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Fazer história, interrogar documentos
e fundar a memória: a importância dos
arquivos no cotidiano do historiador
Mary Del Priore*

A cena é clássica: ao final da graduação em História, o professor sugere
um trabalho de final de curso. O rosto de alguns alunos se ilumina. O de
outros, fecha-se numa interrogação. Como lidar com documentos primários,
como freqüentar arquivos e selecionar fontes, enfim, como fazer história? –
perguntam-se alguns deles. Para responder a estas questões gostaria de começar por uma pergunta aparentemente simples, mas que segue nos interpelando. O que é história? Resposta simples: história é o que faz o historiador. Como já disse Antoine Prost1, a disciplina chamada História não é uma
essência etérea, uma idéia platônica. É uma realidade histórica situada no
tempo e no espaço, feita por homens que se dizem historiadores e reconhecidos como tais, recebida e apropriada como história por um público variado.
Não existe uma história sub spécie aeternitatis, cujas características atravessariam imutáveis as vicissitudes do tempo, mas produções diversas que os
contemporâneos de uma determinada época se acordam em considerar história. Isto quer dizer que antes de ser uma disciplina científica, como pretende ser e até certo ponto é, a História é uma prática social.
Essa asserção pode tranqüilizar o historiador que, como nós, toma a
decisão de refletir sobre sua disciplina; ela o remete àquilo a que está acostumado a fazer: o estudo de um grupo profissional, de suas práticas, de sua
evolução. Há vários grupos de historiadores que invocam tradições, constituem escolas, reconhecem regras constitutivas de seu ofício comum, respeitam uma deontologia, praticam ritos de incorporação e exclusão. Homens e
mulheres que se dizem historiadores e que possuem a consciência de pertencer a uma comunidade, fazem história para um público que os lê ou os
escuta, os discute e os acha importantes, por vezes interessantes. Historiadores são também movidos pela curiosidade intelectual, o amor da verdade, o
*

Coordenadora Geral de Pesquisa e Difusão da Informação do Arquivo Nacional.

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Prost, Antoine. Douze lessons d’histoire. Paris: Seuil, 1996. Empresto deste autor várias das questões
que serão aqui tratadas.

REV. TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG. DE PÓS-GRAD. EM HISTÓRIA – UFMT – V.3 – N.1 – JAN./JUN. 2002

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culto da ciência, mas o seu reconhecimento social, assim como o seu salário,
depende da sociedade que lhe acorda um status e uma remuneração. Um
duplo reconhecimento, o dos pares e o do público, consagra o historiador
como tal. Eis porque o discurso historiográfico dos historiadores emana de
uma história indissociavelmente social e cultural.
Tudo o que os historiadores de uma época ou de uma escola dizem de sua
disciplina exige uma dupla leitura: num primeiro nível a leitura remete ao conceito de história definido pelo autor; num segundo nível, atenta para tal definição, ela remete a um contexto intelectual e político onde o método utilizado
pelo autor se explicita. Um exemplo: Novo Mundo nos trópicos, de Gilberto
Freyre2. Num primeiro nível refere-se a uma interpretação do Brasil, destacando
a questão do mulatismo e da tropicalidade. Num segundo, é um debate em
vários níveis contra a centralização do poder exigida pela ditadura Vargas, uma
crítica ao modernismo cosmopolita proposto pelos paulistas, uma reação contra
a invasão cultural americana. As duas leituras mostram que não apenas o historiador é debitário daqueles que o precederam e de seus contemporâneos, mas
que ele se bate em relação a outros grupos científicos pela dominação do campo social e científico3. Sendo assim, fica claro que a história é uma prática social
antes de ser uma prática científica, ou melhor, porque sua ambição científica é
também uma forma de tomar posição na sociedade, a epistemologia da história4
é ela também parte desse processo que descrevemos.
Parte integrante desta prática é a pesquisa histórica. Esta – como ensina
José Honório Rodrigues5 – é a descoberta cuidadosa, exaustiva e diligente de
novos fatos históricos, a busca crítica da documentação que prove a existência dos mesmos, sua incorporação ao escrito ou narrativa histórica ou a revisão e interpretação nova da História.
A expressão é de origem espanhola, significando uma atividade de atuação probatória no sistema processual medieval com o fim de obter provas
num caso controvertido. O trabalho de indagação – inquisitio, pesquisia – se
praticava por fieles exquisitores ou pesquisadores nomeados pelo próprio
tribunal. A evolução posterior do processo de administração da justiça por
2

Freyre, Gilberto. Novo Mundo nos trópicos. Rio de Janeiro: Topbooks, 2001.

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No caso, Gilberto empresta de Unamuno uma série de teses para discutir as fronteiras brasileiras e a
importância da regionalização, e de Franz Boas, alemão imigrado nos EUA, a idéia de que não se estuda
raça, como queria a antropologia física do século XIX, mas cultura, e, dentro da cultura aquilo que lhe
dá lógica própria e autonomia.

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O conjunto de conhecimentos que tem por objetivo o conhecimento científico.

5

Rodrigues, José Honório. A pesquisa histórica no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional / MEC,
1978 (a primeira edição é de 1952), p. 21.

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introdução do direito romano na Península Ibérica6 fez desaparecer a pesquisa no processo civil, conservando-a apenas no processo criminal. O triunfo
do processo inquisitorial na Baixa Idade Média e a centralização política administrativa fez com que a pesquisa se tornasse um processo de atuação dos
órgãos judiciais supremos em assuntos de interesse público. Desde então, os
soberanos, especialmente os de Castela, ordenavam pesquisas nas povoações feitas pelos alcaides perqüisidores, e se impunha aos juízes ordinários
fazer pesquisa de todos os delitos cometidos nas suas jurisdições.
Na Espanha e nos países hispano-americanos, o vocábulo não foi empregado na indagação histórica, preferindo-se a palavra investigação, formada de forma erudita da palavra investigar, isto é, seguir vestígios. No Brasil,
nos começos do chamado Instituto Histórico e Geográfico não se empregou
nem “investigar” nem “pesquisar”. Seus primeiros documentos utilizam, em
1839, as palavras “metodizar e coligir” para referir-se à necessidade de mandar vir de Portugal os manuscritos afeitos à nossa história. Rodrigues diz também que muito provavelmente por influência inglesa a palavra research
passou a ser traduzida e incorporada ao cotidiano do historiador. Diferentemente da época em que o grande historiador publica seu A pesquisa histórica no Brasil 7 (1952), em que pouco se fazia pesquisa histórica, ela é, hoje,
amplamente adotada. Inúmeros cidadãos freqüentam as instituições eruditas
em busca de informações e o ensino universitário tornou-se um grande propulsor da ação de pesquisadores8.
Dentro da pesquisa histórica vamos nos deparar com o que durante muito
tempo se constituiu em sua âncora: o fato e a crítica histórica. Se existe uma
convicção bem enraizada na opinião pública é a de que onde há história, há fatos;
e que é preciso conhecê-los. Essa convicção está na base, inclusive, das críticas e
contestação a vários programas de história, exprimindo-se na exclamação habitual:
“mas os alunos não sabem nada!”. Em história há coisas a saber, e tais coisas são
fatos e datas. Para o grande público a história não passa de um esqueleto constituído de datas e memorizar. Para ele, aprender de cor é aprender história.
Percebe-se aqui a diferença maior entre ensino e pesquisa, entre a
história que se expõe didaticamente e aquela que se elabora. No ensino os
fatos são fatos. Na pesquisa é preciso construí-los.
Tal como aprendemos em muitas salas de aula, a história procede em

6

Em Portugal, desde Afonso III (1248-1279).

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Rodrigues, op. cit.

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Ibidem, p. 23.

Eles passam bastante tempo a explicar quais regras devem rigorosamente ser seguidas para construí-los. inútil ou caduca11. 1897. 1960. notas são uma regra comum da profissão. são o que resiste à contestação. A importância então acordada ao trabalho de construção dos fatos se explica por uma preocupação central: como dar ao discurso do historiador um estatuto científico? Como assegurar que a história não é uma cadeia de opiniões subjetivas que cada um poderia ou não aceitar. Daí o uso obrigatório de notas de rodapé. Charles. Em Apologia da História. hoje clássica como monumento de época. 79-99). graças às quais o autor dá ao leitor a oportunidade de verificar o que ele está dizendo. Introdução aos estudos históricos (1897). Martin. Guy. pela escola “metódica” e notadamente por Langlois e Seignobos9. Paris: Hachette. segundo Seignobos. 9 Langlois. 12 Bloch. reunido sobre tal e qual fato mencionado pelo historiador. daí as notas. Essa dicotomia entre o estabelecimento dos fatos e sua interpretação foi teorizada. Paris: Armand Collin. citada por todos os teóricos. explicá-los. 1983. “Les questions de l’historien” (Prost. apresentando-as como “força da razão” contra a subjetividade do historiador12. Da escola metódica à Nova História. Os autores franceses não consideram os fatos como fatos. Ela estrutura uma obra. A preocupação com os fatos é também a da administração da prova. Introduction aux études historiques. os fatos são definitivos. Charles Victor. Hervé. uma vez construídos. amarrando-os num discurso coerente. especialmente as do capitulo IV. Apologie pour l’histoire ou métier d’historien. Seignobos. cit. no seu espírito. capazes de explicitar o saber contido. Ora. A seguir. . 11 Empresto a Antoine Prost suas idéias. Marc Bloch faz um elogio às notas.12 dois tempos: primeiro conhecer os fatos. assim como no da escola metódica que eles formalizaram. Não se pode pedir que o leitor acredite na palavra do historiador. ajudando. 10 Excelente síntese sobre a escola metódica encontra-se em Bourdé. Basta lembrar o papel do historicismo negacionista na França e Alemanha para compreender como o tema ainda é importante. os professores de escola os utilizam. dentro do discurso do historiador fatos são o elemento duro. op. Paris: Seuil. p. Os fatos são como pedras com os quais se constroem os muros da história. Les écoles historiques. mas expressão de uma verdade objetiva que se impõe a todos? Colocada há mais de cem anos. a descartar mitos e anedotas10. a questão não pode ser considerada supérflua. no final do século passado. Marc. Donde a divisão de trabalho em dois tempos e em dois grupos profissionais: os pesquisadores – ou seja.. Mas. assim como está indissociável da referência. os professores universitários – estabelecem fatos.

O problema passa a ser outro: como estabelecer fatos? Que procedimento seguir? A resposta reside no chamado método crítico que remonta ao De Re Diplomática. a crítica permite distinguir um 13 Marc Bloch via no ano de 1681 “uma grande data na história do espírito humano”. Essa forma de crítica é histórica em si. incita Farge a ponderar que: o gosto pelo arquivo passa por um gesto artesanal. 25. pensando nisso o tempo todo. servindo-se de dicionários. em Bourdé e Martin. as regras segundo as quais se dispunham os túmulos na Antigüidade. à compatibilidade entre data e fatos. Através da crítica externa ao documento o historiador deverá estar atento a suas características materiais: tipo de papel. 126-155. se as convenções às quais ele se prende são pertinentes (como começavam. não há história sem fatos. de tinta. nem mesmo a pontuação. Le gôut de l’archive. A crítica interna remeterá à coerência do texto. para evitar simplismos. nem ortografia. para fazer uma história sem preconceitos contra a Igreja. Arlette. como se designava o signatário). pois ela afina e aprofunda o que já se sabe. graças ao qual copiam-se textos. por exemplo.14 A seguir. assim armada. a mão permitisse ao espírito tornar-se cúmplice e simultaneamente estrangeiro ao tempo e a estes homens e mulheres que se contam.13 A idéia da busca pelo historiador de certa “verdade objetiva” extraída dos fatos repousa sobre uma vasta discussão que não vamos explorar totalmente. parte após parte. p. de Mabillon (1681)13. sem desqualificar as demais. Embora o campo do historiador tenha alargado o repertório documental. numismática e epigrafia. ou melhor. 14 Farge. confronta-se o documento escolhido a tudo que se conhece sobre o período e o tema. p. forjando uma base essencial para o seu trabalho: nenhuma afirmação sem provas. responsável pela valorização do documento. A epigrafia.cit. Daí a importância das disciplinas auxiliares. Como diz bem Arlette Farge. Mas. . selo. Como se ao fazê-lo. O beneditino Dom Mabillon é o primeiro a elaborar uma erudição metódica. como estavam dispostos. E tal gosto. Sem pensar muito. A paleografia revela se a grafia de um documento corresponde ao período. a maior parte dos historiadores continua a trabalhar com esse tipo de fonte. A princípio julgava-se necessário construir fatos sobre documentos escritos. Vejamos como. Enfim. Ver “L’histoire érudite de Mabillon a Fustel de Coulanges”. sem transformar nem forma.. importante é reter que historiadores renegam informações sem provas. op. 1989. A diplomática. Medievalistas. sofrem com documentos apócrifos. Paris: Seuil. os historiadores se reconhecem no “gosto pelo Arquivo”. lento e fecundo.

uma idéia. segundo as regras da crítica. neste raciocínio reside o X do problema: a questão. Achar que são prescindíveis é falso. Mas não só. mas podemos pensar também em objetos materiais: moedas. ou como diz J. paisagem etc. às repetições. nada têm de artificial. “Les faits et la critique historique”. ou melhor. mas pela pergunta. periódicos. “Polícia” é outro termo usado equivocadamente por um historiador brasileiro para designar outra coisa que não era no século XVIII: civilidade. Um exemplo: a palavra “burguês” não designa a mesma coisa num texto medieval. Cl. como explica Bloch. também não há história sem questão. instituições. o problema que é colocado aos documentos. emoções. não são normas arbitrárias. um pedaço de cerâmica funerária. arte. Daí a importância de outra crítica. Ela decorre de análise sobre “vestígios solidários com contextos não diretamente observáveis”. 55 passim. num manifesto romântico ou no texto de Marx. Passeron. p.cit. é preciso não se enganar sobre seu sentido. As regras da crítica e da erudição.14 documento verdadeiro de um falso15. O problema tem um lugar decisivo na construção da história. utensílios de trabalho.. às lacunas. Independentemente de o texto ser um testemunho sincero. a bandeira de um sindicato. “um trabalho sobre objetos perdidos”. Normalmente. e seguindo de perto a construção das frases ele encontrará ai uma representação. Termos ou conceitos que parecem transparentes não o são. Compreende-se melhor o que é um fato histórico: ele é o resultado do raciocínio feito a partir de restos e indícios. É uma atitude não espontânea que ajuda o historiador a formar-se no seu ofício. As regras da crítica. problema. Não importa. da vida material. ao contrário do que parecem. uma mentalidade. elas têm por função educar o olhar que o historiador tem sobre o documento. em primeiro lugar. técnicas. Se não há fatos.. tais vestígios são documentos escritos: arquivos. Mais além. Este trabalho é constitutivo do fazer-história. especialmente o capítulo III. a obrigação de dar referências. . Através desta o historiador dará atenção às palavras utilizadas. o historiador deve submeter o documento à crítica da sinceridade e da exatidão. op. Marc Bloch chegou a sugerir que se incluísse a lingüística como disciplina auxiliar de história. Mas é a questão que ajuda a recortar um 15 Nos próximos parágrafos resumo idéias de Prost. Podemos e fazemos a história de tudo: do amor à morte. nem pelos documentos que lhe permitem reencontrar o fato. livros. Essa atitude é tão mais importante quanto a história é o conhecimento através de restos. a da interpretação. A história não se define pelo seu objeto. Elas. distinguem o historiador do romancista. O historiador efetua um trabalho sobre as marcas e os restos para reconhecer os fatos.

Robin. Combats pour l’histoire. paisagens. este laço. aí. Objetivo. 17 Ver Febvre. Tudo pode servir na condição de que o historiador seja capaz de interpretar. Historiador deve fabricar seu mel. O documento sozinho. caso contrário isso não passa de uma curiosidade. o papel fundamental da questão na construção do objeto histórico. mobilidade geográfica. o documento e o pro16 Ver Collingwood. Dizer que uma questão pode ser colocada significa que ela tem um laço. pois esta é uma questão ociosa por falta de traços. diz que cada vez que um historiador se coloca uma questão. ele pode interrogá-lo com outras questões ou fazê-lo falar com outros métodos. 1953. mas. Como dizem os historiadores franceses: uma história vale o que vale sua questão. Tais coisas mudas podem ser tudo: documentos escritos. ela preenche uma função fundamental. formas dos campos e ervas daninhas. instaurada pelo historiador. 2) a solidariedade indissociável entre a questão. mas o fato de se colocar uma questão que deslancha o processo de coleta de informações capazes de respondê-la na forma de um raciocínio autenticamente histórico. por exemplo. não existe se não houver intervenção da curiosidade do historiador. documento sem questão. exprime a presença humana na ausência de documento escrito. erige os restos do passado em fontes históricas. 1946. permite fazer um retrato sociológico dos diferentes grupos sociais: suas crenças. Londres: Clarendon Press. ele já intui como respondê-la16. pertencendo ao homem. Collingwood resume por uma frase definitiva: “Everything in the world is potential evidence for any subject whatever”. Do ponto de vista epistemológico. no sentido etimológico. uma ligação lógica com produções anteriores. pois ela funda e constitui o objeto histórico. então. a despeito de sua exigüidade. isolado. tudo o que. O primado da questão sobre o documento tem duas conseqüências: 1) não se pode fazer jamais a leitura definitiva de um documento. diz ele. serve ao homem. Tal questão não é ingênua: ninguém se pergunta sobre o sentimento face à natureza do homem de Cro-Magnon.15 objeto original no universo sem limite dos fatos e dos documentos possíveis. telhas. The idea of History. Vêse. atividades profissionais. O historiador não esgota jamais um documento. na condição de que o historiador saiba como utilizar esta conexão. vem do homem. também. em seu The idea of History. Na condição. Lucien. Lucien Febvre já dizia que a parte mais apaixonante do trabalho do historiador é fazer falar as coisas mudas17. Uma denúncia do Santo Ofício da Inquisição. É a questão que. Robin Collingwood. Não há. Paris: Armand Collin. insisto. O início de uma pesquisa não é a contemplação de fatos brutos. .

Não por capricho dos historiadores. preenchidas. ele cria novos cenários históricos. Idolatrada pela história positivista. Essa constatação leva a duas conseqüências. Um estudo de segunda mão. A renovação do questionário é o motor da evolução da disciplina. a configuração da história mudava. À medida que o historiador coloca novas questões. A esperança de uma história sintética e total.16 cedimento de tratamento desse último explica que a renovação do questionamento leve à renovação dos métodos. a partir de trabalhos anteriores. há lacunas que se apagam sem terem sido. Coleções inteiras conheceram sucesso. de Jacques Le Goff. feito diretamente em cima de documentos. uma história da história. Entre anos 50 e 70. se polinizam. sequer. numa bola de neve. pode não ter qualquer interesse científico se não tem respostas nem questões. São Luiz. as curiosidades coletivas se movimentam numa ou noutra direção. a biografia individual e singular foi substituída pela história total. Isso era um sonho. não é o objeto suplementar cuja história não foi feita. O belíssimo São Luiz18. observar que a validade das perguntas também varia. Isso quer dizer que o trabalho histórico não encontra sua legitimidade diretamente nos documentos: um estudo de primeira mão. mas porque questões se encadeiam. seguia pedindo biografias. é a corporação que determina seu status científico. A demanda do público. E como as questões se renovam. na Europa. Exemplo disso é a biografia histórica. Mas o que isso significa – fazer avançar a disciplina? A verdadeira lacuna. Devemos. foi abominada pelos Annales por sua incapacidade de apreender os conjuntos sociais e econômicos. Há questões que deixaram de ser feitas antes de serem respondidas. ao mesmo tempo. aos relatos orais. contudo. . A primeira é que jamais cessamos de escrever história. pode ter grande pertinência se forem feitas questões inovadoras. levam a novas questões. São Paulo: Companhia das Letras. Os historiadores do século XIX achavam que seu trabalho era definitivo. 2000. por sua vez. Editoras solicitaram aos historiadores trabalhos nesse sentido. A válida – sublinhe-se – é aquela que faz avançar a disciplina. segundo Antoine Prost. Simultaneamente. à lingüística. permitindo uma compreensão completa da sociedade e de 18 Ver Le Goff. não escapa a esta fórmula e nasce neste contexto. Jacques. Passamos de documentos escritos no século XIX aos documentos da cultura material. todavia. que. etc. Toda a história é uma relação com os avanços feitos sobre o seu objeto até o momento presente. mas as questões para as quais os historiadores ainda não têm resposta. Donde resulta que toda a história é.

por sua vez. de funcionamentos culturais. Voltaire par lui même. muda de estatuto e encontra legitimidade. Logo. sem falar em regiões inteiras. nem mais as dos grandes homens. a história da história se define. influência nas carreiras e em postos de prestígio. No Brasil ainda precisamos fazer a reabilitação de camadas inteiras. Crise econômica e luta de classes. Michelet. não se pode deixar de ver. Ela menos busca determinar a influência dos indivíduos sobre os fatos e mais compreender. por meio de estatísticas minuciosas. fazem Ernest Labrousse debruçar-se sobre as origens econômicas da Revolução Francesa20. que almejava a absoluta objetividade destacada das contingências sociais. Contemporâneo de Braudel. pela demanda social. além da ciência e do social. Não mais a mesma biografia. no primeiro quartel do século XX. Mesmo a escola “metódica”. a diferentes linhas de pós-graduação ou escolas designam os conflitos sobre os quais se fundam identidades profissionais. que não têm merecido o interesse de nossos colegas. Esclareçamos de uma vez por todas: as posições de poder dentro da profissão são aquelas que decidem quais são os questionamentos pertinentes. também. Tornava-se mais interessante compreender o passado a partir de casos concretos. também.17 sua evolução. e nesse contexto a biografia. para além do problema e de sua inserção num determinado tempo histórico. dos grupos de inserção. mais responde ao interesse dos leitores pela transformação dos mores na corte francesa do que por sua curiosidade sobre a vida do rei19. Pomeau. ou seja. na definição dos novos campos e das novas questões. sociais e religiosos específicos. ou seja. a obra contou com a colaboração de cortesãos que lhe deram seu depoimento. cria a “história serial”. Revistas temáticas que recebem ou recusam artigos são um desses lugares. As tensões que se estendem a diferentes abordagens. Rene. em Berlim. Paris: Armand Collin. . Linhas de pesquisa em conhecidos departamentos e notórias faculdades. os jogos do poder no interior da profissão. com O século de Luís XIV. Ver. sofre a contaminação de questões políticas do tempo. insere-se no movimento Romântico. é leitor de Marx e. pelo enraizamento social das questões históricas. através deles. se esvaziava. Mas. As editoras universitárias ou os postos relevantes dentro de fundações de apoio à pesquisa. preferindo beber em diferentes tradições. a interferência das lógicas e articulações de redes complementares. sobretudo aquela de anônimos. 20 Ver o seu La crise de l’économie française à la fin de l’Ancien Regime. A historicidade das questões é um fato: Voltaire. Na atualidade. 1965. igualmente. Confrontos trazem ganhos e perdas – materiais e simbólicos –. Labrousse não pertence estritamente a nenhuma escola. vemos Jean Delumeau preocupar- 19 Terminada em 1739 e publicada em 1751. que fazia do povo o herói coletivo.

22 Ver “Foucault révolutionne l’histoire!” em Veyne. O deslocamento de sua curiosidade ao longo do tempo. Ver também “Les Moyen Age de Michelet” em Le Goff. Ao debruçar-se sobre a vida e a morte dos homens no passado. p. O historiador precisa apenas buscar certa racionalidade para elucidar suas implicações com o objeto. 220. Os riscos fora dessa démarche. l’anthropologie. Pour un autre Moyen Age.18 se com temas tais quais catolicismo. Donde a necessidade de tomada de consciência que se impõe aos engajamentos sociais. 1954. Então. políticos e religiosos de cada intelectual. É preciso quebrar a imediatidade da atualidade e o historiador deve buscar mediações entre a história que está fazendo e a própria história. O inconsciente também deve fazer aí a sua parte. segundo Philippe Boutry24. Paris: Odile Jacob. 24 Citado por Prost. Roland. 2000. e da idade. na consciência do homem: é uma pergunta feita pelo historiador na situação de sua vida. até a moda da psicanálise existencial desemboca nos ensaios de ego-história22. Paixões. como lembrou Croce. o historiador perde as engrenagens da sua disciplina”. Michelet par lui même. o ofício de “intelectual” coloca em relevo a personalidade de cada um. 21 Ver seu artigo “Que reste-t-il du paradis?” em Michaud. op. Paris: Seuil. Jacques. Yves (Dir. portanto. la sociologie. Mas ele não provém do distanciamento no tempo e não basta desejá-lo para que ele exista. etc21. Por fim. p. é também um drama que existe. o recuo não é distância no tempo. Roland Barthes analisa o gosto e a fascinação visível de Michelet por sangue. são de uma hipertrofia da relação objeto-historiador: “enquanto o ego do historiador ocupa em senhor absoluto o lugar onde antes havia o fato bruto.. religião e história. pois. necessidade de recuo. Paris: Seuil. 1977. de seu meio e seu tempo”. 23 Barthes. como já disse. Paris: Gallimard. hoje. enquanto se procurar trocar os modelos explicativos por experiências lúdicas. cit. . Paul. 1971. Não se estuda durante anos sem que o estudo tenha uma significação pessoal. L’Université de tous les savoirs: L’histoire. As implicações pessoais não são necessárias apenas para a história do tempo presente. dá a medida de sua identidade. A história cria o recuo. Num ensaio notável. Comment on écrit l’histoire. descrevendo sua obra como uma “rede organizada de obsessões”23. A história tem. Em história contemporânea isso é tão mais importante quanto fazer a história a partir de documentos e não apenas de lembranças. o historiador debruça-se sobre a sua própria. 185-200.). Mais além dos fumos do tempo e do lugar. acertos de contas e voluntarismos são riscos no trabalho. “toda a história é contemporânea”: “todo problema autenticamente histórico [ao que Croce opunha a anedota nascida da pura curiosidade] mesmo que diga respeito a um passado longínquo. mas distância do objeto.

enterraram metodicamente nestas pastas conservadas. pois a situação desse é obrigatoriamente subjetiva. A estes o historiador acrescenta testemunhos orais. o historiador dá um sentido inédito às palavras que ele arranca ao silêncio dos arquivos. imagens fixas ou animadas. ela indica uma interrupção. de seu artigo “Les practiques et les méthodes” em Prost. As folhas adormecidas depois de tanto tempo conservam os restos de muitas vidas. o problema em história fundamenta a seriedade da disciplina e aporta luz ao problema recorrente da objetividade na história. 25 Mais uma vez. Inserida nas teorias. em favor da subjetividade do historiador e do “eu” no discurso histórico. 1999. Pelas escolhas e aproximações que faz. Profundamente enraizada na personalidade de quem a formula. Elas estão no final do seu trabalho e não no início. seria importante lembrar. portanto. ela não se formula que solidária com documentos onde ela possa encontrar respostas. e. empresto idéias a Prost. às vezes nas modas que atravessam a profissão. com suas grandezas e misérias. A presença da citação dentro do texto histórico modificou totalmente seu sentido. O ofício se aprende em contato com documentos. no mais das vezes. Não tenho qualquer dúvida sobre a emoção suscitada pela leitura de um velho testamento. Fazer história a partir dos textos não é “recopiar o real”. A objetividade não pode vir do ponto de vista adotado pelo historiador. pelo subjetivo e pelo objetivo. como vimos uma função profissional. mesmo se num estágio mais avançado da carreira o historiador se permite escrever sínteses ou livros de vulgarização. proclamada aos berros por alguns grupos. O que reforça a importância das regras do método. but not least. A existência destes que são o fundamento do saber histórico. uma questão social e uma função pessoal mais íntima. documentos escritos. Ela não é mais ilustração de uma regularidade. da memória da nação e da construção do Estado nos adverte para o fato seguinte: o ofício do historiador não se aprende lendo manuais ou livros de história.19 O alerta vai contra a reivindicação. Paris: Sciences Humaines. uma clivagem. elas só podem ser conquistadas pelo trabalho laborioso do historiador. Antoine. seus segredos25. singularidades no discurso histórico e desenhar cenas que são também eventos. de contas obscuras. A captura da palavra responde à preocupação de reintroduzir existências. . de conflitos esquecidos. uma diferença. Em resumo. Vidas humanas. uma singularidade entre o que diz a fonte e o que diz o historiador. de análises interrompidas. neste percurso. Melhor do que falar em subjetividade é falar em imparcialidade e verdade. a abertura de um processo ou a consulta a uma desgastada coleção de jornais. L’Histoire aujourd’hui. p 385. de paixões silenciadas. a questão preenche. o papel dos arquivos. A questão do historiador passa. Last.

Paris: Archives Nationales. ajudando-o a definir uma intriga e a definir um cenário. Ele deve buscar nos papéis respostas para suas questões. Tempo dos Flamengos. chegar a uma conclusão pessoal. 27 Ver seu prefácio em Mello. garimpando em tal e qual fundo. . arquivos de empresas. além dos privados. enriquecendo suas informações. Ele deve “ir ver com seus próprios olhos”. são tarefas do ofício. diga-se. 1995. Nunca é demais lembrar que o discurso histórico precisa aderir à matéria documental sem que a utilização das fontes torne as citações inadequadas. Rio de Janeiro: Topbooks. da etnologia histórica e dos comportamentos individuais ou coletivos reflete-se numa coleta diversificada em benefício de todas as ciências humanas. Contra “os que não querem sujar as mãos com papel velho”. deve-se.20 A primeira lição que a aprendizagem do arquivo dá ao futuro historiador é a de que ele não deve contentar-se com o que os outros escreveram sobre o seu tema de pesquisa. sobretudo aquela iconográfica ou composta por documentos sonoros e de imagens. Não são apenas os “papéis” provenientes de administrações públicas e jurídicas que têm direito aos arquivos. nas mentalidades e na sociedade. Sem paralelos. na economia. interrogar documentos e fundar a memória. pensar a importância dos arquivos no cotidiano do historiador. ao alargamento do campo intelectual da pesquisa histórica. ao longo de quilômetros. devolve-lhe o esforço. pela abundância e variedade de fundos públicos e privados que. 26 Ver Archives contemporaines et histoire. um dos nossos maiores historiadores – “sabe que não é problema empregar fontes de maneira expressiva. modificando suas perguntas e problemáticas. Fazer história. essa documentação oferece ao interesse de muitos de nós um infinito campo de investigações. se colocam à disposição do cidadão. 2001. Judicioso conselho! Praia do Flamengo. preparado pelo labor de anônimos arquivistas que contribuem para classificar e tornar úteis milhares de impressos e manuscritos. Guardião da memória e da documentação histórica. em parte. José Antônio Gonçalves de. “Quem escreve história” – lembra Evaldo Cabral de Mello27. mas a própria carne e o sangue da obra”. suscitam uma fabulosa fome de pesquisa26. O afluxo sem precedentes de nova documentação. Hoje. Mello contrapõe o ridículo dos demais que preferem “uma página de Althusser para compreender como foi a escravidão em Conceição do Mato Dentro”. o arquivo dá conta das mudanças ocorridas no Brasil ao longo dos séculos nas instituições. campo. por seu turno. ir às fontes. fazendo delas não uma demonstração de erudição. A abertura progressiva desta última aos domínios da vida econômica e social. abril de 2002. O arquivo.

particularly in Cuiabá. a aquisição de material impresso aconteceu mais tarde. TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG. especificamente em Cuiabá.3 – N. ex-bolsista do PIBIC/ UFMT/CNPq. REV. Printing press first appeared in Brazil in 1808 but it was only in 1821 that letter press factories spread all over the country. O primeiro e maior meio de acesso à leitura em Cuiabá foi o jornal. De 1839 a 1939 circularam aí mais de 120 jornais. In the state of Mato Grosso. the acquisition of printed material occurred even later.21 A imprensa mato-grossense antes da era do rádio Otávio Canavarros* Graciela Rodrigues da Silva** Resumo Abstract A imprensa apareceu no Brasil em 1808. From 1839 to 1939 more than 120 newspapers used to circulate there.UFMT/ICHS/CUR e do Programa de Pós-Graduação em História da UFMT/ICHS/Cuiabá. Mestre e doutor em História Econômica pela USP. mas somente em 1921 é que as tipografias se espalharam pelo país. licenciada em Letras pela UFMT/ICHS/CUR. 2002 . Em Mato Grosso. DE PÓS-GRAD. Newspapers used to be the first and major means of access to reading. EM HISTÓRIA – UFMT – V. Palavras-chave: Leitura – Mato Grosso – Século XX * Keywords: th Reading – Mato Grosso – 20 Century Professor da Universidade Federal do Mato Grosso . ** Professora em Rondonópolis-MT./JUN.1 – JAN.

de entretenimento. Roger.. “Os jornais não noticiavam: produziam acontecimentos”. História da leitura no mundo ocidental. como se sabe. São Paulo: Melhoramentos. como a brasileira do Segundo Reinado e da Velha República. Insultos impressos. p. com suas disputas radicais” disse Isabel Lustosa no seu magnífico Insultos impressos1. 1921. cuja tradição de oralidade na comunicação social (na aquisição de informação) era acentuada. o verdadeiro público-alvo. A guerra dos jornalistas na Independência – 1821-1823. Nós. não temos a menor idéia do significado da imprensa. não deveríamos descartar a hipótese da assídua leitura coletiva (oral e para o grupo). a expressão do seu vulto chama atenção não apenas pela importância. “a liberdade de imprensa (. principalmente 1 Lustosa.) provocou em redor deste episódio do Fico um torneio de opúsculos por publicistas de valor (. 16-17.22 A História do Brasil às vezes nos surpreende e ainda reserva bons motivos de alegria àqueles que se aventuram por suas veredas. ed. ou melhor. .) as tipografias começaram a abrir-se e as folhas a aparecer”2. 4. Como já havia notado Oliveira Lima. Wittmann. quando saiu a Gazeta do Rio de Janeiro (oficial). O movimento da Independência. No entanto. 3 Cf. 2 Lima. 2000. v. São Paulo: Companhia das Letras.). a prática da censura ainda permaneceu até abril de 1821. 1998. no século anterior à radiofonia. p. No entanto. foi a maior novidade. pasquins de papel almaço. enfim. pois não houve jornais no Brasil-Colônia. como um todo. Assim. Manuel de Oliveira. 138. parece que a partir da chegada de dom João VI e da instalação da Imprensa. Essas folhas. quando da volta do rei a Lisboa e da verdadeira explosão da imprensa brasileira... deparamo-nos com um fenômeno curioso: a imprensa foi o grande meio propagador de idéias. No caso de Cuiabá. desde a instalação da imprensa no Brasil... O Império brasileiro (1821-1889). Existe uma revolução da leitura no final do século XVIII? In: Chartier. como também pela intensidade e quantidade de pequenos e efêmeros jornais que reluziam em algumas poucas edições. p. De fato. Isabel. Era “o oceano verbal da Independência. da Impressão Régia no Rio de Janeiro. prática européia muitas vezes apontada por Roger Chartier em vários de seus livros3. Discutia-se tudo nesses jornais. pelo menos as elites. em setembro de 1808. 2. Reinhard. Cavallo. principalmente daquela local. Guglielmo (Orgs. de informação para o público leitor no Brasil. os contemporâneos da moderna mídia eletrônica.. causa espanto um jornalismo ativo. 141. destampou-se uma panela sob pressão. se não pretendiam educar o povo iletrado. Ao pesquisarmos sobre o processo de aquisição de material impresso na sociedade matogrossense. Numa sociedade majoritariamente constituída de analfabetos. São Paulo: Ática.

é bom lembrar que Hercules Florence. Do acervo microfilmado (125 títulos). Nessa pesquisa os autores trabalharam com séries contínuas de preços e salários. A vila de MeyaPonte. dois terços. IV.000 habitantes em meados do século XIX e cerca de 50. De fato. por. Revista Brasileira de Economia. Aliás. a média aritmética aponta para apenas 136 edições por órgão. Catálogo de microfilmes do NDIHR. inventou a fotografia para registrar os seus relatos e desenhos de viagem. como é possível a uma pequena cidade interiorana. 6 Calháo. mas não apenas.000 um século depois. o que desperta inicialmente a curiosidade é a quantidade e a fugacidade das edições. 25. em Goiás. Seria um caso isolado? Acreditamos que não. Lahmeyer Lobo na sua história de preços4. a partir do fim da guerra do Paraguai. a do jornal Pharol Paulistano7. perfazendo 66. Luiza Rios Ricci. esses dados parecem extravagantes. oficial como o congênere e pioneiro brasileiro publicado no Rio de Janeiro. Do universo microfilmado. 1993. Caso todos fossem bissemanais. 3.23 política. 83 títulos são de periódicos (jornais e revistas) cuiabanos. Ana Maria. Pesquisadores do Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional da Universidade Federal de Mato Grosso (NDIHR) computaram cerca de 349 títulos de periódicos que circularam em Mato Grosso até 1994. São Paulo: Marco Zero / Cuiabá: EdUFMT. Eulália M. pois não apenas em São Carlos da época. No caso da imprensa mato-grossense. 1994. Pura fugacidade! 4 Lobo. dos quais 125 foram microfilmados. São Paulo. já tinha imprensa desde 1832. Entretanto. n. O pai esquecido da fotografia. do lado cuiabano. fundada no longínquo ano de l839 com o surgimento do jornal Themis Mattogrossense. teriam tido uma existência média não superior a 15 meses. diria Lucien Fèbvre. distante um mês de navegação a vapor da Corte. et al. entre outros. possuir tão numerosos jornais? Eis aí uma questão. Antônio Ernani P. pesquisadas no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro. Fundação Getúlio Vargas. Em se considerando que Cuiabá tinha cerca de 12. com a sua história dos Cativos do Sertão5.. portanto. Cuiabá: EdUFMT. citado por Guariglia. v. perfazendo 17. Luiza Volpato. Hércules Florence –1833 –A descoberta isolada da fotografia no Brasil. Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre em seus clássicos. 5 Volpato. dez. residindo em Campinas na década de 1830. Rio de Janeiro. Cativos do sertão – vida cotidiana e escravidão em Cuiabá em 1850/1888. 1971. 7 Kossoy. e. Outro aspecto que chama a atenção é a brevidade da existência dessas folhas. edição de 8/10 de junho de 2001. Evolução dos preços e do padrão de vida no Rio de Janeiro (18201930). publicado desde 1828 até os dias atuais. Fim de semana e Eu (suplemento Valor).g. Boris.4%. essas fontes há muito são utilizadas pelos cientistas sociais. em 1833. Eulália Maria Lahmeyer et al. pelo menos. São Paulo: Duas Cidades. eis aí o problema. p.077 edições até 19696. mas em toda a Província de São Paulo. só havia uma impressora. v. . Imprensa periódica mato-grossense (1847-1969). l980.

apud Póvoas. assumidamente partidários. existem creio que seis jornais de apresentação agradável e redação apurada. Só nas primeiras décadas do século XX. diz simplesmente o seguinte: Bons jornais são. Tudo passava pela imprensa. Luiz Amaral. Agitar a pachorrenta sociedade cuiabana devia ser a norma. pois não havia correntes de opinião sem o seu jornal. Na “era do impresso”. São Paulo: Melhoramentos. pois a “era do rádio”. enquanto mídia. lógico. devem existir para elucidar este quase-paradoxo. pois.. 1982. Era o registro vivo do cotidiano significativo das cidades. Houve o caso de um grêmio de normalistas. o “Júlia Lopes”. Isso só ocorreu em 1939. tardaria uma dúzia de anos para acontecer em Cuiabá. mais de perto essa imprensa mato-grossense. Lenine.24 Vejamos. positivistas. Pois bem. muito diferenciada. todos pugnavam por espaços na imprensa. daí o recorte do nosso texto. .ed. ou conjunturais mais profundas. em seu livro de 1927. que a poesia de Oswald de Andrade da década de 1920 tentara expressar. o luxo de Mato Grosso. A mais linda viagem. Os jornais do litoral que mais rápido chegavam a Mato Grosso vinham de Porto Alegre. pois. que editou uma revista de muitíssimas edições. de resto. verdadeiros juízos de valor. Luiz. tinha a forma telegráfica. tanto públicos como privados. a linguagem era outra e a informação última. essencial e sincopada. D’abord. dos de fora. Na Capital. livres-pensadores-maçons. espíritas. talvez de natureza geográfica. Outra razão. Outros participaram em edições de revistas dos estabelecimentos de ensino. absolutamente tudo. Estas são geralmente as melhores.8 Razões estruturais. Não deixa de causar pasmo essa abundância de imprensa no Estado considerado ficção geográfica excessivamente longe dos centros de cultura e de população escassa (grifo nosso). em barcos que demoravam quinze dias subindo o Rio da Prata e afluentes. Até os grêmios estudantis possuíam os seus panfletos periódicos. evangélicos. 1927. Cuiabá: s. além de católicos da Liga Social. visto que comparativas. p. as questões partidárias. Comecemos com as impressões dos viajantes. identificamos sete órgãos. A primeira delas é que vivia-se ainda a “era do impresso”. É pitoresca e até folclórica a conhecida história da chegada das notícias da Proclamação da República em Cuiabá 8 Amaral. corroborava com esse espocar de folhas impressas. História da cultura mato-grossense. Contamos nove deles no mesmo período. jornalista carioca. liberais de vários matizes. derradeira ou mais urgente. 72.

cit. Muitos de lá saíram para organizar o governo republicano estadual. volumosos e sem rede de distribuição especializada (eram raras as livrarias e poucas as papelarias). ainda na Capital.) e durou de 1859 até 1887. por último. O Liberal. No tempo das quitandas e açougues. data do centenário da Gazeta Oficial (nascida Themis Mattogrossense) inaugurava uma moderna rotativa em suas instalações9. trazendo variado leque de informações curiosas: horóscopos. Havia também uma razão diferente para a proliferação do impresso jornalístico local. Eis o que o catálogo já citado sobre a imprensa periódica mato-grossense nos esclarece a respeito. uma era particular (Tipografia de Souza Neves e Cia. Ao contrário dos livros. Eram indispensáveis. caros. Em Cuiabá do século XIX encontramos referências a dez tipografias. o jornal diário ou semanal satisfazia plenamente. Estamos no tempo dos compradores de jornais velhos e garrafas vazias de litro e quartilho.. motivadora. Outra ausência notável é a da Tipografia do Liceu de Artes e Ofícios São Gonçalo. Echo Cuiabano. de Emygdio R. que. culinária. ainda serviam para embrulhos após a leitura. a qualquer hora). efemérides. de Lima e de Calháo). Para o letrado de poucos recursos e sedento de informações. hagiografia. pois falta referência à Tipografia do Diário Oficial do Estado de Mato Grosso. sendo sete de jornais (de O Povo. quando tomaram conhecimento do grande evento. op. até a década de 1940. esta por parte da demanda: havia leitores-compradores. cultural. necrológios. uma oficial (da Escola Industrial) e quatro particulares (da Livraria Globo. Lista visivelmente incompleta. O colégio dos salesianos 9 Póvoas. nove referências às tipografias. de Epaminondas. Além do mais. no dia 14 de agosto de 1939. de leitura fácil. sendo quatro de jornais (de A Cruz. 62. nesta altura da exposição. por muitos motivos. p. policial etc. A Província de Mato Grosso e A Tribuna). A Reação e O Mato Grosso). Os futuros convictos republicanos bailavam numa festa. ilustrada e. baseada no referido catálogo de jornais microfilmados. registramos pela amostragem (incompleta).25 a 9 de dezembro de 1889. . eles eram verdadeiros almanaques (muito populares no Brasil). E. O Pharol. A Situação. e outras duas oficiais (as tipografias provincial e estadual). Vale lembrar. os jornais eram práticos (podia-se lê-los em qualquer lugar. O Porvir. que para existir jornal local em Cuiabá havia necessidade de tipografias. diversificada. provavelmente pelo natalício do imperador ocorrido a 2 de dezembro. literatura e crônica da cidade e do país (política. pelo menos. No século XX.). Das três restantes.

Vencendo as crises. livreiros etc. tendo um corpo editorial. num espaço de 21 anos. já com o hábito de ler incorporado às ativida- 10 Assis. vem continuando com sua proposta inicial. professora do Departamento de Letras. acadêmicos. leitoras notórias ou de qualificações ligadas ao livro (professores. Índice analítico da Revista do Instituto Histórico de Mato Grosso. a primeira da cidade.). igreja. Este precedente teria estimulado o aparecimento de uma outra. escola. editada entre 1907 e 1915. de caráter interdisciplinar do ICHS. banca de jornal etc. de interromper sua circulação por longo tempo. escritores. biblioteca. começamos pela formação do leitor. letras e variedades). provavelmente. de várias faixas etárias.10 Iremos. Edvaldo de. a Revista do Instituto Histórico ainda em circulação. família. tecer algumas considerações sobre opiniões de entrevistados. Num segundo momento. Em geral. estudantes. isto é. Cuiabá: Editora Universitária. advogados. o periódico vem se mantendo apesar de conhecer alguns períodos de crise. investigação há dois anos em andamento. entrevistamos aproximadamente 30 pessoas. tendo. agora. vivências infantis com o livro e a prática de leitura. a Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. servindo de fonte imprescindível para quem pesquisa a história de Mato Grosso. A ela se refere um seu pesquisador: A partir de 1919. Pretendemos ampliar ainda mais esse nosso universo de consulta. Nessas enquetes utilizamos a metodologia da chamada História Oral e preparamos o nosso roteiro geral de perguntas personalizadamente. se confeccionava a revista O Matto Grosso (mensal de ciências. Tudo é considerado pela memorização do entrevistado tendo em vista nuançar os mecanismos estimuladores e inibidores da formação da prática de leitura. . com o primeiro número da Revista. Até o momento. como aconteceu de 1955 a 1976. de circulação semestral. atualmente a mais antiga. Campus de Rondonópolis da UFMT. entre os quais. livraria. médicos. uma gráfica e um observatório. arrolados pela nossa pesquisa sobre a História das Práticas de Leituras em Mato Grosso do século XX.26 possuía. oficinas e laboratórios. sob a coordenação da Dra. as experiências da alfabetização e da primeira escolaridade. Franceli Aparecida da Silva Mello. como se sabe. Naquela. 1992. às vezes. leitores residentes em Cuiabá e Rondonópolis. adaptando-o à história de vida conhecida do entrevistado.

reporta-nos que até recentemente no interior do Estado de Mato Grosso os poucos livros vendidos (maioria didáticos) e os muitos gibis. Procedimento que resultava. litorânea. professor universitário. Disponível pela internet em: www. eram-no numa 11 Fiore. No entanto. mesmo na “era da televisão”. que este aspecto da aquisição do material impresso teria influenciado a preferência pelos jornais. Livro. do grande interior.gov. desde a adolescência. Ottaviano de. Eis aí uma dimensão dos Correios que não pode ser subestimada. os entrevistados mais idosos (septuagenários e octogenários) responderam que quando não encontravam localmente o livro desejado. Lembra-nos com todas as letras que “boa parte da leitura do Brasil não é feita em livros mas em jornais e revistas (. mas nacional. que é de apenas 0. sempre fora a imprensa: pela praticidade e pela novidade da notícia.htm. vale dizer. próprias de um saber por ele definido como ornamental. como referimos acima.br/ textos/of01.7 a média de produção dos não-didáticos (leia-se. Consideramos. Questionamos aí as políticas e as práticas institucionais dos governos e estabelecimentos culturais.. com início. meio e fim. pelo reembolso e/ou função biblioteca. Já outro professor universitário. encomendavamno através do serviço de reembolso postal. mais jovem e ficcionista assumido. perguntamos acerca das preferências de leituras.. pelos círculos de livros. cujo conteúdo estava mais ligado ao real. assim como das formas de ler e de aquisição do material impresso. diz-nos que a média brasileira de produção de livros per capita/ano é de apenas 2. Um dos entrevistados.. enquanto as leituras consideradas de lazer eram mais ficcionais. mormente para as cidades interioranas. Que o jornal possuía aquela imediatez da crônica dos acontecimentos. Mas voltemos à nossa “era do impresso”. nos últimos quarenta-trinta anos. dos vendidos e comprados). À pergunta sobre as formas de aquisição do livro em Cuiabá d’antanho. Nesse texto. Função livraria. as carências dos leitores e as insuficiências dos recursos até chegarmos ao mercado editorial e ao mundo do mercado consumidor.4 livros (a francesa é de 7).) O brasileiro informa-se essencialmente pela televisão e oralmente com as poucas vantagens e as muitas desvantagens deste fato”.minc. Pior. esta preferência não é apenas cuiabana. . confessou-nos que seu hábito maior de leitura.27 des sociais daquela pessoa. É o que nos declara o senhor Ottaviano de Fiore. secretário de política cultural do Ministério da Cultura em paper eletrônico de agosto último11. biblioteca e leitura no Brasil. Observe-se que a oralidade como fonte de informação continua forte.

como acontece também em Rondonópolis atualmente. provocando. tudo antes do rádio. Grandes lojas importadoras e bancos europeus vieram para a região. era de difícil acesso. pois sempre vendia alguma. Isto é.. próprio à crônica da cidade. Guiratinga teve jornal entre os anos 20. tinha? – Não. De vez em quando passavam uns ambulantes ofertando enciclopédias. anos 20. De fato. com isso. foi um período de grandes transformações esse de 1870 a 1930. cujo acervo hoje pertence à Fundação Cultural do Estado. O Governo Imperial decretou por dez anos o porto de Corumbá como zona livre de comércio. Enfim. Na entrevista com um renomado historiador cuiabano perguntamos sobre a aquisição de material impresso na região. é a época da criação dos grandes estabelecimentos de ensino na capital de Mato Grosso. isento do imposto de exportação. 30. Grandes Romances Universais etc. O Liceu Cuiabano foi fundado em 1880. e. Depois disso.28 papelaria local. quando a cidade se encontrava isolada. Neste enredo de perguntas/respostas notamos alguns problemas da imprensa local já tratados. dicionários e as famosas coleções (tipo Tesouro da Juventude.). Então questionamos: – E o jornal. havia todo um espaço no mercado para a sobrevivência do jornal local. lembrou-nos o entrevistado. Dessa época também é a inauguração da Biblioteca Pública de Mato Grosso. além de Porto Alegre. da televisão e das estradas pavimentadas. quando acabou a guerra do Paraguai”.. a Escola Normal Pedro Celestino e o Grupo Escolar Senador Azeredo. a Escola de Aprendizes Artífices (federal. – Mas Guiratinga tinha jornal? – Não. em torno de 1910. hoje Escola Industrial). 30 e 40 e depois só nos anos 80.. Mesmo assim. Essa situação permitiu um contacto direto entre Cuiabá e as cidades do Prata. Ele nos disse que “Cuiabá começou a modificar em 1870. a Escola Modelo Barão de Melgaço. o mascate não se decepcionava. Foi a época da abertura da navegação do rio Paraguai provocando transformações significativas na economia e cultura mato-grossenses. não chegavam jornais. Santos e Rio de Janeiro. ou. como concorrer com esses meios e ainda com os jornais e revistas nacionais? O espaço que sobra é muito diminuto. melhor dizendo. o Liceu São Gonçalo (salesiano) em 1894. caracterizado também por forte fluxo imigrató- .. por exemplo. uma verdadeira “revolução cultural” em Corumbá e Cuiabá.

esse Álbum. não fosse a eclosão.. vale dizer. Duas estradas de ferro foram construídas em Mato Grosso no início do século XX. chegava regularmente. como herança para Cuiabá desse período. esse mercado se nacionalizou. chegados pelo Prata. com o vozeirão de Augusto Mário Vieira) e de entretenimento (com programas de calouros. A Reação. da rádio A Voz do Oeste. professor contratado em São Paulo para dar assistência pedagógica às novas escolas. com o estabelecimento das linhas aéreas regulares. uma delas ligando Bauru a Corumbá (NOB). à frente. ilustrado com belíssimas fotos do cotidiano. em 1939. a Globo (com tipografia). religando Mato Grosso ao mercado nacional. em 1914. Hoje. facilitava-se a aquisição de material impresso. em entrevista: “os jornais. a famosa PRH 3 – ZYZ 5. inclusive do porto de Corumbá com vários cargueiros e vapores para passageiros vindos de Montevidéu e Buenos Aires. era editado em Assunção e enviado rio Paraguai acima. . verdadeiro arquivo concentrado. quer dizer.29 rio de italianos e árabes. o mercado editorial nacional de livros. Como disse um desembargador. para os historiadores. a nos dizer das potencialidades de uma história abortada. particularmente. e outra a de Rubens de Carvalho. todo em papel-seda. Tudo isso refletiu-se imediatamente nos hábitos da população e. facilitado pela importação de máquinas (tipografias mais modernas) e de livros. a inauguração de duas livrarias: uma. por exemplo. vinham todos de avião (.. O exemplo maior dessa belle époque mato-grossense foi a confecção em Hamburgo de primoroso Album Graphico do Estado de Matto Grosso.. juntamente com motores e turbinas que moveram as numerosas usinas de açúcar ribeirinhas e iluminaram Cuiabá com energia elétrica.) Ah. pela fundação. Enfim. A economia passava de um extrativismo mineral e vegetal para um pecuarismo industrializado de exportação. dos Diários Associados. de São Paulo. que veio disputar público informativo (com programas tipo “Bandeirantes no Ar”. é. revistas e jornais passou a predominar. agravado ainda com a concorrência de nova mídia. Certamente teriam causado forte impressão no público-alvo (empresários e governos). com O Cruzeiro. Até um jornal de opositores ao governo. da primeira guerra mundial. na questão da aquisição de material impresso. a radiofonia. A partir da década de 1940. tipo “Domingo Festivo na Cidade Verde”) com as fontes escritas. Anteriormente. Chegava finalmente a Cuiabá a “era do rádio” e da imprensa nacional. naqueles angustiados dias. um testemunho eloqüente de um estado de espírito da época. Os entrevistados mais velhos lembraram.

. a indústria local. quando a nossa vida doméstica urbana despedia-se do carro de bois. Acabouse o tempo do monopólio do jornalismo provinciano. “Vida doméstica”. .. Por vida doméstica. eu ia comprar ali na livraria” (grifo nosso). o desembargador entende os negócios locais. era vida doméstica. eis um conceito-síntese. depois era O Cruzeiro né.. Isso ocorria em meados dos anos 30.) Aí. 30.30 na década de 20. extraído de contexto forâneo: no tempo das diligências. vinha regularmente aqui. não sei que mais (. a crônica local. representado por aquela manchete de um jornal da Capital sobre a morte de um carroceiro atropelado pelo seu próprio carro de bois: “Causou profunda consternação nesta cidade o passamento trágico”. em duplo sentido. como aquele outro.

EM HISTÓRIA – UFMT – V. Os testamentos oitocentistas utilizados neste artigo oferecem diversas possibilidades de leitura que permitem identificar indícios da vida social. Palavras-chave: Testamento – Mato Grosso – Século XIX – Morte * Keywords: th Wills – Mato Grosso – 19 century – Death Texto elaborado a partir de um capítulo da dissertação de mestrado intitulada Igrejas e Cemitérios: As transformações nas práticas de enterramentos na cidade de Cuiabá – 1850 a 1889. econômica e religiosa da população da Província de Mato Grosso na segunda metade do século XIX. Wills are important documents when investigating the relationship between men and death. Geralmente efetuados pelos moribundos nos momentos de agonia. assim como para as determinações dos cuidados com o corpo e com a alma. economic and religious lives of the population in the Mato Grosso Province during the second half of the 19th Century. DE PÓS-GRAD.3 – N. 2002 . REV.31 O imaginário da morte através dos testamentos* Maria Aparecida Borges de Barros Rocha** Resumo Abstract Os testamentos são documentos privilegiados na investigação das relações do homem com a morte./JUN. The 19th Century wills shown in these articles offer many possibilities which allow the reader to identify traces of the social. They show the person’s main worries concerning the protection or transmission of the family’s estate as well as the procedures to be taken with the dying’s body and soul. TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG.1 – JAN. apresentam as principais preocupações do mesmo voltadas para a preservação ou transmissão do patrimônio familiar. ** Mestre em História pelo programa de pós-graduação do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso. They are usually done by the dying during the death throes.

p. podem ser definidos como ordinários e extraordinários ou especiais. Portugal: Éden. nossa análise centra-se sobre os testamentos em especial. Ana Silvia Volpi.. Os testamentos utilizados nesta pesquisa foram redigidos por oficial de cartório de notas e na presença de testemunhas. 1999. Uma das fontes mais utilizadas nos estudos do comportamento dos homens diante da morte. Adeline et al. através de um ato jurídico. In: Martins.32 O objetivo deste artigo é apresentar algumas análises resultantes de nossa investigação em torno dos testamentos do século XIX. capital da Província de Mato Grosso. para depois de sua morte. no todo ou em parte. História Social do Brasil – teoria e metodologia. A morte e os mortos na sociedade brasileira. definidos. É uma medida geralmente utilizada por aqueles que não têm herdeiros legítimos ou que procuram dispor do todo ou de parte de seus bens dentro do previsto por lei1. Procuramos destacar aspectos em nosso entender mais relevantes quanto mais aproximados de nosso intuito de compreender os testamentos enquanto fontes privilegiadas para o entendimento das relações do homem com a morte. num recorte da discussão pretendida. p. pois algumas cláusulas são dedicadas a deixar resolvidas questões de ordem material. A morte de nossos ancestrais. 68.. enquanto outras dedicar-se-ão às questões religiosas. Curitiba: UFPR. 2 Scott. 1983. São Paulo: Hucitec. portanto. por sua forma de elaboração. Maria Luiza. como de caráter público e aberto. p. 3 Marcílio. O testamento pode ser definido como um ato revogável que possibilita a alguém. Desse modo.) há duas partes bem nítidas presentes.. dispor de seus bens. sendo que os testamentos ordinários ainda se diferenciam em público ou cerrado. assim como quanto às necessidades da sua alma2. . Ana Sílvia Scott analisa os testamentos sob duas perspectivas: uma que 1 Daumard. Maria Luiza Marcílio considera os testamentos a partir de uma certa padronização: “(. Famílias. assim como para análise das principais preocupações dos moribundos diante das práticas de enterramento e suas transformações. assim. expressando as últimas vontades do testador quanto aos seus bens materiais. traduzindo-se. Os testamentos. cuja preocupação central é a compreensão do imaginário da morte na cidade de Cuiabá. Na primeira aparecem as cláusulas religiosas e na segunda as materiais”3. os testamentos não raramente são efetuados nos momentos que a precedem. 324. 190191. Guimarães. particular ou privado. José de Souza. 1984. no período referenciado. formas de união e reprodução social no Noroeste Português – séculos XVIII e XIX.

Discussão sobre fontes de pesquisa histórica: os testamentos coloniais. católica. através de uma declaração acerca de suas práticas: “Declaro que sou cristã. Revista de História.. indicando. para que não reste. temos a identificação do testador ou testadora. mas em seu perfeito juízo”7. através de um calendário religioso. que pudemos confirmar: logo em suas primeiras linhas. em cuja fé pretendo viver e morrer”6. nascida e batizada na cidade de Mato Grosso. nos dois dias do mês de maio. que sou filha legítima dos finados Coronel Antônio Joaquim de Vasconcelos Pinto e dona Gertrudes Adelaide Peixoto Capelo Pinto. da data de sua elaboração. enquanto a outra contém as indicações que se voltam para os legados pios. nesta cidade de Cuiabá (. estando de cama doente. os tipos de enterro e mortalhas utilizadas4. 6 Testamento de Augusta Carlota de Vasconcelos Pinto. temos uma forma de reafirmação de sua condição religiosa. e é de mim conhecido do que dou fé e. Eduardo França. Não raras vezes essa indicação se faz com uma invocação da Santíssima Trindade – Padre. Filho e Espírito Santo – pois até o século XIX a redação de um testamento era um ato civil e religioso: Saibam quantos estes virem. a sua ascendência legítima. Departamento de História. os bens da alma. 4 Scott. sendo ele dito. Após a identificação. além de sua naturalidade. no futuro. . cit. eles costumam trazer um registro.33 privilegia informações sobre o destino dos bens materiais. com registro também do nome do cônjuge e dos filhos: Declaro que sou natural desta província. assim como o estado de saúde e de sanidade mental do testador. que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e oitenta e dois. Eduardo Paiva considera a divisão dos testamentos em quatro ou cinco partes principais bem definidas5.6 Em seguida. 4. 5 Paiva. no testamento. op. p.. n. de l3 de agosto de 1883. 7 Testamento de Jacinto Pereira Mendes. nenhuma dúvida sobre a validade jurídica do ato que se registra: “Em casa de morada e residência de Jacintho Pereira Mendes. assim como seu domicílio e estado civil. UFOP. 93. aonde eu tabelião a seu rogo vim. 1993/1994.)..6 O testamento registra também o local específico e as condições em que tal documento é lavrado. 327. p.

op. além das orientações consideradas necessárias para o bom cumprimento do testamento. era o temor do pós morte. declara: Quando a morte se aproximava ou. mais indicados no sentido de “negociar” com o Pai Eterno o perdão dos pecados. assim como os nomes dos herdeiros universais. os testamentos não eram discutidos. . os livros de testamentos revelavam as suas últimas vontades. 337. Para ter validade jurídica. A esse respeito. o testamento deveria conter assinaturas de algumas testemunhas. traziam também demonstrações de religiosidade. ao se fazer um testamento. para interceder pela sua alma. identificados nos santos da Igreja Católica. Mesmo quando efetuados em situações extraordinárias ou afastadas de qualquer condição de validade jurídica. 328.9 No século XIX. por algum motivo. em seu estudo sobre desigualdades na vida e na morte no noroeste português. ou à atribuição de um bem a um parente. cit. Os testamentos oitocentistas. Em seguida. a prática de testar era usual entre as elites do Império Brasileiro. p. Ana Sílvia Scott.34 Alguns testamentos trazem de forma explícita a solicitação dos testadores de ajuda por parte de advogados divinos. assim como das autoridades judiciárias. a partir do objetivo principal de encaminhar sua alma no caminho da salvação. nossos ancestrais temiam o Juízo 8 Scott. além de conter indicações de caráter econômico. Dentre os mais utilizados aparecem o nome da Virgem Maria e do Senhor Jesus Cristo. geralmente escolhidos dentre os familiares restritos a um círculo bastante limitado8. de acordo com as últimas vontades do testador ou testadora. p.. 9 Ibidem. recebiam o cumpra-se. O cumprimento das disposições testamentárias era cobrado das autoridades eclesiásticas. os testamentos trazem indicação dos testamenteiros. Pelo contrário. O principal motivo ou preocupação. na busca do descanso eterno. como protetores ou facilitadores. “Mais do que a morte. assim como o reconhecimento do 1º tabelião. além de determinações para a organização do funeral do testador. as quais cobravam do testamenteiro as providências necessárias para a máxima satisfação das vontades do testador. os paroquianos eram levados a exprimir os seus desejos quanto à realização dos seus bens da alma. assim como as preocupações que envolviam o destino da alma.

através da distribuição de obrigações e responsabilidades. 12 Ibidem. por exemplo. um nome. recompensando ou punindo. A herança formada pelos bens familiares é partilhada através dos testamentos. ano 2000 – na pista de nossos medos. 1990. São Paulo: UNESP.35 Final. a punição do além e os suplícios do inferno”10. p. p. benefícios e regalias12. já que a morte era considerada natural. o desejo de determinar em vida seus herdeiros. velas e orações. In: Alencastro. 13 Reis. preservando os bens de prováveis aventureiros. 105. indicavam a mortalha ou o traje que consideravam de sua preferência. Além desses cuidados. ditando normas e organizando as pompas fúnebres. Na oportunidade. João José. p. Os testamentos do século XIX exprimem as relações familiares mais próximas. de distribuição de esmolas. p. In: Perrot. relembrando. permitindo o desnudamento de relações pessoais e familiares. Nos testamentos as famílias são representadas como um conjunto de bens. São Paulo: Companhia das Letras. Ano 1000. Luiz Felipe de (Org. de encomendar missas. Georges. 11 Perrot. v. revelando também o papel social do moribundo presidindo a própria morte. momento de acerto de contas. História da Vida Privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra Mundial. No entanto. de pagamento de dívidas. Entretanto. . assim como sua interação com parentela e agregados. História da vida privada no Brasil. um patrimônio material e simbólico herdado. 1997. Os testamentos eram considerados como última oportunidade para um bom encaminhamento da alma no caminho da salvação. São Paulo: Companhia das Letras. 102.). pagarem antecipadamente o número de missas que julgassem conveniente. os testadores costumavam nomear os santos escolhidos como padroeiros ou advogados divinos. alguns testamentos foram feitos em situação diversa. não raras vezes. O testamento era providenciado quando o testador se achava enfermo ou de alguma forma em perigo de morte. fato inexorável. Geralmente ditados 10 Duby. assim como qual a cerimônia de enterramento e o local da sepultura13. Funções da Família. A herança exerce também uma função aglutinadora e mantenedora de vínculos. O cotidiano da morte no Brasil oitocentista. 114. em que o testador se achava com plena saúde. podiam ainda recomendar o número de padres acompanhando o féretro. reparando. este não se reduz a simples distribuição de bens. Tempo de retrospectiva de vida. mas movido por outras preocupações. 123. Michelle. como. além de estabelecerem e. preservado e transmitido11. um sangue. A hora da morte era também hora de assegurar a vida eterna. Michelle. 2. repartindo. 1985.

que podia ocorrer a qualquer momento. 14 Testamento de João Augusto Rondon. História da vida privada no Brasil. principalmente entre as elites. voltando-se principalmente para a elaboração de testamentos e para a confissão e extrema-unção. Quando se dava o confronto inevitável entre o pecador e a iminência da morte através de perigosas enfermidades. indícios do imaginário social de uma época: Declaro que deixo o usufruto de minha casa. de 1 de março de 1885. os testamentos expressavam preocupações e ansiedades enfrentadas pelos doentes diante da iminência da morte. Afinal. 16 Testamento de Antonio de Cerqueira Caldas. Formas provisórias de existência: a vida cotidiana nos caminhos. p. mulher que vive em minha companhia.16 Além das dificuldades materiais enfrentadas por aqueles que vieram desbravar as fronteiras da região oeste do Império no século XIX com o intuito de colonizá-las.15 Peço que no dia do meu passamento sejam celebradas duas missas de corpo presente e dez posteriormente por minha alma.14 Logo que eu falecer.36 pelos moribundos. sito à Rua da Boa Morte desta cidade à Antonia Maria Joseti. 54. Para isso fazia-se necessário trazerem consigo capelães para atender a essas necessidades religiosas17. Laura de Mello. A lembrança da morte como algo ordinário. . portanto. “a morte ideal não devia ser uma morte solitária. In: Souza. se faça o enterro de meu cadáver do modo mais simples que permite a Igreja e que depois sejam celebradas três missas em sufrágio de minha alma. São Paulo: Companhia das Letras. sob a condição de satisfazer as despesas de meu funeral e bem de minha alma. Laura de Mello (Org. tornava-se desejável um testamento cristão que obedecesse aos preceitos da Igreja Católica e que. oferecesse certa tranqüilidade para enfrentar o momento da morte. em troca. 17 Souza. em recompensa pelos serviços que me tem prestado durante a minha enfermidade. revelando. nas fronteiras e nas fortificações.). mantinha-se entre eles a constante preocupação de resguardar seus próprios rituais de morte. de 27 de junho de 1892. Peço e muito recomendo aos meus filhos e herdeiros aqui reconhecidos toda harmonia e união. pode ser considerada como estímulo à confecção de testamentos. 1997. de 8 de maio de 1883. v. 1. 15 Testamento de Joana Francisca de Souza.

Mas. conforme seu testamento.. durante toda a sua vida. 104. a procurar agasalho e conforto em lugar diverso. testadora. as numerosas disposições a favor da alma: missas.. Muitos testamentos deixaram polpudas quantias em benefício de igrejas. A parte mais longa do texto continua a ser a profissão da fé. e finalmente. orações. Através dessas doações os moribundos buscavam negociar um bom lugar para sua alma ou uma permanência menos longa no purgatório. através de formalidades mais espontâneas do que se crê. além dos maus tratos dados à sua pessoa. de 14 de agosto de 1891. 1997. a sua confiança na intercessão da “corte celeste”.37 privada. Com a condição de ficar a donatária obrigada a tratar dela. O testar envolvia distribuição de obrigações e benefícios aos herdeiros além da negociação com Deus visando a salvação da alma – que através dele podia ser efetuada por intermédio da interseção dos santos de devoção do moribundo – ou do comprometimento dos herdeiros. obras pias e outras atividades ou instituições religiosas. Ela se encontrava mais integrada ao cotidiano extra-doméstico da vida. pois que. p. como nas enfermidades que viesse a sofrer.) o testamento continuava a ser um ato religioso em que o testador exprimia. que declara ter feito doação causa mortis. e tendo a donatária faltado inteiramente a esta condição. devidamente solicitados pelos moribundos. Declara por estas razões revogada a mencionada escritura de doação. considera que (. levou a mesma donatária o seu procedimento ao ponto de obrigar ela. 18 Reis. assim como destinadas às missas. desenhando uma fronteira tênue entre o público e o privado”18. com o intuito talvez de abreviar a sua existência. . testadora. ao tratar dos testamentos europeus do século XVIII.19 Philippe Ariès. tanto no estado de saúde. de uma casa situada na rua Comandante Antonio Maria a Edvirges Antonia de Arruda Penteado. a confissão dos pecados e a reparação das más ações. a escolha da sepultura. Como exemplo de negociação com os herdeiros podemos citar o caso do testamento de Dona Antonia Maria Ferreira da Silva. e dispunha do que lhe era ainda mais caro: o seu corpo e a sua alma. 19 Testamento de Antonia Maria Ferreira da Silva. a sua fé.

1977. “entre os limites da vida. p. Momento de uso da verdade. quando “fazer justiça aos que ficavam significava limpar-se para enfrentar a justiça divina. além dos cuidados especiais com o testamento. Seria. necessário que houvesse tempo para que esses acertos fossem efetuados. de sua alma e de seus bens terrenos. em que se tornava impossível ludibriar alguém. (. 20 A importância do momento da confecção do testamento se prende. consideradas como a principal “moeda do além”22. ao fato de o mesmo representar uma possibilidade de fazer reparações morais do passado do testador. através do testamento.. p. o seu passado e o que nele ficou bem ou mal resolvido”24. normalmente. 1997. além de outros elementos referentes a dívidas e promessas não cumpridas em vida. 104. perpetuamente. p.) a boa morte significava que o fim não chegaria de surpresa para o indivíduo. Através dos testamentos é possível identificar algumas questões relaci20 Ariès. só então. op. da morte e do além. 21 Reis. em meio aos familiares. faziam-se necessárias cerimônias de extrema-unção. a hora da morte era momento único.. No século XIX. João José. pois. além das cerimônias de enterramento. quando as disposições de cada testador expressam. 95. cit.38 que começavam desde a agonia e eram distribuídas por datas fixas. 24 Paiva. São Paulo: Companhia das Letras. portanto. 23 Ibidem. O momento da morte era também um momento de reparação moral. 22 Reis.21 Os testamentos levantados neste trabalho trazem referências a acertos de contas e pagamentos a credores. que. solene e decisivo. p. .. O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves. velhos pecados da carne eram corrigidos na hora da morte. explícita e implicitamente. que seriam acertadas principalmente através de missas. A morte é uma festa. geralmente recebidas pelo moribundo em casa. cuidados também com o corpo e com a alma. 117. 2. 103. poderia pleitear um descanso eterno junto do Criador. sem que ele prestasse contas aos que ficavam e também os instruísse sobre como dispor de seu cadáver. quando pais reconheciam filhos tidos de relações ilícitas”23. 92. 1991. p. O momento da morte exigia. De acordo com João José Reis. Philippe. v.

Ainda que a prática de confecção de testamentos seja pertinente às camadas privilegiadas da população. recebendo a resposta de que. seguido das testemunhas reverendo José Martins da Cruz Marcelino Rodrigues Lisboa. Ao adentrar a referida residência. encontramos nesses documentos elementos das camadas populares. não saber ler nem escrever. a seu rogo. o Sr. que. Eurico Batista Lis- 25 O testamento de Ignez Maciel Fontes foi registrado no Livro nº 001. O tabelião tomou o papel de quatro páginas nas mãos. não sabia ler nem escrever. esmolas. e para isso pedia que fosse lavrado o instrumento de aprovação. foi-lhe entregue um papel dizendo ser esse o testamento escrito e assinado. como cartas de alforria. situada no número 22 da rua da Mandioca. de 30 de Dezembro de 1882. por ela. jóias. Ignez Maciel de Fontes. conforme dito. Isso feito. Ignez. entrelinha ou qualquer outra coisa que pudesse levantar dúvidas sobre a validade de tal documento. O papel escrito continha cinqüenta e nove linhas. não sendo nele encontrado qualquer borrão. mas não leu. assim como dos despossuídos. foi considerada em perfeito juízo e entendimento de seus atos. O tabelião inquiriu D. Manoel Batista Carvalho. que deles participam de forma indireta. embora doente.39 onadas ao imaginário dessas pessoas em busca de recursos ou estratégias para minimizar seus sofrimentos e apreensões diante do momento da morte ou ainda vislumbrando a possibilidade de descanso eterno num bom lugar. em casos mais raros. O Testamento de D. primeiro tabelião do Cartório Judicial e de Notas da Cidade de Cuiabá. ou mesmo. André Leiva Pereira Guimarães. contando com a assinatura. o cidadão Antonio Pereira Catilino da Silva assinou pela testadora. viu. ela o tinha por “bom. firme e valioso”. deitada em uma rede. Reconheceu a autenticidade do documento feito e assinado a rogo da testadora que. escravos e libertos. sem dúvida. imóveis. dispondo de seus bens ao fazer redigir seus próprios testamentos. Manoel Antonio Fernandes de Queiroz. por Antonio Pereira Catilino da Silva. . Ignez se o testamento era representativo de suas últimas vontades. recebendo benefícios diversos. a pedido da proprietária25. Ignez Maciel Fontes Em 8 de fevereiro de 1864 compareceu à casa de morada de D. D. de acordo com artigo 28 do regulamento nº 03.

. filha legítima dos finados Teodoro José das Neves e de D. expondo. Portanto. Um aspecto que extrapola a mera legalidade é o da religiosidade envolvida no ato. de quem era viúva há muitos anos e com quem não teve filhos. sente necessidade de registrar suas últimas vontades em um testamento. porquanto não considerava desejável a morte sem a participação e assistência dos familiares. que. cumpria a piedosa obrigação de preparar a moribunda para a passagem para além da vida. principalmente entre as pessoas mais abastadas. Um dos meios de se preparar para esse momento. O ato de formalização dos últimos desejos de uma pessoa. Natural da província de Mato Grosso e da paróquia de Nosso Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Quem deveria herdar determinada 26 Duby. além de exercer a função de testemunha. Ao abrir mão de seus bens. com objetivo de garantir-lhe uma morte tranqüila. Presidindo sua morte. poderia deliberar ou dispor com total liberdade sobre os bens que possuía. 2. Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo. A doente era uma mulher que contava com amparo legal e emocional. além de outras questões materiais que também a preocupavam. 1988. a partir da certeza do descanso eterno em um bom lugar. Ignez Maciel de Fontes. onde só têm validade as coisas da alma26.40 boa e André Leiva Pereira Guimarães. sentindo sua saúde debilitada e em seu juízo perfeito. Após ouvir a confissão da enferma. a moribunda procura desfazer-se pouco a pouco de todos os vínculos materiais que a ligam à terra e passa a preocupar-se e preparar-se para uma outra etapa. pois deliberava sobre seus bens em testamento cercada por um grupo de pessoas atentas aos acontecimentos e ao seu estado de saúde. 17. Georges. ed. permite que alguns aspectos dessa realidade sejam investigados e reconstruídos. na cidade de Cuiabá do século XIX. distribuindo-os. dá-lhe a absolvição dos pecados seguida da extrema-unção. Ignez fora casada com Miguel de Souza Lima. os costumes e as preocupações morais e religiosas de uma época. p. Rio de Janeiro: Graal. deste modo. Ignez delibera em seu testamento sobre os cuidados que julga necessários para com o seu corpo. era redigir um testamento. D. Os últimos momentos da vida de Dona Ignez contaram com a presença do padre José Martins da Cruz Marcelino Rodrigues Lisboa. assim como os rituais indispensáveis para a sua alma. pois temia a morte repentina. Católica praticante.

Observam-se. p. Ignez permite o levantamento de várias informações a respeito das relações do homem e da mulher do século XIX diante da morte. Mas. no mesmo momento. Ideologias e Mentalidades. 28 Reis. contando com seis páginas. eles revelam uma parte importante da alma de quem os ditava.28 Nesse documento. 29 Testamento de Ignez Maciel Fontes. . inclusive o auto de aprovação. 1997. p.. 93. Michel. D. “nada é mais cultural do que a morte”27. dispõe de seus bens de acordo com sua vontade. onde a mentalidade e a cultura revelar-se-ão muito mais através de atos do que de palavras. A leitura do testamento de D. Esses documentos têm por isso limitações enquanto expressão dos valores e sensibilidades de seus titulares. fazendo uma simples e breve invocação às três principais figuras do cristianismo. indicativa de sua formação religiosa. pois.). 2. 1991. conforme Vovelle. atitudes conscientes e inconscientes. de 16 de abril de 1884.41 propriedade? Quem teria mais direito a receber determinado benefício? Ao libertar-se dos bens materiais era preciso um cuidado especial em relação a alguns critérios. que analisa o fenômeno culturalmente. por maior que tenha sido a influência dos escrivões e outras pessoas em redigi-los. além de elencar os herdeiros havia a necessidade de se efetuar antecipadamente o pagamento das missas e de outros encargos ligados aos atos fúnebres.29 Assim se inicia o testamento de D. ed. uma mulher da elite cuiabana que. em Cuiabá. O testamento de Dona Ignez Maciel Fontes. confirmada quando a testadora é então identificada: 27 Vovelle. Objeto de estudo da História das Mentalidades. nesse acontecimento. foi ditado pela moribunda e redigido. pois. com o objetivo de registrar as últimas vontades da testadora. que fez também as recomendações necessárias para o enterramento de seu corpo. 134.) em nome da santíssima trindade. por esse documento. Ignez procurava atender seus anseios de mulher religiosa do século XIX: (. Ignez.. padre filho e espírito santo três pessoas realmente distintas e um só deus verdadeiro (.. pelo tabelião José Ferreira Mendes. considerados necessários para o benefício da alma da moribunda. São Paulo: Brasiliense..

enquanto que o corpo deve receber os paramentos usuais. É o momento em que muitos buscam simplicidade e humildade. mas em meu perfeito juízo.30 A partir dessas considerações iniciais.) Achando-me doente.. Ignez Maciel de Fontes.30 Frente à iminência da morte os cristãos costumam utilizar-se de todos os sacramentos oferecidos pela Igreja. pode dispor do que é seu: (. Entretanto.. cresci e fui educada. parecem se transformar. .) os bens da alma ocupavam um lugar importante não só ao nível puramente religioso.) logo que eu faleça e tenha o meu corpo de dar a sepultura recomendo que seja envolvido em um hábito do Carmo e conduzido em caixão para ser enterrado em cova da irmandade do Senhor Bom Jesus dessa cidade de que sou indigna irmã. é minha vontade que não haja por minha morte senão os sinais de toques de sinos recomendados pelo setor da Santa Igreja em tais circunstâncias e as recomendações ou encomendações que a mesma ordena em toda simplicidade e humanidade própria do cristão. buscando minimizar as tensões que envolvem esse momento.). natural desta Província e freguesia desta Paróquia. fazem recomendações especiais visando a tranqüilidade e a salvação da alma.. É quando mesmo aqueles das posições mais privilegiadas.. apesar de provavelmente debilitada pela doença. que viveram com as pompas e facilidades de uma classe social privilegiada... como cristã Católica Apostólica Romana que sou. mas constituíam também um forte traço de dis30 Idem. Faço aqui as minhas últimas declarações e disposição pela forma e maneira seguinte (.. (. vêm as recomendações referentes aos cuidados a serem tomados com seu corpo e sua alma. Ignez Maciel de Fontes.42 Eu... filha legítima dos finados Teodoro José das Neves e D.. em cuja religião nasci. e em que felizmente tenho convivido e espero morrer (.30 Ela se declara como uma mulher que se encontra diante da morte e que. após seu falecimento: (.).

(. p. no mínimo. p. A variedade de julgamentos que compreende a existência de um purgatório é muito original. 328. não só era necessário procurar garantir a passagem para a vida eterna com o apoio de toda a corte do céu e de todos os santos. através de altos valores cobrados por jóias e mensalidades. 33 Ibidem. pois vedava. cit. O Compromisso da Irmandade do Senhor Bom Jesus de Cuiabá pode ser o que a caracteriza como uma confraria representativa da elite cuiabana. um terceiro espaço entre o céu e o inferno. D.31 Dona Ignez recomendava alguns cuidados especiais para com seu corpo. composta por brancos abastados. com efeito. Para aquele que crê nos fundamentos cristãos. 74. a irmandade mais antiga da cidade. permeando o imaginário desse cristão. e principalmente dos últimos momentos dela. entre as mulheres. 90. conforme Le Goff.) Ao falecer. Nos testamentos aqui analisados foram encontradas indicações de preferências pela utilização do hábito de São Francisco.. 1989.. p. e do hábito de Nossa Senhora. pois a vida do crente transforma-se quando ele pensa que nem tudo fica perdido com a morte33.. . Existe também. para o homem religioso o além é um grande horizonte. op. São Paulo: Brasiliense. o primeiro no momento da morte e o segundo no fim dos tempos. na crença de um julgamento duplo. envolto em um hábito do Carmo. como também cumprir. os usos e costumes da esfera social em que estavam integrados. indicando o costume dos defuntos serem enterrados vestidos de mortalhas de santos. o que implica. na crença da imortalidade da alma e na concepção de julgamento dos vivos e dos mortos32. Jacques. Ignez pede que seu corpo seja inumado em cova da Irmandade do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. faz parte de sua vida. É em virtude de muito temerem esse último julgamento do final dos tempos que os cristãos se apegam a determinadas práticas de “negociação” com o além. diante da comunidade. afinal. qualquer possibilidade de participação a gru- 31 Scott. 32 Le Goff. o preocupar-se com o pós-morte. entre os homens. Apóia-se. que congregava homens e mulheres brancos.43 tinção social e econômica. A bolsa e a vida – a usura na idade média. devendo ser o mesmo amortalhado e inumado de acordo com seus desejos. o medo do fogo do inferno ou dos infortúnios do purgatório.

resistência e poder. os quais deverão ser pessoas brancas. . Ignez certamente foi enterrada pela irmandade do Bom Jesus. e estas sepulturas serão no Consistório que desde os princípios da igreja do Cuiabá tem servido para os ajuntamentos dos devotos do Bom Jesus. A irmandade evocava um perfil ideal para os irmãos se enquadrarem.35 D. 35 Compromisso da Irmandade do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. que não sejam envolvidas em juízo que mereça pena vil e. recebendo todos os cuidados e honrarias devidos ao seu corpo e à sua alma. de acordo com as determinações do compromisso da irmandade. Esse artigo confirma a característica elitista da Irmandade do Senhor Bom Jesus. Bom Jesus. devem ser pessoas de boa consciência. Será o esquife adornado com decência para nele se conduzir os corpos à sepultura e terá doze opas roxas à custa da irmandade para os irmãos saírem com elas nas procissões. padroeiro de Cuiabá: devoção. O artigo número 5 do Compromisso da Irmandade afirma que dela participará número ilimitado de irmãos e irmãs. pois enumera todos aqueles que não poderiam participar de seu grupo seja por motivos religiosos. acompanhamentos e outras funções da irmandade. econômicos ou étnicos.44 pos sociais formados por pardos e negros34. que possua boas condições de sobrevivência para que as jóias e outros encargos ou anuidades designados pela irmandade não lhe sejam de difícil pagamento35. As determinações a serem observadas quando do enterramento dos irmãos são enumeradas no artigo 24 do Compromisso da Irmandade: Terá esta irmandade cinquenta sepulturas sagradas para serem enterrados irmãos e mais pessoas a que a irmandade deve dar sepultura. conforme sua devoção. sociais. finalmente. a fim de em nada prejudicarem os direitos paroquiais. até que possam ser mudadas para um Cemitério decente como por Vossa Majestade já está determinado. não se tirando a liberdade que cada um tem de mandar enterrar seu corpo no Adro ou Cemitério que bem lhe parecer. Cuiabá. de 1865. cristãs e batizadas. Elizabeth Madureira. 1993. Não podem ser infames. (Mímeo). tementes a Deus. sendo seu corpo transportado por um esquife adornado especialmente para esse momento. As preocupações com o além-túmulo determinavam que muitos cris- 34 Siqueira. A irmandade do S. Pergunta-se se realmente esse padrão era observado por todos os seus integrantes.

conduzido no esquife da irmandade para se dar à sepultura.. (. afinal a paz eterna poderia ser conquistada a partir da gratidão de beneficiados mais humildes.35 No entanto. No entanto. incluindo nesse número as de corpo presente que se vão de celebrar no dia do meu falecimento. quando pede que em sufrágio de sua alma. era expediente relativamente comum de negociação. Ignez encontram-se algumas informações sobre esse procedimento: 36 Testamento de Ignez Maciel Fontes. terceiro. A Irmandade do Bom Jesus trazia em seu compromisso uma determinação a respeito: Será esta irmandade obrigada a mandar dizer sete Missas pela alma de cada irmão ou irmã que falecer e o seu corpo será acompanhado pelo Capelão e irmãos.36 Ela parecia temer bastante o que lhe reservava o pós-morte. No testamento de D.. D. de acordo com suas posses.) é minha vontade. . constata-se que era realmente comum a preocupação do testador em solicitar um certo número de missas. conforme indica seu testamento.45 tãos procurassem.. Essa liberdade poderia ainda ser proporcionada através de um contrato de quartamento realizado ou firmado entre o escravo e o seu senhor. sétimo e trigésimo em cujos dias celebrarão todos os sacerdotes que se acharem presentes nessa cidade e queiram celebrar (. Percebe-se uma esperança de benefícios nessa permuta espiritual. Ignez foge totalmente à determinação acima. ou talvez sua grande religiosidade e consciência cristã lhe determinassem a necessidade de tantas missas em datas diversas. esse número dificilmente chegava a dez por cento daquele solicitado por D. Ignez para justificar seus últimos atos? O oferecimento de cartas de liberdade ou de alforria a determinados escravos. sejam celebradas 400 missas distribuídas de acordo com sua vontade. Ignez.). solicitar a celebração de grande quantidade de missas. Daí uma questão: por que a solicitação de um número tão expressivo de missas em sufrágio de sua alma? Que pecado teria cometido D. que o meu testamenteiro mande celebrar em sufrágio de minha alma 400 missas.. Após a leitura de vários testamentos.

. pelo qual não deixou cartas de alforria aos seus escravos. além das quatrocentas missas sugeridas no seu testamento em louvor de sua alma. através da Igreja.. Luíza Rios Ricci.. Uma parte desse valor é reservada para ser empregada em missas dedicadas à alma da testadora. São Paulo: Marco Zero / Cuiabá: EdUFMT. 38 Volpato. cada uma delas.) era definido um valor para o escravo e um prazo dentro do qual ele deveria pagar a quantia ao seu senhor (. em troca de sua liberdade. era-lhes oferecido mais um ano para que pagassem a quantia definida. 1993.).). a testadora buscou..37 O contrato de quartamento que envolve as escravas Maria Criola e Joana Parda indica que elas teriam um prazo estipulado para pagar ao testamenteiro de D. Ignez elaborou um testamento bastante diferenciado. onde (. .. pois. O quartamento pode ser definido como um instrumento legal. caso não conseguissem saldar a dívida nesse prazo. será entregue ao supremo eclesiástico para este aplicar a terceira parte do remanescente em obras de modo que mais possa aproveitar a minha alma duas outras partes mandará celebrar em missas por minha alma (.) Ana Criola deixo quartada pelo preço e quantia de trezentos mil réis. deixa outros benefícios a serem distribuídos entre diversas capelas ou igrejas.. p. Ignez a quantia de trezentos mil réis. Joana Parda pela quantia de trezentos mil reis. lhes conceda mais a metade do dito prazo e se ainda nesse prazo não apresentarem o valor dos seus quartamentos serão vendidas e seus produtos depois de satisfazer todas as disposições do presente testamento.) após o cumprimento do contrato. garantir mais benefícios a sua alma.. e. cujas quantias entregaram ao prazo de dois anos ao meu testamenteiro e esse lhes passará suas respectivas cartas de liberdade e se neste caso por algum motivo justo não derem a dita quantia ao testamenteiro. mas sim a possibilidade de eles virem a consegui-la através desses contratos de quartamento.. 117. Por outro lado... 37 Idem. Cativos do Sertão – Vida cotidiana e escravidão em Cuiabá: 1850-1888. então seriam vendidas e o dinheiro apurado seria entregue à Igreja para o utilizar como melhor lhe parecesse. Se ao fim desse prazo não conseguissem o pagamento. o documento era levado ao cartório para ser registrado juntamente com a carta de liberdade (.46 (.38 D.

Ignez indica em seu testamento a distribuição de valores em dinheiro que pudessem ser revertidos em ajuda na busca de um bom lugar para sua alma. a existência de um grande temor aterrorizando-a. mais propriamente. Essa estada no purgatório não dependia apenas dela. A leitura do documento sugere. . para a da Boa Morte trinta mil reis cuja quantia salvas as respectivas tachas serão entregues por meus testamenteiros a sua excelência reverendíssima ao senhor bispo para me fazer a caridade de aplicar naquilo que julgar mais consciente a glória e honra de Deus e salvação da minha alma. Preocupada.). para sua salvação... ainda que com uma provável passagem pelo purgatório.. o medo do inferno ou o medo de que sua alma não encontre a liberdade prometida para aqueles que. enquanto os altares do Santíssimo Sacramento e do Senhor Bom Jesus receberiam a mesma quantia de sessenta mil réis. após a morte. conforme o testamento seria entregue ao bispo para então aplicá-lo de maneira que mais julgasse conveniente. outros altares receberiam quantias inferiores.) deixo para o altar do Santíssimo Sacramento a quantia de sessenta mil reis para o Senhor Bom Jesus sessenta mil reis para Nossa Senhora da Conceição trinta mil reis para Santa Ana trinta mil reis e uma cruz de pedra de topázio para Nossa Senhora das Dores trinta mil reis para Nossa Senhora das Dores trinta mil reis. (. mas também das relações estabelecidas com familiares ou outros grupos de convivência que a pudessem abreviar através de suas orações. D. Mais uma vez surge a preocupação da testadora voltada para a condição de sua alma e.39 A distribuição de benefícios não se fazia de maneira igualitária entre as capelas e altares privilegiados pela testadora. vislumbravam o céu ou mesmo uma passagem pelo purgatório. desde que o céu fosse o próximo destino. Todo esse dinheiro. entretanto. a todo instante..47 (.39 39 Testamento de Ignez Maciel Fontes... desde que fosse em busca da honra de Deus e salvação da alma da testadora. para a capela do senhor dos passos desta capital uma imagem de São Geronimo para a capela de Nossa Senhora do Bom Despacho trinta mil reis.) que é minha vontade que logo que possa ser o meu testamento entregue ao reverendo paroquial desta freguesia a quantidade de cinqüenta mil reis para ser distribuído para todas as famílias verdadeiramente pobres (.

)”40...) a agonia do usurário é a esse respeito particularmente angustiante: tanto por praticar uma profissão considerada ilícita por natureza quanto pela condição de indivíduo. e assim mais entregará a Isabel Filha de Timóteo Pires Lisboa a quantia de cinqüenta mil réis. Esse momento... 41 Ibidem. op. 42 Testamento de Ignez Maciel Fontes. em troca. ourivesarias.. Le Goff afirma que “os poderosos e ricos davam ferros. Ignez como uma pecadora que procura. Ignez continua sua negociação em busca do céu.42 40 Le Goff. é um condenado vivo que se aproxima da boca do inferno. cit. 67.41 D. p. pobres ou miseráveis.. a minha afilhada Joana filha de minha comadre Isabel Gonçalves cinqüenta mil réis. a Ana de Silva filha do finado Manuel José Moreira cinqüenta mil réis... rendas. alguns de seus filhos. Como D. procurou. designar certa quantia em dinheiro para pessoas necessitadas. Ignez era possuidora de bens e temente dos males do inferno e mesmo dos infortúnios do purgatório. Poderá ser salvo no último momento? Terrível suspense.. pode-se lembrar do desespero dos usurários descrito por Le Goff: (.. determinadas formas de se salvar do fogo eterno do inferno. 77.) que o meu testamenteiro entregará ao inspirado da festividade do espírito santo a quantia de quarenta mil réis em satisfação de um voto meu. que estimulavam a distribuição de benefícios. Afinal. os pobres. A esse respeito.48 Tem-se aqui outra atitude louvável por parte da testadora. através do seu testamento. apresentava-se-lhe como uma oportunidade de demonstração de fé cristã assim como da prática de ensinamentos religiosos. dinheiro.). não é dando que se recebe? Então por que não. os óbitos dos mosteiros. mas que talvez possa ser interpretada como mais uma forma de buscar o reino dos céus em troca de alguns mil réis. nos últimos momentos de sua vida. a minha dita comadre quarenta mil réis (. receber o reino dos céus? Imaginando D. A testadora passa então a distribuir benefícios em dinheiro inicialmente destinados a uma festividade do divino Espírito Santo. . p. depois a diversas pessoas do seu relacionamento pessoal: (. as prendas mais humildes (.

O essencial acontece quando o morto é enviado ao purgatório ele sabe que finalmente será salvo. pois. procurando se livrar de valores ou bens materiais que de alguma forma pudessem atrapalhar sua caminhada pelo purgatório em busca dos céus? Não tendo filhos.).. 76. comadres e outras mulheres não identificadas como de seus laços familiares. em verdade. dois tachos sendo um grande e um pequeno. Francisco das Chagas. estavam seguros de que depois de passar por provações purificantes seriam salvos e iriam para o paraíso. além da quantia de cem mil réis em dinheiro. o mais tardar para o mandamento do juízo final (. afilhadas. uma caixa grande. ao distribuir esses benefícios. Georges Duby caracteriza muito bem a preocupação que envolve o personagem Marechal nos últimos momentos de sua vida. O purgatório. Deixo os trastes da minha ser43 Duby.) os mortos no purgatório. quando ele se desvincula de todos os seus bens materiais indicando... . a Benedita das Neves.. ela prefere privilegiar. quarenta dúzias de contas de ouro. 26. procurava garantir ou negociar uma estadia pelo purgatório. tem apenas uma saída. cit. sobretudo. p..49 Estaria ela. assim como objetos de uso pessoal: (. além do pároco e dos altares de igrejas locais. (.. conforme suas últimas determinações. A preocupação do moribundo seria obter a garantia de não ser sua alma jogada no inferno. 44 Le Goff. com o remanescente de seus bens. p. em vez disso. conforme Le Goff. uma salva e três colheres de prata. bens móveis e imóveis. 1988.44 A testadora enumera. ela privilegia em seu testamento. no seu leito de morte. um par de caixas sem encourar. op. a quem o seu testamenteiro deveria entregar.. Não contaria ela com outros parentes vivos? Ou teria deliberadamente feito a opção de não privilegiá-los? Pelas indicações de seu testamento. referenciada como esposa do Sr.) declaro que possuo uma morada de casas na Rua Mandioca. àquela a quem intitula como sua única e universal herdeira. em seguida. a quem se destinaria cada artigo que faz parte de seus bens pessoais e familiares43. o seu escravo Faustino.

. sua condição de cativos. Essa declaração vem complementar uma outra referente a seus escravos. apontam para diferentes relações entre a senhora e seus escravos. como era relativamente comum.45 Essas disposições oferecem elementos para se imaginar as condições de submissão a que estavam sujeitos os escravos. logo. Por que uma senhora tão religiosa e caridosa para com a Igreja e os pobres não ofereceu. que traziam incorporada aos seus nomes. Ignez não considerou algumas Cartas de Liberdade como moedas de valor na negociação pós-morte que lhe garantissem benefícios? Em seguida. Manoel Pedro. Aos quatro primeiros dei liberdade por carta de alforria passadas em diversas ocasiões. hoje uua Pedro Celestino.). cujas liberdade presente ratifico. .45 A indicação do endereço de sua casa de morada também poderia ser utilizada como indicativo de sua condição social e econômica: a antiga rua da Mandioca. (. área mais valorizada... é uma das mais centrais da cidade. a liberdade irrestrita aos seus escravos? Por que solicitou a seus testamenteiros uma grande quantidade de missas e não proporcionou a liberdade aos seus cativos? D.). A escrava Ana Crioula deixo quartado pelo preço e quantia de trezentos mil réis (.50 ventia por serem de nenhum valor as minhas escravas: Joana.. Ignez identifica os seus testamenteiros escolhidos. Ignez estaria localizada nas proximidades do centro da cidade de Cuiabá. quando ela deixa a eles a possibilidade de alcançarem a liberdade através de um contrato de quartamento. onde a elite cuiabana construía suas residências. a residência de D. Ignez deixou apenas os trastes de sua serventia. através da indicação da cor de sua pele.. de forma explícita. as condições específicas em que são enunciados esses escravos. Teodoro Crioulo. D. Teodora e Ana (. Joana Parda e Faustino Crioulo. enquanto outros pagavam pela liberdade. Teodora e Ana. por “serem de nenhum valor”. Para as suas escravas Joana. Bonifácio Crioulo.. D. que 45 Testamento de Ignez Maciel Fontes.) declaro que possuo sete escravos de nome Pedro Cabra. uns recebendo cartas de alforria sem quaisquer imposições. No entanto.

. finalmente D. pela muita confiança que tenho na boa fé. em meio aos familiares.51 teriam como missão executar as suas últimas vontades: Nomeio para o meu testamenteiro em primeiro lugar o padre José Joaquim dos Santos Ferreira. em segundo o tenente Antônio de Pinho Azevedo. feito por palavra ou por escrito ou em qual quer maneira. por medida de segurança. geralmente recebida em casa.45 Após a indicação. por esta a disposição de minha ultima vontade.. contrastes com aqueles que deixavam todas essas questões a . plenos de signos que podem colaborar no desvendamento do cotidiano e relações sociais de homens e mulheres do período oitocentista. para que não valha. sendo comum haver reclamações nesse sentido nos relatórios de presidentes de província. sendo necessária a extrema-unção. Os testamentos do século XIX são ricos documentos. tendo assim concluído este meu testamento que é feito ao meu pedido (.). aqueles relativos com o corpo e com as cerimônias de enterramento. enquanto declarava sem efeito qualquer testamento efetuado anteriormente. havendo.) declaro finalmente que agora tenho como nulo e dou por nenhum qualquer testamento feito antes deste. em terceiro a Francisco Fernandes da Silva. Ignez dava por encerrados seus últimos pedidos e reivindicações. salvo este que agora faço. de três expoentes da elite cuiabana como responsáveis pela execução de seu testamento. além dos cuidados especiais voltados para as questões da alma.45 Os testamentos do século XIX indicavam. nem todos recebiam essas cerimônias em virtude da falta de párocos na Província de Mato Grosso para atender todos os fiéis. No entanto. inteligência e amizade que sempre me tributaram. pois refletia as suas verdadeiras e últimas vontades: (. e reafirmava que este era o testamento que teria valor real. Esses documentos costumam apresentar as condições consideradas indispensáveis pelos moribundos para uma “boa morte”.. trazem com detalhes as preferências pessoais quanto às cerimônias e serviços fúnebres. se assim puder valer. quero que este seja meu testamento. no entanto.. a cada um dos quais dou por abandonado em juízo ou fora dele e concedo o prazo de três anos para a prestação de contas do presente testamento. seja por palavras ou por escrito.

nesta pesquisa.52 cargo de seus herdeiros ou dos testamenteiros escolhidos. que a morte se constituía em uma preocupação bastante presente no imaginário social das elites da cidade de Cuiabá da segunda metade do século XIX. . Foi possível perceber.

TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG. DE PÓS-GRAD. without any reference of origin. Palavras-chave: Keywords: Pano-de-boca-de-tribuna – Pano-de-boca-de-altar – Santa Ceia – Vila Bela da Santíssima Trindade – Artes Plásticas em Mato Grosso – Francesco Bartolozzi Last Supper – Vila Bela da Santíssima Trindade – Plastic Arts in Mato Grosso – Francesco Bartolozzi * Bacharel e licenciado em História pela UFMT. 2002 . The article tells the discovery of a painting in fabric representing the Last Supper. sem nenhuma referência de origem. at Vila Bela da Santíssima Trindade – a city of the 18th century established to be the capital of the Capitania de Mato Grosso –.53 A Santa Ceia de Vila Bela da Santíssima Trindade Cláudio Quoos Conte* Resumo Abstract O artigo narra a descoberta de uma pintura em tecido representando a Santa Ceia. REV./JUN. e todo o processo de pesquisa na tentativa de situá-la no contexto artístico e histórico do Brasil Colônia. em Vila Bela da Santíssima Trindade – cidade do século XVIII fundada para ser a capital da Capitania de Mato Grosso –. Diretor da 18ª Sub-Regional do IPHAN em Mato Grosso.1 – JAN. EM HISTÓRIA – UFMT – V.3 – N. and all the process of research in the attempt of points out it in the artistic and historical context of Brazil Colony.

subsistem monumentais ruínas em adobe com a base em pedra canga lavrada. sendo as da primeira junto ao cais no rio Guaporé. e. alguns dos quais discutimos neste artigo. Nossa Senhora do Carmo e Matriz da Santíssima Trindade.54 A pintura representando a Santa Ceia. Essa obra levanta uma série de questionamentos. Até 1998. para Cuiabá. e também sem moldura ou bastidor. com a função de exercer o papel de capital da recém-criada Capitania de Cuiabá e Mato Grosso. com a mudança da capital. constitui-se em uma raridade nas artes plásticas brasileiras. casa de câmara e cadeia. Vila Bela ficou sendo habitada por seus antigos escravos. é preciso situar historicamente essa pintura. Para uma melhor compreensão. Das igrejas de Santo Antônio e de Nossa Senhora do Carmo subsistem só as fundações. e definitivamente após a Independência. teve também três igrejas: Santo Antônio dos Militares. Praticamente todas as suas construções ruíram. a partir de princípios do século XIX. e por cerca de 70 anos desempenhou tal função. sem base de preparação. num primoroso trabalho de cantaria. Fora isso. 535cm (cinco metros e trinta e cinco centímetros) de altura por 280cm (dois metros e oitenta centímetros) de largura. e as péssimas condições de salubridade do local levaram ao paulatino abandono da cidade pelo aparato burocrático militar ainda durante o período colonial. pertencente ao acervo de arte sacra remanescente das antigas igrejas de Vila Bela da Santíssima Trindade. palácio dos capitães generais e casa de fundição. da já então Província. tem a tinta aplicada diretamente sobre o tecido. restaram uma série de imagens. do qual constavam diversas outras peças do acervo de Vila Bela. havia já um inventário executado pelo IPHAN. enrolada no chão. Da Matriz da Santíssima Trindade. e as da segunda dentro do atual cemitério da cidade. Em seu período áureo. quando encontramos a referida obra em um depósito da prefeitura local. abandonados por seus antigos senhores em situação bastante precária. A fixação e pacificação da fronteira. além de uma série de construções civis e militares como quartel. em l988. Vila Bela foi fundada em 1752. mas nele não havia qualquer referência à referida Santa Ceia. De grandes dimensões. Supúnhamos ser obra antiga devido ao passado de opulência da vila. . levando-se em conta as dimensões da obra. às margens do rio Guaporé. nos disputados limites dos impérios coloniais português e espanhol na América do Sul. algumas poucas alfaias e a pintura objeto deste artigo. seria praticamente impossível que a pintura tivesse sido executada ou enviada para Vila Bela após a Independência. cuja construção foi iniciada em 1796 e nunca completamente terminada.

XIX. que uma peça de dimensões aproximadas às da de Vila Bela. No entanto. historiadora da arte e diretora do escritório do IPHAN em Diamantina (MG). a historiadora da arte. um dos centros de excelência de restauração no Brasil. sec. localizado na cidade do Rio de Janeiro. peça típica de igrejas barrocas que tinham por função ocultar as imagens durante as cerimônias da Semana Santa. localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. havia sido restaurada pelo CECOR naquele período. geralmente sem uma grande qualidade artística. passamos a entrar em contato com técnicos do IPHAN e restauradores. funcionando como uma espécie de cortina de retábulo. Nossa Senhora das Mercês. A primeira conversa. no catálogo do mesmo museu há uma pintura classificada com a seguinte legenda: “pano de boca de tribuna. no sentido vertical. foi com Til Pestana. que acabou por acontecer no Atelier Marilka Mendes Conservação Restauração Consultoria. em Diamantina (MG). têmpera sobre linho. continuávamos sem nenhuma informação acerca da obra. bastante simples. unidade do IPHAN naquela cidade. fora o óbvio: uma pintura em tecido. com figuras soltas e ajoelhadas com as mãos postas. mas que no Brasil tratavam-se de raridades. Posteriormente. na continuidade da pesquisa. uma peça referida como “pano de boca de altar”. pudemos observar no Museu do Diamante. Nosso desejo era conhecer o significado e a função desse tipo de pintura no interior de uma igreja e.55 O péssimo estado de conservação em que se encontrava o painel levou-nos a imediatamente iniciar os trâmites burocráticos com vistas a sua restauração. representando a Santa Ceia. representando uma Nossa Senhora e pertencente a uma Igreja de Paracatu (MG). passamos a denominá-la dessa forma. da Universidade Federal de Minas Gerais. localizado em Belo Horizonte. possuía um “pano de boca de altar” em seu altar-mor. que esse tipo de pintura era ainda bastante comum em igrejas portuguesas. Tratavase de uma pequena cortina. em exposição. Também obtivemos a informação de que a Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé. São . Como a descrição a priori encaixava-se ao tipo de pintura encontrada em Vila Bela. de grandes dimensões. Ao descrevermos a peça ela imediatamente aventou a hipótese de tratar-se de um “pano de boca de altar”. restauradora do Centro de Estudos de Conservação e Restauração (CECOR). telefônica. em posição de oração. Ressaltou. em função disso. pintadas sobre tecido amarelecido pelo tempo. através da Professora Beatriz Coelho. de 252cm (dois metros e cinqüenta e dois centímetros) de altura por 109cm (um metro e nove centímetros) de largura em cada uma das metades. Soubemos. De qualquer maneira.

com aproximadamente três metros de largura por oito metros de altura. pode ser puxado sobre roldanas. presa ao meio como cortina perderia totalmente o sentido. e mais recentemente foi fixado um velcro para facilitar sua exposição. pela representação contida. p. Já a pintura de Vila Bela. assim se refere sobre esta pintura: “Caso único dentre os retábulos coloniais do Rio. Catálogo Museu do Diamante. sendo dividida ao meio. retábulos e talha. 100. possui base de preparação e bastidor. Nonato e São Pedro Nolasco”1. atuais. Arquitetura religiosa colonial no Rio de Janeiro: revestimentos. sem bastidor. em Arquitetura Colonial Religiosa no Rio de Janeiro. Essa pintura é imensa. circundado por moldura plana com ornatos também planos e repetidos.56 Raimundo. Rio de Janeiro: UFRJ / IPHAN. Como a tribuna é um balcão que se abre para a capela-mor ou para a nave das igrejas barrocas ou coloniais brasileiras. a primeira funciona como cortina. Este “pano de boca de altar” ainda exerce a função para a qual foi executado e. fechando. embora seja possível observar que não existe base de preparação e nem bastidor. levamos em conta as similaridades observadas durante a pesquisa nos tipos de um e de outro com a Santa Ceia de Vila Bela.. o nicho. que se constitui em uma representação de Nossa Senhora rodeada de santos e anjos. como uma imensa tela. v.d. uma no Museu do Diamante. que conta com base de preparação e é puxada sobre o camarim. 1. p. 2 Alvim. cujas dimensões são 478cm (quatro metros e setenta e oito centímetros) de altura por 436cm (quatro metros e trinta e seis centímetros) de largura. e suas dimensões também são aproximadas. 1996. Nas duas peças classificadas como “pano de boca de altar”. e a segunda é uma imensa tela. como a Santa Ceia de Vila Bela. Antes da restauração a obra possuía pequenas argolas metálicas. o nicho ou camarim do altar-mor da referida igreja. e outra no altar-mor da Igreja do Carmo da Antiga Sé no Rio de Janeiro. Como não encontramos qualquer referência bibliográfica específica sobre “pano de boca de altar” e “pano de boca de tribuna”. pode ser fechado com um painel pictórico”2. O “pano de boca de tribuna” do Museu do Diamante não possui base de preparação e nem bastidor. s. Sandra Poleshuck de Faria. em Diamantina. como possui bastidor. Observamos também o “pano de boca de altar” da Igreja do Carmo da Antiga Sé do Rio de Janeiro. e cremos poder afirmar que esta pintura seria um “pano de boca de tribuna”. Sandra Alvim. estas 1 IPHAN. . além de não contar com qualquer marca indicativa da existência de um bastidor. 42. As figuras representadas fazem parte de uma composição sobre um fundo azul. costuradas em sua parte posterior.

ou mesmo missais. de Sandro Botticelli. com louças expostas. caso houvesse base de preparação. ou pelas representações populares existentes nos lares brasileiros. Isto justifica o fato de esse tipo de pintura ser feita diretamente sobre o tecido. de Virgilio. Para o esclarecimento dessa questão. e que as pinturas eram. com a função de alisamento do tecido. Com esses dados levantados passamos a pesquisar em reproduções de uma série de obras renascentistas italianas. então. na tela “Banquete Nupcial de Nastagio degli Onesti” (1483). de arquitetura clássica. sobre a qual descansavam pratos e talheres. de Leonardo da Vinci. onde ficaria presa. Passamos. como o fundo. portanto. sem base de preparação. do Convento de Santa Maria delle Grazie. Esse procedimento não seria viável para uma pintura que seria enrolada e posteriormente lançada de uma tribuna. carbonato de cálcio ou materiais similares mais um adesivo. em Florença –. em reunião com o sentido de levantar dados sobre a obra. como a representação pintada e sua autoria. o craquelamento seria imediato. ou ainda em ilustração da obra Eneida. também se colocaram outras questões referentes à Santa Ceia de Vila Bela. a pintura ficaria muito mais resistente. quando do retorno da pintura a Mato Groso. cujo corpo gira sobre seu eixo. de forma similar ao modo como estão os pratos ou travessas na Santa Ceia de Vila Bela. como no afresco “Banquete de Herodes” (1490). e pudemos observar as louças expostas sobre cavaletes ou em armários abertos na sala onde ocorre a ceia. de Milão. muitas vezes. “Flagrante de um .57 pinturas eram jogadas sobre o balcão. Chamou a atenção. Pablo Diener ressaltou a posição da figura da camareira. típico da pintura maneirista. apesar de ficar mais rústica. o sentido vertical de uma pintura da Santa Ceia. sendo que a colher sempre se encontrava cruzada sobre o garfo ou a faca. bastante comuns até muito recentemente. de Domenico Ghirlandaio – na Capela-mor da Igreja de Santa Maria Novella. Como a base de preparação é feita com gesso. ficando expostas na capela-mor ou na nave da igreja. poderia haver posterior craquelamento das telas. talvez pudéssemos encontrar uma cópia do molde utilizado para a “nossa” pintura. pois comumente estamos habituados a representações no sentido horizontal. e que. o historiador da arte Pablo Diener colocou que até o período pré-industrial a execução de objetos para o culto católico se dava em oficinas de artesãos. e sem a base. copiadas de moldes ou cartões. Concomitantemente ao levantamento das informações acima. a observar uma série de detalhes da representação. seja pela mundialmente famosa “Ceia”. desde o início. a mesa coberta por toalha.

Imagens de vilas e cidades do Brasil colonial. esculpido pelo Aleijadinho e encarnado por Ataíde. enfim. São Paulo: Universidade de Cambridge/Círculo do Livro. embora claramente inspiradas em Bartolozzi. 4 Arte no Brasil (reedição condensada da coleção Arte no Brasil. óleo sobre tela). Firenze. e a bolsa em lugar da jarra. Itália: Gienti. acima citado. No entanto. USP/ Imprensa Oficial do Estado. A escola baiana de pintura 1764-1850. A reprodução desta gravura encontra-se em uma publicação sobre arte no Brasil. Outras referências podem ser encontradas em: Ott. sendo que algumas igrejas são obras de ambos.58 Banquete dos Médici” (ca. e uma outra. isso não era conclusivo. p. 1992. In cucina e a tavola in il magnifico lorenzo. 1982. que está para a pintura assim como Antônio Francisco Lisboa. s. italiano nascido em Florença e morto em Lisboa. óleo sobre tela). está para a escultura e arquitetura mineira do final dos setecentos. pertencente à Igreja de São Miguel e Almas de Ouro Preto (210x180cm. 1982/1986. essa inovação iconográfica foi inspirada pelo Passo da Ceia. Woodford. São Paulo: Emanoel Araújo. pode ser considerada cópia fiel da gravura de Bartolozzi. Nestor Goulart. na bacia. São Paulo: Ed. Reis. Provavelmente. Maria Siponta de Salvia. algumas das inovações iconográficas devem-se ao fato de que. A arte de ver a arte. pertencente ao Seminário do Caraça (240x440cm. e talvez pudéssemos estabelecer uma longínqua ‘tradição italiana ou renascentista’ com a Ceia de Vila Bela. na última. 140. de Congonhas do Campos. como a rolha em lugar das garrafas. originalmente publicada em fascículos pela Abril S. na qual se afirma: Várias ceias pintadas no Brasil foram inspiradas na gravura do italiano Francesco Bartolozzi e seus discípulos. Com as informações oferecidas pelo Professor Pablo Diener partimos em busca da gravura utilizada como cartão para a pintura de Vila Bela e. no Museu Arquidiocesano de Mariana. Susan. inspirando-se na mesma gravura. Cultural e Industrial) São Paulo: Nova Cultural.d. 1460). 17 e 54. no primeiro plano. Embora houvesse similaridades. 2000. . início do oitocentos. de Apollonio di Giovanni3. a encontramos: trata-se de uma gravura de Francesco Bartolozzi (1728-1815). as pinturas de Ataíde. o Aleijadinho (1730/38-1814). na mão esquerda de Judas. publicada em vários missais do fim do século XVIII e começo do XIX. representam momentos diferentes daquele 3 Baldini. Carlos. foi o mais importante pintor colonial mineiro. vão da simplicidade da primeira à introdução movimentada de serviçais e outras alterações. Uma Ceia. p. A. As outras ceias de Ataíde.4 Manuel da Costa Ataíde (1762-1830). “Ceia”.

em Ataíde. após a Ressurreição. Esta ceia faz parte de um retábulo de concepção neoclássica. . 1989. muito provavelmente. no qual o espaço destinado à imagem é ocupado por esta pintura. de costas para o observador. em Judas segurando a bolsa de moedas. 5 Menezes. pelas semelhanças apresentadas. notadamente de pinturas italianas renascentistas e barrocas. que. uma outra “Ceia” de Ataíde. que representou a Ceia de Emaús. A mesa circular. Uma outra “Ceia”. mais dramático. onde existem obras atribuídas ao importante pintor baiano José Teófilo de Jesus (1763-1847). foi. assim. transformava-se. 54. fecha-se a série: a “Ceia de Emaús” de Pontormo. Rio de Janeiro: Banco Bozano Simonsen/Spala. expressa uma clara inspiração de composição na gravura de Bartolozzi. por sua vez. existente na Matriz do Sagrado Coração de Jesus. pintor maneirista italiano. e. em que Cristo. em Laranjeiras (SE). no entanto as semelhanças de composição. Esta obra pertence à Galeria degli Uffizi. p. O fato de Bartolozzi ser conhecido como copista e gravador. sobre a mesa. em Florença. no entanto fixo. personagens e objetos são inequívocas. espalha luz. op. revelando-lhes que havia ressuscitado6. a disposição dos discípulos ao redor de mesa circular. os únicos talheres presentes são facas.. Entretanto. O sentido vertical da pintura. Na obra de Pontormo existem bem menos personagens. Bartolozzi gravou outro. desta feita pintada no forro da capela-mor da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis. sem nicho. dando-lhe um bocado de pão molhado no prato. que inspirou a “Ceia” de Bartolozzi. inspirou uma série de pintores coloniais brasileiros. em que Cristo indicava quem o trairia.). em posição central. a figura à esquerda da tela segurando a jarra com a mão esquerda e de costas para o observador e. Até o momento conseguimos arrolar seis obras de inequívoca inspiração. o discípulo segurando uma jarra. Mestre Atayde. 6 Baldini. p. Cristo. da gravura de Bartolozzi. Cristo em posição central e com uma lâmpada sobre a cabeça. Ivo Porto de (Org. sob o triângulo que representa a Santíssima Trindade. ou quase cópias da Ceia de Bartolozzi: três de Manuel da Costa Ataíde. Enquanto Ataíde pintou o momento em que Cristo abençoava e dividia o pão. Parece que.59 da gravura de Bartolozzi. de Ouro Preto. É como se fosse um pano de boca de altar. tanto em uma como em outra obra. nos levou até Giacomo Pontormo (1494-1556). cit. a inspiração da gravura de Bartolozzi. encontrou dois apóstolos no caminho que levava a Emaús e ceou com eles. é uma cópia fiel da gravura de Bartolozzi5. e na tela de Bartolozzi foi substituído pela lâmpada. segundo Pablo Diener. Portanto. 28-29.

acreditando no papel da arte nesse processo de humanização global. embora tenha impedido um maior aprofundamento na questão. e mostra também a capacidade de circulação de idéias e influências no mundo. tanto na igreja. de autores desconhecidos. ambas em Ouro Preto (MG).60 das Igrejas de São Miguel e Almas e da Ordem Terceira de São Francisco. A solução encontrada foi consultar especialistas na área. e a “Ceia” pertencente ao Museu Arquidiocesano de Mariana (MG). ao menos. Embora de forma um pouco arrevesada. em Laranjeiras (SE). alguns citados neste texto. mesmo que ainda de forma modesta. em um processo de ocidentalização iniciado pelos próprios portugueses quando se lançaram aos mares. Infelizmente não pudemos contar com uma bibliografia referente a “pano de boca de altar” e “pano de boca de tribuna”. somos frutos dessa história. Chamaram a atenção. a existência de uma pintura representando a Santa Ceia em Vila Bela da Santíssima Trindade nos remeteu a uma série de referências que nos incluem na história da arte ocidental. na Matriz do Sagrado Coração de Jesus. A tribuna é sempre um local de assistência. como no teatro. a Santa Ceia está de volta à cidade de Vila Bela e encontra-se acondicionada de forma adequada na igreja matriz da cidade. assim como é de autoria desconhecida esta pintura de Vila Bela. após o excelente trabalho de restauro. sendo que deverá fazer parte do museu que lá se pretende instalar. Ficamos sempre na esperança de relações mais justas e solidárias entre os homens e os povos. onde são colocadas as imagens dos santos. Parece ser ainda um tema inexplorado ou. nessas buscas. e da Igreja do Seminário do Caraça (MG). não nos impediu o sentimento de alegria por abrir caminhos. pesquisando algo inédito e criando referências. é chamado de “camarim”. a “Ceia”. Atualmente. A referência para “pano de boca” era sempre pano de “boca de palco”. . Esse fato. não só no Brasil mas em todo o universo colonial português. muito pouco estudado. embora com tantos capítulos macabros. solicitando informações. no caso. e. Sem dúvida. outras obras devem existir. as similaridades de terminologias entre as igrejas barrocas e o teatro. O nicho do retábulo.

2002 . Entender esta diferença é fundamental para perceber como estes autores representam opções teórico-metodológicas distintas no campo do trabalho historiográfico. Palavras-chave: Keywords: Teoria e metodologia da história – Noção de experiência – Obras de Thompson e Foucault Theorie and methodologie in the history – Experience notion – Thompson’s and Foucault’s works * Universidade Federal da Paraíba.61 Experiência: uma fissura no silêncio Durval Muniz de Albuquerque Júnior* Resumo Abstract O texto estabelece a diferença entre a noção de experiência elaborada por Thompson e esta mesma noção quando a encontramos em algumas obras de Foucault. REV. Understanding this difference is essential in order to perceive the way that both authors represent distinct theorie and methodologie options in in the historiographical work. TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG. Campus II. EM HISTÓRIA – UFMT – V.1 – JAN. This text establishes the difference between Thompson’s experience notion and this same notion in some Foucault works.3 – N. DE PÓS-GRAD./JUN.

ele é transformado em um historiador social e usado para fornecer conceitos novos para uma historiografia que. Lenharo. Embora hoje seja comum. que discuta em quê eles se afastam. pelo diálogo com as obras do historiador inglês de inspiração marxista Edward P. Paris: Seuil. a historiografia brasileira tem sido marcada. 5. entre os historiadores brasileiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Michelle (Org. Margareth. 1993.). Fazendo parte de tradições distintas no pensamento Ocidental. e a forma como Foucault utiliza o mesmo conceito. nenhum texto que tematize as diferenças substanciais entre a obra de Thompson e a de Foucault. Sacralização da política. embora se proponha a ser uma nova leitura desta tradição. As marcas da pantera: Foucault para historiadores. praticamente. Nestes trabalhos. 1988. Amnéris. a utilização conjunta de ambos numa série de teses e dissertações que vieram a se transformar em livros que revolucionaram a historiografia brasileira1. Centro de Memória / Papirus. Eliane. Thompson e do filósofo e historiador francês pós-estruturalista Michel Foucault. embora já se afastasse do marxismo mais mecânico e economicista. A estratégia da recusa. Resgate. Campinas. Campinas: Papirus. L’Impossible Prison. Falas de astúcia e de angústia: a seca no imaginário nordestino – 1877-1922. do livro Vigiar e Punir. Thompson e Foucault pensam de forma diferenciada a experiência humana e sua relação com o conhecimento. São Paulo: Cortez. Do cabaré ao lar. 1978. 2 Ver Rago. Rago. 1982. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual de Campinas. o porquê deles significarem formas diferenciadas de compreender a história. já que se propõe a debater a diferença entre a forma como Thompson utiliza o conceito de experiência. Este texto pretende contribuir para esta discussão. 1982. n. inclusive. com a sua necessária disciplinarização. fortemente. 1985. No começo da década de oitenta foi muito comum. Alcir. expurgando des1 Podemos citar Maroni. A obra de Edward Thompson inscreve-se dentro da tradição marxista. 3 Ver a polêmica de Foucault com os historiadores sociais franceses em Perrot. São analisados os vários momentos de constituição do mundo operário no Brasil. ainda não havia se afastado definitivamente deste paradigma. Margareth. a consciência. Albuquerque Júnior. a representação e a prática sociais. que também é fundamental em seu trabalho historiográfico. que aparecia renovado nas páginas das obras de Thompson3. seja dentro da fábrica. o Michel Foucault da genealogia do poder. Ignorando-se a crítica de Foucault à chamada história social. é utilizado juntamente com Thompson para fazer-se uma história do processo de constituição da classe operária brasileira. Ferrovia. A utopia da cidade disciplinar. a percepção de que são opções teóricas e metodológicas diferentes. Campinas. ferroviários. Segnini. Durval Muniz de. 1987. seja fora dela2. não existe. .62 Nas últimas duas décadas. central em sua teoria da história. São Paulo: Brasiliense.

a de inspiração nietzscheana e heidegeriana. liga-se a toda a tradição do pensamento moderno de inspiração platônica e hegeliana. por sua vez. A história é uma ciência do passado. possuem também diferenças substanciais na forma de pensar a própria história e a prática historiográfica. entendida como múltipla. portanto. ideológicas. discursos. processos etc. ou seja. com a Razão. Enquanto para a primeira tradição a ênfase se dá na semelhança entre fatos. para Foucault. Já para Foucault a história é nominalista. ela deve ser um discurso sobre o real. com as totalidades. Já a obra de Michel Foucault liga-se a outra tradição do pensamento Ocidental. um pensamento que reivindica a multiplicidade dos sentidos na história. na segunda a ênfase se dá na diferença. assim como outras práticas. a tradição de inspiração heraclitiana ou pré-socrática e a outra tradição do pensamento moderno. O real é. daquele. ou seja. que persegue um sentido para a História. Para Thompson a história é realista. a prática discursiva da história se distingue de outras por sua normatividade específica. da finalidade do ser. que o represente da forma mais próxima possível. que busca o encontro com a verdade do real. inclusive a totalidade da Razão. que busca o encontro com a consciência plena trazida pelo esclarecimento progressivo.63 ta o viés economicista. contingente e historicamente localizada. e entre elas está a prática do historiador. ou seja. uma criação de práticas múltiplas. a multiplicidade e historicidade da consciência e da experiência. técnicas e um aparato conceitual que lhe permita dialogar com as fontes de forma a corrigir o máximo possível as distorções que os preconceitos e as pré-noções podem trazer para a compreensão do real. sejam elas discursivas ou não. O real é o referente material dos discursos. que são representações simbólicas. Além de serem discursos historiográficos que remetem a tradições diferenciadas do pensamento no Ocidente. que pressupõe em última instância uma unidade da experiência humana. mas privilegiada. ela possui regras próprias de funcionamento e de produção. No entanto. ou seja. O historiador deve se aparelhar com métodos. com relação . um pensamento nãoessencialista. deve ser capaz de chegar o mais próximo possível de sua verdade. O real possui uma existência exterior aos discursos que o tomam como objeto. autoritário e estruturalista de inspirações estalinista e althusseriana. O marxismo. retirando-o do desconhecimento ou do reino enganoso da memória ideológica dos vencedores. que busca dispersar as totalidades. um pensamento comprometido com as essências. práticas.. que mantém uma relação mutável e historicamente datada. um fim último para o ser. ela é uma prática discursiva que participa da elaboração do real. da verdade e daquilo que é chamado de real.

apresenta a experiência como a base material da produção do conhecimento e da consciência. pois. nos quais a consciência parece fazer parte da experiência. mas como pessoas que experimentam suas relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos. é interessado. Edward P. que lhe dá inteligibilidade. A experiência é aí quase que reduzida ao real. embora fique difícil saber como alguém vive algo como necessidade e interesse sem ter pelo menos uma vaga consciência do que isto significa. A miséria da teoria. de embates de poder. O real não possui uma existência exterior à sua escritura em alguma forma de linguagem. Estando. a experiência trabalhada pela consciência e pela cultura (que também pare4 Thompson. por sua normatividade. é presidido por estratégias e táticas. Thompson divide claramente o momento da experiência e da consciência. da sua criação escritural. uma arte narrativa. momentos na obra de Thompson. nasce de lutas políticas. forma que dá a materialidade ao próprio real. pelo menos na sua obra de epistemologia histórica. Há. mas seria também.64 ao passado. em grande medida. proposto uma diferenciação entre experiência I e experiência II para tentar resolver os impasses apontados por seus críticos. inclusive. aí. não é um discurso imune à ideologia. que o organiza. tanto no que tange à filiação ao pensamento Ocidental quanto na forma de ver a história e a prática historiográfica. A miséria da teoria. 1981. Embora seja confusa sua definição de experiência. sendo a primeira. A história. ou seja. mas plenamente ideológico. Todo discurso. p. predominantemente econômica. mais particularmente com o conhecimento histórico. ela é o real que deve ser representado pelo historiador. portanto. num referente anterior à representação. A experiência é definida. a experiência anterior à consciência. transformando aquela praticamente numa empiria sem significado humano. A experiência é. mesmo o historiográfico. Rio de Janeiro: Zahar. em campos opostos. pois não só representa o real. . que o nomeia. como o momento em que os homens e mulheres retornam como sujeitos – não como sujeitos autônomos. como participa da sua invenção. e a segunda. estaria próxima da ciência. inclusive. Thompson. tendo ele. já que esta aparece com diferentes acepções em sua obra. Só em seguida é que eles tratam esta experiência em sua consciência e sua cultura das mais complexas maneiras4. a experiência que seria material e social. Thompson e Foucault pensam de forma muito diferenciada a experiência humana e a relação desta com o conhecimento. 182. muito de acordo com a tradição marxista. no entanto.

1984. embora continue mantendo a conotação de ser a experiência o elemento fundante na história. de sua transformação em saber. a experiência é definida por uma sucessão de metáforas mecânicas. A experiência não é o a priori da consciência ou do conhecimento. é o saber que lhe dá materialidade. o elemento essencial a ser apreendido em qualquer análise. à canhestra divisão entre história social e cultural5. metáfora a ser abandonada. que poderia adquirir até o caráter de uma representação individual sobre a experiência material. predominantemente cultural e não social. Em Foucault a experiência não se separa da consciência que dela se tem. Esta divisão entre a determinação social e cultural da experiência vai dar origem. a experiência. A experiência é um conjunto de práticas discursivas ou não que produzem uma certa ordem de saber e que se articulam em torno de certas demandas de poder. seu esquematismo. experiência seria o termo de junção que fora silenciado por Marx. Como se vê. . Thompson continua pensando materialidade como economia e relações de produção. Experiência é. que é. embora se proponha a se afastar do economicismo marxista. Felizmente Thompson nem sempre é tão esquemático quando instrumentaliza este conceito em suas análises. termo milagroso que. como se tais divisões fossem possíveis. A experiência não existe fora da sua representação escritural. como uma representação da experiência fundante do real. para ele. Stuart Hall e Richard Johnson em torno do livro A miséria da teoria em Samuel. É interessante perceber que é justo numa obra que pretende criticar o estruturalismo de Althusser. 5 Ver o debate entre Thompson. sendo não-material. que a reduz a um termo que falta. Para ele a experiência é o lugar do ser em contraposição ao lugar da consciência e do conhecer6. Barcelona: Crítica. introduzido. aí. antes de ser fundante. termo que introduzido no planetário marxista-estruturalista impediria o erro de não se articular base e superestrutura. Historia popular y teoría socialista. 6 Ibidem. p. para criticar o planetário de Althusser. o termo ausente do marxismo. continua pensando a cultura como um nível subordinado do real. 273-317. 183-184. é fundada no ser e na consciência. p. a experiência de reprodução social da existência. mostraria todo o equívoco do planetário marxista-estruturalista. inclusive.).65 ce ter existência separada da experiência e da consciência). Portanto. discursiva. portanto. Na verdade. que Thompson define experiência de forma mais esquemática e estruturalista. Raphael (Org. O próprio ato de conhecer e a própria consciência são momentos da experiência. impediria o erro de não se articular estrutura e processo.

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que são inseparáveis. A experiência não é uma essência que permanece,
uma substância passível de ser transmitida, como se fosse uma semente
capaz de cair em um novo solo e germinar, como pensa Thompson e seu
conceito de tradição. Para Foucault, cada experiência é una e só existe como
prática enquanto se dá em ato. Ela se atualiza a cada acontecer e de nova
forma, produz efeitos imediatos e se esgota, não deixa sementes, deixa ramificações, não conduz substância, mas intensidade. Não podemos fazer uma
botânica da experiência, mas uma física da dispersão de forças que esta mobiliza. A experiência é sempre nova desde que os significados se alterem. Portanto, não existe experiência anterior ao significado que lhe atribuímos. Não
existe experiência que não seja, ao mesmo tempo, social, histórica e cultural,
nem que não seja material e imaterial ao mesmo tempo, que não seja ser e
consciência juntos. A experiência é o lugar da consciência e do conhecimento,
como muitas vezes aparece nas próprias obras de Thompson7.
Em Thompson, a experiência é sempre remetida a um sujeito fundante, quase sempre um sujeito coletivo, ou seja, a experiência é fundada nas
classes sociais. Ele busca as condições transcendentais da experiência, busca
explicá-la historicamente, ao mesmo tempo em que procura discernir aquilo
que nela permanece, a sua essência e substância que permanece historicamente válida. Thompson chegou a criticar severamente Foucault por este
fazer uma história das estruturas sem sujeitos, em que homens e mulheres
são obliterados por ideologias, uma história que levaria à resignação fatalista.
Foucault seria o historiador da nossa relação não-livre com a não-liberdade.
Mas o que devemos entender é que, em primeiro lugar, a liberdade que
interessava a Foucault era inteiramente diversa da procurada por Thompson,
não uma liberdade de direitos protegidos, não a liberdade conquistada definitivamente num momento revolucionário, não a liberdade como valor universal, como uma abstração moral, não a liberdade como uma essência, mas a
liberdade nascida de práticas concretas, contingentes, móveis, históricas, a
liberdade nascida da revolta contra o poder e da crítica permanente ao saber.
Em segundo lugar, como propõe uma compreensão nominalista e não realista das próprias categorias com que organizamos o nosso mundo, Foucault
considera que categorias como sujeito, experiência e liberdade deveriam ser
também historicizadas. O que se deve perguntar não é qual o sujeito da
experiência, mas como historicamente veio a se constituir este sujeito desta

7

Foucault, Michel. A arqueologia do saber. São Paulo: Forense Universitária, 1986, p. 15; Rajchman, Jhon.
Foucault: a liberdade da filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1990, p. 47.

67
experiência? A pergunta não é o que funda tal experiência, mas em que
condições históricas foi possível se tomar tal fato como uma experiência
para o sujeito? A pergunta não é o que funda a liberdade do sujeito, mas em
que condições históricas foi possível se considerar tais conquistas como da
liberdade? Não existem, pois, estas essências chamadas sujeito, experiência
ou liberdade. Sempre que aparecerem estes termos devemos nos perguntar
quando, como, por quê, em relação a que?8
Foucault sustentou que não existe uma ordem objetiva subjacente em
tudo o que acontece, e que não há uma finalidade única para a qual tudo
deve tender, como o faz Thompson. A “documentação” de uma sociedade é
a sua própria realidade, não existe um substrato material chamado real fora
desta “documentação”. A sociedade que vemos e dizemos, a partir desta
documentação, depende do regime de visibilidade e dizibilidade do momento em que o historiador está inserido, mas também do diálogo destas
visibilidade e dizibilidade com aquelas outras, expressas na documentação.
Foucault, ao contrário de Thompson, não pretende fazer história de “coisas”,
mas história de termos, de enunciados, de imagens, de sinais, de signos. Ele
faz história das técnicas e categorias de visibilidade e dizibilidade que em
cada época instituíram as coisas a serem vistas e ditas. Ele não faz a história
de uma experiência, mas de como esta foi constituída, como esta foi possível, como ela chegou até nós, e a partir de que interesses ela foi “documentada”. A experiência não se remete a um sujeito fundante, mas a momentos
específicos, a pressupostos comuns a um corpo disseminado de pensamento e política. Ele não busca, como Thompson, fundamentar a experiência,
mas duvidar destas fundamentações. Ele se pergunta: porque tal sujeito aparece como fundante de tal experiência? Quais são as regras que neste momento histórico presidiram a emergência de sujeitos e a vinculação a estes
de dadas experiências? Foucault busca, não fundamentar a experiência, mas
desnaturalizá-la, desfamiliarizá-la, dispersá-la9.
Foucault, ao contrário de Thompson, não busca a razão de ser de uma
experiência, mas busca duvidar destas razões, apresentá-las como fruto da própria história, de suas lutas e seus embates. Enquanto Thompson quer nos apro-

8

Thompson, Edward. P. The poverty of theory. New York: Monthly Review, 1978; Foucault, Michel.
Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979; Rajchman, Jhon. Eros e verdade. Rio de Janeiro: Zahar,
1993, p. 127-140.

9

Thompson, Edward. P. A formação da classe operária inglesa I. A árvore da liberdade. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1987a, p. 9-23; Foucault, 1986, p. 72; Veyne, Paul. Foucault revoluciona a História. Brasília: Ed.
UNB, 1982.

68
ximar de uma dada experiência, experiência que seria constitutiva de nós mesmos, da qual seríamos um prolongamento, Foucault quer nos distanciar de toda
experiência que tematiza, quer mostrar o quão diferente já fomos e poderemos
ser. Enquanto Thompson enfatiza, em seus trabalhos, os elementos de continuidade na experiência, aquilo que seria substancial e semelhante a nós, Foucault
enfatiza as descontinuidades das experiências, seus cortes, deslocamentos, fissuras, estrias. Thompson busca, nas experiências que tematiza, elementos que
sirvam, inclusive, para a construção do futuro como um prolongamento de
processos passados. Foucault quer nos abrir a possibilidade de pensar o futuro radicalmente diferente do passado e de suas experiências10.
Enquanto Thompson busca, na história, aquilo que constitui uma certa
rotina, certas certezas que uma época teria sobre si mesma, Foucault usa a
história para dissipar qualquer espécie de rotina, a autoconfiança em relação à
realidade de tudo que é instituído como real. Thompson e sua historiografia
partem de objetos e sujeitos considerados “reais”, como estando inscritos no
passado, um já lá. Foucault, ao contrário, duvida de cada sujeito e cada objeto
postos como históricos; ele sempre se pergunta o que tornou possível que
assim o fosse, ele desrealiza tais sujeitos e tais objetos, não faz a história deles,
mas a de como eles foram possíveis. Fazer história da experiência não é, pois,
fazer história do concreto em si, não é fazer história de objetos e sujeitos já
dados, preexistentes à documentação que os nomeia, explica, organiza etc.
Foucault faz a história do que numa dada época foi chamada de experiência, o que possibilitou que aquela experiência aflorasse e fosse registrada
como tal. A experiência, para Foucault, pois, não é uma voz do passado que
foi esquecida e precisa ser salva, mas é uma fissura no silêncio, silêncio ao qual
está condenada a maior parte dos seres humanos e de suas experiências. O
que se deve perguntar, pois, não é, apenas, o que diz esta voz que rompeu o
silêncio do passado, mas se perguntar por que ela pode romper este silêncio,
que condições históricas permitiram que esta experiência não permanecesse
sepultada no passado. Não se pode supor, como o faz Thompson, que a experiência seja um objeto silencioso e contínuo, que se acha reprimido e recalcado
e que teríamos a obrigação de fazer levantar-se e lhe restituir o falar. Ela não é
o pré-discursivo, sem rosto, não é o pré-consciente, ela só existe no e como
discurso, ela é rosto formado, é um certo tipo de consciência11.
10 Thompson, 1987a, p. 9-23; Foucault, 1986.
11 Deleuze, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1988; Foucault, Michel. História da sexualidade I. A
vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1982; Thompson, Edward P. La política de la teoría. In: Samuel,
Raphael (Org.). Historia política y teoría socialista. Barcelona: Crítica, 1984, p. 301-317.

povo. fragmentar o que se pensava unido. 54. Foucault. Os sujeitos foucaultianos não têm natureza humana. como o faz Thompson. ao mesmo tempo. a consciência e a transformação social. Rajchman. Tradición. bem ao contrário de Thompson. O homem e o discurso. cujos interesses o intelectual representaria ou desmistificaria. Nada no homem é bastante fixo. portadores de uma vontade articulada por intelectuais. apenas os sujeitos não são uma aparição fenomênica de uma essência transcendental. Questiona o fato de que só seríamos livres quando tivéssemos consciência plena de nossa historicidade. Os sujeitos. Dizer: isso é uma experiência. É esta concepção de Foucault que desafia uma historiografia como a thompsiana. 1971. de uma entidade chamada Homem. não como obra de um sujeito dado. o discurso revolucionário é apenas um dentre os discursos possíveis sobre a liberdade. 1988. mas agitar o que parecia imóvel. considerando-o estruturalista. nem mesmo seu corpo. como critica Thompson. quando a controlássemos completamente. Foucault nunca negou a liberdade na história e a tomada de posições pelos sujeitos. com tudo de finitude e efemeridade que isso significa. 1979. A pesquisa da experiência não deve fundar. de alguma forma. p. mostrar a heterogeneidade do que se pensava em conformidade consigo mesmo. Thompson defende uma espécie de voluntarismo onde seus homens e mulheres devem. Michel et al. cuja voz ou consciência articularia. Outra diferença marcante entre a analítica da experiência em Thomp- 12 Thompson. metafísico e antropológico da memória. são radicalmente históricos. Questiona o modelo que presume a existência de coisas globais e universais como massa. 1990. são de natureza histórica12. em Foucault. revuelta y conciencia de clase. p. ser responsabilizados pela determinação de sua própria história ou a ela se resignar completamente. Barcelona: Crítica / Grijalbo. 1990. sociedade. cuja vida preveria as utopias de uma sociedade totalmente livre e racional. presa ao modelo. nem sua experiência. Edward P. Rajchman.69 Para Foucault. A história de Foucault não é uma história sem sujeito. para quem este é o único discurso validado para estas questões13. não como um substrato para a consciência. 47-48. . Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. classe. o que questiona é o modelo que atribui tal liberdade a sujeitos necessariamente coletivos. 13 Thompson. a experiência deve ser pensada como relação múltipla. para compreender outros homens e se reconhecer neles. requer que se diga em relação a que e a quem e não que se diga de que e de quem. Ao criticar Foucault. Para Foucault.

p. presente em Thompson. ele não propõe uma crítica global de toda a sociedade e de suas instituições políticas por referência aos padrões de uma forma ideal de vida. mas ela é em si mesma um problema a ser estudado. Assim. Ciência e saber – A trajetória da arqueologia de Foucault. é a própria experiência. Roberto. devemos questionar as práticas de objetivação e mistificação. Por exemplo. Para Foucault. submetendo à crítica até aquilo que se coloca como problema para o presente. portanto. Rajchman. um momento de análise das práticas para reelaborar a teoria. para ele. tal teoria não assume. Thompson. em Thompson. Ele tenta examinar mais detalhadamente o funcionamento daquelas práticas em que figuram normas morais e verdades acerca de nós próprios. Ele não estuda a experiência para resolver um problema.70 son e em Foucault é que Thompson toma as experiências que estuda como ponto de partida para a elaboração de uma teoria geral sobre a história. Foucault não olha além ou aquém de práticas históricas em busca de verdades finais sobre nossa natureza ou de normas que a nossa razão não dita. experiência. do Estado e da economia. questiona aquilo que é central na concepção marxista da história. como Thompson. Estudar a experiência se constitui. que é o modelo da ideologia na crítica. pois. Dirige suas críticas para aquelas formas de experiência concretas que a sociedade não pode facilmente ignorar e que atravancam a possibilidade da criação de experiências novas de relação com tais objetos de práticas14. mas ele quer questionar as próprias verdades que se dizem e se mostram das experiências. é que continua existindo. 1981. 1984. aí. no presente. para este. Como diz Rajchman. 1990. Mas também devemos questionar a “política de verdade” no próprio con- 14 Machado. 69. o momento de submeter a teoria à crítica da práxis. e o pressuposto de que o poder funciona primordialmente através de uma mistificação ou falsificação de uma verdadeira. A “teoria” de Foucault está dirigida para uma análise da problematização da experiência em situações históricas concretas. as idéias e normas já são práticas. a forma de uma crítica geral ou abstrata da história. Ele não quer estabelecer a verdade de uma dada experiência e como esta nos ajuda a resolver problemas concretos. o problema. Para Foucault. . Rio de Janeiro: Graal. a revolução não é um problema apenas de como fazê-la. a teoria é também uma prática. o Estado e a economia. submetendo-as à análise crítica. Assim. A diferença de fundo. a finalidade da crítica é analisar as práticas em que aquelas normas realmente figuram e que determinam espécies particulares de experiência. a separação entre teoria e prática. ou racionalmente fundamentada.

por serem textos que tematizam o mesmo tipo de experiência: a dos homens pobres. Para a melhor compreensão das diferenças que separam a analítica da experiência em Thompson e em Foucault. Thompson diz ter partido da experiência de humildes moradores das florestas e seguido. de Foucault. O que é um autor. Senhores e caçadores. através de evidências contemporâneas superficiais. Edward P. p. Lisboa: Vega. tais como a prisão e o internamento. a partir de “baixo”. Escolhi comparar Senhores e caçadores. E. o agricultor de Berkshire. objeto de estudo de Foucault16. Rio de Janeiro: Paz e Terra. em grande medida. 1992. todos aqueles considerados “indesejáveis”. re- 15 Rajchman. que se compare um texto escrito por Thompson com outro escrito por Foucault. ele pretende ter recuperado um episódio que se perdera para o conhecimento histórico. em nossa natureza. Por isso. “A vida dos homens infames”. e o sistema jurídico e a ideologia Whig de modo mais geral. à repressão que contra elas se abateu e que proporcionou a elaboração de uma legislação que visava coibir tais crimes. Michel. 77. Par Page ou Lord Hardwicke. Crítica é também a submissão constante da “verdade” de nosso pensamento à análise. quando nos últimos capítulos. Diz que evidentemente não pretendeu abordar o tema sem pressupostos e sem preconceitos. 16 Thompson. os homens infames. as linhas que ligavam-nos ao poder.71 ceito que deriva de Marx e de Freud. emitidos em nome do rei ou por sua própria iniciativa. 89-128. como: a Lei Negra. ou John Huntridge. na sua época. o estalajadeiro de Richmond. ele crê ser possível que os veja de forma muito semelhante à qual os viram. 1987b. mais particularmente a experiência de práticas que foram consideradas criminosas e que chegaram até nós graças. de Thompson. no caso dos salteadores das florestas reais estudados por Thompson. será interessante. documentos que. fundamenta a nossa experiência) está no âmago da concepção de história de Foucault – de sua tentativa de substituir uma filosofia idealista da emancipação final por uma filosofia nominalista da interminável revolta15. dos camponeses no interior da sociedade do Antigo Regime. e A vida dos homens infames. 1990. o que fez com que ele. Essa obrigação (e não a obrigação thompsiana de determinar o que. . mais. p. No prefácio de seu livro. chega a tratar com certo azedume a Walpole. agora. Foucault. em certo sentido. e as letras de cachet. mas que o método e as fontes impuseram controles a seus pressupostos. fosse obrigado a encarar a sociedade inglesa em 1723 tal como ela mesma se encarava. tinham como função sujeitar a medidas de segurança. William Shorter.

p. A experiência é. mais um capítulo desta experiência épica. em mais um capítulo de uma contínua experiência de luta do homem Ocidental. 15-20. do que nela foi essencial para a sua época. No belo livro Senhores e caçadores Thompson deixa muito clara a sua forma de lidar com a noção de experiência. e consegue dar uma visão da unidade e da totalidade de tal experiência. se em alguns aspectos é inferior ao conhecimento contemporâneo. Sua análise consegue superar o caráter fragmentário daquela experiência. . para a história. A experiência dos Negros dá acesso a uma realidade do século XVIII.72 cuperado um episódio que não foi do conhecimento de seus contemporâneos. da capacidade do povo de se revoltar e construir territórios culturais próprios. Para tanto basta ler a documentação oficial existente com um olhar diferenciado. como pode produzir um relato que. um olhar que estava presente em muitas destas próprias fontes. A luta dos Negros se transforma. de recuperar esta experiência perdida. indispensáveis para sua sobrevivência. na Inglaterra. que mascara a sua verdadeira face de defensor dos interesses dos proprietários. da capacidade humana de. Os Negros reagem à legislação florestal. faz parte do processo no qual a classe operária se fez. do que nela continua sendo essencial para nós. Este olhar é capaz de desmascarar a ideologia Whig. principalmente neste prefácio. ou seja. é superior17. Se a revolta dos Negros pode ser consi17 Thompson. um já dado. A experiência dos Negros é descrita como mais uma experiência que veio contribuir para a formação da sociedade burguesa na Inglaterra e. o mais importante. 1987b. e inglês particularmente. caráter que teve mesmo para os seus contemporâneos. em muitos aspectos. Este discurso. pela emancipação final e absoluta. com certa práxis. é superior ao conhecimento dos próprios contemporâneos. um ponto de partida. portanto. para ele. não só. desmascarar a ideologia que sustenta o poder. montando um relato que. que estivera na base da elaboração da Lei Negra e de sua utilização para uma gama de delitos cada vez maior. sob algumas outras formas. até então. um referente de que se parte para construir o discurso historiográfico. pode ser capaz. um olhar vindo de “baixo”. o fato de ser ela a expressão da luta de classes. e. que retirava deles a possibilidade da caça e o acesso a outros benefícios como a lenha e a água. da qual se pode sentir até o azedume e a antipatia. embora tenha que se deparar com as dificuldades trazidas pelo desaparecimento de grande parte da documentação judicial sobre os Negros e de dispor de poucos e esparsos relatos sobre suas peripécias nas florestas reais. com Thompson.

A experiência é experiência de sujeitos fundantes. os pressupostos da analítica thompsiana da experiência. exorbitantes. deixa sementes que germinam em outro solo. porque nenhum dos negros heróis que estas possam ter inventado lhe parecia mais intenso do que a vida daqueles remendões. do conhecimento. A experiência é o substrato da consciência. enganadoras. ou seja. Portanto. daquelas vendedeiras de roupa. No seu texto A vida dos homens infames. que constituíam o instrumento de uma vingança. é contínua. é um passo na aquisição da consciência de classe. a experiência como determinada pelas relações de produção. daqueles tabeliães. determina esta experiência. tudo o que pudesse ser imaginação ou literatura. Baniu. a gesticulação do desespero e do ciúme. o que. Esta experiência é de luta de classes. e isto pelo simples fato de sabermos que existiram. que eram uma peça da dramaturgia do real. ao fazer uma opção metodológica e ao fazer uma pesquisa empírica que permita corrigir os seus pressupostos e preconceitos. uma súplica ou uma ordem.73 derada uma experiência política e experiência coletiva. onde homens e mulheres experimentam a vida como necessidades e interesses para depois tratá-los na consciência e na cultura. de sujeitos políticos. unifica. mesmo que sem classes ou com estas ainda indefinidas pela falta de uma consciência. São as relações de produção. fiéis à realidade. de sujeitos coletivos. que merecessem ser con- . todos eles danados. neste trabalho se expressam. que se lhes pudesse dar um lugar e uma data. às vezes melhor que a dos próprios contemporâneos. suas malfeitorias. é. que por detrás dos nomes que não diziam nada. é o referente do discurso. com os seus sofrimentos. em última instância. um aprendizado fundamental para os de “baixo”. no entanto. injustas. ou seja. A revolta dos Negros é. a arma de um ódio. escandalosos ou dignos de lástima. mas que nela operavam. que o historiador. daqueles monges vagabundos. no entanto. A experiência é o real do passado. A experiência totaliza. um episódio de uma batalha. onde estão inseridos estes personagens. que não apenas a ela se referiam. tratadas como interesses. claramente determinada por carências e necessidades econômicas. Fez questão de aproximar-se destes textos que pareciam manter um maior número de relações com a realidade. Foucault fala que pretendeu tratar de existências reais. pois. tenha havido homens que viveram e morreram. pode dele ter uma imagem muito próxima. Não procurou nesta obra reunir textos que fossem. de forma clara. seus ciúmes e suas vociferações. por detrás de palavras breves e que bem podiam na maior parte das vezes ter sido falsas. daqueles soldados desertores. mais do que outros.

senão em virtude do seu contato momentâneo com o poder. que as marcou com um golpe das suas garras. estas existências chegam até nós de forma fragmentária e mediada pelos discursos. gestos. práticas. diz ele. ao menos por um instante. não querendo dizer com isto que elas foram retratadas. e talvez devessem sempre. mas sim textos que desempenharam um papel neste real de que falam.. foi. que as perseguiu (. nas mentiras imperiosas que supõem o jogo de poder e as relações com ele18.). fragmentos de discurso que consigo levam fragmentos de uma realidade da qual fizeram parte. em compensação. do passado. Embora partindo do pressuposto de que o historiador lida com existências reais. . Para que algo destas existências chegasse até nós. conclui. são produto de um lugar de sujeito que emergiu nas lutas pelo poder. a sua liberdade. Aquilo que as arranca à noite em que elas poderiam. emoções. antes de explicá-lo devem ser explicadas. atravessados por ele.. sem este choque é indubitável que nenhuma palavra teria ficado para lembrar este fugidio trajeto. Por tudo isso. atitudes. p. se encontram. já que não se pode recuperá-las a não ser fixadas nas declamações. mas armadilhas. em todo caso o seu destino aí. em parte. por vezes a sua morte. discursos que. Todas aquelas vidas. que não é uma recolha de retratos que ali se ia ler. O poder que vigiou aquelas vidas. Por que estas experiências foram iluminadas pela luz do poder em determinado momento e outras não? Nossos negros heróis não fazem parte de 18 Foucault.74 servados pelo seu valor representativo. e que. Estas experiências que chegam até nós. de maneira que é impossível reavê-las em si mesmas. decididos. astúcias. de fato. Diz ele. afirma. ou sua hipocrisia. ações. esta nos chega através de palavras que remetem a gestos. 1992. porém. Estes discursos atravessaram vidas. sua ênfase. como seriam em “estado livre”. seja qual for sua inexatidão. armas. ter ficado. 94-98. a sua desgraça. por sua vez. necessário que um feixe de luz. tais existências foram efetivamente postas em risco e deitadas a perder nestas palavras. Luz essa que lhes vem do exterior. as viesse iluminar. Encontram-se neste texto os pressupostos da analítica da experiência em Foucault. Vidas reais foram “representadas” nestas poucas frases. mas que. intrigas. nas parcialidades táticas. foram. ainda. Embora saibamos que nossos personagens fizeram parte de uma realidade. foi também o poder que suscitou as poucas palavras que delas nos restam. gritos. é o encontro com o poder. estavam destinadas a passar ao lado de todo o discurso e a desaparecer sem nunca terem sido ditas. de que as palavras foram o instrumento.

Estas experiências são fragmentadas. a experiência é relação fugidia entre ação. fazem pensar em nossa diferença. Eles nos falam de experiências muito distanciadas de nós. . estas experiências remetem ao anonimato do poder. que reduz vidas inteiras a pó. nem destes seres nem de sua época. dispersas. Mais do que testemunhos de uma vida. pois. imagem e poder. Elas são fragmentos do real não por nos ser possível. estes documentos são testemunhos de uma morte. de seus personagens.75 uma experiência que chegou até nós com a mesma substância e que dela dispondo podemos chegar a entender estes homens tal como pensaram em sua época. terem participado da construção da realidade. a não ser as breves palavras e os breves gestos trocados com o poder. do que estas pequenas iluminações feitas pela luz do poder. fala. reaver estes pedaços de passado. mas podem ter sido a liberdade momentânea destes indivíduos perante códigos que se tornaram insuportáveis. de seu jogo e das relações com ele. coisa. Embora remetam a nomes. através delas. Afinal de contas. uma letra de cachet podia condenar um indivíduo à reclusão ou à morte. de um esmagamento pelo poder. Eles são expressão de uma revolta que pode não ter deixado nada. não nos permitem fazer uma imagem unitária e total. A experiência não é dado concreto. estas pequenas fissuras no silêncio que apaga vidas inteiras. quase sempre trágica. eles fazem com que meçamos a distância que deles nos separa. mas por terem nele atuado. A experiência nada mais é. de real em si.

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no Pantanal sul-mato-grossense.3 – N. REV. checking if beside the myth of the ecological paradise there are shapes of knowledge peculiar of the region. some components of the popular culture. This article deals with the relationship between men and nature in the South Pantanal. ** Professor de História na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Doutor em História pela UNESP/Assis. Campus do Pantanal. DE PÓS-GRAD. no ano de 2000.1 – JAN. in the strategy of survival in the Pantanal. 2002 . EM HISTÓRIA – UFMT – V. busca-se encontrar. alguns elementos da cultura popular. nas estratégias de sobrevivência no Pantanal. verificando-se que junto ao mito do paraíso ecológico encontram-se formas de saberes bastante peculiares à região pantaneira. we try to find./JUN. realizado em Recife (PE). From this vital experience of two characters of the region.77 “Vendo. A partir da experiência vital de duas personagens da região. TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG. Palavras-chave: Keywords: Pantanal sul-mato-grossense – Cultura popular – Homem x natureza South Pantanal – Popular culture – Men versus nature * Este texto foi originalmente apresentado no V Congresso Internacional da Brazilian Studies Association (Brasa). ouvindo e aprendendo”: o saber popular na relação homem versus natureza no Pantanal sul-mato-grossense* Eudes Fernando Leite** Resumo Abstract Este artigo trata das relações homem vesus natureza.

que ao serem revisitadas recobremse de tonalidades visualmente suaves e sedutoras. Guaikurú e vários outros povos. com o objetivo de coletar narrativas que refletissem a experiência de vida no Pantanal1. o palco de grande parte de sua vida foram fazendas no interior da planície pantaneira. As gravações foram feitas entre os anos de 1995 e 1996. sobretudo. e se hoje habita a cidade. Uma das personagens anotada aqui é um pantaneiro que viveu por longos anos em fazendas no interior do Pantanal. “Histórias de Assombração” A imensa planície conhecida como Pantanal. No conjunto “bricolado” de histórias desse homem voam bruxas. aproximadamente. sur1 As entrevistas referidas aqui integram o conjunto de fontes audiovisuais produzidas no projeto de pesquisa “História Oral e Memória: história e estórias”. que até a chegada dos brancos europeus (espanhóis e portugueses) foi domínio de Guató. O senhor Osvaldo Pereira de Souza – Vadô –. . dois terços estão encravados no Mato Grosso do Sul. setenta e cinco anos. com destaque para a pecuária. isso ocorre mais por imposições familiares e de saúde do que por opção.78 Hoje já ninguém mais fala / Da pobre alma penada / Que assustava todo mundo / Lá na encruzilhada / Eu até sinto saudade / Do tempo de assombração / Hoje elas são assombradas / Pela civilização. Payaguá. revelou-se um narrador primoroso. peixes e répteis mesclados à flora deslumbrante. No território brasileiro o Pantanal ocupa uma área de 140. Neste texto importa focalizar alguns elementos que caracterizam hábitos e práticas na experiência cotidiana do homem pantaneiro em seus contatos com a natureza. Desse total. Este projeto tem por meta perscrutar experiências de vida do homem pantaneiro. no XVIII a região pantaneira foi definitivamente incorporada à coroa portuguesa por força dos tratados e. um intérprete das histórias adormecidas em sua memória. hoje habitam populações voltadas para várias atividades econômicas.000 km2. Adauto Santos e Willi. em decorrência da colonização lusa consolidada desde a descoberta das minas cuiabanas na segunda década desse século. sendo ali denominada como “Chaco”. cujas bordas estendemse pelos territórios boliviano e paraguaio. encerra em suas áreas muito mais seres do que aqueles tão expostos na mídia: aves. a pesca e o turismo. Nessa tarefa tomo como referência alguns trechos de duas entrevistas realizadas com habitantes da região do pantanal próxima à cidade de Corumbá (MS). Visitada por viajantes ligados à Espanha nos séculos XVI e XVII. nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Na verdade. Nesse imenso território.

Produção: Eudes Fernando Leite e Frederico Augusto G. demônios têm funções. VHSc. F. A. Não cabe aqui um detalhamento das histórias: faltariam espaço. (aprox. que expõe uma das várias aventuras do “seu” Vadô juntamente com um vizinho. assim afirmou: (.79 gem curupiras. tempo e capacidade para reinterpretá-las!2 Destaco apenas uma. peão-de-fazenda. Alguns dias depois. consultar: Fernandes. o senhor Vadô.. pescador. não se assentam apenas no sobrenatural. São Paulo: UNESP. viu-se o senhor Vadô recebido na residência do antigo amigo de forma rude e hostil. Entre histórias e tererés – o ouvir da literatura pantaneira. Eis a sinopse: alertado por um terceiro a respeito da transfiguração de um amigo. mesmo quando um outro seu amigo e vizinho fora atacado por um certo animal estranho e imediatamente identificado como sendo um lobisomem. 1997. seu outro vizinho e compadre e o narrador. resultando no fim das relações fraternais entre eles.. Fernandes. lobisomens e outros habitantes do imaginário popular brasileiro percorrem o espaço mítico-legendário pantaneiro. em especial. G. o senhor Vadô sempre nutriu dúvidas acerca de tal possibilidade. 3 Entrevista. cuja habilidade em metamorfosear-se em lobisomem provocou o assombramento do narrador. Deduziu que tal atitude ocorreu por conta do enfrentamento verificado entre o lobisomem.) eu to até achando que num existe Deus. fantasmas atemorizam pessoas. contracenam mãozãos. Ao refletir sobre o assunto o senhor Vadô indaga-se: Como [é] que pode um homem [virá] um lobisomem? Mas. Vadô e José Aristeu (filme-vídeo). color.. caçador e contador de causos os quais assemelham-se a uma rapsódia ou a capítulos de sua vida.) Porque eu num acredito assim em muita coisa! Se o senhor fala de Deus (. Desconfiado e arredio em relação às coisas de Deus. ao visitar o homem que supostamente demudava-se em lobisomem. Eu num tenho 2 Para uma visão mais detalhada e discutida dessas histórias. atuam pombeirinhos. .. lá pelas tantas da entrevista. Corumbá: Ceuc/UFMS. o senhor Vadô. Nesse conflito a salvação do amigo agredido ocorreu pela pronta e eficaz intervenção do senhor Vadô. estabelecendo interfaces com o mundo idílico do ecoturismo. aparecem assombrações de vária ordem. 2002. 280 min. um homem acho que num pode virá! O quê!!! Virá lobisomem! Quem dera eu virá Jesus Cristo!3 Mas explicações para esse pantaneiro.).

Nóis come da terra.. Mas a terra aqui é meu Deus. cuja finalidade era conduzir bovinos... embora seja possível encontrar na suas histórias todo o vigor da cultura popular ladeada pelos animais e plantas do Pantanal. Contudo.. C.80 muita fé! Eu sô uma pessoa muito distante. conta sua estratégia – o senso comum define como simpatia – para enfrentar a força da natureza manifestada na picada de uma cobra. isso que to falano pro sinhô. Numa situação ocorrida no percurso de uma viagem em comitiva. não sei o quê. complementou: “Aí que eu falo pro sinhô. Mais tarde. Eu gosto de vê pra podê fala! Eu gosto de vê pra podê falá! Esse negócio de falá: – É porque Deus. nossa produção é da terra. o senhor Vadô poderia ser tomado como um ímpio. Sabe no que eu acredito muito? É na terra! Essa terra que nasceu pra nóis criá. Esta terra eu tenho como meu Deus. . come feijão. como que num pode sê. encontrar nestes alguma lógica satisfatória como responsável por sua ocorrência. o senhor Roberto dos Santos Rondon. São Paulo: Companhia das Letras. Mas o agnosticismo não é a única forma de pensamento sistematizador verificável na fala do senhor Vadô. logo após. Porque tudo aqui é o nosso mundo! Aonde que o senhor faz a necessidade.4 Em princípio. mas num sei como que pode sê. cuja visão de mundo foi brilhantemente dissecada por Carlo Ginzburg5. sob o impacto dessa afirmação.. 1987. Sai a água da terra. coube a ele executar a serpente e transformá-la em antídoto: 4 Idem. pur isso que eu falo pro sinhor que nóis temo que te fé!” E. ao abordar outra ocorrência do sobrenatural. Eu falo essas coisa. Talvez o senhor Vadô não tenha as mesmas características do moleiro Menocchio. que o senhor faz tudo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição.. Um outro entrevistado. crente que é da necessidade de conhecer pormenorizadamente os fenômenos. se eu tivé mintindo eu quero que Deus me tire isso [indica seus próprios olhos] aqui agora!” Como é possível compreender essa cosmovisão – para emprestar um conceito significativo para os novos historiadores. no transcurso de sua entrevista encontro várias pistas que encaminham à localização do contador entre os agnósticos. 5 Ginzburg. perseguido pela Inquisição do XVI. ele fez a seguinte observação: “Olha. que o senhor come arroz.

Magia e técnica. Fernandes. 8 Benjamin. Filho. VHSc. explicitando valores. um parmo e coloca na parte onde ela picô. Produção: Eudes Fernando Leite e Frederico Augusto G. 90 min (aprox. Sérgio P. perseguindo a atenção e o convencimento de seu ouvinte. São Paulo: Brasiliense. 21 e ss. Em toda a entrevista o senhor Vadô esbanja sua habilidade de dialogar. as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos. 7 Thomas. Aí ela puxa o veneno na pessoa!5 Keith Thomas demonstrou como em determinado momento da Idade Moderna – na Inglaterra Tudor e Stuart – a concepção de que na natureza o homem tinha à sua disposição as outras espécies. entre as narrativas escritas.). criadas para atendê-lo em suas necessidades: “As plantas foram criadas para o bem dos animais e esses para o bem dos homens”7. em certas circunstâncias. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. João Roberto M. detalhando situações. ou o palco de sua 6 Entrevista. p. . Cabe tomar Benjamin ao assegurar que: A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores.8 O senhor Vadô corresponde em parte às características do narrador benjaminiano. O homem e o mundo natural. 198. seu universo. Trad. ed. Porém. Walter. como na capacidade de comunicar sua experiência à posteridade. Rouanet. que não deixou a região à parte.. É por meio dela que parte importante dos hábitos e crenças pantaneiras sobrevive às ondas da modernidade...) matei a cobra. Roberto dos Santos Rondon (filme-vídeo).81 (. Ela era tão grande que do segundo fio de arame de cima da cerca esbarrava o rabo dela lá no chão! Dependurei ela de cabeça pra baixo pra o veneno não subi pra pessoa né! Então você pega e tira o coro dela. 1996. no único possível. p. Parece-me que procurar um conceito definitivo para caracterizar as concepções desse pantaneiro pouco contribuiria para alcançar características culturais de seu meio social. E. Trad. Keith. São Paulo: Companhia das Letras. especialmente no referente ao recurso à oralidade como estratégia de transmissão de saber – e cultura –. As dificuldades por conta das distâncias e a grande quantidade de pequenos animais peçonhentos colaboraram para que as reações frente ao perigo transformassem o motivo da ameaça em antídoto provisório ou. color. 1987. 3. A mais vistosa dessas características é a oralidade. Corumbá: Ceuc/UFMS. 1996.

o local designado ao homem tem ficado muito abaixo daquele em que situam-se a fauna e a flora. é ela própria. num certo sentido. de outro. Eudes Fernando. o qual possui valores e hábitos que caracterizam uma cultura. principalmente os que não integram os segmentos proprietários no Pantanal. condutores e peões-boiadeiros nas águas de Xarayes.82 vida. De fato.9 Dessa forma. As histórias do senhor Vadô e a estratégia do senhor Roberto fazem parte do mesmo universo. a responsabilidade pela degradação ambiental. 2000. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão – no campo. nesse caso específico. Tese (Doutorado em História) – Universidade Estadual Paulista. foram o Pantanal e as fazendas de gado que integram essa região. Ela não está interessada em transmitir o “puro em si” da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Marchas na História: comitivas. . Assis. do contar causos no contexto pantaneiro. Em um tempo no qual a sociedade que tem atribuído ao Pantanal epítetos como o de “paraíso ecológico”. mas também manter vínculos culturais. e incorporar o natural. expulsando mais uma vez Adão e Eva. a forma adotada para compreender o sobrenatural. 205. As referências aos homens por vezes são depreciativas. Ver: Leite. uma forma artesanal de comunicação. p. não apenas para revelar suas opiniões. do que propriamente como homem do campo alheio ao mundo moderno das urbes. 10 Tratei da questão “modernidade e tradição”. As histórias do senhor Vadô e muitas outras encontradas no decorrer das gravações apontam para a importância do falar. reflete tradições que não operam com a separação homem x natureza de uma maneira explicita e rigorosamente antagônica. 285f. indicando também a força de tradições que merecem maior atenção10. Novamente cabe recorrer a Benjamin: A narrativa. A integralidade da entrevista realizada com o senhor Vadô reforça a idéia de que a oralidade é viés imprescindível para o pantaneiro. ainda que se refiram a situações distintas. no mar e na cidade –. a narrativa e o narrador tratados por Benjamin são tomados aqui para qualificar o entrevistado muito mais como parte de um grupo social. ao estudar condutores de boiadas e peões-boiadeiros no contexto da história Pantaneira. A eles é atribuída a culpa pelo caos urbano e. A preocupação é a de preservar o paraíso. de um lado. 9 Ibidem.

especialmente naquela que atribui ao ser humano. ninguém vai confiar em mim”. Estas integram o universo local e contribuem nas formas de viver no local. além de relacionarem-se à própria identidade do pantaneiro. . Destarte. 24 jun. 2000. não compartilham da noção de que são nocivos ao seu universo. importa apontar aqui que o Pantanal é uma espécie de repositório de tradições. 11 Veja-se a situação ocorrida com o agricultor Josias Francisco de Araújo.83 O ecologismo pós-moderno é perverso em algumas de suas facetas. A-13. inclusive aqueles que. Esta é apenas uma das circunstâncias em que a proteção ao meio-ambiente beira a insanidade! Ver jornal O Estado de São Paulo. as preocupações com a natureza parecem querer aprofundar ainda mais a distância entre o homem e seu ambiente. a exemplo das personagens aqui referidas. p. Parece-me que a relevância adquirida pela tradição desempenha um papel importante nas formas de viver no Pantanal e integra a história do homem e da natureza nessa região. a tentativa de compreender a cultura pantaneira passa pelas formas desenvolvidas pelo homem no Pantanal para integrar a natureza no seu cotidiano. Decorrentes de frustrações primeiro-mundistas provocadas pelas fórmulas avassaladoras de dispersão e incorporação de territórios ao grande mercado consumidor. recebeu a visita do ministro brasileiro do meio ambiente e fez a seguinte afirmação paradoxal: “O vendedor da farmácia não vai mais confiar em mim. a “sina” destrutiva11. como pressuposto. Nesse prisma. Humilhado. preso em junho de 2000 por raspar troncos de árvores para preparar uma beberagem para sua esposa adoecida.

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Liturgias Barrocas
Dirce Lorimie Fernandes*

Resumo

Abstract

Este artigo é um estudo das formas de representações simbólicas nas celebrações fúnebres, oficiais e religiosas na Vila de São João Del Rei, em
Minas Gerais, no século XVIII, como forma de
persuadir a população a participar de solenidades
pomposas, imbuída de respeito e dor pelo passamento de nobres em Portugal. Reflete o pensamento dos críticos de tais eventos e a origem do
poder de fazer crer unificado das autoridades oficiais e eclesiásticas, sobre os vassalos da Coroa
Portuguesa.

This article is a study about the ways in which symbolic representations within funeral, official and religious celebrations in São João Del Rei Village (Vila
de São João Del Rei), em Minas Gerais, in the 18th
century, could persuade the population to take part
in pompous solemnities showing respect and sorrow for the deceased nobs in Portugal. This article
also focuses on the thought of the critics of such
events and the origin of the unified power that
official and ecclesiastical authorities had to make
people to believe in the Portuguese Crown Vassals.

Palavras-chave:

Keywords:

Celebrações Fúnebres – Poder – Colônia –
D. João V

Representations within funeral – Power – Colony –
Dom Juan V

*

Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo.

REV. TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG. DE PÓS-GRAD. EM HISTÓRIA – UFMT – V.3 – N.1 – JAN./JUN. 2002

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A pobreza do povo é a defesa da monarquia [...]
A indigência e a miséria eliminam toda coragem,
embrutecem as almas, acomodam-nas ao sofrimento
e à escravidão e as oprimem a ponto de tirar-lhes
toda energia para sacudir o jugo.
Thomas More

O apelo à imagem plástica fez parte do repertório das autoridades
eclesiásticas do período colonial, como elemento passível de avivar na população sentimentos reflexivos diante da morte e a consciência míticoexistencial quanto à efemeridade do mundo. Estas simbologias eram exploradas como forma de persuasão durante as celebrações fúnebres realizadas
também na antiga Vila de São João Del-Rei, em Minas Gerais1.
Nestas celebrações os elementos de caráter litúrgico confundiam-se
com o profano, compondo um espetáculo de intenso colorido rítmico e visual em que se destacavam o substrato que hoje chamamos barroco. Nas
comemorações realizadas durante o Dezoito Mineiro, como em Portugal, preponderavam quadros dinâmicos de contextura barroca, agregando em colorida trama carros triunfais, alegorias móveis celestiais, telúricas, bíblicas ou teológicas, e até bailes com música acompanhada de instrumentos.
Os ofícios se recobriam genericamente de requinte e ostentação em
solenes exéquias celebradas com obrigatoriedade, por ocasião da morte de
reis e príncipes portugueses ou do “Rei dos reis” no dia de “Corpus Christi”.
Pela função persuasiva da linguagem empregada nos registros relatando eventos fúnebres em Minas Gerais, no século XVIII, é possível compreender uma série de transformações em curso nos séculos XVI e XVII, durante
as primeiras tentativas de colonização do Brasil, responsável pelo surgimento de uma mentalidade que iria culminar, no Dezoito, como um momento de
integração entre o colonizado e o colonizador.
As “mercadorias da Igreja” e as suas sutilezas teológicas, conforme se referia
o moleiro Menóquio às coisas tidas como sagradas2, eram ostentadas nas festas
descritas nos relatos sobre as celebrações, denominadas Áureo Trono Episcopal,
Exéquias ou celebrações do Funeral à gloriosa memória do sereníssimo Rei D. João

1

Áureo Trono Episcopal, (ed. Fac-símile), In: Ávila, Afonso. Resíduos Seiscentistas em Minas, Belo Horizonte: Centro de Estudos Mineiros 1967, v. 2. Funeral à gloriosa memória do sereníssimo Rei D. João
V em Minas, no dia 7 de janeiro de 1751. Exéquias - Transcrição extraída da Coleção Lamego, do Arquivo
do Instituto de Estudos Brasileiros - USP, SP.

2

Ginzburg, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 1976.

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V, que fazem parte do conjunto discursivo procurando coletivizar o sujeito.
Na composição da festa religiosa ou das simulações fúnebres, como o
foram as celebrações acima, os seus organizadores estavam, na verdade, apelando para manifestações culturais que envolviam toda a população mineira,
inclusive os negros, que, em tais circunstâncias, participavam obedientes e
circunspetos. Olhando parcialmente as Minas Gerais do Dezoito, é possível
afirmar que a cultura imposta às classes populares vingou ali de forma positiva,
facultando à Igreja e ao Estado colherem juntos, naquele momento, os seus
frutos, o sincretismo cultural. A mistura ou justaposição cultural tornava-se evidente nos apelos sensoriais a inibir qualquer questionamento quanto à validade do fausto empenhado no vultoso sucesso, em meio de um profundo declínio econômico devido à decadência da mineração em Minas Gerais.
As ações volitivas estavam amortecidas pelo bom êxito e conseqüente
catarse. O obrigativo, citado por Todorov, é uma vontade codificada, coletiva; é a lei de uma sociedade, neste caso, o Poder. Não existe discurso por
parte dos súditos ou manifestações. Apenas participação ensaiada. Calada.
Em nenhum dos relatos que documentam esses rituais é possível processar
uma análise dos movimentos, da intimidade ou da consciência de quem quer
que seja. Tudo é previamente preparado. Os narradores dos textos aqui
discutidos conduzem o fio do enunciado focalizando coisas e pessoas de
forma precisa. Nada lhes escapa à observação. Os acompanhantes das celebrações fúnebres ou litúrgicas, citados nos documentos, pareciam amansados e fiéis ao mesmo Deus que clamou e ordenou de qualquer parte do
deserto e alcançou a cega obediência de Abraão. Neste caso, a conclamação
já fazia parte de seu espaço e tempo e nem se davam conta de que “cantando ao mesmo tempo célebres toadas ao som do tamboril, flautas e pífaros
pastoris, tocados por outros carijós, (....) na grosseria natural dos gestos excitavam motivo de grande jocosidade”3.
Os documentos relatando estas procissões dão ensejo à constatação da
existência de uma grande sagacidade por parte de seus organizadores, tendo
em vista seu incontestável poder de fazer crer, sob o qual se regozija com a
exuberância da festa, pelas formas e pelos símbolos carnavalescos, com uma
carga de originalidade surpreendente, a marcar o período que se convencionou chamar Barroco. Nestes textos do século XVIII percebemos que os narradores se posicionam fora do objeto aludido, dando ao evento, de qualquer
forma risível, um caráter particular; expressam opinião sobre um mundo em
3

Áureo Trono Episcopal, 1967, p. 455.

no qual eles estão incluídos: (. ou com a Igreja. Os documentos comprovam que os participantes desses eventos litúrgicos estão todos domesticados. deixavam-se conduzir mansamente pela força de persuasão dos apelos sensoriais nestes momentos de festas lutuosas que. . Cabido do Bispado de Mariana como melhor o expressam as relações daqueles suntuosos objetos. porque mais do que agravo. Não há.88 plena ebulição. úteis para a representação. na verdade. Apenas participa4 Exéquias. 6-7. fl. os participantes das festas fúnebres mantêm suas próprias raízes culturais. naquele contexto. Para as pessoas articuladas com o Estado Moderno. festas como as que discutimos neste artigo deveriam simbolizar o poder do monarca e perpetuar a fé católica. mas por suas idéias. e suas anexas por Pastoral expedido do Rdo. parte das muitas posturas possíveis adotadas diante do registro histórico. enquanto viviam perenemente numa miséria para a qual. não examinavam a sua participação.. têm um comportamento religioso pleno de digressões e encaixes. ao mesmo tempo em que não questionam a fé católica. As rebeldias. que deram assunto aos seus elegantes escritores. sacrilégios ou blasfêmias durante as festas fúnebres mineiras. os sacrilégios e as blasfêmias são crimes antigos.4 Esta particularidade do comportamento humano tem suas origens no espírito irônico e ambíguo. não lhes diziam respeito. ofensa fora querer ser eu o cronista de tanta grandeza.. Esse comportamento domesticado representa o ideal de um segmento da sociedade. resultante da adaptação ao modelo que lhes é proposto. as despesas exageradas.) assim se executou em toda a Capital de Vila Rica. estando já esta desempenhada nas suas narrativas por mais relevantes vôos. não havia salvação. Os vassalos mineiros. evidenciando uma assimilação cultural cheia de contradições. portanto. o Santo Ofício se encarregara disso há muito tempo. Nos registros em discussão. por afirmações impensadas ou qualquer ação que interferisse na administração religiosa. embora “desclassificados”. em tais momentos. pois as pessoas eram processadas e punidas não por atos declarados de impiedade. registro de rebeldias. Nada contraria a orientação religiosa. e mais amparadas penas. Não discutiam o porquê de sua realização.

6 Hansen. na época. na época – ao participar das celebrações fúnebres ou de comemorações como a do Áureo Trono. sobre a qual o poder impusera o seu credo de modo incontestável. impondo o silêncio que serenava as paixões e. Assim como a Bíblia não admite. pretos. 5 Souza. 1989. os súditos devem obedecer e repetir os padrões pré-estabelecidos. Serviam como número para engrossar procissões. em meio à qual os próprios diabos eram úteis agentes de sua propaganda. Laura de Mello e. p. trazia uma certa quietude. ou motins. Isto leva a refletir sobre o desfecho da Conjuração Mineira – que levou às prisões os inconfidentes e deu a Tiradentes um castigo exemplar – e a repressão às revoltas mineiras. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do Século XVIII. na questão da ilusória riqueza e opulência mineira. Os desclassificados do ouro: a pobreza mineira do Século XVIII. João Adolfo.5 João Adolfo Hansen. reportando-se à Sagrada Escritura. É impossível tratar deste assunto sem fazer referência ao acervo de obras produzidas por Laura de Mello e Souza. ao conjugar-se com o tempo. 226-227. . São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro: Graal. Lembra as palavras de Saavedra Fajardo quanto ao controle do povo. como os refere Laura de Mello e Souza. Os padres faziam guerras com os seus sermões. 1986. sem a qual não se podia empreender nada.89 vam. que. a que mais acertadamente refletia a estrutura social – no caso. o livre exame. justifica: A sociedade era pobre. A população de Ouro Preto e Mariana – ou de qualquer outra região da América Portuguesa. ed. “Desclassificados”. e arrancar pela raiz a má semente antes que cresça e se multiplique”6. e creio poder dizer que as festas eufóricas do século XVIII tenham sido grandemente responsáveis por uma manipulação “autoritária” da estrutura social na medida em que uma das visões possíveis da sociedade foi imposta como a visão da sociedade. naquela sociedade escravista. estava formada a comunidade cristã católica condicionada. as atitudes políticas não devem ser questionadas. 2. Uma comunidade submissa. explica a subordinação momentânea da população mineira atendendo aos apelos das autoridades para participar da festa. nesta mesma questão: “Quando o povo começar a opinar em religião e quiser introduzir novidades nela é preciso logo o castigo. não oferecia insegurança para que fossem tomadas as providências apontadas por Saavedra Fajardo. criavam proibições que abafavam o incêndio. índios ou mulatos. a visão de riqueza e de opulência. 232-450. estava ali o novo homem do povo. p.

A tolice.. Os diversos aspectos da pompa serviam para atrair. Mary Del. ao permitir o rebaixamento e a aniquilação. constituíam um forte instrumento para a formação de um sujeito marcado por uma percepção individual da formação do mundo. Em o jeu de la feuilles. Festas e utopias no Brasil Colonial. João V. Tudo é o reverso da verdade do dia-a-dia da comunidade pobre e fiel. Esta devia causar emoção fortíssima e despertar a piedade barroca. Mikhail Bakhtin diz que Goethe compreendeu perfeitamente a língua das imagens da festa popular.. em que se realizava uma espécie de “filosofia do carnaval”. Assim. também os organizadores das pompas fúnebres realizadas no Dezoito Mineiro deram especial ênfase à iluminação.. em que introduz a idéia do corpo despedaçado e do pregão da praça pública. nos veludos.. tem o seu lado positivo quanto a permitir renovação e verdade. São Paulo: Brasiliense. por isso é inferior. concluindo enfim que tudo isso permite ao tolo ser tolo. que só será percebida pela vista. como uma ignorância das preocupações oficiais com relação à seriedade no trato com as coisas. se pensarmos no empenho. Tudo isto era o inverso da verdade oficial dominante: uma abrupta decadência espalhando uma miséria generalizada.) O caráter metafórico da iluminação aparecia também para marcar o lugar dos indivíduos no interior da comunidade”7. nas sedas. em plena decadência do ouro. até as primeiras décadas do século XIX (. dando ensejo à busca do sentido sério para a sua palhaçada. No “triste espetáculo” da celebração dos Funerais de D. iluminassem as casas e domicílios com festivas luminárias em seis noites antecedentes (. ao tema da prostituta (dama douce) e aborda o tema das Relíquias. foi usada no Novo Testamento.. p. Bakhtin faz referência ao banquete. por meio de um falso fausto organizado por uma “festa na festa”.)” Lembra a autora a origem desta prática: “As luminárias estão presentes nas Cartas Régias desde o século XVI e vigoraram como enfeite de festa pública. A metáfora da iluminação. A tolice é manifestada como uma incompreensão das leis e das convenções oficiais do mundo. baseado nas suas afirmações sobre a Quarta-feira de Cinzas.90 A ambigüidade e o patético desses eventos religiosos de Minas Gerais. . como os de fora dela. nos brocados. Tais considerações podem ser importantes para a análise dos documentos sobre as festas fúnebres. É ambivalente e contrária à verdade oficial. na coleta de fundos para a sua realização. diz o narrador: 7 Priore. Mary del Priore relata: “ordenavam que os moradores da Vila. 1994. na referência aos Três Reis Magos e aos pastores que se encaminharam até o presépio iluminado pelos anjos. 35. para fazer esquecer. na iluminação..

ludibriando a opinião pública. Próximos da comédia. Pois a colonização da América. A sua existência é uma comédia. em nível dos devaneios. como Cortez e Pizarro. A cidade ou a vila vive ao ritmo dos acontecimentos extraordinários que emergem a cada linha dos documentos. os organizadores dos faustosos eventos fúnebres/religiosos ou festivos apelam para canais normativos. Diz a autora que o Barroco na América é um importante momento de integração. Ao adotar as contradições e concepções plásticas praticadas na Europa. Ela simplesmente participava de um ato teatralizado. O catolicismo. Este é apenas referido e está totalmente submisso a um poder que dobra. ao mesmo tempo em que os multiplicava dentro de outra concepção. as suas deficiências. pelo fato de atenuar a brutalidade com que o conquistador apelou para efetivar a conquista. por meio da repressão inquisitorial. nestas manifestações barrocas. ou de Vila Rica. na América Espanhola. terrorismo ou pressão efetiva. aplicou novas formas aos significados originais. ou carnavalizado que. Não constam nesses documentos procedimentos de intimidação. alcançara os seus objetivos. os populares de Mariana. atores ou observantes das verdades da fé mostraram. Janice lembra que inicialmente. a colonização. Estes três canais estão presentes de forma sutil. no momento em que nada perturbava o lugar. ensinaram ao indígena como ordenar o mundo usando as aparências. controlando. Choravam outro melhor Abner ilustrando assim nos merecimentos deles os quilates do seu amor. e da sua obediência. pois a população da cidade contraditoriamente lamentava “dos feitos daqueles grilhões de ouro.91 Acompanhavam as lágrimas. suave o cativeiro e gostosas prisões da liberdade”. com que faziam. Impulsionados a desenvolver uma estratégia sensorial. Estas foram as primeiras formas de contato entre as culturas na complicada idéia de penetração. foi obra barroca. O índio é então educado para dissimular. representantes das diversas ordens religiosas. Não temos menção descritiva do próprio séquito obediente. os suspiros não como desafogo da pena. ao culminar. como um momento de integração. na verdade. segundo Janice Theodoro. mas como produções da alma nos últimos alentos da vida. junto às autoridades eclesiásticas. a comunicação visual e a teatralização. a categoria social e suas contradições inerentes. não lhe dizia respeito. . Isto implicou a morte do significado. acenando através das metáforas fúnebres e com a presença ou participação efetiva das autoridades civis.

Cláudio [o poeta Cláudio Manoel da Costa] viveu diretamente esse aspecto da questão e o debateu a seu modo no medíocre poema épico Vila Rica”. pois os súditos alvos do interesse do colonizador são os negros. . Paulo de. para quem a conquista implicou uma prática belicosa. que deu ensejo ao universo perigoso da desordem. Adorno e luxo concebidos pelo europeu tomam outros significados na América.) diretriz básica seguida pelos conquistadores e povoadores das terras americanas. dentre os quais Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga. A terra dos brasis – a natureza da América Portuguesa vista pelos primeiros jesuítas (1549-1596). Ao expressar-se através do excesso. a ambigüidade e a contradição.92 Esta idéia é reforçada por Paulo de Assunção. porque a desordem dos arraiais mineradores constituía problema inquietante. já consolidada a colonização. que levou a considerar a áspera superordenação colonial como condição (mesmo iníqua) de paz e trabalho. No século XVIII. onde a violência podia ser justificada como salvação: “Nas Minas Gerais o problema se complicava.. em uma arte sacralizada. impondo uma dialética ambígua. a americana e a européia. como diz Janice Theodoro. São Paulo: Annablume. que foi o não reconhecimento das culturas e da vida espiritual dos povos americanos. Os antigos conteúdos. em cujo ângulo de visão. Neste momento de integração entre colonizadores e colonizados se sobressaem a ironia. amparando ideologicamente 8 Assunção. dissimuladamente. 148-149. justifica Antônio Cândido. Além disso. o autor acrescenta que “a proposta de evangelização foi um dos primeiros atos de uma série de agressões para efetivar a conquista”8. por meio da fragmentação da cultura e da morte do significado. “(. e o apresenta integrado. Ambos e os demais poetas enfrentaram as oposições culturais. 2001a.. o Barroco camufla o universo indígena. os problemas têm maior amplitude. tendo como referência a estética Renascentista. p.. vagando entre culturas incompatíveis. ou “a civilizada e a primitiva”. dentro da mentalidade colonizadora. algo que hoje poderíamos chamar de “instrumento da fé e da justiça”. esvaziam-se para dar à forma um significado múltiplo. a violência se justificava como salvação. por exemplo. Suas observações vêm ao encontro de nossa reflexão sobre as cerimônias fúnebres em Minas Gerais. perceptíveis também na produção literária da importante camada social formada pelos poetas mineiros. os crioulos e os carijós a participar perifericamente daquela sociedade decadente. A conquista colaborou para reforçar a idéia de utilidade da natureza ao mesmo tempo em que construía um mito de superioridade dos europeus frente ao novo Mundo”.

dizendo que “as técnicas. cujos modos de expressão. no Brasil. conforme constatamos nas Cartas Chilenas atribuídas a Tomás Antônio Gonzaga e. as Exéquias e outros eventos de tal ordem.) assim se eclipsou aquele humano sol do Império Lusitano. fl. por exemplo.. destinado por Deus para nele se verificar o Quinto Império do Mundo (. as imagens e o espírito do Barroco estão incrustados” na poesia e na poética de Cláudio Manoel da Costa.) foi pai de povos mostrando viver mais para eles do que para si. Na sala de aula – caderno de análise literária. não conseguiu retomar as formas clássicas conforme a filosofia apregoada pelos seus idealizadores europeus. Os Funerais de D.. que afinava melhor com o Neoclassicismo”10. João V. com os seus exageros. carregando nas metáforas e na seqüência anafórica-hiperbólica para fazer menção à “morte da Sereníssima Senhora D. não conseguiram desvencilhar-se dos motivos irônicos ou satíricos. lamenta: (. nos documentos que descrevem as festas religiosas como Áureo Trono. cujo autor. 5. Os árcades. toda população colonizada apelou para uma forma de expressão que na Literatura deu o tom ácido e muitas vezes jocoso da sátira..93 os objetivos de seus organizadores.. ainda que de forma sutil. . assim se desfolhou aquela peregrina Rosa do Jardim da Castidade. ou da ironia. usando as aparências.. Maria Francisca Dorothéa”. p. João V é também de caráter encomiástico. É também “o triunfo da ordem a qualquer preço” nas decadentes Minas aventureiras de Setecentos9. com algumas exceções. A carga barroca.. mantiveram-se presos ao modelo barroco. São Paulo: Ática. ponto de partida dos escritores da época. Antônio Cândido expressa a sua opinião a este respeito. Durão e todos os outros poetas mineiros do século XVIII.. 8. p.11 O documento que trata dos Funerais de D.). constituindo- 9 Cândido. desenvolvido no século XVIII. 2000. assim se escureceu aquele racional céu inimitável de virtudes e desta sorte se cortou aquele florescente ramo régio trono e Bragança. Tendo aprendido a ordenar o mundo. Ressalta a “combinação íntima dos arabescos cultistas com a linha reta implícita na mentalidade “ilustrada” do tempo. 11 Exéquias. Antonio. conforme comprovam estes louvores às suas virtudes: “(. 10 Ibidem. está presente também nas Exéquias. O movimento árcade. 18-19.

A literatura e a arte barrocas do período auxiliaram na composição de uma magnificência sem limites desse soberano. . místico-religiosos./abr. ou como um palco a exigir a presença do espectador. IESP/UniFAI. O significado dos ritos vassálicos Realmente. é impossível sufocar o Barroco. v. As exéquias e D. João V. sempre que nos ocupamos dos trezentos anos da colonização da América.. 8. nas insígnias de poder. e por isso mais amado e adorado de todos (. A Breve Descripção Funebre narração do Sumptuoso Funeral e tryste espectáculo de D. em louvor à figura do monarca. João V durou quarenta e três anos e foi um dos mais longos da história da monarquia portuguesa. 2002. Os panegíricos. mas afirma que os modelos europeus da “festa na festa” ou do “falso fausto” alcançaram êxito na realização das Exéquias. pelo seu significado exemplar. Suas características estão presentes na realeza. João V: O espetáculo e a imortalidade do Poder. Por isto. como afirma Afonso Ávila. Lumen. o retrato barroco é concebido como uma fachada. constitui uma narrativa de sua morte impregnada de recursos iconográficos para alertar os espectadores quanto à realidade da morte e ao poder do rei. jan.)”. E assim. João V. porque o terreno fora preparado durante os dois 12 Ver Assunção. p. de funerais ou de sucessão. asseguraram-lhe uma imagem pública caracterizada pelo espírito ativo e consolidaram o poder monárquico. cujas obras garantiriam à sociedade cristã o consolo de vê-lo perpetuar-se nos seus descendentes12. Revista de Estudos e Comunicações. tendo explicações simbólicas.94 se finalmente por estas e outras virtudes Rei perfeito em tudo.. 17. Esta deveria refletir sobre a vida louvável do monarca. Le Goff não crê no êxito nem na realidade dos empréstimos instrucionais ou culturais. devemos entender a celebração destas exéquias como um grande cerimonial com o objetivo de educar os vivos. pois traduz visualmente o poder. n. o barroco nunca mais foi sufocado. nas cerimônias de coroação. 139-158. Neste sentido. de 1751. No Antigo Testamento existem imagens simbólicas e no decorrer dos tempos essas imagens sucedem-se descritas em termos simbólicos. O retrato do rei representado com uma intenção deliberada de alegoria adquire um significado importante. do Áureo Trono e na simulação dos Funerais de D. àquela sociedade colonial mineira do século XVIII. Paulo de. O reinado de D. São Paulo..

assim como de submissão. objetos desta reflexão. IV. Segundo Vieira. quando se trata de uma igreja. Dos textos que descrevem cerimônias fúnebres emerge a idéia de que. por ter menos evidência. subjacente à sagração ou investidura divina. 1979. especialmente naquele momento em que os vassalos estão tomados por um forte sentimento de fidelidade. odores e movimentos teatralizados. Depois figuram os vassalos. Cap. Estão presos a uma espécie de freio que modela a sua fantasia. Acrescentando ao espaço simbólico uma profusão de sons. que introduzem o rei num sistema religioso. Lisboa: Estampa. garante a rede de fiéis. tornado-os felizes e sossegados. evidenciando o primado da visão sobre os demais órgãos dos sentidos. A vassalagem e o senhor ligam-se intrínseca e reciprocamente por meio de elementos simbólicos. 325-385. elemento indispensável para aquele momento em que o poder pode contar com a fidelidade dos fiéis.95 séculos anteriores. O altar tem a importância de ser o local onde se depõe o objeto simbólico da investidura e a assistência deve estar no fundo do espaço simbólico. o ritual confirma e reforça a idéia de que a sujeição e o senhor se unem reciprocamente por meio de um elo simbólico. Ao assumirem compromissos de obediência e fidelidade com o olhar voltado para um objeto simbólico. aos lados ou em redor dos contratantes. luzes. como por exemplo “um bastão na ponta do qual estava esculpida uma figura humana” (cum baculo in cujus capite similitude hominis erat scultum) os vassalos mineiros não estariam presos a empréstimos culturais? Nos documentos. e agora no Dezoito os modelos eram adaptados a condições originais13. O Padre António Vieira dá a entender no “Sermão da Sexagésima” que o olho excede todas as mais partes do corpo animal. o rei é o maior beneficiário de um sistema simbólico que faz dele o vassalo de Deus. Para um novo conceito de Idade Média. desde a Igreja Medieval até então. A homenagem. o que mais importa é a homenagem. o espiritual e o temporal se confundem e se completam. sinal de reconhecimento da superioridade do senhor. . São dois sistemas: a cerimônia e os objetos simbólicos irredutíveis e inseparáveis. a função simbólica deve ser um espaço destinado a solenizar o ritual em que se cumprirá o contrato aí selado. o que entra pelos ouvidos. p. Quanto aos objetos e ao lugar onde ocorrem estas cerimônias. tem menos poder de persuasão do 13 Le Goff. Assim. Esta fantasia é uma poderosa força que transforma o que os sentidos captam e no que o “outro” o quer como uma verdade inteligível. componentes intrínsecos de cerimônias piedosas. Jacques.

Nas cerimônias fúnebres não faltavam os brocados. artimanhas barrocas. entre gritos e o relato da pancadaria sobre o Cordeiro de Deus. Pe. as colunas. as festas fúnebres a que aludimos. os veludos. olhos e ouvidos atentos: ECCE HOMO. A importância da figura do rei está explícita nos documentos que descrevem as pompas fúnebres do século XVIII Mineiro. então. A figura do rei é uma importante referência. representada pelo corpo 14 Vieira. António. a representação d’aquela figura entra pelos olhos”14. senhor. na representação da Paixão de Cristo. 21:1-3). v. e agora ECCE HOMO visto. o Rei dos reis se transforma em rei da zombaria para seus algozes. o espetáculo das flagelações.96 que o que entra pelos olhos. e não colocar o meu dedo no lugar dos cravos. a relação do pregador entrava pelos ouvidos. empregadas para suscitar a adesão mística e fazer ver e sentir. os súditos encontram o calor do ser que consegue ser único. 21:1-3). por outro lado. E o pregador se empolga fazendo entrar pelos ouvidos aquilo que os olhos captavam pela representação simbólica do Cristo: “Porque então era ECCE HOMO ouvido. não acreditarei” (João. O que é ouvido mas não é visto não provoca as emoções fortíssimas e não alcança a piedade barroca. a coroa de espinho e as chagas que traduziam (e ainda traduzem) o sofrimento de Cristo. sacerdote. Fechadas as cortinas. a partir dos séculos XVI e XVII. 14. p. personagem dos Evangelhos: “Se eu não vir em suas mãos o sinal dos cravos. e todos se prostram manifestando sentimento de dor por meio de lágrimas. Lisboa: Lella e Irmão. um pedaço de pau à guisa de cetro e anuncia o ECCE HOMO. Ficam justificadas. 1951. O Rei é tido como a cabeça da sociedade. No “Sermão da Sexagésima” do Padre António Vieira. 20:2431. O aparato musical. 1. tal como exigiu Tomé. coroamento de espinhos. O Rei pai. Era preciso mostrar os cravos. Os Evangelhos relatam as sessões de torturas. apesar dos olhos e dos ouvidos: o Rei morto. os açoites. Tomando por base esta afirmação. Sermões. é exibido em praça pública. e a minha mão no seu lado. especialmente nos países ibéricos e suas colônias. o Cordeiro de Deus é reapresentado à multidão. . antes confinado aos conventos. se fazia presente na alma daquelas pessoas: “Felizes aqueles que crêem sem ver” (João 20:24-31. dissimulações. é o elemento que enriquece o efeito emocional em tais demonstrações. apesar de sempre ausente. lembremos que nas procissões da Semana Santa. é quase um deus. as sedas. À sua sombra onipresente. instrumentos musicais de cujas harmonias.

cae y muere. Esta classificação é discutida por João Adolfo Hansen. comei. 24 – E disselhes: isto é o meu sangue. que aqui transcrevemos: “Es el imperio unión de voluntades en la potestad de uno. porque no es otra cosa la muerte sinon una discordia de las partes”16. A caridade cristã diz que os maus devem ser amputados do corpo da república para não contaminarem os virtuosos honestos. 346. formada pela colonização... deu-lho. e todos beberam dele. e disse: Tomai. o sangue do Novo Testamento que por muitos é derramado (14: 22-23-24). a alma.97 humano. a semelhança do homem com o universo leva à sociedade regida pela razão de um só homem: o Rei.. e dando graças.) os membros do corpo humano são instrumentos para um princípio superior. 15 Hansen. submeteu-se sem grandes perturbações a todas estas formalidades. fazendo a simbologia do Corpus Christi15. 16 Ibidem. comparandoa com Deus em relação ao mundo. Diz o autor que. cit. (. lembrando as palavras de Saavedra Fajardo. si se dividem. op. o ato de compor e decompor o corpo humano. “O Rei no reino. e deulho. a alma no corpo e Deus no mundo”. nas mais variadas cerimônias. estando sossegados os apetites.. Hansen conclui que as paixões devem ser evitadas e controladas. E a sociedade mineira. Deste encadeamento. abençoando-o o partiu. 206-207. p. Diz Laura de Mello e Souza que a projeção do imaginário europeu atingiu a América. e. pão e. como todas as demais. tomando o cálice. p. e a sátira aproveitase dessas idéias para apanhar todos até alcançar o corpo político. diversidade das diferentes partes que Santo Tomás de Aquino esquarteja e recompõe num todo harmônico para a sua ordenação. vive y crece. tomou Jesus. sendo partes de um todo. comendo eles. endemoninhando-a em tentativas abruptas e irregulares. isto é o meu corpo. si estas si mantienem concordes. porque “o modo de união mais perfeito do corpo político do estado é a paz”. Assim. pluralidade dos membros. . unidade do corpo. conforme escreveu o evangelista Marcos: E. acaba por definir a cabeça como sede da razão.. 23 – E.

p.. pagãos e canibais. buscando explicar a sua importância como um ato de caridade e misericórdia por parte da religião católica. um ritual em que o cunho autêntico da verdade é conferido pelo obstáculo e as resistências que ela precisa para suprimir para se reformular (. nos vícios da carne.18 A classificação dos pecados. O diabo e a Terra de Santa Cruz. cuja intolerância fez acender as fogueiras para exterminá-las.. para concluir que: a confissão é um ritual de discurso em que o sujeito que fala coincide com o sujeito do enunciado. que a aprecia e intervém para julgar. é também um ritual que se desdobra em relação de poder. demônios. ela absolve. como Jean Delumeau.) o virtual parceiro desse discurso é a instância que solicita a confissão.17 Esta mentalidade levou à caça às bruxas..98 justificando a escravidão. que não é simplesmente interlocutor. nus preguiçosos. reconciliar. Laura de Mello e. 1986. 78-80. consolar... . desde a Idade Média. Paris: Gallimard. animais. a vida cotidiana na colônia ficava cada vez mais impregnada de demônios. 18 Foucault. perdoar. sempre o alvo privilegiado da má vontade dos jesuítas no Brasil. 48. à medida que o tempo passava. 61 e 145.) eram incestuosos. se tornara um meio eficaz para chegar à verdade. refere-se à anatomia horrorosa dos pecados mortais com ênfase à classe da bestialidade ou do amor 17 Souza. julga. Vários autores importantes. (. Michel Foucault reflete sobre este ato que aos poucos desenvolveu os métodos de interrogação nos Tribunais da Inquisição. segundo Hansen. uma vez que os propósitos dos “Soldados de Cristo” eram a desconsideração dos homens bárbaros. São Paulo: Companhia das Letras. consola e reconcilia. 82-83.) Era uma humanidade anti-humana que vivia no pecado. se debruçaram nesta tese. Eram homens do diabo e aqui era o purgatório e.La volonté de savoir. que a impõe. Muitas mulheres para um só homem. Histoire de la séxualité – I . E o meio eficaz para o sucesso dessa atividade era a instituição do ato de confissão que. mas instância que solicita a confissão. pois não há confissão sem a presença ao menos virtual de um parceiro. p. com a sua obra A confissão e o perdão.. Eram monstros selvagens (. 1976. Michel.

a autora reapresenta algumas resenhas críticas de obras atuais. em cujos documentos percebemos substratos pagãos adicionados a rituais católicos. da crueldade do sangue. e com base na carga cultural de que eram portadores. Lembre-se diz Hansen. Norma e Conflito – aspectos da história de Minas Gerais no século XVIII. É este o primado do visual da estética barroca. Retórica Contra-Reformista piedosa que relativa o fanatismo medieval. Nestes casos. Para alcançar os objetivos. 21 Este assunto está discutido por Souza. As ameaças são sutilmente amortalhadas com macabras alegorias. esqueletos. a obscenidade da linguagem das paixões empregada na arte barroca é tão torpe quanto a visão do túmulo em decomposição a que aludem os textos que tratam das pompas fúnebres. 349. das revoltas mineiras. op.. p.20 Nas pompas fúnebres descritas nos três documentos evocados neste artigo não há “partes desgarradas”. p. Dentre outros importantes temas. mais um elemento se acrescenta a ela nos séculos XVI e XVII. a disseminação dos livros da ars moriendi. Isto mimetiza a desagregação de toda finalidade corporal: despedaça o corpo. satisfaziam igualmente o entendimento. sempre recorrendo para o admirável artifício entre o claro e o escuro. meni- 19 Hansen. cit. era também voltado para a garantia da ordem local. da perdição eterna. em alguns casos. que. 1999. (. o gosto do macabro.. apreendendo a vista. Com os ânimos dos vassalos sossegados. Esta apelava para a força de figuras conotativas da morte. apelavam para a carnavalização das festas fúnebres. ou “motins”. na sua realização. A obscenidade figura no barroco. 20 Ibidem. fixa-se nas partes excretórias e genitais. . Figuras terríveis como caveiras. prossegue o autor. Belo Horizonte: UFMG. reduz o sexo a pura fisiologia19. a sátira constrói os tipos da bruxa e do feiticeiro. o interesse das autoridades. Deve-se levar em consideração o fato de que na década de quarenta a formação dos quilombos.) o das anomalias moralizadas.99 nefando do diabo. Neste aspecto. como o inferno da vida a falta de esperança e de amor das partes desgarradas. 346-349. Laura de Mello e. indispensáveis para repensar a sociedade mineira do dezoito. gerara um grande problema social21. uma vez mais Loyola e sua proposta dos lugares corrompidos como sensibilização da espiritualidade. englobando os pecados sexuais das “putas” e dos “sodomitas” e o gosto do macabro.. lembrese as pompas fúnebres dos castra doloris.

te infundiu a vida. 13. te promulgou a sentença da morte na fragilidade da vida.22 Um outro apelo ameaçador. e na esquerda seus escudos (. incenso fumegando. acatavam as “verdades” ali apregoadas por meio de alusões.) Pecou Adão pai universal de todos os homens. esqueletos de estatura natural sentados em colunas tendo na mão direita cada um uma foice prateada. e seu interior vendo-se nelas verdadeiramente como em próprios e não justo das figuras de estado a que nos reduz a separação da vida e duplicado os ossos da morte.. 20-21. acrescida de odores procedentes de flores. porém..) meninos fingindo mármore (. trajados de tal forma que de todos os lados se lhe via organizado do corpo..) corpos com diversas e belíssimas arquiteturas (. quer pela cor. Eram todos de estatura ordinária e no que ficava fronteiro à porta se viam pesadas coroas (.. (.. na transgressão da imposta lei sobre a árvore da ciência. com a sugestão do demônio. Esta provocação. velas acesas. todas representações simbólicas da morte.) reduzindo a cinza o que foi formado em pó. facultava o envolvimento de todas as sensações sensoriais e a piedade dos fiéis que. João V.. Rebelde Adão na observância do divino decreto. p. do que a realidade da pena. que astuciosamente lhe segurara a serpente..23 Um século antes. João V temos. invocada pelos frios meninos de mármore. segurando-te a divindade. atemorizados. por acreditar mais a prometida.. dentre as diversas figuras que compuseram a decoração fúnebre. . e falsa imortalidade. é a morte.. enovelando fumaças a dominar o ambiente. porque nas delícias do paraíso se não desvanecesse de imortal. pelo visual ou pela própria frieza da morte.... mas que possibilita a garantia de obediência do súdito.) caveiras prateadas. No suntuoso Funeral de D.. com a alma que te comunicou. e porque com ele pecarão todos (.100 nos de mármore. o Padre António Vieira está sempre ameaçando os ho22 Funeral de D. fl.. com que Deus antecipadamente o advertia (. 23 Exéquias.) 4 esqueletos naturais cobertos de fumo preto.) [tudo iluminado por um] chuveiro de luz. que o faz retornar ao pó. O demônio e o inferno têm lugar consagrado neste elenco: Quando para Príncipe absoluto de todo universo ao barro de que formou o homem.

Paris: Hachette. foi aprisionado numa dimensão religiosa pela cultura da Contra-reforma que fez da anatomia um instrumento sutil. L’officine des sens – une antropólogie baroque. 5. acreditavam os renascentistas. Sermões.101 mens com a condenação eterna. para regozijo do escalpo do médico legista. 14:8). um ato que se inscrevia perfeitamente na lógica de cristianização de quase todos os negócios lícitos das artes. em Lisboa. Traduzimos aqui a descrição de um cerimonial macabro de Piero Camporesi: Retirei do patíbulo. reencontrado na Renascença. dar prazer e mover o ouvinte com o terror e a piedade. O corpo. O mundo das maravilhas fechado na caixa craniana conduz fatalmente à entrada nos mais profundos segredos da alma. p. com o fogo para reduzir a pó o corpo do pecador e com o fogo do inferno a alma impura. é no crânio que se encontra o lugar de honra e na visão o privilégio da beleza. II. como se verifica no “Sermão do Bom Ladrão”. 71-111. Chap. pregado na Igreja da Misericórdia.25 A hierarquia dos membros diminui à medida que se desce para as partes baixas do corpo. comparada anteriormente por Santo Tomás de Aquino como a do próprio corpo humano. favorecendo a redescoberta de Deus. De todas as partes da “máquina corporal”. o argumento mais convincente era o inferno. Tornou-se. no âmago do qual podia lançar as vistas turvas. depois o reconstituí sobre o mármore dos anfiteatros anatômicos. 1989. Era preciso sensibilizar. A viagem ao interior do homem. Piero. Neste caso. Nos documentos que descrevem as pompas fúnebres realizadas durante o Funeral simbólico de D. admiráveis e palpitantes. v. no ano de 165524. a fogueira e a pena de morte – pelo fogo. O corpo humano tornou-se alvo de descoberta edificante e de piedosa missão. segundo um itinerário que leva à desco24 Vieira. . A popularidade da dissecação anatômica cresceu ao tornar-se “espetáculo moral” ou “sinistro carnaval sangrento”. 1951. nas Exéquias ou no Áureo Trono. Lisboa: Lello e Irmão. O seu papel era deleitar. inquietas e ávidas de conhecimento. João V. 25 Camporesi. 59-95. Herodíades parecia saber disso. das técnicas e dos instrumentos de trabalho. p. onde os corpos dos supliciados tiveram uma longa oportunidade de ostentações didático-científicas. os autores compõem uma metáfora do corpo do Estado. num novo mundo tangível e imóvel. ensinar e influenciar. aberto à meditação e à exploração. Pe. ao instruir Salomé (Mateus. António.

a anatomia tornou-se um saber de vanguarda. “lá onde tudo o que se diz perfeito. exploração das vísceras e confiança em Deus celebram na prosa do jesuíta Paolo Segneri sua indefectível união. poderia tornar-se também uma arma de conversão e um instrumento de luta contra o ateísmo.102 berta dos segredos da alma. . ainda pode ser veículo da fé e do impulso admirável do seu Arquiteto. a filosofia mecanicista ou os ateus libertinos são considerados perturbadores do universo e o jesuíta parece fascinado pela hipótese de que Deus precisa estar na região dos seres quiméricos da alegoria ou da fábula. Por outro lado. a floresta frágil das cartilagens. dissecação e fé. sobre o qual a cultura eclesiástica estenderá pouco a pouco sua grande rede protetora. tanto nas Exéquias quanto nos Funerais de D. A fé mais inabalável pode ser mais um ato de desespero do que íntima convicção. cujas cabeças pertencem. As vias que conduzem ao divino passam pelas insignificâncias abdominais. seja pelos extratos mais acessíveis da carne ou pelas profundezas insondáveis do “eu”. O seu prazer se assemelha ao dos anatomistas diante de sua obra de dissecação. Constata-se a angústia da ausência de Deus e a crença do nada. Nos séculos XVI e XVII. A partir do humani corporis fabrica (1543). justamente na época em que a morte se infiltrava por todos os interstícios da vida. é um duplo olhar e a sensibilidade dual com que abordam os cadáveres (ausentes). Isto explica a pujança com a qual a paixão anatômica e a febre da dissecação dominavam os leigos e o clero. referindo-se metaforicamente à sua deterioração e como fazer uso disso sobre os sentimentos dos vassalos aculturados. 82-85. mesmo estando morto. tudo o que está maduro. Esta ciência. o que percebemos nos narradores. a construção tubular dos ossos. para a Igreja. os autores das descrições fúnebres manifestam prazer ante a visão do afluxo dos vassalos. os abates das partes moles. naqueles 26 Ibidem. a rede hidráulica dos canais linfáticos e as veias. as anastomoses alambicadas do sistema nervoso. Nos documentos objeto desta reflexão. a anatomia tornou-se ciência teologal e antropológica. o espectro do acaso no lugar do sopro inteligente da necessidade. de André Vesale. quer morrer”26. Anatomia e Teologia. o labirinto intestinal. João V. disciplina primordial para conhecer o filho de Deus e os reflexos do divino sobre o humano. na composição de seus discursos. p. configuravam uma descida ao poço das verdades sepultadas na noite dos segredos indecifráveis. A redescoberta do corpo humano.

buscando enaltecer as suas grandezas enquanto vivos. passando por vários outros interessados no assunto. e até mesmo nas pregações de grandes religiosos como o Padre Antônio Vieira. ao rei e a quem o representa. O corpo teorizado como filho da lama. de um guerreiro abatido. é a de que as pompas fúnebres do Dezoito Mineiro. sobre as atitudes ou procedimentos perante a morte: a morte como espetáculo. a carne humana poderia suscitar uma ardente febre cognitiva em suas inexoráveis contradições. portanto. tem sentido de admoestação moral cristã desde o Quinhentos. Tal evolução é fruto de um pro- . Camporesi diz que Danielo Bartoli censurava a sombria imagem descrita por Santo Agostinho em Soliloques (um vaso de imundície e de mácula. elas mudam. de um lutador derreado por sua longa batalha contra a doença e a morte (sequela morbum). ao aperfeiçoar as formas culturais vigentes. como João José Reis. como Gil Vicente. As pompas fúnebres realizadas em Minas Gerais no século XVIII não constituem. Desde a dança macabra do cemitério dos inocentes. não tinha a importância que lhe davam os teóricos dos séculos anteriores. A morte é um tema infinito. A bibliografia consultada leva a concluir que é possível puxar outros vieses a respeito da pompa fúnebre. O macabro. Nossa tese. de alguém que nunca viram ou tiveram. uma novidade em si mesmas. porém. apelando para a exaltação exacerbada. A literatura e a teatralização desses temas visam induzir o “outro” a uma reflexão sobre o tempo e a inexorabilidade da morte. A diferença está nas intenções. para estes narradores. Suas origens vêm acompanhando o homem desde a sua evolução. Os corpos de majestades da natureza lusa eram argumentos para a ostentação de poder. A diferença é que os narradores mineiros se abandonam em seus êxtases fúnebres indo até quase à complacência punitiva da carne descomposta (em alegoria). a morte como negócio. após a morte. Com o passar do tempo. Philippe Ariès.103 dias de pompas fúnebres. sob o ponto de vista cultural. para juntar ao seu redor os súditos obedientes e com saudades. Estes diziam que. pleno de mau cheiro). vêm ocorrendo sucessivos processos de assimilação impregnados da sensibilidade barroca que. Para os narradores mineiros. Há um consenso em tais atitudes quanto à representação de cenas dolorosas e cruéis. essa construção vem sendo tomada por novos sentimentos. todos temas de historiadores eruditos. O homem continua seguindo e aprimorando os ritos fúnebres. Paulo de Assunção e uma infinidade de outros autores. naquele momento. é coisa barroca. Ao longo de sua vigência histórica. o cadáver aparece como a projeção inerte de um vencido. impregnou-as de novos significados.

é a ausência do cadáver. no ano de 1750. ou o vassalo. Joseph I. João Del Rey/ offerecida / ao muito alto. / tributo da venerança/ obelisco funeral do obséquio. não distingue a humildade da nobreza./ p. Este. Senhora do Pil-lar da Villa de S. Que a mesma natureza he que assegura Ser feudo da mortal fragilidade. . É uma forma de ressaltar a monarquia aos olhos dos súditos coloniais. o rico ou o pobre. pintores e escultores deram maior ou menor ênfase aos trabalhos apocalípticos. Alvarenga. é alvo de cerimônias públicas e organizadas de modo a causar manifestações de pesar ante uma urna mortuária vazia. distante no tempo e no espaço. O Barroco tem como um dos seus atributos o apelo à crueldade ou horror. O Rey.104 cesso barroco a evidenciar a capacidade de envolver os conteúdos religiosos. inseridos num outro contexto. evidenciado nas composições que exaltam a violência. nos afrescos dos cemitérios./ Nosso Senhor/ Lisboa:/ na Officina de Francisco da Silva. Pois nem pôde isentar-se à morte dura A Régia ostentação da Majestade Nos estragos fataes da sepultura.) Que a morte. Tudo morre. o sofrimento. já tornado miasma ou ruína. João V/ dedicou / o doutor Mathias/ Antonio Salgado / Vigario collado da Matriz de N. Mathia Antonio. Tais cerimônias configuram a mentalidade barroca e o sucesso do Poder. para o Funeral de D. impiedade. nas ilustrações de livros de horas. por tymbre da inteireza. nas representações macabras. Nas grandes obras de arte percebe-se que.27 O que torna diferente os rituais do Dezoito. 27 Salgado./ Com todas as licenças necessárias. / que à defunta Majestade / do fidelíssimo e augustissimo rey o senhor / D. João V: (. alvo desta reflexão. Monumento/do Agradecimento. e poderosos Rey /D. e não hé. o martírio./ Anno de MDCCLI. 16. O cadáver ausente é tornado digno de um funeral real que intimida e faz que se dobre diante dele o menor e mais comum dos mortais. Manoel José Correa e. no imenso acervo de telas que exibem moribundos no leito (inclusive Jesus Cristo) e também nas tarjas que ornamentaram lutuosamente a Matriz do Pilar de São João Del-Rei./ Realçam fiéis/ das reaes exéquias.. de feições antigas. não.. de acordo com a época.

3 – N. Our interest is the faithful. Our objective will to analyze how does this faithful people work with the Church’s message. Nosso objetivo será analisar o uso feito da mensagem da Igreja pelo fiel nessa região. Doutorando em História pela Universidade Estadual Paulista. Nosso interesse é pelo fiel.105 A Igreja Católica na ocupação do noroeste do Estado de Mato Grosso (1975/1995) Vitale Joanoni Neto* Resumo Abstract Estudaremos uma convergência entre a ocupação da Amazônia meridional e a presença do catolicismo nesta região. We will study a convergence between the meridional Amazonia’s occupation and the Catholicism’s presence in this region. and the necessity in to mark a space between the faithful and the institution. Não propomos uma analise institucional. EM HISTÓRIA – UFMT – V. but to search the catholic settler’s vision. 2002 . Palavras-chave: Keywords: Igreja Católica – Mato Grosso – Migração * Catholic Church – Mato Grosso State – Migration Professor do Departamento de História da UFMT./JUN. É com esse pressuposto que vamos analisar o migrante que colonizará o norte de Mato Grosso. REV. Não tencionamos tratar do aspecto institucional. We aren’t proposing a institutional analysis. It’s with this presupposition that we will analyze the migrant who will colonize the northern portion of the Mato Grosso State.1 – JAN. TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG. We don’t intend to treat of institutional aspect. There is a impossibility in to propose an unique understanding for being catholic in Brazil. mas procurar a visão do colono católico. DE PÓS-GRAD. Há uma impossibilidade em se propor um entendimento único para o ser católico no Brasil e a necessidade de marcar um espaço entre fiel e instituição.

teológicos. trabalhos acadêmicos. Os efeitos de tal ação estão sendo estudados com muito interesse por todas as áreas do conhecimento. Passados quase 40 anos. São trabalhos de católicos e não católicos. Não intencionamos tratar do aspecto institucional. É importante frisar que a migração para o norte de Mato Grosso ocorreu. muito ainda há para ser estudado e escrito. particularmente. levaram a população da região a decuplicar. estimulada por ações governamentais que. terra própria para não ter mais que trabalhar para outros. Isto resume. em que pese a quantidade de trabalhos. o quadro imposto pela implantação de uma ditadura militar levou parte da Igreja Católica a uma inesperada posição de vanguarda política. motivadas por interesses econômicos ou a pretexto da segurança nacional. ou sintetiza. institucionais. Poderíamos considerá-lo como meramente manipulado pela Igreja? Essa manipulação seria absoluta. que reforçou a tendência já anunciada por Roma da opção preferencial pelos pobres. e apesar dessa vasta gama. esse mesmo movimento gerou a Renovação Carismática Católica. mas procurar a visão do colono católico. como . Mas. Esses migrantes. entre outras oportunidades. dos mais diversos matizes. essa influência tomou um rumo específico e bem marcado após o Encontro Episcopal de Medellín (1968). lavradores em suas regiões de origem. pequenos proprietários. levavam consigo a esperança de melhorar na nova região. Nos EUA. matérias jornalísticas. que anualmente são produzidos sobre o tema.106 Falar sobre a importância ou a presença da Igreja Católica no cotidiano brasileiro é fundamental. nosso objetivo para este trabalho: analisar o uso feito da mensagem da igreja pelo fiel nessa região. o que só reforça a importância da floresta amazônica para o mundo atual. como dissemos acima. devotados. Na América Latina. Neste artigo exploraremos uma convergência entre a ocupação da Amazônia meridional e a presença do catolicismo nesta região. as transformações provocadas pelo Concílio Vaticano II (1965) ainda não cessaram de influenciar os rumos da Igreja mundial. não nos propomos a fazer uma analise institucional. Nosso interesse é pelo fiel. Entre as décadas de 1960 e 1990 a Igreja Católica sofreu modificações importantíssimas. O sentido predominante desse fluxo migratório foi do Sul/Sudeste para o Centro-Oeste. o que significaria mais terra para atender às necessidades de toda a família. No Brasil. de modo a reduzi-lo a objeto de políticas institucionais? Se for assim. nestes últimos trinta anos.. artigos. É como se o catolicismo formasse uma fina trama de raízes que procurassem os aspectos mais íntimos da vida cotidiana e os envolvessem de modo a impossibilitar falar sobre eles sem considerar tal presença.

A tais iniciativas somou-se a convocação do Concílio Vaticano II (11/10/1962 a 08/12/1965).107 explicar as várias formas de se organizar dos grupos católicos pelo Brasil? Essa diversidade não seria indício de uma relativização dessa manipulação? Ou de um entendimento do discurso eclesiástico adaptado às necessidades imediatas de pessoas ou grupos específicos? Como os clérigos responsáveis pelo contato direto instituição-fiel recebem estas orientações e as apresentam ao conjunto de crentes? Do modo como as entenderam e as vêem adequadas àquele conjunto? Nossas pesquisas recentes nos têm mostrado a impossibilidade de propor um entendimento único para o ser católico no Brasil e a necessidade de marcar um espaço entre fiel e instituição. a fé em Deus e a crença na melhora estiveram presentes e fortes desde sua saída em busca da “terra prometida” até sua fixação na região. do modo como lhe parece mais conveniente e para os fins que se lhe fizerem necessários. Existe uma influência da instituição sobre o fiel. cabendo as necessárias ressalvas para cada uma de suas micro-regiões. Encontramos em seus relatos sinais claros de que esta migração ganhou contornos de peregrinação. O resultado desse entrecruzamento de fatores foi o nascimento de um modo único de ser igreja. a Mater et Magistra. ou a necessidade econômica. Pequeno histórico da Igreja Católica na segunda metade do século XX Após um século de postura marcadamente conservadora. também produzida. É com esse pressuposto que vamos analisar o migrante que colonizará o norte de Mato Grosso. E estes claros sinais de uma religião popular secularmente presente no imaginário do povo brasileiro sofrerão a influência marcante das novas orientações eclesiásticas já citadas. mas ela não o reduz a um mero objeto. será com João XXIII (1958-1963) que a Igreja Católica começará a se mover. documentos que adaptaram o catolicismo às profundas mudanças da sociedade daquele período e estimularam os compromissos sociais da Igreja. em 1963. O que o motivou foi mais que a influência da propaganda oficial. Esse Papa foi o responsável pela divulgação de duas das mais importantes Encíclicas do século XX. que mesmo para o norte do Estado de Mato Grosso não pode ser generalizado. O indivíduo apropria-se do conteúdo doutrinal e o instrumentaliza a seu favor. dentro do qual se propiciou a instauração de uma nova auto- . e a Pacem in Terris. em 1961.

. O autor dá continuidade ao assunto no artigo A esquerdização do catolicismo brasileiro (1960-1980): notas prévias para uma pesquisa.108 compreensão1 da Igreja centrada na opção preferencial pelos pobres. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de História. 3 Talvez um dos pontos mais sensíveis dessa aproximação esteja presente na Octogésima Adveniens. Universidade Estadual Paulista. Na América Latina os ecos do Concílio cedo se fizeram sentir. ecos de uma reação conservadora. Estudo sobre a comunidade católica da Imaculada Conceição: uma experiência de organização popular em Bauru. até porque seus dogmas e ensinamentos estavam sendo questionados e ela perdia terreno2. mas agora não mais voltada para si e sim como defensora dos marginalizados. In: Dussel. Outro efeito sentido foi o surgimento. A Igreja frente aos estados liberais. (Mimeo). p. a proposta de Medellín foi considerada muito avançada por Roma. 1996. 2000. alia-se a todo um contingente que critica o mundo moderno (inclusive a esquerda e outras forças de oposição)3 e atualiza o sentido de sua doutrina cristã. Ivan A. Historia Liberationis. José Oscar. como no Movimento dos Sacerdotes para o Terceiro Mundo e outras iniciativas registradas já a partir de 1966. Richard Shaull e Enrique Dussel. p. A inteligência da proposta é evidente. São Paulo: Paulinas/CEHILA. abrindo para o fortalecimento da recém-proposta Teologia da Libertação4. Tais ações nos mostram que se o sentido apontado em Medellín era hegemônico. ou seja. em Medellín (1968). que o clero católico deste continente assumiu a nova Doutrina Social da Igreja. mas com perspicácia.177 e ss. a Igreja continua crítica da sociedade. Direito e Serviço Social. Segundo Comblin. Direito e Serviço Social. mas foi na II Conferência do Episcopado Latino Americano. Durante o pontificado de João XXIII. após ter apoiado o golpe militar de março de 1964. 1998. com a opção preferencial pelos pobres a Igreja foi projetada na sociedade. 135 f. No Brasil. Durante o ultramontanismo. Universidade Estadual Paulista. a Igreja Católica afastou-se gradativamente dele e tornou-se um dos pontos de resis1 Manoel. 1992. autocompreensão anterior da Igreja – compreendida pelos pontificados de Pio VII (1800 a 1823) a Pio XII (1939 a 1958) –. 2 Beozzo.). naquela parcela não atingida pela modernidade. estava longe de ser unânime. Franca. de movimentos como o “Tradição Família e Propriedade”. ao contrário de Pio VII que voltou a Igreja para si própria. A filosofia da História do catolicismo conservador (1800-1960). que reagiu afastando o Cardeal Samoré. Assis: UNESP/FHDSS. representante da Santa Sé na Conferência. Enrique (Org. mantém o ataque ao mundo moderno. O pêndulo da História. de 1971. Juan Luiz Segundo. 35. 4 Os precursores seriam Gustavo Gutierrez. 146f. Cf. Vitale. Ela desveste-se da roupagem ultraconservadora. Isto colocará o Estado Burguês em uma situação delicada e o obrigará a abrir espaço para a Igreja. ou fortalecimento. Tese (Livre Docência em História) – Faculdade de História. a Igreja Católica bateu de frente com o mundo moderno e julgou ser possível impor-se a ele. Franca. de Paulo VI. apostou alto. Joanoni Neto.

1995a. História da Igreja na América Latina e no Caribe. . A Teologia da Libertação aproximou setores da Igreja Católica e leigos aos grupos de esquerda que faziam oposição ao regime militar e que por sua vez estavam fortemente influenciados pelo pensamento marxista. 6. ganhou força e surgiram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). 5 Maranhão.). Petrópolis: Vozes. Outro aspecto notável da Teologia da Libertação em toda a América Latina foi sua aproximação da religião popular. Como sabemos. s. os leigos engajados e alguns outros padres regulares muito conscientes pretendemos é a evangelização a partir da realidade concreta. 1968.). compromissos. apreensões. Brasil Reportagem. com a Ação Católica no sentido de fazer a Igreja presente nos pontos mais distantes dos centros paroquiais. Eduardo (Org. 134. In: Hoornaert. 15-17. 1995b. 6 Eles perderam tempo agora vão ser padres. 1945-1995 . Petrópolis: Vozes. o cristianismo foi trazido para a América no final do século XV e imposto ao continente como religião oficial. africanas e inclusive européias não cristãs.109 tência à ditadura. 2. p. 19. Rio de Janeiro: Paz e Terra. História da Igreja na América Latina e no Caribe. acreditamos que possam afirmar. Em 1968 um leigo publicou um artigo com a seguinte afirmação: Quanto aos marxistas brasileiros em suas posições frente aos católicos. 1945-1995. s. As igrejas cristãs no campo religioso latino-americano e caribenho: deslizamentos.. numa ótica marxista mesmo”6. um seminarista de São Paulo afirmou em depoimento escrito: “Aquilo que nós os seculares. 8 Hoornaert. Paz e Terra. n. Marxistas e católicos: da mão estendida ao único caminho. mas de marcharmos juntos com eles. p. p. A tendência autonomista. antigo anseio do clero brasileiro. Hoornaert chega mesmo a afirmar que o povo latino-americano tem outras religiões mais comprometidas com seu projeto de libertação8. 7 Hoornaert.d. p. Eduardo. In: Hoornaert. tomou novo fôlego e novo sentido com a Teologia da Libertação.ed. n. Eduardo (Org. Essa recepção da mensagem cristã quase unicamente como ensino catequético e como prática sacramental viabilizou a permanência de importantes fragmentos de outras crenças presentes nas culturas ameríndias. 57-71. São Paulo. Eduardo. Os aspectos que melhor explicam essa aproximação estão fora dos objetivos propostos para o presente trabalho. Entrevista com Jean Delumeau: cristianismo e descristianização no mundo atual. Luiz. como numa frase recentemente pronunciada: já não se trata de estender-lhes a mão. O movimento iniciado na década anterior. Delumeau afirma que o cristianismo não chegou a ser popular na Europa antes do início do século XVI7.5 Já nos anos setenta.

Cuiabá: ICHS/UFMT. 1985. Fronteiras da crença: da libertação ao carisma. antes considerados heréticos ou profanos. 1989. Igreja Católica e política no Brasil.110 O catolicismo popular latino-americano é uma mescla de influências variadas que durante séculos foi ora combatido. são as riquíssimas reservas minerais de ouro e diamantes. 26. O resultado foi um leque bastante amplo de posturas. basicamente sobre os limites das reservas indígenas. (Mimeo). “Por mais que a terminologia CEBs tenha sido assimilada nos mais diferentes lugares dos modos mais diversos. de modo a respeitarlhes as idiossincrasias e sem a pretensão de vê-las como um conjunto monolítico. ora ignorado pela Igreja Católica. inclusive religiosos. Nos anos setenta os teólogos da libertação promoveram uma aproximação entre a Teologia da Libertação e esse catolicismo popular nas CEBs. . 208. Relatório de pesquisa. A doutrina social da Igreja foi assimilada pelos prelados de modos muito variados. e a extração vegetal. Scott. ao menos. O que está em jogo. na formulação dos próprios grupos e o fato de os mesmos surgirem basicamente entre os setores populares. é preciso analisá-las dentro dos contextos em que estão inseridas. José Renato. São Paulo: Loyola. 10 Schaefer. Foi o caso de matéria divulgada por revista de circulação nacional sobre conflitos entre fazendeiros. é claro. p. chegaremos ao final do século XX encontrando sinais claros de confrontos entre os poderes locais (nem sempre os legalmente constituídos) e membros das comunidades católicas. 169. p. Uma característica comum e facilmente identificável entre todas as milhares de CEBs existentes por todo o Brasil é a presença da Teologia da Libertação como força inspiradora. p. 2001. Já no aspecto regional. encontramos casos bem diferentes: “Em uma das regiões colonizadas um padre declarou recentemente que não precisava dar prioridade ao trabalho com os pobres ‘porque não existem pobres por aqui”10. predominantemente a madei- 9 Joanoni Neto. 11 Mainwaring. Vitale. São Paulo: Brasiliense. A Igreja Católica na cidade de Juína (1975-1995). garimpeiros e índios em Roraima. Como conseqüência. importantes setores das camadas populares passaram a participar mais ativamente das atividades da Igreja e muitos aspectos das crenças populares. Mainwaring considerou a Igreja Católica brasileira a mais progressista do mundo durante os anos 1970 e que isso gerou conflitos políticos nacionais que se abrandaram muito com a abertura política11. passaram a ser vividos nestas comunidades que se popularizaram e se espalharam por todo o continente. mesmo porque a igreja não é assim”9. ou justamente por isso. Em que pese o fato de a imagem predominante ter sido a de politização e militância. As migrações rurais e implicações pastorais.

perguntou sobre qual seria o espaço dos pobres nesta igreja14.. então tomam como natural a afirmação de um fazendeiro de que “se (. Stucket. 13 CNBB. Mino.com. Disponível pela internet em: www. qual seja. No artigo a Igreja Católica é acusada de contrabando de ouro e diamantes. 1. 515.br/estudos/conj200004.cnbb. De modo geral. Revista Eclesiástica Brasileira. O direito de associação na Igreja. edição em português. L’Osservatore Romano. Respondemos. Moção da 38ª Assembléia Geral. longe e fora do controle da instituição. Roraima em pé de Guerra.htm. Jornal do Vaticano. a hierarquia romana foi paulatinamente retomando e centralizando as ações. o arcebispo “não registrou o sumiço de ouro e diamantes”12. 211. 15 Hoornaert. ou seja. p. n. Qualquer movimento religioso que penetre na América Latina no meio popular mescla-se rapidamente pelo fato de que esse povo mestiço vive em complexas encruzilhadas mentais. 12 Pedrosa. com João Paulo II (eleito em 16 de outubro de 1978). o padre que vive entre os índios é chamado “uma espécie de general de campo do Conselho Indigenista Missionário” e seria o responsável por ensinar “táticas de guerrilhas” aos índios. Os repórteres não comentam. São Paulo. p. p. A nota presta total apoio à Diocese de Roraima13. maio de 2000. Vozes. Isto é. A religião popular retornou ao lugar que secularmente lhe coube. José. 14 Comblin.terra.rtf. de idéias e tradições15. além de transformar a aldeia em um “bunker”. Ricardo. mas desapareceu”. o lado de fora. Disponível pela internet em: www. 1993. em texto do início dos anos 1990. .) topar com o padre eu acabo com ele”.br/istoe/1596/brasil/1596roraima. durante as décadas de 1980 e 1990. 1995b. O tom da reportagem é tal que mereceu uma nota pública de repúdio redigida pela 38ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O texto chega a afirmar que se a proposta de demarcação defendida pelo padre prevalecer “os índios tomarão mais 18% de Roraima” [sic].org. Os autores arrematam que. publicada pelo L’Osservatore Romano.. Petrópolis. na queixa que fez à polícia. 34. existentes naquela porção da floresta amazônica. Será o lugar que eles sempre ocuparam desde a chegada da Igreja Católica neste continente. tudo com a finalidade de fazer “guerra contra os fazendeiros da região [para invadir] propriedades rurais”. retirando do cofre do local 615 gramas de diamantes e dois quilos de ouro. Uma fonte não identificada assegura que “o material foi enviado para Brasília. que em 1988 agentes encapuzados do Serviço Nacional de Informação (SNI) e o Coronel Menna Barreto invadiram a casa do Arcebispo em busca de provas de subversão.111 ra de lei.. mesclando princípios de todas as outras religiões presentes em nosso cotidiano. A nota chega à ingenuidade de afirmar em subtítulo “cofre suspeito”. set. Ed. Três. Comblin. maio de 2000.

poder de curar doentes). as lideranças do MRCC nacional reúnem-se e divulgam um conjunto de documentos denominado Ofensiva Nacional. Se as CEBs sobreviveram. São faces de uma mesma moeda. Há. em 1994. foi trazido para o Brasil no início dos anos 1970 por sacerdotes jesuítas. Apesar das diferenças e dos conflitos entre os membros dos grupos das CEBs e do MRCC. também foram resultado da abertura política que no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 provocou a saída de muitas lideranças para a militância nos partidos políticos e sindicatos recém-criados.. também surgido nos ecos do Concílio e fortalecido nos Estados Unidos17. Concomitantemente ao enfraquecimento da Teologia da Libertação há o fortalecimento de um outro movimento surgido nos anos 1960 – que resistiu ao período de predominância das CEBs e que durante os anos 1980 era visto como rival da Teologia da Libertação e tratado como tal pelos representantes desta –. capturado em março de 2001. com novas propostas de ação. 45. exorcismos. também rompendo com a estrutura paroquial e sem a necessária presença do clero nos grupos. a RCC também contestou o poder fortemente hierarquizado da instituição e revelou uma outra forma de ser igreja. A seu modo. a presença dos grupos de RCC se tornou mais significativa nas dioceses e rapidamente cresceu.html. uma resistência dentro do próprio clero. No início dos anos noventa. Histórico. orar na língua do Espírito Santo. que já acompanhava o crescimento do movimento divulgou. isso se deveu “à sua ligação com a religiosidade popular (. Disponível pela internet em: www. que rapidamente se espalharam pelo país.) incorporadas pela Igreja graças ao trabalho dos teólogos progressistas”16.. um esfriamento na missão.org.112 No Brasil. também mais autônoma. Em meados dos anos oitenta.br:/histórico. sentindo “uma perda de identidade. que. 17 Renovação Carismática Católica: ampliando os horizontes. uma quebra na unidade”17. esse enfraquecimento na hegemonia da Teologia da Libertação e a diminuição do espaço das CEBs. o Movimento da Renovação Carismática Católica. no entanto.rccbrasil. Isso se deve a algumas das práticas desenvolvidas dentro dos grupos carismáticos católicos (euforia nos momentos de pregação. vejo que eles fazem parte da mesma autocompreensão fundada com o Vaticano II. A CNBB. que pode ser notada mesmo nos dias atuais. as Orientações Pastorais sobre a Renova- 16 Joanoni Neto. ou ao menos seu maior controle e enquadramento pela instituição. A Diocese de Campinas (SP) abrigou os primeiros grupos.. orar pedindo para serem usados por Deus para que este envie mensagens para os presentes. . 1996. p.

Cursos. 27 de novembro de 1994. Preparação de Natal e outros.18 Vê-se claramente nesses pequenos trechos do documento da CNBB que a Igreja Católica estava muito preocupada com a plena inserção dos grupos de RCC nas paróquias. julgando-se ser o único autenticamente cristão. esse aspecto não será abordado neste trabalho. é preciso estabelecer o diálogo fraterno no seio da comunidade eclesial. 18 CNBB. A RCC assuma com fidelidade as diretrizes e orientações pastorais da CNBB. A RCC assuma também as opções. Os membros da RCC participem dos Encontros. como seu Assistente Espiritual. apoiando o sadio pluralismo. a RCC aceite as orientações e colabore com as pessoas encarregadas desse acompanhamento. evitando qualquer paralelismo e integrando-se na pastoral orgânica. que lhe dará acompanhamento e ajudará nas questões de caráter nacional. Nenhum grupo na Igreja deve subestimar outros grupos diferentes.113 ção Carismática Católica. tais como Campanha da Fraternidade. onde recomenda com clareza que se evitem práticas como exorcismos ou outras que possam ser confundidas com magia ou superstição. Círculos Bíblicos e outras atividades pastorais e de formação promovidos pelas Igrejas Particulares. A segunda metade dos anos noventa trará a explosão da RCC através dos padres cantores. Mês Missionário. sem prejuízo da autoridade de cada Bispo Diocesano. zelando pela reta aplicação destas orientações pastorais. mas. acolhendo a diversidade de carismas e corrigindo o que for necessário. Por sua vez. Mês da Bíblia. A Coordenação Nacional da RCC terá um Bispo designado pela CNBB. Brasília. bem como dos momentos fortes que marcam a vida eclesial. (Mimeo) . O documento diz ainda: Reconhecendo-se a presença da RCC em muitas dioceses e também a contribuição que tem trazido à Igreja no Brasil. por demandar um estudo mais aprofundado e demorado. diretrizes e orientações da Igreja Particular onde se faz presente. Os Bispos e os Párocos procurem dar acompanhamento à RCC diretamente ou através de pessoas capacitadas para isso. Orientações pastorais sobre a Renovação Carismática Católica.

p. entre 1970 e 1981.. . 49% deles (75 projetos) ao longo do eixo da Cuiabá-Santarém20.21 19 Ferreira. As rodovias federais funcionaram como verdadeiros corredores norteadores da migração. trabalhando predominantemente com migrantes vindos do sul e centro-sul do país. mais a BR 158 e o complexo 364/174. 60% estavam no Estado. 42% estavam localizadas em Mato Grosso... 1986. 21 Depoimento de Márcia Gardin.. A lenda do ouro verde – a colonização em Alta Floresta / Mato Grosso. comprovam que de 101 empresas de colonização autorizadas inicialmente a funcionar no país (inclusive aquelas cujos registros foram cancelados). Essas empresas desenvolveram forte campanha publicitária no sul e sudeste do país e seu público alvo foram os minifundiários. 52% tinham projetos em Mato Grosso. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. cerca de 200 mil pessoas instalaram-se ao longo do eixo da BR-163. Eudson de Castro. criadas durante o governo militar. Campinas. alqueires no Paraná. 177f. 142. um alqueire e meio só de café. Posse e propriedade territorial. Esta.) viemos todo mundo pra cá (. Regina B. UNICAMP. 47 e ss. Os maiores projetos privados de colonização aconteceram muito próximos dessas rodovias.114 A migração para a Amazônia Meridional Em 1971 o governo Federal criou o Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulos à Agroindústria do Norte e do Nordeste (PROTERRA).) lá a gente era agricultor lá a terra muito pequena (. Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). vendendo seus dez. Universidade Estadual de Campinas. p.. Tal medida.. Em um total de 82 empresas em funcionamento efetivo.) naquela região tinha muito latifúndio. tinham a intenção de abrir um território pouco conhecido à exploração econômica. por vezes cinco.) aí meu pai tinha um sonho de ter um pouco mais de terra aí meio a contragosto da família (.. Juína. de 1981. 1986. entre outras19. Entre 1977 e 1985. o nosso trecho lá era assim terra lá era pequenininha era dois alqueires. a aquisição de grandes faixas de terras públicas por empresários que desenvolveram projetos privados de colonização. pequenos produtores capitalizados daquela região que.. em última análise. No Estado de Mato Grosso dezenas de empresas de colonização espalharam-se pela extensa faixa norte. Campinas: Ed. permitiu. podiam comprar até 200 alqueires no Mato Grosso. Dos 125 projetos autorizados a funcionar. 31 de maio de 2001. Eu vim com a minha família né. 20 Guimarães Neto.. foi mais ou menos no ano de 1985 (.

Na cidade tinha umas pessoas que acompanhava a cada 10 pessoas ele acompanhava até ir para o destino. quem não tem.. enquanto o número de favelados cresceu de 17 para 28 mil no mesmo período”23. jornais informativos. né. p. op.. Havia também a propaganda indireta. O mesmo aconteceu com Cascavel (PR). que. O próprio migrante ou membros da família divulgavam o projeto em suas cidades de origem. do ponto de vista do estudo das migrações.22 Os dados nos mostram que só em 1980 cerca de 130 mil agricultores trocaram o campo pela cidade no Rio Grande do Sul. quem tem. Nenhum deles pode ser classificado como espontâneo e ambos são resultados das ações do Estado para driblar as pressões sociais e econômicas que em dado momento se estabelecem em determinadas regiões. O mesmo autor acusa a existência de cerca de 800 mil agricultores sem terras no Paraná neste período. já está feito. porque o Paraná já está pronto. e Curitiba. e um fluxo direcionado pelos poderes estabelecidos. Cartazes afixados nas associações e sindicatos rurais. rurais ou urbanas.) a prefeitura e o estado conseguiram remover 900 barracos em três anos. cit. E foi onde que meu pai comprou. Então veio aquela kombi e o picareta. palestras e reuniões – nas quais os corretores expunham as vantagens da região –. que com apenas 200 mil habitantes em 1980 já apontava mais de 13 mil favelados. não tem. Juína. para uma população de dois milhões de habitantes em sua região metropolitana (em 1980).2 milhão de habitantes no censo de 1980. contava com 300 mil migrantes. ora procu22 Depoimento de Aparecida Dias. . pois escapa à influência mais direta do Estado. Muitos migraram acompanhando a família: Ficamos sabendo de Juína assim: no Mato Grosso tem uma cidade que está começando agora. 21 de setembro de 2000. Aí juntou várias pessoas numa kombi. 23 Schaefer. A cidade de Porto Alegre passou de 600 mil habitantes na primeira metade dos anos setenta para 1.. Há um fluxo que denominaremos alternativo. um imenso organismo vivo com deslocamentos freqüentes e multidirecionados. 23. tem.115 A propaganda levada a efeito pelas empresas tomava várias formas. impelindo as pessoas a saírem em busca de alternativas econômicas. com um grande cinturão de miséria ao seu redor. programas de rádio. ali dentro tinha um picareta. vamos para lá. O Brasil é. prá chegar aqui e comprar. “(.

op. segundo Guimarães Neto24. 25 Ibidem. 125. mas como imposição. e repassadas aos camponeses em lotes que podiam variar de 10 a 10 mil hectares. as condições postas a essas pessoas não lhes permitiram mais que a reprodução de sua condição de camponeses. como e com quem comercializar e a que preço. Daí a migração não poder ser vista como opção. o resultado foi o mesmo. No caso da INDECO e do projeto Alta Floresta. Mudou-se a forma. à qual se atribuía o mérito de fixar o homem à terra. O colono do sul foi transformado em um excluído (tal condição lhe foi imposta de fora). era apenas o pano de fundo para a implantação de um grande empreendimento econômico e sedimentação de um projeto político de dominação social que impossibilitava o sucesso do pequeno camponês. 87. o que. . menos da metade da área foi destinada ao loteamento. e se a princípio com um lote maior. mas a superexploração veio na condição de um rigoroso direcionamento do que produzir. tendo sido destituído material e simbolicamente de seu espaço e de seu direito ao espaço ali. minifundiários... Vemos então que não houve “Projetos de Colonização” no norte do Estado de Mato Grosso. bastaram alguns anos para que voltassem à condição original de minifundiários. via-se agora novamente às voltas com poucos hectares para sustentar sua família. p.116 rando colocação profissional. Gradativamente haviam voltado à condição de pequenos proprietários. que para o pequeno camponês é sinônimo de miséria nas periferias das cidades. ora fugindo da proletarização. Essa operação. Nos projetos privados as empresas destinavam à ocupação por lavradores apenas uma parte da área total do projeto. “Os colonos foram verdadeiros peões da colonização”25. de integração nacional e de ocupação de espaços vazios – que a propaganda se encarregou de consolidar como sendo equivalente a uma reforma agrária – serviu para desviar 24 Guimarães Neto. Com o tempo os lotes foram fracionados em parcelas cada vez menores e o lavrador que havia trocado sua terra no sul por uma propriedade maior no Mato Grosso. cit. Os baixos preços das terras ocultaram a falta de infra-estrutura e o verdadeiro caráter dos projetos. Uma vez na área. O que houve foi uma grande operação para comercialização de terras adquiridas em condições muito favoráveis por grandes empresas privadas ou repassadas a companhias estatais que agiam seguindo os modelos bem sucedidos daquelas primeiras. Houve projetos onde essa condição não foi imposta aos colonos. p. com preços e condições de pagamento atraentes.

como sendo região de terra em abundância. A colonização oficial em Mato Grosso: a nata e a borra da sociedade. Sueli Pereira et al. sem geadas (um problema gravíssimo para os colonos do Sul). fértil. levando-o a peregrinar em busca da redenção. é um fato social”26. ou “Pioneiros”. facilitaram a conexão entre a paisagem e o sagrado. Diante de tal quadro e das parcas opções que se lhes apresentavam. distante e inóspita. 262. Aspecto religioso do deslocamento para o norte de Mato Grosso Como já se disse. 7. Espaço e Cultura. 28 Fickeler./jun. reconhecidos hoje em todo o norte do Estado de Mato Grosso como “Bandeirantes Modernos”. A santidade natural-mágica incorporada pela floresta amazônica e a crença do indivíduo nesse seu poder mágico culminaram por fixar nela um poder santificador e de atração sobre o crente. “a mobilidade tornou-se praticamente uma regra”27. mundo distante e ao mesmo tempo terra de fartura. além de auferir polpudos lucros a um pequeno grupo de empresários. comprometendo o sustento imediato e o futuro de seus filhos. Essa propaganda somou-se à imagem da floresta amazônica. se endividando. 1999. restava àquelas famílias a fé. Analisando os dados apresentados acima sobre as condições que se colocavam para o pequeno lavrador dos estados do sul do país.1999. jan. individual. Paul. 138. como sendo o eldorado. n. terra de belezas e de fartura. ou seja. UERJ. Rio de Janeiro.117 as atenções e aliviar as tensões (econômicas. o que o levou a recriá-la com outro significado. “Desbravadores”. p. Essas características somadas. 8. Cuiabá: EdUFMT. p. 1994. Estavam empobrecendo. Milton. 27 Santos. 26 Castro. É preciso lembrar que as empresas colonizadoras e o governo fizeram farta propaganda da região amazônica. . notamos que houve uma forte indução em sua decisão de migrar. São Paulo: Hucitec. A natureza do espaço. p. sociais e políticas) nas áreas que estiveram sob sua influência. esse espaço deixou de ser um local concretamente existente e passou ser outro. Acrescentemos que para a maioria absoluta essa não foi uma experiência nova. ligado a valores imateriais presentes no imaginário daquela pessoa28. Questões fundamentais na geografia da religião. gravada no senso comum. “a migração não se dá por vontade própria. As dificuldades colocadas para que os colonos pudessem permanecer no local – as terras do Sul – eram grandes.

Espaço e Cultura. 2001. trabalhar para si. 30 Joanoni Neto. . A densidade demográfica dessa região foi das mais baixas da Amazônia legal até meados de 80. 51. Para este nosso pequeno estudo vamos observar apenas uma dessas experiências. portanto.985 habitantes e densidade demográfica de 0./km². ou seja./km². da utopia. iniciada em meados da década de 1970... da solução definitiva para seus problemas.29 Essa migração das terras do Sul para as do Centro-Oeste foi. UERJ.22 hab. Em 1986 esse índice subiu para 0. a desenvolvida no noroeste do Estado pela Companhia de Desenvolvimento de Mato Grosso (CODEMAT) em convênio com a Superintendência para o Desenvolvimento do Centro-Oeste (SUDECO). 9.14 hab. Paul. n. com uma população residente de 13. Rio de Janeiro. como diz os outros “não dá nem calango aquilo ali” (risos) não tem nada não tem nem jeito de fazer uma horta aquilo ali (.. O tema da religião nos estudos geográficos. para muitos colonos. 7.631 km².1999. em 1980. Sua chegada ao novo destino foi a chegada ao lugar do sonho. porém: (.. fugir da proletarização – mais a propaganda que afirmava serem esses novos locais o lugar onde a concretização desses sonhos seria possível. O projeto consistia na construção de uma estrada ligando a BR-364 a partir do município de Vilhena (RO) até a sede do município de Aripuanã. sob a denominação de “Projeto Juína”. A rodovia foi batizada de AR-130. qual seja.118 Para suportar as dificuldades e infelicidades da vida. o projeto previa a construção de uma cidade a cada cem quilômetros. Juína A presença da Igreja Católica foi marcante em todos os projetos de colonização implantados na Amazônia nesse período. p. os homens são. p./jun. Aripuanã tinha uma área de 98. uma peregrinação em busca da terra prometida. Segundo o empreiteiro responsável pelas obras de infra-estrutura da estrada.) então vamos mais prá 29 Claval.) chegou na Roda D’água e lá é um areião danado ali. constituída dos valores que todos carregavam dentro de si – inclusive possuir a terra. jan. levados a imaginar realidades mais profundas e mais autênticas que aquelas que lhes são reveladas por seus sentidos.

nego querendo comprar lote e tudo.) e depois de l50 hectares. foi determinado. Juína.31 Durante todo o período de construção da estrada e logo em seguida da cidade. só para incentivar (.. naquele tempo nós construímos umas vinte (. apartamento. e decidiram fazer aqui fazer a primeira cidade: Juína... A cidade começou a ser ocupada no início de 1978. não tinha areião... 32 Depoimento de Hilton Campos.119 frente né? A gente abrindo estrada. sacerdote de Ji-Paraná...) terras pequenas seria de culturas boas. prestação suave.) Aí eu já tinha uma casinha ali pronta.. de material. abrindo estrada. fizeram uma reunião lá em Fontanillas. conforme vai distanciando e conforme o tipo de terra. se bem que são 672 chácaras de 5 alqueires em volta disso aqui (.. e no chão também foi explorado. Por isso que se deu o projeto Juina. tudo montadinho tudo direitinho.. ali a rua da igreja (. Ângelo Spadari. nesse momento.. foi o comércio de terras. 18 de setembro de 2000.. aquele horror de homens. Cheguei a construir uma rua. o posto de saúde. o diretor da CODEMAT. falou assim: Aqui dá né? Pra fazer.) foi assim que começou Juína. . tudo né? Era muito bom sabe? Ver aquele povão. é muito bom. não tinha nenhuma residência particular. 22 de setembro de 2000. casa do médico (. as obras.. 32 31 Depoimento de Jesuíno Tavares da Cruz. Mas o forte.. em cima de um platô. a pessoa que vinha comprar terra tinha onde dormir. Então quando estava tudo pronto: escritório. veio o pessoal de Brasília com o pessoal. Então era em prestação..) a terra foi baratíssima tá? desde as mini-chácaras. ainda com pouquíssima estrutura para receber moradores. É. quando chegou aqui falou: Aqui é o lugar né. manteve contato com os operários no canteiro de obras.. 200 hectares.) naquele tempo eu ganhava mais ou menos quinze reais por cada casinha. fizeram a exploração de tudo aí.. terras grandes para pastagem. aquelas outras casas.. Juína. um padre salesiano. então tudo foi bem analisado pelas fotografias aéreas. tudo.31 (. crescer. que era 411 mil hectares de terras.) vou falar era muito gostoso a gente ver uma cidade nascer assim. (.. era só aquilo mesmo lá. tudo assim..

310 km²). A orientação dessa organização foi a Teologia da Libertação. Dom Antonio convida Padre Duílio para dar uma palavra. Juína. tal oferta de terras chamou a atenção de pessoas sem condições de adquirir os lotes comercializados pela empresa. quando 33 Depoimento de Dorvalino Andriollo. Em um depoimento seu encontramos o relato da expulsão de trezentas famílias de “invasores” por uma pessoa identificada como “Ramon Paraguaio. já andava pela região (comprovadamente desde o ano de 1979. daí já fazia amizade já falava. Duílio. Duílio Liburdi. pontos de referência para se situarem. Sua indignação diante do fato é clara. o controle do acesso de qualquer pessoa na área do projeto foi muito rigoroso. todos. tal dia nois temo reza. p. A intenção óbvia era evitar o ingresso de posseiros na área do projeto. 34 Liburdi. nomeado em 1981. colonos e não colonos. Pe. Servia para impedir que entrassem pessoas sem ser colonos. . Juína. 10 de maio de 2001. pois chegavam a uma terra estranha em busca de um sonho e necessitando estabelecer laços. Cancelas interditavam a estrada e quando começaram as obras da cidade um posto de vigilância foi montado. ou invasores. entre 1975 e 1982. receberam um claro sinal da presença da Igreja Católica na região. Tal organização atendeu às expectativas daquelas pessoas garantindo uma rotina de encontros e celebrações independente da presença do padre. segunda quinzena de maio de 1988. sem querer comprar terras. que em algumas dessas comunidades comparecia em intervalos de sessenta dias ou.33 Ao chegarem. O pároco. realizando um trabalho de organização de comunidades nos mais diversos pontos da imensa paróquia (123. que tinha chegado uma família a mais. 8. já fazia aquela festa ali. Percebia que um caminhão de mudança chegasse aí já ia lá até ajuda descarrega. mais que isso. em alguns casos. aquele que haveria de implantar o terror.120 Como era de se esperar. No início. então foi tentado evitar que isso fosse acontecer. de comandar a queimada dos barracos”34. Várias dezenas de comunidades foram formadas naquele vasto território. Para os colonos migrantes tais estímulos e orientações iniciais foram de fundamental importância. com homens armados. O Poder Noticioso. ou especuladores. e é provável que desde antes disso). aquele que haveria de implantar a morte.

36 Este modelo de igreja é produto do mundo moderno. de alguma forma. . 37 Heller. 128-129. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos.121 era na próxima aquela família já tava junto. suas necessidades. Uma igreja racionalizada.) num ritual. dali em diante já caminhava junto. Era animado. Aquelas pessoas se reuniam para se conhecerem e discutirem entre si seus projetos individuais. O sentido dessa reorganização proposta pela Teologia da Libertação latino-americana não questionou a ins- 35 Depoimento de João Batista Alves Neto. A interpretação das culturas. Porque era tudo mata não tinha ninguém pra gente sai.. p.35 A necessidade dessa rotina é religiosa. Cliford. onde passava não ficava ninguém. Agnes. 36 Geertz. Rio de Janeiro: Paz e Terra. mas é também um importante elemento de construção de identidade daquele grupo nascente. nós pegava pau ocado e enchia de óleo diesel e pano e ponhava fogo na ponta e fazia aquela tocha e ia por dentro do mato. É no ritual – isto é. 1989. 1989. Era muito gostoso. tornando-se um mundo e produzindo aquela transformação idiossincrática. Juína. O cotidiano e a História. ao mesmo tempo ressacralizando e mitizando o profano (o progresso). 75 e ss. organizada em pequenas comunidades construídas de acordo com os valores objetivos individuais e em consonância com as convicções que o indivíduo vê manifestadas na comunidade37. e colocarem em prática projetos coletivos. não ficava ninguém em casa. A noite pra ir rezar era muita mata e naquela época também a gente quase não tinha nem lanterna e a mulherada com criança nós fazia aquelas tocha sabe. mas também um local de orações e intenções para que tais projetos dessem certo. 5 de maio de 2001. essa convicção de que as concepções religiosas são verídicas e de que as diretivas religiosas são corretas. no comportamento sagrado – que se origina. (. p. reza a noite com aquela tocha de fogo alumiando (risos). não tinha. o mundo vivido e o mundo imaginado fundem-se sob a mediação de um único conjunto de formas simbólicas. Se tinha um terço na casa de um vizinho ia todo mundo. Qualquer coisa passava o dia. Nesse sentido a Igreja Católica ofereceu não só um ponto de encontro entre as pessoas que chegavam. A religião no mundo moderno se reorganizou em razão da fé no progresso que dessacralizou e racionalizou o mundo..

) foi rezada a primeira missa na comunidade São Paulino num barraquinho que nem cercado num tava ainda (. Juína. como.. uma bolachinha e os homens iam jogar bola. A afirmação dessa autonomia por parte das lideranças (clericais e leigas) dessa recente autocompreensão da igreja foi uma negação da heteronomia imposta pela hierarquia eclesiástica.122 titucionalização da religião. do sonho.. A religião nas sociedades pós-modernas. 23 de outubro de 2000. 10 de agosto de 2000. reunia as famílias rezava o culto. por exemplo. mas afirmou a vitalidade autônoma das pequenas comunidades religiosas38. os homens brincavam de bola. que na prática negava a essência de sua existência..) comia arroz. 444. p. quando não ia caçar.. 41 Depoimento de Nelci Maria de Camargo. era mais carne de caça (. 40 Depoimento de Antonio Sanches Munhoz.) a gente se reuniu na casa de uma dessas famílias para rezar um terço e a gente já pensou nessa mesma casa de formar uma comunidade fazer uma escolinha naquele tempo não tinha nada era tudo mato (. O lugar da peregrinação..) onde escolheu a coordenação da comunidade. Algumas das características da Teologia da Libertação foram assimiladas com maior intensidade em milhares de comunidades existentes pelo interior do Brasil... 49.. p. da utopia.) quando chegou aqui em Juína (. era o nosso divertimento os homens rezavam também.. 39 Bourdieu.. feijão carne era muito difícil. nós morávamos naquela linha em cinco famílias. Mas é importante buscar a especificidade de cada comunidade. já que a vivência da experiência das CEBs apresentou características muito diversificadas. 1995. A economia das trocas simbólicas.40 O vizinho mais perto dava dois quilometro (.. que se opõe à representação do paraíso como lugar de felicidade individual39. . Juína.. Stefano..... depois do culto as mulheres iam inventar bolinhos. São Paulo: Perspectiva.) faltava muita coisa (. aos poucos vai 38 Martelli.) Aí nós convidamos o padre Duílio (.41 Essa organização contribuiu para a criação de uma vivência cotidiana em Juína.) No domingo nós reuníamos as famílias. a esperança de subversão da ordem social presente na fé popular. 1999.. São Paulo: Paulinas. os homens fizeram um campo de futebol. Pierre. Em Juína a organização da igreja em comunidades atendeu a uma necessidade inicial dos recém-chegados: (..

) Meu marido bebia. mesmo que em uma igreja lotada. passou a ser o espaço dos ritos e a partilha tomou a forma de “testemunhos”.. por mais que tenham enfrentado dificuldades. 19 de novembro de 2000. pela fé.123 sendo racionalizado e se tornando o lugar da casa.) se eu quisesse tratar dos filhos eu tinha que dar duro. o trabalho comunitário foi partilhado e sacralizado. colocou nossa mudança dentro. Nas CEBs. [perguntamos se gostava de Juína em 1978. gravado pelo coração. meu marido tinha comprado a mudança né. eu 42 Depoimento de Zenir Pires Rosa. Eu amarrava uma rede de um pau no outro e colocava um filho lá e o outro na barriga e o outro gatinhando (. Uma espécie de “nostalgia das origens”.. racionalizado. quando chegou à cidade] Amei.. .) apesar de tudo eu morava perto de minha mãe. Juína. e isso. a emotividade passa a ser vivida.. Posteriormente. Na memória ficou gravado o lugar da chegada. roçar. A utopia passa a ser projetada em outros espaços. a igreja. o templo. Pegou um caminhão. Ganha força a individualidade. Houve uma cotidianização do rito. semear. eu me divertia muito e não achava ruim. Eu morava no sítio. as ações visam as necessidades imediatas (limpar. No espaço da vida cotidiana. não como uma vaga réplica.. trabalhar para o sustento da família). em Juína. as relações interpessoais estão marcadas pela emotividade. Isso ajuda a entender a saudade geral sentida pelos muitos entrevistados daquela nascente cidade em que chegaram. o espaço foi organizado em função de necessidades individuais – e não grupais –. a partilha e a comum união.. a um tempo e a um lugar. Com o buchão na boca [grávida] e trepando nos paus. tudo tem a cor da esperança. Os móveis estavam na loja ainda. facilitou a convivência. não fazia nem pra ele (.. em Juína. No espaço sacralizado o olhar está tomado pela mística.) moremos um bom tempo debaixo da lona (.. racionalizado e dessacralizado. enfim.42 Aí foi então que minha vida começou aqui em Juína com meus pais. o olhar é funcional. mas como o lugar de afeto. e isso marca as relações interpessoais. local da peregrinação. assim. Fiz um barraquinho assim na beira da estrada onde o trator puxava assim para fazer o esgoto (. eu ficava igual moleque trepando nos paus. restrita ao sujeito. houve uma ritualização do cotidiano.

Fazia 2 anos que eu estava aqui em Juína ajudando a construir. ou seja. as relações sociais entre os cidadãos assumem características diferentes daquelas colocadas para o início da colonização local. aos poucos.) Então morei numa casinha nos fundos. Um dos sintomas foi o surgimento e rápido crescimento dos grupos de oração do Movimento da Renovação Carismática Católica. 2001. 28.) Hoje a gente faz do Paraná aqui com 3 dias. protetora. Juína.. Apenas dezoito meses depois de seu regular funcionamento na cidade foi que o pároco permitiu que esses grupos se reunissem na igreja44..124 fiquei 3 meses casada lá no Paraná. . só com 2 cômodos ali.. A outra razão seria uma decorrência desta última. Eu era servente de pedreiro junto com os homens. o espírito alerta se refaz. Uma das razões seria justamente a consolidação e o desenvolvimento do núcleo urbano nesta região – Juína saltou de 8. depois nos da área rural. Mas é possível identificar razões locais para tal resposta deste grupo de católicos a esse estímulo. inclusive porque a população rural declinou.026 em 2000. (.. Depois que passou 2 anos. Ultrapassado o primeiro momento de espanto e atordoamento. reformulando a idéia de futuro a partir do 43 Depoimento de Aparecida Dias. (. característica das comunidades iniciais foi substituída pela força centrífuga característica da economia das sociedades modernas. Isso refletiu em sua vivência religiosa. Apesar da oposição inicial dos padres.. um barraquinho pequeno. vivê-la na funcionalidade do ambiente doméstico. (. O fato de ser o MRCC e não outro movimento a se desenvolver na Igreja de Juína nesse momento tem clara conexão com o cenário nacional e com as mudanças intra-eclesiais.431 habitantes em 1980 para 38. Neste mundo urbano e racionalizado. p. deixamos os 2 prédios prontos. morando dentro da casa da minha mãe. Primeiro naqueles da área urbana. Houve um enfraquecimento sensível nas atividades dos grupos. o lugar da casa. eles proliferaram e se organizaram à revelia da vontade ou autorização da paróquia. até construir. A força centrípeta. nós fizemos com 14 dias. Nesse período a população urbana cresceu trinta vezes.) Era uma delícia aquele tempo! Eu tenho saudades daquele tempo!43 No decorrer da década de 1980 a cidade foi crescendo e se tornando.. As pessoas passaram a vivê-la no cotidiano. 21 de setembro de 2000. 44 Joanoni Neto. aí minha casa ficou pronta e saí do barraquinho e vim morar nessa casa.

ali todos se viram na contingência de se aliarem: Era bem melhor do que hoje. (. o irmão de Jandir. todo mundo enxergava todo mundo.) nós éramos aquela família bem vinda.46 As CEBs foram vistas pelos articuladores da Teologia da Libertação como o espaço do pobre. mas tal prática não rompeu com os limites do templo e nem com os do corpo (por ser individualista.. In: Schwarcz. L. eles mesmos voltaram a estabelecer entre si uma situação de competição. cit. 46 Martins. após isso. p. todo mundo era igual. v. “uma forma de assegurar a emergência do indivíduo e de seus interesses sobrepostos aos da comunidade”. (Org.. Todos compartilhavam. 1998. Pertencentes a grupos sociais distintos nos locais de origem. op. Em Juína elas – criadas com fidelidade aos objetivos nacionalmente propostos – serviram para abrigar não só os posseiros.) ninguém enxerga ninguém. matriz de um processo intelectual.) antes eu andava mal vestida na calçada e todo mundo me enxergava. 19 de novembro de 2000.. optam por voltar-se para a reconstrução de seu espaço privado.. o compadre Gringo [proprietário de posto de combustível. do despossuído. Hilton iam todos na minha casa. pesque e pague. o Dr. errantes e sem terras. 47 Depoimento de Zenir Pires Rosa. .. O homem busca reaprender o que nunca lhe foi ensinado.45 Os indivíduos inicialmente isolados uniram-se em um conjunto único apenas para fazer frente a uma situação problemática inicial. ela não consegue 45 Santos. História da vida privada no Brasil. Hoje (. p. 263. Ninguém era melhor que ninguém.) o compadre Gringo quantas vezes me levou latas de leite ninho do mercado dele porque nossa vida era muito precária. eu era amiga de todos (.47 O MRCC poderia ser a tentativa de alguns cristãos de manter a sacralização de um espaço que se dessacralizou. sentavam na minha cama.. dentro da igreja.. e pouco a pouco vai substituindo a sua ignorância do entorno por um conhecimento ainda que fragmentário. O entorno vivido é lugar de uma troca. José de Souza. Todo mundo era amigo. trocavam idéia comigo. Juína.. 723.. Do mesmo modo como optaram por participar dela.). Eu fiquei doente quando fui operada ali. fazendas e do primeiro supermercado da cidade]. A vida privada nas áreas de expansão da sociedade brasileira.125 entendimento novo da nova realidade que o cerca. São Paulo: Companhia das Letras. M. (. mas também os pequenos proprietários. 4.

no Consistório de fevereiro de 2001.126 fomentar a prática comunitária. . O indivíduo. nos últimos trinta anos. nas reinterpretações elaboradas pelos fiéis sobre os discursos da Igreja. tanto internacionalmente quanto nacionalmente. Ele enfrentou tensões internas provocadas pelo choque com o novo e teve que se adaptar às novas condições externas. A sociedade mundial e a nacional sofreram. O campo religioso será ainda hoje o campo das religiões? In: Hoornaert.). típica de outro modo de ser igreja). Conclusão Neste pequeno artigo procuramos delinear. p. lendo estudos sobre as Comunidades Eclesiais de Base na capital daquele Estado50. ainda que preliminarmente. a sua mensagem e a compreensão desta última pelos fiéis. 1984. ou mesmo pára. Entendemos que essa diversidade não é exclusividade da Teologia da Libertação ou da RCC. CEBs: um novo sujeito popular. Entendemos que se existe uma forte influência dos modelos propostos pelas autocompreensões da Igreja sobre o conjunto dos fiéis católicos. sofrerá as influências do quadro exposto acima e terá que adaptar sua forma de crer. ao ampliar o Colégio dos Cardeais de 50 para 184 membros. História da Igreja na América Latina e no Caribe. 98. mudanças sensíveis que precisaram ser mediadas pela Igreja Católica. tenta dar conta dessa nova realidade que aponta 48 Sanchis. Petrópolis: Vozes. 51 Joanoni Neto. 1996. Comparando os resultados de pesquisas feitas no interior de São Pau49 lo . e. estudando as comunidades em alguns pólos urbanos no norte de Mato Grosso51. 50 Petrini. E a Igreja Católica em Juína é a soma desses elementos mais os condicionamentos sociais locais (estes também influenciados por contextos exteriores). notamos a riqueza e a diversidade destes grupos que se adaptam às especificidades locais. portador de uma fé particular. A Igreja mudou sua forma de ser Igreja e o fiel mudou seu modo de crer na Igreja. mais recentemente. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2001. enfrentou problemas que precisaram ser harmonizados. O próprio Papa João Paulo II. algumas reflexões sobre a Igreja Católica. 1995. Eduardo (Org. “entre a boca do pregador e o ouvido do povo pode haver sempre o espaço de uma transmutação de signos”48. João Carlos. Pierre. e essa influência esbarra. Internamente a Igreja Católica. 49 Joanoni Neto. muito menos da Igreja brasileira.

os grupos de oração. as relativiza53. No caso de Juína.br/lemonde. com a consolidação do núcleo urbano e seu rápido crescimento. A mensagem da Igreja Católica foi apreendida e utilizada pelos colonos migrantes primeiramente como elemento para catalisação e construção de uma coletividade que evoluiria para se tornar uma cidade. latinoamericano e asiático. Henri. Quanto menos inserido o indivíduo. não a viram como realidade puramente material. do modo como lhe parece mais conveniente e para o fim que se lhe parecer necessário.. ao se deslocarem para lá. racionalizado. Alguns continuarão a militância na igreja. porém.. Disponível pela internet em: www. op. 54 Santos. estes grupos articulam a vertente individualista à dimensão comunitária. mais facilmente ele é atingido pelo choque de um novo saber. 264. O espaço é racionalizado. para além das possíveis resistências. O sonho da terra prometida. o lugar da peregrinação. outros passarão a viver sua fé de modo mais individualizado. o cotidiano se normaliza..) antes de 2010 a Igreja Católica terá mais de dois terços de seus membros nas áreas culturais. As dificuldades os levaram a imaginar realidades mais autênticas e mais profundas do que aquelas reveladas por seus sentidos. que vão do catolicismo mais tradicional aos panteões religiosos das culturas africanas e indígenas. . vivem um pluralismo que torna porosas as identidades individuais e. Quanto à presença das CEBs (originalmente estimulada pela Igreja). p. O novo lugar o obriga a reformular-se. Pastoral da Saúde. 21 de fevereiro de 2001. Le Monde. Em um momento posterior. CIMI. ou fora dela. com elas. e mesmo quando inscritos no espaço institucional da Igreja não se confundem simplesmente com ela.127 para a maioria da cristandade vivendo nos continentes africano. e. e posteriormente do MRCC e sua ponta de lança.uol. lingüísticas e religiosas que não têm mais nada a ver com a área greco-latina”52. cit. 104. nossa análise mostrou que os colonos. não se concretizou para muitas daquelas pes52 Tincq. a vida privada é reconstruída. entre outras.com. Mesclados a um sem número de influências. as da CPT.. se tornou o lugar da casa e o sagrado tornou-se uma necessidade vivida individualmente. p. O espaço tem um papel fundamental nessa descoberta “que vem do seu papel na produção da nova história”54.. Religião globalizada. Entendemos que o indivíduo se apropria do conteúdo doutrinal da Igreja e o instrumentaliza a seu favor. “(. cit. 53 Sanchis. op.

da fé em alcançá-lo. Negado seu espaço. A reconstrução do cotidiano não significou a perda do sonho. Alguns passarão a viver a expectativa de uma outra oportunidade. outros simplesmente se colocarão novamente a caminho. movidos pela esperança de encontrá-la. mentalmente construído. utópico. ele o projeta noutro. místico. que ele também tem direito a um pedaço de terra. da crença na sua existência. .128 soas. A crença no poder sagrado obsta que ele veja que seu lugar é ali.

REV./JUN. TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS – PROG. Doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense (CNPq). The Municipals Statutes or Posturas of the Council of Vila Bela (1753) are an unpublished document at the whole of colonials laws of the Capitania de Mato Grosso that permit to realize the process of organization a small urban place in this territory of frontier.1 – JAN. EM HISTÓRIA – UFMT – V. DE PÓS-GRAD.3 – N. situated at the center of South América. Palavras-chave: Keywords: Câmara – Vila Bela – Posturas Municipais * Council – Vila Bela – Municipals Posturas Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Mato Grosso.1753 Carlos Alberto Rosa* Nauk Maria de Jesus** Resumo Abstract Os Estatutos Municipais ou Posturas da Câmara de Vila Bela (1753) são um documento inédito no conjunto de leis coloniais da capitania de Mato Grosso que permite perceber o processo de organização de um micro-ambiente urbano neste território de fronteira. 2002 . ** Mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso. localizado no centro da América do Sul.129 Estatutos municipais ou posturas da Câmara de Vila Bela da Santíssima Trindade .

In: Nodari. refletiam de certo modo. prevendo penas e multas aos infratores. p. Em síntese. defesa do território. n. 2 Bicalho.). Série Documentos Ibéricos) . Às vésperas do Leviathan. 1998. 36. São Paulo. caso fossem considerados bons ao bem comum. organização das festas. As fronteiras da negociação: as câmaras municipais na América portuguesa e o poder central.. embora não tenham ainda sido localizadas. saúde e higiene. como o Rio de Janeiro. na Vila Real4. 1994. v. Isto porque as posturas não podiam contrariar o direito geral do reino. inexiste um livro específico para registro das posturas no século XVIII3. Coimbra: Almedina.130 As Posturas eram decretos ou regulamentos elaborados pelas câmaras municipais e estavam voltados para o benefício e utilidade das vilas. al. da categoria vila e da categoria cidade: a edificação. 357-360. pagamento de soldos. há indícios muito claros de que foram elaboradas na primeira metade dos setecentos. 3 Gouvêa. Maria de Fátima Silva. Algumas das normas definidas para os arraiais do Mato Grosso repetiam portanto as da Vila Real: 1 Hespanha. tendo alguns de seus capítulos adaptados de acordo com as especificidades locais. Pertencentes ao campo de atuação das câmaras. 1999. regulavam a produção e a reprodução dos ambientes urbanos. 18. 26/11/1737. ca. obras públicas e outros melhoramentos urbanos2. XVII. nem as regalias e competências reservadas a outros oficiais. Além disso. uma “margem de autonomia do poder local”. vigoravam por consentimento tácito do príncipe1. Maria Fernanda Baptista. Eunice et. como Salvador. vale dizer. a alimentação. Redes de poder na América Portuguesa – O caso dos Homens Bons do Rio de Janeiro. 4 Auto de Junta (. a higienização. Revista Brasileira de História. Em algumas cidades. p. 476. Instituições e poder político. Portugal – séc. Quanto às posturas da Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá. 1790-1822.. Os “acórdãos” podem aqui ser tomados como itens de “Estatutos e Posturas”. construção e reparo de fortalezas. inclusive se fossem “poderosos”. Elas nasciam da decisão dos próprios vereadores de enfrentar questões urbanas e seus parágrafos poderiam ser “emendados” ou mantidos. Simpósio Nacional de História /ANPUH-SP: Humanitas / FFLCH-USP. Arraial de São Francisco Xavier. As câmaras coloniais eram responsáveis pelo gerenciamento das rendas. História: Fronteiras. (Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional – NDIHR/UFMT. durante os seiscentos e setecentos. Em 1737. como os ouvidores. p. o ordenamento dos arraiais do então distrito do Mato Grosso (parte do termo da Vila Real) fundava-se nos “acórdãos que se estabeleceram na Câmara da vila desta Comarca”. é possível acompanhar os sucessivos “emendos” nas posturas. Antonio Manuel. Em outras. 309. Na América portuguesa elas seguiam os padrões metropolitanos.

131
(...) todas as pessoas que tiverem lojas de fazenda, tavernas ou casas
de pasto, as fecharão tanto que for noite e enquanto esta durar não
venderão coisa alguma aos escravos, nem os recolherão em suas casas (...) todos os negros e negras cativos que tiverem vendas e casas de
pasto e todos os demais escravos terão suas senzalas e casas junto a
seus senhores e administradores (...) e da mesma sorte viverão as
negras ou negros forros casados com escravos ou escravas; e todas as
pessoas que tiverem tavernas serão obrigadas a ter ramo verde na
porta e as que fizerem pastéis ou os venderem terão na porta um
ramo seco com um pano branco nele (...) nenhuma pessoa, de qualquer condição ou qualidade que seja levará coisa de comer e beber às
lavras (...) todas as pessoas que venderem serão obrigadas a ter pesos
e medidas aferidos e tirarão licença (...).5

É possível que todas as vilas coloniais tenham tido as suas normas,
embora pouco ainda se saiba a respeito delas.
Quanto às Posturas da Vila Bela de 1753, os vereadores enviaram uma
cópia ao governador da capitania de Mato Grosso, Dom Antonio Rolim de
Moura, para avaliação, antes de o documento ser remetido ao rei para aprovação. Em 1762, após as correições realizadas pelo ouvidor, as posturas passaram por revisão, com aprovação dos vereadores e presidência do juiz de
fora. Segundo o escrivão, a cópia tinha sido lavrada no Livro de Estatutos do
Arquivo da Câmara6. Em 1769, os vereadores informaram ao governador que
lhe tinham enviado os dois livros com cópias dos Estatutos Municipais, Portarias, Acordões e Privilégios7–, mas esses livros ainda não foram localizados.
Vale lembrar que no início do século XX a maior parte dos arquivos da
câmara de Cuiabá foi destruída por incêndio, o que explica, em grande parte,
não terem ainda sido localizadas as posturas da vila do Cuiabá.
Diante disso, a publicação de transcrição das posturas da Vila Bela da
Santíssima Trindade é de suma importância por contribuir para preservar a
memória histórica da vila do Guaporé, bem como por ser um documento
inédito no conjunto de leis coloniais que permite perceber o processo de
5

Idem. Documento de 1769 refere-se também às Posturas da Vila Real: Luiz Pinto de Sousa Coutinho ao
Senado da Câmara da Vila Real; Vila Bela, 01/01/1769. (APMT, mss., Livro de Registro de Correspondência, 1763/1769, f. 116)

6

Câmara de Vila Bela ao governador Dom Antonio Rolim de Moura, 22 de dezembro de 1762. (APMT –
Fundo: Senado da Câmara de Vila Bela, rolo nº 002)

7

Oficiais da câmara ao governador Luiz Pinto de Souza Coutinho. Vila Bela, 15 de junho de 1769. (APMT –
Fundo: Senado da Câmara de Vila Bela, doc. 11, rolo 002)

132
organização de um micro-ambiente urbano neste território de fronteira, localizado no centro da América do Sul. Esse documento é a expressão da urbanidade de Vila Bela manifestada por meio das palavras.
Os Estatutos ou Posturas estão guardados no Arquivo Público de Mato
Grosso (APMT) e seu manuseio requer cuidados muito especiais, pois suas
páginas estão seriamente danificadas.
Em relação à transcrição8, o texto foi atualizado em vários aspectos,
inclusive sua ortografia, a fim de facilitar sua leitura nos dias atuais: a grafia
das palavras comuns, a dos nomes próprios, o uso de maiúsculas e minúsculas e a pontuação foram aproximadas do padrão atual. As frases e palavras
ilegíveis foram colocadas entre colchetes. O vocabulário foi conservado, sendo esclarecido em notas de rodapé. Importantes para este trabalho foram o
Vocabulário portuguez e latino de Raphael Bluteau e o Dicionário da Língua Portuguesa de Antonio de Moraes e Silva.

Estatutos Municipais ou Posturas da
Câmara de Vila Bela da Santíssima Trindade - 1753
Cópia da Carta que a Câmara escreveu ao Governador Capitão General
remetendo-lhe os Estatutos e Posturas que abaixo se seguem.
“Ilm.º e Exm.º Sr.
Como já vai mostrando esta vila, com o favor de Deus e desvelo de V.
Ex., que no aumento de sua povoação virá a ser uma luzida República, era
tempo que esta Câmara cuidasse nos Estatutos ou Posturas para o Regime
dela, segundo o Estado do País, nos casos em que não temos lei expressa nas
do Reino; e o que nelas dispomos mais é para o futuro que para o presente,
a cujo fim formamos os cinco capítulos, que contém quarenta e nove parágrafos, que antes de os fazermos assinar pelo Povo, que para isso se acha
junto, os remetemos à correção de V. Ex. para os fazer ver e examinar, se
neles se encontra em coisa alguma ao serviço de sua Majestade, à sua Real
Fazenda, ao bem comum do povo; e com a determinação de V. Ex. tomarmos o melhor acordo, pretendendo pô-las na Real presença de sua Majestade,
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Deve-se ressaltar que a primeira transcrição integral do documento ocorreu em 1997, contando com a
colaboração de Cristiane dos Santos Silva. Entre os anos de 2001 e 2002, entre sucessivas interrupções,
foram feitas diversas revisões no texto, cotejando o original e o material transcrito. Agradecemos
também ao coordenador do APMT, Clementino Nogueira, por disponibilizar o material, já colocado fora
de consulta devido ao seu estado.

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para se digne aprová-las sendo servido, para firmeza das suas disposições: para
o que queremos, e pedimos que a resposta de V. Ex. haja de servir logo de
informação ao nosso requerimento. Deus guarde a pessoa de V. Ex. felizmente. Vila Bela, em Câmara, quatro de dezembro de mil setecentos e cinqüenta e
três. Eu Francisco Caetano Borges, escrivão da câmara que o escrevi. Beijam as
mãos a V. Ex. seus mais reverentes criados. Teotônio da Silva Gusmão. Antônio
da Silveira Fagundes Borges. João Raposo de Afonso Góes e eu Francisco
Caetano Borges que a escrevi e assinei. Francisco Caetano Borges.
Estatutos Municipais ou Posturas da Câmara da Vila Bela da Santíssima
Trindade para o Regimento da República nos casos em que não há lei expressa segundo o Estado do País.
Cap. 1º
Sobre culto Divino e Festividades da Câmara e da Igreja desta Vila
1º. Como tenha [danificado] particularmente da Igreja Matriz que [danificado] [danificado], é nua e despida sem adorno, o que [danificado] se distraírem a fazer diversas Capelas, do que se seguem [danificado] que são perfeitas e ornadas do necessário, esfriando a devoção com que [danificado] que
nelas fazem vem a faltar ao ornato da Igreja Matriz. Acordaram que nunca
esta Câmara desse licença e chãos para se formar outra alguma Igreja, ou
Capela, e principalmente aos pretos e mulatos que regularmente são os que
andam com Nossa Senhora do Rosário fora da Paróquia, e que havendo devotos desse ou daquele Santo a quem quisessem formar capelas ou Igreja,
reduzissem essa despesa em lhe fazer altar na Matriz, com o que viria esta a
compor-se e adornar-se, e que desta proibição era isenta a capela de Nossa
Senhora Mãe dos Homens que presentemente se fabrica com esmolas do
Povo, por ser devoção intentada ainda antes da criação desta Vila; e assim no
caso que pelos anos futuros se queira reedificar, ou acrescentar a dita capela,
não haja dúvida alguma em o consentir a Câmara.
2º. Por evitar o abuso de muitas Terras do Brasil, que estando regularmente a Igreja Matriz na Praça Principal, do Adro dela e grande parte da
Praça fazem cemitério com disformidade nos altos e baixos com que ficam as
covas, que é a mesma entrada da Igreja, serve de insuportável defeito. Acordaram que a Câmara não consentisse em tempo algum, este erro na formosa
praça desta Vila, aonde está determinado o lugar para Matriz, e que para
cemitério dos Índios, pretos e mais defuntos que não vão ao interior da Igreja
e se sepultam no Adro, se fariam claustros ou pátios no corpo de toda a obra,

. fosse logo preso com trinta dias de cadeia e seis oitavas9 de ouro de condenação para as despesas da Câmara. branco. provisão essa de 1748. expedida para a criação desta Vila. como regularmente sucede. com distinção que em lugar da festa de Nossa Senhora do Carmo. e à publicação da Bula da Santa Cruzada: Acordaram que esta Câmara com o Real Estandarte assistisse a todas estas funções. . para vir criar este lugar”. 3º. que os emolumentos dos oficiais fossem como nas Minas Gerais. e servia a capela que no lugar dela se acha. às três ladainhas de Maio. recomenda que observe nos emolumentos o que se pratica na Cidade de Mariana. e que o negro. do Te Deum Laudamus. e que nesse mesmo Adro é onde milita a proibição do parágrafo antecedente. parece que em tudo o mais quer Sua Majestade que o estilo da dita Cidade Mariana sirva de norma para esta Vila.. à Festa do Corpo de Deus. e que havendo algum Reverendo vigário que imprudentemente desprezador e oposto ao bom regime.). à do Anjo Custódio. fosse 9 Cada oitava equivalia a 3. à Festa de Nossa Senhora da Conceição. que na Cidade Mariana é Padroeira. Alterando a ordem original. ou carijó que abrisse sepultura no Adro que ocupa parte da praça. para vir criar esta vila10 e continuar a execução da criação da Vila. e não consentisse se lhe desse mais Adro que aquele que lhe é taxado pela Constituição. pode ficar mais claro: “provisão que mandou passar o Juiz de Fora (. à Festa de Nossa Senhora do Monte do Carmo. à ladainha de São Marcos. feita a 14 de dezembro de 1748. e que quando fosse ocasião de se benzer a dita Igreja e o seu Adro a Câmara que então existisse tivesse particular inspeção em ver demarcá-lo. e que dos palmos que se demarcassem e benzessem para Adro fariam um termo pelo tabelião. Como sua Majestade determina no parágrafo 3º da sua provisão de cinco de agosto de 1746. e enquanto se não edificava a Igreja Matriz. porque há tal Reverendo Vigário que nenhum escrúpulo faz em fazer toda uma Praça Adro da Matriz. fosse contra este Estatuto. Que não era a intenção desta Câmara tirar à Igreja Matriz o Adro que pela constituição e cânones lhe é devido.58 gramas de ouro. e pela provisão que mandou passar ao Juiz de Fora atual. 4º. da visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel.. em dia de São Silvestre. se continuasse o cemitério pelo lado desta como ao presente se faz. e assim como [danificado] vieram se mostra que a Câmara assista com o Real Estandarte à festividade do mártir São Sebastião. do Reino [danificado]. que se guardaria no Arquivo da Câmara. 10 A formulação desta passagem pode gerar equívocos. esperavam que Sua Majestade na confirmação destes capítulos declarasse o procedimento que com ele se devia ter.134 aos lados ou por detrás.

e por conta destes três festeiros correria o gasto. para autorizá-lo a exercer determinados cargos na governança municipal. E que para a festividade do Mártir São Sebastião. 6º. evitando-se por este modo as incivilidades de Irmandades e Eleições por cotas feitas. assim no número das Luzes. parágrafo 48. oficiais mecânicos. a saber: pelo mais velho a cera. 5º. de acompanhar: Acordaram que todo o que faltasse às ditas funções 11 Expressão utilizada no Antigo Regime para designar o indivíduo que possuía sangue. seguindo-se a Constituição. pelo que: Acordaram que nesta seria a Cera do altar e a que se desse ao corpo da Câmara de meia libra. é falsa no que oculta. têm obrigação os republicanos que assistem uma légua distantes da vila. música. a do Anjo da Guarda e a Solenidade e procissão do Corpo de Deus. como também se daria aos cavalheiros da ordem de Cristo que no dia de Corpo de Deus assistissem e acompanhassem a procissão com Mantos. que perguntando-se-lhe quem é Deus respondem que é Jesus Cristo. Sra. pelo segundo a música e sacerdotes. com o Real Estandarte. deve a Câmara fazer à custa dos bens do Concelho. Título 66.135 nesta vila como Padroeira dela a festa da Santíssima Trindade. Que na forma da Ordenação Livro 1º. como em ficar ao Reverendo vigário a que lhe tocar ou pertencer pôr direito. sob pena de a pagarem os camaristas pelos seus bens. que por isso pertence a todos. três festeiros dos homens bons11 e de mais posses destas Minas. . cortes de carne e Boticas a pagar a Cera. há muito pouco conhecimento deste sumo Mistério. 7º. ao qual desde logo se recomendava em geral que fosse o seu estudo em explicar o Mistério da Santíssima Trindade porque entre o gentio do Brasil e Costa da Guiné que nele vive. e o mesmo se observaria na festividade de N. se daria vela de 4º e da mesma qualidade seria a do Trono do Santíssimo exposto. cuja proposição sendo certíssima no que dizem. linhagem. Como em todas estas funções em que a Câmara sai fora. as festividades da visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel. da Conceição. Para a Festa da Santíssima Trindade: Acordaram que a Câmara nomearia um ano antes em a véspera do dito Dia e por mais votos. ocupação e privilégio que o faziam pertencer a um estrato social distinto o bastante. e aos sacerdotes nesse mesmo dia e ato. bem necessário nestas Minas do Mato Grosso por advogado da Peste. cuja eleição mandaria o Reverendo Vigário assinada pela câmara para no dia da Festa fazê-la publicar pelo pregador. e se não daria Cera a pessoa mais alguma. e pelo terceiro o pregador. obrigaria a Câmara aos mercadores. vendas. sacerdotes e mais despesas que houvesse rateada por eles. como Padroeira do Reino. e talvez supõem que não há mais pessoas em Deus que a de Cristo.

Acordaram que dos Almotacés14. fosse condenado em duas oitavas para as despesas da Câmara. Ouvidor do Cuiabá. para o que quando nesta matéria houvesse dúvida alguma em Câmara de absolver ou condenar. sob pena de quatro oitavas para as despesas da Câmara se chegasse a faltar 15 dias. 2º Dos [danificado] Reais. e que da mesma forma o Almotacel que perdoar ou absolver condenação alguma. ou com isso caísse nela. Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Como da falta da execução das penas se segue a falta da observância das posturas e o desgoverno da República: Acordaram que os oficiais da Câmara que absolvessem da condenação a qualquer que por omisso. onde cada qual trabalha por si. e que o outro fosse destinadamente feito para o Termo assistente no Arraial que mais cômodo ficasse para acudir aos outros e neles faria as almotaçarias e correções dela. 14 Responsável pela vigilância das edificações. 3º. o qual sempre fosse o mais velho. Rio de Janeiro: Objetiva. se houverem novos descobertos de ouro.). que cobraria o procurador dela irremissivelmente. Ronaldo (Org. 12 Jazidas organizadas em grande escala e com aparelhamento para lavagem do ouro. . Como ainda depois da vila povoada. porque o corregedor em correção examine como foi absolvido e compreendido. assistisse um na vila todo o tempo. Como a lei não declara o tempo e as vezes em que a Câmara deve sair a fazer correição geral pela vila e sucede haver corregedor que só por amontoar capítulos de correição impõe à Câmara onerosíssimas obrigações. dos quais é essa a obrigação. 2º. e hão de haver. se pusessem no Termo da vereança com distinção os votos dos que absolveram e dos que condenaram. 2000. a pagasse por seus bens. sob pena de as pagar por seus bens. a primeira dentro dos primeiros seis meses. taxação dos gêneros alimentícios e limpeza das vias públicas. aplicação exata dos pesos e medidas. em razão das lavras12 e faisqueiras13 e poderão formar-se outros. pois as correições de cada mês são próprias dos Almotacés. pelos dois arraiais da Chapada e Santana. mandando que cada mês saíssem a estas correições: Acordaram conforme o estilo geral da maior partes das vilas. a pagaria por seus bens.136 a que são obrigados. [danificado] Oficiais da Câmara 1º. Ver verbete Mineração em Vainfas. e a segunda dentro dos outros seis. Cap. como de presente fez o Dr. para o que logo em Câmara se averiguassem os culpados e se fizesse carga viva ao procurador das condenações deles. que só duas correições fizesse a Câmara no ano. empregando somente a bateia e ferramentas toscas. 13 Locais específicos de extração aurífera.

Ouvidor em correição fizesse capítulos em matéria alguma que não fosse a requerimento seu. não só a elas mais ainda a todo o Reino. o que muitas vezes é danoso à Republica.137 4º. e que o vereador segundo que for no ano que entra. mês e ano. cujo cuidado terá o segundo vereador. para no fim do ano. em 1782. integrar a “governança” – o que equivalia ao impedimento de nobilitar-se pela via camarária. conferida em Câmara. inclusive. e o contrário observaram alguns corregedores. o ouvidor interino Felipe José Nogueira Coelho proporá ao governador Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres a extensão deste exemplo da câmara vilabelense à repartição do Cuiabá e. estabelecendo punições severíssimas para o segundo vereador que deixasse de fazer esses registros. que aonde as temos expressas são escusados provimentos: Acordaram que a Câmara e povo não consentissem que o Dr. visto que esta Vila se acha no seu principio. que isto é o que dispõe a lei do Reino. se lançar no dito Livro de anal em que assinarão todos os oficiais dela. Aliás. mudanças de Governos. território de uma autoridade judicial. 16 Anais. ainda desde o descobrimento destas Minas: Acordaram que nesta comarca15 houvesse um Livro de Anal16 em que se escrevessem no fim do ano todos os outros sucessos pertencentes a estas Minas e Vila. fazendo memória do dia. em seu ano de mandato: a proibição de voltar a ser vereador. que do pouco zelo e cuidado de escrever os sucessos. os da arte. [danificado] novas e suas causas. 5º. e em termos de poder fazer memória. E. 15 Circunscrição judiciária. 47 anos depois. sendo certo e inegável que os trazem de casa feitos à sua vontade. rios. e à força os fazem lançar no Livro dos provimentos da Câmara e Correição dela. Pela mesma razão de evitar amontoarem os corregedores capítulos de correição escusados. 17 Este é um item dos Estatutos ou Posturas de Vila Bela que certamente o particulariza profundamente: a institucionalização da produção de “memórias” oficiais dos “sucessos” ou acontecimentos do tipo claramente indicado. a rainha Maria I ordenará que se pratique essa produção de “memórias” em todo o Império. a saber: descobrimentos assim de ouro como de terras. . nomes das pessoas e suas qualidades. porque possa este assento ter a todo o tempo plenicissima fé para os vindouros. assim sua [danificado] e quaisquer outros sucessos extraordinários de [danificado]. e o dito vereador a quem competir fazê-la no seu ano e faltar a este zelo e cuidado. e pelo contrário este cuidado e zelo pode ser proveitoso. “republicano”. que contra a vontade da Câmara e Povo faziam muitos. se tomará assento em Câmara que fique inabilitado e expulso de tornar a servir nela17. estão a maior parte das Povoações e vilas do Brasil sem conhecimento e notícia alguma dos seus princípios. com a falsa narrativa de que lhes fora requerido provimento naquela matéria. Como tenha mostrado a experiência. até ao presente. civil ou eclesiástica. Gentios. trazendo neles o que trazem as leis. fará diligência e obrigação ou averiguação desde o primeiro descobrimento destas Minas.

se podem conservar. cortesã de capa e volta tão próprio nos que têm jurisdição de governar: Acordaram que em tempo nenhum os oficiais desta Câmara. 8º. e assim nas mais. 7º. sob pena de que quem aparecer nas referidas funções de outro traje será condenado em quatro oitavas para as despesas da Câmara pela primeira vez. que são opostos à jurisdição Real usurpadores dela. seja a pessoa que for e dali para cima toda a mais que quiserem. Droguete: tecido ordinário de lã. 20 Desde a segunda metade do século XVI até meados do XVIII. deve ser em fabricarem casas suntuosas na Vila. 18 Moderação ou modificação racional com que se interpreta e suaviza o rigor de uma lei ou matéria tocante à justiça. sobre a jurisdição ou Regime da República. porque assim se fará mais extensa e formosa esta Vila. e não menos ao Regimento da República. mas algumas leis foram específicas para negros e mulatos. e passe a vara ao vereador mais velho: Acordaram que este. e cabeleira comprida. O Brasil colonial estava sujeito à mesma legislação. sob pena de lhe dar o corregedor em culpa na correição. tecidos. ou somente de lã. porque estas não só servem de adorno a seu dono. e às disposições dos que governam a República. pelo que: Acordaram que esta Câmara em tempo nenhum desse licença. almotacés e homens bons da Governança que nela tiverem servido.138 6º. a legislação régia estabeleceu determinações sobre os tipos de trajes. por ter mostrado a experiência e muito principalmente em Minas. e pela segunda em dobro. Como para o respeito e asseio de uma Câmara concorre também o traje. e não o luxo dos vestidos que o tempo consome. porque seria indigno que com outra qualidade de traje fizessem as funções de um Corpo Tribunal que é a cabeça da República e não deve haver escusa de pobreza. ornamentos. será de baetas ou crepe. No que mais devemos cuidar os moradores destas Minas. nem a Câmara por modo algum direto ou indireto. Sucedendo que falta o juiz de fora. de droguete castor19 ou seda. . Lemiste: tecido de lã. assistam às funções públicas da Câmara. seda e algodão. olhando pouco para as ordens reais e buscando interpretações a elas com a capa de Moral e epiqueas18 muito alheias da obediência que devem ter os Povos às ordens do seu soberano. curta e volta. ainda com o pretexto do mais apertado luto. nem chãos para casas de menor frente que de sessenta palmos. tome assessor ou se aconselhe em coisa alguma com clérigo ou religioso ainda que letrado seja. senão no referido traje de Capa. além de que são bens de raiz que conservando-se. mas de aumento e formosura à República. e de empenhos para um tal vestido que pode durar muitos anos. mas sim de lemiste. cujo vestido em tempo nenhum. quando se vê que no luxo de outras galas anuais se não olha para a impossibilidade20. preto e fino. arreios de animais permitidos ou proibidos às mais diversas categorias sociais. podendo. armas. 19 Baeta: tecido felpudo de lã.

O contrato dos subsídios das águas ardentes da terra. O contrato do subsídio das bebidas que vem de fora. e por cada cabeça de porco. 3º. E o do rendeiro do ver. quis [danificado] dos subsídios da Câmara [danificado] que numa [danificado] tivesse rendas. em lhes perdoar muitos dos seus direitos reais. cada um destes contratos e subsídios na maneira seguinte: 2º. Por este contrato ficam inibidas as tavernas e vendas de ter e vender este gênero. e os que fabricam a dita aguardente a poderão vender no seu Engenho aos frascos. do que cobrá-lo dos Senhores de Engenho que a fazem (um tanto por frasqueiras) como se usa na Vila do Cuiabá. e outro na Estrada pública que vem a ela.139 Cap. ou grande ou pequena. se arrematarão os de fora aos outros contratadores. contratos e rendas da Câmara 1º. como as de porco. O contrato das aferições. meia pataca21 de ouro por cada uma rês. porém não se proíbe que possam haver na vila as vendas que quiserem para os mais gêneros de comestíveis e bebidas. assim de vaca ou boi. . Como sem rendas não pode a Câmara acudir as muitas despesas a que é obrigada anualmente. e não por outra 21 Equivalente a 320 réis. nem se pode entender que fazendo Sua Majestade graça dos moradores desta vila. se pagará uma oitava e meia de ouro. além de que a provisão de Sua Majestade para a criação desta vila só fala nos seus direitos e não compreende a isenção dos que tocam à Câmara: Acordaram que esta vila tivesse para as rendas das despesas públicas os mesmos contratos e subsídios que tem quase todas as vilas do Brasil e a sua vizinha a vila do Cuiabá. a saber: o contrato do subsídio das cabeças. consiste em estancá-las. 3º. e outro em cada um dos dois Arraiais. ou pequena que se cortar para se vender. ou porca grande. e o contratador deste subsídio não terá mais estanques que um na Vila. que é o preço porque rematar o contrato e este meio acharam ser mais conveniente para este subsídio. O contrato dos subsídios das cabeças. O contrato das águas ardentes da Terra. que passa aos brancos. e quando só haja quem queira o estanque da Vila. e o contratador que quiser ter o estanque dela pagará por subsídio para a Câmara o prêmio de ser ele só. como é na Vila do Cuiabá e como se está praticando nestas Minas desde o seu princípio. O contrato do subsídio das canoas que de fora vêm com negócio. coisa muito necessária à República por evitar a laxidão com que se vende aos negros barateando-se. e ocasionando com a barateza mais bebedices. consiste em pagar quem: Cortar boi ou vaca para vender. Dos subsídios.

O contrato do subsídio das bebidas de fora. e de revista um quarto de oitava. Por uma vara ou covade sendo novas meia oitava e sendo já aferida e de revista quarenta réis de ouro. De cada medida de bebida sendo novas e um quarto.140 alguma medida miúda. ou havendo de vendê-la ao estanqueiro. meia oitava. como está estabelecido na Vila do Cuiabá. consiste em que toda a frasqueira ou Barril de vinho. O contrato das Aferições consiste em pagarem de uma balança de libra de pesar ouro. e de revista [danificado] sendo nova uma oitava. e sendo já aferida meia oitava. e só vendendo-a por frasqueiras inteiras. e um quarto e sendo já aferido quatro vinténs de ouro e de revista dois vinteiros de ouro. O subsídio das canoas que vêm de fora com negócios. 22 Do Cuiabá. vinagre. nas Baiucas metidas pelos matos e desertos. que será ocasião de faltar quem arremate este contrato. poderá baratear o preço. uma oitava. azeite. e assim também na vila. e sendo já aferida um quarto. em casa de sua vivenda. e pelas lavras à pilhagem dos jornais dos negros com o engodo de que lhes vendem pelo referido modo. O contrato do rendeiro do ver consiste nas condenações dos que se acham ocultamente vendendo sem licença. e vendendo-a assim por frascos. por remuneração do Porto. e a aguardente do Reino que se vender nesta Vila ou no seu distrito. e um quarto. quarta e meia quarta sendo novas por cada uma meia pataca e sendo já aferida quatro vinténs e dois de revista. . ou Arraiais. 6º. e o mesmo por uma balança de quarta de uma balança [danificado] sendo nova. ou na que costumam dispor dos mais frutos de suas lavouras. 4º. porque lá o pagaram para a Câmara daquela Vila. 5º. Com declaração que as bebidas que de lá vierem22. sem pesos e sem medidas aferidas. sendo já aferida meia oitava [danificado] lá que [danificado] de ferro sendo novo. sendo nova duas oitavas e sendo já aferida uma oitava. consiste em pagar. uma oitava de ouro por cada uma grande e meia oitava por cada uma pequena de lotação de vinte cargas para baixo. pague uma oitava de ouro. e de revista meia oitava. sendo já aferidos quatro vinténs e de revista dois vinténs de um terno de meia alqueire. não será por menor preço do que o estanqueiro. sendo já aferida oitenta réis e de revista dois vinténs. pelo não prejudicar. quatro vinténs e dois vinténs de todos estes seis vinténs de ouro sendo novos. 7º. De uma balança de meia libra sendo nova. o que regularmente sucede em Minas. são escusas deste subsídio. Del [danificado] terão de pesar [danificado] das balanças de pesar ouro para saber.

12º. cujas casas se devem reputar prédios urbanos e não rústicos. que sem despacho também dela não sai do Porto embarcação alguma) sob pena de seis oitavas de condenação para as rendas da Câmara e trinta dias de cadeia. como por outros inconvenientes à República e bom regime dela. e não compreende aos Arraiais destas Minas. que o contratador da casa pagará ao contratador delas das rezes que matar. Por facilitar a que hajam criadores de gado com a certeza de terem saída quando a queiram cortar: Acordaram que assim no tempo presente em . que as referidas casas nos Arraiais pagassem para as rendas da Câmara meia pataca de ouro que é um quarto de oitava por cada braça de testada e em cada um ano. este é o meio desta inspeção. como tem outras Vilas. não sairia canoa alguma para a cidade de Grão-Pará sem despacho desta Câmara depois de ter o despacho do Governo que primeiramente deve tirar (coisa tão praticada nos Portos de mar. 11º. e cessaria demolida que fosse e novamente: Acordaram subsistisse este foro como estava determinado. se acordou em junta que se fez com o Povo em Câmara no dia quinze de junho deste ano. por cada pessoa branca ou livre que na dita canoa for sem despacho e licença dela. uma oitava de ouro. isto é só daquelas que se venderem para irem para fora do Porto. e nela ponha os pesos necessários para o corte: Acordaram se arrematasse a quem mais der por ano pela dita serventia e a quem mais barato [danificado] encaminha à utilidade comum de haver um obrigado a dar a dita carne sem falência durante o ano de sua rematação. estas vivendas convém onerá-las. 10º. No caso que algum tempo esta Câmara possa fazer à sua custa casa de açougue. da lotação de trinta cargas para cima. E porquanto nesta matéria já devem quando chegam a sair para irem a negócio: Acordaram que assim por isto. e a ver parte certa deste mercado. Suposto fosse Sua Majestade servido na Provisão de criação desta Vila. isentar as casas dela de pagarem foro à Câmara para a maior regalia dos seus habitantes e mais facilidade da Povoação. são da República) pague para a Câmara. sendo grande da dita lotação e sendo pequena meia oitava. 9º. Além dos referidos subsídios e contratos para as rendas da Câmara: Acordaram que toda a canoa que se fizesse nos matos desta Vila e seu distrito (que ainda que sejam particulares. com declaração que este contrato é diverso do subsídio das cabeças. com as penas e condições que nela se opuserem. como esta graça de Sua Majestade é só restrita para a Vila.141 8º. e distrito a negócio e não as que se vendem para a terra. enquanto Sua Majestade não mandasse o contrário. porque os Povos se resolvam a povoar a Vila aonde não tem essa pensão. porque devendo ela para aumento da Vila não consentir que saiam oficiais mecânicos. cujo foro duraria somente enquanto existisse a casa e vivenda.

Também deve esta Câmara arrematar por contrato anual o ofício de arruador23 das casas da Vila porque se façam com simetria e compostura as ruas: 23 O arruador. e a pouca esperança que há de o ter logo de criação em abundância. 15º. . ainda que sua seja. ou privilegiado. sob pena de trinta dias de cadeia. e deixando arrematar ao Marchante e a serventia da casa. como no caso do parágrafo acima. ficará exposto ao que acima está determinado. era responsável pelo arruamento e demarcação dos espaços nas vilas.142 que não há açougue certo. para que lhe dê licença para dispor dessas reses querendo. e a incerteza de que venha de fora. que por respeito delas e da incerteza de haverem criadores que supram todo o ano com a carne necessária seria loucura deixar de arrematar a certeza do corte a quem assegure. Tese (Doutorado em História) – Universidade de São Paulo. nem ninguém pretendese cortar por menos preço o fizesse saber a Câmara que publicaria Edital para que o criador prefira. vaca ou novilha capaz de criação. segurando o mesmo que o Marchante prometer. sucedendo haver quem se queira obrigar a dar gado de corte por muitos anos com o privilégio de outro nenhum o cortar ou seja. como também a providência de o ter certo por este meio. 1996. com o menor preço não poderão depois pretender estorvá-lo com querer cortar uma ou duas rezes. ou havendo casa de açougue da Câmara e o contrato da serventia dela: Acordaram se lhe houvesse de fazer arrematação por tempo de cinco anos precedendo Editais por um mês. A Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá – vida urbana em Mato Grosso no século XVIII: 1722-1808. Pela mesma razão da falta de gados: Acordaram que pessoa nenhuma com pretexto algum mate rês fêmea. e neste caso se haverá o criador com o Marchante Contratador. e quando por ser vaca maninha a queira matar o faça saber à Câmara para examinar a verdade deste pretexto. havendo criador que queira cortar pelo mesmo preço no presente tempo e. precisa fazer uma larga despesa e com largo tempo de mandar buscar o dito gado aos Goiás ou currais da Bahia. e não o fazendo. sufraga esta concessão que aliás parece extraordinária atendendo juntamente a que em semelhante caso este arrematante. 14º. contanto que a carne seja tão boa. Em razão da falta de gados. 13º. ver Rosa. contratado pela câmara. porque a falta que tem havido de gados nestas Minas. e enquanto não há casa de açougue pela Câmara. Sobre o arruador na Vila Real do Senhor do Bom Jesus do Cuiabá. Carlos Alberto. como de presente é. para o futuro com o contrato da serventia da casa preferirá a qualquer Marchante de fora. São Paulo. cujo aumento e abundância deve ser um dos grandes cuidados dos que governam a Republica. e seis oitavas de ouro de condenação para a Câmara. nem o contrato da sua serventia.

pão e outros semelhantes gêneros: Acordaram em que houvesse em cada um dos ditos dos Arraiais uma só venda e que a Câmara arrematasse. ou na cidade do Grão Pará. e das carregações que vierem do Cuiabá em cavalos os gêneros necessários para provimento de suas casas: Acordaram que em trinta dias. esta a mandasse logo desmanchar à custa do dono dela. em primeira mão. e sempre dobradas nos mais comissos em que caírem. ou por este Rio Guaporé abaixo. 1º. farinha de trigo. . e que toda a casa que sem ser arruada24 pelo arruador se levantasse. ou de comissão. alinhada. pagando em prêmio para a Câmara o preço da sua arrematação. 4º De outras proibições comuns a todos os súditos desta República. não consentirá a Câma24 Traçada. se estivesse fora da linha e de qualquer sorte que esteja bem ou mal alinhada. pagará para a Câmara 6 oitavas de ouro de condenação com 30 dias de cadeia e se fará desmanchar a compra não só em castigo do comprador. e a esta de nenhuma sorte se concederia vender aguardente de cana por ser do estanco. [danificado] Como se dirá em outro lugar [danificado] em cuja vizinhança estão os ditos Arraiais [danificado] das providências a que não falte para os doentes o vinho. sortimentos. e aquele que assim o fizer. comprar das canoas de negócios que vierem do Grão Pará para esta vila. sempre o dono fosse condenado em seis oitavas de ouro para as despesas da Câmara por ir contra esta postura. a cujo título muitas vezes atravessam toda uma carregação para a revender ao povo. fumo e toucinho.143 Acordaram que o arruador tivesse de cada Braça que demarcasse e medisse quatro vinténs de ouro. Como pode suceder que nas Minas do Cuiabá. vendilhão ou traficante não compre por junto das ditas canoas e carregações. feijão. vinagre. Cap. aguardente. constando disto. taverneiro. em que vendam os frutos de sua lavoura. se levante alguma peste de que Deus a todos nos livre. como já este ano se praticou. milho. arroz. ou no seu circuito. como são farinhas. demarcada. Porque os moradores da vila e arraiais possam a menor custo. salvo se na mesma venda ele estivesse juntamente e por esta Postura se não entende proibir aos Lavradores que tenham nos ditos dois Arraiais casa. mas do vendedor. marmelada. e pela segunda vez será dobrada a condenação e prisão. e se está observando nesta. ou sua. açúcar. 16º. a preferência ou privilégio daquele ali há de ter. 2º. como se pratica na Vila do Cuiabá. ainda que já tivesse concessão da Câmara para os chãos.

Os Estatutos já sinalizavam para o perigo que os contatos poderiam gerar. cujos lugares se assinalam para os lazaretos25. Ver Nauk. e deixálos para os ditos lazaretos. passem da Casa Redonda para cima. pelo que: Acordaram que todo o preto. nem as tropas que vierem do Cuiabá passem do Rio Jauru para cá. e o comestivo. um dia antes de chegarem a esta vila. a soltura com que os pretos usam de porretes e outros semelhantes instrumentos ofensivos. Universidade Federal de Mato Grosso. Quanto às relações com a Vila do Cuiabá também eram intensas. Desse modo. . sob pena de que obrando o contrário. ou baiuca [danificado] queimada e aqueles quebrados. protegia-se a vila vigiando os caminhos de acesso. e outros ainda sem isso as mandam a buscar o jornal. seja presa e condenada em 30 dias de cadeia e 6 oitavas de condenação para as despesas da Câmara. Sendo queixa e universal escândalo de todas as minas. O contato com o Grão Pará intensificou-se em 1755. para se por cobro com todas as forças neste absurdo: Acordaram que todas as negras.144 ra que as canoas que vierem do Grão Para. e demais no prêmio que se taxar ao rendeiro do ver. com a falta de inteira administração de justiça. e a maior parte usurpados a seus senhores. na repartição do Mato Grosso. e constando à Câmara. após a fundação da Companhia do Grão Pará e Maranhão. sem estarem ocupadas no exercício de minerar. e acabada ela. Saúde e doença: práticas de cura no centro da América do Sul (1727-1808). logo os fará despejar da vila e seus circuitos. 3º. ou cativo que de 25 Local para quarentena. Também não é de pouco escândalo e dano. se têm desaforados as negras. e quer de um modo quer de outro. a trazerem vendas pelas lavras à pilhagem dos jornais dos negros. que desde o seu princípio até o presente. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais. A casa redonda era um ponto de parada militar localizada nas proximidades do rio Corumbiara. e como hajam homens brancos que deste modo de vida se valem. mulata ou índia que se acharem em lavras ou faisqueiras gerais. porque regularmente os escondem no mato. ou livre. ainda que senão achem com instrumentos de tavernas e comestíveis. e escandaloso. mulato ou índio. ou bebidas que se me[danificado] rendeiro do ver. e principalmente destas. além do dano comum e infalível. A regulamentação do estado de quarentena foi uma das medidas adotadas visando preservar a saúde da população. onde se eram estabelecidas as pessoas suspeitas de contágio. 26 Quarentena é o isolamento imposto a portadores ou supostos portadores de doenças contagiosas. pela segunda vez. farão aviso à Câmara para os mandar visitar pela saúde. 2001. a cuja obrigação e contrato incube esta inspeção e correição [danificado] da venda. mandando negras com ridicularias comestíveis a vender pelas lavras. e assim nas mais. regularmente é por meio pecaminoso. e fazerem neles quarentena. 4º. cativa ou forra. terá as penas acima referidas em dobro. assim forras. como cativas. Maria de Jesus. e serem condenados os donos das tropas ou canoas em 6 oitavas de ouro para a Câmara26. Cuiabá.