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Nomes: Ana Paula Rodrigues; Nicole Faria; Marcos Martins; Renato Duarte

Disciplina: Linguagem e Poder
Professor: Ricardo Fabrino

Avaliação II

Tanto nos estudos culturais quanto na obra de Foucault estão presentes
considerações sobre as noções de subjetividade e identidade. Uma importante
contribuição de Foucault para este debate é a ideia de discurso. O discurso não é, para o
autor, apenas o que é dito, ele é o que possibilita o dito, assim como regula o que não
pode ser dito. O discurso é o tecido de onde emergem os enunciados, mas sua dinâmica
não permite que qualquer enunciado surja: fazem parte do discurso mecanismos de
interdição e regulação para que alguns enunciados não surjam, ao menos como
inteligíveis. Usando as palavras do autor:
"Suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo
tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo
número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e
perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e
temível materialidade." (Foucault: 9).

Essa regulação em torno do discurso existe porque este não é apenas a tradução
das lutas e sistemas de dominação, ele faz parte da disputa, ele é poderoso em si mesmo.
O discurso é uma importante ferramenta da produção de realidades, ele é o que separa
os indivíduos, diz o que é normal ou não é, por exemplo, o discurso da loucura foi um
meio de separar loucos e sãos e criar, junto com uma certa ideia de loucura, uma noção
de normalidade que deveria ser seguida.
Em seu texto "A ordem do discurso", Foucault enumera três mecanismos de
exclusão que regulam a emergência de discursos, que são: o tabu do objeto, o ritual da
circunstância e o direito exclusivo do sujeito que fala, que dizem respeito,
respectivamente, a sobre o que se pode falar, em qual circunstância se pode falar e quem
pode falar. O discurso religioso, por exemplo, recorre a essas formas de exclusão: não é
qualquer um que pode proferi-lo (direito exclusivo do sujeito que fala), seu poder é

maior quando ritualizado (ritual da circunstância), existem coisas que não podem ser
ditas (tabu do objeto), tudo isso delimita este discurso, recorta do "acontecimento
infinito e aleatório dos discursos" um possível, tomando a existência de outros discursos
impossível naquele contexto. Outro procedimento de exclusão, típico da sociedade
ocidental e que não se utiliza da interdição, mas da separação e rejeição, é o discurso da
loucura: o louco está sempre para além da razão, está sempre distante e diferenciado, e
esta é a censura que pesa sobre sua voz, nunca levada em conta completamente. Em
terceiro lugar, a separação entre verdadeiro e falso também pode operar como um
sistema de exclusão. Historicamente, o poder da verdade se deslocou de seu enunciador
e dos rituais para o próprio enunciado, não é quem diz ou como se diz que torna algo
verdadeiro, a verdade existe em si mesma, existem ditos verdadeiros que formam mais
um sistema de exclusão propagado institucionalmente pelas escolas, livros, etc. Essa
vontade de verdade, para Foucault, esta permeada pelo desejo e o poder.
Juntos, os procedimentos acima citados formam três grandes sistemas de
exclusão: a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade. Mas para
além desses sistemas, existem também procedimentos internos de regulação dos
discursos.
Os procedimentos

internos

funcionam como, sobretudo, princípios

de

classificação, ordenação e distribuição dos discursos, e consistem no comentário, no
autor e na disciplina. O comentário é a volta do discurso, é repetir um primeiro texto,
atualizando-o, nas palavras de Foucault consiste em "repetir incansavelmente aquilo
que, no entanto, não havia jamais sido dito." (Foucault: 25). Continuando, "O
comentário conjura o acaso do discurso fazendo-lhe sua parte: permite-lhe dizer algo
além do texto mesmo, mas com a condição de que o texto mesmo seja dito e de certo
modo realizado." (Foucault: 25-26). O princípio do autor serve para dar à obra um
lastro no real, na vida do autor, e muitas vezes dar autoridade ao texto através da
autoridade de quem o proferiu. Por fim, a disciplina também impede a proliferação dos
discursos ao acaso inventando uma tradição que deve ser seguida, regras, métodos,
enfim, o que será requisito para a produção de novos enunciados, que devem ser novos
mas não devem estar fora do arcabouço da disciplina. Dentro da disciplina se delimita
também o que será verdadeiro; não a verdade, mas o que pode-se aceitar naquele
momento histórico, o que a disciplina tem condições de compreender.

Por fim, a rarefação é o terceiro grupo de procedimentos de regulação dos
discursos, que diz respeito às áreas discursivas em que se pode mais facilmente ou
dificilmente penetrar, e em cada um desses espaços do discurso só entrará quem
satisfizer certas exigências ou for, de início, qualificado em seus termos para fazâ-lo.
Foucault analisa esses procedimentos para mostrar que o discurso não é apenas o
que vem de um sujeito fundante que preenche a língua com seus significados, nem uma
leitura imparcial do mundo empírico, nem a mediação universal entre o real e o sujeito.
A tarefa de Foucault é questionar a vontade de verdade reinante no mundo ocidental e
restituir ao discurso seu caráter de acontecimento. Para isso, temos que investigar o não
dito, perceber os procedimentos de exclusão presentes nos discursos. Da mesma forma,
o autor utiliza-se da genealogia para investigar as condições de surgimento dos
discursos. Assim, na investigação devemos pensar no discurso mais como
acontecimento do que como criação, preferir a ideia de série à de unidade, de
regularidade à originalidade e a condição de possibilidade à significação, isto porque os
discursos não surgem a partir de um sujeito que os cria, eles acontecem parte de uma
série histórica, de maneira regular, atualizando o já existente, eles surgem no tecido de
outro discurso que possibilita sua emergência.
Dito isto, podemos mostrar como, para Foucault, o sujeito não é apenas o
enunciador e criador do discurso, ele é perpassado por discursos que constituem sua
própria subjetividade e identidade. O discurso de gênero, por exemplo, é constituído por
diversos procedimentos de regulação, exclusão, etc., que dizem as possibilidades de
identidade e subjetividade dos indivíduos que já nascem inseridos no discurso, que é
constantemente atualizado. Essa discursividade diz o que é ser homem e o que é ser
mulher, além de dizer que só existem essas duas categorias de gênero. Assim, as
identidades que estão para além deste discurso são vistas como ininteligíveis,
monstruosas e são violentadas pelos processos de exclusão e regulação dos discursos,
que operam como verdades e por meio de instituições, como a língua, a ciência, etc.
Analisar criticamente o caráter de acontecimento descontínuo do discurso, enxergar
seus poros, confrontar a vontade de verdade, são mecanismos para desenvolver outras
possibilidades discursivas, devolver ao discurso sua perigosa potência de aleatoreidade
e acaso, fazer emergir outros discursos, como os movimentos sociais feministas fazem,
por exemplo, ao mostrar geneologicamente de onde veem os papéis de gênero, quais

procedimentos os mantêm, etc., para contestá-los e opor a eles outras realidades
possíveis.
Considerando as contribuições de Foucault, também devemos expor as críticas
feitas ao autor, principalmente por Spivak, que considera o fato de que a produção
intelectual ocidental é cúmplice dos interesses econômicos do ocidente, e traz o foco da
discussão para o sujeito subalterno do "terceiro mundo", em especial, à mulher
subalterna. Em seu livro "Pode o subalterno falar?", Spivak procura problematizar como
o sujeito do terceiro mundo é representado no discurso ocidental; mostrar como os
intelectuais ocidentais são cúmplices das estratégias do capital internacional, e colocar
em questão as relações entre os discursos Ocidentais e a possibilidade de fala da e pela
mulher subalterna.
Segundo Spivak, os intelectuais ocidentais não se dão conta de sua inserção na
ideologia ocidental que trabalha para a manutenção das relações díspares de poder
internacional, que são calcadas na divisão internacional do trabalho. Para ela, noções
como a de ideologia são muito importantes e não podem ser deixadas de lado, da mesma
forma que o poder macro não pode ser negligenciado. As próprias teorias fazem parte da
ideologia, com pode-se observar pela exclusão masculina da análise da família na obra
de Marx, ou na questão do micro-poder de Foucault, desenvolvida por Deleuze e
Guattari, que Spivak contesta ao dizer:
A relação entre o capitalismo global (exploração econômica) e as
alianças dos Estados-nação (dominação geopolítica) é tão macrológica
que não pode ser responsável pela textura micrológica do poder. Para
se compreender tal responsabilidade, deve-se procurar entender as
teorias da ideologia- de formações de sujeito, que, micrológica e,
muitas vezes, erraticamente, operam os interesses que solidificam
macrologias. (Spivak: 54)

As teorias ocidentais de formação do sujeito fazem parte da ideologia ocidental e
a intelectualidade europeia tem como uma de suas especificidades a constituição do
sujeito do terceiro mundo como um outro homogêneo identificado em relação ao sujeito
europeu. A constituição do sujeito colonial como outro é parte da violência epistêmica
colonial, e dentro destre quadro é difícil dizer de um outro que se tiver oportunidade irá
falar e conhecer suas condições. Nas palavras da autora:

"Devemos agora confrontar a seguinte questão: no outro lado da
divisão internacional do trabalho do capital socializado, dentro e fora
do circuito da violência epistêmica da lei e da educação imperialistas,
complementando um texto econômico anterior, pode o subalterno
falar?" ( Spivak: 70)

Através desta pergunta, Spivak mostra que o sujeito colonial é diverso e
constituído na diferença: em relação ao poder colonial, o sujeito poderoso local é
subalterno, mas em relação às camadas locais mais baixas na hierarquia, ele é poderoso.
A mulher subalterna, neste contexto onde o sujeito colonial não tem história, está ainda
mais na obscuridade, como podemos ver na análise do sacrifício das viúvas, ora contado
a partir dos homens ingleses, ora a partir dos homens indianos, de modo que voz das
mulheres protagonistas dessas histórias some.
Apesar de reconhecer a importância das análises de Foucault das intrelinhas do
poder, este, como a maioria dos intelectuais europeus, ignora o problema do poder
imperial, e a constituição do sujeito subalterno. Assim, a crítica da representação, de
que o intelectual deve se tornar transparente para que a voz do outro fale não faz sentido
para uma mulher vinda de um contexto de dominação colonial. Para Spivak:
"O subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído à "mulher"
como um item respeitoso nas listas de prioridades globais. A
representação não definhou. A mulher intelectual tem uma tarefa
circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio." (Spivak: 165)

Na corrente dos estudos culturais, citamos como complemento a esta posição de
Spivak a ideia de Hall, retomada em parte de Gramsci, da intelectualidade orgânica, em
que o trabalho intelectual deve estar em consonância com as revoltas sociais e se dirigir
para o mundo social, fazer parte da disputa política. Além disso, assim como Spivak,
Hall também põe em cheque cânones da intelectualidade que representam, mesmo que
não pareça à primeira vista, uma epistemologia colonial. Vejamos sua crítica aos
intelectuais marxistas:
"Desde o início (...) já pairava no ar a sempre pertinente questão das
grandes insuficiências, teóricas e políticas, dos silêncios retumbantes,
das grandes evasões do marxismo- as coisas de que Marx não falava
nem parecia compreender, que eram o nosso objeto privilegiado de
estudo: cultura, ideologia, linguagem, o simbólico. Pelo contrário, os

elementos que aprisionavam o marxismo como forma de pensamento,
como atividade de prática crítica, encontravam-se, já e desde sempre,
presentes- a ortodoxia, o caráter doutrinário, o determinismo, o
reducionismo, a imutável lei da história, o seu estatuto como
metanarrativa." (pág. 191)

Assim, os estudos culturais retomam a importância do simbólico para mostrar sua
materialidade e realidade, principalmente ao se pensar no poder. É neste sentido que ele
diz da luta cultural, onde o poder cultural opera a produzir diferenças entre os sujeitos,
que irão definir suas identidades. Desta forma ele analisa a ideia de cultura popular não
como tudo o que o povo faz, mas como o que marca a diferença entre o que é do povo,
do que é marginal, e do que é hegemônico. Em suas próprias palavras: "O que conta
não são os objetos culturais intrínseca ou historicamente, mas o estado do jogo das
relações culturais: cruamente falando e de uma forma bem simplificada, o que conta é
a luta de classes na cultura ou em torno dela." (Hall: 242) A diferença e a identidade
trabalham, portanto, de forma historicamente provisória, onde os sujeitos disputam a
cultura em processos de incorporação, distorção, resistência, negociação e recuperação.
Importante lembrar também que nos dois pólos os individuos são diversos, não existe "o
popular" e "o hegemônico", mas alianças e forças sociais que constituem blocos de
poder.
Nesse caso, Hall (2013) inicia essa discussão para tratar de dois paradigmas que
ele acredita pairar sobre os estudos culturais, sendo esses o paradigma culturalista e o
estruturalista. O autor coloca o fato de que os principais autores do início dos estudos
culturais, como Willians e Thompson, desenvolveram o paradigma dominante nesse
campo de estudo, que é o culturalista. Pensando nas ideias apontadas acima onde a
cultura é sempre um campo de disputa, esse primeiro ponto vem colocar o fato de que
os sujeitos são agentes ativos na sua própria história, em detrimento do segundo
paradigma colocado principalmente por Althusser e Levi-Strauss que entendem o sujeito
como portador de estruturas que os falam e os situam.
Hall (2013) procura então criticar e considerar as ideias dessas duas linhas de
pensamento, mostrando primeiramente que o paradigma culturalista coloca o foco sobre
a cultura enquanto padrões de interpretação que são construídos, modificados e

atualizados a todo momento pelos sujeitos sociais, sendo esses sujeitos que os dão
sentido à ela. Segundo Hall (2013), para esse grupo cultura pode ser definido
“ao mesmo tempo como os sentidos e valores que nascem entre as
classes e grupos sociais diferentes, com base em suas relações e
condições históricas, pelas quais eles lidam com suas condições de
existência e respondem a estas; e também como as tradições e práticas
vividas através das quais esses entendimentos são expressos e nos quais
estão incorporados.” (HALL : 155, 2013)

Entendemos, então, o sujeito para os culturalistas como um sujeito ativo, agente de sua
história e sua cultura, mesmo levando em consideração as estruturas que nesse caso nos
atravessam, mas mediadas por eles mesmos, ainda que de formas diferentes.
Já no paradigma estruturalista o sujeito faz historia através de condições que não
escolheram. Sendo então um contraste ao primeiro paradigma, pois é muito calcado em
uma ideia de oposição entre natureza e cultura, por ter sido principalmente desenvolvido
dentro da antropologia e também pela noção althusseriana de ideologia, conceito que
poderia ser compreendido como o processo de construção dos sujeitos através da
convocação dos mesmos para ocupar espaços já pré-estabelecidos. Para Hall (2013) esse
contraste pode ser melhor entendido da seguinte forma:
Enquanto no “culturalismo” a experiência era o solo – o terreno
do “vivido” - em que interagiam a condição e a consciência, o
estruturalismo insistia que a “experiência”, por definição, não
poderia ser o fundamento de coisa alguma, pois só se podia
“viver” e experimentar as próprias condições dentro e através
de categorias, classificações e quadros de referencia da cultura.
Essas categorias, contudo, não surgiram a partir da experiência
ou nela: antes, a experiência era um “efeito” dessas categorias.
(HALL :162, 2013)

Dessa forma, após analisar esses dois pontos Hall (2013) entende que foram as
vertentes que levaram em conta esses dois paradigmas nos estudos culturais as que mais
se aproximaram das exigências desse campo de estudo. Ainda que nenhum dois se
bastem por si só eles levantam o debate da base/superestrutura que para o autor é um
debate muito relevante para os estudos culturais. Assim, pode-se notar que o mais

adequado aqui seria pensar um sujeito ativo, porém com algumas limitações estruturais,
mas que no caso funcionariam como um lugar de disputa, pois quando, por exemplo, se
“confronta” a estrutura, está ao mesmo tempo as atualizando. Isso, como já disseram os
outros autores apresentados, pode se dar principalmente no campo da linguagem,
novamente ainda com suas limitações, como diz Spivak sobre a não possibilidade de o
subalterno falar e Foucault sobre os interditos. Porém, o que podemos entender no texto
de Hall é que mesmo sendo constrangido pela estrutura, seria uma ingenuidade pensar
que os indivíduos, estando em posições determinadas, não podem ser agentes de suas
histórias.
Chantal Mouffe e Ernesto Laclau dissertam acerca da importância do
entendimento prévio do conceito de articulação para uma melhor compreensão do
conceito de hegemonia. Através do resgate de Hegel, Laclau e Mouffe partem para a
apresentação de uma ideia a respeito da concepção de identidade, em que para elxs esta
não poderia ser dada através de uma essência fixa; pelo contrário, ela deveria ser
concebida através de um estado dialético e de fluxo contínuo, onde os atores políticos
poderiam funcionar como resultados de relações históricas. Estxs chegam a afirmar que
de acordo com o próprio Hegel : "a identidade nunca é positiva e fechada nela própria,
mas é constituída como transição, relação, diferença" (Lalcau; Mouffe: 166).
Doravante este entendimento, podemos dizer que, pensando no conflito de
classes proposto essencialmente por Karl Marx, xs autorxs talvez não considerariam,
como este último, que as identidades sociais entrariam em conflito a partir de supostas
formações e constituições sólidas próprias. Xs autorxs propõem que o antagonismo
social surgiria justamente a partir da "sobredeterminação de umas entidades por outras".
Podemos refletir sobre isto através da concepção explorada anteriormente em que para
Laclau e Mouffe as identidades seriam sempre relacionais, isto é, não podendo ser
plenamente constituídas.
A respeito da relação entre sujeito e discurso, Laclau e Mouffe refletem acerca
da impossibilidade de atribuição dos aspectos materiais de um discurso à unificação de
experiências ou consciência de um sujeito. Para elxs, na verdade, as ‘’diversas posições
de sujeito’’ são as que aparecem ‘’dispersas numa formação discursiva’’. A autora e o
autor, em seguida, parecem descrever uma espécie de processo a partir do qual as nossas
relações com "objetos" se dariam através do discurso, isto é, críamos nossa percepção
destes por meio das relações de sentidos que lhes atribuímos. Estas relações por sua vez
estariam atravessadas por disputas histórico discursivas de visão de mundo. Laclau e

Mouffe nos mostram com o processo citado acima uma certa impossibibilidade de viver
com a ausência de categorias porém, ao mesmo tempo deixam claro que a experiência e
o próprio ser humano se configuram como incapturáveis por estas categorias. Estes
sentidos que damos às coisas, possuiriam assim uma concepção de fluxo constante,
onde estaria implícita a impossibilidade de qualquer fixação discursiva.
Acerca da formação da constituição do discurso a partir do seu caráter
incompleto de qualquer fixação discursiva, elxs afirmam que "qualquer discurso se
constitui como tentativa de dominar o campo da discursividade, de deter o fluxo das
diferenças, de construir um centro" (Laclau; Mouffe: 187), estes centros seriam os
denominados pontos nodais, que desempenham o papel de fixação parcial dos sentidos.
O discurso, ou a linguagem, é esta totalidade formada através destas configurações de
sentido, que de alguma maneira, em sua estrutura, envolve pontos de configuração que
atravessam o sujeito.
A partir das ideias expostas anteriormente de cada autor e autora, pensemos a(s)
vivência(s) de tavestis e pessoas trans em relação com o Estado e suas instâncias.
Em seus estudos sobre gênero e Teoria Queer, Judith Butler atribui à linguagem papel
central na conformação dos sujeitos. Ao propor pensar a construção dos corpos/sujeitos
por esta perspectiva, a autora está a questionar o caráter "natural" dos binarismos
(sexo/gênero;

homem/mulher;

macho/fêmea;

masculino/feminino;

pênis/vagina),

trazendo a biologia para o campo do social e confrontando seu papel na configuração
das relações sociais. Tais relações encontram-se circunscritas no que a autora denomina
como Matriz de inteligibilidade de gênero, em que se pressupõem uma coerência entre
sexo, gênero, desejo/prática, onde, nesta equação, a heterossexualidade é a expressão
única e obrigatória. Posto isto, sendo as ações performativas dos sujeitos um efeito
destas sanções sociais – onde a repetição destas ações fundamenta e inscreve
siginificados às noções do que é "ser homem" e do que é "ser mulher" – frutos de uma
prática discursiva, da linguagem, estas oposições binárias manteriam assegurada a
estabilidade da matriz heterossexual e a manutenção de tal ordem compulsória.
Uma vez que, como defende Foucault, o discurso é uma ferramenta de poder e
dominação que regula a realidade e as instâncias de normalidade nas relações sociais, as
identidades abjetas, levando em consideração as ideias de Butler, são justamente as
expressões que subvertem este esquema binário/compulsório, quebrando com esta
lógica. E é neste campo que as travestis e pessoas trans se inserem aqui.

Ao pensarmos nas barreiras que inviabilizam uma existência que não possua
incorporada a ela atravessamentos sociais como violência, exclusão social e extrema
vulnerabilidade, podemos nos remeter aos fatores estruturais que nos direcionaram para
os modos normativos como vivemos em nosso contexto Ocidental. O Estado, como
Estado racional – de Weber – ao assumir um conjunto de regras e normas, que
firmaram-se através do aperfeiçoamento e consolidação da técnica – funcionalismo
especializado –, decisivos para a organização burocrática, se configura como instância
que regula, através de suas práticas, discursivamente e institucionaliza a autonomia dos
sujeitos. A incorporação e naturalização de categorias binárias, excludentes - “modos de
ser” - pressupõe o alijamento de toda e qualquer categoria não inclusa no campo
normativo do Estado.
As travestis, ao assumirem sua identidade de gênero feminina lhes são negados
procedimentos médicos públicos como tratamento hormonal, aplicação de silicone, ou
seja, intervenções corporais que compõem suas identidades, assim como também lhes
são negados os direitos de uso do nome social em suas atividades e compromissos
cotidianos, bem como dão início a sua trajetória de vida “optando” (de maneira
compulsória) ao que lhes cabe como alternativa de fuga e sobrevivência: a evasão
escolar e a saída precoce de suas casas e de suas cidades. Uma vez que deixam seus
lares e seus lugares de origem, elas recorrem à prostituição nas grandes cidades –
brasileiras ou estrangeiras – como modo de subsistência. Modificam seus corpos e
constroem seus ideais de feminino através de métodos não necessariamente
enquadrados na âmbito da legalidade – aplicação de silicone industrial pelas
“bombadeiras”, por exemplo – e que as expõem diretamente a diversos riscos de saúde,
inclusive de morte. Não obstante, o próprio fato de trabalharem na “pista” (prostituíremse) as coloca num conflito direto com as categorias dicotômicas reproduzidas
justamente pelas instâncias estatais.
Muitos dos pontos de prostituição os quais as travestis trabalham são administrados por
um “superior”, um chefe. E muitos desses “superiores” são policiais. Estes, repassam
drogas a elas – cocaína, principalmente – e as mantém num regime em que, caso não
movimentem estas substâncias e levantem um montante de dinheiro, são penalizadas.
Penalidades que, obviamente, percorrem os corpos delas pelos caminhos da ameaça e
violência (física e psicológica). Pensando os meandros em que o Estado se faz Estado,
Gramsci propõe um rompimento do antagonismo entre as categorias de sociedade
política e sociedade civil, concebendo ambos elementos de maneira não dicotômica.

Temos, então, o capital de força física e braço do Estado representado na figura do
policial, administrando uma situação onde se cria uma lógica própria e forçosa de
transação econômica sobre uma pessoa e, claro, um corpo com toda sua subjetividade e
poder de agência, socializados por este mesmo Estado que fixou essas identidades e
concede legitimidade a esta figura (policial) que representa a própria autoridade. É
exatamente esta elasticidade das fronteiras entre o legítimo/ilegítimo e legal/ilegal das
práticas discursivas que esta situação representa. Em relação às pessoas trans, por
exemplo, podemos observar um completo desentendimento do Estado quanto a esta
população no que diz respeito a sua condição enquanto tal. A transexualidade não se
esgota somente nos processos hormonais muito menos na cirurgia de “redesignação
sexual”. O fato de algumas pessoas trans não acharem necessário se submeter aos
processos de hormonização e intervenções cirúrgicas – que muitas vezes são penosos e
custosos – as desqualifica perante o Estado, uma vez que este não reconhece nestes
sujeitos as identidade(s) que elxs atribuem a si próprixs. Sendo o conceito de
hegemonia de Gramsci, o consenso da legitimidade das ações do Estado – não num
sentido de dominação –, em que as categorias que socializam nossos corpos e orientam
nossa apreensão do mundo social são naturalizadas, de forma a fixar as identidades, a
existência dessas pessoas torna-se completamente inviável e invisibilizada, na medida
em que a categoria sexo, por exemplo, abarca uma série de pressupostos (naturalizados)
que engendram “modos de ser” que não as contemplam. Isto é, no momento em que a
pessoa declara-se em não conformidade com seu sexo em relação a identidade de
gênero que apresenta e opta por não passar por todos os processos para que possa ser
reconhecido(a) pelo Estado como tal (transexual, no caso), temos aí a sublimação das
identidades abjetas que as práticas discursivas que visam uma unidade e coerência das
identidades – refletidas aqui no discurso médico científico – suprimiu. Categorias
monolíticas que, junto a tantas outras, dão corpo aos que não possuem autonomia sobre
o próprio corpo.
Estes exemplos demarcam as margens, os limites de legibilidade e ilegibilidade das
práticas discursivas encontradas na própria tecitura da estrutura do Estado, em que
algumas pontas encontram-se soltas e não são incorporadas, alinhavadas; onde os
limites deste (estado) variam de acordo com os diferentes meios os quais se determinam
as relações de dentro e fora, a lei e a exceção, ou seja, as relações de oposição perante o
reconhecimento destas pessoas. Estes exemplos exprimem também as margens em que
as próprias travestis e pessoas trans, nas situações citadas, acabam sendo relegadas.

A (re)e(s)(x)istência de travestis e pessoas trans desenvolvem relações e métodos de
sobrevivência e sociabilidade que, apesar de toda uma série de circunstâncias que as
alija dos seus direitos mínimos, configuram justamente as ações de contraconduta
(Foucault, 2008) que descentralizam a imagem de um sujeito ideal, cujas práticas estão
inseridas em modos de viver pré estabelecidos, desenvolvidas e reforçadas por um
Estado em que a ausência de heterogeneidade dentro da própria lógica estatal de
organização social engendra as margens que afetam suas próprias estruturas, bem como,
e principalmente, afetam todxs que se encontram fora desta moldura. Ao confrontarem a
estrutura dominante, estxs sujeitxs estão atualizando (Hall, 2013) e reconfigurando a
suposta solidez das identidades, sendo estas, como defendem Laclau e Mouffe ( 1987),
processos de um efeito contínuo e dialético, não fixo. Apesar do lugar de subalternidade
(Spivak, 2008) o qual se localizam e de não poderem falar, estas pessoas estão, de certo
modo, constituindo suas identidades através da diferença, estão expondo os silêncios,
como argumenta a autora indiana, que o discurso dominante produz sobre os sujeitos
subalternos, questionando a validade do que pode ser dito, por quem pode ser dito,
tentando tornar possível um lugar de fala instituído como inválido (Foucault, 2007).

Referências Bibliográficas:

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural do Collège de France, pronunciada
em 2 de dezembro de 1970. 15 ed. São Paulo: Edição Loyola, 2007

FOUCAULT, M. Segurança, Território, População. São Paulo: Martins Fontes, 2008. pp. 383488.

GRAMSCI, A. “State and Civil Society”. In. Aradhana Sharma and Akhil Gupta The
Anthropology of the Sate: a reader. Oxford: Blackwell, 2006, pp.71-85.
HALL, Stuart. Estudos Culturais: dois paradigmas. In: SOVIK, Liv (org) Da diáspora:
identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. Pp. 131-159
LACLAU, E; MOUFEE, C. Hegemonia e Estratégia Socialista – Cap. 3
SPIVAK, G. C. Pode o Subalterno Falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
WEBER, M. Burocracia; In. Ensaios de sociologia. 3a ed.. Rio de Janeiro: Zahar Editores,
1974, pp. 229-282.