9 FILOSOFIA, PSICANÁLISE E MATEMÁTICA: Experiência do cuidado e demonstração de resultados Eugênia Correia Krutzen

Resumo: Parte integrante da sociedade, a Universidade é solicitada, rotineiramente, a apresentar resultados de sua ação, servindo-se, para isso, de recursos aritméticos e estatísticos. A clínica de orientação psicanalítica, um dos pilares da formação em Psicologia, entretanto, traz considerações de natureza ética e epistemológica, quando se trata de demonstrar seus efeitos. Os matemas lacanianos, assim como reflexões filosóficas de Badiou, Vilella, D´Ambrosio, Safatle e Dunker, são apresentados em prol de um diálogo profícuo entre Psicanálise e Matemática. Palavras-chave: Psicanálise, Filosofia, Matemática, Método de pesquisa
“O infinito é (...) a banalidade de toda situação e não o predicado de uma transcendência.” Alain Badiou, 1994

Essa aproximação pode mesmo parecer estranha: o que teria a ver matemática (que associamos a exatidão e controle) com psicanálise (campo difuso onde as emoções se apresentam esvoaçando com o inconsciente e seus avatares)? Esperando sintonizar leitores corajosos, evoco a promessa de surpresas, quando uma palavra ou imagem habitual, de repente surge em uma formulação inesperada. Poesia, invenção, criação, vêm desse mesmo solo, impossível de compartilhar com formulações onde técnicas enrijecidas invalidam qualquer outro modo de pensar as produções culturais, estando ai incluído o cuidado terapêutico. Para alcançar efeitos terapêuticos, e demonstrá-los de modo adequado, é imprescindível ao clínico estar advertido sobre os riscos de se deixar levar por certezas hipnotizantes, capazes de prometer sucesso garantido a quem reduzir seu trabalho à repetição padronizada de fórmulas normatizantes. De modo contundente, a clínica psicanalítica contribui para a desconstrução da exigência de que a matematização seja considerada uma tarefa uniformizante, redutível à aplicação de fórmulas pré-fabricadas. Não se trata de recusar a quantificação, mas sim de defender que o verdadeiro fundamento da matemática é a formalização e não a

2 aritmética ou a estatística. Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, defendemos a matemática e a ciência, em seu poder libertador e criativo, irredutível, portanto, à repetição de técnicas e fórmulas. Birman (2009) usava a expressão funcionários “produtivos e rastejantes” referindo-se ao efeito paralisante da repetição dessas fórmulas, que ao prometerem uma demonstração segura dos resultados, dirigem a prática clínica, desde seu início, a reproduzir um padrão normativo. Minha proposta nesse texto inicial, que pretendo desdobrar em outros, questiona então os fundamentos das exigências que determinam a quantificação artimética como requisito de legitimidade para procedimentos terapêuticos, principalmente no contexto universitário onde tenho realizado minha prática. Certamente a instituição universitária deve expor e discutir seus resultados, mas é importante ressaltar a importância das conseqüências advindas da escolha de um modelo de demonstração. Di Matteo (2009) discorre sobre a insatisfação resultante da aceitação passiva dos modelos, apresentando em seu estudo sobre a “patologia cultural da modernidade” a proposta de uma “racionalidade comunicativa”, capaz de construir espaços para o compartilhar de novas alternativas de produção cultural. Nessa mesma direção, Rorty (s/d ) defende que esse exercício aconteça no campo da História da Filosofia, sem deixar de lado o caráter beligerante desse exercício, tão distante, portanto, da filosofia definida como contemplação pacífica do mundo. Nesse mesmo sentido, a proposta de Alain Badiou (1994), no artigo “Verdade e sujeito”, defende que a matemática pode ajudar o filósofo a pensar sobre a verdade, justamente por modular o excesso de prentensão a um totalitarismo do sentido, viabilizando a dialética imprescindível à construção de uma crítica cultural. Na direção contrária à suposição de que a matemática seja um campo neutro, instrumento a serviço da demonstração das verdades supostamente alcançadas por outros meios, Badiou (1994) demonstra que ela pode ser também um pensamento, uma liberação e uma garantia ética. A verdade é uma experiência, a matemática pode fazer parte dessa experiência, não estando presente, portanto, apenas no momento da demonstração dos resultados. Dunker (2002) observa o quanto os sistemas simbólicos pretendem constituir uma totalidade, o que de fato jamais ocorre, na medida em que eles adquirem seu poder de verdade justamente ao se articularem às formas de vida que os sustentam. Assim, a matemática não é destituída de imaginário, mesmo que anuncie e defenda o contrário.

9 Uma outra contribuição para esse mesmo debate vem de Persicano (em Bartucci (2002), lembrando que a criação, no campo da ciência, é sublimação, tal como as artes e as formações do inconsciente. O trabalho terapêutico é, por parte do clínico, um exercício sublimatório, e deve manter esse caráter também no momento em que o “estudo de caso” é construído. Ao contrário do que propõe Freud (1910) no seu trabalho sobre Leonardo da Vinci, Persicano afirma que a invenção científica (e a matemática nesse conjunto) não é um substituto da criação, ela é criação por excelência. Afirmar que a ciência é criação não significa afirmar que esteja acima e além das injunções históricas e sociais, mas, justamente, mostrar que toda criação surge em um contexto e é esse contexto que concede nitidez e legitimidade a sua existência. Galileu resumiu com presteza o método que marca uma nova era na história da humanidade, o método científico, construído por dois pilares: experiência + matemática. É nessa direção que se pode retomar o conceito de “experiência”, quando se trata de refletir sobre a experiência da clinica. Nossa questão pode ser formulada assim: pode a matemática contribuir para a sistematização do cuidado terapêutico? Se a matemática não se resume à aritmética nem à estatística, quais outros recursos poderiam evidenciar a transformatividade operada na condução de um caso clínico? A topologia lacaniana lança mão de símbolos matemáticos originários da geometria e da topologia matemática: seriam legítimos como recurso para dar conta da experiência clínica? Também voltados para o mesmo objetivo, encontrei apoio no campo da Etnomatemática, principalmente nos estudos de Denise Vilella, Vera Lúcia S. Halmenschager (2001), Carraher (1995), além dos comentários sobre Godel e Cantor, no intuito de demonstrar o equívoco da suposição de que um estudo fundamentado matemáticamente deve, necessariamente, incluir dados realizados com números inteiros e cálculos estatísticos. Durante um ano e meio organizei supervisões a uma equipe de cuidadores em uma instituição para adolescentes que cumprem medida sócio-educativa. Há mais de 20 anos existe essa instituição, sem que nenhum evento tenha sido realizado procurando sistematizar o trabalho – realmente indescritível – ali realizado, no encalço à socialização de adolescentes que cometeram atos de gravidade variável. Os cuidadores não pareciam interessados em anotar ou organizar suas práticas, nem mesmo as questões dali surgidas lhes pareciam relevantes, passíveis de superação. Meu susto diante da resistência da equipe para teorizar seguiu-se a uma solidariedade irrestrita, ao ser compreendida essa resistência como recusa aos modelos hegemônicos

4 de registro e controle eventualmente apresentados. Daí surgiu o desejo de contribuir, no sentido de valorizar os cuidadores e incentivar que teorizem sobre suas práticas, mostrando como o faz Carraher ( ) em seu livro “Na vida dez, na escola zero”, que toda prática traz em si uma matemática, eventualmente mais refinada ainda que aquela proposta na academia. Resistir à escolarização, portanto, pode ser indício de uma boa posição frente à vida. Essa possibilidade pode também estar presente na recusa dos educadores por uma redução de seu trabalho a uma série mecânica de dados cujo retorno e validade lhe pareciam distantes. Um dos fundamentos da técnica psicanalítica é entender a resistência em sua positividade. Dunker (2002) amplia os limites da clínica, analisando filmes e outras produções culturais. Trabalhar as resistências, para o autor, segue na direção de reconhecer e dar um lugar para o aspecto paralisante e ideológico do que está sendo recusado. Dar um lugar na história daquele domínio de saber, construindo o fluxo anterior à situação, de onde, recursivamente, ela teria surgido. É nessa mesma direção que levanto então a hipótese de que discussões no campo da História da Filosofia podem trazer elementos capazes de inspirar os cuidadores a reconhecer o caráter clínico de suas experiências. Dentre as diversas problemáticas desse campo, parece razoável incluir a Filosofia da Matemática como um esteio legítimo para situar o cuidado. Quando Sócrate enunciavas que para começar era preciso conhecer a si mesmo, por que não escutar aí a exigência de que o sujeito que vive a experiência é irredutível àquele que procura conhecê-la? Já se faz, então, uma conta de três, pois o leitor é chamado a testemunhar o que se passa. No contexto da História da Filosofia, destaco não os textos filosóficos de Freud, nem sua teoria do sujeito, ou as consequências, para a razão em suas raizes gregas, do conceito de “inconsciente”. Privilegio o contexto da clínica, tomando a experiência do cuidado como uma modalidade de relação que não se restringe ao consultório do analista. O cuidado visto como uma experiência que pode ser exercida por qualquer pessoa em relação a outra. Além das profissões da saúde, há um cuidador sempre que esse ato seja circunscrito a um estilo de cuidar acompanhado de um questionamento sobre sua prática, seus fundamentos éticos e os princípios de seu poder. Para o cuidado estar circunscrito na Psicanálise, há que se levar em conta a transferência e a resistência, sendo ambas as categorias bem propícias a reflexões matemáticas. A transferência pode retomar a base triádica do relato, três entidades inseparáveis do único acontecimento ali operado: o terapeuta, o paciente e o lugar terceiro, gerado pela relação ali estabelecida,

9 desfazem a inteireza do “um” suposto da contagem com números inteiros. O cuidador deve ter um espaço específico para discutir questões próprias ao trabalho que realiza, lembrando que há uma parte do processo irredutível às próprias palavras, aquelas que configuram seu ser, até mais que o nome próprio, e essa essência do cuidado deve ser reconhecida e encontrar seu lugar no relatório, sob pena de destruir o talento que cada educador traz para reacender na adolescente sua capacidade de viver em sociedade. Se cada momento de cuidado pode ser configurado como uma sublimação, o relato, posteriormente construído, há que também reconhecer essa característica, lembrando que na segunda fase da obra de Freud, “sublimação” não consiste em retirar da produção sua constituição libidinal, mas sim construir uma cultura capaz de acolher essa energia “de vida”, aproximando-nos da “racionalidade comunicativa” a que se refere Di Matteo. O critério para definir se a escolha do estilo do relatório foi ou não bem sucedida é sempre uma prerrogativa do vínculo entre cuidador e leitor, e não entre cuidador e objeto. Há uma harmonia, nem sempre evidente, entre o modo como o cuidado será relatado e o estilo que é imprimido à relação com o adolescente. Dirijo-me aqui aos órgãos financiadores e avaliadores de projetos que exigem quantificações no sentido aritmético do termo, lembrando o que Lacan pontua no Seminário1: é preciso formalizar matematicamente a experiência, viabilizar sua transmissão, legitimar seus princípios, o que não necessariamente significa quantificar. Se em um momento inicial, há uma queixa, um que “não tem” alguma coisa – movimento, visão, lucidez...- e outro que tem e aceita a incumbência clínica, é toda a situação inicial que vai se modificar durante o tratamento. A transformação vai afetar a ambos, ao invés de ser restrita ao paciente. Um processo, então, não pode ser formatado da mesma forma que outro tipo de resultado. A “experiência”, tão enfatizada por Galileu na fundação da própria ciência moderna, deve ser modulada em função da especificidade do campo em que estiver acontecendo. Essa diferença é generosamente explicada no texto de Badiou (1994). Ele afirma que o ponto inicial de uma reflexão é um acontecimento, uma surpresa, algum evento que constitua uma novidade. Trata-se, então, de um ponto de partida que impossibilita a restrição do relatório a um formulário. Um acontecimento, ao ser tomado em sua transformatividade, como um processo, exige outro tipo de símbolo matemático, capaz de evidenciar a “vida” ali presente. Por isso a História da Filosofia nos interessa de modo especial. Valorizando os filósofos antigos se pode constatar que a subjetividade

6 existe desde que o primeiro traço de humanidade é reconhecível pela Arqueologia e a História. A modernidade instaura um tipo de sujeito, não o definitivo, nem necessariamente o mais evoluído. É nessa contra-história, onde a versão hegemônica pode ser contrastada com outras formas de contar, que Michel Onfray (2006) estabelece sua interpretação, apresentando por exemplo Antiphon como um precursor da Psicanálise, afirmando desde o século 411 a.C. que “Physis” e “nomos” são termos antitéticos, contraditórios. Essa heterogeneidade na racionalidade pode contribuir para se pensar o quanto é ilusória a suposição de que um cálculo matemático vai refletir, retratar da maneira mais neutra e fiel, um acontecimento. A matemática, nesse sentido, cria novos mundos cada vez que institui um tipo de número diferente, para além dos números inteiros e racionais.Os números imaginários, transfinitos, não encontram necessariamente correspondências com a realidade do mundo, pois eles criam mundos ao terem reconhecidas suas existências. Nessa mesma tradição, Lacan, por sua vez, distingue “saber” de “verdade”. A verdade surge na falha do saber, abertura que constitui o sujeito do inconsciente. O saber se constrói pela repetição, é o esteio necessário à verdade, como o leito é necessário ao rio. A verdade envolve a surpresa, o susto diante da solicitação de confirmação e testemunho de quem vive o processo. A experiência do acontecimento propõe Badiou, permite que os dois registros adquiram valor de testemunho, destituído de uma explicação exaustiva mas alçado à condição de verdade. A partir de um momento de verdade o sujeito produz encadeamentos significantes, no sentido de compreender o que o une a esse acontecimento, bem longe, portanto, do estabelecimento de metas a serem atingidas, ou a comportamentos a serem modificados. O acontecimento a que se refere Badiou enfatiza o caráter incompleto do processo socializante, assim como o fato de que o cuidador será também atingido pela mudança operada no adolescente. Sujeito, para Badiou, não é sinônimo de protagonista, nem do “eu” de uma pessoa, mas sim a uma resultante possível em um processo de verdade. Não é o sujeito quem produz a verdade, é a verdade que engendra um sujeito. Trata-se, então, de situar o fazer filosófico na esteira da filosofia moderna, que para o autor é uma crítica constante à verdade como adequação. Não se está “na verdade” quando se encontra uma boa forma para um juízo, mas sim quando se encontra um processo de verdade que gera um sujeito. A escrita que permite anotar a “experiência do cuidado” aproxima-se, então da

9 “matematização”, não pelo uso dos números, mas pela busca de concisão e “poiesis”, caminhos por onde a verdade do processo pode ser compartilhada, escapando-se das formulações totalitárias, que pretendem tudo dizer. Se o acontecimento é o que interrompe a repetição, ele é indecidível, mas é compartilhável, na direção apontada por Di Matteo, por uma racionalidade comunicativa. Deixar que o cuidador permita a reverberação da verdade durante o atendimento é condição para que esteja livre e atento para o que realmente interessa no processo, ao invés de dirigir sua atenção às respostas pré-estabelecidas. Escapando da dicotomia entre métodos quantitativo e qualitativo, essa maneira de ver o cuidado lembra que toda “qualidade”, por ser recortável de uma superfície, tornase, inevitavelmente quantificável. Não são, portanto, operações antagônicas. Não é proibido, então, usar a aritmética, gráficos e estatística, desde que o educador chegue até esses recursos em função de uma experiência de verdade. Para dizer breve: é preciso escapar da obrigação de quantificar, de tal modo que se pode lançar mão de qualquer coisa para descrever um processo de cuidado, até mesmo a quantificação! Nas palavras de Badiou (1994, p. 2): “O fato de que o evento é indecidível obriga a que apareça um sujeito do evento. Um sujeito é constituído por um enunciado em forma de aposta, enunciado que é o seguinte: Deu-se isto, que eu não posso calcular,nem mostrar, mas a que permanecerei fiel.” O processo de verificação do verdadeiro é infinito, e como o provérbio, lembra que “o melhor da festa é esperar por ela”, ou como resume Renée Klee: Há que “ser do pulo, não do festim, seu epílogo.” O processo é, ele mesmo, o objetivo. A proposta então é de retomar o caráter lúdico e criativo da matemática. A surpresa dos números primos, a mágica das dízimas periódicas, a transformação da álgebra e da geometria, a novidade da topologia. Além de D.Vilella e V. Halmenschlager, essa proposta encontra esteio em Lacan, A.Badiou, Natalie Charraud e Mônica Jacob: matemática é um espaço da formalização fundada no só-depois da experiência, ao invés de constituir uma relação bi-unívoca entre realidade e número. Denise Vilela, em sua tese de doutorado sobre Filosofia da Matemática, enfatiza a importância da etnomatemática, modulada pelos “jogos de linguagem” de Wittgenstein. Vilela propõe que não existe uma matemática pura e destituída das adjetivações que proliferam em nossos dias: matemática “de rua”, “financeira”, “acadêmica”, cada uma delas definindo suas grandezas e delimitando um campo de atuação. Para Vilela (2007 p.6) os “jogos de linguagem” permitem uma compreensão da proliferação dos sentidos,

8 em oposição a idéia da ausência de significados tão frequente na matemática da escola. Nessa concepção, “(…) os significados existem dentro dos jogos de linguagem, relacionados por sua vez a formas de vida, e não convergem para uma essência quando os jogos são diferentes, isto é, não são os mesmos em diferentes práticas matemáticas.” A autora observa que o “número” quando aparece na rua está sempre na forma de litros, metros, horas, jamais sendo encontrado em estado “puro”. A ilusão, diz ela, de uma identidade entre matemática acadêmica e matemática escolar se presta aos jogos de poder, que procuram constantemente impedir a criação de áreas específicas, em nome de uma homogeneidade naturalizante da história de cada domínio de saber. Halmenschlager (2001), por sua vez, critica o ensino da matemática tradicional, concebido como conjunto de técnicas prontas, transmitido de forma mecânica e acrítica, supondo que a matemática seja um conhecimento neutro, livre de valores e objetivos. Essa concepção, diz a autora, é um dos recursos mais poderosos da modernidade no sentido de “naturalizar” sua lógica, convertendo-se em princípios éticos, “matematicamente comprovados”. Certamente a estatística pode ser recurso fascinante, desde esteja situada em um processo de verdade onde o sujeito encontre um lugar, ao invés de se reduzir ao labor de “aplicar” escalas e validar resultados. A transformatividade possível na relação de cuidado exige a consideração de que os lugares discursivos de cada um não faz “um” e se abre para o infinito, operando lá onde o mal-entendido e as formações do inconsciente se apresentarem. A autora refina sua análise pontuando que não basta centrar a questão no acesso à educação, à metodologia da ciência resumindo-se à sacramentar métodos já prontos. Não se trata apenas de facilitar a compreensão dos cálculos ou oferecer um computador para cada aluno, legitimando, dessa forma, uma forma enrijecida de fazer ciência, esta assumindo uma conotação sagrada. Um dos aspectos dessa questão pode vir de um belo documentário relatando um tratamento que resultou em um tipo de fracasso que nos interessa de modo especial: “O escafandro e a borboleta”. A história relata o tratamento de um paciente acometido por um AVC (acidente cárdio-vascular), que encontra uma fonoaudióloga sensível o suficiente para , única parte do corpo que consegue movimentar, podendo, então, escrever e se comunicar com ela. Situado como “objeto” da pesquisa da moça, como encorpar as palavras do paciente em um vínculo humanizante se o percurso será modulado pela objetividade que reduzirá

9 a fala à emissão de sinais a serem decodificados? Na primeira tentativa feita por ela de usar o alfabeto, ele declara tácitamente seu desejo de morrer e ela se levanta e sai do quarto, afirmando que ele não pode, não deve falar na morte, que isso é obceno. Inútil, portanto, haver um código, a cumplicidade se desfazendo quando na fantasia da cuidadora não existe um lugar para a subjetividade do paciente. A “racionalidade comunicativa”, então, está antes de tudo, fundamentada na transferência, no espaço “terceiro”, tal como defende Queiroz (2000). Esse espaço, então, se desfaz sem remédio, quando o terapeuta já se posiciona, desde o início como o detentor das verdades e impulsiona o tratamento em direção ao que pretende, depois, facilmente tabular. Mas no que consiste uma “fantasia”? Como tornar visíveis os lugares que a compõem, afastando-nos da conotação do reino fantástico, ilusório, dimensão que, por não estar ancorada na realidade, não pode ser compartilhada, e cujos contornos teóricos não seriam transmissíveis? A proposta é que só se compartilha a partir da fantasia. Só é possível haver movimento psíquico a partir e em função de mudanças de lugar no contexto da fantasia. A fórmula lacaniana, “S barrado punção de a” (os caracteres não estão no teclado do computador em que escrevo), pode inspirar o cuidador a incluir a si mesmo nesse deslocamento. Ao contrário do que se considera no senso comum, a matemática não é desprovida de fantasia. Ao contrário, ela pode ser considerada o esteio principal da fantasia que caracteriza a modernidade, legitimando e reproduzindo um tipo de cultura onde somente algumas pessoas, supostamente representantes dessa racionalidade, estariam autorizadas a construir e legitimar como cultura. Arrisco, então, convidando o leitor a interagir, levanto essa hipótese: a “fantasia” em Lacan se aproxima dos “jogos de liguagem” em Wittgenstein, e do “processo de verdade” em Badiou. O nó borromeu, nesse sentido, pode ser um recurso capaz de permitir uma nitidez para esse deslocamento, inspirando atitudes e situando um lugar na escuta em um sentido matematicamente orientável. Acrescento ainda que a História da Filosofia é o campo em que melhor se verifica as diferenças e semelhanças entre esses autores e seus conceitos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: - Badiou, Alain – “Verdade e sujeito” - Estudos Avançados, vol.8 nº 21 S.Paulo: 1994 - Birman, Joel – Palestra no Café Filosófico,TV Cultura. S.Paulo, setembro, 2009.

10 - Correia Krutzen, Eugênia - “Do risco à escritura: oficinas de histórias com crianças e adolescentes em situação de risco social”. Tese de doutorado. Orientador: Norberto Abreu e Silva, UnB, 1999. Dunker, Christian – “Apresentação de “A paixão do negativo – Lacan e a dialética de Vladimir Safatle” – Revista Acheronta, WWW.psicomundo.com, nº 23, Buenos Aires: 2006. - Halmenschlager, Vera Lucia S. – Etnomatemática: uma experiência educacional. S.Paulo: Summus, 2001 - Lacan, J. – Autres Écrits. Paris: Seuil, 2001. - Onfray, Michel – Les Sagesses antiques: contre-histoire de La philosophie. Paris: Grasset& Fraschelle, 2006. - Percicano, L. - Bartucci, Giovanna – Psicanálise, Cinema e estéticas da subjetivação. S.Paulo: Imago, 2005. - Queiroz, Edilene - “O estatuto do caso clínico” - Revista Pulsional, ano XV, nº 157, pp 33-40, S.Paulo: Pulsional, 2001. - R.Rorty, “Filosofia analítica, filosofia transformadora” (s/d) (Portal Brasileiro de Filosofia) - Saflate, Vladimir – A paixão do negativo: Lacan e a dialética. S.Paulo: UNESP, 2006 - Schliemann, Ana Lúcia D. e Carraher, Terezinha – Na rua dez, na escola zero. S.Paulo: Cortez, 1994. - Vilella, Denise – Matemática nos usos e jogos de linguagem: ampliando concepções na educação matemática – Tese de Doutorado – Faculdade de Educação, UNICAMP, S.Paulo: 2007