
Fundamentais na busca do ideal de plena legibilidade de territórios e populações, processos e
técnicas de identificação e sedentarização são dispositivos centrais na perene constituição dos
Estados modernos, como apontam, cada a um à sua maneira, Souza Lima (1995; 2002), Scott
(1998), Caplan & Torpey (2001) e Das & Poole (2004).
Desaparecimentos de pessoa descortinam a conformação moral e a adesão que tais
processos e técnicas impõem, reveladores que são de “um dos poderes principais do Estado, o
de produzir e impor (...) as categorias de pensamento que utilizamos espontaneamente a todas
as coisas do mundo, e ao próprio Estado.” (Bourdieu, 2010, p.91). Afinal, se por um lado tais
processo e técnicas visam à documentação oficial e à fixação espacial e social de pessoas e
populações, facilitando que sejam propriamente administradas, contabilizadas e controladas,
por outro também fazem da fixação e da documentação formas de vida corretas e apropriadas.
As estranhas perambulações de Vicente, que indicam haver “algo de errado” com o lavrador,
ou as idas e vindas de Gilson Filho, tentativamente interrompidas por seu abrigamento, pelo
avesso revelam que adequadas são existências e modos de vida documentados, fixados e, para
usar o termo que aparece no caso de Humberto, “estáveis”. Vidas errantes como a de Vicente
e de Gilson Filho revelam, enfim, regras que supostamente transgridem, como todo
comportamento construído socialmente como desviante. (Becker, 2008). Remetem, assim, aos
autos judiciais analisados por Vianna (2002), à medida que apontam para o sentido de

181

domesticação de comportamentos e relações embutido em processos que visam a fixar
sujeitos territorial e socialmente.
Reconhecer que identificação e sedentarização são dispositivos constitutivos da
racionalidade estatal e, como tais, requerem e impõem adesão e conformação moral permite
notar que são eles que conferem sentido aos compromissos através dos quais comunicantes
garantem que providenciarão documentos para desaparecidos e, ainda, aos conselhos de
policiais para que, entre outras coisas, separações tornem-se divórcios “no papel”, como
vimos no caso de Antônio. No mesmo sentido, são tais dispositivos que possibilitam que
descrições de vínculos estáveis com círculos sociais e com o mundo do trabalho sirvam à
construção de boas reputações, como vimos no caso de Humberto, e que relatos sobre laços
sociais frouxos prestem-se a construir más reputações, como indica o caso de Linda, que
“estava desgostosa da vida, com vontade de sumir”. Identificação e sedentarização tornam
compreensíveis os artefatos da gestão dos casos de desaparecimento e vários de seus
elementos e enredos: desde o arrependimento de Cinira, que acuada afirmou na delegacia que
“quando sair para passear e demorar um pouco ligará para alguém da sua família”; passando
pela dependência de Nina em relação à mãe, que garante que a mobilidade da filha restrinja-se
a itinerários entre casa, Igreja e padaria; até chegarmos à medida de abrigamento aplicada a
Gilson Filho, que tantas vezes deixou a casa da mãe para viver em endereços incertos.
Ademais, o peso moral da identificação e da sedentarização, que proscrevem vidas
errantes e estabelecem como corretas e adequadas existências fixadas e documentadas, torna
compreensíveis os sentidos pejorativos por vezes atribuídos aos termos desaparecimento e
desaparecer. Afinal, é apenas em contraste com eles que faz sentido que uma comunicante de
relate o caso de seu marido afirmando, como alguém que se defende de uma acusação
silenciosa, que ele “nunca fez algo do tipo, sendo homem de compromisso e seriedade” 109; ou,
como vimos no caso de Arlete, que a mãe da desaparecida relate a “surra” que deu na filha em
seu retorno para casa, e em seguida firme compromisso de providenciar o RG da menina. Em
suma, é somente em razão da prescrição moral da existência identificada e sedentarizada que
faz sentido que casos de desaparecimento decorrentes de decisões dos desaparecidos sejam
freqüentemente tratados como leviandades e irresponsabilidades.
Importa ressaltar, contudo, que casos de desaparecimento explicitam também que a
prescrição da existência fixada e documentada convive, na prática, com claras contestações da
possibilidade de sua real efetivação. Assim como o ideal do alcance de totalidades de corpos e
109

Os documentos relativos a esse caso, já citado anteriormente, compõem a Sindicância 202/05 do SDP/DH.

182

territórios pelo trabalho policial tem lugar no cotidiano de delegacias precisamente como
modelo, a imposição da identificação e da sedentarização também se faz presente entre
policiais e “Envolvidos” em desaparecimentos enquanto uma normativa, um dever ser, enfim,
um norte que, na prática, permanece válido apenas mediante certas operações e estratégias de
flexibilização. Nesse sentido, alguns casos enredam pessoas documentadas cujos dados
registrados oficialmente não têm valor senão nos próprios papéis em que foram redigidos.
Basta lembrarmos o caso de Álvaro, cujo nome está firmado no RG de sua filha Valéria a
despeito dos mais de trinta anos passados desde a última vez que os dois se encontraram. Ao
mesmo tempo, outros casos são protagonizados por pessoas cuja fixidez é supostamente
garantida por dizeres de terceiros, como vimos no desaparecimento de Lúcia, que, segundo
uma vizinha, havia voltado para a casa de sua mãe, onde “estava tudo bem”. Casos como de
Lúcia e Álvaro revelam, de forma tão sutil quanto firme, que o empreendimento estatal de
sedentarizar e identificar os membros de uma população efetiva-se muitas vezes mediante a
oficialização de ficções e a flexibilização de suas próprias determinações. Tais operações não
colocam em xeque a legitimidade daquele empreendimento. Ao contrário, reproduzem um
Estado-como-idéia (Abrams, 1977) representado como entidade capaz de mapear, identificar,
codificar e contabilizar totalidades territoriais e populacionais de modo pleno e padronizado.
Cotejado com os mais de trinta anos que passaram sem saber um do outro, o vínculo
entre Valéria e Álvaro registrado no RG dela e nos bancos de dados acessados por policiais é,
em certo plano, uma ficção. Valéria não conhecia o pai cujo nome pode ser lido em sua
carteira de identidade nem mesmo por fotografia, o que surpreendeu os agentes de polícia
que, atendendo ao pedido dela, entregaram-lhe a 3X4 anexada ao caso. Ao mesmo tempo,
comparada a inescapáveis exigências de documentos e registros oficiais para o desembaraço
de trâmites legais e administrativos, como os atestados de vida analisados por Reis (1998), os
dizeres de uma vizinha que afirma estar “tudo bem” serem suficientes para que se dê por
solucionado o desaparecimento da adolescente Lúcia indica o quão flexível pode ser, em
determinadas situações, a tantas vezes evocada força inflexível e desumanizadora da
burocracia (Herzfeld, 1992).
Se pensões só podem ser recebidas em face de atestados documentais de que as
pensionistas estão vivas (Reis, 1998), seria plausível supor que documentos atestando a volta
de Lúcia fossem exigidos, e que dizeres de vizinhos fossem encarados como rumores,
desprovidos de validade para determinar o encerramento do caso. Tal suposição aparece em
muitos casos arquivados no SDP, entre eles o desaparecimento de Antônio. Comunicante do
183

caso, ao retornar ao SDP para notificar que havia encontrado Antônio “descansando da vida”
em uma cidade mineira, Maria questionou ao inspetor Fernando se não seria necessário
mostrar-lhe documentos do desaparecido para comprovar que ele havia sido localizado. Com
tal pergunta, explicitou a possibilidade de que desaparecimentos sejam dados por
solucionados sem que desaparecidos tenham de fato sido localizados, e deu voz à expectativa
de que documentos comprobatórios fossem exigidos para encerrar Sindicâncias.
Os enredos dos desaparecimentos de Antônio, Lúcia, Álvaro e tantos outros
desaparecidos que povoam as páginas desta tese indicam que a fluidez e a dinâmica da vida
social escapam às técnicas e procedimentos administrativos que miram a identificação e a
sedentarização de membros de uma população, acarretando-lhes o risco da oficialização de
ficções e, por vezes, implicando a flexibilização de ditames administrativos estruturantes do
chamado campo burocrático (Bourdieu, 1996). Ao serem encerradas por dizeres que mais se
aproximam de boatos, ao prescindirem de documentações comprobatórias e ao revelarem a
disjunção entre informações oficializadas e relações vividas, tramas de desaparecimento não
só põem em questão a alegada inflexibilidade do mundo da burocracia, como também
evidenciam que
A visão sociológica não pode ignorar a distância entre a norma oficial, tal
como enunciada no direito administrativo, e a realidade da prática
administrativa, com todas as lacunas em relação à obrigação de desinteresse,
todos os casos de “utilização privada do serviço público” (desvio de bens ou
serviços públicos, corrupção ou tráfico de influência etc.) ou, de modo mais
perverso, todos os “jeitinhos”, tolerâncias administrativas, delongas, tráfico
de cargos, que consistem em tirar proveito da não aplicação, ou da
transgressão, do direito. Mas ela tampouco pode fechar os olhos para os
efeitos da regra que exige que os agentes sacrifiquem seus interesses
privados às obrigações inscritas em sua função (“o funcionário deve dedicarse à sua função”) ou, de modo mais realista, aos efeitos do interesse pelo
desinteresse e por todas as formas de “hipocrisia piedosa” que a lógica
paradoxal do campo burocrático pode estimular. (Bourdieu, 1996, p.123-4)

A flexibilidade de padrões e regulamentos administrativos que os casos de
desaparecimento expõem não se traduz em processos passíveis de enquadramento nos
grandiloqüentes temas do “desvio de bens”, da “corrupção” ou do “tráfico de influência”. Ao
mesmo tempo, tampouco pode ser inscrita entre os “jeitinhos” mais comumente denunciados
e propalados no Brasil, como o rito de autoridade condensado no “sabe com quem está
falando?”, analisado por DaMatta (1997). Para o autor, essa expressão traduz “uma tentativa
de transformação drástica, do universo da universalidade legal para o mundo das relações
concretas, pessoais e biográficas” (DaMatta, 1997, p.219). Trata-se, assim, de uma demanda
184

ritualizada pela flexibilização de normas, que tem como finalidade personalizar
procedimentos administrativos e legais e relegar a universalidade de decretos e regulamentos
a um plano inferior, onde estariam situados indivíduos anônimos. Esse rito de autoridade
constrói, à guisa de reconhecer, uma suposta importância e superioridade daquele que busca
escapar a ditames legais e administrativos universais.
A flexibilidade de ditames administrativos que se pode vislumbrar

nos

desaparecimentos aproxima-se menos da idéia de um cidadão ou servidor público que tira
proveito da não aplicação de regras, e mais do “interesse pelo desinteresse” de que fala
Bourdieu (1996, p. 124). Ao contrário dos efeitos pretendidos por ritos de autoridade, essa
flexibilidade constrói a desimportância e

a inferioridade dos “Envolvidos” em

desaparecimentos e dos próprios casos que os enredam. Prescindir de documentos, encerrar
casos a partir de falas de terceiros e oficializar ficções, nos desaparecimentos, são operações
que apontam não para a adequação de padrões administrativos à suposta superioridade das
pessoas envolvidas, e sim para o oposto disso. Afinal, a possibilidade de que dizeres da
vizinha da mãe de Lúcia sejam suficientes para que o caso da adolescente seja dado por
solucionado, ou a resposta negativa do inspetor Fernando para a indagação de Maria, como
vimos no desaparecimento de Antônio, indicam que pouco importa que a localização de
desaparecidos faça-se a partir de relatos de terceiros ou sem comprovações documentais.
Desde que os casos sejam dados por concluídos e literalmente encerrados em arquivos
policiais, a forma como foram executados os “só procedimentos administrativos” que lhes
conduziram a seu desfecho são irrelevantes ou indiferentes.
Conforme demonstra Lugones (2009), lassidão, precariedade e fragmentação de
atuações vistas como pouco decisivas podem funcionar não como dificuldades, mas como
condições de possibilidade da eficácia de determinadas práticas administrativas.
Características dos tribunais pesquisados pela autora vistas por suas funcionárias como
obstáculos, como o quadro de pessoal insuficiente, a grande carga de trabalho e o caráter
fragmentário de sua atuação, revelam-se na etnografia da autora “como coadjuvantes para
poder administrar e lidar com as situações, geralmente dramáticas, que se processam”
(Lugones, 2009, p.16) naquelas instâncias de administração judicial de vidas de crianças e
adolescentes sem conflito com a lei penal.
De modo semelhante, a flexibilidade, indiferença e irrelevância atribuídas às formas
através das quais desaparecidos são ou não localizados funcionam como condições de
possibilidade para que muitos casos sejam solucionados, e para que o serviço de descoberta de
185

paradeiros feito no SDP seja por vezes encarado como “um sucesso”, como diz Fernando.
Afinal, caso a vizinha da mãe de Lúcia não tivesse dito ao policial que “estava tudo bem” com
a menina, ou caso essa informação não tivesse sido considerada válida pelo agente de polícia,
o desaparecimento da adolescente integraria o amplo conjunto de casos não solucionados que
se acumulam nas gavetas, armários e mesas do Setor.
Nesse sentido, ainda que os arquivos do SDP guardem registros de casos nunca
solucionados, ao mesmo tempo diversos desaparecimentos ali engavetados são ocorrências
solucionadas, indicativas do relativo “sucesso” da descoberta de paradeiros feita pela polícia.
É preciso destacar, não obstante, que a solução de muitas dessas ocorrências fundamenta-se
em rumores e dizeres de terceiros, na oficialização de ficções e em exercícios cotidianos de
produção da irrelevância tanto dos procedimentos que lhes dão desfecho, quanto das pessoas
neles enredadas. Ademais, importa lembrar que o relativo “sucesso” de algumas investigações
inscreve-se no marco mais amplo da também relativa inferioridade atribuída tanto ao SDP no
interior da Polícia Civil, quanto ao próprio desaparecimento no abrangente conjunto de
“fatos” registrados, investigados e arquivados rotineiramente em delegacias. Do ponto de
vista de policiais, como vimos nos capítulos anteriores, lidar com casos de desaparecimento é
“só preencher papel” e acumular registros em arquivos de abertura fácil a quem quer que se
interesse, e não deveriam sequer estar entre suas atribuições profissionais. “Não é serviço
nosso, mas a gente acaba fazendo”, como diz a inspetora Telma.
Enquanto a gestão de ocorrências de desaparecimento implica a produção cotidiana da
irrelevância e é considerada trabalho menor no universo de tarefas a que se dedicam policiais,
a construção do desaparecimento como “problema social” tem por finalidade a produção da
relevância, do reconhecimento e da visibilidade. Gestores de políticas públicas, conselheiros
tutelares e mães de desaparecidos que integram ONGs, entre outros agentes sociais, dedicam
parte de seu tempo a clamar pela inserção do desaparecimento na agenda pública e pelo
reconhecimento de sua gravidade. A seguir (capítulo 4), analiso embates firmados entre
alguns desses agentes em eventos da Rede Nacional para Identificação e Localização de
Crianças e Adolescentes Desaparecidos (ReDESAP), de modo a discutir como o
desaparecimento de pessoas é construído como “problema social” no Brasil, mesmo em face
da irrelevância atribuída a casos particulares registrados em delegacias.

186

Capítulo 4
É o que me cumpre informar:
Um problema social e seus embates

Filho único de Lindalva, Maurício já fugiu algumas vezes da casa em que mora com a
mãe e o avô, em Barra Mansa. Diante de cada fuga, Lindalva sai em busca do garoto sozinha,
com seu pai ou com funcionários de Conselhos Tutelares (CT). Recorrer aos Conselhos de
Barra Mansa e de cidades próximas é prática tão comum para Lindalva quanto o é, para
Maurício, fugir de casa. A relação entre a mãe do adolescente, ele e os Conselhos por que já
passaram, contudo, é mais complexa do que faz supor o fato de Lindalva buscar auxílio diante
das fugas do menino. Documentos sobre Maurício produzidos no Conselho de Resende
destacam “a negligência” de Lindalva como mãe, afirmam que a criação que ela deu ao garoto
teve conseqüências nefastas e registram que ele é “vítima de exploração ao trabalho por sua
genitora”. Se Lindalva busca ajuda em CTs e se funcionários dessas instituições efetivamente
a ajudam a procurar Maurício, ao mesmo tempo a mãe do adolescente é objeto de juízos
negativos, acusações e desconfiança por parte desses mesmos funcionários.
Uma das fugas de Maurício levou Lindalva não apenas ao CT de Barra Mansa, como
também ao de Resende e a uma delegacia de polícia. A fuga ocorreu depois que mãe e filho
foram ao CT por razões que não ficaram registradas em documentos policiais, e deu origem
ao caso de desaparecimento hoje arquivado no SDP. No relatório final produzido sobre o
caso, restou registrado que aquele não era um caso de desaparecimento.
MAURÍCIO
Aos 12 anos de idade, Maurício já contava 4 anos de atendimento pelo Conselho
Tutelar de Barra Mansa. O menino já havia fugido de casa algumas vezes, mas sua mãe
Lindalva, seu avô Nilo e/ou funcionários do próprio Conselho sempre o encontraram. Como
parte dessa história de idas, vindas e busca de auxílio no Conselho, em setembro de 2006 sua
mãe foi à delegacia de polícia e relatou que, na manhã do dia 18,
apresentou seu filho Maurício no Conselho Tutelar desta cidade, e após ele
sair, não retornou mais para casa; que seu filho tem doze anos e já
desapareceu diversas vezes; que sempre encontrou seu filho na rua e o levou
pra casa, porém, até o momento não o encontrou; que já procurou em
diversos locais.

Meses depois, Lindalva retornou à delegacia, levando retrato e uma cópia da certidão
187

de nascimento de seu filho. Informo que no período que transcorreu entre sua primeira ida à DP
e aquele dia, ficou sabendo por intermédio de um vizinho que Maurício “teria sido visto na
cidade de Resende”. Assim que ouviu a notícia, Lindalva foi até Resende e “efetuou buscas
durante um dia inteiro, mas não encontrou seu filho”. Como não poderia continuar naquela
cidade, achou por bem ir ao Conselho Tutelar de Resende e comunicar o fato também àquela
repartição. A despeito dessas providências, Lindalva concluiu as declarações que prestou na
delegacia afirmando “que até o momento seu filho não retornou e não sabe informar onde ele
possa ser encontrado”.
Após registrar as declarações da mãe de Maurício, o inspetor que cuidava do caso
enviou cópias dos documentos para as delegacias de Resende e de Itatiaia e para o SDP. Além
disso, solicitou informações sobre o garoto ao Conselho Tutelar de Resende. A resposta,
assinada por três conselheiros e abaixo transcrita integralmente, afirma que Maurício tinha um
“vício” peculiar, diretamente derivado de sua criação:
Prezado Senhor,
Sirvo no presente para informar-lhe que o adolescente Maurício Rodrigues é
atendido por este Conselho Tutelar, desde 16/02/1998, sendo vítima de
exploração ao trabalho por sua genitora.
Com essa criação o adolescente adquiriu vício de rua.
Já foi abrigado no Programa Casa da Acolhida, mas não aceitou as regras de
convivência e evadiu.
Aproveito o ensejo para destacar a negligência dos responsáveis nesses anos
de vida do garoto Maurício.
Atualmente, Maurício não aceita nem a nossa abordagem, fugindo assim que
enxerga nosso veículo.

Cópias da resposta do CT foram remetidas às três repartições policiais anteriormente
contactadas pelo inspetor da DP de Barra Mansa: as delegacias de Resende e Itatiaia, e o SDP.
No SDP, o conteúdo do documento foi utilizado como justificativa para o arquivamento do
caso, efetuado em julho de 2007, sem que qualquer diligência fosse executada por agentes do
Setor. Segundo o policial do SDP,
De acordo com informação do Conselho Tutelar, o menor registra várias
passagens naquele programa, entretanto, opta pela evasão, permanecendo
nas ruas, fugindo das abordagens daquele Conselho Tutelar. Assim
informado solicito o encerramento das investigações, ressaltando que não se
trata de desaparecimento de menor, estando, portanto, a sindicância
devidamente solucionada.110

A multifacetada relação entre a mãe de Maurício, o adolescente e as repartições que
produziram documentos sobre ambos – a DP, o SDP e os CTs de Barra Mansa e Resende –
condensa elementos centrais não só da gestão do desaparecimento do garoto como ocorrência
policial, mas também da forma como o desaparecimento de pessoas é construído, no plano da
110

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 086/07 do SDP/DH.

188

generalidade política, como uma causa em torno da qual diversos agentes sociais se reúnem,
se comprometem e disputam (Boltanski, 1993). Tanto no caso de Maurício, quanto na
denúncia de um só “problema social” que abarcaria múltiplos casos tão singulares quanto ele,
vemos a mãe que pede ajuda a instituições para controlar ou coibir comportamentos de seu
filho; instituições que, diante dessas solicitações, tanto auxiliam a mãe, quanto dela
desconfiam e acusam de negligência e violação de direitos; e, ainda, a repartição policial que
se exime de responsabilidades diante de uma ocorrência que, do ponto de vista de policiais,
“não se trata de desaparecimento”.
Como objeto de pronunciamentos públicos, esses elementos do caso de Maurício
aparecem também em eventos voltados para debates sobre o desaparecimento de pessoas no
Brasil. Ainda que não sejam delimitados por paredes, arquivos, mesas e balcões de
atendimento como delegacias e sedes de Conselhos Tutelares, eventos públicos dedicados ao
desaparecimento de pessoas são, tanto quanto essas repartições, espaços de encontro entre
agentes sociais. Nesses espaços, porém, não são feitas comunicações individualizadas de
casos já ocorridos, como acontece em delegacias. Antes, neles têm lugar embates entre
agentes que pretendem principalmente prevenir casos que ainda não ocorreram, e que
disputam o poder de definir o desaparecimento de pessoas desde uma perspectiva
generalizante. Tais agentes posicionam-se prospectivamente, e buscam o reconhecimento e a
mobilização engendrados pelo exercício do que Bourdieu (2010) denomina poder simbólico:
poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de
confirmar ou de transformar a visão de mundo e, deste modo, a ação sobre o
mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o
equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao
efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer,
ignorado como arbitrário. (Bourdieu, 2010, p.14)

Em eventos públicos dedicados ao desaparecimento de pessoas, fala-se em
“denúncias” e “vítimas”, empregando-se sem melindre o vocabulário que, em delegacias, ou
não é utilizado diante dos casos, ou o é com hesitação. Não que se fale em “denúncias” e
“vítimas” no intuito de tratar desaparecimento como crime. Antes, emprega-se tal vocabulário
para efetuar a passagem do plano dos casos e sofrimentos particulares para o patamar da
generalidade política (Boltanski, 1993), onde responsabilidades, interesses e demandas
tendem a ser formuladas como “problemas”. (Inda, 2005). Nesses eventos, que podem ser
caracterizados como espaços argumentativos, casos particulares de desaparecimento não
aparecem senão como consubstanciações do fenômeno geral que os transcende: o singular
189

“problema” do desaparecimento de pessoas, passível de prevenção e enfrentamento. Essa
conversão dos casos em manifestações de um “problema” mais amplo não depende da
evocação e narração de um conjunto amplo e variado de desaparecimentos particulares, mas
sim da denúncia de múltiplas ausências, como descrevo mais adiante. Nesse sentido, como
também descrevo adiante, casos particulares são raras vezes evocados em tais eventos, e
apenas por um grupo específico de agentes.
Mais do que isso, casos particulares são de certo modo incongruentes com as
denúncias e posicionamentos assumidos pelos participantes de eventos públicos sobre
desaparecimento de pessoas. Enquanto desaparecimentos registrados em DPs são construídos
como ocorrências menores, que percorrem rotinas burocráticas estendidas por variados
períodos de tempo, o “problema” do desaparecimento é tratado em eventos públicos como
questão grave, de inegável relevância e urgência. Ademais, enquanto casos particulares
registrados em delegacias são objeto de parcos registros imprecisos, procedimentos
padronizados e investigações feitas a partir de hipóteses restritas, o “problema” do
desaparecimento é alvo de debates acalorados, posicionamentos precisos e diagnósticos
amplos, supostamente fundamentados em estatísticas. Tais contrastes não impedem, contudo,
que o desaparecimento de pessoas seja construído como “problema social” que se manifesta
justamente em múltiplos casos particulares como, por exemplo, o de Maurício.
Considerando esses contrastes e colocando-os em relevo, no presente capítulo busco
descrever como se dá esse processo. Se, nos capítulos anteriores, me detive sobre as rotinas e
artefatos por meio dos quais casos plurais são formulados como ocorrências policiais, agora
busco analisar como o desaparecimento de pessoas é construído como singular “problema
social”, a despeito da heterogeneidade e da desimportância daqueles casos plurais. Faço isso
analisando as tomadas de posição de membros da Rede Nacional para Identificação e
Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (ReDESAP) diante uns dos outros,
assumidas e debatidas em eventos públicos promovidos pelo comitê gestor da ReDESAP. 111
O comitê gestor é um seleto grupo de membros da ReDESAP que se reúne periodicamente e,
entre outras atribuições, organiza os eventos a que me refiro.
Tratar o desaparecimento como “problema” é ponto indisputado entre membros da
ReDESAP, que a ela se referem como “a rede” ou “nossa rede”. Os encontros da rede
aproximam-se das reuniões analisadas por Comerford (1999), por sua importância na
111

No Anexo IV estão listados os encontros da ReDESAP de que participei. Analiso a tomada de posição dos
atores neles presentes a partir não só de minhas anotações, feitas ao longo dos encontros, mas também das atas
ou relatórios de alguns deles a que tive acesso. No Anexo indico os encontros cujas atas ou relatórios consultei.

190

construção não só do desaparecimento como “problema” a ser combatido, mas também da
própria rede como espaço de sociabilidade. 112 Os termos usados pelos membros da rede para
designar suas reuniões são, alternadamente, evento, encontro e, também, reunião – este último
mais comumente utilizado em referências aos encontros do comitê gestor, e os primeiros a
encontros abertos a outros membros e não-membros. Seguindo esses usos, opto por utilizar o
termo encontro para designar eventos abertos, e reunião para os encontros reservados aos
membros do comitê gestor da rede.
Como já apontado, a ReDESAP é composta por 47 instituições, e meu primeiro
contato com seus membros se deu no II Encontro Nacional da ReDESAP, realizado no Rio de
Janeiro, em dezembro de 2008.113 De seus 47 componentes, 33 são instituições policiais, 2 são
instituições do judiciário, 4 são órgãos e/ou programas governamentais, 7 são ONGs e 1 é um
projeto desenvolvido em universidade. Das 33 instituições policiais, 5 são delegacias e/ou
serviços especializados em casos de desaparecimento. Destas 5, 1 lida somente com
desaparecimentos de crianças e adolescentes. Quanto às instituições judiciárias, compõem a
rede 1 Defensoria Pública e 1 Vara da Infância, da Juventude e do Idoso. Já quanto aos 4
órgãos governamentais, integram a rede a Secretaria Especial de Direitos Humanos da
Presidência da República, que também a coordena, e 3 secretarias e/ou programas estaduais
de assistência social. Dos programas estaduais, 1 lida especificamente com desaparecimentos
de crianças e adolescentes. Finalmente, quanto às 7 ONGs que compõem a ReDESAP, 3
foram fundadas por mães de pessoas desaparecidas e dedicam-se a reunir e auxiliar familiares
de desaparecidos, 1 é dedicada à promoção dos direitos das mulheres e 3 são voltada para a
promoção dos diretos das crianças e dos adolescentes.
O Quadro 4 sistematiza esses números, destacando a quantidade de instituições que
integram a rede e são especializadas no desaparecimento de pessoas - isto é, dedicam-se
exclusivamente a investigar casos particulares, como algumas delegacias; a atender familiares
de desaparecidos, como programas governamentais de assistência social; e/ou a prevenir o
“problema” de modo mais geral, como algumas ONGs integrantes da rede. O destaque é feito
dentro dos grupos de instituições acima distinguidos: policiais, judiciárias, governamentais e

112

Ao etnografar formas de sociabilidade e ação coletiva em organizações camponesas, Comerford revela que as
“reuniões” características dessas organizações “criam um espaço de sociabilidade que contribui para a
consolidação de redes de relações que atravessam a estrutura formal das organizações, estabelecem alguns dos
parâmetros e mecanismos para as disputas pelo poder nos seios dessas organizações, possuem uma dimensão de
construção ritualizada de símbolos coletivos e colocam em ação múltiplas concepções ou representações
relativas à natureza das organizações de trabalhadores e ao papel de seus dirigentes e membros, bem como sobre
a natureza da própria categoria que essas organizações se propõem a representar.” (Comerford, 1999, p.47)
113
No Anexo III encontra-se a lista das 47 instituições que integram a ReDESAP.

191

não-governamentais, além do projeto desenvolvido em universidade. Importa ressalvar,
contudo, que há trânsitos e fronteiras permeáveis entre esses grupos. A ReDESAP conta, por
exemplo, com ONGs que desenvolvem projetos em convênio ou parceria com órgãos
governamentais, e o projeto desenvolvido por universidade é realizado, em parte, dentro de
uma repartição policial. O Quadro é útil, não obstante, por revelar que poucas instituições que
compõem a rede são voltadas especificamente para o “problema social” em cuja construção
estão engajadas.

Instituições

Total

Especializadas em
desaparecimento
de pessoas
5
0
1
3

33
Policiais
2
Judiciárias
4
Governamentais
7
Nãogovernamentais
1
1
Universidade
Total
47
10
Quadro 4: Alguns números da ReDESAP

Os encontros promovidos pela rede não contam apenas com servidores e funcionários
das instituições que a integram. Com exceção das reuniões do comitê gestor, são abertos ao
público, como indica minha própria participação no II Encontro Nacional, e contam com
policiais, gestores governamentais, familiares de desaparecidos, conselheiros tutelares,
conselheiros dos direitos da criança e do adolescente, pesquisadores e funcionários de
instituições que não estão oficialmente listadas como membros da rede. O SDP, por exemplo,
não integra a ReDESAP. Contudo, encontrei policiais do Setor tanto nos dois encontros
ocorridos no Rio de Janeiro, quanto no III Encontro Nacional da rede, em Boa Vista, além de
ter participado de uma reunião do comitê gestor, à qual me refiro a seguir, que contou também
com a participação do inspetor Fernando.
Em linhas gerais, os encontros são organizados em mesas e painés com temas e títulos
pré-estabelecidos, distribuídos ao longo de um, dois ou três dias. Mesas e painéis reúnem em
média três representantes de instituições que lidam, mais ou menos diretamente, com
desaparecimento de pessoas e fenômenos entendidos como correlatos. Os nomes das
instituições e de seus representantes chamados a falar nas mesas e painéis são escolhidos e
convidados pelo comitê gestor da ReDESAP, que organiza e promove os encontros. Cabe a
192

esses convidados fazer seus pronunciamentos e, usualmente, responder a perguntas feitas pelo
público mais amplo – isto é, pelos freqüentadores dos eventos que não proferem falas
programadas a convite do comitê gestor da rede, mas têm oportunidade de se pronunciar e se
dirigir aos demais participantes após cada mesa. Intervalos, coffee-breaks e almoços
costumam acontecer nos próprios centros de convenção ou salas de reunião de hotéis que dão
lugar aos encontros, constituindo momentos de sociabilidade em que participantes podem se
reunir independentemente da separação, acima referida, entre representantes de instituições
que falam a convite do comitê gestor, e público.
Já reuniões do comitê acontecem, normalmente, em uma sala da Secretaria de Direitos
Humanos da Presidência da República (SEDH/PR), em Brasília, e não são freqüentadas senão
pelos membros do grupo. Excepcionalmente, se o comitê está reunido em outra cidade que
não Brasília em função de algum encontro da rede, seus membros se reúnem em espaços
diferentes. Outros servidores públicos, funcionários de ONGs ou pesquisadores que não
integram o comitê comparecem a essas reuniões apenas mediante convites expressos e
específicos.

4.1 Outras portas que se abrem
Na tarde de 23 de junho de 2009, quase seis meses depois do II Encontro Nacional da
ReDESAP, recebi telefonema de Ciro, o gestor governamental cuja fala recuperei no primeiro
capítulo. Ciro é antropólogo e ocupava naquela época cargo de coordenação na Subsecretaria
de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente (SPDCA) da Secretaria Especial de
Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR), acumulando, entre outras, a
função de coordenar e articular membros e iniciativas da ReDESAP. Ciro esteve à frente do II
Encontro Nacional da rede e durante o evento conversamos bastante sobre a pesquisa que,
naquele momento, eu iniciava. Demonstrando interesse pelo escopo do meu trabalho e por
contribuições que talvez ele pudesse dar à rede, Ciro não só me fez perguntas sobre o trabalho
de campo no SDP, como também teceu comentários sobre a trajetória e algumas conclusões
de sua própria pesquisa de doutoramento, que teve como foco crianças e adolescentes que
fogem de casa.
Quando me telefonou, em junho de 2009, Ciro desejava saber se eu ainda conduzia
pesquisa sobre desaparecimento e, em caso positivo, se poderia integrar a reunião que
ocorreria dali a uma semana, em Brasília, entre os membros do comitê gestor da ReDESAP e
uma equipe da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP). A pauta da reunião
193

girava em torno do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, iniciativa que, como
comentarei no próximo capítulo, é vista pelos membros da rede como prioritária para o
enfrentamento do desaparecimento de pessoas no Brasil. Segundo Ciro, o comitê que
participaria da reunião contava apenas com profissionais que lidam com desaparecimento de
crianças e adolescentes, embora o Cadastro em pauta pretendesse englobar também casos de
adultos e idosos. Aí residia a razão de seu convite: Ciro se lembrava que minha pesquisa não
tinha como foco casos de crianças e adolescentes, e acreditava na possibilidade do trabalho de
campo no SDP auxiliar nos debates sobre a inclusão de casos de adultos no Cadastro. Afirmei
então que seguia na pesquisa e sim, poderia comparecer à reunião. Ele em seguida me
perguntou se eu poderia indicar alguém que trabalhasse com desaparecimento de adultos no
Rio de Janeiro para também comparecer à reunião, ao que respondi sugerindo o nome do
inspetor Fernando.
A viagem que faríamos a Brasília seria financiada pela SENASP, órgão responsável
pela produção técnica e tecnológica do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. Embora
a SEDH estivesse à frente do projeto de criação do Cadastro, como órgão coordenador da
ReDESAP, a responsabilidade pela produção do software que lhe daria base seria da
SENASP. No decorrer do preenchimento de formulários necessários para viabilizar a compra
de nossas passagens, chegamos a um impasse: a ida de Fernando a Brasília ficou acertada sem
maiores problemas, mas a minha não. Por não ser servidora pública e, nas palavras da
assistente de Ciro, “por não ter nenhum vínculo com a administração pública, nem mesmo do
estado do Rio”, minha passagem não poderia ser custeada pela SENASP. Para contornar o
impasse decidi arcar com a viagem, e assim participei, dia 3 de julho de 2009, da primeira de
muitas reuniões do comitê gestor da ReDESAP em que estive presente naquele ano e em
2010. A partir da segunda reunião, não precisei mais custear minhas viagens, dando-me conta
de que uma questão de tempo poderia anular o fato de eu não ser servidora pública: se minhas
idas à Brasília ou a outras cidades para participar de reuniões do comitê gestor da rede fossem
marcadas com antecedência, a própria SEDH poderia financiá-las sem qualquer problema e
sem exigências além da prestação de contas posterior às viagens. 114 Já o inspetor Fernando
não foi mais convidado a participar de outras reuniões do comitê gestor da rede.
O comitê gestor da ReDESAP foi formado ao final do II Encontro Nacional, com o
propósito de se reunir periodicamente, levar adiante as iniciativas e propostas dos membros da
rede e, principalmente, delinear uma plataforma mínima para o Cadastro Nacional de Pessoas
114

No Anexo IV estão relacionadas também as formas de financiamento em que se deu minha participação em
cada evento.

194

Desaparecidas. A reunião para que Ciro me convidou foi o segundo encontro do grupo,
composto então por oito pessoas: Ciro e sua assistente direta, ambos gestores da SEDH;
Cecília, mãe de uma adolescente desaparecida e fundadora de uma associação de familiares
de desaparecidos, a quem fiz referência no capítulo 2; Vera, conselheira tutelar e membro do
Fórum Colegiado Nacional de Conselhos Tutelares (FCNCT); Luciana, Julio e Lauro,
delegados de Polícia Civil que estão à frente de delegacias especializadas em crimes contra
crianças e adolescentes em três diferentes estados brasileiros; e, por fim, Gustavo, gerente de
um serviço de SOS Crianças Desaparecidas. No final de 2009, Ciro e sua assistente deixaram
a SEDH e outro gestor assumiu a coordenação da rede. Os demais integrantes do comitê,
contudo, permaneceram e seguem os mesmos ainda hoje.
O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas pretende ser um banco de dados em
que todo desaparecimento reportado à polícia será registrado, sem distinção entre crianças,
adolescentes, adultos ou idosos. Depois de consolidado, deve permitir a produção de
estatísticas precisas sobre o desaparecimento de pessoas no Brasil, servindo à criação de
políticas públicas eficazes no combate ao “problema”, além de configurar uma base de
consulta, à qual instituições que tenham notícias sobre pessoa possivelmente dadas por
desaparecidas possam verificar essa possibilidade e, em caso positivo, dar solução aos casos.
As instituições que terão acesso ao Cadastro são as 47 integrantes da ReDESAP, além de
todos os órgãos de polícia e justiça que têm acesso à Rede Infoseg, sistema que abrigará o
Cadastro.
Um embrião do Cadastro foi colocado em funcionamento assim que a ReDESAP foi
criada, em 2002. Conhecida como “desaparecidos.mj”, trata-se de uma página de Internet,
mantida no portal do Ministério da Justiça, em que os membros da ReDESAP podem
cadastrar casos ocorridos em seus estados, mediante o uso de senhas autorizadas. 115 A página,
entretanto, nunca foi atualizada sistematicamente. Espera-se que o Cadastro Nacional de
Pessoas Desaparecidas suplante a obsolescência da “desaparecidos.mj”, conquistando maior
adesão dos membros da rede e constituindo uma base de dados acurada sobre casos de
desaparecimento no Brasil.
Na reunião em Brasília, a partir da apresentação de Ciro, fui convidada a contribuir
para a feitura do Cadastro. No capítulo 5, detenho-me sobre minha participação nesse
processo e sobre as expectativas dos membros da rede em relação ao Cadastro. Por ora,
contudo, quero frisar que o inesperado convite para participar daquela reunião abriu-me
115

O endereço para acesso é http://www.desaparecidos.mj.gov.br.

195

caminho para integrar o comitê gestor da ReDESAP e acompanhar de perto interações não só
nesse pequeno grupo, mas também entre os membros da rede como um todo. A partir daquela
reunião, fui convidada a participar não só das reuniões periódicas do comitê, mas também de
todos os encontros promovidos pela ReDESAP. Neles, sempre fui apresentada (e me
apresentei) como pesquisadora, e algumas vezes fui chamada de “nossa pesquisadora” ou “a
pesquisadora da ReDESAP”, sendo situada no lugar de especialista no tema. Não uma
especialista externa, mas “nossa”, ou “da ReDESAP”. Tais expressões condensam certos
“enredamentos, que são partes essenciais da urdidura estatal” (Souza Lima e Castro, p.33),
que discuto no próximo capítulo. Na condição de pesquisadora, entre julho de 2009 e
novembro de 2010, participei de quatro reuniões do comitê gestor, além de outros quatorze
encontros promovidos pela rede, compreendidos entre o II e o III Encontro Nacional da
ReDESAP. Todos estão listados no Anexo IV.
Após cerca de um ano integrando o comitê gestor da rede, fui chamada a desempenhar
papel distinto do que até então vinha fazendo. Em abril de 2010, o gestor que substituíra Ciro
na SEDH, juntamente com o diretor de projetos de uma ONG conveniada com a Secretaria,
convidaram-me a elaborar o material didático a ser utilizado no “Programa de capacitação de
atores estratégicos no âmbito da ReDESAP” - curso sobre desaparecimento de pessoas que
acompanharia um treinamento, a ser conduzido por equipe da SENASP, através do qual os
membros da rede aprenderiam a utilizar o Cadastro Nacional de Pessoas Desparecidas. O
treinamento aconteceria em seis capitais brasileiras, e meu papel seria o de preparar uma
cartilha informativa sobre o desaparecimento de pessoas que orientasse uma reflexão geral
sobre o tema.116 O conteúdo da cartilha seria apresentado no momento introdutório do
treinamento, cujo foco principal recaía sobre o uso técnico do Cadastro.
A equipe da SENASP que treinaria os membros da rede no uso do Cadastro seria
composta por servidores que coordenam a Rede Infoseg e detêm conhecimento específico em
Tecnologia da Informação. Entretanto, depois de pronta a cartilha, fui informada
sumariamente de que a equipe da SENASP não participaria mais do “Programa de
capacitação”. Com isso, os seis encontros previamente agendados foram integralmente

116

Foi produzida uma cartilha e material didático complementar para “Programa de capacitação”. Esse trabalho
foi executado por equipe proposta por mim e composta pelas também antropólogas Paula Mendes Lacerda e Rita
de Cássia Melo Santos. Coube a nós preparar o material e conduzir os encontros, mediando debates entre os
participantes. Toda a logística e organização dos encontros, bem como a gestão do projeto como um todo, ficou a
cargo da ONG conveniada com a SEDH. As cidades em que os encontros aconteceram foram determinadas pelos
números de casos preenchidos na página “desaparecidos.mj”. Nesse sentido, houve cursos de capacitação nas
seis capitais de estados com maior número de casos registrados no site, a despeito do fato de que não há
preenchimento sistemático do mesmo por parte de membros da rede.

196

dedicados à reflexão sobre o desaparecimento de pessoas a partir da cartilha, sem tratar do
Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. Antes programados para durar dois dias em
cada cidade em que seria aplicado, o “Programa de capacitação” foi reduzido a um dia por
cidade, e tornou-se basicamente um conjunto de encontros locais da rede, em que seus
membros reuniram-se em capitais de suas próprias regiões e posicionaram-se diante uns dos
outros e diante do tema que os congrega: o desaparecimento de pessoas. O público de cada
encontro foi definido, em conjunto, por gestores da SEDH/PR e funcionários da ONG com ela
conveniada, que esteve à frente do “Programa de capacitação”. Embora primordialmente
composto por membros da rede, incluiu também servidores e funcionários de instituições que
não a integram oficialmente.
Embora não tenha cumprido seu propósito inicial, o “Programa de capacitação” teve
efeitos sobre minha pesquisa e participação na ReDESAP. Conduzir os encontros de membros
e não-membros da rede reunidos no Rio de Janeiro, São Paulo, Aracaju, Belém, Brasília e
Goiânia permitiu-nos um contato mais próximo, em recintos menores que os auditórios e
centros de convenção em que os encontros da rede costumam acontecer. O II e o III Encontro
Nacional da ReDESAP, em que estive presente, aconteceram em grandes espaços, durante
três dias cada um, e contaram com mais de uma centena de participantes. Consistiram em
eventos com programação de mesas e palestras pré-definidas, e intervalos curtos abertos a
perguntas e contribuições do público. Já o “Programa de capacitação”, realizado em salões e
salas de reuniões de hotéis das capitais citadas, contaram com a média de 25 participantes por
cidade. Consistiram em um dia de reflexões conjuntas conduzidas pela equipe de que fiz
parte, sem mesas e palestras programadas e, portanto, com mais espaço aberto para debate.
Diferentes tanto dos encontros, quanto do “Programa de capacitação”, as reuniões do comitê
gestor, por sua vez, consistem em encontros entre os oito membros do grupo e,
eventualmente,

algumas

presenças

extraordinárias

de

gestores

de

outros

órgãos

governamentais que não a SEDH/PR.
Somando-se, o “Programa de capacitação”, os eventos maiores e as reuniões do comitê
gestor da ReDESAP colocaram-me em contato com o jogo enunciativo por meio do qual
agentes que lidam com desaparecimento debatem e posicionam-se diante do fenômeno,
levando-me a incorporar o que vi e ouvi em todos eles aos dados que fundamentam esta
tese.117
117

Para preservar as identidades daqueles que freqüentam encontros da rede, optei não só por seguir utilizando
nomes fictícios, como também por não nomear encontros e cidades específicas ao longo da análise que faço,
neste capítulo, de reuniões e encontros da rede. Apenas o II Encontro Nacional é nomeado em algumas

197

4.2 Uma rede e seus enlaces
Tanto as reflexões de policiais, quanto os casos por eles registrados sugerem que, em
delegacias, o desaparecimento é objeto de enunciados que, como as acusações de feitiçaria
analisadas por Favret-Saada (1977), compõem um jogo de forças em que responsabilidades
são distribuídas.118 Afirmando e registrando que desaparecimentos são “problema de família”,
policiais não só sustentam que as competências necessárias para o enfrentamento do
fenômeno encontram-se fora das repartições policiais, como também – e principalmente –
buscam delimitar uma seara ou conjunto de “problemas” sobre o quais não deveriam intervir.
Casos de desaparecimento estariam inscritos nessa seara, sendo muitas vezes delegados
àqueles que lhes deram início ao procurar a polícia: comunicantes e demais “Envolvidos”,
definidos por policiais como “famílias” de desaparecidos.
Mas, conforme evidencia a composição da ReDESAP e o amplo público de seus
encontros, policiais não são os únicos agentes a delimitar searas, questionar atribuições e
delegar responsabilidades pelo

desaparecimento

de pessoas no

Brasil.

Gestores

governamentais, ONGs e associações que reúnem familiares de desaparecidos acrescentam
perspectivas ao posicionamento dos policiais, muitas vezes para se contrapor a ele ou
questioná-lo. Entre essas instituições, há muitas cujas atribuições e missões não giram em
torno do desaparecimento de pessoas, como mostra o Quadro 4. Isso não as impede, porém,
de posicionar-se quanto ao “problema” do desaparecimento e quanto às obrigações por ele
geradas. Nesse sentido, se as reflexões de policiais sugerem que o desaparecimento é objeto
de enunciados em que responsabilidades são distribuídas, encontros entre membros da
ReDESAP seguem na mesma direção. Neles, diversos agentes sociais posicionam-se não só
em relação ao fenômeno que buscam definir e sobre o qual pretendem intervir, o “problema”
do desaparecimento de pessoas, mas também diante uns dos outros e em relação uns aos

passagens, por se tratar de evento já descrito anteriormente e fundamental para minha entrada em campo. (ver
capítulo 1).
118
Inspiradores para se pensar embates enunciativos em torno de responsabilidades e competências, os casos de
acusação de feitiço apresentados por Favret-Saada (1977) evidenciam que a feitiçaria consiste num jogo de
forças no qual diferentes atores se colocam em posições relacionais, atribuindo a seus interlocutores e a terceiros
posições específicas por meio de enunciados. Em cada situação particular em que este jogo de forças se delineia,
ou seja, em cada caso de feitiçaria, emerge uma configuração específica em que alguém é acusado de feiticeiro,
sendo visto como portador de uma capacidade extraordinária que o torna hábil a causar infortúnios em série à
vida alheia. Nessa configuração, o desenfeitiçador (désorceleur) comparece como sujeito dotado de
competências específicas que o facultam a interromper aquela série de infortúnios.

198

outros. Ao se posicionarem, multiplicam as forças enunciativas por meio das quais
responsabilidades e competências em torno do desaparecimento são distribuídas.
Narrado a seguir, o desaparecimento de Olívia, maranhense que deixou sua cidade
natal para viver no Rio de Janeiro, explicita que não apenas policiais, mas um conjunto maior
de agentes sociais envolve-se nos processos de atribuição e distribuição de responsabilidades
pelo desaparecimento de pessoas no Brasil. Antes de seguir a reflexão sobre a ReDESAP,
vale passar pelo caso da jovem, que anuncia a peça chave da construção do desaparecimento
de pessoas como “problema social”: processos cruzados de responsabilização. Olívia partiu
por “livre e espontânea vontade”, conforme registrado por policiais, mas antecipando-se a
eventuais culpabilizações, deixou três cartas em que manifestava seu desejo de ir embora:
uma endereçada a seus pais, outra destinada ao padre da igreja freqüentada por sua mãe, e, por
fim, outra para a delegacia da área em que vivia.

OLÍVIA
Em janeiro de 2007, depois de alguns meses fazendo economias com essa finalidade, a
maranhense Olívia comprou passagem aérea e deixou Imperatriz, sua cidade natal, para vir
morar no Rio de Janeiro. Olívia havia acabado de completar 20 anos de idade e era estudante
universitária. Antes de partir, “deixou carta endereçada aos pais, uma também para o padre da
igreja que a mãe freqüenta e uma endereçada para a delegacia da área e em todas manifestava
sua livre e espontânea vontade de deixar sua casa”. Na carta deixada para seus pais, Olívia
disse estar “indo embora para encontrar os amigos e viver no senhor, mas não dizia para onde
estava seguindo”.
Cinco dias depois da partida de Olívia, seus pais, Carmen e Anísio, compareceram ao
SDP solicitando que ali fosse produzido um RO do desaparecimento de sua filha. O casal havia
sido informado, ainda no Maranhão, que o Setor era especializado em casos de
desaparecimento. O RO por eles solicitado foi então produzido, firmando como endereço da
ocorrência o “trajeto entre o eixo Rio/Maranhão”. Carmen, mãe de Olívia, prestou longas
declarações não só sobre a partida da jovem, anunciada por carta, mas também sobre as razões
e as pessoas que teriam levado sua filha a deixar sua casa.
Segundo Carmen, Olívia “sempre foi boa filha e muito tranqüila, mas no ano de 2005
mudou de comportamento, não queria mais sair com os pais e ficava muito tempo utilizando o
computador”. Desconfiada, Carmen decidiu investigar o computador de Olívia. Descobriu
então que a jovem vinha se comunicando “com membros de uma seita, que não pode precisar o
nome, mas parecia ser Congregação Caminho do Senhor”. Mãe e filha conversaram sobre o
assunto, mas Olívia negou que seus amigos virtuais fizessem parte de uma seita religiosa.
199

No final de 2005, Olívia surpreendeu Carmen anunciando que cinco amigos seus,
vindos do Rio de Janeiro, iriam visitá-la em Imperatriz. A chegada do grupo alegrou Olívia
que, segundo Carmen, estava “até então mergulhada em estado depressivo, sendo tratada com
medicamentos próprios e acompanhamento psicológico”. Contudo, a visita preocupou a mãe da
jovem, que notou que os quatro rapazes e a moça que foram visitar Olívia furtavam-se a
responder suas perguntas, “se calavam quando ela se aproximava” e sugeriam a Olívia
“abandonar tudo (escola, família) para servir a Deus, não tomar banho, não comer, afirmando
que a prova maior que Olívia poderia prestar era deixar tudo para trás.” Olívia teria inclusive
raspado seus antes longos cabelos por sugestão do grupo. Aqueles jovens seriam, para a mãe de
Olívia, os causadores de sua partida de Imperatriz.
Antes de deixar o SDP, Anísio, pai da desaparecida, recebeu uma ligação em seu
celular. Tratava-se na própria Olívia, que teria ficado sabendo que Anísio e Carmen estavam no
Rio de Janeiro. A jovem teria afirmado, no telefonema, que também compareceria à repartição,
mas gostaria de ser ouvida sozinha. Poucas horas depois, sem a presença de Carmen e Anísio,
chegou ao Setor e prestou declarações que assim restaram registradas:
Que declara que está bem física e emocionalmente, não fazendo uso de
qualquer medicamento; que manifesta sua vontade de não seguir de volta
com seus pais para o estado do Maranhão, embora não possa afirmar que vá
permanecer no Rio de Janeiro.

Perguntada sobre o local onde estava hospedada e com quem estaria convivendo no
Rio de Janeiro, Olívia “se negou a responder dizendo apenas que não queria falar sobre nada
disso”. Em seguida, contudo, forneceu um número de telefone fixo em que poderia ser
encontrada na cidade, pedindo “que o número não seja fornecido aos seus pais”.
Dias depois, o caso foi arquivado no SDP como Sindicância Solucionada. 119

Embora grande parte dos participantes mais freqüentes de encontros da ReDESAP se
conheça, principalmente no tocante aos membros oficiais, tanto as maneiras de se pronunciar
acerca do desaparecimento, quanto a concepção do fenômeno sustentada por cada um deles
são bastante divergentes. Entre queixas e responsabilizações cruzadas, três grandes frentes de
debate aglutinam tais divergências: as questões apontadas como causas do desaparecimento,
as maneiras como o “problema” deve ser combatido e, por fim, a relação que se deve
estabelecer entre os agentes envolvidos com a questão. Percepções similares quanto a essas
frentes de debate são compartilhadas por agentes que se apresentam de maneira semelhante
tanto na formulação de suas falas, quanto em suas apresentações de si e dos organismos que
119

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 018/07 do SDP/DH.

200

representam. Nesse sentido, a circulação de enunciados em encontros da rede engendra a
distinção entre posições e desdobra-se na formação de grupos que sustentam perspectivas
específicas sobre o desaparecimento de pessoas e sobre as formas por meio das quais ele deve
ser enfrentado. O jogo de forças estabelecido e atualizado a cada evento da ReDESAP,
portanto, confirma que um dos efeitos de discursos acerca de situações de sofrimento e de
ações destinadas a combatê-las é a constituição de unidades e “pessoas coletivas” (Boltanski,
1993, p.87).
São três os grupos formados entre membros e não-membros da rede que freqüentam
seus encontros: primeiro, o grupo dos funcionários de órgãos governamentais, instituições de
assistência social e Conselhos Tutelares e servidores do judiciário; segundo, o grupo das mães
de desaparecidos; e terceiro, o grupo dos policiais. No interior dos três grupos citados, sem
dúvida há posições dissidentes, algumas das quais são eventualmente explicitadas. Contudo,
considerando-se as três frentes de debate referidas, posições dissidentes não impedem que tais
grupos possam ser identificados como unidades que se delimitam no decorrer dos encontros.
Mais adiante, busco descrever a tessitura do jogo de forças que se estabelece entre esses
grupos e, ao mesmo tempo, os estabelece enquanto grupos. Vale destacar, não obstante, que
destoam desse processo de formação de unidades dois conjuntos de agentes presentes nos
eventos: pesquisadores, como eu, e funcionários de ONGs que não as fundadas por mães de
desaparecidos. Os últimos são invariavelmente convidados a apresentar os projetos que
desenvolvem, a que Ciro e outros gestores costumam intitular “boas práticas” 120. Essa forma
de participação os coloca à parte de embates e da formação de grupos nos encontros. Quanto à
posição de pesquisadores, no próximo capítulo teço considerações acerca de sua
singularidade, a partir da minha própria presença e crescente participação na ReDESAP.
Antes de me deter sobre a diferenciação entre os grupos mencionados, é necessário
destacar o denominador comum que dá base ao jogo de forças estabelecido entre eles.
Membros e não-membros da ReDESAP que freqüentam, se pronunciam e debatem nos
encontros promovidos pelo comitê gestor da rede, afinal, costumam ser os mesmos,
destacando-se aqueles que compõem o comitê. Além de referirem-se uns aos outros e
tratarem-se de forma próxima, esses agentes partilham de alguns pressupostos acerca do
desaparecimento de pessoas. Ainda que se posicionem uns em relação aos outros de forma
120

Participei das reuniões do comitê gestor em que foi definida a programação do III Encontro Nacional da
ReDESAP. Nelas, pude compreender que o jargão “boas práticas” é usado correntemente entre gestores
governamentais para classificar projetos e programas desenvolvidos sobretudo por ONGs, muitas em parceira ou
convênio com órgãos governamentais, vistos como bem sucedidos. Tanto no II, quanto no III Encontro Nacional
da rede houve mesas dedicadas à apresentação de “boas práticas”.

201

distinta, e mesmo que apresentem abordagens divergentes quanto às causas e maneiras de
enfrentar o fenômeno, representantes de variados órgãos governamentais, associações de
familiares de desaparecidos e repartições policiais não apenas concordam, como são muitas
vezes redundantes no tocante a algumas questões.
O desaparecimento comparece reiteradamente nas falas desses agentes como
fenômeno pouco conhecido e que não pode prescindir de encontros como os promovidos pelo
comitê gestor da ReDESAP. De reuniões, cursos de capacitação e encontros nacionais
dependeriam o reconhecimento da gravidade do fenômeno e, ainda, a conscientização de toda
a população quanto à importância de registrar e divulgar casos em todo o Brasil. Nas mais
variadas ocasiões, participantes dos encontros repisam esse ponto e chamam a atenção uns
dos outros para a necessidade de “visibilizar o problema do desaparecimento”, como costuma
dizer Cecília. Para ela e tantos outros membros e não membros da rede que freqüentam seus
eventos, o desaparecimento não dispõe de atenção e espaço na agenda pública que façam jus
à sua relevância. Em uma de suas frases lapidares, Cecília expressa isso afirmando que “o
desaparecimento é uma questão invisível, mas que não pode ser silenciosa”.
Casos célebres são freqüentemente mencionados nos encontros, e têm enfatizados, ao
mesmo tempo, tanto seu caráter representativo (de todo um universo de casos que acontecem
diariamente), quanto sua excepcionalidade (em função da divulgação que tiveram, destoante
em relação à invisibilidade do fenômeno).121 A recorrência de referências a um mesmo
repertório de casos sugere que certos desaparecimentos, aos quais foi conferido amplo espaço
de divulgação em diferentes meios de comunicação, compõem uma fonte comum que
alimenta imaginações e sustenta enunciados acerca do fenômeno (Boltanski, 1993, p.103),
ainda que tais enunciados sigam em direções divergentes. Os casos costumam ser evocados a
partir dos nomes dos desaparecidos que os protagonizaram, e não são objeto de narrativas ou
descrições, já que seus enredos e detalhes são supostamente conhecidos por todos.

121

Os casos mais freqüentemente citados como objeto de ampla divulgação e repercussão são “o caso
Madeleine”, “o caso Carlinhos” e “o caso Pedrinho”, além do “caso Guilherme”. Referi-me aos dois primeiros,
respectivamente, nos capítulos 1 e 2. “O caso Pedrinho”, ainda não mencionado, é como costuma ser designada a
história do garoto que, ainda recém-nascido, foi levado da maternidade em 21 de janeiro de 1986, em Brasília,
Distrito Federal, por uma mulher que o registrou como seu filho e o criou em Goiânia. Em 2003, a mulher que
criou o garoto foi julgada e condenada pelo crime de seqüestro de Pedrinho. Já o “caso Guilherme” é o
desaparecimento do menino Guilherme Caramês, ocorrido dia 17 de junho de 1991. Guilherme andava de
bicicleta em frente à casa em que vivia com os pais e desapareceu, aos 8 anos de idade, em Curitiba, Paraná.
Nenhum indício do que possa ter acontecido ao menino (e à sua bicicleta) foi encontrado. A mãe de Guilherme é
conhecida na ReDESAP como pioneira na luta pela visibilização do “problema” do desaparecimento. Ao longo
da tese, opto por me referir aos casos que encontrei nos arquivos do SDP como “o caso de Álvaro”, e não “caso
Álvaro”, para marcar diferença entre eles e os desaparecimentos que compõem o repertório comum evocado
com freqüência em encontros da rede e conhecidos para além deles.

202

Outro ponto comum que reúne os participantes dos encontros é o uso indiferenciado
das combinações de palavras “famílias de desaparecidos” e “mães de desaparecidos”.
Chamando atenção para a dor dessas “famílias” e para a angústia da espera por elas
vivenciada, agentes especificam esses sentimentos como experiências de mães, e tratam o
desaparecimento como causa de sofrimentos e dores infindáveis enfrentadas por mães. No
mesmo sentido, apresentam-no como “problema” que se estende no tempo e tem como
desdobramento a falta de desfecho, a falta de notícias e a falta de informações sobre o
paradeiro de um filho ou filha. Tais idéias são comumente sintetizadas com expressões como
“o luto das mães de desaparecidos”, “um tipo de luto” e “morte inconclusa”.122
Assim como os casos célebres que compõem o imaginário coletivo acerca do
desaparecimento prescindem de descrições e narrativas, o destaque conferido às mães de
desaparecidos também não é objeto de explicitações ou questionamentos em eventos da
ReDESAP. Mães apresentam-se e são apresentadas como porta-vozes naturais das “famílias
de desaparecidos”, que não só as representam, mas também as personificam. Nesse sentido,
mães de desaparecidos incorporam de modo exemplar o processo de constituição do
“representante” descrito por Bourdieu (1984). Para o autor, constituir um representante
implica apagar as fronteiras entre o grupo representado e aquele que o representa, o que
aparece claramente no uso indiferenciado dos coletivos “mães de desaparecidos” e “famílias
de desaparecidos”, recorrente em eventos da ReDESAP.
Ademais, no caso das mães de desaparecidos, sua constituição como representantes e
personificações de “famílias de desaparecidos” desdobra-se também no relativo apagamento
de outros membros de casas, grupos familiares e parentelas, ausentes nos eventos da rede
tanto fisicamente, quanto como objeto de evocações e pronunciamentos. Raras vezes são
feitas menções a pais e irmãos de desaparecidos, e freqüentemente mães enfatizam que seus
filhos ou filhas desaparecidos não tinham namorados. Em minha primeira interação com
membros da rede, no II Encontro Nacional, tomei contato com a eficácia desse apagamento ao
indagar a uma das mães presentes, fundadora de associação que integra a rede: “E o pai de seu
filho, também participa desses eventos?”. Antes mesmo que ela tivesse chance de me
responder, um policial nos interrompeu e me interrogou, de modo taxativo: “Alguém tem que
trabalhar enquanto isso, você não acha?”. Depois dessa afirmação, que parecia tanto retirar “o
pai de desaparecido” de cena, quanto justificar sua ausência em eventos como os promovidos
pela ReDESAP, nem a mãe, nem o policial, nem eu demos prosseguimento à conversa.
122

Expressões semelhantes aparecem no trabalho de Catela (2001) sobre as famílias de desaparecidos políticos
argentinos, e são o mote do trabalho de Oliveira (2008).

203

Além da dita invisibilidade do fenômeno, da mesma coleção de casos célebres
evocados com freqüência, e do protagonismo naturalizado das mães de desaparecidos, dois
outros pontos, por fim, são objeto de consenso e repetição entre participantes de eventos da
ReDESAP. Recorrendo às duplas de termos Estado/poder público, polícia/delegacias, e
famílias/mães, os agentes que freqüentam os eventos enfatizam que o desaparecimento só
pode ser enfrentado adequadamente se as forças dessas entidades forem reunidas. Embora a
elas sejam atribuídas responsabilidades e competências divergentes, há convergência na visão
geral de que é entre elas que se divide o encargo do enfrentamento do desaparecimento de
pessoas.
Por fim, há ainda convergência quanto ao que seria o maior obstáculo ao combate do
desaparecimento de pessoas: a falta de leis e instrumentos jurídicos que tratem
especificamente do fenômeno. A falta de normativas legais que definam o que é
desaparecimento e determinem como ele deve ser gerido é evocada como algo que precisa ser
transformado o quanto antes. Ecoando a posição de policiais como Carlos Ernesto, para quem
o desaparecimento é objeto “só” de procedimentos administrativos, membros e não-membros
da rede reunidos em seus encontros sustentam que falta respaldo legal para que se
compreenda o que é o fenômeno e para que se estabeleça formas de saná-lo. Em suma,
membros e não-membros da ReDESAP sustentam que a inexistência de leis que regulem a
gestão e o combate do desaparecimento no Brasil é uma ausência primordial a ser enfrentada.
A falta de amparo legal para a própria ReDESAP é algumas vezes apresentada como
exemplar dessa ausência primordial. A rede foi fundada em 2002, mas legalmente instituída
em 2011, pela Portaria n. 1.520, de 5 de agosto deste ano. A Portaria é, portanto, posterior aos
três encontros nacionais já promovidos pela rede, às dezenas de eventos locais ocorridos até
então e a outros tantas reuniões de seu comitê gestor. Esse fato não indica, para os
participantes dos eventos, que iniciativas e avanços podem prescindir de instrumentos legais.
Ao contrário, para eles encontra-se aí evidência da necessidade de se agilizar processos de
formulação e instituição de aparatos jurídicos que auxiliem o combate do “problema” do
desaparecimento de pessoas.
“Nossas crianças estão desaparecidas e quem está perdido somos nós. Não temos
diretrizes e não estamos efetivando nem a legislação que já temos”. Com essas palavras, um
desembargador presente no II Encontro Nacional da rede explicitou o que é dito
reiteradamente sobre a falta de aparatos legais específicos, agregando a ela o fato de que a
legislação existente não é plenamente cumprida. A “legislação que já temos” a que ele se
204

referiu consiste, por um lado, na lei que determina que a busca por crianças e adolescentes
desaparecidos deve ser iniciada imediatamente após sua comunicação, e do que o Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA) prevê em seu Artigo 27:
São linhas de ação da política de atendimento [dos direitos da criança e do
adolescente]:
I – políticas sociais básicas;
II – políticas e programas de assistência social, em caráter supletivo, para
aqueles que deles necessitem;
III – serviços especiais de prevenção e atendimento médico e psicossocial às
vítimas de negligência, maus-tratos, exploração, abuso crueldade, opressão;
IV – serviço de identificação e localização de pais, responsável, criança ou
adolescente desaparecido; (...) (BRASIL, 1990)

A ausência de serviços especializados em “identificação e localização” de
desaparecidos é freqüentemente evocada por meio de formulações como a do desembargador
citado – isto é, como evidência de que a parca legislação que trata diretamente do
desaparecimento não é cumprida. Se, por um lado, é consenso em encontros da rede a urgente
necessidade de se combater a falta de legislação específica sobre desaparecimento, por outro
também o é a necessidade de efetivar o que já está previsto em lei, ainda que tal lei abarque
apenas casos envolvendo crianças e adolescentes.
As referências ao desaparecimento feitas pelos participantes dos encontros da
ReDESAP, tanto em momentos mais formais das reuniões, quanto em intervalos, almoços e
entreatos menos modulados, carregam consigo certo ar de certeza. Os termos
desaparecimento e desaparecidos são empregados como categorias auto-evidentes, que
prescindem de maiores explicações. Nas mais variadas situações de interação, policiais,
gestores e membros de ONGs e associações de familiares de desaparecidos apresentam-se e
dialogam como se operassem a partir da mesma concepção do que é o desaparecimento de
pessoas, tanto que se eximem de explicitar o conteúdo dessa concepção. Minha indagação
sobre o que é o desaparecimento, respondida por Cecília e comentada no começo do segundo
capítulo, foi uma das poucas ocasiões que presenciei a explicitação de uma possível definição
do fenômeno. Não obstante, a cada reunião e evento da rede descortina-se a olhos vistos a
circulação de diferentes abordagens e definições de desaparecimento.

205

4.3 Uma rede e seus nós
Como mencionado acima, as divergências estabelecidas entre membros da rede
inscrevem-se em três frentes principais: causas apontadas como raízes do desaparecimento,
maneiras como o “problema” deve ser combatido e, por fim, concepções sobre as relações
estabelecidas entre os agentes envolvidos com a questão. Tais divergências revelam a
distinção entre os três grupos de agentes, ou as três pessoas coletivas (Boltanski, 1993) que
sustentam abordagens específicas e divergentes do desaparecimento de pessoas: os já
mencionados grupos dos gestores, das mães de desaparecidos e dos policiais.
A seguir, apresento as posições de cada grupo separadamente, começando pelos
gestores, passando pelas mães e, finalmente, chegando aos policiais que freqüentam encontros
da ReDESAP. Ao longo da descrição de cada grupo, narro, no mesmo formato que utilizei até
aqui, alguns desaparecimentos cujos enredos iluminam, respectivamente, elementos das falas
de gestores, mães e policiais presentes nos eventos. Contudo, opto por não destacar
explicitamente tais elementos, nem produzir narrativamente conexões diretas entre os casos
narrados e as posições dos membros da ReDESAP que descrevo.
Com o intuito de, mais uma vez, espelhar formalmente no texto algo com que me
deparei no decurso da pesquisa, faço isso porque casos particulares não são parte constitutiva
dos enunciados de membros da ReDESAP que se encontram e se pronunciam nos eventos, a
não ser no tocante às mães de desaparecidos, que, invariavelmente, narram os
desaparecimentos de seus próprios filhos. Ainda que gestores e policiais eventualmente façam
referência ao mesmo conjunto de desaparecimentos célebres, raramente constroem suas falas
a partir deles ou de quaisquer outros casos particulares. Suas posições são construídas e
afirmadas em enunciados gerais sobre o “problema” do desaparecimento, e não a partir de
casos específicos. Sendo assim, se os poucos casos narrados nas três próximas partes do
capítulo aparecem relativamente soltos do texto, isso pretende refletir, por um lado, a
presença incidental de casos particulares nos encontros da rede e, por outro, a clara
incongruência entre a desimportância atribuída aos casos em repartições policiais e a reiterada
relevância do “problema” construído em eventos públicos.
Vejamos então as perspectivas de gestores (parte 4.3.1), de mães de desaparecidos
(parte 4.3.2) e de policiais (parte 4.3.3) acerca do “problema social” que os congrega e, ao
mesmo tempo, os separa. A partir da descrição de tais perspectivas, busco demonstrar que o

206

desaparecimento de pessoas é construído como “problema social” no peculiar embate que
esses agentes estabelecem entre si.

4.3.1 Há famílias desestruturadas em todas as classes sociais
Representando órgãos e programas nacionais, estaduais e municipais de diferentes
ministérios e secretarias, gestores de políticas públicas das áreas de Direitos Humanos,
Assistência Social, Segurança Pública e Relações Internacionais compartilham não só a
mesma abordagem quanto a causas e formas de combater o desaparecimento, mas também a
mesma forma de se apresentar diante de outros participantes de encontros da rede. Somam-se
a eles, compartilhando a mesma abordagem, servidores de órgãos do judiciário e conselheiros
tutelares e dos direitos da criança e do adolescente que participam de encontros da ReDESAP.
Recorrendo ao mesmo número e estatística, suas falas colocam-se como diagnósticos do
“problema”, avaliações do que deve ser feito para preveni-lo e, por fim, alertas. Consistem,
nos termos de Boltanski (1993), em “enunciados de saberes”, caracterizados por suprimir
singularidades em prol da produção de afirmações categóricas e supostamente verificáveis.
De forma sucinta, os enunciados dos gestores apresentam o “problema” como conseqüência
de conflitos e violência intrafamiliar, afirmam que para prevenir desaparecimentos é preciso
investir na “família” e, finalmente, advertem os demais membros da rede de que é preciso não
culpabilizar “famílias” por casos de desaparecimento.
JOAQUIM
No dia 4 de abril de 2005, a copeira Jandira foi à delegacia próxima de seu trabalho
notificar à polícia que seu filho Joaquim, de 11 anos, havia fugido de casa no dia anterior.
Segundo Jandira, há algum tempo Joaquim vinha se ausentando também da escola. Em suas
declarações, Jandira disse
ainda que já foi ao Conselho Tutelar e narrou o fato, que suspeita que o
mesmo esteja usando drogas, que o mesmo foi visto em vários sinais
pedindo dinheiro, após fazer malabarismo com bolinhas, que deixa uma foto
do menor Joaquim.

As declarações de Jandira deram origem ao RO de “Desaparecimento” em nome de
Joaquim, que depois de encerrado foi encaminhado a outra delegacia, próxima da casa de
Jandira e Joaquim. Como o endereço registrado como “local do fato” correspondia à residência
deles, a delegacia responsável seria a daquela circunscrição. A delegacia que recebeu o caso,
207

porém, não chegou a investigá-lo. Dia 28 de abril, o RO foi encaminhado ao SDP/DH.
Já em agosto de 2005, o inspetor do SDP encarregado do caso remeteu alguns ofícios
para órgãos da polícia, da justiça e de assistência social. Solicitando informações que por
ventura auxiliassem na busca pelo paradeiro de Joaquim, foram contactadas a Fundação para
Infância e Adolescência (FIA) da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do
Estado do Rio de Janeiro, as 1ª e 2ª Varas da Infância e Juventude, a Delegacia de Proteção à
Criança e ao Adolescente (DPCA), o Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas
(Degase), o IML e a Santa Casa de Misericórdia. Todos esses órgãos, contudo, responderam
negativamente ao ofício do SDP.
Em junho de 2008, o caso de Joaquim foi arquivado como Sindicância Suspensa.123

Colocando-se no plano da generalidade política, gestores recorrem reiteradamente ao
mesmo conjunto de dados estatísticos sobre desaparecimentos e raríssimas vezes narram
casos particulares como, por exemplo, o de Joaquim. Segundo números evocados por gestores
em diferentes ocasiões, sempre sem citação de fontes, 40 mil crianças e adolescentes
desaparecem anualmente no Brasil. Desse total, cerca de 75% dos casos consistem em fugas
de menores que sofrem violência e castigos físicos dentro de suas casas e, por isso, preferem
viver nas ruas e/ou em abrigos públicos. Esse entendimento é de tal forma consolidado entre
gestores que muitos utilizam indiferenciadamente os termos desaparecimento e fuga,
tratando-os como equivalentes. Contudo, para os gestores aquela cifra não significa que
“famílias” sejam culpabilizáveis pelos desaparecimentos. Antes, para eles “famílias” são as
maiores vítimas desse fenômeno, que sobre elas incide causando angústia, dor e traumas
diversos.
Para que se compreenda o papel das “famílias”, apresentadas em muitas de suas falas
como instâncias produtoras de desaparecimentos (Oliveira, 2007), gestores afirmam ser
necessário refletir sobre a atual “crise da família” e, ainda, sobre “o fim da comunidade e o
crescente individualismo que caracteriza a sociedade”. O movimento percorrido em
enunciados desse tipo visa a substituir a responsabilização de unidades familiares específicas
pela vitimização generalizada destas unidades. Para os gestores, enfrentar o desaparecimento
de pessoas de modo eficaz depende de admitirmos que “famílias” são as unidades mais
afetadas pelo irrestrito processo de desestruturação de relações e vínculos por que a sociedade
contemporânea estaria passando. Nas palavras do desembargador supracitado, em função
desse amplo e abstrato processo de desestruturação de laços, “mesmo que ela represente o
123

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 182/05 do SDP/DH.

208

espaço de maior segurança e proteção, é na família que encontramos os maiores indícios de
violência silenciosa.”
Esforçando-se por deslocar responsabilidades atribuídas diretamente às “famílias”,
gestores sustentam que as raízes do desaparecimento residem no atual “descuido de relações e
crescente individualismo”, que tem acompanhado o “fim da família extensa e das redes
comunitárias” e “o predomínio da família monoparental chefiada por mulheres”, que faria
recair sobre os ombros de mães solteiras o dever do cuidado e da disciplina de seus filhos.
Esse quadro comporia um cenário mais que propício a relações familiares tensas e violentas e,
portanto, responderia como causa fundamental dos desaparecimentos. Nesse cenário, alguns
personagens ganham contornos claros: o pai ausente, a mãe sobrecarregada que chefia a
família e é violenta com sua prole e, por fim, o filho que deseja fugir. O filho que deseja fugir
seria encarnado pelas 40.000 crianças e adolescentes que desaparecem anualmente no Brasil.
Para os gestores, compreender o largo processo de desintegração por que estariam
passando as “famílias” nos dias atuais é imprescindível para que todos aqueles que lidam com
o “problema” do desaparecimento não culpabilizem diretamente “famílias” específicas pelos
casos por que passaram. Caberia a eles, ao contrário, identificar além destas unidades o
perverso agente perpetrador de desaparecimentos e, assim, indignar-se diante dele: o
fenômeno da “violência intrafamiliar”. Essa modalidade de violência tem lugar no referido
cenário de “fim da família extensa e das redes comunitárias”, é protagonizada pelos
personagens acima mencionados, e caracteriza o Brasil propriamente contemporâneo. Nesse
sentido, estaria ausente de certo passado ideal, em que não havia “descuido de relações e
crescente individualismo”.
Assim entendido o desaparecimento, fundamentalmente as formas de prevenção a
serem adotadas devem ser dirigidas às “famílias” e às “comunidades”. Em função disso,
muitos gestores descrevem os limites e possibilidades abertos por serviços públicos de
assistência social, políticas públicas voltadas para crianças e adolescentes “em situação de
risco” e “em situação de rua”, e, principalmente, pelo Plano Nacional de Convivência
Familiar e Comunitária (PNCFC). 124 Citando o Plano, políticas e serviços públicos diversos,
gestores frisam que “é preciso que haja maior integração das políticas sociais para que

124

Instituído em 2006, o plano é apresentado como “um marco nas políticas públicas no Brasil, ao romper com a
cultura da institucionalização de crianças e adolescentes e ao fortalecer o paradigma da proteção integral e da
preservação dos vínculos familiares e comunitários preconizados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A
manutenção dos vínculos familiares e comunitários – fundamentais para a estruturação das crianças e
adolescentes como sujeitos e cidadãos – está diretamente relacionada ao investimento nas políticas públicas de
atenção à família.” (BRASIL, 2006, p.17)

209

famílias sejam assistidas. Antes de culpabilizar a família, é preciso responsabilizar o Estado”,
como diz uma gestora da SEDH/PR. Ademais, gestores defendem que “boas práticas”
desenvolvidas por ONGs devem ser valorizadas e estendidas, e reafirmam a necessidade de se
fornecer atendimento psicológico e programas de reintegração de crianças e adolescentes a
suas “famílias”, como fazem muitas iniciativas do chamado Terceiro Setor. Tornando possível
essa reintegração, abrigos e outras medidas temporárias de acolhimento seriam de fato
temporárias, já que as “famílias” estariam melhor preparadas para receber e proteger seus
filhos, prevenindo novas fugas ou desaparecimentos.
Gestores defendem que é preciso dar atenção às “famílias” sobretudo porque “as mães
perdem seus referenciais, seus empregos e nem podem contar com seus companheiros quando
seus filhos desaparecem”, como afirma Ciro. Chamando atenção para sua força, gestores
freqüentemente referem-se e incensam as mães que fundaram ONGs e associações que
integram a rede como, por exemplo, Cecília. Nessas referências, ecoam trabalhos como os de
Araújo (2007) e Nobre (2005), dizendo que muitas mães só reencontram sentido para viver ao
se reunir, mobilizar e integrar ONGs e associações.
Ainda que o alvo fundamental de ações de prevenção deva ser “a família”, para
gestores que participam dos encontros da rede é preciso, também, “capacitar aqueles que
recebem as denúncias: nossos policiais”. Treinando a polícia e conscientizando seus
funcionários quanto à gravidade do “problema”, seria possível estabelecer as bases para “o
atendimento adequado das famílias” e reverter o fato de que atualmente muitos casos não são
objeto de registros policiais. Além disso, seria necessário que a polícia compartilhasse com
Conselhos Tutelares as ações de busca e localização de desaparecidos, já que a maior parte
dos casos não envolve crimes ou suspeitas de crime. Em convergência com o que afirmam
inspetores do SDP, a ausência de componentes criminais justificaria, também para os
gestores, que outros órgãos assumissem responsabilidades que estariam equivocadamente
sendo atribuídas a repartições policiais. Ainda que seja necessário que toda “família” dirija-se
à delegacia para comunicar o desaparecimento, a polícia não deve monopolizar a gestão dos
casos, cabendo a conselheiros tutelares se fazer mais presentes.
Por fim, gestores afirmam repetida e enfaticamente que para combater as causas do
desaparecimento é preciso dissociá-lo do fenômeno da pobreza. Para eles, castigos físicos e
psicológicos, entre outras formas de “violência familiar”, não ocorrem apenas nas camadas
pobres da sociedade. Por conseguinte, desaparecimentos também não se confinariam em tais
porções da população. Esse entendimento foi condensado em frase marcante proferida na
210

Mesa de abertura do primeiro evento da rede de que participei – o II Encontro Nacional, no
Rio de Janeiro: “há famílias desestruturadas em todas as classes sociais”. Ciro, o gestor que
me abriu portas para seguir participando de encontros da rede, fez essa afirmação em meio a
suas falas sobre fugas do lar, às quais fiz menção primeiro capítulo.
Em suma, a perspectiva dos gestores é a de que, na contemporaneidade, não se pode
contar com “famílias” que protejam crianças e adolescentes. Vítimas de processos que as
transcendem, “famílias” em que há violência, castigos físicos e relações conflituosas, ao não
proteger suas crianças e adolescentes, provocam suas fugas de casa. São tais fugas que
constituem, do ponto de vista dos gestores, casos de desaparecimento. Essa situação é ainda
agravada pela inexistência de serviços de assistência social adequados e repartições policiais
com profissionais preparados para lidar com casos de fuga. Para os gestores, é na ausência
dessa “família que protege” e de profissionais que a auxiliem que cresce, em número e
gravidade, o “problema” do desaparecimento de pessoas no Brasil.

4.3.2 Minha família se desestruturou depois que minha filha desapareceu
RAQUEL
Em meados da década de 1990, Cláudia e Francisco, mineiros de Divinópolis,
migraram para a região serrana do Rio de Janeiro trazendo consigo seus quatro filhos: Raquel,
Rita, Felipe e a caçula Taís. Estabeleceram-se em Penedo, onde Cláudia começou a trabalhar
como empregada doméstica e Francisco seguiu exercendo seu ofício de eletricista. Em 2004, o
casal se separou e Francisco mudou-se para Mauá, levando consigo os três filhos mais velhos.
Apenas Taís permaneceu em Penedo, morando na casa da mãe.
Em 2006, Raquel, filha primogênita do casal, voltou a viver com a mãe em Penedo.
Passados alguns meses da mudança residencial, Cláudia notou uma “mudança de
comportamento” na filha, que “começou a dormir muito durante o dia, coisa que não fazia
antes”. Tentando compreender o que se passava a sua filha, Cláudia descobriu que Raquel
“fugia de casa pela janela enquanto a família dormia e passava noites fora”.

Dia

24

de

janeiro de 2007, dias antes de completar 17 anos, Raquel saiu de casa deixando o seguinte
bilhete para Cláudia:
Mãe, primeira coisa: eu te amo muito, por isso saí de casa. Não quero que a
senhora sofra por minha causa e sei que eu não sou uma boa filha, sei que
nunca a senhora vai gostar de mim como gosta do Felipe e da Taís, mas não
tem problema, eu não mereço mesmo. Mãe, mas eu amo muito a senhora e
meus irmãos, quero que vocês sejam muito felizes, de coração. Queria muito

211

que meus irmãos gostassem de mim, eu sei que eles não gostam porque eu
moro com a senhora e eles não. Mãe, se um dia a senhora estiver triste,
lembre-se de mim. Mãe, não se preocupe comigo logo a senhora vai ter
notícias minhas, não fui muito longe, fui para Resende, não fui pra casa de
parentes, a senhora sabe que eu não gosto de ir para casa de parentes. Estou
num lugar que pode mudar minha vida e de todo mundo. Mãe, por favor,
diga pra minha avó e avô, tio, primos, todos, que amo muito eles e muito
obrigada por tudo que eles fizeram por mim. Mãe, me desculpe pelas
vergonhas que eu fiz a senhora passar na escola e em todos os lugares, talvez
a senhora já tenha esquecido, mas eu não, eu nunca vou esquecer. Mãe, se a
senhora vir meu pai fale pra ele que eu amo ele também. Mãe e Deus
perdoem por tudo e obrigado por tudo, um dia a senhora vai lembrar de mim
como sua filha. Mãe, não deixa a Taís entrar na vida como eu entrei. Só hoje
sei como é ruim, me arrependo muito mesmo, talvez nada disso ia acontecer.
Mãe, um enorme beijo e um abraço pra você e pra todos de sua filha.

Depois de ler o bilhete, Cláudia procurou Raquel pelas ruas do bairro onde moram e
em casas de vizinhos. Telefonou ainda para o pai da garota, mas em nenhuma dessas buscas a
encontrou. Dois dias depois, foi ao CT de Itatiaia, de onde foi encaminhada para uma
delegacia, relatou o ocorrido e entregou o bilhete ao policial que a atendeu. Foi então
produzido um RO de desaparecimento em nome de Raquel, em que ficou registrado
Que sua filha nunca foi rebelde ou a desrespeitou, sendo a mudança notada
pois ela começou a dormir muito durante o dia, coisa que não fazia antes.
Informa também que a menina não tinha namorado e que a declarante não
havia proibido nenhum namoro dela. Que sua filha não possui tatuagens ou
piercings, não tendo também sinais característicos. Que ela é alta, bonita,
tem cabelos ondulados de cor castanho claro e olhos verdes. Que ontem por
volta de 21hs, Raquel ligou para o telefone residencial de sua irmã e disse
não poder dizer onde se encontrava.

Passados cerca de dois meses, a conselheira tutelar que encaminhara Cláudia à
delegacia foi, ela mesma, àquela repartição policial. Afirmou estar ali atendendo a uma
convocação, e relatou que “foram feitas diversas diligências pelo CT visando à localização da
menina, porém estas resultaram infrutíferas”.
Em maio de 2005 o policial encarregado do caso redigiu relatório a respeito do
desaparecimento de Raquel, no qual solicitou seu encaminhamento para o SDP “para
prosseguir nas investigações” e registrou que
Nas investigações realizadas por este sindicante foi apurado que a
adolescente de vez em quando liga para a família, sempre para telefones
convencionais, que não possuem identificadores de chamadas. Nestas
ligações ela diz estar bem e que é para não se preocuparem, porém,
informando ora estar residindo perto, sem citar o local, ora estar no Rio de
Janeiro, nunca dando seu verdadeiro paradeiro.

No SDP, os mesmos telefonemas apresentados pelo policial da DP tanto como indícios
de que a adolescente estaria bem, quanto como dados insuficientes para determinar seu
212

paradeiro, foram encarados não como razões para que as investigações prosseguissem, mas
como motivos para seu arquivamento. No relatório produzido no Setor, foi registrado que
Segundo informação de Amélia, tia da menor, sua sobrinha está morando no
Rio com o namorado, cujo nome não informa; entretanto a mãe da menor já
aceitou a fuga da filha e seu relacionamento, aguardando que com o tempo
esta volte a visitá-la pessoalmente, haja vista que a menor apenas telefona
esporadicamente para dar notícias. Assim informado solicito o encerramento
das investigações, haja vista a Sindicância se encontrar SOLUCIONADA. 125

Embora apenas uma delas componha o comitê gestor da rede, três mães de pessoas
desaparecidas fazem-se ouvir repetidas vezes nos encontros da ReDESAP. Cecília, Maria e
Flávia fundaram as três ONGs dedicadas exclusivamente ao desaparecimento de pessoas que
compõem a rede. As organizações fundadas por elas têm como missão prestar assistência a
familiares de desaparecidos, localizar desaparecidos e/ou atuar na prevenção de novos casos.
As três são conhecidas de muitos membros e não-membros da rede que freqüentam os
encontros, e são por eles citadas reiteradamente não só através de referências a seus nomes
e/ou aos nomes das ONGs que fundaram, mas também por meio de citações dos nomes de
seus filhos desaparecidos.
Em 1996, Cecília e Maria fundaram, juntas, a ONG que hoje é presidida por Cecília.
Em 2005, Maria deixou a ONG e fundou uma segunda organização, na mesma cidade. Já
Flávia é conhecida entre os membros da rede como a pioneira no enfrentamento de
desaparecimento de crianças e adolescentes. Flávia não só fundou uma organização para
assistir famílias e promover medidas de prevenção do desaparecimento de crianças e
adolescentes, em funcionamento desde 1991, como também seguiu carreira política, tendo
sido eleita vereadora e deputada estadual. Embora Cecília, Maria e Flávia tenham lugar de
destaque na ReDESAP, outras mães, criadoras e integrantes de associações e ONGs que não
as fundadas pelas três, também participam e se pronunciam nos encontros.
Com raras exceções, mães de desaparecidos iniciam seus pronunciamentos narrando
os desaparecimentos de seus filhos. Essas narrativas são compostas tanto por alusões às suas
relações com os desaparecidos, quanto por descrições de suas interações com policiais e, em
alguns casos, funcionários de outras repartições públicas a que reportaram os casos. Nessas
narrativas, as mães informam, invariavelmente, os anos, meses e dias que se passaram desde
que seus filhos desapareceram, como chamei atenção, referindo-me especificamente à Cecília,
na abertura do capítulo 2.
125

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 122/07 do SDP/DH.

213

Em suas colocações, diferente dos gestores, as mães não destacam números e
estatísticas, nem apresentam diagnósticos acerca do desaparecimento. Emitindo “enunciados
de opinião”, e não “enunciados de saberes” (Boltanski, 1993), seu relatos são construídos na
primeira pessoa (ora do singular, ora do plural) e apresentam suas trajetórias como mães,
como parte de famílias vitimadas pelo mesmo infortúnio e, a partir daí, como fundadoras de
instituições que buscam suprir a falta de assistência que cada uma delas enfrentou ao
vivenciar o desaparecimento de um filho.126 Fazendo uso do que Boltanski (1993) designa
“estilo emotivo”, as mães inscrevem-se em seus enunciados, tornando-se elas próprias objeto
de suas falas, e afirmam que a razão inicial de seu engajamento na causa do desaparecimento
reside em suas experiências pessoais de sofrimento. Contudo, repetidas vezes sustentam que
seguem mobilizadas não mais em função de suas próprias experiências, e sim em nome de
outras mães de desaparecidos.
Como afirmou Cecília em uma das reuniões do comitê gestor, “Eu não estou aqui
porque sou boazinha, não. Estou aqui porque sei a dor que é ter um filho desaparecido e não
quero que outras mães sintam o que eu senti.” Com falas como essa, as mães transportam suas
experiências de sofrimento para o amplo espaço de debate propiciado pela rede, generalizando
suas emoções, expectativas e posições diante dos desaparecimentos específicos de seus filhos
para tratar do desaparecimento de pessoas no Brasil. Nesse sentido, referem-se a suas
trajetórias tanto como fundamentais para a apresentação de si, quanto como representativas de
uma coletividade: as mães de pessoas desaparecidas. Cecília, ao se apresentar no II Encontro
Nacional da rede, sintetizou seu papel diante da causa pela qual luta e diante das mães de
pessoas desaparecidas dizendo: “Eu descobri que vim lutar não só por mim, mas por todas as
mães, porque me sinto mãe de cada uma delas.”
Cecília refere-se às mães de desaparecidos atendidas pela ONG que fundou e dirige
como “minhas mães” e “minhas mãezinhas”. Reconhecida não só por sua já longeva atuação à
frente da ONG, mas também por “falar bem” e “falar bonito” (cf. Comerford, 1999, p.93) e
proferir palestras sempre comovidas e comoventes, Cecília cumpre papel de porta-voz
autorizada das mães de pessoas de desaparecidas. Colocando-se como representante desse
grupo, portanto, o institui “pela operação de magia que é inerente a todo o ato de nomeação.”
(Bourdieu, 2010, p.159)
As mães protagonizam momentos diferentes das palestras e mesas de debate
características dos encontros da rede, e são tratadas com certa distinção. A homenagem de
126

“Enunciados de opinião” carregam afirmações originais, derivadas de experiências singulares, e emitem
julgamentos indissociáveis do sujeito da enunciação e de sua perspectiva. (Boltanski, 1993, p.87).

214

aniversário prestada a Cecília (capítulo 2) é um exemplo. Outra cena semelhante aconteceu
em um dos intervalos entre as mesas programadas para o II Encontro Nacional da ReDESAP,
quando as três mães acima referidas foram homenageadas, reunidas ainda a outras seis que
participavam do evento. Inesperadamente, uma senhora, amiga pessoal de Flávia e
funcionária da ONG por ela fundada, pediu o microfone aos organizadores do evento e recitou
uma poesia de sua autoria escrita em homenagem à Flávia e dedicada a todas as mães
presentes. Intitulada “Uma frágil mulher de aço”, a poesia foi lida enquanto nove mães de
desaparecidos postaram-se, de pé e de mãos dadas, de frente para o público. Ao final da
leitura, a autora da poesia chamou atenção para palestrantes que se ausentaram do evento,
embora estivessem listados na programação, e deixou no ar uma dupla indagação: “Onde
estão nossos governantes? Onde estão nossas crianças?”.
Essas interrogações parecem condensar a perspectiva das mães atuantes na rede acerca
do desaparecimento de pessoas. Por falta da assistência que lhes deveria ser prestada por
“governantes” ou pelo “Estado” e, também, por falta de uma atuação sensível e adequada por
parte da “polícia”, as mães e suas “famílias” se desestruturam ao vivenciar o desaparecimento
de um de seus membros. Em suma, as mães identificam a omissão de agentes responsáveis
por assistir “famílias” de pessoas desaparecidas como principal causa do fenômeno.
Contrapondo-se à perspectiva dos gestores, afirmam reiteradamente que “o desaparecimento
não acontece porque a família é desestruturada”. Invertendo os termos da equação enunciada
por eles, relatam que seus casamentos foram devastados, outros filhos foram afetados e suas
contas bancárias acabaram “zeradas” em função do desaparecimento de seus filhos.
Enfatizando que sempre foram “boas mães” e provedoras de “bens de cuidado” (Vianna,
2006) no limite do possível, situam o desaparecimento de seus filhos como pontos de inflexão
em suas vidas, que as fizeram sair de uma rota de vida familiar plena, para um tortuoso
caminho de faltas e sofrimento.
Afirmam que suas vidas perderam sentido quando seus filhos desapareceram, e narram
experiências pessoais de divórcio, perda de emprego, dívidas contraídas para pagar detetives
particulares e noites consumidas com angústia. Indo ao encontro de uma das afirmações
repetidas por gestores, relatam que tentam reencontrar esse “sentido” reunindo-se em
organizações e tentando suprir a carência de assistência vivida por outras mães. Citam, nesse
sentido, exemplos de estratégias por elas desenvolvidas para enfrentar a “negligência do poder
público” como, por exemplo, a chamada “Mãe da Vez”. Atribuindo o estatuto de programa
assistencial à prática de circulação de crianças (cf. Fonseca, 2006), a “Mãe da Vez” é uma
215

rede de cuidados idealizada pela associação fundada por Maria, em que uma das mães fica
responsável por várias crianças de sua vizinhança quando as outras precisam se ausentar.
Afirmam, enfim, que “juntas vamos guardar nossas crianças”, como diz Maria, mas que pra
isso é também necessário o engajamento do “Estado”. Ainda nas palavras de Maria, para as
mães “não importa se a criança fugiu de casa, o Estado tem que se responsabilizar. Eu
pergunto há 13 anos para o Estado onde está minha filha. O Estado me deve a minha filha.”
A ausência desse “Estado” devedor de que fala Maria manifesta-se, do ponto de vista
das mães, sobretudo na já mencionada inexistência de legislação pertinente que regule a
gestão e o enfrentamento de casos, de tecnologia (sistemas de informação, bancos de DNA e
sistemas de envelhecimento de fotografias são por elas vistos como essenciais) e de serviços
de assistência social de qualidade. A ela soma-se, ainda, outra ausência de que as mães
queixam-se enfaticamente: a falta de sensibilidade, conhecimento e capacidade para lidar com
casos de desaparecimento característica da “polícia” ou das “delegacias”. Assim como os
policiais do SDP, mães evocam o “Estado” como instrumento retórico que lhes permite
explicar e lidar com a humilhação e a indiferença que afirmam ter sofrido por ocasião de
encontros com policiais. (Herzfeld, 1992).
No caso das mães, humilhação e indiferença são apenas dois dos vários sentimentos
elencados em suas denúncias daquelas ausências. Cecília costuma narrar o atendimento que
recebeu quando sua filha desapareceu, sublinhando que o policial que a recebeu afirmou que
sua filha “deveria estar num motel aproveitando o sábado com o namoradinho”. Cecília diz ter
“perdido a cabeça” diante da frase do policial e saído da delegacia sem registrar o caso.
Outras mães a acompanham nesse relato, sobretudo as que têm filhas desaparecidas, relatando
insinuações e insultos feitos por policiais, que lhes disseram que suas filhas deveriam ser
prostitutas ou “meninas fáceis”, como fala Maria. Se casos como o de Raquel, que saiu de
casa depois de “entrar na vida”, são registrados em repartições policiais, em eventos da
ReDESAP mães de desaparecidos negam que esse possa ter sido o destino de suas filhas
desaparecidas, e demonstram indignação pelo fato de policiais aventarem tal possibilidade.
As mães freqüentemente narram cenas de maus tratos, preconceito, negligência e
desconfiança que vivenciaram nas delegacias a que se dirigiram para reportar o
desaparecimento de seus filhos. Afirmam que policiais demonstraram desconhecimento
quanto ao tema e, por vezes, ofensivamente associaram seus filhos e filhas não só a redes de
prostituição, como também a diversas suspeitas de crime. Tais afirmações permitem
compreender a defesa de um “atendimento adequado” em delegacias feita por muitos
216

gestores: trata-se não apenas de uma escuta cuidadosa e receptiva por parte de policiais que
assumam responsabilidades diante dos casos, mas também de empatia e reconhecimento da
dor causada pelo desaparecimento de um filho que não deve ser alvo de quaisquer suspeitas.

CLARA
Dia 16 de janeiro de 2008, a professora aposentada Ivana foi, em companhia de seu
filho Leandro, à delegacia do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro (DAIRJ). Na
repartição, a professora solicitou o registro de desaparecimento de sua filha Clara, de 15 anos.
A partir das falas de Ivana, o policial que a atendeu registrou que
no dia 15/01/2008, por volta das 15:25hs, no check in da Cia Aérea, sua
filha desapareceu; fato este que ocorreu na ocasião em que a menor ia
embarcar pela Cia Aérea no vôo 1892 trajeto Rio/Porto Alegre; que a
declarante Ivana, mãe adotiva da menor, e o irmão de Clara, Leandro,
acompanharam Clara até o check in da Cia Aérea e entregaram a menor aos
cuidados da funcionária DILMA e depois disso não tiveram mais contato
com a menor; que a menor não chegou a Porto Alegre, e diante do fato
estiveram no Aeroporto no dia de hoje para saber junto a Cia Aérea se a
menor havia embarcado; pois a menor não tinha documentação, e também
disse que a menor teria ligado para casa e falado com os pais e solicitara a
documentação e depois teria remarcado a passagem e no horário marcado
não apareceu. E mais não disse.

Depois de fazer esses registros, o policial que atendeu Ivana pesquisou a base de dados
que reúne registros de ocorrência feitos em delegacias informatizadas. Encontrou então outro
RO de desaparecimento em nome de Clara, feito na 12ª DP, em Copacabana. Dia 29 de
dezembro, menos de um mês antes da viagem que faria a Porto Alegre, a adolescente “saiu de
sua residência com destino ignorado”, conforme aparece registrado no documento. Foi Ivana
quem solicitou o RO em dezembro, assim como fez em janeiro.
Dia 25 de fevereiro, o policial da DAIRJ que registrara o segundo desaparecimento de
Clara redigiu novo documento a respeito do caso - um relatório destinado à apreciação do
delegado. Revestindo de suspeita os “Envolvidos” no caso, relatou que
até o presente momento a comunicante do fato Sra. Ivana não entrou em
contato com esta DAIRJ para informar se sua filha adotiva havia sido
encontrada; este sindicante há mais ou menos 10 dias atrás entrou em
contato por telefone com a Sra. Ivana, sendo informado pela mesma que até
o momento da ligação sua filha não havia aparecido, sendo informado ainda
que o seu advogado entraria em contato com este sindicante, e até o
momento não o fez; Estranhou-me o fato que no momento da ligação quem
atendeu foi uma menina, aparentando pela sua voz ter a idade da
desaparecida, e quando a Sra. Ivana veio ao telefone, a primeira coisa que
ela falou foi que seu advogado já estava tratando do caso para processar a
Cia Aérea, afirmando que sua filha adotiva não havia aparecido ainda, sem
perguntar ou mostrar preocupação se este sindicante havia apurado algum
fato que pudesse esclarecer o desaparecimento.

217

No mês seguinte, o policial intimou Ivana a comparecer novamente à DAIRJ, o que
aconteceu dia 20 de março. Nessa data, a mãe de Clara afirmou que sua filha não havia
retornado para casa, mas havia feito breve contato pelo telefone. A ligação teria ocorrido dia 4
de março, data de aniversário de Clara, e nela a adolescente “disse que estava mais ou menos, e
indagada onde estava, disse que não poderia falar”. Depois dessa chamada telefônica, Clara
não “entrou mais em contato com Ivana e nenhum de seus familiares”.
Poucos dias depois, o caso de Clara foi encaminhado ao SDP. Uma cópia do RO
produzido na 12ª DP em dezembro de 2007 foi incluída na remessa de documentos. Dois meses
depois de ser recebido no Setor, o caso foi arquivado como Sindicância Solucionada. No
relatório final que produziu, o policial que cuidou e arquivou o caso no SDP assim justificou o
encerramento das investigações:
Trata-se a comunicante de senhora de idade avançada, a qual mantém oito
filhos adotivos, e segundo a própria, alguns outros agregados, em seu
apartamento em Copacabana, estando alguns deles vivendo atualmente no
exterior. Um deles, ANDRÉ, informou que cerca de um mês após fuga da
irmã adotiva, esta telefonou a cobrar dizendo que estava na Rodoviária
Novo Rio, embarcando para Salvador, Bahia, pela empresa Asa Branca. Foi
solicitado cópia da conta de telefone, de forma a apurar o exato dia da
ligação, e conseqüentemente diligenciar na empresa e nos vídeos de
segurança do terminal rodoviário a veracidade dos fatos. Ocorre que não
houve interesse dos familiares no que foi solicitado. Nova ligação foi
efetuada por ANDRÉ o qual informou que CLARA mantém contatos
regulares, por telefone, afirmando que se encontra na BAHIA com amigos,
não precisando quando ou se pretende regressar ao lar adotivo. Face o
informado, considerando não se tratar de assunto de atribuição deste SDP,
solicito o encerramento das investigações, haja vista que no que se refere ao
desaparecimento da menor, a Sindicância está solucionada.127

Encontros da ReDESAP servem às mães como instâncias em que compartilham e
denunciam a inadequação do atendimento que receberam em repartições policiais quando do
desaparecimento de seus filhos. Muitas relatam ter sido orientadas a retornar às delegacias 24
e/ou 48 horas depois da constatação do desaparecimento, sustentando que de fato se faz
presente entre policiais o chamado “mito das 24/48 horas”. Segundo as mães, esse mito
evidencia a desconfiança com que foram e são recebidas em delegacias, onde “sempre
pensam que nossos filhos saíram de casa por motivos ruins ou por nossa culpa, e que não
voltam porque não querem”, como afirma Maria.
Seus enunciados, transitando entre descrições de experiências particulares e
generalizações e acusações amplas, apresentam suas percepções de que a polícia não só não
acredita no que elas e outros familiares dizem, envoltos que são no cenário de desconfiança a
127

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 084/08 do SDP/DH.

218

que me referi anteriormente, como também escolhe não agir diante dos desaparecimentos de
seus filhos. Neste sentido, as mães denunciam que a imposição da espera de 48 horas é um
recurso de que policiais lançam mão para se isentar de responsabilidade ou, ao menos, adiar o
quanto possível sua atuação. Se o intervalo temporal entre prestações e contraprestações
condensa o caráter tão generoso quanto obrigatório da reciprocidade (Bourdieu, 1996b), a
espera das 48 horas condensaria, para as mães de desaparecidos, o caráter tão indiferente
quanto obrigatório da atuação de policiais diante de suas demandas. Ao denunciar a vigência
do “mito das 48 horas”, portanto, as mães apontam para a inação e o desrespeito a elas
(contra-)prestados pela polícia quando dirigiram-se a delegacias para prestar a comunicação
do desaparecimento de seus filhos.
Para as mães, é importante que o registro seja feito o mais próximo possível da data e
hora firmadas como marcos temporais do desaparecimento, não apenas pela importância de se
iniciar investigações o quanto antes, mas também pelo fato de que documentos são bens
fundamentais, como tenho chamado atenção. Retomando mais uma vez a expressão cunhada
por Vianna (2002), providenciar o documento que registra o caso de seus filhos é, para as
mães, fornecer-lhes um “bem de cuidado” e deixar registrado, na forma de datas e horários,
que elas são “boas mães” não só enquanto têm seus filhos próximos de si, mas também diante
de seus desaparecimentos. Maria, por exemplo, costuma narrar sua experiência de
atendimento em delegacia destacando que sua filha desapareceu dia 12 de novembro e em
poucas horas ela, Maria, compareceu à DP para comunicar o “fato”. Entretanto, a ocorrência
só foi registrada dia 18 de novembro, depois de algumas idas e vindas entre a DP e sua casa, o
que gerou um RO com data seis dias posterior a data do desaparecimento. Para Maria, “ficou
parecendo que eu não me importei com o desaparecimento da minha filha e isso não é
verdade, senão eu não estaria lutando por ela há tantos anos.”
A partir também de sua experiência na delegacia em que comunicou o
desaparecimento de seu filho, ocorrido há mais de 20 anos, foi Flávia quem elaborou o que
hoje é o texto da lei federal chamada pelos membros da rede de “Lei da Busca Imediata”, que
instituiu que
A investigação do desaparecimento de crianças ou adolescentes será realizada
imediatamente após notificação aos órgãos competentes, que deverão
comunicar o fato aos portos, aeroportos, Polícia Rodoviária e companhias de

219

transporte interestaduais e internacionais, fornecendo-lhes todos os dados
necessários à identificação do desaparecido. (BRASIL, 2005)128

O “tempo” é apresentado pelas mães como um dos grandes inimigos de todos aqueles
que buscam desaparecidos. Os efeitos do “mito das 24/48 horas”, assim como da desconfiança
e da falta de dedicação de policiais às investigações de desaparecimentos, seriam agravados
pela passagem do tempo. Em diferentes reuniões da rede, presenciei mães interpelando
policiais e indagando-lhes “o que acontece com as investigações dos casos com a passagem
dos anos?”. Perguntas como essa revelam o descompasso entre temporalidades inerente a
encontros entre cidadãos e funcionários de repartições burocráticas (Herzfeld, 1992),
experimentado com apreensão pelas mães. Como nos adverte Das (2007), encontros
burocráticos não apenas reúnem temporalidades distintas, como fazem com que o tempo da
burocracia incida sobre o tempo da dor pessoal, gerando efeitos como a apreensão
experimentada pelas mães de desaparecidos. Depositando esperanças no desenvolvimento de
tecnologias, as mães também interrogam policiais quanto à disponibilidade, em delegacias de
diferentes localidades, de sistemas de envelhecimento de fotografias que permitam divulgar
fotos de seus filhos que os retratem não como eram quando desapareceram, mas como seriam
em qualquer momento presente. Além disso, mães os indagam também quanto à possibilidade
de contarem com bancos de DNA que permitam cruzar dados genéticos entre elas e pessoas
encontradas pela polícia, vivas ou não, que possam ser seus filhos desaparecidos.129

128

Como já mencionado, trata-se da Lei 11.259/2005, que foi incorporada ao Artigo 208 do Estatuto da Criança
e do Adolescente (Lei 8.069/1990).
129
Em Curitiba/Paraná, há uma delegacia especializada em desaparecimento de crianças e adolescentes, o
Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), onde um software que permite a simulação do
envelhecimento é utilizado para alterar fotografias de desaparecidos e facilitar buscas tempos depois dos
desaparecimentos. Já a cidade de São Paulo conta com o projeto Caminho de Volta, em funcionamento na 2ª
Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O Caminho de Volta foi desenvolvido e é mantido pela
Faculdade de Medicina da USP, mais especificamente por seu Centro de Ciências Forenses (CenCiFor) do
Departamento de Medicina Legal, Ética Médica e Medicina Social e do Trabalho. O projeto “foi desenhado de
forma a atender quatro eixos principais no enfrentamento do desaparecimento infanto-juvenil brasileiro: (a)
Banco de DNA dos pais e/ou irmãos de crianças e adolescentes desaparecidos (Banco Referência) que permitirá
a rápida e ágil avaliação de vínculo genético daqueles que forem localizados (Banco Questionável). (...); (b)
Identificação das causas do desaparecimento de crianças e adolescentes por meio da análise da organização
familiar a que pertencem, uma vez que a negligência, a violência doméstica, o abuso sexual intrafamiliar, a
adição (consumo de drogas ou substâncias psicoativas), a miserabilidade, atos infracionais e contravenção
podem ser aspectos facilitadores para a ocorrência de fugas de lares, extorsão mediante seqüestro e subtração de
incapazes. (...); (c) Suporte psicossocial às famílias de crianças e adolescentes desaparecidos com intuito de
diagnosticar sua dinâmica familiar, acompanhar a família no decorrer do processo de busca, e participar da
solução final do caso. (...); (d) Capacitação de profissionais envolvidos no sistema de garantia dos direitos da
criança e do adolescente.” (Gattás & Figaro-Garcia, 2007, p.19-20) Tanto o Sicride, quanto o Caminho de Volta
são membros da ReDESAP e invariavelmente relatos de policias, médicos e psicólogos que neles trabalham
suscitam perguntas por parte de outros membros que desejam dispor de suas tecnologias. Até o momento,
nenhum outro membro da rede tem nem o software para envelhecimento de imagens, nem bancos de DNA.

220

Outra questão de “tempo” a que as mães se referem com freqüência são os curtos
períodos que delegados e outros policiais passam lotados na mesma repartição, o que faz com
que os casos de seus filhos “passem de mão em mão”. A mudança freqüente no quadro de
pessoal das delegacias, da perspectiva delas, dificulta ainda mais que policiais engajem-se nas
investigações. Conforme relata Flávia,
teve um delegado que assumiu o caso do meu filho, não passou um mês e ele
estava saindo da delegacia. Foi muito pouco tempo. Eu consegui me eleger
vereadora e deputada no meu estado e consegui que se mantivesse uma
delegada por quatro anos na delegacia. Assim que acabou meu mandato,
tiraram ela.

Enfim, confirmando o que salientam policiais do SDP, as mães sentem que há
desconfiança por parte da polícia diante de suas narrativas. Se, conforme me disseram no
Setor, “famílias mentem”, na percepção das mães é exatamente essa premissa que orienta
policiais no atendimento rotineiro a todos aqueles que se dirigem a delegacias com o intuito
de reportar desaparecimentos. Tal desconfiança levaria policiais a sequer iniciar as
investigações, “muito menos levar a sério que existe tráfico de órgãos e tráfico de pessoas no
Brasil”, fenômenos que, na formulação de Sônia, mãe de desaparecido e fundadora de uma
ONG que não integra a rede, seriam as causas de muitos desaparecimentos.
Para as mães de desaparecidos e fundadoras de instituições, o desaparecimento não
deriva da falta de uma “família que protege” os seus, como afirmam gestores, e sim é a causa
da desestrutura de grupos familiares. As causas do fenômeno residiriam em outros
fenômenos, igualmente complexos e de imprescindível combate, como o tráfico de seres
humanos, o tráfico de órgãos e, ainda, a falta de serviços públicos de assistência social que
forneçam apoio e proteção a “famílias” e as permitam manter-se “unidas”. Para as mães, em
suma, o desaparecimento é um “problema” de que são vítimas, que lhes causa sofrimento
continuado e que evidencia a ausência do “Estado” nas vidas daqueles que necessitam de
assistência tanto para cuidar, quanto para localizar seus filhos.
Não obstante, o sofrimento que o fenômeno causa é ainda agravado pela maneira
como policiais agem diante delas e de seus relatos. De seu ponto de vista, para caracterizar a
atuação da “polícia” diante do fenômeno do desaparecimento, melhor seria falar em omissão,
inação e indiferença. Sintetizando essa indiferença e explicitando práticas por meio das quais
policiais realizam o que venho chamando de delegações, Sônia fez a seguinte afirmação em
um dos encontros da rede de que participou: “quando a gente vai dar queixa que uma criança
desapareceu, a gente quer resposta. Mas aí eles ligam pra minha casa para saber se ela
221

apareceu!” Nota-se, nessa formulação, o trânsito entre as mães, coletividade que Sônia evoca
e representa (“a gente vai dar queixa”), e sua experiência singular de interação com outra
coletividade: a polícia (“eles ligam pra minha casa pra saber se ela apareceu”). Vejamos então
a posição de policiais em encontros da ReDESAP.

4.3.3 Não temos a estrutura necessária
Representando delegacias e setores da Polícia Civil de diferentes unidades da
federação, delegados e inspetores de polícia constituem a maioria dos participantes dos
encontros e reuniões da rede. O fato de muitos policiais comparecerem aos encontros vestidos
com camisetas indicativas da Polícia Civil de seus estados torna isso facilmente perceptível.
Contudo, em encontros de maior proporção promovidos pela rede, como o II e o III Encontros
Nacionais, poucos policiais proferem falas programadas e integram mesas oficiais. Sua
participação se dá, como pude constatar acompanhando Fernando, principalmente como
debatedores de pronunciamentos feitos por outrem e em contatos mais próximos entre si,
firmados nos intervalos e entreatos dos encontros, em que dialogam e trocam experiências.
Enquanto gestores fazem diagnósticos eloqüentes e emitem enunciados categóricos sobre o
desaparecimento, e enquanto mães de desaparecidos narram suas comoventes experiências de
sofrimento face aos casos de seus filhos, policiais ocupam uma peculiar posição de recuo e
defesa nos encontros.
As falas de policiais são, em geral, mais curtas e diretas que os relatos pessoais das
mães e que as afirmações categóricas dos gestores. O mote central de seus pronunciamentos e
participações em debates é o reconhecimento de que é preciso modificar a maneira como
agentes e repartições policiais lidam com o desaparecimento, sobretudo em função dos relatos
de atendimentos frustrantes e desrespeitosos feitos pelas mães ao se referirem a delegacias.
Afirmam repetidas vezes que a troca de experiências entre policiais de estados diferentes é
fundamental para que medidas bem sucedidas possam ser adotadas em outras localidades. Em
convergência com alguns relatos de inspetores do SDP, nos encontros da rede policiais
colocam-se na posição de espectadores sensibilizados diante do sofrimento experimentado por
mães e familiares de desaparecidos, mas impotentes. Como afirma a delegada que integra o
comitê gestor, “não podemos, nem queremos tirar o corpo fora, mas temos que admitir que
não estamos no nível em que deveríamos”.

222

Muitas vezes restringindo-se a responder às mães e, em algumas ocasiões, pedindolhes expressamente desculpas pelos episódios por elas vividos em delegacias, de forma
sintética os policiais a um só tempo responsabilizam-se e eximem-se de responsabilidades
pela forma como lidam com casos de desaparecimento. Também recorrendo ao “estilo
emotivo” (Boltanski, 1993), colocam-se como objeto de suas próprias enunciações.
Afirmando que em geral não sabem como lidar com o fenômeno, desconhecem suas causas e
não são treinados para enfrentar as suscetibilidades das “famílias” de desaparecidos,
sustentam que o obstáculo central a ser superado é a ausência do tema nos cursos de formação
oferecidos pelas Academias de Polícia e a inexistência de modelos de investigação de casos
de desaparecimento. Nas palavras proferidas no II Encontro Nacional por outro delegado
integrante do comitê gestor, “a gente vem aqui de público fazer um mea culpa diante das
mães, mas de fato a maior parte dos policiais não sabe como lidar com o desaparecimento.”
De modo análogo aos gestores, que apontam o fenômeno da “violência familiar” como
causa geral de desaparecimentos que recai sobre “famílias” particulares, policiais falam de
uma ampla falta de conhecimento e meios de investigação como característica geral da
“polícia” que recai especificamente sobre cada um deles e cada repartição policial,
engendrando o tratamento inadequado dos casos. Problemas nos atendimentos a familiares de
desaparecidos ou nas investigações de desaparecimentos, para eles, dizem respeito não a seus
desempenhos individuais como policiais, e sim a processos relativamente autônomos, sobre
os quais não têm controle, e dos quais são vítimas.
Do ponto de vista de delegados, inspetores e investigadores de polícia que participam
dos encontros da ReDESAP, o desaparecimento é questão invisível e mal investigada por
policiais em função de três ausências específicas: o tema não consta dos cursos de formação e
capacitação de policiais, não é objeto de instrumentos legais adequados, e muitas delegacias
não possuem os meios necessários para investigar casos com celeridade. A falta de viaturas,
computadores, sistemas de informação, tecnologia e outros bens imprescindíveis ao seu
trabalho, portanto, seria uma das raízes da maneira falha com que a polícia tem lidado com o
desaparecimento. Nos termos de uma delegada, “não temos a estrutura necessária e estamos
órfãos dentro da polícia.” 130 Enquanto as mães que fundam instituições, como diz Cecília,
sentem-se mães de todas as mães que por elas procuram, policiais sentem-se órfãos diante de
casos de desaparecimento. Se não prestam serviços adequados a “famílias”, portanto, isso se
130

Para uma reflexão sobre o amplo uso de metáforas de família e parentesco no que o autor denomina “retórica
do Estado”, e ainda sobre o aparente paradoxo entre o emprego de tais metáforas e a convencional rejeição ao
chamado “familismo”, ver Herzfeld (1992).

223

deve à sua própria experiência de orfandade “dentro da polícia”: uma espécie de falta de pais
metafóricos e quase demiúrgicos, que lhes devem certo tipo de provisão fundamental para que
executem seu trabalho. Em suma, essa orfandade indica a ausência do que deveria
necessariamente ser fornecido por outrem a eles e às repartições em que estão lotados: a soma
do que chamam de “estrutura”, de “legislação adequada” e de “conhecimento”.
Ecoando falas de policiais de outros estados que participam de encontros da rede, no II
Encontro Nacional o inspetor Fernando denunciou a falta de “estrutura” e de “conhecimento”
que incide sobre policiais e delegacias evocando o SDP e seus papéis. De pé, em um dos
momentos abertos a perguntas do público, Fernando disse
Acho importante também trabalhar o profissional que trabalha com pessoas
desaparecidas. Eu levo problema pra casa, pro meu bolso, pros meus amigos.
O profissional precisa ser capacitado, remunerado, olhado. Eu pensei até em
fazer uma performance aqui: trazer a pilha de Sindicâncias que está na
minha mesa e compartilhar com vocês o que é ter que investigar aqueles
casos com uma equipe mínima e sem nenhuma estrutura, sem viatura, sem
nem computadores pra todo mundo.

No tocante à falta de uma “legislação adequada”, a formulação de uma delegada
bastante conhecida de membros da rede e sempre presente e atuante nos encontros sintetiza
bem a posição dos policiais. Segundo a delegada, em face da “realidade” de seu estado a Lei
da Busca Imediata é de impossível aplicação, e em face da necessidade de controlar a
mobilidade de crianças e adolescentes, “o direito de ir e vir” é um obstáculo. Assim como
outros policiais, a delegada sustenta que não só há pouca legislação sobre desaparecimento,
como também os instrumentos legais disponíveis são inadequados. Depois de ler o texto da
Lei da Busca Imediata em voz alta, disse a delegada em um dos encontros da rede:
Se uma criança desaparece de madrugada, eu vou à rodoviária e procuro por
quem exatamente? Como vou comunicar todos os portos se existem muitos
portos clandestinos no meu estado? E como vou impedir o tráfego de
adolescentes pra todo lado se a legislação concede o direito de ir e vir?

À falta de “estrutura”, “conhecimento” e “legislação adequada” deve ainda ser
acrescentado, segundo os policiais, o fato de que “famílias” de pessoas que retornam às suas
casas freqüentemente não notificam a volta do desaparecido. Por essa razão, muitas
investigações restariam abertas, embora os casos já estejam solucionados. Este seria um
indício de que, nos termos de um delegado, “as famílias fornecem informações precárias e
dificultam o trabalho policial” – palavras que ecoam dizeres de inspetores do SDP. Portanto,
224

ainda que peçam desculpas às mães por atendimentos pouco respeitosos e/ou ineficazes,
policiais também afirmam que parte das dificuldades de se lidar com o desaparecimento
decorre da maneira como as “famílias” se aproximam da “polícia”. Se, conforme enunciam as
mães, a “polícia” interage com as “famílias” de forma omissa, desrespeitosa e indiferente,
para os policias tal interação se faz em mão dupla. Somando-se suas perspectivas, portanto,
nota-se que o encontro entre “polícia” e “famílias” engendra o crescente distanciamento entre
pessoas inscritas nesses dois grupos, instituídos como unidades facilmente diferenciáveis e
tipificáveis, e perpetua estereótipos e “convenções de desdém” (Herzfeld, 1992) construídas
por ambos a respeito uns dos outros e de suas condutas.131
Assim como outros participantes de eventos da ReDESAP, policiais raras vezes
narram casos singulares de desaparecimento.
LÍCIO E RUI
Dagmar, empregada doméstica e moradora de Ricardo Albuquerque, compareceu à delegacia
do bairro para comunicar o desaparecimento de seu filho Lício, de 25 anos, em novembro de 2004.
Dagmar foi breve na descrição das circunstâncias do desaparecimento de Lício, tendo dito apenas que
ele e seu amigo Rui “saíram de casa por volta das 1:30hs e não mais retornaram nem foram vistos,
não sabendo a comunicante informar o destino tomado pelos desaparecidos.” Rui morava em
Saquarema e era comum que passasse alguns dias na casa de Dagmar e Lício quando vinha ao Rio de
Janeiro. O desaparecimento dos dois aconteceu em uma dessas estadias. Além de curta descrição e de
dados sobre Dagmar, Lício e Rui, no RO então produzido foi também registrado que “o desaparecido
I [Lício] já foi detento da Polinter”.
Em março do ano seguinte, inspetores da delegacia em que o RO foi feito emitiram dois
Mandados de Intimação: um destinado a Dagmar, e outro à “Residência de Familiares de Rui Nunes”,
na cidade de Saquarema. Ademais, os mesmos inspetores, através de consultas em bases de dados da
polícia e da justiça, confirmaram que o filho de Dagmar esteve preso. Em 2001, Lício envolveu-se no
roubo de um toca-fitas e ficou detido durante seis meses, pelo crime de Receptação.
Atendendo ao Mandado a ela remetido, Dagmar retornou à delegacia em abril de 2005. Ao
contrário do que fizera na primeira ida àquela repartição, a mãe de Lício estendeu-se em longa
descrição das circunstâncias do desaparecimento de seu filho e de Rui, e apresentou sua hipótese de

131

A circulação de estereótipos entre atores e sua mútua concepção como unidades estanques e facilmente
tipificáveis é mais um traço característico de encontros burocráticos, conforme apontado por Herzfeld (1992),
que se faz presente nas falas sobre o atendimento de mães e “famílias” por policiais. Nas palavras do autor, “the
art of bureaucrat game-playing, whether from client to bureaucrat or the other way about, lies in essentializing
one‟s own actions as logical on the strongly implied grounds that they rest on eternally valid rights or selfevidence. The other side‟s actions, by contrast, are capricious and irrational, based on personal or cultural flaws,
and wrongheaded.” (Herzfeld, 1992, p.86)

225

explicação e desfecho para o fato. No começo de suas declarações, disse ainda que Lício
estava trabalhando no CEASA de Irajá, em companhia do padrasto de nome
RIVALDO, no setor de caixotaria; que a declarante disse que seu filho nunca lhe
comentou nada a respeito se estava sofrendo algum tipo de ameaça de morte; que a
declarante disse que não tem conhecimento de que seu filho tivesse algum inimigo

Falando no passado não só sobre os momentos que antecederam o desaparecimento dos dois
amigos, mas também sobre Rui e Lício, Dagmar relatou que os dois “eram muito amigos”, e que “seu
filho era reservado, não lhe comentava nada de sua vida particular”. Descreveu Lício fisicamente e
informou que ele tinha uma cicatriz e um implante de platina no antebraço direito, conseqüências de
acidente de moto. Sobre a noite do desaparecimento, disse que
seu filho e o amigo chegaram de Saquarema, que seu filho lhe cumprimentou e lhe
abraçou; que a declarante disse que foi dormir, e que por volta das 2 horas da
manhã, ao se levantar, já não mais encontrou seu filho e o amigo em casa; que
desde então não soube mais nada do paradeiro de ambos.

Antes de encerrar suas declarações, Dagmar expôs com pormenores o que acreditava ter
ocorrido a seu filho e a Rui depois daquela noite. Para ela, seu filho seria “um dos corpos encontrados
carbonizados no dia 17/11/2004, no bairro de Guadalupe” – mesma data registrada no RO de
desaparecimento de Lício e Rui como “data do fato”. Embora não tenho feito referência a nenhum
desses acontecimentos quando solicitou o registro, dia 21/11/2004, Dagmar relatou que, quando
soube dos três corpos carbonizados,
esteve no IML e um funcionário que lhe atendeu disse que havia encontrado uma
pulseira em um dos corpos que estava escrito o nome LÍCIO; que a declarante disse
que seu filho usava uma pulseira com o nome dele gravado LÍCIO; que também a
declarante disse, que comentou com o mesmo funcionário sobre o implante da
platina no braço direito de seu filho, que o mesmo responde que o corpo já havia
sido enterrado e não dava mais pra saber de tal deta lhe.

Além de narrar esse possível desfecho do caso de seu filho e Rui, Dagmar também relatou ao
inspetor que a atendeu que, na noite do desaparecimento, os dois saíram de casa no carro de Lício,
que também se encontrava desaparecido. Tanto quanto a hipótese de carbonização dos corpos, essa
informação não esteve presente nas primeiras declarações de Dagmar, prestadas quatro dias após o
desaparecimento e seis meses antes de sua segunda ida à delegacia.
O caso de Lício e Rui foi encaminhado ao SDP logo após a segunda ida de Dagmar à DP.
Depois de consultar sem sucesso o IML, O IFP, a Santa Casa de Misericórdia, a Polinter e o Desipe,
demandando informações sobre Lício e Rui que pudessem auxiliar na busca pelo paradeiro dos dois,
o inspetor do Setor que cuidou do caso solicitou seu arquivamento como Sindicância Suspensa. 132

132

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 195/05 do SDP/DH.

226

4.4 De quantas ausências é feito um problema
A análise de Boltanski (1993) sobre conexões entre piedade, compaixão e
engajamento revela que formas de compadecimento diante de episódios de sofrimento
desempenham papel central no estabelecimento de laços sociais e políticos. Precipitando-se
em “causas” pelas quais é moralmente imperativo mobilizar-se, a exibição de experiências de
sofrimento engendra a modulação de enunciados, a delimitação de grupos e a identificação,
em processos variados, de “vítimas”, “espectadores” e “agentes” implicados em episódios de
sofrimento. (Boltanski, 1993, p.95)
Casos de desaparecimento de pessoas comparecem em pronunciamentos de mães de
desaparecidos como episódios causadores de sofrimento que exigem empatia, mobilização e
comprometimento por parte de múltiplos agentes. O mesmo se dá em falas de gestores e
policiais, a despeito da raridade com que tomam casos singulares como objeto de seus
enunciados. Conforme indicam as posições desses três grupos de agentes percebidas em
encontros

da

ReDESAP,

casos

particulares,

subsumidos

pelo

“problema”

do

desaparecimento, permitem identificar “vítimas” e “agentes” de sofrimento, bem como
“agentes” capazes de combatê-los. Contudo, policiais, gestores e mães de desaparecidos
identificam de modo bastante distinto quem são essas “vítimas” e “agentes” do sofrimento
específico causado pelo desaparecimento.
Distribuindo responsabilidades, gestores diagnosticam o desaparecimento como
“problema” causado pela “violência intrafamiliar” e passível de combate por “famílias” que,
apoiadas em redes de assistência social, protejam seus membros e evitem suas fugas de casa.
Para eles, a ausência de uma “família” que proteja seus membros tem como conseqüência o
desaparecimento de alguns deles. Já para mães de desaparecidos, o desaparecimento deve ser
encarado como conseqüência da ausência de um “Estado” que disponibilize redes de
assistência social de qualidade e serviços policiais sensíveis e competentes para prevenir e
solucionar casos como os de seus filhos. Para policiais, finalmente, o fenômeno é objeto de
desconhecimento e, se recebe tratamento inadequado, isso se deve à ausência de saberes e
meios materiais necessários à boa investigação dos casos no interior de repartições policiais.
No entrelaçamento de tantas ausências, tecido pelo embate e pelas responsabilizações
cruzadas entre esses agentes, o “problema” do desaparecimento é construído como um vazio
plural, no qual está inscrita também, mas não apenas, a ausência do desaparecido.

227

Vale destacar que os grupos que se engajam nessas denúncias de múltiplas ausências
desempenham papéis distintos na construção do desaparecimento como “problema social”.
Policiais, embora sejam maioria tanto na composição, quanto nos encontros da rede, colocamse em posição defensiva e recuada, justificando o atendimento inadequado que fornecem às
“famílias” e pedindo desculpas às mães de desaparecidos. Gestores, por sua vez, colocam-se
em posição relativamente mais distante tanto das mães, quanto dos policiais, dedicando-se a
construir diagnósticos do “problema” sem, contudo, examinar casos singulares. Sua
perspectiva diagnóstica inscreve-se no plano das estatísticas e na responsabilização de certo
processo de esgarçamento de relações que transcende “famílias” específicas, embora recaia
principalmente sobre um tipo de arranjo: a família monoparental chefiada por mulheres.
Já as mães, ao construírem seu lugar de enunciação a partir dos episódios de
sofrimento que experimentaram, articulam casos singulares de desaparecimento e mau
atendimento em delegacias ao patamar da generalidade política em que se situam os
enunciados dos gestores. São elas que produzem a “associação entre descrição e comoção”
(Boltanski, 1993, p.17) essencial para a construção de causas nas quais agentes sociais
engajam-se a despeito da distância que guardam em relação a sofrimentos individuais. Nesse
sentido, a forma como expressam emoções causadas pelo desaparecimento de seus filhos e
pelos encontros burocráticos que o sucederam cumpre papel decisivo na produção de sua
credibilidade diante de membros e não-membros da ReDESAP. Conforme mostra Bailey
(1983), formas de expressar emoções em arenas políticas podem revestir sujeitos de
credibilidade ou, pelo avesso, de descrédito. Em eventos da rede, o “estilo emotivo”
(Boltanski, 1993) das mães lhes confere não só credibilidade, mas também distinção.
Conscientes disso, algumas mães alteram seus tons de voz e modos de se apresentar
quando compõem as mesas dos eventos, reservando para esses momentos suas falas mais
comovidas e emocionantes. Como diz o poema escrito em homenagem a uma delas, essas
“frágeis mulheres de aço” fazem pronunciamentos emocionados, trêmulos e muitas vezes
chorosos, mas também expressam vozes firmes e decididas em outros momentos dos
encontros da rede e, em especial, nas reuniões do comitê gestor. Esse certamente não é um
dado sobre a sinceridade de seus pronunciamentos e sentimentos, e sim uma evidência da
importância de seu papel na gestação do “problema” do desaparecimento.
As emoções formuladas e provocadas pelas mães de desaparecidos desempenham
papel decisivo na construção não só de sua credibilidade, mas principalmente da credibilidade
do próprio desaparecimento de pessoas como grave “problema”, que deve ser reconhecido e
228

enfrentado como tal. Se gestores colocam mães no lugar de chefia de certo tipo de família que
com freqüência produz desaparecimentos, as mães de desaparecidos não só negam esse lugar,
como também ocupam posição central na construção do desaparecimento como causa. Da
forma como se colocam nos encontros da rede, são elas que dão corpo à conversão dos
desaparecimentos de seus filhos em manifestações particulares do “problema social” que
denunciam. Alguns dizeres de Maria sintetizam bem essa conversão: “Não se trata da minha
filha, da filha da Cecília ou do filho da Flávia, lá no Sul. É um problema de todos nós e da
falta de vontade de quem pode nos ajudar.” Nesse processo de dar corpo ao “problema”,
vinculando suas experiências ao plano da generalidade política, as mães não só relatam os
casos de seus filhos, como também colocam seus próprios corpos em seus pronunciamentos.
Falando e mostrando a dor que sentem, dão testemunho do mal causado não apenas a elas,
mas ao tecido social como um todo. (Das, 2007, pp.59-60). Sônia, mãe de uma menina que
desapareceu no Rio de Janeiro, relatou em um dos encontros da rede que todos os anos, na
data de aniversário de sua filha, sente dores no útero. Já Cecília sofre de uma cardiopatia
grave desde o desaparecimento de sua filha, o que já a fez ter que deixar reuniões e encontros
para se consultar com o cardiologista, desculpando-se por isso em público.133
Em síntese, o vazio que constrói o desaparecimento de pessoas como “problema” não
traduz apenas a falta do desaparecido em meio aos que por ele buscam. Sem dúvida, essa
ausência impacta, de formas variadas, todos os “Envolvidos” em casos particulares, e em seus
relatos as mães de desaparecidos detalham tal impacto. Entretanto, reuniões e encontros da
ReDESAP sugerem que outras ausências fazem da falta da pessoa desaparecida a
manifestação particular do “problema” do desaparecimento. A relação entre cada caso e o
“problema” do desaparecimento, nesse sentido, não consiste simplesmente na dupla parte
versus todo. Em vez disso, cada caso se torna parte do “problema social” mais amplo por ser
encarado como conseqüência de um conjunto maior de faltas: a ausência de um “Estado”
assistente, a ausência de uma “polícia” sensível e competente e, ainda, a ausência de uma
“família” protetora.
Como busquei mostrar nos capítulos anteriores, alguns juízos, registros e
procedimentos de seleção efetuados por policiais inscrevem casos de desaparecimento em
uma seara restrita, por eles delimitada como espaço social no qual não deveriam intervir: os
“problemas de família”. O presente capítulo descortina que, em contraste com esse processo,
a construção do desaparecimento como “problema social” depende da multiplicação das
133

Para uma reflexão sobre formas de localizar dores, no marco mais amplo da divisão genderizada do trabalho
do luto, ver Das (2007).

229

searas em que todo caso se inscreve, efeito das denúncias de que se trata de “problema”
decorrente da ausência tanto do “Estado”, quanto da “polícia” e da “família”.
Desempenhando papéis distintos e buscando estabelecer limites rígidos de
competências, gestores, mães de pessoas desaparecidas que se tornaram, também, fundadoras
de ONGs, e inspetores, investigadores e delegados de polícia referem-se de forma recorrente
àquelas unidades (“a polícia”, “a família” e “o Estado”), substancializando-as. Mais do que
um fenômeno em função do qual indivíduos desaparecem sem deixar vestígios, fazendo sofrer
suas “famílias” e demandando atenção da “polícia” e assistência do “Estado”, o
desaparecimento de pessoas é construído como manifestação da ausência de atuação
adequada por parte dessas três unidades. Consiste, enfim, em um “problema” que são muitos.
Em resumo, a ausência do desaparecido entre pessoas que por ele procuram e em
pontos do espaço em que se esperava que ele estivesse é parte de um todo constituído
também, como indicam encontros da ReDESAP, por outras ausências. Aquela é objeto de
comunicação em repartições policiais, ao passo que estas são objeto de pronunciamentos e
debates acalorados em eventos públicos. Tomar aquela parte pelo todo é simplificar o que está
em jogo na construção do desaparecimento como “problema social”, e desconsiderar
denúncias de ausências irredutíveis à falta do desaparecido.
Um breve registro do caso de Olívia, a maranhense que partiu de Imperatriz deixando
três cartas, sintetiza bem essa idéia de simplificação. Em suas “declarações” no SDP, a mãe
de Olívia fez relatos sobre a visita que os amigos cariocas de sua filha fizeram à casa da
família, no Maranhão. Segundo tais relatos, os amigos de Olívia a estimularam a “abandonar
tudo (escola, família) para servir a Deus”. A afirmação de que “tudo” significa escola e
família, produzida pelos parênteses utilizados pelo policial que registrou o caso, é uma
evidente simplificação. É difícil imaginar, afinal, que a vida de Olívia se resumisse à escola
que ela freqüentava e às relações familiares que mantinha.
O que os encontros da ReDESAP indicam é que semelhante lógica de simplificação
faz-se presente em afirmações e suposições de que o desaparecimento resume-se à ausência
do desaparecido entre pessoas e em lugares onde se esperava que ele estivesse. Assim como a
escola e a família são talvez as faces mais visíveis e facilmente delimitáveis dos lugares
freqüentados e das relações mantidas por Olívia, certamente mais vastas, a ausência do
desaparecido talvez seja apenas a falta mais visível, delimitável e eloqüente que, somada a
outras, tece o desaparecimento de pessoas como “problema social”.

230

Cecília costuma enfatizar uma falta mais pontual, mas para ela não menos grave, que
evidencia a ausência do “Estado” denunciada pelas mães. Conforme me escreveu na última
vez que nos comunicamos por e-mail, e conforme reiteradamente fala em público, Cecília
sente “muita vergonha de viver num país que tem um cadastro unificado de Veículos
Roubados e não tem de Pessoas Desaparecidas”. 134 Para Cecília e outros membros da rede,
entre policiais, gestores, mães de desaparecidos, servidores públicos e funcionários de
diferentes instituições, uma iniciativa prioritária para o enfrentamento do desaparecimento de
pessoas é a criação e o uso sistemático do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas por
todos os agentes que recebam comunicações de desaparecimentos, mas primordialmente por
policiais. A possibilidade de que veículos roubados sejam inscritos em sistemas de registro
que facilitam sua localização em todo território nacional, como ocorre no caso de Clóvis,
comparada à inexistência de bancos de dados semelhantes para pessoas desaparecidas, é uma
“vergonha”, na formulação de Cecília, e um argumento recorrente utilizado por membros da
ReDESAP em defesa do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas.

CLÓVIS
Clóvis nasceu em 1972 na Tijuca, onde ainda mora sua mãe, Manuelita. Já adulto, foi
viver no Andaraí com sua companheira Jaqueline e o filho do casal, que atualmente tem 16
anos. “Clóvis mede 1,87 metro, é branco, tem olhos verdes, é magro e tem cabelo liso bem
aparado e grisalho.”
Na noite de 3 de junho de 2004, Clóvis disse a Jaqueline que dormiria na casa de sua
mãe, onde chegou na hora do jantar. Lá, recebeu telefonema de um amigo de nome André, com
quem marcou um encontro em Vila Isabel. Foi então à casa de Robson, seu “vizinho e primo de
consideração”, morador da casa ao lado da de Manuelita, e tomou-lhe emprestada a
motocicleta, dizendo que “iria buscar a namorada em Vila Isabel”. Depois disso, Clóvis não foi
mais visto nem por Robson, nem por Jaqueline, nem por Manuelita.
Segundo Manuelita, tampouco André, o amigo com quem Clóvis teria saído, retornou
para casa, e a moto de Robson não foi devolvida, nem encontrada por ninguém. Diante disso,

134

Correspondência pessoal, de 11 de fevereiro de 2011. Vale esclarecer que ainda tramita no Congresso
Nacional o Projeto de Lei 207/2011, que cria o “Cadastro Nacional de Veículos Roubados” no Brasil. O PL
207/2011 é idêntico ao PL 3292/2008, que chegou a ser aprovado pelas Comissões de Segurança Pública e
Combate ao Crime Organizado, de Viação e Transportes, e de Finanças e Tributação, mas foi arquivado ao final
da última legislatura. O Cadastro vai reunir informações sobre veículos cujo furto ou roubo tenha sido registrado
em órgãos estaduais de Segurança Pública e em seus respectivos Sistemas de Roubos e Furtos de Veículos. A
Polícia Rodoviária Federal dispõe, não obstante, do “Sistema Alerta”, que visa à divulgação de furtos e roubos
de veículos nas primeiras 72hs passadas desde a ocorrência. Qualquer cidadão pode registrar um furto ou roubo
no “Sistema Alerta”, pela internet ou pelo telefone.

231

Manuelita foi à DP da Tijuca, em companhia de sua nora Jaqueline. Foi então confeccionado
RO de desaparecimento em nome de Clóvis, e a motocicleta de Robson foi incluída no Sistema
de Roubos e Furtos de Veículos do estado do Rio de Janeiro.
Dois dias depois, Robson, proprietário da moto, foi à mesma DP e relatou que
O irmão de Clóvis, Anderson, investigando aonde estaria o irmão, descobriu
a moto no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Não foi capaz de descobrir o
paradeiro de Clóvis. Acreditam que ele foi morto por bandidos dos Macacos.
A moto encontra-se em perfeito estado. E nada mais disse.

Em seguida, o registro da motocicleta foi retirado do Sistema de Roubos e Furtos, e o
caso de Clóvis, encaminhado para o SDP. Na justificativa dada para o encaminhamento, a
suspeita de que Clóvis teria sido morto no Morro dos Macacos foi ratificada pelo inspetor até
então responsável pelo caso e rubricada pela delegada titular da DP:
Até o presente momento, apesar dos esforços desse GI [Grupo de
Investigação], não foi possível localizar o nacional ou seu eventual cadáver.
Informo que pelas investigações acredito que o mesmo tenha falecido, mas
não foi possível a comprovação desse fato até o presente momento. Face o
exposto e em cumprimento à Resolução 513/91, sugiro a imediata remessa
do feito para o SDP da DH, uma especializada, a qual certamente terá
maiores condições e facilidades para elucidar o fato.

O caso chegou ao SDP em julho de 2004. Em abril do ano seguinte, ofícios solicitando
“que seja informado a este SDP, com a maior brevidade possível, o que consta registrado nos
arquivos desse órgão-instituição” foram enviados a sete destinos: o IML, o IFP, o DESIPE, a
POLINTER, a Santa Casa de Misericórdia e os hospitais Salgado Filho e Souza Aguiar. Todas
as instituições responderam aos ofícios com “nada constas”. Em dezembro de 2005,
finalmente, o caso foi arquivado como Sindicância Suspensa.135

Depois de algumas reuniões entre o comitê gestor da ReDESAP e a equipe da
SENASP responsável pela formulação do software, entre elas a que deu início à minha
participação mais ativa na rede, o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas foi lançado
oficialmente dia 26 de fevereiro de 2010, na Sala de Retratos no Ministério da Justiça. 136 No
lançamento pronunciaram-se o Secretário Nacional de Segurança Pública, um assessor do
Ministro da Justiça, o coordenador da Rede Infoseg, a Subsecretária de Promoção dos Direitos
da Criança e do Adolescente da SEDH/PR e a deputada federal que redigiu o Projeto de Lei
135

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 303/04 do SDP/DH.
A Lei 12.127 de 17 de dezembro de 2009, que cria o Cadastro juridicamente, foi sancionada em dezembro de
2009 pelo Presidente da República. O período em que tramitou no Congresso Nacional em forma de Projeto de
Lei foi utilizado pela equipe da SENASP para desenvolver o programa necessário e realizar reuniões com
gestores da SEDH e o comitê gestor da ReDESAP. Desse modo, pouco mais de dois meses separaram a data em
que a Lei foi sancionada e a solenidade de lançamento do Cadastro por ela criado.
136

232

que confere respaldo legal ao Cadastro, que em uníssono sublinharam sua importância para o
enfrentamento do desaparecimento. No impresso distribuído a todos os presentes, lê-se que
A ferramenta foi desenvolvida para acumular dados de desaparecimentos de
crianças, adolescentes, idosos e pessoas em geral no Brasil. Com isso,
espera-se a formação de uma rede nacional de investigação e
acompanhamento desse fato, envolvendo órgãos de Segurança Pública,
conselhos tutelares, entidades civis organizadas e unidades de assistência
social e de direitos humanos. (...) O Cadastro Nacional tem entre seus
objetivos definir uma política pública especial para o tratamento do tema,
não considerando o fato como crime. A iniciativa passará a envolver, além
das polícias, a rede de mobilização social. (SEDH, s/d)

A seguir (capítulo 5), detenho-me sobre o Cadastro Nacional de Pessoas
Desaparecidas e, a partir das controvérsias geradas em torno dele, discuto questões de
responsabilidade implicadas em sua formulação. Reflito, ainda, sobre aspectos da minha
participação em reuniões da rede, sobretudo as dedicadas ao Cadastro. Além disso, discuto os
limites de tipologias e classificações de casos de desaparecimento, remetendo ao quadro de
casos apresentado anteriormente (capítulo 2), e retomo a discussão sobre a importância dos
documentos no Brasil, presente em diferentes momentos dos capítulos anteriores.

233

Capítulo 5
Isso é coisa do destino:
Algumas formas escorregadias de classificação

DOMINGOS
Dia 9 de março de 2009, a enfermeira Clara, de 56 anos, dirigiu-se à delegacia mais
próxima de sua casa, no bairro da Abolição, para comunicar o desaparecimento de Domingos,
seu único sobrinho. Segundo a enfermeira, na tarde de 15 de fevereiro, Domingos saiu da casa
em que vivia, no bairro Engenho da Rainha, “sem destino certo”. Ele estava passando por
“problemas emocionais”, e foi visto pela última vez no município de Belford Roxo, na casa de
um primo a quem costumava visitar. Domingos tinha, na ocasião, 36 anos. Era solteiro e estava
desempregado.
Antes de ir à DP, Clara fez contato com amigos dele “e procurou por Domingos em
diversos hospitais, abrigos e necrotérios, mas não teve êxito em encontrá-lo.” Ao solicitar o
registro do desaparecimento, entregou à polícia um retrato do sobrinho. A fotografia foi
anexada ao RO, assim como o foram outros documentos posteriormente produzidos acerca do
desaparecimento. Esse conjunto de papéis compôs uma VPI que permaneceu por cerca de um
mês na DP e, em seguida, foi encaminhada ao SDP, onde passou a integrar Sindicância.
Dia 11 de junho de 2009, passados três meses da comunicação do desaparecimento,
Clara compareceu ao SDP. Informou a um dos cinco inspetores que trabalham no Setor que o
paradeiro de seu sobrinho já era conhecido, e disse estar ali “para oficializar o fato”. Em 27 de
março, Clara recebeu telefonema de uma conhecida informando que Domingos estava
internado em um abrigo e vinha sendo atendido em um centro psiquiátrico. Em suas
declarações, esclareceu que ele “desapareceu porque se encontrava deprimido, por ter sido
demitido, após trabalhar mais de 10 anos em uma universidade particular”. Prestadas essas
informações, Clara solicitou ao inspetor que lhe devolvesse a fotografia de Domingos anexada
aos registros, “por ser pertencente a um álbum de família.”
Dias depois, sem a fotografia, o caso foi arquivado no SDP.137

O vaivém do retrato de Domingos entre seu pequeno arquivo original, o “álbum de
família”, e as gavetas de arquivo de uma repartição policial, coloca em questão a distinção,
tantas vezes evocada no SDP, entre o que seriam “problemas de família” e “problemas de
polícia”. Elementos de seu desaparecimento, a fotografia, a demissão e a depressão de
137

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 018/08 do SDP/DH.

234

Domingos são parte tanto das memórias e do “álbum de família” de sua tia Clara, quanto das
“declarações” por ela prestadas na DP a que recorreu quando o sobrinho saiu “sem destino
certo”. O caso de Domingos, nesse sentido, não só pode ser inscrito tanto entre “problemas de
família”, quanto entre “problemas de polícia”, como também coloca em xeque a separação
entre essas searas e a determinação de uma curta rota unidirecional que sai das “famílias” e
chega à “polícia”. Ainda que policiais esforcem-se por distinguir aquelas searas, as idas e
vindas do retrato sugerem o quão frágeis são as fronteiras por eles delimitadas, e tornam
aparente que enredos de desaparecimento excedem seus registros documentais, vão e vêm
entre “famílias” e “polícia”, e seguem seu desenrolar mesmo depois de arquivados em
delegacias. Não foi sem razão, afinal, que Clara buscou restituir seu “álbum de família” e dele
apagar o rastro de vazio deixado pelo já solucionado desaparecimento de Domingos.
Como as posições de participantes de eventos da ReDESAP descritas anteriormente
(capítulo 4) descortinam, unidades como “a família”, “a polícia” e “o Estado” são
substancializadas em jogos de força nos quais responsabilidades são distribuídas. Mais do que
tomá-las como dados predeterminados, portanto, cabe encará-las como constructos retóricos,
buscando compreender os sentidos de sua delimitação e evocação. Se casos de
desaparecimento, como indica o retrato de Domingos, transitam entre universos supostamente
compreendidos por esses termos, importa perguntar a que se presta sua separação.
Na construção dos casos como ocorrências policiais (capítulos 2 e 3), a delimitação do
que seriam “problemas de família” permite a policiais desresponsabilizarem-se diante dos
desaparecimentos sem, contudo, deixar de registrá-los e arquivá-los. Situando desaparecidos e
demais “Envolvidos” nos desaparecimentos em posição de inferioridade, e construindo a
desimportância dos próprios casos que os enredam, policiais lidam com desaparecimentos
cotidianamente, fazendo aquilo que, também cotidianamente, afirmam que não deveriam
fazer. Ainda que o façam por meio de delegações, devolvendo às “famílias” as solicitações
por elas levadas a delegacias, policiais não deixam de atuar nos casos de desaparecimento.
Não obstante, muitas vezes atuam negando não só suas obrigações diante deles, mas também
o próprio título que lhes é dado. Não que busquem alterar o título e o destino de ocorrências
que, como vimos nos casos de Urbano e Elói, contêm relatos de assassinato e carbonização de
cadáveres. Antes, negam o título de alguns casos para encerrá-los e arquivá-los como
desaparecimentos, a despeito de contestarem essa classificação. O caso de Daniela, por
exemplo, foi suspenso e arquivado porque nas palavras do policial encarregado “o fato em
questão não trata de desaparecimento, uma vez que deve ter havido algum problema familiar”.
235

Afirmações como essa trazem em si, implicitamente, duas outras: primeiro, que há um tipo de
acontecimento que merece o título de desaparecimento e cuja investigação caberia à polícia;
segundo, que os casos que chegam às delegacias diariamente, como o de Daniela, não se
enquadram nesse tipo e, portanto, não demandam trabalho policial.
Já na construção do desaparecimento como problema social (capítulo 4), o emprego
dos termos “família”, “polícia” e “Estado” permite que grupos que se constituem em eventos
da ReDESAP agreguem outras faltas, passíveis de denúncia, à falta do desaparecido entre
aqueles que comunicam seus desaparecimentos em delegacias. Desaparecimentos acontecem,
conforme enunciados que circulam nos eventos da rede, porque não se pode contar com
“famílias” protetoras, nem com um “Estado” assistente, nem, tampouco, com uma “polícia”
sensível e competente. Projetando um cenário imaginário e estático de absoluta coesão social
e moral, agentes que participam de eventos da rede afirmam, mais ou menos implicitamente,
que caso essas três entidades se fizessem adequadamente presentes, pessoas também se fariam
sempre presentes em espaços geográficos e sociais com os quais construíram vínculos ao
longo de suas vidas. Desse modo, tanto na construção do desaparecimento como singular
problema social, quanto na formulação de casos plurais como ocorrências policiais, evocar a
“família”, a “polícia” e o “Estado” significa delimitar unidades e a elas associar capacidades e
obrigações de ordenação, controle e intervenção no mundo social ou, por outro lado, isentálas de responsabilidades quanto à gestão e prevenção do desaparecimento de pessoas.
O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, iniciativa que congrega agentes
envolvidos com desaparecimento de pessoas e foi formulada, em conjunto, pelo comitê gestor
da ReDESAP e uma equipe da SENASP, também coloca em cena processos de atribuição e
isenção de responsabilidades. Contudo, em torno do Cadastro as unidades às quais são
associadas obrigações em relação ao desaparecimento correspondem a recortes de áreas
temáticas da administração pública: as searas da segurança pública, da assistência social e dos
direitos humanos. Antes mesmo que fosse lançado e até o presente momento, quando ainda
não está em pleno funcionamento, o Cadastro é alvo de duas dúvidas centrais: A quem deve
caber sua gestão? Que instituições poderão preenchê-lo e consultá-lo? Tais interrogações
suscitam debates sobre a natureza do desaparecimento de pessoas que, por um lado, remetem
a reflexões de policiais do SDP, mas, por outro, delas se diferenciam. Enquanto no SDP
evoca-se a oposição “problemas de família” versus “problemas de polícia”, entre os agentes
dedicados ao Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas paira a seguinte pergunta: o
desaparecimento, afinal, é questão de segurança pública ou de assistência social?
236

Em linhas gerais, a equipe dedicada ao Cadastro responde a essa indagação
sustentando que é possível e premente distinguir, no heterogêneo universo dos
desaparecimentos, casos que são “questão de segurança pública” e casos que são “questão de
assistência social”. Compreendendo ambos os tipos, o problema do desaparecimento é, a um
só tempo, questão tanto de segurança, quanto de assistência. O crucial, para esses agentes, é
discernir quais casos inscrevem-se na primeira seara, e quais, na última. Nesse sentido, a
plataforma de dados em que consiste o Cadastro demanda que todo desaparecimento nele
registrado seja classificado no próprio ato do registro. Se nas repartições policiais os casos são
intitulados, indiferenciadamente, “Fato atípico – Desaparecimento (Outros)”, o Cadastro
Nacional de Pessoas Desaparecidas apresenta um leque de possibilidades de especificação
desse título comum. Todos os casos são registrados como desaparecimentos, como se
desaparecimento fosse um gênero de acontecimento, mas é necessário determinar a espécie de
desaparecimento em que cada caso consiste. Às espécies constitutivas desse leque são
associadas, de modo excludente, instituições que devem responsabilizar-se por cada caso: ou
instituições de segurança pública, ou instituições de assistência social.
Apoiando-me em reuniões dedicadas à formulação do Cadastro, no presente capítulo
reflito sobre as (im)possibilidades e os efeitos da classificação de casos de desaparecimento
como a proposta pelo Cadastro. A partir dessa reflexão, discuto alguns aspectos e dilemas da
minha crescente participação na ReDESAP. Se o etnógrafo deve responder a seu campo de
estudo, sendo o próprio texto etnográfico uma modalidade de resposta (Riles, 2006, p.24),
minha relação com membros da rede e participação na formulação do Cadastro Nacional de
Pessoas Desaparecidas demandou respostas de outra ordem, sobre as quais teço algumas
considerações. Como nos adverte Pacheco de Oliveira (2004), paira em nosso campo
disciplinar certa “crítica latente a uma postura ativa e militante registrada em estudos
antropológicos que focalizam as políticas públicas” (2004, p. 17). Enfrentá-la demanda, por
um lado, compreender a pluralidade característica do fazer etnográfico; por outro, reconhecer
a dimensão política intrínseca a esse fazer, sempre dialógico e situacional. Instada por essa
advertência, e sem qualquer pretensão de esgotar a questão, pondero a respeito das trocas e
expectativas (minhas e de meus interlocutores) implicadas na singular situação etnográfica
forjada por minha presença na ReDESAP.

237

5.1 Sem destino certo
Desde o primeiro evento da rede em que estive presente, o II Encontro Nacional, ouvi
pronunciamentos entusiasmados sobre o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas.
Congregando os grupos dos gestores, das mães de pessoas desaparecidas e dos policiais, além
de outros participantes dos eventos da ReDESAP, a necessidade de implementar o Cadastro,
superando o obsoleto website “desaparecidos.mj” e oferecendo uma ferramenta nacional para
registros e consultas de casos de desaparecimento, comparece em falas de membros e não
membros da rede como uma urgência indisputada. O Cadastro funcionaria como checkpoint
(Jeganathan, 2004), ao qual instituições autorizadas necessariamente recorreriam para
divulgar casos e averiguar registros. Diferente de outros checkpoints como os que policiais do
SDP investigam por meio de Ofícios, a exemplo dos arquivos de IMLs e de hospitais
públicos, o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas reuniria somente dados sobre
pessoas desaparecidas, tendo escopo limitado, mas englobaria registros de casos ocorridos em
todo território nacional, o que é visto na ReDESAP como seu maior ganho.
A ferramenta tão desejada por membros e não-membros da rede não visa a
desencadear processos de busca de desaparecidos ou atendimento de comunicantes. Antes,
pretende constituir um banco centralizado de informações sobre casos que, por um lado,
permitirá a checagem de registros feitos em diferentes unidades da federação, e, por outro,
será a primeira base de dados nacional sobre desaparecimento de pessoas, a partir da qual
estatísticas e estimativas serão produzidas. Superando ou, para usar o termo de Souza Lima
(1995) e Scott, Theranian & Mathias (2002), conquistando os parcos, dispersos e
fragmentados conjuntos de dados sobre desaparecimento disponíveis no Brasil, espera-se que
o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas seja capaz de promover o tipo de unificação de
que fala Bourdieu (1996a) a respeito do poder de Estado:
O Estado concentra a informação, que analisa e redistribui. Realiza,
sobretudo, uma unificação teórica. Situando-se do ponto de vista do todo, da
sociedade em seu conjunto, ele é o responsável por todas as operações de
totalização, especialmente pelo recenseamento e pela estatística ou pela
contabilidade nacional, pela objetivação, por meio da cartografia (...), e de
codificação, como unificação cognitiva que implica a centralização e a
monopolização em proveito dos amanuenses ou dos letrados. (Bourdieu,
1996a, p.105)

Policiais e mães de desaparecidos costumam destacar a relevância da possibilidade de
checagem de casos registrados em todo o país, enfatizando que pessoas desaparecidas podem
238

facilmente ter se dirigido ou sido levadas a regiões distantes dos locais de onde saíram.
Acreditam, nesse sentido, que a unificação a ser promovida pelo Cadastro garantirá que a
integralidade territorial do país seja capturada e diretamente traduzida em registros de casos
de desaparecimento ocorridos em quaisquer localidades. Gestores, por sua vez, costumam
enfatizar que o grande ganho a ser propiciado pelo Cadastro é a produção, a médio e longo
prazo, de números e estatísticas confiáveis sobre o fenômeno. Estatísticas acuradas, para os
gestores, são imprescindíveis para que políticas públicas que previnam e combatam o
problema do desaparecimento sejam bem delineadas e direcionadas.
Tanto a ênfase no alcance nacional da ferramenta, quanto o destaque da possibilidade
dos dados nela registrados converterem-se em números, porcentagens e políticas públicas
eficazes no enfrentamento do problema, aproximam o Cadastro de outras técnicas e
procedimentos estatizados de identificação, cadastramento e representação de pessoas,
populações e territórios, como por exemplo recenseamentos demográficos e plotagens
cartográficas. Como chama atenção Souza Lima (1998), a propósito da identificação de terras
indígenas no Brasil, tais técnicas e procedimentos inscrevem dados, propriedades e
populações em sistemas apreensíveis apenas em largas escalas, que escapam aos indivíduos e
fabricam, à guisa de representar, a totalidade do território e da população nacionais. Os
produtos dessas técnicas, entre mapas, censos e cadastros como o Cadastro Nacional de
Pessoas Desaparecidas, são encarados como representações puras e isentas da realidade.
Em paralelo à defesa unânime do Cadastro, independente das ênfases de elementos
distintos feitas por diferentes agentes, também desde o II Encontro Nacional tomei contato
com a dúvida compartilhada pelos membros e não membros da ReDESAP presentes em seus
eventos: a gestão da ferramenta deveria ficar a cargo da Secretaria Especial de Direitos
Humanos (SEDH), coordenadora da ReDESAP, ou no Ministério da Justiça (MJ), em cujo
organograma está inscrita a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP)? Como
afirmado no capítulo anterior, o software que dará base à ferramenta foi desenvolvido por
equipe da SENASP responsável pela Rede INFOSEG, sistema que abrigará o Cadastro. A
Rede INFOSEG, também mencionada anteriormente, é o sistema informatizado de integração
de dados disponível, hoje, aos agentes de polícia e justiça brasileiros. Se o Cadastro Nacional
de Pessoas Desaparecidas reúne esforços e desejos de membros da ReDESAP, o que
justificaria sua gestão pela SEDH, ao mesmo tempo é fruto de trabalho da equipe da SENASP
e é por ela melhor e mais minuciosamente conhecida, daí a controvérsia. A Figura 1
sistematiza essas informações.
239

Figura 1: Situando o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas

Não obstante, ao longo das reuniões do comitê gestor da ReDESAP e entre ele e a
equipe da SENASP, pude notar que algo mais além dos órgãos e redes envolvidos na
formulação do Cadastro está contido na indagação sobre sua gestão. Do ponto de vista dos
membros do comitê, responsabilizar a SENASP pela administração da ferramenta significa
inscrever o desaparecimento na área temática da segurança pública, e correr o risco de delegálo exclusivamente a policiais. Isso equivaleria a desconsiderar “casos de desaparecimento que
não são questão de segurança, e sim de assistência social”, como diz o delegado Lauro,
integrante do comitê. Do ponto de vista do delegado e dos demais membros do grupo gestor, é
possível especificar casos de desaparecimento, distinguindo aqueles que são “questão de
segurança pública” dos que são “questão de assistência social”. Os primeiros caberiam à
polícia; os últimos demandariam atuação de conselheiros tutelares e assistentes sociais.
Partindo da premissa de que o conjunto total de casos engloba ambos os tipos, os
integrantes do comitê defendem que a gestão do Cadastro não seja delegada à SENASP, e sim
à SEDH/PR – órgão governamental máximo de promoção e defesa dos direitos humanos no
Brasil. Ao fazê-lo, parecem afirmar que a área dos direitos humanos, circunscrição da
SEDH/PR, é vasta e englobante, capaz de acomodar demandas, políticas e “questões” as mais
variadas, ao passo que a área da segurança pública, circunscrição da SENASP, não o é.
Confirmam, nesse sentido, que “os direitos humanos em sua forma abstrata e
240

descontextualizada pouco significam” (Fonseca e Cardarello, 2009, p.220), e que seus usos e
traduções práticas respondem a relações de poder, interesses e contextos históricos
específicos.
Além de defender que a gestão da ferramenta fique a cargo da SEDH/PR, para garantir
que o Cadastro não engendre a inscrição automática e equivocada de todo caso de
desaparecimento na área da segurança pública, o comitê gestor da ReDESAP defende, desde
suas primeiras reuniões com a equipe da SENASP, que o registro e a checagem de casos na
ferramenta sejam feitos não apenas por policiais, mas também por outros agentes que lidam
com desaparecimentos. Embora o Cadastro esteja abrigado na Rede INFOSEG, acessada
exclusivamente por agentes de polícia e justiça, a demanda do comitê é que conselheiros
tutelares, servidores de órgãos de assistência social e direitos humanos e funcionários de
ONGs também possam manuseá-lo. Essa demanda foi acatada pela equipe da SENASP,
guardados os seguintes procedimentos: servidores e funcionários de instituições não-policiais
precisariam de autorização expressa para acessar o Cadastro, e seu acesso seria apenas ao
Cadastro, e não à Rede INFOSEG como um todo; tal autorização ficaria a cargo da SEDH,
que manteria sempre atualizada a lista das instituições com acesso à ferramenta. Assim, os
usuários autorizados a registrar e checar casos no Cadastro, ao todo, seriam servidores de
órgãos de polícia e justiça que acessam a Rede INFOSEG, e também servidores e
funcionários de instituições governamentais e não-governamentais cadastradas pela SEDH.
Não obstante, outra demanda foi colocada pelo comitê gestor da rede para a equipe da
SENASP: a necessidade de se manter “um canal de comunicação de casos aberto ao cidadão”,
como formula uma gestora da SEDH/PR. “O cidadão”, nesse caso, é alguém que, como ouvi
da assistente de Ciro, não possui vínculo (de servidor) com a administração pública, nem é
funcionário de qualquer das instituições, governamentais e não-governamentais, autorizadas
pela SEDH/PR a manusear o Cadastro. Para gestores da Secretaria, tão importante quanto
instituir o Cadastro é permitir que “o cidadão” possa ser por ele beneficiado. Diante dessa
demanda, tantas vezes repisada por gestores da SEDH/PR, ficou decidido que o website
“desaparecidos.mj” continuará ativo e aberto a qualquer pessoa que deseje reportar um
desaparecimento, a despeito do fato de que desde seu lançamento, em 2002, ele nunca foi
sistematicamente preenchido. Para que casos registrados no website passem a constar no
Cadastro Nacional, será necessário que alguma das instituições cadastradas pela SEDH/PR ou
algum órgão com acesso à Rede INFOSEG os valide. Em outras palavras, é imprescindível
que a veracidade do caso seja atestada por alguém com vínculo com a administração pública,
241

o que traz para o Cadastro a lógica cartorial (Paes, 2008) (Miranda et al, 2010) vigente em
delegacias, discutida anteriormente (capítulo 2). Até a última reunião do comitê gestor em que
estive presente, em maio de 2010, não haviam sido tomadas quaisquer decisões sobre esse
processo de validação.
Independente da questão da validação, e apesar do objetivo expresso do comitê gestor
de que desaparecimentos não sejam vistos somente como “questão de segurança pública”,
uma decisão atribuindo papel primordial à polícia foi tomada ao longo das reuniões em torno
do Cadastro: tanto casos registrados pelo “cidadão” no website, quanto aqueles inseridos por
instituições autorizadas no Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas deveriam,
necessariamente, ser antes registrados em delegacias. Nesse sentido, foi reiteradamente
frisado nas reuniões, tanto por membros do comitê gestor, quanto pela equipe da SENASP,
que registros no website e no Cadastro não substituem nem anulam a importância do Registro
de Ocorrência feito em DPs. Ao contrário, o Registro de Ocorrência é condição para a
inclusão de casos em ambas as ferramentas. Isto é, tanto quanto a equipe da SENASP, os
membros do comitê gestor defendem a inescapável relevância do registro feito em repartições
policiais para todo e qualquer caso de desaparecimento. Ao fazê-lo, porém, fortalecem a
possibilidade que mais temem: que desaparecimentos sejam encarados exclusivamente como
“questão de segurança pública”.
Para contornar essa possibilidade, além de buscar assegurar acesso ao Cadastro para
servidores e funcionários de instituições não-policiais, os membros do comitê gestor da rede
dedicaram grande parte do tempo de suas reuniões a especificar tipos de desaparecimento,
distinguindo entre eles os que são “questão de assistência social” e, por oposição, os que
devem ficar exclusivamente a cargo de policiais. A partir de sugestões do comitê,
fundamentadas, por um lado, em preocupações comuns a seus membros, e, por outro, nas
experiências particulares dos três delegados de polícia que o integram, o Cadastro Nacional de
Pessoas Desaparecidas, na forma como foi lançado oficialmente, demanda que cada caso nele
registrado seja classificado como um de seis tipos de desaparecimento, assim explicitados no
manual de uso da ferramenta:

Desaparecimento enigmático de pessoa – Para os casos de
desaparecimento onde não se tem qualquer tipo de relacionamento inicial
entre circunstâncias e motivação;
Afastamento/abandono do convívio familiar – Para os casos onde há
relatos de desaparecimento por afastamento do núcleo familiar por diversos
motivos, devendo-se relatar também casos anteriores e/ou ameaças de fuga
do lar;
242





Evasão de custódia legal – Para casos onde a pessoa, menor ou não, deveria
estar em local de custódia e deste fugiu ou evadiu;
Subtração por familiares – Para os casos onde se reconhece que um dos
pais ou familiar está de posse da pessoa sem o conhecimento ou
consentimento do outro pai ou familiares;
Cooptação para práticas criminosas – Para os casos onde há relatos ou
evidências que o desaparecimento está relacionado à fuga para atividades
criminosas;
Seqüestro – Para os casos onde a pessoa foi subtraída contra a sua vontade e
mantida em cárcere, tipificado como seqüestro;
Vítimas de calamidades, intempéries e acidentes – Para os casos onde a
pessoa tem circunstância de desaparecimento relacionada a calamidades ou
acidentes bem como eventos da natureza ou decorrentes desses, como
enchentes, desmoronamentos, outros. (MJ, 2010, p.20)

Não foram poucas as ocasiões em que membros do comitê gestor da ReDESAP
referiram-se ao primeiro tipo de desaparecimento listado no Cadastro como “o verdadeiro
desaparecimento”. O chamado “desaparecimento enigmático de pessoa”, único dos tipos
designado a partir do termo desaparecimento, é encarado pelos integrantes do comitê como “o
desaparecimento mesmo, aquele caso que precisa de polícia”, como tantas vezes ouvi Ciro
dizer. Da perspectiva do comitê, o “seqüestro” e a “cooptação para práticas criminosas”,
embora também demandem trabalho policial, não são “desaparecimentos mesmo”, assim
como tampouco o são o “afastamento/abandono de convívio familiar”, a “evasão de local de
custódia legal” e a “subtração por familiares”. Estes últimos demandam, do ponto de vista dos
integrantes do comitê, serviços de assistência social, e não trabalho policial - ainda que, como
todos os tipos listados no Cadastro, devam inicialmente ser comunicados em delegacias. Já
“vítimas de calamidades, intempéries e acidente” compreendem casos que demanda
fundamentalmente a atuação de Corpos de Bombeiros, Defesa Civil e outros servidores
públicos, além de também deverem ser registrados em DPs.
Ao mencionar a obrigatoriedade do registro em delegacia, o próprio manual de uso do
Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas indica, de modo sutil, que o chamado
“desaparecimento enigmático de pessoa” é “o verdadeiro desaparecimento”, que necessita de
investigação policial, ao passo que os outros cinco tipos são ocorrências registradas como
desaparecimentos, mas que não demandam, ao menos não necessariamente, nem mesmo o
registro em delegacia:
O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas não substitui os ritos legais e
tradicionalmente conhecidos como o registro da ocorrência nos órgãos
policiais, mas sim complementa essas ações. A obrigatoriedade do Registro
243

de Ocorrência, especialmente nos casos de desaparecimento enigmático,
permanece. (MJ, 2010, p.10)

Classificar, como nos ensina o clássico artigo de Durkheim & Mauss (2001), “não é
apenas constituir grupos: é dispor estes grupos segundo relações muito especiais” (2001,
p.403), que decorrem não de supostas características intrínsecas do que é classificado, mas
dos princípios segundo os quais grupos são constituídos. Diante de classificações
sistemáticas, é preciso nos perguntarmos sobre esses princípios, tanto quanto é necessário
compreendermos os efeitos de hierarquização e totalização por eles engendrados. Atentar para
essas dimensões da função classificadora em face dos tipos de desaparecimento listados no
Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas torna especialmente nítida a distinção do
“desaparecimento enigmático de pessoa” em relação aos demais. Esse, que encabeça a lista, é
o “verdadeiro desaparecimento”, único que não pode prescindir da atuação da polícia.
Conforme pude compreender nas reuniões do comitê gestor, o destaque do “verdadeiro
desaparecimento” na classificação oficializada pelo Cadastro implica menos situá-lo em
posição hierarquicamente superior em relação aos demais, e mais separá-lo de todos os outros.
Circunscrevendo contornos tentativamente fixos que apartam “o desaparecimento mesmo,
aquele caso que precisa de polícia” de acontecimentos que demandam outros tipos de serviço,
membros do comitê buscam realizar algo semelhante ao que Clara, a tia de Domingos, fez no
SDP: retirar o que consideram “pertencente a um álbum de família”, como o retrato do
desaparecido, das repartições e responsabilidades policiais. Para os integrantes do comitê, o
desaparecimento de pessoas é tanto “questão de segurança pública”, quanto “questão de
assistência social”. Isso não significa, todavia, que os casos inscrevam-se nas duas searas. Ao
contrário, cada caso é visto como exclusivamente uma ou outra dessas “questões”. Em suma,
a separação do “desaparecimento mesmo” em relação aos demais tipos visa não a destacar
como mais importantes casos que demandam atuação policial, e sim a depurar outros casos,
que não necessariamente devem passar por delegacias, retirando-os de antemão da
possibilidade de “precisar de polícia”.
A preocupação central de Ciro, que esteve à frente da ReDESAP e do comitê gestor
durante a maior parte do meu período de pesquisa, era que “famílias” de crianças e
adolescentes que fogem de suas casas não tenham que passar pelo mau atendimento que
enfrentam em delegacias. Para gestores como Ciro, conforme explicitei anteriormente
(capítulos 1 e 4), desaparecimentos consistem em casos de fuga do lar, e “famílias” são
vítimas do processo de deterioração de relações que provoca desaparecimentos. Ao dirigirem244

se a delegacias, para Ciro, “famílias” e familiares de desaparecidos arriscam-se a ser acusados
e criminalizados por comportamentos de seus filhos que seriam mais bem conduzidos e
geridos em outros órgãos e repartições, notadamente Conselhos Tutelares, órgãos de
assistência social e serviços de SOS Crianças Desaparecidas. Essa preocupação do gestor,
compartilhada por outros membros do comitê, está na base da formulação dos tipos de
desaparecimento listados no Cadastro.
Ocorre que a obrigatoriedade do Registro de Ocorrência para que casos, seja de que
tipo forem, sejam inseridos no Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, borra as
fronteiras com que os membros do comitê gestor buscam apartar o “desaparecimento
verdadeiro” dos demais. Ainda que defendam que somente estes sejam necessariamente
tratados por policiais, ao determinar que todos os casos inscritos no Cadastro sejam, antes,
objeto de ROs, membros do comitê dificultam a consecução de seus próprios objetivos.
Afinal, mesmo casos “de assistência social” passariam por repartições policiais, transitando,
tal qual o retrato de Domingos, entre as searas que os tipos de desaparecimento listados no
Cadastro supõem passíveis de separação.
A confecção do RO é encarada no comitê gestor da rede como algo inevitável. Como
costuma dizer o delegado Lauro, que já utiliza os tipos oficializados no Cadastro para
classificar casos registrados na DP de que está à frente, “não adianta, a delegacia está aberta
24 horas por dia, 7 dias na semana. É na nossa porta que as pessoas vão bater e a gente tem
que atender.” Para o delegado, o trabalho policial não só alcança, idealmente, a integralidade
de corpos e territórios (capítulo 3) inscritos em sua “circunscrição”, como também está
sempre ativo e disponível. Ecoando as primeiras palavras que ouvi do inspetor Fernando no
SDP, para o delegado Lauro o traço diacrítico das delegacias de polícia em relação a outras
repartições públicas é o fato de que “a porta fica aberta” o dia todo, todos os dias da semana.
Em função disso, independente de se enquadrarem ou não no tipo de desaparecimento que
cabe à polícia, o chamado “desaparecimento enigmático de pessoa”, todos os casos seguem e
seguirão sendo reportados em delegacias.
Resignando-se diante disso, o delegado defende que, ao registrarem ocorrências que
não sejam de “desaparecimento mesmo”, policiais encaminhem os comunicantes a órgãos e
instituições “de assistência social” a que devem ser delegados outros tipos de casos. Desse
modo, defende que as rotinas percorridas por ocorrências de desaparecimento permaneçam
basicamente as mesmas descritas anteriormente (capítulo 2). Afinal, de sua perspectiva,
policiais devem registrar relatos, solicitações e queixas na forma de ocorrências de
245

desaparecimento, mas isso não necessariamente implica que devam responsabilizar-se por
investigá-las e por prestar atendimento aos comunicantes. Com isso, o delegado sustenta que
casos permaneçam sendo delegados, além de instituições como CTs e órgãos de assistência
social, às próprias “famílias” de desaparecidos, como são atualmente. Diante desse quadro, a
novidade proporcionada pelo Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas é que tais
delegações passam a ter fundamento não só na distinção entre “problemas de família” e
“problemas de polícia” efetuada por policiais, mas também nos tipos de desaparecimento
discernidos e oficializados pela ferramenta.

5.2 Mas com tudo arrumado
Analisando operações institucionais de classificação e produção de categorias,
Douglas (2007) sustenta que classificar implica colocar aquilo que é rotulado fora da
possibilidade de análise e crítica, situando-o em um plano abstrato. “Os rótulos estabilizam o
fluxo da vida social e até mesmo criam, até certo ponto, as realidades a que eles se aplicam.”
(Douglas, 2007, p.107). Bem representados pelo vaivém do retrato de Domingos entre o
“álbum de família” e os arquivos policiais, casos de desaparecimento transitam entre searas
instituídas como unidades de responsabilidade e áreas temáticas estanques e apartadas. Desse
modo, a estabilização promovida por tipos de desaparecimento como “desaparecimento
enigmático de pessoa” é um exercício de abstração que responde a tentativas, defendidas pelo
comitê gestor da ReDESAP, de caracterizar casos particulares ou como “questão de segurança
pública”, ou como “questão de assistência social”. Como toda operação institucional de
classificação, contudo, essas tentativas retiram os casos de desaparecimento que enquadram
exclusivamente em uma ou outra “questão” da possibilidade de análise.
Não é apenas o fluxo entre unidades de responsabilidade e áreas temáticas ou
“questões” supostamente apartadas que a distinção de tipos de desaparecimento estabiliza e
abstrai. A própria nomeação de múltiplos relatos, comunicações e solicitações que circulam
entre cidadãos e policiais como desaparecimento é, por si só, um exercício de estabilização e
abstração de fluxos, sobretudo, de informação. Se abrirmos gavetas de arquivo como as do
SDP, sob o título “Fato Atípico – Desaparecimento (Outros)” encontramos reputações,
conselhos, compromissos, relações de dependência e exibição de controle sobre corpos e
territórios formulados e encerrados no interior de pastas documentais que fazem deles
artefatos constitutivos de casos de desaparecimento (capítulo 3). O conteúdo daquelas
246

gavetas, afinal, consiste em maços de papéis carregados de registros pouco precisos que só
podem ser lidos como casos dotados de enredos ordenados se sobre eles debruçarmos um
olhar interessado em assim construí-los. Não obstante, tudo o que ali se encontra arquivado
em pastas individuais, por mais fragmentado, heterogêneo e repleto de intencionalidades que
seja, recebe o único e mesmo título de desaparecimento de pessoa.
Considerando essas reflexões, vejamos os desaparecimentos de Quincas e Belmiro.

QUINCAS
Dona Inácia e Dona Neusa,
Desculpem estar dizendo essas palavras, mas eu estou sem destino, mas sei
que a minha vida vai ser um inferno saindo dessa casa, nunca encontrei duas
pessoas que gostassem tanto de mim, vocês sabem que eu não sou maluco,
isso é coisa do destino, peço muitas desculpas de estar saindo dessa maneira,
não sei para onde vou, mas peço, por favor, guardem todos os meus
documentos para mim, por favor.
Quincas.
Pelo menos um bilhete eu deixei pra você.

As irmãs Neusa e Inácia dividem a mesma casa, na Tijuca, e há algum tempo
emprestavam a casa dos fundos de seu terreno para “o Sr. Quincas Cordeiro, que estava
fazendo um tratamento psiquiátrico no Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB)”. Dia 12 de
outubro de 2006, por volta do meio-dia, Neusa foi procurar pelo Sr. Quincas para convidá-lo
para almoçar com ela e a irmã, mas não o encontrou. Ao entrar na casa por ele habitada,
deparou-se com o bilhete acima transcrito.
No dia seguinte, portando o bilhete, um cartão do IPUB em nome dele e duas
fotografias do Sr. Quincas, Inácia foi à 19ª DP. Relatou a um inspetor o ocorrido no dia
anterior, e o agente produziu um RO de desaparecimento. Dois meses depois, o registro, o
bilhete, o cartão do IPUB e as fotografias do Sr. Quincas foram encaminhados ao SDP.
Em janeiro de 2007, pouco mais de um mês depois de recebido no Setor, o caso foi
arquivado como Sindicância Solucionada. Naquele mesmo mês, “foi feito contato com a Sra.
Neusa, através do telefone, tendo esta informado que o procurado já retornou para casa”.138
BELMIRO
Segundo a comunicante, seu marido Belmiro de Carvalho, guarda municipal
e dependente químico em tratamento médico, saiu de casa em Paquetá, dia
16/03/08, sem dar notícias. Que ultimamente ele andava em crise e teria sido
visto pela última vez reclamando muito da vida e dizendo que estava de saco
cheio e que iria “descacetar” (sumir, desaparecer). Segundo a comunicante
ele andava muito agressivo, parou de fazer barba e cabelo e de se cuidar,
mas antes de sair levou sua carteira de guarda, cartões de benefícios do
138

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 004/07 do SDP/DH. O desaparecimento de
Quincas foi objeto de menção no capítulo 3.

247

INSS, cartão bancário e um pequeno álbum de fotos. Que veio registrar o
fato a pedido da perícia da guarda municipal, já que ele teria que se
apresentar para exame periódico.

Dia 19 de março de 2008, a professora de educação infantil Sílvia foi à 37ª DP, na Ilha
do Governador, comunicar o desaparecimento de seu marido Belmiro, guarda municipal.
Atendida por um inspetor de polícia, Sílvia relatou o que se passara a Belmiro e as razões que a
levaram àquela repartição policial. De seus relatos, resultou o texto acima, integralmente
transcrito da descrição da “dinâmica do fato” contida no RO de desaparecimento do guarda.
Nos três meses seguintes, três mandados foram enviados para Sílvia, intimando-a a
comparecer à DP para “levar fotografia do desaparecido e prestar esclarecimentos”. Sílvia,
contudo, não atendeu aos mandados. Em julho de 2008, o caso foi encaminhado para o SDP.
No Setor, o único registro produzido foi um relatório, no qual o inspetor encarregado
do caso solicitou seu arquivamento como Sindicância Solucionada. No documento, o policial
afirma que telefonou para o número registrado no RO e foi atendido por Fernanda, “sobrinha
do procurado, tendo sido informado que seu tio já retornou para o lar”.
Dia 3 de outubro de 2008, o caso de Belmiro foi arquivado no SDP.139

Partir da casa das pessoas que por ele tiveram mais apreço ao longo de sua vida é, para
Quincas, “coisa do destino”. Por um lado, trata-se de uma sina, algo inelutável, que ele faz
não por ser “maluco”, mas por não enxergar alternativa. Ele sabe que a vida será “um inferno”
longe das irmãs que o abrigam, mas ainda assim decide partir. Ao mesmo tempo, para
Quincas partir é também uma ingratidão, da qual ele deve se desculpar ante Neusa e Inácia e
“pelo menos” notificá-las por meio de um bilhete. Já do ponto de vista de Inácia, a partida de
Quincas é algo que deve ser reportado à polícia. Por isso, na delegacia, a partir da interação
entre ela e o policial que a atende, o que para Quincas é “coisa do destino” e ingratidão resta
registrado como desaparecimento. É sob esse título, aliás, que a sina de Quincas pode ser
conhecida, hoje, por quem quer que se aventure pelos arquivos do SDP.
Aos 38 anos, o guarda municipal Belmiro também decidiu partir. Diferente de
Quincas, não deixou bilhete desculpando-se por isso, embora tenha anunciado suas intenções
quando foi “visto pela última vez reclamando muito da vida, e dizendo que estava de saco
cheio, que iria „descacetar‟”. Diferente de Inácia, Sílvia, esposa de Belmiro, não julgou que a
partida do guarda devesse ser registrada em repartição policial. Entretanto, por ser servidor
público, Belmiro “teria que se apresentar para exame periódico” e ausentar-se dessa obrigação
certamente incidiria sobre seu vínculo (de servidor) com a administração pública municipal.
139

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 187/08 do SDP/DH.

248

Aí sim, diante da obrigação do exame a ser feito por seu marido, Sílvia decidiu dirigir-se à
delegacia. Lá, assim como ocorreu à partida de Quincas, a decisão de “descacetar” tomada por
Belmiro foi registrada como desaparecimento, a partir do encontro entre Sílvia e o agente de
polícia. Na ocasião, o próprio termo relatado por Sílvia como tendo sido usado pelo guarda
municipal, “descacetar”, foi traduzido como “sumir, desaparecer”.
Ainda que o termo desaparecimento, em seu emprego como título de registros de
ocorrência, busque traduzir expressões relatadas por comunicantes ou redigidas por
desaparecidos, há que se ressaltar que muito se perde nessa tentativa de tradução. A força
expressiva do que Quincas escreve (“isso é coisa do destino”) e do que Belmiro diz (“que
estava de saco cheio e iria „descacetar‟”) parece se esvair no uso indiferenciado do termo
desaparecimento face aos dois casos. Se rótulos, como afirma Douglas (2007), visam a
estabilizar o fluxo da vida social, casos como o de Quincas e Belmiro explicitam algumas das
torrentes de pensamentos e atos que o rótulo desparecimento parece estabilizar, sugerindo o
quão vastos e dinâmicos são os fluxos por ele tentativamente capturados, e o quanto pode ser
perdido nessa tentativa de captura.
Se toda classificação operada por instituições implica a produção de rótulos que
estabilizam fluxos (Douglas, 2007, p.105), as vastas e dinâmicas “coisas do destino”
designadas indiferenciadamente como desaparecimentos não só confirmam essa premissa,
como são especialmente reveladoras de sua validade. Relembrando falas de Cecília que
recuperei antes (capítulo 2), “o desaparecimento é a quebra da rotina. É quando as coisas
fogem do hábito, do comum”. Fugindo daquilo que, por princípio, é ordenado – a rotina – o
desaparecimento pode ser definido, e assim o é por Cecília, como uma ruptura, um
desmanche, enfim, uma desestabilização extraordinária da ordem. Nesse sentido, se todo
rótulo tenta conter variações, fluxos e dinâmicas conferindo-lhes estabilidade, no emprego do
termo desaparecimento vemos o paroxismo disso: tentativas de estabilizar, ao menos no plano
lógico, o que é experimentado como ruptura, ainda que momentânea, da própria estabilidade.
Mas voltemos aos desaparecimentos de Quincas e Belmiro. No bilhete que deixa para
Neusa e Inácia, Quincas afirma que não sabe para onde vai, e em seguida pede que Neusa e
Inácia guardem todos os seus documentos. Mesmo que ele esteja “sem destino”, quer
assegurar-se do destino de seus papéis, e por isso pede que as irmãs cuidem deles. Já Belmiro,
embora estivesse desleixado, deixando de “fazer barba, cabelo e de se cuidar”, fez questão de
“descacetar” levando consigo sua carteira de guarda, seus cartões do INSS (Instituto Nacional
do Seguro Social) e seu cartão de banco, além de um álbum de fotografias.
249

A importância conferida aos documentos pelos dois desaparecidos no ato de suas
partidas aponta o caráter estabilizador assumido não mais pelo termo desaparecimento, mas
pelos documentos e papéis oficiais que circulam e atestam identidades, propriedade e direitos
no contexto dos Estados-nacionais. Contrastando com a ruptura da ordem rotineira em que
consiste o desaparecimento de uma pessoa, documentos em nome dela fixam-na e conferemlhe estabilidade. Estabilidade, aí, certamente não implica imobilidade. Ao contrário,
comparece em muitos casos como condição para que desaparecidos que partiram “sem
destino certo”, como Domingos, exerçam sua errática mobilidade. Basta lembrarmos o caso
de Vicente, que vive perambulando pela rodovia onde possui sítio, e que causa especial
preocupação em seus filhos e ex-mulher porque “também sumiram todos os seus documentos
pessoais, inclusive os documentos do sítio que lhe pertence”.
A estabilidade conferida por documentos como aqueles zelados por Quincas e
Belmiro, e “sumidos” no caso de Vicente, refere-se à inscrição ordenada dos sujeitos
documentados no corpo múltiplo e numerável de uma população (Foucault, 2005b, p.292) e
em registros burocráticos oficiais que, como chamei atenção nos capítulos anteriores, são
condição para o recebimento de benefícios e, ao mesmo tempo, funcionam como meios de
controle. Em termos performativos, documentos fazem com que pessoas como Quincas e
Belmiro sejam consideradas encarnações do abstrato “cidadão” de que falam gestores que
participam de eventos da ReDESAP, vinculando-os a um Estado e, ao mesmo tempo,
atestando a veracidade desse vínculo (Peirano, 2006a, 2006b, 2009). Documentos, ademais,
possibilitam que “o cidadão” a que se referem particularize-se, inscreva-se ou, para usar os
termos de Caplan & Torpey (2001), escreva-se de modo legível não só na realidade social do
mundo estatizado que habitam, mas também e indissociavelmente no curso de suas próprias
vidas:
Although bureaucracies organize this data with scant regard for personal
needs, these records also furnish people with the means, together with
private papers such as letters or diaries, to “write” themselves into life and
history. In this they do not just behave in accordance with the requirements
of bureaucratic categories, but create themselves as “legible” subjects of
their own lives. (Caplan & Torpey, 2001, p.6-7)

Estando os documentos de Quincas bem guardados na casa de Neusa e Inácia, e desde
que Belmiro carregasse consigo seus cartões e sua carteira de guarda, alguma estabilidade
seria mantida em suas vidas, mesmo que ambos estivessem desaparecidos para as pessoas que
os abrigavam, para a mulher com que foram casados ou para a repartição pública em que
250

trabalhavam. Seus documentos garantiriam, ainda, não só certa legibilidade (Caplan &
Torpey, 2001) (Das & Poole, 2004) (Scott, 1998), mas também que algo de correto seria
mantido intacto no decurso de seus desaparecimentos. Mesmo que os dois tenham optado por
não manter vínculos com determinados pontos do espaço e grupos de pessoas, afinal,
permaneceram documentados e fixados em seus papéis. Se ao “descacetar” ou responder a
“coisas do destino” Quincas e Belmiro parecem desafiar a imposição de existências
sedentarizadas e identificadas, ao cuidarem de manter seguros seus documentos ambos fazem
o contrário disso, sustentando e perpetuando o valor moral da sedentarização e identificação.
O zelo de ambos com seus papéis oficiais evidencia, enfim, o caráter desmoralizador
da ruptura de vínculos de que fala Kleinman (2006). Conforme argumenta o autor, fatos e
eventos que nos desvinculam daquilo que é convencionado como importante constituem
desmoralizantes “calamidades comuns” (Kleinman, 2006, p.4), e documentos, no contexto
dos Estados-nacionais e, mais especificamente, no Brasil, são bens vinculantes fundamentais.
Além de coletivamente considerados importantes, documentos guardam, ademais, relações
empáticas de primeira grandeza com seus portadores:
O documento possui uma força (ilocucionária) que transforma o indivíduo
em cidadão de um determinado Estado nacional o qualifica para
determinadas atividades. O vínculo entre o indivíduo e o documento que o
identifica, portanto, não é apenas de representação, mas também de
contigüidade/extensão. Quando o indivíduo perde sua “identidade”, essa
experiência é verdadeira em vários sentidos. Há um elemento de magia nessa
associação: o indivíduo torna-se cidadão por sua carteira de identidade, mas,
ao se descobrir sem a carteira, ele de fato não possui mais a identidade (que
é civil e pública). (Peirano, 2006a, p.34)

Considerando a força e as propriedades de papéis oficiais, vale relembrar a decisão de
Clara, tia de Domingos, de solicitar a devolução do retrato de seu sobrinho que, até então, era
parte de Sindicância de desaparecimento. Se documentos funcionam como dispositivos que
inscrevem cidadãos na realidade social e no curso de suas próprias vidas, não é de espantar
que a enfermeira tenha feito questão de retirar o retrato de Domingos do conjunto de papéis
policiais a que ele estava anexado. Afinal, como descrito nos capítulos anteriores, o cenário de
desconfiança que envolve comunicações e registros de desaparecimento em delegacias, bem
como a inferioridade e desimportância atribuída aos casos e às pessoas neles envolvidas são,
por si só, motivos suficientes para que ROs e Sindicâncias guardadas em arquivos policiais
não sejam exatamente os papéis através dos quais “o cidadão” deseja escrever sua trajetória e
a dos seus. Enquanto documentos como os cartões levados por Belmiro são desejáveis bens
251

garantidores de benefícios e direitos, papéis como os produzidos acerca de casos de
desaparecimento são, por vezes, indesejáveis registros dos quais se deseja, o quanto antes
possível, retirar fotografias e dados pessoais.
Cada um à sua maneira, desaparecimentos como o de Domingos, Quincas e Belmiro
apontam para a importância conferida à manutenção de vínculos e para a forma como ela se
desdobra em zelo e cautela em relação a documentos. Alguns dos elementos desses casos que
permitem vislumbrar essa importância são o pedido de desculpas de Quincas, que supõe que
sua partida será encarada como ingratidão por Neusa e Inácia; a atenção de Belmiro em levar
consigo seus cartões junto ao álbum de fotografias; o cuidado de Clara em restituir ao “álbum
de família” a foto de Domingos antes anexada a indesejáveis registros policiais; e, ainda, a
“depressão” vivida por Domingos depois da perda do vínculo com a universidade onde
trabalhara por mais de uma década. 140
Sustentar laços e zelar por documentos é, para usar termos registrados no caso narrado
a seguir, manter “tudo arrumado” mesmo em face dos vastos e dinâmicos fluxos constitutivos
da vida social, que a todo tempo desafiam tentativas de estabilização e escapam a rótulos e
classificações. “Descacetar” ou entregar-se a uma “coisa do destino” é desarrumar coisas e
relações, o que faz com que Quincas sinta a necessidade de desculpar-se com as irmãs que o
abrigavam. Mas “descacetar” ou ceder a uma “coisa do destino” zelando pela segurança de
documentos pessoais é buscar assegurar que, mesmo no desarranjo provocado pelo
desaparecimento, o vínculo que faz do desaparecido “o cidadão” permaneça inalterado.

ELIAS
O ano de 2007 mal havia começado quando Alice, manicure de 45 anos de idade,
decidiu procurar a polícia para comunicar o desaparecimento de seu irmão mais velho, Elias.
Elias era vigia e vivia em uma quitinete próxima à casa de Alice, em São Pedro da Aldeia. A
última vez que os irmãos se falaram foi em meados de dezembro de 2006. Preocupada com a
falta de notícias, dia 4 de janeiro Alice foi à casa dele e entrou por conta própria. Encontrou a
quitinete “perfeita, com tudo arrumado, inclusive com todos os documentos de Elias dentro da

140

Ainda eu não vá me deter sobre esse tema, vale citar a conexão entre depressão e moralidade apresentada por
Arthur Kleinman (2006). A partir de pequenas biografias, o autor reflete sobre como indivíduos constroem-se
como agentes morais em circunstâncias ou condições culturais em que o que é convencionado como importante
é desafiado ou desfeito em nome de outros indivíduos ou da “sociedade”. Sobre a biografia de Winthrop Cohen,
ex-fuzileiro naval judeu-americano, Kleinman faz afirmações interessantes para pensarmos o desaparecimento
de Domingos: “And so we have the telling, and not uncommon, paradox of a man with mental illness
(depression) giving voice to powerfully disturbing insights about the danger of ordinary life and the burden of
moral responsibility that a normal man could neither think or speak.” (Kleinman, 2006, p.38)

252

casa”, mas sem pista de onde ele poderia estar. Procurou por Elias na casa de amigos e no
trabalho, mas não o encontrou. Decidiu então ir à delegacia, onde foi feito Registro de
Ocorrência de desaparecimento de Elias.
Poucos dias depois de produzido, o Registro de Ocorrência foi encaminhado ao SDP.
Quase um ano depois, já em novembro de 2007, o inspetor que ficou encarregado do caso
tomou sua primeira providência para investigar o desaparecimento de Elias: um telefonema
para Alice. Foi então informado que Elias “havia falecido e que o mesmo teria sido vítima de
atropelamento em São Pedro da Aldeia/RJ”.
Diante dessa informação, o inspetor telefonou para a delegacia de São Pedro da Aldeia,
onde confirmou o relato de Alice e obteve um número de Registro de Ocorrência. De posse
desse número, pesquisou o sistema de dados que reúne ROs feitos em todas as delegacias
policiais do estado que são informatizadas. Encontrou enfim um registro em que Elias consta
como vítima de “homicídio culposo provocado por atropelamento”. O acidente ocorrera dia 21
de dezembro de 2006, três dias depois que Alice falou com seu irmão pela última vez. O caso
foi então arquivado no SDP, como Sindicância Solucionada. 141

Alice compareceu à DP para comunicar o desaparecimento de seu irmão depois de
constatar que, embora a quitinete dele estivesse “perfeita, com tudo arrumado, inclusive com
todos os documentos de Elias dentro da casa”, não havia pista de onde ele pudesse estar. Se
“tudo” estava em seu lugar na residência do vigia, ele, em contraste, estava fora de lugar, não
podendo ser encontrado em nenhum dos espaços onde foi procurado. Esse quadro mudou
quando Alice soube que seu irmão havia morrido em conseqüência de um atropelamento
acidental. A inesperada morte de Elias explicou seu desaparecimento e conferiu a ele nova
posição, rearrumando a equação enigmática que conduzira Alice à DP.
Mães de desaparecidos que participam de eventos da ReDESAP freqüentemente falam
da dor que lhes causa a impossibilidade de rearrumar relações e coisas diante dos
desaparecimentos de seus filhos e filhas. Não raro, algumas afirmam que melhor seria saber
da pior notícia possível, a de que seus filhos estão mortos, a seguir sem notícia alguma.
Diante da falta de informações, quartos são mantidos como eram antes dos desaparecimentos,
fotografias continuam enfeitando casas e descrições são muitas vezes construídas em um
incerto tempo presente, instaurado pelo sumiço de seus filhos. “Minha filha tem hoje 28 anos
e é uma menina calma, sempre foi” e “Meu filho gosta muito de cavalos”, por exemplo, são
sentenças que ouvi em eventos da rede sendo proferidas por mães de pessoas desaparecidas há

141

Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância 051/07 do SDP/DH.

253

mais de quinze anos. Expressões de passados que se projetam adiante indefinidamente, frases
como essas condensam propriedades da experiência traumática, que
despliega una temporalidad particular en la que el pasado coexiste e incluso
agobia efectivamente el presente de tal manera que su inscripción en el
registro de la memória y la historia es a la vez solicitado y frustrado.
(Ortega, 2008, p.33-4)

Cientistas sociais como Catela (2001b), Rodrigues (2008) e Araújo (2007a, 2007b,
2008, 2009) tentam dar conta de experiências traumáticas de ter filhos desaparecidos,
verdadeiras “calamidades comuns” (Kleinman, 2006, p.4), fazendo uso da palavra “luto”, mas
chamando atenção para o que há de específico no desaparecimento e que não cabe no campo
semântico compreendido pelo termo “luto”. Catela (2001b), por exemplo, recorre à idéia de
“morte inconclusa” para referir-se à falta de desfecho característica do desaparecimento e,
assim, nuançar o “luto” vivido pelas mães de desaparecidos. Nota-se, na criação e emprego de
termos como “morte inconclusa”, que se por um lado o desaparecimento é um desarranjo,
uma desestabilização, uma ruptura, por outro é também um fenômeno de difícil arrumação e
estabilização até mesmo quando tomado como objeto de estudo.
Como vimos nos casos narrados até aqui, desaparecimentos parecem não caber nos
formulários de RO em que são registrados, que exigem a impossível determinação de sua
“data e hora” e “local”. Contudo, dada a desimportância atribuída a esses formulários, bem
como aos casos neles registrados e às pessoas neles envolvidas, a incongruência entre os
enredos de desaparecimento e os papéis disponíveis para seu registro não é objeto de
explicitação ou questionamento. Ainda assim, os maços de documentos acomodados em
gavetas como as do SDP exibem essa incongruência. Ademais, como indicam os casos de
Quincas e Belmiro, registros de desaparecimento implicam a perda da força expressiva de
muito do que comunicantes e desaparecidos relatam como elementos cruciais dos casos,
subtraindo-lhes complexidade.
Em sentido semelhante, desaparecimentos não são facilmente manejáveis em artigos e
teses acadêmicas, como indicam não apenas as necessidades de se criar termos como “morte
inconclusa” e formular estratégias estéticas como as caixas de texto que venho utilizando
aqui, mas também a própria escassez de trabalhos sobre o tema. Importa destacar, porém, que
se o manejo de casos e a construção tanto de registros burocráticos, quanto de textos
acadêmicos sobre desaparecimentos impõem desafios, eles podem decorrer menos de uma

254

suposta natureza do fenômeno que tomam por objeto, e mais de características dos próprios
exercícios de registrar e narrar.
Como afirma Das (2007, p.205), é importante reconhecer os desafios apresentados por
certos usos da linguagem não simplesmente para destacar que ela, a linguagem, falha em face
de determinados eventos e experiências que causam sofrimento. Antes, é imprescindível
reconhecer as vicissitudes de atos de nomeação e narração para que possamos perceber tanto
os interesses e relações de poder que os mobilizam, quanto os possíveis efeitos, planejados ou
inesperados, que eles provocam. No caso da produção de narrativas em situações etnográficas,
o desenrolar de debates fundamentais no campo da antropologia (cf. Clifford, 1983; Clifford
& Marcus, 1986; Marcus & Fischer, 1986) explicitou a relevância desse reconhecimento,
tornando-o inevitável. Afinal, tais debates trouxeram à tona a necessidade de nos
perguntarmos pelo que é apagado, subtraído ou obscurecido para que deixemos os textos que
produzimos bem “arrumados”, para usar o termo presente no caso de Elias.

5.3 Algumas formas eficazes de exclusão
A construção de casos de desaparecimento como ocorrências policiais se faz em meio
a tentativas dos agentes de polícia de reduzir o amplo escopo de seu trabalho por meio da
delimitação do universo em que eles não deveriam intervir: os “problemas de família”.
Processo semelhante é objeto de reflexão de Soares (1999), que, ao focar a construção da
“violência doméstica” como problema social nos Estados Unidos, analisa também, como
ponto de comparação, a experiência das Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher
(DEAM) do Rio de Janeiro. As DEAMs recebem solicitações, queixas e demandas de
cidadãos que, como casos de desaparecimento, não necessariamente permitem determinar
vítimas e culpados, e “não se ajusta[m] ao modelo dos BOs, cujos campos referem-se somente
aos delitos previstos no Código Penal”. (Soares, 1999, p.56). Policiais que nelas atuam

menosprezam o trabalho que desempenham nas DEAMs, que, no jargão
policial, é uma “delegacia de papel” ou “delegacia seca”. Consideram-se
diminuídos em suas carreiras quando são deslocados de outras delegacias
para o atendimento de mulheres, pois acreditam que esse é apenas um
trabalho de “assistentes sociais” ou “psicólogos”. Vêem-se como meros
burocratas e desconsideram a singularidade das histórias que lhes são
contadas, diariamente, nos balcões. “O problema disso aqui é pobreza e
cachaça”, resume um policial. (Idem, ibidem, p.53)

255

Para a autora, apesar da precária estrutura de que dispõem, as DEAMs são “delegacias
de família” ou “delegacias comunitárias” que realizam tarefas mais amplas e variadas do que
as previstas no projeto que as instituiu. Recebem, na forma de relatos, queixas e solicitações,
“uma demanda que provém, basicamente, vale lembrar, das camadas mais pobres da
população e não encontra resposta em outras instituições públicas (e, menos ainda, nas
instituições privadas”. (Idem, ibidem, p.56). O objeto do trabalho policial realizado nas
DEAMs consiste, segundo a autora, em múltiplos conflitos que não estão previstos em leis
universalizantes, e que algumas vezes não são dirimidos por serem classificados, de forma
semelhante aos desaparecimentos, como “questão privada” ou “problema íntimo”.
Aproximam-se, nesse sentido, do que Mota (1995) designou “casos sociais”.
Via trabalho de campo, Mota (1995) constata alta freqüência de “casos” em certa
medida semelhantes, ainda que também heterogêneos, em meio às demandas que as camadas
pobres levam às delegacias do Rio de Janeiro. A autora trata como “casos sociais” questões e
conflitos que escapam às definições jurídicas utilizadas no cotidiano das delegacias, e afirma
que sua afluência a essas repartições policiais reflete a carência experimentada pela
população. Por falta de acesso a outros recursos institucionais, o “segmento pobre da
população” levaria problemas das mais diversas naturezas às delegacias, demandando que
seus funcionários exerçam funções de mediação e resolução de conflitos diante de
acontecimentos desprovidos de componentes criminais. (Mota, 1995) Em sentido semelhante,
e seguindo na mesma direção que Soares (1999), Muniz (1996) mostra que também nas
DEAMs do Rio de Janeiro policiais são levados a atuar como mediadores e a negociar
conflitos, buscando “soluções distintas daquelas oferecidas pela lógica-em-uso do mundo
jurídico formal.” (Muniz, 1996, p.127)
Enne, Vianna e Carrara (2002), analisando processos judiciais oriundos de inquéritos
policiais instaurados nas mesmas DEAMs a que se dedicaram Muniz (1996) e Soares (1999),
chamam atenção para o fato de que prestar queixa nessas delegacias é recurso utilizado por
muitas mulheres como forma de restabelecer e manter, com a mediação de poderes públicos, a
integridade de unidades domésticas. Para os autores, o desafio com que é preciso lidar ao
analisar conflitos e dramas envolvendo laços conjugais e relações amorosas que aportam nas
DEAMs, que não poderia ser mais semelhante ao desafio que a gestão de casos de
desaparecimento impõe,
parece ser o da demarcação, para todos os envolvidos, da fronteira entre a
ação pública – que compreenderia tais conflitos como crime – e as
256

negociações semi-privadas, que os toma como rupturas temporárias da
ordem familiar, a serem restauradas através da mediação dos poderes
públicos. (Enne, Carrara e Vianna, 2002, p.56)

Sobre a escorregadia delimitação do que seja propriamente “violência doméstica”
diante da vastidão de solicitações e queixas feitas nas DEAMs, e sobre a dicotomia público
versus privado muitas vezes evocada nessas delegacias, Soares (1999) adverte-nos de algo
que alcança outras classificações e se revela especialmente valioso para refletir sobre o
desaparecimento de pessoas: “os esforços classificatórios, nesse campo, produzem resíduos
que demandam, permanentemente, novas demarcações.” (Soares, 1999, p.38). Afinal, se
policiais como os agentes do SDP esforçam-se por demarcar o que é “problema de família” e,
assim, isentar-se de responsabilidade diante de certo conjunto de ocorrências, e se membros
da ReDESAP acordam que é possível distinguir “o desaparecimento mesmo, aquele que
precisa de polícia”, de desaparecimentos que são exclusivamente “questão de assistência
social”, é certo que tais esforços produzem resíduos. Casos que não se encaixam, casos
ambivalentes, casos que, como a fotografia de Domingos, transitam entre searas supostamente
delimitáveis e distintas, desafiam quaisquer tentativas de produzir rótulos e estabilizações.
Importa cogitar, não obstante, se esses casos que escapam não são, mais que o refugo de
certos empreendimentos classificatórios, índices de suas vicissitudes e efeitos nocivos.
Como busquei demonstrar no Quadro 3 (capítulo 2), mesmo a aparentemente simples
tarefa de agrupar casos para fins de sistematização de material de pesquisa coloca em cena a
inevitabilidade dessa produção de resíduos. No referido quadro, tentei produzir um mapa
lógico que ordenasse os desaparecimentos com que tive contato a partir dos arquivos do SDP.
Essa tentativa de ordenação gerou, como resíduo, o grupo a que intitulei “Outros”: conjunto
de casos que não contêm registros que possibilitem enquadrá-los nos demais grupos, e que
não permitem concluir nada além do fato de que um comunicante reportou à polícia, que uma
pessoa desapareceu, e que policiais tomaram algumas providências administrativas
inconclusivas. Casos como esses não escapam de tentativas de classificação por serem
intrinsecamente mais enigmáticos que outros desaparecimentos. Antes, casos como esses
sobram pela própria maneira como foram comunicados, registrados e arquivados. Nesse
sentido, revelam menos sobre seus enredos e suposta complexidade, e mais sobre as
suscetibilidades da própria classificação de desaparecimentos. Afinal, todo caso pode ser
“Outro”, dependendo da forma como for relatado, registrado e arquivado.
Em algumas reuniões em torno do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas,
Gustavo, gerente de programa estadual de SOS Crianças Desaparecidas e membro do comitê
257

gestor da ReDESAP, mostrou-se reticente com a lista de tipos de desaparecimento
oficializada pelo Cadastro. Sua preocupação é dupla. Gustavo fica apreensivo em relação aos
cidadãos que preencherão o website “desaparecidos.mj” e terão, obrigatoriamente, que
enquadrar casos em tipos. Ao mesmo tempo, preocupa-se também com a possibilidade de
alguns comunicantes não serem atendidos se o caso que reportarem não se encaixar naquelas
seis categorias:
Eu fico pensando nessas subcategorias que nós criamos. Como a população
em geral, que também vai acessar o sistema antes da validação, vai usar
essas classificações? E outros agentes que não nós, que estamos conhecendo
o sistema de perto? Eles vão saber encaixar? Fico preocupado. No SOS
[Crianças Desaparecidas] a gente faz um serviço de clínica geral, e eu acho
que é assim que tem que ser. Tratamos de tudo como desaparecimento
porque a mãe nos procura dizendo que é desaparecimento. Providenciamos
os cartazes, preenchemos a ficha, orientamos a mãe a ir à delegacia, fazemos
tudo independente do que tenha acontecido.

Durante o período que acompanhei a feitura do Cadastro em reuniões do comitê e
entre o comitê e a equipe da SENASP, compartilhei das preocupações de Gustavo. Dentre
todas as práticas, técnicas e procedimentos empreendidos por burocratas diariamente,
nenhuma medida é mais eficiente na produção social da indiferença do que o que Herzfeld
chama de “exclusão categórica”. (Herzfeld, 1992, p.93). A possibilidade de um comunicante
de desaparecimento, sejam quais forem suas intencionalidades, não ser ouvido, não ter suas
falas convertidas em “declarações” e não conseguir que o que ele reporta seja registrado por
não se enquadrar em tipos de desaparecimento, a meu ver, consiste exatamente nesse tipo de
exclusão. Como tal, permite que burocratas, entre policiais, conselheiros tutelares e demais
agentes autorizados a usar o Cadastro, isentem-se de responsabilidades utilizando como
justificativa a própria classificação oficializada pela ferramenta. Nas palavras de Herzfeld,
“there is nothing more impassable than a bureaucrat with a taxonomy, because the bureaucrat
can always claim that the taxonomy is the State”. (Herzfeld, 1992, p.115).
Ademais, comunguei da posição de Gustavo por me perguntar, à luz dos trabalhos de
Mota (1995), Muniz (1996), Soares (1999) e Enne, Vianna e Carrara (2002), se de fato as
demandas que cidadãos levam a delegacias e que, em alguns casos, restam registradas como
desaparecimentos, aportam nessas repartições apenas porque elas estão abertas 24 horas por
dia e 7 dias por semana, como diz o delegado Lauro. Talvez, como o amplo leque de conflitos
levados às DEAMs, as queixas, relatos e solicitações que são registradas como
desaparecimentos sejam levadas às DPs porque seus comunicantes acreditam não dispor de
258

outros meios para lidar com elas. É possível, ainda, que esses comunicantes apresentem suas
demandas a policiais por acreditarem no ideal de ubiqüidade e alcance total do poder policial,
apesar da desconfiança com que são recebidos em delegacias, ou por apostarem na
possibilidade de restaurar unidades domésticas com a mediação dos poderes públicos. De todo
modo, se policiais afirmam que desaparecimentos não são “problema de polícia”, categorias
como as do Cadastro ampliam e formalizam a possibilidade de exclusão e isenção de
responsabilidades por parte deles, ao oficializar o entendimento de que há um
“desaparecimento mesmo”, que parece nunca estar encarnado nos casos comunicados
cotidianamente em DPs. Em outras palavras, as categorias do Cadastro oficializam a idéia de
que há um tipo de acontecimento que é o desaparecimento “verdadeiro” e que exclui os
múltiplos “problemas de família” reportados em repartições policiais.
Por pensar assim, em reuniões em torno do Cadastro busquei defender que
desaparecimentos são, ao mesmo tempo, “questão de segurança pública” e “questão de
assistência social”, sustentando, com os termos usados pelos demais membros do comitê
gestor, que melhor que especificar classificações seria ampliar o entendimento acerca do
fenômeno. Em três ocasiões diferentes, fui convidada pelos demais integrantes do comitê a
expor essa posição em eventos da rede. Em todas elas, a área de promoção e defesa dos
direitos humanos foi apresentada, conforme apontado anteriormente, como seara da
administração pública relativamente flexível, abstrata e indeterminada, capaz de acomodar
múltiplas “questões” e responder a diversos interesses, relações de poder e contextos
históricos. (Fonseca e Cardarello, 2009).
Primeiro, fui consultada sobre a possibilidade de produzir cartilha sobre o
desaparecimento de pessoas e conduzir parte dos encontros que seriam destinados,
primordialmente, ao treinamento de usuários do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas
em seis capitais brasileiras. A cartilha deveria inscrever o desaparecimento no marco dos
direitos humanos, conforme solicitação do gestor da SEDH então à frente da ReDESAP. Os
encontros aconteceram entre agosto e outubro de 2010. Segundo, fui chamada a proferir uma
palestra com título pré-definido “Pessoas Desaparecidas e Direitos Humanos”, no final de
abril de 2010, no “Curso de capacitação dos atores do Sistema de Garantias dos Direitos da
Criança e do Adolescente para utilização do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas”.
Tratava-se de um treinamento piloto, preparatório para o treinamento nas seis capitais. Por
fim, fui também convidada a me pronunciar no III Encontro Nacional da ReDESAP, em

259

novembro de 2011, onde integrei a mesa intitulada “Direitos Humanos, Cadastro Nacional e
Aparato Normativo – Contexto Atual e Perspectivas”.
Aceitar esses convites e proferir palestras, formular cartilha e conduzir encontros entre
membros e não-membros da rede tanto beneficiou minha pesquisa, quanto foi útil para a
ReDESAP. O fato de uma pesquisadora dedicada ao desaparecimento de pessoas integrar o
comitê gestor da rede, participar da formulação de material didático para cursos de
capacitação e proferir palestras sobre o tema, afinal, indicaria que o desaparecimento é uma
“questão” de tal monta e gravidade que mobiliza, além de agentes que desejam combatê-lo,
possíveis “especialistas” que tentam compreendê-lo. A urgência e necessidade atribuída a
projetos de intervenção, como mostra Ribeiro (2002), se beneficia e amplia à medida que
determinados atores e discursos são revestidos da “autoridade de especialistas na questão”
(Ribeiro, 2002, p.46). Nesse sentido, o fato de membros da rede fazerem referência à minha
presença entre eles designando-me “nossa pesquisadora” certamente não é gratuito. Antes,
aponta para a relevância da figura do “especialista” e para a autoridade atribuída a discursos
técnicos no campo da administração pública, sobretudo dadas as atuais reconfigurações de
estratégias de governo que, como sustenta Rose (2007), são cada vez mais orientadas a
“comunidades”. 142 No Brasil, a relevância dos “especialistas” e a autoridade atribuída a
discursos técnicos são, inclusive, elementos constitutivos do crescente mercado de trabalho
extra-universitário em que atuam muitos antropólogos, como discutem Souza Lima & Castro
(2008) e os artigos reunidos em Silva (2008).
Se, de um modo geral, a figura do “especialista” e a autoridade do discurso técnico são
relevantes para a constituição de “questões”, no caso da construção do desaparecimento de
pessoas como problema social isso se coloca de forma candente. Como descrevi antes
(capítulo 4), membros da ReDESAP afirmam e reafirmam nos eventos dedicados ao tema que
o desaparecimento de pessoas padece da falta de definições. Não surpreende, portanto, que os
poucos pesquisadores dedicados ao tema recebam boa acolhida na rede, tenham espaço para
proferir palestras e sejam convidados a formular cartilhas, como eu mesma fui. Nesse sentido,
142

Para Rose (2007), ainda que os temas da sociedade, da coesão e da justiça social sejam significativos na
discussão política, novas linguagens têm, de modo crescente, tomado não a “sociedade” como território de
pensamento e ação, mas recortes comunitários que “se extienden hasta especificar los sujetos de gobierno como
indivíduos que son también, de hecho o potencialmente, sujetos de lealtades para un conjunto particular de
valores comunitários, creencias y compromisos.” (Rose, 2007, p.118) Esse processo de reconfiguração de
territórios de governo demanda atuação do que o autor denomina “autoridad experta”, que gerencia estratégias
não-sociais de intervenção. Nas palavras de Rose, “parece como si estuviéramos asistiendo a la emergencia de
un rango de racionalidades y de técnicas que tratan de gobernar sin gobernar la sociedad; gobernar a través de las
elecciones reguladas hechas por actores singulares y autônomos, en el contexto de sus compromisos particulares
con sus famílias y comunidades.” (Rose, 2007, p.113)

260

o I Encontro Nacional da ReDESAP contou com a presença de um sociólogo que fazia, na
época, pesquisa de doutorado sobre o tema (Oliveira, 2007).143 Já o II Encontro Nacional da
ReDESAP, primeiro evento da rede de que participei, em dezembro de 2008, contou com a
presença de uma psicóloga que havia recém-concluído sua dissertação de mestrado
(Rodrigues, 2008) e chamou atenção, logo na abertura de sua fala, para duas faltas
específicas: a ausência de literatura acadêmica sobre o tema e de “estudiosos especializados
no desaparecimento de pessoas”. Mais de um ano depois, no III Encontro Nacional da rede,
fui eu quem falou aos presentes na condição de pesquisadora, ressaltando que estava
escrevendo tese de doutorado sobre o tema, e claramente ocupando o lugar de “especialista”
conferido, anos antes, ao sociólogo e à psicóloga que me antecederam.
O lugar do “especialista”, sempre preenchido em eventos da rede, tanto é elemento
constitutivo da construção do desaparecimento como problema social, quanto parece fazer
frente à falta de definições de que se queixam membros da ReDESAP. O desaparecimento,
afinal, não é um crime, como tantas vezes ouvi no SDP e nos eventos da rede, e não conta
com instrumentos legais que estabeleçam nem mesmo, como diz o inspetor Fernando, uma
“metodologia” para investigação policial. Em delegacias, os casos não são vistos como
ocorrências propriamente policiais. Ao mesmo tempo, ainda que os enredos de muitos
desaparecimentos se aproximem de elementos de processos judiciais como aqueles de
interdição civil (cf. capítulo 3), e mesmo que muitos ROs sejam solicitados por pessoas que
desejam obter judicialmente declarações de ausência (cf. capítulo 1), o desaparecimento
tampouco é visto como problema de justiça. Não obstante, como indicam as indagações que
movem membros da rede envolvidos na formulação do Cadastro Nacional, o desaparecimento
nem é uma clara “questão de segurança pública”, nem precisamente “de assistência social”. É
nesse cenário de negativas que pesquisadores dedicados ao tema, sejam eles psicólogos,
sociólogos ou antropólogos, são não só bem recebidos, como também solicitados a participar.
É também nesse cenário, como indicam os títulos das mesas e palestras que fui chamada a
proferir, que os direitos humanos comparecem não só como flexível seara da administração
pública, mas também como uma espécie de indexador curinga, capaz de enquadrar o
escorregadio “problema” do desaparecimento de pessoas.
Paralelamente a tais solicitações de participação de pesquisadores, contudo, membros
da ReDESAP afirmam freqüentemente que a falta de definições em torno do desaparecimento
143

O I Encontro Nacional da ReDESAP ocorreu em Brasília, em novembro de 2002. Embora eu não tenha
estado presente no evento, nem tenha conseguido acesso à sua programação, soube da participação do sociólogo
porque o fato está registrado nos “Agradecimentos” da tese por ele defendida anos depois. Cf. Oliveira, 2007.

261

só pode ser sanada se leis forem formuladas e implementadas. Em outros termos, sustentam
que a desordem e desestabilização características do desaparecimento só podem ser
plenamente combatidas pela ordem estabelecida por instrumentos jurídicos, ainda que
concedam espaço a possíveis contribuições de trabalhos acadêmicos e relatos de “boas
práticas” desenvolvidas por instituições variadas. Evidenciam, enfim, os dois processos que
Comaroff & Comaroff (2006) descrevem como característicos e especialmente visíveis no
chamado mundo pós-colonial, e que Schuch (2009) sustenta haver no Brasil: “de um lado, o
fetichismo da lei, expresso na reformulação de novas Constituições Federais, cortes de justiça
e uso da lei para resolver questões políticas; de outro, a disseminação do discurso da violência
e de uma realidade onde se descreve a ausência de lei.” (Schuch, 2009, p.52).
Iluminado por essa colocação, o fetichismo da lei expresso em queixas de membros da
ReDESAP quanto à falta de instrumentos legais que definam desaparecimento e
regulamentem sua gestão e investigação aponta para especificidades do Brasil pós-1988. Se o
Brasil dos anos que separam o golpe militar de 1964 e a promulgação da Constituição Federal
de 1988 foi cenário dos chamados desaparecimentos políticos, hoje tipificados
internacionalmente como desaparecimentos forçados de pessoas (cf. capítulo 1), é o Brasil da
chamada “Constituição Cidadã” que serve de cenário aos desaparecimentos de pessoa de que
trata a ReDESAP e que venho narrando nessa tese. Nesse sentido, desaparecimentos civis,
como denomina Oliveira (2007), são alvo de atenção de um Estado que se consubstancia nas
novas configurações

morfológicas em se que faz a administração

pública

na

contemporaneidade, como a própria existência da ReDESAP indica. Uma administração que
se faz em secretarias, comissões, conselhos e redes que reúnem, articulam e enredam órgãos
governamentais, ONGs e “especialistas”, entre outros agentes, e se fundamentam nas idéias
de responsabilização, legitimidade e transparência, condensadas pelo cada vez mais corrente
termo governança (Teixeira e Souza Lima, 2010, p.4).
Como tantas vezes ouvi de Ciro, o antropólogo e gestor da SEDH/PR, alguns
membros da ReDESAP acreditam que seu grande capital é a ampla margem de participação
por ela propiciada, replicada nas demandas do comitê gestor para que diversos agentes, entre
eles conselheiros tutelares, funcionários de ONGs autorizadas e “o cidadão”, possam acessar
o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. Como explicitam as entusiasmadas palavras
do delegado Julio, membro do comitê gestor, a participação propiciada pela rede pode
converter-se em avanços no enfrentamento do desaparecimento de pessoas como, por
exemplo, a efetivação da tão desejada ferramenta de registro: “Temos a Secretaria [Especial
262

de Direitos Humanos da Presidência da República], as mães [de desaparecidos], os SOS
[Crianças Desaparecidas], os policiais, os conselheiros [tutelares], os estudiosos; juntos, a
gente vai conseguir implementar esse Cadastro.”
Se membros da ReDESAP prezam pela idéia de participação, e vêem na reunião de
múltiplos agentes um de seus capitais, ao mesmo tempo parte de seus integrantes denunciam
experiências de exclusão. Enquanto no plano da construção do desaparecimento de pessoas
como problema social evoca-se a idéia de engajamento e inclusão, no plano da gestão
cotidiana de desaparecimentos como ocorrências policiais são muitas as experiências de
indiferença e exclusão enfrentadas por comunicantes e demais “Envolvidos” nos casos. Isso
não significa que haja uma relação puramente paradoxal entre esses dois planos. Ao contrário,
como vimos anteriormente (capítulo 4), tais experiências vividas em delegacias são
formuladas como denúncias de ausências constitutivas do desaparecimento como problema
social, o que as torna parte crucial da construção dessa “questão” como algo a ser
urgentemente combatido. Nesse sentido, os dois planos, apartados aqui para fins de análise,
são complementares, a despeito de sua aparente oposição.
A complementaridade entre os planos da gestão de desaparecimentos como
ocorrências policiais e da construção do desaparecimento como problema social é
evidenciada, sobretudo, nos relatos de experiências de indiferença e exclusão feitos pelas
mães de desaparecidos em eventos da ReDESAP. Em suas falas, muitas mães afirmam ter
comparecido a delegacias para reportar os casos de seus filhos e, sem conseguir registrá-los,
ter retornado para suas casas frustradas e sentindo-se desrespeitadas. O não registro de casos,
bem como a postergação de muitos registros, seja por 24 ou 48hs, seja por meses a fio, são
apresentados pelas mães como dolorosas experiências que ampliam e agravam o sofrimento
de ter um filho desaparecido, e formuladas como denúncias da ausência de uma polícia
sensível e competente.
Os casos narrados e citados ao longo dessa tese, embora não tenham sido relatados em
eventos públicos promovidos pela rede, também enredam experiências de indiferença e
exclusão como aquelas denunciadas pelas mães de desaparecidos. Entre tantos outros, é
bastante ilustrativo o caso do idoso cuja filha recebeu, na DP, um catálogo telefônico para
conduzir buscas por si própria e, só depois de “esgotadas todas as possibilidades” de contatos
telefônicos, conseguiu obter o RO de desaparecimento de seu pai. A própria idéia de que a
polícia só deve ser procurada depois de “esgotadas todas as possibilidades”, aliás, é em si
mesma uma forma apriorística de exclusão. Afinal, ainda que policiais recebam, investiguem
263

e arquivem muitos casos de desaparecimento, a forma como o fazem, tantas vezes por meio
de delegações, afirmando que não deveriam fazê-lo e construindo a desimportância dos casos
que registram é, ela mesma, uma modalidade eficaz de exclusão.
Para Kant de Lima, Pires & Eilbaum (2008), que analisam reformas instituídas pela
Constituição Federal de 1988 nas áreas de justiça criminal e segurança pública, as práticas de
órgãos administrativos inscritos nessas áreas ainda se concentram em uma dimensão
repressiva, apesar do que dispõem os mais recentes instrumentos legais com que podemos
contar no Brasil. 144 Para os autores, embora esses dispositivos prevejam mecanismos de
negociação e mediação de conflitos, o cotidiano de instituições como as delegacias de polícia
é caracterizado por práticas e idéias menos participativas e conciliatórias, e mais repressivas.
Sua análise, nesse sentido, suscita indagações quanto à pertinência e produtividade da ênfase
de membros da ReDESAP na ausência de leis como obstáculo central para o pleno
enfrentamento do desaparecimento de pessoas no Brasil. Se os mais recentes instrumentos
legais de que dispomos não têm equivalência em novas práticas administrativas, que ganhos
novas leis podem representar para o combate do desaparecimento de pessoas?
Em todos esses elementos normativos criados nos últimos anos, é nítida a
ênfase posta nas formas de administração institucional de conflitos baseadas
na prevenção e na mediação, assim como no diagnóstico dos problemas e
soluções e na mobilização de recursos multissetoriais (policiais, sociais,
culturais) para o enfrentamento da violência e da criminalidade, em
complemento às ações que envolvem estratégias de ordenamento social por
meio da repressão qualificada. Contudo, o foco das práticas de segurança
ainda se concentra na dimensão repressiva, que privilegia a penalização dos
conflitos. As instituições policiais, vinculadas administrativamente aos
governos estaduais, são as principais protagonistas desse modelo. (Kant de
Lima, Pires e Eilbaum, 2008, p.157)

Segundo os autores, a instituição de dispositivos de negociação e mediação de
conflitos promovida pela Constituição de 1988 não lograram êxito, entre outras razões,
porque os dramas levados pelos cidadãos a delegacias de polícia e instâncias da justiça
criminal ora não são reconhecidos como conflitos, ora são classificados como menores e
menos importantes que os “fatos” encarados como manifestações dos grandiloqüentes temas
da “criminalidade” e da “violência”. Para usar uma das expressões cunhadas no trabalho de
Cardoso de Oliveira (2002), tais dramas e demandas são objeto de “atos de desconsideração”,
e têm seu reconhecimento recusado na própria instância policial, que os recebe diretamente
144

Vale destacar que as (confessionais) práticas da chamada “justiça restaurativa”, analisadas por Schuch (2009),
são parte dos novos dispositivos instituídos no Brasil da “Constituição Cidadã”.

264

dos “comunicantes”. Assim como os trabalhos de Muniz (1996), Soares (1999) e Enne,
Vianna e Carrara (2002) permitem concluir que o cotidiano das DEAMs é uma rotineira
confirmação disso, é impossível não admitir que a gestão do desaparecimento de pessoas,
objeto das narrativas, descrições e considerações feitas na presente tese, também o é.
Como vimos, por exemplo, nos casos de Vicente, Quincas, Belmiro e Elias, muitos
desaparecidos, “comunicantes” e demais “Envolvidos” em casos de desaparecimento prezam
por documentos e papéis oficiais de modo a manter intacto e ativo o vínculo que faz deles “o
cidadão”, mesmo em face das rupturas, desordens e desestabilizações provocadas pelo
desaparecimento. Contudo, tanto a gestão de casos de desaparecimento como ocorrências
policiais, quanto sua construção como problema social trazem consigo processos de exclusão
e construção cotidiana da desimportância que incidem diretamente sobre esse vínculo. Afinal,
tais processos particularizam, inferiorizando, o abstrato “cidadão” que todos acreditamos
encarnar quando zelamos por nossos documentos e, igualmente, quando recorremos a
repartições públicas, entre elas as delegacias de polícia, para solicitar serviços, reportar
acontecimentos e buscar assistência.

5.4 Uma nota sobre participação
O estreitamento e a consolidação das relações que mantive no comitê gestor da
ReDESAP e, fora dele, com membros e não membros da rede que freqüentam seus eventos
permitiu que eu melhor conhecesse as posições de agentes envolvidos com o desaparecimento
de pessoas no Brasil, ao mesmo tempo em que lhes permitiu fazer uso da presença de uma
pesquisadora ou, como discutido acima, “especialista” no tema. Como também já
mencionado, a partir de convites e da gradativa abertura de espaços e oportunidades, proferi
palestras, participei da formulação de cartilha e conduzi encontros locais. No último evento de
que participei, o III Encontro Nacional da ReDESAP, em novembro de 2010, fui ainda
solicitada por Sônia, mãe de adolescente desaparecida que fundou uma ONG que hoje
preside, a auxiliá-la na redação de um documento que foi intitulado “Proposta da Sociedade
Civil às Autoridades”. Idealizada por Sônia, a “Proposta” foi redigida para ser anexada ao
documento final produzido no III Encontro Nacional da rede, a chamada “Carta de Roraima”.
Assinada por representantes de cinco ONGs que estiveram presentes no evento, a “Proposta”
clama pela criação de secretarias ou núcleos de atendimento e prestação de assistência a

265

desaparecidos e familiares de desaparecidos. Sônia solicitou minha ajuda não para criar, mas
para redigir e formatar o texto da “Proposta”, o que fiz prontamente.
Participar dos eventos e iniciativas da rede e atender a solicitações como a de Sônia,
convites para produzir material didático e chamados para reuniões sobre o Cadastro Nacional
de Pessoas Desaparecidas foram, além de atividades valiosas em si mesmas, decisões de
pesquisa cruciais para que eu seguisse tentando compreender como o desaparecimento de
pessoas é gestado e gerido no Brasil. À medida que cumpri compromissos firmados com
membros da ReDESAP, permeando minhas notas de campo com listas de tarefas a executar e
prazos a honrar, me engajei em certo circuito de trocas que, como nos ensina Mauss (2003),
evidentemente não se esgotou nas palestras proferidas, convites aceitos, “propostas” redigidas
e demais coisas trocadas. Apenas estabelecendo e consolidando relações com os membros e
não membros da rede que freqüentam seus eventos pude, afinal, conhecer o que busquei
descrever ao longo da tese. Como ocorreu a Schuch (2009) em sua pesquisa sobre práticas de
justiça voltadas a crianças e adolescentes no Brasil pós-ECA, também no meu caso “a ênfase
na „participação‟, ao invés de um deslize semântico, foi, ao mesmo tempo, uma condição, um
instrumento de pesquisa e um dado envolvente de campo.” (Schuch, 2009, p. 86)
Vale ressaltar, não obstante, que se minha presença entre membros e não membros da
ReDESAP, mais do que útil, foi condição para a consecução da pesquisa, minha participação
nos eventos da rede também lhes foi útil e, em certa medida, necessária. Como nos lembra
Pacheco de Oliveira (2004),
Hoje em dia não há mais como pensar em pesquisas que não sejam avaliadas
positivamente pelos indígenas, seja por estes concordarem com suas
finalidades, seja por avaliarem que a sua utilidade sobrepuja os riscos e
desconfortos de sua realização. (Pacheco de Oliveira, 2004, p.13)

Destaco a dupla utilidade de minha presença entre membros e não membros da rede
não para insinuar que não tenhamos experimentado dilemas, desconfortos e riscos no decorrer
de nossas interações. Ao contrário, à luz das palavras de Pacheco de Oliveira (2004),
reconheço essa utilidade para melhor compreender que, em certas ocasiões, ela se sobrepôs
aos sempre presentes riscos e desconfortos de ser pesquisado ou, por outro lado, ser um
pesquisador crescentemente envolvido no campo pesquisado. Como me disse o inspetor
Fernando logo que comecei o trabalho de campo no SDP, “ninguém gosta de ser observado
em seu trabalho”. Não tenho dúvidas de que a validade dessa advertência se estende para

266

muito além da sala 709 da Delegacia de Homicídios, e aponta para o potencial mal-estar
constitutivo de quaisquer situações de pesquisa, notadamente pesquisas etnográficas.
Experimentei alguns desconfortos no curso do trabalho de campo não porque tenha
sido instada a dizer “de que lado tu estás?”, como ocorreu a Schuch (2009), e levada a refletir
em termos de alianças e oposições sobre as vicissitudes de pesquisar e, indissociavelmente,
participar de campos de disputas pela instituição de visões e divisões do mundo (Bourdieu,
2008, 2010). Antes, o mal-estar que mais claramente me acompanhou ao longo de toda a
pesquisa foi a tensão de ter que lidar com categorias e rótulos que, como vimos com Douglas
(2007), estabilizam fluxos, suspendem a possibilidade de análise e propiciam com assustadora
eficácia exercícios de “exclusão categórica” (Herzfeld, 1992). Documentos, práticas e
procedimentos políticos e burocráticos dificilmente acomodam perspectivas analíticas (Riles,
2006b). Nesse sentido, participar da produção de categorias fechadas de desaparecimento,
ouvir repetidas vezes que os casos são “problema de família” e participar de debates sobre o
desaparecimento ser “questão de assistência social” ou “questão de segurança pública”,
permitiu-me tomar consciência do imenso desafio de “juntar as práticas do exercício
acadêmico com as do exercício da intervenção”. (Souza Lima e Castro, 2008, p.35). Não
obstante, esses mesmos exercícios de pesquisa e participação construíram uma inesperada e
fugaz ponte entre essas práticas.
“Ouvindo você falar eu entendi. Realmente, o desaparecimento é isso, um fenômeno.”
Com esses dizeres e um largo sorriso, Sônia se aproximou de mim ao final do evento da
ReDESAP em que nos conhecemos, em um hotel no Centro do Rio de Janeiro, dia 24 de
agosto de 2010. Era o primeiro dos seis encontros locais promovidos pela rede que conduzi
junto a outras duas antropólogas. Embora inicialmente estivesse previsto o treinamento no uso
do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, como já mencionado, o evento foi
inteiramente dedicado a uma reflexão sobre o desaparecimento de pessoas no marco dos
direitos humanos. Ao longo do dia, discutimos o tema sob diferentes prismas e ouvimos
posições de diferentes pessoas, como policiais civis, policiais militares, servidores do
judiciário e funcionários de ONGs, entre outros.
Em minhas falas, muitas vezes me referi ao desaparecimento como “o fenômeno do
desaparecimento”, ou simplesmente “o fenômeno”, não por ter escolhido esse termo em
função de critérios específicos, mas por utilizá-lo correntemente para designar os mais
variados fatos sociais (Durkheim, 1978) tomados por cientistas sociais como objeto de estudo.
Do ponto de vista de Sônia, porém, havia algo de especial nessa palavra. Seu sorriso indicava
267

que, para ela, o termo “fenômeno” parecia capaz não de subtrair, mas de sustentar e transmitir
a força desestabilizadora, atordoante e enigmática do desaparecimento de pessoas. O que,
para mim, era pouco mais que um termo chave para designar processos, relações e
configurações eleitas por cientistas sociais como temas de pesquisa, para aquela mãe
funcionou, ainda que por um instante fugidio, como um rótulo diferente dos rótulos de que
fala Douglas (2007). Para Sônia, o termo “fenômeno” não retirava o desaparecimento da
possibilidade de análise, nem lhe impunha uma artificial estabilidade. Ao contrário, era capaz
de abarcar sua complexidade e seu caráter dinâmico e disruptivo.
Sônia foi a única mãe de desaparecido presente no evento de agosto de 2010.
Diferente dos casos narrados por outras mães que conheci em encontros e reuniões da rede, o
desaparecimento de sua filha foi solucionado. A menina, que tinha 9 anos quando
desapareceu, foi encontrada morta. Na mesma época, Mara, outra mãe que havia passado por
situação semelhante, conheceu Sônia e as duas fundaram uma ONG a que se referem,
carinhosamente, como “o movimento”. Presidido por Sônia, “o movimento” tem como missão
promover ações de prevenção e combate ao rapto, seqüestro e desaparecimento de crianças.
Tornando o impessoal salão em que conheci a fundadora do “movimento” um lugar
especialmente familiar, também estiveram lá durante todo o dia Gustavo, o gerente de
programa estadual de SOS Crianças Desaparecidas que é membro do comitê gestor da
ReDESAP, e o inspetor Fernando, do SDP. Desde março de 2008, quando conheci o SDP, até
aquele evento, em meados de 2010, Fernando e Gustavo tornaram-se pessoas fundamentais
para minha gradual, crescente, mas sempre parcial compreensão dos processos em jogo tanto
na gestão do desaparecimento como ocorrência policial, quanto em sua construção como
problema social. Mais do que isso, ambos apresentaram-me idéias e posições que passei a
considerar também minhas, a despeito da linha invisível e em larga medida ficcional, mas não
sem efeitos e desdobramentos, que separa pesquisadores e pesquisados.
Aquele evento foi a primeira ocasião em que o inspetor Fernando, com quem eu havia
convivido no exíguo espaço do SDP, ouviu falas minhas a respeito do desaparecimento de
pessoas em cenário distinto e carregado da solenidade de um evento público. Para meu alívio,
Fernando se disse satisfeito com o evento e com minhas palavras, e feliz por constatar que eu
“falo bem” sobre o tema com qual ele trabalha há tanto tempo. Como mostra a já citada
etnografia de Comerford (1999), “falar bem” pode ser uma dos poucas maneiras de se adquirir
espaço e trânsito em “lutas” que não são diretamente nossas. Ao mesmo tempo, porém, aquele
que “fala bem” ou “fala bonito” pode ser alvo de especial desconfiança, sobretudo se fala
268

sobre determinado tema, mas não é considerado alguém diretamente atingido por ele. No caso
estudado por Comerford (1999), distinções são delineadas entre aqueles que são trabalhadores
e aqueles que falam sobre os trabalhadores.
No meu caso, que não sou policial, como Fernando, nem mãe de desaparecido, como
Sônia, nem servidora pública, como Gustavo, foi um tanto desconfortável estar exposta à
avaliação e à possível desconfiança de todos eles ao mesmo tempo. Ainda que viesse
participando regularmente de reuniões e encontros da rede na condição de “nossa
pesquisadora”, aquele foi o primeiro evento que teve lugar no Rio de Janeiro e em que fui
responsável por falar sobre desaparecimento exatamente para as pessoas cujo cotidiano e
atuação constituíram as bases para meu entendimento sobre o fenômeno. Saber que Fernando
ficou satisfeito com o que ouviu minorou meu desconforto. Mas ouvir de Sônia que uma das
palavras que empreguei inúmeras vezes ao longo do dia aplacou alguns dos seus desconfortos
foi um passo além. Seus dizeres, afinal, tornaram momentaneamente tangíveis alguns dos
efeitos inauditos e imponderáveis dos sempre imbricados atos de pesquisar e participar.
O desafio de lidar e participar da produção de categorias fechadas de desaparecimento
e fronteiras entre supostas unidades de responsabilidade cujas obrigações seriam excludentes
acompanhou toda minha trajetória de pesquisa. Em diálogos e interações com policiais, mães
de desaparecidos e gestores governamentais e não-governamentais que atuam no largo campo
das políticas públicas, empregar aquelas categorias e evocar unidades como “o Estado”, “a
família” e “polícia” parecia-me inevitável e, ao mesmo tempo, pouco produtivo. Era como se,
exatamente na condição de “nossa pesquisadora”, eu corroborasse e reforçasse o uso de
rótulos que, como as formas narrativas padronizadas presentes em documentos policiais,
subtraem a força expressiva daquilo que registram e congelam seu caráter desestabilizador.
Em outras palavras, era como se eu alimentasse um dos componentes mais terríveis de muitos
casos de desaparecimento: o confinamento de dramas e enredos complexos e variados em
documentos e arquivos fechados, que situam pessoas, fotografias, bilhetes e informações em
um passado empoeirado que oprime o presente (Ortega, 2007) e dificulta que coisas e relações
sejam reordenadas e reconstituídas.
Contra esse pano de fundo, os aparentemente triviais dizeres de Sônia foram
iluminadores. Se palavras e enunciados têm efeitos performativos em certos contextos de
situação, incidindo sobre determinados campos, como nos advertem, a partir de distintas
matrizes disciplinares, Malinowski (1935), Austin (1962) e Bourdieu (2008), Sônia me
revelou o duplo caráter desses efeitos. Enquanto minhas expectativas e desconfortos no curso
269

da pesquisa giraram em torno do poder enrijecedor de categorias e enunciados, a fundadora do
“movimento” apontou a possibilidade oposta: o poder englobante e reconfortante, ainda que
efêmero, de palavras e enunciados proferidos em determinados espaços autorizados.
Consciente de parte de suas limitações, silêncios e imprecisões, a redação desta tese é uma
aposta nessa possibilidade.

270

Considerações Finais
À procura de Luísa Porto

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.
Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva,
que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.
Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta, meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.
Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
(Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.
Se todavia não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
271

e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco a cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida.
a qual não dá noticia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.
Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898,
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem, leu no Diário Mercantil,
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.
Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.
Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno
filial
272

e do próximo.
Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei.
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
O olhar desviado e terno,
canção.
A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.
Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.
Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a cólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos·
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intata nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
273

minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
gravada no centro da estrela invisível
Amor.
Desaparecimento de Luísa Porto, Carlos Drummond de Andrade

Poeta e burocrata, Carlos Drummond de Andrade escreveu em verso o enredo do
desaparecimento de Luísa Porto, de 37 anos, alta, morena e levemente estrábica. Luísa foi
fazer compras na feira da praça e, desde então, não retornou. Não levava muito dinheiro e não
costumava demorar quando saía. Sua melhor amiga, a costureira Rita Santana, nada sabe
sobre seu paradeiro. Do pouco que diz, só há registro da negativa “Não sei”.
Aflita, a mãe, pobre, viúva e paralítica, clama pela procura da filha, através da
máquina de escrever do poeta. Sabe que talvez Luísa jamais seja encontrada. Ainda assim,
pede ao leitor, ao repórter-amador, ao transeunte e até mesmo aos ricos da cidade que lhe
devolvam Luísa ou, pelo menos, lhe dêem informações. Cogita ainda que a própria
desaparecida possa, quem sabe, voltar espontaneamente. Percorrido o poema, entretanto,
substitui seus apelos pela constatação de que já não interessa a descrição do corpo, nem a
alegada castidade da moça. Pode ser que Luísa não retorne nunca. Diluída no mundo sem
explicação, a desaparecida ganha, finalmente, lugar inerte no amor materno, onde vive para
consolo da mãe adoecida e é, ao mesmo tempo, bebê cheirando a leite, moça casta e mulher
trabalhadora.
O “Desaparecimento de Luísa Porto” condensa temporalidades, sustenta um enigma e
soma, narrativamente, súplicas, suspeitas, reputações e tantos outros elementos constitutivos
de casos de desaparecimento que, como diz em verso, acontecem anualmente numa cidade
como o Rio de Janeiro. Diferente de registros policiais que os documentam, categorias
formais que os classificam e textos acadêmicos que os tomam como objeto de estudo, porém,
o poema ampara, simultaneamente, tanto a desimportância e relativa banalidade desses casos,
quanto seu caráter extraordinário e disruptivo. Sem subtrair a força expressiva da voz da mãe,
sem deixar que o desarranjo da situação se esvaia, mas também sem se furtar a insinuações, a
poesia transmite tudo aquilo que é apartado, traduzido, classificado e talvez excessivamente
arrumado em textos de outras naturezas que também tomam desaparecimentos como matéria.
274

Como diz o poeta, anúncio algum pode prover a intensa realidade disfarçada em descrições,
retratos e registros sobre desaparecidos e desaparecimentos.
A tese que ora encerro é resultado de um processo de pesquisa ao longo do qual,
conforme pede a poesia, gastei certo tempo indagando, inquirindo e remexendo
desaparecimentos de pessoa. O trabalho de campo e a redação do texto foram guiados pelo
objetivo geral de compreender como múltiplos casos são gestados e geridos (Souza Lima,
2002) como ocorrências policiais de um mesmo tipo, e como o fenômeno do desaparecimento
é construído como singular “problema social”. Para tanto, tomei como objeto de estudo outras
empreitadas e iniciativas que também dedicam certo tempo a indagar, inquirir e remexer
desaparecimentos, embora o façam com finalidades bastante distintas: registros e
investigações policiais de casos reportados em delegacias, e eventos públicos dedicados a
debates e propostas para o enfrentamento desse “problema”.
A partir de trabalho de campo inicialmente realizado no Setor de Descoberta de
Paradeiros (SDP) da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, e posteriormente estendido
para eventos da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes
Desaparecidos (ReDESAP), procurei refletir sobre o que é construído como desaparecimento
de pessoas e, ato contínuo, sobre as unidades de responsabilidade delimitadas e evocadas em
tal construção. Nesse processo, vale destacar, deparei-me com o desafio de produzir e lidar
com categorias e amarras textuais que, diferente da poesia de Drummond, classificam,
codificam e ordenam as tramas, relações e desarranjos a que se referem, subtraindo-lhes muito
de sua força expressiva e de seu caráter dinâmico e desestabilizador.
Como muitos dos casos narrados ao longo da tese, o desaparecimento de Luísa Porto é
caso de família, dor individual, acontecimento digno de simpatias pessoais. Sua solução trará
como máxima recompensa a paz íntima daqueles que o desvendarem e o sorriso festivo da
mãe entrevada, e não a boa sorte dos povos ou a vitória de muitos na luta política. É uma
“calamidade comum” (Kleinman, 2006), cujo desfecho, acredita-se, depende da caridade do
povo e de sua crença na boa reputação de Luísa. É, enfim, algo banal, página a ser facilmente
virada ou ocorrência policial que pode, sumariamente, ser arquivada. Desaparecidos um dia
regressam, como se estivessem ouvindo as súplicas dos que por eles esperam, e as imprecisas
datas de seus sumiços são dados irrelevantes. Como vimos na Introdução, aliás, pesquisadores
do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro asseguram que mais de 70% dos
desaparecidos retornam para suas casas.

275

Não obstante, também como outros casos narrados aqui, em certa medida o
desaparecimento de Luísa é também um emblema do inexplicável, consequência de eventos
insuspeitados da magnitude de terremotos ou da inverossímil mudança de rumo de ruas e
avenidas. Fato extraordinário, de impossível inteligibilidade a partir dos elementos que nos
são dados a conhecer, tem a capacidade de fazer os membros atrofiados da mãe paralítica se
desatarem, e deve ser tratado a qualquer hora do dia ou da noite. Uma pessoa pode, afinal,
volatilizar-se, causando perplexidades que se desdobram no tempo e não têm conclusão. Não
importa o quanto nós, com nossos inúteis pés fixados, por eles procuremos: desaparecidos
talvez nunca regressem. Podem, inclusive, ter sido vítimas de crimes terríveis, conforme
sustenta a ONG carioca Rio de Paz, e jamais ter suas mortes investigadas e seus corpos
propriamente velados e pranteados.
Essas duas dimensões tão bem combinadas no “Desaparecimento de Luísa Porto”
sintetizam aspectos centrais do modo como o desaparecimento de pessoas é gestado e gerido,
no Brasil contemporâneo, como ocorrência policial e “problema social”. Enquanto policiais
que ouvem comunicações de casos particulares os encaram como “problemas de família” de
somenos importância, agentes sociais engajados em debates públicos centrados no tema
enfatizam sua máxima relevância e seu caráter extraordinário e desestabilizador. Desse modo,
individualmente casos particulares não recebem muita atenção nas repartições em que são
reportados, ao passo que o “problema social” do desaparecimento mobiliza múltiplas
instituições e merece encontros e reuniões frequentados por servidores públicos, funcionários
de ONGs, mães de desaparecidos e demais agentes sociais que clamam para que o fenômeno
seja duplamente contido. Em conjunto, esses agentes rogam para que o desaparecimento de
pessoas seja tanto delimitado por definições e instrumentos legais específicos que o tomem
como conteúdo, quanto barrado e imobilizado por iniciativas de prevenção que garantam que
novos casos não acontecerão. Nesse quadro, não surpreende que instâncias que os reúnem,
como por exemplo a ReDESAP, concedam espaço crescente a pesquisadores que, alçados à
condição de “especialistas”, produzam definições autorizadas que dêem conta do tema. Mais
do que isso, nesse quadro não surpreende que o desaparecimento de pessoas, como grave
“problema social”, ganhe visibilidade e importância como fenômeno quase autônomo,
relativamente descolado de casos particulares.
Por outros caminhos, distintos tanto do trabalho de campo que deu origem a esta tese,
quando do percurso poético traçado por Drummond, Lampinen et al (2008) também apontam
para o relativo descolamento entre essas duas dimensões do desaparecimento de pessoas. Há
276

alguns anos, os pesquisadores conduziram estudo sobre a eficácia de cartazes com fotografias
de crianças e adolescentes desaparecidos como, por exemplo, os que ilustram as paredes do
SDP. Tomaram como objeto de pesquisa posters com retratos de desaparecidos que são
periodicamente colados (e renovados) nas paredes de uma mercearia de bairro, em uma
cidade estadunidense. Através de questionários respondidos por consumidores da mercearia,
concluíram que, diante dos posters, pessoas comovem-se e afirmam de modo resoluto que o
desaparecimento é um “problema” grave e atordoante. Ao mesmo tempo, contudo, as mesmas
pessoas relatam não olhar detidamente para as fotografias neles estampadas, nem memorizar
as faces das crianças e adolescentes cujos desaparecimentos são por eles divulgados. Os
cartazes, portanto, são eficazes para sensibilizar pessoas em relação ao “problema” do
desaparecimento, mas não para auxiliar a solução de casos particulares.
Como

busquei descrever ao

longo deste trabalho, casos particulares de

desaparecimento constituem-se a partir da ausência da pessoa desaparecida nos espaços
geográficos e nas teias de relações às quais, do ponto de vista de ao menos uma outra pessoa,
ela deveria estar vinculada. Essa ausência é objeto de comunicação e registro em delegacias
de polícia, às quais comunicantes de casos se dirigem movidos por variadas combinações de
intenções, interesses e sentimentos. Já o “problema social” do desaparecimento é construído,
como demonstram eventos da ReDESAP, a partir da denúncia pública de múltiplas faltas que,
somadas, parecem conferir àquela ausência uma importância e gravidade que lhe é
rotineiramente negada em repartições policiais: as ausências de um Estado assistente e
provedor, de uma polícia sensível e competente e, ainda, de uma família protetora.
Mas por que a ausência da pessoa desaparecida não é, por si só, capaz de conferir
importância ao “problema” do desaparecimento? O que está em jogo na produção cotidiana
da irrelevância dos casos e das pessoas neles enredadas que parece amortecer seu caráter
problemático? Essas interrogações sintetizam, mais e melhor que resultados e conclusões
definitivas, o ponto a que a pesquisa conduzida no SDP e na ReDESAP permitiu-me chegar.
Se, por um lado, há uma relativa incongruência entre a gestão de casos particulares e a
gestação do “problema social” do desaparecimento, por outro há também laços de
complementaridade e mútua constituição entre eles. O mais fundamental desses laços,
conforme a pesquisa indicou, é o fato de que, talvez precisamente por considerar casos de
desaparecimento ocorrências menores, policiais produzem registros parcos e imprecisos que
alimentam, por sua própria vagueza, seu caráter enigmático. Nesse sentido, ao construírem
cotidianamente a irrelevância dos casos, paradoxalmente alimentam o cunho extraordinário e
277

atordoante atribuído por outros agentes sociais ao desaparecimento de pessoas. Afinal,
investigações encerradas porque não foram registrados dados suficientes para dar
prosseguimento às investigações, entre outros desfechos tão kafkianos quanto sumários dados
a muitos casos, perpetuam indefinidamente a aparente impossibilidade de se solucionar certos
desaparecimentos.
Mas algo mais parece conectar esses dois planos de forma crucial, além dos efeitos da
produção cotidiana da irrelevância empreendida em repartições policiais. A grande quantidade
de casos de “sucesso”, para usar um termo empregado algumas vezes pelo inspetor Fernando,
é vista no SDP e em outras repartições policiais como evidência máxima de que
desaparecimentos são “problemas” reversíveis, iniciados e encerrados dentro de uma unidade,
que, para eles, deve ser auto-contida e auto-gerida: a “família”.
Do ponto de vista de alguns agentes sociais engajados em debates sobre o tema,
simbólica e pragmaticamente representados pelas mães de pessoas desaparecidas, participar
de eventos dedicados ao desaparecimento e fazer pronunciamentos emocionados que
conectam dores individuais a esse grave “problema social” é, em larga medida, questionar a
banalidade e a desimportância atribuídas não só ao desaparecimento de um filho ou filha, mas
a tudo o que, como ele, ocorre no interior de “famílias”. Em outros termos, participar de
eventos como os promovidos pela ReDESAP é uma forma de clamar, como faz a mãe de
Luísa Porto, para que casos, desassossegos e incompatibilidades de relacionamento
supostamente vividos dentro da unidade de localização e formação moral denominada
“família” sejam convertidos em “problemas” dignos de visibilidade fora dela. Ainda que não
garanta a localização de desaparecidos, portanto, essa conversão parece responder a uma
intensa demanda pelo reconhecimento e pela reparação de sofrimentos e dores vividas em
“família” e reiteradamente delegadas e confinadas nessa unidade. Talvez seja isso, enfim, o
que as mães de pessoas desaparecidas esperam ao evocar e multiplicar ausências em eventos
da ReDESAP. Talvez seja isso, ademais, o que ritmadamente “pede-se”, “suplica-se” e “rogase” na poesia de Drummond.
Como diz Cecília, cuja filha desapareceu aos 13 anos de idade e hoje conta ou contaria
29, “o desaparecimento é uma questão invisível, mas que não pode ser silenciosa”. Por
invisível, aí, talvez possamos compreender não só a trivialidade atribuída aos casos, mas
sobretudo o fato de que, para alguns agentes, entre os quais se destacam policiais,
desaparecimentos compreendem tramas ordinárias e banais porque inerentes à vida em
“família”. Para policiais, mas certamente não apenas para eles, “famílias” são unidades
278

constituídas por conflitos, incompatibilidades e “questões” que devem ser experimentadas,
geridas e solucionadas em seu interior. Relembrando o caso de Antônio, anunciado já no
Prólogo deste trabalho, dentro de “famílias” há, no mínimo, quem dê “muito trabalho”, quem
prefira que o outro “evapore” e quem se mantenha casado “no papel” exclusivamente para
obter benefícios financeiros. Desaparecimentos, portanto, são apenas um de vários tipos de
“problemas de família”.
“Problemas” como esses, para policiais, não devem ser levados a delegacias, ainda que
essas repartições mantenham suas portas (quase sempre) abertas. Caso o sejam, podem e
devem ser devolvidos às “famílias”, na forma, por exemplo, de conselhos e compromissos.
Nesse processo, porém, não só querelas conjugais e interesses financeiros como os presentes
no caso de Antônio, mas também tramas que têm como desfecho mortes violentas, destruição
de cadáveres e outros fatos classificáveis como crimes são subsumidas no heterogêneo
universo dos ditos “problemas de família” e, por isso, restam sem apuração.
O

fato

de

comunicantes

de

desaparecimento,

convertidos

em

“famílias”

independentemente dos vínculos que mantenham com os desaparecidos, receberem de volta
os encargos não só da descoberta de paradeiro, mas da gestão mais ampla de virtualmente
todas as suas relações e conflitos, explica em parte o ponto a que chega a poesia de
Drummond. Depois de muito suplicar e esperar, a mãe de Luísa Porto não desiste de sua
procura. Antes, reecontra, em si mesma e nos sentimentos por ela nutridos, novo lugar para a
filha desaparecida. Localiza-a, portanto. Desse modo, reordena sua relação de filiação apesar
da ausência de Luísa, e em certa medida contém o desarranjo provocado pelo
desaparecimento dela. Para encerrar esta tese, obviamente sem concluí-la, gostaria de narrar
dois relatos que ouvi no decurso da pesquisa que seguem em direção semelhante. A meu ver,
ambos explicitam formas através das quais “famílias” reordenam parte dos “problemas” e
desarranjos que reportam a policiais e, em seguida, recebem deles de volta.
Em meu primeiro dia de pesquisa no SDP, enquanto aguardava a chegada do inspetor
Fernando, que me apresentaria as dependências da Delegacia de Homicídios (DH) e os
horários entendidos como adequados para minha presença lá, conheci a investigadora de
polícia que, àquela época, era responsável por fazer retratos falados de envolvidos em
ocorrências investigadas na DH. Ao saber que meu tema de pesquisa era o desaparecimento
de pessoas, a policial relatou um caso ainda recente que, nas palavras delas, a “marcou para o
resto da vida”. A mãe de uma criança desaparecida foi à repartição reportar, cheia de
esperança, que havia visto a filha pela televisão. Em reportagem filmada em Copacabana, a
279

mãe viu a menina passar, sorridente e guiando uma pequena bicicleta, no segundo plano da
imagem exibida por uma emissora de TV. A policial, porque boa fisionomista, foi chamada
para cotejar fotografias da desaparecida com as imagens televisionadas. Seu parecer final foi
que a criança andando de bicicleta por Copacabana não era a filha daquela mulher. Ainda
assim, a mãe seguiu afirmando sua certeza não só diante da policial e de outros agentes da
delegacia, mas também em jornais e revistas de grande circulação. 145
Em outro momento, talvez não por acaso no último evento da ReDESAP de que
participei, ouvi relato igualmente impactante sobre possíveis novos lugares em que
desaparecidos são situados por suas “famílias”. Segundo a funcionária de uma das ONGs que
integram a rede, a mãe de um menino desaparecido há exatos vinte anos afirma ter certeza do
que se passou com o filho. Para ela, o garoto foi levado do Brasil por uma boa “família”
estrangeira, que lhe dá tudo do bom e do melhor, e como ele era ainda muito pequeno quando
isso aconteceu, não tem nem motivos, nem capacidade para se lembrar que antes vivia no seio
de outra “família”. Atualmente, o desaparecido vive em outro país, fala outra língua e tem
apenas eventuais flashes de memória sobre sua vida no Brasil. Tais flashes não são suficientes
para que ele reconstrua o passado de modo nítido e tenha vontade de retornar. Por isso, a mãe
cuida com especial atenção do cavalo, agora já muito velho, em que o menino costumava
cavalgar antes de desaparecer. Para ela, o animal é o elemento que reacenderá a memória do
desaparecido e, como o Amor que encerra a poesia de Drummond, os reconectará.

145

Uma das reportagens em que essa mãe relata ter visto a filha na TV foi redigida por Martha Mendonça, sob o
título “Eu a sinto viva”: Como é a vida de quem se agarra à esperança de rever o filho desaparecido – e como
prevenir novos dramas”. A reportagem foi publicada pela Revista Época, edição de 14 de novembro de 2008.

280

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