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ENRIQUEZ, E. Matar sem remorso: reflexões...

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MATAR SEM REMORSO: REFLEXÕES SOBRE
OS ASSASSINATOS COLETIVOS*
Eugène Enriquez* *

Tradução: Marion Brepohl de Magalhães e Rafael de C. Beltrami* **

RESUMO
A partir de uma perspectiva disciplinar, procuro realizar algumas
reflexões sobre os principais fatores que conduzem ou motivam os
assassinatos coletivos, sejam eles físicos ou psíquicos. Com elas, procuro
colocar em evidência que, no imaginário social contemporâneo, a
sociedade se encontra cindida entre vítimas e algozes, o que é favorecido
sobretudo pela razão instrumental.
Palavras-chave: assassinatos coletivos, violência, dinâmica de grupo.

ABSTRACT
From a disciplinary point of view, some reflections are made over the
main factors which lead to or motivate mass murders, be them physical
or psychical. From these reflections, one seeks to emphasize that in
contemporary social thought society is divided into victims and
persecutors, favored particularly by instrumental reason.
Key-words: mass murders, violence, group dynamics.

Genocídios armênio, judeu, cigano, ruandense, bósnio. Seguramente, a lista poderia ser acrescida. O século XX, depois da grande carnificina
de 1914-1918, será conhecido pelos genocídios. É certo que os séculos
* Publicado originalmente em: L’inactuel, L’esprit du Temps, Paris, n. 2, p. 16-36, 1999. Título
no original: “Tuer sans culpabilité.”
** Professor da Universidade de Paris VII.
*** Respectivamente, Professor Adjunto da Universidade Federal do Paraná e Mestrando em
História da Universidade Federal do Paraná e bolsista do CNPq.

História: Questões & Debates, Curitiba, n. 35, p. 11-41, 2001. Editora da UFPR

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precedentes conheceram também, no mundo dito civilizado, seus massacres. Quanto aos membros de tribos arcaicas, que se designavam como sendo simplesmente “os homens”, eles não foram o que se possa chamar de
ternos para com seus adversários. Mas o século XX conferiu ao domínio do
assassinato em massa seu princípio de legitimidade. Devem desaparecer os
seres diferentes (os estranhos, os estrangeiros), devido a sua impureza e
pela sua fraqueza (ou por sua força fantasmagoricamente imaginada). Esses seres diferentes podem se reagrupar ou serem reagrupados em comunidades (judeus, ciganos...), fazer parte de contextos nacionais (comunistas,
descrentes ou supostos como tal, subversivos de todo o gênero) ou de um
conjunto qualificado como inimigo. Denominamos genocídio propriamente dito o primeiro conjunto, de punição exemplar para aterrorizar a população, o segundo conjunto (liqüidação dos opositores no Chile ou na Argentina, assassinatos coletivos na Argélia), de humilhação, e, de destruição, o
terceiro conjunto (assassinatos de poloneses ou de russos pelos alemães
durante a Segunda Guerra Mundial).
Estes casos não são passíveis de generalização − não se pode
compará-los em sua natureza e fins. Entretanto, possuem um denominador
comum: a vontade de afirmar que a espécie humana não é uma só, que o
homem pode, em certas conjunturas, ser rebaixado ao nível de um animal e
pode ser sacrificado sem culpa se a “causa” transcendente assim o exige
(pois ele não é senão uma peça da engrenagem plenamente substituível).
Ainda que quanto mais os indivíduos sejam fracos (idosos, mulheres, crianças) ou imaginados de forma paranóica como fortes, mesmo sendo fracos (os judeus), tanto mais é possível utilizá-los, martirizá-los, eliminá-los
sem remorso. É este o denominador comum que será explorado neste estudo, o qual incorre o risco de parecer lapidar e chocante.
Desenvolver argumentos mais detalhados, examinar e confrontar
diversas teses só seria possível em um livro. Mas tenho a esperança de que,
apesar das limitações típicas de um artigo, que os leitores possam tirar suas
conclusões deste texto relativamente breve, mas amadurecido.
A questão a que me proponho responder é: por que os assassinatos
coletivos são tão excessivamente impostos no século XX, a tal ponto de
marcá-lo de maneira indelével, e quais são suas conseqüências para a sociedade e para o psiquismo? Trata-se de um ensaio de compreensão e de
interpretação do Mal Radical.

História: Questões & Debates, Curitiba, n. 35, p. 11-41, 2001. Editora da UFPR

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Certamente alguns autores estimam que tal vontade de compreender é já por si só um indício de compromisso com o mal, o que só pode vir
a reforçar o seu poder.1 Meu propósito se situa numa perspectiva inversa:
toda a possibilidade de elucidação de um fenômeno social lhe retira sua
parte de mistério e permite controlá-lo; ou pelo menos que se escape um
pouco de seu intento. Trabalhar sobre os assassinatos coletivos (de resto,
sobre quaisquer outros temas) não significa ceder a uma fascinação mortífera por esse objeto, encontrando escusas para tais condutas, mas sim manifestar a capacidade de atacar frontalmente as ilusões da quais cada um, por
mínimo que seja, se alimenta. Thomas Mann qualificava Freud de “sublime
desilusionista”. Participar num trabalho de destruição progressiva das ilusões me situa numa posição honrosa.
Tentarei resgatar quatro tipos de razões que permitem esclarecer
um pouco o problema em questão: razões antropológicas, sociológicas,
psicossociológicas e psicológicas. Ao final do texto, evocarei algumas conseqüências do crescimento dos assassinatos coletivos sobre nossa sociedade e sobre nosso aparelho psíquico.

Razões antropológicas
De Hobbes a Freud ou a Einstein, a tendência do ser humano a
matar seu próximo, a humilhá-lo e a glorificar esse ato é muitas vezes apontada: uma pulsão à destruição marcaria a “realidade humana”(Edgar Morin).2
Uma tal posição tem sido todavia contestada: “bondade do homem
no estado da natureza” (Rousseau), “pulsão de morte como derivada unicamente do desenvolvimento do capitalismo” (Marcuse), “interrogação sobre
a existência mesma da pulsão de morte” (numerosas análises que não cabe
aqui citar e que recusam ainda a hipótese freudiana). Não as discutirei.
Parto da idéia de que Hobbes e Freud, entre outros autores que poderiam

1
2

A esse respeito, ver: BACASSIS, E. Petit méthaphisique du meurtre. Paris: PUF, 1998.
Apud MICHEL, B. Figures et metamorphose du meurtre. Paris: PUF, 1991.

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Mas um assassinato que legou à humanidade diversos problemas. E.. as restrições morais. em causa que reclama de seus filhos sacrifícios sangrentos (a morte de Isaque e a morte de Cristo. Assassinato necessário para aflorar o sentimento de culpa e. No que se transformaram as instituições que substituíram a violência. 35. As instituições não exorcisam totalmente o que presidiu seu surgimento: a violência original. tinham razão. paradigma de todos os crimes cometidos em comum. Mas falar em Estado de Direito jamais significou que o ser humano tenha os mesmos direitos. editando a lei e exaltando a pacificação. 3 ENRIQUEZ. Os que quiserem mais detalhes a esse respeito podem se remeter a dois de meus livros: Da horda ao Estado e As figuras do Mestre. em outros termos. p. Paris: Gallimard. valorizo sobremaneira a tese freudiana do assassinato do pai primitivo. Curitiba. instaurando assim o direito. 1983. Matar sem remorso: reflexões. dão livre curso à violência outrora por elas controlada e que pode. ao assassinato psíquico e ao assassinato dissimulado em alienação). E. em totem. De la horde à l’État: essai de psychanalise du lien social. afetar todos aqueles que são expostos à vindicta pública.3 Da mesma forma.. Les figures du Maître. como acabei de mencionar. n. devendo suscitar respeito e consideração. a mesma dignidade. 2001. O estado nazista ou o estado soviético eram Estados de Direito. na noção de Direito é. Paris: Arcantères. História: Questões & Debates. foram acontecimentos que não impediram sua transformação em pai idealizado. estados nos quais as diferenças podiam ser institucionalizadas e sancionadas pela lei. O que aparece. a violência é institucionalizada e codificada. Quando elas se põem a permitir o que elas mesmas tinham proibido. 11-41. para mencionar apenas os mais célebres). que têm por função a pacificação? Elas permitiram a existência do Estado de Direito. 4 Retomaremos o ponto mais adiante. 1997. a forte prevalência da sanção (Durkheim não se enganou a esse respeito). o assassinato oficial e reivindicado (elas deram lugar. os quais ela se esforça por resolver sem contudo lograr seu intento: que fazer com o chefe morto? Sua entronização ou sua metamorfose em pai simbólico. Editora da UFPR . então. ser citados. e ENRIQUEZ.14 ENRIQUEZ. sacrifício caminharam juntos (o que não é o caso da sublimação)4 e nós não acabamos de pagar-lhes o preço. com ele. em primeiro lugar. pois. Simbolização. em ídolo. idealização. em outras palavras. E.

e a inovação.8 A sociedade torna-se plenamente humana. R. G. É por isso que a transgressão não nega a proibição (ela a conserva. Paris: Minuit.ENRIQUEZ. 7 Mais recentemente. 11-41. S. P. p. mas sim associálos. Bataille. sem ataque à proibição. alguns sociólogos da Nova Escola de Chicago e um certo número de psicólogos sociais experimentais dizem que as condutas dos grupos derivam da maneira mesma que estes últimos são designados ou qualificados. mas ela a ultrapassa e a completa”. La societé contre l’état. os prazeres permanecem apenas como uma codificação e um ritual. levando a que as sociedades se conduzam pela repetição (como as tribos indígenas estudadas por Clastres). ele engendra necessariamente sua transgressão. como Callois. Paris: Gallimard. 15 Sobre esta questão da proibição. História: Questões & Debates. por sua vez.6 considera que a transgressão está ligada à formulação da proibição. 1938. 1993. de um lado. Paris: Minuit. só são possíveis pelo ato da transgressão. pois permite à sociedade se colocar sempre novas questões. pois a suprema felicidade. enuncia que a proibição é editada para fazer interpor uma barreira ao desejo de matar (porquanto interditar significa impedir o que as pessoas efetivamente não têm uma intenção profunda de realizar). pois ela impede a autodestruição). é conhecida a oposição entre Freud e Bataille. o desejo de matar (que está. Sem transgressão. a invenção social. o que significa (e é necessá- 5 Confrontar: FREUD. não nos esqueçamos. Mas ela a ultrapassa e a completa. Matar sem remorso: reflexões. capaz de progresso na civilização graças à transgressão. Quanto a mim. 1951. na origem da humanidade e que aflora sempre no sacrifício) engendra a proibição (esta sempre limitada aos membros da tribo ou da nação. e BATAILLE. porquanto toda a construção humana está a responder ao princípio de autoconservação). E. segundo Frazer. 1974.5 Freud. L’erotisme. 6 CALLOIS. inventiva. afirma por sua vez: “os tabus são feitos para serem violados”. 2001. pois estes não devem se autodestruir. tanto quanto da tarefa de resolvê-las.. Paris: Gallimard. isto é. 35. Assim.7 Mauss. Editora da UFPR . a posição é simples: não é necessário opor Freud e Bataille. induz à transgressão. Mas essa proibição. inspirador de Callois e de Bataille. e Bataille escreve: “a transgressão não é a negação da proibição. de outro. 8 CLASTRES.. Curitiba. n. L’homme et le sacré. (Doutrina fundada no Collège de Sociologie). Com relação ao nosso tema. que impede a atualização de algumas tendências ou pulsões. Totem et tabou. se o sagrado (a proibição) deve inspirar o respeito.

A cultura visa. História: Questões & Debates. destinados ou à assimilação ou à eliminação? Como esquecer. de repulsa. do trabalho cultural) e do social.11 como já demonstrei em outra oportunidade. para quem. a inca e outras? − e a redução dos índios a povos sitiados em reservas. A comemoração da descoberta da América por Cristóvão Colombo tem um valor exemplar. sobre a criação de diferenças e sobre critérios de classificação que sempre foram a base do sistema de dominação. é parte integrante do trabalho civilizador.]: Juliard Nouvelle Ed. [S. Agora ENRIQUEZ. [S. cit. n. Curitiba. se nos determos por um momento neste exemplo. N. seguindo Freud. Eros e Tanatos compartilham do trabalho civilizador. como bem observa Levi Strauss. ou que não tenha contribuído à sua decadência ou à sua liquidação.. p.].9 a responsabilidade de cada um pela espécie humana.12 É necessário lembrar que a civilização é a conjunção da cultura (da Kulturarbeit. com a dizimação da África?10 A civilização é a rainha da paz e da guerra. 11-41. subsistem as pulsões de morte. Editora da UFPR . resultando no assassinato. 1998. Ela é sempre fundada. de onde deriva a pulsão de destruição. De la guérison psychanalytique. l. 12 ZALTZMAN. n. E. G.16 ENRIQUEZ. como 9 10 11 Pocket. 2001. CHARBONNIER. op. que os povos europeus tentaram amoldar à sua maneira e que ensejou na criação de uma civilização americana (a América do Norte e do Sul. de certa forma. Não existe uma civilização que não seja construída (ao menos até o presente) sobre os escombros de uma outra. mas é igualmente o não reconhecimento do conjunto humano como único. a maia. Entretiens avec Levi-Strauss. a criação de estruturas de rejeição. teve de propor aos europeus que enviassem escravos negros. Apud MICHEL. 35. ao lado das pulsões de vida. a responsabilidade de cada um diante do outro. regiões que são menos diferentes do que se pensa habitualmente) ou devemos deplorar o desaparecimento de grandes civilizações como a asteca. Ao admitir isso. op. Matar sem remorso: reflexões. para proteger os índios. como demonstra magistralmente Nathalie Zaltzman. 1983. a violação da face do outro. devemos aceitar que o trabalho civilizador não é somente. Devemos congratular-nos por essa revelação de um novo mundo.: s. favorecendo em cada grupo a construção de uma identidade própria. rio examinar bem o caráter escandaloso desta proposição) que a transgressão à proibição de matar. que Las Casas. l. 1995. contribuindo.. cit.

temperados pela presença das luzes da razão e por isso mesmo dignos de respeito. mulheres. da mentira. E. depois do animal. instituições que permitam à lei se exprimir e ao temor da sanção amordaçar as oposições. beleza sempre frágil. a compartilhar sem desejo de dominação. não ideologizadas. n.. substituindoos pelos laços da paixão (importância do sentimento na sublimação) associados aos laços da razão. l. ou ao menos reconciliá-la para fazer dela uma amiga.13 Sublimar é também estar maduro para uma busca da verdade. e não a vontade de empreendimento. Humanisme de l ‘autre homme. História: Questões & Debates. Não é uma questão de manejar a natureza. pelo reconhecimento em si mesmo e nos outros da qualidade dos outros seres humanos. Editora da UFPR . 35. 11-41.. É.]: Biblio Essais Livre de Poche. Já o social desenvolve um programa bem diferente. sublimar significa separar-se dos laços de sangue. O social é o mundo da idealização. onde o desejo de controle. é pois deixar o mundo de certezas que conduz a se opor aos outros por aquele de um saber semelhante sempre por se realizar (work in progress). 2001.ENRIQUEZ. 17 enunciou Freud. capazes de sentimentos fortes. No social. E. antes de tentar exercer sua capacidade de empreendimento sobre os outros homens. Assim. do mascaramento (é por isso que não há boa sociedade se alguns são preferíveis a outros). Ora. na busca da verdade. crianças. mas sim de ver no animal apenas um objeto a controlar e progressivamente. Matar sem remorso: reflexões. de estender sua dominação sobre os mais fracos. Lévinas diria que a face do outro nos chama e nos faz descobrir nossa própria face e o direito de cada um a uma face indestrutível. o progresso da espiritualidade. sublimar nos obriga a entrar em contato com os outros. 13 LÉVINAS. outros “conjuntos” ou conjunto ao qual nós pertencemos. uma vez que tais luzes sinalizam seu pertencimento comum à espécie humana. proclamando que um dos princípios do homem é a edificação da beleza. p. ser capaz de uma interrogação infinita e de um trabalho de luto. mas também apaziguadora e representativa dos esforços e das incoerências do homem. nos quais nós reconhecemos os mesmos direitos que os nossos. 1987. [S. A vida espiritual se caracteriza pela predominância do processo de sublimação sobre todos os demais. “Nada se faz sem as grandes paixões” − afirmava Goethe − dito de outro modo. construir instituições que inspirem respeito e não o terror. idosos. enfim (não pretendo todavia ser exaustivo). Curitiba. querer criar com outros obras não idealizadas. E para fazer isso. pode se exprimir completamente.

seus monumentos. Girard.. 11-41. 1968. os homens adotaram um outro: o de permitir. 15 GIRARD. [S. E por quê? Porque desde o início do cristianismo os homens estão obcecados por construir a cidade perfeita. E. Curitiba. F. Paris: Odile Jacob. pois não há cultura sem instituições. um Tanatos sempre necessário. em 14 SCUBA. ouvimos falar em sociedade apaziguada e vemos se deflagrar a violência. Logo. Ao sacrificar alguns de seus membros (cujo procedimento de designação era decodificado).]: Grasset. vínculo social e assassinato estão. não há desejo. indissoluvelmente associados. no entanto. Desigualdades são construídas. Matar sem remorso: reflexões. O sacrifício já era um assassinato. p.. Uma civilização leva séculos a construir seus fundamentos.18 ENRIQUEZ. mesmo que saiba que ele poderá. Se a cultura está do lado de Eros. 2001.15 Uma vez que esse mecanismo não mais existe (de resto. Para purgar a cidade de seus problemas. leva alguns anos ou algumas dezenas de anos para se destruir (o exemplo nazista ou o exemplo do Khmer Vermelho do Camboja podem nos ser suficientes) e ainda menos no que tange a destruir os outros. l. o social está sempre do lado de Tanatos. No mundo ocidental. o sacrifício humano desapareceu. Mas atenção.14 mas um assassinato seletivo que permitia. como bem observou R. Ceci n’est pas un meurtre. La violence et le sacré. as antigas civilizações conheciam o sacrifício humano. 35. que a sociedade não deva controlar. Amor e morte. prevalecer. ainda que para tanto assuma uma nova roupagem. um dia. Toda a sociedade é a criação contínua dos homens e para os homens. Com efeito. gerar a violência interna do grupo. R. uma vez que o social se fixa em sua vontade igualitária e seu reconhecimento da liberdade do homem. sociedades melhores são possíveis. 1999. é necessário sublinhar uma evidência que. escoradas sobre a exploração e a alienação mesma. n. está oculta: a facilidade com que a destruição é provocada. o que examinaremos a seguir. Editora da UFPR . nem se coloca em causa lamentá-lo). In: HÉRITIER. Foi substituído pelos assassinatos coletivos. E. pois. Mas a cidade ideal não é senão um fantasma cujos decaídos têm sido sempre mais mortíferos do que os criativos. não há vínculos sem ataques contra os vínculos. sua forma de viver. como toda evidência. História: Questões & Debates. De la violence II. L. a sociedade limpava suas manchas. O que não quer dizer que as sociedades sejam incapazes de serem agradáveis para viver e não concedam a cada um o direito de viver como bem quiser. por mais inocente que seja.

n.. em seres nocivos. aliás). que haviam tido a audácia de se atrever a pensar). l. os bolcheviques ou. enfim. A estreita ligação entre Estado Moderno e guerra foi devidamente sublinhada por R. [S. os intelectuais. Nizet. p. todos os idosos. o triunfo da razão instrumental (e seu corolário. Razões sociológicas 1914-1918 inaugurou a era das matanças. É necessário eliminar todos os que não queiram ou que sejam capazes. Selecionar não é mais possível. os pais. como para os Khmer Vermelhos. 19 momentos privilegiados. Curitiba. 1936. que a violência do grupo de poder pudesse se manifestar para o exterior. 35. provocaram-se milhões de mortes (de mortes sem causa. tudo se tornou permitido. transformando-os em estrangeiros ou animais.ENRIQUEZ.]: A . exterminando todos os que pudessem representar o antigo mundo. ao menos. destinando-os ao extermínio e à redenção (os judeus. R. É possível mobilizar as pessoas contra eles ou. todos aqueles que haviam conhecido o mundo anterior e haviam podido apreciá-lo. e.16 de quem retomei e ampliei algumas análises. A cidade ideal revela sua verdadeira face: a de um inferno para um grande número de pessoas e a transformação de seus assassinos em indivíduos cada vez menos capazes de sublimação. G. Essa guerra logrou colocar em evidência três elementos essenciais que se transformaram em motor do século XX: a estreita ligação entre Estado moderno e guerra. tornou-se possível a balcanização da Europa. naturalmente. Matar sem remorso: reflexões. Callois. oscilando entre a paranóia e a apatia. assassinos deles mesmos no que concerne a sua capacidade de contribuir à vida espiritual. Bellone ou la pente de la guerre. E. suscetíveis de não querer uma nova ordem (O Reich que “duraria 1000 anos”!). qual seja. História: Questões & Debates. por primeiro.. Editora da UFPR . obter sua adesão muda e sua passividade. nas guerras e nos massacres. o 16 CALLOIS. o declínio da transcendência dos valores) e a construção do homem novo. 11-41. 2001. A partir do momento em que uma guerra foi declarada sem uma verdadeira justificativa e concluída de maneira sinistra (o Tratado de Versalhes e outros tratados de paz). eliminando os impuros do templo.

17 A guerra entre nações da Europa Ocidental ficou então para trás e a idéia de uma Europa unida se impôs. os alvos privilegiados e. 11-41. para retomar uma expressão de Marc Bloch).. sem limites. a guerra de extermínio.. à lógica da guerra. Os campos de concentração e de extermínio tornaram-se os novos lugares onde se manifestava o poder nu e cru. mas a nação para o indivíduo. Sabemos. Paris: Gallimard. Quando os Estados-Nações lograram incorporar a grande maioria da população. Quanto mais os Estados-Nações quiseram ser os representantes do povo unido. em outros países da Europa (na Europa do sul. então. principalmente na Europa. a guerra totalitária (na qual o vencido é intimado a se render sem condições). com a questão da Bósnia e agora do Kosovo). Conventry) se multiplicaram. M. 1990. o indivíduo não foi mais considerado como sendo feito para a nação. em que todos os indivíduos transformam-se em cidadãos (mesmo quando não sejam repúblicas) e são instigados a defender sua pátria em perigo. entre eles.20 ENRIQUEZ. permitiu a guerra de massa. arbitrário. mais tiveram recursos para os assassinatos coletivos (a Alemanha Nazista é um exemplo mais evidente deste comportamento).inimigo” e a recusar a seus membros todo o direito à diferença ou mesmo à divergência. à onda do nacionalismo viril e quiseram constituir comunidades homogêneas. Matar sem remorso: reflexões. os mais frágeis. Os bombardeamentos sem finalidade militar com vistas a suscitar o terror (Guernica. que me permitirá ser breve. mais desejaram exprimir sua essência. O combatente passou a imaginá-lo tão-somente como o adversário a suprimir. 35. n. que a guerra é a continuação da política por outros meios. em que os instintos os mais assassinos são aí admitidos e até favorecidos. Editora da UFPR . História: Questões & Debates. nos países do Oriente 17 BLOCH. L’étrange défaite. E. esta se achou enredada nas malhas de uma política definida por esses estados e submetida. dos chefes. Os civis tornaram-se. desta feita. p. A criação dos Estados-Nações. Curitiba. O outro (inimigo interno ou inimigo externo) transformava-se na pessoa a ser abatida. a guerra revolucionária (graças à qual os homens pretendem criar um novo Estado). viram-se obrigados a enfrentar a polêmica definida por Carl Schmitt “amigo. 2001. porquanto os mais inúteis. Mas. A segunda parte do século na Europa ocidental assistiu ao descerramento dos vínculos entre o Estado e o cidadão (progressivamente. desde Clausewitz. À medida em que os Estados-Nações cederam.

ele prevalece mesmo que seja dispendioso em vidas humanas. A racionalidade. se o cálculo resulta em um mínimo custo global. o Estado Moderno. por si mesma. 35. Além disso. ou mesmo ridicularizados. O emprego da razão instrumental teve por conseqüência o declínio dos valores transcendentes. 21 Próximo e do Extremo Oriente ou na África. meios “moralmente deploráveis”. podem e devem ser utilizados. que vai da intolerância ao assassinato organizado. n. Esses povos adentraram o mundo do terror. Os campos de extermínio são um dos exemplos mais inegáveis sobre o esquecimento dos valores associados às religiões monoteístas. possam ressurgir com toda sua violência arcaica. na confrontação custo/benefício.. 11-41. querendo organizar e sobrepujar seus membros. ela coloca necessariamente a questão dos fins e dos valores. 2001. os avanços da ciência e da tecnologia (e a ideologia que a ela está associada) resultam que apenas os meios mais rentáveis e os de menor custo sejam utilizados. Matar sem remorso: reflexões. recalcadas e ocultadas. Ora. Curitiba. o meio termina por se transformar em fim último. A questão como? tornase a única a ser digna de validade. o são meramente como um elemento (que tentam inserir naturalmente num sistema de equações ou de inequações.ENRIQUEZ. sendo o cáculo reificado). se os seres humanos são dispensados ou se são levados em conta. uma vez que é impossível ponderá-los. Ou seja. Eles são também. é o relaxamento do vínculo social. pois impedem o controle que o homem quer ter sobre a natureza e sobre outros homens. Não é evidente que eles possam deixá-lo. como foi evocada precedentemente. Ao contrário. regiões em que estão surgindo Estados-Nações. não significou a vitória das luzes. A matematização do mundo. não significa um antídoto contra as paixões. no século XX. A partir desta ótica. pouco a pouco. questão tão simples quanto necessária: por quê? (Por quais razões devemos perseguir alguns fins e alguns objetivos?). Eles História: Questões & Debates. O triunfo da razão instrumental.. anula esta pergunta. Em todos os casos. Todavia. Ao nos restringirmos à questão dos meios. Quanto ao problema dos fins. ela o substitui pelo problema dos meios. como também. com muita freqüência. levando a que o problema das paixões. Editora da UFPR . em tal ótica. Tudo se resume. E. não somente não examinamos o valor dos fins a serem perseguidos. pois. revelou sua verdadeira natureza: a da violência constitutiva. que se distancia do assassinato coletivo. esquecidos. A razão instrumental. esse relaxamento traz em contrapartida a recuperação e o crescimento da violência interna. a guerra e os assassinatos em massa ocorrem virulentamente. Ademais. como dizia Weber. p.

1998. Curitiba. que criou excluídos e dejetos sociais. D.. 2001. o integrado. Uma vez que essa racionalidade se faz assaz imperativa. sobre a ideologia subjacente a toda forma de formalização do real). os responsáveis pela tomada de decisões deveriam saber que todo o triunfo é o pai natural do fracasso. História: Questões & Debates. Razão instrumental e fanatismo são duas faces de uma mesma moeda. então o terror pode reinar. Matar sem remorso: reflexões. O fanatismo religioso. Certamente a figura desenhada não se aplica a todos os indivíduos. Bloch) não está definitivamente soterrado. Mas para que não tenhamos esses efeitos mortíferos. são uma manifestação da barbárie inerente à razão instrumental (denomino barbárie toda a decisão que pretende retirar ao homem sua condição de membro da espécie humana). C. O homem lúcido (E.22 ENRIQUEZ. Editora da UFPR . Reeditado em 18 out. Daí resulta um mundo onde só têm o direito de viver aqueles que podem vir a se adequar a categorias como o apropriado. Ora. pois os fins mais aberrantes são perseguidos graças aos meios mais sofisticados. seres considerados como definitivamente inúteis. 11-41.. E. O século XX fez a escolha inversa. Mas isto não impede que um outro tipo de homem do que aquele idealizado explicitamente pelo 18 BROWNING. n. e que podem encontrar seu lugar num universo funcionalizado. Alguns resistem. permitiram o desenvolvimento de assassinatos em massa uma vez que o fuzilamento era menos rentável e também prejudicial.18 Em um nível menos violento. 35. Uma vez que eles se completam em vez de se oporem. p. isso provoca o retorno do mundo “encantado” de valores transcendentais os mais regressivos. “fazer derramamento de sangue”. o fiel. 1992. Esta constatação não significa que a razão instrumental não possa ser utilizada. O século XX fez surgir um homem novo. político ou empresarial são os signos de um choque com efeito bumerangue tão violento quanto impossível de ser previsto em suas proporções. Nas ciências ditas “duras” e mesmo nas ciências sociais (com a condição de termos prudência e de interrogarmos. esta se revela indispensável. aos perpetradores. Des hommes ordinaires. ela deve sempre subordinar a racionalidade com respeito a fins. sob o ponto de vista psicológico. Traduzido para o francês em 1996. as demissões em massa por diretores que querem “enxugar”. “retirar as gorduras” (expressões que ouvi recorrentemente em diversas organizações industriais).

Cada nação incorre o risco de ser invadida. dado o caráter misterioso e desconhecido de um objeto ou fato. 11-41. símbolos do grande Satã. 20 Adjetivo que designa um sentimento que. História: Questões & Debates. Vêm também do exterior: os soviéticos ou. segundo Micheline Enriquez. 1984. Esses “piolhos” vêm do interior: os que não são como os outros serão acusados dos mais vis complôs (como. Ora. É um meio de defesa. 19 ENRIQUEZ. como são descritos no “Protocolo dos Sábios de Sião”). os profetas. Matar sem remorso: reflexões. Paranóico Nossas sociedades. o que é “unheimlich”. os gurus de todas as origens e tipos serão facilmente escutados. o que há de melhor do que o ataque e o extermínio àqueles que querem destruir “a felicidade estabelecida”? Nessas condições. exerce a um só tempo temor e fascínio. estrangeiro. exótico. para os iranianos na atualidade. os americanos. imigrado.19 duas faces do ódio.20 estranho. porquanto representam. é apreendido como suscetível de trazer a peste. Aux carrefours de la haîne. não adequado. Editora da UFPR . por exemplo. Curitiba. Os dois são de toda a maneira os assassinos em potencial. M. Eles colocam as pessoas no imaginário e asseguram-lhes a possibilidade de realizar seus sonhos mais loucos. experimentam uma verdadeira repulsa face a tudo o que possa minar a boa ordem social e levar a doenças perniciosas. Segalen. os judeus. n. no sentido dado a este termo por V. para se defender. “Piolhos” contaminam a sociedade e é necessário se livrar deles. 2001.. querendo-se puras e condensando todas as marcas da perfeição. p. ao “homem comunista” ou ao “combatente do Islão”. vendida em leilão. Pois eles presidem o apocalipse e indicam o caminho da redenção. E. Paris: Epi.ENRIQUEZ. não integrado. E. os messias. Desde que se aceite todavia uma condição: matar ou eliminar de si o que poderia ser um obstáculo à criação de uma “raça de senhores”.. 23 Iluminismo e pelo século XIX pudesse nascer e proliferar: um homem paranóico ou apático ou oscilando entre estas duas posições. 35.

ele pode dirigir seu ódio inconsciente sobre todas as pessoas que pareçam existir por elas mesmas (os judeus. Editora da UFPR . ele possui uma doença grave. E. muitas vezes. Tenta tocá-la mas se proíbe de sentir. Eichmann foi um bom exemplo. n. Ao contrário. Mas não está consciente disso e se imagina bem dessa maneira.24 ENRIQUEZ. de vibrar e então de ser “perturbado”. outros seres humanos são apenas possíveis instrumentos de seu regozijo. Quando exerce o poder. não por necessidade mas somente porque estes ou se arriscam. 11-41. Ele crê. pode praticar o mal sem se aperceber do que faz. pois interiorizou perfeitamente os preceitos e os princípios da razão instrumental. Curitiba. recusa se deixar tocar. Se ele se engaja pessoalmente. Não detesta ninguém. e outros).. de se apaixonar. Apático Desde Sade. com extremo zelo. Não que sublime as emoções. Vê-se simplesmente como portador de um papel social. os idosos. aqueles que assumem suas responsabilidades. no que dizem os poderosos. provando. controla e destrói os outros. aqueles que pensam por si mesmo. Sabe que será por isso recompensado. Funcionário consciencioso. ele só pode ter vergonha de não ter cumprido bem suas tarefas. Vê-se tanto mais indivíduo à medida em que funcione como elemento de uma massa. ele sabe que elas existem. mas é incapaz de amar. Pelo menos é o que nos diz Freud. executa as ordens. 2001. 1984. Entretanto. não crendo em seu próprio pensamento. Não se interroga sobre o valor das ordens. cit. Desta maneira. Ele teme todas as emoções. que o individualismo mais impetuoso não é em nada contraditório com o processo de massificação.21 Assim. Viver sem culpa. mais uma vez. os ciganos. Ele trata as emoções como uma tecla de piano. ainda que inconscientemente. Ele recusa o “transtorno do pensamento” assim como o transtorno emocional (Tocqueville). 35. como afirmava Wilhelm Reich. História: Questões & Debates.. ou porque se revelam inúteis para a organização (no caso das 21 ENRIQUEZ. essa personagem detesta. como mencionou Micheline Enriquez. conhecemos sua face. Para ele. p. op. Matar sem remorso: reflexões. tendo em vista sua originalidade de “corroer a máquina”. o risco que corre é o de se entusiasmar. quer se afastar das paixões. Com efeito. mas poder-se-ia encontrar exemplos na França tão convincentes quanto este.

da mesma forma. F. 2001. onde talvez sentimentos sejam manifestos. E. 22 23 24 Cia. corrompido desde o nascimento por ter emprestado do amor próprio seu princípio e seu conceito. de minha parte. de outro. para o benefício de minorias sempre restritas. 1986. Curitiba. n. Como escreve Florence Burgat: .26 O homem.. recusa a banalização do mal apresentada por Hannah Arendt. como o fez Devreux. La logique de la légitimation de la violence. Podemos suspeitar. Editora da UFPR . a não ser por um fato essencial: é possível praticar o mal. 35.aquilo que faz com que o homem seja relegado a um animal foi notadamente analisado por Cl.. op. Matar sem remorso: reflexões. havia tentado. cit. NRP. toda a pessoa que pratica o mal sabe muito bem o que está fazendo. Eichmann em Jerusalém: ensaios sobre a banalidade do mal. Essays d’ethnopschiatrie géneral. das Letras. In: HÉRITIER. Les non-lieux de la mémoire. a vida pública. G. Nesse caso. São Paulo: 2000. ele não está senão a seguir os imperativos de uma sociedade burocrática que transformou a separação entre vida pública e vida privada no alfa e no ômega de todas as condutas e que levou a razão instrumental a seu apogeu. matar pessoas às centenas sem experimentar a sensação de estar fazendo o mal. 1973. Se o homem foi rebaixado à categoria de animal (depois que o animal foi separado definitivamente do homem). A existência desse tipo de personagem foi freqüentemente contestada. ARENDT. conduzira à dominação dos homens pelos homens. Lanzmann. L’amour de la haîne..25 Eu. e os animais e as plantas. 25 26 DEVREUX. Creio que ele tem incontestavelmente razão. LANZMANN. BURGAT. op. Paris: Gallimard. não é grave nem matá-lo nem humilhá-lo. 11-41.24 Para ele. a vida privada.. C. História: Questões & Debates. 33. ENRIQUEZ.22 que em sua personalidade operou-se uma verdadeira clivagem: de um lado. p. de um lado.23 por exemplo. H. cit. n. onde ele é apenas elemento de um conjunto maior. 25 demissões coletivas). Levi-Strauss ao constatar que “o mito da dignidade exclusiva da natureza humana” conduziu “ao ciclo maldito” de um processo pelo qual a fronteira entre o humano e o animal serviu para “separar os homens dos outros homens e para reivindicar. de outro. o privilégio de um humanismo. mostrar anteriormente que a cisão entre o homem. 1983.ENRIQUEZ.

que acaba por anulá-los e por lhes suprimir toda a capacidade de revolta? Dito de outra forma. o novo indivíduo criado pelo século XX está sempre pronto para o crime. seguro de seu valoroso direito. sempre um pouco manchada de sadismo. onde os patrões utilizam-se de processos refinados e perversos para destruir moral e psiquicamente seus subordinados. 11-41.. perversa. melhor fará esse “trabalho”. de falar. A famosa frase “O inferno são os outros” torna-se o motor de sua ação. Se ele é também um apático. pensando agir em nome do bem. Sabemos.. O paranóico. são definitivamente “marcados” por uma tal experiência. predador nato. une-se à posição apática. a massacrar insetos. Matar sem remorso: reflexões. Curitiba. com dignidade. E. E isso tanto mais quanto ele tenha que resolver seus problemas por si só. entretanto. Efetivamente. coloca todas as suas energias e pulsões a serviço de sua causa. Editora da UFPR . tratamos aqui explicitamente de mortes psíquicas. há muito História: Questões & Debates. Sem dúvidas. certo de lutar contra as forças do mal. um perverso. freqüentemente. 35. com voz firme. os limites não são mais respeitados. Pude constatar esta conjunção no mesmo indivíduo em várias empresas. na infância. em nome da causa (da empresa). 2001. então! Eles bem que merecem!” Razões psicossociológicas As mortes coletivas fazem-se sempre em grupo e são o testemunho da adesão das pessoas ao grupo ao qual fazem parte. mas esses mesmos procedimentos são a qualquer hora aplicados a eles. a empresa os compensa por isso. com a capacidade meticulosa de um funcionário exemplar. querendo afastar essencialmente toda preocupação e vivendo em uma sociedade onde essa violência é admitida e favorecida. diverte-se. Quantos homens. n. Por que não mataria homens sem maiores remorsos? Sobretudo quando introjetou a razão instrumental. p. em seu nome o que sinalizaria sua vontade de ainda ser homem? Assim. Quando a posição paranóica. sendo eles liquidados por sua vez. “Que morram os outros. que seu “eu se tornou um fardo” e que ele perceba os outros como causando o máximo de dificuldades – podendo talvez aniquilar seu eu e despertar nele a angústia da fragmentação.26 ENRIQUEZ.

uma vez. durante a segunda execução em massa). p. G. fanatizada. Mas a recusa a juntar-se ao grupo genérico. Somente doze homens (entre mil e oitocentos). Matar sem remorso: reflexões. O conformismo. 11-41. 2001. Tratava-se. sobretudo quando este detém um alto grau de coesão e é dirigido por um líder no qual os homens depositam sua confiança. É mais eloqüente ainda a história de 101.28 27 28 BROWNING. mesmo se não são motivados por uma ideologia e mesmo se não sabem porque combatem.o batalhão de polícia de reserva de Hamburgo. 27 tempo. [S. a uma ideologia. o gosto do consenso e a pressão do grupo desempenham um papel capital no assassinato. seu desejo de não contrariar as normas do grupo. que jamais seriam incriminados por causa dessa decisão. Os estudos sobre a eficácia e o moral dos militares alemães durante a Primeira Guerra Mundial e dos militares americanos durante a Segunda Guerra Mundial produziram os mesmos resultados: quanto mais unidas as divisões de combate. de “homens comuns” e não de uma S. n.]: Ed. op. eram vistos cada vez menos os que recusavam e mais voluntários. é uma atitude raramente evocada. mais ainda.. História: Questões & Debates. E. À medida que as “ações” de massacre se perpetuavam e ainda que os homens tivessem sempre a possibilidade de abster-se da obrigação de matar (salvo. cit. melhor seus membros se entendem no conjunto. Mille et Une Nuits. o mais forte fermento continua a ser.. desistiram. Ao comentar esse livro.ENRIQUEZ. analisado por Browning. que se os homens podem conduzir sua ação referindo-se a valores transcendentais. Editora da UFPR . BENSOUSSAN. o temor do isolamento. a despeito de tudo.S. Auschwitz en héritage. Curitiba. o comandante do batalhão deu a seus homens a possibilidade de recusar a proceder a execução. Bensoussan escreveu: Recusar-se a obedecer pode causar o temor à punição.27 Mencionarei apenas dois fatos: antes da primeira matança de judeus por fuzilamento em Josefow. 35. mais sólido é o moral dos soldados e com mais energia eles combatem. entretanto. 1998. mais seus chefes investem positivamente. l.

que funciona segundo a lei que designa a cada um. cit. 2001. l.]: Dunod. eles estão tomados pelo fantasma da “ilusão grupal” definido por Anzieu30 e. em um grupo puro. tem um peso decisivo. Mas. ao fazer de modo semelhante aos outros. facilmente. ENRIQUEZ. 1975.. está-se muito próximo de não ser nada e portanto de absolutamente não existir. mais ainda. um budista. ENRIQUEZ. sem temporalidade. pois tem coragem de executar qualquer tarefa por mais horrível que seja. D. Ainda. 1971. um papel do qual não pode nem deve se livrar.F. Editora da UFPR . Paris: P. para não se sentirem no exílio. [S. Ninguém deseja ser tachado de frouxo ou maricas por seus camaradas. Podemos apenas lembrar da bela frase de Devreux:32 O ato de formular e assumir uma identidade coletiva massiva e dominante – e isso qualquer que seja esta identidade – constitui o primeiro passo à renúncia “definitiva” à identidade real. Matar sem remorso: reflexões. Le lien groupal Bulletin de Psychologie. História: Questões & Debates. Essa metáfora se apóia sobre uma moléstia da idealização que visa transformar esse “grupo aqui”. 11-41. op. como pude evocar. Os membros do grupo adquirem assim uma identidade coletiva que substitui a sua própria. sem falhas. 360. Curitiba. um proletário. Ao identificar-se somente como um espartano. E. 32 DEVREUX. “agora”. levar a que o indivíduo se sinta um herói. Le groupe et l’inconscient. ANZIEU. a pressão do grupo por uniformidade. não é o mais difícil? 29 30 31 Cf.31 graças ao fato de o grupo funcionar sob a égide de uma metáfora comum: a de um corpo pleno.29 podendo. Ao fazê-lo.28 ENRIQUEZ. que havia sido analisada outrora por Wilhelm Reich e que foi objeto de um grande número de estudos psicológicos americanos e franceses. p. 35. E. cada um é reconhecido por eles (e sabe-se bem o papel decisivo que o desejo de reconhecimento desempenha nos grupos). “nesse espaço”. verdadeira carapaça que lhe serve de proteção total. n. Grifo do autor. Eles afastam toda a preocupação e sem dúvida suas diferenças internas desvanecem.. perfeito. ser. depois de tudo. Dessa forma. La formation psychosociale dans les organizations. Os membros de um grupo cederam ao contágio de atitudes e comportamentos para não serem rejeitados. um capitalista.. E. pelo da “obsessão da plenitude”. n. et al.U. 1980.

É por isso (salvo raras exceções) que aqueles do 101. de um guia que tivesse por cada um de seus homens um amor igual e que recebesse deles um amor recíproco. mas também a dissensão e mesmo a polarização radical) serve como uma “segunda pele”. a causa) no lugar de seu ideal do eu. l. Por definição. ele tende a querer transformar-se em “comunidade” compacta. Essais de psychanalyse. Para Freud. no que diz respeito aos grupos por ele estudados) com a presença de um chefe. sua unidade. provendo-os com um psiquismo coletivo.. Le moi-peau. E. et al. isto é. tornandose incapazes de se perceberem como assassinos. ANZIEU.. Haviam perdido o “juízo”. 35. D. em seita e absorver portanto todos os indivíduos. a coesão (termo não utilizado por ele) do grupo. Psychologie des foules et analyse du moi [1921]. p. 2001.34 demostrando como os membros do grupo identificavam uns aos outros após terem estabelecido um objeto comum (o chefe. 1985. De qualquer forma. Matar sem remorso: reflexões.33 Ele protege e obstrui. Editora da UFPR . Essa tendência foi magistralmente estudada por Freud em “Psicologia de massas e análise do eu”. em sociedade secreta. como diz o provérbio: é só dar o primeiro passo. In: FREUD. é que os investimentos de amor em relação ao chefe e sua presença soberana entre os membros do grupo não eram fundamentalmente necessários para assegurar a “massificação” do grupo. Eles não podiam mais ter uma outra imagem de si. O grupo em si. Curitiba. [S. Les enveloppes psychiques. O que pudemos verificar. a semelhança de comportamentos dos seus membros só seria possível (em todo caso. 34 FREUD. n. Para esse primeiro passo. História: Questões & Debates. l. Paris: Payot. eles se tornaram como que irmãos. para retomar os termos de Anzieu.]: Dunod. 29 O grupo (a não ser que seja um grupo que pensa. mas não é menos certo que o contágio das atitudes e o conformismo no comportamento pode apoiar-se sobre outros fundamentos ligados mais diretamente à dinâmica do próprio grupo. S. Sacrificaram inimigos em nome de um chefe que encarnava uma causa ou tornava-se seu porta-voz. [S. se não opera a relação fusional. D. ainda mais quando pensamos na comunhão dos fortes contra os fracos.o batalhão foram endurecendo e continuaram os massacres. 11-41. 1987. que admite a diversidade de seus membros e portanto não apenas o confronto.ENRIQUEZ.]: Dunod. Certamente que um grupo guiado por um chefe munido de carisma tem grandes chances de desenvolver condutas uniformes. 1985. 33 ANZIEU. S. incita a comunhão. ao retomarmos o texto de Browning. um “invólucro psíquico”.

Eles trabalham ou trabalharam pela sua pátria ou pela renovação do Islão. que. têm o sentimento de agir pela causa. o fato de que cada um dentro de um grupo que lhe serve de espelho brilhante testa os limites de sua identidade e o aproxi- 35 Líder da esquerda do Camboja. Os atiradores isolados do Líbano. artigo de L. 1983. (N. os sacrificadores sentem-se absolvidos. n. não têm (se acreditarmos em suas declarações) problemas de consciência. Sobre o padre Nemi. a cultura do grupo exclusiva da cultura dos outros grupos. col. mas de sacrifícios coletivos. eles mostram um respeito pelo sagrado.30 ENRIQUEZ. tanto quanto os “degoladores” algerianos.) 36 FRAZER. C. Le Collège de Sociologie. pois matam aqueles que não possuem defesa. Num determinado sentido. cuja política de migração forçada da cidade para o campo e a eliminação de adversários políticos nos anos setenta. 11-41. 2001. Le Rameau d’or. Scuba e os textos do Colégio de Sociologia reunidos por HOLLIER. mas simplesmente eliminando os inimigos da causa. padre e assassino. Sem culpa. ao modo do homem de Nemi. que vê na eliminação destes a única saída possível.36 alternadamente rei. Nessas condições. p. E. Editora da UFPR . Porém. Bouquins. assim como Pol Pot)..35 Portanto. sacrificar a si mesmo por um ideal. Reeditado por Robert Laffont. Matar sem remorso: reflexões. somente uma solução: continuar a matar. pela lei promulgada pelo guia ou pelo texto divino ao qual todos devem obedecer. não tratamos mais de mortes. Paris: Gallimard. cf. do T. 35. Todos se comportam como o padre de madeira de Nemi. Curitiba. que usavam suas armas assim que viam alguém. Sabem disso conscientemente? É pouco provável. Ao sacrificar. estudado por Freud. Poderíamos acrescentar outras características psicossociológicas: o narcisismo grupal nascido do “narcisismo das pequenas diferenças”. Eles próprios se tornam sagrados.. são como padres proclamando no sangue sua fé intangível. 1979 ou 1985 (nova edição ampliada). J. provocou centenas de milhares de mortes. História: Questões & Debates. temem apenas sua própria morte. assim. figura emblemática de Frazer. como padres que oficiam e sacrificam e verdadeiros assassinos. considerados como portadores da sordidez. É possível. Para acalmar esse temor. porque a razão e a lei só podem estar do lado mais forte. do chefe e mesmo da humanidade (certos chefes nazistas disseram claramente que desejavam criar as condições para a vinda de um paraíso. São os reis do mundo. É necessário também repetir o tempo todo para os homens que eles não estão assassinando. D.

da nação ou do grupo o qual tentavam. retomado em Les jeux du pouvoir et du désir dans l’enterprise. sujeitar. 38 Ibid. 11-41. Não insistirei mais: essas características são bem conhecidas. EPI. Matar sem remorso: reflexões. 2001. Gostaria apenas de observar que os que vivem em grupos oclusos. o que torna favorável o desenvolvimento da tentação paranóica. para expurgá-lo de seus pecados. onde só haverá amor entre os seres eleitos. 35. Editora da UFPR . 1997. E. com o tempo. Dessa forma. a tentação paranóica que subjaz em todo grupo (mesmo que não seja operante em todos eles) é um fator suplementar à liquidação de todos aqueles que se oponham ao grande projeto de um mundo melhor. a dizerem a seus discípulos que. n. e atado a “um imaginário motor”38 que lhes dá força e energia para empreender e perseguir o combate. já que os outros. 37 ENRIQUEZ. p. fechados em si mesmos (e os grupos assassinos são dessa ordem). Connexions. mais coisas receberão centuplicadas. em vez do resultado esperado (o paraíso). 31 ma dos outros para não viver a angústia da fragmentação. Imaginaire social. através de seu suposto complô.ENRIQUEZ. Ele não sabe que o fantasma não pode nem deve se tornar realidade sob pena de.. História: Questões & Debates. desapareceram definitivamente da terra. n.. se submeterem. Ele não sabe também que os perseguidores não são os inimigos assim denominados. mal se apercebem que o resto do mundo existe. mas sim que não há pior perseguidor do que o perseguidor interno. E. fica atado a um “imaginário ilusório”37 tramado pelos homens de poder. sem que o saiba) de uma esperança messiânica. Ele contribui para a salvação do mundo. os seres odiosos e perseguidores. conceber apenas o inferno para os outros assim como para si. Todo grupo é mensageiro (às vezes. Por vezes. Crê no impossível e na sua realização na terra. quanto mais se identificarem. podendo somente. recriá-lo (tema constante dos Khmer vermelhos e dos comunistas chineses à época de Mao). cheio de desejo de ser todo-poderoso. 3. renunciarem. refoulement et répression dans les organisations. DDB. 1972. pois é a forma de transformar o fantasma (“um mundo novo sem impurezas”) em realidade. Curitiba. a destruição do outro engendrar sua própria autodestruição.

a sociedade na qual ele vive. E isso ocorre mesmo que os outros. Ele é portanto suscetível de ser rejeitado. grupo. Curitiba.. os grupos aos quais pertence vão portanto exercer todo o seu peso sobre a psiqué individual. que não pode colocar em marcha seu fantasma de todo-poderoso. op.na vida psíquica do indivíduo tomado individualmente. S. repentinamente. suporte e adversário. Cada indivíduo está em busca de sua identidade. Editora da UFPR . o outro generalizado (homens.39 O pertencimento à espécie humana. 2001. a se contornar. p. Quando. primeira e simultaneamente. nesse sentido alargado. Matar sem remorso: reflexões. uma psicologia social. os homens vão se tornar cada vez mais insensíveis aos outros.32 ENRIQUEZ. Logo. pois tenta realizar o princípio do prazer. criando uma “pequena sociedade para seu uso” (retomando a expressão de Tocqueville) e desenvolvendo comportamentos perversos e paranóicos. Ao viver em um universo ultra-competitivo onde reinam particularmente a razão instrumental e a pressão dos grupos para a uniformidade. o Outro intervém regularmente como modelo. sociedade). Freud insistiu bastante sobre esse ponto no início do texto “Psicologia de massas e análise do eu”. n. reduzido. que existem restrições.. que ele deve trocar seu eu-ideal por um ideal de si em maior conformidade com as exigências da vida humana e social. e desse fato a psicologia individual é também. Ele a deseja mais unificada e sólida possível. 11-41. a destruir segundo a necessidade. Psychologie colletive et analyse du moi. 35. História: Questões & Debates.. tudo o que é suscetível de entravar a realização de um tal programa poderá ser considerado como um obstáculo a se levantar. Lembremo-nos de suas célebres frases: . E.cit.. destruído. o corpo social lhe permite colocar em mar- 39 FREUD. Razões psicológicas A psiqué do indivíduo não pode ser totalmente desligada do contexto social. como notei anteriormente. esforcem-se por todos os meios a lembrar-lhe que ele não está só. É portanto possível tentar isolar certas razões de ordem estritamente psicológicas para completar o quadro desenhado até agora. mas perfeitamente justificado.

41 Lessing enunciou a hipótese de que muitos judeus na nossa sociedade eram movidos pela recusa de serem judeus. 33 cha sua força. você se sente como se tivesse ido para a cama com uma mulher. De fato. eu tirava a minha parte. não torturávamos de forma alguma como aqueles que mandam seus prisioneiros para o tribunal. Paris. recusa que encontrava sua origem “na tendência do judeu de interpretar um azar que o acomete como expiação por uma falta cometida. do qual era exemplo.. E.40 Sade foi primeiro a demonstrar que torturar os corpos. de quem podemos relembrar a famosa frase: “O judeu é embuído dessa feminilida- 40 41 Citado em transmissão de televisão em 17 de janeiro. provocar a dor. Não se pode mesmo compreender uma tal violência se não associarmos o ódio do outro a um ódio muito mais fundamental: o ódio de si. p. Pensávamos que uma vida não significava mais nada. n. E. mas também utilizar uma linguagem torturante.. mas para eliminá-lo. Havia uma certa loucura dentro de nós. Escutemos um torturador: Quando prendíamos alguém. Após uma missão. “Profissão Torturador”. não era para entregá-lo à justiça. Th. deixar fluir o sentimento de sobrepujar os outros e de os comandar. Sim. tornar alguém um rei acima de todas as leis. Traduzido para o francês por Berg international. Lessing é conhecido por sua obra sobre o ódio de si judaico. 35. podia causar prazer. 11-41. Editora da UFPR .. 2001. cortá-los. sendo a única lei respeitada a de seu desejo e de seu prazer. La haîne de soi (1930). deve falar para racionalizar o ato violento. 1990. você fica exausto. se possível. Assim. Matar sem remorso: reflexões. LESSING. Otto Weininger... ele pode então deixar falar a pulsão de destruição em toda a sua impunidade. História: Questões & Debates. Nós os matávamos. A adrenalina corre em você. queimá-los. desqualificando o outro e mostrando que nele não há sentido.ENRIQUEZ. não éramos mais normais. não somente é necessário fazer o mal.. o prazer aumenta à medida em que o outro é apagado e reduzido a uma coisa que não pode se mexer e com a qual não há nada a compartilhar. O fantasma do todo-poderoso está em vias de se realizar e a virilidade pode ter seu caminho desimpedido. enquanto age. Curitiba.” Apontou este ódio em um certo número de seus correligionários. em especial. A identidade se afirma na destruição.

segundo a qual existiria uma “mônada psíquica” que se insurgiria contra a realidade.. pois existe uma lei mais alta a ser respeitada. 35.34 ENRIQUEZ. porque o eu não é admirável. Paris: Gallimard. E. 1997. Por uma simples razão evocada tanto por Castoriadis43 quanto pelo autor destas linhas: a impossibilidade de cada um realizar plenamente seus desejos e o papel da culpa ou da humilhação (os povos monoteístas são movidos mais freqüentemente pela culpa e os povos orientais pela humilhação) ensinada. demandando sempre reparação. Freud hesitou por muito tempo. de que vimos ser apenas a negação de todas as qualidade masculinas. p. 44 FREUD. Sachs. Editora da UFPR . judeu amigo de Cocteau. 1968. de fato. 43 CASTORIADIS. S. Ferimentos sempre numerosos. O ódio do outro é apenas o inverso do ódio de si. Métapsychologie. Curitiba. EPI. inculcada pelos primeiros educadores. portanto. Ainda que em “A pulsão e suas viscissitudes”44 ele enuncie que o sadismo seja originário 42 Apud ENRIQUEZ. n. quando existe um sistema de tortura ou um sistema centralizador do tipo “ou nós ou eles”. pois a educação é. é possível apenas verificar a importância dos ferimentos narcisísticos impostos pelo contexto à psiqué. ela também é socializada após o nascimento. Pulsions et destins de pulsions. que força cada um a tomar consciência dos seus limites em relação a si mesmo e em relação aos outros. mesmo se este for um substituto pobre dos objetos-sujeitos que nos fizeram mal fastamagórica ou realmente. o eu é um “anjo-caído” em função dos outros.. Cada um é. op. n. S. ainda que seja sempre tributário da existência do outro. C. Sobre esse tema. Connexions. movido por um ódio inconsciente de si. que Lessing atribuía apenas aos judeus toca. o ódio pode ser enfim exteriorizado. toda a humanidade. Então. por definição. História: Questões & Debates. atingir um outro objeto. quando o outro bate à nossa porta. Limites insuportáveis. pois mesmo que não seja admitida a concepção de Castoriadis. In: FREUD. 1987. violência e é vivida como arbitrária e incompreensível pela “criança”. Esses ferimentos nos remetem à nossa pequenez. Notes sur le racisme. 2001. Matar sem remorso: reflexões. à nossa impotência (tomemos. 11-41. cit. a raiva expressa por toda criança quando os pais não cedem à realização imediata dos seus desejos ou mesmo os negam) e significam para nós a obrigação de renunciar ou reprimir nossos desejos. Mas esse ódio de si. 49. sempre primevo. como exemplo. que terminou por se converter e entrar para a Gestapo.”42 Poderíamos complementar esses retratos com aquele do Sr.

Se essa hipótese é plausível. após ter cravado seus dentes no corpo ofegante de Aquiles: “Desejar. que a pessoa cometeu um crime. escreve ele. Dada a impossibilidade de esconder do Superego a persistência dos desejos defendidos. “É admitido. 46 FREUD. se podemos retê-la. em “A balada do cárcere de Reading”:47 “Destruímos tudo aquilo que amamos”. ela não é no entanto suficiente. Nesse sentido. Editora da UFPR . despedaçar. seu sentimento de culpa deriva de sua angústia frente à autoridade. Toda criança o sente. Portanto. O masoquismo é o preço a ser pago pela violência do desejo.F. 2001.. ficando subscrito.. Um dia. De minha parte. não se deve omitir a severidade do Superego. é necessário pagar o preço. ele 45 FREUD. Matar sem remorso: reflexões.. a angústia frente ao Superego passa a outro “o sujeito a se punir” (Freud). 11-41. Malaise dans la civilization.ENRIQUEZ. S. 47 No original: The Balade of Reading Gaol. n. O discurso dos pais veicula preceitos morais e não há preceito moral sem crime ou desejo de crime ou sem que a criança. 1967. em sua existência enquanto tal. S.. psychose et perversion. Curitiba.46 que esse crime tem três origens: a) de um lado..U. E. o auto-erotismo.U. Qual é esse crime? Nesse texto. quem sente amor pensa em um e faz o outro. teme que seus pais lhe recusem amor. Ela percebe seu ato como um crime que deve pagar. In: FREUD. angústia alimentada por seus próprios atos. 35. Basta afirmar os princípios educativos que fazem de todo ser um culpado e um ignóbil latente por toda a eternidade. a idéia segundo a qual a ontogênese reproduziria a filogênese. sendo fiel ao Freud de O mal-estar na civilização.. assombra a todo momento os inconscientes (e talvez as consciências).. P. A criança devora e incorpora. dos versos de Oscar Wilde. como o faz Freud. todo homem o experimenta. 1973. Deste modo. sinta ter uma falta para expiar.” e.F. em “O problema econômico do masoquismo”45 declara que é o masoquismo o originário. p. Freud evoca a masturbação. rainha das Amazonas. que deve ser revivido por todos os procedimentos de dor e de tortura”.. se foi esquecido ou reprimido. o fato de que a criança em seu amor não saiba distinguir o amor do ódio e destrua aquilo que ama. isso rima.. 35 e preceda o masoquismo. Como não lembrar do que diz Penthesilée. Névrose. História: Questões & Debates. O amor arcaico é devorador. c) enfim. b) por outro lado. não é necessário evocar aqui.. acredito. Paris: P. N. o assassinato do pai primitivo que. S. do T. Le problème économique du masochisme.

não se sentem culpados nem humilhados por seus atos. Eles os reivindicam como aquele dentista (de cujo nome não me recordo). conduz ao ódio de si. P. de ser um Narciso sem rédeas e triunfante. Editora da UFPR . que não pensa muito. que declarou. Isso é que o torna tanto mais maleável. ou agradar seus amigos. interagem umas com as outras. da sociedade inteira e do gênero humano. In: HÉRITIER.48 Eles meramente convidam o homem a desconfiar sempre dos outros. Pode sempre encontrar boas (e más) razões para as suas maquinações. a violência do desejo (de devorar) tem em si mesma conotações sádicas.36 ENRIQUEZ. Sadismo e masoquismo não se opõem radicalmente. Toda a dor pelo outro. 11-41. Curitiba. 2001. de não ser tocado. cit. membro de um ou mais grupos. Para concluir. um grande funcionário. assistente de Mengele em Auschwitz. S. História: Questões & Debates. WINTER. p. Soumission à l’autorité. Se a sociedade lhe dá alimentos ideológicos para simplesmente abominá-los.49 de participar da “zona cinza” de que fala Primo Levi se o narcisismo não for atingido. mesmo se os ama. como diz Milgram: “Os humanos são levados ao assassinato sem grandes dificuldades”. MILGRAM. todo o prazer para si e sua identidade (seu narcisismo) sairá glorificado. à ideologia mais sufocante. ser um pequeno funcionário tranqüilo. ainda que a culpa ou a humilhação estejam na origem do desenvolvimento da humanidade. Matar sem remorso: reflexões. a tarefa se lhe torna mais fácil. ainda por cima. Portanto. O indivíduo é ao mesmo tempo único. ou ser racional etc. Tentative de “viologie”. pois esse desejo é reprimido. l. Mas. pode alcançar a alegria e sentir-se um senhor. entrelaçando-se para formar nós que permitem prender o homem à jaula de seu desejo. levando o homem a se sentir culpado ou humilhado por isso. ou admirar seu chefe. é necessário precisar que essas razões. J. 1974. pode submeter-se às mais terríveis ordens. pode fornecer satisfações intensas. Não é necessário continuar. E. a não viver em um état agentique segundo a expressão de Milgram. O resto é decorrência disso.. [S.. Não necessariamente um grande senhor. op. 35. Bem ao contrário. há 48 49 Cf. É certo que nem todo mundo é assim e alguns são capazes de resistir. n. Damo-nos conta então que ao passo que o masoquismo é uma sensação primeva e que o sadismo em relação ao outro é somente a projeção do ódio de si. É por isso que os assassinos.]: Calmann-Lévy. Jacente na psiqué está o desejo de ser único. Deve encontrar a sua identidade. por nós destacadas e tipificadas para efeitos de análise.

A violência sutil da empresa substituiu a exploração brutal. degolações se multipliquem e sejam banalizados. onde se pode matar por lazer. n. Ela não mais parece insuportável para muitos. apesar da literatura abundante sobre assassinatos em massa.ENRIQUEZ. Barbie. os assassinatos individuais e os assassinatos psíquicos aumentam. a violência torna-se pública cada vez mais claramente. pois a realização de seu fantasma impulsiona sua propensão a matar. onde tinha pleno conhecimento que milhares de judeus (“verdadeiros ratos”. S. Poderiam chamar seu trabalho de “civilizador”. em um jornal alemão. “purificações étnicas”. Do que realmente se pode acusá-los? É incontestável que uma sociedade em que genocídios. que tem apenas um crime de sua autoria pode vir a ter remorsos. 2001. violência no dia-a-dia. 35. diz ele) eram asfixiados. A desigualdade aumenta. Nas nações ocidentais (Estados Unidos. que os sujeitos humanos tenham tomado consciência da amplitude das transformações. praticamente nunca. Touvier. e que foram necessários apenas alguns dias para adaptar-se àquele lugar. Os processos Eichmann. In: Violences: lieux et cultures. onde os assassinatos coletivos desapareceram. p. E. No estado geral das coisas.50 já um participante dos assassinatos coletivos ou aqueles que o decidiram. [S. Eles fizeram a sua parte.]: Associations Rénovations. Poucas pessoas ainda são capazes de reagir a essa tendência mesmo se pesquisadores. Matar sem remorso: reflexões. Editora da UFPR . um serial-killer mais raramente. Um criminoso solitário. torne-se uma sociedade insensível. 1997. História: Questões & Debates. uma adaptação à violência. onde sua tarefa(!) consistia em injetar pus nas gengivas dos prisioneiros. outros profissionais e atores sociais tentam definir novas vias. 11-41. Ao contrário. 37 alguns meses. Curitiba. mas igualmente. elevam-se os dejetos humanos. Papon apenas confirmam essa ausência de remorsos.. mas ele apenas alimenta (mesmo se 50 DE MIJOLLA-MELLOR. A guerra econômica faz suas vítimas.. l. O arrependimento está na ordem do dia. São muitos crimes para sentir alguma emoção. violência cotidiana na televisão e em outras mídias. Le meurtre: entre fortune et réalité. O grande número elimina a emoção se ela ainda existir. causando o crescimento da sensação de insegurança. não parece. Violência nos filmes americanos (sempre um estrondoso sucesso). violência na Internet e nos jogos eletrônicos. que encontrara “ótimas condições” de trabalho em Auschwitz. Canadá e Europa Ocidental).

se naturalmente continuou o mesmo. Os homens vivem no efêmero e os projetos de longo prazo causam riso. [S. funciona em ritmo lento. É o “eu” adaptativo e adaptado que é objeto de todos os cuidados. Assim.. Editora da UFPR . Quanto ao aparelho psíquico. número sobre grupos. toleram-se sem se amarem. dos delinqüentes). As pessoas se acomodam com as convenções. A. pela democracia e de afrontar os problemas e os obstáculos. Isto porque há a pretensão de difundir várias proibições repressivas e poucas proibições estruturantes. M.51 Uma vítima 51 Cf. o amor também não. que possuía fundamentos humanistas evidentes. Matar sem remorso: reflexões. Nossas sociedades vivem um déficit de libido. quanto ao Superego. p. desqualificou-se.. Os educadores não sabem mais os limites e as balizas que devem impor. Os movimentos sociais radicais esmorecem. Curitiba. quase diáfanos. do que contornar e ridicularizar a lei e as leis. 35. o ceticismo.. mais transparentes. GARAPON. 11-41. 2001.38 ENRIQUEZ. O “politicamente correto”. de obter reparação. Os homens de convicção fazem-se raros enquanto os bons e maus administradores pululam. dos imigrantes. E. sem profundidade. grandes e pequenos. 1996. cada um pode não tomar parte e proteger-se. porque não há nada mais bonito. Se o crime não está mais em questão. e igualmente CIFALI. que permite a numerosos grupos ou organizações a se redimirem e assumirem um ar acolhedor e benevolente. que aparecerá na R. o relativismo prosperam. acaba como uma aceitação flexível de todas as diferenças e de todas as opiniões. Além do mais.F. Entramos na civilização da queixa.P. Le Gardien des promesses. O egoísmo. Perguntamos cada vez menos como buscar a verdade e cada vez mais como livrar-nos das coisas e sobreviver. Os ideais do “eu” causam medo. mas esportivo.]: Odile Jacob. História: Questões & Debates. o cinismo (no sentido vulgar do termo). de exigir seu desaparecimento. Os indivíduos tornaram-se mais indiferentes. as pulsões são canalizadas e assépticas. for de boa fé) a “boa consciência”. A referência à lei organizadora do social não está mais em uso. l. Não se trata de lutar por idéias. Multiplicam-se os delinqüentes. n. O desejo de revolução se extinguiu quando foi possível perceber os desgastes causados pelas sociedades que quiseram retomar tudo pela base. Influência e responsabilidade. dos capitalistas. mas designar a causa do mal. cada um se vê como vítima (da sociedade. O grande termo da moda é sofrimento. desde que foi comparado a um “policial” dentro da mente.

os dominadores. de outro. pois é sempre no momento em que a esperança desaparece que surge o imprevisto e o novo. os sociólogos. E. os assistentes sociais. o pior não logra vitória em definitivo. 39 não precisa do Superego. pacientemente. Cada época tem sua tarefa a cumprir. Por outro lado. obter um tratamento terapêutico se necessário. mas acredito que deva ser feita.. O caminho deve ser retomado. flexível. Editora da UFPR . Se a aurora levantar-se. Sinto-me incapaz de enunciar uma hipótese. quer consumir os objetos e os signos. De um lado. Essa constatação talvez pareça sinistra. 2001. Podemos assim fazer os esforços necessários para acompanhar as transformações econômicas e sociais. os psicólogos. os tubarões das finanças (os paranóicos e os apáticos) que exigem submissão. Moisés nunca viu a Terra prometida e os Hebreus precisaram errar quarenta anos no deserto. é necessário. os animadores de rua. a amá-las se possível. Ela precisa ser ouvida. a reconhecê-las. Não temos razão para crer que eles pagaram o suficiente por nós e que eram mais fortes e resistentes do que nós. como indiquei. Ele quer a paz. os capitalistas. da instância proibitiva. História: Questões & Debates. será necessário continuar o trabalho tranqüilamente. Mas como todo mundo pode ser um dia uma vítima. Curitiba. Esse imprevisível nos anuncia um esclarecimento ou uma doce catástrofe. n. os mediadores. os educadores etc. tanto melhor.ENRIQUEZ. da evolução social nem da violência do mundo. confortada. as vítimas. 35. que cada um assegure-se de possuir um “eu” sólido. p. Se não. Também o mundo sofre uma clivagem. 11-41. A única possibilidade que me resta é desejar continuar apesar de tudo o que há para pensar e agir com as pessoas. adaptável. e entre os dois. cujo papel é de limitar o conflito e ir em socorro das vítimas. os psicanalistas. do destino da civilização. Afinal.. Matar sem remorso: reflexões. O homem não se sente mais como um portador da Kulturarbeit..

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