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KABENGELE ILUNGA

O DA INVENÇÃO, DE MARCO TÚLIO CÍCERO: TRADUÇÃO
E ESTUDO

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras Clássicas da Faculdade de
Filosofia
Letras
e
Ciências
Humanas
da
Universidade de São Paulo, para a obtenção do
título de Mestre.
Orientador:
Prof. Dr. Marcos Martinho dos Santos

São Paulo

Novembro 2009

Resumo
Este trabalho consiste numa tradução integral dos dois livros do De inuentione de
Cícero e um estudo introdutório. A despeito de não possuir preceitos específicos, a ars
retorica constitui um gênero fundamentado em modelos e consagrado pela tradição.
No estudo analisam-se as introduções das traduções mais recentes da obra,
propondo, além das tradicionais leituras que privilegiam o contexto, as condições
materiais e a “subjetividade do autor”, uma leitura retórica a partir do conceito de
auctoritas.
Palavras-chave: Retórica, De inuentione, Cícero, tradução, auctoritas.

Abstract
This work consists of a translation comprehending the two Cicero's books De
inuentione and an introdutory study. The ars retorica as a work with no specific
precepts is a gender well-grounded in models and established by tradition. The study
examins the forewords of the most recent translations of the work and proposes a
rhetoric reading through the concept of auctoritas, further to the traditional readings
that favor the context, the material conditions and the “subjectiveness of the author”.
Key words: Rhetoric, De inuentione, Cicero, translation, auctoritas.

........ 8 Capítulo I .............................................................................................................. 6 Capítulo II ............................................................166 .............................................................................................................40 Traduçâo Do De inuentione..............Sumário Parte I......................................................................................25 Parte II .......................................................41 Referências bibiográficas..................................................................................4 Inrodução....................................................................

PARTE I .

In: . Juntamente. atestam-na as introduções das muitas traduções que ela mereceu. de Marco Túlio Cícero. Ambiciosa tanto pela dificuldade do texto quanto. os Tópicos2. também propomos nossa tradução do Da invenção. In: CHIAPPETTA. de Baltazar de Oliveira Alves e. de Angélica Chiappetta. São Paulo: FFLCH-USP. CÍCERO. Ao lado da Retórica a Herênio. com a qual mantém estreitas semelhanças. não esquecendo que a tradução não está aqui como um anexo do estudo. “Do orador”. 3 CÍCERO. 1997. ainda. composto por volta dos anos 88 e 87 a. Por outro lado. por um lado. de apresentar uma tradução integral e um estudo introdutório do Da invenção. A importância que a obra representa para história da retórica. Baltazar de Oliveira. fé e ficção nas Partitiones Oratoriae e no De Officiis de Cícero. apresentamos um breve estudo introdutório. pela sua extensão. obra de autoria desconhecida. de Adriano Scatolin3. “Os tópicos”. Hoje. “Partições oratórias”.C. Os Tópicos de Marco Túlio Cícero: introdução e tradução. mas é propriamente o escopo de nosso trabalho. São Paulo: FFLCH-USP. Nesse mesmo caminho. mais recentemente. como as Partições oratórias1. a tornando-se conhecidas num círculo muito restrito.. figura como a mais antiga arte retórica latina que sobreviveu até os nossos tempos e foi de suma importância nos posteriores estudos de retórica. ainda mais. e por outro lado. já podemos contar com algumas traduções dos escritos retóricos de Cícero para a Língua Portuguesa. In: ALVES. a tradução do Do orador. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Dissertação de mestrado em Letras Clássicas. felizmente. propor uma leitura retórica a partir do conceito de auctoritas 1 2 CÍCERO. Angélica.Introdução Este trabalho nasceu de uma vontade. nenhuma dessas traduções veio à luz. Ad animos faciendos: comoção. 2001. as condições materiais e a “subjetividade do autor”. o Da invenção. Tese de doutorado. O nosso estudo pretende. que depois se mostrou ambiciosa. reavaliar alguns pontos das leituras que privilegiam o contexto.

ut nemo illorun praecepta ex ipsorum libris cognoscat. ao mesmo tempo que reconhecem a importância da obra. por sua vez. o texto fornece elementos que sugerem que autor constrói um éthos de profundo conhecedor da tradição e pretende realizar um trabalho ao modo de Aristóteles. (Aristóteles. a saber. na medida em que as introduções. ressaltam no texto os “defeitos” resultantes do fato de ser tratar de uma obra de juventude. Lembremos que O Da invenção é referido no Do orador4 como obra de caráter grosseiro e inacabado. como podemos ler: Ac veteres quidem scriptores artis usque a principe illo atque inventore Tisia repetitos unum in locum conduxit Aristoteles et nominatim cuiusque praecepta magna conquisita cura perspicue conscripsit atque enodata diligenter exposuit. ad hunc quasi ad quendam multo commodiorem explicatorem revertantur. II. mas todos os que querem compreender o que eles ensinam se voltam para ele como que para um explicador muito mais vantajoso. fazemos uma resenha crítica de três introduções. a nosso ver. ac tantum inventoribus ipsis suavitate et brevitate dicendi praestitit. 6. Assim. a de Guy Achrd (1994) e a de Salvador Nuñes. feitas pelo próprio Cícero no Do orador. e registrou nominalmente os importantes preceitos de cada um com raro cuidado e clareza e expôs as explicações com exatidão. II.do Da invenção. A 4 5 De or. Isso por si só.)5 Assim.. no capítulo I. . De inv. No entanto. nascem de breves considerações sobre o Da invenção. Mas foi tão superior aos próprios inventores pela doçura e brevidade do discurso que ninguém conhece os preceitos deles a partir dos livros deles próprios. a despeito da importância histórica da obra. a de Bulmaro Reyes Coria (1997). sed omnes. Tísias. tomamos como ponto de partida as introduções das traduções do texto. identificando alguns lugares comuns que. 5. reuniu num só lugar os antigos escritores de artes retóricas remontando desde o primeiro e inventor. qui quod illi praecipiant velint intellegere. parece condicionar muitas das leituras.

e a negação dessa tradição como forma de construir a sua própria auctoritas. Paris: Les Belles Lettres. escreve Guy Achard: “Cícero é ainda jovem: certamente ele não teve tempo de estudar a fundo todas as doutrinas”7 ou ainda exagera ao ponto da desonestidade. ¨Cicero as a Repórter of a Aristotelian and Theophrastean Rhetorical Doctrine”. Daí as interpretações que sugerem Cícero falta com a verdade quando se refere a “todos os escritores”. decide pintar. não a partir de um único modelo. cada uma a seu modo. II. Texte établi e traduit par Guy Achar. Algumas passagens do texto parecem dar origem a esse julgamento.8 Nosso intuito é opor essas leituras a outras que entendem nesse exagero não a necessidade de uma verdade.44. apresentam elementos importantes que dão conta de explicar circunstâncias externas ao texto. 12. que convidado pelos crotoniatas a pintar um retrato de Helena para abrilhantar o santuário de Juno. mas tomando e compondo a partir dos traços de cinco das mais belas jovens. mas não logram fazer uma leitura interna do texto a partir dos preceitos retóricos que ela fornece e a partir dos quais se estrutura. por exemplo. na segunda parte. mas busca avaliar a obra a partir de um critério fidedignidade na transmissão das obras da tradição. 23. . apresentamos a tradução dos dois livros do Da 6 7 8 De inv.três introduções. por um lado. Winter 2005. como. University of California Press. mas da construção de uma auctoritas que se estrutura a partir da alegação de um conhecimento profundo da tradição. como a data e a idade da composição da obra. vol. 1994. William. as suas filiações filosóficas e retóricas. Guy. Lemos no Livro II6 a passagem em que Cícero diz agir como o pintor Zêuxis. 4. In: CICÉRON. In: Rhetorica. “Intorduction”. p. o que remete a via ética de granjear a convicção. ACHARD. Por. De l´invention. FORTENBAUGH. p. O segundo capítulo analisa a partir da Retórica a Herênio e da Da invenção as vias de construção da auctoritas e propõe uma leitura retórica dos primeiros parágrafos do Da invenção.

. ficando a salvo a introdução aos dois livros que o compõem. a Tópica. Exemplo disso fornece Bulmaro Reyes Coria na sua introdução ao De la invención de la arte retórica: Falar “estilo ciceroniano” no De inuentione. CAPÍTULO I Nos últimos anos pudemos observar uma crescente valorização dos escritos retóricos latinos. Ele foi objeto de numerosos comentários: de Grílio. Em artigo publicado em 2005. p.) ao final da leitura de seus livros De la invención retórica. em vários aspectos inferior aos seus textos ditos maduros.9. foram traduzidas as Partições oratórias. no grande número de traduções para a Língua Portuguesa dos manuais de Retórica que tem aparecido: além do texto do autor da Retórica a Herênio. portanto. e isso se confirma. agora. se não falso. a despeito da sua importância na história da arte retórica. Alcuíno e Thierry de Chartes o comentam. 28 . por Prisciano.. assombrosamente pode resultar. de Vitorino. tanto pelo pioneirismo. a memoria e a elocutio. de Júlio Vítor. das obras de Cícero. esteve por muito tempo na base de muitas obras literárias e de muitas das formas de comunicação.invenção.”. O Da invenção. Ele figura em primeiro lugar nos programas escolares dos Collèges e Universités até o fim do século XVIII. uma vez que. ele foi copiado em todos os scriptoria a ponto de ser a obra mais divulgada nos séculos XI e XII. . Mais tarde ele se tornaria livro fundamental da educação medieval. é sempre lembrado como obra de juventude de Cícero e. renascentista e clássica. O manual foi lido por Quintiliano. por outro lado. Completado pela Retórica a Herênio pela dispositio. William Fortenbaugh chama atenção para a 9 Guy Achard (1994) escreve: “A influência do De inuentione é em todo caso considerável. o Do orador e. não se pode concluir com um espontâneo elogio ao estilo do mestre do estilo. pois ocupa uma posição ambígua. a actio. por exemplo. propomos nossa tradução do Da invenção. quanto pela influência que exerceu 9. etc. permanece sendo uma obra por ser reabilitada. ao menos perigoso (.

o que decorre do caráter de compilação nela proposto. estabelecer um critério de avaliação da confiabilidade do julgamento de Cícero. Aristóteles. por outro lado. permite. 39. visível no aparecimento de numerosos artigos. as quais confronta.valorização dos trabalhos retóricos de Cícero. é visado. Contudo. por um lado.p. Cf. Isso. o interesse pelo texto enquanto fonte. FORTENBAUGH (2005) FORTENBAUGH (2005). Isso. é importante. e fornece uma vasta bibliografia de estudos que. se orientam em dois sentidos: avaliar a obra de Cícero tendo por visada a originalidade. com a Retórica. o Da invenção. por sua vez. É também lugar comum da crítica a alegação de que essa obra é marcada pelo ecletismo. o Do orador e o Orator. e isso por si só já apresenta algumas dificuldades. ele pretende nesse artigo conhecer a teoria retórica de Teofrasto e Aristóteles por intermédio do testemunho de Cícero. porque. O método. apresenta algumas dificuldades para se aferir até que ponto é reportada com exatidão. não sendo fragmentário. principalmente. por sua vez. Alinhado ao segundo grupo e orientado pela máxima de que “o estudo do um autor fragmentário deve começar pelo estudo das fontes”10. não é tarefa fácil. e considera três obras de Cícero. em se tratando de uma obra tão eclética. De inu. uma vez que o método da comparação inicia pela seleção das fontes. em linhas gerais. 4. . por tratar-se de autor fragmentário. II. a saber. no caso do Da invenção. o próprio texto de Cícero permite algumas inferências quando se propõe a resenhar toda a tradição retórica desde o seu princípio 12 e faz referência a alguns 10 11 12 Cf. pois resume e referenda uma questão capital que move os estudos introdutórios da obra aos quais tivemos acesso: a verificação da fidedignidade. Tem em vista a doutrina de Teofrasto que. em comparação com os seus tratados sobreviventes. a partir das afirmações ciceronianas a respeito de sua teoria. consiste em chamar a atenção às indicações a respeito de Aristóteles que sugerem os cuidados que se devem tomar ao avaliar os relatos a respeito de Teofrasto11.

antiquissimus fere rhetor. multa de arte praecepta reperimus. “Gorgias Leontinus. 6 “ Nam fuit tempore eodem. descobrimos muitos preceitos sobre a arte oratória dos discípulos e daqueles que vieram diretamente dessa disciplina. ele parece subordinar a essa arte uma matéria ilimitada e imensa15. no mesmo tempo de Aristóteles houve o grande e célebre retor Isócrates. cuius ipsius quam constet esse artem non inuenimus. mas por via indireta. omnibus de rebus oratorem optime posse dicere existimauit. reuniu num só lugar os antigos escritores de artes retóricas remontando desde o primeiro e inventor.autores. 7 -8. Górgias de Leôncio. quo Aristoteles. II. 7.13 Do segundo. II. 13 14 15 “Ac ueteres quidem scriptores artis usque a principe illo atque inuentore Tisia repetitos unum in locum conduxit Aristoteles et nominatim cuiusque praecepta magna conquisita cura perspicue conscripsit atque enodata diligenter exposuit”. magnus et nobilis rhetor Isocrates.” De inu. por exemplo. não encontramos. De inu. em que a doutrina não é conhecida diretamente: Com efeito. retor muito antigo. que é sabida existir. Discipulorum autem atque eorum. hic infinitam et inmensam huic artificio materiam subicere uidetur. ora remetem a um autor cuja doutrina também nós só podemos conhecer indiretamente. Tísias. qui protinus ab hac sunt disciplina profecti. que só conhecemos por intermédio do diálogo de Platão: Com efeito. e registrou nominalmente os importantes preceitos de cada um com raro cuidado e clareza e expôs as explicações com exatidão. Do primeiro gênero: Aristóteles. referências essas que ora remetem aos textos. Górgias. I.” De inu. Entretanto.14 Do terceiro. julgou que o orador podia falar muito bem sobre todas as coisas. por sua vez. . cuja arte. ora alegam conhecê-los.

agrada a Aristóteles a utilidade. 40. isto é. Pelo contrário. Fortenbaugh pretende saber se Cícero conheceu os textos de Aristóteles de fato. 156. Cf. uma parte do honesto. 61. Com efeito. o deliberativo. 7: “Aristóteles. Para Fortenbaugh. Aristóteles é citado no Da invenção mais do que qualquer outro autor17. II. Não obstante. tanto a honestidade como a utilidade.) FORTENBAUGH (2005). p. 9. a honestidade”20. iudiciali”. no demonstrativo. mas não há aqui nada que nos encoraja a pensar que o jovem Cícero estudou um tratado de Aristóteles de primeira mão. “Nam placet in iudiciali genere finem esse aequitatem. I. tribus in generibus rerum uersari rhetoris officium putauit. A passagem em que define a matéria da eloquência18 concorda com o que Aristóteles escreve na Retórica. qui huic arti plurima adiumenta atque ornamenta subministrauit. a nós.” (“Aristoteles autem. o judicial. levando o a concluir: O relato sobre a doutrina aristotélica está em acordo com o que Aristóteles escreve na retórica 1. deliberatiuo. questão que também veremos na introdução de Achard16.19 Outro exemplo que reforçaria a hipótese de que Cícero não teria lido Aristóteles diretamente é a passagem em que trata do fim do gênero deliberativo. porém. No deliberativo. 7. é razoável assumir que ambos os autores beberam da mesma fonte ou o ao menos de fontes estreitamente relacionadas.Outra questão que se coloca é a da autenticidade das fontes que se pretendem primárias.2). que forneceu muito auxílio e recursos para essa arte. à medida que a explicação de Cícero para a matéria epidítica. Cícero escreve: “Com efeito. 11-29. 6. 7. Debruçando-se sobre o segundo gênero. o confronto das definições dos atributos de cada gênero oratório com as da Retórica a Herênio revela uma semelhança tal que parece mais plausível que ambas as definições tenham partido de uma fonte comum e não diretamente da Retórica. deliberativa e prejudicial é marcadamente similar ao que é apresentado pelo autor da Retórica a Herênio (1. I. hoc est partem quandam . demonstratiuo. De inu. p. julgou que o ofício do retor dedica-se a três coisas: o demonstrativo. polemizando com o mestre. agrada que no gênero judicial o fim seja a equidade.3 (1358b6-13). nessa passagem em que Cícero alega que 16 17 18 19 20 ACHARD (1994).

156. (2005). Primeiramente. quando afirma isso: "Eu não quero ser injusto com o jovem Cícero. e na sequência ele confessa que isso é demasiado" 24. pois. além do útil. nobis et honestatem et utilitatem. ele subscreve uma posição comum que será encontrada nas introduções da obra. Resulta disso ele chegar a fazer juízos morais do autor a partir da exigência de uma verdade. Cf. se. 1358 b24-5. quando Fortenbaugh tenta reabilitar o Da invenção.Aristóteles defende como fim do deliberativo apenas a utilidade. considera que. a nosso ver. Rhet. em 1. p. sempre citada nos estabelecimentos da datação do Da invenção. acaba por redundar em alguns preconceitos que devem ser discutidos.3. talvez. ela é. ainda. in demonstratiuo honestatem”. que também elas devem ser lidas retoricamente. para compor essa obra. In deliberatiuo autem Aristoteli placet utilitatem. FORTENBAUGH. Com efeito. ou. 5. em comparação com as outras obras de maturidade. II. se é verdade que. (2005). mas parece que o forte desejo de impressionar o leitor o conduz a mentir"23. 21 22 23 24 honestatis. demonstra ou desconhecimento da doutrina aristotélica ou uma leitura equivocada. ora como uma visada do texto como fonte para outros textos. tenha nascido de uma passagem do Do orador22. todavia. desde o começo da arte "está exagerando até o ponto de da desonestidade. Para nós. desconsideram uma característica das artes retóricas. na sua escolha do texto como fonte está implicada uma revalorização dos escritos. faz algumas ressalvas que. 43. p. desigual quando se considera. por exemplo. FORTENBAUGH. quando Fortenbaugh faz essa divisão das leituras dos escritos retóricos de Cícero ora como uma busca pela originalidade. 44. . ao passo que ele. a oratória deliberativa deve considerar o honesto. Para nós. não estaria buscando a verdade onde se deve encontrar o verossímil. cabe discutir se. I. Aristóteles vincula o fim do deliberativo à utilidade. mais à frente acrescenta o honesto. De inu. Daí um menosprezo que. a saber. De or. o Da invenção. isso: que quando Cícero assevera que. Cícero. lançou mão de todas as fontes existentes.21 Por outro lado.

também nas introduções da obra de Cícero dados biográficos e históricos ocupam um lugar importante na leitura. de Cícero. esclarecer o texto por meio de dados biográficos do autor e. Tomando como ponto de partida as introduções mais recentes. Ana Paula Faria aponta um lugar comum das introduções às traduções dos textos latinos de trazer um comentário sobre a vida e período em que a obra foi escrita e lançar mão disso como base para a interpretação dos textos e. como numa espécie de simbiose. escreve: “torna-se bizarra quando pretende. Devido às muitas semelhanças com a Retórica a Herênio é um fato bastante frequente e compreensível que quem se dedique a traduzi-la também traduza o Da invenção. enriquecer esses dados com informações extraídas de seu texto”·.O Da invenção tem sido objeto de alguns estudos e também merecedor de algumas traduções. o que no Da invenção é um dado. a despeito de haver ou não preceitos específicos para as artes retóricas. Não obstante as particularidades de cada obra – com efeito. com razão. por assim dizer. Cabe. a respeito dessa prática. pensamos identificar as questões mais recorrentes que parecem ocupar a atenção dos comentadores e alguns procedimentos de leitura que devem ser discutidos. quando Cícero escreve essa obra. elas já constituem um gênero bastante consolidado que se fundamenta em modelos consagrados pela tradição. No nosso entender. Nesse sentido. na Retórica a Herênio. em detrimento de uma leitura retórica. Cícero –. de sorte que os procedimentos de leitura podem apresentar algumas similaridades. a primeira questão que se coloca é a própria constituição de um autor incerto a partir de elementos fornecidos pelo próprio texto. portanto. Testemunho disso fornece claramente o Da invenção quando. evidencia que se inscreve numa tradição: . ao mesmo tempo. retomar em linhas gerais as introduções da obra de Cícero. apresentando seus objetivos.

6.26 Ademais. não apresentamos um exemplo único cuja totalidade das partes parece que deve ser necessariamente exposta por nós seja qual for o espécime em que elas se encontrem. não parecia que qualquer um nos dissesse nada perfeitamente.25 No mesmo sentido interpretamos a evocação de um Aristóteles compilador da tradição: Aristóteles. Tísias.Já que também a nós deu-se a vontade de escrever em detalhes uma arte do discurso. ut nemo illorun praecepta ex ipsorum libris cognoscat. Mas.” De inv. sed omnibus unum in locum coactis scriptoribus. quod quisque commodissime praecipere videbatur. qui quod illi praecipiant velint intellegere. ac tantum inventoribus ipsis suavitate et brevitate dicendi praestitit. quocumque essent in genere. e registrou nominalmente os importantes preceitos de cada um com raro cuidado e clareza e expôs as explicações com exatidão. Ex iis enim. excerpsimus et ex variis ingeniis excellentissima quaeque libavimus. extraímos o que cada um parecia ensinar de modo mais apropriado e colhemos dos diversos engenhos cada um dos preceitos mais elevados. nem tudo claramente. daqueles que são dignos de nome e memória. ut artem dicendi perscriberemus. Com efeito. ad hunc quasi ad quendam multo commodiorem explicatorem revertantur. II. o próprio texto aristotélico parece dá indicações bastante claras disso: “Todos os que até o presente compuseram artes retóricas circunscreveram-se a 25 26 “Quod quoniam nobis quoque voluntatis accidit. por sua vez. reuniu num só lugar os antigos escritores de artes retóricas remontando desde o primeiro e inventor. nec nihil optime nec omnia praeclarissime quisquam dicere nobis videbatur. sed omnes. cuius omnes partes. 4. reunidos em um único lugar todos os escritores. “Ac veteres quidem scriptores artis usque a principe illo atque inventore Tisia repetitos unum in locum conduxit Aristoteles et nominatim cuiusque praecepta magna conquisita cura perspicue conscripsit atque enodata diligenter exposuit. Mas foi tão superior aos próprios inventores pela doçura e brevidade do discurso que ninguém conhece os preceitos deles a partir dos livros deles próprios. qui nomine et memoria digni sunt. . non unum aliquod proposuimus exemplum. exprimendae nobis necessarie viderentur.” De inv. mas todos os que querem compreender o que eles ensinam se voltam para ele como que para um explicador muito mais vantajoso. II.

*** Muitos são os elementos que aproximam o Da invenção à Retórica a Herênio. Assim. a saber. Apenas à guisa de exemplo. e. semelhanças estritas no vocabulário técnico28. por outro lado. Faria resenha algumas introduções às traduções da Retórica a Herênio. sendo tudo mais acessório. ACHARD. ambas de 1997·. uma vez rejeitada a autoria ciceroniana. partes do discurso. em virtude dessas semelhanças. Não por acaso. a edição Guy Achard.”27 Não pretendemos aqui fazer uma compilação dos lugares gênero ars. retomemos algumas similaridades apontadas por Guy Achard: mesmas partes da eloquência. e. pelo que podemos buscar semelhantes procedimentos de leitura para ambas.20-21. Nas primeiras páginas de seu trabalho. mesma definição dos gêneros oratórios. considerando a utilidade dos elementos históricos e biográficos. p. I. Achard traduziu ambas as obras. . por um lado. chamando a atenção para uma exaustiva discussão a respeito do autor da obra. (1994). mas fazer alguns breves apontamentos sobre a presença de elementos retóricos na construção do Da invenção. os autores se desdobraram em tentar reconstituí-la a partir de pistas retiradas do próprio texto como indicador da vida e da 27 28 Rhet. tomando como ponto de partida preceitos fornecidos para três grandes gêneros. de 1994. apresentação da narração e da peroração. os limites implicados nessas leituras.tratar apenas uma pequena parte da matéria. 3. em primeiro lugar retomaremos as questões centrais das introduções às traduções mais recentes desse texto às quais tivemos acesso. pois as provas dizem verdadeiramente respeito à Arte. pois. a de Bulmaro Reyes Coria e a de Salvador Nuñes. por muito tempo atribuiu-se a Cícero também a autoria da Retórica a Herênio.

para nós. Por considerar a indicação imprecisa. além poderem tornar-se de pouca utilidade. Achard se empenha em desvendar a “personalidade do autor”. que não pode ser senão o da invenção. no Do orador. e de sua inserção num contexto histórico. e diz que redigiu esse livro 'quando era um adolescente ou um homem muito jovem'"·. então com a idade de 50 anos. No seu comentário. porque revelam como Achard. numa passagem do Do orador na qual Cícero faz referência a uma obra de juventude a respeito da qual os comentadores concordam que se trata do Da invenção. nenhuma dúvida pesa sobre a autoria do Da invenção.subjetividade do autor. a doutrina. mas outras questões subsistem. são temerárias e prejudiciais na medida em que ignoram o que há de construção retórica nele. como para mitos. aponta Faria. pelo risco de incorrer numa tautologia ao buscar o autor no texto e confirmar isso pelo que dele se descobriu no próprio texto. a relação com seu destinatário. divide-se em três partes: a datação da obra. Na sua introdução da Retórica a Herênio. por um lado. Pensamos poder retomar algumas considerações desse trabalho e verificar em que medida elas se recolocam na introdução do Da invenção. articula texto e eventos históricos para . Interessam-nos as duas primeiras. Para Achard. por sua vez. sua idade. a data em que escreveu a obra. Faria aponta essa tópica das introduções. “esse tipo de abordagem escamoteia o papel da Retórica como reguladora da produção e recepção dos discursos na Antiguidade”·. estabelecendo algumas dependências entre a obra e seu momento ao menos imprópro. Diferentemente da Retórica a Herênio. a tradição manuscrita. evoca uma obra de retórica de sua juventude. Cícero. por outro lado. a região de Roma em que nasceu. que. a tentativa de datação da obra é baseada. o motivo do desprezo pelos gregos. as tendências políticas. como ela escreve. A introdução de Achard ao Da invenção. na busca de uma datação e de reconstituir o contexto histórico em que foi produzido. Ele escreve: "Certamente. ou.

Cícero escreve: E se as coisas que são apresentadas nesses livros eram para serem escolhidas com tanto cuidado com quanto foram escolhidas. sem dúvida nem nós nem os outros lastimaremos o nosso esforço. (2005). Outro argumento que serve para corroborá-la advém da comparação com a Retórica a Herênio. No proêmio do segundo livro. não faz nenhuma referência direta ao Da invenção. p. Para Achard. contudo. portanto. Ademais. apesar das muitas semelhanças com a obra de Cícero. . pois. segundo a qual ela se estende até os 17 anos. Além disso. Licínio Crasso na Gália. Nesse caso. o que sugere que os romanos ainda não tivessem conhecimento dele. essa conjectura tem a vantagem de fornecer uma hipótese de explicação para a questão da limitação da obra à invenção.responder a duas questões. a obra teria sido escrita entre 88 e 87. entende que em aut adulescentulis estaria implícita uma correção a partir da qual se pode inferir que ele teria 18 e 19 anos. por outro lado. o que deixaria muito pouco ócio para compor uma arte. quando a obra foi escrita e por que permaneceu inacabada. parecermos ter preterido 29 ACHARD. ambas as datações convergem nisso: o Da invenção é uma obra de juventude. Isso é reforçado por uma alegação que. enfraquecida pela alegação de que nesses anos Roma se encontrava sob as perturbações de uma guerra civil. e essa hipótese ganha força pelo fato de que o acontecimento mais antigo referido. para nós.”29. quando dá lugar à adulescentia. É. fundamenta-se na relativa estabilidade conhecida por Roma entre os anos de 86 e 83. data de 94. o proconsulado de L. se alinha a uma leitura subjetivista que cabe apontar. Se. Cícero. interpretando pueritia pela acepção habitual. teria escrito a obra entre os 23 e 24 anos. escrita entre 84 e 83. como foi provavelmente o caso da Retórica a Herênio. A segunda hipótese. que considera mais plausível. a saber. A primeira hipótese toma por base a referência pueris aut adulescentulis nobis. pois data de 83 o advento de Sula. que “sem dúvida impediu o prosseguimento de todo trabalho e até mesmo proibiu certas publicações. 8.

não é torpe conhecer pouco. 9 Cf. . que resultam. Non enim parum cognosse. ele confessa que pode ter cometido erros. II. que Cícero era jovem 30 31 “Quodsi ea. ele pede que seja corrigido – o que mudará sua opinião!”. ou feito más escolhas. contemplar. por exemplo. das condições de produção da obra. assim também Cícero pretende compor uma arte retórica a partir de todas as fontes. II. ou seja. docti ab aliquo facile et libenter sententiam commutabimus. Assim como aquele pretendeu pintar um retrato de Helena não a partir de um modelo. Sin autem temere aliquid alicuius praeterisse aut non satis eleganter secuti videbimur. tomando como ponto de partida uma anedota do proêmio do segundo livro. desde o princípio do ensinamento até o seu tempo31. na medida do possível.30 Achard interpreta essa passagem como uma de confissão sincera do autor. Assim ele apresenta as dificuldades que envolvem essa tarefa. o objetivo de Achard é verificar em que medida Cícero realiza o que se propõe. o outro é atributo do vício singular de cada um. porque um é atributo da fraqueza comum a todos os homens. fácil e de bom grado mudaremos nossa decisão. mas a partir das mais belas jovens de Crotona. alterum singulari cuiusque vitio est adtributum. sed in parum cognito stulte et diu perseverasse turpe est. do próprio fato de Cícero não citar os seus predecessores e raramente os contrapor. quae in his libris exponuntur. tanto opere eligenda fuerunt. é uma obra de juventude: desde a época da redação. mas perseverar tolamente e por muito tempo no pouco conhecido. A discussão a respeito da doutrina do Da invenção. Então. por sua vez. todas as fontes que o antecedem. Cícero não busca mascarar completamente este caráter. também se orientada pela questão da fidedignidade da obra como transmissor das teorias retóricas dos predecessores. por exemplo. na qual Cícero se propõe a proceder de modo semelhante ao pintor Zêuxis. 4-5.” De inu. Com efeito. instruídos por alguém.ao acaso um preceito de alguém ou não ter seguido com discernimento bastante. propterea quod alterum communi hominum infirmitati. quanto studio electa sunt. afirmando que “o Da invenção. profecto neque nos neque alios industriae nostrae paenitebit. De inu.

detendo-se principalmente em Aristóteles. mesmo se tratando de um autor de grande memória. portanto. considerando todas os autores mencionados. pois a história da arte anterior ao século I d.C. o que é visível nos exemplos que parecem sair diretamente dos exercícios escolares. pois para ele a importância dessa obra deve ser considerada partir de sua fortuna e atualidade.demais para ter lido cuidadosamente todas as fontes. as condições materiais que também representam um impedimento. de Aristóteles. mas com base na falta de uma correspondência completa entre a Tópica. desde o início até a época helenística. A problema da revalorização do Da invenção também se coloca na introdução de Bulmaro Reyes Coria. é pouco conhecida. que não poderia. Propõe uma hipótese que explicaria o caráter genérico e a falta de correspondência perfeita entre doutrina aristotélica e a de Cícero. não se enquadra na divisão Fortenbaugh. a isso a escassez que de testemunhos que permitam avaliar as influências de seus predecessores. para confortá-los. Acrescenta. ainda. contudo. conter a sua teoria em detalhes. ele considera as fontes mencionadas por Cícero. ou que ele é profundamente marcado pelos ensinamentos de seu preceptor ou dos seus mestres.. Assim. nessa verificação empreendida por Achard a questão da credibilidade da fonte é subjacente. pois não seria possível desenrolar um número tão grande de uolumina sobre a mesa. segundo a qual Cícero fornece indicações precisas de ter lido uma obra em que Aristóteles faz um compendio das doutrinas retóricas. Por outro lado. foi conhecido por ele de primeira mão? A questão é de difícil resposta. Já no preâmbulo de sua edição apresenta o seu objetivo de . põe em questão se ele teria conhecido de fato o texto original ou teria tido contanto com textos de divulgação da doutrina aristotélica à época muito comuns. pretende dar resposta à mesma questão proposta por Fortenbaugh: este texto aristotélico. que se perdeu. como contém a Retórica. a Sinagogé Teknôn. com os Tópicos. de Cícero. Sua leitura. A discussão é levada mais à diante. mas para nós.

CORIA (1997). que ela é. IX. ele pretende responder às severas críticas das quais a obra tem sido alvo. mas também para o mal. um instrumento de educação. quando Cícero. como foi em sua época. da qual tanto necessitamos os mexicanos”32. para nós. embora a descreva. segundo a lei. Ademais. a sua transmissão. De minha parte. Leia-se: “a retórica latina. NUÑES (1997) . com a tradução desta obra pretendo colaborar com essa tarefa educativa. p. entendendo que essas críticas escamoteiam o seu valor formativo e a importantíssima função social: “Recorde-se que a obra aqui comentada desde seu nascimento instruiu gerações de oradores. monótona. marcado pelo esforço dos romanos para se apropriar da teoria retórica helenística dos finais do século II e princípios do século I34. ainda que desafortunadamante não só para o bem. com a pena. chama-se 32 33 34 CORIA (1997) p. ou não contra quem é devido. árida e pouco importante. Um exemplo bastante ilustrativo dessa apropriação de adaptação às instituições romanas é a apresentação da constitutio translatiua. etc. desde a formação retórica de Cícero até a fortunaa da obra. pode ser. a saber. juntamente com as Partições oratórias.”33 Salvador Nuñes escreve uma longa introdução abordando questões diversas. com a incriminação. no momento devido. Sua introdução também começa estabelecendo proximidades entre as doutrinas da obra de Cícero e da Retórica a Herênio. Cf. estabelecendo uma linha de continuidade entre os tempos de Cícero e os nossos. pois indubitavelmente foi estudada durante todas os séculos de sua vida. deixa claro que ela já não tem muito lugar no direito romano: Mas quando a ação parece necessitar de transferência ou mudança. dá uma passo importante quando afirma que ambas das obras de pertencem a um mesmo contexto histórico. mas. ou não perante os juízes. a ciceroniana em particular. pois ou não move a ação quem deve.oferecer essa obra como um instrumento de educação. XXVI.

devemos abster-nos da abundância de exemplos. Antônio – direi a verdade –. mesmo eu. Eius nobis exempla permulta opus sint. a relação com a retórica da época e com o restante da produção de Cícero. se buscássemos os gêneros de transferência um a um. exemplorum multitudine supersedendum est. algumas das questões já propostas por Achard são recolocadas. já que o método dos preceitos é semelhante. Ser-nos-iam necessários muitíssimos exemplos dessa constituição. não só muitas ações são excluídas pelas exceções do pretor como também temos um direito civil constituído de tal modo que quem não tiver movido a ação como convém perde a causa. quo tempore oportet. ut rarius incidant translationes. Apenas a título ilustração. e muitas vezes me ensinaste o que 35 “Cum autem actio translationis aut commutationis indigere videtur. A partir de obras posteriores. por várias razões resulta que sejam raras as transferências. embora eu mesmo o impelisse e o tentasse diversas vezes por meio de Druso. quod non aut is agit.” De inu. incitava o apreço por vós dois – por Crasso. sed quia ratio praeceptorum similis est. nunca me faltaste quando te interrogava ou solicitava. traça uma biografia de Cícero. tu. retomemos uma passagem do Do orador a partir da qual reconstrói um passo da vida de Cícero. no nosso costume.constituição de transferência. . mas. uma vez que por motivo algum dele me apartava – jamais consegui arrancar-lhe uma única palavra acerca da essência e dos princípios da oratória. nasce a ideia ambiciosa de redigir um tratado de retórica: De fato. ut causa cadat is. quem oportet. Atque in nostra quidem consuetudine multis de causis fit. qua lege. por que a obra ficou inacabada. II. aut cum eo. qua poena. desde a mais tenra idade. a saber. Nam et praetoris exceptionibus multae excluduntur actiones et ita ius civile habemus constitutum. constitutio translativa appellatur. tendo por objetivo a sua formação retórica. a quem. que seria a época em que. qui non quemadmodum oportet egerit. sob os cuidados de Marco Antônio. mesmo a afeição.35 Contudo. Com efeito. aut apud quos. quo crimine. a relação com as fontes utilizadas. a data da publicação. Entretanto. neste sentido. quicum oportet. si singula translationum genera quaeramus. 57.

. docuisti. 18. In: SCATOLIN (2009). dum paruulum consequamur. 97. moderadora de todas as coisas. a saber. sem nada afirmar e ao mesmo tempo interrogando com dúvida. ao mesmo tempo em que adapta seus conteúdos à realidade romana. ut ne cui rei temere atque arroganter assenserimus. Introduccíon. vere loquar numquam mihi percontanti aut quaerenti aliquid defuisti et persaepe me. I. Salvador.39 Por outro lado. ne. De inu. quod maximum est. assim como a Retórica a Herênio. cum et per me ipsum egissem et per Drusum saepe temptassem. um momento de apropriação da 36 37 38 39 “Ego enim. Crassi vero etiam amore. Tradução de Adriano Scatolin. adotando o que fosse melhor em cada um e acrescentando “inclusive suas opiniões pessoais naqueles pontos em que não se mostrava de acordo com a tradição”. cum ab eo nusquam discederem. apesar do passo importante que consiste em perceber que a obra de Cícero. por exemplo. representa um momento de fundação da retórica romana ou. o caráter eclético resultante do objetivo da obra em reunir os ensinamentos dos retores mais importantes. “Quare nos quidem sine ulla affirmatione simul quarentes dubitanter unum quicque dicemus. quo in genere tu. ut satis haec commode perscripsisse uideamur. Cabe aqui lembrar a discução dos primeiros parágrafos do primeiro livro. onde se discute o estatuto da oratória. parecer ter registrado bastante bem esses preceitos – não omitamos o que é o mais importante. a saber. De orat. 5. alguns traços do probabilismo e do ceticismo da academia. das quais conserva certa independência.qui ab ineunte aetate incensus essem studio utriusque vestrum. o fato de ir além dos manuais tradicionais ao abordar questões filosóficas37. si moderatrix omnium rerum praesto est sapientia”). Antoni. I 21.36 Num segundo momento. que só pode ser um bem se moderada pela sabedoria: “Daí provêm muitas vantagens para república. como ele pretende. apresentaremos cada coisa para que – enquanto buscamos essa ninharia. está à frente”. em II. (“ Nam hinc ad rem publicam plurima commoda ueniunt. a falta de uma experiência na vida prática. que faz com que a obra se apoie num conhecimento teórico do tipo escolar. se a sabedoria. considera o Da invenção mais diretamente enumerando alguns aspectos gerais como a relação da obra com as fontes gregas. 10: “Por isso. verbum ex eo numquam elicere potui de vi ac ratione dicendi.CÍCERO. não consentir temerária e arrogantemente com nada.” NUÑES.”. quae soleres in dicendo observare.”38. illud amittamus.costumavas observar nos discursos.

II. 1. IV. 33. 48. Cícero é bastante mais explicito a esse respeito. o autor faz uma espécie de prescrição negativa na qual descreve e rejeita o hábito dos autores gregos de. 92. 68. ao Africano. Os contextos em que aparece são diversos. uma vez fornecidos os preceitos da elocução. para dizer a verdade. quando ele escreve que “Diferentemente do autor da Retórica a Herênio. I. a ideia de buscar no texto uma fidedignidade em relação às suas fontes subsiste.retórica grega. lançar mão de exemplos tomados de um poeta ou um orador e afirma que. De inu. Ad Her. Cabe. Quod nostrum illum non fugit Catonem neque Laelium neque eorum. discipulum Africanum neque Gracchos Africani nepotes: quibus in hominibus erat summa . se contrapondo à autoridade dos gregos. perguntar como se dá essa apropriação? CAPÍTULO II No livro IV da Retórica a Herênio. para que se tornem claras as suas razões enumera o que dizem os gregos. ao escrever sobre a matéria. 24. 34. discípulo deles. que não cita nenhum Grego.5. ut vere dicam. então. 168. homens nos quais havia uma grande virtude. ou seja.40 Embora o termo auctoritas41 seja bastante recorrente no Da invenção. 22. chega ao mesmo ponto dos outros comentadores. nem a Lélio. faltam preceitos claros do que ela consiste. quando escreve sobre a elocução. embora nem sempre resulte crível no que diz” e que “sua afirmação de que reuniu quanta informação pode das artes retóricas anteriores é discutível e resulta demasiado vaga”. netos do Africano.42 40 41 42 Cf. 101. 43. nem. nem aos Gracos. Só para citar alguns: Isso não escapou ao nosso célebre Catão. uma autoridade por ela aumentada e uma eloquência que serviu tanto para engrandecer essas qualidades como para proteger a república. usou de seus próprios exemplos e.

pois desses elementos nasce a suspeita de um discurso preparado e artificial. por pretender fazer uma tradução literal. como são estimados seu julgamento e sua autoridade. ut ne qua assentatio nimia significetur. I. por autoridade.22 “Exordium sententiarum et gravitatis plurimum debet habere et omnino omnia. na segunda. 33. que. sem que demos sinal de demasiada lisonja. 44 As traduções do termo. traduz o termo invariavelmente por autoridade. graça e beleza. si de iis quam honesta existimatio quantaque eorum iudicii et auctoritatis exspectatio sit ostendetur. I. no terceiro 43 44 virtus et summa virtute amplificata auctoritas et. o que subtrai muito da credibilidade do discurso e da autoridade do orador. porque devemos da melhor forma fazer com que o orador seja louvável para o ouvinte. podem dar algumas pistas do seu significado. traduz ainda por crédito. Deve conter muito pouco brilho. por opinião autorizada. in se continere. Nuñes propõe prestígio. I. podemos entender autoridade ou opinião autorizada como parte das coisas que devem produzir a captatio beneuolentiae. por sua vez. quod oratorem auditori maxime commendat. De inu. propterea quod id optime faciendum est. e novamente prestígio.5De inu.5 “Ab auditorum persona benivolentia captabitur. Achard traduz. Coria.A benevolência será captada a partir da pessoa dos ouvintes se apresentarmos as coisas que com coragem. Assim. quae pertinent ad dignitatem. por sua vez. se acerca deles mostrarmos como é honesta a reputação. no primeiro caso. quae maxime orationi fidem.43 O exórdio deve ter uma grande quantidade de sentenças e muita gravidade e de modo geral deve conter em si tudo o que respeita à dignidade. eloquentia. 24 . mais à frente. participa dos ofícios do exordio. I. si res ab iis fortiter. mansuete gestae proferentur. sapienter. sabedoria e clemência empreenderam. propterea quod ex his suspicio quaedam apparationis atque artificiosae diligentiae nascitur. na primeira ocorrência por prestígio. splendoris et festivitatis et concinnitudinis minimum. oratori adimit auctoritatem.” De inu. opinião e prestígio. no segundo caso. na terceira. quae et his rebus ornamento et rei publicae praesidio esset. podemos entender a autoridade e o prestígio de que gozam essas figuras exemplares da história. em II.”De inu.

a habilidade de um Graco ou de um Crasso. marcada por uma posição de ambiguidade. pela imitação. autoridade e prestígio de que gozam as figuras históricas que se configuram como exemplo a ser imitado45. ora rejeitando-os completamente. É mister lembrar que o autor da Retórica a Herênio. atributo desejável para o orador. que se deve alcançar pelo discurso. muito pouco Teofrasto. Consideremos pois o primeiro sentido. I. embora seja devedor da retórica grega não cita sequer Aristóteles. podemos intender como autoridade ou prestígio. Aristóteles e. ora lançando mão do prestígio dos mestres gregos.” O lugar privilegiado para se tratar do exemplo é a elocução. Cícero. A exposição do autor da Retórica a Herênio aproveita muito para compreender o conceito de auctoricas. pois por ela se pode entender a apropriação da retórica dos autores gregos no Da inveção e na Retórica a Herênio. antes de tudo.” (“et aliquorum iudicium simili de re aut auctoritatem proferre imitatione dignam”). I. . De inv. Vai ao encontro disso o passo em que o autor da Retórica a Herênio afirma: “Além do mais. “Exemplum est. donde resulta que devem ser imitadas. não é a própria autoridade dos antigos que torna as coisas mais prováveis e os homens mais dispostos a imitá-los? Sem dúvida. Isso é o que se lê na Retórica a Herênio e não foi tratado no Da invenção. ora polemizando com eles. Horum exempla et descriptiones in praeceptis elocutionis cognoscentur “. ela estimula o desejo e aumenta o empenho de todos ao suscitar a esperança de alcançar. quod rem auctoritate aut casu alicuius hominis aut negotii confirmat aut infirmat. em oposição a fides. 24 “Mostra também a opinião de outros a respeito da mesma questão e aduz uma autoridade digna de imitação. uma única vez Isócrates e Platão. Hermágoras e. em segundo lugar. apesar da promessa de Cícero: “Um exemplo é uma exposição que reforça ou enfraquece uma ação pela autoridade ou pelo destino de um homem ou de uma coisa.”46 45 46 Cf. Seus exemplos e descrições serão conhecidos nos preceitos sobre a elocução.caso.De inu. por sua vez cita.

estabelece um paralelo importante entre vida e discurso: “Como exemplos são tirados de Catão.” Começa a tratar do exemplo e de sua escolha por apresentar seus próprios exemplo e atinge questões que vão além da elocução. Primeiramente dá notícia de que no mundo antigo a tradição é um valor: “Por muitas razões [os gregos] após terem preceituado como se deve ornar a elocução. ou seja. acaba por revelar um modo de pensar e agir que perpassa muitas esferas da vida. parta que aquilo que serve de confirmação não careça de confirmação”. tratar do exemplo e de sua escolha por apresentar seus próprios exemplos e atinge questões que vão além da elocução. assim como os testemunhos. é baseada no testemunho. assim como esse. dos Gracos. Mas não é o testemunho de qualquer pessoa que tem peso. pois. com as autoridades discursivas. e alguns também de poetas e historiadores. Antônio e outros. Crasso. Primeiramente dá notícia de que no mundo antigo a tradição é um valor: “Por muitas razões [os gregos] 49 . Galba. de Cipião. de Lélio. que está denominada 'desprovida de arte'.” Em terceiro lugar.Na sua exposição. Porcina. tem de propor para cada tipos de ornamento um exemplo tirado de orador ou poeta aprovados”. vale pela aprovação do depoente: “Ora. que semelhante ao testemunho. alude alcance argumentativo do exemplo. como a relação com a história. a Retórica a Herênio começa se contrapondo ao hábito grego de apresentar na elocução exemplos tomados de autores consagrados. pois requer autoridade para que se confira credibilidade. Em segundo lugar. poetas e oradores detentores de autoridade e a partir de uma questão que parece ter implicações apenas na produção do discurso. os exemplos são apresentados para confirmar algo. Isso concorda com a definição de Cícero nos Tópicos: “Esta argumentação. o estudante também vai supor que só se consegue exemplos para tudo em todos e que em um se encontra muito pouco. Chamamos nesse momento testemunho tudo o que é tirado de alguma circunstância externa para conferir credibilidade. por isso não podem ser tirados senão daqueles que gozam de total aprovação.

Antônio e outros. de Lélio.” Por fim. de maneira mais atenuada. sem a qual o seu discurso careceria de fides. dos Gracos. e escrito nas mesmas condições da história da retórica romana. Nesse sentido. Igualmente. entendendo que a arte retórica carece de uma tradição em latim. alude alcance argumentativo do exemplo. tem de propor para cada tipos de ornamento um exemplo tirado de orador ou poeta aprovados”. por isso não podem ser tirados senão daqueles que gozam de total aprovação. Porcina. estabelece um paralelo importante entre vida e discurso: “Como exemplos são tirados de Catão. O caso mais patente é a doutrina das stáseis. mas é um conflito apenas aparente na medida em que a auctoritas de Cícero se constrói a partir dessa ideia de que a obra contempla tantas fontes quantas são possíveis. quie mostra como Cicero. o estudante também vai supor que só se consegue exemplos para tudo em todos e que em um se encontra muito pouco. que semelhante ao testemunho. articula-se duas auctoritates numa relação de conflito. por um lado. como já foi dito. polemiza com a tradição com o mesmo objetivo de constituir a sua auctoritas. assim como esse. Em segundo lugar. mas para adaptá-la ele reclama sua autoridade. É importante perceber que não há uma ruptura uma ruptura com a tradição grega. vale pela aprovação do depoente: “Ora. de Cipião. essa exigência de verdade não dão conta de explicar o fenômeno da auctóritas. embora evoque o seu autor na maioria das . pode-se dizer que mais manifestamente do que na Retórica a Herênio. e alguns também de poetas e historiadores. Crasso. Por outro lado. no Da invenção. Em terceiro lugar. portanto. assim como os testemunhos. mostra o seu objetivo de verter os nomes gregos e adaptar a matéria retórica ao uso romano. os exemplos são apresentados para confirmar algo. a falta de honestidade e.após terem preceituado como se deve ornar a elocução. Galba. parta que aquilo que serve de confirmação não careça de confirmação”. pode se dizer que o alegado exagero. e estabelece polemiza com elas para marcar sua independência em relação a elas. O Da invenção. pois.

fornecia preceitos para a produção dos discursos e esses discursos podem e devem ser lidos a partir dos seus gêneros. Agora. some-se a isso que tampouco se deve esperar uma reprodução fidedigna da fonte. Pensamos. pois ora preceitos de um gênero aplicam-se a outro. a saber. pensamos que seja possível fazer uma leitura desse texto a partir de duas . é um desses casos.vezes para censurá-lo. No entanto. a saber. que a busca por correspondências perfeitas entre Cícero e suas fontes é um trabalho difícil e pouco útil. antes para a avalizar as opiniões de Cícero. uma vez que ela está ali. embora participe de uma prática bastante consolidada. contudo. ela retoma uma questão antiga e dá a ela um tratamento que apresenta muitas afinidades com o gênero deliberativo. é bastante provável que ele conhecesse o texto de Aristóteles apenas indiretamente. buscar nas fontes os antecedentes que embasaram sua teoria. Assim. embora não haja propriamente uma preceptiva. desde os primeiros tratados de retórica gregos. um trabalho mais profícuo pode ser feito. por outro lado. Por outro lado. faremos uma rápida leitura dos primeiros parágrafos do Da invenção a partir da Retórica de Aristóteles e dos preceitos da própria obra. não devem ser esses gêneros tomados como divisões estanques. pois não constitui um gênero discursivo tecnicamente regulado. Agora. considerando. de Marco Túlio Cícero. o texto de Aristóteles que Cícero afirma ter lido se perdeu. sua obra é devedora dessa teoria. quase a totalidade do Livro II se dedica a ela. ora alguns textos se constituem como gêneros na prática. a tal ponto que. A introdução do De inuentione. no limite a questão da fidedignidade é insondável. *** A Retórica Antiga. a seu tempo. além das dificuldades levantadas pelos comentadores.

segundo o texto de Cícero. parte de uma prática e de um corpus já extenso de textos técnicos que pretendem fornecer preceitos para a construção dos discursos. portanto. traz questões que serão retomadas e desenvolvidas posteriormente em outros textos. pois. a representação do discurso com a moderação da voz e da fisionomia. os textos propriamente preceptivos são esparsos. a partir do que Roland Barthes em seu “A Retórica Antiga” chamou de sistema da retórica. primeira e mais importante parte . à ação. parece que falamos o bastante a respeito da invenção. seus pontos principais já estão estabelecidos na Retórica de Aristóteles. O De inuentione é uma obra de juventude e. a escolha das palavras e a construção das sentenças. mas o primeiro texto que apresenta a disciplina retórica de maneira sistemática é a Arte Retórica de Aristóteles. O De inuentione nasce com a pretensão grandiosa de tratar de maneira exaustiva de todas essas partes da Retórica. à disposição. Pensamos que esse é o ponto de partida para a nossa análise dos discursos retoricamente constituídos. ordenar os argumentos. à elocução. memória e ação. a divisão aristotélica dos gêneros oratórios na Retórica e as considerações sobre a matéria do gênero deliberativo. Escreve Cícero no final do segundo volume: Agora. São. a saber. À invenção cabe encontrar os argumentos para persuadir o ouvinte. cinco as partes da Retórica: invenção. um conjunto de preceitos que regulam a produção dos discursos. Tem como centro apresentar os preceitos da invenção. elocução. à memória. disposição. ou seja. como tal. ou seja. Quanto à prática.referências. a retenção das palavras e das coisas. ela é bastante antiga e pode ser conhecida desde os primeiros logógrafos gregos que escreviam textos para serem lidos no fórum por outros. já que foi apresentado o método de argumentar para todo o gênero de causa. Não obstante serem feitos alguns acréscimos por outros autores. fazendo.

II. É importante notar que Cícero retoma aqui uma 47 48 49 Cic. por isso. A tradução integral encontra-se no final deste trabalho. 178. pelo que julgamos necessário restringir nossa análise a uma parte do texto que encerra uma unidade. a Retórica regula a produção dos discursos segundo preceitos apropriados para cada gênero e. De inu. que não pertence a nenhum dos três gêneros retóricos –o deliberativo. fornece os elementos de leitura e análise dos textos. Se por um lado a ars ou techné enquanto tal não constitui um gênero retoricamente qualificado. qual seja. por outro lado. e esse livro não contém poucas letras. o judiciário e o demonstrativo –. 5. Por isso. objeto de nossa análise.47 Levamos em conta dois aspectos para limitar a nossa análise. Para tanto.49 A introdução ao primeiro livro do De inuentione inicia-se com uma questão: a eloqüência é boa ou má para os homens e para as cidades. por outro lado observamos que na introdução. . II. ela não estabelece limites estanques. pensamos que é possível fazer uma análise da introdução ao primeiro livro tomando como ponto de partida a teorização dos gêneros retóricos levada a cabo na Retórica de Aristóteles e da retomada dessa discussão no segundo livro do De inuentione. De inu.da retórica. Pretendemos na nossa análise mostrar que se. a introdução ao primeiro livro do De inuentione e o caráter eclético da obra. como podemos ler na introdução ao segundo livro: “Nós tínhamos à nossa disposição todas as fontes fornecidas por todos os mestres que existiram desde o início mais longínquo da arte até os nossos dias e nos foi possível escolher os que quiséssemos. a grande extensão do tratado. a saber. já que uma única parte foi levada a cabo no livro acima. Por isso. há uma ocorrência grande de termos que a tornam afim do gênero deliberativo. as partes que restam trataremos nos outros livros. mas pode ser apreendido por alguns procedimentos comuns às artes. é necessária uma retomada da divisão aristotélica dos gêneros e uma rápida apresentação da introdução. Os preceitos de um gênero ultrapassam seus limites e se manifestam em outros gêneros.” 48 A obra é extensa e as fontes são diversas. por um lado.

” . Em segundo lugar. Assim. como são três os ouvintes. pelo fato de comandar o louvor ou a aclamação ou a censura. isto é. Em outro termo. é central na filosofia moral de Cícero. A questão da utilidade. Esse é o sentido de sabedoria em questão no De inuentione que é retomado no Dos deveres. Dos três pólos do discurso (orador.questão já tradicional que recoloca a velha discussão sobre a vocação moral e epistemológica da eloqüência. que se pode ler em muitas passagens do Dos deveres. ao passo que o segundo se refere à questão da sabedoria no sentido em que não se pode completar fora da ação. como escreve Meyer. pois cumpre no discurso elogiar ou vituperar. Por moral entende-se o uso da eloqüência moderado pela sabedoria visando como fim último o bem da cidade. o que faremos a seguir. os gêneros retóricos se dividem segundo esses dois critérios: ouvinte e tempo. ou. para Aristóteles. Por epistemológico. Cícero desenvolve um argumento segundo o qual para o bem da cidade eloquentia e sapientia são complementares. pois. já aconteceu ou o que acontecerá. Aristóteles divide os gêneros retóricos em deliberativo. O demonstrativo de especializa no presente e o ouvinte não delibera propriamente nada. cabe considerar essa atitude segundo três tempos. judiciário e demonstrativo. cabe separar os tipos de ouvinte segundo sua atitude perante o discurso. o passado ou o futuro. mas sua dimensão retórica pode ser retomada a partir da divisão aristotélica dos gêneros retóricos. Há. segundo critérios que cabe lembrar. primeiramente. em que o auditório desempenha um papel preciso. pois aquele que toma uma decisão deve fazê-lo em relação a algo que acontece. entendem-se duas coisas: o primeiro sentido diz respeito à questão da verdade possível. ouvinte) Aristóteles privilegia o ouvinte como determinante da divisão dos gêneros retóricos. assunto. Assim. que é matéria da retórica. São três os gêneros. “[gênero] centrado no estilo atraente e agradável. segundo o presente. o ouvinte que apenas ouve e aquele que ao final do discurso deve tomar uma posição.

ou seja. o deliberativo é o que. . A mesma divisão pode ser encontrada no texto de Cícero: Chamamos matéria da arte oratória aquilo a que se dedica a totalidade da arte e a faculdade que nasce a partir dela. O demonstrativo é o que se atribui ao louvor ou ao vitupério de uma determinada pessoa. o contrário ao natural e o que depende do acaso. no demonstrativo cabe elogiar ou censurar para apontar o vício e a virtude. Com efeito. I. que forneceu muito auxílio e recursos para essa arte. ao deliberativo. julgou que o ofício do retor concerne a três coisas: o demonstrativo. ao judiciário. tendo em vista a utilidade. aconselhar. que mencionamos de maneira muito geral. aqui parece subordinar a essa arte uma matéria ilimitada e imensa. julgou que o orador podia falar muito bem sobre todas as coisas. o deliberativo. porque toda a medicina dedica-se a isso. cabe ao ouvinte tomar uma decisão sobre o futuro. porque os seus preceitos se aplicam na defesa da eloqüência que Cícero faz nessa introdução.50 Aristóteles considera ainda para cada gênero a sua matéria. posto no julgamento. retor muito antigo. um aconselhamento sobre o que pode ou não ocorrer. Assim. o judicial é o que. tem em si uma acusação e uma defesa ou uma petição e uma recusa. julgar em 50 De inu. o judicial. pois interessa-nos olhar mais detidamente o gênero deliberativo. No judiciário. porém. 2. o objeto da deliberação. do mesmo modo chamamos a matéria da arte retórica as coisas às quais se dedica. posto em debate.No deliberativo. inconveniente (inútil). Assim como no caso de dizermos que as doenças e feridas são a matéria da medicina. traz em si o pronunciamento de uma sentença. Na nossa opinião. Aristóteles. tendo em vista o conveniente (útil). cumpre saber se um ato praticado no passado é justo ou injusto. Górgias de Leôncio. devemos considerar que a arte e a faculdade do orador se dedicam a essa matéria tripartite. excluindo o necessário o impossível. o belo e o torpe.

ou auto-suficiência na vida. uma parte do honesto. ou b a vida mais agradável com segurança. ou supostas difrenças.”51 É necessário relembrar também a distinção que Cícero faz dos bens. Aristóteles considera o deliberativo segundo: a Temas e fontes de premissas: finanças (recursos e despesas das cidades). igual é o número de coisas a 51 De inu. legislação (que leis regem a cidade). isto é. que deve ser seguido por si e em si e é buscado por todos os seres dotados de razão. para nós. parece suficiente que no gênero judicial o fim seja a eqüidade. tanto a honestidade como a utilidade. No deliberativo. filhos. importados e exportados). que é parte do judiciário. II. d Seu objeto: o conveniente e o bom. em relação à doutrina aristotélica. A matéria do deliberativo também é apresentada por Cícero no De inuentione. então. por outro lado. mas não sem marcar as suas diferenças. Suas partes: nobreza. para compreender essa relação entre o útil e o honesto: Há três gêneros de coisas a serem buscadas. amigos. é considerado matéria do deliberativo: “Ora. guerra e paz (o poder da cidade. segundo Aristóteles. Tomemos. . por si e por alguma utilidade. a natureza da força da cidade e das cidades vizinhas). provisões (alimentos consumidos e produzidos. Seu fim: “bem viver combinado com a virtude. por alguma utilidade.vista do justo e do injusto. a honestidade. 167. pois aqui também o honesto. ou a pujança de bens materiais dos corpos juntamente com a faculdade de os conservar e usar”. das coisas que devem ser buscadas por si só (o bem em si). isto é. a utilidade. defesa nacional (tropas que guardam as cidades e as fortalezas). as virtudes do corpo e da c alma. a partir dos textos de Aristóteles e Cícero a matéria do gênero deliberativo. a boa velhice. no demonstrativo.

a fim de tratar mais rapidamente do método. bem como para Aristóteles. serão chamadas por uma denominação breve as coisas que apresentamos. a segunda a partir das coisas e das pessoas. tal como a virtude. Quanto à terceira categoria. como a amizade e a boa estima. Com efeito. Mas. a essas duas partes foram atribuídas duas grandes coisas: a necessidade e a contingência. é maior um bem que não depende de outro. úteis. há alguma coisa que por força própria nos atrai para si. o que é desejável em si é um bem maior. mas pela sua dignidade. ainda que nós calemos a respeito. . ao passo que o torpe e a inutilidade são parte das coisas a serem evitadas. por ser maior a força da honestidade. Disso decorre que a honestidade e a utilidade sejam partes das coisas que devem ser buscadas. II. os bens não são todos iguais. agora expliquemos primeiro as razões da honestidade. não por causa de sua força e natureza. mas por causa de algum fruto e utilidade. ligado às duas partes dessas coisas. leva-nos seduzidos tanto pela sua força como pela sua dignidade e traz consigo alguma utilidade quanto mais for buscado. tal como o dinheiro. é compreendida como completamente mista é de gênero duplo. porque os excede. mas há bens maiores e bens menores. As coisas que estão no primeiro gênero serão chamadas de honestas. Daremos preceitos mais claros a respeito de ambas depois. mas será aplicada à melhor parte da palavra e denominada honesta. capturando-nos não por algum interesse. (grifos nossos)52 Por fim. facilmente serão compreendidos seus contrários. a primeira delas é considerada a partir da força. há o que. 158. pelo que retomamos apenas alguns itens ilustrativos: o maior número de bens é preferível a um bem único e a um número menor de bens. as que estão no segundo. Há por outro lado o que deve ser buscado.serem evitadas pela parte contrária. Continuando. E a partir desses gêneros. Então. façamos uma 52 De inu. a ciência e a verdade. É longa a enumeração de Aristóteles quando compara os bens. as coisas que produzem um bem maior são maiores.8. 157 . como a vida é um bem maior que a saúde. para Cícero. Reunindo alguns elementos dos textos de Aristóteles e Cícero.

resolvo retomar dos testemunhos escritos coisas distantes de nossa memória por causa de sua antiguidade. Deixando de lado as questões filosóficas. parece trata-se de uma questão deliberativa. Trata-se aqui de uma a introdução a um tratado técnico retórico. quando. Do ponto de vista da situação o texto não pertence estritamente a nenhum gênero. quando considero os infortúnios de nossa república e reúno na mente as antigas desgraças das maiores cidades. associada aos sofistas. não se trata de julgamento. podemos perceber algumas afinidades com o demonstrativo. Leiase essa passagem na qual grifamos alguns termos que coadunam muito com o que Aristóteles definiu como temas e fontes de premissas do gênero deliberativo: Amiúde e muito pensei comigo se a habilidade do discurso e um grande empenho à eloquência teriam trazido mais bens ou males aos homens e às cidades. Lembremos do Górgias de Platão em que a retórica.leitura da introdução ao Livro I do De inuentione. porém. Bens e males são matéria principalmente deliberativa. entendo que muitas cidades foram erguidas. Do ponto de vista do tempo. a questão se estabelece no passado. dar preceitos. Não obstante. não me parece ínfima a porção de danos causados pelos homens mais eloquentes. no entanto. deliberação ou um discurso epidítco. porquanto a questão central que dirige toda a introdução é a utilidade. Sua finalidade é ensinar. alianças muito sólidas e amizades muito sagradas foram mais facilmente constituídas tanto pela . O texto se propõe como uma defesa a uma acusação implícita. porquanto discute a conveniência da retórica. Com efeito. ou seja. muitíssimas guerras extintas. julga-se a eloqüência segundo o que ela realizou. pensemos na questão proposta: se a eloqüência teria trazido mais bens ou males para as cidades e para os homens. pois o “ouvinte” não é membro de uma assembléia. que tem como pressuposto a verdadeira sabedoria. é desqualificada em benefício da filosofia. Considerando a matéria em questão. espectador de um discurso ou juiz. primeiramente segundo a inserção genérica.

a tradução integral dessa introdução. I. Por isso. Mas quem se arma de eloqüência de tal forma que possa não atacar a pátria. . se alguém.53 A questão da utilidade da oratória é posta abertamente na passagem logo a seguir: E. as nossas considerações serão feitas pelas notas e comparações do texto de Cícero com suas fontes. mas a eloqüência sem sabedoria é. 1. a própria razão levou-me acima de tudo a esta sentença: a sabedoria sem eloqüência é pouco útil para as cidades. Apresentemos. pensando por muito tempo. parece-me que esse será um cidadão muito favorável e útil tanto para os seus interesses como para os interesses públicos. esse cidadão será tido como inútil para si e pernicioso para a pátria. Julgamos ser possível por esses elementos da Retórica Antiga fazer uma leitura dessa introdução. no mais das vezes. 53 De inu.razão como pela eloquência. nunca é útil. Como a nossa pesquisa consiste numa tradução integral desse tratado extenso. desprezando todos os mais corretos desígnios da razão e do dever. mas lutar por ela. demasiadamente prejudicial. consome todo o esforço no exercício do discurso. então.