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O Programa Cultura Viva e o tratamento da política cultural como política social

Victor Neves de Souza – Fundamentos de Serviço Social / Política Social

A pesquisa na qual se baseia a presente comunicação visa, em linhas gerais, a
apreender as múltiplas determinações que enformam o Programa Cultura Viva a partir de
seu enquadramento enquanto política de Estado. Para isso, nosso esforço de pesquisa
será dirigido no sentido de extra ir de nosso acervo heurístico um conjunto de categorias
capazes de dar conta, de uma parte, das especificidades da cultura pensada enquanto
criação estética, e, de outra, da inserção da cultura no quadro das relações
Estado/sociedade, de forma a poder pensar este complexo de problemas no marco de
políticas públicas.
A importância política do referido Programa para a atual gestão do MinC, bem
como para o atual governo federal, pode ser estimada por seu objetivo declarado de
reverter uma característica histórica marcante da política cultural no Brasil: o fato de ela
ser elaborada e implementada, via de regra, na relação entre Estado e intelectuais,
deixando de fora de seus processos de formulação e de gestão as classes subalternas.
Este fenômeno se relaciona organicamente com o caminho através do qual, segundo
Carlos Nelson Coutinho, ocorreu a modernização brasileira – através de "revoluções pelo
alto", processo político decisivo tant o na consolidação do Estado brasileiro como na
conformação de nossa identidade nacional.
Com o fortalecimento paulatino do mecanismo de isenção fiscal como o principal
meio de financiamento da política cultural em nosso país (situação em que os grandes
produtores atuantes no mercado se tornariam o mais importante público-alvo da política
ministerial,

com

capacidade

de

mobilizar

recursos

para

apresentar

projetos

aparentemente interessantes aos gestores públicos, e, assim, garantir recursos públicos
para suas produções), certa distorção sempre presente em nossa política cultural ganhou
nova roupagem: trata-se do privilégio, no acesso aos recursos públicos para a área da
cultura, a pequenos grupos (que poderíamos chamar de uma elite cultural). Neste caso,
acrescido do agravante de que o Estado foi, a pouco e pouco, se tornando ele próprio um
"mercado cultural", já que é a ele que os produtores culturais têm de r ecorrer para serem
capazes de viabilizar suas produções – o retorno do mercado propriamente dito vem
depois, quando vem. É neste contexto, a partir da crítica a esta situação e do
compromisso com sua reversão, que aparece uma proposta da atual gestão do MinC .
Este compromisso se dá tanto do ponto de vista de redirecionar os recursos públicos
alocados à área da cultura (no sentido de combater o privilégio dos pequenos grupos de

a partir daí. segundo se advoga. ava liações que ponham em questão seus objetivos mesmos. uma espécie de política de geração de emprego (precário. Faltam ao Programa Cultura Viva. apreender como este programa se articula com os outros programas sociais do governo. ou se a estratégia de implementação é a mais consonante com a difusão das diversas manifestações culturais e com a proteção das mais ameaçadas de esmagamento por serem menos adequadas ao mercado enquanto mecanismo de mediação universal para o fazer cultural. os objetivos da pesquisa a ser realizada são: compreender como o Programa Mais Cultura modifica o tratamento que vem sendo dado à política pública na área da cultura ao longo dos últimos anos. sua própria essência. e temporário. capaz de articular "inclusão social" com diversidade cultural em bases solidárias.produtores no acesso aos montantes) quanto daquele de dinamizar uma economia da cultura que seja. . e. Assim. implementação e avaliação do Programa Cultura Viva . Apesar do compromisso com a democratização da cultura e a "inclusão social" através da mesma. historicizando-o no campo da política cultural. deste modo. já que o apoio às iniciativas selecionadas tem seu prazo determinado de antemão) e renda via cultura. bem como com seu projeto político mais geral.não põe em questão se os objetivos do Programa são mesmo os mais adequados à democratiz ação da cultura e à garantia dos direitos culturais assegurados por nossa Constituição (que o Programa reafirma). no sentido de compreender quais dos seus vetores interessam a cada grupo social básico constitutivo da formação social brasileira. Ou seja. já que não conta com nenhuma das garantias trabalhistas asseguradas por nosso ordenamento jurídico-político. confrontando-a com os princípios que ele reafirma. ou se ela se esgota em si mesma – mera inclusão em um mercado super seletivo. O espaço acadêmico de pesquisa nos aparece como o locus adequado para que se materialize um esforço deste tipo. e como estas relações se expressam teórica e ideologicamente. notadamente no Brasil. a Secretaria de Programas e Projetos Culturais . apanhar as contradições no desenvolvimento e na implementação do programa.responsável pela formulação. desvendar as relações que este p rograma e a reconceituação do termo cultura (sua "ampliação". termo muito em voga hoje em dia) estabelecem com necessidades de determinados grupos sociais em nível nacional e internacional. se a "inclusão social" mediada pela ativação de um mercado cultural baseado na economia solidária pode culminar na diversidade e proteção aludidas. avaliando-o sob um escopo mais amplo.