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O facebook como esfera pública: anseios e limites da democratização do

espaço público via internet

Camila Moura
PUC-Rio
Departamento de Pós-Graduação em Educação - Doutoranda
pintocamilam@yahoo.com.br

Resumo: Esta comunicação tem como objetivo apresentar algumas reflexões
sobre a democratização da esfera pública via internet, chamando atenção para
suas possibilidades e limites, relacionando-a a ampliação da conversação civil na
rede mundial de computadores cada vez mais disseminada em nossa sociedade.
Dentro do largo espectro de possibilidades de análise que este tema proporciona,
a rede social facebook foi escolhida como o foco da reflexão por apresentar um
espaço público relativamente democrático no que tange a publicização de ideias,
além de proporcionar uma plataforma acessível ao diálogo de seus usuários.
Argumento, utilizando conceitos como esfera pública e opinião pública de
Jürgen Habermas, que apesar de oferecer um locus favorável a liberdade
comunicativa, a democratização da esfera pública via internet ainda encontra
alguns obstáculos a serem superados. Ao final da reflexão, atento para o
importante papel reservado à educação crítica e emancipadora na construção do
discurso dialógico e discussão de ideias, fundamentais na construção dos
espaços públicos enquanto palco de deliberação dos cidadãos, principal via da
democratização da esfera pública no século XXI.
INTRODUÇÃO
Esta comunicação tem o objetivo de apresentar uma reflexão acerca das
possibilidades e limites da democratização da esfera pública via internet. De
acordo com minha visão, a internet proporciona tanto as condições de ampliação
quanto de limitação da expressão política dos cidadãos, contribuindo tanto para a
promoção de um novo espaço público de debates quanto a sua própria incerteza.
Para desenvolver esta problemática, opero com o conceito de esfera
pública como o espaço da formação da opinião pública (Habermas, 1990, 1997),
para relativizar a existência de uma amplamente disseminada democracia digital
na internet.

propondo compreendê-lo enquanto um protótipo da esfera pública habermasiana. o surgimento da esfera pública é inseparável do processo de formação dos Estados Nacionais. local de discussão livre e racional no exercício da participação política. mas sim uma educação crítica e dialógica. Mas seria possível considerar a internet. a esfera pública dos dias de hoje? Jürgen Habermas. necessários ao debate de ideias. no entanto. De acordo com Alvritzer e Costa (2006) . Neste sentido. em permanente processo de produção do discurso simbólico na construção do ideário nacional. não seria implausível conceber a existência de uma esfera pública global e digitalizada.2 Procurarei desenvolver uma reflexão que não se limite a uma visão deslumbrada acerca dos potenciais democráticos da internet sem. dentro de uma mesma nação são encontradas diversas esferas públicas. pois é com a noção de nação que o espaço de comunicação e convívio torna-se um espaço de produção e reprodução de signos identitários que definem Nação. argumentando que o principal aspecto a ser ressaltado ao pensar a ampliação da participação política e deliberativa dos cidadãos está para além do entendimento da internet enquanto espaço público democrático. Ao final do texto reflito especificamente sobre o facebook e seu potencial deliberativo. que proporcione as condições mínimas de racionalidade e discernimento político. em entrevista concedida a Howard Rheingold em 2007. responde esta indagação. então. chamando atenção para o fato de que a internet tem o . ao alargamento das fronteiras nacionais e a globalização da informação. devido em grande parte. distintas arenas. que a tecnologia é um dos diversos aspectos relacionados à democratização da esfera pública. negar suas possibilidades enquanto provedora de um espaço público democrático. Onde se forma a opinião pública? Durante o século XVII viu-se à ascensão de um espaço entre a esfera privada e o Estado chamado esfera pública. Concluo. Seguindo este viés.

envolvidos na conversação civil na internet devemos levar em 1 Trecho disponível. transformações no âmbito da política. que dificilmente pode promover de forma consolidada.smartmobs. No entanto.1 Contudo. a euforia em torno da internet enquanto promotora de uma esfera pública realmente “eficiente” no que concerne a formação de uma opinião pública construída de forma democrática.com/2007/11/05/habermasblows-off-question-about-the-internet-and-the-public-sphere/ Acesso em jun-2015. Se considerarmos a formação política. pois permite que um maior número de escritores e leitores contribuam na formação da opinião pública. em inglês. por exemplo. a ascensão de milhões de salas de chat fragmentadas em todo o mundo tendem a levar a fragmentação das audiências de grandes massas politicamente focadas. ao inserir no debate público um maior número de pessoas. seu pessimismo também deve ser ponderado. em um grande número de emissão pública isolada. No contexto dos regimes liberais. os debates on-line dos usuários da web só promovem a comunicação política. Dentro de esferas públicas nacionais estabelecidas. Todavia. “A Internet certamente reativou as bases de um público igualitário de escritores e leitores. no site: http://www. O autor relativiza. a construção da opinião pública e a comunicação argumentativa. . a comunicação mediada por computador na web pode reivindicar méritos democráticos inequívocos somente para um contexto especial: pode prejudicar a censura de regimes autoritários que tentam controlar e reprimir a opinião pública. funcionando em regimes autoritários como uma “esperança democrática”. quando grupos de notícias se cristalizam em torno dos pontos focais da imprensa de qualidade. dessa maneira. jornais nacionais e revistas políticos”. em democracias estabelecidas constitui-se como um espaço difuso de expressão de ideias.3 potencial de promover uma maior comunicação política.

a partir da garantia que possuem em montar assembleias e unirem-se. (. ou espaço público é um fenômeno social elementar do mesmo modo que a ação. 1997. da exposição de opiniões e trocas de ideias. antes de tudo.) A esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos. também no âmbito da conversação civil que ela pode se configurar. onde é possível atuar e agir através do diálogo. (. livremente e. tomando por público a reunião de indivíduos privados. queremos dizer.html Acesso em jun-2015. 2 Trechos disponíveis em inglês: http://cyberdemo. porém. nem como uma organização. ele não é arrolado entre os conceitos tradicionais elaborados para escrever a ordem social. antes de tudo. “Esfera..br/2007/11/entrevista-de-habermassobre-internet-e.. ela não constitui uma estrutura normativa capaz de diferenciar entre competências e papéis. citada acima. Uma porção da esfera pública constituise de conversas em que pessoas privadas se juntam para formar um público (. A esfera pública não pode ser entendida como uma instituição. o ator. sem estar sujeito à coerção. nem regula o modo de pertença a uma organização etc. cujos fluxos comunicacionais podem ser filtrados. o grupo ou a coletividade.blogspot.. uma instituição cumpridora de uma determinada função social.. Ela não deve ser considerada. partindo das próprias palavras de Habermas (1997) deve ser considerada uma rede de comunicação. sintetizados e discutidos a ponto de construírem opiniões públicas. mas sim um espaço discursivo. “Por esfera pública..com.92-93) Se a esfera pública. pois.) Os cidadãos agem como um público quando tratam de assuntos de interesse geral. em princípio. tomadas de posição e opiniões.)” (HABERMAS. o local onde a opinião pública é formada. ser um domínio de nossa vida social em que a opinião pública pode ser formada.4 consideração também as vozes individuais e dos pequenos grupos como importantes na construção da esfera pública. portanto. p. a esfera pública é. à todos os cidadãos. . nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos.. O acesso à esfera pública é aberta. De acordo com a visão de Habermas. exprimir e divulgar suas opiniões de forma livre2. é.

ele chama atenção para a falta de confiança generalizada. a burguesia. ocupando posição de destaque no “intrometer-se” da sociedade civil. era a sensação de empoderamento. então. que nas palavras de Castells (2013) vêm produzindo globalmente redes de indignação e esperança. De acordo com Maia (2006) a mídia exerce historicamente. (re)colocou a política na pauta de discussão dos cidadãos. na primeira edição de Mudança Estrutural da Esfera Pública (1962). no contexto da produção da opinião pública que a internet emerge enquanto possibilidade de construção de um espaço público alternativo a grande mídia. tanto nos processos de governança quanto nas percepções dos cidadãos da realidade social e política. As ruas clamam por uma revitalização da política. a partir da reinvenção do uso das redes sociais. papel fundamental na comunicação política. Ao refletir sobre as relações entre o poder e a comunicação. pois permite que um maior número de pessoas ocupe o lugar das fontes de expressão. possibilitou a troca de informações e experiências políticas ao redor do mundo. por meio da imprensa se intrometia nos assuntos políticos. No caso do conceito de esfera pública. suas experiências de revolta. podendo tanto fazer avançar o debate deliberativo quanto obscurecê-lo. Ela nasceu do . a despeito de contextos amplamente diversos em termos culturais. “Qual seria o fio comum que unia. antes restritos aos espaços institucionais do poder aristocrático. exigindo aumento da participação direta dos cidadãos na vida pública. A construção de redes de indignação global só foi possível. que acaba unindo insatisfações muito comuns. tendo a internet como locus central desse processo. a partir da metáfora da fofoca. Ela é central. econômicos e institucionais? Em resumo. resumindo-a enquanto um “intrometer-se” da sociedade civil nos assuntos da política.5 O autor Wilson Gomes (2006). Seria. O encantamento: internet como a esfera pública do século XXI A “onda” de manifestações. e não apenas de público leitor/espectador. cunhado por Habermas. explica o conceito de esfera pública como a publicização de ideias. que mais do que promover a sociabilidade de contatos. sobretudo a maneira como vem sendo conduzida. na mente das pessoas.

mas também por uma nova oportunidade de escolher as fontes de informação. O autor parte do pressuposto de que as mídias digitais rompem com o sistema da grande mídia. modificando a construção da opinião pública. sobretudo na formação de um “espírito pesquisador”. de forma igualmente entusiasta. não só por uma maior liberdade de expressão.Cit. Nos dias atuais.6 desprezo por seus governos e pela classe política. Há. essa nova dinâmica tem como resultado a perda gradual do monopólio de mediadores tradicionais de informação. E tornou-se possível pela superação do medo. altera e modifica a esfera pública. esse ambiente virtual exige um novo cidadão. conduziu a uma transformação radical do espaço público. cujo cerne da busca pelo conhecimento é a confrontação de várias fontes. o espaço público do século XXI é caracterizado. acredita que a internet. p. Por ser alimentada livremente. Contudo. por possibilitar a ampliação da expressão pública sem precedentes. Outro ponto colocado por Lévy (2011) é o caráter ubíquo. que proporcione uma alfabetização nessas novas mídias. 2011). a internet rompe com outra premissa do antigo sistema midiático. cuja participação ativa constrói. visto que as fontes e acesso à informação se diversificaram. grafos de relações pessoais ou conversas criativas que florescem na rede” (Op. devemos separá-los e aprender a filtrar as fontes contidas nos meios. o que pressupõe uma educação crítica. Foi desencadeada pela sublevação emocional resultante de algum evento insuportável. tanto liberdade de expressão quanto de audição. cuja fonte da informação se confundia com o meio de comunicação. fossem eles ditatoriais ou.2324) Pierre Lévy (2011). portanto. . disponíveis em diversos meios. (CASTELLS. assim como por uma nova liberdade de associação no seio das comunidades. 2013. pseudodemocráticos. sendo necessário adquirir uma gama de competências e habilidades. em sua visão. Em sua visão. mediante a proximidade construída nas redes do ciberespaço e nas comunidades do espaço urbano”. “Condicionado pela mídia digital. hypercomplexo e fractal das redes virtuais. Foi estimulada pela indignação provocada pela cumplicidade percebida entre as elites financeira e política. Isso significa estar consciente do papel de cada usuário dentro dessa rede de criação e compartilhamento de dados.

A “bagunça” desses discursos é um empecilho à criação de demandas que possam ser levadas ao poder público de forma organizada e focada. movimenta-se num espaço público. São amplamente distribuídas petições on line. não possui o poder de aglutinar uma multidão de produtores de discurso em causas específicas. “O espaço de uma situação de fala. Como já colocado. no sentido que propicia uma atmosfera mais aberta à conversação civil e ao debate público. mas que se alimenta da liberdade comunicativa que uns concedem aos outros.7 Assim. colocando que a rede mundial de computadores pode ajudar a democratizar regimes autoritários. desde que possuam uma conta de e-mail. enquanto provedora de um ambiente democrático à expressão. p. então.92-93). Habermas. parece não . Qualquer encontro que não se limita a contatos de observação mútua. É igualmente disseminada a livre manifestação e expressão de opiniões sobre políticos e seus governos. Contudo. por si só. 1997. compartilhado intersubjetivamente. apesar de ponderar sua crítica. a internet pode ser considerada esfera pública. Acredito ser mais apropriado pensar que o papel da internet na ampliação da esfera pública é possibilitar o alargamento e a disseminação de conversações civis. é inegável que a internet. assumindo obrigações ilocucionárias. pois é geralmente nos atos de fala como expressão de ideias que são construídos os debates no espaço virtual. E por mais que a efetividade ou a concretização dessas deliberações e reivindicações ainda sejam nebulosas. onde temáticas podem ser debatidas de forma aberta. abre-se através das relações interpessoais que nascem no momento em que os participantes tomam posição perante os atos de fala dos outros. através do acesso de suas páginas do twitter ou facebook. É conhecida a existência de fóruns deliberativos. onde quaisquer cidadãos. podem participar de abaixo-assinados virtuais contra ou a favor de diversas causas e bandeiras políticas. vem contribuindo na democratização do debate público. constituído através da linguagem” (HABERMAS. Relacionar. a categoria de conversação civil à internet enquanto esfera pública me parece uma ideia alternativa interessante à concepção de “nova” esfera pública tal como aponta Lévy (2011). a maior crítica de Habermas com relação a internet ser tomada como esfera pública consiste no fato de que ela.

a esfera pública se apresenta tanto como local propício ao livre exercício argumentativo. apresenta-se. internet e vídeo. A convergência digital pode ampliar a democratização da esfera pública. Contudo.8 levar em consideração. ela não serve apenas a esse . mesmo que não possuindo uma voz agregada em demandas pontuadas. foi coloca em xeque. que vai de um espaço essencialmente crítico e argumentativo a uma esfera dominada e atravessada pelos meios de comunicação atrelados ao poder. É inegável que o surgimento da internet enquanto canal de comunicação. demasiadamente. sua ampliação. tal como pontuado por Castells. quanto à dominação de determinados grupos. a priori. O que assistimos ao redor do mundo. ajudam a criar uma rede de produção de significados e conhecimento sobre a política. Alguns entraves ao livre diálogo: os barões da convergência digital De acordo com Lubenow (2007). o peso da internet na criação de uma nova mentalidade política. segundo as análises de Habermas. Contudo. pois possibilita unir voz. dois aspectos são particularmente importantes na compreensão do fluxo comunicativo virtual: a convergência digital e a criação de novas formas de concentração empresarial. cuja própria configuração da democracia. tal como exercida. por proporcionar maior interação entre diferentes indivíduos. também pode significar a restrição dessas possibilidades. há problemas estruturais no âmbito discursivo da comunicação pública. como local propício ao alargamento da esfera pública. onde os cidadãos. o que a torna. complexa. Desde sua origem à disseminação da internet. Assim. Situação somente possível com a velocidade e fluidez dos processos comunicativos das redes virtuais. foi uma onda de indignação mundial.

fortemente. da francesa Vivendi (GVT) e das norteamericanas NII (Nextell) e DirecTv (Sky). Nos últimos anos. É o exemplo da mexicana America Móvil (Embratel. 2013. que já representam 20% de todos os recursos destinados à propaganda. espanhola (Vivo). todas elas já oferecendo TV por assinatura. A Microsoft (que vêm investindo no Windows Mobile) comprou a Nokia”.) A pressão pela competição na web. também da TIM. o Android) comprou a área de celulares da Motorola. (VALENTE. No Brasil.9 alargamento3. 2013) concentram a veiculação de conteúdo midiático ao redor do mundo. além de deter a Embratel e a Claro. uma empresa fazia telefonia. . como consequência. 2013). controla a Vivo e recentemente assumiu parte do controle da Itália Telecom e. acesso à internet e telefonia. da Telefônica. o que acarreta na manutenção cada vez menor de grupos com o poder efetivo de influenciar o debate público democrático4. Alguns “gigantes convergentes” (VALENTE. no ramo das telecomunicações apresentava-se. A Google (que faz o sistema operacional para dispositivos móveis.20). Assim. Há alguns anos. A telefónica oferece esse pacote de serviços e São Paulo. sete empresas controlam não só a telefonia no Brasil. que duas das maiores empresas de publicidade do mundo (Publicus e Omnicom) se fundissem. esse xadrez ganhou a presença de novas peças poderosas: as provedoras de serviços e aplicativos para a web. a Telmex assumiu o controle da NET. outra televisão e outra radiofonia. por exemplo. vem levando a um outro movimento de fusões entre fabricantes de aparelhos e empresas de informática e serviços. Não podemos ignorar que apesar de haver maior tecnologia envolvida nos instrumentos. buscando alcançar maior competitividade no mercado. (. esses serviços são concentrados em poucas mãos. p.. mas hoje. O conglomerado abocanha metade das verbas de publicidade gastas na internet hoje. 4 “Exemplo foi a fusão da operadora de TV paga norte-americana Comcast cm a rede de TV NBC. em 2011. Institute of Media and Communications Policy –. a dinâmica levou a fusão dos conglomerados que atuavam em pequenos nichos. por exemplo. concentrado nas mãos de transnacionais. distribuição e acesso aos meios de comunicação digitais. Penso que o problema no entorno da questão da concentração do ramo das telecomunicações não se restringe à criação de monopólios envolvendo os 3 Há época da escrita desse trabalho. O Google nasceu como uma ferramenta de busca e hoje é a segunda maior corporação de mídia do mundo –fonte: Media Data Base. limitando a pluralidade de vozes e atores. em especial de smartphones. da Telecom Itália (TIM). o que fez. mas os serviços de internet e TV a cabo. a mexicana Telmex e a espanhola Telefónica avançam sobre os mercados latino-americano e europeu. Na área das telecomunicações. NET. Além de participação crecente da Telecom Portugal na Oi (GINDRE. o caso do Brasil.. Claro e Star One).

enquanto este número nas D e E é de 6%. neste sentido. quanto na imposição de uma programação e serviços bastante similares limitando o poder de escolha do cidadão. Ele coloca que os jovens optavam preferencialmente pelo portal G1. como na velocidade da transmissão de dados.10 grandes barões da mídia contemporânea. atua diretamente na limitação da participação do público. quanto dos serviços de telefonia. Unir grandes empresas em blocos econômicos de comunicação. tendo como foco da investigação avaliar os ganhos em cidadania gerados pelo uso de internet. Em números gerais. Vale sugerir. desenvolveu uma pesquisa com universitários. incluindo a proposição de agendas e discussões. recorrendo a poucas e repetidas fontes de informação. rapidamente. Na busca por alguma notícia. o provedor Google e a rede social Facebook. Se olharmos com atenção aos serviços e programação que oferecem. tanto do ponto de vista da incorporação de novas (e outras) vozes no espaço público. das Organizações Globo. sobre suas fontes de informação. Vale refletir. Marco Schneider (2012). na pesquisa TIC Domicílios e Empresas 2012. 97% dos lares da classe A têm acesso à internet. havemos de concordar que a maioria das pessoas acaba reproduzindo “antigos” hábitos. cerca de 40% dos lares brasileiros possuem acesso à . outro aspecto limitador da democratização da esfera pública via internet: a exclusão de grande parte dos cidadãos brasileiros da rede mundial de computadores. pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFRJ. mas na ameaça que eles representam ao real potencial democrático e de ampliação da esfera pública. A concentração. ou mesmo no caso de uma pesquisa. Há uma padronização tanto daquilo que é transmitido na programação. lideram o ranking de sites mais acessados no Brasil e faturam milhões por “apenas” veicularem conteúdos que não são produzidos por eles. o que restringe do ponto de vista da busca pessoal o acesso à diversificadas fontes de informação. significa diminuir a real competição entre elas. acerca dos limites que tangenciam a modernização da tecnologia e sua interface com a democratização do espaço público. Segundo o relatório produzido pelo Comitê Gestor a Internet (CGI). Por mais que a internet possibilite uma maior pluralidade de vozes. eles não são tão diferentes entre si. Os resultados apontam para uma reprodução dos hábitos de pesquisa por fontes consideradas confiáveis. então.

evidenciou toda a potencialidade de mobilização que as redes sociais podem criar em termos de deliberação política em nível global. e mais da metade da população brasileira. curtidos e vivenciados enquanto experiência discursiva. Há um grande número de dados circulando via facebook. especialmente após as manifestações de junho de 2013. Sua arquitetura. como olhar apenas com olhos deslumbrados para essa “esfera pública do século XXI”? A conversação civil no facebook A prática de expor visões e opiniões políticas na internet vem ganhando espaço no Brasil. visto que os episódios de multidões tomando as ruas foi basicamente orquestrada dentro de suas páginas. incluindo conversas. livre e democrática. que tomaram conta das ruas de diversas cidades brasileiras. Se considerarmos que o acesso à rede é um requisito mínimo rumo à democratização e ampliação da esfera pública. mobilizações e microindignações.11 internet. Basta uma rápida “zapeada” que é possível flagrar exemplos dessas experiências. diretamente. a democracia digital tem sido problematizada por educadores. a conexão internet-esfera pública relaciona-se. Esta conexão é possível devido a nova estrutura comunicativa. acadêmicos e comunicadores. Da mesma maneira que entusiastas vem defendendo a rede mundial de computadores enquanto foro deliberativo e democrático de multidões indignadas. A meu ver. Sua estrutura em rede propiciaria a diminuição da mediação das informações acarretando em maior diálogo e pluralidade na disseminação dos conteúdos. no sentido de ser mais horizontal. sendo bastante recorrente o seu uso para . sofrimentos. por exemplo. a imagem da internet como representativa de uma descontinuidade com relação às outras mídias. encontra-se fora dela. que apontam a falácia de reconhecer nela um espaço horizontal. que vão sendo compartilhados. tornada pública nas páginas da rede social. livre e democrático. O facebook. desenhada para ser ampliada via compartilhamento e transmissão de dados estimularia a livre circulação de ideias. central nas mobilizações de junho de 2013. que passaria da unilateralidade de emissão da informação (velha mídia) à multiplicidade de vetores comunicacionais (novas mídias). plural.

Obviamente. pois. a medida em que essas opiniões vêm à tona. Muitas vezes. enquanto que a “nova mídia” prefere ser apenas olhos que vêem. deixando que o próprio espectador tire suas conclusões. No que tange a formação da opinião pública. O coletivo ficou famoso no país e inaugurou uma nova maneira de produzir notícias e informação. por sua vez. Esse espaço torna-se “automaticamente” democrático. torna-se alvo de questionamentos e “intromissões” de terceiros. no sentido de emitir uma opinião formada. crua. Comentamos essas expressões discursivas utilizando argumentos para apoiá-las ou contrariá-las. Neste sentido. reinventando o jornalismo investigativo. Sentimo-nos confortáveis em concordar. Assumimos perante os atos de fala de nossos contatos digitais uma liberdade comunicativa atrelada a construção de uma democracia digital que vai além do Estado e do poder. Sentimos que dentro desse espaço público virtual temos assegurado nosso direito democrático de livre expressão. contribuiu significativamente para ampliar o potencial de debate e formação da opinião pública fora dos grandes veículos de comunicação. o espaço público da rede constrói-se no compartilhamento da expressão discursiva da vida privada e esta. transformando a internet em um grande espaço público de livre trocas argumentativas. dura. É comum opinar sobre essas expressões discursivas. utilizando-se de tecnologia facilmente acessível. veiculando a informação de forma mais instantânea. devemos também relativizar essa pureza. por mais que o discurso “mídia livrista” seja a imparcialidade. os olhos do grupo de jornalistas claramente se dirigiam a favor dos manifestantes e contra sua repressão. o Mídia Ninja. Nos intrometemos nos mais variados assuntos partindo do pressuposto de que temos esse direito. E o espaço preferido pela “nova mídia” na transmissão de seus conteúdos é a internet e dentro dessa nova realidade midiática. discordar e expressar o que pensamos sobre o que nossos “amigos do face” postam em seus perfis. as redes sociais podem criar .12 expressar nossa opinião sobre algo ou mesmo para contar ao mundo nossa rotina ou alguma angústia vivenciada no trabalho ou até mesmo uma desilusão amorosa. justamente por tentarem marcar uma posição de oposição a grande mídia. ficou amplamente conhecida no Brasil a atuação do Mídia Ninja que. É como se a “velha mídia” representasse olhos que enxergam. transmitia ao vivo as manifestações de junho de 2013. A tentativa era limitar ao máximo a produção de uma notícia.

Neste sentido. de conversação civil e de formação da opinião pública. contudo. pode ser considerado enquanto um modelo da esfera pública habermasiana. portanto. o compartilhamento de um filme. um dos pressupostos fundamentais à existência desse espaço argumentativo. é possível pensar a internet enquanto esfera pública. Sabemos. um espaço livre e democrático. acessível a todos. pois funciona enquanto espaço deliberativo. que é aqui tomado como o locus do desenvolvimento da opinião pública. Considerações Finais Partindo do princípio de que a função primordial da esfera pública é servir como espaço de deliberação da sociedade civil. o facebook. É igualmente válido dizer que. logo capaz de ser recriado e desenvolvido em torno de diferentes contextos comunicacionais. livre e democrática. uma curtida em um argumento ou o envolvimento em foros de discussão eleva o facebook. onde a opinião pública pode ser construída através de discussões e debates francos é que ela seja acessível à todos. . no sentido de que ela deva ser considerada. É importante reafirmar. justamente por conseguir promover algum tipo de deliberação horizontal. Tampouco parto de uma concepção ingênua de esfera pública como espaço mediador entre os anseios da sociedade civil e o Estado. apesar de exporem o grito da opinião pública e devolver a rua ao povo. tendo como produto da discussão a construção de uma opinião pública. à um protótipo de esfera pública habermasiana.13 uma atmosfera bastante favorável à conversação civil. tanto do ponto de vista da existência de uma verdadeira democracia digital. quanto de uma educação crítica. que este aspecto é problemático. mesmo que não seja totalmente democrática. fundamental na criação de sujeitos “preparados” ao debate público. em muito pouco modificaram as estruturas do poder. Contudo. Desta forma. apesar de não necessariamente aglutinar esses usuários em grupos comprometidos de fato com a transformação social. essencialmente. que não parto de uma concepção inocente da internet enquanto esfera pública. devemos partir do pressuposto de que a esfera pública deve ser compreendida enquanto espaço discursivo. visto que as passeatas e manifestações de junho.

Jürgen. CASTRO. O que está acontecendo com os nossos barões?. Disponível em: http://www. Editora UFMG. Apontamentos sobre o conceito de esfera pública política. social e político será possível afirmar. MAIA.pdf. Acesso. Considerações sobre a esfera pública: redes sociais na internet e participação política. Adriana. Rousiley. Editora UFMG. In: Midia. edição Nov. LUBENOW. Sulina. vol. In: Revista Caros Amigos. Rosiley. I.). HABERMAS. pois somente ela é capaz de produzir reflexões de cunho político a serem tornadas públicas na conversação civil. In: MAIA. atualmente. Rosiley. In: TransInformação. Raquel. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Campinas. 1997. Leandro & COSTA. Rio de Janeiro. HABERMAS.). Maria Céres Pimenta Spínola (org. cultural. KANT. Suely.br/eventos/emkant/texto_II. Gustavo. Sergio. 2006. 2013. Belo Horizonte. “Teoria crítica. Somente a partir de uma concepção de educação crítica. . Belo Horizonte. poderemos pensar na construção de uma esfera pública realmente democrática. Wilson. In: MAIA. esfera pública e identidades coletivas. Pensamento pós-metafísico: estudos filosóficos. AMARAL. CASTRO. 2013. em um momento de ampliação e democratização da esfera pública. GOMES. esfera pública e identidades coletivas. sem maiores problemas. Direito de Democracia: entre a facticidade e validade. REFERÊNCIAS AVRITZER. 1990. jun-2015. Apenas concretizando-se um ideal de ensino que mire à emancipação intelectual e não à reprodução do sistema econômico. RECUERO. 2006 MEDEIROS. um dos desafios à educação contemporânea é a formação política dos jovens tendo em vista a sua preparação para atuar nessa esfera pública. Jorge Adriano. Resposta a pergunta: O que é esclarecimento? (1783). Tempo Brasileiro. Mídia e deliberação: atores críticos e o uso público da razão. FRAGOSO. Tradução de Luiz Paulo Rouanet.II. Cadernos de ética e filosofia política 10. que vivemos. GINDRE. 2013.uesb. Maria Céres Pimenta Spínola (org. Jackson da Silva. In: Midia. Jürgen. Editora UFMG. janabr. 1/2007. A categoria de esfera pública em Jurgen habermas: para uma reconstrução autocrítica. esfera pública e identidades coletivas. 2006. Métodos de Pesquisa para internet. Belo Horizonte. democracia e esfera pública”. Porto Alegre. cada vez mais ampla e aberta. In: Midia.14 Neste sentido.

html . SITES ACESSADOS: Sobre a pesquisa dos 10 sites mais acessados: http://top10mais. TIC Domicílios e Empresas 2012 = Survey on the use of information and communication technologies in Brazil: ICT Households and Enterprises 2012 / [coordenação executiva e editorial / executive and editorial coordination.L. Alexandre F.15 SCHNEIDER.com.blogspot. São Paulo. Dezembro de 2012. 2013. tradução /translation DB Comunicação (org. N. Barbosa .A. 2008.br/2007/11/entrevista-de-habermas-sobre-internete. Estudos em Comunicação nº 12. Convergência digital. Internet e Cidadania nas periferias do Rio de Janeiro.org/top-10-sites-mais-acessados-do-brasil/#ixzz2nScIVhnG Trechos da entrevista de Habermas utilizada: http://cyberdemo. In: Revista Caros Amigos. S. Comitê Gestor da Internet no Brasil. Jonas. In: PRETTO. Além das redes de colaboração: internet. [on line]. Concentração ameaça potencial do mundo digital. SILVEIRA. & SILVEIRA. 2013. diversidade cultural e esfera pública. diversidade cutural e tecnologias do poder. Marco. VALENTE.)]. Sérgio Amadeu. EDUFBA. orgs. edição Novembro.