You are on page 1of 17

Carolina Cardoso Dutra Evangelista1

Da meritocracia na educação a uma sociedade desescolarizada

Resumo
Este ensaio tenta discorrer sobre a sociedade meritocrática e sua inserção no
contexto da rede de ensino, para isso é dada uma contextualização de como
ocorreu esta inserção, primeiramente mundial e depois no contexto escolar
brasileiro com a ajuda da democratização do ensino. Analisa-se, também, que
este sistema, como política pública não funciona em uma sociedade e, talvez
apenas em grupos pequenos. É tratado também da meritocracia como razão para
uma “sociedade da desconfiança”, passando pela descrença no sistema de ensino,
até a ideia de uma sociedade “desescolarizada”.

Palavras-chave: Meritocracia, Educação, Sociedade
Desescolarizada, Sociedade da Desconfiança, Descrença
_______________
Introdução
Quando comecei a escrever este ensaio o primeiro título era: “Meritocracia só
funciona em time de futebol”. Uma alusão ao sistema meritocrático tão bem
implantado pelo técnico Tite, em 2012, que levou o Sport Club Corinthians
Paulista a ser consagrado campeão do Mundial Interclubes contra o time inglês,
muito melhor estruturado futebolística e economicamente, Chealsea. Na época, o
bordão do técnico do Corinthians sobre o sucesso virou moda, pois o sistema
pareceu funcionar com brilhantismo: “ME-RI-TO-CRA-CIA”. Como corintiana
doente e vendo o time em sua melhor fase, o “repeteco” do bordão era quase
inevitável e, com ele, a oportunidade de pensar sobre o tema também. Fui
chegando às minhas conclusões baseadas no senso comum e em experiências
empíricas, quis escrever sobre ele pensado na área da educação e assim comecei.
O objetivo do título no excerto era meramente chamar atenção, mas pelo leque

1

Mestranda na área de Ciência da Informação (ECA-USP). Bacharel em Letras, habilitação
Português/Alemão (FFLCH-USP) e em Licenciada em Português e Alemão (FE-USP). Possui vasta
experiência no mercado editorial, atuando em diversas publicações, incluindo didáticas.

não são muito específicas e. parto do pressuposto que não dá para se trabalhar pequenos nichos como “justos” se a sociedade se mostra meritocrática como um todo. em times de futebol. é habitual que as chances das pessoas sejam similares. é claro. não seria apenas em times de futebol que funciona de maneira justa a meritocracia como sistema de oportunidades. a palavra “meritocracia” apareceu provavelmente pela primeira vez no livro Rise of the meritocracy. . Embora sempre presente no senso comum das sociedades individualistas e igualitárias. pois uma das críticas que o autor fez sobre esse sistema foi a alusão ao fato de que as medidas referentes a esse mérito. modernas e tradicionais. escrever apenas sobre isso tornouse impossível. objetivos e aspirações parecidos – não adentrarei aqui.)”. mais bem dotados intelectualmente etc. mas talvez ela só funcione realmente em tipos de comunidades reduzidas. 29foi tambémo. elegidas pela classe social ou modo de vida dominante. ou mesmo empresas em que os profissionais tenham currículos. como. Assim. dentro destes nichos. Em minha hipótese inicial. 2 HOUAISS. a meritocracia é há muito um tema que gera controvérsias (BARBOSA. Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. p. a meritocracia é “a caracterização de um sistema de governo ou gestão que utiliza o mérito individual para a ascensão social e política”. acabo por renegar esta primeira hipótese e um clássico exemplo disso é nosso sistema de ensino.de temas que foi a pesquisa foi desenvolvendo. de Michael Young (1958). Temos pela definição dicionarizada de meritocracia2: o “predomínio numa sociedade. o contexto da lógica de mercado ou da seleção que é feita para que se possa atingir esse tipo de comunidade. em que as condições das pessoas costumam ser restritas de distinção. ocupação etc.sistema me parecer tão injusto. E por isso. altamente meritocrático. são arbitrárias. daqueles que têm mais méritos (os mais trabalhadores. que pode ser validado em inteligência ou esforço. No sentido que aqui proponho. pois para o autor. organização. 1999. mais dedicados. geralmente. seu livro me interessou particularmente. grupo.

cujo texto inspirou o filme Matrix. que as espécies competem entre si: a que melhor se adapta sobrevive. vivemos em uma cena escrita e dirigida por uma máquina chamada Matrix. p. 375-394. do Professor Dr. In: NOVAES. e mesmo que adaptado à realidade da comunidade de uma escola. .Voltada à educação. Sob essa perspectiva. uma escola meritocrática contribui para a propagação e dá sustentação para uma sociedade baseada no sistema da meritocracia. Depois. E muito mais. muitos defendem – e concordo – a hipótese de que em um sistema educacional lidamos com pessoas diferentes. Assim. não participa. Exatamente como nos engenhos de açúcar antigamente. em realidade. Adauto (Org. supervalorizando o sucesso e estigmatizando o fracasso. o texto de Bucci apresenta a teoria de Charles Darwin. o que. que postula. principalmente pela época em que ela foi 3 Este tópico foi livremente inspirado no texto: “Aquilo de que o humano é instrumento descartável: sensações teóricas”. em que o escravo era só uma peça fazendo girar a roda do moinho. dos irmãos Wachowskis. a Evolução das Espécies. Rio de Janeiro: Agir e São Paulo: Edições SESC SP. 2009. bem como atribuindo exclusivamente ao indivíduo e às suas valências as responsabilidades por seus sucessos e fracassos”.). a meritocracia não tratará a todos. Os seres humanos são apenas peça de uma grande máquina e não trabalham com o pensamento realmente criativo (apesar de não saberem). antes dele Jacques Lacan (também citado no artigo) acreditam que essa teoria pode ser lida “como a aplicação do ideário liberal” à vida no planeta Terra. que simula o planeta terra em um futuro em que a realidade é fruto de um poder único que controla todas as nossas ações. A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Eles movem um mundo que. como os seres humanos da Matrix é a peça que move um mundo que não governa. com a igualdade e justiça que ela supostamente pressupõe. Bucci (2009a) e. basicamente. o escravo. Eugênio Bucci. necessariamente. de um “pequeno” nicho. A fuga da meritocracia desenfreada3 O artigo “Aquilo de que o humano é instrumento descartável: sensações teóricas” de Eugênio Bucci (2009a) inicia citando o filósofo Baudrillard. segundo Souza (2013): “exacerba o individualismo e a intolerância social.

não foi só a meritocracia que ascendeu naquele século. dos direitos sociais: Prosperaram aí os valores da fraternidade e da igualdade. Esses direitos vinham para deixar a sociedade mais igualitária. em tese. porque se fosse depender apenas da economia. sem a liberdade econômica. a ação humana em busca da sobrevivência (ou da riqueza) como um vetor natural. desde logo. o que alguns passaram a chamar de “darwinismo social” é. Sobrevive quem tem mais recursos para isso. instintivo. “o seu laissezfaire na natureza reverbera a ‘livre’ iniciativa” (reverbera. mas também como na sociedade econômica. seria a expressão final do liberalismo. mas. Contextualizando Darwin em sua época (ele viveu ente 1809 e 1882). “Por meio da ideia de que competir é um valor vital. Bucci (2009) faz ainda um paralelo: “o espécime de Darwin é análogo ao empresário de Adam Smith” . Assim. que fique bem claro. a sociedade não avançará. indiretamente.. o próprio liberalismo). Apenas a conquista do pensar . vital” (Bucci. A natureza. 2009). assim.apresentada à comunidade científica. e compete com outros pela riqueza. sempre haveria pessoas com recursos insuficientes para a sobrevivência. assim. Portanto: VIDA = MÉRITO A teoria de Darwin prega. não só a “predação” que acontece dia a dia na natureza. o autor lembra que o século XIX foram os anos da ascensão e propagação dos direitos fundamentais. Darwin consagrou. assim como é no capitalismo o fenômeno da hereditariedade: o capitalista acumula a riqueza e os meios de vida para sua família. Portanto. mas os direitos sociais também. contrabalançado pela vigência de direitos fundamentais. Da teoria de Darwin temos uma metáfora da ação capitalista. que supõe egoísmo e a ambição. que redundariam mais tarde também nos direitos sociais..

e a possibilidade dessa rejeição. v. n. causada pelo sistema meritocrático exacerbado. 1. que não respeita a individualidade do ser. Em vez de justiça. São Paulo. parece-me vir da ideia da sociedade moldada pelas questões do mérito. 1958). pois se baseia no medo causado pela constante avaliação que passamos em nossas vidas. “Toda a seleção de um é a rejeição de muitos” (Young. Seguindo este raciocínio. p. em seu artigo “O inavaliável em uma sociedade de desconfiança” (2010). gera uma sensação de eterna desconfiança que nos é intrínseca.sobre esses direitos significou que a humanidade evoluiu como sociedade. que não é natural. o questionamento que faço é sobre o quanto a sociedade a qual estamos inseridos. E analisando significadamente. mas que já nos acostumamos. em meu ponto de vista. Muito da sensação de que a vida é “injusta”. Este ser nem sempre está preparado para lidar com a rejeição. 2014. a conquista deles significava a evolução para um estado civilizado. No entanto. o sistema meritocrático contribui para uma sociedade contrária ao que ele propõe inicialmente. fala da “sociedade da desconfiança”. já é castrado e vive sempre em busca do objeto de sua castração4. e que homogeneízam as pessoas. 4 Para um melhor entendimento ver o texto de Eugênio Bucci e Rafael Venâncio: “O Valor de Gozo: um conceito para a crítica da indústria do imaginário”. segundo Freud. continuamos selecionando e diferindo exacerbadamente. é muito difícil mensurar o que uma rejeição pode causar na individualidade do ser social. que vem desde o nascimento até nossa morte.-jun. 141-158. jan. Mesmo com todos os direitos conquistados. em que os valores podem ser difusos e mutáveis. O ser humano. A socióloga Claudine Haroche. quanto os direitos sociais alcançados suprem a necessidade de uma sociedade tão revigorada pelos simulacros da meritocracia? O sistema meritocrático e a desconfiança provocada Eles não suprem. 8. ao nascer. . MATRIZes. do Centre National de Recherche Scientifique da França. que temos a impressão de estar em nossa essência pelo simples fato de sermos “humanos”. é a sensação da falta dela que ele propaga. é realmente “civilizada”.

que acabou apropriando seu sistema de ensino baseada nessa premissa.. E minha hipótese é que a democratização do ensino ajudou a difundir este sistema no Brasil. a apropriação da 6 .A meritocracia no contexto escolar Foi na Revolução Intelectual. Althusser diz: 1. é perceptível como a apropriação do ideal da democracia foi determinante em como as pessoas iriam agir em sociedade (historicamente. p. Saliento aqui os postulados sobre ideologia de Louis Althusser em seu livro Aparelhos ideológicos do estado. Nessa época. através do ideal de que uma nação deve fazer o melhor uso de seu material humano (. que prima pela ênfase no desenvolvimento. que denunciavam a herança da propriedade intelectual que o processo de mudança social legitimou uma sociedade do mérito.. que olham a ideologia do plano social e são citados e didaticamente explicados por Cassian (2005) e Bucci (1997). 1985) Foi em busca do sonho de oportunidades iguais. As guerras do século XX foram. pelo medo da nação perder as guerras na(s) qual(is) estava inserida. 212-213. ele fala de um ponto histórico 5 Ver Toledo Piza. apud Young.” – no caso da democratização do ensino. que teve início na Inglaterra em 1870. a escola incorporou definitivamente a base meritocrática. representaram grande justificativa para o princípio do mérito. (Toledo Piza. Muito disso foi postulado pelo pensamento tecnocrata. é fundamentado na supremacia técnica: O pensamento moderno tecnoburocrático. no progresso e na eficiência. José Mario Pires Azanha (2004) discorre em seu artigo “Democratização do ensino: vicissitudes da ideia no ensino paulista” acerca da apropriação de qualquer ideologia6 sobre o ideal da democracia7.). 1985. que se intensificaram e foram o ápice da competição entre nações. em várias áreas a hereditariedade foi sendo substituída pela compensação do talento. “A ideologia é uma ‘representação’ da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência. mas muitas vezes complementar a ela. que diferente da meritocracia. Os testes de crianças nas escolas elementares que entrariam no serviço militar eram por mérito. que o mérito se tornou árbitro decisivo na sociedade moderna ocidental em detrimento da hierarquização de pai para filho5. foi responsável para que as escolas e as empresas tenham adotado progressivamente o critério do mérito.

E. 9 Ver o texto “O olho que vaza”.“em que foi a premissa fundamental de todas as posições: a valorização do ideal democrático” que mesmo com certas controvérsias. instituída pelo então diretor de instrução pública do Estado de São Paulo em 1920 (Azenha. que traça o plano de ação.”: é a própria ideologia da democracia. a interpelação da ideologia foi tamanha. – EDUSP. não seja privado. “A ideologia tem existência material. com o intuito de que se abrangesse mais pessoas. No País. “todos concordaram na ‘aceitação da democracia como a mais alta forma de organização política e social’8” (Azanha. os governos pelo mundo tomaram o ensino como responsabilidade sua e o disponibilizaram como obrigatório. deu-se a “democratização do ensino” – o ensino para todos –. ainda mais ilusória do que em outros lugares. Em alguns países com sucessivas reformas e melhorias. 7 Para Weber. 2. de Eugênio Bucci em que o autor explica que o “espetáculo do mundo” é o trabalho. a democracia é uma operação impessoal. de uma vez por todas. 206-207. 10 Veja o texto de J. The University of Chicago Press. a falácia da “democratização” foi ainda maior. o qual a educação estava inserida no Brasil10 – principalmente como bloqueio do crescimento econômico. neste exemplo. que se mostrou tão aceitável e tomou forma de solução quase milagrosa para diversos problemas. democracia levou a suposta “democratização” do ensino. ainda segundo Azanha. Em grande parte das abordagens das políticas públicas. U. 8 Azanha cita nestas aspas o estudo: McKleon. que a noção de “ensino democrático” se distorceu. E é por essa aceitação e pela ambiguidade da noção de democracia. para a reprodução da “sociedade do espetáculo”9. Neste período. para que o estado seja administrado sem amor ou ódio (Weber. (Ed. as medidas adotadas acabaram por diminuir a qualidade do ensino. que fez com que o indivíduo enquanto sujeito pensasse no ideal para o coletivo. R. . P. e 3. 1994). São Paulo. que dá condições para que o estado não seja clientelista. Nagel citado por Azanha (2004): “Educação e sociedade na Primeira República”. da cultura dentre outras coisas). havia a necessidade de duplicar a rede de ensino para abranger toda a população que precisava ser escolarizada. Em nome do ensino democrático. o analfabetismo.) Democracy in a world of tensions (a symposium prepared by Unesco). p. precisava-se erradicar. sem grandes recursos financeiros para tal. 2004). 2004). essa “democratização” atingiu um ensino público dito de “qualidade” – mesmo que sirva apenas para a reprodução de um sistema. “A ideologia interpela os indivíduos enquanto sujeitos”: no exemplo. 1974. Como exemplo. À época. cito a Reforma Sampaio Dória. 1951.

. fala sobre “a necessidade de planos como uma aspiração politicamente assentada”. Considera-a vencedora. planos como esses. Nas palavras de Azanha (2004): “Esta trivialidade do credo democrático em educação.. já mencionados. é praticamente impossível. o próprio Azanha defende a “inevitabilidade e desejabilidade de planos para a educação”11. Azanha extrapola suas considerações aos planos sociais. parece que causa repugnância na prática..) significa permanecer aprisionado dentro do círculo vicioso institucionalmente articulado e protegido desta lógica 11 AZANHA. apelando para concepção de educação mais vasta: Apenas a mais vasta concepção de educação nos pode ajudar a insistir no objetivo de uma mudança verdadeiramente radical proporcionando alavancas que rompam a lógica mistificadora do capital. munida do ideal democrático optou pelo mínimo para todos ao melhor para poucos. de certa forma. Em Educação para além do capital. as séries foram concentradas e o ensino primário obrigatório passou a ter duração não mais de quatro. A Reforma.” No entanto. tão facilmente aceita no plano teórico. (. para que se viva em sociedade é necessário os planos governamentais. mas a partir dos nove anos.. um candidato se eleger sem colocar em pauta seus planos diretivos.Um dos principais objetos da Reforma era reorganizar o ensino básico. . o filósofo húngaro István Mészaros critica. No entanto. cair na tentação dos arranjos institucionais formais (. 70-78. pp. “Política e planos de educação no Brasil: alguns pontos para reflexão”. porque exaspera a sensibilidade pedagógica dos especialistas preocupados com a qualidade do ensino.). por exemplo. 1993. 85. n. que passou a ter sua obrigatoriedade não mais a partir dos sete. porque hoje a exigência de um plano educacional foi um triunfo elencado pela Constituição. mas de dois anos. há quem tenha uma ligeira discordância quando o caso é a educação. Hoje. e esses planos são sim outra conquista social – junto com os direitos civis. Caderno de Pesquisa. na nossa sociedade. José Mário Pires.

dizendo que estamos “conformados” com elas. contra a “anarquia e a subversão”.autointeressada do capital. Porque limita tanto a educação como a atividade intelectual da maneira mais estreita possível. Esta passagem de Mészaros é interessante porque ele critica os processos de mudanças graduais. Mészaros coloca este termo também entre aspas para transcrever um discurso comum hoje em dia: a política. “empresarial”.. Esta última forma de encarar tanto os problemas em si mesmos como as suas soluções “realistas” é cuidadosamente cultivada e propagandeada nas nossas sociedades. Mais adiante ele fala e critica a educação tecnocrata. como é a única forma certa e adequada de preservar os “padrões civilizados” daqueles destinados a “educar” e governar. a visão elitista chama de “política de formalidades” qualquer medida mais aprofundada. Esta espécie de aproximação é incuravelmente elitista mesmo quando se pretende democrática. ao ver de muitos. os quais chama de resoluções “realistas”. enquanto que a alternativa genuína e de alcance amplo e prático é desqualificada aprioristicamente e afastada bombasticamente como sendo “gestos políticos”. Simultaneamente exclui a esmagadora maioria da humanidade do âmbito da ação como sujeitos. em nome da presumida superioridade da elite: “meritocrática”. Gramsci difere o trabalho fabril da . ou o que quer que seja. Ele coloca “realistas” entre aspas porque são realmente realistas apenas para alguns setores da sociedade.. seria uma mera formalidade frente aos interesses do mercado. que argumentava energicamente “. seguida dos estudos de Gramsci. e condena-os para sempre a serem apenas influenciados como objetos (e manipulados no mesmo sentido).que não há qualquer atividade humana da qual se possa excluir toda a intervenção intelectual – o homo faber não pode ser separado do homo sapiens”. “tecnocrática”. E estes “setores realistas” que desqualificam qualquer transformação social profunda.

duas coisas diferentes12. Ver o texto: “O Valor de Gozo: um conceito para a crítica da indústria do imaginário”. A natureza dessas necessidades.atividade intelectual que pode ser realizada pelo ser humano. não altera nada na coisa” (Marx. 8. vamos ao encontro da tese da já citada pensadora Claudine Haroche: as avaliações meritocráticas nas escolas. são também quantificadas por valores que não respeitam o ser humano. MATRIZes. 141-158. p. se elas se originam do estômago ou da fantasia. Pode-se inferir dessa frase. como mercadoria. pode ter um valor de troca e seu valor de gozo. pelas suas propriedades satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie. aqui. sem distinção. 1985). que tudo pode ser mercadoria. jan. o que fica bem explícito no subtítulo de seu livro Para além do capital: “rumo a uma teoria da transição”. n. são uma afronta a individualidade. 1. infere-se também que a educação foi colocada desde o mesmo princípio. tudo o que o ser humano em sociedade pode precisar. do conceito de meritocracia –. mas 12 Segundo Bucci o valor de troca da mercadoria é o valor dado pela sua imagem e o valor de gozo é a “medida da satisfação” do cliente depois da compra da mercadoria. na maioria de sua obra é por uma sociedade que clame por uma política de transição. o filósofo tende a ser mais radical. ainda sobre o contexto escolar. as mais tradicionais e completas de austeridade. solenemente. tem uma relação com o mérito. por si só. A própria informação. v. um objeto externo. desde o princípio do capitalismo era tida como mercadoria (cito aqui o famoso exemplo das rotas marítimas que eram vendidas a preços caríssimos para as expedições marítimas). Além disso. ressaltando a crítica à educação tecnocrata e meritocrática. Deste panorama. isto é. não para concluir o que já estabelecido por este trabalho. já que apenas a pessoa que possa trocá-la por algo que o valha têm o mérito de merecê-la. Estamos. *** A relação com a mercadoria “A mercadoria é. Sabemos que o discurso de Mészaros. a qual. expandindo o conceito de mérito – e saindo. E a conquista da mercadoria. uma coisa.-jun 2014. São Paulo. . com notas afixadas e com modelos únicos para todos. mas entendemos que no caso da educação. antes de tudo.

não representará mudanças efetivas em sua vida. Michael. Frisei a palavra geralmente na passagem a fim de salientar o fato de saber e assumir que há exceções. Hoje. pelo contrário. ele contesta o próprio Estado ideal e buscado por Hegel. a diferença entre o início e o término do século XX. não como protagonista16. como base para explicação dessa mudança de paradigmas na detenção da inteligência. dizendo que ele não existe.14 pertencem aos que fazem parte das classes dominantes. mas da minoria criativa”. É exatamente esse tipo de 13 O marxismo percebia que os homens eram ao mesmo tempo iguais e desiguais. conseguimos observar uma tendência intensificada desse pensamento em muito dos atores da educação brasileira. tornando a passagem de uma classe social para outra mais difícil. Descrença Observando linearmente. além. representará apenas a reprodução do seu já estabelecido papel social em um sistema que precisará dele apenas como uma engrenagem. Esse Estado é só o resultado de uma luta ferrenha de classes. e universalizando-o através do simulacro da meritocracia. ou seja. e muito menos é universal. que podem não ser tão raras. é a classe dominante chamando o seu ideal de universal. de todo o postulado econômico. para se tornarem meros “frequentadores”. 14 16 Este jovem está estaria inserido em uma espécie de Matrix? .para sublinhar o quão complexa é esta questão na nossa sociedade. muitas vezes impostos pelo Estado. que deixam de ser agentes do sistema educacional. 1994. as “formas de inteligência” mais bem remuneradas economicamente. Nova Jersey: Transaction Publishers. 15 YOUNG. muitas vezes. vemos concretamente a luta de classes e as formas de inteligência divididas entre essas classes como processo social. Marx contesta não só os valores meritocráticos13. sobretudo no caso da educação. The rise of the meritocracy (classics in organization and management series). Vemos o empobrecimento dos valores da instituição escola para seus jovens usuários. geralmente. dos que já detém o capital. já que estar ali. segundo Toledo Piza (1985) é que nos tempos mais recentes. Toledo Piza cita uma frase do livro de Young15 “a civilização não depende da massa sólida.

em seu Sociedade sem escolas. se 17 E por isso. . A imprensa está sempre a expor notícias sobre a falta de mão de obra qualificada18. Mudamos. e na história do País como um todo. pensador e polímata austríaco. Séries Estatísticas Retrospectivas. Estatísticas da Educação Nacional. a educação demarcava os lugares do privilégio (a exemplo da República das Oligarquias. no início do século XX. na opinião pública19. defende o fim da institucionalização da sociedade: “Não é possível uma educação universal através da escola. somente o acréscimo lento de mudanças incessantes que reproduzem o passado enquanto o transformam. 18 Veja: “Falta de mão de obra especializada se agrava e atinge 91% das empresas” (matéria de Renée Pereira. 101. 1960-1971. n. 19 Usando o conceito de Habermas. sequer restringe o descrédito ao sistema educacional brasileiro. há 44 anos. baseada no conceito já defasado do QI (coeficiente de inteligência) e do esforço individual. Soma-se a isso. 1970. Com a democratização do ensino passamos para um estágio diferente. em O Estado de São Paulo. ele diz que preconizando uma atitude em que o sujeito buscará transformar sua vida.”. Com uma visão ainda. (Bucci. já no início dos anos 1970. quando se faz um estudo histórico sobre determinado assunto. A educação está circunscrita. o voto de cabresto. influenciando e inserindo a sensação de descrédito. 1994). muito mais como um “distanciador” social do que uma escolha20. mesmo que tacitamente. entre outros). a escola como instituição. muitas vezes temos a sensação de vivermos loopings históricos. de 29 de outubro de 2013). citado por Bucci e Venâncio: “opinião pública é o recurso por meio do qual a esfera pública faz a mediação entre o estado e a sociedade”. vai além na sensação de descrédito do sistema do ensino. e “Pesquisa revela que falta de mão de obra qualificada prejudica empresas” (matéria do Bom Dia Brasil. de 12 de janeiro 2014). 2014). 20 Até bem pouco tempo. o Brasil contava com pouco menos de cinco milhões matriculados no Ensino Médio Veja: IBGE. Desescolarização como meio Ivan Illich. Ele não fala de uma “sensação”. Mas ainda há um caminho árduo para uma escola justa. hoje.”17 (Young. IBGE. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos.sociedade que Young preconiza em seu livro. INEP/MEC. Uma sociedade em que “Não há revoluções. que tal sensação de descrédito no sistema educacional brasileiro é visível também no fato de que nem o próprio sistema consegue se reproduzir por meio deste ensino defasado.

2007. pp./dez. “escolarizado” a confundir ensino com aprendizagem. 289-321. (Illich. fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. 1985) E não é só a escola. MATRIZes. especialmente os mais pobres. que significa “tempo ocioso”. “folga”. 65-79. In: NOVAES. Em tempos em que até o olhar e o entretenimento21 podem ser considerados “força de trabalho”. 2010. que considera que ainda não ultrapassamos os tempos modernos. uma instituição que não é transformadora. Ele elenca também. que as instituições que devem ser mantidas na sociedade são as que contribuem para para ela. Essas instituições não transformam o ser. 1. Ele relaciona. discordando do conceito de pós-modernidade do pensador David Harvey. 2. ver: Bucci. em uma lógica única. diploma com competência. Ser meramente “formadora”. em nossa sociedade moderna e supramoderna22. e sim formadora. melhores os resultados. a graduação leva ao sucesso. O autor cita brevemente a palavra latina schola. São Paulo: Edições Sesc-SP. como instituição que está fadada ao fracasso na concepção de Illich. em nosso tempo. obtenção de graus com educação. “Em torno da instância da imagem ao vivo”. ano 3. O aluno é. que no Brasil são. ago. e “O olho que vaza o olho”. n. em geral. os alunos da rede pública de ensino: Muitos estudantes. percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. . 2009.). A experiência do pensamento. Eugênio. ou. 21 Para saber mais. v. Caligrama. os estudantes de baixa renda. então. Illich vê a escola como forma de “emburrecimento” dos alunos. a “folga” também foi roubada da escola. 1-27. não as que fazem os seres humanos agirem como dependentes. Marc Augé é citado por Egênio Bucci em “Ubiquidade e instantaneidade no telespaço público: algum pensamento sobre televisão”. uma nova lógica entra em jogo: quanto mais longa a escolaridade. Para completar. apenas o utilizam como forma de sua própria manutenção. p. Alcançado isto. acaba sendo insuficiente. Adauto (org. já que está muito mais perto de apenas moldar os alunos para a reprodução do sistema do que para uma real transformação social. desse modo. 22 Conceito de Marc Augé. sobretudo. Ela os escolariza para confundir processo com substância. p.esvaece.

pois em seu entendimento. por isso a discussão sobre mudanças viáveis em um sistema escolarizado e meritocrático como o nosso serão debatidas e enfrentadas com muito mais cautela e implicará muito mais tempo. afinal. são diferentes e individuais. muito mais gerações do que o desejado. muito além da institucionalização: Pobres e ricos dependem igualmente de escolas e hospitais que dirigem suas vidas. formam sua visão de mundo e definem para eles o que é legítimo e o que não é. sucesso e riqueza sempre parecem ser uma premiação “justa”. A vida em toda a sua totalidade não pode ser pautada nos pequenos círculos sociais – uma empresa. a escola não consegue transformar. O aprender está. Mas o fato é que não há como pensar meritocracia sem estourarmos a bolha. e isso é decisivo na hora de educar e transformar nossas crianças. Enxerga-se a escola assim delineada como uma dessas instituições. Nós como professores. esse tipo de instituição não deveria existir.O autor cita o exemplo das instituições sociais que trabalham desta forma. . (Illich. um time de futebol. O medicar-se a si próprio é considerado irresponsabilidade. quando não é financiada por aqueles que estão no poder. cidadãos ou seres sociais sabemos que a vida social é bem mais complexa do pequenas comunidades ou grupos. não se precisaria dessas instituições. o aprender por si próprio é olhado com desconfiança. 1985) Comentários finais O debate sobre o ensino. é um assunto da esfera pública. por conta da maneira de como está institucionalizada. que hoje coloca a formação das pessoas como solução. jornalistas. a organização comunitária. se não existisse o problema. pois elas só existem porque há um problema. seja ele público ou privado. sendo que teria de fazer muito mais. Para Illich. Os “esforços” dados por cada um são relativos. pois “habilidade. Não vivemos também em uma tela de vídeo game em que esforço. é tida como forma de agressão ou subversão. A regra é simples.

maio-ago. agora tenho dúvidas também sobre a escolarização como melhor maneira de transformar as pessoas No entanto. José Mario Pires. 335-344. pp. “Política e planos de educação no Brasil: alguns pontos para reflexão”. Lívia. 2007. Caligrama. mais comportamentos sociais serão considerados bem-sucedidos. São Paulo: Editora Hucitec. etc.conhecimento. importância” são valores individuais “e não valores sociais universais (direito à vida. Caderno de Pesquisa. mesmo ela sendo hoje quase uma utopia. que atingiremos outro. Quando comecei a escrever este ensaio já não acreditava na meritocracia implicada no sistema educacional. “Como o capital aprendeu a falar”. 3. da democratização da escola foram extremamente importantes. A condição humana: as aventuras do homem em . sabemos que a história da humanidade. Nossa história é fadada ao desafio constante. 2. Educação e Pesquisa. Referências AZANHA. 85. “Aquilo de que o humano é instrumento descartável: sensações teóricas”. v. “Ubiquidade e instantaneidade no telespaço público: algum pensamento sobre televisão”. Processos esses que foram necessários e nos levaram a pensar em uma sociedade desescolarizada. v. pensamos em uma escola cada vez mais abrangente. quanto mais fatos sociais forem aceitos por elas. o processo de concepção das escolas. 2013). _____. Revista Praga. n. é só percorrendo um estágio. p. 109-120. n. liberdade. p. São Paulo. 1-27. n. Assim.)” (Souza. solidariedade. 70-78. 2004. “Democratização do ensino: vicissitudes da ideia no ensino paulista”. BUCCI. 2. _____. justiça. 1999.). Eugênio. BARBOSA. 30. _____. Adauto (Org. Igualdade e meritocracia: a ética do desempenho nas sociedades modernas. 1997. São Paulo: FGV. é feita de processos e passagens. p. Por isso. In: NOVAES. sobretudo a história da sociedade civil. 1993. da criação das escolas públicas.

. p. Acesso em: 16. São Paulo: Boitempo. 8. p. MATRIZes.03. 2010. Educação e sociedade na Primeira República. e São Paulo: Edições SESC SP. Col. 7ª Ed. Petrópolis: Vozes. Disponível em: http://jornalggn. – Edusp. Sociedade sem escolas. E. Isa Tavares. Col. 2002. “O olho que vaza o olho”. _____. . 1985.unicamp. ILLICH. _____. “O Valor de Gozo: um conceito para a crítica da indústria do imaginário”. 289-321. 1974. 2014. Trad. p. ano 3.).pdf. Mundo do Trabalho. Paulo Cesar Castanheira. São Paulo. Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Trad. jan.br/cemarx/ANAIS%20IV%20COLOQUIO/comunica%E7%F 5es/GT5/gt5m3c4. de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 141-158. São Paulo. CXXVII-CXXIX (53-78). István. HAROCHE. trabalho e educação”. VENANCIO. A experiência do pensamento./dez. Renato. J. 1. Cadernos Internacionais de Sociologia. Educação para além do capital. Adauto (org. 1. n. Mundo do Trabalho. P. Sérgio Lessa. Claudine. Trad.jun 2014. SOUZA. _____. In: NOVAES. ago. São Paulo: Edições Sesc-SP. 6579. São Paulo: Boitempo. Rafael Duarte Oliveira. 2010. NAGLE. Acesso em: 27 dez. "Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira". In: IV Colóquio Marx e Engels. 2009a.com. “Ideologia. Ivan. pp. n. MATRIZes. 2008. HOUAISS. MÉSZAROS.tempos de mutações. “Em torno da instância da imagem ao vivo”. 2009b. Para além do capital. 375-394.br/fora-pauta/desvendando-a-espuma-oenigma-da-classe-media-brasileira. v. v. M. Disponível em: http://www. Rio de Janeiro: Agir Editora Ltda. 2005. U.2014. “O inavaliável em uma sociedade de desconfiança”. Campinas. _____. CASSIN.

1994.. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva (vol. Nova Jersey: Transaction Publishers. 211-222.-dez. “Empresa. n. Sérgio Luiz de. 1). 1985. Michael. R. Max. jan. Fac. 11 (1/2). Trad. educação e meritocracia: a propósito de Michael Young”. WEBER. YOUNG.TOLEDO PIZA. 1994. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. . Educ. p. The rise of the meritocracy (classics in organization and management series). Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. São Paulo..