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O acompanhante terapêutico e as sutilezas institucionais.

1
The therapeutic companion and the institutional acuteness.
El acompañante terapéutico y las sutilezas institucionales.
Hailton Yagiu 2
Resumo
Neste artigo o autor contextualiza sucintamente o acompanhamento terapêutico
como uma prática surgida no contexto da luta antimanicomial, introduz de forma
concisa alguns aspectos essenciais do conceito de instituição do ponto de vista
sociológico e psicanalítico para uma reflexão sobre as instituições de saúde mental,
acrescenta o ponto de vista da teoria do atuar comunicativo de Habermas como
fundamento para uma pratica que leva em conta as subjetividades para além das
abordagens instrumentais, e conclui que, devido à sua origem, o acompanhante
terapêutico não deveria furtar-se à constante reflexão sobre sua prática institucional.
Palavras chave
Acompanhamento Terapêutico – Psicanálise – Instituições – Análise Institucional

Abstract
In this article the author briefly contextualizes the therapeutic accompaniment as
a practice that emerged in the anti-psychiatric context, introduces concisely some
essential aspects of the concept of institution in terms of sociological and
psychoanalytical viewpoint for a reflection on the mental health institutions, adds the
point of view of the Habermas´s theory of communicative action as the basis of a
practice that takes into account the subjectivity beyond the instrumental approaches, and
concludes that due his origins the therapeutic companion cannot evade himself on the
constant reflection on his institutional practice.
Keywords
Therapeutic Accompaniment – Psychoanalysis – Institutions – Institutional Analysis

Resumén
En este artículo el autor contextualiza brevemente el acompañamiento terapéutico como
una práctica que surgió en el contexto del movimiento anti-psiquiátrico, introduce de
forma concisa algunos aspectos esenciales del concepto de institución desde el punto de
vista de la sociología y del psicoanálisis para una reflexión sobre la institución de salud
mental, añade el punto de vista de la teoría del actuar comunicativo de Habermas como
la base de una práctica que tiene en cuenta la subjetividad más allá de los enfoques
instrumentales, y concluye que debido a sus orígenes el acompañante terapéutico no
debe eludirse de una constante reflexión sobre su práctica institucional.
Palabras llave
Acompañamiento terapéutico – Psicoanálisis – Instituciones – Analisis Institucional
1

teórica e prática que visa articular uma rede comunitária de cuidados que englobem diferentes serviços substitutivos ao manicômio e que também se conectem a outros espaços da cidade. Na década de 80 surge o primeiro Centro de Atenção Psicossocial no país. “Nos proponemos la negación como única modalidad actualmente viable en el interior de un sistema políticoeconômico que absorbe cualquier afirmación y que la utiliza como nuevo instrumento de su propia consolidación” Basaglia (La institución negada. uma nova forma de tratamento que aparece na busca de serviços substitutivos à institucionalidade psiquiátrica. principalmente como instituição efetiva-se. pois. possibilita a invenção de novas relações e formas de cidadania dentro da comunidade e do espaço urbano. 2 . A desmontagem do manicômio como organização e. é a partir da década de 70 que irão surgir de forma mais explicita no país os acompanhantes terapêuticos. o movimento de redemocratização e as reformas sofridas no estado brasileiro permitiram a elaboração e efetivação das políticas públicas de saúde mental que culminaram na Reforma Psiquiátrica e na Luta Antimanicomial. Do nosso ponto de vista o Acompanhamento Terapêutico constitui-se como um dispositivo complementar que tem ligação estreita e colabora para a efetivação da reforma psiquiátrica e da desinstitucionalização dos manicômios. mas principalmente. por meio de uma luta política. e como desvelá-las para escapar. 142).Ao saudoso Arthur Hyppólito de Moura. Assim. Palavras iniciais O combate para o fim da ditadura. que por sua vez fizeram aparecer as demandas para novas abordagens no tratamento dos pacientes psicóticos. desde então o espaço público passa a ser utilizado como uma ampliação do campo de tratamento possível para os pacientes psiquiátricos. esta experiência leva os acompanhantes terapêuticos a questionamentos sobre o trabalho nessa nova forma de instituição e as suas conseqüências. com quem aprendi que as instituições velam armadilhas. analista institucional de “mão cheia”. pp. Tal rede torna possível não apenas uma modificação nas formas de cuidado e acolhimento a partir das mudanças administrativas e da criação de novos equipamentos.

portanto o significado original deste termo é “aquilo que é estabelecido. constituere. Cada uma destas inserções guarda uma complexidade em sua dinâmica que deveria suscitar uma série de reflexões sobre os processos institucionais e inconscientes que aí se desenrolam e que justificam. colocar. O objetivo deste texto é colocar em evidencia os elementos que compõe a noção de instituição e a porção da realidade psíquica mobilizada pelos fatores institucionais em cuja urdidura o acompanhante terapêutico pode estar inserido e tramado. organizações. ou que permanece devido à ação humana”. para que ciente dos processos ali presentes possamos realizar um trabalho constante de questionamento acerca dos escolhos com os quais inevitavelmente deveremos nos defrontar. para tal iniciaremos pelo viés sociológico. nos atermos sobre esta temática. 2) por. “que regula”. tema de reflexão por parte dos antigos egípcios. “formar. A instituição A noção de instituição é antiga. “estabelecer. “formar. portanto. Etimologicamente o termo instituição tem sua origem na raiz indo-européia esta que possui dois significados: 1) estar. centros públicos de atendimento à saúde mental e também às hospitalares em um trabalho interdisciplinar e de rede. fundar” e os substantivos statutum. O latim deriva desta raiz os verbos stare e sistere. A tendência humana de criar uma rotina para se esquivar da exigência de se pensar todas as vezes que for necessário repetir uma determinada atividade faz com que se criem os hábitos. organizar”. costumes. e institutio. somando se a estes a proposta da teoria do atuar comunicativo de Habermas. comportamentos. A intenção aqui não é a de nos aprofundarmos na temática das instituições. práticas. ainda nos dias de hoje segue sendo tema de debate das ciências humanas referindo-se a uma vasta gama de questões. filósofos gregos e romanos. instituir”. constitutio.Hoje em dia os acompanhantes terapêuticos atuam em parcerias integrais ou parciais com instituições de vários tipos: clinicas particulares. pensadores iluministas3 e. e o que acontece com isso é uma restrição das alternativas ou 3 . dentre as quais podemos citar. tendo sido. de onde surgem os termos statuere. “que compõe”. instituere. que se funda. passando pelos pontos de vista apresentados pela psicanálise e psicoterapia institucional. relações e padrões a serem seguidos. mas extrair alguns elementos importantes deste conceito sobredeterminado para a reflexão acerca do trabalho no campo da saúde mental. por exemplo. permanecer. escolas. “o que se estabelece como regra”.

como corolário deste processo obtemos um alto nível de padronização das respostas que vão por sua vez garantir a ordem social. esta encontrar-se-á adequada aos demais integrantes de sua coletividade. e acabam por controlar e determinar o comportamento dos homens ao estabelecer pautas que orientam as percepções. e ao optar pela solução institucionalizada. para termos uma noção da complexidade destes mecanismos. a instituição produz uma opacidade que a 4 . na maior parte dos casos tratando-se de fórmulas ou modelos quase sempre empregáveis automaticamente. justas e esperadas.possibilidades de resposta diante de uma determinada situação. legitimando e interiorizando a mensagem recebida. e quando ele é levado da esfera particular para a social este processo passa a ser denominado de institucionalização. esta crença baseia-se na percepção previamente institucionalizada da cura. endossada e pronta para ser utilizada. Ao ter em mãos uma resposta pré-estabelecida e de certa forma determinada. pensamentos e ações das pessoas. recomendada. O hábito poderia ser resumido pela frase: “isto é feito assim”. poupando-lhe de argumentar e justificar-se acerca de sua decisão. que torna desnecessária a permanente tomada de decisões devido à automatização das atividades. sendo portanto aceitas e valorizadas pelos demais como adequadas. o indivíduo não necessita buscá-la ao defrontar novamente um mesmo problema. as instituições são o resultado das práticas socialmente compartilhadas. ou seja. cabendo às instituições o papel de uma memória social que armazena este conjunto de procedimentos de fácil difusão. Uma resposta institucionalizada consiste em um mecanismo de fácil memorização. a institucionalização de uma percepção ou de uma ação frente à uma situação significa que ela contém um conjunto de argumentos que confirmam sua adequação e a justificam. Assim. e dos pacientes que reconhecem no médico uma autoridade. elas não são criadas de forma instantânea. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu4 os indivíduos são guiados pelo que ele chama de uma determinada “logica da ação” que lhes confere um sentido prático por meio do qual conseguem planejar e criar ações ajustadas à ordem social. Neste sentido estas respostas prêt-à-porter aparecem na vida do homem como solução às questões que os indivíduos enfrentam em seu cotidiano. Ao oferecer aos sujeitos respostas e ações sem que lhes sejam explicadas as razões que as exigem. do médico e da medicina. tomaremos como exemplo a ideia de que o vínculo criado entre médico e paciente leva a cura. mecanismo que vai garantir a reprodução cultural e social. pois ela encontra-se acessível.

torna um dispositivo de reprodução do sistema e de criação e manutenção de sujeição. segundo este autor. as instituições tem estreita ligação com a produção e reprodução dos mecanismos de alienação. que assinala que. e que dentro delas estes compartilhariam fantasias individuais por meio dos mecanismos de identificação. baseado nas teorias de Melanie Klein postulou que as instituições teriam um papel defensivo contra as angústias depressivas e paranoides que afligem os sujeitos. Desta forma as instituições deixam de ser meios – a serviço dos mecanismos sociais – e passam a ser um sistema que reduz os sujeitos a sujeitados. Como podemos perceber. e da mobilização da relação de objetos parciais que irão produzir simultaneamente as idealizações e o caráter persecutório. oportunidade em que as relações familiares podem ser ressignificadas. tanto introjetiva como projetiva. uma vez criada e estabelecida. autor que têm investigado a concepção de homem como sujeito do inconsciente e a vida institucional valendo-se de um referencial da psicanálise de grupos. situa a origem da representação de que voltamos a ter novamente os pais protetores. Este autor ainda postula que 5 . fato este apontado por Cornelius Castoriadis5. dando origem à conhecida inversão. segundo Jean Pierre Vidal7 a novela familiar é evocada no ambiente institucional. portanto trata-se de um campo onde as atuações (acting outs) estão presentes em suas várias formas. dando. fazendo com que o sujeito se perca na complexidade das regras que lhe são impostas. a instituição acaba ganhando uma autonomia própria que faz com que ela extrapole seus objetivos iniciais e o motivo de sua criação. pois as cenas que acontecem neste âmbito remetem o sujeito às suas primeiras relações no seio da família por ser ela a primeira instituição pela qual ele circula e onde lhe são ensinadas as primeiras regras que serão empregadas em todas as demais. origem a um dos muitos tipos de alienação. De acordo com a psicanálise todo vínculo institucional é um reencontro. pela sua origem e forma de funcionamento. que por sua vez irão interferir nos mecanismos de identificação responsáveis pela manutenção do elo institucional entre os seus integrantes. É nesta relação de pertencimento que René Kaës8. A psicanálise e a instituição No terreno psicanalítico um dos primeiros autores a contribuir para o estudo dos fenômenos institucionais foi Elliot Jacques6 que. o que foi criado para servir aos indivíduos e à coletividade passa a ter os indivíduos e a coletividade a seu serviço. não por acaso pertencer a uma instituição é comumente dito “ser-da-casa”.

pois ela tende a expulsar de seu interior tudo o que não se lhe adapta. tornando se necessária a criação de novos artifícios compensatórios. fazendo ainda com que eles se identifiquem e se movam por orgulhar-se dos objetivos a serem cumpridos e com sua missão. trazendo como consequência o surgimento de ameaça à integridade do eu. Uma das razões que podem afetar a dinâmica institucional é a entrada de um novo profissional ou de uma nova modalidade profissional. e permite que estes possam decidir-se em relação aos objetivos e ideais propostos. ou seja. característica apontada por Eugène Enriquez9 que diz que todas elas acabam elaborando um processo de formação e socialização que cria um sistema de normas e pensamentos que plasmam as ações dos seus integrantes. desorganizando as defesas psíquicas organizadas entre os mesmos. pois sua identidade profissional é colocada em questão pela inclusão de uma outra modalidade de trabalho que faz com que eles tenham que se rearticular. Para Kaës11 esse tipo de mudança causa uma ameaça à segurança dos demais profissionais. nesta ocasião os antigos pilares passam a não dar mais suporte para o que se experiência. e esta situação pode acontecer com um acompanhante terapêutico na oportunidade de um trabalho dentro de uma instituição. Tal qual a família as instituições teriam também um aspecto formador. tendo por isso a função de suporte psíquico ao indivíduo que ali se insere e por este motivo lhe capturando. processo que adquire um papel importante na admissão ou exclusão de seus membros. Nestas circunstancias os profissionais sofrem uma vivência de desenraizamento. as alianças inconscientes e as realizações de desejo que vinculam os sujeitos aos ideais e projetos de uma determinada instituição e não a uma outra qualquer. A instituição seria para este autor um sistema que oferece aos seus membros a realização dos desejos de afirmação narcísica. as representações que serviam como base de 6 . onipotência e identificação. Em relação às particularidades um aspecto importante é apontado por René 10 Lourau quando diz que as instituições se definem por oposição às demais. ou seja não se trata de um espaço aberto. abarcando apenas aquilo que se adequa à sua função e aos seus objetivos. neste sentido este autor diz que parte do psiquismo do sujeito é institucional e grupal. ressignificar seu próprio saber e incluir o novo.existem as identificações com os sintomas compartilhados. a satisfação da necessidade de amor. pois a integração de novas práticas acaba gerando sentimentos de angústia por colocá-los de modo direto em contato com o desconhecido e o novo.

Na opinião de Jean Oury12 em um trabalho em equipe não se trata somente de manter relações individuais com um outro. do ataque paradoxal contra as ideias novas e contra os processos de diferenciação. de si mesmo e a dimensão inconsciente das relações. Para enfrentar estas dificuldades Käes propõe a criação de recursos que possibilitem o reestabelecimento de um espaço subjetivo coletivo.identificação para uma atuação profissional acabam sofrendo uma brusca transformação. principalmente as complementariedades. somatizações e das atuações violentas. Na perspectiva da psicanálise sempre existe uma porção desconhecida em nós mesmos que ela denomina de inconsciente e que acaba brotando nos momentos menos esperados. onde pudessem acontecer: o surgimento de espaços democráticos onde a palavra possa circular. também na esfera do trabalho. dos ódios incontroláveis. e que surgem. afetos em massa. com a pobreza de simbolização extrema e o estigma. devido ao contato permanente dos profissionais com o sofrimento alheio. é necessário levar em conta a subjetividade deste. mas às alianças que se formam. e devem se aos processos dissociadores que afligem seus integrantes e que provocariam um desconcerto dentro da instituição. Quando estamos diante de um „sintoma institucional” que acaba por enrijecer a instituição de saúde mental é importante que saibamos que eles são parte da própria realidade do trabalho ali realizado. às transferências e contratransferências que se estabelecem. psicossomatizar ou desenvolver estados passionais. as análises sobre as práticas e também a percepção de que os espaços são frequentemente locais de colocação em cena das diversas manifestações inconscientes. confusão dos níveis e das ordens. Segundo Kaës. Admitir que os pacientes e os profissionais da saúde mental são igualmente impulsionados por motivações inconscientes que 7 . fato que dever-se-ia à uma crise na qual ela deixaria de cumprir sua função primordial de regulação e contenção das angustias. porém não as do tipo “estamos do mesmo barco” que se obscurece no campo das identificações. Para este autor o surgimento do sofrimento psíquico institucional é detectável por meio do aparecimento dos. esta peculiaridade da condição humana nos acompanha. por exemplo. da repetição das ideias fixas. as reflexões. os artifícios defensivos desenvolvidos pelos profissionais para atenuar o próprio sofrimento psíquico seriam a tendência excessiva a ideologizar. como não poderia deixar de ser. uma espécie de espaço transicional comum. da paralização da capacidade de pensar.

ou seja. no campo do inconsciente. portanto anterior aos trabalhos dos psicanalistas supra citados. se propicie o surgimento das transferências múltiplas. esta autora realiza uma revisão crítica do conceito de instituição em uso na época e chega à conclusão de que ela deveria ser. Ampliando o campo Dentro dos limites de sua formação individual o profissional da área da saúde muitas vezes não consegue dar conta da complexidade que envolve seu paciente. é na Psicoterapia Institucional francesa. os enquadres possam ser mais flexíveis e seja possível simbolizarmos o não dito. onde aconteça a emergência do desejo. pois trata-se de uma interação e integração onde os profissionais dialogam sobre 8 . e é nesta direção que ela desenvolve a sua própria noção de instituição que posteriormente irá servir de base conceitual aos mais diversos mecanismos definidos como instituição no campo da psicoterapia institucional pela sua função de desalienação e mediação entre as pessoas. um terceiro responsável pela mediação das mesmas. enriquece nossa maneira de compreender a dinâmica das equipes de saúde e dos vínculos que se estabelecem entre os seus integrantes. a partir de então seria possível se obstaculizar ao máximo a instauração do estado de inércia. Influenciada pelos trabalhos dos etnólogos Malinowski e Lévi-Strauss e da psicanálise de Freud. os grupos e a sociedade. Para esta autora trata-se de se criar e manter mecanismos e lugares concretos que se constituam em espaços do dizer. mas agora em outro registo. surgindo daí a necessidade de uma abordagem interdisciplinar com o intuito de englobar os diferentes aspectos e as diversas práticas de cuidado. a psicanálise aponta também para uma alienação no trabalho institucional. Como nos mostra Moura13. Num trabalho publicado em 197714 mas elaborado em 1957. uma estrutura elaborada coletivamente e que mantivesse sua existência assegurando as trocas sociais de qualquer natureza. Porém esta abordagem não pode ser abreviada a um simples encontro das práticas ou saberes ou à sobreposição das ações. todos frutos de mecanismos latentes a que tendem a sucumbir as instituições. a assunção de responsabilidades. neste sentido. Michaud percebe nas trocas inter-humanas um dos principais fundamentos para o processo de desalienação e humanização. mas que por outro lado faz com que elas se estabeleçam. da auto reprodução e da violência ao sujeito. mais exatamente na concepção de instituição desenvolvida por Ginette Michaud que encontraremos uma proposta de combate à alienação dentro da mesma.ignoram e sobre os quais não detém controle.

onde a aprovação de uma ação passa por um diálogo crítico e as estratégias passam a ser orientadas por meio de atos de entendimento e negociação. esta teoria pretende fornecer uma visão do cenário social da vida onde haja uma interação entre os contextos práticos das experiências humanas e o das formações objetivas do sistema social. portanto implementando a racionalização. por ser um modelo de atuação que leva em conta as relações intersubjetivas baseando-se em um processo onde os participantes podem referir-se ao mesmo tempo a algo que existe no mundo objetivo. e ambas quando vinculadas à reflexão sobre o trabalho na saúde mental. o atuar instrumental e o atuar comunicativo. apenas pretendemos apontar a relevância desta proposta para uma abordagem intersubjetiva dos fatos. conceber a interdisciplinaridade como um operador nas práticas em saúde significa pensar além da simples somatória de profissionais. separados pela lógica instrumental reducionista que organiza a sociedade atual. Do nosso ponto de vista. Para o nosso propósito não será possível examinarmos com maior profundidade o conceito proposto por Habermas. fenômenos e ações sociais em um trabalho institucional. ao seguirmos esta linha de pensamento vamos ao encontro do que Jürgen Habermas15 denominou de atuar16 comunicativo. ampliando a noção de racionalidade ao acrescentar o conceito de comunicação à razão instrumental. acaba causando a tendência à reificação em todos os níveis da sociedade. O que este filósofo nos apresenta em sua teoria do atuar comunicativo é uma proposição que tem como objetivo esclarecer as atuais patologias sociais. do público e privado.as estratégias de maneira a chegar a um acordo tendo como base a comunicação e o desejo de oferecer um atendimento adequado aos pacientes sob seus cuidados. social e subjetivo. possibilitam levar em consideração a intricada dinâmica das 9 . práticas ou saberes com a finalidade de realizar um trabalho. Segundo Habermas a razão comunicativa é a única forma que possibilitaria a restauração da unidade dos âmbitos. como os da teoria e pratica. não mais por meio de um planejamento técnico que visa somente atingir metas. O crescente desenvolvimento tecnológico que ocupa todas as esferas do capitalismo industrial e que segue uma lógica instrumental. ainda que somente um dos três aspectos ganhe destaque em sua forma de expressão. partindo da suposição de que os espaços comunicativos estão submetidos a uma lógica instrumental formalmente organizada. Habermas divide o conceito de trabalho em duas partes.

condutas multiprofissionais. a coordenação e realização de uma atividade. incrementando desta forma os recursos terapêuticos. pois ela nos possibilita reconciliar o plano sistêmico com o da experiência humana contemplando desta forma o papel fundamental do sujeito como agente que determina suas próprias condições de trabalho e identidade profissional. seria mediado por princípios determinados em consonância com grupo e que permitem o estabelecimento de uma relação entre os sujeitos com vistas ao entendimento. O que a teoria do atuar comunicativo nos brinda. O atuar instrumental. ou trabalho. ao considerar a participação dos sujeitos envolvidos e implicados com a saúde. Já o atuar comunicativo. sendo fundada portanto na intersubjetividade. ao sustentar as ações que visam a zelar por ela. autonomia e assunção de responsabilidades. transformada ou colocada em questão por meio da argumentação. estabelecimento de vínculos. ambas irredutíveis entre si e possuindo uma relação mútua. é a possibilidade de superarmos um modelo de trabalho cuja abordagem privilegia o aspecto puramente instrumental. diferente do atuar instrumental que é passível de crítica e de problematização e pode ter sua validade técnica ou teoricamente justificada. livre de qualquer tipo de imposição interna ou externa. A interação é resultado da comunicação entre sujeitos que se colocam em uma posição de simetria. seria um manejador do cuidado. devendo portanto estar preparado a atuar no campo que ele chama de “tecnologias leves” e. que produziriam acolhimento. tem como objetivo alcançar determinado resultado e abarca duas dimensões: o atuar instrumental guiado por regras técnicas e o atuar estratégico guiado por valores e princípios que exercem influência sobre as decisões a serem tomadas. é por meio desta prática 10 . o atuar comunicativo é uma relação dinâmica que pode ser aceita. do acordo e da negociação. por considerar não só as dimensões instrumentais mas também a intersubjetividade presente na dimensão dos sujeitos envolvidos. ou interação. Com isso se acrescenta à relação profissional-paciente um aspecto de natureza intersubjetiva que exige uma gradual descentralização da perspectiva egocêntrica e reificada do mundo por incluir o tema da subjetividade dos profissionais no cerne da equipe. Uma contribuição para o tema das relações entre profissional e paciente é fornecida por Eduardo Merhy17 ao afirmar que todo profissional da área da saúde. Para este autor o atuar instrumental corresponde à atuação racional dirigida a um determinado fim e o atuar comunicativo ao diálogo entre as pessoas.

de outros saberes ali existentes e também dos usuários e funcionários do sistema. . as práticas fazem surgir os sujeitos20 na medida em que aquelas são produto de uma reflexão destes sobre o quefazer. por isso acaba sendo um processo de desenvolvimento de autonomia por meio do próprio exercício da autonomia. estes provém da psicologia. da medicina. pensamentos e afetos18. . o acompanhante terapêutico pode justapor as impressões que têm de si mesmo às que recebe para abrir novas possibilidades de compreensão acerca de seu fazer enquanto sujeito e permitir o surgimento de uma identidade profissional como fruto de uma práxis que sempre lhe atualiza. e acabam por determinar comportamentos. ou seja. lutar contra sua própria nocividade a fim de preservar este domínio sempre ameaçado: o da ética. e para este autor tem o sentido de superação dos mecanismos de alienação. o acompanhante terapêutico é perpassado por inúmeros enunciados que acabam por lhe constituir. sobre suas motivações. não é dos sujeitos que nascem as práticas. redefinir suas ferramentas. Para Castoriadis19 a práxis é um fazer que reflete sobre si mesmo. seus conceitos. o que representaria apenas a superposição de um conhecimento anteriormente dado à uma determinada situação. abrangendo desta forma a dimensão ética no trato entre os profissionais. Oury in "Création et Schizophrénie". requisito fundamental quando se pensa em interdisciplinaridade. além da possibilidade de revisar e renovar o projeto técnico institucional. da reflexão crítica de suas formas de pensar. O acompanhante terapêutico na instituição “(. e fazem com que ele seja objeto de discursos e comentários que além de lhe permearem e modificarem. os diversos discursos subjetivos também lhe subjetivam. da enfermagem. Ao inserir-se no interior de uma instituição. mas ao contrário. Por meio da práxis. revelam os diferentes personagens imaginários que lhe são imputados. não caindo na armadilha que a instituição nos disponibiliza ao oferecer uma identidade pré estabelecida ou 11 .” J. sobre os elementos em jogo. Sob o ponto de vista da práxis.comunicativa que eles poderão questionar e refletir sobre o trabalho realizado e construir um projeto em conjunto adequado às necessidades dos pacientes. agir e sobre as hipóteses que o animam.) traçar a cada dia seu campo de ação.

uma perspectiva relacional que possibilite que as partes envolvidas e muitas vezes contraditórias possam negociar e chegar a uma solução por meio do entendimento. da concepção de enfrentamento da alienação da psicoterapia institucional e. É por meio da identificação destas dinâmicas que se instauram e se estabelecem que podemos manter em outro nível o emblema da desinstitucionalização. se atende e se vai embora ao final do atendimento e adquire o status de um local onde se entrecruzam um conjunto de forças produtoras e constitutivas de modos de ser e fazer21. dispomos de alguns elementos para estimular a criação e/ou manutenção de um espaço que propicie: a análise e a reflexão sobre o fazer. tecendo a trama que liga as várias instancias institucionais e sociais. Tendo ciência do poder das instituições de produzir alienação. ao simplesmente reproduzirmos ou repetirmos como autômatos. Neste sentido o dia a dia passa a ser compreendido como um elemento que autentica e constitui sua prática e o local de trabalho deixa de ser um lugar onde simplesmente se chega. Em nosso ponto de vista. a supressão das polarizações estéreis entre os saberes e. sem qualquer autonomia para a reflexão.naturalmente dada. na qualidade de herdeiro do movimento de desinstitucionalização manicomial o acompanhante terapêutico não pode furtar-se ao compromisso de sustentar em sua prática institucional o permanente questionamento acerca dos mecanismos que subjazem às dinâmicas ali existentes e que por si mesmo tendem a nos levar à alienação por poupar-nos dos processos de reflexão. nos esquivando do risco de seguir trabalhando alienadamente com a ilusão de estarmos produzindo saúde. para isso é necessário que ele esteja atento às nuances da vida institucional e conheça as ferramentas teóricas que lhe permitem fazer uma leitura crítica dos fenômenos que lá acontecem. o acompanhante terapêutico também pode ofertar essa expertise em seu trabalho no interior de uma instituição ao propor. a flexibilização dos enquadres e rumos. agora em termos de desalienação. as práticas mantidas no interior de uma instituição. da teoria do atuar comunicativo de Habermas que propõe a abertura de um campo que considera o aspecto ético nas relações profissionais. Habituado ao trabalho interdisciplinar e com a criação redes. das reflexões acerca dos mecanismos institucionais inconscientes de Käes. 12 . criar e sustentar espaços de fala e escuta para que o trabalho não tenda a se resumir apenas ao aspecto instrumental.

devido à diferenciação existente na língua alemã entre handlung “ação”. La Borde. un pari necessaire – de la notion d‟institution à la psychotérapie institutionnelle. 153-171. KAËS et al. 17 E. in E. Revue pratique de psychologie et de la vie sociale et d´hygiène mentale.pdf. Novas tendências em psicanálise. e-mail: hyagiu@yahoo. 1991. KAËS et al. 1991. Tramas subjetividad y procesos sociales. 1991. nunca é demais! Notas 1 Meus agradecimentos à Luciana Chauí-Berlinck pela leitura deste trabalho na mesa “AT y Salud Publica” no VIII Congresso Internacional de Acompañamiento Terapéutico. Paidós.R.Os interrogantes: que lugar ocupo na dinâmica institucional? Como e o que estou produzindo? São sempre bons guias para começarmos a colocar a prática em questão. 9 E. São Paulo. 11 R. J. 71– 112. KAËS et al. A instituição e as instituições. 13 MOURA. ENRIQUEZ. A instituição e as instituições. psicanalista e acompanhante terapêutico. 15 J. CASANOVA e S. 14 G. A instituição e as instituições. CORKIDI. CASANOVA e S. Paris. MERHY. Barcelona.R. 1-36. São Paulo.com 3 Para uma resenha histórica do conceito de instituição remetemos o leitor ao trabalho de T. N. São Paulo. p. KAËS. Rio de Janeiro. 1989. 1977. MERHY. . Consciência moral e agir comunicativo. BERNARDES. Itineraires de formation. CORKIDI.E. Realidade psíquica e sofrimento nas instituições in R.) Agir em saúde. 1-36. R. 8 R. A. Coletânea Grandes Cientistas Sociais. . MICHAUD. ORTIZ. JACQUES.br/pdfs/550-of7b-st2. 16 Optamos por utilizar “atuar” ao invés de “ação”. A instituição e as instituições. São Paulo. La institución desde la mirada psicoanalítica: aproximaciones. Luckmann. Tramas subjetividad y procesos sociales. 1984. um desafio para o público. C. P. 53-79.E. 10 W. São Paulo. México. 13 . 18 E. VIDAL.ufsc. 2004. & R. 5 W. La institución desde la mirada psicoanalítica: aproximaciones. 117 e ss. 1997.L. em consideração ao termo handeln utilizado originalmente por Habermas. Editora Ática. Casa do Psicólogo. 1991. 1996. Zahar. p. São Paulo. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do trabalho vivo em saúde. KAËS et al. Realidade psíquica e sofrimento nas instituições in R.L. Os sistemas sociais como defesa contra as ansiedades persecutória e depressiva. México. 6 E. Casa do Psicólogo. A instituição ou o romance familiar dos analistas in R. 12 OURY. O trabalho da morte nas instituições. Hucitec. p. 2 Psicólogo Clínico. 2004. Casa do Psicólogo. Psicoterapia institucional e o clube dos saberes. PELLICCIOLI. p. São Paulo.rizoma. p. Casa do Psicólogo. Teoria de la acción social. in M. p. Acesso em 14 de outubro de 2013. Nunca é tarde. G. H. 4 R. 1989. 7 J. O trabalhador da saúde mental na rede pública: o acompanhante terapêutico na rede pública. Hucitec. 1991. e handeln “atuar”. KLEIN. O familiarismo na abordagem “analítica” da instituição. Tempo Brasileiro.. ONOCKO (org. realizado na Cidade do México dos dias 14 a 16 de novembro de 2013. Gauthier-Villars. HABERMAS. (org. in R. 37-40. A. P. disponível em http://www.) Pierre Bourdieu. GUARESCHI. Rio de Janeiro. KAËS. 2006.

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