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Para uma crítica da teoria do género e da ideologia queer

Ramiro marques
A proposta liberal centra a educação para a cidadania no conhecimento e
apreço pelas virtudes intelectuais e éticas que integram o cânone da
Civilização Ocidental. Esse conhecimento e apreço faz-se através da prática
e dos hábitos. O contacto com bons exemplos de civilidade, a leitura dos
clássicos e o contágio proporcionado por um ambiente que preza e cultiva
as virtudes são outras importantes estratégias. Na proposta liberal
conservadora, a educação para a cidadania visa criar boas pessoas e bons
cidadãos. Para se ser boa pessoa é necessários ter um bom caráter e, para
tal, urge conhecer e apreciar as virtudes da prudência, da temperança, da
amizade, da justiça e da fortaleza.
A proposta neomarxista centra a educação para a cidadania no
doutrinamento da criança e do jovem em função de uma agenda política
transformadora e revolucionária que visa a rotura com o cânone da
Civilização Ocidental, vista como opressora, e a imposição de novos valores
que estão para além da moral. Ao invés de centrar a educação para a
cidadania no conhecimento e prática das virtudes, a proposta neomarxista
sacrifica as tradições, o cânone cultural e as virtudes éticas à imposição do
conceito de igualdade absoluta, subvertendo a realidade, incluindo a
realidade biológica, a uma visão de futuro que visa impor uma nova ordem e
uma nova humanidade. No fundo, a teoria do género mantém e atualiza
uma ideia central ao projeto marxista-leninista da construção do Homem
Novo, uma realidade construída sobre os escombros da velha sociedade de
classes, aniquilamento das tradições e das classes que com elas se
identificam. Tal empreendimento exige um nível de destruição apocalítico,
que não deixa pedra sobre pedra do velho edifício social, económico e
cultural. Marx, no Manifesto Comunista, chamou a esse projeto
revolucionário a fase da ditadura do proletariado. Pelo caminho, sucumbem
as classes ditas opressoras e a cultura que elas personificam. Um
empreendimento desta dimensão e ambição - a construção do Homem Novo
- exige um grau de destruição de bens e de vidas que pôde ser visto em
todas as revoluções comunistas que varreram o século XX.
Recentemente, vivi uma situação que mostra bem a diferença entre a
proposta liberal e a proposta neomarxista. Sucedeu num júri de mestrado.
Uma tese sobre educação para a cidadania na perspetiva aristotélica
orientada por mim. A arguente era uma militante ligada aos movimentos de
emancipação sexual. Volta e meia, a arguente perguntava: onde está a
proposta transformadora na sua tese? Não vejo nela mecanismos de
resistência ao pensamento hegemónico sobre as desigualdades. Não vejo
como é que as estratégias que aponta ajudam a criar a rutura face ao
cânone que mantém a opressão das minorias sexuais. O seu discurso usa
uma linguagem sexista. E por aí fora, numa série de acusações ideológicas
sem a menor preocupação em respeitar o enquadramento teórico escolhido
pela mestranda, como se só houvesse um quadro teórico legítimo e esse
quadro tivesse de incluir, obrigatoriamente, a teoria do género, o
comunismo, o materialismo histórico e dialético e a defesa da agenda dos
movimentos homossexuais, transsexuais e intersexuais.

No centro da chamada teoria do género está a ideia - errada - de que a
nossa identidade sexual não tem origem biológica. Para os radicais da teoria
do género, a identidade sexual é uma construção social e cultural: não se
nasce rapaz ou rapariga, vai-se optando por ser uma coisa ou outra ou as
duas coisas em simultâneo, um pouco ao sabor do vento, do império dos
desejos ou do capricho das paixões. Querer apagar a realidade biológica
constitui, para os radicais da teoria do género, a maior das ruturas e o mais
empolgante dos desafios. A teoria do género busca no marxismo a negação
da realidade, a construção de realidades virtuais, falsas mas poderosas,
negação essa que legitima o projeto revolucionário dirigido por pequenas
vanguardas que o vão impondo a todos, ocupando o espaço público de uma
forma gradualmente hegemónica. Quem recusa o projeto revolucionário,
travestido de teoria do género ou de qualquer outra máscara, é apelidado
de reacionário, homofóbico, conservador ou neoliberal, afastado do espaço
público, perseguido e injuriado. A heterossexualidade é vista como uma
construção cultural, imposta pelas tradições "opressoras" e aqueles que as
representam: igrejas, autores que integram o cânone ocidental e todos os
que ousam afirmar publicamente que se nasce com uma determinada
identidade sexual. Os radicais da teoria do género e da sua versão mais
extremista, a teoria queer, vão ao ponto de afirmar que não foi dada
liberdade de escolha aos heterossexuais porque, nas sociedades
capitalistas, a hererssexualidade é uma imposição quando devia ser uma
escolha, um produto de uma construção cultural, fluída, flexível e polimorfa.
Em última instância, os radicais queer sonham em banir a
heterossexualidade, pôr fim a todos os vestígios de maternidade, arrasando
a articulação entre sexo e reprodução, substituindo-a pela poli-identidade
sexual, a qual não é mais do que uma miríade, sempre crescente, de
identidades sexuais que se juntam ou sucedem no indivíduo como
expressão da anarquia e do caos polimorfo. A associação do sexo à
reprodução e a maternidade estão na ponta da mira dos extremistas queer
porque é aí que a ideologia do género e a ideologia queer são desmentidas,
a toda a hora, em todos os lugares, sempre que uma mulher engravida e
um bebé nasce com um sexo definido e uma identidade sexual que se vai
revelando à medida que o bebé dá lugar à criança e esta ao jovem.
As referências à chamada linguagem inclusiva, feitas amiúde pelos radicais
têm como objetivo fazer uma censura sobre a linguagem usada,
pressionando as pessoas a, sobretudo as que estão numa situação de
dependência ou fragilidade, a aderir, ainda que à força, a um tipo de
linguagem que serve a agenda política dos movimentos neomarxistas, a
qual não é mais nem menos do que o controlo do pensamento através da
imposição de uma linguagem politicamente correta, legitimada por uma
pretensa superioridade moral alicerçada na ideia de igualdade.