UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA E METODOLOGIA DAS CIÊNCIAS

SOCIAIS

O PAPEL DO ESTADO NOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS NO BRASIL: UM ESTUDO SOBRE O CONFLITO ENTRE AS COMUNIDADES INDÍGENAS TUPINIQUINS & GUARANIS E A ARACRUZ CELULOSE S.A NO NORTE DO ESPÍRITO SANTO.

DIOGO FERREIRA DA ROCHA

NITERÓI 2008

DIOGO FERREIRA DA ROCHA

O PAPEL DO ESTADO NOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS NO BRASIL: UM ESTUDO SOBRE O CONFLITO ENTRE AS COMUNIDADES INDÍGENAS TUPINIQUINS & GUARANIS E A ARACRUZ CELULOSE S.A NO NORTE DO ESPÍRITO SANTO.

Monografia apresentada como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Ciências Sociais ao Departamento de Sociologia e Metodologia em Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense - UFF.

SIDNEI CLEMENTE PERES Orientador

NITERÓI 2008

DIOGO FERREIRA DA ROCHA

O PAPEL DO ESTADO NOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS NO BRASIL: UM ESTUDO SOBRE O CONFLITO ENTRE AS COMUNIDADES INDÍGENAS TUPINIQUINS & GUARANIS E A ARACRUZ CELULOSE S.A NO NORTE DO ESPÍRITO SANTO.

Monografia apresentada como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Ciências Sociais ao Departamento de Sociologia e Metodologia em Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense - UFF.

APROVADO EM 11 DE JULHO DE 2008.

BANCA EXAMINADORA SIDNEI CLEMENTE PERES ORIENTADOR GLÁUCIA OLIVEIRA DA SILVA AVALIADORA JAIR DE SOUZA RAMOS AVALIADOR

NITERÓI 2008

Dedico este estudo: aos meus pais, Roberto e Edima; à minha companheira, Ana Paula; à Joaquim (in memoriam) para quem a educação era o maior tesouro.

AGRADECIMENTOS

Foram muitos, os que me ajudaram a concluir este trabalho. Meus sinceros agradecimentos... À minha família, pelo apoio, confiança e por serem um porto seguro nas horas difíceis;

Á Ana Paula, pelo carinho e paciência que me deram forças para não desistir;

Á Juliana Souza, Marcelo Firpo e Ana Carolina sem os quais não teria sequer conhecido um tema tão desafiante; Á Thiago, Jean, Carlos Magno e demais amigos do curso de Ciências Sociais, cujas provocações e discussões tornaram este trabalho mais interessante e o curso mais divertido; Aos funcionários do Museu do Índio, pela presteza e inestimável auxílio durante a coleta de dados para esta monografia. Ao professores e demais profissionais do curso, pela dedicação (ou falta dela) que nos ensinaram com seu exemplo como se faz (e não se faz) Ciência.

Á professora Gláucia Oliveira da Silva e ao professor Jair de Souza Ramos por aceitarem fazer parte da banca examinadora deste trabalho; e Á Sidnei Peres por aceitar orientar este estudo e pela paciência com um aluno muitas vezes ausente.

“Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações". “Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988

RESUMO
A presente monografia pretende fazer uma análise do papel do Estado nos conflitos socioambientais a partir do estudo de caso da disputa por terras entre índios Tupiniquim e Guarani e a Aracruz Celulose S.A no estado do Espírito Santo. Este estudo se insere dentro de uma perspectiva de análise multidisciplinar que procura dar conta tanto dos aspectos factuais do caso, quanto da dimensão simbólica e argumentativa do conflito. O que significa que iremos orientar nossa análise no decorrer do texto de forma a considerar ambos os aspectos como inerentes ao conflito. Também é objetivo desta monografia analisar as possibilidades de inter-relações e articulações possíveis entre os diversos movimentos sociais envolvidos e do entremeamento da questão ambiental, indígena e social em um caso de disputa por terras. Este estudo se estrutura em dois grandes capítulos nos quais no primeiro são discutidos os aspectos teórico-metodológicos que orientam o estudo e no segundo é realizada a análise de fato. Esta monografia é uma tentativa de aproximar os estudos de relações interétnicas e das relações entre o índio e o Estado, dos estudos que versam sobre as disputas por recursos e direitos ambientais, econômicos e sociais. A aplicação da perspectiva dos conflitos socioambientais na análise da dinâmica de um processo demarcatório longo e disputado pode elucidar questões que de outra forma passariam despercebidas. Palavras-chave: Conflitos socioambientais; Movimentos sociais; Estado; Relações

interétnicas; Movimento indígena;

ABSTRACT
This monograph makes an analysis of the role of the State in social and environmental conflicts, from the case study of the dispute between Tupiniquim and Guarani Indians and Aracruz Celulose S.A in the state of Espirito Santo. This study falls within a multidisciplinary perspective of analysis, that seeks discuss the factual aspects of the case and as argumentative and symbolic dimension of the conflict. This means that we will guide our analysis during the text in order to consider both aspects as inherent in the conflict. It is also aim of this monograph examining the possibilities of inter-relations and possible joints between the various social movements involved and the intermingle of environmental, indigenous and social questions in a case of dispute on land. This study is structured into two main chapters in which in the first are discussed theoretical and methodological aspects that guide the study and in the second is make the analysis of case. This monograph is an attempt to bring the study of interethnic relations and the relations between the Indian and state studies, that discuss by disputes over resources and environmental, economic and social rights. The application from the perspective of social and environmental conflicts in the analysis of the dynamics of a long process of demarcation can clarify disputed issues that would otherwise unnoticed. Keywords: social conflicts, social movements; State; interethnic relations; Indian Movement;

LISTA DE SIGLAS
ABONG - Associação Brasileira de Ongs. ACP - Ação Civil Pública. AGAPAN - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. AITC - Associação Indígena Tupiniquim de Comboios. AITG - Associação Indígena Tupiniquim e Guarani. ALEES - Assembléia Legislativa do Estado do Espírito Santo. BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. CDHM - Comissão de Direitos Humanos e Minorias. CIMI - Conselho Indigenista Missionário. CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. COFAVI - Companhia de Ferro e Aço de Vitória. CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente. COT - Comando de Operações Táticas. CPT - Comissão Pastoral da Terra. FASE - Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional. FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. FIOCRUZ - Fundação Instituto Oswaldo Cruz. FUNAI - Fundação Nacional do Índio. IBAMA - Instituto Nacional de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. ISA - Instituto Socioambiental. MJ - Ministério da Justiça. MMA - Ministério do Meio Ambiente. MNDH - Movimento Nacional de Direitos Humanos. MP - Ministério Público. MPA - Movimento dos Pequenos Agricultores. MPDFT - Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. MPF - Ministério Público Federal. MPM - Ministério Público Militar. MPT - Ministério Público do Trabalho. MPU - Ministério Público da União. MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. NISI – ES - Núcleo Interinstitucional de Saúde Indígena do Espírito Santo. PF - Polícia Federal. PV - Partido Verde. RBJA - Rede Brasileira de Justiça Ambiental. SISNAMA - Sistema Nacional de Meio Ambiente. SPI - Serviço de Proteção ao Índio. TAC - Termos de Ajustamento de Conduta. UNI - União das Nações Indígenas. UNIND - União das Nações Indígenas. VCP - Votorantim Celulose e Papel.

SUMÁRIO
Introdução. 1. Conflitos socioambientais: Aspectos teóricos. 1.1. A formação do campo ambiental e a expansão da política verde. 1.2. A construção social da questão ambiental: crise ambiental e estratégias argumentativas. 1.3. Conflitos socioambientais: Definições. 1.4. Movimento indígena: A articulação política dos povos indígenas. 2. Estudo de Caso: Os índios Tupiniquim e Guarani x Aracruz Celulose. 2.1. Os Atores. 2.1.1. Os Tupiniquim. 2.1.2. Os Guarani-Mbyá. 2.1.3. Aracruz Celulose S.A.. 2.1.4. Fundação Nacional do Índio – FUNAI. 2.1.5. Ministério da Justiça – MJ. 2.1.6. Ministério Público – MP. 2.1.7. Movimentos Sociais e Entidades de Apoio. 2.2. 1975 a 1998: Primeiros embates. 2.2.1. 1975 – 1983: O primeiro processo de demarcação. 2.2.2. 1993 – 1998: O primeiro reestudo. 2.2.3. O acordo. 2.3. 2005 a 2007: A retomada do conflito. 2.3.1. O rompimento do acordo. 2.3.2. Violência, destruição, desocupação e prisões: A outra face da ação estatal. 2.3.3. Os índios não são índios: Identidade indígena em questão. 2.3.4. A 3ª Demarcação: O fim é um começo. Conclusão. Referências Bibliográficas. 11 17 19 25 29 32 38 41 41 46 48 50 51 53 55 59 59 63 70 75 77 85 91 94 99 102

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Introdução. Esta monografia nasceu de reflexões derivadas de um projeto de iniciação científica em que estou inserido na Fundação Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). Em dado momento na pesquisa, elaboramos um relatório que fazia um balanço dos documentos disponíveis no banco temático da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA)1. Neste relatório realizamos diversos levantamentos a partir das categorias de indexação dos documentos no referido banco de dados2. E um dado que me chamou atenção foi a freqüência com que a atuação do Estado aparecia como gerador de conflitos socioambientais. Tal fato me levou a formular a seguinte questão de pesquisa. Qual tem sido o papel do Estado nos conflitos socioambientais? Como ele é determinado na legislação? Ele cumpre esse papel? Por que com tanta freqüência sua ação é vista como fonte de conflitos e não como meio de solucioná-los? Entretanto, os conflitos caracterizados como socioambientais no Brasil são muitos, múltiplos e intricados. Um conflito desse tipo comporta diversas dimensões e percebi que a pergunta feita por mim era muito vaga. Por isso elegi um entre vários dos que havíamos nos debruçado durante a pesquisa. Mas, por que os Tupiniquim e Guarani? O motivo da escolha tem a ver com algumas características do próprio conflito. Durante muitos anos essa disputa por terras foi uma preocupação premente dentro da RBJA. Minha dinâmica de trabalho exigia que eu estivesse constantemente em contato com as discussões da Rede e fez com que eu percebesse que havia nele certas questões que poderiam ser de grande importância para a análise que eu estava me propondo a fazer e que enriqueceriam meu trabalho.
A Rede Brasileira de Justiça Ambiental é uma rede virtual formada por organizações não-governamentais, movimentos sociais, organizações de base, quilombolas, grupos indígenas, sindicatos e pesquisadores independentes que se articulam em torno do movimento pela promoção da justiça ambiental e promove ações e campanhas apoiando instituições ou grupos envolvidos em conflitos sócio-ambientais. “O banco consiste em um conjunto de documentos circulados pelos membros da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, que tem como eixo central à discussão sobre a distribuição desigual dos impactos sócio-ambientais e a publicização dos conflitos e das lutas sociais envolvendo o meio ambiente, compreendidos como expressões de disputas legitimas sobre o modelo de desenvolvimento que orienta as políticas do país e, conseqüentemente, o uso dos seus recursos e territórios.”. (REDE BRASILEIRA DE JUSTIÇA AMBIENTAL, 2007:04). Tal banco é desenvolvido e mantido por uma parceria entre a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, Fundação Oswaldo Cruz e a organização não-governamental FASE.
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Por exemplo, a primeira vista trata-se de uma disputa por terras. Já que de um lado estão as comunidades indígenas e do outro uma grande empresa multinacional exportadora de celulose de eucalipto. Contudo, a simples exposição do problema dessa forma já nos remete a outras dimensões do problema. Como uma comunidade indígena consegue se organizar e se contrapor ao poder econômico e influência social de uma grande empresa? Como estão eles organizados? Que tipo de alianças constroem? Quais são suas necessidades? Suas estratégias? Seus discursos? Por que um conflito como esse durou mais de 30 anos? Qual a atuação do estado nesse período? A essas questões se articula a dualidade do conflito. Ao mesmo tempo em que é um conflito social, que contrapõe interesses distintos e distintas demandas por direitos e as estratégias argumentativas a elas relacionadas, é também um conflito interétnico. Não são apenas dois grupos de interesses antagônicos disputando recursos materiais e simbólicos, mas são duas sociedades em choque com visões de mundo e identidades diferentes. Também é um conflito de direitos. A demarcação de terras põe em choque os direitos coletivos de uns e os direitos privados de outros. Direitos difusos de difícil incorporação no nosso direito liberal são personificados por minorias étnicas de difícil incorporação em nossa estrutura social. Isso acrescenta um grau de complexidade muito maior na análise. Some-se isso ao fato de que neste conflito o componente ambiental assume grande importância, já que em primeiro lugar há uma disputa pelo modo como os recursos naturais, no caso a terra, serão explorados (monocultura intensiva de árvores ou agricultura de subsistência?). Segundo, que a intervenção de uma das partes sobre o meio ambiente local, tem ocasionado danos sobre a organização social da outra. A monocultura intensiva de eucalipto necessita de uso intenso de defensivos agrícolas e de água. A degradação ambiental decorrente desse tipo de cultura tem impacto direto sobre as comunidades que dependem da interação com ambiente local para sobreviver. A substituição da mata nativa

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por floresta plantada também tem impactos na fauna local, que não encontra alimento nesse novo ecossistema, e conseqüentemente sobre a caça. O secamento de rios e riachos, a poluição hídrica, a morte de peixes, a poluição do ar e a diminuição da fertilidade do solo. Tudo isso impacta direta e negativamente sobre as comunidades que dependem da caça, da pesca e da agricultura de subsistência. Á degradação ambiental se soma a degradação das condições de vida e das possibilidades de permanência na região. O que desestrutura a organização social da comunidade e tem impactos culturais. Assim, o conflito possuía aspectos que o caracterizavam ora como um conflito agrário (luta pela terra), ora como um conflito ambiental (luta por recursos ambientais), ora como um conflito por sistemas de organização do mundo (luta simbólica), ora por acesso a arenas de decisão (luta política). Para dar conta dessa multiplicidade de dimensões, e toda a complexidade inerente a ela, tentei construir uma abordagem multidisciplinar, que agregasse conhecimento das diversas ciências e que pudesse enriquecer a análise do conflito. Obviamente, que na hierarquia interna do trabalho é o olhar sociológico que predomina, mas, quando necessário, não hesitei em utilizar conceitos advindos da antropologia, da ciência política, do direito e ciências afins, que pudessem iluminar aspectos que de outra forma ficariam obscuros. Em relação á estrutura da monografia, a dividi em dois grandes capítulos. O primeiro, menor, versa sobre as questões teóricas que irão permear a análise. A primeira grande seção desse capítulo discute a formação do campo ambiental e a consolidação da chamada política verde. O motivo de iniciar com essa questão foi pela grande influência que o discurso e as práticas ambientalistas vão adquirir na contemporaneidade. E no conflito analisado o movimento ambientalista adquire grande importância em diversos momentos. Sua articulação com o movimento indígena, e outros movimentos sociais, expande a questão ambiental para além das fronteiras desse movimento. O discurso da sustentabilidade atribui grande valor ás práticas tradicionais de exploração do meio

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ambiente. E não está imune às questões sociais. Cada vez mais predomina entre os ambientalistas o discurso de que sem mudanças sociais não é possível realizar mudanças no modo como o homem se relaciona com a natureza. E do mesmo modo, a consciência da necessidade da preservação ambiental como suporte para as práticas sociais também tem se popularizado. Não é de estranhar que num conflito como o que irei analisar, essa articulação tenha sido tão frutífera. A seguir, exploro o modo como a questão ambiental tem sido construída socialmente e como se afirmam, e competem, as estratégias discursivas para a imposição de um senso comum sobre a questão ambiental e as possibilidades de solução da chamada crise ambiental contemporânea. A terceira parte desse capítulo define alguns conceitos relacionados aos conflitos socioambientais e discute as possibilidades de análise desse tipo de conflito. A última parte do primeiro capítulo realiza o mesmo movimento que a primeira e reconstrói a história recente do movimento indígena. O modo como as sociedades indígenas se relacionaram com a sociedade nacional e como tem construído suas organizações políticas de resistência desde meados do século XX. O segundo capítulo, mais longo, empreende a análise do caso em questão. Para tanto o dividi em três grandes partes nas quais exploro os fatos históricos e os articulo com os conceitos teóricos, tentando apresentar um quadro interpretativo que dê conta dos aspectos e questões apresentados no início desta introdução. A primeira parte apresenta os principais atores envolvidos nos conflitos, apresentando uma breve descrição, sua história, sua estrutura, seus objetivos e como eles se relacionam ou atuam no conflito analisado. A segunda parte se aprofunda no caso e a trajetória inicial do processo de demarcação da terra indígena Tupiniquim e Guarani. Dividida em dois períodos históricos, analisa as demarcações realizadas na década de 1970 e no início da década de 1990. Mostrando as diferenças entre os processos e os contextos sociopolíticos. Também analiso

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os resultados de cada processo e as conseqüências para os povos indígenas e para a possibilidade de resolução do conflito. Há ainda uma breve análise de um acordo firmado entre as partes, que trouxe relativa paz ao conflito, na qual aponto indícios do porquê de tal acordo não ter encerrado definitivamente a disputa. A última parte analisa a história recente do conflito. Desde sua retomada em 2005 até a resolução final em 2007. É o período que apresenta maior complexidade e os maiores desafios. Dediquei os maiores esforços nesse período, pois o considero essencial para responder ás questões propostas.

Sei que numa introdução talvez devesse ter realizado uma explicitação mais detida da trajetória teórica e metodológica que pretendo empreender e expor as promessas do que pretendo fazer, etc. Mas, optei por expor as motivações e questões que orientaram minha pesquisa, pois considero que a parte teórica fica bastante explícita no primeiro capítulo, onde discuto os conceitos que orientam a análise. E quanto à metodologia, acredito que ao invés de passar várias páginas discorrendo sobre todas as questões e observações aprendidas nos cursos de metodologia das ciências sociais, numa grande profusão de citações e fontes bibliográficas, prefiro apenas referir-me ás fontes e modo de coleta de dados. Inicialmente minha proposta incluía a realização de entrevistas com representantes dos principais atores, para cotejá-las com as informações que coletei através da pesquisa de artigos, documentos e notícias em bancos de dados virtuais, dentre os quais destaco o site da Aracruz Celulose, o Banco Temático da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA), a página do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a consulta a jornais e revistas com edições online e que houvessem coberto o caso. Além disso, pesquisei a documentação oficial da FUNAI nos arquivos do Museu do Índio. Entretanto, dois fatos impediram que realizasse a coleta de dados conforme havia sido planejada inicialmente. O primeiro se refere aos arquivos do Museu do Índio. Conforme fui

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informado pelos funcionários do Museu, a documentação mais recente referente ao caso se encontrava nos arquivos da FUNAI em Brasília, já que o caso ainda estava sendo analisado na ocasião. Só consegui acesso aos relatórios e documentos anteriores a 1995 e mesmo assim após um burocrático processo de qualificação prévia. Quanto ás entrevistas, houve certa dificuldade em conciliar a disponibilidade de tempo entre os contatos que consegui empreender e o meu próprio tempo disponível para a pesquisa, já que a conciliava com o desenvolvimento da pesquisa de iniciação científica e a formação acadêmica. Por isso, restingi-me á documentação escrita disponível e á bibliografia teórica. Talvez essa opção tenha obscurecido alguns pontos, mas no geral o resultado foi satisfatório. Sem querer me estender mais do que o necessário nessa introdução, passo agora ao estudo de fato.

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Capítulo 1 Conflitos socioambientais: Aspectos teóricos.

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Esta monografia se propõe a analisar um conflito que compreende múltiplas dimensões. Por envolver comunidades cuja cultura e forma de organização são distintas da sociedade nacional, não se pode abstrair do fato de que há diversos valores e visões de mundo em conflito. Ao mesmo tempo em que tais comunidades possuem suas especificidades, elas estão envolvidas em um conflito que está inserido dentro de um quadro sociopolítico determinado que direta ou indiretamente influência nas formas de ação possíveis e as alianças que poderão ou não ser construídas. Nossa perspectiva não pretende simplesmente caracterizar o conflito entre os índios e a empresa reflorestadora como um conflito de cosmovisões ou de interesses. Uma luta pela terra. Nosso estudo tem o objetivo de articular este caso específico com o quadro geral e analisar em que medida, e de que forma, o Estado brasileiro cumpre seu papel de constitucional de garantir o direito dessas comunidades e a proteção do meio ambiente. E quais as diferentes representações do conflito entre os diversos atores envolvidos. Desse modo, não nos limitaremos a apenas analisar como se deu o processo de demarcação de terras e a dinâmica das ações desenvolvidas nos últimos 32 anos em prol da constituição das terras indígenas, mas esperamos conseguir demonstrar como a luta indígena pela terra sofre influência das possibilidades de articulação de cada período. Para tanto dois pontos foram definidos. O primeiro deles é a divisão deste estudo em dois grandes capítulos. Este primeiro capítulo procura abordar a constituição de dois movimentos importantes para nossa proposta. O movimento ambientalista e o movimento indígena, bem como as estratégias políticas e argumentativas desses atores. Além disso, a caracterização do caso como um conflito abre a possibilidade de explicitar o modo como a aproximação de ambos os movimentos abre novas perspectivas para suas respectivas lutas e como foi significativa para o desenvolvimento do caso analisado.

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1.1- A formação do campo ambiental e expansão da política verde. O breve século XX não pode ser facilmente caracterizado. A multiplicidade e complexidade dos diversos processos e eventos históricos, a intensidade, a velocidade e a abrangência de seus conflitos e conquistas, não encontram paralelo em nenhum outro momento da historia3. O fim da Primeira Guerra Mundial marca o início de uma era de extremos e isso pode ser percebido nos mais diversos campos da vida humana. Contudo, o século XX é acima de tudo um século de conquistas. Tanto tecnológicas, quanto sociais. Para além das controvérsias, pode-se concordar com relativa facilidade que a conquista dos direitos sociais, e não apenas individuais, nos países desenvolvidos está dentre as mais importantes entre elas. A estabilidade e seguridade social conquistada nos 30 anos de vigência do chamado Estado de Bem-Estar Social (welfare state) nos países centrais deram margem à constituição de movimentos e organização de defesa dos chamados direitos difusos ou coletivos. Expandindo a pauta de reivindicações para além da luta de classes e do conflito entre capital e trabalho. Destacam-se a defesa dos direitos civis, direitos humanos e do meio ambiente (PÁDUA, 1991). Não é por outro motivo que diversos autores localizam a constituição e difusão do que se pode chamar de campo ambiental ou política verde nos países centrais a partir da década de 1960 (PÁDUA, 1991; FUKS, 2001; GONÇALVES, 2004; COSTA, 2006). É nesse contexto social e de mobilização política, de expansão e conquista de novas garantias sociais que se descortina a construção do movimento pela preservação ambiental e garantia de direitos básicos, como a liberdade de expressão e organização, direitos civis, previdência e formas diversas de seguridade social. Além disso, é também o momento em que se constituem os chamados novos movimentos sociais. Como o movimento ambientalista, as lutas pelos direitos da mulher, dos jovens e das minorias étnicas (GONÇALVES, 2004).

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Cf. Hobsbwan, Eric. A Era dos extremos: O breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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O fortalecimento da política verde e dos novos movimentos sociais foi marcado por uma forte crítica ao modo de vida ocidental, caracterizado pelo desperdício de recursos ambientais e pelas desigualdades sociais (PÁDUA, 1991; GONÇALVES, 2004). O que leva alguns autores a caracterizar esse período como um momento de tomada de consciência por parte da população desses países. Seja no sentido da percepção dos impactos causados pelo ambientalmente dispendioso modo de vida e consumo ocidental (PÁDUA, 1991; GONÇALVES, 2004), seja dos riscos inerentes às novas tecnologias, um risco potencialmente danoso a uma parcela cada vez maior da população mundial (BECK, 2006) ou ainda a consciência de que tais riscos e impactos não são homogeneamente distribuídos, sendo sentidos com maior intensidade justamente pelas populações mais pobres, minorias étnicas e comunidades socialmente vulneráveis (HERCULANO, 2002). Tal crítica, além da mobilização subseqüente, não puderam ser ignoradas por muito tempo pelos governos e na década de 1970 pode ser verificada a constituição das primeiras legislações ambientais e a criação dos primeiros órgãos de proteção ao meio ambiente (COSTA, 2006). Mas, é somente a partir da década de 1980 que a questão da proteção ambiental pode ser compreendida como um problema global. O debate a cerca da necessidade de rever os processos de produção e diminuir os impactos ambientais do desenvolvimento toma os fóruns internacionais. Já no fim da década de 1980, meio ambiente e desenvolvimento econômico tornam-se questões interligadas, com forte resistência por parte dos países subdesenvolvidos em realizar mudanças que pudessem frear seu crescimento econômico. É com o Relatório Brundtland: Our Common Future (1987) que se consagra o conceito de desenvolvimento sustentável. Segundo Costa (2006, p. 5):
O desenvolvimento sustentável foi definido e difundido como um processo de mudança no qual a exploração de recursos e a orientação do desenvolvimento tecnológico e das mudanças institucionais teriam que levar em conta tanto as necessidades das gerações atuais como as das gerações futuras. O conceito também ressaltava o respeito à diversidade cultural dos povos, ao atendimento prioritário das necessidades essenciais dos pobres e às limitações que o estágio da tecnologia e da organização social impõe ao

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meio ambiente, impedindo-o de atender às necessidades presentes e futuras. Além disso, destacava a necessidade de mudanças nas relações internacionais visando um controle eficaz sobre os recursos naturais dos diferentes ecossistemas.

No Brasil tal processo se desenrola tardiamente. A década de 1960 é marcada pela ascensão e consolidação do autoritarismo da ditadura militar. Todas as mobilizações ou articulações sociais são fortemente combatidas sob a égide de uma política autoritária e anticomunista. A ênfase da política econômica do período é sobre a acumulação capitalista, desenvolvimentista e fortemente marcada por uma proposta econômica que despreza o meio ambiente. Segundo Costa (2006), a partir de 1964 é posto em prática um programa econômico baseado na teoria do desenvolvimento equilibrado, que pressupunha “o domínio da economia sobre o meio ambiente”. O ápice dessa política econômica de desenvolvimento a qualquer custo se dá no governo Médici, no qual a propaganda oficial incentivava a implantação de indústrias poluidoras no Brasil, onde não haveria controle de emissão de gases. Ou seja, o país arcaria com os custos ambientais da operação em nome da geração de emprego e do investimento produtivo. O milagre econômico foi “posto na conta” das gerações futuras. A primeira agência encarregada da questão ambiental foi criada apenas em 1974, sob o governo Geisel, por pressão de organismos internacionais de financiamento. Enquanto nos países desenvolvidos e democráticos a preocupação ambiental já havia se tornado pauta importante, no Brasil ainda era tratada apenas como um requisito formal a ser cumprido. A Secretaria Especial de Meio Ambiente – Sema não alcançaria relevância na política ambiental até meados da década de 1980, quando é substituída pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), já no governo de José Sarney e em pleno período de abertura política e processo de redemocratização do país (COSTA, 2006). Se do ponto de vista das políticas oficiais o meio ambiente foi relegado a segundo plano, no campo das instituições não-governamentais, desde o início da década de 1970, já se verifica a organização das primeiras instituições de cunho ambientalista. Considera-se

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que a primeira ONG ambientalista brasileira, e da América Latina, foi a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), fundada pelo gaúcho José Lutzenberger em 1971 (PÁDUA, 1991; GONÇALVES, 2004; COSTA 2006). Nesse período a atuação do movimento ambientalista ainda é marcada por um forte viés preservacionista e de combate aos impactos da produção, em especial à poluição. As campanhas e instituições da época ainda não haviam incorporado o aspecto social da questão ambiental, restringindo-se á defesa do ambiente ou, quando muito, à crítica do modo de vida e consumo (PÁDUA, 1991). Há uma controvérsia quanto ao processo de formação do movimento ambientalista brasileiro. Tradicionalmente é apresentado como uma conseqüência da experiência vivida pelos exilados na Europa durante o período (GONÇALVES, 2004) e/ou uma reação à caótica situação ambiental instalada pelo regime, na qual cidades como Cubatão ou São Paulo batem recordes de poluição e o aumento do desmatamento nas fronteiras agrícolas. Contudo, Pádua (1991, p. 144) apresenta uma teoria alternativa para a formação do movimento ambientalista brasileiro. Sem desprezar o que ele chama de fatores exógenos, como a influência da já madura política verde européia, apresenta alguns fatores endógenos que deveriam ser destacados para o entendimento deste movimento no Brasil, e do posterior fortalecimento do mesmo. Seriam:
(1) A explosão de problemas sócio-ambientais na cena nacional brasileira, resultante da conjugação de uma formação histórica ecologicamente perversa com o processo acelerado de urbano-industrialização (...) que potencializou ao extremo a crise ecológica no Brasil. (2) A tradição de abertura para o tema da natureza na política brasileira. (3) As mudanças recentes no tecido social do país, mais especificamente o surgimento da chamada ‘nova classe média’. (4) O espaço aberto na cultura política brasileira pela emergência dos ‘novos movimentos sociais’, especificamente na década de 1970. (5) As características do sistema eleitoral brasileiro.

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Ainda sob esse ponto de vista, pode-se argumentar que tais fatores foram catalisados pelo que Pádua chama de “crise do monopólio da representação política dos partidos tradicionais”. Essa crise não foi exclusividade da conjuntura brasileira, mas foi intensificada pelo regime ditatorial pós-64. O qual reprimiu uma demanda de organização e manifestação política que ficou latente até fins dos anos 1970, mas que não encontrou expressão mesmo com abertura política após 1974. O bipartidarismo forçado e outros limites impostos pela legislação eleitoral vigente desestimularam a participação política partidária e abriram espaço para outras formas de organização política apartidárias como os movimentos sociais e o associativismo. A redemocratização trouxe nova esperança de participação política entre os meios da esquerda e outros movimentos contestadores das políticas do regime militar. Em 1982 são eleitos os primeiros deputados ligados ao movimento ecologista, no entanto tal articulação entre política partidária e movimento ambientalista não se deu no Brasil da mesma forma que nos demais países. Pois, mesmo após a criação do Partido Verde (PV) brasileiro em 1986, a contestação ambientalista ainda se dá primeiramente por meio das organizações não-governamentais e deputados sensíveis à causa ecológica, ligados aos mais diversos partidos, e o Partido criado para representar o segmento não alcançou a expressão que possuem seus congêneres europeus (PÁDUA, 1991). Se o Partido Verde brasileiro não se firmou como força política significativa, a política verde ganhou novo impulso no fim dos anos de 1980, com a criação no governo Sarney de várias instituições oficiais voltadas para a proteção do meio ambiente, como o Ministério do Meio Ambiente, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e o Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama). Além disso, introduziu-se a exigência de licenciamento ambiental para financiamento oficial. (COSTA, 2002). O ano de 1988 marca um avanço na afirmação do papel do estado na proteção ambiental. A constituição promulgada neste ano consagra o meio ambiente equilibrado

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como direito de todos os cidadãos e sua proteção como um dever do poder público e da coletividade. Além disso, a estrutura estatal de proteção ambiental foi expandida com a criação do Instituto Nacional de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Órgão ligado ao executivo federal responsável pela implementação da Política Nacional de Meio Ambiente, pela fiscalização do cumprimento da legislação ambiental e licenciamento de grandes obras (COSTA, 2002). Tal reestruturação do Estado atendia aos preceitos constitucionais e demonstra como a preservação ambiental havia adquirido nos fins dos anos de 1980 e início de 1990 um status não atingido anteriormente. A questão torna-se central nos debates nacionais e internacionais e expande-se para além dos grupos de defesa ao meio ambiente e das instituições ligadas à questão. Adquire status de preocupação nacional. É o que Eduardo Viola vai caracterizar como ambientalismo multissetorial. (VIOLA, apud FUKS, 2001):
Este conceito expressa a mais recente etapa do ambientalismo, antes constituído exclusivamente pelos grupos de defesa do ambiente. O conceito de ambientalismo multissetorial indica o posicionamento ao mesmo tempo de ordem teórica e política, em relação a cisões alternativas do ambientalismo, tais como a que considera este “movimento” como apenas mais um grupo de interesse, ou como um dos integrantes dos chamados novos movimentos sociais.

Fuks (2001, p. 22) defende que independente de aceitar o teor valorativo deste conceito, é preciso reconhecer o potencial descritivo do mesmo para o fato de que o ambientalismo deixou de se restringir a um grupo específico para ser objeto de domínio público. Esta questão é de extrema importância para nosso estudo, pois a influência de entidades ambientalistas e suas formas discursivas no conflito analisado, além da aproximação desse movimento com as questões sociais, em especial as questões que envolvem as chamadas comunidades tradicionais, é um dos pontos chave de nossa análise. Contudo, é preciso destacar que tal perspectiva não é consenso entre os estudos que envolvem conflitos socioambientais. Em recente artigo, Ângela Alonso e Valeriano

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Costa criticam a capacidade explicativa dessa perspectiva na medida em que ela valoriza excessivamente a dimensão cultural do ambientalismo e se apóia na idéia de que tanto a adesão, quanto a difusão dos ideais ambientalistas, teriam se dado de forma homogênea, e ignoraria a dimensão prática do fenômeno (ALONSO e COSTA, 2002). Tendo esta crítica em vista, não pretendemos analisar o conflito em questão apenas como uma forma discursiva. Mas, sem descuidar-se da importância que ambas as dimensões possuem no desenvolvimento do conflito, procuraremos articular discurso e

prática sem perder de vista a relação dialética e de mútua influência que possuem entre si. 1.2– A construção social da questão ambiental: crise ambiental e estratégias argumentativas. Se os anos de 1980 marcaram a consolidação e fortalecimento do movimento ambientalista, eles também testemunharam o crescimento da incorporação da variável ambiental como foco de luta de grupos etnicamente minoritários, socialmente discriminados e politicamente desfavorecidos. Destaca-se nesse quadro o movimento por justiça ambiental norte-americano. O qual, desde a década de 1960, paulatinamente construiu ferramentas teóricas, técnicas e políticas para consolidar um movimento de resistência à situação que posteriormente foi denominada de injustiça ambiental. (HERCULANO, 2002; ACSELRD, HERCULANO e PÁDUA, 2004). Segundo Herculano (2002, p. 2):
Entende-se por Injustiça Ambiental o mecanismo pelo qual sociedades desiguais destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento a grupos sociais de trabalhadores, populações de baixa renda, grupos raciais discriminados, populações marginalizadas e mais vulneráveis.

Isso significa dizer que o movimento pela justiça ambiental se pauta pelas lutas por resistência às situações classificadas como ambientalmente injustas e pela promoção de políticas e ações que gerem justiça ambiental. Define-se justiça ambiental do seguinte modo:
Por Justiça Ambiental entenda-se o conjunto de princípios que asseguram que nenhum grupo de pessoas, sejam grupos étnicos, raciais ou de classe, suporte uma parcela

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desproporcional das conseqüências ambientais negativas de operações econômicas, de políticas e programas federais, estaduais e locais, bem como resultantes da ausência ou omissão de tais políticas. Dito de outra forma trata-se da “espacialização da justiça distributiva, uma vez que diz respeito à distribuição do meio ambiente para os seres humanos”. (LYNCH, 2001 apud HERCULANO, 2002).

Ambas as noções são resultado de décadas de luta por direitos civis e igualdade racial nos Estados Unidos. Paralelamente, contrariam a principal base argumentativa das políticas ambientais conservadoras que buscam soluções puramente técnicas para a resolução dos problemas ambientais. Tais propostas se baseariam em dois conceitoschave: A modernização ecológica e a sociedade de risco. A modernização ecológica pode ser entendida como uma solução de mercado para as chamadas externalidades da produção capitalista. Ante uma situação vista como resultado de desperdício de matéria e energia, os defensores desta tese propõem mudanças tecnológicas destinadas a aumentar a eficiência produtiva e ao mesmo tempo ativar mercados para os produtos ditos ‘sustentáveis’. Estaria nas próprias instâncias do capital as ferramentas e as condições de possibilidade para neutralizar os impactos produzidos pela lógica desta mesma produção. Nas palavras de Acselrad (2004. p. 23):
Para os atores da modernização ecológica (...) a questão ambiental poderia ser apropriadamente internalizada pelas próprias instâncias do capital de modo a absorver e neutralizar as virtualidades transformadoras do ecologismo.

Segundo este mesmo autor, essa estratégia tenderia a desconsiderar aspectos políticos presentes na orientação da distribuição dos riscos e danos ambientais. Ignora-se qualquer possível articulação entre a escolha dos locais a serem diretamente impactados pela produção, e pela degradação ambiental decorrente dela, e desigualdade social. O conflito socioambiental pode ser caracterizado, portanto, por possuir um forte componente simbólico. Em geral, neste tipo de conflito não se disputa apenas a distribuição de recursos escassos ou a distribuição dos danos ambientais ou da degradação decorrente do processo produtivo, mas disputa-se também a própria definição do problema e a imposição de categorias legítimas para se lidar com o mesmo. Ou seja, os conflitos

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socioambientais se “estruturam simultaneamente em torno de interesses e de valores” (ALONSO e COSTA, 2002). O que significa dizer que tais conflitos não se desenrolam exclusivamente na esfera política, mas também na esfera cultural. E isso aumenta a complexidade da análise. Por isso, dentro da chamada sociologia ambiental ainda não se constituiu um método padrão para a análise dos conflitos socioambientais. Convivem, entre os pesquisadores, propostas diversas, sob a ótica de várias correntes sociológicas, desde aquelas que corroboram a constituição de uma abordagem da Ecologia Política, até aqueles que resgatam os clássicos da sociologia, como Marx, Weber e Durkheim, passando pelo estruturalismo de Pierre Bourdieu ou a Escola do Processo Político de Tarrow e Tilly (ALONSO e COSTA, 2002; BUTTEL, 2002; ACSELRAD, 2004; LITTLE, 2004). Entretanto, o que todos os autores parecem concordar é a necessidade de tal análise agregar outros fatores que não apenas o processo formal do conflito. Seja a integração entre a análise social e o mundo biofísico, ou as formações estruturais, o acesso ás arenas decisórias ou ainda as estratégias de imposição do discurso comum e das categorias de definição do problema. A análise do conflito socioambiental é, portanto, um desafio de análise global e necessita de métodos que superem a metodologia científica tradicional de divisão cartesiana do todo em suas partes constitutivas e da divisão positivista das disciplinas científicas. É, além de uma necessidade, uma oportunidade de análise multidisciplinar. É com base nessa questão, que esta monografia não irá se restringir ao desenvolvimento formal do conflito analisado, mas tentará integrar outros aspectos relevantes à questão. É por isso que, apesar de elaborarmos nossa análise sob o ponto de vista sociológico, não nos restringiremos a utilizar apenas fontes relacionadas a esta ciência. Haverá momentos em que se faz necessário um olhar antropológico ou maior profundidade na análise da estrutura do Estado ou dos princípios que regem a legislação relacionada. E para tanto os conhecimentos da Ciência Política e o Direito se fazem necessários. Iniciei este subcapítulo descrevendo a constituição do movimento por justiça ambiental americano e realizei uma digressão sobre o aspecto argumentativo dos conflitos

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socioambientais e as formulações de análises de tais conflitos, pois me pareceu necessário a opção por uma das metodologias de análise estudadas. E, dentre as já citadas, me pareceu mais adequada, á análise do conflito em questão, a abordagem estruturalista construtivista descrita por Acselrad em seu artigo “As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais” (2004b). Justifica-se tal opção pelas próprias características do conflito, o que ficará mais claro no decorrer da análise, e da necessidade de se destacar os componentes simbólicos, e não apenas formais, do conflito, relevantes na análise de diversos episódios e estratégias de luta dos atores envolvidos. A luta pela formação do consenso está imbricada neste conflito, da mesma forma que a luta pela predominância de certas interpretações da legislação e do direito, relacionadas ao caso. Direito à propriedade ou direito coletivo? Identidade autodefinida ou juridicamente prescrita? O índio é índio? A compra de terras foi legítima ou fruto de usurpação? Desenvolvimento econômico ou justiça social? A produção de celulose é sustentável? A cultura tradicional é sustentável? Deve prevalecer a ótica empresarial ou a cosmovisão tradicional? Todas essas questões foram levantadas durante os 30 anos em que se desenrola o conflito e não se poderia dar conta delas se a luta simbólica envolvida em cada uma delas não fosse explicitada. Daí a necessidade de uma abordagem que contemplasse este fenômeno. Não queremos dar contas das estratégias argumentativas, descolando-as da realidade e do quadro social em que ela se origina. O que poderia acontecer se utilizasse uma abordagem baseada apenas nessa questão, o que a meu ver, acontece em abordagens como a descrita por Fuks (2001) na qual a análise principal se baseia no que ele caracteriza como “esquemas argumentativos”.
Os esquemas argumentativos são pacotes interpretativos, cujos elementos contribuem para a finalidade exclusiva de propor uma determinada compreensão de um assunto público. (...) Com isso, as matrizes a partir das quais os relatos foram organizados não existem apenas na esfera íntima do entrevistado ou do seu meio mais próximo, mas são em menor ou maior grau, recursos de domínio público.

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1.3. Conflitos socioambientais: Definições. Não há um consenso sobre a definição dos conflitos socioambientais, no entanto, de um modo geral, as definições, em maior ou menor grau, convergem para o modo como Little (2004, p.1) os define em seu artigo:
[Conflitos socioambientais são] embates entre grupos sociais em função de seus distintos modos de inter-relacionamento ecológico, isto é, com seus respectivos meio sociais e naturais. Dada a existência de muitos tipos de conflitos sociais, podemos classificar um conflito determinado como socioambiental quando o cerne do conflito gira em torno das interações ecológicas. (grifos do autor).

Na análise dos conflitos socioambientais têm se destacado a caracterização deste tipo de conflito como emergindo do interior de um determinado campo. O campo ambiental. Tal conceito ancora-se na teoria social de Pierre Bourdieu e considera tanto as relações objetivas existentes entre os diferentes atores sociais e as posições que tais atores ocupam na estrutura de poder do campo. Segundo Acselrad (2004) ao considerarmos o meio ambiente como um “campo material e simbolicamente contestado”, sua nomeação redistribui o poder sobre os recursos territorializados. Seja pela legitimação ou deslegitimarão de determinadas práticas de apropriação dos recursos naturais, uso da terra ou apropriação cultural da natureza, seja pela afirmação de quais medidas são válidas ou não para sua proteção. Nas palavras do autor (2004, p. 19): “A luta por recursos ambientais, são, assim, simultaneamente lutas por sentidos culturais”. Tal aspecto dos conflitos socioambientais já é problemático quando envolvem grupos sociais diferenciados de uma determinada sociedade, ou grupos de interesses conflitantes. Mas ganham uma complexidade maior ainda quando envolvem lutas e interações sustentadas na manutenção e manipulação de fronteiras étnicas (BARTH, 2000), como acontece no caso que será analisado no segundo capítulo. Pois apesar do embate pela terra indígena se dar no interior da sociedade nacional, através de suas leis e ritos administrativos, ele envolve grupos étnicos que possuem relações sociais e culturais distintas com a terra e o meio ambiente.

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A simultaneidade de tais aspectos do conflito fica bastante clara nas propostas apresentadas pelos atores envolvidos para a solução do mesmo. Vê-se claramente a diferença de relação e de interpretação da forma e das possibilidades de resolução do embate e também de apropriação dos recursos naturais, quando os encaminhamentos sugeridos pelos atores se baseiam em lógicas distintas. Seja pela distinção entre o uso tradicional e capitalista da terra, seja pela ligação meramente econômica ou cultural com o território. Tais fatos levam a autores como Acselrad sugerirem que (2004, p. 23):
Os conflitos ambientais [devem] ser analisados, portanto, simultaneamente nos espaços de apropriação material e simbólica dos recursos do território. Ambos são, por certo, espaços onde se desenrolam disputas sociais em geral, onde o modo de distribuição de poder pode ser objeto de contestação. No primeiro espaço, desenvolvem-se as lutas sociais, econômicas e políticas pela apropriação dos diferentes tipos de capital, pela mudança ou conservação da estrutura de distribuição de poder. No segundo, desenvolve-se uma luta simbólica para impor as categorias que legitimam ou deslegitimam a distribuição de poder sobre os distintos tipos de capital.

As distintas distribuições de poder são um ponto importante de análise, não apenas na perspectiva adotada, mas também em outras abordagens de análise dos conflitos socioambientais. É ponto em comum observado em diversas propostas. Presente por exemplo, na abordagem da Ecologia Política, proposta por Little (2004). Quando o autor se refere a cotas de poder, Little afirma que na análise desse tipo de conflito, tão importante quanto a determinação dos atores envolvidos e o tipo de conflito, é o mapeamento das cotas de poderes formais e informais distribuídos entre os diversos atores. Pois “em muitos casos, o exercício do poder não acontece em arenas formais, obrigando o pesquisador a descobrir os jogos ocultos de poder” (LITTLE, 2004). Por jogos ocultos de poder Little entende desde subterfúgios legais para aquisição e legalização de terras até a violência e intimidação. O que tais ressalvas apontam é a necessidade do pesquisador não prender-se apenas ao discurso formal ou às estratégias legais de ação. Muitas vezes as estratégias de ação se desenvolvem fora das arenas oficiais de debate, através de métodos alternativos de pressão. E tais estratégias não devem ser ignoradas, constituindo-se em pontos importantes de análise, pois, o Estado e as arenas oficiais de debate possuem seu próprio tempo e dinâmica. Em geral tal dinâmica se afasta, propositalmente ou não, dos anseios dos atores

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envolvidos, que lançam mão de artifícios extralegais para pressionar a ação oficial em seu favor. Desde ocupações e fechamento de estradas até o lobby, a ação judicial e a corrupção, todos os meios são utilizados para alcançar uma definição favorável do conflito. E nesse aspecto os conflitos socioambientais possuem muito em comum com os demais conflitos sociais. Outro ponto que merece destaque, e que se constitui como de extrema importância para nossa análise, é a noção que de o conflito possui uma dinâmica própria. Isso significa dizer que a intensidade e a visibilidade do conflito podem variar no tempo. Indo desde aqueles momentos em que os ânimos estão acirrados e as ações e reações de ambos os lados se acumulam, até tréguas e acordos. Também inclui mudanças nas configurações de força e de alianças possíveis. Antigos opositores podem se tornar aliados e vice-versa. Na dinâmica do conflito a ser analisado, isso pode ser visto com bastante clareza. Tanto na questão do arrefecimento do conflito, marcado principalmente por um acordo firmado em 1998, quanto à questão de mudanças nas configurações de força e nas estratégias de ação, o que fica bem claro no período de retomada do conflito após 2005. Fatores “externos” ao conflito também podem alterar sua dinâmica, como mudanças na legislação, na estrutura estatal, administrativa, a morte de determinados atores, mudanças no cenário econômico-social, mudanças nas correlações de força políticas na sociedade. Nos 30 anos nos quais os Tupiniquim e Guarani e a Aracruz Celulose disputaram a posse das terras, verificamos diversas mudanças políticas e sociais que influenciaram no conflito.

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1.4 Movimentos indígenas: A articulação política dos povos indígenas. Ao longo dos séculos de colonização e construção do Estado brasileiro as políticas oficiais voltadas para os povos originários do território brasileiro variaram do simples extermínio e escravidão às tentativas de aculturação e integração á sociedade envolvente. Passado por políticas diversas que ora vêem o índio como um empecilho ao desenvolvimento e que, portanto, deve ser exterminado ou quando muito retirado do caminho, ora como um ser inferior que deve ser tutelado e posto a salvo sob a guarda do Estado (PERES, 2003). O reconhecimento legal dos povos indígenas como cidadãos brasileiros plenos de direitos é um fato recente na longa, e conflituosa, relação entre os tais povos e a sociedade nacional tendo em vista que o índio só deixou de ser considerado legalmente tutelado pelo estado na década de 1980. Nesse sentido, o movimento indígena pode ser considerado como a mais recente forma de resistência às políticas indigenistas contrárias aos interesses dos índios e como ferramenta de articulação da luta comum das diversas etnias. Mas não a única. Se a resistência indígena pode ser remontada desde as primeiras escaramuças entre nativos e colonizadores, o movimento indígena tem sua origem na década de 1970, através da ação de entidades missionárias ligadas á Igreja Católica, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), cujas ações no sentido de formar lideranças e organizar encontros e reuniões, permitiram a articulação de povos de diversas etnias e a emergência de uma ação política comum baseada na defesa de um direito etnicamente diferenciado (PERES, 2003). As assembléias indígenas dos anos 70 são consideradas o marco histórico da formação do movimento indígena brasileiro. Foi uma fase marcada pela troca de experiências e pela formação daquilo que se pode chamar de um sentimento de indianidade. Também marcou a articulação política entre as etnias dispersas pelo território nacional (NEVES, 2004). O movimento indígena nasce numa década de contínua violação dos direitos civis pelo regime militar. Nesse contexto a luta indígena recebe desde o primeiro momento, o

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apoio de entidades da sociedade civil organizada. Segundo Peres (2003, p. 117) a questão indígena passa a ser tratada na imprensa e pelos setores progressistas da sociedade nacional como uma “figura síntese (...) da cidadania aviltada de todos os brasileiros”. Exatamente por isso que a mobilização indígena em torno da organização de um movimento que unificasse e articulasse a luta das diversas etnias foi reprimida pelo governo militar e pelos órgãos encarregados da questão indígena, como a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), criada em 1967 para substituir o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) (NEVES, 2004). Tal oposição culminou com o Decreto de Emancipação de 1978, que, em tese, acabava com a tutela dos povos indígenas em relação ao Estado, mas que sofreu enorme oposição dos índios e das entidades de apoio, pois na prática significaria apenas o fim de direitos específicos voltados para esses povos, e a retirada de empecilhos legais para a liberação de suas terras para empreendimentos de interesses estatais ou privados. Mais uma vez a política indigenista estava sendo definida tendo em vista os interesses de determinados grupos econômicos da sociedade nacional e não dos próprios índios (PERES, 2003). Essa tentativa, por parte do governo federal, de “libertar” os índios (simultaneamente de sua tutela e de suas terras) acabou por aumentar a articulação entre o movimento indígena e a sociedade civil e resultou em dois efeitos não previstos pelo governo. (1) A multiplicação de ONGs de apoio à causa indígena (PERES, 2003). (2) O impulsionamento de entendimentos entre os índios e setores da sociedade civil para a criação de uma entidade representativa de todos os índios do país (NEVES, 2004). O que em 1980 daria origem, após um breve período em que concorreram duas entidades com os mesmos objetivos e nome4, a um movimento indígena unificado. A união da UNI e da UNIND, formando uma única entidade sob a sigla UNI, consolidou a nova organização como principal representante dos interesses indígenas de todo o território.

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A União das Nações Indígenas (UNIND) e a União das Nações Indígenas (UNI),

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Contudo, a UNI não teria vida longa. Nos anos 80 também se verificou a proliferação das organizações indígenas. A própria UNI criou representações locais, isso derivou da necessidade de articular-se em torno de demandas locais e específicas de cada grupo étnico. Gradualmente a entidade nacional foi substituída por essas organizações mais próximas das demandas de cada povo. Neves (2004, p. 5) argumenta que antes de uma fragmentação do movimento indígena brasileiro, essa multiplicação das entidades indígenas representam uma atomização do movimento. Nesse sentido, as organizações de base funcionariam como “átomos constitutivos de uma mobilização maior, mantendo ligações entre si de modo a articular estratégias e ações locais dentro da perspectiva global do movimento indígena”. A promulgação da Constituição Federal de 1988 é vista por esses autores como um momento chave no fortalecimento do movimento indígena brasileiro. Pois, o texto constitucional trouxe duas importantes inovações em relação à constituição anterior. A primeira foi o fim da tutela dos povos indígenas em relação ao Estado. A segunda delas foi a autonomia conferida aos povos indígenas para se fazerem representar judicialmente através de suas próprias organizações e meios de associação. Isso significou o fim da dependência formal tanto do Estado, quanto de outras entidades da sociedade nacional e abriu a possibilidade de acionar outros poderes da república no atendimento de suas demandas (PERES, 2003). Como já é possível verificar, o fim dos anos 80, principalmente após a promulgação da nova constituição, representou o fortalecimento de ambos os movimentos. Tanto o movimento ambientalista, quanto o movimento indigenista encontraram no texto da carta magna subsídios para a ampliação de suas demandas e o acionamento de direitos antes negados ou dificultados. Fortaleceu também a aproximação e articulação dos dois movimentos, pois como destaca Peres (2003, p. 122) desde o início da década já era possível verificar uma tendência no movimento ambientalista (nacional e internacional) para o deslocamento de seu discurso e ações da crítica ao modelo de desenvolvimento para a

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proposição de modelos alternativos e sustentáveis. O índio passa a ser visto como o representante desse manejo sustentável e respeito á natureza. Nas palavras do autor:
O índio passa da condição de herói revolucionário e vítima do neocolonialismo imperialista, depositário das esperanças de mudança social global do capitalismo, à condição de sujeito de direitos humanos universais, cidadão do mundo. (grifos do autor).

O modo de vida indígena passa a ser encarado como sustentável e a afirmação dos direitos desses povos á terra como uma forma de preservar o meio ambiente. Esse fato poderá ser visto no caso estudado, visto que os anos 90 foram marcados pelo fortalecimento das alianças com entidades ambientalistas locais e nacionais. Outro fato que podemos destacar como impulsionador da atuação do movimento indígena, após 1988, foi a atribuição ao Ministério Público (MP) do papel de defender os interesses metaindividuais ou coletivos. Pois, tal atribuição coloca o MP numa posição singular, porque ao mesmo tempo em que está na esfera jurídica, tem o dever de proteger os interesses de grupos e segmentos da sociedade (SILVA, 2001). Segundo Peres (2003, p. 127) a atuação desse órgão foi “fundamental para a ampliação de suas conquistas territoriais”. No segundo capítulo poderemos analisar com mais calma a participação do MP no conflito analisado e verificar como esta afirmação tem se desenvolvido na prática através de um exemplo empírico. Por fim, cabe ainda destacar que apesar das conquistas e ganhos do movimento indígena nos anos 80, os anos 1990 trouxeram mudanças no cenário político-social que impediram um maior avanço da questão, mesmo com todos novos instrumentos e do fortalecimento do movimento ou de suas alianças. Isso porque, apesar da pressão dos organismos multilaterais pela “regularização das terras indígenas e proteção ao meio ambiente” (PERES, 2003), os sucessivos governos eleitos a partir de 1989 atuaram no sentido de implantar medidas que atendessem interesses dos grandes produtores e outros empreendimentos de grande porte em áreas de expansão da fronteira capitalista. Culminando com a outorga do Decreto 1.775/96, o qual é apontado por alguns autores como “uma reação, ainda que tardia, ao avanço (...) das (re)conquistas indígenas no período

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posterior á promulgação da Constituição Federal, em 1988” (BARRETO Fº, 2005). Que, segundo o mesmo autor, seria fruto de um entendimento “restritivo e conservador” do conceito de “terras tradicionalmente ocupadas” a que se refere a constituição. E, segundo Peres (2003, p. 132), “uma artimanha do governo brasileiro para atender aos interesses anti indígenas”. Independente da interpretação que se dê aos objetivos do decreto, o fato é que tal regulamentação atrasou enormemente o desenvolvimento do processo de identificação e demarcação de terras indígenas:
Transformando embate político em torno da negociação de limites territoriais em uma questão de ordem jurídica onde a ocupação da terra passa a ser percebida não como um direito histórico, mas sujeita a uma sentença que conceda aos índios a possibilidade de permanecerem em terras que sempre foram suas. (NEVES, 2004).

Esse retrocesso administrativo em relação ao espírito do texto constitucional exigiu a permanente mobilização dos povos indígenas durante o processo de regularização e demarcação de suas terras. Pois, ao permitir a existência de posições contrárias à demarcação já no período de identificação e delimitação, o decreto trouxe a lógica judicial do conflito para dentro do processo administrativo, sob alçada de decisão do Ministro da Justiça, encarregado de emitir despachos e portarias declaratórias. No conflito analisado, os principais embates, retrocessos e adiamentos se deram nesta fase, pois as posições dos diversos ministros, pelos quais o processo de demarcação passou, freqüentemente divergiram do que foi identificado no relatório do grupo de trabalho da FUNAI ou das recomendações da própria entidade. Contudo, essas questões serão melhor analisadas no próximo capítulo. Por fim, encerramos este subcapítulo com um extrato do artigo de Neves que consideramos exemplar do atual momento do movimento indígena brasileiro (2004, p. 22):
Um balançodo movimento indígena no Brasil indica que hoje os índios perderam parte da força que possuíam na década de 80 de conquistar adesão e solidariedade de outros segmentos da sociedade em torno da sua causa. Contudo a questão indígena continua sendo potencial de emancipação social. Esse potencial reside em dois fatos. Em primeiro lugar na herança de um passado recente onde o movimento indígena representava uma grande força organizada. (...) Em segundo lugar, e mais importante fator, de, por suas características inerentes, o movimento indígena contrapor

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modelos de sociedades diferentes (...) emergindo desta contraposição “rivalidades entre conhecimentos, valores, princípios, sistemas políticos e formas de organizações sociais diferentes.

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Capítulo 2 Estudo de Caso: Os índios Tupiniquim e Guarani x Aracruz Celulose S.A.

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Tendo como referência a discussão teórica que apresentamos no primeiro capítulo, passamos neste capítulo a apresentar o caso em si. Nosso estudo debruçou-se sobre o conflito instalado no município de Aracruz, no norte do Espírito Santo, entre as comunidades indígenas das Terras Indígenas Comboios, Caieiras Velhas e Pau Brasil e a empresa reflorestadora Aracruz Celulose S.A. Esse conflito se desenrolou por mais de 30 anos, desde meados da década de 1970 que os índios da região lutavam pela demarcação e homologação de seu território, com vitórias pontuais e muitos reveses. A Aracruz Celulose se constituía como principal opositora às propostas de demarcação, devido ao fato de a área proposta incidir prioritariamente sobre terras, quase que completamente tomadas pelas plantações de eucalipto para a fabricação de pasta de celulose e papel. Neste capítulo analisaremos como seu deu o processo de demarcação das terras indígenas até a divulgação, pelo ministro da justiça, das portarias declaratórias em 2007 e os diversos momentos deste conflito. É importante salientar que não se deve esperar linearidade na análise, como já destacado no capítulo anterior, os conflitos socioambientais, e especialmente os que duram tanto tempo, possuem uma dinâmica própria e intercalam momentos de intenso debate e ação e outros de relativa estabilidade. Nosso estudo irá se fixar em dois desses momentos. O primeiro deles, a partir de 1994, posterior, portanto, à primeira demarcação realizada em 1983, no qual foi realizado um estudo antropológico de identificação e que dará origem á primeira expansão das Terras Indígenas e será o principal ponto de referência para reivindicação indígena de nova expansão de suas terras. E o período que vai de 2005 a 2007, no qual o conflito é retomado e vai permanecer intenso até a segunda expansão das Terras Indígenas em 2007. Entretanto, se esses períodos serão os que nos fixaremos mais, não deixaremos de analisar dois períodos importantes. O primeiro processo de demarcação na década de 1970 e o período de “paz” decorrente do entendimento conseguido entre as partes após o Termo

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de ajustamento de Conduta assinado pela Aracruz e mediado pelo Ministério Público Federal em 1998 Como já mencionado na introdução, inicialmente nosso objetivo era analisar a atuação do Estado durante o conflito, bem como a ação das diversas agências estatais envolvidas, e o cumprimento ou não das previsões legais da legislação de cada período, destacando as conseqüências desse processo para a situação legal das terras indígenas e o desenrolar do conflito. Contudo, nossa análise não se restringirá a isso. Durante a pesquisa ficou patente que havia outros atores envolvidos no conflito que possuíam relevância. Referimo-nos às entidades de apoio. Durante os diversos momentos do conflito, as Associações Indígenas receberam apoio em sua luta de entidades diversas. Algumas ligadas à Igreja Católica, outras a diversos movimentos sociais. Na década de 1990 torna-se relevante a ação da entidade ambientalista Rede Alerta Contra o Deserto Verde, assim como na década de 1970 destaca-se a ação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), sem falar na articulação com outros movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Tais articulações representaram importantes alianças, significaram mudanças no discurso e na forma de ação e até mesmo aumentaram a visibilidade do conflito. Por isso, não poderíamos deixá-las de fora da análise. Por isso, a primeira seção deste capítulo será dedicada á apresentação dos atores envolvidos. Tendo como critério a relevância deles no conflito e destacando o papel e os objetivos de cada um deles.

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2.1. Os Atores 2.1.1 – Os Tupiniquins Os índios da etnia Tupiniquim (também topinaquis, tupinaquis, tupinanquins ou tupiniquins)5 representam a maioria étnica dos povos indígenas do município de Aracruz, no norte do Espírito Santo. Segundo um levantamento realizado pelo Grupo de Trabalho 783/94 da FUNAI, por ocasião da elaboração do relatório de reestudo da identificação das terras indígenas da região, haveria em Aracruz 1306 índios, distribuídos entre as Terras Indígenas de Caieiras Velhas, Pau Brasil e Comboios. Sendo 1139 deles Tupiniquim e 167 Guarani Mbyá (residentes apenas em Caieiras Velhas). Isso significa que, nessa ocasião, os tupiniquins representavam cerca de 87% da população indígena local (FUNAI , 1995). Porém, os dados relativos ao tamanho da população indígena na região e no estado são apenas aproximados, não foi possível encontrar estatísticas oficiais sobre o assunto. A FUNAI estima a população indígena do Estado em 1700 indivíduos, somando tupiniquins e guaranis mbyá. (FUNAI, 2008). O último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimou a população indígena do Espírito Santo em cerca de 11.500 indivíduos, com cerca de 8500 em meio urbano, 1200 nas áreas rurais e 1800 nas Terras Indígenas (IBGE, 2000). Já um levantamento realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), em 1997, estima a população Tupiniquim em 1386 índios (ISA, 2002). Com base nesses dados, e mantendo a proporção encontrada pelo Grupo de Trabalho da FUNAI, podemos estimar que a população Tupiniquim atual gire em torno de 1300 a 1600 indivíduos dentro das Terras Indígenas e entre 7000 e 8000 fora dela. Os Tupiniquim eram originalmente “falantes da língua Tupi litorânea, da família TupiGuarani”. Hoje falam apenas o português (ISA, 2002). Estima-se que os Tupiniquim já ocupassem o litoral do Espírito Santo pelo menos desde 815 AD (PEROTA, 1979 apud FUNAI, 1995). Essa datação foi possível a partir de achados arqueológicos da região. Urnas funerárias encontradas recentemente confirmam a
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Cf. Enciclopédia dos Povos Indígenas. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2002.

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presença dessa etnia no município de Aracruz há pelo menos 600 anos. (A GAZETA, 1995 apud FUNAI, 1995). É possível encontrar registros históricos do século XVI que já fazem referências às comunidades tupiniquins ocupando uma “faixa de terra situada entre Camamú, na Bahia e o rio São Mateus, no Espírito Santo”. Também há registros de presença Tupiniquim entre Angra dos Reis e Cananéia, no Rio de Janeiro (FUNAI, 1995b). Os Tupiniquim do litoral do Espírito Santo foram contatados desde muito cedo, e em 1556 missionários jesuítas portugueses instalaram aldeamentos na região. A chamada Aldeia Velha (onde hoje é o município de Aracruz) teria sido fundada pelo padre Afonso Brás e posteriormente transferida para a região do rio Piraquê-açu. A ação jesuítica tinha por objetivo a conversão dos índios ao cristianismo, num processo de amansamento dos povos indígenas pela fé cristã. A formação de aldeamentos indígenas pelas missões religiosas é um modelo que irá permanecer, com algumas variações estratégicas, até meados do século XVIII (ARRUTI, 1995). Entretanto, os aldeamentos podem ser considerados uma situação “estável” no relacionamento entre os Tupiniquim e os colonizadores portugueses. Pois o confronto direto entre europeus e os índios da região marcaram os primeiros anos da colonização do período. Perrone-Moisés destaca o papel do aldeamento na política colonial do século XVI: “O aldeamento é a realização do projeto colonial, pois garante a conversão e a ocupação do território”. (PERRONE-MOISÉS, 1992 apud FUNAI, 1995). Em 1760, após a expulsão dos jesuítas da colônia pelo marquês de Pombal, os índios de Nova Almeida, tiveram os limites de suas terras medidos e demarcados. Tornando-se assim possuidores de direito das sesmarias. Mas, não de fato. Vânia Moreira (2002, p. 155-156), afirma que após a expulsão dos jesuítas, até meados de 1850, a tendência geral foi o “contínuo avanço sobre seus territórios e, por fim, a expulsão”. Esse processo ocorre sob observância e anuência das autoridades coloniais locais: “graças ás doações feitas pelos governadores aos seus amigos, por meio de pequenas contribuições pagas á municipalidade para o uso de terras que os índios cediam para poderem comprar

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aguardente; pela simples posse ilegal e (...) em virtude da distribuição oficial de sesmarias em terras indígenas”. (MOREIRA, 2002). Esse lento processo de desestruturação sociocultural, econômico e político da vila de Nova Almeida se dá num contexto de relativa prosperidade e estabilidade da situação indígena na vila. Segundo Moreira (2002, p. 156-157), chegando inclusive a ser dirigida por um capitão indígena e a possuir um juiz também indígena. Entre 1848 e 1853 medidas sucessivas foram enfraquecendo a municipalidade até a perda de sua autonomia administrativa. Como era a câmara municipal, cuja maioria era indígena, que garantia a estabilidade de situação fundiária dos índios da região, estava aberto o caminho para a ocupação e a expropriação das terras tupiniquins. A Lei de Terras de 1850 representou um elemento complicador na legitimação do direito á terra por parte das comunidades indígenas da região. Entre 1822 e 1850 ficou suspendido o regime de sesmarias, entretanto a lei de terras só seria promulgada 28 anos mais tarde, nesse período em que vigorou uma espécie de “vácuo” na legislação fundiária brasileira, a posse tornou-se a forma mais comum de aquisição de terras. (MOREIRA, 2002). E, conseqüentemente, as terras indígenas de Nova Almeida sofreram o impacto dessa situação. Com a promulgação da lei em 1850 a compra das terras tornou-se o caminho natural para aquisição de terras. Com algumas exceções:
Com a promulgação da Lei de Terras (Lei n. 601, de 18/9/1950), a continuidade de formação de novas posses foi expressamente proibida. A partir de então, todos os interessados em novas terras deveriam adquiri-las de forma legal, ou seja por via da compra. Mas a nova lei e suas regulamentações de 1854 igualmente abriram caminho para a legitimação de antigas posses e sesmarias, isto é, anteriores a 1850. (...) No processo de legitimação e revalidação de posses e sesmarias, optou-se pelo procedimento simplificado do processo administrativo, uma alternativa que passava ao largo da justiça. (MOREIRA, 2002).

Essa previsão legal serviu mais aos interesses dos posseiros não-índios da região, do que aos próprios tupiniquins. Pois a lei de terras não previa o indigenato, ou seja, o direito originário indígena pelos territórios tradicionalmente ocupados. Pelo contrário, a lei “apenas previa a possibilidade de reservar terras á ‘colonização indígena’, omitindo-se sobre o chamado direito originário e sobre as terras indígenas que possuíam títulos legítimos”.

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Além disso, “A Lei de Terras era omissa em relação á figura do ‘índio civilizado’, isto é, nada dizia, em particular, sobre os direitos de indivíduos ou comunidades integradas à ordem social dominante e que não poderiam ser (...) considerados como partes de tribos independentes”. (MOREIRA, 2002). É nessa omissão que reside o imbróglio legal verificado pela equipe técnica da FUNAI em relação ao direito de domínio indígena sobre as terras reivindicadas. Pois, segundo o relatório de reestudo da identificação, elaborado pelo GT de 1994, a reivindicação indígena estava baseada num suposto domínio territorial das terras da região ancorada em 3 atos legais do período colonial: (1) Doação de sesmarias em 1610; (2) Doação de sesmarias em 1760; (3) Confirmação da doação por ocasião da visita do imperador D. Pedro II em 1860. Porém, não teria sido possível confirmar, através de documentos históricos, o ato de ratificação da doação das sesmarias e assim caracterizar legalmente a situação de domínio das terras reivindicadas. (FUNAI, 1995). Tal confirmação seria importante para o seguimento do processo, através da reivindicação de domínio, porque a legislação indigenista atual, em especial os Artigos 32, 33 e o inciso I do artigo 41 da lei 6.001 de 19 de dezembro de 1973 (Estatuto do Índio) prevê a legalização de terras indígenas adquiridas “por qualquer das formas de aquisição do domínio, nos termos da legislação civil”. (BRASIL, 1973). Essa inconsistência na base documental da demanda indígena resultou numa mudança de estratégia por parte do Grupo de Trabalho. Ao invés de dar prosseguimento ao processo de identificação e pesquisa de indícios que comprovassem o domínio indígena das terras em questão seria realizada a identificação no sentido de comprovar a “posse histórica daquelas áreas”. (FUNAI, 1995). Essa opção resulta do fato de que comprovar domínio indígena de terras na região ser algo extremamente difícil tendo em vista que a legitimação de terras advindas de doações de sesmarias, após 1850, dependerem do requerimento dos legítimos donos das terras para que ocorressem. A lei de terras “impedia (...) que qualquer autoridade pública desencadeasse, por conta própria o processo de legitimação”. Como isso geralmente não ocorria, inclusive por

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ignorância da lei (Além de haver predominado no período o entendimento de que os territórios indígenas que não estivessem ocupados seriam considerados terras devolutas á disposição da União) as terras tupiniquins do Espírito Santo em geral não lograram ser oficialmente reconhecidas e, assim, deu ensejo para que se pudesse negar a legitimidade da reivindicação do domínio das mesmas. (FUNAI, 1995; MOREIRA, 2002). Sobre essa aparente liberdade dos membros do GT para optar por caminhos favoráveis aos índios ao invés de restringir-se ao atendimento ou não das reivindicações conforme demandadas pelos índios e sobre o próprio processo de identificação, seus limites e alguns pontos de seu processo de construção histórica, analisaremos mais profundamente no próximo capítulo que trata exatamente do primeiro processo de identificação e demarcação na década de 1970 e nos reestudos de 1994 e 1998. Contudo, cabe agora, destacar como o processo de regulamentação de terras do século XIX e as políticas indigenistas anteriores refletiram-se na situação fundiária dos tupiniquins no período que analisamos. Pois, as opções governamentais por determinada forma dos direitos indígenas sobre suas terras, ou a ausência deles, dificultou para que mais de um século depois eles lograssem a regulação de suas terras sob uma legislação mais favorável á suas demandas, como a determinada pela constituição de 1988. Em resumo, o que ainda cabe salientar nesta seção é como o processo histórico de expropriação das terras indígenas tupiniquins de Aracruz e das demais populações indígenas do Espírito Santo propiciou um cenário jurídico em que legislações e demandas por direitos conflitantes acirraram o conflito entre a empresa e os índios e prolongaram, como custos diversos para ambos os lados, o conflito além do que seria necessário. Além disso, é importante destacar que a incompatibilidade entre a extensão da área demarcada em 1983, e a organização social dos tupiniquins, terminou por constituir-se como obstáculo para sua reprodução e afirmação étnica, indo de encontro com o que é determinado pelo texto constitucional em seu artigo 231:

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São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. § 1º. São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários à seu bem-estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. (BRASIL, 1988)

Tal previsão de direito, aliado ao entendimento da comunidade Tupiniquim e da equipe técnica da FUNAI de que sua situação contrariava esse direito foram a base do processo administrativo. Contudo, a falta de regulamentação ou a defasagem entre o espírito do texto constitucional e a regulamentação existente levaram a um estado de coisas que em muitas ocasiões beirou a inconstitucionalidade. Esperando ter explicitando satisfatoriamente a situação dos tupiniquins, dado o conflito, passamos á apresentação dos demais atores do conflito.

2.1.2 – Os Guarani-Mbyá Os Guarani-Mbyá representam um grupo étnico minoritário na terra indígena Caieiras Velhas. Em 1997 havia em Caieiras Velhas, na aldeia Boa Esperança, 167 índios GuaraniMbyá. “De acordo com o lingüista Aryon Dall'Igna Rodrigues, o Mbya, assim como Kaiowa e Ñandeva são dialetos do idioma Guarani, que pertence à família Tupi-Guarani, do tronco lingüístico Tupi.” (ISA, 2002). Os Guarani-Mbyá do Espírito Santo são originários do Paraguai e chegaram ao município de Aracruz em meados de 1960, tendo iniciado sua migração pelo sul e sudeste do Brasil por volta dos anos 40. Essa etnia se caracteriza pelo nomadismo e por suas constantes migrações. O subgrupo Mbyá, ao contrário dos Guarani-kaiowa ou dos Guaranichiripa, concebem em seu território de uma forma mais abrangente, chamada tekoha guasu, baseada numa concepção religiosa do mundo. Segundo dados etnográficos, a terra Mbyá compreenderia uma área que se estende desde o Paraguai até o norte do Espírito Santo,

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incluindo áreas do norte da Argentina, Uruguai, Mato Grosso do Sul, toda região sul, São Paulo e Rio de Janeiro. (FUNAI, 1995). Segundo Almeida, a migração Mbyá dentro do tekoha guasu está condicionada pelo estabelecimento de um novo tekoha que satisfaça determinada condições como a existência de florestas com caça e pesca, áreas para roçado, criação de animais e de suas casas, incluindo a opy (casa de reza).(ALMEIDA, 1985 apud FUNAI, 1995). Os Mbyá viajam em pequenos grupos de família. Cada grupo é formado por 7 a 15 famílias com 35 a 75 indivíduos em cada família, liderados por um tamöï (avô) ou uma jarí (avó). O grupo que se encontra em Aracruz foi guiado desde o Paraguai por uma kuña karai (líder religiosa feminina) chamada Tatatï, cuja decisão de se instalar em Caieiras Velhas teria sido fruto de uma revelação que teve durante um sonho. O estabelecimento do grupo em Aracruz foi a última parada de uma viagem que teve inicio no Paraguai nos anos 40, passou por Pelotas (RS), Pipiri Guasu (RS), Rio Branco (SP), Itariri (SP), Rio Cumprido (SP), Cananéia (SP), Itatí (SP), Itinga Grande (SP), Peruibe (SP), Santos (SP), Bertioga (SP), Boracéia (SP), Ubatuba (SP), Barra Mansa (RJ), Belo Horizonte (MG), Vitória (ES) e finalmente Aracruz (ES). Diversas vezes durante a viagem, o grupo Mbyá mudou-se pela chegada de posseiros e outros tipos de colonização da sociedade nacional. Isso porque, segundo a tradição Mbyá, a presença do homem branco torna o local inabitável. A instalação dos Mbyá em terras Tupiniquim contribuíram para a expulsão de posseiros das terras destes. Contudo, em 1972 a FUNAI transferiu a comunidade Mbyá para uma área dos krenak, em Minas Gerais, e de lá para a chamada fazenda Guarani (aldeamento criado pela FUNAI para recolher índios “problemáticos” de diversas etnias, também conhecida como “presídio Guarani”). Voltando à terra Tupiniquim em 1978. Quando retornaram a área anteriormente ocupada pelos Mbyá havia sido negociada com Aracruz Celulose pelo governo do estado e pequenos posseiros da região e transformada em

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plantações de eucalipto. Sem alternativas, os Mbyá se instalaram dentro de Caieiras Velhas. (FUNAI, 1995). Atualmente os Mbyá de Boa Esperança sobrevivem do artesanato e de doações recebidas, além do cultivo de árvores frutíferas e pequenas roças. Os Mbyá não reivindicavam terras exclusivas para si. Mas apenas o aumento de pequenas áreas dentro da terra Tupiniquim para sua própria subsistência. Esta área estaria localizada dentro da nova reserva Tupiniquim.

2.1.3 – Aracruz Celulose S.A Aracruz celulose é uma das maiores empresas reflorestadoras do mundo. Líder mundial em produção de celulose branqueada de eucalipto. Usada para a produção de papeis, papeis especiais e papeis sanitários. Produzindo anualmente cerca de 2,6 milhões de toneladas de polpa de eucalipto por ano. (NYSE, 2008). Em 2007, a empresa obteve um lucro de cerca de 1,044 bilhão de reais em relação a 2006. (FOLHA, 2008). A composição acionária da empresa é formada por capital público e privado, da seguinte forma: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES (12,5%); Votorantim Celulose e Papel – VCP (28%); Banco Safra (28%); Lorentzen Empreendimentos S.A (28%); Outros (3,5%). (ARACRUZ, 2008). Segundo Andrade, Dias e Quintella (2001, p. 3) a empresa se caracterizaria por “altamente intensiva em capital, por fabricar uma commodity global, e por concorrer em um mercado cíclico sofrendo crescentes demandas sócio-ambientais”, além disso, “Uma das principais estratégias concorrenciais da empresa é a liderança de custo de produção suportada principalmente pelo baixo custo de produção de madeira”. O inicio das atividades da empresa no município de Aracruz se deu por volta de 1967 com a compra de 10.000 ha da Companhia de Ferro e Aço de Vitória (COFAVI) do governo estadual, dando inicio à plantação de eucalipto. (FUNAI, 1995). A empresa afirma ter adquirido as terras “segundo a lei, sem vícios, nem lesão a ninguém”. (ARACRUZ, 1994). Contudo, segundo Rogério Medeiros (MEDEIROS, 1983 apud FUNAI, 1995) “o então

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governador do Espírito Santo teria afirmado que lá não existiam índios, quando fez o negocio. Entretanto, existiam índios (...), e a Aracruz Florestal, na verdade, teve que desalojá-los”. (FUNAI, 1995). Ainda segundo Medeiros, teriam desaparecido cerca de 11 aldeias no processo, inclusive com o uso da força. Esse controverso inicio explica o motivo pelo qual a empresa se vê freqüentemente envolvida em conflitos fundiários. Seja com os índios, como também com comunidades quilombolas do estado, como por exemplo a comunidade de Linharinhos, ou com pequenos produtores da região. A atuação da empresa também é motivo de contestação por parte do movimento ambientalista do estado e até por organizações ambientais nacionais. Devido ao impacto negativo que o plantio de eucalipto teria sobre o ecossistema da região. Em especial, devido a substituição da mata nativa por monocultura de árvores, a contaminação dos rios da região por agrotóxico e o suposto secamento de rios e cursos d’água pelo eucalipto. Em contrapartida, os empregos gerados pela produção e os recursos advindos do recolhimento de impostos tem garantido a simpatia e o apoio de parte da população local e das autoridades do município e do estado. Apesar de a maior parte da produção da empresa estar localizada em Aracruz, na fábrica de Barra do Riacho, a Aracruz Celulose também mantém unidades em Guaíba (RS) e Veracel (BA). Além disso, possui no Espírito Santo o Portocel, responsável pelo escoamento de sua produção de celulose. (ARACRUZ, 2008). Desde a primeira demanda por terra dos índios Tupiniquim, em 1975, a atitude da empresa tem oscilado entre tentativas de acordo que a beneficiem e a contestação da legitimidade das reivindicações indígenas. A atitude verificável através da análise dos acordos que a empresa firmou com a FUNAI (1983) e o Ministério Publico Federal (1998), doando terras ou financiando programas, mas sem nunca reconhecer a legitimidade da demanda indígena. Sempre reafirmando seu direito à posse das terras contestadas e a legalidade do seu processo de aquisição.

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2.1.4 – Fundação Nacional do Índio (FUNAI) Criada em 5 de dezembro de 1967, através da lei 5.371, a Fundação Nacional do Índio foi instituída com o objetivo de (1) estabelecer e garantir o cumprimento da política indigenista; (2) gerir o patrimônio indígena; (3) promover levantamentos, analises, estudos e pesquisas cientificas sobre o índio e os grupos sociais indígenas; (4) despertar o interesse coletivo pela causa indigenista; (5) exercitar o poder político nas áreas reservadas e nas matérias atinentes à proteção do índio. (BRASIL, 1967). Para cumprir suas funções a FUNAI está estruturada da seguinte forma: Presidência e seus órgãos de assistência; Diretoria de Assistência; Diretoria de Administração; Diretoria de Assuntos Fundiários; Administrações Executivas Regionais e Postos Indígenas e o Museu do Índio como órgão descentralizado. (FUNAI, 2008). A FUNAI substituiu o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) no governo dos índios do Brasil sem, contudo, representar grandes mudanças em relação a atuação deste órgão. Até 1973, ano da promulgação do estatuto do índio, a FUNAI sequer estava

preparada institucionalmente para exercer sua função de regularizar a situação fundiária das terras indígenas. (LIMA, 2005). Desde sua origem a FUNAI estaria “integrada á perspectiva desenvolvimentista de ação governamental instalada após o regime militar de 1964”. Ou seja, a ação da FUNAI mais do que garantir aos índios “a posse permanente da terra que habitam e o usufruto exclusivo dos recursos naturais” (BRASIL, 1967) estaria vinculada a uma política de fixação das populações indígenas à terra e regularização da “ocupação fundiária, reservando um montante de terras para o uso das populações indígenas, e estabelecendo o estoque de recursos disponíveis para os empreendimentos empresariais”. (PERES, 2003). Um papel muito similar ao que o SPI havia desempenhado até então. (LIMA, 1998). Como demonstram o trabalho de diversos antropólogos e pesquisadores, a questão indígena no Brasil, em especial o processo de identificação e demarcação de terras indígenas, sempre esteve subordinada aos interesses da sociedade nacional e dos grandes grupos econômicos e políticos. (ARRUTI, 1995; LIMA, 1998; PERES, 2003; PERES, 2005).

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Contudo, a atuação da FUNAI não pode ser analisada de forma homogênea, pois o papel da instituição na execução da política indigenista oficial, e sua capacidade de cumprilo variou durante os 40 anos de existência da Fundação. Se durante a década de 1970 a instituição pode ser caracterizada como eminentemente tutelar e repressora das organizações não oficiais do movimento indígena (NEVES, 2004), na década de 1990 verificamos um enfraquecimento institucional da Fundação e perda da exclusividade na execução das políticas voltadas para os povos indígenas, ao mesmo tempo em que se pode verificar uma maior aproximação entre a ação da FUNAI indígenas. Essa mudança de atitude pode ser verificada no processo de demarcação, e posterior reestudo, das terras tupiniquins e Guarani no Espírito Santo. Se entre 1975 e 1983 a atuação da FUNAI neste processo pode ser caracterizada como hesitante e até mesmo contrária aos interesses indígenas, em favor dos interesses da Aracruz, entre 2005 e 2007 a ação da FUNAI se aproxima do que determina a lei que a instituiu e durante o processo de identificação ela atuou no sentido de sustentar sua posição a favor da expansão da terra indígena, baseada nas diretrizes constitucionais, mesmo contrariando interesses políticos e econômicos contrários a demarcação. (FUNAI, 1995; SÉCULO DIÁRIO, 2007). e as demandas dos povos

2.1.5 – Ministério da Justiça (MJ) As atribuições e organização atual do Ministério da Justiça foram dadas pela lei 10.683 de 28 de maio de 2003. Segundo esta lei são competências do Ministério da Justiça: (1) defesa da ordem jurídica, dos direitos políticos e das garantias constitucionais; (2) política judiciária; (3) direitos dos índios; (4) entorpecentes, segurança pública, Polícias Federal, Rodoviária e Ferroviária Federal e do Distrito Federal; (5) defesa da ordem econômica nacional e dos direitos do consumidor; (6) planejamento, coordenação e administração da política penitenciária nacional; (7) nacionalidade, imigração e estrangeiros; (8) ouvidoria-geral dos índios e do consumidor; (9) ouvidoria das polícias federais; (10) assistência jurídica, judicial e extrajudicial, integral e gratuita, aos necessitados, assim

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considerados em lei; (11) defesa dos bens e dos próprios da União e das entidades integrantes da Administração Pública Federal indireta e (12) articulação, integração e proposição das ações do Governo nos aspectos relacionados com as atividades de repressão ao uso indevido, do tráfico ilícito e da produção não autorizada de substâncias entorpecentes e drogas que causem dependência física ou psíquica; O MJ é formado por conselhos, pelas polícias federal, rodoviária federal e ferroviária federal, além de secretarias. (BRASIL, 2003). No tocante á questão indígena, segundo o Decreto 1775 de 8 de Janeiro de 1996, cabe ainda ao Ministério da Justiça, através do ministro de estado, durante o processo de demarcação: (1) Declarar, mediante portaria, os limites da terra indígena e determinar sua demarcação; (2) prescrever as diligências que julgue necessárias; ou (3) desaprovar a identificação e retornar ao órgão federal de assistência ao índio, mediante decisão fundamentada, circunscrita ao não atendimento do disposto no § 1º do art. 231 da Constituição e demais disposições pertinentes. (BRASIL, 1996). A ação do Ministério da Justiça durante o processo de demarcação Tupiniquim pode ser caracterizada como um dos fatores responsáveis pela morosidade do processo. Pois, por duas vezes, os despachos ministeriais contrariaram as recomendações da equipe técnica da FUNAI e abriram espaço para o adiamento da emissão da portaria demarcatória ou ainda para a redução da área a ser demarcadas. Essa é uma constatação que já havia sido verificada anteriormente, a de que o decreto, e a portaria que o complementou, na medida em que introduz o princípio do contraditório dentro do processo administrativo, abre as portas para a possibilidade de prorrogação e indefinição do processo. (SANTILLI, 1997; BARRETO Fº, 2005).
A portaria coloca o resultado do estudo de identificação sempre na situação de poder ser contestado. Isso porque em praticamente todos os casos concretos será muito difícil, para não dizer impossível, reunir todas as informações demandadas pela Portaria, em especial as que se referem á situação de ocupação de fato por não-índios. (BARRETO Fº, 2005).

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2.1.6 – Ministério Público (MP) “Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.” (BRASIL, 1988) O Ministério Público é definido pela constituição de 1988 como um órgão auxiliar da justiça. Segundo o artigo 129 ele é responsável por (1) Promover a ação penal pública; (2) Zelar pelo respeito dos Poderes Públicos aos direitos assegurados pela constituição; (3) Promover inquérito civil e ação civil pública para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos; (4) promover a ação de inconstitucionalidade ou representação para fins de intervenção da União e dos Estados; (5) defender judicialmente os direitos e interesses das populações indígenas; (6) expedir notificações nos procedimentos administrativos de sua competência, requisitando informações e documentos para instruí-los, na forma da lei complementar respectiva; (7) exercer o controle externo da atividade policial; (8) requisitar diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial, indicados os fundamentos jurídicos de suas manifestações processuais; (BRASIL, 1988, grifos meus). Para tanto o ministério público se divide e estrutura da seguinte forma. O Ministério Público Brasileiro se divide entre Ministério Público da União (MPU) e os ministérios públicos estaduais. O Ministério Público da União se subdivide em Ministério Público Federal (MPF), Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério Público Militar (MPM), Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Cada divisão do MP possui seus órgãos próprios responsáveis pela organização interna das instituições e pelo cumprimento das atribuições constitucionais. Por exemplo, em relação aos povos indígenas, o Ministério Público Federal possui a 6ª Câmara de Coordenação e Revisão – Índios e Minorias. Responsável pelas ações que envolvem povos indígenas, quilombolas, extrativistas e outras minorias. (MPF, 2008). Segundo Arantes (1999, p.83), atualmente o Ministério Público passa por um processo “de reconstrução institucional que, associado à normatização de direitos coletivos

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e a emergências de novos instrumentos processuais, tem resultado no alargamento do acesso à justiça no Brasil (...) e na canalização de conflitos coletivos para o âmbito judicial”. Esse processo seria resultado da consolidação de um novo perfil de Ministério Público, possível graças à promulgação da Constituição de 1988. (SILVA, 2001). Isso porque o texto constitucional atribui ao Ministério Público a responsabilidade pela defesa dos chamados interesses metaindividuais (interesses individuais homogêneos, coletivos e difusos). Dentre esses direitos podemos destacar os direitos do consumidor, do meio ambiente, do patrimônio histórico e artístico e os direitos das minorias étnicas. Os direitos metaindividuais podem ser definidos como “interesses privados de dimensão coletiva“. (GRINOVER, 1994 apud ARANTES, 1999). Essa característica implica na possibilidade de encaminhamento jurídico de conflitos políticos, isso por que em geral os direitos coletivos se relacionam com políticas públicas. Abrindo caminho para o que Arantes (1999, p.89) chama de judiciação da política. Nesse contexto é o Ministério Público o principal responsável pelo encaminhamento jurídico das ações coletivas. O principal instrumento disponível para o Ministério Público para isso é a Ação Civil Pública (ACP), definida como “ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados ao meio ambiente, ao consumidor, a ordem humanística, a bens de direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico ou por infração da ordem econômica e da economia popular”. (BRASIL, 1985). Esse tipo de ação pode ser proposta pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela União, Estado, Distrito Federal e Município, por autarquias, empresas públicas, fundações ou sociedade economia mista ou associações (estas desde que cumpra os critérios definidos pela lei). Entretanto, o principal propositor desse tipo de ação tem sido o Ministério Público, os demais entes estatais têm figurado mais freqüentemente como réus do que como autores de ações. (ARANTES, 1999). Além da ação civil pública, o Ministério Público tem à sua disposição outros instrumentos para cumprir seu papel constitucional, tais como o Inquérito Civil e os Termos de Ajustamento de Conduta (TAC). (SILVA, 2001).

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O Ministério Público possui prerrogativas e garantias funcionais similares às atribuídas ao Poder Judiciário, como independência funcional, vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos, que lhes garantem a autonomia e a independência necessárias para o desenvolvimento da função. Em contrapartida, a ação do MP é exercida num “turbilhão de conflitos coletivos, sociais e políticos”, que acabariam por ocasionar um processo de politização da justiça. (ARANTES, 1999). O Ministério Público Federal teve um papel importante de intermediação no conflito entre os índios tupiniquins e Guarani e a Aracruz Celulose na esfera judicial, sendo responsável pela elaboração de um acordo entre as partes em 1998. Também teve papel de destaque na defesa dos direitos indígenas durante um episodio de tentativa da empresa em difundir localmente a negação da identidade indígena às comunidades de Aracruz, que terminou pela condenação da mesma por racismo e pela exigência da retirada de material publicitário que denegria a imagem dos povos indígenas. (RBJA, 2002; CARTA MAIOR, 2006).

2.1.7 – Movimentos Sociais e Entidades de Apoio O conflito pela definição das terras indígenas do Espírito Santo, como qualquer outro conflito, não possui um único significado, nem uma única interpretação possível. Ele é interpretado e apropriado de formas diferentes pelos diversos grupos sociais envolvidos. Desde as diversas versões elaboradas pelas partes diretamente interessadas (índios e Aracruz) até o modo como é construído pelos grupos aliados de ambos os lados. Destacaremos aqui as principais entidades envolvidas direta ou indiretamente no conflito, que não são partes interessadas na resolução, como por exemplo, os movimentos sociais, entidades de apoio à causa indígena ou outros grupos sociais, mas que estiveram em algum momento ligadas ao conflito.

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Conselho Indígena Missionário (CIMI):

O CIMI é uma entidade vinculada à

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criada em 1972. O Conselho está organizado em 11 regionais e 1 secretariado nacional, em Brasília. Além disso, possui uma diretoria composta por seus coordenadores regionais e a presidência. A cada dois anos realiza assembléias gerais. Atualmente possui cerca de 400 missionários divididos em 114 equipes. (CIMI, 2004a; 2004b; 2004c). A atuação do CIMI representa uma mudança no padrão da prática missionária católica no Brasil. A qual desde o período colonial tem se caracterizado pela tentativa de conversão e pacificação dos povos indígenas, além da fixação do índio à terra através do trabalho agrícola. (PERES, 2003; NOVAES, 1999). A constituição do CIMI se insere num contexto de mudança na teologia católica. A entidade se forma dentro do que se convencionou chamar de teologia da libertação. Segundo Peres (2003, p.118):
Nessa nova concepção evangelizadora, a cultura indígena não é mais incompatível com os princípios cristãos, mas pelo contrário, é uma de suas expressões. O índio é objetivado como oprimido, que deve tornar-se sujeito da sua libertação, organizando-se autonomamente. (grifos do autor).

Seguindo esta concepção, o CIMI consolidou-se como um importante ator na luta pelos direitos indígenas a partir dos anos 70. Foi o responsável pela organização de cerca de 50 assembléias indígenas entre 1974 e 1984. Tais assembléias se configuraram enquanto um dos principais instrumentos para a formação de um sentimento de identificação entre as diversas etnias indígenas brasileiras e motivou a articulação entre elas. O auge deste processo se dá em 1980 com a fundação da União das Nações Indígenas (UNI), entidade representativa de um movimento indígena unificado. Além disso, a entidade investiu na formação de lideranças indígenas, motivo pelo qual sua atuação é ponto obrigatório em qualquer análise sobre o movimento indígena brasileiro. (PERES, 2003).

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Em relação ao caso analisado, o CIMI teve um importante papel na publicização do conflito e na articulação das comunidades com a sociedade civil organizada.

Movimento Ambientalista: a articulação entre o movimento ambientalista e as questões indígenas é um fato novo da relativamente nova história do ambientalismo brasileiro. O movimento ambiental no Brasil nasce sob uma ótica observacionista na qual predomina os conceitos ecológicos que segundo Costa (2006, p.17) representa um “reducionismo metodológico”. No qual predomina um conceito de meio ambiente quase que exclusivamente biológico e natural “na qual o homem é incorporado com dificuldade. Dessa forma, a interface entre as praticas sociais humanas e suas condições materiais é negligenciada”. Contudo, é cada vez maior a percepção da necessidade de uma “renovação teórica” que articule as demandas sociais e ecológicas. (ROUSSET, 2001). A nível global tem se destacado dois conceitos que tentam articular a biodiversidade e a preservação ecológica com a diversidade humana. O primeiro deles é o conceito de diversidade biocultural. Este conceito engloba uma grande gama de práticas que resultam no cultivo “de uma totalidade de espécies, populações, comunidades e ecossistemas que constituem a vida de qualquer ecossistema ou ecossistemas superpostos”. Isso significa dizer que “[a] biodiversidade não é um ato da natureza apenas, mas realmente o resultado de milhares de anos de inovações humanas e de interação interdependente com a natureza”. Essa noção está intimamente ligada à noção de etnicidade ecológica, isto é, “qualquer grupo de pessoas que deriva seu sustento da negociação cotidiana com o meio ambiente imediato”. (PARAJULI, 2006). Isso significa uma mudança na perspectiva da relação entre o homem e o meio ambiente. O homem já não é mais visto como um intruso no mundo natural, mas como um dos fatores que levam à

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biodiversidade. É também uma valorização das culturas tradicionais e suas relações com a natureza. O segundo conceito que também tem permeado as discussões teóricas no movimento ambientalista, e suas praticas (e este tem encontrado maior ressonância no Brasil) é o conceito de racismo ambiental. Define-se racismo ambiental como as “injustiças sociais e ambientais que recaem de forma desproporcional sobre etnias vulnerabilizadas”, ou seja, ações que tenham intenções ou efeitos racistas. (HERCULANO e PACHECO, 2006). No Brasil, algumas entidades ambientalistas já procuram articular-se com os povos indígenas em suas lutas locais tendo esta perspectiva como pano de fundo. Especialmente quando o atendimento das demandas indígenas pode resultar em impactos positivos sobre o meio ambiente. Destacamos as Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA), a Rede Alerta Contra o Deserto Verde e a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) como entidades que atuam nessa perspectiva de articulação entre as demandas étnicas e a necessidade de preservação ambiental. Assim a luta indígena é vista por elas como uma alternativa para a promoção de justiça social e o equilíbrio ambiental. Em referência ao conflito analisado destacamos o papel destas entidades como articuladoras, divulgadoras e foco de pressão sobre as autoridades envolvidas no caso.

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2.2. De 1975 a 1998: Primeiros embates. Apesar de já termos comentado diversos fatos referentes ao caso nos capítulos anteriores, neste subcapítulo iniciamos a análise de fato do conflito, seus desdobramentos, possibilidades e interpretações possíveis. Conforme já indicado anteriormente, nos concentraremos na análise do período mais recente do conflito, entre 2005 e 2007, sem, contudo esquecer o período anterior. Motivo pelo qual, a seção referente a este primeiro período irá versar sobre um lapso de tempo maior que as seções subseqüentes.

2.2.1. 1975 – 1983: O primeiro processo de demarcação. Os dados que se seguem se baseiam na pesquisa realizada pelo Grupo de Trabalho 783 de 1994, da FUNAI, por ocasião da elaboração do reestudo das terras Tupiniquim iniciado no mesmo ano. (FUNAI, 1995). Segundo esse relatório, primeira tentativa Tupiniquim de demarcação de suas terras se inicia em 1975, através de uma demanda apresentada junto a FUNAI exigindo a delimitação de suas terras. Essa demanda tinha por base a reivindicação de domínio sobre as terras da região e baseavam-se em na cópia de documento de 1873 que provaria a doação de uma sesmaria aos índios por parte de Dom Pedro II. Ou seja, a legitimidade do domínio sobre as terras pleiteadas já teria sido reconhecido desde o século XIX. Em 1978, a FUNAI institui um grupo de trabalho para realizar “o primeiro estudo (...) por uma equipe da FUNAI com vistas á delimitação de uma área indígena para os tupiniquins”. Era o GT 406/E/78. Esse estudo ficou determinado que a área ocupada pelos tupiniquins na ocasião “não poderiam atender ao mínimo necessário à sobrevivência do grupo (...). Os tupiniquins e Guaranis encontravam-se ‘confinados’ em uma área de 40 ha”. (FUNAI, 1995b). Paralelamente os índios tupiniquins iniciaram mobilizações e manifestações que pretendiam retomar as terras ocupadas pela Aracruz Celulose. Este fato aliado ao estudo citado, levou a FUNAI a instituir em julho de 1979 o GT 565/E/79, “para realizar a eleição de área para a Reserva Indígena Tupiniquim (...) delimitando as áreas Caieiras Velhas, Pau

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Brasil e Ilha de Comboios”. Tal área teria cerca de 6.500 ha e foi considerada como “o mínimo para garantir a sobrevivência do grupo”. (FUNAI, 199b). A Aracruz Celulose reagiu a essa proposta, alegando ser a legítima proprietária da área e acusou a FUNAI de tentar confiscar suas terras. Apresentando à FUNAI uma proposta alternativa na qual a empresa se propunha a doar 800 ha para a formação de uma reserva. Como se pode observar até o momento, a atitude inicial da FUNAI foi a de estabelecer uma área que a entidade considerava satisfatória para a sobrevivência das comunidades tupiniquins, sem, contudo, considerar a possibilidade de atender a reivindicação indígena, tal qual solicitada pelos mesmos, isso porque dentro da legislação indigenista da época a condição indígena era vista como transitória. O próprio Estatuto do Índio atribui ao Estado o dever de “preservar sua cultura e integrá-los, progressiva e harmonicamente, à comunhão nacional”. (BRASIL, 1973). Prevalecia então uma política tutelar no trato dos povos indígenas, longe de se configurar como um sujeito de direitos, os índios estavam equiparados aos incapazes e, portanto, deveriam ser aparados pelo estado que deveria determinar as medidas para o seu bem estar. O Estatuto é interpretado por alguns antropólogos como “um belo exemplo de lei colonial, regulando um status social sem que aqueles nele inseridos fossem consultados, servindo mais como instrumento de dominação do que de justiça”. (OLIVEIRA, 1985 apud LIMA, 2005). Outro aspecto importante do Estatuto, tratado por Lima (2005, p. 55) é o uso da noção de habitat “como o encadeador dos dois níveis (ecológico e econômico), portanto a unidade a ser perseguida”. Na interpretação do autor, este conceito serve como forma de naturalizar as sociedades indígenas e retirar delas suas dimensões políticas e históricas. Apropriando-se de um conceito da ecologia, o Estatuto trata a preservação da cultura indígena como análoga á preservação ambiental, ao mesmo tempo em que age para impedir a ação política destes. E, ao delimitar arbitrariamente uma área para a fixação da comunidade Tupiniquim, sem levar em consideração seus próprios meios de organização social e o modo como este povo se relaciona com seu território, o estudo de 1979 se

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aproxima dessa perspectiva. O objetivo da FUNAI era, então, estabelecer um habitat Tupiniquim e evitar que o conflito já instalado alcançasse maiores proporções. Em 1979 as noções de ocupação tradicional e identificação estavam longe se consolidarem na prática administrativa de demarcação de terras “para os índios”. Prevalecia então o disposto no decreto presidencial 76.999, de 8 de Janeiro de 1976, que estabelecia a necessidade de um reconhecimento prévio por um antropólogo e um agrimensor da área a ser demarcada. Contudo, o relatório seria elaborado tendo por base as noções de “situação atual e consenso histórico sobre a antiguidade da ocupação”. (LIMA, 2005). Lima (2005, p. 56) critica essa noção com base em dois questionamentos: (1) Como elaborar uma história da ocupação indígena de uma localidade se as historiografias tradicionais pouco se atem a essa questão? (2) Como conciliar esse conceito numa legislação que “inclui a autoidentificação e a identificação como critérios”, isso iria de encontro a uma perspectiva de direito natural do índio ao seu território. Entretanto, independente do espírito da legislação vigente ou das motivações que levaram á proposta do GT 565/E/79 e da Portaria 609N (que em dezembro de 1979 declarou as aldeias de Caieiras Velhas, Comboios e Pau Brasil como “áreas de ocupação dos índios Tupiniquim), o fato é que nem o trabalho do GT, nem a Portaria lograram delimitar a extensão da reserva indígena criada em 1983, pois a partir de 1980 iniciou-se um processo de entendimento entre a FUNAI e a Aracruz Celulose objetivando elaborar uma proposta alternativa. Basicamente a proposta significava a redução da área demarcada. Inicialmente a Aracruz se propôs a doa 800 ha, contudo a área demarcada e homologada em 1983 possuía 4. 491 ha. Concorreram para esse resultado alguns eventos, não completamente explicados, dentro da própria FUNAI. Em 1981 o Setor de Regularização Dominial da entidade, através do Dr. Ismael Marinho Falcão, emitiu um despacho administrativo que negava qualquer pretensão de direito dominial aos índios tupiniquins, baseado na alegação de que faltavam provas que pudessem corroborar tal direito.

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A polêmica em torno da legitimidade ou não de direitos dos antigos sesmeiros a posse das terras que ocupavam após a promulgação da Lei de Terras em 1850 já foi abordado na primeira seção deste capítulo. Porém, convém lembrar que algumas interpretações jurídicas dão conta que a expropriação ocorrida entre 1822 e 1850, e que se intensificou após esse período, seria considerada ilegal. Na medida em que tais terras não poderiam ser consideradas devolutas pela legislação vigente na ocasião. (MOREIRA, 2002). De fato quando a Aracruz Celulose se instala no município, o processo de expropriação dos índios já estava avançado e outras empresas e posseiros já ocupavam as terras indígenas. A empresa se defende alegando não ter adquirido quaisquer terras indígenas, sendo a aquisição feita junto à COFAVI e outros pequenos proprietários. Conforme se pode verificar no relatório que a mesma encaminhou ao GT de 1994 e como consta no processo de 1979:
Em circular datada de 23/07/80, dirigida a todos os funcionários de todas as empresas do Grupo Aracruz, sediada no Rio de Janeiro, Vitória e Aracruz, o Vice-Presidente Executivo, Sr. Armando Netto, afirmou que ‘a empresa nunca comprou terras de pessoas identificáveis como índios”. (PROCESSO N. 2.561/79 fls. 193-195 apud FUNAI, 1995). Com base no exposto, somado ao fato de que as terras não estavam sendo cultivadas, ou servindo de moradia habitual dos respectivos sesmeiros e que os índios, já naquela época, não viviam mais aldeados e sim dispersos e confundidos na massa da população, nos leva á convicção, de que a área de sesmaria que teria sido supostamente doada os índios tupiniquins em 1610 não teria sido revalidada, nem medida, nem muito menos registrada. (...) Por outro lado, a Aracruz, sustenta, mediante a prova documental ora oferecida, a regularidade jurídica e de fato da situação de suas áreas. (ARACRUZ, 1994).

Ilegal ou não, a conseqüência da corroboração dada a essa interpretação pelo parecer de Falcão, á uma obscura ação de agentes da Divisão de Segurança e Informações do Ministério do Interior (ao qual a FUNAI estava subordinada na década de 80), levaram a um acordo que delimitou as Terras Indígenas de Comboios, Caieiras Velhas e Pau Brasil em agosto, setembro e outubro de 1983 respectivamente. A primeira TI foi homologada com 1.519 ha, a segunda com 426 ha e a terceira com 2.546 ha. Totalizando os 4.491 ha citados anteriormente. (FUNAI, 1995b).

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Através deste acordo a Aracruz Celulose doou a área demarcada. Em contrapartida a FUNAI reconhecia a legitimidade da posse do restante das terras da Aracruz Celulose e os índios se comprometeriam a utilizar apenas as áreas descritas no memorial de demarcação. (FUNAI, 1995). Com esse resultado o processo da década de 1970 terminou por criar uma situação que os próprios autores do relatório de 1994 reconhecem como “de confinamento” e que teriam provocado “alterações na organização social e nas relações de cooperação”, gerando um processo de “isolamento interno e entre as terras demarcadas”. Constituindo-se assim como um “obstáculo para que os Tupiniquim e Guarani se reproduzam e se afirmem enquanto grupo étnico”. (FUNAI, 1995b). Dessa forma podemos, sem sombra de dúvidas, afirmar que, nesse episódio, o Estado atuou como um ator determinante e que apesar das dúvidas quanto à legitimidade da pretensão de ambos os lados, ele optou, arbitrariamente, por uma solução que evitasse o conflito e que beneficiasse a empresa em detrimento das comunidades indígenas da região. Essa atitude pode se adequar ao projeto político da época, com o “desenvolvimentismo a todo custo” do regime militar, mas também demonstra como o Estado brasileiro, freqüentemente, sucumbe a determinados interesses, mesmo quando contraria as normas legais. Ou aos princípios que animam a constituição.

2.2.1. 1994-1998: O primeiro reestudo. Os dez anos que separam a primeira demarcação, em 1983, do pedido de reestudo em 1993 não trouxeram grandes melhorias na qualidade de vida dos índios Tupiniquim e Guarani de Aracruz. Segundo matéria publicada no jornal A Gazeta em 18 de Abril de 1993, a situação dos índios da região era caracterizada por pobreza, pelas limitações impostas pelo exíguo território demarcado à sua reprodução social, pelo que o jornal chama de aculturação, pela falta de saneamento básico, pela má qualidade das terras e pela concorrência com os posseiros da região (especialmente na aldeia de Comboios). (A GAZETA, 1993).

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Insatisfeitos com essa situação, os índios encaminharam á FUNAI, no mesmo ano, um pedido de revisão dos limites de suas terras. Tal reivindicação foi acolhida pela Fundação, a qual constituiu em agosto de 1994 o Grupo Técnico 783. Iniciou-se assim um trabalho de reestudo da demarcação anterior, justificado como uma revisão da identificação anterior sob os marcos da nova constituição promulgada em 1988. (FUNAI, 1995). A principal inovação trazida pelo texto constitucional de 1988 é o conceito de terra tradicionalmente ocupada. Esse conceito define as terras “por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”. (BRASIL, 1988). Além disso, a CF 88 trouxe a idéia do direito original a terra, isso significa dizer que não cabe mais ao estado brasileiro conceder terra aos índios, mas sim regularizar um direito. O direito indígena sobre as terras que tradicionalmente ocupam precede à demarcação. Isto é, independe do processo administrativo. Outra característica desse direito é a coletividade, ou seja, a titularidade da terra não é individualizada, todos os membros da comunidade possuem o mesmo direito à sua terra, ficando esta registrada sob o patrimônio da União. (NEVES, 2004). Sobre esse direito diz Antunes (1998 apud SANTOS Fº, 2008, p. 2):
É preciso estar atento ao fato de que as terras indígenas foram pertencentes aos diversos grupos étnicos, em razão da incidência de direito originário, isto é, direito precedente e superior a qualquer outro que, eventualmente, se possa ter constituído sobre o território dos índios. A demarcação das terras tem única e exclusivamente a função de criar uma delimitação espacial da titularidade indígena e de opô-la a terceiros. A demarcação não é constitutiva. Aquilo que constitui o direito indígena sobre as suas terras é a própria presença indígena e a vinculação dos índios a terra, cujo reconhecimento foi efetuado pela Constituição Brasileira.

Essa formulação seria coerente com o que Santo Filho (2008, p. 2) chama de “tradição indigenista do direito luso-brasileiro” do indigenato, que, segundo ele, já estava presente na legislação indigenista portuguesa para o Brasil e na constituição anterior

(1967), mas que somente na Constituição de 1988 veio a ser explicitado. Isso pode ser explicado pelo fato de a constituição de 1967 e o estatuto do índio de 1973 (bem como boa parte da legislação indigenista anterior) terem sido redigidas sob a

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égide de uma política indigenista que visava não somente a pacificação do índio e sua fixação á terra, como também a integração do mesmo à “comunhão nacional” e a liberação das terras por eles ocupadas. A condição indígena era transitória, dentro da doutrina positivista e evolucionista da época, e deveria ser “gerenciada” pelo Estado para que a “integração” se desse da forma mais “harmônica” possível. (LIMA. 1998; PERES, 2003). A questão das relações interétnicas e da integração do índio na sociedade nacional foi analisada por muitos estudiosos brasileiros durante o século XX (vide OLIVEIRA, 1972; RIBEIRO, 1977; GALVÃO, 1979; OLIVEIRA, 1988), sob os mais variados prismas e inseridas em contextos históricos diversos. Contudo, o ponto em comum entre essas teorias é a admissão da desigualdade na relação entre os povos indígenas e a sociedade nacional. Essa desigualdade ora é vista como um fator que pode levar á aculturação dos povos indígenas (GALVÃO, 1979), á assimilação (OLIVEIRA, 1972) ou ainda apenas uma integração imperfeita á sociedade nacional, na qual o índio, freqüentemente, se vê numa posição subalterna na sociedade, sem nunca ser completamente aceito ou perder totalmente seu diferencial étnico (RIBEIRO, 1977)6. O ponto em comum nessas teorias é a noção de que o contato interétnico configura-se como um fator desestruturante das sociedades indígenas. Desorganizam o modo de vida tradicional dessas sociedades e as afasta de seu “estado original”. Essa visão é combatida por Oliveira (1988), que defende uma metodologia que se afaste tanto do estruturalismo, quanto do evolucionismo metodológicos, sem considerarmos as sociedades indígenas e a sociedade nacional como entidades separadas e auto-explicativas. O contato em si já alteraria as configurações originais e é a história dele, e seus efeitos, que deveria se analisado. Essa breve digressão nos auxiliar a analisar que tipos de questões novas estarão presentes no reestudo. Se na primeira demarcação o espírito legislativo da época apoiava a tendência a uma atitude arbitrária por parte dos pesquisadores e dirigentes da FUNAI. No contexto sociopolítico de 1993 essa opção está fora de cogitação. O texto constitucional, e

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Ribeiro admite a assimilação individual, mas não a assimilação de toda uma sociedade.

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as próprias mudanças teóricas na antropologia contemporânea, influenciaram no tipo de abordagem do novo processo de identificação. A própria noção de identificação e delimitação é uma novidade no processo de demarcação. No processo anterior, conforme explicitado anteriormente, a demarcação da terra estava condicionada as idéia de habitat e proteção da cultura indígena. Ou seja, o que guiava a demarcação era o objetivo de reservar uma área que fosse o mínimo suficiente que reproduzisse as condições necessárias para o desempenho das atividades conforme a sua cultura. Os limites da cultura se identificavam com os limites do território. Sem levar em conta a necessidade de garantir tanto a reprodução física, quanto cultural desses povos. Sua historicidade e desenvolvimento. Neste reestudo, contudo, a identificação atua como o princípio de um processo, administrativamente definido, de demarcação que visa regulamentar um direito original, não mais uma concessão. Para tanto, foi instituído um processo que compreende cinco fases: identificação, delimitação, demarcação, homologação e registro7. Para cumprir a primeira meta o GT vai a campo e ao final é elaborado um relatório circunstanciado. Sobre a forma atual dos relatórios de identificação, diz Chaves (2005, p. 140): “O relatório antropológico, em certo sentido, pode ser definido como textualização da ação e deve ser argumentativo, na medida em que é uma peça técnica que precisa ser persuasiva, de forma a comprovar a ocupação tradicional indígena da área composta”. (grifos nossos). Essa característica dos relatórios pode ser verificada no relatório elaborado pelo GT 783, e os relatórios posteriores, pois o trabalho do grupo técnico incluiu além da refutação de argumentos contrários á demarcação (especialmente da Aracruz Celulose S.A), um resgate da história da ocupação indígena na região e dos conflitos em torno dessa ocupação, além de pronunciamentos diversos de atores locais sobre a pertinência ou não da redemarcação das terras. Isso está inserido no que Chaves (2005, p. 140-141) chama de dialogia do relatório.

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Para a descrição dessas fases, ver CHAVES, 2005.

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A dialogia está presente tanto na relação do antropólogo com os índios – que devem atuar não mais como simples ‘informantes’ do pesquisador, mas, sobretudo como interlocutores, para que a proposta de delimitação não seja exógena aos anseios e às necessidades daqueles que dela dependem – quanto na relação do antropólogo com o Estado nacional, na medida em que aquele argumenta textualmente sobre a pertinência da proposta apresentada, a qual deve ser discutida com os indígenas.

Um último ponto que merece destaque nessa questão é o papel do antropólogo. A exigência de um antropólogo como coordenador do grupo técnico de identificação só foi regulamentada em 1996, com o decreto 1.775/968 e a Portaria 14 do Ministério da Justiça, (portanto posterior à elaboração do reestudo em análise), contudo, o desempenho desse papel pelo profissional da antropologia já era comum antes disso. Chaves (2005, p. 141) salienta que apesar do grupo técnico possuir uma composição multidisciplinar, incorporando desde profissionais da área ambiental até técnicos fundiários e agrimensores, é papel do antropólogo administrar os trabalhos. Dentro da hierarquia disciplinar do grupo, é o saber antropológico que dará o tom do relatório, cabendo ás demais ciências o papel de auxiliares na pesquisa. Isso explica porque é possível notar uma mudança no modo como os relatórios são elaborados, que acompanha certas mudanças no fazer antropologia. (CHAVES, 2005). E também é o motivo também pelo qual os relatórios de identificação da FUNAI são tão criticados por aqueles que se opõem à demarcação de terras indígenas ou quilombolas no Brasil. Os antropólogos atualmente são acusados de criar etnicidades em seus relatórios. (CAMATA, 2007). A qualidade do relatório do GT 783 não passou incólume a críticas. Em comunicação do dia 20 de junho de 2006 a Aracruz afirma:
O grupo multidisciplinar criado pela Aracruz encontrou diversas fragilidades no laudo da FUNAI de 1994, como consulta deficiente a registros históricos; estudo admitido pela própria FUNAI como apenas superficial sobre o tema; falta de evidências da presença das comunidades indígenas tradicionais nas áreas pretendidas; desprezo pelas evidências de que os descendentes dos índios já estavam integrados na sociedade muito antes de a Aracruz ter adquirido as terras; ausência de testemunhos não índios; e foco quase que exclusivo de reivindicações em áreas de propriedade da Aracruz, que abrangeram 90% da área total demandada. Essas fragilidades podem ser explicadas pela constituição da equipe criada pela FUNAI para elaborar o laudo: incompleta e tendenciosa. (ARACRUZ, 2006, grifos nossos).

Apesar do Decreto 22/91 já prever a coordenação do GT por um antropólogo, o decreto 1.775 é o primeiro a qualificação em antropologia como requisito para a coordenação e a exigir um “relatório antropológico”.

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Para entendermos melhor essa questão passamos agora a nos basear no próprio relatório para entender como se deu o processo de identificação descrito no mesmo, destacando, quando possível, os pontos a que fazem referência as críticas acima. O trabalho de identificação do GT 783 compreende o período de 30/08/1994 e 04/09/1995. Este estudo seguiu as diretrizes do Decreto 22 de 19919. As principais características do procedimento administrativo definido por esse decreto eram: (1) Exigência de identificação através de um GT, coordenado por um antropólogo, e a exigência de realização de estudos “estudos etnohistóricos, sociológicos, cartográficos e fundiários”; (2) Possibilidade de participação do grupo indígena “em todas as suas fases”; (3) Previsão de emissão de portarias pelo Ministro da Justiça determinando demarcação. (4) Não previa a contestação do relatório de demarcação10. (BRASIL, 1991). O trabalho do GT se dividiu por três fases, o levantamento de documentos e pesquisa histórica, o trabalho de campo e o levantamento fundiário. A reconstrução histórica da ocupação da região e da presença Tupiniquim e Guarani em Aracruz contaram com análise documental e com dados advindos do depoimento dos próprios índios, num trabalho de resgate da história oral. Nesse ponto é importante destacar que o próprio redator do relatório admite que a pesquisa historiográfica não pode ser realizada exaustivamente. Pois o decreto presidencial, e conseqüentemente a portaria que instituiu o GT, previa realização do estudo em 90 dias. O GT faz também uma reconstrução bastante crítica do processo anterior que deu origem á área homologada em 1983. Apresentando o modo como se deu a demarcação, seus pontos obscuros e seus resultados. Realizou levantamentos demográficos e medições do terreno. Demarcando as condições de vida e fundiárias de cada Terra indígena. Eles também descrevem um ponto que nos parece importante destacar. A reivindicação inicial dos tupiniquins fazia referência a terras dominiais (tipo de demarcação previsto no Estatuto do índio e regulamentado no decreto 22/91 em seu artigo 6º), baseando-se em documentos

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Este decreto só seria revogado em 1996 com a promulgação do Decreto 1.775. Este princípio será inserido no processo com o decreto 1.775/96.

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do século XIX11. Contudo a dificuldade de provar a afirmação levaram os pesquisadores do GT a encaminharem o pedido de demarcação como demarcação por posse. Essa opção é justificada pelos autores como um meio de cumprir as determinações constitucionais que prescrevem a demarcação das terras indígenas tradicionalmente ocupadas, adequadas a sua reprodução física e cultural. Na interpretação dos pesquisadores a demarcação de 1983 não cumpria essa determinação. (FUNAI, 1995). O decreto 22 previa a revisão das terras indígenas demarcadas com base em legislação anterior (Art. 11). (BRASIL, 1991). E essa era, portanto, a base legal sob a qual se assentava a opção dos pesquisadores. Opção que como podemos ler no trecho citado acima, interpretada pela Aracruz como tendenciosidade. Seguindo a tendência argumentativa, conforme apresentada por Chaves, o relatório apresenta respostas aos principais argumentos da Aracruz Celulose, contrários ao reestudo e redemarcação do território: (1) Á afirmação de que a nova proposta contrariaria o artigo 6 do decreto 22 (Art. 6º A demarcação das terras de domínio indígena, referidas no art. 32 da Lei nº 6.001, de 1973, será procedida com base nos respectivos títulos dominiais.), o GT responde que essa afirmação seria improcedente, pois a proposta prevê a posse e não o domínio das terras. (2) Á afirmação de que as terras da Aracruz teriam sido adquiridas de forma regular e sem danos a qualquer pessoa o GT responde que há indícios e relatos de “pressão, coação e expulsão” na aquisição das terras. (3) Á afirmação de que a demarcação traria graves efeitos sobre a Aracruz, o GT reafirma sua função como a de “defender os direitos dos índios a uma sobrevivência digna”. Esse estudo resultou na recomendação da unificação das TI’s Caieiras Velhas e Pau Brasil, com uma área de 14.270 ha, e a expansão da TI Comboios, com uma área de 3.800 ha, perfazendo assim 18.070 ha no total. (FUNAI, 1995). A FUNAI acolheu a recomendação
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Conforme já explicitado no início deste capítulo.

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do relatório e publicou o resumo no D.O encaminhando o processo para o ministro da justiça. O ministro da ocasião, Íris Resende, determinou diligência para analisar novamente o caso, pois havia uma proposta anterior (do GT 565/E/79, já citado neste capítulo) determinando uma área menor. Apesar do GT 783/94 ter ratificado a proposta apresentada, a FUNAI criou um novo GT (Portaria 26/98 de 06 de janeiro de 1998). Este GT foi recusado pelos índios, que demandavam a manutenção da proposta elaborada pelo GT anterior. A FUNAI então criou novo GT (087/98) que acaba por corroborar a proposta do GT 783. Paralelamente a Aracruz efetuava estudos para defender a tese de que as terras disponíveis eram suficientes para a produção. Sem considerar as peculiaridades da cultura indígena. Por fim, o fato que acaba por prolongar o conflito por mais 9 anos, o ministro da justiça edita as portarias 193, 194 e 195 determinando a demarcação das terras conforme a proposta do GT 565/E/79. Ou seja, ao invés de 18.070 ha as três terras indígenas passariam a ter 7.062 ha. Isto é, 2.571 ha mais em relação á área demarcada em 1983 e 11.008 ha a menos do que a proposta do GT 783/94. (FUNAI, 2006). Essa redemarcação não encontra respaldo na legislação da época ou na análise dos técnicos da FUNAI, foi uma decisão pessoal do próprio ministro, que optou por ratificar uma proposta elaborada 19 anos antes e sob princípios constitucionais já superados.

2.2.3 – O Acordo. Essa situação reacendeu o conflito, pois os tupiniquins e Guaranis interpretaram as portarias como uma negação do que eles entendiam como seus direitos. Diante desse impasse a Aracruz Celulose propôs um acordo. Por esse acordo os índios reconheceriam os termos das portarias em troca de contrapartidas financeiras e apóio técnico. Basicamente os termos do acordo eram os seguintes: 1- Reconhecimento das portarias ministeriais e aumento de apenas 2.009 ha ás terras indígenas;

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2- Manutenção de parceria com o Núcleo Interinstitucional de Saúde Indígena do Espírito Santo (NISI-ES), para promover projetos de desenvolvimento autosustentável junto aos povos indígenas. 3- Ao logo de 20 anos a Aracruz contribuiria com a quantia de R$ 11.700.000,00 em projetos na área social e de educação, saúde e habitação a serrem desenvolvidos pela Associação Indígena Tupiniquim e Guarani (AITG) e a Associação Indígena Tupiniquim de Comboios (AITC). 4- A Aracruz pagaria anualmente até U$ 170.000,00 em faturas de água e energia elétrica. 5- Os índios passariam a integrar o “Programa de Fomento Florestal” da empresa, cultivando eucaliptos em 2.571 ha. 6- A AITC receberia ainda mais 185 ha de terras cultiváveis, um trator, caminhão e suplementos agrícolas. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi assinado em 2 de abril de 1998 tendo a intermediação do Ministério Público Federal. (ANDRADE, DIAS e QUINTELLA, 2001; ARACRUZ, 1999). Sobre esse instrumento jurídico, ele é classificado como um instrumento extrajudicial, isto é, independe do reconhecimento pelo juiz de direito. O TAC foi instituído pela lei 7.347 de 1985 e teve sua redação alterada pela lei 8.078 de 11 de setembro de 1990. Essa lei “confere aos órgãos públicos o poder de obter um compromisso de ajustamento de conduta ás exigências legais daqueles que estejam atuando ou com a possibilidade de atuar em descompasso com as regras transindividuais”. (ZUCARELLI, 2006). Segundo Rodrigues (RODRIGUES, 2002 apud ZUCARELLI, 2006, p. 11), esse tipo de ação teria como vantagens o fato de não estar sujeito á “demora intrínseca á atividade judicial”, servir como uma ação de execução e ainda possuir o que ele chama de eficácia simbólica. Isto é o reconhecimento por parte do transgressor que descumpriu um direito fundamental.

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Contudo, conforme aponta Zucarelli (2006, p. 14) o TAC pode assumir o papel de “mecanismos flexibilizantes, que assumem um caráter paliativo e enfatizam reações ou feedbacks de curto prazo”. Se transformando em “facilitadores de medidas imediatistas”. Também destacamos a análise que Andrade, Dias e Quintella (2001, p. 14) fazem desse TAC em específico:
A coexistência e a durabilidade deste novo equilíbrio entre os aspectos ofensivos das estratégias socioambientais e os seus aspectos defensivos somente serão possíveis através de um sistema contínuo de vigilância dos acordos tanto pela Aracruz, quanto pelos índios Tupiniquim e Guarani, como forma de manter adequadamente a regulação do conflito e a mediação dos interesses individuais com os interesses coletivos em jogo.

Mais ainda:

Os acordos são sempre transitórios e não eliminam totalmente os conflitos. Eles são resultados da interpenetração de distintas racionalidades em jogo á procura de um novo equilíbrio de forças. Os acordos fechados entre a Aracruz e os índios não resolvem e não resolverão, em definitivo, a disputa travada por terras. Eles somente inauguram um novo caminho marcado pela cooperação entre mundos diferentes num contexto de conflito de interesses. (ANDRADE, DIAS e QUINTELLA, 2001).

As previsões contidas na citação acima marcam a fragilidade do acordo erigido na ocasião. A referência á análise de Zucarelli sobre os TACs foi para demonstrar como tais acordos, movidos por uma lógica de curto prazo, acabam por atropelar as necessidades dos atores envolvidos. Flexibilizando um direito constitucional o TAC de 1998 não atingiu os objetivos propostos, nem encerrou o conflito. Se constituindo enquanto uma opção governamental, calcada mais na lógica empresarial e na agricultura moderna, sem levar em conta as necessidades e o modo de organização indígena, o acordo serviu apenas para transplantar para a área Tupiniquim a produção da Aracruz. Visto que as terras recém adquiridas foram utilizadas para plantar eucalipto. Os termos do acordo valorizavam mais o aspecto econômico em detrimento dos demais. E beneficiou principalmente a empresa que manteve a área produzindo matéria prima para sua fábrica de celulose. A própria FUNAI reconhece isso em despacho de 2006 (p. 3) quando afirma que “os projetos implantados demonstraram-se inadequados á realidade sócio-cultural dos índios, fracassando no objetivo de promover a sua auto-sustentação”.

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De fato, cerca de 4 anos depois, o acordo teve de ser renegociado. Já em setembro de 1999 as comunidades de Caieiras Velhas e Pau Brasil exigiam a renegociação do acordo. Acusações de má utilização dos recursos e argumentos economicistas marcaram a defesa da Aracruz (ARACRUZ, 1999), enquanto os índios alegavam que o acordo os prejudicava. Em 4 de setembro de 2002 o acordo foi renegociado. Nessa ocasião foi firmado um Termo Aditivo ao TAC na presença de representantes do Ministério Público Federal (MPF). Segundo os termos do novo acordo, a Aracruz: 1- Elevaria em R$ 400.000,00 os recursos destinados a projetos de geração de renda. Totalizando R$ 1.700.000,00 anuais de repasses. 2- Custearia 35 bolsas de estudo, por ano, para alunos indígenas em faculdades até 2018. 3- Apoiaria um programa para aumentar a empregabilidade dos membros da comunidade. 4- Forneceria mudas e apoio técnico para reflorestamento de grotas e margens de rios. 5- Faria um estudo de recuperação dos rios Sahy e Guaxindiba e ainda executaria obras de recuperação até o limite de R$ 20.000,00, além de apresentar o projeto completo a potenciais financiadores. (RBJA, 2002). Como é possível verificar pelos termos do novo aditivo, a lógica do acordo permanece a lógica de produção capitalista. Apesar dos projetos ambientais, em geral o acordo pretende duas coisas (1) Inserir a comunidade indígena na lógica de produção agrícola capitalista, com o incentivo a produção monocultora e intensiva. (2) Estimular a inserção da comunidade no mercado de trabalho formal, através da qualificação para o trabalho. Essa lógica se afasta dos objetivos da demarcação de terras e o acordo nesse caso assume o papel, apenas, de pacificador do conflito. Sem atingir o cerne da questão. Ou seja, o exíguo espaço disponível para a reprodução da comunidade indígena dentro das

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terras indígenas. E contrariando os dispositivos constitucionais que definem os objetivos das deste tipo de demarcação, tanto as portarias ministeriais, quanto o TAC terminam por chancelar um estado de coisas que se revelaria insustentável a longo prazo. A relativa estabilidade alcançada pelo processo analisado até agora, não lograria extinguir o conflito, pelo contrário, apenas o manteve latente por 3 anos. Em 2005, o confronto entre os dois lados tornaria a ocorrer e, dessa vez, sem tréguas até a resolução final. É esse processo que passamos a analisar no próximo subcapítulo.

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2.3. 2005 a 2007: A retomada do conflito. Dadas as fragilidades e inconsistências do processo demarcatório e do acordo analisados acima, a retomada do conflito não era inesperada. Esta veio a ser ocorrer a partir de fevereiro de 2005. Sete anos após a estabilidade do conflito conseguida pelo acordo. De uma forma geral podemos dizer que o ano de 2005 marcou uma nova fase no conflito. Não apenas por dar início a uma terceira fase manifesta do mesmo. (LITTLE, 2004), como também pelas características assumidas pelas mobilizações, articulações e estratégias indígenas desde então. Seria leviandade afirmar que as comunidades indígenas de Aracruz não haviam recebido apoio nos processos anteriores. Especialmente no processo de 1993, podemos verificar a articulação com entidades ligadas igreja católica, como o CIMI, que assessorou os índios e os orientou durante todo o processo de identificação, e outras entidades da sociedade civil que apoiaram a proposta de reestudo (CIMI, 1993; FUNAI, 1995). Contudo, o que se verificou nesta nova fase do conflito foi um alargamento das articulações e uma nova dimensão do conflito. Deixando de ser uma questão local, para se tornar uma preocupação nacional. Que irá receber o apoio de entidades de todo o país através das redes de movimentos sociais e de articulações nacionais. Isso também se reflete nas estratégias de mobilização e pressão utilizadas pelos grupos. O fechamento de estradas, a ocupação de terras, as manifestações, se aliam aos manifestos, ás cartas-denúncia, ás moções, ás viagens á Brasília, audiências públicas, autodemarcações e outras estratégias de pressão política e de luta simbólica. A multiplicidade de alianças e de estratégias não é uma peculiaridade deste conflito. A tendência do associativismo local contemporâneo tem sido as articulações interorganizacionais, como forma de promover mobilizações na esfera pública. Que buscariam:
Transcendê-los por meios de grandes manifestações em pra pública, incluindo a participação de simpatizantes, com a finalidade de produzir visibilidade através da mídia e efeitos simbólicos para os próprios manifestantes e para a sociedade em geral, como forma de pressão política das mais expressivas no espaço público contemporâneo. (SCHERERWARREN, 2006).

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Essas articulações são interpretadas por alguns autores como uma reação ás conseqüências negativas da globalização corporativa. Seria uma estratégia que basearia suas ações no aproveitamento das mesmas ferramentas desenvolvidas e utilizadas pelas grandes corporações para a expansão do capital, ou seja, o uso das novas tecnologias de informação e comunicação. Como a internet e a comunicação via satélite. Uma apropriação das “bases materiais que sustentam as ações das empresas globalizadas (...) [que] podem servir a outros objetivos, desde que colocados a serviço de uma outra consciência e fundamento, como as redes em construção pelos movimentos sociais”. (SIQUEIRA, CASTRO e ARAÚJO, 2003). Essas reflexões são importantes para a análise do que se segue, pois sem essas noções não se pode perceber que longe de ser um simples conflito pela posse de terras, o conflito entre a Aracruz e os índios adquiriu as características de um verdadeiro conflito de construções do mundo. No apenas no que diz respeito ao contraste entre a visão indígena e a ocidental do mundo e da natureza, mas também entre formas e apropriação e exploração dos recursos naturais. Não estava mais em jogo “apenas” o atendimento da reivindicação indígena ou não; Ou se o processo demarcatório atendia ou não as exigências legais ou os princípios constitucionais. Mas, o conflito adquiriu a conotação de uma luta por direitos. Direito indígena á diferença. Direito ao atendimento de suas necessidades ambientais; Direito difuso a um meio ambiente equilibrado12 ou, alternativamente, pela manutenção do direito á propriedade privada13, entre outros. É a essa multiplicidade de ações e significados que tentaremos dar conta na análise que se segue. Obviamente que qualquer análise desse tipo nunca irá dar conta dos múltiplos sentidos de um conflito socioambiental. Mas, tentaremos, na medida do possível, destacá-los.

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A demarcação de das terras indígenas era interpretada por algumas entidades ambientalistas como uma vitória sobre a monocultura de eucaliptos e a oportunidade de recomposição da mata nativa e preservação da que ainda existia. A Aracruz e outras entidades a ela relacionadas interpretavam a demarcação como uma afronta ao direito da propriedade privada e um processo de expropriação das terras da empresa.

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2.3.1 – O rompimento do acordo. Em nota divulgada em 28 de fevereiro de 2005, os índios Tupiniquim e Guarani, afirma que a decisão de retomar suas terras teve origem em Assembléia Geral dos Povos Tupinikim e Guarani do dia 19 de fevereiro do mesmo ano. Participaram da assembléia cerca de 350 índios, de todas as aldeias da região. Nessa nota é possível destacar alguns elementos interessantes, que explicitam a posição dos índios e o modo como eles reconstroem o conflito. O primeiro ponto que se pode verificar na nota é um tom nostálgico quando se compara a vida na aldeia antes e depois da chegada da Aracruz. No qual à liberdade de ação do período anterior se opõe a dependência da situação atual.
Antigamente (...) vivíamos bem, caçando, pescando e plantando nossas roças de feijão, milho e mandioca. Não dependíamos de ninguém, vivíamos de nossa terra e tínhamos nossa liberdade. Com a chegada da Aracruz Celulose, perdemos nossas terras, nossas matas e nossos rios. Aos poucos, fomos empobrecidos e ficamos “prisioneiros” do projeto da Aracruz. (ASSEMBLÉIA GERAL DOS POVOS TUPINIKIM E GUARANI, 2005, grifos nossos).

A seguir, o acordo de 1998 é denunciado. É importante destacar como a denúncia é feita coletivamente, num processo de construção de um discurso político muito similar aos utilizados pelas comunidades não-indígenas, o debate. Desse modo podemos verificar como não só as formas de organização e mobilização da sociedade nacional são incorporadas pelo associativismo indígena, como também suas estratégias de tomada de decisão e até mesmo a linguagem e o discurso presente nos textos legais. Diz a nota:
Hoje, depois de muitos debates nas nossas comunidades, chegamos à conclusão que o Acordo com a Aracruz não conseguiu resolver nossos problemas, ao contrário, tem nos causado ainda mais dificuldades, gerando dependência econômica, divisão entre as aldeias e enfraquecendo nossa cultura. A morte de nossa cultura é a morte simbólica do nosso povo. (...) Por tudo isso, decidimos, por unanimidade, nesta Assembléia Indígena, lutar pela retomada de nossas terras, hoje ocupadas pela Aracruz Celulose. A luta pela terra, que é também a luta pela sobrevivência física e cultural dos Tupinikim e Guarani, será, daqui para frente, nosso principal objetivo e não descansaremos até conseguirmos recuperar integralmente nossas terras. (ASSEMBLÉIA GERAL DOS POVOS TUPINIKIM E GUARANI, 2005, grifos nossos).

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Essa assembléia teve resultados práticos imediatos. Á retomada do conflito se seguiu duas ações. Num primeiro momento os índios acionaram a Procuradoria Geral da República no Estado, que em 31 de março do mesmo ano instaurou o inquérito 1.17.000.385/2005-75 “para apurar irregularidades no processo de demarcação e homologação das terras Tupiniquim e Guarani no Espírito Santo”. Além disso, em 17 de maio de 2005 os índios, com o apóio de diversas entidades da região e do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) iniciou um processo de autodemarcação das terras pleiteada, além de encaminharem ao ministro da justiça da ocasião, Márcio Thomaz Bastos, uma carta aberta expondo suas reivindicações e criticando o processo de demarcação de 1998 e o acordo firmado em maio daquele ano. No texto da carta as portarias ministeriais são caracterizadas como inconstitucionais e o acordo como ilegal e fruto de violência e pressão política. (COMISSÃO DE CACIQUES TUPINIKIM E GUARANI DO ESPÍRITO SANTO, 2005; FUNAI, 2006). Como resultado dessas ações, a Procuradoria Geral do Estado acabou por confirmar irregularidades no processo, expedindo para o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e o ministro da justiça uma Recomendação para que fosse decretada a nulidade das portarias demarcatórias do Ministério da Justiça e os decretos homologatórios e que se confirmasse as conclusões dos GT 783/94 e 087/98 pela demarcação dos 18.070 ha (ou seja, dos 11.000 ha ainda não demarcados) para as terras indígenas. Por isso, a FUNAI em 04 de novembro do mesmo ano, criou pela portaria 1.299 um novo GT para “proceder a atualização fundiária dos dados, especialmente aqueles relativos ao levantamento demográfico e fundiário”, que acabou por confirmar, em fevereiro de 2006, as conclusões do GT de 1994 e recomendar a demarcação dos 11.000 ha restantes. (FUNAI, 2006). Esses eventos são apresentados pela Aracruz Celulose como uma invasão de terras que visava pressionar o Estado e que resultaram na elaboração de um relatório que extrapolando suas competências acabou por “fazer um reestudo do laudo emitido em 1994, que, ao invés de suprir as suas deficiências técnicas, acaba por perpetuar as aberrações do antigo relatório”. (ARACRUZ, 2006).

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Desses episódios é possível destacar alguns aspectos relevantes do conflito. O primeiro deles é como o rompimento do acordo resulta de um processo de reorganização interna dos índios com um processo de articulação externa. Em 1998, quando foi firmado o acordo os índios tupiniquins e Guarani estavam organizados em duas Associações que compreendiam as TI Caieiras Velhas e Pau Brasil em uma delas e a TI Comboios em outra14. A partir da Assembléia Geral de 2005, as cartas e outros documentos emitidos pelos índios já são assinadas coletivamente, por uma Comissão de Caciques. Isso denota uma opção por uma identidade coletiva mais forte, como forma de demonstrar a unidade do movimento. Uma estratégia na luta simbólica por legitimação de sua demanda e para a afirmação identitárias do grupo. Como fizemos referência no primeiro capítulo, os conflitos socioambientais são caracterizados tanto pela disputa pelos recursos materiais e sua forma de apropriação (terra para plantar eucalipto ou para reprodução social?), quanto disputa por recursos simbólicos e pela imposição de “categorias que legitimam ou deslegitimam a distribuição de poder sobre os distintos tipos de capital” (invasão ou ocupação?). (ACSELRAD, 2004b). Portanto, as estratégias de disputa simbólicas são tão ou mais importantes neste conflito quanto o acesso ás arenas decisórias e a disputa política. Pois, irão determinar as possibilidades de apoio e a legitimidade das demandas de cada um dos atores num contexto social marcado pelo que alguns autores chamam de crise da modernidade. Isto é, marcado pelo questionamento dos conceitos de modernidade e desenvolvimento. (BRITO e RIBEIRO, 2003). Num quadro assim, o questionamento da legitimidade das aquisições de terras da empresa e do papel social da mesma no estado se tornam questionamentos concomitantes. Para a Aracruz, a perdas das terras significariam mais do que um impacto em sua cadeia de produção, seria a negação da imagem de empresa social e ambientalmente responsável que seu departamento de marketing tanto trabalha para consolidar. Teria impacto tanto econômico, quanto simbólico.
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Associação Indígena Tupiniquim e Guarani (AITG) e Associação Indígena Tupiniquim de Comboios (AITC) respectivamente.

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O segundo ponto diz respeito á diversidade das ações empregadas, nesse momento, pelos índios. Ao mesmo tempo em que procuram legitimidade para sua demanda através do acionamento de instâncias oficiais encarregadas da defesa de seus direitos (FUNAI e MPF), eles se articulam com outras entidades para executar ações extra-oficiais, mas carregadas de carga simbólica, como a autodemarcação. A autodemarcação não é uma novidade. Segundo Neves (2004, p. 12) a primeira autodemarcação que se tem registro aconteceu no Acre, na região do Alto Purus, pelos índios kulina. Ela teria ocorrido por um entendimento dos índios que o Estado estava sendo inoperante e omisso no cumprimento de suas obrigações constitucionais. Na ocasião, isto foi realizado através da abertura de picadas na mata e fixação de marcos e placas improvisadas por eles. O autor destaca que apesar de não reconhecida pelo Estado, a autodemarcação kulina teve efeitos imediatos, pois “serviram para afirmar seu direito territorial junto à população local regional, que passou a não invadir a área como até então fazia”. Constituindo assim como uma demarcação não-oficial, mas de fato e de direito. Dois anos depois a FUNAI oficializou a demarcação dentro dos marcos kulina. Esse processo teria servido não apenas para marcar um território físico, mas poderíamos dizer que marcou também um espaço social. Diz Neves (2004, p. 13):
A demarcação kulina funcionou ao mesmo tempo como procedimento e afirmação de direitos sobre as terras ocupadas e como processo de afirmação da auto-estima kulina no contexto das relações inter-étnicas. É incontestável que o respeito aos povos indígenas cresceu significativamente no seio da população urbana e rural da região, devido à coragem e à capacidade que os kulina demonstraram ao tomar pra si a responsabilidade de demarcar suas próprias terras.

Nesse sentido a autodemarcação adquire tanto caráter de artefato técnico, quanto político e simbólico. O terceiro ponto que destacamos é as articulações políticas e sociais que envolveram a autodemarcação. Não apenas os índios tomaram parte dela, como paralelamente foi realizado manifestações e campanhas em apoio ao evento. 400 pequenos agricultores ligados ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), junto com outras entidades, movimentos e igrejas realizaram manifestações em frente á fábrica da Aracruz

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celulose. Além disso, a Rede Alerta Contra o Deserto Verde (rede ambientalista, sediada na FASE-ES15, formada por mais de 100 entidades que se propõem a lutar contra a expansão da monocultura do eucalipto em diversos estados, em especial no Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro) e o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) iniciaram uma campanha pela demarcação e contra possíveis impedimentos á

autodemarcação16 e o conflito direto ou violência. (COMISSÃO DE CACIQUES TUPINIKIM E GUARANI DO ESPÍRITO SANTO, 2005; REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2005a e 2005b). Ao analisar as características das redes de movimentos sociais, Scherer-Warren constrói uma perspectiva que nos possibilita entender como a autodemarcação de uma terra indígena pode articular movimentos com objetivos distintos, quanto o movimento indígena, o movimento ambientalista e o movimento de pequenos agricultores (á primeira vista com interesses conflitantes). Segundo a autora, (2006, p. 113-115) os diversos tipos de movimentos localizados ou setorizados (como o associativismo local, ongs, sindicatos e movimentos sociais de base) se articulam “a fim de ganhar visibilidade, produzir impacto na esfera pública e obter conquistas para a cidadania. Nesse processo articulatório, atribuem, portanto, legitimidade ás esferas de mediação entre os movimentos localizados e o Estado (...) e buscam

construir redes de movimento com relativa autonomia”. Como conseqüência, “As redes (...) aproximam atores sociais diversificados – dos níveis locais aos mais globais, de diferentes tipos de organizações-, e possibilitam o diálogo da diversidade de interesses e valores”. Diálogo e articulação pressupõem um entendimento. Pautas ou pontos em comum. Se a teoria de Scherer-Warren nos possibilita entender as motivações e as vantagens adquiridas nessa articulação. Ainda não explica qual seria o ponto de apoio para a construção da articulação. Uma frase do documento da Comissão de caciques nos aponta

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Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional do Espírito Santo (FASE ES). A campanha incluía o envio de cartas á Justiça Federal e á Polícia Federal tentando evitar que a ação desses órgãos impedisse a autodemarcação.

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uma pista. Neste documento, a Aracruz Celulose é caracterizada como “símbolo do agronegócio e do latifúndio no Espírito Santo e violadora dos direitos indígenas”. Tal frase abre a possibilidade de a empresa ser caracterizada como adversário em potencial dos três movimentos simultaneamente. Como símbolo do agronegócio e do latifúndio a Aracruz Celulose representa tanto uma lógica de produção social e ambientalmente impactante combatida pela rede ambientalista17, quanto se opõe á proposta de reforma na estrutura fundiária brasileira, defendida pelo MPA e ao violar os direitos indígenas ela se coloca como adversária do movimento indígena e de todos aqueles que defendem os direitos humanos. A indivisibilidade dos direitos humanos é uma posição defendida por entidades voltadas para sua defesa e refletem o que Scherer-Warren chama de transversalidade dos direitos, ou seja, a inter-relação entre os vários direitos sociais na luta pela cidadania. Para ilustrar essas afirmações, citamos uma nota da Rede Alerta Contra o Deserto Verde, do dia 22 de maio, data da conclusão da autodemarcação, na qual a entidade afirma:
Essa não é uma vitória apenas os povos indígenas, mas de todos aqueles que têm apostado e apoiado essa luta, é uma vitória daqueles que acreditam que é possível um mundo diferente desse imposto pelo poder econômico expressado com muita competência pela Empresa Aracruz Celulose. (REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2005b, grifos nossos).

Entretanto, se os movimentos sociais, e os povos indígenas, têm nas articulações, e na mobilização pública, uma ferramenta para trazer visibilidade á suas demandas e alcançar seus objetivos, a Aracruz Celulose optou pela instância judiciária. Através da ação de reintegração de posse 2005.50.01.004524-1, a empresa consegue liminar da Justiça Federal determinando a saída dos índios da área, inclusive com o uso da Polícia Federal, se necessário. Opção que foi suspensa no dia 20 de maio pela própria Justiça Federal “a fim de que se busque a retirada pacífica dos invasores”. (REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2005b; ARACRUZ, 2005ª, 2005b).

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Há uma extensa bibliografia sobre os impactos ambientais e sociais da monocultura do eucalipto e do agronegócio. A guisa de introdução, sugiro a leitura de SANTOS e SILVA, 2004 e ASSIS e ZUCARELLI, 2007.

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O que nos leva a uma importante questão. Como explicar que a Justiça Federal tenha dado uma resposta tão diversa dos demais órgãos governamentais em relação a um mesmo conflito? A uma mesma demanda? Como compatibilizar a denúncia do Ministério Público das irregularidades do processo demarcatório e sua recomendação de revogação das portarias de delimitação e homologação, que posteriormente seria acatada pela FUNAI, e o atendimento da ação de reintegração de posse da Aracruz, que demandava a mesma área? Em primeiro lugar, é preciso entender que tanto entre os diversos poderes da república, quanto às diversas agências de cada poder, não existe um entendimento único sobre os princípios e políticas envolvidos nos conflitos socioambientais. Analisando a gestão ambiental em Belo Horizonte e os conflitos ocasionados por essa gestão, Costa e Braga (2004, p. 204-205) já apontavam as contradições existentes entre as diretrizes e políticas seguidas pelas tanto diversas agências governamentais encarregadas da gestão ambiental do município mineiro, quanto pelos diversos níveis de governo e poderes. O que significa que quando analisamos o papel do Estado nos conflitos socioambientais, forçosamente temos que lidar com as contradições próprias da burocracia e do funcionamento estatal. Ambigüidade, sobreposição de competências, legislações e políticas contraditórias, posicionamentos diversos, descontinuidades estão no caminho daqueles que analisam ou demandam ao Estado. Em segundo lugar, os direitos coletivos ou metaindividuais são uma inovação dentro do direito brasileiro. Arantes (1999, p. 87) caracteriza nosso direito tradicional como de matriz liberal clássica. Separando Estado e sociedade, o que é público e privado. E os conflitos nessa matriz se dão entre os direitos individuais de partes bem determinadas. O direito público protege e media a relação entre o indivíduo e o Estado. E o direito privado media os conflitos dos indivíduos entre si (sejam pessoas físicas ou jurídicas). Contudo os conflitos socioambientais, e outros conflitos em torno de direitos difusos, colocam as partes conflitantes em disputa por direitos que a rigor não pode ser plenamente caracterizados

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como com nenhum indivíduo. Outras vezes, como no presente caso, colocam em disputa os direitos coletivos de um grupo e os direitos privados de um indivíduo ou uma pessoa jurídica. Essa situação acaba por trazer para a esfera do direito os conflitos presentes na sociedade. E propicia a politização das causas. Nesse cenário tão nebuloso, a discricionariedade do Judiciário e do Ministério Público acaba se tornando o princípio predominante. Outro ponto que merece destaque nessa análise é a perene, e não resolvida, questão da legitimidade desse tipo de ação em processos que envolvem a posse de terras e o direito à propriedade. Analisando os resultados de ações de reintegração de posse no Rio de Janeiro, derivadas de ocupações de terras realizadas pelo MST no estado, Mariana Quintans verifica uma dubiedade nas decisões judiciais. Diz a autora:
As decisões judiciais prolatadas nos conflitos fundiários envolvendo o movimento Sem Terra apresentam diferentes conteúdos: algumas criminalizam as ocupações coletivas realizadas pelos sem-terra, outras as consideram como forma legítima de pressão popular; umas entendem o direito de propriedade como absoluto e intocável, em outras a propriedade é compreendida a partir do princípio da função social. (QUINTANS, 2005).

A autora destaca que a primeira tendência é hegemônica sobre a segunda. Ou seja, predomina, ainda hoje, na magistratura brasileira, uma tendência à interpretar o direito de propriedade da terra como um direito absoluto. Em detrimento de outras possibilidades de interpretação de uma ação de reintegração de posse. Esse fato, aliado aos dois pontos destacados anteriormente, guardados as especificidades de cada caso, pode indicar o motivo de a demanda indígena ter encontrado oposição no judiciário durante vários momentos do conflito. Esta digressão tencionou analisar o motivo pelo qual a resposta do poder judiciário possuía um entendimento distinto das demais instâncias do Estado acionadas nesse momento. Tal análise é importante, pois trás á luz aspectos que são inerentes a esse tipo de conflito, em especial as contradições e ambigüidades das decisões das diversas agências e instâncias estatais envolvidas. Porém, o resultado da ação de reintegração de posse não foi cumprido imediatamente. A desocupação das terras autodemarcadas só viria a ocorrer

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cerca de oito meses depois. Processo que apresenta novos elementos que serão importantes para composição de nossa análise do papel do estado no conflito e que passamos a analisar a seguir.

2.3.2 – Violência, destruição, desocupação e prisões: A outra face da ação estatal. A suspensão da execução da ação de reintegração de posse pela Justiça Federal foi interpretada pelos movimentos sociais como uma vitória da articulação em torno da autodemarcação. (Como demonstra a citação anterior da Rede Alerta Contra o Deserto Verde). Terminada a autodemarcação, os índios iniciaram a reconstrução das antigas aldeias18. A primeira a ser reconstruída foi Araribá. Paralelamente á reconstrução da aldeia os índios iniciaram a plantação de “alimentos e árvores nativas”. Além disso, a Rede Alerta realizou no dia 02 de junho de 2005, uma marcha em apóio demarcação. (REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2005c). Essas ações denotam o claro objetivo por parte dos índios de firmar sua posição de permanecer na área. Também tem um caráter simbólico. Já que simultaneamente á reconstrução da aldeia, ocorre a recomposição do meio ambiente original. Com a derrubada do eucalipto e a plantação de árvores da região. Esse processo pode ser analisado como uma tentativa de afirmação identitária por parte dos índios. Que na medida em reconstroem seu meio ambiente, degradado pela exploração intensiva da empresa monocultora, e suas aldeias. Reafirmam, por contraste, a legitimidade de suas demandas, a sustentabilidade de sua ocupação e a sua ligação cultural com o meio ambiente. Nesse sentido, meio ambiente e cultura se interpolam para se transformar num artefato simbólico de afirmação de legitimidade num contexto social marcado pela ambientalização dos discursos e projetos19 e de revalorização da diversidade cultural. Apesar de não usarem esse termo, as ações dos índios se aproximam do que Parajuli (2006, p. 100) chama de diversidade biocultural. Isto é, a biodiversidade como
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Segundo o relatório de reestudo da FUNAI (1994) havia na região cerca de 21 aldeias tupiniquins e 1 aldeia Guarani. No momento da automarcação, estavam reduzidas a apenas 8. Incluindo as aldeias Guaranis de Boa Esperança e Três Palmeiras. 19 Processo discutido no primeiro capítulo.

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resultado da ação humana culturalmente intermediada. O contraste entre a aparente aridez da monocultura de eucalipto20, e a diversidade da proposta indígena de recomposição da mata nativa, tornam a ação visual e simbolicamente efetiva. As ações visando à regularização da área não se restringem a arena das disputas simbólicas. Também é uma disputa política e, portanto, ocorre paralelamente nas arenas oficiais de decisão. A morosidade da resposta do ministro da justiça, os índios e suas entidades de apoio se articulam para a promoção de uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Essa ação imprime sobre o ministro grande carga de pressão política, pois a comissão é uma das arenas legítimas para discussão do tema e pode convocá-lo. Essa ação também significa trazer para a arena pública, a nível nacional, um debate que de outra forma ficaria restrito ás discussões locais, a arena administrativa do executivo ou nas ações do judiciário, ou entre as partes envolvidas e seus aliados. Assim, o legislativo federal toma parte em um processo que a rigor não estaria em sua alçada, mas que devido ao aspecto político da questão, torna-se um novo fator complicador ou uma nova arena de disputa. Dentro do direito a audiência pública é vista como “um instrumento que leva a uma decisão política ou legal com legitimidade e transparência” (SOARES, 2002). Segundo esta autora “Cuida-se de uma instância no processo de tomada da decisão administrativa ou legislativa, através da pessoas que possam qual a autoridade competente abre espaço para que todas as sofrer os reflexos dessa decisão tenham oportunidade de se

manifestar antes do desfecho do processo”. O que pressupõe “condições de igualdade” para cada interessado possa expor suas posições sobre o processo administrativo. Contudo, nesse caso a audiência pública se caracterizou antes por um artefato político do que uma consulta administrativa. Como deixa claro a fala da presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, Iriny Lopes, por ocasião do requerimento da audiência:

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Também chamado de Deserto Verde por militantes ambientalistas.

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Esse conflito de posse da terra vem produzindo sérios danos aos tupiniquins e Guaranis. Essas comunidades lutam há anos para reaver as terras que, tradicionalmente, ocupavam e que lhe foram tomadas. Hoje, se ressentem da falta de espaço para produzir e sobreviver com dignidade. (...) É no sentido de evitar uma crise maior que estamos realizando a audiência. Queremos uma solução para esse impasse. (COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS, 2005, grifos nossos).

Pressão política, autodemarcação, marchas, manifestações, audiências públicas, recomendações do MPF, nada disso parece ter sido suficiente para sensibilizar o ministro da justiça a agilizar o processo de demarcação ou a emitir portaria solicitado diligências.

Dado o impasse, a estratégia indígena para pressionar o ministro da justiça, exigindo “urgência na expedição da portaria demarcatória” e também “a vinda do presidente da FUNAI, Mércio Pereira Gomes, para definir (...) prazos e o cronograma de retirada da empresa”, foi a ocupação da o complexo de fábricas da Aracruz Celulose no município em 06 de Outubro de 2005. Ou seja, quase cinco meses depois da autodemarcação o impasse ainda permanecia. A ação teve participação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). (COMISSÃO DE CACIQUES E LIDERANÇAS TUPINIKIM E GUARANI, 2005b). A Aracruz mais uma vez buscou e avia judiciária e conseguiu liminar favorável á desocupação. Os 150 índios que ocupavam a empresa saíram da fábrica 32 horas depois de iniciado o ato. Interpretado pela empresa como “uma agressão á propriedade privada e um desafio ao estado de direito”. Também “uma agressão direta não só a empresa, mas a todo o setor produtivo nacional, prejudicando a imagem do país no exterior e fomentando o desrespeito ás leis e instituições’. (ARACRUZ, 2005c). É importante destacar três pontos nesse episódio. (1) O acirramento das tensões entre as comunidades indígenas e a empresa devido a morosidade do Ministério da Justiça em se pronunciar sobre o caso. (2) A presença, e o uso de estratégias de ação, do MST na ocupação. Isso denota que mais do que apenas articulação visando atingir objetivos

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determinados, o intercâmbio entre os movimentos sociais significa também um intercâmbio de estratégias políticas e modos de agir. (3) A recorrência, no âmbito discursivo, da oposição entre o direito coletivo dos índios e o direito privado da empresa. Nesse caso, cada ator dialoga diretamente com o órgão estatal que considera mais sensível a seus argumentos e sua tese. A empresa recorre ao judiciário, enquanto os índios interpelam a FUNAI e o Ministério da Justiça. Mas, ambos objetivam conseguir decisões favoráveis as suas demandas. De certa forma, ambos conseguiram o que queriam. Mas nenhum deles conseguiu tudo o que queriam. A Aracruz conseguiu da justiça uma liminar determinando a desocupação do complexo fabril. Enquanto os índios conseguiram uma audiência com o presidente da FUNAI, Mércio Pereira Gomes e um assessor especial do Ministério da Justiça, Marcelo Behar. Dessa audiência não resultou nada de concreto para os índios em termos de definição do cronograma de demarcação exigido, mas abriu um canal de negociação com o Governo Federal. Apesar da insatisfação dos índios, que “enfatizaram

que, mais uma vez, estavam enganados pela FUNAI e pelo Governo Federal”, ficou acordado que uma comissão de caciques e lideranças iria a Brasília se reunir com “o corpo jurídico do Governo Federal” para “definir as medidas necessárias para a edição, com a maior celeridade possível, de nova portaria de demarcação dos 11.009 hectares reivindicados pelos índios”. (ARACRUZ, 2005c; REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2005e).

No dia 07 de dezembro de 2005, a Justiça Federal determinaria emitiria um mandado de reintegração de posse em favor da Aracruz, sobre as terras ocupadas. Este mandado traria a face mais perversa da ação estatal ao conflito. O uso da força. Se até agora, a ação estatal tinha se caracterizado pela arbitrariedade, ambigüidade, morosidade e pela hesitação. No dia 20 de janeiro de 2006, data da execução da operação pela Polícia Federal, os índios se viram sob fogo cerrado de 120 policiais federais do Comando de Operações Táticas (COT) de Brasília.

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Inicialmente a cobertura jornalística sobre a operação não indicava confronto direto entre os índios e a Polícia Federal, até as 11h21min do dia 20, a edição on line do Jornal A Gazeta informava que “não há registro de conflitos entre índios e policiais”, novo boletim do mesmo jornal ás 12h47min já apresentava denúncias não confirmadas de “entidades ligadas à causa indígena” que teria havido confronto entre índios e policiais. Foi somente ás 14h51min que veio a confirmação de que pelo menos nove índios haviam ficado feridos em confrontos com a polícia. Além disso, os agentes da Polícia Federal teriam colocado fogo nas aldeias construídas no local. (A GAZETA ONLINE, 2006, 2006b, 2006c). Menos cauteloso, o Jornal Século Diário foi enfático em acusar o presidente Luis Inácio Lula da Silva e o ministro Márcio Thomaz Bastos de ordenarem e organizarem a operação que resultou em violência contra os índios. Este jornal apresentava um número diferente de feridos, um impreciso “mais de 10”, informa também que um cacique foi ferido na cabeça e teve de ser hospitalizado. Segundo o jornal, os chefes do posto indígena da FUNAI foram detidos e mantidos incomunicáveis durante a operação. Não teria havido negociação com os índios, alguns teriam sido espancados e pelo menos dois deles teriam sido detidos. A operação recebeu críticas do Ministério Público Federal, ongs, organizações de defesa dos direitos humanos e de membros da Assembléia Legislativa do Estado do Espírito Santo (ALEES). A Rede Alerta Contra o Deserto Verde foi mais longe e considerou o ato ilegal. A FUNAI também criticou a ação, caracterizada de truculenta. (SECULO DIÁRIO, 2006, 2006b, 2006c, 2006d, 2006e). Essa operação nos permite fazer duas importantes observações. (1) Destacar a aparente contradição entre a eficiência demonstrada para cumprir a liminar judicial e destruir as aldeias tupiniquins e a morosidade para atender a recomendação do Ministério Público e as demandas indígenas. Essa diferença de celeridade pode sugerir duas coisas. Na pior das hipóteses o desprezo do executivo federal pelas evidências de irregularidades nas portarias demarcatórias de 1998, e uma opção pela postergação do conflito. Ou, numa análise mais cautelosa, os impactos do atual procedimento administrativo de demarcação de terras sobre

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a ação estatal. Ou seja, ao trazer o princípio do contraditório para dentro do rito administrativo, o decreto 1.775/96 possibilitou esse estado de coisas em que um processo de demarcação pode ser constantemente adiado e revisto.

Até agora temos analisado todos os lances do conflito dentro a partir da retomada do mesmo em 2005. O que se segue á operação da PF é o reconhecimento por parte da FUNAI, a partir de um novo relatório de identificação e de publicação de despacho do presidente da mesma, da legitimidade da reivindicação indígena de posse das terras. Mais uma vez um GT reconheceu o direito dos tupiniquins e Guaranis sobre os 11.005 ha disputados. (FUNAI, 2006). Além da contestação do parecer por parte da Aracruz Celulose (AGÊNCIA BRASIL, 2006). E a proposição na Justiça Federal, pelo MPF, de ação civil pública com pedido de indenização por danos morais coletivos contra a União e a favor dos índios. (REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2006). Contudo, esses eventos podem ser considerados como desdobramentos das ações analisadas anteriormente. Que apesar de dizerem muito sobre o conflito e a dinâmica do mesmo, seus mecanismos e modo de ação já foram discutidos nas páginas anteriores e analisá-los em profundidade só repetiria o que já foi dito e tornaria a leitura deste trabalho mais cansativa. Optei por analisar a seguir um fato que trouxe novas questões ao conflito e considero de extrema relevância para o entendimento do mesmo. A questão da contestação da identidade indígena dos tupiniquins pela Aracruz Celulose. Tratarei dela na próxima seção deste capítulo.

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2.3.3. Os índios não são índios: Identidade indígena em questão. Em 6 de setembro de 2006 teve inicio a uma polêmica que acabou por arranhar a imagem da empresa e provocar um processo por racismo. Aos índios e aos movimentos sociais tudo não passou de uma estratégia de difamação, á empresa foi um grande mal entendido. O fato é que, segundo documento-denúncia divulgado pela Rede Alerta Contra o Deserto Verde (2006b) no dia 11 de setembro, o porta-voz da empresa, Gessé Marques, teria dito os tupiniquins das comunidades de Aracruz não são índios. Ou seja, naquele momento a empresa estava negando a identidade étnica dos tupiniquins. Além disso, teria sido afixados outdoors na região, veiculadas informações no site da empresa e distribuídas cartilhas no município que incluíam esse argumento entre a versão da empresa do conflito. O que inclusive constaria na contestação da empresa ao relatório da FUNAI. (REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2006b;

COMUNIDADES INDÍGENAS TUPINIQUIM E GUARANI, 2006). Essa contestação da identidade indígena ocasionou respostas oficiais e dos movimentos sociais. A FUNAI rebateu as afirmações da Aracruz, em comunicado a Fundação afirmava que “não são traços externos que permitem caracterizar um grupo como indígena” e também que “tradição não é peça de congelador, e as populações indígenas de que estamos tratando aqui tiveram que empreender grande esforço adaptativo para persistir como grupos indígenas ao mesmo tempo em que se viam incorporados nos contextos locais e regionais”. Esse argumento não é novo, mas antes as comunicações da empresa tangenciavam a questão com afirmações como “evidências de que os descendentes dos índios já estavam integrados á sociedade muito antes de a Aracruz ter adquirido suas terras”. Ou “As aldeias hoje existentes em nada se assemelham ás aldeias tradicionais e parecem pequenas cidades do interior, com casas de alvenaria (algumas com antenas parabólicas), ruas asfaltadas, escolas, igrejas, posto de saúde, vendas e mercados”. (ARACRUZ, 2006).

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O argumento da empresa parece se basear naquilo que a resposta da FUNAI chamou de “visão romântica do índio”. A cultura indígena é vista nessa visão como algo identificado com a natureza. E subordina o direito indígena á terra á sua permanência num estado de semi-selvageria. Ou seja, ao incorporar elementos da cultura nacional e seus artefatos técnicos e sociais, diz o argumento, os índios deixariam de possuir uma cultura própria e perderiam o direito a reivindicar as suas terras tradicionais. Contudo, o que o argumento da Aracruz, e sua campanha, não encontraram foi respaldo oficial a sua tese. Não apenas a FUNAI não aceitou tal argumento na contestação, rebatendo-o publicamente, como o MPF encaminhou no dia 23 de setembro á Justiça Federal ação pedindo a fixação de multa para a empresa de R$ 1.000.000,00 por danos morais coletivos, além da retirada das informações do site e das cartilhas de circulação. (CARTA MAIOR, 2006). Em dezembro do mesmo ano a empresa seria condenada a retirar todo o material do site e das peças de propaganda que questionassem a identidade étnica dos povos indígenas.

(PROCURADORIA DA REPÚBLICA NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO, 2006). Da parte dos índios, eles divulgaram carta aberta no dia 15 de setembro, contestando as afirmações da empresa, reafirmando sua identidade étnica e apresentando indícios de sua presença na região muito antes da chegada da empresa. Essa carta recebeu ampla divulgação das entidades de apoio que corroboraram as afirmações presentes nelas. (COMUNIDADES INDÍGENAS TUPINIQUIM E GUARANI, 2006; CIMI, 2006). Esse episódio represente um fato novo no conflito, pois pela primeira vez as entidades ligadas ao Estado se pronunciaram em unanimidade. Tanto o Ministério Público, quanto a FUNAI e a Justiça Federal reconhecem a etnicidade dos tupiniquins. Mesmo que assim não fosse, a Constituição e Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário, reservam aos povos indígenas e tribais a prerrogativa da auto-afirmação. O Estado não tem o poder de definir quem é e quem não é índio. Porém, se o episódio traz um fato novo á análise do conflito, não se pode dizer que o argumento é uma novidade nos conflitos envolvendo terras indígenas. Desde a emergência dos índios do Nordeste (ver ARRUTI, 1995; OLIVEIRA, 1999) que se discute como lidar com

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os chamados “índios misturados”, isto é , com as populações indígenas que sofreram intenso processo de fluxos culturais e já não apresentam mais sinais diacríticos ou culturais que as possas diferenciar da sociedade nacional. Como reconhecer um direito etnicamente sustentado diante de uma população sem sinais claros de diferenciação étnica. Independente de que conclusão a que cheguem os teóricos da antropologia. O Estado aprece ter resolvido o problema através da auto-afirmação. Cultura e etnicidade não são categorias estáticas. Elas são continuamente inventadas e reinventadas. É assim na nossa sociedade, mas relutamos em reconhecer isso nas demais. Analisando a afirmação étnica do grupo tapeba no Ceará, diz Barreto Filho (1999, p.112):
O ponto de partida, portanto, não pode ser as eventuais características objetivas a serem apontadas pelos métodos do observador, mas sim um esforço de leitura do processo de diferenciação, de organização social da diferença cultural, de atualização da identidade categórica e do reconhecimento recíproco, a partir da gramática e da sintaxe dos próprios sujeitos, dos próprios atores.

Analisar essa questão nos possibilita verificar como as estratégias de ação dos diversos atores sociais envolvidos num conflito desse tipo envolvem a definição de categorias e a imposição de certo entendimento. O que é ou não ser índio é o ponto de partida para uma demanda de demarcação de terras, então é o ponto que os atores que se opõe a demarcação tem de mais básico para questionar. Pois, negando a identidade indígena, nega-se a possibilidade do conflito, a possibilidade da demarcação.

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2.3.4. A 3ª Demarcação: O fim é um começo. Como afirmei no fim da seção anterior tenho, até agora destacado e analisado os episódios do conflito que trazem novos elementos para nosso estudo. No entanto, as ações visando pressão ou prosseguimento do processo se sucedem no ano, e as estratégias dos atores se repetem. Destaco abaixo os principais eventos do final de 2006 e fevereiro de 2007, quando ocorre evento realmente significativo para nossa análise. - 12 de dezembro de 2006, os índios Tupiniquim e Guarani, apoiados pelo MST, ocupam o PORTOCEL, Porto de propriedade da Aracruz Celulose e responsável pela exportação da produção da empresa. Exigem demarcação de suas terras. - 13 de dezembro, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), divulga nota oficial, condenando a ocupação e solicitando ás autoridades brasileiras “rápidas e enérgicas providências” contra o que ela classificou como “ameaça de arruaceiros e criminosos comuns para os quais não devemos oferecer tratamento político, mas, sim policial”. (FIESP, 2006). - 14 de dezembro, os índios desocupam o porto. - 15 de dezembro, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), encaminha carta ao presidente Luis Inácio Lula da Silva, rebatendo as afirmações da FIESP. (CPT, 2006). - 16 de janeiro, caciques e lideranças Tupiniquim e Guarani vão à Brasília para audiência com o ministro da justiça. - 17 de janeiro, índios protestam em Brasília por não terem sido recebidos pelo ministro, que afirma que não os receberá até que sua assessoria tenha terminado de analisar o caso. - 21 de janeiro, índios retornam à Aracruz/ES.

No final de fevereiro de 2007, depois de postergar sua decisão além do tempo determinado pela legislação, o Ministro Márcio Thomaz Bastos finalmente emite um despacho sobre o caso. A posição do ministro não é bem recebida pelos índios, pois ele determina que o processo retorne à FUNAI, para que seja reavaliado para “aprofundar estudos com vistas a elaborar uma proposta adequada, que componha os interesses das

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partes”. Essa decisão é interpretada como um recuo político, como uma forma encontrada pelo ministro para se esquivar da decisão. Essa interpretação se baseia em dois fatos: (1) durante o processo a FUNAI já havia realizado diversos estudos que apontavam no sentido do atendimento da demanda indígena. Todos os estudos realizados depois de 1994, só confirmaram o primeiro; (2) se a reivindicação indígena era legitima, então não haveria possibilidade de acordo, visto que a Constituição Federal considera que os direitos indígenas as terra que tradicionalmente ocupam são inalienáveis ou inegociáveis, o que significa que um novo estudo da FUNAI apenas poderia confirmar ou negar os estudos anteriores, mas não se adequar aos interesses das partes. (CARTA MAIOR, 2007). A resposta indígena veio no dia 3 de março, na forma de uma nota na qual os índios se diziam indignados e reafirmavam a posição de não aceitar qualquer acordo envolvendo as terras pleiteadas. Exigindo a assinatura das portarias de delimitação e demarcação das terras, baseada no relatório de 1994. (COMISSÃO DE CACIQUES TUPINIKIM E GUARANI DO ESPÍRITO SANTO, 2007). Posição esta corroborada por diversas instituições e pessoas físicas que assinaram uma carta aberta de repúdio à decisão ministerial. (ABONG, et al, 2007). O impasse criado pela decisão ministerial só seria resolvido seis meses mais tarde, no dia 27 de agosto, quando o novo ministro Tarso Genro, faz publicar as portarias de delimitação número 1463 e 1464, declarando os novos limites das Terras Indígenas Tupiniquim e Comboios. Porém, até chegar a esse resultado, alguns episódios provocaram o acirramento do conflito:

- No dia 28 de março, sete caciques foram intimados pela juíza Isabel Cristina Longuinho Batista de Sousa, da Justiça Federal de Linhares, para depor em ação possessória impetrada pela Aracruz Celulose contra a FUNAI, que visava firmar um acordo em relação às terras. A Aracruz impôs algumas diretrizes para o acordo. (1) O reconhecimento por todas as partes de que não existem terras indígenas, e que as áreas ocupadas pelas comunidades são reservas indígenas; (2) Em contrapartida, a Aracruz estudaria a

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possibilidade a doação de uma área a ser definida em acordo entre a MPF, Ministério da Justiça, FUNAI, as comunidades indígenas e a empresa; (3) A empresa, em parceria com o governo federal, estadual e prefeitura, apoiaria projetos para desenvolvimento da autonomia econômica das comunidades. (REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2007). - No dia 23 de maio, os índios foram convocados para uma nova conciliação na Justiça Federal de Linhares para dar seqüência à negociação do acordo. Nessa audiência, eles optaram pelo fim das negociações no âmbito judicial por não concordarem com os termos da Aracruz, ficando o litígio restrito a esfera administrativa. (COMISSÃO DE CACIQUES TUPINIKIM E GUARANI DO ESPÍRITO SANTO, 2007b). - No dia 07 de julho, a FUNAI reenvia o processo de demarcação ao Ministro da Justiça. Ratificando todos os relatórios e pareces anteriores. Ou seja, reconhecendo o direito indígena ás terras em disputa. (SÉCULO DIARIO, 2007). - No dia 24 de julho, os índios retornaram á área e iniciaram a reconstrução das aldeias Olho D’Água, Areal e Macacos. - No dia 21 de agosto, a Rede Alerta inicia uma campanha de cartas com o objetivo de pressionar o ministro da justiça a editar as portarias de delimitação. (REDE ALERTA CONTRA O DESERTO VERDE, 2007b). - Finalmente no dia 27 de agosto, o Ministro Tarso Genro, editou as portarias demarcatórias. Definindo as novas extensões das ágoras chamadas TI’s Tupiniquim e Comboios, em 14.227 ha e 3.800 ha respectivamente.

A edição das portarias de delimitação, não põe fim ao processo de demarcação, mas dá início á uma nova fase. A partir dessa data a FUNAI deve fazer a demarcação física do território delimitado, colocando os marcos, e a partir daí o presidente da república deve homologar as terras indígenas, que serão inscritas no sistema de registro em cartório imobiliário da comarca. (BRASIL, 1996).

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É também o início de uma fase delicada de negociação, pois se deve retirar todos os ocupantes não-índios da terra e indenizar as benfeitorias de boa fé. O significa que a Aracruz deveria ser indenizada por todo o eucalipto plantado na área delimitada. Para dirimir essa questão e 3 de dezembro foi firmado um novo acordo entre a empresa e os índios, intermediado pelo MPF e FUNAI. Pelo acordo a empresa teria até um ano para retirar a madeira, em contrapartida ela “apoiaria com até R$3 milhões o desenvolvimento de estudos etnoambientais solicitados pela comunidade indígena”. Já a FUNAI se comprometia repassar recursos emergenciais de até R$ 1 milhão para o assentamento das famílias na terra. Oficialmente, o acordo foi resultado de diálogo e conciliação. Uma saída política que ao mesmo tempo garantiu a demarcação das terras e aumentou o que a empresa chama de “segurança jurídica”. Depois de mais de 40 anos de conflito. Todos aparentemente saíram satisfeitos. (AGÊNCIA BRASIL, 2007). Contudo, ao fim de um conflito tão extenso, cabe perguntar, saíram mesmo todos satisfeitos? Do ponto de vista dos índios, o resultado foi pode ser interpretado como vitória, pois conseguiram o que demandavam. Suas terras incorporaram a extensão delimitada no

relatório de identificação, fruto de sua participação direta na elaboração. Saem fortalecidos institucionalmente, já que as articulações construídas durante o conflito e as posições sustentadas imprimem legitimidade a sua conquista. Do ponto de vista dos movimentos sociais, a demarcação abriu caminho para uma maior integração e fortalecimento mútuo de demandas e lutas. As redes de movimentos sociais envolvidas nesse conflito, certamente saem fortalecidas para o enfrentamento de conflitos similares através da memória e do aprendizado do processo, com seus erros, acertos e estratégias. Do ponto de vista da Aracruz, o resultado significou a perda de uma importante extensão de terras e pode significar um precedente perigoso, pois a empresa enfrenta processos similares em relação a quilombolas no Espírito Santo e outras comunidades na

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Bahia. Mas, significou também a afirmação de um compromisso por parte do Governo Federal que pelo menos em relação ás comunidades indígenas, as terras da empresa não serão mais diminuídas. Do ponto de vista do Estado, a resolução do conflito significou o fim a um processo que o colocava na dúbia posição de mediar interesses conflitantes que estavam minando a sua imagem e sua legitimidade diante da sociedade civil e também dos investidores. Uma solução que parecesse imposta, mesmo que coerente com a lei, certamente afetaria sua imagem institucional. Esse fim, aparentemente conciliatório, amenizou os possíveis impactos decorrentes da demarcação.

O fim do conflito marca, portanto, um recomeço para todos os envolvidos. Seria leviano afirmar o que significa fim de todos os conflitos envolvendo os tupiniquins e

Guaranis. Se há algo que é possível afirmar com certeza, é que nos conflitos que envolvem E estado e demandas sociais, a solução é sempre provisória.

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Conclusão. Iniciei esta monografia com algumas questões de pesquisa. A primeira, e principal, delas dizia respeito ao papel do Estado no conflito socioambiental. Com base no que foi exposto até agora, posso apresentar algumas conclusões possíveis. A primeira é que não se pode falar do papel do Estado, mas dos papeis. O Estado não se configura, no cenário sociopolítico atual, como uma entidade coesa e coerente. As múltiplas possibilidades de ação que caracterizamos inerentes os atores sociais, também se referem ao Estado. Entre a negociação e a violência, o Estado se configura como pólo de disputa. Tanto internamente, decorrente das diferentes orientações e políticas seguidas pelos seus diferentes governos, órgãos, níveis e poderes. Quanto externamente, decorrente da pressão exercida pelos atores sociais sobre as ações estatais. No caso específico de um conflito socioambiental, o Estado se encontra inserido num turbilhão de demandas e num cenário de conflito de legitimidades. As contradições inerentes a um quadro legislativo que comporta a existência de direitos coletivos e individuais que se sobrepõem e se opõem, permite ao Estado, principalmente ao executivo, a flexibilidade de uma ação dúbia. Ao mesmo tempo em que procura se esquivar do atendimento de certas demandas sociais constitucionalmente reconhecidas e do custo político de atendê-las, ele se vê pressionado pela eficácia da lei a fazê-lo. Daí a protelação e a morosidade verificada no procedimento demarcatório. As atuações dos diversos ministros da justiça, envolvidos no caso, ilustram essa afirmação. Apesar dos estudos técnicos demonstrarem e reafirmarem a legitimidade do direito indígena ao usufruto das terras pleiteadas, a decisão ministerial freqüentemente atuou no sentido de ora adiar o atendimento da demanda, ora de adequar a decisão aos interesses dos atores sociais que se opunham á demarcação. Mesmo que tal decisão se caracterizasse como inconstitucional ou como frágil demais para que fosse permanente. Nesse sentido, sucessivos acordos firmados (arbitrariamente durante o período ditatorial e negociado no período democrático) inserem-se como forma de flexibilização dos direitos e de legitimar a decisão ministerial. O que significa que se buscaram alternativas ao

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rito administrativo e ao texto legal para que alcançasse uma estabilidade na situação diferente daquela preconizada pela lei. Cujo custo político foi considerado alto demais em diversos momentos. O atendimento da demanda indígena em consonância com a análise técnica e a legislação vigente só aconteceu depois de décadas de luta, disputas e pressão. Depois do esgotamento de todas as possibilidades de protelamento e adiamento, quando o custo político de adiar a decisão se tornou mais alto que o de atendê-la. Isso não significa que a ação estatal estaria relacionada a um calculo racional de custo-benefício que condicionaria o cumprimento da lei a um resultado favorável desse calculo. A lei tem eficácia que independe dele, contudo, apresenta brechas, incoerências e contradições na sua regulamentação e interpretação que permitem que o Estado manobre no sentido de “compor os interesses entre as partes”. O aumento do custo político do não atendimento das determinações legais a que me referi no parágrafo anterior é fruto de dois fatores. Em primeiro lugar, das mobilizações e ações empreendidas pelas partes interessadas no sentido de pressionar uma decisão favorável do Estado. Concorrem para isso estratégias e articulações que são construídas por atores sociais com interesses afins. No caso analisado, a articulação entre o movimento indígena com as redes de movimentos sociais nacionais, e internacionais, e a grande pressão política exercida por essa aliança, foram determinantes para o encaminhamento da decisão a um resultado favorável á demanda indígena. O que nos sugere que o papel do Estado enquanto ator político ainda predomina sobre sua função de mediador dos conflitos sociais e garantidor das determinações constitucionais. Destaca-se nesse processo a ação do judiciário. Poder estatal constitucionalmente encarregado do julgamento das ações, representado aqui pela Justiça Federal, ele teve um papel político no conflito. Visto que, instada a decidir sobre conflitos de direitos, a justiça teve de agir sob o signo da discricionariedade judicial, já que a legislação poderia atender

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tanto a demanda coletiva de um, quanto os interesses privados do

outro. Com maior

freqüência a Justiça agiu atendimento dos direitos individuais em detrimento dos interesses difusos. Assim, concluímos que mais do que as determinações do texto legal, as ações do Estado num conflito socioambiental são fruto das estratégias dos diversos atores empenhadas para pressioná-lo, do contexto sociopolítico em que o conflito se desenrola e da impossibilidade de protelamento e negociação da decisão. O atendimento das

demandas sociais depende, assim, da mobilização e das articulações dos atores. Já que a depender da iniciativa estatal a resolução do conflito poderia ser adiada indefinidamente.

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