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CAPÍTULO I
O MUNDO DO TRABALHO: O SURGIMENTO DA FIGURA DO OPERÁRIO 
PRINCESINO, SUA TRAJETÓRIA, SUA EXPERIÊNCIA.

“Nos homens de Ponta Grossa, então é notável a tendência para tornarem­se o 
tipo industrial. Ao par que muitos estrangeiros ou indivíduos de origem estrangeira, 
encontram­se aqui numerosos filhos da terra que tem dado prova de extraordinária 
capacidade no comércio e indústria”9 
(Nestor Vitor)

1.1 "Princesa dos Campos": pelo tropeiro e pelo operário.

Final do século XIX, a região sul do Brasil começa a se destacar pela possibilidade 
de   uma   ascendente   industrialização.  O  caso   de   Ponta   Grossa   foi   característico   nesse 
sentido, pois foi ao leito do entroncamento ferroviário10  que passava pela cidade que se 
instalou parte considerável de suas primeiras indústrias. 
Mudanças   significativas   proporcionaram   tonalidade   ao   desenvolvimento   da 
cidade. Ponta Grossa, antes passagem dos tropeiros, se encontrava no “coração” de uma 
região que sobrevivia da criação de bovinos11. Era em meio a grandes propriedades rurais 
que se desenvolvia uma paisagem industrial modernizada nos trilhos do trem e nos muros 
das fábricas, nascia a "Princesa dos Campos"'12.
O trajeto econômico de Ponta Grossa passou a seguir esse mito dos trilhos. E 
9  O conhecido romancista Nestor Vitor elaborou tal constatação sobre o homem princesino. Essa citação 
que primeiramente se apresenta de forma inocente, representa que não bastava uma cidade ser urbana e 
industrial,   possuir   energia   elétrica   e   expulsar   a   falsa   mendicância   de   seu   território,   Ponta   Grossa 
necessitava também possuir uma cultura do trabalho, um modelo de cidadão que além de civil era prático 
no trato laboreiro (SANTOS, 1996 p. 225).
10  Segundo Leonel Monatirsky: “Desde a sua implantação no Brasil – há mais de um século e meio ­, a 
ferrovia   contribuiu   para   o   desenvolvimento   econômico   do   país,   foi   um   dos   alicerces   para   a   integração 
regional   e   nacional,   auxiliou   processos   de   urbanização   e   industrialização   brasileiros,   foi   decisiva   nas 
transformações urbanas das cidades ferroviárias e influenciou a sociedade brasileira” (MONATIRSKY, 2006, 
p.   3).   Relevando   as   duas   estradas   de   ferro   que   passam   pelos   Campos   Gerais,   Estrada   de   Ferro   São 
Paulo/Rio Grande (fundada em 1896) e Estrada de Ferro do Paraná (fundada em 1894), Monatisky ainda 
identifica   o   período   de   1892   a   1930   como   uma   etapa   de   ascensão   econômica   da   região,   "quando   a 
economia nacional e a região sul do Paraná produzia e exportava erva­mate e madeira" (op. Cit. p. 5).
11 Antes da ferrovia, Ponta Grossa, conhecida como "corredor do gado", aparece no almanaque Geografia 
Ilustrada como “nada além de uma trilha de gado em um planalto, margeando os rios e evitando as matas e 
os   capões...   sem   limites,   sem   terras   cultivadas,   sem   nada   que   atraia   o   homem   que   ali   aparece   de 
passagem, não tem nome certo ou vida própria. É, apenas, lugar nenhum” (CIVITÁ, 1975, p. 42).
12  Alguns   autores   rememoram   essa   categoria.   Todavia,   antes   mesmo   de   Ponta   Grossa   receber   tal 
nomenclatura,   ainda   enquanto   freguesia   de   Castro,   ela   já   apresentava   interesse   em   desenvolver   vida 
própria, sendo dedicada a diversas atividades econômicas. Sendo que em registra­se inúmeros  pedidos 
feitos à Câmara de Castro para desenvolver o comércio local (GONÇALVES; PINTO, 1983, p. 23). Esse 
espírito é responsável por construir um sentimento de autonomia por parte de Ponta Grossa perante Castro.
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juntamente   com   a   industrialização,   essa   possibilidade   de   escoamento   da   produção 


participou dos novos rumos do desenvolvimento da cidade. A linha não era só passagem, 
segundo Maria Gonçalves e Elisabete Pinto

  a  construção  de  ferrovias serviu  de  estímulo  para  atrair  migrantes  nacionais  e 


estrangeiros   empregando   sua   força   de   trabalho   na   própria   construção   das 
mesmas e depois na comercialização de mercadorias, contribuindo para acelerar 
o processo de urbanização (GONÇALVES; PINTO. 1983, p. 16).
 

O   dinamismo   do   transporte   ferroviário   contribuiu   para   que   a   sociedade   ponta­


grossense   convivesse   com   um   constante   processo   de   modernização.   Ao   procurar 
compreender o espaço urbano de Ponta Grossa, Cicilian Lowen Sahr indica a década de 
1920   como   de   intenso   crescimento   da   cidade.   A   ferrovia   entrou   nesse   processo   ao 
momento   que   se   tornou   uma   variável   do   crescimento   urbano,   “a   estrada   de   ferro 
acompanhava a estrutura dos espigões do relevo, e os loteamentos se implantavam na 
sua margem” (SAHR, 2001, p. 22). 
Ponta Grossa não pode ser identificada por eventos espontâneos, como se esses 
significassem sua expansão e seu aumento populacional. Toda sustentação da economia 
erva­mateira   e   da   atividade   tropeira   passou   diretamente   pelas   mãos   de   trabalhadores 
rurais   e   urbanos,   denotando   a   participação   da   população   nesse   processo.   Essas 
diligências, ao deixarem de ser preponderantes, passaram por transições. A economia de 
passagem dos tropeiros, deixava de ser um processo hegemônico, porém não pode ser 
considerada passageira.
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FIGURA 01 ­  Fotografia da Praça João Pessoa, em destaque a Estação da Estrada de Ferro de 
Ponta Grossa (PREFEITURA, 1936).

FIGURA 02 ­ Seção de Máquinas da Estrada de Ferro São Paulo­Rio Grande (Op. Cit.)13.

13 A foto demonstra as condições de trabalho nas estradas de ferro, sendo elite operária ou não, é na face 
dos   trabalhadores   imortalizada   digitalmente   que   percebemos   parte   de   suas   vidas.   O   Álbum   de   Ponta 
Grossa  de  1936  é  encontrado  hoje   como  um  anuário  de  orgulho  ao  trabalho  para  a  época   da  qual  foi 
publicado,   exibindo   o   corpo   dos   trabalhadores   como   monumento   do   labor   e   do   seu   próprio   esforço 
(PREFEITURA, 1936).
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A participação nesses acontecimentos por parte da população ponta­grossense e 
mais precisamente pelos trabalhadores princesinos, se torna o foco desse trabalho. No 
caso   do   momento   da   ferrovia   e   da   urbanização,   não   podemos   desconsiderar   a 
participação do braço humano nesse processo. 
Em   um   cenário   qualificado   por   tais   elementos   que   compõe   essa   urbe   ponta­
grossense devemos começar privilegiando e expondo a participação dos trabalhadores no 
desenvolvimento da cidade. Os caboclos colhedores de erva­mate, os imigrantes e seus 
carroções, os carregadores do Mercado Municipal, os ferroviários à beira dos trilhos, os 
comerciários   em   seus   balcões...   Da   produção   à   venda,   todo   esse   processo 
desenvolvimentista passou pela mão do ser humano e mais especificamente pelas mãos 
dos trabalhadores. Seja na figura do tropeiro ou do operário, a memória nos possibilita 
remeter às suas participações na economia.
Ainda   que   o   ponto   de   incidência   da   pesquisa   seja   delimitado   por   outro   recorte 
temporal,   se   torna   necessário   conceber   o   aparecimento   do   trabalhador   princesino 
partindo de sua participação na história de Ponta Grossa. 
Primeiramente,   devemos   considerar   que   as   condições   econômicas   e   a 
efervescência de uma sociedade urbana em desenvolvimento geraram necessidades que 
não estavam somente baseadas na produção, mas também na existência de um grande 
número de trabalhadores que compusessem as forças produtivas e a mão­de­obra local e 
que baseassem sua existência no consumo de muitos bens que, em algumas situações, 
eram eles mesmos que produziam. Categorias de trabalhos eram criadas, fábricas eram 
edificadas, mulheres e homens oriundos de vários lugares do Brasil e também, em grande 
excedente, de outras nacionalidades, participaram dos números da população de Ponta 
Grossa. 
O desenvolvimento econômico, a oportunidade de escoamento da produção por 
meio do tropeirismo e da ferrovia, o êxodo rural e os movimentos imigrantistas não devem 
ser considerados eventos vãos, fatores desagregados, mas sim, devem ser tratados como 
condições simultâneas desse processo e que podem ser representados na demografia 
dos tempos e na passagem da criação e do desenvolvimento do ambiente urbano. 
A colonização, que alguns situam antes desse momento, já revelava a figura do 
tropeiro, do estancieiro, do ervateiro e de outras categorias ligadas à terra. Esse processo 
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pode ser observado na divisão social do trabalho, entre os possuidores dos meios de 
produção   e   os   desprovidos   de   tais   meios   (MARX;   ENGELS,   2006).   Além   dessa 
constatação,   para   além   dessa   dialética,   o   recorte   específico   procura   estabelecer   um 
diálogo a uma abrangência mais ampla, proporcionando tonalidade às particularidades 
encontradas em Ponta Grossa. Não há possibilidade de se colocarem generalizações ao 
tema, nem de se proporcionar regras ao geral a partir dessas particularidades (REVEL, 
1998).
Em um instante à frente, a administração de novas forças produtivas, a criação do 
mundo do trabalho também se revelava no espaço das fábricas. O que esse frisar de 
momentos   econômicos   nos   revela,   entretanto,   é   outra   simultaneidade.   As   primeiras 
indústrias   foram  transfiguradas   no   enriquecimento   da   erva­mate,  como   foi   o   caso   das 
casas de erva­mate fundadas no início do século XX como a Hervateira Brasil, a Casa 
Hoffmann e a Firma Gelbcke e Miró se tornaram o semblante dessa economia.
A Serraria Olinda também compactua com essa imagem. Assim como a erva­
mate, a  extração  de  madeira   participou   tanto  do  processo  de  extrativismo  quanto  das 
primeiras   iniciativas   nada   tímidas   da   indústria   regional.   Essa   imagem   também   foi 
corroborada   pela   localização   da   indústria,   ao   lado   da   Viação   Férrea   São   Paulo­Rio 
Grande.   Portanto,   vizinha   do   mito   que   corria   nos   trilhos,   era   uma   atividade   era   antes 
considerada   rudimentar   e   rural   –   todas   essas   situações   citadas   não   se   colocavam 
imediatas   à   economia   industrial,   mas   se   tornam   ativas   ainda   no   início   da   economia 
terciária em Ponta Grossa, associando a ainda crescente “Princesa dos Campos” ainda 
aos meios de produção da terra.
As próprias linhas de trem, entrelaçadas no emaranhado dos trilhos revelam um 
dos maiores segmentos em número de trabalhadores da cidade de Ponta Grossa 14. Sobre 
os ferroviários ponta­grossenses foi construída uma imagem proveniente do momento que 

14  Pertencente a esse cenário, o trabalhador da ferrovia ocupa a cidade de Ponta Grossa e se assume 
enquanto figura participante do seu processo. Segundo Rosângela Petuba: "Neste contexto, os ferroviários 
ponta­grossenses foram considerados tanto numericamente, quanto por sua organização o segmento mais 
destacado   entre   os   trabalhadores   locais,   desde   a   primeira   metade   do   século   passado.   Ao   longo   das 
décadas, a categoria protagonizou diversos momentos significativos na história da cidade" (PETUBA, 2005, 
p. 4). Leonel Monatirsky desenvolve a figura do operário simplesmente a partir de suas condições salariais, 
empregatícias e por seu poder de compra (MONATIRSKY. 2006), Petuba desmistifica essa imagem dos 
ferroviários enquanto membros de uma "elite operária" quando propõe o cruzamento de depoimentos orais 
com demais fontes. Os constantes acidentes e as constantes baixas nas viagens férreas são a constatação 
que não só tange o trabalho de Petuba como também revela as condições de trabalho das mulheres e dos 
homens da ferrovia (PETUBA, op. Cit.). 
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o país vivia.
Os   aspectos   da   industrialização   local   muito   explicam   o   perfil   dos   operários 
princesinos. A situação em que se encontravam nas suas condições de trabalho traduz 
algumas prerrogativas de sua organização no movimento operário que surgia já no fim do 
século XIX. A priori, a proposta não é fazer um apanhado linear da trajetória da indústria 
na   cidade,   mas   demonstrar   a   influência   que   alguns   fenômenos   industriais   possuíram 
sobre a sociedade ponta­grossense. O retrospecto, na realidade, nos remete aos eventos 
que significaram desde a possibilidade da existência do proletariado na cidade até o seu 
cotidiano dentro e fora das fábricas15.
Entre esses acontecimentos que correlacionam a produção dos bens de produção 
e seu consumo com uma possibilidade de existência do proletariado local, percebemos aí 
uma   cidade   conhecida   por   atrair   empresas   ao   leito   da   ferrovia.   Além   disso,   a   cidade 
desde o início do seu alastramento urbano já demonstrava a incidência de vilas e bairros 
operários,   no   caso,   ocupados   por  imigrantes   no   interior  desse   percurso.   É  o   caso   de 
Uvaranas16  e Oficinas17, bairros tradicionais que passaram a agrupar a rede urbana de 

15 O crescimento urbano de Ponta Grossa revelou­se na paisagem constituída de bairros e sub­centros. A 
industrialização da cidade foi seguida de um outro fenômeno que promulgou diferenciais não só na estrutura 
do quadro urbano, mas também no cotidiano dos trabalhadores. Sob uma ótica mais detalhada, o estudo da 
urbanização interage com o comportamento que esse crescimento impulsiona um novo ritmo criado na vida 
dos   trabalhadores   fora   das   fábricas.   Quem   são?   O   que   fazem?   E   para   chegar   a   respostas   a   esses 
questionamentos, o pesquisador necessita enxergar o operário além da sua figura construída na jornada de 
trabalho, essas pessoas vão além disso. São mães, pais de família, moradores de várzea ou à beira de um 
olho d'água, capitães do time de futebol da vila onde moram, lavam pra fora, freqüentadores de botecos, 
membros  de   associações,   entre   outros  elementos  que   procuram  possuir   para   formar  sua   identidade.   A 
característica de Ponta Grossa ser colonizada por sub­centros distantes da localização central do município 
permeia uma antiga discussão que não ocorre ocasionalmente, mas já prevê toda uma forma de alojar uma 
classe social em um ambiente específico. Segundo Maria Auxiliadora Decca: “os industriais ou buscavam 
situar os operários próximos às indústrias ou, inversamente, colocaram as indústrias em locais densamente 
habitados pela população mais pobre em função dos preços mais baixos das habitações nos bairros de 
várzea ou de bairros mais altos, mas distantes, sem quaisquer melhoramentos” (DECCA, 1987, p. 18). Essa 
passagem revela características de uma microanálise sobre a malha urbana de Ponta Grossa onde  os sub­
centros de Oficinas e Uvaranas se apresentam em algumas dessas condições. 
16   O bairro de Uvaranas se conectava às atividades dos ferroviários por meio do Hospital 26 de Outubro 
que atendia os trabalhadores da ferrovia. O bairro Uvaranas colonizado por imigrantes italianos, poloneses e 
alemães. Cirlei Miléo e Maria Martins descrevem o bairro como ocupado por diversas chácaras antes dos 
primeiros   loteamentos   que   o   urbanizaram,   nesses   locais   eram   criados   cavalos,   bovinos,   sendo   que   as 
autoras   atentam   para   as  culturas  de   uva.   Os  loteamentos   nesse   momento   parecem  contrastar   com   as 
antigas culturas do bairro. O que antes era provocava um impacto visual de parreirais, agora se tornara um 
local identificado pela paisagem do grande número de casas e da concentração de fábricas e operários pelo 
bairro (MILÉO, 1986, p. 13).
17   Foi no leito da linha férrea e vizinhando as oficinas de vagões e locomotivas que se forma o bairro de 
Oficinas. A maioria das famílias de ferroviários se estabeleceram ali (SAHR, 2001). Nesse caso, Oficinas se 
destaca na primeira situação citada por Decca. Vale a pena chamar a atenção para outro fato curioso que 
remete a construção da urbe princesina. Claudia Monteiro, ao trabalhar os ferroviários comunistas da Rede 
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Ponta Grossa conforme a cidade foi crescendo.
Um ressurgimento do comércio nessas páginas também se torna necessário, isso, 
ao   momento   que   além   de   diagnosticar   o   perfil   do   consumo   da   época,   também   traz 
consigo um grande número de trabalhadores em seus índices. 
Além   de   rememorar   tais   indicativos,   se   torna   necessário   frisar   que   é   no   setor 
comerciário que temos o primeiro registro de alguma reivindicação dos trabalhadores de 
Ponta   Grossa.   Essa   ação   dos   comerciários   foi   ocasionada   no   segmento   de   “secos   & 
molhados”. Segundo Gonçalves e Pinto 

os   empregados   do   comércio,   cujo   número   era   bastante   significativo,   haviam 


solicitado o fechamento destes estabelecimentos aos domingos, já em 1898. Esta 
reivindicação se concretizará apenas mais tarde, por meio do Decreto no. 96, de 
23 de abril de 1903, com exceção das farmácias, cafés, restaurantes e bilhares 
(GONÇALVES; PINTO, 1983, p. 67).

Essa   citação   contraria   constatações   de   outros   autores   que   consideram   que   o 


movimento   operário   princesino   inicia   sua   trajetória   somente   no   início   do   século   XX, 
simplesmente a partir da fundação das primeiras organizações operárias da cidade.

1.2 – O estrangeiro: Imigração em Ponta Grossa no início do Século XX.

O próprio fenômeno da imigração que incidiu em Ponta Grossa nesse momento já 
destacava a participação do trabalhador nas fábricas. Tal proporção foi indicada enquanto 
solução desde a crise alimentícia de 1857 na província do Paraná. Foi desse movimento 
imigrantista que podemos perceber um dos instantes significativos para a formação de 
outro movimento: o próprio movimento operário.  
Gonçalves   e   Pinto   afirmam   um   aumento   significativo   na   população   ponta­
grossense a partir da chegado do imigrante: 

embora   sempre   tenham   ocorrido   migrações   estrangeiras   espontâneas   e 


esporádicas, o grande movimento migratório oficial só se verificou na década de 
1870, sendo que entre os anos de 1877 e 1878, chegaram a Ponta Grossa cerca 

Paraná­Santa   Catarina   indica   o   Oficinas   como   um   bairro   investigado   pela   DOPS   (Delegacia   de   Ordem 
Política e Social) com a intenção de repreender qualquer organização política dos operários (MONTEIRO, 
2007, p. 47). Essa constatação serve de indicativo para mostrar que foi em grandes focos de concentração 
de operários como nos seus espaços de moradia que sua organização se tornou possível.
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de 2381 imigrantes. Aumentando consideravelmente a população ponta­grossense 
(op. Cit. p. 111).

A  estrutura da cidade possibilitou  um novo  cenário  diante de si. Um momento 


característico   pelo   empreendedorismo   imigrante   e   pela   necessidade   da   existência   de 
setores do comércio e da indústria. Nesse instante, a geração de oferta de trabalho na 
cidade   foi   condicionante   para   a   incidência   da   figura   do   operário   na   sociedade   ponta­
grossense.
Existe   então,   a   importância   de   frisar   esses   índices   sobre   um   período   de 
crescimento da cidade. Sobretudo, isso se torna pertinente para entender as relações de 
produção a partir das transformações ocorridas dentro dela. Francisco Foot­Hardman e 
Victor Leonardi enfatizam a cidade pós­colonial como delimitadora de novas relações de 
produção18, onde os fenômenos surgidos nessas são protagonizados pela ascendência 
das classes  sociais (HARDMAN; LEONARDI, 1991). Antes deles, o historiador Edgard 
Carone ­ que assenta sua escrita em um viés mais econômico que os autores citados – 
serve, no caso deste trabalho, para complementar tal constatação ao trabalhar o advento 
da República Velha. Ao enfatizar a existência e a formação desses grupos, ele, ainda 
assim, cede notoriedade à forma como cada qual procura modificar a sociedade à sua 
maneira (CARONE, 1978)19.
Por   parte   desses   autores,   os   trabalhadores   aparecem   relacionados 
involuntariamente a tais relações de produção20. Alguns fatores são condicionantes para a 
18  A origem do proletariado fabril  eventos que significaram a criação de novas relações de capital­trabalho 
na   República   Velha.   Entre   a   abolição   e   a   proclamação   da   República,   onde   uma   massa   trabalhadora 
substituiu   outra   nas   relações   de   produção,   a   necessidade   da   imigração   e   do   êxodo   rural   se   tornaram 
presentes. Além dessas, as transformações no ambiente de produção geraram outra necessidade destinada 
ao abastecimento dos mercados e a necessidade do consumo (HARDMAN; LEONARDI, op. Cit.).
19  Alguns agentes sociais são identificados na obra de Carone: Oligarquia, Burguesia, Classes Médias e 
Classes   Trabalhadoras.   Sendo   esses   protagonistas   de   diferentes   fenômenos,   antigos   e   recentes: 
Exploração   dos   recursos   naturais,   industrialização,   imperialismo,   coronelismo,   monocultura,   latifúndio, 
partidarização, militarismo, organizações sindicais, entre outros (CARONE, op. Cit.).
20 Carone ainda identifica a formação das classes sociais de forma voluntária a sociedade capitalista, por 
outro lado, sua observação sobre a imigração é a de que esses elementos deixavam seus países e aqui 
chegavam ocupando a classe operária em segmentos que, muitos vezes, para eles era identificados como 
distintos de seus afazeres anteriores (CARONE, 1989). Mais precisamente, a existência de diversas colônias 
de imigrantes em Ponta Grossa não serve simplesmente de indicativo para considerarmos a multiplicidade 
étnica e cultural da região, mas também para indicar que essas diferentes nacionalidades vieram a compor 
o proletariado local dentro das fábricas e demais estabelecimentos. A realidade da demografia da época 
não pode nos indicar como se deveu exatamente essa composição. Beatriz Loner identifica esse fenômeno, 
ao   trabalhar   a   mobilização   dos   trabalhadores   riograndenses,   identificando   o   perfil   dos   imigrantes   que 
chegavam na cidade desde o fim do século XIX: “o estrangeiro nem sempre estava capacitado para as 
27

existência desse proletariado urbano, Foot­Hardman e Leonardi reconhecem na imigração 
um fator importante para o proceder do rompimento com as relações escravistas e da 
construção de um filamento para as novas relações livre­assalariadas. O aparecimento 
dessas classes sociais ocorre, não contraditoriamente, no interior das relações produtivas 
– a nascente burguesia, seus investimentos e empreendedorismos são o que favorecem a 
necessidade de um proletariado fabril e urbano.
O grande número de pessoas nas cidades do início do século XX apareceu como 
uma situação proveniente para a circulação de idéias, isso foi um fato considerável nos 
momentos de grande propulsão da industrialização e de políticas de imigração. Inúmeros 
foram os partidos, associações, clubes e sindicatos fundados nesse período e proveniente 
dessa circulação de idéias21.

1.3 Personalidades e Organizações: A imagem do militante.

Nessa conjuntura de crescimento urbano a cidade passou a receber as primeiras 
figuras   que   passariam   a   constituir   as   fileiras   do   movimento   operário,   defendendo 
posicionamentos políticos e compondo as organizações de classe.
Além das entidades criadas, existiam por trás delas personagens característicos 
do   movimento   operário   da   época.     Passaram   por   Ponta   Grossa   o   internacionalmente 

tarefas   exigidas   nas   fábricas   e   manufaturas   existentes   (...),   a   vinda   desses   elementos   imigrantes   se 
traduziu, inicialmente, num complicador da situação da classe operária, porque acrescentava, ao já confuso 
processo   de   formação   da   classe,   novos   trabalhadores,   com   hábitos   e   costumes   diferenciados,   línguas, 
religiões, tradições e aspirações a separá­los” (LONER, 1999, pags. 86 a 88). 
21  Alexandre Tomporoski ao trabalhar  a formação do ideário anarquista reconhece que toda organização 
dos   trabalhadores   era   produto   da   difusão   de   idéias   entre   os   trabalhadores:   " 
A partir destes grupos, os militantes se organizavam e espalhavam suas idéias. Ali discutiam os problemas 
e disseminavam notícias de mobilizações, greves e da repressão policial em diferentes partes do Brasil e do 
mundo. Foram muitos os grupos de propaganda fundados por anarquistas no Brasil das primeiras décadas 
do   século   XX,   porém,   o   mais   importante,   era   a   cooperação   voluntária   entre   os   pequenos   grupos 
constituídos nas diferentes e mais distantes regiões" (TOMPOROSKI, 2008, p. 2). 
28

conhecido Gigi  Damiani22, o intelectual e jornalista Teixeira Coelho23 e o comerciante local 
Adolpho Paulista24, responsáveis pela difusão do anarquismo na cidade (CHAVES, 1994; 
ARAUJO; CARDOSO. 1992). Damiani e Coelho seguiam o perfil dos militantes que se 
valiam   de   vários   pseudônimos,   era   isso   que   garantia   sua   sobrevivência   já   que   eram, 
também,   produtores   de   jornais   operários.   Sua   ironia   aos   temas   religiosos   e   à 
modernidade   era   materializada   em   palavras   ameaçadoras   que   procuravam 
incessantemente desconstruir "verdades absolutas" que eles identificavam como criadas 
por   outras   instituições.  Suas trajetórias são   marcadas  pela   busca   da   emancipação   da 
classe trabalhadora nas linhas que compunham.
O   primeiro   organismo   de   classe   organizado   em   Ponta   Grossa   foi   o   Círculo 
Socialista “Leon Tolstói”25. Lançando o jornal Onze de Novembro, a entidade estabeleceu 
sua organização pelo jornal operário – essa modalidade daria a sintonia de grande parte 
das organizações que procederam esse círculo, sendo que vale identificar que dessas a 
maioria   só  permaneceram  no   tempo   graças  à   sobrevivência   de   seus  periódicos  como 
registros históricos.

22  O pintor italiano Luigi “Gigi” Damiani participou da fundação de diversas associações como a Federação 
Operária   Paranaense   em   1906,   foi   orador   do   I   Congresso   Operário   Brasileiro   no   mesmo   ano,   foi 
organizador­secretário do I Congresso Operário Estadual em 1907, sendo que a partir daí publicou diversos 
periódicos   anarquistas.   Segundo   Silvia   Araújo   e   Alcina   Cardoso:   “militantes   de   outros   centros   também 
fizeram história no Paraná. É   o caso de Gigi Damiani, jornalista italiano, participante da Colônia Cecília, 
cuja   presença   em   Curitiba,   nos  primeiros  anos  deste   século,   trouxe   grande   contribuição   ao   movimento 
operário local. Chegou ao Brasil em 1890 e passou alguns anos no Paraná, onde aprendeu o ofício de 
pintor. Colaborou com o jornal Il Distrito, fundado em 1899 e impresso em língua italiana e portuguesa (...), 
redigiu   A   Voz do  Dever.  Em  1903,   fundou  a   folha   libertária   O  Despertar,   importante  publicação   que   se 
estendeu até 1905. Colaborou com os jornais anticlericais O Combate, publicado em 1907, em Curitiba, e O 
Escalpello, órgão do Centro Livre Pensador, de Ponta Grossa” (ARAÚJO; CARDOSO, 1992, p. 27). Hoje, 
São Paulo­SP possui uma rua com o seu nome.
23  Teixeira Coelho, farmacêutico na cidade, participou do Círculo Socialista "Leon Toltói" e participou da 
redação dos jornais O Jubileu Operário de 1903 e dos jornais O Escalpello, juntamente com Gigi Damiani, e 
o Anticlerical. Sendo destacado por Epaminondas Holzmann como: “eminente filólogo, o maior professor do 
idioma pátrio que a cidade jamais pôde conhecer” (HOLZMANN, 2004, p. 261).
24 Adolpho Paulista, erradicado para Ponta Grossa e conhecido como comerciante da cidade, também se 
destacava como anarquista nas horas vagas. Sendo “um dos sócios fundadores da Sociedade Operária 
Beneficente de Ponta Grossa, ele era conhecido pelo estilo revolucionário” (BUCHOLDZ, 2007, p. 48).
25   Dedicado a memória dos mártires de Chicago de 1886, é lançado o jornal Onze de Novembro com o 
lema "Paz e Trabalho, Igualdade e União". Sendo esse, um órgão do Círculo Socialista Leon Tolstoi, tinha 
como redator chefe o já conhecido Teixeira Coelho – personalidade do anarquismo do início do século XX. 
Segundo   Araújo   e   Cardoso:   ‘’Este   periódico   traz   o   manifesto   do   Partido   Socialista   brasileiro   e   as 
representações   dos   Estados   no   II   Congresso   Socialista   Brasileiro   realizado   em   São   Paulo,   em   maio. 
Apresenta uma lista de livros recomendados para o estudo do socialismo científico’’ (ARAÚJO; CARDOSO, 
op.   Cit.,   p.   47).   Estes   documentos   anexados   ao   jornal   e   o   tema   demonstram   que   desde   a   gênese   do 
movimento dos trabalhadores ponta­grossenses, esse se encontrava atado com uma rede do pensamento 
internacionalista dos trabalhadores e com as causas que iam desde o 1o. de Maio até a organização dos 
trabalhadores em sindicatos e círculos políticos. 
29

O jornal O Escalpello, orgão do Centro Livre­Pensador se apresenta enquanto 
referência  para  essa  época   como  um  movimento  que   se   representava   combativo  pelo 
menos em suas linhas ao conceber: ‘’O Centro Livre­Pensador, tendo de propagar o ideal 
do livre­pensamento, pede a todos os que são amigos da Razão, da Justiça e do Direito, 
um auxílio pecuniário para publicações’’ (O Escalpello, 29 de outubro de 1908 apud Op 
cit. p.72).
30

FIGURA   03   –   Fotografia   de   Luigi   “Gigi”   Damiani.   Disponível   em: 


<http://anarcoefemerides.balearweb.net/archives/20090518>. Acesso 23/06/2009

FIGURA 04: Time do Foot Operario Club Pontagrossense em 1926
FONTE: Casa da Memória Paraná
31

Em Ponta Grossa, além dos censos populacionais e as referências ao contingente 
de operários nas fábricas26 nesse período, constata­se o grande número e a diversificação 
de organizações e entidades operárias fundadas nesse período. Chaves em sua obra se 
destina a retratar o perfil do comércio e da indústria de Ponta Grossa na década de 1920, 
tratando   do   aparecimento   das   organizações   de   trabalhadores   formadas   no   início   do 
século, bem como do florescimento de um centro urbano e industrial na cidade27.
Além do já citado Centro Livre Pensador, em 1908 também era fundado o Centro 
Anti­Clerical.   Na   década   de   1910,   foram   fundadas   a   Sociedade   Operária   Beneficente 
(1911)   e   a   Sociedade   Beneficente   dos   Operários   (1913)   –   sendo   que   as   duas 
protagonizaram a Greve Geral de 1917 em Ponta Grossa.
A imagem do operário constituído em seu tempo­livre, entretanto, não apareceu 
nesse momento formada apenas pela militância. O lazer também passou a cumprir papel 
importante no cotidiano dos homens e mulheres das fábricas. A fundação do Foot Ball 
Clube   Operário   Pontagrossense   refletiu   o   momento   pós­fábrica,   o   momento   do   ócio, 
condicionado pelas quatro linhas e por um esporte operário em sua essência.
Uma   História   pode  ser   concebida   a   partir  do   preto  e  branco   das   fotografias   de 
época, mas também do uniforme alvi­negro do mais tarde apelidado “Fantasma da Vila”, 
isso por assombrar os times da capital paranaense.
A formação da classe operária estava estampada naquelas camisetas distribuídas 
após o serviço, na lida dos trilhos. Desciam os funcionários naqueles finais de tarde das 
oficinas para jogar bola.
Sua fusão com Club Atlético Ferroviário e a renomeação para Operário Ferroviário 
26  Para complementar essa contatação alguns autores se tornam necessários. Segundo Maria Aparecida 
Cezar   Gonçalves   e   Elisabete   Alves   Pinto   ‘’a   expansão   industrial   e   comercial   esteve   (...)   vinculada   aos 
imigrantes. Estes, após experiências vivenciadas em outros locais que lhes favoreceram ultrapassar a fase 
de ajustamento próprio do processo, alcançaram pouco a pouco posição considerável na estrutura sócio­
econômica   da   região’’.   Esse   recorte   serve   para   exemplificar   a   importância   não   só   dos   imigrantes,   mas 
também   dos   trabalhadores   urbanos   para   esse   momento   que   cidade   vivia   (GONÇALVES;   PINTO,   op. 
Cit.1983). Sobre o mesmo período, segundo Chaves, dezenas de empresas estabeleceram­se na cidade 
nas duas primeiras décadas do século XX. ‘’Entre as indústrias mais antigas que se instalaram na cidade, 
estão   aquelas   que   se   vinculavam   ao   beneficiamento   da   erva­mate   e   da   madeira,   produtos   típicos   da 
economia  paranaense  daquele  momento, e  que  acabaram  encontrando  em  Ponta  Grossa  um  ambiente 
favorável   para   o   seu   beneficiamento   e   comercialização’’   (CHAVES,   2006).   Ainda,   segundo   Chaves,   ele 
indica que ‘’dos 1.632 estabelecimentos industriais existentes em todos Estado, 75 estavam fixados   em 
Ponta Grossa, ou seja, 5,5% do total das indústrias registradas (…) Em 1934 Ponta Grossa contava com 
724 casas comerciais e com 253 indústrias’’ (op. Cit., 2001).
27  Niltonci Chaves em sua obra "Do Centro Commercio e Industria ao Selo Social", exalta a participação 
dos trabalhadores nesse processo a partir de eventos construídos com a participação popular de moradores 
locais e imigrantes (Op. Cit., 2006).
32

Esporte Clube, precisamente em 1933, demonstrou como a força do operário poderia ser 
aplicada além do funcionamento da linha do trem, além do sindicalismo, mas também no 
chute  de  uma  bola  de  capotão  entre  os  terrenos de  propriedade  da Rede  Ferroviária, 
localizada na vila Oficinas. Foi num desses locais que mais tarde se instalou o Estádio 
Germano Kruger (RIBEIRO JÚNIOR, 2004).
 
 1.4 A militância no papel: A pena de Hugo dos Reis

Segundo Epaminondas Holzmann, o nascimento da imprensa em Ponta Grossa 
apareceu representado por diversos jornais de vida efêmera como foi o caso de jornais 
como O Percursor, O Campos Gerais ­ nascidos no final do século XIX ­, O Comércio, O 
Pontagrossense (os dois de 1895), Futuro do Paraná (1899), Ponta Grossa (1903), Luz 
Essênia e O Pigmeu – ambos sem ano de lançamento definido (HOLZMANN, 2001. p. 
261). Registre­se que Teixeira Coelho, personalidade anarquista, foi o grande apoiador da 
maioria absoluta desses títulos, isso sem remeter aos também inúmeros jornais operários 
e   de   cunho   classista   anteriormente   mencionados   e   que,   infelizmente,   não   são   muito 
lembrados quando o assunto é imprensa nos Campos Gerais
27 de abril de 1907: é lembrado como o dia de lançamento do primeiro número do 
jornal O Progresso, que em 1913 se tornaria Diário dos Campos. Conhecido e tendo em 
seu corpo editos personalidades como Hugo dos Reis28, que é até hoje recapitulado como 
jornalista e por ações que o aproximaram dos trabalhadores locais – responsável inclusive 
por inúmeras notas em favor da classe da qual se definia como defensor.
Apoiador da campanha civilista de Rui Barbosa29, Hugo Reis, procurou favorecer a 
28 Hugo Mendes de Borja Reis nascido no Rio de Janeiro, chegou em Ponta Grossa em 1908. Reconhecido 
como socialista, anticlerical e espírita, é representado na obra de Epaminondas Holzmann com sua gravata 
borboleta e seu chapéu coco sobre seu cabelo encaracolado e seus bigodes, foi secretário do Diário dos 
Campos – que até 1913 era chamado de O Progresso ­  destacado como importante redator e apoiador do 
movimento operário nas páginas do jornal princesino. De escrita cívica, se auto­proclama como um defensor 
do Paraná e da cidade de Ponta Grossa – sendo que junto com o fundador do periódico Jacob Holzmann e 
demais apoiadores do jornal como Eliseu dos Campos Mello e João Dutra – se comprometeu em ampliar e 
difundir  o  programa   do  jornal  na  cidade,   sendo   que   esse   no   início   não   teve   apoio,   demorando   em  ser 
reconhecido por toda sociedade ponta­grossense (HOLZMANN, 2004). 
29  Segundo Wilson Cano: "Rui Barbosa, em sua campanha civilista de 1910 (...) dando ênfase à questão 
das baixas condições sociais e econômicas da vida da maior parte da população trabalhadora (...) tentara 
catalisar esses anseios (morais, éticos, sociais e políticos)" (CANO, 1998, p. 250). Embora, essa temática 
de defesa dos direitos civis parece a primeira vista ter sido o motivo que favoreceu Hugo Reis a apoiar Rui 
Barbosa,   é   indicado   ainda   que   esse   último   percorreu   o  país  todo  buscando   apoio   a   sua   campanha   se 
opondo a política do "café com leite". Além de sua imagem enquanto jornalista, diplomata e político muito se 
33

imagem da classe operária em muitas páginas do periódico. No final da primeira década 
do século XX, Reis publicou uma nota em que o povo era o protagonista principal da 
participação política em nível nacional e ligando suas ações a símbolos pátrios

Foram os vapores mínimos de uma lágrima mínimos de uma lágrima.
Fora a lágrima do Presidente.
A tormenta chama­se Povo.
Essa lágrima chama­se Liberdade.
Ponhamo­lo de pé, num bloco marmóreo, a cabeça reclinada sobre o peito,
onde palpitava, pela pátria e pelos patrícios,
másculo coração a dizer aos brasileiros:
O direito de revolução é um direito dos povos! 
(O Progresso apud HOLZMANN, op. Cit.)

Diversos autores que estudaram o personagem o indicam como sujeito polêmico 
para a sociedade da época. Holzmann ao considerar Hugo dos Reis um denunciador das 
elites   locais,   inclusive   descreveu   um   episódio   onde   "diversos   figurões   da   política 
dominante,   e   outras   pessoas   que   desfrutavam   de   alto   conceito   na   sociedade   local" 
juntamente   com   "uma   dezena   de   conhecidos  arruaceiros  com   passagem  pela   polícia" 
investiram golpes contra ele e o então redator­chefe do ainda chamado O Progresso em 
frente à sede do próprio jornal (op. Cit. p. 273). 
Apesar de serem reconhecidos de tal forma, nenhum nome aparece citado na 
obra de Holzmann, porém, esse dedica um parágrafo a outros membros da política local 
que   defenderam   Reis  e   Dutra   contra   aquele   atentado   contra   o   que   ele   chamou   de 
atentado à "imprensa livre". Entre eles, Holzmann cita o nome do conhecido industrial e 

assemelhar com o semblante de Reis num caráter de maior amplitude e de seu discurso ser sempre dirigido 
às classes sociais menos favorecidas.
34

político Henrique Thielen30 e do renomado político e paranista Brasil Pinheiro Machado 31. 
Homens   ligados   a   um   grupo   político   em   Ponta   Grossa   e   que   possuíam   influência   na 
cidade32.  
Essa  passagem do  texto  de   Holzmann,  colocando­o  próximo  a  personalidades 
políticas, marca mais uma discussão sobre o personagem Hugo dos Reis ­ considerado 
polêmico por sua postura e identificado como "socialista" nas linhas do jornal donde fora 
redator e secretário. 
O interessante é perceber que apesar de ser identificado com tal postura política e 
por posicionar­se nas páginas do jornal contra políticos locais, Hugo dos Reis possuía 
30  Segundo Cirlei Francisca Carneiro e Joselfredo Cercal de Oliveira Neto: "Henrique Thielen, natural  da 
Alemanha,   após   ter   morado   em   Curitiba   radicou­se   em   Ponta   Grossa   como   empresário   sócio   e, 
posteriormente, tornou­se proprietário da Fábrica Adriática de Cervejas" (CARNEIRO; OLIVEIRA, 2004, p. 
99). Alguns autores já consideraram a personalidade de Thielen por diversas características, considerando a 
injeção   de   capital   por   parte   desse   imigrante   alemão   na   região   e   sua   influência.   "Simbolicamente,   a 
Cervejaria   Adriática,   fundada   em 1893  por  Henrique  Thielen,   configurou­se   como   o   marco   inicial  desse 
processo (...). Contando com maquinarias e com técnicas trazidas por Thielen da Alemanha, a Cervejaria 
tornou­se referência entre os industriais locais, ao mesmo tempo em que seu proprietário" (CHAVES, 2006, 
P.  31).   Sua  personalidade   partiu   de   um  modelo   de   produção   moderno   para   aquela   época,   sendo   esse 
desenvolvido na maior indústria da cidade. A imagem de Thielen projetada em escalas superiores a "Fábrica 
de   Cervejas"   ­   como   era   chamada   em   sua   fachada   –   ficou   reconhecida   como   um   dos   exemplos   de 
imigrantes pelos méritos de seu sucesso enquanto empreendedor. Chaves ainda diagnostica um elemento 
relevante   ao   crescimento   da   indústria,   relacionando   isso   ao   tratamento   do   empresário   para   com   os 
empregados   da   fábrica:   "Em   1919,   Henrique   Thielen   transformou   a   Cervejaria   Adriática   em   Sociedade 
Anônima, dotando­a assim de um maior poder econômico e, conseqüentemente, garantindo a expansão de 
suas atividades. Quando isso ocorreu, a área física ocupada pela indústria era de 3.500 metros quadrados. 
Cerca   de   120   operários   trabalhavam   na   Adriática,   todos   protegidos   por   seguro   da   Companhia   Lloyd 
Industrial   Sul   Americano,   uma   raridade   para   aquela   época"   (op.   Cit).   Essa   particularidade   condiz   não 
exclusivamente com uma preocupação com os operários da fábrica, mas também com um olhar visionário 
da indústria. Pensando que qualquer debilidade física do operário cervejeiro acarretaria num tempo contado 
de prejuízo para a fábrica, um auxílio a qualquer tipo de dano que condicionaria na paralisação das funções 
do indivíduo na fábrica se transforma, nesse caso, numa circunstância de seguro para a produção da fábrica 
e não simples e unicamente uma forma de proporcionar segurança ao proletariado da empresa.
31 Segundo o Dicionário Histórico e Geográfico dos Campos Gerais, Brasil Pinheiro Machado: “nasceu em 
Ponta Grossa (PR), em 1907. Fez seus estudos iniciais na cidade natal e, posteriormente, no Liceu dos 
Padres   Salesianos,   em   São   Paulo.   Em   1926,   ingressou   na   Faculdade   de   Direito   do   Rio   de   Janeiro, 
concluindo o curso de Ciências Jurídicas e Sociais em 1930. Iniciou­se no magistério em Ponta Grossa, 
como professor e diretor do então Ginásio Regente Feijó. Afastou­se da profissão para exercer funções 
administrativas,   legislativas   e   jurídicas.   Foi   Prefeito   nomeado   em   Ponta   Grossa,   Deputado   Estadual, 
Procurador Geral do Estado e Interventor do Paraná. Retomou sua carreira de magistério como Professor 
de História do Brasil, na Universidade Federal do Paraná, onde também exerceu o cargo de vice­reitor. Na 
juventude, pertenceu ao movimento modernista inicial, em especial ao Grupo Antropofágico. Sua poesia 
data dessa época e revela bom gosto e equilíbrio, sem os exageros experimentais que caracterizaram a 
fase, adquirindo, em conseqüência, sempre atualidade. Não deu prosseguimento a sua atividade poética, 
mas desenvolveu trabalho de cunho literário na revista Joaquim. Faleceu em 1997 (UEPG, 2009). 
32  Nesse caso, apesar de não ser objeto desse estudo, a pergunta que cabe é: Considerando que Hugo 
Reis possuía o apoio de políticos e industriais de Ponta Grossa, essa referida elite não seria simplesmente 
mais um grupo político que se contrapunha a ele e que o apoiava? Além do mais, Hugo Reis pode ser 
identificado por uma postura política que pode ser considerada por alguns referenciais como contraditória 
com sua linha conciliadora das classes sociais.
35

ligações bem estabelecidas com membros do empresariado. Interessante aí é perceber 
que Hugo Reis apesar de ser indicado em outras leituras como um "socialista contestador 
das   elites   locais",   ele   acaba   aparecendo   apoiado   por   outros   membros   da   classe 
empresarial e que pertenciam a um grupo político específico. 
A figura de Reis, entretanto, não se apresenta simplesmente sobre as polêmicas 
das folhas dos jornais. O evento de maior aparecimento de Reis, não só como redator do 
Diário, mas também como o militante que foi durante a Greve Geral de 1917.

 1.5 Entre o subversivo e o conciliatório: Ponta Grossa e a Greve Geral de 1917

A   categoria   “trabalho”   se   apresenta   como   um   elemento   importante   para   o 


desenvolvimento da sociedade. Sempre se apresentaram pontos de negociação e conflito 
entre diversos grupos interessados na divisão social do trabalho e na produção e difusão 
dos bens de consumo. 
Entre   trabalhadores   e   patrões,   podemos   considerar   as   relações   de   capital­
trabalho construídas culturalmente, mas a partir de interesses distintos. Enquanto para o 
patrão a alta produtividade deve condizer com compra de mão de obra barata, para o 
trabalhador a mínima produção deve ser relativa ao encarecimento de sua mão de obra. A 
ambigüidade gerada é precedente e motivadora de acordos entre ambas as partes – o 
que vem a gerar um "jogo" regido por um conjunto de regras pró­estabelecidas33.
Se esse embate se encontra no cotidiano de trabalho, pensemos então a greve. O 
ano de 1917 elaborou todo um cenário de luta de classes no Brasil. Alguns pesquisadores 
ainda   descrevem   aquele   acontecimento   como   a   materialização   do   conflito   entre   uma 
classe   dominante   e   o   proletariado34.   O   espetáculo   incitado   entre   trabalhadores   e 
33  Segundo   Eric   Hobsbawm:  "a   questão   era   que   nem   os   patrões   nem   os   trabalhadores   reconheciam 
completamente as regras do jogo" então cabia a ambos estabelecer tais regras (HOBSBAWM, 2000, p. 
403).   O   jogo   se   colocava   sobre   a   mesa,   mas   essas   regras   eram   definidas   pelos   dois   lados   da   mesa 
culturalmente. O cultural, aliás, é encarado de forma distinta para o autor, o costume também é regulador do 
mercado e das relações de produção.
34  Tomporoski faz uma consideração interessante sobre o trajeto de greves nesse período: "Os anos de 
1917   a   1920   costumam   ser   identificados   como   o   período   de   maior   ascensão   do   movimento   operário 
brasileiro,  especialmente  no  eixo  Rio   de  Janeiro   –  São  Paulo.  No  entanto,  as  greves  e  enfrentamentos 
deflagrados nesses anos ocorreram concomitantemente em diferentes regiões do país e, muitas vezes, com 
uma relação significativa entre movimentos geograficamente afastados" (TOMPOROSKI, op. Cit.). Diversos 
autores já citados, complementam tal discussão ao afirmar que nesses anos se concentram um grande 
desenvolvimento   por   parte   da   indústria   em   diversos   locais   onde   se   sediavam   grandes   concentrações 
urbanas e   industriais  (FAUSTO,   1976;   CARONE,   1978;   HARDMAN;   LEONARDI,   1991;  CUBERO,  2004). 
36

empresários foi marcado por reivindicações de melhores salários e melhores condições 
de trabalho (HARDMAN; LEONARDI, op. Cit.). 
Em   Ponta  Grossa, as manifestações foram marcadas  pela  organização  de  um 
comitê de Greve. Sendo que o proletariado regional tinha como principais porta­vozes a 
Sociedade Operária Beneficente e a Sociedade Beneficente dos Operários.

FIGURA   05   –   Greve   Geral   de   1917   em   Porto   Alegre­RS   <Disponível   em: 


http://www.chekov.org/anarcho/index.php>

Participante da greve de 1917, o jornalista Hugo dos Reis, sobretudo, é conhecido 
pelos autores já discutidos como personagem conciliador das classes sociais em Ponta 
Grossa.   Como   intelectual,   apoiando   ambas   as   instâncias   de   organização   –   tanto   a 
fundação   do   Centro   Commercio   e   Industria   quanto   a   criação   da   Sociedade   Operária 
Beneficente, da qual fora presidente honorário inclusive durante o período da greve. 
Durante esse evento, inúmeras notas são escritas no jornal Diário dos Campos 
favorecendo a imagem do coronel Brasílio Ribas, descrito como “advogado e (...) paladino 
dos sacratíssimos direitos da família operária”. O jornal ainda descreve o estancieiro como 
recebido   na   reunião   do   operariado   com   "os   mais   estrondosos   aplausos"   (Diário   dos 
Campos, 22/07/1917). 

Trazendo essa questão para Ponta Grossa, percebemos esse mesmo fenômeno se encontra na pauta de 
alguns pesquisadores que estudaram a época, sendo que esses consideram tal momento pela ocupação do 
quadro   urbano   da   cidade   pelo   comércio   e   pela   indústria   (DITZEL;   SAHR,   2001;   CHAVES,   2001; 
MONATIRSKY, 2006).
37

Essa   passagem   intensifica   a   discussão   em   torno   do   papel   que   Brasílio   Ribas 


compunha no jogo político da cidade naquele instante. Após a eleição de 1916, houve o 
que   foi   chamado   de  "dualidade   de   prefeitos".   Foram   eleitos   o   médico   e   empresário 
Abrahão Glasser e Brasílio Ribas para o executivo municipal, mas o governo estadual 
nomeou esse último até novas eleições.
Em março de 1917,  elege­se Glasser – Ribas acaba participando das reuniões da 
comissão de greve como "representante da Prefeitura" (Presidente da Câmara) mostrando 
que tal dualidade persistiu na execução do poder municipal. Tal dualidade persiste não 
apenas na ocupação dos cargos administrativos locais, mas também na construção da 
imagem dos dois políticos: Adão Glasser, médico, se destaca por sua feição urbana e 
Brasílio Ribas, coronel e estancieiro, se afigura numa face rural.
O primeiro registro da manifestação dos trabalhadores acontece em 21 de julho 
de 1917, quando o Diário dos Campos lança nota das reivindicações dos trabalhadores 
princesinos, sendo que essas também foram entregues ao então prefeito:

O que desejamos é o seguinte
Jornada   de   8   horas.   Abolição   completa   de   multas.   Impedimento   de   crianças 
menores de 14 anos no trabalho. Impedimento de moças de menos de 21 anos. 
Os que ganharem por dia terão a tabela mínima de 5$000 os poe horas 800 rs. 
Abolição dos trabalhos noturnos exceptuando se os necessários trabalhando de 6 
horas. O patrão não pode dispensar os empregados sem aviso prévio de 18 dias, 
dando em cada dia 1 hora de folga para procurar trabalho. A responsabilidade dos 
patrões   nos   incidentes.   Creação   de   um   jardim   de   infância   e   proibição   aos 
industriais de terem carroças para não tirar ganho dos carroceiros. A extinção das 
caixas beneficentes obrigatórias como as de bond e estrada de ferro. A redução 
dos   impostos   para   os   operários   em   geral.   As   8   horas   de   trabalho   do 
compreendidas   da   7   as   11,   tendo   duas   horas,   tendo   duas   horas   de   descanço 
depois   de   1   as   5.   Redução   do   preço   dos   gêneros   alimentícios.   Exigir   a   baixa 
imediata da farinha de trigo e assucar. Diminuição dos preços de aluguel de casa. 
Pagamento   dos   salários   5   dias   após   o   vencimento   do   mês.   Exigir   do   governo 
fiscalização   dos  gêneros   alimentícios.   Abolição   dos  trabalhos   de   peça.   Higiene 
nas fabricas. Lei de reversão dos trusts. Leis para a criação do montepio e seguro 
operário;   contra   o   álcool   e   a   prostituição.   A   Sociedade   acha­se   em   sessão 
permanente.
A COMISSÃO
(op. Cit. 21 de julho de 1917)

Niltonci Chaves, ao falar da greve, registra os ferroviários como a categoria que 
liderou o movimento grevista. O calendário de manifestações aparece como integrado ao 
cotidiano de greves do país todo, considerando que o início da greve se ocasiona um dia 
antes da publicação das reivindicações dos ferroviários (20 de julho de 1917) quando 148 
38

operários35 paralisaram os trens da ferrovia alegando a questão salarial e o tratamento do 
chefe dos operários, o encarregado Evaldo Kruger.
As   edições   do   Diário   dos   Campos   detalharam   a   greve   diariamente   em   suas 
páginas, entretanto não se registra os trabalhadores da ferrovia como oradores principais 
da Sociedade Operária Beneficente36 – sendo que figuras como Hugo dos Reis, Brasílio 
Ribas, Capitão Paschoalino Provesiero, Dr. Flavio Carvalho Guimarães, Tenente Alberto 
Manhães Flores são registradas a todo momento nas páginas do periódico.
Complementando as ações da entidade, Chaves destaca essa como "controlada 
por   segmentos   da   elite   local   bem   como   por   pessoas   ligadas   a   doutrina   espírita’’ 
(CHAVES, op. Cit., p. 158). O comprometimento dos diretores da Sociedade com certos 
grupos políticos da época era tamanho que Chaves chega a considerar a greve como de 
caráter   extremamente   ‘’moralista’’   e   de   manutenção   da   ordem   vigente,   a   postura 
desenvolvida   pela   entidade   inclusive   é   compreendida   como   contraditória   já   que 
contrapunha   o   Estado   e   os   capitalistas   porém   afirmando   a   defesa   à   ordem   e   à 
propriedade.
Ao falar das atas ele complementa: "Elas revelam todas as ações cotidianas do 
movimento, deixando transparecer o choque ideológico entre seus líderes, a influência de 
setores   patronais sobre  os rumos da  greve  e   os  desdobramentos das ações  em  todo 
Paraná" (CHAVES, 2006, p. 70). Esse choque foi relevante para demonstrar que apesar 
do controle social dos setores patronais, a greve possuía líderes que se contrapunham à 
ordem vigente.
Essa influência dos setores patronais sobre a greve foi de tal forma presente que 
o   autor   chega   a   destacar   a   liderança   e   a   veiculação   do   movimento   na   mídia   como 

35  Apesar   desses   números   serem   apresentados   especificamente   para   a   cidade   de   Ponta   Grossa,   foi 
estimado   que   cerca   de   1000   trabalhadores   participaram   na   greve   no   país   todo.   As   manifestações   e 
paralisações   atingiram   as   principais   cidades   do   Brasil.   O   caso   específico   dos   148   ferroviários   que 
paralisaram a estrada de ferro serve para reafirmar algo constatado por diversos autores, os ferroviários da 
São  Paulo­Rio  Grande  foram responsáveis  por diversos  estopins que representaram seu  inconformismo 
para com as condições de trabalho daquela época. Ponta Grossa como terminal dessa linha­férrea e por 
possuir um número considerável de ferroviários, possuiu posição privilegiada na Greve Geral de 1917.  
36 Apesar de constatar os ferroviários enquanto uma das primeiras categorias a se organizarem no Brasil a 
partir   de   grandes   movimento   grevistas,   Claudia   Monteiro   em   sua   dissertação   "Fora   dos   Trilhos":   As 
experiências da militância comunista na Rede de Viação Paraná­Santa Catarina (1934­1945) considera que 
"a união a outras categorias e a adesão a movimentos grevistas nacionais eram também motivo para a 
deflagração de greves. As duas maiores ocorridas no Paraná, no período da Primeira República, em 1917 e 
1919, foram protagonizadas pelos ferroviários, mas também envolviam outras categorias, como padeiros, 
telefonistas, tipógrafos e operários das fábricas" (MONTEIRO, 2007, p. 36).
39

‘’paternalista’"37. É possível se produzir uma sintonia entre todos os movimentos forjados 
na primeira década do século XX e os movimentos que significaram a Greve Geral de 
1917   em   Ponta   Grossa.   Os   movimentos   socialistas,   anarquistas,   anti­clericais   e   de 
diversas   tendências   também   consideradas   ‘’perniciosas’’   e   ‘’subversivas’’   à   sua   época 
parecem ter produzido a essência da reação de controle aos próprios movimentos38.
Apesar   de   tal   controle   social   e   no   que   tange   o   cenário   de   lutas   sociais   pela 
participação na greve, o que se evidencia nos operários ponta­grossenses foi que eles 
foram construindo sua própria experiência enquanto parte de um movimento de massas. 
Acontecimentos como esse são um indicativo que demonstra que os trabalhadores não só 
criavam  e  desempenhavam   um   papel   no   interior  da   fábrica,   mas  também  procuravam 
construir sua imagem política nas ruas e perante todo o semblante da sociedade.

1.6. "A União faz a Força": a experiência do proletariado na década de 1920.

No ano final da década de 1910, estoura outra greve. Puxada pelos ferroviários 
acaba tendo adesão de trabalhadores de vários setores da indústria local. Um manifesto, 
divulgado no jornal Diário dos Campos, em nome da Comissão de Grevistas atentava os 
trabalhadores para não se intimidarem com ameaças provindas de seus superiores ou de 
iludirem­se   com   "falsas   promessas".   Segundo   Chaves:   ‘’Esse   alerta   demonstra   que   o 
movimento de 1917 serviu para dar uma certa experiência aos operários’’ (op. Cit. p. 160). 

37 Quando Michelle Perrot  trabalha o paternalismo na administração industrial ela diz que esse possui três 
traços principais que o caracterizam: ‘’1) a presença física do patrão nos locais de produção, preconizada 
pelos primeiros industrialistas (...) e visível no projeto de muitas fábricas de primeira geração (...). 2) As 
relações sociais do trabalho são concebidas conforme o modelo familiar: na linguagem da empresa familiar 
o patrão é o pai, e os operários os filhos, na concepção do emprego que o patrão deve assegurar aos 
operários, na prática cotidiana do patronato (...). 3) Os trabalhadores aceitam essa forma de integração e 
até a reivindicam. Eles têm a linguagem e o espírito da ‘casa’; têm orgulho em pertencer à empresa com a 
qual se identificam’’ (PERROT, 1988). Nesse sentido, E.P. Thompson nos mostra que o paternalismo pode 
ser ‘’um componente profundamente importante, não só da ideologia, mas da real mediação institucional 
das relações sociais’’ (THOMPSON, 1988. pág. 32).
38 Adolpho Paulista, identificado como um importante personagem da militância de uma época é conhecido 
por   também   participar   da   Greve   Geral   de   1917,   especialmente   onde,   em   uma   manifestação   na   Praça 
Floriano Peixoto, tentou erguer uma bandeira que lembrava a simbologia anarquista – da qual era seguidor. 
Contido   pela   polícia   e   inclusive   por   membros   do   movimento   grevista,   chegando   até   a   ser   expulso   do 
conselho   de   greve   com   a   justificativa   de   que   aquela   era   uma   "ação   pacífica"   e   que   "desordens"   e 
"distúrbios" comprometeriam o "sagrado interesse do operariado ponta­grossense" (BUCHOLDZ, op. Cit. p. 
49).   A   ata   da   Sociedade   Operária   Beneficente   justifica   tal   atitude   explicitando   que   a   ação   de   Adolpho 
Paulista transformaria "uma greve pacífica e ordeira em uma franca revolução ou movimento subversivo" 
(Sociedade   Operária   Beneficente,   20   de   julho   de   1917).   O   que   também   chama   a   atenção   é   que   a 
intervenção da polícia que parecia escoltar e controlar a direção dada a manifestação.
40

Entendemos  nas  palavras  do   autor  que   esse   alerta   parecia   uma   tentativa  de   negar   a 
influência dos patrões no movimento grevista.
O   próprio   Diário   dos   Campos   muito   serviu   como   veículo   de   informação   aos 
operários princesinos. Foram naquelas páginas que se encenaram diversos artigos e até 
debates   tematizando   o   operário   ponta­grossense.   Entre   essas   notas   estavam   postas 
algumas   linhas   de   J.   Barbosa,   um   pseudônimo   de   algum   autor   de   vários   artigos 
publicados   no   Diário,   onde   se   auto­proclamava   "defensor   dos   oprimidos"   e   procurava 
defender a classe trabalhadora das "garras da miséria". 
Ainda no ano de 1920, esse autor publica uma árdua nota em que referendava 
sua defesa aos operários, traçando em suas linhas um grito que para ele parecia estar 
interrompido na garganta dos operários do país todo

Se   bem  que   reconheça   serem   infrutíferas  todas   as  minhas  palavras  nas  quais 
procuro seja melhorada a situação da classe pobre, não deixarei de continuar a 
algumas   linhas   para   satisfazer   não   somente   aqueles   que   me   queiram 
compreender  como  também  julgo  cumprir  uma  missão,  se  é  que  no  Brasil  um 
operário pode manifestar o seu modo de pensar (op. Cit., 25/08/1920).

A República Velha, rompida pela instabilidade econômica e social em todo país 
era representada de tal forma em diversas esferas da sociedade que partilhavam de um 
descontentamento. Diversos são os eventos em meio à década de 1920 que explicitam tal 
situação, como foi o caso da Revolta do Forte de Copacabana (1922), a Revolução de 
Isidoro (1924) e a Coluna Prestes (1926).
A   organização   dos   movimentos   sociais,   dos   trabalhadores   em   sindicatos, 
associações e outros coletivos aparecem também para alguns autores como reflexo de 
uma discordância com o sistema político vigente. Nicolau Sevcenko considera o período 
que percorre do início da República Velha até o final da década de 1920 como um período 
de   intensas   mudanças  –   caracterizadas   por   uma   revolução   científica­tecnológica, 
entretanto, partilha da idéia de que a adaptação de princípios republicanos estrangeiros e 
de ideais que promulgavam um "governo do povo" se manifestou num estado truculento 
com a própria população do Brasil (SEVCENKO, 1998).
Para Wilson Cano, essa vicissitude de ocorrências não se manifestou apenas em 
segmentos econômicos da sociedade, mas também nas diversas transformações sociais 
visíveis   nessa   época.   Sem   permear,   porém,   qualquer   dicotomia   entre   base­
41

superestrutura,   o   autor   condiciona   tais   transformações   em   diversos   indicativos   da 


existência   social   e   em   eventos   como   greves,   movimentos   artísticos,   civis,   patronais   e 
militares, criação de partidos políticos e organizações trabalhistas (CANO, 1998).
Em Ponta Grossa, os trabalhadores continuaram a se organizar em suas fileiras ­ 
sendo até convocados a atingir um certo nível de organização. No 1º de Maio de 1927, o 
intelectual e jornalista Hugo Reis destinou sua fala aos operários: ‘’Se o operariado ponta­
grossense quiser alcançar algum progresso na vida social, é mister que se una, porque 
governo algum dará ouvidos a uma classe que não tem organização’’ (Revista Operária, 6 
de abril de 1929 apud ARAÚJO; CARDOSO, op. Cit.).
As   palavras   de   Hugo   Reis   pareciam   direcionar   o   movimento   operário   em 
caminhos   pautados   na   justiça   social   e   na   igualdade   entre   mulheres   e   homens.   Entre 
essas   trajetórias,   suas   palavras   reforçavam   a   organização   e   a   união   da   classe 
trabalhadora em torno de suas próprias causas.
A   Revista   Operária,   de   1929,   segue   essa   linha   na   tentativa   de   politizar   os 
operários ponta­grossenses. Sob o lema  ‘’A União faz a  força’’, o jornal convocava  os 
trabalhadores   de   Ponta   Grossa   a   diversas   reuniões,   palestras,   assembléias   e   demais 
eventos   promulgando   a   égide   de   que   somente   unidos   os   operários   teriam   suas 
reivindicações atendidas (op. Cit.).
Silvia Araújo e Alcina Cardoso descrevem o jornal que possuía a direção de José 
Deslandes de Souza39, Adejamiro Cardon40 assim

[possuía] fotos, o primeiro número desta revista é uma homenagem aos operários 
e   intelectuais  que   trabalharam  para   a   classe   como   Hugo   Reis,  José  Cadilhe   e 
Alberto Lopes. Anuncia e prepara a fundação do Centro Operário Pontagrossense 
(ARAÚJO E CARDOSO, 1992).

39 José Deslandes de Sousa, conhecido nas atas como membro e redator do Diário dos Campos na época, 
foi aclamado como primeiro presidente do Centro Operário Cívico e Beneficente no dia 28 de abril de 1929. 
Por carência de fontes, nenhum dos acervos particulares e públicos de Ponta Grossa possui as edições dos 
anos de 1924 a 1932.  Apesar da homenagem ocasionada nas páginas da Revista Operária, as atas do 
Centro não demonstram qualquer ligação de Deslandes de Sousa com o jornalista paulista Hugo dos Reis. 
Embora seja importante diagnosticar que a herança da participação de intelectuais e jornalistas aparece 
mantida na trajetória do movimento de trabalhadores ponta­grossenses.
40 Adejamiro Cardon, aclamado como primeiro Orador do Centro, está registrado no livro de inscrições de 
sócios   como   trabalhador   da   Livraria   Modelo,   sendo   que   há   probabilidade   de   nessa   condição   ter   sido 
proprietário do estabelecimento. Seu nível de intelectualidade pode ser explicitado nas atas em discursos 
fervorosos direcionados a pátria e aos direitos do operário, sendo que também publicara artigos na Coluna 
Operária do Diário dos Campos.
42

A Revista serviu para anunciar uma nova etapa do movimento operário em Ponta 
Grossa, essa proclamação serviu para fundamentar a fundação de uma nova entidade 
que agrupasse os trabalhadores e suas trajetórias. A união era a palavra­chave para a 
fundação   dessa   entidade   que   prometia,   sob   o   júbilo   dos   operários,   a   organização   da 
classe em torno do que eles já chamavam de Centro Operário.
43

CAPÍTULO II

“HOMENS DO TRABALHO”: A REPRESENTAÇÃO DO OPERÁRIO NAS ATAS DO 
CENTRO OPERÁRIO, O DISCURSO E AS RELAÇÕES SOCIAIS.

"homens úteis à Família, à Pátria e


sociedade em que vivem"
(Professor Roberto Mongruel da Escola
Operária)41

Solenidade   de   inscrição   dos   membros   do   Centro   Operário   e   aclamação   de   sua 


primeira   Diretoria,   28   de   Abril   de   1929:  ‘’Data   tão   cara   para   o   homem   do   trabalho 
[inclusive] para os operários de Ponta Grossa, mais grata ainda, pois que o Centro de sua 
classe, iria ter naquele dia sua instalação oficial’’, era assim referido o dia 1o. De Maio 
pelo secretário Affonso Braune. O punho do secretário da diretoria escrevia e compunha 
um discurso marcando a data de fundação do Centro Operário para uma grande festa do 
dia do trabalho. 
Essa   citação   é   mais   um   recorte   do   que   sobrou   daqueles   momentos,   reuniões, 
solenidades e assembléias compostas por trabalhadores e membros da sociedade civil ­ 
as atas revelam o cotidiano operário. Todas registradas e aprovadas pelos membros da 
Diretoria   e   do   Conselho   Fiscal42,   isso   num   primeiro   instante   pode   definir   o   peso   de 
participação dos operários em um tipo de organização que carregava consigo um nome e 
que produzia um discurso que era direcionado ao amparo do próprio operário.

41  Nas palavras do professor Roberto Mongruel, os operários somente seriam úteis a nação e às suas 
famílias por meio da educação. Seu discurso sobretudo se pautava dentro da assembléia que tratava da 
fundação  da  Escola   Noturna  dos  Operários.   Essa  instituição  fazia   parte  das  atividades  beneficentes  do 
Centro e seu prédio seria doado pela Prefeitura Municipal e instituída pelo Governo do Estado. O horário 
noturno da Escola não interferia  no horário da jornada de trabalho de grande parte dos operários ponta­
grossenses. (C.O.C.B. Ata 04).
42 A primeira diretoria foi formado por: José Deslandes de Souza, Presidente; Francisco Vitalino Barboza, 
Vice­presidente; Affonso Braune, 1º. Secretário; Armando Max Vosgrau, 2º. Secretário; João Ferigotti, 1º. 
Tesoureiro; Alcides Fernandes, 2º. Tesoureiro; Adejamiro Cardon, 1º. Orador; Máximo Leopoldo Arruez, 2º. 
Orador. Sendo o conselho fiscal formado por Albino Wiecheteck, Presidente; João Perantunes, Secretário; 
Manoel Matheus da Costa, Annibal da Silva Assumpção, Francisco de Souza Nunes, João Schmidt Filho, 
Augusto   Cunha,   Franscisco   Pavalech,   Paulo   Ferreita   do   Valle,   Bernardo   Holck,   David   Cardon   e   João 
Quadros.
44

FIGURA 06 – Fotografia digitalizada da Ata No. 12 do Centro Operário 
FONTE: C.O.C.B. Atas de 1929.
45

Dentro do recorte previsto pela pesquisa se totalizam 24 atas disponíveis na Casa da 
Memória   Paraná.   Essas   atas,   antes   encontradas   na   antiga   sede   do   Centro   Operário, 
passaram por um processo de higienização e catalogação. Entre o conteúdo das fontes, a 
coletividade   aparece   provida   de   práticas   situadas   e   previstas   nos   eventos   que 
proporcionaram sentido a existência de um Centro Operário.
Para além de identificar a existência desses documentos, uma análise apurada não 
satisfaz e não propõe apenas entender a posição que essas atas cumpriam dentro da 
entidade. Esse sim, seria um trabalho mais rápido, mais reduzido e mais fácil de fazer. 
Entretanto,   em   um   outro   caso,   não   se   torna   suficiente   apenas   transcrever   o   sentido 
político e social que fora disposto ao cotidiano do movimento operário, mas sim, resgatar 
no registro dos autos como era constituído aquele movimento.
O intuito do trabalho, nesse caso, é ligar o texto das atas com o contexto no qual foram 
produzidas. Perceber as atas como indicativos de sociabilidade,   sendo essa articulada 
pelos membros do Centro para influenciar as atividades coletivas da associação43. Antes 
do ponto final, os questionamentos colocados e suas resoluções não destinam a pesquisa 
a um meio caminho, ou seja, antes de apenas constatar a existência de fenômenos e 
problemas se torna necessário e interessante demonstrar como esses foram construídos 
no enredo do Centro Operário.
É preciso constatar como tais atividades influenciam no sentido político e social que foi 
proporcionado ao Centro Operário de forma a não deslocarmos a pesquisa a um meio 
caminho, mas sim, procurando resolver demais questionamentos antes do ponto final.
Percebendo   que   o   Centro   Operário   Cívico   e   Beneficente   (C.O.C.B)   se   insere   num 
contexto de profunda transformação na cidade Ponta Grossa e perante um conjunto de 
mudanças expressas nas relações de produção em todo Brasil. O trabalho aqui proposto 
procura  perceber que conjuntura e  condições o movimento operário criou  e encontrou 
dentro dessa associação. A produção e o consumo do discurso pelos próprios membros 
da associação e de sua relação com a sociedade ponta­grossense são indicativos para 
demonstrar   o   jogo   de   relações   onde   o   Centro   se   coloca.   A   forma   como   a   figura   do 
operário é construída em seu interior se torna mais um indicativo do sentido político e 

43  Segundo  Norbert  Elias e  Eric Dunning,  a sociabilidade  se  aplica  além  do  trabalho.  Pensemos essa 
atividade num espaço como um bar qualquer, onde a convergência de diversos trabalhadores é ocasionada 
por   aquilo   que   eles   têm   em   comum.  Os   dois   pesquisadores   chamam   esse   momento   de   ''tempo   livre'', 
apresentando características de lazer e recreação (ELIAS; DUNNING. 1992).
46

social dado a esse movimento44.
No   interior   das   atas,   além   das   atividades   recreativas   e   de   lazer,   percebemos   os 
chamados   "assuntos   políticos".   Tratados   de   tal   forma   também   no   estatuto   do   Centro, 
esses aparecem omitidos e até censurados pragmaticamente nos eventos da entidade.
Em torno disso, e contrapondo tais temas, as atas constroem em seu interior uma 
representação   da   imagem   do   operário   de   forma   cívica   e   solidária   –   algo   que   parece 
reproduzir o nome da associação. Nesse sentido, o apenas constatar isso é colocar a 
pesquisa em um meio caminho, indicando a existência do problema. A pesquisa delimita­
se a partir do objetivo de entender como o fenômeno foi gerado.
Percebendo os diálogos no interior da fonte, nessas oportunidades, que percebemos a 
evidência de uma série de personagens do Centro Operário. O discurso de cada um deles 
aparece nas atas de forma desconexa em alguns momentos, todavia, descobrindo quem 
são   esses   membros   é   que   percebemos   donde   surgem   seus   posicionamentos.   Os 
assuntos políticos são fruto de conflito dentro das atas, e apesar de existir a tentativa de 
reprimi­los, esses não terem deixado de existir, sendo que podem significar o que aqueles 
indivíduos entendiam por movimento operário.
A   maioria   das   atas   verificadas,   no   período   estudado,   trata   de   questões   cotidianas 
como assuntos financeiros e jurídicos, manutenção da sede e administração dos fundos, 
agradecimentos e condecorações a membros do Centro, convocação a jogos de futebol e 
demais eventos da sociedade ponta­grossense, entre outros. Algo constatado por outros 
autores que escreveram um pouco sobre a entidade. 
Niltonci   Chaves indica  ainda  o  Centro  Operário   e  a  União  Protetora  dos  Operários 
(ambas fundadas em 1929) como possuidoras de uma tendência a “despolitização”45  e 
44 Essa representação do trabalhador dentro de um coletivo, portanto, no seu universo de classe, pode ser 
vista como expressa também a partir de uma imagem construída no interior do discurso de uma entidade 
que   postula   reivindicar   para   si   essa   autoridade   de   representação.   As   referendam   o   trabalhador   como 
representação de um discurso, indicando esse enquanto produto de uma imagem produzida na caneta que 
tocava os papéis dos manuscritos oficiais do Centro Operário. Se imagem é discurso, discurso é imagem, 
ou pelo menos é uma forma de produzir essa representação na cabeça de cada associado ali presente 
(BURKE, 2004). No caso do C.O.C.B, percebe­se a colocação do trabalhador pelo seu papel social, como 
um   elemento   necessário   de   força   na   sociedade,   repercutindo   esse   papel   a   uma   respectiva   visão   de 
progresso dessa. Essa perspectiva do conceito de representação pode ser distribuída para outros símbolos, 
como foi o caso da criação do seu logo – onde esse aparece preenchido por um globo circulado por três 
homens possuintes de um físico robusto remetente a força e disposição.
45  Segundo Georges Balandier, podemos entender política como a ação dos seres na realidade social. A 
noção de status define o papel social de cada ser humano na sociedade, “define a posição pessoal de um 
indivíduo em relação aos outros no interior de um grupo; permite apreciar a distância social existente entre 
as pessoas, porque rege as hierarquias de indivíduos” (BALANDIER, 1969, p. 83). Nesse sentido, a ligação 
47

que suas atas indicam uma rejeição a movimentos partidários, principalmente em relação 
ao comunismo (CHAVES, 2006, p. 82).
O   objetivo   dessa   pesquisa   não   é   desmentir   nem   reafirmar   isso,   mas   averiguar   na 
intimidade das atas como ambos os assuntos – cotidianos e políticos ­   são tratados. 
Nesse caso, uma metodologia é proposta.
Apesar de o conteúdo ser o objeto dessa pesquisa, corresponde também proporcionar 
tonalidade   a   algumas   informações   importantes   para   contemplarmos   as   finalidades   do 
trabalho. O acervo do Centro Operário, além das atas e do seu estatuto, possui um Livro 
de Inscrições de Sócios que registra a participação de 1148 membros na entidade assim 
como o seu Livro de Mensalidades que detalha informações como endereço residencial 
de  uma  parte   considerável  dos membros e  onde   cada  um deles trabalhava  (C.O.C.B. 
Livro de Inscrições de Sócios; Livro de Mensalidades [1929]; Livro Caixa [1929]). 
Definitivamente, a presença do Centro Operário na sociedade ponta­grossense não 
aparecia   como   algo   apenas   referenciado   pela   leitura   das   discussões   das   atas,   sua 
importância no seio da sociedade ponta­grossense se colocava como principal entidade 
de representação dos trabalhadores (C.O.C.B, Ata 24). A evidência do seu número de 
participantes   em   contrapartida   aos   números   da   população   ponta­grossense46, 
compromete o trabalho em considerar a importância dessa entidade naquele momento. 
Perante toda uma dinâmica social, não se coloca outra hipótese do que ligar o texto das 
atas ao contexto ocasionado nas relações sociais de Ponta Grossa.
Algo que contribui para essa constatação e que favorece maiores indagações sobre a 
forma de sobrevivência das entidades operárias coloca­se na situação de que o Centro 
Operário foi a única entidade operária da primeira metade do novecentos que sobreviveu 

entre instituições e autonomias de indivíduos se torna definida pelo uso de símbolos por cada um deles. 
Segundo   Pierre   Bourdieu,   os   símbolos   são   definidores   do   constrangimento,   nesse   caso,   o   uso   deles 
determina a ação dos indivíduos, entre uns poderem fazer e outros se sentirem impotentes nas relações de 
poder. “Nada a não ser esta forma de abstenção activa, a qual tem raízes na revolta contra uma dupla 
impotência, impotência perante a política e todas as ações puramente seriais que ela propõe, impotência 
perante os aparelhos políticos: o apolitismo” (BOURDIEU, 1998, p. 169). Ainda assim, a análise das atas 
não faz perceber a ação dos membros como meramente “despolitizadas”, mas sim, a transferência de poder 
de alguns indivíduos para outros. A negação do uso político aos membros da entidade se justifica no uso de 
um artigo do estatuto, mas isso pode ser percebido no sentido de transferir o mando político da maioria de 
membros para uma minoria.
46  Observando o Centro Operário como possuinte de 1148 membros, essa importância se coloca como 
evidente e em grande proporção quando deslocamos nosso olhar também ao números da população de 
Ponta Grossa. O Censo de 1900 indica que a população de Ponta Grossa era 8.335. Pelo Censo de 1920, 
essa população atingiu a casa dos 20.171 habitantes.
48

até os dias atuais47.

2.1 Classe Operária e Cultura Operária: Uma outra História.

A trajetória dos trabalhadores pode nos representar o percurso de uma classe. Mas é 
somente  a  partir das experiências vividas em comum que  os operários se  configuram 
nesse   coletivo   de   classe.   Colocar   isso   sobre   o   trabalho   se   torna   uma   preocupação 
estancada.
Uma   história   se   produz   dentro   e   fora   das   fábricas48.   É   de   uma   multidão   colocada 
involuntariamente em uma fábrica, nos seus modos de vida fora do trabalho, ou seja, 
dentro   e   fora   da   jornada   de   trabalho   percebemos   a   representação   de   uma   classe.   A 
experiência dos trabalhadores depende de diversos fatores que se encontram tanto nas 
relações de produção nas quais são inseridos, quanto na cultura que eles próprios geram 
para si.
Diversos olhares são propostos. O enredo das relações sociais nos permite considerar 
o   operário   como   mais   um   personagem   dessas   relações   que   possui   uma   cultura,   um 
cotidiano. Se reconhecermos a existência de uma classe social, de um grupo gerado na 
divisão   social   do   trabalho,   então   podemos   perceber   o   reconhecimento   dessa   não 
simplesmente por meio de suas funções nas relações de produção ­ mas também nas 

47 Localizada na Rua Theodoro Rosas a atual sede do Centro Operário ainda abriga atividades recreativas 
e de lazer como bocha, truco, sinuca, churrascos e comemorações. No dia 1o. de Maio, último, o C.O.C.B 
completou 80 anos de existência. Desses anos todos, algumas mudanças ocorreram, algumas rupturas se 
ocasionaram na sua trajetória. Essa sede, onde funciona um bar, embora hoje seja a única sede do Centro, 
hoje está desmembrada do seu prédio original localizado no Largo Professor Colares e onde, curiosamente, 
hoje lá funciona uma manufatura de cortinas. O que antes era um espaço de lazer dos operários, hoje se 
torna o seu espaço de trabalho.
48 O conceito de trabalho não só foi alimentado por apologistas da sociedade burguesia como também por 
seus próprios críticos. Edgar de Decca considera que esse se origina com o intuito de garantir o espaço da 
fábrica e legitimar a figura do capitalista. O trabalho era fonte de produtividade e a fábrica "ao mesmo tempo 
que   confirmava   a   potencialidade   criadora   do   trabalho   anunciava   a   dimensão   ilimitada   da   produtividade 
através da maquinaria". A fábrica enquanto acontecimento tecnológico não foi símbolo hegemônico por toda 
sociedade, Decca ainda considera que “os ecos de resistências dos homens pobres a se submeterem aos 
rígidos padrões do trabalho organizados são audíveis” (DECCA, 1996, p. 09) e remetem que aquilo que para 
a burguesia era efeito material do "tempo útil", para outros podia não passar de um motivo para explorar 
outra classe assalariada e despossuída. Nesse embate de discursos   podemos falar de um imaginário do 
mundo burguês e, desde já, descartar a idéia de que, por exemplo, os setores dominados desta mesma 
sociedade estejam submetidos a uma enorme mentira ou a um engano universal, isto porque a presença 
das classes nessa sociedade se dá justamente a partir da universalização do imaginário burguês, e, nessa 
medida, a produção mesma das classes está intimamente ligada ao modo pelo qual essa sociedade impõe 
os registros do imaginário para o seu próprio reconhecimento" (op. Cit. p. 18)
49

diferenças culturais dessa classe para outras.
Segundo Karl Marx e Friederich Engels: “os indivíduos separadamente formam uma 
classe apenas na medida em que levam a cabo uma batalha comum contra outra classe” 
(MARX; ENGELS op. cit, p. 45). 
Para   além   da   fábrica   e   para   além   da   greve,  o   operário   também   se   assume   na 
roupagem   de   mães   e   pais   de   família,   freqüentadores   do   bingo   da   Paróquia,   figuras 
carimbadas do bar mais próximo, compradores à fiado e fiéis da mercearia da esquina, 
apreciadores da rádio AM que toca música popular, apostadores em rinhas de galo,  entre 
outros.   Desconsiderar   essa   outra   parte   das   suas   vidas,   colocá­los   unicamente   como 
peças da força do trabalho ou como componentes de uma luta social que inspira nossas 
paixões, é uma tarefa que pode incoerentemente partir da caneta do intelectual. Essa 
atitude involuntariamente simplifica a História.
Os trabalhadores são motores da própria História, como engrenagens de um relógio, 
eles possibilitam as relações produtivas. Ainda assim, seus cotidianos não se resumem a 
esse   papel   e   nem   sempre   eles   enxergam   seu   dia­a­dia   apenas   como   murais   de 
exploração. É sobre as condições de trabalho e capital­trabalho, entre outras formas como 
são   colocados   ou   jogados  na   estrutura   social   que   os   trabalhadores   constituem   sua 
cultura.   Precisamos   estar   atentos   às   diversas   particularidades   relacionadas   à 
aplicabilidade da força de trabalho, mas também a outra parte das suas vidas.
Essa outra proposta colocada aqui, e reafirmada também por alguns teóricos, torna 
necessário acreditar que para além do mundo do trabalho, os trabalhadores elaboram 
uma cultura quando se apresentam no seu tempo­livre para além do mundo da fábrica 
(“time­off”). Nesse segundo cotidiano reconhecemos atividades distintas, seja mesmo no 
cunho de organização trabalhista­sindical ou somente para fins de lazer. 
Essa discussão interessa aqui para perceber como esse tempo­livre foi administrado 
pelos membros do Centro Operário Cívico e Beneficente e como isso se representa num 
discurso que construiu a imagem do operário para seus associados. Nesse caso, essa 
imagem construída no interior das relações sociais do Centro serve para reconhecermos 
um conceito de classe em si, ou seja, constituído dentro das dependências da própria 
organização operária e que determina a participação desse em sociedade. 
O uso de referenciais teóricos que se aproximam dessa proposta tem sido, no caso, 
50

discutidos   recentemente,   procurando   captar   experiências   dos   trabalhadores   pela 


inteligibilidade de suas práticas. Essa proposta, embora seja reafirmada por uma suposta 
ressignificação não pode ser referenciada como um tipo de negação às matrizes teóricas 
anteriores e muito menos como uma forma “certa” de estudo da classe trabalhadora.
Vejamos   os   frutos   de   grupos   de   estudos   como   o   Grupo   de   Trabalho   Mundos   do 
Trabalho49  como uma alternativa de reconhecimento do comportamento de uma luta de 
classes além do domínio econômico. Sobre isso, Sandra Pesavento reconhece no ritmo 
dessas inovações, uma outra ótica sobre a realidade social a partir de outros princípios “o 
historiador passava a explorar, assim, os chamados silêncios de Marx, nos domínios do 
político,   dos   ritos,   das   crenças   do   hábitos.   Para   surpreender   essas   mudanças,   do 
cotidiano da vida e do trabalho, era preciso encarar novas fontes” (PESAVENTO, 2003, p. 
29­30). 
A autora ainda reconhece na escrita de E. P. Thompson a grande guinada para essas 
novas percepções. Reafirmando isso, Pesavento ainda alega que "em cada contexto, era 
preciso surpreender os nexos entre os diferentes traços do comportamento da classe" (op. 
Cit.   p.   30).   Dessa   forma,   o   próprio   conceito   de   "classe"   não   se   tornava   único   e 
unissêmico.
Segundo E. P. Thompson, os trabalhadores se constituem enquanto classe ‘’a partir 
das   experiências   vividas   em   comum’’   (THOMPSON,   1987,   p.   10).   Não   é   a   caneta   do 
intelectual que define o último estágio da consciência de classe. Tal forma de reconhecer 
a   consciência   de   classe   nos   permite   também   desvendar   a   maneira   pela   qual   as 
experiências   são   tratadas   pelo   que   essencialmente   são   –   ou   seja,   culturalmente. 
Proporcionando   uma   investigação   que   coloca   os   trabalhadores   enquanto   sujeitos   da 
história a partir do seu fazer­se50.

nenhum   exame   das   determinações   objetivas   e,   mais   do   que   nunca,   nenhum 


modelo eventualmente teorizado podem levar à equação simples de uma classe 
com   consciência   de   classe.   A   classe   se   delineia   segundo   o   modo   como   os 
homens e mulheres vivem suas relações de produção e segundo a experiência de 
suas situações determinadas, no interior do “conjunto de suas relações sociais”, 
com a cultura e expectativas a eles transmitidas e com base no modo pelo qual se 
valeram dessas experiências em nível cultural. De tal sorte que, afinal, nenhum 

49  Para   mais   informações   sobre   o   Grupo   de   Trabalho   Mundos   do   Trabalho   acessar   o   site: 
http://www.ifch.unicamp.br/mundosdotrabalho/ (acessado em 28/09/09).
50 Os trabalhadores criam e vivem a própria história e suas experiências demonstram que a consciência de 
classe está colocada internamente de um permanente fazer­se da classe operária (THOMPSON, 1976).
51

modelo pode dar­nos aquilo que deveria ser a “verdadeira” formação de classe em 
um certo “estágio” do processo (THOMPSON, 2001, p. 277).

Colocando isso em torno do surgimento do proletariado princesino e de sua formação 
enquanto classe, não podemos supervalorizar apenas sua atividade política como se essa 
fosse a única forma dos trabalhadores se introduzirem na história. Deve­se considerar que 
a   cultura   é   considerada   como   ponto   inerente   nesse   processo   de   formação   dos 
trabalhadores   enquanto   classe.   Algumas   produções   cedem   maiores   olhares   à 
organização política dos trabalhadores, entretanto, é contido ao pesquisador observar os 
demais espaços onde fora produzida a identidade dos trabalhadores.
Além de assumir a característica de amparador dos trabalhadores, o Centro Operário, 
em   seu   próprio   discurso,   sempre   se   destinou   como   um   espaço   de   lazer   e   de 
administração   do   tempo   livre51  dos   trabalhadores.   Nessas   passagens   se   torna 
interessante denotar a existência de distinções tênues entre os dois tempos da vida do 
operário e como esses são estipulados pelos espaços onde são administrados.
Daí   a   importância   de   um   sobrevôo   por   parte   da   História   Social   do   Trabalho   não 
somente sobre assuntos relacionados a organizações sindicais. Aproximando­se do caso 
aqui   estudado,   essa   importância   também   pode   ser   dada   a   outros   locais   onde   as 
experiências   podem  ser   compartilhadas,   tais   como   sociedades   recreativas,   clubes   e 
associações   com   fins   esportivos52.   Essas   entidades   também   podem   responder   muitas 
51   É nos cenários construídos pelos trabalhadores (Sindicato e Lazer) que eles próprios vão se constituir 
além  do  tempo  do  trabalho e  além das relações produtivas.  Não  existe  consciência  de  classe  pronta  e 
acabada, nem ''certa'' ou ''errada'', entretanto o uso do tempo se deve ao próprio aproveitamento que os 
trabalhadores proporcionam a ele. Eric Hobsbawm fala de um chamado time­off (tempo livre) no cotidiano 
dos     trabalhadores   da   Inglaterra   no   século   XIX,   onde   esses   determinavam   sua   cultura:   "usemos   um 
conhecido ponto de referência no mapa da classe trabalhadora "tradicional", a lanchonete de peixe e fritas 
originada   provavelmente   em  Oldham,   na   década   de   1860   (...).   O   futebol  já   possuía   uma   modesta   vida 
subterrânea como esporte para o espectador proletário nos últimos anos da década de 1870" (HOBSBAWM, 
1988, p. 281).
52 O professor Uassyr Siqueira reflete sobre esse assunto da seguinte forma: "principalmente em relação à 
historiografia mais tradicional, acabou­se por aceitar a versão elaborada pelas lideranças sindicais do início 
do século XX, as quais consideravam outras formas de sociabilidade, como clubes esportivos e recreativos 
sem   caráter   sindical,   como   secundárias   em   relação   à   “verdadeira”   organização   ou   até   mesmo   como 
alienantes. Dessa maneira, sem qualquer questionamento sobre o papel dessas associações na articulação 
de   identidades  entre   os  trabalhadores,   são   postas   em   segundo   plano   pela   historiografia   –   quando   não 
completamente desconsideradas. A ausência de pesquisas sobre clubes e associações dos trabalhadores é 
também resultado das concepções a respeito da consciência de classe. Embora haja o reconhecimento 
sobre a peculiaridade organizatória dos trabalhadores, a consciência muitas vezes foi tratada em termos de 
movimentos reivindicatórios ou políticos ou do confronto direto com o patronato ou estado, o que acaba por 
excluir   muitas   das   agremiações   dos   trabalhadores.   Outras   formas   de   manifestações   da   consciência, 
expressas e diferentes no cotidiano dos trabalhadores, são deixadas de lado se ignoramos os clubes e 
associações como espaço legítimo de organização'' (SIQUEIRA, 2002, p. 24).
52

indagações sobre o momento em que viveram.
A   primeira   parte   desse   trabalho   desloca   nossa   leitura   a   movimentos   constituídos 
dentro   de   associações   operárias   que   possuíam   critérios   distintos   de   organização.   Em 
virtude   do   estudo   sobre   as   fontes   e   a   documentação   do   Centro   Operário,   o   recorte 
proposto pelo trabalho não possibilita uma observação sobre um movimento forjado em 
um cunho sindical e combativo em Ponta Grossa – ou que pelo menos deixe isso explícito 
em suas atas. 
A importância  do  trabalho, por outro  lado, está em perceber as estratégias  dos 
personagens do Centro Operário, evidenciadas no discurso das atas e aqui colocadas 
com   a   finalidade   de   entender   se   essas   práticas   cotidianas   eram   baseadas   no   total 
consenso   dos   membros   ou   se   deixavam   transparecer   tensões   e   conflitos   entre   seus 
associados ao serem abordados nas reuniões registradas pelas atas.
Observando o Centro Operário como uma rede social, consideremos que nele se 
materializa   uma   teia   de   relações   que   determinam   os   seus   objetivos   sociais   enquanto 
entidade. É na forma como os indivíduos se relacionam que reconhecemos suas ações. O 
contato social é determinante para entendermos tais relações, é nesse domínio gerado no 
coletivo que se colocam a prova um conjunto de valores, intenções, estratégias, projetos, 
relações de poder, entre outros53. 
São as relações de trabalho que criam esses personagens, os trabalhadores em 
seus   diferentes   locais   de   trabalho.   Num   outro   cotidiano,   esses   por   sua   vez   ao   se 
reconhecer numa situação parecida sugerem a criação de outros espaços na sociedade, 
daí nascem os espaços de organização dos trabalhadores ou de lazer. O encontro de 
experiências pode colocar os trabalhadores enquanto classe, enquanto atores sociais em 
um momento estratégico – seja numa manifestação, num piquete de greve ou em um jogo 
de futebol.

53 Sobre redes sociais e suas redes de comunicação, o físico Fritjof Capra diz: ‘’Como as comunicações (...) 
produzem um sistema comum de crenças, explicações e valores – um contexto comum de significado – que 
é continuamente sustentado por novas comunicações’’. Nesse processo, cada membro da rede adquire a 
sua própria identidade, mas isso sem deixar de ser membro de outras redes. Esse, na verdade, é membro 
de várias redes dentro do sistema social como um todo. ‘’Na sociedade humana, as estruturas são criadas 
em vista de determinada intenção, de acordo, com uma forma predeterminada e constituem a corporificação 
de um determinado significado’’ (CAPRA, 2002, p. 95­96).
53

2.2 O 1o. De Maio: A Fundação do Centro Operário Cívico e Beneficente.

A fundação do Centro Operário Cívico e Beneficente passa a significar um novo rumo 
no   movimento   operário   de   Ponta   Grossa,   sendo   que   a   associação   não   agrupava 
simplesmente   trabalhadores54,   mas   também,   membros  da   pequena­burguesia, 
intelectuais, jornalistas e comerciantes. 

O Centro Operario Cívico e Beneficente que procurará por todos os meios o bem 
estar   dos   seus   componentes   da   classe   operaria   local,   amparando­os   moral   e 
materialmente (...) bem como de comum accordo com as suas co­irmãs do Estado 
e do Paiz procurará também pelas conquistas das reivindicações dos Homens do 
trabalho fazendo­se representar (...) nos conclaves onde­se discutem theses que 
possam interessar os trabalhistas locaes do Estado e da Republica (C.O.C.B, Ata 
02)55.

Entre os principais associados e diretores do Centro estavam: Albino Wiecheteck, 
industrial   e   vereador   pelo   Partido   Integralista   (1935­937);   José   Deslandes   de   Souza, 
membro do jornal Diário dos Campos; Adejamiro Cardon, membro da Livraria Modelo; 
Joaquim Wirruez, gerente da madereira SONYRA; Eusebio Biaco, fiscal; Walfrido Pilotto, 

54 Além das atas, outras fontes como o Livro de Inscrições e o Livro Caixa do Centro Operário revelam a 
ocupação dos trabalhadores em diferentes postos e categorias de trabalho. Entre as principais categorias se 
encontram   os   cerreiros,   madeireiros,   mecânicos,   metalúrgicos,   comerciários,   ferroviários,   cervejeiros, 
ervateiros, artesãos, entre outros. Ver ANEXO 3.1.
55  O dia 1o. de Maio conhecido como Dia  do Trabalhador, posicionado hoje no calendário nacional como 
feriado, é lembrado como a data de início da Greve de Chicago de 1886 que culminou na morte de 12 
trabalhadores. Esse evento é conhecido como a Revolta de Haymarket. Martirizado por tais mortes, esse 
passou a ser reconhecido como Dia Internacional das Causas Laborais. Araújo e Cardoso, ao reconhecer a 
gênese do 1o. do Maio como um dia de luta e que a recordação desse episódio “encaminha à reflexão 
acerca da contribuição do operariado para a sustentação da sua força de trabalho” (ARAÚJO; CARDOSO, 
op. Cit, p. 110). Complementando, o 1o. de Maio, que também é marcado em 1929 pela fundação do Centro 
Operário, é reafirmado pelas duas pesquisadoras como evento anual em que “os operários emprestavam à 
data o caráter de protesto e solidariedade na luta, através da fundação de ligas e associações” (op. Cit., p. 
112). No Brasil, o dia é decretado enquanto feriado nacional em 1919. Araújo e Cardoso ainda reconsideram 
essa data que passa do calendário operário, "o luto e a luta", para o calendário da sociedade como um todo. 
"A institucionalização do feriado termina enrijecendo o conteúdo das comemorações; dissocia no espaço­
tempo, trabalho, de lazer, atuação produtiva, de atuação política. Reserva espaços físicos determinados 
para   manifestações   isoladas:   local   de   trabalho   e   local   de   festa,   local   de   produção   material   e   local   de 
produção de idéias. O feriado oficial, portanto, afasta operários de seu meio: o local de trabalho. Com isso, a 
luta político ideológica perde para festividades de congraçamento nas quais o tema comemorativo – trabalho 
­ suplanta o trabalhador" (op. Cit. p. 114). Essa citação se contempla no trabalho quando percebemos o 
fluxo do discurso que preenche a primeira ata do Centro Operário. A sua fundação foi articulada numa data 
considerada importante para os operários de Ponta Grossa, "mais grata ainda ainda, pois que o Centro de 
sua classe, iria ter naquele dia sua instalação oficial’’ (C.O.C.B, Ata 01). Embora, esse sentimento para com 
um dia específico na vida dos operários aparece significado como "festa dos homens do trabalho" onde ali 
não   partilhavam   da   comemoração   apenas   trabalhadores,   mas   também   políticos   e   outros   membros   da 
sociedade civil.
54

escritor paranista e jornalista; José Silva, jornaleiro; João Ferigotti, zelador do cemitério 
público;   Fidelis   Alves,   funcionário   da   Prefeitura   e   Alberto   Lopes,   tenente   do   13o. 
Regimento de Infantaria.
Sobre   o   Centro   Operário,   Carmencita   de   Holleben   Melo   Ditzel   escreveu:   “a 
instituição   reunia   um   grupo   heterogêneo   de   trabalhadores   com   diferente   qualificação 
técnica, fazendeiros, comerciantes, industriais, políticos e setores da imprensa” (DITZEL, 
2004, p. 147).
Uma das infelicidades desse trabalho se encontra em não ter conseguido encontrar 
o   perfil   trabalhador   ou   empresarial   de   todos   os   membros   da   diretoria.   Entretanto,   o 
descobrimento   dos   afazeres   desses   membros   a   partir   da   pesquisa   e   averiguação   de 
outros   documentos   pode   servir   para   ligar   o   texto   das   atas   às   motivações   que   o 
produziram.
A análise do conteúdo das atas enquanto objetos de pesquisa é realizada a partir 
do   recorte   de   algumas   palavras   centrais   no   texto.   A   importância   é   determinada   pela 
freqüência que a palavra é citada no texto ou pela posição que ocupa no discurso. São 
construídos   quatro   núcleos   de   sentidos:   Lazer,   Beneficência,   Cotidiano,   Política  (ver 
ANEXOS   3.3)   –   esses   servem   para   perceber   como   cada   palavra   adentra   o   discurso, 
criando   o   assunto.   As   palavras,   tratadas   em   destaque,   entre   aspas,   podem   auxiliar   a 
compor   o   significado   de   representações56  produzidas   nas   atas   do   Centro   Operário 
(BARDIN, 1998).

56 Segundo Falcon: ‘’o conceito de representação pode ser entendido de duas maneiras, a primeira como 
‘representação’   entendida     como   objetivação,   figurada   ou   simbólica   de   algo   ausente,   a   outra   é   que   a 
representação é definida como ‘estar presente no lugar de outra pessoa’, substituindo­a, podendo ou não 
‘agir em seu nome’, essa última se incorpora como a prática política’’ (FALCON, 2000).
55

FIGURA 07 – Ata da fundação do Centro Operário.
56

FIGURA   08   ­  Foto   de   Albino   Wiecheteck,   vereador   pelo   Partido   Integralista   1935­1937 


(PREFEITURA, 1936).
57

O discurso apresenta um clima de saudosismo e solidariedade aos trabalhadores do 
recém­fundado Centro Operário, instaurado na  "defesa"  da classe trabalhadora. O texto 
apresenta a existência de reivindicações colocadas pelos "Homens do Trabalho", apesar 
de não ser específico quanto a essas e como seriam solucionadas.
Os  objetivos do Centro aparecem e a organização dos trabalhadores num primeiro 
momento cede importância a sua expressão popular perante toda sociedade, o "operário" 
tinha   seu   mérito   e   somente   a   ‘’união’’   e   a   ‘’colectividade’’   poderiam   construir   esses 
merecidos votos. Considerar a existência dessas palavras e a forma como se posicionam 
no texto é fundamental para perceber a forma como se articula o discurso.
Pensando o Centro Operário como um espaço onde os trabalhadores possuíam seu 
tempo­livre, pode­se notar que a sociabilidade dos sócios era em momentos direcionada e 
mitificada   por   esses   termos.   Pensando   essa   organização   operária   formada   por   um 
coletivo  orientado  por tais termos, se  torna possível entendê­lo como formador de  um 
conceito de classe em si, o que era/deveria ser o trabalhador, como na formação de um 
auto­retrato.  Nesse   caso,   essa   representação   contida   no   texto,   é   o   que   elabora   uma 
imagem do operário.
Quando palavras57   como "Estado" e "Paiz" adentram o discurso se interligando com 
os personagens trabalhadores no seu coletivo ­ "Homens do Trabalho" – conclui­se que a 
sensibilidade desses com os sentimentos de civismo seriam ocasionados perpassando as 
mãos  do aparelho institucional do estado.
A priori, tal constatação pode aparentemente se apresentar num campo de obviedade, 
porém,   o   aprofundamento   dessa   análise58  pode   proporcionar   uma   leitura   mais   fiel   à 
construção do sentimento cívico entre os membros da associação e mostrar que esse não 
se reproduz apenas no título do Centro Operário.
Nesse momento, a fundação do C.O.C.B cede importância não somente a um jogo de 

57 Para Ciro Cardoso e Ronaldo Vainfas, o léxico não é um amontoado de palavras isoladas. As palavras se 
alojam dentro do discurso de forma a se coordenar entre si ou se opor entre si. Nesse caso o pesquisador 
necessita abordar "a decifração do campo lexical inerente ao discurso, modelo esse pautado em algumas 
redes de relações de palavras" (CARDOSO; VAINFAS, 1997, p. 380).
58  Entende­se a análise de conteúdo por possuir a finalidade de analisar textos sobre uma perspectiva 
quantitativa, mas sem gerar uma dicotomia com a análise do discurso de forma qualitativa. No caso das 
atas,   esse   olhar   deve   permear   além   do   texto,   mas,   também   todo   o   contexto   em   que   foi   produzido   – 
considerando então que o texto em si se apresenta enquanto discurso, mas é passivo de um contexto. Esse 
processo  considera a produção,  a circulação e o consumo do  discurso  (CARDOSO,  VAINFAS,  op. Cit.; 
BARDIN, op. Cit.).    
58

relações interno ­ entre os membros da associação ­, mas também à sociedade ponta­
grossense como um todo. Entre esses elementos, o que chama a atenção na ata é quanto 
à composição da mesa da primeira reunião. Chamado pelo presidente recém­empossado 
do Centro Operário, José Deslandes de Sousa, o primeiro convocado a compor mesa, 
antes mesmo dos membros da diretoria, foi o prefeito de Ponta Grossa, Elizeu de Campos 
Mello59, sendo esse aclamado como ‘’amigo da classe trabalhadora’’ e respondendo estar 
em inteira solidariedade a ela.
Esse clima de saudosismo, colocado a partir da solidariedade do Centro se contempla 
no “valor” que possui a classe operária naquela festividade. A imagem do 1o. De Maio se 
esclarece   pela   conveniência   de   nenhuma   discussão   sobre   condição   salarial   dos 
trabalhadores ou de suas condições de trabalho ser colocada perante o Prefeito. Dessa 
forma, as posteriores atas deixam algumas perguntas quanto ao que seria essa "defesa" 
da classe operária.
Mas para além da insinuação daqueles "Homens do Trabalho", a primeira atividade da 
mulher   se   transmite   nas   atas   ainda   na   fundação   da   entidade   operária.   Dentre   a 
ritualização da cerimônia do trabalho, além de todos os valores, símbolos e sinais que se 
imagina   terem   incorporado   o   palco   das   relações   sociais,   o   ser   feminino   apenas   se 
apresenta   referido   na   segunda   ata   do   Centro   Operário   quando   travestido   de   uma   tal 
Senhorita Rainha dos Operários e saudada pelo prefeito dizendo que "com sua presença, 
tão grandemente engalava a festa dos homens do trabalho" (C.O.C.B. op. Cit.)60.
Esse   evento   de   tal   Centro   Operário,   significado   de   tal   forma   no   calendário   dos 
laboriosos princesinos mostra uma reafirmação de um lazer muito próximo do mundo do 
trabalho. De tal forma que o discurso dos membros da Diretoria e do Prefeito se pauta na 
legitimação   da   força   de   trabalho.   O   orador   do   Centro,  Adejamiro   Cardon,   solicitou   a 
palavra   e   em   nome   da   entidade   exclamou   que   "seu   único   objectivo   era   procurar   o 
levantamento   do   operariado   integrando­o   no   seio   da   colectividade   humana  e  dando   o 
direito e o valor a que elle faz jus, com o esteio mestre do progresso e da grandeza dos 
59  Elizeu   de   Campos   Mello   conhecido   como   um   dos   fundadores   e   apoiadores   do   extinto   Jornal   O 
Progresso,   que   mais   tarde   se   tornaria   Diário   dos  Campos.   Era   acionista   majoritário   da   Companhia 
Tipográfica   Ponta­grossense.   Advogado   e   fazendeiro,   se   tornaria   prefeito   de   Ponta   Grossa   em   1928 
(CHAVES, 2001).
60  A  partir  da leitura do  Livro de  Inscrições do  Centro  Operário, é possível perceber a participação de 
mulheres   na   associação.   Se   apresentam   em   número   aproximadas   49   mulheres   afiliadas,   muitas   delas 
carregando sobrenomes de sócios, o que denota a possibilidade dessas serem esposas ou possuintes de 
algum grau de parentesco para com esses.
59

povos" (op. Cit.). A justificativa da disposição e do empenho do trabalhador se orquestrava 
nessas palavras.
Essa palavra ainda aparece em mais uma oportunidade, quando o tenente e redator 
do Diário dos Campos, Affonso Lopes pediu a união dos diretores do Centro Operário e 
para‘’que trabalhassem pelo engrandecimento da cidade, do estado e do Brazil, ao qual 
deviam todos dedicar os maiores sacrifícios pelo seu progresso pela sua grandeza’’ (op. 
Cit.). Quando o "progresso" entra em cena no discurso, não existe outra alternativa a não 
ser   legitimar   a   participação   do   trabalhador   em   sociedade.   Perante   o   representante 
máximo do governo local, aparece um movimento operário esquadrinhado e próximo das 
elites locais.
Por fim, e antes de se encerrar a reunião, foi entregue pelas mãos do prefeito uma 
imagem   de   Nossa   Senhora   dos   Operários   a   um   trono   que   se   encontrava   na   sede 
provisória do Centro Operário.
No decorrer das atas, esse esquadrinhamento da imagem e do movimento operário 
aparece   acariciado   de   outro   fenômeno.   A   pesquisa   acabou   percebendo   além   das 
atividades recreativas e de lazer, das quais a entidade se propunha a desenvolver com 
seus membros, os chamados assuntos políticos61.

61  Sempre que tratados nas atas e nos estatutos sociais enquanto "assumptos politicos", esses parecem 
repudiados. Entre as 24 atas analisadas, esses são chamados assim apenas quatro vezes. Porém, eventos 
como a participação de Walfrido Pilotto num Congresso Operário – sendo que esse era jornalista ­, o apoio 
a Elbe Pospissil para a Assembléia Legislativa, a convocação para uma Conferência operária em praça 
pública,  a  doação  de  um  terreno  pelo  prefeito para  a  construção   da  sede  da  associação,  entre  outros, 
acabam sendo tratados na pesquisa como sendo de cunho político.
60

FIGURA 09 ­ Eliseu de Campos Mello, Prefeito de Ponta Grossa 1928­1930 (Fonte: Casa da Memória).
61

Tratados   de   tal   forma   também   no   estatuto   da   associação62,   esses   assuntos 


aparecem   omitidos   e   até   censurados   pragmaticamente   nos   eventos   da   entidade   por 
alguns de seus membros. Entretanto, as atas evidenciam que nas situações onde esses 
aparecem, acabaram­se gerando conflitos no interior da associação. Em torno disso, e 
contrapondo tais temas, as atas constroem em seu interior uma representação da imagem 
do   operário   de   forma   cívica   e   solidária   –   algo   que   também   se   reproduz   no   nome   da 
associação.

           2.3 Entre a Ordem e a Política: O caso do “tellegrama”.

Entre uma reunião e outra, se percebia a intensidade das discussões em torno de 
assuntos recreativos e de lazer. Ainda assim, foi possível perceber uma outra tonalidade 
em casos específicos quando são citados e discutidos os chamados “assumptos políticos” 
(sic!).
Em torno disso, e contrapondo tais temas, as atas constroem em seu interior uma 
representação da imagem do operário de forma cívica e solidária – algo que também se 
reproduz o nome da associação ­ procurando não deixar espaço pra qualquer notoriedade 
política ao movimento operário.
2a.   Chamada   da   Assembléia   de   18   de   agosto   de   1929:   João   Perantunes,   vice­
presidente   do   Conselho   Fiscal,   pediu   a   palavra.   Essa   só   lhe   foi   concebida   após   o 
presidente, José Deslandes de Souza, lhe advertir que no seio da sociedade operária não 
se devia "tratar de política" (C.O.C.B Ata 10). Ao lhe ser ofertado a palavra, Perantunes 
pediu   uma   "explicação"   sobre   um   artigo   escrito   no   Diário   dos   Campos   pelo   orador 
Adejamiro   Cardon  que   tratava   do   alistamento   de  operários  para   que   esses  pudessem 
votar nas eleições daquele ano exercendo um dos "deveres cívicos" da sociedade.
O artigo 72 do estatuto do Centro Operário foi citado na reunião pelo presidente do 
Conselho Fiscal, a fim de omitir o incentivo de Cardon ao voto dos operários. Perantunes 
ainda   se   direcionou   ao   Presidente,   pedindo   "esclarecimentos"   sobre   um   "tellegrama" 
contendo "assumptos politicos" que poderiam comprometer o "bom nome" do C.O.C.B.

62 Segundo o Artigo 72 inciso 5o. Do Estatuto Social do Centro Operário Cívico e Beneficente de 1979: "É 
proibido   se   manifestar   politicamente  nas  dependências do  Centro   Operário".   Esse   artigo   aparece   como 
documento mais citado nas atas, precisamente três vezes.
62

Tanto   Deslandes   de   Souza   quanto   Cardon,   responderam   as   acusações   em 


Assembléia.   Dizendo   que   tais   posturas   partiam   "em   caráter   particular",   nada   tendo   o 
Centro Operário a ver com isso.
3a. Chamada da Assembléia de 25 de Agosto de 1929: A discussão do telegrama se 
perpetuou nessa outra chamada da Assembléia. A ata registra que a carta havia sido 
endereçada   ao   jornal   Estado   de   São   Paulo,   firmando   documento   de   apoio   do   Centro 
Operário e de Ponta Grossa ao candidato a Presidente da República Júlio Prestes ­ a 
carta havia sido assinada juntamente com o Prefeito. Logo consta que possivelmente, o 
incentivo ao alistamento, por parte de Cardon, pode não se conceber enquanto um caso 
isolado.
Em resposta, José Deslandes de Souza disse que não exerceu tal ato com "intuito de 
prejudicar o Centro que com a ajuda de outros elementos de valor no seio da classe 
obreira, havia fundado, se fez e concordou com o telegramma de (...) solidariedade do 
governo do Estado e da cidade representada na pessoa do illustre Dr. Campos Mello" 
(C.O.C.B Ata  11).
Adejamiro Cardon pede a palavra nesse momento, dizendo entender tal gesto como 
uma forma de agradecimento, se referindo a Julio Prestes como "grande trabalhador" de 
outras   sociedades operárias63  para   depois  ‘’chegar  a  conquistas de  então  [na] política 
nacional’’. Cardon ainda disse ter ‘’esperanças de ver os homens do trabalho se unindo ao 
lado dos que nos governam elaborando as leis que nos regem’’ (op. Cit.).
O polêmico documento foi tratado por José Deslandes de Souza como motivo de sua 
renúncia à presidência do Centro Operário. A assembléia deliberou contra a renúncia do 
presidente.  "Usando   este   da   palavra,   disse   então   que   [mesmo   assim]   se   considerava 
demitido e pedia licença (…) para retirar­se do recinto". Entretanto, ao tentar sair, Souza 
foi impedido por alguns membros da diretoria e sócios, ‘’estabelecendo­se, então pequena 
confusão na assistência’’ (Op. Cit.).
A assistência sendo recomposta, permitiu a José Deslandes de Souza voltar a ocupar 
seu cargo – já se evidenciou que não era do interesse dos membros do Centro Operário 

63  O  caso do telegrama reflete que o Centro Operário possuía membro não só articulados com a política 
local, mas também a nível nacional. Entretanto, apesar de esse personagem ser apresentado como "grande 
trabalhador" por Adejamiro Cardon, seu retrospecto político pode ser entendido de outra forma. Júlio Prestes 
de Albuquerque, conhecido por vencer a eleição de 1930 e por ser impedido pela Revolução de 1930, nunca 
teve sua vida política em intimidade com qualquer causa puxada pelo movimento operário.
63

que   esse   deixasse   a   presidência.   Essas   duas   atas   mostram   que   a   omissão   dos   tais 
"assumptos politicos" era justificada a partir de argumentos que se correspondiam com o 
"bom nome" da associação operária. Tais expressões são colocadas algumas vezes64, 
nem sempre da mesma forma, mas possuindo a mesma conotação – demonstrando o 
quanto uma atitude poderia comprometer o nome da entidade que procurava reproduzir o 
ato dessa como "cívico e beneficente".
Nesse instante do texto, cabe deslocar­se a um recorte dos chamados "assumptos 
politicos".   Entretanto,   comparando   quantitativamente   o   número   de  páginas   que   tratou 
desse caso específico com qualquer outro, percebemos que logo aquilo que fora muito 
omitido   e   censurado   no   Centro   acabou   ocupando   um   maior   número   de   páginas   que 
qualquer outro assunto. 

2.4 Trabalhadores do Paraná UNI­VOS!: Uma política a portas fechadas.

A existência de um documento jurídico que barrasse os atos políticos pode parecer o 
reflexo de que esses não ocorressem em torno da associação de trabalhadores. Todavia, 
a existência que um artigo do estatuto e discurso das atas, onde ambos discriminam tais 
assuntos políticos não significa que tais práticas não ocorriam.
Reunião Extraordinária da Diretoria, 25 de Setembro de 1929: 

Usando da palavra o sr. Presidente expôs [a pauta] daquella convocação, dizia elle 
que estava o operariado do Paraná enfrentando na eleição de seu deputado ao 
Congresso   do   Estado   tendo   havido   uma   conversação   em   Curityba,   (...)   a 
apresentação do operário (...) sr. Elbe Pospissil para ser o candidato operário ao 
Congresso do Estado (C.O.C.B, Ata 12).

Foi numa reunião extraordinária, aparentemente breve e direta, sem a participação dos 
associados, a não ser por parte dos integrantes da diretoria e do Conselho Fiscal, que 
essa discussão entrou em pauta. Elbe Pospissil foi um dos articuladores da Greve dos 
ferroviários em 1919 que cobrou 20% de aumento nos salários, melhores condições de 
trabalho   e   jornada   de   8   horas.   Os   manifestantes   saíram   vitoriosos,   tendo   todas   as 
reivindicações atendidas. A partir disso, a participação de Pospissil na União Operária do 
64  A palavra tellegrama é citada cerca de cinco vezes, sendo que essa aparece nas atas contrapondo o 
"bom   nome"  ou  "nome   honroso"  do   Centro.   Nesse   caso,   apesar   de   os   termos   não   possuírem   igual 
pronúncia, eles acabaram possuindo o mesmo sentido.
64

Paraná conseguiu atrair maior atenção à sua vida política (ARAÚJO; CARDOSO, 1992).
Um Congresso convocado para o dia 19 de Outubro foi convocado em Curitiba – não 
há maiores informações na ata sobre tal. A chamada "conclusão" dos operários decidiria 
todo   apoio   ao   futuro   candidato   a   deputado   estadual,   sendo   que   foi   eleito   para 
acompanhar tal processo o literário paranista e jornalista Walfrido Pilotto65, eleito sócio 
benemérito do Centro Operário.
Além   disso,   essa   ata   revela   a   contradição   e   o   embate  de   discursos   no   interior   do 
Centro Operário. Foi num conluio fechado, sem a participação dos demais membros da 
entidade que foi decidido o apoio desta ao candidato. Essa atitude deixa a entender uma 
atividade política dos membros da organização operária, enquadrando um dos "deveres 
cívicos" do operário a uma única alternativa de voto e mostrando a tentativa de controle 
da associação sobre a decisão dos trabalhadores nas urnas eleitorais.  
A ata ainda previa que todos os membros alistados recebessem uma cédula com o 
nome   do   candidato.   "Tambem   pelo   sr.   João   Shimidt   Filho   foi   proposto   que   o   Centro 
censurasse   todo   o   seu   sócio   que   não   votasse   no   candidato   da   classe   operaria   nas 
eleições   (...),   pois   que   assim   demonstravam   falta   de   união   e   compreensão   de   seus 
deveres civicos, para com a colectividade operaria" (op. Cit.). Segundo consta em ata, 
essa proposta provocou várias discussões, mas foi aprovada pela maioria dos reunidos. 
A apelação dos "deveres cívicos", mais uma vez citados, serve de justificativa para a 
"censura" de tais membros. Ao fim da reunião, o presidente agradeceu a presença de 
todos   naquela   reunião  onde   foram  "tratados  assumptos   de   magna   importancia   para   a 
sociedade e para a classe trabalhista do Estado". Não existe registro de qualquer citação 
do   artigo   72   dos   estatutos   sociais   nessa   ata,   sendo   que   até   mesmo   os   membros   do 
Conselho Fiscal, incluindo João Perantunes, não se manifestaram contrários ao apoio a 
candidatura de Elbe Pospissil.

2.5 Cívico e solidário: Beneficência e lazer no Centro Operário.

Reunião Extraordinária da Diretoria, 14 de Janeiro de 1930: 

65 Walfrido Pilotto, conhecido jornalista e escritor paranista possui notoriedade também por, junto da família 
Pilotto,   vir   a   Ponta   Grossa   no   início   do   século   XX   para   trabalhar   no   escritório   da   Rede   Ferroviária 
(WIKIPÉDIA, 2009; WRONISKI, 2009).
65

Tendo pedido a palavra ao sr. Joaquim Wirruez, que se estava presente, o qual (...) 
explicou (...) a attitude dos operarios da Sonyra, dizendo tambem qual o motivo 
que os levou a pedir (...) a sua eliminação deste Centro. O motivo principal e único 
(...) foi ter um socio desta aggremiação, o sr. Affonso Braune, procurado introduzir 
ideias politicas no seio o operariado da Sonyra, cujas ideias, são terminantemente 
prohibidas pelos nossos estatutos (COCB Ata 18).

João Schimidt Filho pede a palavra, dizendo que    ''profundamente magoado com a  
attitude   do   sr.   Braune   pede   que   o   mesmo   seja   eliminado   desta   sociedade   a   bem   da  
ordem e do progresso da mesma'' (op. Cit.). Essa ata revela mais um caso de perseguição 
às atividades políticas dos operários membros da entidade. Ressaltando aquelas idéias 
como ''terminantemente prohibidas'' pelos estatutos do Centro, essas nem expostas são. 
Sendo que na reunião posterior aquela, a  ''eliminação''  do secretário foi seguida de 
''motivos já de todos conhecidos''  (COCB Ata 19). A censura a tais  ''ideias politicas''  era 
exercida de forma contundente, procuravam ser minimamente citadas, demonstrando o 
interesse   também   de   omissão   a   tais   assuntos   –   colocando   sempre   tais   ações   como 
opostas aos estatutos ou o ''bom nome'' do Centro Operário preenchido por membros que 
praticavam a ''ordem'' em favor a seus ''deveres cívicos''.
Os deveres cívicos, nesse caso, apareciam materializados em ações que ocupassem 
o   tempo­livre  do  trabalhador.  Negar os  assuntos  políticos  não   parecia   o   suficiente,  se 
tornava necessário repreender e eliminar membros que tratassem de tais mesmo fora das 
dependências do Centro Operário.
Certos documentos históricos podem contar uma História dos vencedores. No caso 
das atas, a proposta vencedora discutida em reunião, o artigo do estatuto aprovado pela 
maioria, é o que passa a sobreviver na linha do tempo. Entretanto, o direito ao passado 
pertence a todas as classes sociais. A leitura nas entrelinhas, no discurso implícito, nos 
mostra que em alguns momentos houveram processos de resistência. Momentos em que 
mulheres e homens enfrentaram procuraram viver   uma outra História. Ainda assim, a 
caneta não estava em suas mãos.
Mais uma vez, nesse processo de construção da História o silêncio é percebido nas 
fontes.  É  perante  esse   desafio  que   o   trabalho   do   pesquisador  se   enriquece.  Além   da 
66

definição de um método que sub­escreva relatos, a sensibilidade com a vida das pessoas 
deve ser ainda mais intensa.
Independente   da   eliminação   de   Braune,   da   perseguição   aos   membros   políticos 
registrada no interior das atas, essa não é uma História da derrota da classe trabalhadora 
no   terreno   de   Ponta   Grossa.   Todavia,   sim,   é   uma   História   do   possível.   Segundo 
Thompson: 

As classes não existem como entidades separadas que olham ao seu redor, acham 
um inimigo de classe e partem para a batalha. Ao contrário, para mim, as pessoas 
se vêem numa sociedade estruturada de certo modo (por meio das relações de 
produção   fundamentalmente),   suportam   a   exploração   (ou   buscam   manter   poder 
sobre os que exploram), identificam os nós dos interesses antagônicos, se batem 
em torno desses mesmos nós e no curso de tal processo de luta descobrem a si 
mesmas como uma classe, vindo pois a fazer a descoberta de sua consciência de 
classe (THOMPSON, 2001, P. 274)

  
A reação aos movimentos combativos em Ponta Grossa foi algo presente e já discutido 
aqui desde os seus princípios de organização. Mas isso em nenhum momento significou 
sua derrocada ou que o freio­de­mão da reação acabou totalmente com a organização 
dos trabalhadores na cidade. A atitude de Braune comprova isso.
Outra passagem importante que registra a relativa, e não total, importância das atas 
no contexto dos trabalhadores aparece denunciada pelo próprio presidente logo após o 
caso do telegrama. Antes de finalizar a reunião, o presidente José Deslandes de Souza 
disse   que   ia   nomear   uma   comissão   para   cuidar  do   Livro   de   Ouro   do   Centro   afim   de 
arrecadar  fundos  para a  construção  da  nova sede.  Disse ainda  que  qualquer  um  que 
fosse contra o Livro que se manifestasse “na sede do Centro e não na rua” (C.O.C.B. Ata 
11). A letra corrida e a forma como aparece registrado no auto, demonstra uma certa 
indignação   de   Souza,   porém,   além   do   seu   sentimento   a   ata   denuncia   que   alguns 
associados   discordavam   de   assuntos   referentes   ao   Centro   Operário   fora   de   suas 
dependências. 
A relativa legitimidade das cerimônias do Centro Operário e a criação de uma rede 
informal  que  discutisse  tais assuntos porta  afora  demonstra  que  as decisões tomadas 
pela   maioria   não  significam uma   total  aceitação   e  uma  total  hegemonia  de  uns sobre 
67

outros. O civismo era pauta de uma reunião e era relatado com toda precaução no toque 
da pena sobre o papel. Mas esse relato evidencia que, mesmo antes dessa ter secado, o 
conflito se tornava pauta de uma outra cerimônia elaborava na rua e não nas formalidades 
do Centro Operário.
Em   contraposição   à   realidade,   a   união   dos   operários   aparece   como   elemento 
importante da sua integração nas atas da entidade. O termo conjugado “união” aparece 
na   narrativa   do   documento   como   reflexo   de   uma   imagem,   ou   digamos,   como   uma 
representação de toda confluência de experiências daquele proletariado no instante.
A reprodução desse sentimento e sua finalidade se colocam na fidelidade duma das 
primeiras  citações de  uma  das atas: “que  o  operariado  fosse unido  para  assim  poder 
alcançar   as   suas   finalidades   e   puderem   com   isso   integrar,   no   seio   da   coletividade 
humana, que toda vida necessita do braço do operariado para poder ser forte’’ (C.O.C.B. 
Ata 01).
Em grande monta, perante o pretexto de sociabilidade e a fuga aos assuntos políticos, 
aquela haveria de ser preenchida de outro elemento que significasse a união dentro da 
entidade.   Aquele   braço   forte   que   conduzia   a   força   de   trabalho   na   sociedade   era 
representado por participar do conjunto da sociedade civil.
68

FIGURA 10 ­ Símbolo do Centro Operário66

66  O símbolo do Centro Operário também se encontra talhado em frente a sua antiga sede até hoje. A 
imagem  reproduz três figuras masculinas segurando o globo terrestre de forma que esse rotacione. Algo 
que rememora uma das falas do Tenente Alberto Lopes: “o operariado era a lavoura que movimentava os 
povos, a força hercules que sustentam as nações e elevava­a as suas maiores conquistas; que o operariado 
era   a   reserva   dos   paizes”  (C.O.C.B.   Ata   02).   “Imagens   propagam   valores”   (BURKE,   2004,   p.   96).   A 
representação dessa imagem aparece também reproduzida de forma parecida no discurso dentro das atas.
69

O  aparecimento  de   um lazer operário  mostra   mais uma  diferenciação  da  figura  do 


operário perante as outras classes sociais. Essa fronteira cultural estabelecida entre os 
trabalhadores e o seu pedaço67  frente a tais grupos, porém, nem sempre foi encarada 
como algo saudável para a sociedade como um todo. Jacques Rancière ao detalhar o 
tempo­livre   dos   trabalhadores   na   Europa   do   século   XIX   expõe   o   movimento   de   uma 
classe, não apenas a partir de seus sonhos, mas inclusive a partir de seus divertimentos

a degradação do carnaval felizmente dura apenas alguns dias por ano, mas em 
cada   semana   há   um   domingo   e   uma   segunda­feira   para   esses   lazeres   dos 
trabalhadores que, na “cloaca de lama chamada taberna” vêm se identificar com o 
trabalho da farra. E a confusão das tabernas tende a estender­se para as ruas do 
subúrbio trabalhador (RANCIÈRE, 1988, p. 253).

Essa   visão   emprestada   do   burguês,   formatada   em   tablóides   franceses   da   época, 


relatava o lazer operário com certa frustração. O tempo­livre de homens e mulheres que, 
por   estarem   na   companhia   de   prostitutas   e   bêbados,   aparecia   como   princípios   de 
contaminação da Belle Époque francesa – em várias ocasiões, esses eram os próprios 
trabalhadores, homens gastando seus salários e mulheres procurando um ganho extra, 
seres que se travestiam nessas personas noturnas.
Entretanto,   além   da   superfície   desse   discurso,   se   torna   necessário   perceber   que 
aqueles   personagens   mostrados   naquele   ambiente   faziam,   sim,   parte   de   uma   fração 
daquela sociedade urbana e industrial. No caso, eram produzidos pelo próprio enredo de 
um desenvolvimento que os incluía a lógica da fábrica, mas que, apesar de criticar sua 
forma   de   vida   subterrânea   e   nociva,   os   excluía   por   meio   da   criação   de   um   exército 
industrial   reserva   e   os   impossibilitava   de   outras   formas   de   divertimento   –   em   certo 
sentido, formas de entretenimento em clubes burgueses e aristocratas.
Outra forma de destinar a cultura às massas em seu tempo­livre deveria ser prevista 
no seio social. Se as greves e as manifestações evidenciavam os diferentes cenários da 
luta de classes, o conflito aparece relocado também na formação de lazeres vividos pela 
classe trabalhadora. Na visão de algumas classes sociais e até do Estado, esses eram 
considerados como impróprios e nocivos ao corpo da sociedade.

67  Para   o   antropólogo   José   Guilherme   Cantor   Magnani   "O   termo   na   realidade"designa   aquele   espaço 
intermediário  entre  o  privado  (a  casa)  e  o  público,   onde  se  desenvolve  uma  sociabilidade  básica,  mais 
ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável que as relações formais 
e individualizadas impostas pela sociedade" (MAGNANI, 1984, p. 11).
70

Maria Auxiliadora Guzzo Decca ao trabalhar a vida dos operários fora do ambiente das 
fábricas nas décadas de 1920 e 1930 em São Paulo­SP mostra um cotidiano influenciado 
e cercado do controle social do Estado. Aqueles que antes não se demonstravam tão 
preocupados   com   a   situação   social   dos   trabalhadores   se   tornaram   seus   principais 
acolhedores. Saúde, educação, higiene  eram  novos  elementos fundamentais,  segundo 
eles, para a vida do operário e a “ignorância” e a “indisciplina” desse seria fator prejudicial 
para seu próprio desenvolvimento na sociedade (DECCA, 1987).
A   partir   de   uma   nova   concepção   de   tempo­livre,   se   tornava   necessário   libertar   os 
operários de seus ‘’vícios’’ e de sua vida ‘’improdutiva’’. Essa era a missão de torná­lo 
mais disciplinado e ordeiro para o outro tempo, o tempo do trabalho. Toda família era 
reconhecida nesse processo, parques eram construídos, as igrejas eram abertas aos fins 
de semana para o bingo e para um tipo de lazer domesticado, as práticas beneficentes – 
além de favorecer o sentimento de “solidariedade” e de alívio por outras classes sociais – 
também passam a fazer parte dessa conformação ao apaziguamento das classes sociais. 
Ainda   assim,   esse   combate   se   projetava   para   além   de   uma   cultura   ‘’degenerada’’, 
segundo o próprio Departamento de Cultura de São Paulo: ‘’comunismo se combate com 
obras sociais e não com polícia’’ (apud Op. Cit. p.80). Fica aí registrado o enredo implícito 
em que era composta uma padronização do divertimento e até do comportamento dos 
trabalhadores e suas famílias.
Em Ponta Grossa, passagens sobre o lazer operário representado na prática do truco, 
da   bocha,   do   francês68,   das   rinhas   de   galo   e   das   caçadas   são   bem   freqüentes   em 
diversas   produções   acadêmicas.   Adriano   Rossi   ao   trabalhar   os   conflitos   em   bares   de 
Ponta Grossa na década de 1930, identifica os botequins localizados próximos ao leito da 
ferrovia como grandes palcos de embate entre ferroviários da rede federal. Ainda segundo 
Rossi:

os   conflitos   nos   mostraram   que   essas   medidas   de   normatização   e 


homogeneização   da   classe   trabalhadora   foram   acompanhadas   de   tensões, 

68  O truco é um jogo de cartas entre 2 participantes ou mais. O jogo de bocha consiste em lançar bolas 
(bochas) e situá­las o mais próximo de um bolim (bola menor), previamente lançado. O adversário, por sua 
vez, tenta situar as suas bolas mais perto ainda do bolim ou remover as bolas do oponente. O Francês é um 
esporte   praticado   em   cima   de   uma   mesa,   onde   é   testada   a   força   do   participante.   Popularmente   é 
denominado   queda   de   braço,   muito   praticado   da   antiguidade   até   hoje   (Disponível   em 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil , acesso em 03/08/2009). 
71

contradições   e   resistências.   Uma   das   “metas”   de   esquadrinhamento   do 


trabalhador   era   a   demonização   de   tudo   que   destoava   do   “ser   morigerado, 
cumpridor de seus deveres, bom pai, provedor e honesto” a não representação do 
papel pré­estabelecido na constituição da masculinidade gerava cruzadas morais 
contra o abuso desses ditos “inimigos” do homem, como o álcool, as noitadas em 

bórdeis, a jogatina, etc (ROSSI, 2006, p. 18). 

A   normatização   e   o   esquadrinhamento   apresentado   por   esses   autores   se   torna 


interessante aos nossos olhos. Em um momento correspondente e em parte paralelo ao 
descrito   por   Decca,   o   Centro   Operário   Cívico   e   Beneficente   proporciona­se   um   auto­
discurso em que a entidade se circunda de tais práticas. Já em seu nome, a beneficência 
se liga ao civismo, ou seja, a sua instalação previa o atendimento aos sócios (C.O.C.B. 
Ata 17), a prática de assistência à família por meio de uma pensão chamada pecúlio (Op. 
Cit. Ata 05), o atendimento de um médico e de uma farmácia aos associados (Op. Cit. Ata 
16) e, quem sabe principalmente, a criação de uma Escola Noturna dos Operários (Op. 
Cit.   Ata   04).   Sobretudo,   uma   organização   operária   que   previa   diversas   formas   de 
atendimento   de   seus   associados,   fazendo   prevalecer   o   discurso   da   ordem   e   ainda 
possuindo o auxílio dos governos municipal e estadual.
O futebol aparece em suas atas como uma prática de recreação. A taça operária se 
torna   uma   disputa   entre   o   Centro   Operário   e   outros   clubes   sociais   de   Ponta   Grossa, 
Guarany Sport Club e Operário Sport Club, a fim de favorecer o caixa da entidade (Op. 
Cit. Ata 14).
Toda família era reconhecida no lazer operário. Citações nas atas se referindo a essa 
participação são inúmeras, demonstrando o interesse de que aquele espaço padecesse 
de um convívio familiar69. E se a importância do operário para a organização familiar e a 
69  Não trabalhando como mera categoria, mas tentando esmiuçar e fazer uma radiografia sobre a família 
operária, me permito a um olhar mais íntimo do círculo que é construído em torno das relações sociais mais 
próximas e criadas por laços de sangue e por uma organização econômica em torno desses laços. Do 
matrimônio a origem biológica da prole – que proporciona sentido ao próprio da palavra “proletariado” ­, a 
criação  desses  vínculos  que   entrelaçam  o  sentido   social  da   família  e   permitem  que   toda  sociedade   se 
exprima a partir do círculo familiar. Uma família, nesse tom, possibilita uma forma de organização social e 
econômica como um todo. Devemos oportunizar a forma como a família cria corpo na sociedade. Segundo 
Maria Célia Paoli: “                                                       Incluir a reprodução da vida operária como cultura,  
como política, como sociabilidade ­ e não apenas como reposição estrita da energia física do trabalhador ­ 
significou trazer, entre outras coisas, a família operária para o centro da interpretação sobre suas condições 
de  reprodução.  Nos estudos  sobre  a  história  operária   brasileira,  no  entanto,   este é  um  movimento  que 
apenas   se   esboça.   Na   reconstrução   histórica   da   formação   dos   trabalhadores   urbanos   como   classe,   a 
concepção sobre suas formas de organização familiar é, em geral, subjacente aos temas “maiores” por onde 
72

importância da família para as diferentes formas de reprodução da força de trabalho forem 
intencionais? Torna­se perceptível a utilização de um lazer para a formação de “corpos 
dóceis”   para   o   trabalho   assalariado   fabril   a   partir   desse   ambiente   privado   da   família 
(PAOLI, 1992; FOUCAULT, 1977).
A extensão da família para uma associação operária – ou seja, a passagem de uma 
rede social a outra ­, essa última responsável por engrandecer em seu discurso o valor do 
trabalho, acaba moldando todo conjunto da primeira em torno das informações produzidas 
no interior da segunda. 
Isso   pode   ser   percebido   como   um   fenômeno   inconsciente   no   interior   da   entidade 
operária. Porém se influenciado por outras classes sociais, esse caso pode ser adaptado 
à intenção de uma estratégia que produz toda uma apologia ao mundo do trabalho, que 
faria o trabalhador aceitar todos os sacrifícios do seu dia­a­dia de trabalho. Tal influência 
se ocasionaria de tal forma que essa aceitação ocorreria não somente no ambiente do 
lazer operário ­ onde a família também estava presente ­, mas ainda em seu domínio 
privado, no seu lar. 
A participação da sociedade ponta­grossense em torno dos eventos organizados pelo 
Centro Operário aparece também retribuída nos documentos oficiais da entidade, esses 
eventos são significados com outros valores. A ata de 24 de outubro de 1929 retrata o 
convite de uma festa que ocorreria na associação Homens do Trabalho, “convidando o 
Centro a se fazer representar na festa” que ocorreria dois dias depois. O presidente ainda 

se procura conhecer esta classe ­ sindicato, partido, fábrica, salário, níveis de vida. Subjacente, mas quase 
sempre   presente   no   material   com   que   lida   o   historiador,a   família   operária   também   desliza   como 
representação:   ora   é   tratada   como   um   dado   natural   da   paisagem   operária,   ora   como   um   reflexo 
desorganizado   do   modelo   dominante   da   família   burguesa,   ora   como   um   estilo   cultural   característico   e 
herdado de um modo de vida anterior à proletarização” (PAOLI, op. Cit.p. 01). A extensão da obra de Paoli 
procura ser espelhada aqui, porém, entre uma ressalva deve ser feita. Sua constatação de que no ambiente 
de construção dos estudos históricos “a ausência de uma tematização explícita sobre suas formas familiares 
de organização” (op. Cit.) se coloca um tanto contraditória já na existência de um autor clássico específico 
nem sequer citado em seu artigo. Ao observar desde os primitivos estágios de formação da sociedade, 
Friederich Engels compara diversos sistemas sociais de forma a comparar com a formação da estrutura 
família. Seu alto e surpreendente grau de conhecimento do assunto não se demonstra de forma alguma 
ausenta   a   divisão   social   do   trabalho,   ou   seja,   o   processo   de   formação   da   sociedade   entre   as   classes 
sociais. Portanto, a mera constatação de que existe um teor necessário da criação da idéia de família ­ seja 
monogâmica, consangüínea, ou partida de qualquer outra forma de geração dinástica ­ em torno de outros 
pressupostos que formam a sociedade – a propriedade privada e o estado – contribui para o entendimento 
da forma como nossa sociedade passa a se organizar. Com respeito a ambos os autores, deixo aqui o 
registro   das   próprias   palavras   do   segundo   citado   que   podem   nos   escapar   no   interior   de   um   de   seus 
parágrafos: “A ordem social em que vivem os homens de determinada época histórica e de determinado 
país está condicionada por esses dois tipos de produção: de um lado, pelo grau de desenvolvimento do 
trabalho e, de outro, pela família” (ENGELS, s/d).
73

denota que tal festa ocorria “afim de engrandecer a classe operária” e se referiu ainda que 
os operários deveriam seguir até a sede do clube “afim de participarem da festa em honra 
a nossa soberania”. 
Nesse caso, o que se percebe é que essa confraternização entre as duas associações 
operárias foi justificada por sentidos construídos dentro do texto e que são simbolizados e 
materializados em palavras como “honra” e “soberania”. 
Sobretudo,   o   que   se   torna   interessante   discutir   é   que   por   meio   de   um   evento   da 
sociedade   civil   onde   membros   de   associações   operárias   estariam   presentes.   O 
“engrandecimento” da classe operária seria resgatado por meio de valores como “honra” e 
“soberania”.   Sendo   que   isso   seria   ocasionado   perante   a   sociedade   ponta­grossense 
(C.O.C.B, Ata no. 12). 
Todos esses eventos, constituídos e relatados como atividades regulares do Centro 
Operário se oportunizaram na titulação de “eventos cívicos”, tornando a entidade paritária 
de  um  sentimento  com a  nação  pautado no  dever  do  cidadão,  nesse  caso  o  cidadão 
operário, e tendo seu título reproduzido a todo instante em cada uma de suas reuniões de 
forma a perpetuar seu sentido. 
Todas   as   práticas   beneficentes   adquirem  uma   simbiose   com  o   Estado,   a   partir   de 
figuras como o prefeito, e pelo estabelecimento de contatos com o governo do estado70. 
Essa   característica   coloca   o   Centro   Operário   enquanto   cívico,   além   de   sua   auto­
proclamação, mas  também no  contato com o  conjunto  da  sociedade  civil  e  com esse 
Estado.   O   C.O.C.B   enquanto   uma   entidade   operário   no   interior   dos   interesses   da 
sociedade   civil   “afim   de  ali   defender   os   interesses   da   classe   junto   aos   homens   que 
elaboram as leis do Estado” (Op. Cit. Ata 12).
Nessa relação, a ponte estruturada entre um lado e outro se estrutura e se coloca 
como apresentada na narrativa das atas. Essa ponte se estimula acompanhada por um 
tipo   de   sentimento   com   essas   figuras   políticas71,   porém,   ainda   assim,   também   com   a 

70 Quando o caso do telegrama veio a tona, a ata registra na fala de José Deslandes de Souza: “o Centro 
que com a ajuda de outros elementos de valor no seio da classe obreira, havia fundado, se fez e concordou 
com o telegramma de (...) solidariedade do governo do Estado e da cidade representada na pessoa do 
illustre   Dr.   Campos   Mello   [não   fez   aquilo]   com   o   [intuito]   de   tirar   proveito   para   a   sociedade   que   havia 
chegado a fundar e não com o intuito de galgar posição a custa da sociedade e debaixo de seu manto, 
dizendo   mesmo   que   [sua]   posição   (...)   [não   procurou   comprometer]   o   nome   honroso   dos   operários 
dedicados e conscientes que o ajudaram a fundar e levar a frente esse Centro” (Op. Cit. Ata 11).
71  Um   recorte,   que   além   de   compreender   a   isso   e   além   de   corresponder   com   essa   proximidade   de 
membros com personalidades políticas, reforça o apoio do Centro Operário a campanha de Elber Pospissil 
74

bandeira nacional (op. Cit. Ata 24). O patriotismo previsto nessa reação a governantes e 
símbolos nacionais pode se designar em estreitas relações que, segundo a representação 
das atas, se estabelecem além de mediações burocráticas. Aparentemente, o auxílio dos 
governantes parece necessário e esses parecem enxergar como necessário o apoio da 
classe trabalhadora.
Partindo do entendimento da ata, ou seja, do documento escrito pela própria caneta da 
organização   que   representava   os   trabalhadores,   esse   patriotismo   se   produzia   na 
afirmação dos trabalhadores perante o “progresso e a grandeza dos povos”.  Na mesma 
oportunidade,   existe   uma   citação   do   tenente   Alberto   Lopes   do   13o.  Regimento   de 
Infantaria de Ponta Grossa em que esse pede a união dos diretores do Centro Operário. 
Mas, sua fala parece processar uma idéia que vai além, destinando um caminho a ser 
traçado   pelos   próprios   trabalhadores   para   que   esses   “trabalhassem   pelo 
engrandecimento   da   cidade,   do   estado   e   do   Brazil,   ao   qual   deviam   todos   dedicar   os 
maiores sacrifícios pelo seu progresso pela sua grandeza’’ (op. Cit. Ata 02). 
A   presença   de   uma   figura   do   exército   procura   contribuir   na   construção   de   outra 
imagem, aquela da qual tanto se trata nas atas do Centro Operário e que passou a ser 
estudada nesse trabalho, sobretudo, a imagem do trabalhador. Essa representação não 
coloca   os   sacrifícios   como   medidos,   mas   previstos   na   oratória   de   Lopes   como   uma 
oportunidade   de   crescimento   inclusive   do   país.  Um   patriotismo72  produzido   com 
sacrifícios. Esse foi o discurso produzido e apresentado na ata. O sentido que coloca os 
operários perante a nação.
A pronúncia da palavra “progresso”73, citada mais de uma vez nas atas, se apresenta 
como   um   elemento   presente   no   discurso   dessas   figuras.   Entretanto,   qualitativamente 

a Assembléia Estadual. A ata registra as palavras de João Perantunes, que em outra oportunidade havia 
sido opositor ao apoio político do presidente do Centro a Júlio Prestes, complementa o apoio a Pospissil 
pedindo a palavra e dizendo “que se curasse fileira em torno de um só candidato e que o apresentado por 
Curityba para representar todo operariado paranaense era muito digno pois que conhecia­o desde menino” 
(op. Cit. Ata 11).
72 Antes de um conceito moral de patriotismo, dever­se­ia colocar que o sentimento para com a pátria se 
produz a partir de uma ótica de participação social. Recortando uma parte do Dicionário do Pensamento 
Social do Século XX no  verbete “cidadania” esse reflete sobre isso: “uma participação desse tipo, porém, 
depende de forma crucial do aumento dos direitos sociais para proporcionar um nível geral suficiente de 
bem­estar e econômico, lazer e educação, e sem dúvida também de novas formulação do que venha a ser o 
'bem­comum'” (BOTTOMORE; OUTHWAITE. 1996, p. 73).
73 O objetivo desse trabalho não foi conceber um conceito de progresso, aliás, esse parece já ser produzido 
em  si, na fala de  Lopes. Mas podemos entendê­lo com  maior evidência por meio da análise de outros 
autores que estudaram o termo aplicado enquanto discurso da realidade social (SEVCENKO, 1998).  
75

(BARDIN, op. Cit.) existe a finalidade de entender a forma como esse discurso se aplicava 
à realidade. Ultrapassando essa construção da imagem do trabalhador, como numa pose 
de   fotografia,   ou   na   própria   intenção   do   discurso   podemos   entender   as   condições   de 
trabalho a partir da leitura de teóricos que trabalharam essa época e perceber que tais 
sacrifícios, não frisados pelo tenente, podem se relacionar às condições de trabalho de 
uma época em que esses homens e mulheres não possuíam um salário mínimo, não 
eram registrados e ainda trabalhavam em locais de risco à sua saúde e integridade física.
A fábrica, o espaço de produção, que viria para exercer enorme influência sobre o 
espaço urbano, pode ser denunciada hoje pelos seus métodos de organização e também 
por   se   constituírem   como   “laboratórios   secretos”   da   exploração   dos   trabalhadores   e 
elemento de acumulação de riqueza por parte do burguês, seu proprietário. 
Relatos da origem do sistema fabril, muito se assemelham com o que fora relatado 
também   por   Marx   e   Engels  em  “O   Capital”   (MARX;   ENGELS,   1985).   A  ampliação   da 
produtividade   do  trabalho   e   o   processo   de   maquinização   da   fábrica   corriam  de   forma 
paralela à desvalorização da força de trabalho humana. Segundo Hardman e Leonardi: 
“Esse processo acarretava o crescimento do exército industrial reserva e a desvalorização 
da força de trabalho, fazendo com que o setor têxtil, [por exemplo], apresentasse as taxas 
mais baixas de salário, com relação ao vestuário” (HARDMAN; LEONARDI, 1991, P. 135).
Podemos   relacionar   tal   lógica   capitalista   em   Ponta   Grossa   com   a   existência   de 
fábricas na cidade.  Quando liga­se o “progresso” a tais “sacrifícios” que os trabalhadores 
deveriam   passar,   a   paisagem   industrial   e   o   discurso   das   atas   do   Centro   Operário   se 
reservam   além   da   defesa   do   sentimento   patriótico,   mas   também   na   legitimação   a 
exploração   do   trabalho.   Aliás,   naquelas   atas,   parecia   se   constituir   um   discurso   que 
aproximasse o operário, mesmo fora de sua jornada de trabalho, de um tipo de lazer que 
seguisse a lógica do trabalho – um tipo de lazer operário.
Isso nos coloca próximos do relato das atas da festa do 1o. De Maio. Antes desse ser 
um   dia   de   reivindicações   trabalhistas,   ele   aparece   como   dia   de   festa.   Uma   “festa   do 
trabalho”, algo afirmado no texto das atas e reafirmado nas palavras do prefeito de Ponta 
Grossa. Algo que coloca, de certa maneira, o lazer próximo de uma lógica de trabalho, um 
fenômeno   produzido   não   somente   nessa   cidade,   mas   desde   o   início   do   processo   de 
76

industrialização do estado do Paraná74.
O trabalho dignifica o homem? Não foi com essas palavras, mas consta­se que aquele 
militar aparece numa das cerimônias da associação operária procurando uma forma de 
legitimar o trabalho a partir de seu discurso. Um discurso construído no espaço de lazer 
do trabalhador, não no seu local de trabalho. Entretanto, o texto referencia a legitimação 
de uma lógica de  trabalho no lazer do  trabalhador. Logo esse, mesmo  à distância da 
fábrica, tem seu perfil moldado e legitimado na representação de uma sociedade. 
Uma sociedade que ao não medir tais sacrifícios, não coloca no discurso o suor no 
rosto do trabalhador, as suas mãos cobertas de graxa, nem mesmo o seu cansaço... O 
trabalho se torna algo dignificante e que omite esse outro lado.
A imagem dos operários aparece no interior das atas do Centro Operário. Isso ocorre 
como   na   pose   desses   trabalhadores   para   uma   fotografia   na   porta   da   fábrica   –   nos 
rememorando   algum   tipo   de   foto   do   álbum   da   cidade   de   1936.   Aquele   formato   de 
representação   não   possuía   o   interesse   de   considerar   qualquer   defeito   no   corpo   do 
trabalhador. Não considerava nem o suor, a graxa, o cansaço. Não há momento para isso 
nas atas. 
No  caso  dos trabalhadores  representados no  discurso  de  sua principal entidade, a 
representação do ser laborioso, que expurgava também qualquer representação do “homo 
politicus”   daquela   cena,   repreende   também   os   calos   nas   mãos   dessas   mulheres   e 
homens.  
Pensemos a sociedade como um corpo. Se os trabalhadores são parte desse corpo 
físico da sociedade, ocupando o papel dos braços que estimulam a força de trabalho, não 
existe motivo para o incentivo de qualquer conflito ou violência nesse corpo. Um membro 
político dentro desse corpo estaria em discordância com o restante dos membros. 

74 Esse fenômeno de procura de auto­afirmação da identidade do paranaense como um povo trabalhador 
passa a existir a partir do incentivo do movimento paranista em construir o “ser paranaense”. Essa proposta 
se coloca numa tentativa de manifestação do desejo de algumas elites. Segundo Andrea Giménez: “Com a 
representação   do   'paranista',   buscava­se   criar   uma   identidade   universalizante   para   esse   paranaense 
multifacetado   culturalmente,   impondo   a   crença   no   Paraná   e   construindo   um   código   de   comportamento 
relacionado à construção do desenvolvimento do Estado. Construía­se um modelo de paranaense a partir 
da   identidade   “paranista”:   “trabalhador”,   “empreendedor”,   “ordeiro”,   orgulhoso   de   seu   estado,   que,   não 
sendo nativo, se integrava nos “usos e costumes e nas tradições da gente paranaense”. Percebe­se que se 
buscava estabelecer um instrumento discursivo de manutenção e de legitimação do status simbólico das 
elites tradicionais do Estado, assim como de suas relações de poder” (GIMÉNEZ, 2008, P. 4). Além disso, 
essa   auto­afirmação   se   concretizaria   em  outra   oportunidades,   inclusive   na  gestão   do  governador   Paulo 
Pimentel, de 1965 a 1970, quando seu governo de cunho desenvolvimentista tinha como lema: “Paraná – 
Aqui se trabalha”. 
77

Um trabalhador convencido de sua força e de uma missão a ele colocada – sendo 
essa   pautada   no   progresso   e   no   desenvolvimento   –   estaria   facilmente   domesticado   a 
contribuir com a mão­de­obra.
Como produtor de um discurso próprio, o operário político não poderia ser considerado 
produtor de tal conveniência ao corpo social. Estaria em desacordo com o restante desse 
corpo.   Esse   não   se   locomoveria,   seria   como   uma   máquina   com   um   defeito,  não   se 
tornaria eficiente ao momento que a mão­de­obra e os usos dela não seriam legitimados e 
que um de seus membros não estaria convencido de suas funções.
Portanto,   o   desvencilhamento   da   imagem   de   um   movimento   operário   político   e   o 
sentido positivo que acaba sendo colocado à situação de um membro do corpo social 
acaba,   na   realidade,   proporcionando   esse   sintoma   de   conveniência   a   toda   sociedade. 
Isso aparece citado até mesmo no sentido físico (“braço forte”) numa das atas (C.O.C.B. 
Ata   01).   Registra­se,   o   enquadramento75  da   imagem   do   operário   forte   e   interessado 
apenas em construir o progresso da nação mesmo perante seus sacrifícios. 
Essa conveniência resulta no mantenimento de ordens vigentes, dos mesmos grupos 
no poder político e dos interesses sendo concentrados nas mãos desses mesmos grupos. 
A   participação   de   gerentes   de   fábrica,   intelectuais,   empresários   e   políticos   e   outros 
membros da sociedade civil, aparece como um fator que procura sugerir o consenso entre 
as classes sociais na produção do discurso das atas – deixando transparecer a prática 
dessa conveniência.
‘’Assim  definida,  a  coletividade  é   um   lugar  social   que   induz  um  comportamento 
prático   mediante   o   qual   o   usuário   se   ajusta   ao   processo   geral   do   reconhecimento, 
concedendo uma parte de si mesmo à jurisdição do outro’’76 (MAYOL, 1996, p. 27).
Nesse sentido, a conveniência aqui citada é percebida em práticas consensuais, 

75  Um fato que não pode indicar com veracidade, mas que podemos indicar com suspeita pode ser um 
certo elitismo na produção das atas do Centro Operário. Tal constatação se proporciona na possibilidade de 
a maioria dos trabalhadores naquelas reuniões serem analfabetos, fenômeno esse nem sempre constatado 
na maioria dos trabalhos sobre organização operária. Nesse caso, os membros do Centro Operário que 
escreviam as atas, no caso, Affonso Braune e Max Vosgrau, pela intensidade do discurso ali apresentado 
podem inclusive terem sido intelectuais.
76 Ainda segundo Mayol, os indivíduos: “se encarregam de promulgar as 'regras' do uso social, enquanto o 
social é o espaço do outro, o ponto médio da posição da pessoa enquanto ser público. A conveniência é o 
gerenciamento   simbólico   da   face   pública   de   cada   um   de   nós   desde   que   nos   achamos   na   rua.   A 
conveniência é simultaneamente o modo pelo qual se é percebido e o meio obrigatório de se permanecer 
submisso   a  ela:  no  fundo  ela  exige   que  se  evite  toda  dissonância   no  jogo   de  comportamentos,  e  toda 
ruptura qualitativa na percepção do meio social” (Op. Cit. p. 47).
78

sendo essas sim, colocadas aos olhares e à jurisdição do outro. Em um espaço onde era 
previsto que a política geraria polêmica, se torna passivo de entender como as práticas 
recreativas   e   beneficentes   se   enquadrariam   no   interior   do   cotidiano   operário   pela 
influência da participação dos patrões nesse. No dia­a­dia regido por olhares do outro, 
não se tornava interessante qualquer tipo de excentricidade, mesmo que política.

2.6 Considerações Finais sobre a pesquisa – O outro 1o. De Maio, Aniversário do 
Centro Operário Cívico e Beneficente.

Procurei nesse trabalho analisar a experiência dos trabalhadores princesinos a partir 
de   sua   principal   entidade   durante   a   sua   primeira   gestão,   o   Centro   Operário   Cívico   e 
Beneficente entre 1929 e 1930. Além do discurso de censura a assuntos políticos ser 
justificado em estatutos e outros documentos, pude perceber a incidência de divergências 
e conflitos em torno das pautas abordadas pelos membros da entidade.
Analisando a freqüência de palavras e como elas se posicionam no texto, uma análise 
quantitativa   e   qualitativa   irrompeu   a   mesa   do   pesquisador.   A   exemplo   disso,   diversos 
comparativos foram feitos ao modelo como aquele discurso se adaptava à composição 
das atas. Um dos casos foi bem específico e exigiu de minha observação.
A ata da reunião que tratou de uma disputa de futebol chamada Taça Operaria possui 
apenas 3 páginas (C.O.C.B. Ata 13), enquanto a discussão do telegrama que percorreu 
duas   assembléias   possui   cerca   de   19   páginas.   Do   conflito,   surgiram   as   principais 
discussões no interior do Centro Operário, mesmo com essas sendo omitidas, enquanto 
os assuntos cotidianos da entidade aparecem tratados consensualmente77. 
Uma   diversidade   de   posturas   se   colocou   entre   as   práticas   previstas   pelo   Centro 
Operário e ações consideradas nocivas aos interesses da classe operária, a sua união e a 
ordem com que deveriam ser conduzidos os trabalhos assistenciais.
A História cedeu ao encontro de métodos aplicados principalmente por intelectuais de 
outras   áreas.   Além   de   romper   as   fronteiras   disciplinares   da   produção   científica,   uma 
literatura   aqui   poderá   produzir   representações   da   memória   e   até   reescrever   parte   da 
77  No   mais,   a   análise   da   freqüência   de   palavras   e   o   uso   delas   para   entender   o   discurso   podem   ser 
percebidas nos anexos. Nessa parte da pesquisa acabei desvendando a monografia por achar interessante 
que   demais   pesquisadores   percebam   a   forma   como   a   Análise   de   Conteúdo   pode   ser   usada   por 
historiadores e demais cientistas.
79

História Regional – antes de uma ambição em seus objetivos, esse projeto, ao se deparar 
com tais fenômenos, parece ter se transformado em uma mera oportunidade.
Mas antes de mais nada, registro aqui que minha intenção foi escrever uma História a 
partir   da   voz   dos   próprios   trabalhadores.   Todavia,   nos   bares,   nos   trilhos,   nos   asilos, 
nenhum dos meus personagens foi encontrado vivo para relatar o que viu e viveu. Meu 
posicionamento portanto  foi extrair do  documento  as informações  que  ele  dispunha,  a 
fidelidade a um papel escrito significou a fidelidade a essa História.
A   construção   e   a   representação   da   imagem   de   um   operário   cívico   e   beneficente, 
proliferando o subtítulo da entidade. Essa atitude, fazendo jus aos interesses de alguns 
associados se referiu a uma alternativa de ação ao homo politicus. Ainda assim, as atas 
contradizem essa construção de imagem de forma homogênea. No caso, reproduzem 31 
discussões   políticas   enquanto   em   outras   oportunidade   reproduzem   33   discussões   de 
assuntos   cotidianos   (ANEXO   3.3).   Se   esse   esquadrinhamento   do   operário   se   tornava 
presente   no   discurso,   por   outro   lado,   as   discussões   políticas   apareciam   como   uma 
tentativa de remodelar essa imagem construída. Ou seja, o discurso que impregnou e que 
se materializou na tinta das atas foi recebido com um processo de resistência – o caso de 
Affonso Braune registra esse processo mesmo dentro do ambiente da fábrica.
A cada linha do texto não se apresentou nenhuma resposta determinante a História. 
Coloca­se   aqui   uma   modalidade   de   finalização   da   pesquisa.   Onde   apresento   minhas 
considerações finais, procuro concluir o trabalho, e também relatar a ata que reafirma 
todos os fenômenos percebidos no decorrer do primeiro ano do Centro Operário.
Sessão   Solenne,   Primeiro   Aniversário   do   Centro   Operário   Cívico   e   Beneficente   e 
eleição da sua Segunda Diretoria, 01o. De Maio de 1930: Seguindo os indicativos que as 
fontes disponibilizam, algumas conclusões podem ser tomadas, todavia, o trabalho possui 
por finalidade colocar aqui uma série de questionamentos encima do objeto. Todos esses 
questionamentos, resultantes  do  esforço  que  a pesquisa  delimitou, foram parcialmente 
aqui apresentados apareceram para mim recolados a partir da análise da Ata No. 24 da 
associação – designada a relatar a Sessão Solene do 1o. Aniversário do Centro Operário 
Cívico e Beneficente e a posse da sua 2a. Diretoria78.
  Com   tal   tonalidade,   a   última   tarefa   da   primeira   diretoria   daqueles   “Homens   do 

78 O texto integral dessa ata encontra­se no ANEXO 3.5.
80

Trabalho”,  ou   seja,   o   descerramento   de   sua   gestão   e   a  transferência   dos  poderes   da 


associação   operária   a   segunda   diretoria,   é   usado   nas   linhas   dessa   monografia   para 
sintetizar os fenômenos ocorridos dentro da entidade.
A construção do discurso no interior do texto dessa ata não transige em  relação ao 
teor   das   outras.   Sua   delimitação   também   foi   específica   ao   simular   a   realidade   à   sua 
maneria, refletindo a representação do operário a partir dos olhos de quem os observou. 
O punho do secretário, nesse sentido, argumentava o reflexo que a associação possuía 
sobre o ser operário, ou pelo menos parte dela, possuía.

Segui­se­lhe   com   a   palavra   o   Sr.   Walfrido   R.   De   Almeida   Presidente   recem 


empossado que agradecendo a indicação do seu nome verbejou a necessidade 
incondicional do apoio de todos os componentes do Centro, para assim, unidos e 
fortes, chegarmos ao alvo que tanto almejamos (C.O.C.B, Ata No. 24).

Esse   recorte   descreve   a   fala   do   recém   empossado   presidente   e   reafirma   a 


necessidade   de   união   e   força   dos   operários.   Algo,   aliás,   reafirmado   em   uma   parte 
considerável das solenidades do Centro Operário. O que se torna importante é perceber o 
caráter que a repetição produz ao conjunto do discurso da entidade em um ano. 
União e força, “a União faz a força” rememora o lema da Revista Operária, publicação 
operária que procurava demonstrar a necessidade de organização dos trabalhadores. A 
fundação   de   uma   nova   entidade   que   representasse   a   voz   dos   trabalhadores   se 
apresentava como uma necessidade nas palavras dos intelectuais que produziram aquela 
publicação. Um discurso quando aparece afirmando uma necessidade, se instaura em 
oportunidades onde tal necessidade não se aplicava à prática social da entidade que o 
representa.
Permito­me a repetir em mais uma oportunidade as palavras do jornalista Hugo dos 
Reis,   modeladas   na   Revista  publicada   pelos   mesmos   fundadores   do   Centro:   “Se   o 
operariado ponta­grossense quiser alcançar algum progresso na vida social, é mister que 
se uma, porque governo algum dará ouvidos a uma classe que não tem organização’’ 
(Revista Operária, op. Cit.).
Então   os   pressupostos   dessa   reafirmação   nos   permitem,   80   anos   depois,  um 
questionamento. A repetição da necessidade de união não indicaria os operários ainda 
não   estavam   unidos   e   organizados   em   torno   de   suas   reivindicações?   Isso   negaria   a 
81

afirmação   de   outros   membros   que   pronunciavam   em   reuniões   e   assembléias   da 


associação operária que o operariado ponta­grossense era unido.
Sobretudo, a leitura do produto final da pesquisa deve ser passiva do entendimento da 
minha subjetividade sobre o objeto e da compreensão da metodologia proposta adaptada 
aos   usos   do   trabalho.  O   meu   encontro   com   tais  ferramentas  produziu   o   produto   aqui 
apresentado.   Portanto,   após   o   caso   do   telegrama,   após   a   perseguição   de   membros 
politizados, um outro caso chama a atenção nessa ata.
Disponho­me ainda a apresentar mais uma ocorrência que desmistifica tal união, pelo 
menos   total,   daquele   conjunto   de   operários.   Demonstrando   que   em   torno   de   alguns 
eventos, nem todos estavam dispostos a participar

O presidente leu o relatorio referente ao anno da sua gestão e bem assim um 
pequeno   relatorio   a   thesouraria;   chamou   os   novos   directores   eleitos   foram 
formando posse com excepção do Sr. João Ferigotti eleito presidente honorário 
que   resignou   no   momento   de   empossar­se.  Dada   a   palavra   ao   Sr.   Adejamiro 
Cardon orador official da Directoria que deixava o mandato, essê referiu­se sobre 
o progresso da Sociedade e desculpou­se para com a assistencia e renuncia do 
Sr. João Ferigotti do cargo para o qual fôra eleito (op. Cit.).

Percebe­se que o motivo não fora especificado nem relatado. Entretanto, anos após 
esse caso, João Ferigotti também aparece em outro evento procedente a esse onde foi 
expulso do Centro e logo após preso. Algo já relatado por demais pesquisadores e que 
mostra o rechaçamento da tradição política pelo Centro Operário: 

Um exemplo disso ocorreu em julho de 1932, quando alguns ponta­grossenses 
foram presos e mandados a Curitiba, acusados de subversão. Entre os presos 
estavam o professor Erasmo Pilotto, o barbeiro Oscar Lima e João Ferigotti (…). 
Logo após a prisão, o Diário dos Campos saiu em defesa do Centro, escrevendo 
um artigo denominado “O Centro Operário Cívico e Beneficente está dentro da lei, 
da ordem e do bom senso”, no qual ressaltava que a atuação do Centro estava 
exclusivamente voltada para as ações assistencialistas (CHAVES, 2006, p. 82).

Não cabe aqui colocar convicções próprias e afirmar com veemência o que foi que 
realmente   aconteceu   em   1929,   mas   a   ausência   de   João   Ferigotti79,   eleito   presidente 
79 Segundo o Dicionário Histórico e Geográfico dos Campos Gerais, Fergotti “nasceu em Castro no dia 20 
de março de 1888, filho de Nicolau Ferigotti e Augusta Müller Ferigotti. Quando da construção da Catedral 
princesina, sua família transferiu­se para Ponta Grossa, pois seu pai foi o arquiteto responsável pela mesma 
82

honorário do Centro Operário, pode ter motivos muito próximos dos apresentados acima 
pelo  próprio  jornal  Diário  dos Campos – ou seja, pensando  em possibilidade, um dos 
principais   fundadores   da   entidade   poderia   não   estar   totalmente   de   acordo   com   tais 
eventos ou com as finalidades assistenciais proporcionadas a ela. O jornal ainda afirmava 
que uma parcela reduzida de sócios possuía crenças políticas, mas que isso não era 
motivo para atacar o Centro Operário.
A   entidade   preparou   uma   cerimônia   cercada   de   diversos   convidados   que 
ocupavam a mesa principal da recém­fundada sede do Centro Operário – localizada no 
Largo Professor Colares. Logo após passeata pela cidade, os membros da entidade foram 
recebidos ao som da Banda Lyra dos Campos e perante a bandeira nacional flamulando 
logo após ser hasteada no mastro da sede.
O impacto daquele momento parece tentar ser descrito pela ata em questão. A 
solenidade foi aberta por Leonor Braga, Rainha dos Operários. De seu pronunciamento 
nada foi relatado nas atas, provavelmente o secretário não observou importância na sua 
fala – ao contrário do que aparece perante os demais oradores da cerimônia, sendo que 
esses eram homens.
Perante   143   presentes   na   cerimônia   “de   todas   as   classes   sociaes”   e   perante 
ocupantes de lugares distintos como “S. M. Anna Varigt Rainha do Commercio, Sta. Lucia 
Dechandt, O Sr. Capitão representante do 13o. R. De Infantaria, O Sr. Alberto Lopes, (…) 
e   outras   pessoas   fradas”,   discursaram   Adejamiro   Cardon;  Walfrido   R.   De   Almeida, 
presidente recém­eleito; Manoel de Oliveira, eleito ao Conselho Fiscal; José Deslandes de 
Souza, presidente que entregava o cargo após ganhar apenas 10 votos favoráveis à sua 
reeleição   contra   121   de   Almeida   (C.O.C.B,   Ata   22);   e   representantes   de   demais 
associações.
Sua última ação como presidente apenas foi descrita como um “longo discurso”, 
isso após receber sua fotografia publicada na sede do Centro. Enquanto que a fala de 
Oliveira se pautou na defesa daquele “programma social” até ali desenvolvido, ou seja, 
aparentemente, colocando as atividades do Centro Operário em torno dos espectadores 

nossa cidade foi fundador e presidente­honorário do Centro Operário cívico Beneficente e sócio­fundador da 
Sociedade Beneficente Germânia, hoje Clube Princesa dos Campos. Além disso contribuiu enormemente 
com Jacob Holzmann quando da Fundação do Jornal "O Progresso". Também era músico e foi um dos 
componentes da Banda Lyra dos Campos. Após a morte de seu pai ­ primeiro administrador de Cemitério 
São José ­ substituiu­o nesta função até a sua própria morte” (UEPG, 2009).
83

daquele momento – no caso, além dos próprios operários, suas famílias que receberiam 
as finalidades da assistência da entidade.
A reprodução desse discurso além de significar a função social do Centro Operário, 
colocava o operário em torno da beneficência e dos desfrutes do seu lazer. Nenhuma 
atitude daqueles homens e mulheres fora discriminada nas atas, a não ser suas ações 
políticas. A imagem construída daquele ser operário estava desde a fachada do Centro 
até suas finalidades, seja ele cívico e beneficente.
A bandeira que flamulava naquele prédio poderia simbolizar algo além do sentimento. 
Arrisca­se pronunciar aquele como um símbolo de poder reproduzido nas insígnias dos 
militares   presentes   no   evento   da   entidade   operária.   O   apaziguamento   ali   de   nada 
lembrava algo parecido com o conflito das ruas, localizado nas greves, entre o movimento 
operário   e   o   exército   –   recordando   que   Ferigotti   não   se   dignou   a   presenciar   aquele 
evento.

FIGURA 11 ­ Sede do Centro Operário Cívico e Beneficente (PREFEITURA, 1936).

Aquele   1o.   De   Maio   não   era   o   dia   do   trabalhador   politizado   como   em   outros 
momentos.   Aquele   1o.   De   Maio   reafirmava   a   salvação   dos   operários   pelo   discurso 
assistencialista,   pela   imposição   do   patriotismo,   por   um   outro   papel   da   mulher,   pela 
procura do respeito perante as outras entidades operárias e clubes locais.
84

Uma   modalidade   de   organização   operária   ali   se   apresentava,   colocava   os 


trabalhadores em concordância a um papel social determinado. Sendo que em algumas 
cerimônias   estavam   presentes   os   representantes   do   poder   instituído   política   e 
economicamente.
Os  sintomas  de   desunião   em  torno   de   assuntos políticos parecem  ter produzido   a 
fisionomia de uma classe desorganizada politicamente. Mesmo que a organização, nem 
sempre tenha de ser a finalidade da classe operária isso deve ser diagnosticado aqui. Nas 
relações   de   poder,   isso   não   só   pôde   desfavorecer   as   reivindicações   políticas   de   uma 
classe, como pode favorecer os interesses de outras classes. E como indicado, membros 
dessas outras classes estavam presentes na fundação do Centro Operário como também 
em solenidades de alcance social e não apenas classista.
A união dos trabalhadores, aliás, se apresentava no discurso muito mais direcionada a 
práticas como o futebol do que em eventos que entornavam a política. Foi dessa forma 
que as atas descreveram os trabalhadores, seu relacionamento numa entidade, eles se 
viam como classe, em seus valores construíam uma concepção de “verdade” moral. 
Essa diferenciação ainda permitia patrões e operários conviverem no mesmo ambiente 
e decidirem o que seria a classe operária. Joaquim Wirruez, mesmo sendo gerente da 
madereira e exportadora Sonyra, convivia no Centro Operário aceitando essas práticas. 
Inclusive aparece como ocupante do cargo de porta­voz dos funcionários da empresa que 
parcialmente possuía mais membros na associação (ver ANEXO 3.1.).
Fica   perceptível   a   participação   de  uma   ascendente   classe   pequeno­burguesa   e   de 
membros   do   poder   político   instituído   nessa   entidade.   Política,   aliás,   somente   não 
permitida   aos   trabalhadores.   Esses   se   organizavam   para   apoiar   a   candidatura   de   um 
semelhante   ao   cargo   deputado   somente   a   “portas   fechadas”.   A   negação   do   operário 
político serviu também para entender as suas finalidades assistenciais e mutuais. Obras 
sociais   naquele   contexto   político   significavam   uma   forma   de   barrar   o   avanço   do 
comunismo enquanto política.
85

FIGURA 12 – Palanque montado na chegada de Vargas a Ponta Grossa (1930).
FONTE: Casa da Memória Paraná

FIGURA 13 – A população ponta­grossense no momento do discurso de Vargas (1930).
FONTE – Casa da Memória Paraná
86

Um   fenômeno   parecido   em   outras   entidades   operárias   pelo   Brasil   já   foi   muito 


apresentado por diversos pesquisadores e não vem ao caso retornar essa discussão aos 
leitores nesse momento. O silêncio aos membros políticos do corpo operário, da classe 
operária princesina no interior do Centro Operário, como um todo, significou algo além de 
uma mera despolitização – e nem acredito que esse termo se aplique a realidade ­, mas 
uma busca de apoio aos símbolos nacionais, aos círculos familiares e ao exercício da 
mão­de­obra.
A aceitação daquele homem, do mito, trajado de militar, abraçado ao verde e amarelo 
da bandeira nacional, respaldado por toda simbologia de um país. Fora ele apoiado por 
Ponta  Grossa   em  sua  travessia   sobre  o  desenvolvimentismo  dos trilhos...  A vitória   de 
Getúlio Vargas foi anunciada no instante em que ele aqui se encontrava. A Capital Cívica 
do Paraná, proclamada pelo próprio Vargas devido a sua vitória na Revolução de 193080. 
Isso não são novas aqui contadas para apenas distrair ou espantar o público.
Somente posso demonstrar que esse espetáculo poderia estar sendo preparado. O 
Centro   Operário   Cívico   e   Beneficente   mostrou   em   suas   atas   e   em   seu   nome   que   a 
ambição e busca de parte da cidade por esse título de civismo não era nenhuma novidade 
em   03   de   Outubro   de   1930.   Até   os   dias   atuais   existe   um   busto   de   Vargas   nas 
dependências da sua atual sede.
Esse   corpo,   uma   classe   representada   no   papel,   parecia   elaborado   para   outros 
acontecimentos procedentes que por delimitação do recorte temporal não puderam ser 
objeto dessa pesquisa. Não coloco isso como uma falha, demais questionamentos podem 
ser colocados, o Centro Operário pode ser objeto de demais pesquisas daqui para frente, 
por demais pesquisadores.
A   esperança   é   de   que   a   minha   conclusão   no   curso   de   História   contribua   para   a 
produção do conhecimento e, sobretudo, para a sociedade que pode me manter nessa 
instituição chamada Universidade. Entretanto, essa só pode se tornar realidade com o 
empenho das gerações futuras de historiadores que eu vejo por esses corredores.

80 Hardman e Leonardi consideram que ‘’tem­se aberto a brecha para a aceitação da análise que alçou o 
governo   Vargas  como   ‘progressista’,   o  direito  trabalhista  como   ascensão  vinda   de  cima   e   os  sindicatos 
construídos pelo Estado burguês como organismos do movimento operário’’ (HARDMAN; LEONARDI. Op. 
Cit. P. 172).
87

3. ANEXOS
3.1 Plataforma: Trabalhadores por suas devidas categorias de trabalho e suas 
ocupações.
Livro de Mensalidades
Trabalhadores – Categoria Qtde.
Aut ônomos
Caroceiro 1
Encanador 1
Enxadeiro 1
Jardineiro 1

Artesanato/Carpintaria
Marmorista 1

Bebidas, Gasosas e Cervejas
Cervejaria Adri ática 13

Beneficiamento de Carne, A çougues
Açougue Fanuchi 2
Cortume Hatchbach 2
Fábrica de Banha 1
Frigor ífico  9
Matadouro 1
Sellaria Enidia 2

Beneficiamento de Erva Mate
Engenho de Erva 1
Ervateira 5

Com ércio
Casa Alberto Ansbach 1
Casa B. Alves 1
C. F. Faintink 5
Casa Inthon 4
Casa Irm ãos Ditzel 13
Casa Jacob 1
Casa J. Bach Cia. 1
Casa Justus 1
Casa Osternak 3
Casa Pontagrossense 1
Casa Progresso 2
Casa Roni 1
Livraria Modelo 5

Costura, Ind ústria T êxtil


Malharia 1
Singer 3

Defesa Militar, Ex ército
Tenente 1

Entretenimento e Lazer
Bar 1
Cine Teatro  Éden 2

Explosivos e Fogos de Artif ício
Fábrica de Fogos 8

Ferrovia
Armaz ém 4
Bilheteria 1
Estrada 15
Hospital 3
Telegrapho 1

[continua]
88

3.1 Plataforma: Trabalhadores por suas devidas categorias de trabalho e suas 
ocupações.
[continuando]
Funer ária
Funer ária 3

Hotelaria
Hotel Martins 1

Imprensa
Di ário dos Campos 1
Gazeta do Povo 1
Tipographia Modello 1

Lavanderia e Tinturaria
Tinturaria 3

Madeireiras, Serrarias
Carpintaria Bodenbach 1
Madeireira Exportadora Sonyra 56
Off. Marcenaria Plonka 7
Serraria Cruzeiro 23
Serraria Lurdes 7
Serraria Ollinda 17

Mec ânicas e Revendedoras de Autom óveis


Ag ência FORD 10
Officina Chevrolet 14
Officina Mechanica 2

Moinhos e Beneficiamento de Farinha
F. Farinha 11
Moinho S. Jo ão 2

Oficinas e Metal úrgicas
Ferraria Pedro Souza 1
Fundi çã o Perli 2
Funilaria S. Mattos 1
Off. Cunha 3
Off. Jo ão Holzman 1
Off. Pontagrossense 4
Off. Z é Miara 1

Olarias
Olaria Moro 2

Poder Judici ário
Fórum 3

Prefeitura
Escrit ório 3
Fiscal 1
Trafego 1

Usina, Fia çã o, Eletricidade
Cia. Prada 5
Uzina Pitangui 3

Zona Rural
Col. Moema 1
Fazenda Modelo 3

Outras/Categoria n ão identificada
A. Nacional 1
Carvalho Oliveira 1
Fca. Antunes 1
Fca. Christ Justus 1
Fab. Cometa 1
Fab. Chuchene 1
Fab. Lili 1
F. Royal 2
F. S. Jos é 4
F. Princeza 3
Fab. Ribas 4
Irm ãos Barretos 1

Total
90 336*

*Entre os 1148 trabalhadores registrados no Centro Operário, apenas 336 colocaram suas devidas 
funções.
89

         3.2 Gráfico: Trabalhadores por suas devidas categorias de trabalho e suas 
ocupações.

Trabalhadores

Irmãos Barretos
F. Royal
Fca. Christ Justus
Outras/Categoria não identificada
Zona Rural
Usina, Fiação, Eletricidade
Escritório
Poder Judiciário

Off. Cunha
Oficinas e Metalúrgicas
Moinhos e Beneficiamento de Farinha
Agência FORD
Serraria Lurdes
Carpintaria Bodenbach
Lavanderia e Tinturaria
Diário dos Campos
Estabelecimento

Hotelaria

Bilheteria
Fábrica de Fogos
Bar
Defesa Militar, Exército
Costura, Indústria Têxtil
Casa Progresso
Casa J. Bach Cia.
C. F. Faintink

Fábrica de Banha

Marmorista
Enxadeiro
Trabalhadores – Categoria
0 10 20 30 40 50 60

  
90

   3.3 TABELAS: Plataformas usadas para Análise de Conteúdo.      
     3.3.1    Núcleo de Sentido: Política.
Núcleo de Sentido Ata Data Sessão Páginas Palavra 1 Palavra 2 Palavra 3 Palavra 4 Autor
POLÍTICA No. 02 01o. De Maio de 1929 Solene – Funda
ç ão 4 ''comum accordo'' 'Estado'' ''Paiz'' Affonso Braune – 1o. Secret
ário
'Prefeito''
No. 05 23 de Junho de 1929 Assembléia – 3a. Chamada 4 'alistamento'' 'deveres cívicos'' 'eleiç ões'' 'Artigo 72'' Adejamiro Cardon – 1o. Orador

No, 10 18 de Agosto de 1929 Assembléia – 2a. Chamada 4 ''Walfrido Pilotto'' ''academico'' ''socio benemerito'' 'relevantes serviços''

'maioria'' 'política'' 'explicação'' ''Colluna Operaria'' João Perantunes – Vice­presidente do Conselho Fiscal


'telegrama'' ''assumptos politicos'' 'bom nome'' João Perantunes – Vice­presidente do Conselho Fiscal
No. 11 25 de Agosto de 1929 Assembléia – 3a. Chamada 15 'telegrama'' ''Julio Prestes'' 'candidatura''
'telegrama'' 'classe obreira'' ''Elizeu Campos Mello'' 'nome honroso'' José Deslandes de Souza – Presidente
telegrama'' ''Julio Prestes'' 'Presidente'' 'grande trabalhador'' Adejamiro Cardon – 1o. Orador
telegrama'' 'renúncia'' José Deslandes de Souza – Presidente
chave do ouro' sede' 'Prefeitura''

No. 11 (?) 25 de Setembro de 1929 Extraordinária 5 'deputado'' 'Congresso'' 'operário batalhador'' ''Elbe Pospissil'' José Deslandes de Souza – Presidente


''Walfrido Pilotto'' 'sócio benemérito'' 'conclusão'' 'agradecimento''
'votação'' 'censura'' 'união'' 'deveres cívicos'' João Shmidt Filho
No. 12 24 de Outubro de 1929 Extraordinária 3 votação'' 'cédulas'' 'interesses de classe'' ''Elbe Pospissil'' José Deslandes de Souza – Presidente
'ofício'' ''Affonso Camargo'' José Deslandes de Souza – Presidente
No. 15 05 de Dezembro de 1929 Reunião 1 ''Walfrido Pilotto'' 'delegado especial'' 'tese'' Máximo Leopoldo Arruez – 2o. Orador
No. 16 20 de Dezembro de 1929 Reunião 2 'agradecimento'' Major Bernardo'' 'Augusto Cunha'' João Ferigotti – 1o. Tesoureiro
No. 17 01o. De Janeiro de 1939 Solene 3 Prefeito'' Rainha dos Oper ários'' ''Elizeu Campos Mello'' 'famílias''
'sociedades cong êneres'' 'solidariedade'' 'prosperidade''
No. 18 14 de Janeiro de 1930 Extraordinária 'eliminação'' ''Affonso Braune'' ''ideias politicas'' Artigo 72'' Joaquim Wirruez – Gerente da Sonyra
No. 19 21 de Janeiro de 1930 Extraordinária 2 ''Walfrido Pilotto'' delegado'' 'convenção''
eliminação'' ''Affonso Braune'' motivos conhecido'' Artigo 72''
No. 22 06 de Abril de 1930 Assembléia  7 'desacato'' 'José Deslandes de Souza''''Adejamiro Cardon'' 'confusão'' João Shmidt Filho
No. 23 11 de Abril de 1930 Reunião 4 ''conferencista operario'' 'Juvenal Santos'' 'Conferência'' 'patrocínio''
No. 24 01o. De Maio de 1930 Solene – Anivers
ário 3 'posse'' 'Rainha dos Oper ários'' ''Rainha do Commercio'' 13o. R. De Infantaria''
resignação' renúncia'' João Ferigotti' Presidente Honorário'' Adejamiro Cardon – 1o. Orador
operários'' 'unidos e fortes'' ''programma social''
'Sociedades oper árias'' 'saudações de estilo''

          3.3.2 Núcleo de Sentido: Beneficência
Núc l e o   d e   S e n t i d oA t a D a ta S e ãos s Pág i n a s P a l a v r a   1 P a la v ra  2 P a l a v r a   3P a l a v r a   A4 u t o r
B E N ÊN
E FC I ICA N o . 0 2 01o .   D e   M a i o   Sd eo  l e1 n9 2e 9 ç–oã  F u n d a 4'b e m   e s t a r '' 'c l a s s e   o p e r a r i a   l'mo c oar la'' l '' 'm a t e r i a l mA fef on nt es o   B r a u árn ieo   –   1 o .   S e c r e t
N o . 0 4 16  d e   J u n h o   d Ae  s 1s 9eéi2am9 b l 2'E s c o l ára i aO'' p e r 'v a n t a g e n s '' P ro fe s s o r  R o b e rto   M o n g ru e l
N o . 0 5 23  d e   J u n h o   d Ae  s 1s 9eéi2am9  –b  l 3 a .   C h a m a d a4 ''p e c u l i o '' 'sóc i o s   m u t u a i s ''
N o . 0 9 12  d e   A g o s t o   Ad es  s1eéi9am2 9b l 1'E s c o l a '' 'i n a u çgoãu''r a J oé sD e s l a n d e s   d e   S o u z a   –   P r e s i d e n t e
N o . 1 3 24  d e   N o v e m bE r ox  t dr aeáro i a1r d9 i 2n 9 2''b e n i f i c e n c i a '' 1 9 3 0 Máx i m o   L e o p o l d o   A r r u e z   –   2 o .   O r a d o r
''C o mão i sd se   B e n e f i c e n c i a ''
N o .   1 6 2 0   d e   D e z e m bRr oe ão udnei   1 9 2 9 2'méd i c o '' ''p h a r m a c i a '' J oé sD e s l a n d e s   d e   S o u z a   –   P r e s i d e n t e
N o .   1 7 0 1 o .   D e   J a n e i Sr o o  dl een  1e 9  –2éi  9aA s s e m b l 3''b e n i f i c e n c i a '' ''i n s t a l l a d a '' 'u n i d o '' 'f o r t e '' J oé sD e s l a n d e s   d e   S o u z a   –   P r e s i d e n t e
'E s c o l a '' A d e ja m ir o   C a r d o n   –   1 o .   O r a d o r
N o .   2 0 2 1   d e   f e v e r e i r oE   xd ter  aár1oi9ar 2d 9i n 2''P o l i c l i n i c a '' A n t o n io   B a c it a   –   D ir e t o r   d a   P o lic l in i c a   P o n t a g r o s s e n s e
'a u m e n t o '' 'D Cr .  a r l o s   R i b e i r o   'nd eo  bMr ea   cf ae cd uo l t a t i v o ''J oé sD e s l a n d e s   d e   S o u z a   –   P r e s i d e n t e
91

3.3.3 Núcleo de Sentido: Lazer
Núc l e o   d e   S e n t i d o A ta D a ta S e sãos Pág i n a s P a la v ra  1 P a la v ra  2 P a l a v r a   3 P a l a v r a   4 A u to r
LAZE R N o . 0 2 1 o .   d e   M a io   d e   1 S9 2o 9le n e   –  çFãou n d a 4 'f e s t a '' 'h o m e n s   d o   t ra'1b oa .lh  Do e''   M a i o '' E liz e u   d e   C a m p o s   M e ll o   –   P re f e i t o
N o . 0 3 0 2   d e   J u n h o   d e   1A9 s2 s9 e éia
m bl 2 'd oçaão '' '5 0   v o lu m e s ''
N o . 1 2 2 4   d e   O u t u b ro   d eE  1x 9t ra2 9oária
r d in 3 'A s s oçcãoia  H o m e n s   d o   T r a 'hb ao lnhrao '''' 's o b e ra n ia '' J o é s D e s la n d e s   d e   S o u z a   ­   P r e s id e n t e
N o . 1 3 2 4   d e   N o v e m b ro  Ed xe t  ra1 9oária
2r 9d in 2 'T çaa   O p e r a r ia '' ''f u t e b o l l'' ''c lu b e s   s o c ia'ceas ix'' a   d o   C Je oné st rDo e'' s la n d e s   d e   S o u z a   –   P re s i d e n t e
's e sãos   ícv i c a '' J o é s D e s la n d e s   d e   S o u z a   –   P re s i d e n t e
N o .   1 6 2 0   d e   D e z e m b ro  Rd e u ão1n9i 2 9 2 'T çaa   O p e r a r ia '' 'n o m çeãoa '' J o é s D e s la n d e s   d e   S o u z a   –   P re s i d e n t e
N o .   1 7 0 1 o .   D e   J a n e i ro   dS eo  le
1 9n 3e0  –   A éis as e m b l 3 'f a mília s ''
N o .   1 9 2 1   d e   J a n e i ro   d e  E1 x9 t3ra0 oária
r d in 2 'liv r o s ''
N o .   2 3 1 1   d e   A b r il  d e   1 9 R3 0e uãon i 4 'f e s t e jo s   c o m m e m o ra t i v'Do sia''   d o   T r a b a l h'1oo'' .   D e   M a i o '' J oão   F e rig o t t i   –   1 o .   T e s o u re iro
N o .   2 4 0 1 o .   D e   M a io   d e  S1 o9 le
3 0n e   –   Aárnioiv e rs 3 a n iv eário
rs ' 'p o s s e '' '1 o .   d e   M a io ''

3.3.4 Tabela 4. Núcleo de Sentido: Manutenção/Cotidiano
Núcleo  d e S en tido Ata Data S essão Páginas P alavra 1 Palavra 2 P alavra 3 P alavra 4 Autor
M A NUTEÇÃO
N (s em núm ero) 12 de M aio de 1929 Reunião ­ Com iss
ão do E s tatuto 2 'E s tatuto''
No. 05 23 de Junho de 1929 A s s em bl
éia 4 'E s tatuto'' 'aprovaç ão''
c ondiç ões  financ eiras '' 'óptim as '' J oão Ferigotti – 1o. Tesoureiro
No. 06 04 de Julho de 1929 Reunião 1 ''c omissão de  sindic anc ia''
No. 07 21 de Julho de 1929 E x traordinária 2 'S ecretário'' 'Substitui ção''
No. 08 24 de Julho de 1929 Reunião 2 ''illum ina
ç ão'' 'Clube P aranaens e''
No. 11 25 de Agosto de 1929 A s s em bl
éia 3a. Conv ocção
a 15'S ubs tituição'' 'Conselho F is cal'' 'bom  nom e'' J osé Des landes  de S ouza – P resident e
'desres peito'' 'lei s ocial'' 'es tatuto'' 'm archa v itorios a''J osé Des landes  de S ouza – P resident e
Livro de Ouro'' J osé Des landes  de S ouza – P resident e
No. 11 (12) 25 de Setem bro de 1929
E x traordin
ária 5 'm em bros  faltando'' A lbino Wiec hetec k – Pres idente  do Conselho  Fis cal
''E s tatutos s oc iaes'' 'cópias'' 'Com is ãso de Rev is
ão'' J osé Des landes  de S ouza – P resident e
'reuniões '' Clube Paranaense''
No. 13 24 de Nov em bro de 1929
E x traordin
ária 2 'bom andamento'' J oão Ferigotti – 1o. Tesoureiro
'S ubs titui
ção'' J oão Ferigotti – 1o. Tesoureiro
No. 14 28 de Nov em bro de 1929
E x traordin
ária 4 S ubs tit ui
ção'' A lbino Wiec hetec k – Pres idente  do Conselho  Fis cal
''F ord'' 'rifa'' J osé Des landes  de S ouza – P resident e
'm ens alidades '' 'ofíc io'' Máx im o Leopoldo A rruez  – 2o.  Orador
S ubs tit ui
ção''
No. 15 05 de Dez em bro de 1929
Reunião 1 'Cons elho Fisc al'' A lbino Wiec hetec k – Pres idente  do Conselho  Fis cal
m ens alidades'' 'talões  de c obran
ça'' J oão Ferigotti – 1o. Tesoureiro
No. 16 20 de Dez em bro de 1929
Reunião 2 'Regulam ento  interno''
''photografia'' 'pres idente'' A dejam iro Cardon – 1o. O rador
No. 17 01o. De  Janeiro de 1930
S olene – A s seméia
bl 3 'c ondiç ões  financ eiras'' 'chave de ouro'' J oão Ferigotti – 1o. Tesoureiro
m ens alidades'' 'sus pens ão da benefic
ência'' J osé Des landes  de S ouza – P resident e
No. 18 14 de Janeiro  de 1930E x traordin
ária 'm ens alidades '' ''Sonyra'' J oaquim  Wirruez  – Gerenta da S erraria S onyra
No. 19 21 de Janeiro  de 1930E x traordin
ária 2 'propos ta'' J oaquim  Wirruez  – Gerenta da S erraria S onyra
'elim inaç ão'' J oão S hm idt Filho e D
ário  Cardon
No. 21 16 de M ar
ço de 1930 A s s em bl
éia E xtraordin
ária 1 'es tatuto'' ''nov a direct oria'' 'eleiç ões '' J osé Des landes  de S ouza – P resident e
No. 22 06 de Abril de 1930 A s s em bl
éia 7 'es tatuto'' 'ordem '' 'v otaç ão'' 'tesouraria''
No. 23 11 de Abril de 1930 Reunião 4 'pagam ento'' 'médic o'' ''S am uel S tark '
'gesto elogios o'' 'donativo'' ''S am uel S tark ' ''bella acç ão'' S am uel S tark
No. 24 01o. De  Maio de 1930 S olene – A niv ers
ário 3 'poss e'' ''nov a direct oria'' 'relatorio'' tesouraria'' J osé Des landes  de S ouza – P resident e
92

3.4 Fotografias

FIGURA 14 – Capa do Livro de Inscrição de Sócios

FIGURA 15 – Relação de associados no Livro de Mensalidades
93

FIGURA 16 – Assinatura do presidente José Deslandes de Sousa no carimbo do C.O.C.B

FIGURA 17 – Antiga sede do Centro Operário
94

FIGURA 18 – Símbolo do Centro Operário Cívico e Beneficente talhado em pedra
95

3.5 Texto Integral da Ata de posse da 2a. Diretoria
 
Ata no. 24
Sessão Solene d 1o. Aniversário do Centro Operário Cívico e Beneficente e da posse da sua 2a. Diretoria
.1o. De Maio de 1930

''Às 9 horas da noite após grande passeata desta Sociedade, fechada pela Banda musical Lyra dos 
Campos onde imperava o Estandarte Brasileiro, deu entrada na Sede a Directoria acompanhada de grande 
multidão de pessoas de todas as classes sociaes. O recinto que estava (…) ornamentado e [illuminado], já 
se achava compacto de socios sociaes, e cavalheiros, senhoras e senhoritas estranhos ao Centro, embora 
o livro presencias accuse sãosomente o registro de 143 comparecimentos.
Logo   a   Directoria   formou   os   seus   lugares   na   meza   que   para   este   acto   foi   collocada   no   palco, 
tomando tambem lugares distintos S. M. Leonor Braga Rainha dos Operários, S. M. Anna Varigt Rainha do 
Commercio, Sta. Lucia Dechandt, O Sr. Capitão representante do 13o. R. De Infantaria, O Sr. Alberto Lopes, 
os representantes de diversas associações e outras pessoas fradas.
Abriu a Sessão Solenne a Sta. Leonor Braga Rainha dos Operarios.
O presidente leu o relatorio referente ao anno da sua gestão e bem assim um pequeno relatorio a 
thesouraria; chamou os novos directores eleitos foram formando posse com excepção do Sr. João Ferigotti 
eleito presidente honorário que resignou no momento de empossar­se.
Dada a palavra ao Sr. Adejamiro Cardon orador official da Directoria que deixava o mandato, essê 
referiu­se sobre o progresso da Sociedade e desculpou­se para com a assistencia e renuncia do Sr. João 
Ferigotti do cargo para o qual fôra eleito.
Segui­se­lhe   com   a   palavra   o   Sr.   Walfrido   R.   De   Almeida   Presidente   recem   empossado   que 
agradecendo   a   indicação   do   seu   nome   verbejou   a   necessidade   incondicional   do   apoio   de   todos   os 
componentes do Centro, para assim, unidos e fortes, chegarmos ao alvo que tanto almejamos.
Depois deste, fallou o Sr. Manoel de Oliveira que discorreu com entusiasmo bellas palavras acerca 
do nosso programma social; agradeceu à Directoria que deixava o mandato e na mesma ocasião inaugurou 
officialmente a photografia do Sr. José Deslandes de Souza ex­Presidente.
O Sr. José D. De Souza tomando a palavra em longo discurso agradeceu a gentileza dos diversos 
consocios que lhe offereceram aquella photografia.
Fallaram mais como representantes das diversas Sociedades convidadas para este acto de posse 
Solenne os seguintes senhores: Vicente Tavares pelo Club Democrata e pelo Olinda S. Club – José  pelo 
Club Operario do Imbituva – Carlos Alvaro pela Soc. Economica Operaria. Em seguida o Sr. Presidente 
inaugurou a palavra para quem quisesse fazer uso. Como ninguem mais se manifestasse, e nada mais 
houvesse a se tratar, após as saudações de estilo entre os directores, o Sr. Presidente encerrou a Sessão 
as 10 horas da noite do que para constar eu João Perantunes lavrei a presente Acta, que depois de lida 
discutida e approvada, será assignada pelo Sr. Presidente e por mim Secretario que a escrevi.

Recinto da Sede Social em Ponta Grossa no dia 1o. De Maio de 1930.
Presidente 1o. Secretario
96

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